O ensino dos Jogos Tradicionais

Os Jogos Tradicionais são uma disciplina oferecida na Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra. Faz parte de um grupo de unidades curriculares denominadas “Estudos Práticos”, que tem como característica fundamental reunir em seu conteúdo as disciplinas da área do esporte e da atividade física voltadas para a Educação Física escolar. A disciplina aparece na grade curricular como Jogos Tradicionais Portugueses (JTP), e a sua inclusão no currículo de formação de professores aconteceu no ano letivo 2004/2005, com o propósito da promoção do jogo étnico enquanto modalidade de ensino que abarcasse, em modo do ideário do movimento Jogos Para Todos, toda a população de todas as idades que pudesse ser clientela dos futuros profissionais de Educação Física.

Os objetivos desta disciplina são: divulgar o patrimônio multicultural dos jogos tradicionais; revitalizar a  prática lúdica tradicional no ambiente intra e extra escolar; identificar a lógica interna dos jogos tradicionais abordados e os seus potenciais formativos e educativos; implementar a sua prática como meio educativo escolar através do desenvolvimento e aplicação prática de exercícios de progressão pedagógica os quais conduzam à aquisição das habilidades específicas do jogo; implementar a sua prática como meio recreativo e para a ocupação dos tempos livres; implementar o jogo pelo jogo, o jogo tradicional pré-desportivo, e o jogo como elemento introdutório de desportos de base motora e de comunicação interpessoal equivalentes. 

A partir da experiência com a disciplina dos JTP na FCDEFUC surgiu  o “LUDUS: Laboratório de  Jogos, Recreação,  Lutas  Tradicionais  e Capoeira”, que se mantém em rede com distintas entidades nacionais e internacionais, e realiza diversas investigações, publicações científicas e eventos. Os professores-pesquisadores responsáveis por essa disciplina e área de pesquisa na Universidade de Coimbra são Ana Rosa Jaqueira e Paulo Coelho Araújo, ambos do LUDUS. Ao longo dos anos, eles identificaram alguns desafios para a implementação da disciplina: o preconceito sobre a utilidade do jogo lúdico mediante o impacto do esporte organizado; o fenômeno da desportivização na Escola; o fenômeno da biologização dos cursos de Educação Física e Desporto; a interrupção no ciclo da transmissão oral tradicional intergeracional; o avanço das tecnologias digitais; o caráter de “não seriedade” atribuído ao lúdico; a ignorância sobre o jogo e suas vertentes cooperativas, competitivas, e cooperativas-competitivas e as relações sociais daí derivadas. Todavia, a valorização do jogo é um resultado observável ao longo desse período de implementação desta disciplina, como um meio para o desenvolvimento da atividade física, do condicionamento físico e da saúde, de habilidades básicas e de habilidades específicas; como elemento inovador e motivador para as aulas de Educação Física; como meio de aprendizagem lúdica e de aquisição e transmissão de valores fundamentais (moral; social, cultural; físico); de relação, integração e comunicação entre os intervenientes na ação motora; de ocupação ativa dos tempos livres; para o desenvolvimento cultural; de aquisição de conhecimentos gerais (história, cultura, geografia); para o desenvolvimento de inteligências motora e cognitiva.

A introdução da disciplina JTP no currículo do curso de educação física vai ao encontro da recomendação feita na Declaração de Verona (onde ocorre o festival anual TOCATI), de 20 de setembro de 2015, em que se sugere a introdução de jogos tradicionais e indígenas no currículo escolar. Esta recomendação faz parte de um percurso da UNESCO que, desde 2003, reconhece a importância da herança cultural intangível e vê nos jogos tradicionais um importante pilar.

A UNESCO tem se dedicado ao tema, vendo a salvaguarda e promoção dos Jogos e Esportes Tradicionais como um desafio fundamental para o desenvolvimento futuro do esporte e das sociedades. Para a UNESCO, os jogos e esportes tradicionais também melhoram o diálogo intercultural e a paz, reforça o empoderamento dos jovens e promove práticas esportivas éticas. Em sua página dedicada ao tema, a UNESCO apresenta uma listagem de práticas e de textos de referência.

Por fim, os jogos tradicionais são uma alternativa para práticas esportivas antiéticas. Não sujeito aos desafios econômicos e da globalização dos esportes modernos, nem a uma busca equivalente por desempenho e resultados levando a práticas perigosas e ilegais, que a Convenção Internacional contra o Doping no Esporte tenta regulamentar, os jogos tradicionais oferecem aos governos, movimentos esportivos e cidadãos a oportunidade de construir práticas esportivas e culturais sustentáveis e éticas.

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