O AVANÇO DO SKATE FEMININO*

23/05/2022

Leonardo Brandão

Historiador e Professor Universitário

@leobrandao77

“Não se nasce mulher; torna-se mulher”. Esta frase pertence a escritora Simone de Beauvoir (1908 – 1986), a qual, através do livro intitulado “O Segundo Sexo”, lançado em 1949, contribuiu para questionar os lugares de sujeito que a sociedade patriarcal reservava para as mulheres, uma vez que a posição das mulheres na sociedade era (ainda é?) determinada por fatores culturais e sociais. A reflexão de Beauvoir exerceu forte influência no movimento feminista e, desde então, muitas conquistas foram obtidas.

Embora, nos últimos anos, estejamos vivendo no país uma espécie de retrocesso civilizatório, ainda assim, quando observamos o skate feminino, há motivos de sobra para nos orgulharmos. Rayssa Leal, Gabriela Mazetto, Yndiara Asp, Virgina Fortes, Pipa Souza, Priscila Morais, Esther Solano, Giovana Dias, Vitória Mendonça, Atali Mendes, Kemily Suiara, Pamela Rosa, Marina Gabriela, Vitória Bortolo, Karen Feitosa, Agatha Pinheiro, entre muitas outras, estão ora elevando o nível das manobras nas competições, ora manobrando em pistas e/ou filmando pelas ruas. Num Brasil que insiste em caminhar para trás, essa maior presença das mulheres no skate é um sinal de progresso.

E o que falar da História do Skate Feminino? Embora saibamos que, desde o início elas sempre estiveram sobre o carrinho, os estudos sobre este tema ainda são escassos. No Brasil, quem ajudou a preencher um pouco dessa lacuna foi a pesquisadora Márcia Luiza Figueira, estudiosa que produziu a primeira tese de doutorado específico sobre skate feminino, intitulado “Skate para meninas: modos de se fazer ver em um esporte em construção”, defendida em 2008 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Num capítulo publicado no livro “Skate & Skatistas: questões contemporâneas”, Márcia Figueira evidenciou algumas conquistas do skate feminino a partir da virada do milênio. Ela lembra que um passo importante no aumento de sua visibilidade foi dado pela revista CemporcentoSKATE em 2001, quando foi inaugurado o encarte 100%SkateGirl, no qual a skatista Giuliana Ricomini estreou a seção “ponto de vista”. No ano seguinte, em 2002, na segunda edição desse encarte, seu editorial explicava:

“Há muito que as meninas ambicionavam um espaço só seu na revista. Pediram, clamaram, reclamaram (e mais uma infinidade de outros verbos). Sobretudo elas ANDARAM de skate. Por isso CONSEGUIRAM […] insistiram em andar de skate, em acertar manobras, em correr campeonatos, em evoluir”.

As meninas (eu prefiro o termo mulheres) foram conquistando seus espaços nos veículos de mídia especializado. No ano de 2004, a extinta revista Tribo também passou a dedicar uma seção para elas, intitulado Lilith. Neste mesmo ano, segundo os estudos de Marcia Figueira, Alexandre Vianna, que na época presidia a Confederação Brasileira de Skate (CBSk), afirmou ser “legal ver as meninas se unindo na construção de um espaço e de uma identidade dentro do skate nacional”.

Um marco importante nessa batalha por visibilidade ocorreu em julho de 2006, época da simbólica publicação da centésima edição da revista CemporcentoSKATE. Nela, pela primeira vez, uma skatista aparecia na capa dessa revista. Tratava-se da skatista Eliana Sosco, com uma manobra (noseslide) descendo um corrimão de escadaria, fotografada por Renato Custódio.

Daí em diante muitas outras conquistas ocorreram, como a capa da Ligiane Xuxinha na edição de setembro de 2011 ou o sucesso internacional da skatista Letícia Bufoni, por exemplo. Mesmo no universo acadêmico, surgiram mais mulheres pesquisando a prática do skate. Em 2014, Allana Joyce Scopel defendeu na UFMG a dissertação de Mestrado “A apropriação do Parque da Juventude pelos Skatistas”; e em 2016, na FURG, Juliana Cotting Teixeira defendeu a dissertação “Cenas Urbanas: skatistas, ocupação da cidade e produção de subjetividades”.

Além disso, muitas crews de skate feminino surgiram, como as Pantaneiras Skate Girls na cidade de Campo Grande/MS (encabeçado pela skatista Edduarda Grego) ou as Batateiras, em São Paulo, que surgiram com o intuito de incentivar e fomentar o skate feminino. As Batateiras, inclusive, figuraram no documentário Skate Le Monde, produzido para a televisão francesa TV5 Monde[1].

A história do skate feminino é rica e merece muito mais investigação e registro. As primeiras praticantes, a luta por visibilidade, o preconceito, a corporalidade, questões de gênero, etnia e tantos outros enfoques são possíveis. O trabalho de Marcia Figueira foi pioneiro ao desbravar o assunto, mas outros estudos podem ser feitos. E aí, você skatista que está fazendo ou pretende fazer uma faculdade? Que tal este tema para um Trabalho de Conclusão de Curso? Pois, afinal, vamos combinar que o universo do skate ficou muito mais interessante com a presença das mulheres!

* Este post é uma versão levemente modificada do texto “Sim, elas podem!”, publicado na edição impressa da revista CemporcentoSKATE, edição n. 220, de out/nov de 2021.

[1] O episódio pode ser visto em: https://www.tv5unis.ca/videos/skate-le-monde/saisons/1/episodes/9

 


IMAGENS DO LAZER NA PINTURA, NA ERA BIEDERMEIER

25/10/2021

Elcio Loureiro Cornelsen

INTRODUÇÃO

A era da história alemã na primeira metade do século XIX é conhecida pelo termo “Biedermeier” e tem como marcos temporais o Congresso de Viena, de 1815, e a Revolução de Março de 1848. Tais marcos nos permitem inferir que, se o início do período é marcado pela política restauradora no sentido de garantir as fronteiras dos diversos Estados, que vigoravam antes das invasões napoleônicas, seu fim culmina com movimentos revolucionários burgueses contra os poderes monárquicos (KITCHEN, 2013).

Na historiografia, o período em questão deve seu conceito definidor, cunhado a posteriori, ao professor e poeta Gottlieb Biedermaier, personagem literária criada por Ludwig Eichrodt e Adolf Kußmaul. Tal personagem possuiria dois traços característicos: ter bom coração e ser um pequeno burguês conservador. O historiador Martin Kitchen define com precisão o espírito da época a partir da etimologia do sobrenome da personagem:

[…] “Bieder” significa convencional, comedido e um tanto insípido, com mais do que apenas um vestígio de provincianismo presunçoso. “Maier” é a pessoa comum, o João de Souza ou da Silva. Era um reflexo da atmosfera de paz e tranquilidade da restauração depois dos dias tumultuados da revolução. […] (KITCHEN, 2013, p. 54)

O termo “Biedermeier”, com esta grafia, impôs-se como designação a partir do final do século XIX, inicialmente nos âmbitos da Arquitetura e das Artes Plásticas. E é justamente nas Artes Plásticas do período que recai o interesse do presente estudo, no intuito de analisar imagens do lazer em obras de dois pintores: Adrian Ludwig Richter (1803-1884) e Carl Spitzweg (1808-1885). Em termos metodológicos, foram selecionadas três pinturas de cada um, cobrindo o período de 1830 a 1850. Ressalta-se, ainda, que corroboramos o posicionamento do historiador Victor Andrade de Melo que, baseado em reflexões de Peter Burke, considera “as obras de arte como fontes históricas propriamente ditas (…), e não como ilustrações” (MELO, 2009, p. 21).

O ESPÍRITO BIEDERMEIER E O LAZER NA PINTURA DE CARL SPITZWEG

Uma das características principais da primeira fase da pintura de Carl Spitzweg Spitzweg é o retrato de pessoas em seu ambiente pequeno burguês, que desfrutam do tempo de diversas maneiras, incluindo atividades de lazer em ambientes fechados e, sobretudo, na natureza, bem ao gosto do idílio provinciano que marca o espírito Biedermeier. Uma famosa pintura de Carl Spitzweg que retrata ambiente fechado, mas que evidencia atividades de lazer, é “Bücherwurm” (“Traça”. Fig. 1), de 1848, em que vemos um homem de mais idade bem vestido sobre uma escada, diante de estante repleta de livros até o teto, e este parece ler avidamente um deles, segura outro livro aberto em outra mão, prende ao tronco com o braço outro livro, e tem mais um livro preso entre os joelhos, denotando o gosto pela leitura.

Fig. 1 – “Traça”. Fonte: Wikimedia Commons

Mas é, sobretudo, nas pinturas de Carl Spitzweg que retratam cenas na natureza que se evidenciam práticas de lazer. Uma das mais famosas é “Sonntagsspaziergang” (“Passeio ao domingo”; Fig. 2), de 1841. Nela, é retratada uma família em seu passeio dominical, em um dia de sol, em meio a um campo de centeio. São cinco figuras que se deslocam pela trilha, da direita para a esquerda: à frente, o homem corpulento protege-se do sol com a cartola espetada na bengala, seguido da mulher bem vestida usando chapéu e segurando uma sombrinha. Um pouco mais atrás, há uma menina que também se protege do sol com uma sombrinha, seguida de uma adolescente, bem vestida como a mãe, e, um pouco mais para traz, distraída com a caça de borboletas, aparece uma menina. No quadro, predomina a atmosfera do idílio rural em um dia de descanso, em que a família passeia e leva cestos para um piquenique.

Fig. 2 – “Passeio ao domingo”. Fonte: Wikimedia Commons

Outra pintura de destaque, quando se toma por tema o lazer, é “Der Schmetterlingjäger” (“O caçador de borboletas”; Fig. 3), de 1840. Nela, visualizamos em primeiro plano, do lado esquerdo, duas borboletas azuis, e mais ao fundo, no centro, um homem todo aparamentado, com cantil, mochila e outros apetrechos, segurando na mão direita uma longa haste com uma rede diminuta na ponta.

Fig. 3 – “O caçador de borboletas”. Fonte: Wikimedia Commons

Ao redor e no fundo, é representada uma natureza aparentemente selvagem, com árvores, arbustos, roseiras e plantas rasteiras. O homem se desloca em uma trilha íngreme, à caça das borboletas. Essa pintura denota não só a caça de borboletas, como também o colecionismo como atividade de lazer.

O ESPÍRITO BIEDERMEIER E O LAZER NA PINTURA DE ADRIAN LUDWIG RICHTER

Uma das características principais da pintura de Adrian Ludwig Richter é o predomínio de paisagens panorâmicas que transmitem um sentido de leveza e harmonia com o elemento humano. Uma delas é “Abendandacht im Walde” (“Prece noturna na floresta”; Fig. 4), de 1842, em que as copas de duas árvores frondosas servem de abrigo para o descanso de um grupo de mulheres e de crianças, mas também de carneiros. Algumas jovens estão sentadas, enquanto outras mulheres estão ajoelhadas, e duas estão em pé, com as mãos em posição de oração.

Fig. 4 – “Prece noturna na floresta”. Fonte: Wikimedia Commons

Assim como Carl Spitzweg, Adrian Ludwig Richter valoriza também em suas pinturas passeios e caminhadas ao ar livre como atividades de lazer. Um de seus quadros, intitulado “Italienische Landschaft mit ruhenden Wandersleuten” (“Paisagem italiana com caminhantes descansando”; Fig.5), de 1833, retrata uma cena em que homens, mulheres e crianças descansam à beira do caminho, assim como animais. Todavia, as pessoas estão modestamente vestidas, parecem integrar uma família, a hierarquia entre elas parece se expressar através da figura do homem em pé, enquanto a mulher, sentada, acolhe uma de suas filhas pequenas, e logo atrás está uma mulher de mais idade, provavelmente a avó, e um homem mais jovem, à esquerda das demais figuras, comodamente sentado. Há também objetos que remetem a uma pausa para piquenique.

Fig. 5 – “Paisagem italiana com caminhantes descansando”. Fonte: Wikimedia Commons

Sem dúvida, a atmosfera idílica predomina nas pinturas de Adrian Ludwig Richter, sempre explorada pela construção de imagens de harmonia entre a paisagem natural, as pessoas e os animais. Outro exemplo disso é o quadro “Frühlingsabend” (“Noite de primavera”; Fig. 6), de 1844, em que vemos ao centro um casal de amantes, bem vestidos, sentados contemplando o fim do entardecer e a chegada da noite, tendo ao lado um cão pastor e algumas ovelhas deitadas na relva.

Fig. 6 – “Noite de primavera”. Fonte: Wikimedia Commons

Nas pinturas de Richter, predominam imagens do lazer associadas ao descanso e à contemplação da natureza, num sentido quase religioso.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise de pinturas de Carl Spitzweg e Adrian Ludwig Richter, objetivo do presente estudo, evidenciou que elas tanto refletem o espírito da época, quanto transmitem em imagens do lazer valores sociais decorrentes da política de Restauração. Sobretudo, figuras da burguesia, seja o pequeno burguês ou o abastado, são retratadas em atividades de lazer, seja a família que passeia em um domingo, que reflete a hierarquia de papeis sociais, seja o indivíduo em sua relação com a natureza, em que predomina a harmonia, o desfrute e a fruição. São imagens que não reservam espaço para a miséria e a pobreza que atingia amplamente os Estados alemães no período, nem o aumento populacional e o crescente processo de urbanização e de industrialização (KITCHEN, 2013).

Por se tratar de estudo em andamento, ainda há aspectos que demandam desenvolvimento, entre outros, a análise de obras de outros pintores do período, dentre eles, Moritz von Schwind, Friedrich Gauermann e Eduard Gaertner, que nos permitam uma avaliação precisa se havia uniformidade na representação de imagens do lazer, ou se havia também trabalhos distintos que possam ter produzido um contradiscurso, revelando a complexidade social e as correntes políticas antagônicas que se moviam entre a restauração conservadora de 1815 e o ímpeto revolucionário de 1848.

REFERÊNCIAS

KITCHEN, M. História da Alemanha moderna de 1800 aos dias de hoje. Tradução: Cláudia Gerpe Duarte. São Paulo: Cultrix, 2013.

MELO, V. A. de. Esporte, lazer e artes plásticas: diálogos. Rio de Janeiro: Apicuri, 2009.


Simpósio Nacional de História

27/05/2021

Programação Simpósio de História do Esporte e das Práticas Corporais (69)

31º. Simpósio Nacional de História – ANPUH 2021

Simpósio 69: História do Esporte e das Práticas Corporais

Coordenação:

Prof. Dr. Coriolano Pereira da Rocha Junior (UFBA)

Prof. Dr. André Alexandre Guimarães Couto (CEFET/RJ)

Orientações gerais:

  • As mesas estão compostas por aproximaçáo temática.
  • As sessões acontecerão entre 14h e 16h e entre 16h e 18h.
  • Cada fala terá 15min e 1h de debate por sessão.
  • A última sessão fica guardada para avaliação e organização do simpósio para 2023.

Programação

20/07 – SESSÃO 1: 14h/16h

Sistema de Informações do Arquivo Nacional: potencialidades da pesquisa sobre o esporte e a ditadura civil-militar brasileira (1964-1985)

Rafael Fortes Soares, João Manuel Casquinha Malaia Santos

Recorde: Revista de História do Esporte – um panorama de suas publicações (2008-2020)

Leonardo do Couto Gomes

Sociologia e História do Esporte: novos diálogos possíveis?

Euclides de Freitas Couto

Mídia Impressa e Esporte: Notas Históricas

Caio Cesar Serpa Madeira

20/07- SESSÃO 2: 16h/18h

Esporte, propaganda política e consenso social nas comemorações do Sesquicentenário da Independência do Brasil (1972): síntese e desdobramento de uma pesquisa

Bruno Duarte Rei

Sugestões metodológicas para o estudo de processos civilizadores a partir das práticas de lazer: uma análise psicogenética em Monte Alegre – PR

Ana Flávia Braun Vieira

Entre tangos e batuques: as danças nos clubes sociais da cidade do Salvador entre os anos de 1912 e 1935

Viviane Rocha Viana

21/07- SESSÃO 1: 14h/16h

O jogo das ressignificações: uma outra história do futebol em Porto Alegre (1903-1909)

Gérson Wasen Fraga

Masculinidades varzeanas: virilidade e idade na organização do futebol amador em Belo Horizonte (anos 1950 a 1980)

Raphael Rajão Ribeiro

O futebol e suas relações com o narcotráfico na Colômbia: uma análise introdutória

Eduardo de Souza Gomes

Qual a cor do seu grito? Copa das Confederações, Jornada de Junho de 2013 e os movimentos sociais na cidade de Fortaleza

Thiago Oliveira Braga

21/07- SESSÃO 2: 16h/18h

Urbanização, trabalho e futebol na cidade de Santos (1892 – 1920)

André Luiz Rodrigues Carreira

Filmes de esporte (futebol) como um gênero cinematográfico: uma proposta de pesquisa

Luiz Carlos Ribeiro de Sant’ana

O futuro das torcidas: das charangas à guinada antifascista na Ultras Resistência Coral

Caio Lucas Morais Pinheiro

Da fidalguia à commodity: uma história econômica do futebol mundial evidenciada no surgimento do “padrão-FIFA” (fins do século XX e início do XXI)

Raul de Paiva Oliveira Castro

22/07- SESSÃO 1: 14h/16h

O Polo Aquático Brasileiro nos Jogos Olímpicos de 1920

João Paulo Maciel de Azevedo

Polo Master – Um espaço “aquático” de memória, sociabilidade e lazer

Alvaro Vicente Graça Truppel Pereira do Cabo

Pugilistas italianos e identidade nacional no jornal imigrante Il Pasquino Coloniale (décadas de 1920 e 1930)

Igor Cavalcante Doi

A Formação do Jiu-Jitsu Brasileiro em Salvador e no Rio de Janeiro: um estudo histórico comparado

Luan Alves Machado

22/07- SESSÃO 2: 16h/18h

As Práticas Corporais no Cotidiano de uma Escola Americana no Sertão: ritos e rituais

Rúbia Mara de Sousa Lapa Cunha

Ofício dos Mestres e Pandemia na percepção dos Capoeiras: narrativas e estratégias na Roda

Zuleika Stefânia Sabino Roque

GINÁSTICA EM ACADEMIA: a práxis em Salvador entre 1975 a 1988

Amanda Azevedo Flores

A natação em Juazeiro da Bahia: registros históricos nas décadas de 1970 – 1990

Joelzio dos Santos Oliveira / Christiane Garcia Macedo

23/07- SESSÃO 1: 14h/16h

Alcyr Ferraro: materializador da formação em educação física na Bahia

Roberto Gondim Pires

Jogos Escolares na Bahia entre as décadas 1950 e 1980: Um olhar sobre a História

Natanael Vaz Sampaio Junior

História da formação de professores de Educação Física da Bahia na década de 1970

Maria Elisa Gomes Lemos

Os primórdios da formação de professores de educação física no Pará (1930-1940)

Carmen Lilia da Cunha Faro

23/07- SESSÃO 2: 16h/18h – AVALIAÇÃO FINAL E DEFINIÇÃO DA COORDENAÇÃO 2021/2023


Um clube de ciclismo no bairro de Realengo

20/03/2021

Por Victor Andrade de Melo

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Este post é parte de um artigo que escrevi com o camarada Nei Jorge Santos Júnior e acabou de ser publicado na revista Antíteses (v. 13, n. 26, jul./dez. 2020). Quem curtir e desejar acessar o texto completo, pode encontrá-lo aqui: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/antiteses/article/view/40025

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Nos anos 1920, foram criados dois clubes de ciclismo pioneiros no subúrbio, o Ciclo Suburbano Clube (de Madureira) e o Velo Esportivo de Ramos. Na década de 1930, várias sociedades semelhantes foram fundadas nos bairros da região. Segundo Melo e Santos Junior (2020): “Juntamente com o futebol, o esporte do pedal parece ter sido, naquele momento, por suas características, o que mais percorreu a cidade de ponta a ponta, criando uma certa capilaridade e estímulo para a prática” (p. 13).

Para entender a criação do Realengo Pedal, deve-se ter em conta as mudanças que houve no bairro. De um lado, se fortaleceu uma sociedade civil que em definitivo assumiu a liderança das reivindicações locais, semelhante ao que ocorria em outras regiões do subúrbio. De outro lado, não se reduziu a importância das unidades do Exército. Os militares de mais alta patente seguiam integrando a elite local.

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Vista Aérea de Realengo/ Escola de Aeronáutica Militar, 1939.
Acervo: Museu Aeroespacial.
Disponível em: < http://brasilianafotografica.bn.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/7352&gt;.

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Nesse cenário, houve uma dinamização da vida social. Deve-se fazer uma referência à abertura, em 1938, do Cine Theatro Realengo, uma grande sala que acolhia mais de 1000 pessoas. Por seu estilo arquitetônico, pelas fitas exibidas, pela movimentação causada ao seu redor, foi mais um dos indicadores da circulação de ideias de modernidade no bairro.

O ciclismo era um esporte que mobilizava noções interessantes à elite local. Desde o século XIX, era encarado como sinal de civilização e progresso, exponenciando símbolos que se forjaram ao redor do uso das bicicletas: velocidade, mobilidade, liberdade.

Melo e Santos Junior (2020) sugerem que, naqueles anos 1930, a bicicleta “ainda era um produto caro, mas já bem mais barato do que fora no século XIX, quando era totalmente importada. Na primeira metade do XX, já era montada no Brasil e a indústria nacional produzia algumas peças” (p. 14). De toda maneira, mesmo que começando a se popularizar, o ciclismo ainda se tratava de uma modalidade majoritariamente praticada por gente de estratos médios ou altos, o que seria também um fator de diferenciação num bairro em que o popular futebol se espraiava.

Um primeiro indício da prática do ciclismo no bairro foi identificado em 1930, o anúncio de uma competição promovida pelo Cycle Carioca Club de Realengo. A notícia dá a crer que era um evento muito bem organizado. Todavia, não conseguimos mais informações sobre ele, bem como sobre a sociedade promotora.

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Estação de Realengo, 1903.
Revista da Semana, 15 nov. 1903.
Disponível em: <http://www.estacoesferroviarias.com.br/efcb_rj_mangaratiba/fotos/realengo9061.jpg&gt;.

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Ainda se pode ver sua participação em algumas provas, como uma promovida pelo Velo Esportivo de Ramos, em 1931, mas a agremiação parece mesmo ter sido de curta duração. De toda forma, deixou latente a ideia de que, em Realengo, havia interessados no ciclismo.

Esse interesse ficou claro alguns anos depois, em dezembro de 1937, quando uma sociedade carnavalesca, Caprichosos de Realengo, realizou o “Dia Esportivo de Realengo”. Atraíram muitos interessados as provas organizadas pela Liga Carioca de Ciclismo e Motociclismo por meio de seu diretor Oswaldo Moreira Guimarães, funcionário civil da Escola Militar, “um dos grandes animadores do esporte do pedal nos subúrbios”, promotor de muitas competições importantes do ciclismo carioca.

Um cronista celebrou o evento como uma ocasião para estimular a prática e revelar valores da região, uma “oportunidade para mostrarem a sua fibra”. Em 1938, fundou-se o Realengo Pedal Clube, com sede na Estrada Real de Santa Cruz. Logo estava filiado à Liga Carioca e participando das provas pela entidade promovidas. Em maio, obteve inclusive bons resultados em competição realizada no Campo de São Cristóvão.

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Dirigível no campo de tiro de Realengo, 1894.
Acervo: Musée de L’Air Le Bourget.
Disponível em: < http://historia-de-realengo.blogspot.com/2009/11/historias-perdidas-no-tempo-pioneiros.html&gt;.

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No mesmo ano, a agremiação promoveu pela primeira vez o Circuito Ciclístico de Realengo, em homenagem e contando com apoio do comércio da região. Essa foi uma ocorrência comum em muitos bairros do subúrbio, o incentivo do setor a ações que contribuíssem para o desenvolvimento local, para o forjar de uma ideia de que na área também se estruturavam iniciativas que expressavam adesão a ideais de civilização e progresso.

Um dos ciclistas da agremiação, João Athayde, logo se destacou nas competições, tornando-se mais famoso quando se tornou detentor de um dos primeiros recordes aferidos da modalidade no Brasil. Sua ascensão foi meteórica. Meses antes disputara uma prova para iniciantes dos subúrbios, num momento em que o Realengo Pedal começou a se destacar por inscrever grande número de competidores.

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Equipe do Realengo Pedal Clube.
Esporte Ilustrado, 28 dez. 1938, p. 28.

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Quem eram esses ciclistas mais usuais? Já citamos o vencedor João Carneiro Athayde, funcionário do Ministério da Agricultura. Abel Lopes Garcia foi um costumeiro competidor, chegando a obter bons resultados em muitas pelejas; nada conseguimos saber sua vinculação laboral, somente que era morador de Realengo. O mesmo pode-se dizer de Acyr Gevarzoni, Alceu de Oliveira Souza, José Ribeiro da Silva (atleta negro que depois se transferiu para o Ciclo Suburbano) e Francisco Gomes Bezerra.

A falta de outras referências que não as esportivas nos dá a noção de que se tratava de “gente comum”, isso é, trabalhadores de estrato médio que se dedicavam ao esporte em seu tempo disponível. A propósito, também não localizamos muitas informações sobre a diretoria da agremiação. O único mais conhecido era José Reny de Araujo, antigo ciclista, dirigente e organizador de provas.

No ano de fundação, o clube participou da principal prova do ciclismo fluminense à ocasião, o Circuito do Rio de Janeiro, já na sua sexta edição. Entre os 13 clubes que tomaram parte na peleja, foi um dos cinco que mais inscreveu atletas, entre os quais o vencedor, o citado João Athayde.

Nessa edição, se explicitou uma disputa que vinha se delineando nos anos anteriores em função do espraiamento do ciclismo pela cidade:

Há um detalhe interessante que o público desconhece e que se torna necessário esclarecer. Existe uma rivalidade esportiva entre os ciclistas da cidade e os suburbanos, e nunca houve uma oportunidade para um confronto de forças como o que agora se oferece.

Percebe-se no discurso a oposição entre a “cidade” e o “subúrbio”, como se esse não fizesse parte do primeiro. Deve-se considerar que o jornal A Noite, promotor da competição, estimulava essa rivalidade para chamar a atenção do público, mas, na verdade, ela vinha mesmo se acentuando em função dos bons resultados obtidos por ciclistas do Ciclo Suburbano (MELO, SANTOS JUNIOR, 2020). Um cronista chegou a comentar que “sabido (…) é que os subúrbios têm sido um verdadeiro celeiro de bons corredores”.

Na ocasião do VI Circuito do Rio de Janeiro, outro ciclista do subúrbio se destacou, um dos que se tornaria dos mais vitoriosos de seu tempo, Lavoura (Antonio Teixeira da Fonseca), da União Ciclística de Campo Grande. Essas conquistas eram muito valorizadas pelas lideranças suburbanas, mobilizadas como indicador dos avanços civilizacionais da região.

Em 1940, ainda estava ativo o Realengo Pedal Clube. Participou de competições, em algumas obtendo bons resultados, e promoveu sua prova anual, parte do calendário ciclístico da Liga. Marcou presença até mesmo na atividade de encerramento da temporada. No ano seguinte, contudo, já não encontramos mais notícias sobre a agremiação.

Não conseguimos saber os motivos para seu fim. Identificamos que alguns ciclistas se transferiram para a União Ciclística de Campo Grande, entre os quais João Athayde, que seguiu obtendo bons resultados. De toda forma, ainda que breve, foi marcante a trajetória do Realengo Pedal Clube, expressão das mudanças e particularidades daquele bairro da zona suburbana.

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* Referência

MELO, Victor Andrade de; SANTOS JUNIOR, Nei Jorge. Faces da modernidade: a experiência do Ciclo Suburbano Clube (Madureira/Rio de Janeiro – décadas de 1920-1960). Revista Tempo e Argumento, 12(30), e0202, 2020. https://doi.org/10.5965/2175180312302020e0202


SKATE POÉTICO: UM PROJETO SOCIAL NA PERIFERIA DE SÃO PAULO/SP

03/09/2020

Por Leonardo Brandão

(Historiador/FURB)

Skate e Poesia podem andar – ou deslizar – juntos! Esta é a ideia de um projeto social surgido de um skatista, professor de Educação Física e morador do Jardim Romano, na periferia da cidade de São Paulo. Seu nome é Nanderson Silveira dos Santos, mais conhecido como Nando. Segundo ele, o Projeto Skate Poético (PROSKAP) começou no ano de 2016, inicialmente com a ideia de oferecer aulas de skate e produção de poesias para crianças e adolescentes do Jardim Romano, bairro carente situado no extremo leste da periferia de São Paulo.

Nando explica que, para entendermos melhor a gênese deste projeto, é necessário retornar alguns anos no tempo, ou melhor, ao ano de 2004.  Pois foi neste ano que ocorreu as eleições para a prefeitura de São Paulo, sendo que a atual prefeita à época, Marta Suplicy, prometeu, caso fosse reeleita, a construção do Centro Educacional Unificado (CEU) Três Pontes, no bairro Jardim Romano. Entretanto, esse fato não se consolidou naquele momento em função da vitória do candidato da oposição, José Serra (PSDB). Mesmo assim, essa promessa, segundo ele, fez surgir o sonho de uma pista de skate no local, uma vez que todos CEUs construídos pelas administrações petistas contavam com pistas de skate em suas dependências.

Passados quatro anos, no dia 31 de agosto de 2008, fora inaugurado o CEU Três Pontes, sob a administração do vice de Serra, Gilberto Kassab (DEM), mas sem nenhuma pista de skate. A partir dessa conjuntura, surgiu um movimento dos skatistas locais com o objetivo de reivindicar um espaço qualquer para à prática do skate na região. Porém, somente em 2014, depois de muito diálogo e insistência, foi cedido pela diretoria do CEU Três Pontes uma quadra poliesportiva e um espaço para guardar os obstáculos de skate (rampas, “caixote”, corrimãos etc.) feitos de madeira.

Assim, foi nesse contexto de luta por espaço e reconhecimento que surgiu a ideia de dar aulas de skate e, por conseguinte, em 2016, foi desenvolvido o Projeto Skate Poético. Nesta época, Nando explica que estava escrevendo com frequência poesias e também frequentando Saraus de “poesias periféricas” em seu bairro; e em função disso, embora a ideia ainda estivesse pouco madura, surgiu o objetivo de unir skate com a prática da leitura de poesias, visto que esse gênero dá mais liberdade e é mais fácil de ser trabalhado com crianças e adolescentes, pois permite ir além da norma culta da língua portuguesa (recurso conhecido como licença poética).

Na época, o projeto já contava com oficinas de customização de skates, rodas de conversa, saraus e pequenos campeonatos de skate. Contudo, as atividades aconteciam de maneira muito esporádica. Foi somente em 2017 que o projeto começou a ter um calendário organizado. Isso ocorreu quando Kevin Nascimento da Silva (skatista e professor de História no município) passou a integrar o projeto Skate Poético e, com a sua ajuda, foi possível revisar o projeto original e incluir mais oficinas, como a de mercenária e de produção de “shapes sustentáveis”, essa última ainda em fase de experimentação. Neste mesmo ano, logo após a entrada de Kevin, Rafael Souza Alves Diniz (skatista e também professor de História do município) se voluntariou a participar, fechando a equipe atual. De lá para cá, o projeto amadureceu, expandiu e conseguiu se sustentar com periodicidade e um bom número de participantes fixos.

Atualmente, Nando conta que ainda utilizam a quadra poliesportiva do CEU Três Pontes para as aulas de skate, rodas de conversa, leitura e interpretação de textos, sendo que o projeto passou a contar também com oficinas de marcenaria (em que os alunos aprendem a construir seus próprios obstáculos de skate); oficinas de customização de lixas (na qual os alunos aprendem a criar estêncil com uso de ferramentas manuais e digitais); oficinas de fabricação de shapes sustentáveis, jogos e brincadeiras.

Sobre os desafios atuais para a continuidade deste projeto, Nando explica que como se trata de um projeto independente e que atua no extremo leste da periferia de São Paulo, eles não contam com nenhum apoio governamental, nenhuma política de fomento ao esporte, lazer e educação e nem com recursos privados. Evidentemente, em virtude disso, eles tem algumas dificuldades, sobretudo para a aquisição dos utensílios próprios de skate, como shapes, rodas e equipamentos de segurança, pois aos poucos, os skates montados com peças usadas já não são mais suficientes para atender a demanda crescente de novos alunos. Em razão disso, ele explica que separam os alunos em grupos, de acordo com a idade e nível de habilidade, e fazem um rodízio para o uso dos skates. Também faltam livros suficientes e significativos para atividades de leitura e escrita, bem como materiais para atividades lúdico-recreativas. A maior parte dos materiais que usamos, explica Nando, como poemas impressos em papel sulfite, cones esportivos, bambolês, skates e equipamentos de segurança, são comprados com dinheiro do próprio bolso e/ou com rifas que organizamos junto à comunidade.

A falta de apoio prejudica, por exemplo, quando eles se organizam para fazer passeios às pistas de skate de outros bairros ou em museus, pois nem todos alunos conseguem ir, devido à falta de dinheiro para a passagem de trem e/ou ônibus. Por isso, este ano começaram a buscar informações de como formalizar e regularizar o projeto com o intuito de conseguir recursos públicos e/ou privados para a aquisição de skates, equipamentos de segurança, livros de poemas/poesias e outros materiais para a realização das demais atividades. Por esse motivo, recentemente responderam a um formulário realizado pela Confederação Brasileira de Skate e a ONG Social Skate, o qual tinha como objetivo mapear, conhecer e colaborar com ações sociais em todo Brasil que utilizam skate como ferramenta de inclusão social.

A seguir, apresentamos algumas fotos do Projeto Skate Poético cedidas e legendadas pelo próprio Nando e que estão disponíveis no Instagram @projetoskatepoetico de modo público.

Imagem 1: Oficina experimental no recreio do CEU Três Pontes.

 

Imagem 2: Aula de “tail drop” na rampa reta.

 

Imagem 3: Aluna do Projeto trabalha equilíbrio numa gangorra proprioceptiva.

 

Imagem 4: Aula de ‘rolamento’ (quedas) com skate.

Imagem 5: Roda de conversa sobre diversidade e respeito às diferenças

Para ajudar esse projeto com doação de livros, peças de skate, equipamentos de proteção e/ou ver mais fotos das atividades realizadas, siga e entre em contato com seus idealizadores através do Instagram @projetoskatepoetico


Futebol e narcotráfico III: as influências de Gonzalo Rodríguez Gacha, “El Mexicano”, no futebol do Millonarios

18/08/2020

 Eduardo de Souza Gomes                                                       eduardogomes.historia@gmail.com

Entre 2016 e 2017, publiquei dois textos neste espaço tratando sobre as relações possíveis existentes entre o futebol e o narcotráfico na Colômbia dos anos 1980. Em uma primeira iniciativa, problematizei algumas questões relacionadas a participação (ou não) de Pablo Escobar no futebol em Medellín. Já em uma segunda oportunidade, avancei para destacar algumas das questões que se relacionaram à inserção do cartel de Cali, liderado pelos irmãos Rodríguez Orejuela, no futebol da cidade.

Ambos os textos são iniciativas introdutórias de um projeto maior que aos poucos estou desenvolvendo, buscando assim problematizar historicamente e com maior profundidade as relações existentes entre o futebol e o narcotráfico na Colômbia, notadamente nos anos 1980.

Por ocasião da realização de minha tese de doutorado, defendida em junho deste ano em meio à pandemia e onde desenvolvi uma pesquisa com outra temática relacionada à História do Esporte (um estudo comparativo dos Jogos do Centenário de 1922 no Rio de Janeiro e dos Jogos Bolivarianos de 1938 em Bogotá), as investigações sobre o objeto de estudo proposto aqui hoje tinham sido temporariamente interrompidas. Porém, tal projeto está aos poucos sendo retomado. Depois de passar por Medellín e Cali, abordarei neste texto um pouco das possíveis relações existentes entre o futebol e o narcotráfico na cidade de Bogotá, capital da Colômbia e sede de dois dos principais clubes de futebol do país, o Millonarios e o Independiente Santa Fe.

De forma mais específica, serão problematizadas as influências de José Gonzálo Rodríguez Gacha, conhecido como “El Mexicano”, no âmbito do Millonarios. Como materialização do auge dessa influência, podemos destacar os títulos colombianos vencidos pela equipe do Millonarios em 1987 e 1988, destacado por boa parte da imprensa do país como resultado do grande investimento financeiro clandestino que o clube recebeu por parte do narcotraficante.

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Time do Millonarios que conquistou o bicampeão colombiano seguido em 1988. Foto: RUIZ BONILLA, 2008, p. 219.

Para chegarmos nesse encontro entre o narcotráfico e o clube, é válido destacar um pouco da biografia de El Mexicano, tal como sua inserção no mundo da venda de drogas na Colômbia entre as décadas de 1970 e 80.

Gonzalo Rodríguez Gacha nasceu no departamento colombiano de Cundinamarca, em 1947. Oriundo de uma família humilde de camponeses, desde cedo se envolveu em pequenos casos de crimes e furtos. Ficou caracterizado pela imprensa do país por ser considerado “violento e sanguinário”, tendo sido o provável autor e/ou mandante de vários homicídios. Por ser um apreciador assumido da cultura e vida mexicana, ficou conhecido como El Mexicano.

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Gonzalo Rodríguez Gacha, El Mexicano. Foto: Wikipedia

Gacha iniciou seus negócios no ramo de vendas de esmeraldas. Desde seus primórdios, já se envolveu em transações ilegais, camufladas por distintas formas de lavagem de dinheiro. Logo que seus negócios foram se ampliando, se inseriu também no âmbito do narcotráfico.

Foi um dos braços principais do cartel de Medellín, se estabelecendo como um dos maiores aliados de Pablo Escobar em Bogotá. Inclusive, no âmbito da defesa armamentista do cartel, exerceu papel de grande liderança e destaque no confronto contra inimigos do mercado do narcotráfico, como nos conflitos armados contra o cartel de Cali dos irmãos Rodríguez Orejuela, nos anos 1980.

No fim de sua vida, acabou se vendo em uma encruzilhada, tendo adentrado em quatro frentes de conflito no país: contra o Estado, o cartel de Cali, as FARC e algumas lideranças do mercado de esmeraldas. Acabou morto em 1989, em uma operação do Estado colombiano de enfrentamento ao cartel de Medellín.

Durante sua trajetória, acabou se utilizando de vários espaços para a realização de investimentos e/ou lavagem de dinheiro. Um deles foi o futebol. Gacha acabou se tornando um dos sócios majoritários de um dos maiores clubes do país, o Millonarios de Bogotá. Chegou ao clube em 1982, junto de Edmer Tamayo Marín, que chegou a ser presidente do clube e era muito próximo do famoso narcotraficante. Alberto Galviz Ramírez destaca que

Tamoyo […] morreu em 1986 depois que se vinculará ‘como proprietário de uma carga de 2.000 quilos de cocaína confiscados em setembro de 1982 e outra de 65 quilos confiscada em Barranquilla’. Por sua parte, Rodríguez Gacha, El Mexicano, importante patrão do narcotráfico e líder de “Los Extraditables” (em referência ao grupo de narcotraficantes colombianos que, juntos de Pablo Escobar, lutou contra a extradição para os Estados Unidos nos anos 1980) assumiu o comando do Millonarios em meados dos anos 80 e sua influência foi determinante para o destino do quadro azul. Destacadas figuras chegaram à formação da capital graças à inegável fonte de dinheiro que respaldava El Mexicano, o que permitiu que o Millonarios se coroasse campeão em 1987 e 1988 (GALVIS RAMÍREZ, 2008, p. 97-98, tradução nossa).

Entretanto, no decorrer dos anos 1990 e 2000, a temática do narcotráfico e o quanto essas figuras influenciaram em diversos setores sociais, dentre esses os clubes de futebol, passou a ser cada vez mais problematizada e negada por boa parte da sociedade colombiana. No caso do Millonarios, esse debate se tornou tão grande que, inclusive, surgiram movimentos que buscaram anular os títulos nacionais conquistados pela equipe em 1987 e 1988.

 É válido destacar que tais conquistas foram muito importantes naquele contexto para os torcedores, já que o clube passava por um jejum de nove anos sem conquistas (o último título nacional havia ocorrido em 1978), tal como permaneceu mais vinte e quatro anos sem títulos do Campeonato Colombiano depois do bicampeonato nos anos 1980, encerrando o jejum somente em 2012. Ou seja, em um intervalo de trinta e quatro anos (1978 a 2012), as únicas conquistas do Millonarios, então maior campeão nacional, foram os títulos conquistados no período de influência de Gacha e companhia.

Felipe Gaitán, então presidente do Millonarios em 2012, admitiu na época que poderia “devolver” os títulos de 1987 e 1988, se assim determinasse a justiça em caso de confirmação do envolvimento financeiro do narcotráfico no âmbito do clube durante esse período. A decisão acabou não se materializando, mas dividiu parte da torcida. Fato é que, depois dessa iniciativa, mesmo no cenário recente da atual década e com vários debates acerca da importância de se combater e negar os horrores cometidos outrora pelo narcotráfico, bandeiras estampando o rosto de Gacha foram levantadas em algumas ocasiões por parte dos torcedores do Millonarios nos estádios, como podemos ver abaixo.

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El Mexicano virou até bandeirão em parte da torcida do Millonarios. Foto: https://doentesporfutebol.com.br/2015/09/historia-do-futebol-colombiano-a-era-dos-narcos/

Em 2012 residi alguns meses em Medellín, durante um período de graduação sanduíche que realizei no âmbito da Universidad de Antioquia. Na ocasião, tive como principal objetivo a investigação de fontes para o trabalho que, posteriormente, resultaria em meu primeiro livro lançado em 2014, intitulado El Dorado: efeitos do profissionalismo no futebol colombiano (1948-1951)”. A grande coincidência ficou por parte do título do Millonarios no torneio finalización do Campeonato Colombiano de 2012, considerando que era também el Ballet Azul a principal equipe do período em que pesquisei nos anos El Dorado do futebol colombiano, quando o clube contava em seu elenco com craques do quilate dos argentinos Alfredo Di Stéfano, Adolfo Pedernera e Néstor Rossi.

Pude vivenciar de perto a conquista de um título colombiano da equipe depois de vinte e quatro anos. E além da ansiedade pela conquista, notória em grande parte de seus torcedores no decorrer do percurso, uma questão me chamou a atenção: a possibilidade de anulação das taças de 1987 e 1988, dividiu muito os próprios torcedores do Millonarios. Uma boa parte da hinchada azul se colocou como favorável a essa anulação, para assim se desvincularem dessa “mancha” na história do clube. Por outro lado, também tiveram muitos torcedores que se posicionaram como contrários à anulação, pois entendiam que o Millonarios foi, assim como outros clubes colombianos do período, fruto de uma influência muito mais ampla do narcotráfico no âmbito social, político e econômico daquele contexto, presente em toda a Colômbia.

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Equipe do Millonarios campeão colombiano em 2012. Foto: https://especiales.semana.com/especiales/millonarios-campeon/index.html

É válido destacar, como demonstrado nos textos anteriores aqui já citados (Parte I e Parte II), que de fato a influência do narcotráfico foi muito além da equipe do Millonarios e, de forma mais geral, do futebol colombiano. Esteve presente na maior parte dos setores da sociedade colombiana entre os anos 1970 e 1990, com foco maior na década de 1980.

Porém, clube gigante que é e que já possuía uma grande história anterior a esse período, como nos tempos do El Dorado do futebol colombiano (tema que já abordei em vários outros trabalhos, tendo resultado em dois livros: o já citado “El Dorado” e “A invenção do profissionalismo no futebol”), o Millonarios sobreviveu ao período de influência do narcotráfico e foi muito além do título de 2012. Desde então, a equipe já conquistou o maior título nacional do país em outra oportunidade, no ano de 2017, além de ter ganho a Copa Colombia em 2011, a Superliga da Colombia em 2018 e títulos internacionais, como a Copa Merconorte, em 2001. O narcotráfico deixou marcas, mas o futebol colombiano seguiu e continuará seguindo em frente.

 

Referências Bibliográficas

GOMES, Eduardo de Souza. Futebol e narcotráfico: uma releitura do caso de Pablo Escobar na Colômbia. Blog História(s) do Sport. 2016. Disponível em: <https://historiadoesporte.wordpress.com/2016/08/22/futebol-e-narcotrafico-uma-releitura-do-caso-de-pablo-escobar-na-colombia/>. Acesso em 17 de agosto de 2020.

_______. Futebol e narcotráfico II: uma breve análise da influência do cartel de Cali no futebol do América. Blog História(s) do Sport. 2017. Disponível em: <https://historiadoesporte.wordpress.com/2017/01/23/futebol-e-narcotrafico-ii-uma-breve-analise-da-influencia-do-cartel-de-cali-no-futebol-do-america/>. Acesso em 17 de agosto de 2020.

GONZALO RODRÍGUEZ GACHA, ‘El Mexicano’: esse fantasma que pasó por Millonarios. Gol Carocol TV. 20 de maio de 2013. Disponível em: <https://gol.caracoltv.com/informacion-general/gonzalo-rodriguez-gacha-el-mexicano-ese-fantasma-que-paso-por-millonarios>. Acesso em 14 de agosto de 2020.

PEREIRA, Ivan Alves. História do futebol colombiano: a Era dos Narcos. Doentes por Futebol. 2015. Disponível em: <https://doentesporfutebol.com.br/2015/09/historia-do-futebol-colombiano-a-era-dos-narcos/>. Acesso em 14 de agosto de 2020.

RAMÍREZ, Alberto Galvis. 100 años de fútbol en Colombia. Bogotá: Planeta, 2008.

RUIZ BONILLA, Guillermo. La gran historia del fútbol profesional colombiano: 60 años de logros, hazañas y grandes hombres. Bogotá: Ed. DAYSCRIPT, 2008.

 


À procura do Prado Guarany

06/06/2020

Por Victor Andrade de Melo

Este post é um resumo de um artigo que escrevi com o amigo André Chevitarese. Utilizamos como metodologia a “arqueologia da paisagem”. Nosso intuito era descobrir onde se encontrava o Prado Guarany, um hipódromo de características mais populares que houve no Rio de Janeiro do século XIX. A versão completa do artigo está aqui: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742020000100402&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

No Rio de Janeiro, os hipódromos foram as primeiras instalações esportivas. Em 1849, quando foi instituída a primeva agremiação esportiva da cidade, o Club de Corridas, construiu-se o Prado Fluminense, localizado entre os bairros de São Francisco Xavier e Benfica. Posteriormente, foram construídos novos hipódromos, todos nos anos 1880: o Prado Vila Isabel (ocupado pelo Club de Corridas de Vila Isabel e pelo Derby Fluminense), o Prado Itamaraty (do Derby Club), os do Turf Club e do Hipódromo Nacional. Além desses, houve um mais modesto, o Prado Guarany, instalado na Praia Formosa/Vila Guarany, uma pequena região da cidade espremida entre o Santo Cristo e São Cristóvão.

Os mapas da cidade registraram somente a existência de quatro prados. Em vermelho, está marcado o do Jockey Club, onde hoje se encontra o conjunto habitacional Bairro Carioca, antes a Cidade Light, bem próximo do Hospital Central do Exército. Em azul, vê-se o hipódromo do Turf Club; atualmente há no local a Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Em laranja, o prado do Derby Club, exatamente onde está construído o Maracanã. Em verde, o Hipódromo Nacional; hodiernamente, uma parte é ocupada pela Praça Afonso Pena. Em lilás, identifica-se a área onde poderia se encontrar o Prado Guarany. Os periódicos faziam referência à Praia Formosa e Vila Guarany, mas não definiam sua localização exata.

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GREINER, Ulrik. Planta da Cidade do Rio de Janeiro e dos Subúrbios, 190?

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A Vila Guarany deixou poucos registros na cartografia. Somente encontramos referência ao bairro em dois mapas consultados: um do início dos anos 1900 (figura 12) e outro de 1910 (figura 13), esse último já com o novo porto e o Canal do Mangue construídos. Em vermelho, se vê a identificação da região. Em azul, para fins de localização, se observa o Campo de Santana.

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GREINER, Ulrik. Planta da Cidade do Rio de Janeiro e dos Subúrbios, 1900.

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MATOS, Francisco Jaguaribe Gomes de. Planta da Cidade do Rio de Janeiro: obedecendo à divisão da cidade em Distritos Municipais, 1910.

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Onde nessa região ficava o Prado Guarany? Para descobrir, cruzamos informações obtidas em periódicos, iconografias (obras de arte e fotografias), mapas e trabalhos de campo – visitas etnográficas realizadas para identificar permanências no espaço. Tendo em conta esses dados, vejamos o mapa a seguir.

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MASCHEK, E. de. Planta da Cidade do Rio de Janeiro e de Uma Parte dos Subúrbios. [entre 1885 e 1905].

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Vejamos as identificações. Em lilás, trata-se da área onde havia o Matadouro. Em azul escuro, as ruas Mello e Souza e Francisco Eugênio. Em amarelo, os cinco morros das redondezas. Em rosa, o atual Campo de São Cristóvão (na ocasião Praça Pedro I). As linhas verdes demarcam os rios Joana e Maracanã. O círculo laranja é a Estação Praia Formosa. Em azul claro, o Canal do Mangue. A seta laranja marca a direção da Quinta da Boavista. Os círculos verdes marcam a antiga Ponte dos Marinheiros, a passagem férrea e a ligação da Praia Formosa com a Francisco Eugênio.

Assim sendo, em vermelho, temos os quatro possíveis locais do Prado Guarany. Num mapa posterior, vemos a região numa conformação mais próxima da atual. A possível área do hipódromo está marcada em vermelho. Ainda não é possível ser peremptório na definição da sua localização.

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GREINER, Ulrik. Planta da Cidade do Rio de Janeiro e Subúrbios [190-?]

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Em mapas de 1910, 1913 e da década de 1920, permanece a imprecisão. Vamos apresentar apenas o último, no qual se exibe um cenário bem próximo do atual, em que já está construída a Estação Leopoldina (identificada como Estação Praia Formosa). Os possíveis locais do Prado estão marcados em vermelho.

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Rio de Janeiro: Parte Central da Cidade. [192-]

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Na imagem a seguir, captada a partir do Google View, simulamos o que haveria nos dias atuais nos possíveis locais do antigo hipódromo.

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Aspecto atual dos possíveis locais do antigo Prado Guarany, Google View, 2018

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Com essas imagens e informações em mãos, fizemos uma nova visita etnográfica. A intenção era ver, no terreno, como poderiam nos conceder mais de precisão na busca pela localização do hipódromo. Caminhamos pelos quarteirões da antiga Vila Guarany e áreas possíveis do Prado, fazendo simulações de medidas e composições de espaço.

Com essa visita, foi possível rever o que pensávamos ao acessar somente a cartografia e as informações de periódicos. A imagem a seguir, apresenta de forma mais consolidada o que pensamos ser a localização do Prado Guarany. Trata-se de um modelo especulativo a ser checado em fases futuras do projeto.

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MASCHEK, E. de. Planta da Cidade do Rio de Janeiro e de Uma Parte dos Subúrbios [entre 1885 e 1905].

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As linhas vermelhas demarcam uma possível delimitação do espaço do Prado, tendo em conta as medidas apresentadas nos periódicos e o que conseguimos checar nos trabalhos de campo. Sugerimos em azul as possíveis entradas do hipódromo. Em verde, identificamos possíveis locais das arquibancadas. Em lilás, o possível espaço da pista e do lago central. Perceba-se, então, que o hipódromo teria sido instalado na grande área vazia onde havia o Matadouro. Na imagem a seguir, captada do Google View, vemos o que hoje se encontra na área.

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Como podemos ver, o hipódromo provavelmente se encontrava nas atuais instalações da Estação Barão de Mauá/Leopoldina. Mesmo que tenhamos que considerar que a área sofreu várias obras no decorrer do tempo, a existência de áreas livres nos parece estimulante para dar sequência à investigação.

A arqueologia da paisagem que nos propusemos a realizar, portanto, parece ter logrado êxito, apresentando-nos possíveis locais para a promoção de prospecções arqueológicas cujo intuito será buscar vestígios materiais que nos ajudem a definir com maior precisão o local do Prado, bem como vislumbrar algo dos costumes esportivos daquele tempo.

A preparação das escavações já está em curso, contando também com a participação do arqueólogo Leonardo Amatuzzi. Certamente, os dados advindos dessas prospecções arqueológicas serão tema para outro estudo.

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Os primórdios do automobilismo fluminense: o caso da Corrida de São Gonçalo

16/03/2020

Por Eduardo Gomes  

eduardogomes.historia@gmail.com

Os últimos dias estão sendo difíceis no Brasil e no mundo, devido as ameaças globais da pandemia gerada pelo Coronavírus (Covid-19). Nesse cenário, peço licença para hoje escrever sobre um acontecimento que marcou os primórdios do campo esportivo fluminense no início do século XX, naquela que foi considerada a primeira corrida automobilística ocorrida no estado do Rio de Janeiro. Se hoje diversos eventos esportivos mundo a fora, estão sendo cancelados devido as ameaças do vírus, em 1909 a corrida aqui retratada foi um marco na região. Historicamente, tal fenômeno ficou conhecido como a “Corrida de São Gonçalo”, por ter ocorrido no munícipio homônimo que fica na região metropolitana da cidade do Rio de Janeiro que, naquela época, se tratava do Distrito Federal do Brasil.

Os automóveis chegaram ao Brasil na transição do século XIX para o XX. Mas quando o automobilismo se consolidou enquanto uma prática esportiva? Quando e onde ocorreu a primeira corrida do país? Quais cidades foram percussoras no desenvolvimento dessa prática esportiva em terras brasileiras?

É normal, ao realizar tais questionamentos, que os nomes das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, apareçam no imaginário relacionado aos primórdios de tal prática. Afinal, foram nessas duas cidades que o uso de automóveis começou a se disseminar com maior força pelo país. A chegada do Peugeot do “pai da aviação” Santos Dumont, que chegou no Porto de Santos em 1891; e do Serpolet de José do Patrocínio, desembarcado no Rio de Janeiro em 1895, explicitam o pioneirismo das duas localidades (MELO; PERES, 2016, p. 102).

No geral, o automobilismo enquanto esporte se desenvolveu com mais força no decorrer do século XX, apesar de já ter uma considerável importância na parte final do século XIX. As competições pioneiras da modalidade foram realizadas na Europa, ainda na década de 1890. E querendo inserir o Brasil nesse cenário de modernidade, essa “moda da velocidade” também chegou em terras tupiniquins.

Em 1908, ocorreu a primeira grande aventura com automóveis no país, com um percurso longo que ia do Rio de Janeiro até São Paulo. O francês Conde Lesdain o percorreu por completo pilotando um Brasier, modelo muito requisitado na época. Depois de 35 dias, conseguiu completar o trajeto. Para os espectadores daquele contexto, esse foi um grande marco para o desenvolvimento de corridas e para o avanço do uso de automóveis no país.

A primeira corrida organizada no Brasil, teve também São Paulo como espaço pioneiro. Trata-se do Circuito de Itapecerica, que ocorreu com a tutela do Automóvel Clube de São Paulo, criado em 1908. Itapecerica da Serra é um município da região metropolitana de São Paulo. Em mais de 70 quilômetros de percurso, seus competidores foram da cidade de São Paulo, de onde partiram do Parque Antártica, até Itapecerica da Serra, para então regressarem ao ponto inicial. Essa organização fez com que esse circuito ganhasse destaque como sendo a primeira grande prova “oficial” do automobilismo na história brasileira.

Na cidade do Rio de Janeiro, desde 1907, já havia sido criado o Automóvel Clube do Brasil, onde se iniciaram debates para, também, realizarem um circuito de corrida similar ao que ocorreu em São Paulo. Inicialmente, a proposta era de realizar o percurso dentro da própria cidade do Rio de Janeiro. Porém, uma série de fatos fizeram com que essa ideia fosse inviabilizada e o percurso da primeira corrida pensada na capital federal, foi transferido para uma cidade vizinha, a “novata” São Gonçalo, que em 22 de setembro de 1890 havia se emancipado de Niterói, então capital da província do Rio de Janeiro.

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A imagem em questão foi publicada no periódico Careta, na edição de 25 de novembro de 1909, representando parte do circuito da “Corrida de São Gonçalo”. Também pode ser encontrada na obra “Primórdios do esporte no Brasil: Rio de Janeiro” (2016, p. 107), escrita por Victor Andrade de Melo e Fabio de Faria Peres.

O interesse dos organizadores era, inicialmente, o de realizar a corrida no Alto da Boa Vista. Porém, tal hipótese foi logo descartada. Após as autoridades municipais, durante o governo do então prefeito Souza Aguiar no Rio de Janeiro, proibirem as corridas na localidade, os idealizadores da prova enxergaram na cidade de São Gonçalo uma fértil opção para realizarem o grande evento (MELO; PERES, 2016, p. 106).

A escolha de São Gonçalo como sede da primeira corrida em terras fluminenses, se deu por distintos motivos. Além da geografia favorável, ainda marcada por características bem mais rurais do que as vizinhas Rio de Janeiro e Niterói, o desenvolvimento industrial ocorrido na virada do século XIX para o XX, fez com que a cidade pudesse ser entendida como um espaço propício para a simbólica corrida, considerando o cenário de modernidade em que buscavam enquadrar tal evento.

A região de Neves, por exemplo, formava com outras adjacentes, como o bairro do Barreto em Niterói, o espaço que ficou conhecido no imaginário social como “Manchester Fluminense”. Notadamente, esse termo foi utilizado para representar a grande estrutura industrial e fabril desenvolvida naquele território, fazendo referência a cidade britânica famosa mundialmente por seu polo industrial. É óbvio que tais discursos possuem um teor ufanista e que, muitas das vezes, exacerbam a própria realidade local (REZNIK, 2002, p. 2).  Todavia, foi esse imaginário construído, a partir do avanço industrial ocorrido em Neves, que fez com que a região fosse cogitada como um espaço propício para a realização da corrida.

Sendo ou não a “Manchester Fluminense”, a relação que a região tinha naquele período com um determinado padrão de modernidade e tecnologia, ligados a questão das industriais, fez com que São Gonçalo pudesse se tornar o centro daquela que ficou conhecida como a “primeira corrida de automóveis em terras fluminenses”. De forma equivocada, alguns periódicos e escritores memorialistas da época, inclusive, diziam ser essa a “primeira corrida de automóveis do Brasil”, ignorando o já aqui citado Circuito de Itapecerica, ocorrido no ano anterior em São Paulo. O fato é que, sendo a primeira ou segunda corrida em âmbito nacional, o circuito gonçalense mexeu com o imaginário e referendou fortes identidades na cidade e regiões adjacentes, em um cenário ainda fértil e propício para a construção de diferentes símbolos locais que, em muitas situações, se tornavam nacionais.

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Imagem publicada no periódico Careta, Ed. 69, p. 13. Rio de Janeiro, 25 de setembro de 1909. Fonte: “Primórdios do esporte no Brasil: Rio de Janeiro” (2016, p. 105), livro escrito por Victor Andrade de Melo e Fabio de Faria Peres.

O percurso da corrida foi ousado. Totalizando 72 km, o trajeto vencido por Gastão de Almeida se iniciou no bairro industrial de Neves, mas percorreu quase toda a cidade, tendo seus competidores passado pelas regiões do Alcântara, Pacheco, Sacramento, Monjolos, Laranjal, entre outras. Percorreram, inclusive, a Estrado do Engenho Novo, passando pela famosa “Fazenda do Engenho Novo”. (1)

 “Mesmo sendo realizada em local distante, a corrida contou com bom público e teve grande repercussão, graças à ampla cobertura da imprensa. (2) Foi uma expressão de como o automóvel vivia um primeiro momento de popularidade na cidade, já assumindo uma função simbólica notável. As competições exponenciavam essa representação, deixando ainda mais claras as noções de desafio, aventura e velocidade” (MELO; PERES, 2016, p. 107).

O imaginário identitário acerca da memória dessa corrida, permanece no município até os dias atuais. Uma constatação do mantimento de tal memória, foi a inauguração de um monumento em 2009, no próprio bairro de Neves, que faz menção ao centenário da referida corrida, tendo sido essa a principal forma de reviver esse evento tão marcante na história da cidade, que ficou conhecida como o “berço do automobilismo fluminense”.

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Monumento que faz referência ao centenário da Corrida de São Gonçalo (1909-2009). Neves, São Gonçalo/RJ Fonte: https://simsaogoncalo.com.br/sao-goncalo/voce-sabia-que-2a-corrida-oficial-de-automoveis-do-brasil-foi-em-sao-goncalo/

PS: A base deste texto foi publicada originalmente em 24/11/2018, nas páginas do projeto “História Fluminense: Patrimônio, Memória e Educação”: http://historiafluminense.org/2018/11/25/a-corrida-de-sao-goncalo-primordios-do-automobilismo-brasileiro-em-terras-fluminenses-1-2/ e https://www.facebook.com/historiafluminense/photos/pb.351048125067306.-2207520000../1017792331726212/?type=3&theater

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NOTAS:

 (1) “O antigo Engenho do Novo Retiro pertenceu a diversos donos até 1830, quando foi adquirido por Belarmino Ricardo de Siqueira – Barão de São Gonçalo.

A Fazenda possui um conjunto arquitetônico em estilo neoclássico. Foi um dos principais trajetos da 2ª corrida automobilística do Brasil em 1909 e também serviu de cenário para as gravações da minissérie “Memorial de Maria Moura”, produzida pela Rede Globo.

Há lendas de que a fazenda foi palco de uma visita da Família Imperial, por volta de 1870, devido à amizade do Barão com o Imperador D. Pedro II.  O conjunto abandonado à própria sorte, não resistiu ao descaso e ruiu no início dos anos 2000.”

Maiores informações, ver: http://saogoncaloturismo.com.br/project/fazenda-engenho-novo/ Acesso em 15 de março de 2020.

(2) É interessante perceber a mobilização social que a corrida provocou, tendo aglomerado grande público, inclusive de mulheres, que nesse contexto ainda não se inseriam nas práticas esportivas como participantes, mas faziam parte dos eventos e das formas de sociabilidade provocadas por esses, na posição de espectadoras.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MELO, Victor Andrade de; PERES, Fabio de Faria. Primórdios do esporte no Brasil: Rio de Janeiro. Manaus: Reggo Edições, 2016.

REZNIK, Luís. Qual o lugar da História Local? In: V Taller Internacinal de Historia Regional y Local. Havana – Cuba, 2002.

 

 

 


Publicado novo número de Recorde: Revista de História do Esporte

01/02/2020

Em dezembro foi publicado o número mais recente de Recorde: Revista de História do Esporte – confira abaixo o sumário. Com ele completaram-se doze anos de publicação contínua da primeira revista da América Latina dedicada à História do Esporte e das Práticas Corporais Institucionalizadas. O periódico recebe artigos e resenhas em fluxo contínuo.

 

v. 12, n. 2 (2019)

Sumário

Artigos

Leonardo Brandão, Giancarlo Marques Carraro Machado
Onésimo Rodríguez Aguilar, Luis Diego Soto Kiewit, Cindy Zúñiga Valerio
Juliana Carneiro
Kelen Katia Prates Silva
Tiago Sales de Lima Figueiredo
Narayana Astra van Amstel, Carlos Alberto Bueno dos Reis Júnior, Leonardo do Couto Gomes, Ricardo João Sonoda Nunes
Ivo Lopes Müller Junior, André Mendes Capraro
Everton de Souza da Silva
Samuel Ribeiro dos Santos Neto, Edivaldo Góis Junior
Rogério Othon Teixeira Alves, Georgino Jorge de Souza Neto, Luciano Pereira da Silva
Luiz Antonio C. Norder

Resenhas

Mariana de Paula, Letícia Cristina Lima Moraes, Leonardo do Couto Gomes, Marcelo Moraes e Silva
Leonardo do Couto Gomes, Duilio Queiroz de Almeida, Marcelo Moraes e Silva
Miguel Archanjo de Freitas Junior, Edilson de Oliveira, Tatiane Perucelli, Bruno Pedroso

Primeiros esportes em Manaus

09/12/2019

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

A partir dos últimos anos do século 19, surgem em Manaus os primeiros clubes esportivos da cidade. O início dos esportes em Manaus coincide com o apogeu das atividades de extração e exportação de borracha na região, em que fortunas foram geradas. Nessa época, dizia-se que em Manaus e em Belém lavava-se roupas em lavanderias de Paris e acendia-se charutos com notas de dólar – em dizeres que tentavam ostentar a riqueza obtida com a produção e comercialização da borracha. De fato, a nova riqueza foi ostensivamente exibida pelas elites locais. Exibir-se para visitantes estrangeiros como civilizados e em sintonia com os costumes de países considerados mais modernos fazia parte das motivações para a assimilação de esportes.

Nesse contexto, mais de 30 clubes esportivos dedicados a diferentes modalidades foram criados em Manaus entre os últimos anos do século 19 e o final da primeira década do século 20. Esgrima, críquete, tênis, remo, turfe, ciclismo e futebol estiveram entre as modalidades praticadas nesses clubes. O ciclismo, em particular, foi a primeira modalidade a se notabilizar como um espetáculo público em Manaus.

Em 1898 foi criado o Grupo Ciclista Amazonense, que a partir de então organizou passeios e corridas de bicicletas na cidade. Seu presidente era Joaquim da Costa Soares, comerciante português, tesoureiro da Sociedade Beneficente Portuguesa e proprietário da Casa Havaneza, uma loja que vendia produtos variados. O primeiro indício documental sobre uma corrida organizada pelo Grupo Cyclista Amazonense data de julho de 1898. Tratou-se de uma corrida com 7 páreos, realizada numa construção especialmente edificada para esse fim, na Praça General Osório, que seria conhecido então como “Velódromo Nacional”.

ciclismo

Fotografia de corrida de bicicleta em Paris, publicada em jornal esportivo de Manaus (1916). Fonte: Correio Sportivo, Manaus, 23 de abril de 1916, n. 5, p. 1. Citado por SOUZA, Eliza Salgado de. Panorama do esporte em Manaus, 1897-1911. Dissertação (Mestrado em Estudos do Lazer). Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2017, p. 56. link

Não sabemos ao certo o que aconteceu com o Velódromo e com o Grupo Cyclista Amazonense a partir de 1900. Parece razoável supor que esse velódromo tenha sido desativado em algum momento entre 1900 e 1903 ou 1904. A partir dessa época, inicia-se a construção de um novo velódromo, já em outro ponto da cidade. Manaus não possuía um mercado consumidor suficientemente grande para sustentar dois espaços destinados à oferta do mesmo gênero de espetáculos. O novo velódromo, conhecido como “Velódromo Amazonense”, “Velódromo da Manaus Sport” ou “Velódromo da Cachoeirinha”, situado na Praça Visconde do Rio Branco, no bairro da Cachoeirinha, funcionou com relativo sucesso até por volta de 1907. Nessa época, a inauguração de um novo espaço para oferta de espetáculos esportivos na cidade parece ter inviabilizado a continuidade deste velódromo.

Entre 1907 e 1910, aproximadamente, o Prado Amazonense, dedicado a corridas de cavalo roubou a cena esportiva de Manaus, até que o surgimento dos primeiros clubes e campeonatos de futebol ganharam grande entusiasmo popular. Desde então, como é o caso de todas as cidades do Brasil, o futebol tem sido o esporte mais popular também em Manaus.