Do remo à vela, de operário a burguês, de subúrbio a zona sul

Por Victor Melo (victor.a.melo@uol.com.br)

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Salve, povo querido

No meu post de hoje, apresento um extrato da conclusão de meu último livro, “Quando a Lagoa era subúrbio: os clubes náuticos, a produção do espaço e o processo de gentrificação”, disponível em

https://historiadoesporte.wordpress.com/2022/02/23/quando-a-lagoa-era-suburbio-os-clubes-nauticos-a-producao-do-espaco-e-o-processo-de-gentrificacao-novo-titulo/

Um abraço grande, Victor.

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Nos anos finais da década de 1930, a nova estruturação do remo fluminense e as mudanças do perfil societário da Lagoa colocaram em xeque a existência da Federação Náutica. Em 1937, Lage e Piraquê anunciaram o desejo de se filiar à Liga Carioca. Ao final, ambos se ligaram à Federação Aquática, deixando, do Distrito da Gávea, somente o Jardinense na antiga entidade que, de toda forma, ainda tentou se manter ativa mobilizando outros associados. A essa altura, a União já estava extinta.

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Garagem do Piraquê. A sede se encontrava em terreno cedido pela prefeitura e era considerada bem instalada, ainda que modesta. Diário da Noite, 26 fev. 1937, p. 6.

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Vale considerar que o Lage deixara de possuir o barracão que mantinha na Lagoa por o proprietário do terreno não querer renovar o contrato de aluguel, interessado que estava no movimento de especulação imobiliária que havia na região. Na verdade, vários clubes foram atingidos nesse processo, no decorrer do tempo perdendo seu lugar para a guarda de material e embarcações.

A despeito disso, sob novo formato e com diferentes protagonistas, paulatinamente as iniciativas de remo se concentraram na Lagoa, não sem resistências, notadamente advindas dos clubes do Centro e de Niterói. De fato, boa parte das agremiações que não conseguiram se instalar na Gávea, no decorrer do tempo, deixaram de participar das regatas, tais como o Natação e Regatas, o Boqueirão do Passeio e o Internacional (sediados na Praia de Santa Luzia), bem como o Icaraí e o Gragoatá (da, na época, capital do Estado do Rio de Janeiro).

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Raia olímpica montada na Lagoa. O Globo Sportivo, 18 jan. 1940, p. 6

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Na Lagoa, é bem verdade, problemas estruturais interferiram no cotidiano dos clubes e na realização de eventos, tais como a mortandade de peixes e o assoreamento, ocorrências que feriam mesmo os desejos da prefeitura e do mercado imobiliário de valorizar e mudar o perfil da região. A propósito, as obras constantes promovidas pelo poder público, em diversos momentos, também criaram empecilhos para o pleno funcionamento das iniciativas náuticas.

Havia ainda a limitação de não haver um pavilhão como o que existiu por quase três décadas em Botafogo. Nesse aspecto, a construção do Estádio de Remo, realizada entre 1953 e 1954, aproximadamente onde antes fora a Praia do Pinto, mesmo sendo uma obra cercada de polêmicas e problemas, foi mais um contundente sinal de que para a Lagoa deslocara-se a prática da modalidade na cidade do Rio de Janeiro, da mesma forma que o foi a chegada de antigos e prestigiosos clubes no bairro – caso do Flamengo e depois do Botafogo e Vasco.

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Regata com público lotando o Estádio de Remo. Manchete Esportiva, 28 jul. 1956, p. 28.

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Houve, portanto, um duplo processo de gentrificação: do esporte e do bairro. Vale a pena lembrar que, a partir de meados da década de 1930, foram fechando suas portas as fábricas sediadas na Gávea. Em 1937, quando se definiu o zoneamento do Rio de Janeiro, excluiu-se a Zona Sul como área industrial. Nesse processo, a prática do remo na Lagoa foi adquirindo um novo sentido, não mais elogiada por ser expressão dos cuidados com os operários, mas sim de um estilo de vida burguês.

A Lagoa passara por muitas mudanças. Ainda que continuasse sendo por algum tempo uma região de baixa densidade populacional, já havia sinais do que seria seu futuro como área nobre da cidade. Logo deixaria de ser encarada como um subúrbio e seria considerada parte de uma Zona Sul valorizada.

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Treino de remo do Flamengo. A Noite, 30 mar. 1939, p. 7.

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No que tange à trajetória das agremiações náuticas pioneiras do Distrito da Gávea, o Piraquê e o Caiçaras se mantêm em funcionamento até os dias atuais, aquele com mais dificuldades, mas sempre permanecendo na Lagoa e Jardim Botânico. O Lagoense se extinguiu em meados dos anos 1930 e o Jardinense em 1939, por decisão dos associados remanescentes em assembleia. O Lage ainda seguiu ativo até a década de 1950, até ser despejado de sua sede na Praia de Botafogo (n. 440) e não ter mais como se manter. Nos seus anos finais, praticamente só acolhia bailes.

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Público acompanhando regata nas margens da Lagoa. O Globo Sportivo, 25 mar. 1939, p. 11.

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Perceba-se como as trajetórias dos clubes náuticos da Lagoa são boas expressões do processo de urbanização do Rio. A União, a princípio, reunia as agremiações do “subúrbio” da Gávea, um espaço que foi se integrando à cidade e passando por mudanças. Uma divergência de uma de suas filiadas deu origem à Liga Náutica, depois Federação Náutica, que atraiu sociedades de outros bairros. Como reação, a União se aproximou ainda mais da Federação Brasileira, majoritariamente formada por setores médios e altos, promotora de regatas na Baía de Guanabara. Com isso, associações prestigiosas também conheceram as águas lacustres da Zona Sul num momento em que a Enseada de Botafogo apresentava problemas para a manutenção dos treinos e organização dos eventos.

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Guarnição do Flamengo a caminho de páreo. O Globo Sportivo, 18 jan. 1940, p. 6.

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Os conflitos, portanto, acabaram por chamar ainda mais a atenção para o potencial náutico da Lagoa. No decorrer do tempo, algumas agremiações ligadas à Federação Brasileira se transfeririam para a Gávea, num momento em que as antigas sociedades náuticas locais enfrentavam dificuldades pari passu com o fim das fábricas que lhes deram apoio. Não surpreende saber que somente o Piraquê manteve as portas abertas, exatamente aquele clube que menos era dependente da experiência fabril, o primeiro a romper com a União.

Entre o público que acompanhava as regatas da Lagoa, a princípio, havia mesmo muita gente, de alguma forma, ligada às empresas fabris, moradores do Distrito da Gávea que possuíam várias opções de lazer, entre os quais os esportes náuticos. A composição societária das agremiações lagoenses era diversa, mas muitos dirigentes, remadores e associados eram funcionários das fábricas. Não me parece equivocado dizer que se tratava de um remo operário num bairro operário.

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Largada de páreo realizado na Lagoa. O Cruzeiro, 30 set. 1939, p. 27.

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Com as mudanças no perfil do Distrito, os clubes deixaram de ser liderados por operários, não sem que houvesse tensões e conflitos. Mais gente de estratos médio e alto começou a protagonizar os caminhos das antigas sociedades náuticas. Surgiu ainda uma agremiação que era plena expressão do processo de gentrificação da Lagoa, o Caiçaras, responsável por dinamizar outra modalidade na região, a vela.

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Regata promovida pelo Caiçaras. O Cruzeiro, 17 jul. 1937, p. 16.

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O processo de gentrificação, contudo, teve que lidar com o surgimento das favelas. Durante algum tempo, até que essas comunidades fossem brutalmente removidas, conviveram resquícios do passado e expectativas de futuro, algo que deixou alguns registros, como a imagem a seguir.

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Na imagem se vê a convivência entre novos clubes (nesse caso, o Monte Líbano), as novas construções habitacionais e os barracos e favelas. O Mundo Ilustrado, 3 set. 1960, p. 7.

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Essa convivência também se registrou no que se refere às iniciativas náuticas. O Caiçaras conviveu durante anos com a favela da Ilha das Dragas, cuja remoção foi marcada por forte resistência.

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À frente, o Clube dos Caiçaras; à direita e à frente, a Favela da Ilha das Dragas. Entre as duas, o Jardim de Alá. Disponível em: http://saudadesdoriodoluizd.blogspot.com/2017/12/ilha-das-dragas.html

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Seria uma questão de tempo para que o processo de “saneamento social” fosse completo. A matéria de um jornal explicita uma das justificativas utilizadas para a remoção da comunidade da Ilha das Dragas: “A miséria dos favelados causa má impressão aos estrangeiros que frequentam o Clube Caiçaras”. O cronista foi direto ao ponto:

A miséria refletida no amontoado de barracões que se estende por toda ilha é a principal razão porque a diretoria do clube vem forçando o despejo dos favelados. Dizem que o espetáculo é deprimente e que dá má impressão.

Obviamente, havia a questão do saneamento, mas vejamos o que se anunciou em outro periódico: “Os clubes próximos, Caiçaras, Pira-quê e Paissandu, não têm canalização de rede sanitária. Toda matéria é desembocada na Lagoa. Isto é um verdadeiro atentado contra aquele bairro”. Essas críticas, por certo, não tinham a repercussão das condenações que havia às favelas.

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Páreo realizado na Lagoa tendo ao fundo uma das favelas que havia na região. Manchete Esportiva, 28 jul. 1956, p. 9.

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Enfim, o antigo bairro operário, depois marcado pela existência de favelas, se tornou uma região de moradia de gente privilegiada economicamente, um cartão postal de uma cidade que adora exultar suas belezas naturais e a integração harmoniosa dessa com uma cultura exuberante, sempre, contudo, escondendo suas mazelas embaixo do tapete. O que procuramos argumentar é que os clubes náuticos foram indícios e agentes desse processo de transformação.

Inegavelmente, foram produtos e produtores do espaço.

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