Nani e os esportes

André Alexandre Guimarães Couto

Olá, leitoras(es):

Neste breve blog de hoje, vamos fazer uma singela homenagem ao cartunista Nani, falecido no último dia 8 de outubro aos 70 anos de idade, e contabilizando mais uma vítima fatal da pandemia de Covid-19.

Mineiro de Esmeraldas, cidade da grande Belo Horizonte, Ernani Luiz Lucas, o Nani, apesar de ser mais conhecido como cartunista, também era escritor e roteirista. Trabalhou em vários jornais da cidade do Rio de Janeiro, como O Globo, Última Hora, Diário de Notícias, Tribuna da Imprensa, Jornal dos Sports e, principalmente, O Dia.

Sua carreira, porém, tinha iniciado no jornal O Diário, de BH. Poucos anos depois, partia para o Rio de Janeiro, colaborando com o emblemático periódico O Pasquim. Neste jornal, Nani desenvolveu ainda mais sua verve crítica sobre a conjuntura política no país, em plena ditadura militar no início dos anos 1970. E sempre com muito humor, aliás bastante humor, não só pela exigência da linha editorial do jornal em que passara a atuar, mas também por ser uma das suas características principais como artista. Inclusive, nesta arte, foi influenciado por nomes importantes como Millôr Fernandes, Henfil, Carlos Estêvão e Jaguar.

Criaria, junto com outros artistas, o jornal O Pingente e atuaria também na versão brasileira da revista Mad. Seu talento o levou para a televisão, assumindo charges no Jornal da Globo e trabalhando como roteirista em vários programas humorísticos da Rede Globo, como shows do Chico Anysio (Chico Total e Escolinha do Professor Raimundo), Casseta & Planeta, Sai de Baixo e Zorra Total.

Escreveu vários livros que continham charges, cartuns e textos humorísticos diversos, criticando não apenas a conjuntura política e social brasileira, mas também o politicamente correto, os valores morais e conservadores, a religião e o sexo, enfim, todo tipo de miséria humana que pudesse ser explorada. Desta forma, podemos citar, dentre tantos títulos, Batom na Cueca, Humor Barra Pesada, Humor do Miserê, Humor Politicamente Incorreto e Orai pornô.

HUMOR DO MISERÊ - Nani
Figura 1: Capa do livro Humor no Miserê (2011).
Fonte: https://www.lpm.com.br/site/default.asp?TroncoID=805135&SecaoID=0&SubsecaoID=0&Template=../livros/layout_autor.asp&AutorID=549282.

Nos esportes, Nani, atuou no Jornal dos Sports (com a tirinha De Letra), e revelara em entrevista dada à revista Bravo! em 2017 que ia pouco aos estádios e que produzia de acordo com o que lia nos jornais ou ouvia no rádio sobre os jogos de futebol. Inclusive, nesta entrevista, informara que: (…) Cismava com os nomes, por exemplo: cheguei a desenhar um cara velho e o cara era novo, um de cabelo longo e o jogador era careca (…).

Foi justamente por uma charge esportiva, que Nani se desentendeu com Ota, cartunista e editor da revista Mad (falecido no mês de setembro deste ano). Ao fazer um trabalho sobre expressões do futebol, desenhara dois jogadores se agarrando com o título Cruzando na área. Ota se preocupara com a proibição da censura, mas as máquinas já tinham rodado milhares de exemplares, o que custou a saída de Nani da revista. Sexo e irreverência tornara-se uma das marcas principais de seu trabalho.

Nas últimas décadas, tornou-se um dos principais cartunistas de O Dia, um jornal popular e que abria um leque de opções de cobertura do cotidiano local e urbano, sem perder de vista as grandes questões nacionais. Os esportes também estavam na mira das atenções deste artista contemporâneo. como podemos observar abaixo, seja no olhar ácido e crítico aos Jogos Olímpicos de 2016, ou utilizando o esporte como metáfora para atingir determinado tema.

Cartuns de Nani
Figura 4: Militares no Governo Bolsonaro.
Fonte: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/cartuns-de-nani/.

Finalmente, cabe nos para além da homenagem ao artista, chamar a atenção para os usos de fontes como cartuns, charges e tirinhas em quadrinhos no ofício de historiador, seja pela diversidade imagética que os traços possam nos oferecer, seja pelo conteúdo crítico e humorístico sobre determinada questão, local ou nacional, moral e/ou social, individual ou coletiva, dentre outras possibilidades. Como todo tipo de fonte, merece um detalhamento metodológico, que leve em conta a suas respectivas condições de produção, assim como as (inter)subjetividades dos autores em questão. Teríamos, portanto, um arsenal criativo de fontes para ser analisado, aguardando pesquisas mais contemporâneas sobre diversos temas, inclusive nos esportes.

Referências:

“Charge a favor não é charge, é cartilha”. Entrevista de Nani para revista Bravo!, por Rafael Spaca. Disponível em: https://medium.com/revista-bravo/charge-a-favor-n%C3%A3o-%C3%A9-charge-%C3%A9-cartilha-38c90848082c. Acesso em: 11/10/2021.

Vida & Obra – Nani. Disponível em: https://www.lpm.com.br/site/default.asp?TroncoID=805135&SecaoID=0&SubsecaoID=0&Template=../livros/layout_autor.asp&AutorID=549282. Acesso em: 11/10/2021.

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