Adhemar Ferreira da Silva: representações de um herói olímpico (parte 2)

Fabio Peres e Victor Melo[i]

Após a vitória 1952, em Helsinque, as notícias veiculadas nos periódicos revelavam, mesmo sem querer, nuances e ambiguidades – pouco visíveis e invisibilizadas – da construção da nossa identidade nacional.

No olhar de muitos cronistas, as representações sobre Adhemar orgulhavam mais por serem ecoadas pelas agências internacionais de notícias, que o descreviam como “um negro alto, de longas pernas” que:

“[…] obteve ainda um grande sucesso de simpatia quando, depois de receber sua medalha de ouro, efetuou espontaneamente uma volta na pista, cumprimentando a multidão, encantada com a maneira pitoresca pelo qual o atleta brasileiro expandiu sua alegria”[ii].

Em outra ocasião, uma agência ressaltou a “modéstia” do atleta: “Limitei-me a fazer o possível”, “não contava fazer nada parecido com isso”[iii], afirmara Adhemar.

Na representação da imprensa do Brasil, os surpreendidos olhos estrangeiros acabavam por confirmar algumas características do caráter brasileiro, pacífico e mestiço, à moda do que tinha sido categorizado por Gilberto Freyre, cujo pensamento na altura já gozava de grande prestígio[iv]. Porém, esses mesmos olhares jogavam luz, de forma não intencional, sobre diferenças na “construção social da cor”.

A célebre cantora e dançarina Josephine Baker, que se encontrava no país para apresentar seu espetáculo, em entrevista intitulada “Quero dar um beijo em Adhemar da Silva”, afirmou que: “uma vitória de um homem de cor é também a minha[v].

Josephine Baker durante sua passagem pelo Brasil na década de 1950 Foto: Theopompo do Amaral/28-08-1952. Fonte: O Globo.

A artista, que gostava “muito de esporte”, amiga de Joe Louis e Sugar Ray Robinson (boxeadores negros americanos)[vi], era ativista dos Direitos Civis e chamava atenção pela sua atitude política, estilo de vida e preferências sociais. Josephine Baker participava de diversas organizações que lutavam contra a discriminação racial. Em sua visita ao Brasil se reuniu com intelectuais, entre eles Edgard Santana (médico, que em parte participava de forma “vacilante” do que foi conhecido como “contra-ideologia racial”), para debater o racismo e articular formas de apoio aos grupos locais[vii].

Para ela, era “muito normal” a admiração que os finlandeses expressaram por Adhemar “porque […] como todos os escandinavos, estão na vanguarda do movimento contra as discriminações raciais”. O que a surpreendeu foi a imprensa brasileira dedicar muitas páginas para um atleta de “cor”. O jornal destacou que a cantora exaltou a consolidação da democracia brasileira:

Mandarei logo 50 exemplares da Última Hora para todos os amigos nos quatro cantos do mundo para mostrar como os jornais de um país democrático dedicam uma justa recompensa a um dos seus grandes filhos. […] A vitória de Adhemar reforça ainda o grande amor que tenho para o Brasil, o país que eu levo no meu coração como o símbolo da democracia das Américas. E quando Adhemar estiver de volta, dar-lhe-ei um grande abraço para agradecer estas emoções que fizeram o dia de hoje o mais feliz dia desde que cheguei no Brasil. Eu sabia que neste país uma coisa maravilhosa via me acontecer. Deus ajuda todos que lutam para um ideal puro [viii].

De maneira ambígua, Adhemar acabava sendo eleito a representante de algo que, de fato, não existia e nunca existiu no Brasil – o mito da harmonia de raças. A valorização de suas conquistas não conseguia mascarar as injustiças de várias ordens que cercavam a população brasileira, inclusive de natureza racial.

Devemos atentar para as nuances que permeavam a vida social brasileira na naquele momento, algo que começara a se gestar na década de 1930, mas que ganhou corpo na década de 1950. No plano cultural, Adhemar e outras celebridades negras ou pardas não eram associados a termos como “negro”, “preto” ou “colored”. Na imprensa e nos meios de comunicação, em geral, essas conotações eram usadas com sentido pejorativo, evidenciando o racismo, ora mais, ora menos, tácito. Adhemar e as demais personalidades eram tratados como “ilustres brasileiros”, sendo suas respectivas “negritudes”, por assim dizer, “visíveis” apenas aos olhos estrangeiros.

De toda forma, o prestígio do país no cenário internacional, de acordo com os periódicos, não era nada trivial. No dia seguinte à vitória, o Correio da Manhã fez questão de registrar que Adhemar não apenas havia sido aclamado como herói pela conquista da medalha, como também por ter realizado um “fato inédito nos anais olímpicos”[ix], bater o recorde mundial por quatro vezes seguidas no mesmo certame. Para o cronista, o feito ajudava a deixar claro o valor do Brasil para o mundo.

O aplauso do público e de outras delegações foi encarado como suposto reconhecimento das qualidades nacionais – a cordialidade, empatia, modéstia:

O Hino Brasileiro foi entoado em coro por todos os torcedores de Adhemar Ferreira da Silva. Em seguida, o titular do segundo lugar nessa prova, o russo Scherbakov, fez questão de demonstrar ao brasileiro sua indizível admiração […] E quando o brasileiro, (…), lançou-se na pista, da qual fez uma volta completa, sob as ovações dos espectadores que o aclamavam e se levantavam à sua passagem; teve-se a impressão de que nem mesmo Zatopek teve tão grande triunfo, em sua vitória na corrida dos 10 mil metros. O público guardará por muito tempo no espirito a imagem do triunfador, detendo-se em meio à corrida para abraçar uma loura admiradora cujo entusiasmo a colocara na linha de frente[x].

José Brígido, do Diário de Notícias, conclamou os leitores a celebrar a conquista da medalha de ouro com “o maior entusiasmo possível, pois fez projetar o nome do nosso país no mais importante certame do mundo e de maneira verdadeiramente sensacional”[xi]. As expectativas de difusão internacional de uma boa imagem do Brasil estavam longe de serem modestas e, mais do que isso, incluíam todos os compatriotas como participes da conquista:

Não resta a menor dúvida que o feito de Adhemar valeu todos os sacrifícios que fizeram os brasileiros para participar deste grande certame, valerá ainda mais porque hoje em todas as páginas, de todos os jornais do mundo, seu nome ao lado do Brasil, estará estampado, todas as difusoras do mundo falarão de sua proeza e o cinema e a televisão reproduzirão as cenas principais de sua prova e tudo isso valerá como grande propaganda da nossa terra e da nossa gente[xii].

O técnico da delegação, Osvaldo Gonçalves, chegou a declarar que, dada a importância do feito para o Brasil, não havia menino que não quisesse se transformar “num Adhemar”[xiii]. Independentemente dos exageros típicos de uma cobertura ufanista, pode-se dizer que o Brasil largamente se irmanou ao redor da vitória de Adhemar:

os aplausos e vivas partem de todos os lados, não só dos desportistas como de todos os funcionários das empresas aéreas e do aeroporto, desde os mais modestos até aos chefes. Era a manifestação de agradecimento de milhões de brasileiros, através de cerca de setenta pessoas, ao maior campeão brasileiro de todos os tempos, autor de uma façanha senão impossível, dificílima de ser igualada por qualquer atleta do mundo[xiv].

Os jornais buscaram sintetizar o orgulho do país construindo laços simbólicos entre o indivíduo e a nação. Adhemar, o “campeão olímpico que assombrou o mundo”, declarou “Venci porque sou brasileiro” [xv]. O herói se punha a serviço da nação.

Última Hora, 11/8/1952, p.7

Quatro anos depois, tais traços da construção da identidade nacional ganharam novas cores e roupagens com a conquista da segunda medalha de ouro. Mas essa história ficará para o próximo post.


[i] Texto publicado originalmente em PERES, Fabio de Faria; MELO, Victor Andrade de. Adhemar Ferreira da Silva: Representations of the Brazilian Olympic Hero. In: Antonio Sotomayor; Cesar R Torres. (Org.). Olimpismo: The Olympic Movement in the Making of Latin America and the Caribbean. Fayetteville: University of Arkansas Press, 2020, p. 95-110.

[ii] Diário de Notícias, 24 jul. 1952, 3ª Seção, p. 3.

[iii] Correio da Manhã, 25 jul. 1952, 2º Caderno, p. 1.

[iv] Para mais informações, ver: GIUCCI, Guillermo; LARRETA, Enrique Rodríguez. Gilberto Freyre, uma biografia cultural: a formação de um intelectual brasileiro (1930-1936). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

[v] Última Hora, 2 ago.1952, 2º Caderno, p. 4.

[vi] Última Hora, 2 ago.1952, 2º Caderno, p. 4.

[vii] Última Hora, 21 jul. 1952, 2º Caderno, p. 12. Sobre contra-ideologia racial, ver FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes (vol 2). São Paulo: Globo, 2008.

[viii] Última Hora, 2 ago.1952, 2º Caderno, p. 4.

[ix] Correio da Manhã, 24 jul. 1952, 2º Caderno, p. 1.

[x] Correio da Manhã, 24 jul. 1952, 2º Caderno, p. 1.

[xi] Diário de Notícias, 24 jul. 1952, 3ª Seção, p. 1.

[xii] Diário de Notícias, 31 jul. 1952, 3ª Seção, p. 3.

[xiii] Correio da Manhã, 25 jul. 1952, 2º Caderno, p. 1.

[xiv] Última Hora, 11 ago. 1952, p. 7.

[xv] Última Hora, 2 ago. 1952, 2º Caderno, p. 3; 11 ago. 1952, p. 7.

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