POR UMA HISTÓRIA CULTURAL DOS SHAPES

Por: Leonardo Brandão – @leobrandao77

Historiador e Professor Universitário

A história do skate geralmente é associada a eventos e personagens, sua evolução técnica, a formação de um campo esportivo ou aos conflitos que engendrou no espaço urbano. Entretanto, há um elemento importante que também nos ajuda a compreender sua trajetória: a prancha do skate, chamada de shape, seus formatos e grafismos.

De acordo com o pesquisador carioca Thiago Cambará, autor de uma dissertação de mestrado sobre este assunto, um primeiro desenvolvimento mais notável na arte dos grafismos nos shapes começou por volta de 1974 nos Estados Unidos, e isso a partir de um dos integrantes do grupo Z-Boys, chamado Wes Humpston. Ele começou a fazer nas suas pranchas (e na de alguns amigos), desenhos influenciados por símbolos encontrados nas jaquetas de motoqueiros ou mesmo em histórias em quadrinhos undergrounds (como as produzidas pelo desenhista Robert Crumb). Não demorou para que ele, junto a outro membro desta equipe (Jim Muir) fundassem uma marca de skate. Assim, no ano de 1978 nascia a Dogtown Skateboards, que foi a primeira empresa a fazer o uso de serigrafia para imprimir design gráficos em séries nos shapes.

Imagem 1: Shape Dogtown

Ainda de acordo com este autor, o contexto histórico do final do final dos anos 70 e início da década seguinte, marcado fortemente pela ascensão do punk-rock e do heavy metal, explica a escolha por desenhos baseados em caveiras, ossos ou animais ferozes. No ano de 1978, por exemplo, surgia nos Estados Unidos a empresa Powell Peralta, que se destacou pelo uso da famosa caveira – apelidada de Ripper – concebida pelo artista Vernon Courtlandt Johnson (VCJ).

Imagem 2: Ripper: a famosa caveira da Powel Peralta

Outra marca que fez um bom uso dos grafismos foi a Santa Cruz, que teve no artista Jim Phillips seu centro criativo, famoso pela criação da mão gritante (Screaming Hand) no ano de 1985, a qual estampou não apenas shapes mas também muitas roupas e adesivos desta marca e, até hoje, continua sendo sua principal identidade visual.

Imagem 3: Screaming Hand, da marca Santa Cruz

Com o tempo, outras influências foram surgindo, como tons mais abstratos vindo da cena musical da New Wave, e os desenhos também foram se modificando e apresentando abstracionismos e texturas mais coloridas, como vários modelos de shapes das marcas Sims e Vision atestam à época.

No Brasil, a arte dos shapes também teve um expressivo desenvolvimento. Empresas como a Lifestyle e Urgh! (entre outras) produziram shapes memoráveis no final da segunda metade da década de 1980 e início da seguinte. Nesta época, segundo Mallo Ryker (skatista desde 1987 e animador de gráficos em shapes):

“O skate tinha uma identidade com os models e com a personalidade dos skatistas, e cada um tinha a sua especialidade. Você se identificava muito com o rolê do skatista e com o model que ele usava, tanto o gráfico quanto o formato do shape, e aquilo era tua bandeira, o que te representava” (Entrevista realizada em 05/05/2020 – Arquivo do Autor).

Numa entrevista que também realizei com o Mauro Azevedo (proprietário da empresa Lifestyle), ele explicou que neste período sua marca tinha por “foco principal ouvir o skatista. A gente teve essa visão: uma marca de skate tem que ouvir o skatista. Então a Lifestyle passou a traduzir a ideia do skatista nos desenhos e formatos dos shapes (…)”. Mauro conta que cada skatista de sua equipe tinha um formato de shape diferente. Ele deu o exemplo do skatista Fernandinho “Batman”, que foi desenvolvendo o formato de seus shapes para ladeira conforme as manobras que ia realizando e aprendendo; então, conforme ele pegava no shape para dar um slide, ele falava:

“Aqui eu pego assim, aqui eu dou a manobra tal, então, ele sempre fez uns shapes diferentes né! O Daniel Bourqui, que era um skatista de vertical, era um shape largo com um tail bem alto em função das manobras que ele fazia no vertical, e o Rui Muleque e Beto or Die, ambos streeteiros, foram aperfeiçoando os pro models deles ao longo dos anos. Então, o pro model traduzia muito o rolê de cada skatista…e isso era o que era legal, o model era a característica do skatista” (Entrevista realizada em 15/06/2020 – Arquivo do Autor).

Atualmente – e infelizmente – os shapes perderam muito da estética que tinha no final dos anos 80. Tanto é que são apelidados de shapes Band-Aid ou Shapes Palito de Picolé, pois apresentam sempre um mesmo formato e gráficos pouco trabalhados. Por outro lado, há um movimento crescente que parece dizer que nada impõe que este destino seja inexorável. Nos Estados Unidos, o skatistas canadense Andy Anderson passou a assinar um model de shape todo quadrado, útil para adaptar manobras de freestyle no street moderno; empresas como a New Deal estão relançando shapes do início dos anos 90 com duas furações para os eixos e o skatista Mike Vallely vem produzindo shapes diferenciados com sua marca Street Plant.

No Brasil, recentemente, a marca Lodo Boards, numa parceria com o site Trocando Manobras do skatista Filipe Maia, lançou um shape no formato oval; e a própria Lifestyle relançou seus models que fizeram sucesso no final dos anos 80, como podemos observar na imagem a seguir:

Imagem 4: Shape da Lifestyle, model Rui Muleque (Stage III)

Talvez o futuro não seja dominado unicamente pelos shapes band-aid, pois o crescente saudosismo dos shapes com gráficos elaborados, outros formatos, com nose pequeno e tail grande, ou todo cheio de dobras e quinas, possa de fato retornar e construir um futuro mais aberto para experimentações estéticas e para a pluralidade de estilos!

Para saber mais:

CAMBARÁ, Thiago. Skate e o seu design gráfico: uma breve análise. In: BRANDÃO, Leonardo; HONORATO, Tony (Org.). Skate & Skatistas: questões contemporâneas. Londrina: UEL, 2012, p. 111 – 146.

PHILLIPS, Jim. Surf, Skate & Rock Art. Atglen: Schiffer Publishing, 2004.

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