Skate, atitude e política

Por: Leonardo Brandão (@leobrandao77)

Universidade Regional de Blumenau – FURB

IMAGEM: Murilo Romão, do coletivo Flanantes, praticando skate de rua no centro de São Paulo/SP. Fotografia: André Calvão. Clique sobre a imagem para ampliá-la.

NOTA INTRODUTÓRIA:

No dia 21 de junho comemora-se o Dia Mundial do Skate. Neste ano, fui convidado para realizar um depoimento num evento organizado na Unibes Cultural, em São Paulo/SP. O organizador deste evento solicitou um depoimento sobre a relação entre skate, atitude e política. O depoimento que proferi tomou por base este texto que segue abaixo para leitura.

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A relação entre a prática do skate e a noção de atitude é antiga. Podemos retornar no tempo e nos lembrar dos Z-Boys, grupo de skatistas que, nos Estados Unidos, revolucionou essa atividade durante a década de 1970 ao invadir piscinas em propriedades particulares e praticar skate em suas transições, fato este que está no documentário “Dog Town and Z-Boys”, dirigido por Stacy Peralta e que, inclusive, pode ser conferido no You Tube para quem tiver curiosidade[1].

A atitude na prática do skate se revela de inúmeras maneiras, seja pelo visual (a indumentária), na sua relação com a música (geralmente com o punk-rock, ou o chamado skate-rock e também ao rap) e, sobretudo, nas manobras; isto é, na escolha das manobras e onde realiza-las. Na prática do skate de rua (street), há um elemento incontestável de atitude no flanar pelo urbano, quando os skatistas se apropriam de determinados elementos da cidade, os chamados aparelhos urbanos, tais como escadas, transições, bancos, guias etc.

Na história do Skate, tais atitudes ganham dimensões políticas. No caso do Brasil, é conhecida sua proibição na cidade de São Paulo no ano de 1988, pelo autoritarismo de seu prefeito à época, Jânio Quadros…O skate apenas voltou a legalidade na gestão de Luiza Erundina no início dos anos 90. Todo este episódio da proibição do skate em São Paulo encontra-se muito bem documentado, e isso tanto no Jornal “A Folha de S. Paulo” quanto na revista Yeah!, que tinha como editor-chefe Paulo Anshowinhas e que foi uma das principais mídias de skate da década de 1980 no país. Posteriormente, vale destacar que também tivemos políticas públicas que beneficiaram o skate ao construir espaços específicos para sua prática. Exemplos neste sentido podem ser observados na gestão da ex-prefeita Marta Suplicy, que viabilizou a entrega de inúmeras pistas no Projeto Centros de Bairro[2] ou na gestão do ex-prefeito Fernando Haddad, que além de incentivar a ideia de “cidade para pessoas”, também realizou a construção de pistas de skate, como o Centro de Esportes Radicais, localizado no Bom Retiro ou ainda a Pista de Skate da Chácara do Jóckey.

Mas há uma relação mais complexa que envolve skatistas e a temática do poder. Para além das políticas públicas aqui destacadas, podemos pensar que o poder se relaciona com a atitude do skate de inúmeras maneiras. Recentemente, tivemos a destruição de um pico clássico do skate paulistano, no Vale do Anhangabaú. Inconformados, os skatistas resistiram e conseguiram, através de um movimento urbano que ficou conhecido como “Salve o Vale”, viabilizar parte da reconstrução deste pico, sob supervisão e projeto do arquiteto Rafael Murolo. Este novo pico atualmente é conhecido como o Memorial. Esta história de luta e negociação com o poder público virou um livro, organizado pelo skatista profissional Murilo Romão e que conta toda a saga do skate no Vale do Anhangabaú, desde os primórdios, passando pela destruição e a posterior construção do memorial, que se tornou um aparelho urbano skatável.

Este acontecimento, portanto, nos mostra que o poder não tem apenas uma via, ele pode reprimir, mas também pode ser usado para a construção, para algo positivo. No caso do skate praticado na rua, os skatistas conhecem há muito tempo a temática do poder, que neste caso é quase sempre utilizado na forma disciplinar, sobretudo com guardas e policiais, que não autorizam o uso de determinados espaços urbanos. Mas existem maneiras de contornar esse poder disciplinar e realizar a apropriação da cidade, e o coletivo Flanantes, que vem produzindo uma série de filmes sobre o uso criativo do skate nos espaços públicos é uma prova disso (Todos os vídeos dos Flanantes podem ser conferidos também no Youtube).

Por fim, há também uma outra dimensão do poder, e na minha tese de doutorado, que deu origem ao livro “Para Além do Esporte: Uma História do Skate no Brasil”, que eu intitulei de Poder Esportivo. Esta modalidade do poder visa transformar o skate num esporte de competição, criando regras, categorias, rankings etc. Trata-se de um poder que visa moldar o skate no campo esportivo, sendo, uma de suas maiores conquistas, a entrada do Skate nas Olimpíadas.

Este breve panorama nos faz ver, portanto, que não podemos falar no skate no singular, mas sim no plural. Não existe o skate ou o skatista, mas sim determinadas formas de utilizar o skate, seu uso heterotópico nas ruas ou na forma de competição em espaços delimitados e organizados para tanto; como também não existe o skatista, mas skatistas, com identidades múltiplas, pois enquanto há aquele que se reconhece enquanto um atleta (houve num passado até quem já se intitulou “Atleta de Cristo”), existem outros que preferem interpretar o skate, na expressão do skatista Klaus Bohms, como uma “ferramenta de reinterpretar espaço”, o que associa o skate muito diretamente ao campo artístico.

Para saber mais:

BRANDÃO, Leonardo. Para além do Esporte: uma história do skate no Brasil. Blumeau: Edifurb, 2014.

ROMÃO, Murilo (Org.) Vale TXT. São Paulo: Flanantes, 2020.


[1] https://www.youtube.com/watch?v=7YKPEDayb_U, acesso em 15/06/2021.

[2] https://cemporcentoskate.com.br/fiksperto/marta-suplicy-oficializa-a-entrega-das-44-pistas-de-skate-em-sp/, acesso em 15/06/2021.

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