A “Revelação” do futebol sul-americano com o ouro olímpico uruguaio em 1924.

EXÓRDIO

Apenas para situar e contextualizar, o presente post possui uma natureza nostálgica de acionamento da Memória porém que talvez sirva de estimulo para novos pesquisadores e mesmo para que mais experientes como eu busquem novos caminhos e perspectivas nos estudos sobre o futebol na América do Sul. Em função de diversos motivos, amizades, alguns convites recentes para falar do futebol uruguaio, mas principalmente devido a novas leituras decidi reler minha dissertação que defendi faz mais de uma década e que resultaram em diversos artigos acadêmicos individuais ou em parceria com meu orientador na época, Ronaldo Helal.

Obviamente que muita coisa precisa ser atualizada, que a leitura com um olhar mais apurado e com mais vivência acadêmica aponta para lacunas teóricas e metodológicas, momentos de naturalização excessiva nas fontes, exageros na adjetivação. Mas apesar dos problemas que hoje me fariam mudar muitas coisas e também ser rígido e atento como foi minha cordial banca compostas por Victor Melo que posteriormente foi meu orientador no doutorado, o uruguaio Guillermo Giucci que desde a graduação me incentivou e ajudou tanto a estudar o Uruguai, quanto a seguir carreira acadêmica, e meu orientador, relendo minha antiga tese percebi que alguns temas e perspectivas ainda podem e devem ser exploradas academicamente tanto aqui, quanto em outros países.

O contato com os colegas pesquisadores uruguaios do GREFU (Grupo de Estudios de Fútbol en Uruguay) que está completando 10 anos como Andres Morales que escreveu uma obra fundamental , Fútbol, identidad y poder (1916-1930)., Gastón Laborido que participa conosco desse blog e Juan Carlos Luzuriaga me inspiram a reler e começar a rever hipóteses, afirmações, perspectivas além de me deixar ainda mais impressionado com a importância das campanhas olímpicas uruguaias em 1924 e 1928, tanto para o futebol uruguaio, quanto sul-americano.

Nesse sentido, decidi postar hoje uma referência muito pequena que fiz na dissertação sobre a campanha uruguaia em 1924. um assunto que não fazia parte diretamente do tema e objetivos da dissertação, mas que me fascina desde a adolescência. Talvez alguns de vocês devem ter lido, outros encontrarão alguns dos problemas mencionados acima, mas o objetivo talvez seja ressuscitar temas e talvez o próprio ânimo pessoal para novas investigações aprofundadas e atualizadas em um momento tão difícil e complexo que continuamos vivendo. Espero que curtam.

O surgimento uruguaio no cenário futebolístico internacional

Apesar dos torneios de futebol dos Jogos Olímpicos não terem sido reconhecidos pela FIFA como esfera de legitimação de campeões mundiais, as competições de 1924 em Colombes na França e 1928 em Amsterdam, além de terem sido muito disputadas, foram fundamentais para o surgimento no cenário internacional do futebol sul-americano, especialmente do bi-campeão olímpico Uruguai.

Pode-se afirmar que a campanha uruguaia no campeonato de 1924 causou espanto e deslumbramento nos europeus que até então desconheciam o potencial das seleções da América do Sul, e o título conquistado de forma invicta derrotando na final a esquadra suíça de maneira incontestável por 3×0 colocou o pequeno país “oriental” no universo futebolístico mundial.

A própria participação uruguaia já poderia ser considerada uma jornada épica. O “sonho” de um médico, político e pedagogo conhecido como Dr. Atilio Narancio, presidente da Associação Uruguaia em 1924 e 1925, e os esforços do diplomata Enrique Buero, teriam viabilizado a inscrição da delegação nos Jogos Olímpicos, pois segundo consta na obra oficial de Juan Capelán Carril (1990), “El padre de la Victoria” como era conhecido o médico, teria inclusive hipotecado um bem próprio para financiar a viagem e Buero, embaixador na Suíça teria sido o principal articulador da filiação do Uruguai a FIFA, tendo inclusive participado do Congresso realizado em Genebra em 1923. 

Antes do torneio, a equipe uruguaia, após a longa travessia marítima do Atlântico, teria se preparado enfrentando equipes de cidades espanholas como Vigo, Bilbao, San Sebastían, La Coruña e Madrid, partidas acordadas diplomaticamente com a intervenção do Sr. Enrique Buero, pelas quais receberam somas em dinheiro importantes para a estadia da delegação em Paris. A seleção venceu as nove partidas, além de marcar 25 gols e sofrer 8.

A estréia nos Jogos Olímpicos foi com uma goleada de 7 a 0 nos iugoslavos, fato que teria surpreendido a imprensa mundial, e a invicta campanha até a final contra a Suíça resultou no reconhecimento internacional do futebol praticado pelos “celestes” e posicionou a América do Sul na geografia futebolística mundial.

Ademais, os jogadores uruguaios teriam encantado os torcedores parisienses, sobretudo o negro Jose Leandro Andrade, que ficou conhecido na imprensa francesa como a “maravilha negra”, tendo participado também da campanha de 1928 e da Copa do Mundo de 1930.

            É importante destacar que antes mesmo do sucesso de Andrade, o Uruguai já tinha como principal jogador um atleta negro Isabelino Gradin, destaque da celeste na década de 1910 e início de 20, campeão do primeiro sul-americano de 1916, junto com outro negro Juan Delgado, fato que inclusive ensejou declarações racistas de um correspondente chileno na ocasião[1], além de ser um velocista campeão sul-americano diversas vezes em distintas categorias.

            Todavia, Gradin não chegou a participar da campanha olímpica de 1924, e a imprensa européia acabou exaltando o jogo elegante e as passadas esguias de José Leandro Andrade, que se tornou uma atração a parte no verão parisiense.

En apenas unos años el fútbol pasó de ser un deporte de elite y de extranjeros a ser un deporte nacional y popular, practicado y atendido por gente humilde. En el fútbol local se destacaron muchos afro-uruguayos, caso de Juan Delgado, Isabelino Gradín , Leandro Andrade, entre otros y también numerosos inmigrantes españoles e italianos recién llegados al país: José Pendibiene, Carlos Scarone, Petro Petrone, Angel Romám, Antonio Urdinarán, etc. ( BOURET e REMEDI : 2009, 291-292)

            A presença de jogadores negros nos selecionados uruguaios desde a década de 10 com Isabelino Gradin e Juan Delgado e a mítica figura de José Leandro Andrade, “a maravilha negra”, campeão olímpico em 1924 e 1928 e mundial em 1930, além do grande número de descendentes de imigrantes nas esquadras nacionais são indícios de que o futebol no Uruguai nas primeiras décadas já era um elemento agregador e popular, apesar de continuarem existindo conflitos dentro do campo esportivo.

            Um trecho do romance histórico “Gloria y Tormento. La novela de José Leandro Andrade”, apesar do seu caráter ficcional, espelha em alguns trechos metaforicamente o que foram aqueles dias na capital francesa para este mítico atleta:

Si …Yo José Leandro Andrade me paseé orondo por las calles de París con sombrero de copa, guantes de color patito, bastón con mango de plata y uno pañuelo de seda. Ay!, si mi hubiesen visto con esta pinta. Sepan, sepan todos, que hasta los árboles se inclinaban ante mí. Cada paso que daba hacía temblar la tierra como si avanzara un gigante. Un gigante que podía hacer  magia con la pelota en los pies. Un gigante del que todavía hablan en Paris. Paris dije …? No amigos! No! En toda Francia!

Qué digo? Francia? No amigos? Noooo! En el mundo entero.” (CHAGAS : 2007, 70)

      O sentimento de espanto e admiração com o futebol praticado pelos uruguaios na França é compartilhado pelo próprio presidente da FIFA, Jules Rimet, ao se referir ao torneio olímpico de 1924 e ao estilo jogo praticado pelos até então desconhecidos jogadores “celestes”:

Veinticuatro equipos participaron en aquéllos y los dos que disputaron la final fueron los representantes del Uruguay y Suiza. Este partido, que terminó con la victoria de la Republica Sudamericana, fué sensacional. Al juego rápido, enérgico y duro de los helvéticos, los uruguayos opusieran una hábil flexibilidad, un juego científico, conocedor de todas las sutilidades del fútbol, que conquistó la admiración de los espectadores europeos. Su virtuosismo y espectacularidad convirtió aquel partido en una revelación, en un match  histórico

(RIMET : 1955, 24)    

O termo “revelação” utilizado por Rimet é certamente esclarecedor deste sentimento europeu de descoberta em relação ao Uruguai e a toda América do Sul no que concerne o futebol. As exibições da “celeste” impressionaram a crônica internacional, deslumbraram os torcedores parisienses, criaram o primeiro grande mito internacional negro neste esporte, além de levar a glória olímpica para o outro lado do Oceano Atlântico colocando no mapa esportivo mundial a pequena República Oriental do Uruguai.


[1] O correspondente chileno escreveu que a seleção do seu país havia sido derrotada pela equipe uruguaia por 4×0 que tinha na sua esquadra “dois africanos” , fato que  gerou inclusive um  incidente diplomático.

BOURET  Daniela e REMEDI Gustavo. El nacimiento de la sociedad de masas (1910 -1930). Montevidéu: Ediciones de la Banda Oriental, 2009.

CARRIL, Juan A. Capelán.  Nueve décadas de gloria. Montevideo: Estampas SRL  Realizaciones, 1990.

CHAGAS, Jorge. Gloria y Tormento. La novela de Leandro Andrade. Montevidéu: Rumbo Editorial, 2007.

MORALES, Andrés. Fútbol, identidad y poder (1916-1930). Montevideo: Fin de Siglo, 2013.

RIMET, Jules. Futbol, La Copa del Mundo: Barcelona; Editorial Juventud, 1955.

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