REMEMORANDO A MEMÓRIA: o futebol como motivo

Por Edônio Alves

Já afirmei em outro texto meu, aqui no BLOG, que ao estudar bastante a presença do futebol na literatura brasileira em suas mais diferentes formas, pude comprovar, ao menos analiticamente, uma alvissareira constatação: a clara impressão de que, talvez motivada pela centralidade do tema do futebol na nossa cultura, a literatura brasileira já elaborou um conjunto de operações modelizantes, através da contribuição conjunta, sucessiva e pessoal dos seus mais distintos escritores, com as quais construiu um tipo específico de peça literária: o conto brasileiro de futebol.

Nesse contexto, um dos assuntos mais pautados pelos escritores brasileiros que escreveram sobre futebol no gênero conto está a derrota do Brasil para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950 em pleno estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro. Pelo trauma que o fato causou na memória emocional brasileira, o chamado “maracanazzo” tem mobilizado a inteligência narrativa de vários de nossos escritores tornando-se, assim, um assunto típico do conto futebolístico brasileiro.

Nessa rubrica, se inscreve, por exemplo, esse conto que segue aí analisado, composto pelo escritor Hélio Pólvora, a comprovar uma dimensão – e certa tradição – da literatura brasileira que se debruça sobre nossa memória cultural com suas tragédias, glórias e fracassos, incluindo-se aí, o futebol como tema.

O gol de Gighia

Hélio Pólvora

Esse conto que narra as impressões subjetivas de uma criança respingando na sua memória de adulto sobre um fato datado e especialmente trágico para o inconsciente emocional brasileiro: 16 de junho de 1950, dia da derrota para o Uruguai no Maracanã, na Copa de 50, momento em que, contra todas as evidências de sua superioridade técnica, a Seleção Brasileira deixa escapar a oportunidade objetiva de ganhar o seu primeiro título mundial de futebol. E bem na cara da gente, à frente do nosso nariz, sob o testemunho ocular de mais de duzentos mil brasileiros presentes ao jogo final.

Talvez justamente por isso, por glosar ficcionalmente um fato de repercussão traumática para alma individual do personagem-narrador, mas também coletiva do brasileiro em geral, amante ou simplesmente admirador do futebol, esse texto seja carregado de um certo travo de fundo psicológico que convoca o leitor a experimentar aquele clima de ressaca típico das situações concretas de perda material ou simbólica.

Esse intento de efeito dramático é buscado logo no início da estória quando o narrador explora uma atmosfera onírica em que seu personagem acorda de um sonho colorido e alvissareiro em plena manhã da final da Copa, depois de observar que há tempos não tinha um sonho assim. “Afinal, um sonho feliz. Leve ele se sente, e diáfano, naquele 16 de junho”. A estratégia narrativa segue com a descrição adequadamente poética daquele ainda promissor dia do mês de junho: “Dia bonito, aquele, com sol bem brasileiro: forte, claro, luminoso. Um facho, um farol, um fanal”. Afinal, para continuar a melodia marcadamente rítmica desse trecho do texto, nas palavras do próprio narrador, “o feio e o bonito, a salvação e as trevas dos infernos, o brilho e o opaco dependem muito do grau de delírio de cada um. Assim é, se nos parece, e como parece”.

Como no Brasil o futebol também encerra uma espécie de delírio coletivo, o trecho acima, o leitor já terá percebido, é claro e direto na sua meta de ir criando um clima de transição entre o otimismo das expectativas mais profundas do subjetivismo onírico do personagem que “se não o prendem ao chão, seguramente sobe aos espaços, adentra gramados interestelares para, quem sabe?, trocar passes com o príncipe Danilo”, etc..etc..etc;  e os dados da realidade concreta do jogo, que o narrador faz ir surgindo aos poucos, em meio a múltiplas digressões de caráter intimista sobre o seu personagem; bem como da realidade exterior que o cerca naquele certo dia.

Entretecendo tudo isso, é bom que se note, um fato textual bastante eficaz para dar suporte ao objetivo do escritor Hélio Pólvora, neste conto da bola, de articular as instâncias do imaginário e do real na captação das emoções hauridas do universo do futebol, principalmente num momento tão capital como esse de uma final de Copa do Mundo: a presença fundamental do rádio como veículo-ponte entre a realidade (reduto da razão) e a imaginação (reduto da emoção) do personagem.

“Sem a sintonia do rádio, a sintonia do espírito poderá esvair-se como sangue de veias abertas. (…) Fixa-se no rádio sobre a cristaleira. Concentrados estariam, com os pensamentos voltados para o triunfo acachapante, por goleada, os príncipes negros, mulatos e brancos, que arrastariam no gramado do Maracanã o manto de veludo e arminho de sua magia com a bola nos pés. Brasil, campeão do mundo”.

Observe-se que a representação do rádio nesta narrativa vai além do exigido pela sua representatividade reconhecida dentro da própria história do futebol da qual este veículo faz parte como um elemento estruturador e estruturante. Ele tem aqui uma fundamental importância funcional na própria caracterização do modo de ser do personagem principal, na sua transição existencial de menino para adulto. Veja-se esse exemplo:

“Palavras e músicas transmitidas pelo velho rádio, em sussurros e cicios, davam um sentido, ainda que tênue e vago, ao desespero de dias e noites vazias, de infância que se esvai, mas reluta em entrar na vida adulta porque pressente que se vai enlamear”.

Ou este outro, que liga o mundo subjetivo do personagem, o seu mundo interior de cuja formulação já participou, ao mundo real e presente daquele dia 16 de junho: “Difícil acreditar que mecanismos minúsculos nele embutidos filtrem música, teatro ligeiro, canto e, naquele domingo, a narração de Oduvaldo Cozzi ou, se preferir, a gaita de Ari Barroso. Difícil crer que tão simples e banal aparelho, atacado certos dias por uma cascata de pigarros, tosse convulsiva e estalidos, seja o seu portal para o estádio do Maracanã superlotado”.

O rádio era mesmo esse relatado portal na década de cinqüenta. Por ele é que se enxergava mesmo o mundo real através da sua dimensão imaginária. Por isso é que o personagem-narrador tem nele o instrumento condutor de suas angústias daquele dia. Armado dele é que vai enfrentar a ansiedade dolorosa que aqueles acontecimentos tornam inevitáveis: “(…) Come pouco, a mãe estranha. Ora, quem vai entrar em campo para enfrentar o Uruguai de Obdulio Varela, El gran captán, o Uruguai de Máspoli e Mathias Gonzáles, de Schiaffino, Julio Perez e Gighia, pede refeição leve. Está em jogo a Copa Jules Rimet, o cetro máximo do futebol mundial. A felicidade enganadora das ruas”, diz o narrador, misturando seu personagem ficcional aos personagens reais daquela narrativa futebolística de caráter ainda épico e depois, dramático, que se desenrolaria daí a pouco.

Aqui, o personagem-narrador literalmente entra em campo para “enfrentar o Uruguai” e o resto da narrativa segue por conta do rádio, através do “bordado literário de Oduvaldo Cozzi” que “esgarça-se na chiadeira de panela de pressão”.

Numa atitude narrativa de invenção e perspicácia, o narrador do texto cede a palavra ao narrador do rádio para que seu personagem continue sua estória tecida pelos fios da lembrança. Lembrança dramática e dolorida porque àquela altura do campeonato a partida estava empatada e só o que ouve são os ecos insistentes daquela frase famosa:  “- No passarán!”, proferidos pelos uruguaios, na voz profética de La Pasionaria”.

O jogo de futebol e o da narrativa descem ao seu final em ritmo de uma agonia que a memória sofregamente recupera para o leitor:

“A tarde suspensa estagnada aguarda o berro do desempate. Bigode, Bigode, eu te reconheço. Quem te mandou esquecer os carrinhos de half-back da várzea? Foi o técnicos Flávio Costa? Ficas a ciscar na lateral esquerda, em torno de Gighia, olha que o tempo passa, Gighia é rápido, vai levando, avança pelo flanco direito, abre-se ali um corredor, de repente Gighia finge que vai cruzar para Schiaffino ou Miguez, ou então passar a redonda a Julio Perez, mas resolve chutar, o chute sai rasteiro, aflorando o gramado, entra no canto esquerdo de Barbosa, Uruguai 2 a 1.”

Pronto: a hybris dos gregos se instalou aí nesse fato comum de um jogo de futebol, o gol. Entretanto, devido às circunstâncias em volta, a situação de cúmulo da expectativa dos brasileiros em ganhar a partida, coisa tão óbvia que o destino, relapso, esqueceu de consignar, a coisa se inverte e o que se deu… o que se deu… o que se deu… só a memória mítica do futebol brasileiro sabe.

Pela força da magia da comunicação estética, aqui representada pela boa linguagem literária, esta narrativa de Hélio Pólvora é uma oportuna maneira de se experimentar tudo, outra vez! Ou de se exorcizar tudo outra vez. Talvez!

SOBRE O AUTOR:

Hélio Pólvora de Almeida nasceu numa fazenda de cacau, no município de Itabuna, Bahia, em 2 de outubro de 1928. Passou 32 anos no Rio de Janeiro e reside em Salvador desde 1990. Atuou em vários veículos importantes de comunicação, entre eles, Jornal do Brasil, Correio da Manhã, Diário de Notícias, Diário Carioca, Correio Braziliense e revista Veja. É contista, crítico literário, cronista e tradutor. Sua estréia literária deu-se em 1958, com Os Galos da Aurora, publicado com o selo da Civilização Brasileira; seguiram-se, a partir daí, cerca de 25 títulos. Conquistou importantes prêmios literários, entre os quais os da Bienal Nestlé de Literatura, anos 1982 e 1986, primeiro lugar, gênero conto, e mais os prêmios da Fundação Castro Maya, para o livro Estranhos e Assustados, e Jornal do Commercio, para Os Galos da Aurora. A história curta, O gol de Gighia, está publicado na coletânea, Contos brasileiros de futebol, organizada em 2005 por Cyro de Matos, sob os auspícios da Editora LGE, de Brasília.

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