SKATE POÉTICO: UM PROJETO SOCIAL NA PERIFERIA DE SÃO PAULO/SP

03/09/2020

Por Leonardo Brandão

(Historiador/FURB)

Skate e Poesia podem andar – ou deslizar – juntos! Esta é a ideia de um projeto social surgido de um skatista, professor de Educação Física e morador do Jardim Romano, na periferia da cidade de São Paulo. Seu nome é Nanderson Silveira dos Santos, mais conhecido como Nando. Segundo ele, o Projeto Skate Poético (PROSKAP) começou no ano de 2016, inicialmente com a ideia de oferecer aulas de skate e produção de poesias para crianças e adolescentes do Jardim Romano, bairro carente situado no extremo leste da periferia de São Paulo.

Nando explica que, para entendermos melhor a gênese deste projeto, é necessário retornar alguns anos no tempo, ou melhor, ao ano de 2004.  Pois foi neste ano que ocorreu as eleições para a prefeitura de São Paulo, sendo que a atual prefeita à época, Marta Suplicy, prometeu, caso fosse reeleita, a construção do Centro Educacional Unificado (CEU) Três Pontes, no bairro Jardim Romano. Entretanto, esse fato não se consolidou naquele momento em função da vitória do candidato da oposição, José Serra (PSDB). Mesmo assim, essa promessa, segundo ele, fez surgir o sonho de uma pista de skate no local, uma vez que todos CEUs construídos pelas administrações petistas contavam com pistas de skate em suas dependências.

Passados quatro anos, no dia 31 de agosto de 2008, fora inaugurado o CEU Três Pontes, sob a administração do vice de Serra, Gilberto Kassab (DEM), mas sem nenhuma pista de skate. A partir dessa conjuntura, surgiu um movimento dos skatistas locais com o objetivo de reivindicar um espaço qualquer para à prática do skate na região. Porém, somente em 2014, depois de muito diálogo e insistência, foi cedido pela diretoria do CEU Três Pontes uma quadra poliesportiva e um espaço para guardar os obstáculos de skate (rampas, “caixote”, corrimãos etc.) feitos de madeira.

Assim, foi nesse contexto de luta por espaço e reconhecimento que surgiu a ideia de dar aulas de skate e, por conseguinte, em 2016, foi desenvolvido o Projeto Skate Poético. Nesta época, Nando explica que estava escrevendo com frequência poesias e também frequentando Saraus de “poesias periféricas” em seu bairro; e em função disso, embora a ideia ainda estivesse pouco madura, surgiu o objetivo de unir skate com a prática da leitura de poesias, visto que esse gênero dá mais liberdade e é mais fácil de ser trabalhado com crianças e adolescentes, pois permite ir além da norma culta da língua portuguesa (recurso conhecido como licença poética).

Na época, o projeto já contava com oficinas de customização de skates, rodas de conversa, saraus e pequenos campeonatos de skate. Contudo, as atividades aconteciam de maneira muito esporádica. Foi somente em 2017 que o projeto começou a ter um calendário organizado. Isso ocorreu quando Kevin Nascimento da Silva (skatista e professor de História no município) passou a integrar o projeto Skate Poético e, com a sua ajuda, foi possível revisar o projeto original e incluir mais oficinas, como a de mercenária e de produção de “shapes sustentáveis”, essa última ainda em fase de experimentação. Neste mesmo ano, logo após a entrada de Kevin, Rafael Souza Alves Diniz (skatista e também professor de História do município) se voluntariou a participar, fechando a equipe atual. De lá para cá, o projeto amadureceu, expandiu e conseguiu se sustentar com periodicidade e um bom número de participantes fixos.

Atualmente, Nando conta que ainda utilizam a quadra poliesportiva do CEU Três Pontes para as aulas de skate, rodas de conversa, leitura e interpretação de textos, sendo que o projeto passou a contar também com oficinas de marcenaria (em que os alunos aprendem a construir seus próprios obstáculos de skate); oficinas de customização de lixas (na qual os alunos aprendem a criar estêncil com uso de ferramentas manuais e digitais); oficinas de fabricação de shapes sustentáveis, jogos e brincadeiras.

Sobre os desafios atuais para a continuidade deste projeto, Nando explica que como se trata de um projeto independente e que atua no extremo leste da periferia de São Paulo, eles não contam com nenhum apoio governamental, nenhuma política de fomento ao esporte, lazer e educação e nem com recursos privados. Evidentemente, em virtude disso, eles tem algumas dificuldades, sobretudo para a aquisição dos utensílios próprios de skate, como shapes, rodas e equipamentos de segurança, pois aos poucos, os skates montados com peças usadas já não são mais suficientes para atender a demanda crescente de novos alunos. Em razão disso, ele explica que separam os alunos em grupos, de acordo com a idade e nível de habilidade, e fazem um rodízio para o uso dos skates. Também faltam livros suficientes e significativos para atividades de leitura e escrita, bem como materiais para atividades lúdico-recreativas. A maior parte dos materiais que usamos, explica Nando, como poemas impressos em papel sulfite, cones esportivos, bambolês, skates e equipamentos de segurança, são comprados com dinheiro do próprio bolso e/ou com rifas que organizamos junto à comunidade.

A falta de apoio prejudica, por exemplo, quando eles se organizam para fazer passeios às pistas de skate de outros bairros ou em museus, pois nem todos alunos conseguem ir, devido à falta de dinheiro para a passagem de trem e/ou ônibus. Por isso, este ano começaram a buscar informações de como formalizar e regularizar o projeto com o intuito de conseguir recursos públicos e/ou privados para a aquisição de skates, equipamentos de segurança, livros de poemas/poesias e outros materiais para a realização das demais atividades. Por esse motivo, recentemente responderam a um formulário realizado pela Confederação Brasileira de Skate e a ONG Social Skate, o qual tinha como objetivo mapear, conhecer e colaborar com ações sociais em todo Brasil que utilizam skate como ferramenta de inclusão social.

A seguir, apresentamos algumas fotos do Projeto Skate Poético cedidas e legendadas pelo próprio Nando e que estão disponíveis no Instagram @projetoskatepoetico de modo público.

Imagem 1: Oficina experimental no recreio do CEU Três Pontes.

 

Imagem 2: Aula de “tail drop” na rampa reta.

 

Imagem 3: Aluna do Projeto trabalha equilíbrio numa gangorra proprioceptiva.

 

Imagem 4: Aula de ‘rolamento’ (quedas) com skate.

Imagem 5: Roda de conversa sobre diversidade e respeito às diferenças

Para ajudar esse projeto com doação de livros, peças de skate, equipamentos de proteção e/ou ver mais fotos das atividades realizadas, siga e entre em contato com seus idealizadores através do Instagram @projetoskatepoetico


Futebol e narcotráfico III: as influências de Gonzalo Rodríguez Gacha, “El Mexicano”, no futebol do Millonarios

18/08/2020

 Eduardo de Souza Gomes                                                       eduardogomes.historia@gmail.com

Entre 2016 e 2017, publiquei dois textos neste espaço tratando sobre as relações possíveis existentes entre o futebol e o narcotráfico na Colômbia dos anos 1980. Em uma primeira iniciativa, problematizei algumas questões relacionadas a participação (ou não) de Pablo Escobar no futebol em Medellín. Já em uma segunda oportunidade, avancei para destacar algumas das questões que se relacionaram à inserção do cartel de Cali, liderado pelos irmãos Rodríguez Orejuela, no futebol da cidade.

Ambos os textos são iniciativas introdutórias de um projeto maior que aos poucos estou desenvolvendo, buscando assim problematizar historicamente e com maior profundidade as relações existentes entre o futebol e o narcotráfico na Colômbia, notadamente nos anos 1980.

Por ocasião da realização de minha tese de doutorado, defendida em junho deste ano em meio à pandemia e onde desenvolvi uma pesquisa com outra temática relacionada à História do Esporte (um estudo comparativo dos Jogos do Centenário de 1922 no Rio de Janeiro e dos Jogos Bolivarianos de 1938 em Bogotá), as investigações sobre o objeto de estudo proposto aqui hoje tinham sido temporariamente interrompidas. Porém, tal projeto está aos poucos sendo retomado. Depois de passar por Medellín e Cali, abordarei neste texto um pouco das possíveis relações existentes entre o futebol e o narcotráfico na cidade de Bogotá, capital da Colômbia e sede de dois dos principais clubes de futebol do país, o Millonarios e o Independiente Santa Fe.

De forma mais específica, serão problematizadas as influências de José Gonzálo Rodríguez Gacha, conhecido como “El Mexicano”, no âmbito do Millonarios. Como materialização do auge dessa influência, podemos destacar os títulos colombianos vencidos pela equipe do Millonarios em 1987 e 1988, destacado por boa parte da imprensa do país como resultado do grande investimento financeiro clandestino que o clube recebeu por parte do narcotraficante.

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Time do Millonarios que conquistou o bicampeão colombiano seguido em 1988. Foto: RUIZ BONILLA, 2008, p. 219.

Para chegarmos nesse encontro entre o narcotráfico e o clube, é válido destacar um pouco da biografia de El Mexicano, tal como sua inserção no mundo da venda de drogas na Colômbia entre as décadas de 1970 e 80.

Gonzalo Rodríguez Gacha nasceu no departamento colombiano de Cundinamarca, em 1947. Oriundo de uma família humilde de camponeses, desde cedo se envolveu em pequenos casos de crimes e furtos. Ficou caracterizado pela imprensa do país por ser considerado “violento e sanguinário”, tendo sido o provável autor e/ou mandante de vários homicídios. Por ser um apreciador assumido da cultura e vida mexicana, ficou conhecido como El Mexicano.

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Gonzalo Rodríguez Gacha, El Mexicano. Foto: Wikipedia

Gacha iniciou seus negócios no ramo de vendas de esmeraldas. Desde seus primórdios, já se envolveu em transações ilegais, camufladas por distintas formas de lavagem de dinheiro. Logo que seus negócios foram se ampliando, se inseriu também no âmbito do narcotráfico.

Foi um dos braços principais do cartel de Medellín, se estabelecendo como um dos maiores aliados de Pablo Escobar em Bogotá. Inclusive, no âmbito da defesa armamentista do cartel, exerceu papel de grande liderança e destaque no confronto contra inimigos do mercado do narcotráfico, como nos conflitos armados contra o cartel de Cali dos irmãos Rodríguez Orejuela, nos anos 1980.

No fim de sua vida, acabou se vendo em uma encruzilhada, tendo adentrado em quatro frentes de conflito no país: contra o Estado, o cartel de Cali, as FARC e algumas lideranças do mercado de esmeraldas. Acabou morto em 1989, em uma operação do Estado colombiano de enfrentamento ao cartel de Medellín.

Durante sua trajetória, acabou se utilizando de vários espaços para a realização de investimentos e/ou lavagem de dinheiro. Um deles foi o futebol. Gacha acabou se tornando um dos sócios majoritários de um dos maiores clubes do país, o Millonarios de Bogotá. Chegou ao clube em 1982, junto de Edmer Tamayo Marín, que chegou a ser presidente do clube e era muito próximo do famoso narcotraficante. Alberto Galviz Ramírez destaca que

Tamoyo […] morreu em 1986 depois que se vinculará ‘como proprietário de uma carga de 2.000 quilos de cocaína confiscados em setembro de 1982 e outra de 65 quilos confiscada em Barranquilla’. Por sua parte, Rodríguez Gacha, El Mexicano, importante patrão do narcotráfico e líder de “Los Extraditables” (em referência ao grupo de narcotraficantes colombianos que, juntos de Pablo Escobar, lutou contra a extradição para os Estados Unidos nos anos 1980) assumiu o comando do Millonarios em meados dos anos 80 e sua influência foi determinante para o destino do quadro azul. Destacadas figuras chegaram à formação da capital graças à inegável fonte de dinheiro que respaldava El Mexicano, o que permitiu que o Millonarios se coroasse campeão em 1987 e 1988 (GALVIS RAMÍREZ, 2008, p. 97-98, tradução nossa).

Entretanto, no decorrer dos anos 1990 e 2000, a temática do narcotráfico e o quanto essas figuras influenciaram em diversos setores sociais, dentre esses os clubes de futebol, passou a ser cada vez mais problematizada e negada por boa parte da sociedade colombiana. No caso do Millonarios, esse debate se tornou tão grande que, inclusive, surgiram movimentos que buscaram anular os títulos nacionais conquistados pela equipe em 1987 e 1988.

 É válido destacar que tais conquistas foram muito importantes naquele contexto para os torcedores, já que o clube passava por um jejum de nove anos sem conquistas (o último título nacional havia ocorrido em 1978), tal como permaneceu mais vinte e quatro anos sem títulos do Campeonato Colombiano depois do bicampeonato nos anos 1980, encerrando o jejum somente em 2012. Ou seja, em um intervalo de trinta e quatro anos (1978 a 2012), as únicas conquistas do Millonarios, então maior campeão nacional, foram os títulos conquistados no período de influência de Gacha e companhia.

Felipe Gaitán, então presidente do Millonarios em 2012, admitiu na época que poderia “devolver” os títulos de 1987 e 1988, se assim determinasse a justiça em caso de confirmação do envolvimento financeiro do narcotráfico no âmbito do clube durante esse período. A decisão acabou não se materializando, mas dividiu parte da torcida. Fato é que, depois dessa iniciativa, mesmo no cenário recente da atual década e com vários debates acerca da importância de se combater e negar os horrores cometidos outrora pelo narcotráfico, bandeiras estampando o rosto de Gacha foram levantadas em algumas ocasiões por parte dos torcedores do Millonarios nos estádios, como podemos ver abaixo.

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El Mexicano virou até bandeirão em parte da torcida do Millonarios. Foto: https://doentesporfutebol.com.br/2015/09/historia-do-futebol-colombiano-a-era-dos-narcos/

Em 2012 residi alguns meses em Medellín, durante um período de graduação sanduíche que realizei no âmbito da Universidad de Antioquia. Na ocasião, tive como principal objetivo a investigação de fontes para o trabalho que, posteriormente, resultaria em meu primeiro livro lançado em 2014, intitulado El Dorado: efeitos do profissionalismo no futebol colombiano (1948-1951)”. A grande coincidência ficou por parte do título do Millonarios no torneio finalización do Campeonato Colombiano de 2012, considerando que era também el Ballet Azul a principal equipe do período em que pesquisei nos anos El Dorado do futebol colombiano, quando o clube contava em seu elenco com craques do quilate dos argentinos Alfredo Di Stéfano, Adolfo Pedernera e Néstor Rossi.

Pude vivenciar de perto a conquista de um título colombiano da equipe depois de vinte e quatro anos. E além da ansiedade pela conquista, notória em grande parte de seus torcedores no decorrer do percurso, uma questão me chamou a atenção: a possibilidade de anulação das taças de 1987 e 1988, dividiu muito os próprios torcedores do Millonarios. Uma boa parte da hinchada azul se colocou como favorável a essa anulação, para assim se desvincularem dessa “mancha” na história do clube. Por outro lado, também tiveram muitos torcedores que se posicionaram como contrários à anulação, pois entendiam que o Millonarios foi, assim como outros clubes colombianos do período, fruto de uma influência muito mais ampla do narcotráfico no âmbito social, político e econômico daquele contexto, presente em toda a Colômbia.

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Equipe do Millonarios campeão colombiano em 2012. Foto: https://especiales.semana.com/especiales/millonarios-campeon/index.html

É válido destacar, como demonstrado nos textos anteriores aqui já citados (Parte I e Parte II), que de fato a influência do narcotráfico foi muito além da equipe do Millonarios e, de forma mais geral, do futebol colombiano. Esteve presente na maior parte dos setores da sociedade colombiana entre os anos 1970 e 1990, com foco maior na década de 1980.

Porém, clube gigante que é e que já possuía uma grande história anterior a esse período, como nos tempos do El Dorado do futebol colombiano (tema que já abordei em vários outros trabalhos, tendo resultado em dois livros: o já citado “El Dorado” e “A invenção do profissionalismo no futebol”), o Millonarios sobreviveu ao período de influência do narcotráfico e foi muito além do título de 2012. Desde então, a equipe já conquistou o maior título nacional do país em outra oportunidade, no ano de 2017, além de ter ganho a Copa Colombia em 2011, a Superliga da Colombia em 2018 e títulos internacionais, como a Copa Merconorte, em 2001. O narcotráfico deixou marcas, mas o futebol colombiano seguiu e continuará seguindo em frente.

 

Referências Bibliográficas

GOMES, Eduardo de Souza. Futebol e narcotráfico: uma releitura do caso de Pablo Escobar na Colômbia. Blog História(s) do Sport. 2016. Disponível em: <https://historiadoesporte.wordpress.com/2016/08/22/futebol-e-narcotrafico-uma-releitura-do-caso-de-pablo-escobar-na-colombia/>. Acesso em 17 de agosto de 2020.

_______. Futebol e narcotráfico II: uma breve análise da influência do cartel de Cali no futebol do América. Blog História(s) do Sport. 2017. Disponível em: <https://historiadoesporte.wordpress.com/2017/01/23/futebol-e-narcotrafico-ii-uma-breve-analise-da-influencia-do-cartel-de-cali-no-futebol-do-america/>. Acesso em 17 de agosto de 2020.

GONZALO RODRÍGUEZ GACHA, ‘El Mexicano’: esse fantasma que pasó por Millonarios. Gol Carocol TV. 20 de maio de 2013. Disponível em: <https://gol.caracoltv.com/informacion-general/gonzalo-rodriguez-gacha-el-mexicano-ese-fantasma-que-paso-por-millonarios>. Acesso em 14 de agosto de 2020.

PEREIRA, Ivan Alves. História do futebol colombiano: a Era dos Narcos. Doentes por Futebol. 2015. Disponível em: <https://doentesporfutebol.com.br/2015/09/historia-do-futebol-colombiano-a-era-dos-narcos/>. Acesso em 14 de agosto de 2020.

RAMÍREZ, Alberto Galvis. 100 años de fútbol en Colombia. Bogotá: Planeta, 2008.

RUIZ BONILLA, Guillermo. La gran historia del fútbol profesional colombiano: 60 años de logros, hazañas y grandes hombres. Bogotá: Ed. DAYSCRIPT, 2008.

 


À procura do Prado Guarany

06/06/2020

Por Victor Andrade de Melo

Este post é um resumo de um artigo que escrevi com o amigo André Chevitarese. Utilizamos como metodologia a “arqueologia da paisagem”. Nosso intuito era descobrir onde se encontrava o Prado Guarany, um hipódromo de características mais populares que houve no Rio de Janeiro do século XIX. A versão completa do artigo está aqui: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742020000100402&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

No Rio de Janeiro, os hipódromos foram as primeiras instalações esportivas. Em 1849, quando foi instituída a primeva agremiação esportiva da cidade, o Club de Corridas, construiu-se o Prado Fluminense, localizado entre os bairros de São Francisco Xavier e Benfica. Posteriormente, foram construídos novos hipódromos, todos nos anos 1880: o Prado Vila Isabel (ocupado pelo Club de Corridas de Vila Isabel e pelo Derby Fluminense), o Prado Itamaraty (do Derby Club), os do Turf Club e do Hipódromo Nacional. Além desses, houve um mais modesto, o Prado Guarany, instalado na Praia Formosa/Vila Guarany, uma pequena região da cidade espremida entre o Santo Cristo e São Cristóvão.

Os mapas da cidade registraram somente a existência de quatro prados. Em vermelho, está marcado o do Jockey Club, onde hoje se encontra o conjunto habitacional Bairro Carioca, antes a Cidade Light, bem próximo do Hospital Central do Exército. Em azul, vê-se o hipódromo do Turf Club; atualmente há no local a Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Em laranja, o prado do Derby Club, exatamente onde está construído o Maracanã. Em verde, o Hipódromo Nacional; hodiernamente, uma parte é ocupada pela Praça Afonso Pena. Em lilás, identifica-se a área onde poderia se encontrar o Prado Guarany. Os periódicos faziam referência à Praia Formosa e Vila Guarany, mas não definiam sua localização exata.

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GREINER, Ulrik. Planta da Cidade do Rio de Janeiro e dos Subúrbios, 190?

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A Vila Guarany deixou poucos registros na cartografia. Somente encontramos referência ao bairro em dois mapas consultados: um do início dos anos 1900 (figura 12) e outro de 1910 (figura 13), esse último já com o novo porto e o Canal do Mangue construídos. Em vermelho, se vê a identificação da região. Em azul, para fins de localização, se observa o Campo de Santana.

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GREINER, Ulrik. Planta da Cidade do Rio de Janeiro e dos Subúrbios, 1900.

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MATOS, Francisco Jaguaribe Gomes de. Planta da Cidade do Rio de Janeiro: obedecendo à divisão da cidade em Distritos Municipais, 1910.

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Onde nessa região ficava o Prado Guarany? Para descobrir, cruzamos informações obtidas em periódicos, iconografias (obras de arte e fotografias), mapas e trabalhos de campo – visitas etnográficas realizadas para identificar permanências no espaço. Tendo em conta esses dados, vejamos o mapa a seguir.

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MASCHEK, E. de. Planta da Cidade do Rio de Janeiro e de Uma Parte dos Subúrbios. [entre 1885 e 1905].

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Vejamos as identificações. Em lilás, trata-se da área onde havia o Matadouro. Em azul escuro, as ruas Mello e Souza e Francisco Eugênio. Em amarelo, os cinco morros das redondezas. Em rosa, o atual Campo de São Cristóvão (na ocasião Praça Pedro I). As linhas verdes demarcam os rios Joana e Maracanã. O círculo laranja é a Estação Praia Formosa. Em azul claro, o Canal do Mangue. A seta laranja marca a direção da Quinta da Boavista. Os círculos verdes marcam a antiga Ponte dos Marinheiros, a passagem férrea e a ligação da Praia Formosa com a Francisco Eugênio.

Assim sendo, em vermelho, temos os quatro possíveis locais do Prado Guarany. Num mapa posterior, vemos a região numa conformação mais próxima da atual. A possível área do hipódromo está marcada em vermelho. Ainda não é possível ser peremptório na definição da sua localização.

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GREINER, Ulrik. Planta da Cidade do Rio de Janeiro e Subúrbios [190-?]

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Em mapas de 1910, 1913 e da década de 1920, permanece a imprecisão. Vamos apresentar apenas o último, no qual se exibe um cenário bem próximo do atual, em que já está construída a Estação Leopoldina (identificada como Estação Praia Formosa). Os possíveis locais do Prado estão marcados em vermelho.

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Rio de Janeiro: Parte Central da Cidade. [192-]

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Na imagem a seguir, captada a partir do Google View, simulamos o que haveria nos dias atuais nos possíveis locais do antigo hipódromo.

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Aspecto atual dos possíveis locais do antigo Prado Guarany, Google View, 2018

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Com essas imagens e informações em mãos, fizemos uma nova visita etnográfica. A intenção era ver, no terreno, como poderiam nos conceder mais de precisão na busca pela localização do hipódromo. Caminhamos pelos quarteirões da antiga Vila Guarany e áreas possíveis do Prado, fazendo simulações de medidas e composições de espaço.

Com essa visita, foi possível rever o que pensávamos ao acessar somente a cartografia e as informações de periódicos. A imagem a seguir, apresenta de forma mais consolidada o que pensamos ser a localização do Prado Guarany. Trata-se de um modelo especulativo a ser checado em fases futuras do projeto.

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MASCHEK, E. de. Planta da Cidade do Rio de Janeiro e de Uma Parte dos Subúrbios [entre 1885 e 1905].

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As linhas vermelhas demarcam uma possível delimitação do espaço do Prado, tendo em conta as medidas apresentadas nos periódicos e o que conseguimos checar nos trabalhos de campo. Sugerimos em azul as possíveis entradas do hipódromo. Em verde, identificamos possíveis locais das arquibancadas. Em lilás, o possível espaço da pista e do lago central. Perceba-se, então, que o hipódromo teria sido instalado na grande área vazia onde havia o Matadouro. Na imagem a seguir, captada do Google View, vemos o que hoje se encontra na área.

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Como podemos ver, o hipódromo provavelmente se encontrava nas atuais instalações da Estação Barão de Mauá/Leopoldina. Mesmo que tenhamos que considerar que a área sofreu várias obras no decorrer do tempo, a existência de áreas livres nos parece estimulante para dar sequência à investigação.

A arqueologia da paisagem que nos propusemos a realizar, portanto, parece ter logrado êxito, apresentando-nos possíveis locais para a promoção de prospecções arqueológicas cujo intuito será buscar vestígios materiais que nos ajudem a definir com maior precisão o local do Prado, bem como vislumbrar algo dos costumes esportivos daquele tempo.

A preparação das escavações já está em curso, contando também com a participação do arqueólogo Leonardo Amatuzzi. Certamente, os dados advindos dessas prospecções arqueológicas serão tema para outro estudo.

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Os primórdios do automobilismo fluminense: o caso da Corrida de São Gonçalo

16/03/2020

Por Eduardo Gomes  

eduardogomes.historia@gmail.com

Os últimos dias estão sendo difíceis no Brasil e no mundo, devido as ameaças globais da pandemia gerada pelo Coronavírus (Covid-19). Nesse cenário, peço licença para hoje escrever sobre um acontecimento que marcou os primórdios do campo esportivo fluminense no início do século XX, naquela que foi considerada a primeira corrida automobilística ocorrida no estado do Rio de Janeiro. Se hoje diversos eventos esportivos mundo a fora, estão sendo cancelados devido as ameaças do vírus, em 1909 a corrida aqui retratada foi um marco na região. Historicamente, tal fenômeno ficou conhecido como a “Corrida de São Gonçalo”, por ter ocorrido no munícipio homônimo que fica na região metropolitana da cidade do Rio de Janeiro que, naquela época, se tratava do Distrito Federal do Brasil.

Os automóveis chegaram ao Brasil na transição do século XIX para o XX. Mas quando o automobilismo se consolidou enquanto uma prática esportiva? Quando e onde ocorreu a primeira corrida do país? Quais cidades foram percussoras no desenvolvimento dessa prática esportiva em terras brasileiras?

É normal, ao realizar tais questionamentos, que os nomes das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, apareçam no imaginário relacionado aos primórdios de tal prática. Afinal, foram nessas duas cidades que o uso de automóveis começou a se disseminar com maior força pelo país. A chegada do Peugeot do “pai da aviação” Santos Dumont, que chegou no Porto de Santos em 1891; e do Serpolet de José do Patrocínio, desembarcado no Rio de Janeiro em 1895, explicitam o pioneirismo das duas localidades (MELO; PERES, 2016, p. 102).

No geral, o automobilismo enquanto esporte se desenvolveu com mais força no decorrer do século XX, apesar de já ter uma considerável importância na parte final do século XIX. As competições pioneiras da modalidade foram realizadas na Europa, ainda na década de 1890. E querendo inserir o Brasil nesse cenário de modernidade, essa “moda da velocidade” também chegou em terras tupiniquins.

Em 1908, ocorreu a primeira grande aventura com automóveis no país, com um percurso longo que ia do Rio de Janeiro até São Paulo. O francês Conde Lesdain o percorreu por completo pilotando um Brasier, modelo muito requisitado na época. Depois de 35 dias, conseguiu completar o trajeto. Para os espectadores daquele contexto, esse foi um grande marco para o desenvolvimento de corridas e para o avanço do uso de automóveis no país.

A primeira corrida organizada no Brasil, teve também São Paulo como espaço pioneiro. Trata-se do Circuito de Itapecerica, que ocorreu com a tutela do Automóvel Clube de São Paulo, criado em 1908. Itapecerica da Serra é um município da região metropolitana de São Paulo. Em mais de 70 quilômetros de percurso, seus competidores foram da cidade de São Paulo, de onde partiram do Parque Antártica, até Itapecerica da Serra, para então regressarem ao ponto inicial. Essa organização fez com que esse circuito ganhasse destaque como sendo a primeira grande prova “oficial” do automobilismo na história brasileira.

Na cidade do Rio de Janeiro, desde 1907, já havia sido criado o Automóvel Clube do Brasil, onde se iniciaram debates para, também, realizarem um circuito de corrida similar ao que ocorreu em São Paulo. Inicialmente, a proposta era de realizar o percurso dentro da própria cidade do Rio de Janeiro. Porém, uma série de fatos fizeram com que essa ideia fosse inviabilizada e o percurso da primeira corrida pensada na capital federal, foi transferido para uma cidade vizinha, a “novata” São Gonçalo, que em 22 de setembro de 1890 havia se emancipado de Niterói, então capital da província do Rio de Janeiro.

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A imagem em questão foi publicada no periódico Careta, na edição de 25 de novembro de 1909, representando parte do circuito da “Corrida de São Gonçalo”. Também pode ser encontrada na obra “Primórdios do esporte no Brasil: Rio de Janeiro” (2016, p. 107), escrita por Victor Andrade de Melo e Fabio de Faria Peres.

O interesse dos organizadores era, inicialmente, o de realizar a corrida no Alto da Boa Vista. Porém, tal hipótese foi logo descartada. Após as autoridades municipais, durante o governo do então prefeito Souza Aguiar no Rio de Janeiro, proibirem as corridas na localidade, os idealizadores da prova enxergaram na cidade de São Gonçalo uma fértil opção para realizarem o grande evento (MELO; PERES, 2016, p. 106).

A escolha de São Gonçalo como sede da primeira corrida em terras fluminenses, se deu por distintos motivos. Além da geografia favorável, ainda marcada por características bem mais rurais do que as vizinhas Rio de Janeiro e Niterói, o desenvolvimento industrial ocorrido na virada do século XIX para o XX, fez com que a cidade pudesse ser entendida como um espaço propício para a simbólica corrida, considerando o cenário de modernidade em que buscavam enquadrar tal evento.

A região de Neves, por exemplo, formava com outras adjacentes, como o bairro do Barreto em Niterói, o espaço que ficou conhecido no imaginário social como “Manchester Fluminense”. Notadamente, esse termo foi utilizado para representar a grande estrutura industrial e fabril desenvolvida naquele território, fazendo referência a cidade britânica famosa mundialmente por seu polo industrial. É óbvio que tais discursos possuem um teor ufanista e que, muitas das vezes, exacerbam a própria realidade local (REZNIK, 2002, p. 2).  Todavia, foi esse imaginário construído, a partir do avanço industrial ocorrido em Neves, que fez com que a região fosse cogitada como um espaço propício para a realização da corrida.

Sendo ou não a “Manchester Fluminense”, a relação que a região tinha naquele período com um determinado padrão de modernidade e tecnologia, ligados a questão das industriais, fez com que São Gonçalo pudesse se tornar o centro daquela que ficou conhecida como a “primeira corrida de automóveis em terras fluminenses”. De forma equivocada, alguns periódicos e escritores memorialistas da época, inclusive, diziam ser essa a “primeira corrida de automóveis do Brasil”, ignorando o já aqui citado Circuito de Itapecerica, ocorrido no ano anterior em São Paulo. O fato é que, sendo a primeira ou segunda corrida em âmbito nacional, o circuito gonçalense mexeu com o imaginário e referendou fortes identidades na cidade e regiões adjacentes, em um cenário ainda fértil e propício para a construção de diferentes símbolos locais que, em muitas situações, se tornavam nacionais.

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Imagem publicada no periódico Careta, Ed. 69, p. 13. Rio de Janeiro, 25 de setembro de 1909. Fonte: “Primórdios do esporte no Brasil: Rio de Janeiro” (2016, p. 105), livro escrito por Victor Andrade de Melo e Fabio de Faria Peres.

O percurso da corrida foi ousado. Totalizando 72 km, o trajeto vencido por Gastão de Almeida se iniciou no bairro industrial de Neves, mas percorreu quase toda a cidade, tendo seus competidores passado pelas regiões do Alcântara, Pacheco, Sacramento, Monjolos, Laranjal, entre outras. Percorreram, inclusive, a Estrado do Engenho Novo, passando pela famosa “Fazenda do Engenho Novo”. (1)

 “Mesmo sendo realizada em local distante, a corrida contou com bom público e teve grande repercussão, graças à ampla cobertura da imprensa. (2) Foi uma expressão de como o automóvel vivia um primeiro momento de popularidade na cidade, já assumindo uma função simbólica notável. As competições exponenciavam essa representação, deixando ainda mais claras as noções de desafio, aventura e velocidade” (MELO; PERES, 2016, p. 107).

O imaginário identitário acerca da memória dessa corrida, permanece no município até os dias atuais. Uma constatação do mantimento de tal memória, foi a inauguração de um monumento em 2009, no próprio bairro de Neves, que faz menção ao centenário da referida corrida, tendo sido essa a principal forma de reviver esse evento tão marcante na história da cidade, que ficou conhecida como o “berço do automobilismo fluminense”.

3

Monumento que faz referência ao centenário da Corrida de São Gonçalo (1909-2009). Neves, São Gonçalo/RJ Fonte: https://simsaogoncalo.com.br/sao-goncalo/voce-sabia-que-2a-corrida-oficial-de-automoveis-do-brasil-foi-em-sao-goncalo/

PS: A base deste texto foi publicada originalmente em 24/11/2018, nas páginas do projeto “História Fluminense: Patrimônio, Memória e Educação”: http://historiafluminense.org/2018/11/25/a-corrida-de-sao-goncalo-primordios-do-automobilismo-brasileiro-em-terras-fluminenses-1-2/ e https://www.facebook.com/historiafluminense/photos/pb.351048125067306.-2207520000../1017792331726212/?type=3&theater

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NOTAS:

 (1) “O antigo Engenho do Novo Retiro pertenceu a diversos donos até 1830, quando foi adquirido por Belarmino Ricardo de Siqueira – Barão de São Gonçalo.

A Fazenda possui um conjunto arquitetônico em estilo neoclássico. Foi um dos principais trajetos da 2ª corrida automobilística do Brasil em 1909 e também serviu de cenário para as gravações da minissérie “Memorial de Maria Moura”, produzida pela Rede Globo.

Há lendas de que a fazenda foi palco de uma visita da Família Imperial, por volta de 1870, devido à amizade do Barão com o Imperador D. Pedro II.  O conjunto abandonado à própria sorte, não resistiu ao descaso e ruiu no início dos anos 2000.”

Maiores informações, ver: http://saogoncaloturismo.com.br/project/fazenda-engenho-novo/ Acesso em 15 de março de 2020.

(2) É interessante perceber a mobilização social que a corrida provocou, tendo aglomerado grande público, inclusive de mulheres, que nesse contexto ainda não se inseriam nas práticas esportivas como participantes, mas faziam parte dos eventos e das formas de sociabilidade provocadas por esses, na posição de espectadoras.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MELO, Victor Andrade de; PERES, Fabio de Faria. Primórdios do esporte no Brasil: Rio de Janeiro. Manaus: Reggo Edições, 2016.

REZNIK, Luís. Qual o lugar da História Local? In: V Taller Internacinal de Historia Regional y Local. Havana – Cuba, 2002.

 

 

 


Publicado novo número de Recorde: Revista de História do Esporte

01/02/2020

Em dezembro foi publicado o número mais recente de Recorde: Revista de História do Esporte – confira abaixo o sumário. Com ele completaram-se doze anos de publicação contínua da primeira revista da América Latina dedicada à História do Esporte e das Práticas Corporais Institucionalizadas. O periódico recebe artigos e resenhas em fluxo contínuo.

 

v. 12, n. 2 (2019)

Sumário

Artigos

Leonardo Brandão, Giancarlo Marques Carraro Machado
Onésimo Rodríguez Aguilar, Luis Diego Soto Kiewit, Cindy Zúñiga Valerio
Juliana Carneiro
Kelen Katia Prates Silva
Tiago Sales de Lima Figueiredo
Narayana Astra van Amstel, Carlos Alberto Bueno dos Reis Júnior, Leonardo do Couto Gomes, Ricardo João Sonoda Nunes
Ivo Lopes Müller Junior, André Mendes Capraro
Everton de Souza da Silva
Samuel Ribeiro dos Santos Neto, Edivaldo Góis Junior
Rogério Othon Teixeira Alves, Georgino Jorge de Souza Neto, Luciano Pereira da Silva
Luiz Antonio C. Norder

Resenhas

Mariana de Paula, Letícia Cristina Lima Moraes, Leonardo do Couto Gomes, Marcelo Moraes e Silva
Leonardo do Couto Gomes, Duilio Queiroz de Almeida, Marcelo Moraes e Silva
Miguel Archanjo de Freitas Junior, Edilson de Oliveira, Tatiane Perucelli, Bruno Pedroso

Primeiros esportes em Manaus

09/12/2019

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

A partir dos últimos anos do século 19, surgem em Manaus os primeiros clubes esportivos da cidade. O início dos esportes em Manaus coincide com o apogeu das atividades de extração e exportação de borracha na região, em que fortunas foram geradas. Nessa época, dizia-se que em Manaus e em Belém lavava-se roupas em lavanderias de Paris e acendia-se charutos com notas de dólar – em dizeres que tentavam ostentar a riqueza obtida com a produção e comercialização da borracha. De fato, a nova riqueza foi ostensivamente exibida pelas elites locais. Exibir-se para visitantes estrangeiros como civilizados e em sintonia com os costumes de países considerados mais modernos fazia parte das motivações para a assimilação de esportes.

Nesse contexto, mais de 30 clubes esportivos dedicados a diferentes modalidades foram criados em Manaus entre os últimos anos do século 19 e o final da primeira década do século 20. Esgrima, críquete, tênis, remo, turfe, ciclismo e futebol estiveram entre as modalidades praticadas nesses clubes. O ciclismo, em particular, foi a primeira modalidade a se notabilizar como um espetáculo público em Manaus.

Em 1898 foi criado o Grupo Ciclista Amazonense, que a partir de então organizou passeios e corridas de bicicletas na cidade. Seu presidente era Joaquim da Costa Soares, comerciante português, tesoureiro da Sociedade Beneficente Portuguesa e proprietário da Casa Havaneza, uma loja que vendia produtos variados. O primeiro indício documental sobre uma corrida organizada pelo Grupo Cyclista Amazonense data de julho de 1898. Tratou-se de uma corrida com 7 páreos, realizada numa construção especialmente edificada para esse fim, na Praça General Osório, que seria conhecido então como “Velódromo Nacional”.

ciclismo

Fotografia de corrida de bicicleta em Paris, publicada em jornal esportivo de Manaus (1916). Fonte: Correio Sportivo, Manaus, 23 de abril de 1916, n. 5, p. 1. Citado por SOUZA, Eliza Salgado de. Panorama do esporte em Manaus, 1897-1911. Dissertação (Mestrado em Estudos do Lazer). Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2017, p. 56. link

Não sabemos ao certo o que aconteceu com o Velódromo e com o Grupo Cyclista Amazonense a partir de 1900. Parece razoável supor que esse velódromo tenha sido desativado em algum momento entre 1900 e 1903 ou 1904. A partir dessa época, inicia-se a construção de um novo velódromo, já em outro ponto da cidade. Manaus não possuía um mercado consumidor suficientemente grande para sustentar dois espaços destinados à oferta do mesmo gênero de espetáculos. O novo velódromo, conhecido como “Velódromo Amazonense”, “Velódromo da Manaus Sport” ou “Velódromo da Cachoeirinha”, situado na Praça Visconde do Rio Branco, no bairro da Cachoeirinha, funcionou com relativo sucesso até por volta de 1907. Nessa época, a inauguração de um novo espaço para oferta de espetáculos esportivos na cidade parece ter inviabilizado a continuidade deste velódromo.

Entre 1907 e 1910, aproximadamente, o Prado Amazonense, dedicado a corridas de cavalo roubou a cena esportiva de Manaus, até que o surgimento dos primeiros clubes e campeonatos de futebol ganharam grande entusiasmo popular. Desde então, como é o caso de todas as cidades do Brasil, o futebol tem sido o esporte mais popular também em Manaus.


A FORMAÇÃO E CONSOLIDAÇÃO DO JIU-JÍTSU BRASILEIRO EM SALVADOR E A INFLUÊNCIA DO JUDÔ

11/11/2019

Luan Machado

Coriolano P. da Rocha Junior

 

O Judô é um esporte japonês, que foi introduzido no Brasil a partir de um processo migratório de japoneses para o país. Nesse processo de imigração, a prática do Judô foi uma das formas de manutenção da cultura oriental, que foi sendo gradualmente incorporado por brasileiros nativos. Com isso, alguns mestres japoneses, chamados “senseis” (numa nomenclatura mais adequada culturalmente), foram essenciais na consolidação dessa prática em diversas regiões do país.

Sobre esses senseis japoneses, Mitsuyo Maeda (conhecido como Conde Koma), foi um dos que ficaram mais conhecidos. Formado na escola Kodokan, que foi criada por Jigoro Kano, com o objetivo de desenvolver o Judô. Enquanto um aluno de destaque da escola, foi convidado a disseminar as técnicas e filosofia da luta no mundo. Viajou por países como Estados Unidos e Inglaterra, fazendo apresentações em arenas e circos, desafiando atletas por onde foi passando. Chegou no Brasil em 1914, em Porto Alegre, viajou o país junto com um grupo de outros lutadores fazendo demonstrações e desafios de lutas, até se firmar em Belém do Pará em 1915. Koma foi responsável por apresentar os conhecimentos da luta agarrada a Gastão Gracie e a seu filho Carlos, processo que foi fundamental para a criação do clã dos Gracie, e do Jiu-Jitsu Brasileiro.

Soishiro Satake, um lutador de destaque também da escola Kodokan acompanhava Koma e se estabeleceu no Brasil, na cidade de Manaus. Este teve importante impacto no ensino da luta agarrada no estado do Amazonas, mas também se dedicava a outras práticas, tais como o lecionado de basebol, técnicas de massagem oriental e até alguns tratamentos de estética para eliminação de cravos e espinhas. Satake foi embora do Brasil em 1934, mas deixou uma importante marca que influenciou o desenvolvimento das lutas no estado do Amazonas.

É importante ressaltar que o Judô tradicional ou Judô Kodokan, como ficou bastante conhecido, sistematizado pelo sensei Jigoro Kano, descende do ju-jitsu ou ju-jutsu, conhecido no mundo ocidental como Jiu-Jitsu Japonês. Se tratava de um sistema de luta focado nos recursos da luta agarrada, mas também incorporava golpes como socos, chutes, cotoveladas e etc. O Judô contemporâneo, veio passando por sucessivos processos de reformulação, adotando novos sistemas de regras, que impactaram diretamente em como a prática se dá atualmente no mundo, embora com influência fundamental do tradicional, diferente de como este se dava na sua gênese.

Uma interpretação possível dessas mudanças, seja dos nomes, ou das regras dessas modalidades de lutas, se dá, via de regra, por interesses políticos e econômicos de determinados grupos e atores. É indiscutível a existência de outras influências, mas esse é um fator bastante evidente. Isso pode ser interpretado na história do Jigoro Kano, que visava consolidar o Judô enquanto um produto a ser difundido em todo o mundo. E uma nomenclatura nova, que pudesse se distanciar dos estigmas que o Jiu-Jitsu Japonês trazia, era essencial para a fixação desse “novo” produto. A mesma regra pode ser aplicada ao Jiu-Jitsu Brasileiro. O clã dos Gracie, tinha também o objetivo de fundar um “novo” produto no Brasil e no mundo. Nesse sentido, para além das estratégias comuns, tais como os desafios de lutas, precisou de uma nomenclatura que representasse o novo, assim se “criou” o Jiu-Jitsu Gracie ou Jiu-Jitsu Brasileiro, que embora tenha sido fundamentalmente influenciado pelos ensinamentos do Conde Koma, se firmou enquanto uma nova modalidade de luta.

Em Salvador, no estado da Bahia, recorte específico do local em que este trabalho se localiza, um nome que emerge das fontes é o do sensei Kazuo Yoshida. Há uma dificuldade de encontrar fontes que forneçam detalhes sobre a história desse ator, de quando ele chegou em Salvador e sobre as suas filiações as escolas de lutas Japonesas. Sabe-se que se trata de um grande mestre de Judô, que lecionava na capital baiana em meados do século XX. Ricardo Carvalho, um relevante nome do Jiu-Jitsu Brasileiro no estado da Bahia na contemporaneidade, é considerado “neto” de Yoshida, já que seu pai, mestre Cirão, foi um dos discípulos do judoca desde 1963. Ricardo Carvalho afirma em entrevista, que o japonês era um lutador muito habilidoso, e que possuía um Judô mais tradicional, no qual se treinava bastante técnicas de solo e finalizações (golpes que retiram o oponente de combate).

É notável que houve outros importantes atores orientais na cidade no que se refere ao contexto das lutas, no entanto, um fato histórico marcante, é que Yoshida faz parte da linhagem dos irmãos Edson e Ricardo Carvalho, referências na firmação do Jiu-Jitsu Brasileiro na cidade. Ricardo Carvalho é atualmente um dos mais notáveis mestres de Jiu-Jitsu Brasileiro da Bahia. Natural de Salvador, conta que nasceu aprendendo Judô, com o seu pai mestre Cirão, que é também um notável mestre de Judô na cena local. Ricardo é um dos líderes da equipe Edson Carvalho, que leva o nome de seu irmão e também sócio. A Edson Carvalho Team, é uma das mais tradicionais equipes de Jiu-Jitsu Brasileiro da cidade, tendo ampliado inclusive a sua influência com academias em vários países do mundo. Ricardo é também presidente da Federação Baiana de Jiu-Jitsu (FBJJ), fundada em 1997, uma das quatro federações que estão em atividade na organização do Jiu-Jitsu baiano.

A firmação do Jiu-Jitsu Brasileiro na cidade de Salvador se inicia, de acordo com o cruzamento do que contam as fontes, a partir da associação dos irmãos Carvalho, Charles Gracie e outros mestres de Judô locais da época, no início da década de 1990. Há relatos pontuais da existência da prática da “nova” modalidade em períodos anteriores, mas foi a partir da associação desses atores, que a modalidade tomou fôlego, se firmou na capital, e foi se difundindo em todo o estado.

Sobre o enraizamento da modalidade na cidade, há vários fatores de alta relevância. Dentre eles, vale ressaltar que os mestres de Judô locais, de acordo com as fontes, praticavam um Judô mais próximo do tradicional, no qual as técnicas de solo sempre fizeram parte das suas rotinas de treinamento e estudo. Portanto, foi natural para estes a adequação ao foco do treino de solo que o Jiu-Jitsu Brasileiro se dedicava, não houve grandes mudanças no aspecto técnico, apenas uma adequação no foco do treino. Outro fator importante diz respeito a relevância econômica que a “nova” modalidade tinha alcançado nacional e até internacionalmente. A evidência midiática do Jiu-Jitsu Brasileiro, a partir das estratégias de marketing do clã Gracie, colocavam a prática como a “febre” do momento, o que tornou atrativo aos tradicionais mestres de Judô da cidade a se dedicarem.

Os indicativos que esse estudo apresenta, a partir da revisão de algumas fontes sobre a história das modalidades de lutas agarradas existentes nos dias atuais, é que apesar da divisão das modalidades, as histórias se cruzam e se influenciam mutuamente, tanto no espectro Salvador, como Brasil. Os processos migratórios de japoneses para o Brasil tiveram grande impacto na consolidação das modalidades de lutas agarradas no cenário nacional. A incontestável história de atores japoneses em diversas regiões foram fundamentais naquilo que se firmou e que segue vivo nos dias atuais, embora haja reformulações. E no que se refere a cidade de Salvador, que o Judô, prática fixada em períodos anteriores ao Jiu-Jitsu Brasileiro, teve grande importância no processo de firmação da “nova” modalidade sistematizada pelo clã dos Gracie.

REFERÊNCIAS:

Entrevista concedida por SOUZA, Ricardo Barbosa de. [mai. 2015]. Entrevistador: Luan Alves Machado. Salvador, 2015.

Entrevista concedida por SOUZA, Luiz Augusto Barbosa de. [mai. 2015]. Entrevistador: Luan Alves Machado. Salvador, 2015.

Entrevista concedida por PINTO, Ricardo Carvalho. [mar. 2019]. Entrevistador: Luan Alves Machado. Salvador, 2019.

KANO, J. Judô Kodokan. Tradução Wagner Bull. São Paulo: Cultrix, 2008.

CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE JIU JITSU. History. Disponível em: <https://cbjj.com.br/history/&gt;. Acesso em: 28 de mar. 2019.

CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE JUDÔ. História do Judô. Disponível em: <http://www.cbj.com.br/novo/medalhistas.asp&gt;. Acesso em: 28 mar. 2019.

NUNES, A. V. RUBIO, K. The Japanese immigration influenceon the formation and development of Brazilian judô. International Journal of Sport Studies. Vol. 3 (10), 1087-1094, 2013.

Gracie Seminars: The Best Source of Gracie Jiu-Jitsu Seminars in the World, 2006. Disponível em:<http://www.gracieseminars.com/charles_bio.htm&gt;. Acesso em: 29 de mar. 2019.

LIMA, L. Soishiro Satake: A história do japonês que fundou a primeira academia de jiu-jitsu do Brasil, 2016. Disponível em: <http://escritorio610.blogspot.com/2016/04/soishiro-satake-historia-do-japones-que.html&gt;. Acesso em: 29 mar. 2019.

Perfil: Cirão. Judô Bahia. Revista Oficial da Federação Baiana de Judô. n. 2, p. 16-18, fev. 2017. Disponível em: <https://issuu.com/febaju/docs/revista_febaju_ii_edi____o_21_fev_p&gt;. Acesso em: 28 mar. 2019.


O FUTEBOL NOS JOGOS BOLIVARIANOS DE 1938 II: A IMPORTÁNCIA DOS ESTÁDIOS EL CAMPÍN E CIDADE UNIVERSITÁRIA EM BOGOTÁ

14/10/2019

Por Eduardo de Souza Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

No  meu último post aqui publicado em 14 de maio de 2019, abordei a presença do futebol nos Jogos Bolivarianos de 1938, evento poliesportivo ocorrido em Bogotá no âmbito dos festejos do IV centenário da capital colombiana e que contou com a participação de diferentes nações ligadas por questões identitárias com a imagem de Simón Bolívar, que foram Bolívia, Colômbia, Equador, Panamá, Peru e Venezuela.

Tratei, também, sobre como esse evento foi importante para a consolidação dos primórdios da seleção colombiana de futebol, considerando que foi nesse ano de 1938 que se iniciou a formação de um selecionado entendido como nacional no país, dentro dessa modalidade esportiva.

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Estádio Alfonso López pumarejo, da Cidade Universitária, na inauguração dos Jogos Bolivarianos de 1938. Fonte: Universidad EAFIT (https://www.wikiwand.com/en/1938_Bolivarian_Games)

Ainda nesse último post, destaquei a importância da construção de dois estádios para a efetivação não só da competição de futebol, como de todas as disputas ocorridas na agenda esportiva no âmbito dos Jogos Bolivarianos de 1938. São esses o Estádio Alfonso López Pumarejo (Estádio da Cidade Universitária), localizado na Cidade Universitária da Universidad Nacional de Colômbia – Sede Bogotá; e do Estádio Nemesio Camacho (El Campín), uma das maiores e mais conhecidas sedes esportiva do país até a atualidade.

As motivações para a efetivação da construção daquelas que se tornariam as duas principais praças esportivas da capital, se deu por distintas questões. Dentre os interesses envolvidos e motivações oriundas da construção dos dois estádios, David Quitián destaca que

En esa ocasión, se decía lo siguiente: Frente al deporte, baste dar algunas indicaciones: […] la construcción del estadio de la Universidad Nacional (parte de um complejo proyecto polideportivo) obedeció a la idea inglesa, perfeccionada por la tradición norteamericana, de un campus donde la energía de la juventud se canalizara en la combinación de estúdio y agonismo sublimado por el deporte, que de hecho es la base em todos los campus en esos países […]. Por el contrario nada menos que Jorge Eliécer Gaitán, con su visión populista y como alcalde de Bogotá, decidió la controversia por el rumbo del deporte al insistir, contra la idea del gobierno, en poner un polo popular alternativo al deporte de la capital, con la creación del estadio Nemesio Camacho, más conocido como El Campín. Fue una decisión de encrucijada. (QUITIÁN, 2009, p. 3)

O governo do presidente Alfonso López Pumarejo (1934-1938), marcado por “La Revolución en Marcha”, construiu caminhos que relacionavam o esporte com o desenvolvimento político e econômico do país. Foi em seu âmbito que se consolidaram, também, os projetos de construção dos dois estádios aqui referendados.

Tentando vincular Bogotá aos ideais inerentes à modernidade, que passavam por um determinado aparato acadêmico e científico, buscou-se assim estabelecer um parâmetro diplomático onde a capital do país fosse vista como um modelo em distintos quesitos:  “López creía que Bogotá debía vincularse estrechamente a la vida de la universidad y opinaba que mantener el estadio dentro de esta última era un buen pretexto para lograrlo” (ACOSTA, 2013, p. 56). Não à toa, foi nesse cenário que o governo comprou os prédios e espaços necessários, então pertencentes a José Joaquim Vargas, para a construção da Cidade Universitária da Universidad Nacional em Bogotá, local onde também seria construído o estádio universitário, que posteriormente foi nomeado com o nome do presidente.

Em 1936 se deu início às obras de urbanização em Bogotá que visavam adequar os espaços universitários na cidade, tendo o Instituto Nacional de Educação Física iniciado no ano seguinte. A planta integrava dois estádios: um para o futebol e outro para o atletismo que, com o tempo, acabaram sendo fundidos em um único projeto, até pela questão da viabilidade econômica. Inclusive, um espaço para a construção de um campo de beisebol, esporte que se consolidou com mais força no caribe do país, havia sido pensado a priori. As obras do estádio Alfonso López Pumarejo se iniciaram em setembro de 1937, tendo sido finalizadas e liberado o estádio para as competições em junho de 1938.

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Estádio Alfonso López Pumarejo na atualidade, localizado na Cidade Universitária da Universidad Nacional de Colombia em Bogotá. Fonte: https://www.eltiempo.com/colombia/otras-ciudades/historia-del-estadio-alfonso-lopez-de-la-universidad-nacional-385994

No caso de El Campín, é importante destacar que o projeto para a construção de um “Estádio Nacional”, é anterior ao de consolidação dos Jogos Bolivarianos enquanto evento festivo no país. Já era previsto na Ley 12 de 1934, que tinha como objetivo a reorganização do Ministério de Educação da Colômbia, dialogando com a Ley 80 que versava sobre a institucionalização da Educação Física e dos esportes no país, que se construísse um estádio de grande porte na Colômbia.

No mesmo ano, em 17 de novembro, um comunicado foi enviado ao então prefeito de Bogotá, Junior Pardo Dávila, onde foi solicitado pela CNEF que “a la Junta Pro Centenario de la ciudad que incluya en los proyectos de obras urbanas el de un Estadiúm (sic) o plaza de deportes, con un presupuesto mínimo de $400.000 (cuatrocientos mil pesos)” (ACOSTA, 2013, p. 53).

Em 1935, foi criada uma junta destinada a desenvolver o projeto de construção do estádio. De início e com o aval presidencial, se pensou em construir um Estádio que se vinculasse à Universidad Nacional (que depois, seria o Estádio da Cidade Universitária, já aqui citado). Porém, a proposta de construir um estádio universitário não foi bem aceita por todos. Por exemplo, Jorge Gaitán, membro do Partido Liberal e um dos maiores nomes desse campo político, se opôs à parte desse olhar então definido por López Pumarejo. Entendia que o estádio deveria ir “além do mundo acadêmico”, sendo assim também “destinado ao povo”.

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Estádio El Campín sendo construído na década de 1930. Fonte: http://www.infodeportes.com/futbol/estadio/nemesiocamachoelcampin/historia

Gaitán se esforçou para conseguir 350 mil pesos em agosto de 1936, visando a construção do estádio. A partir do Decreto de número 268, ficou destinada tal verba para a construção do “estádio nacional”, tendo os atrasos em sua obra gerado manifestações nas ruas de Bogotá. O estádio acabou sendo inaugurado, tal como o da Cidade Universitária, no âmbito dos Jogos Bolivarianos de 1938.

Tais jogos foram, então, centrais na celebração organizada para se festejar o aniversário da capital do país. Foi, no caso do desenvolvimento das práticas esportivas, a “cereja do bolo” de um processo que vinha se desenhando já nas décadas anteriores, a partir da reconfiguração da cidade. E com a nova concepção política a partir da entrada do governo liberal, o esporte incorporava as características centrais do “homem moderno”: “fomentaba la higiene, la salud, la educación, el entretenimiento “sano”, la mejor forma de combatir una vida sedentária y el mejoramiento de la “raza” y su beleza”.(ACOSTA, 2013, p. 58).

Já na inauguração dos jogos, o Estádio da Cidade Universitária recebeu um grande público, digno de grandes eventos mundiais, não só no esporte, mas também como em festas cívicas ou diplomáticas. Importante como marco e pontapé inicial dos jogos, o estádio se caracterizou como um dos pontos altos do evento organizado na Colômbia, tendo logo em sua primeira aparição alcançado um público de mais de vinte mil pessoas. Como é destacado no calor do momento pelo periódico bogotano El Siglo,

Mas de 20.000 personas asistieron al Estadio de la Ciudad Universitaria para presenciar la inauguración de los Juegos. […] En forma solemne se inauguraron en la tarde de ayer los Juegos Deportivos Bolivarianos en el espacioso estadio universitario. Más de seiscientos deportistas que intervendrán en las competências bolivarianas, desfilaron frente a la tribuna presidencial – El Doctor Alfonso López declaró solemnemente inaugurados los juegos – La presentación en el estádio de las delegaciones  deportivas – El emocionante acto de suelta de las palomas que salieron em dirección a los países bolivarianos, anunciando la apertura de los juegos – Las ceremonias protocolarias efectuadas – El despliegue de las banderas, a los acordes de los himnos de los países particulares.(El Siglo, 06 de agosto de 1938, p. 9).

As partidas eram sempre muito exaltadas pela imprensa, que também destacava a beleza dos estádios e a importância desses para a efetivação dos jogos. Um exemplo foi a partida de futebol da seleção do Peru, que seria a campeã dessa modalidade, com a Colômbia. Tendo inaugurado o certame para os colombianos, alguns periódicos aproveitaram-se do fato de ser esse um dos jogos mais esperados até então, para exaltar parte da organização e estrutura construída pelo país para o evento, como o próprio estádio El Campín.(El Espectador, 08 de agosto de 1938, p. 3). Como vemos nas páginas de El Espectador:

No menos de 50.000 personas concurreran esta mañana a la inauguración del grande estádio municipal <El Campín>, una de las hermosas realizaciones inauguradas em el centenário. […] Después de que las bandas ejecutaron el himno bolivariano, letra de Alfredo Gómez Jaime, se tocó el himno nacional, en el momento de entrada del presidente con su comitiva. Luégo se inició el desfile de Educación Física y la guardia olímpica […]. Fue digna de admiración la organización del tránsito y la que se desplegó para que el público pudiera entrar y salir com comodidad (El Espectador, 15 de agosto de 1938, p. 3).

Assim, fica notório o quanto o público foi importante para se consolidar os interesses, não só diplomáticos, mas também econômicos dos agentes fomentadores do evento. Se na inauguração do Estádio da Cidade Universitária estiveram presentes um número próximo dos 20.000 espectadores, em El Campín, esse número mais do que dobrou, deixando explícito a formação de um “mercado ao redor” do evento esportivo que se desenvolvia, característica essa importante para a consolidação do campo esportivo colombiano.

Portanto, torna-se possível perceber, com os exemplos aqui explicitados na cidade de Bogotá, que são os estádios El Campín e Cidade Univeristária, o quanto a efetivação de espaços apropriados se fazem importantes para a construção de um público no futebol (e, de forma mais ampla, no esporte), contribuindo assim para a expansão e difusão de tais práticas no âmbito simbólico, cultural e identitário de uma determinada sociedade.

Referências Bibliográficas

ACOSTA, Andrés. Elementos sociohistóricos intervinientes en la construcción de los estadios Alfonso López e El Campín para los primeros Juegos Bolivarianos: Bogotá, 1938. Revista Colombiana de Sociologia, Bogotá, v. 36, n. 01, p. 43-62, jan-jun 2013.

QUITIÁN ROLDÁN, David. Gaitán, el fútbol y la Universidad Nacional. En Asciende, Memorias Cátedra Jorge Eliécer Gaitán. Sociología 50 años. Clase 9. Universidad Nacional, Bogotá, 2009, p. 2-15.

 


Alfândega, noitadas e mercadorias de presente: uma breve passagem de surfistas sul-africanos pelo Rio de Janeiro

19/08/2019

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

A África do Sul tinha papel importante no cenário internacional do surfe na segunda metade dos anos 1970, tanto pela qualidade das ondas de seu território quanto pela participação de surfistas, dirigentes, juízes, empresários e/ou profissionais de mídia, entre outros, oriundos daquele país. Isto se dava concomitantemente ao crescente isolamento internacional do país, que incluía boicotes como forma de pressão contra os sucessivos governos devido à política de segregação racial conhecida como apartheid. Nos últimos anos, tenho me dedicado tanto a investigar o lugar peculiar do surfe em meio ao boicote esportivo internacional, como também às representações do Brasil e do Rio de Janeiro em revistas internacionais.

Um dos indícios de uma cultura e economia do surfe fortes em um determinado país nos anos 1970 e 1980 é a existência de publicações especializadas, sobretudo revistas. Criada em 1976 na cidade de Durban e ainda em circulação, Zigzag é a mais longeva e provavelmente a mais importante revista de surfe da África do Sul. A edição de junho-agosto (a periodicidade era então trimestral) de 1979 trouxe matéria a respeito de uma viagem realizada por três surfistas às Américas. Os sul-africanos – um deles, autor do texto – viajaram para Brasil, Peru e Canadá. Eis dois trechos:

“(…) passar pela alfândega no Rio de Janeiro (…) Medo de possivelmente passar horas tentando convencer um funcionário olhudo de que só tenho mercadorias para os pobres ratos de surfe brasileiros. Para minha surpresa, sou liberado após dar ao cavalheiro um exemplar de ZigZag – ele ficou amarradão. A animação de Rico ao ver um funcionário da alfândega de fato sorrindo foi contagiante. Os dias que se seguiram são selvagens com noites loucas e gente amigável vivendo apenas o agora. Rico e sua bela mulher Bia quase me convencem a ficar para o Carnaval, mas o chamado da minha próxima parada é grande demais. 1980 será meu ano de carnaval! (…)

Em verdadeiro estilo sul-americano, um voo de seis horas leva 12 para chegar a Lima após o piloto decidir que precisa de algumas horas de pausa para um lanche e faz uma escala imprevista em São Paulo.” (LARMONT, Mike. The Snow Boogie. Zigzag, jun.-ago. 1979. Tradução minha. Abaixo, a primeira página do texto.)

Gostaria de abordar brevemente quatro pontos no trecho citado. Primeiro, as referências à passagem pelo controle alfandegário na entrada em território brasileiro, ocorrida no aeroporto internacional do Galeão, no Rio de Janeiro. Larmont afirma que estava receoso quanto ao trato que receberia por parte dos funcionários responsáveis pela revista de bagagens e a como classificariam os objetos que trazia – segundo ele, agrados para presentear surfistas brasileiros. Relata ainda ter sido um exemplar da própria Zigzag o argumento final que permitiu o desenrolo (como se diria na linguagem corrente das quebradas cariocas) com o trabalhador da alfândega. Seria este um servidor público da Receita Federal? Acredito que sim, embora não seja possível afirmar ao certo. Seria ele um adepto do surfe ou, ao menos, um interessado na modalidade? Também é difícil dizer, mas parece que o exemplar da publicação despertou interesse no servidor, talvez por gosto pessoal, talvez por configurar um item raro a ser dado de presente a uma pessoa querida. Haveria, além dos números de Zigzag, outros itens/mercadorias trazidos como presente na bagagem? A partir do próprio texto não é possível responder.

Segundo, a recepção por parte de Rico de Souza, surfista com grande circulação e contatos internacionais no período. Acredito que as relações de amizade, acolhimento e/ou reciprocidade estabelecidas entre adeptos de diferentes países foram importantes, tanto para reduzir os altos custos envolvidos nas viagens (ficar na casa de conhecidos eliminava os custos de hospedagem e, em alguma medida, de traslados e alimentação), ajudando a viabilizá-las, quanto por facilitarem o acesso a informações (como condições do mar em diferentes praias) e os trâmites do dia-a-dia (facilita muito a vida do viajante, especialmente o monoglota, estar acompanhado de alguém com conhecimento de hábitos e idioma locais). Esta questão, que tem aparecido em diferentes fontes em minhas pesquisas, ainda não foi explorada pelos estudos históricos sobre o surfe – ao menos aqueles publicados em inglês, espanhol ou português.

Terceiro, algumas das menções ao Brasil e aos brasileiros. O autor destaca a beleza de uma mulher (a anfitriã), usa a palavra selvagem para adjetivar as noitadas (o termo também aparece com frequência nas caracterizações da África do Sul feitas por estrangeiros – brasileiros, inclusive) acompanhadas de “gente amigável” que vivia apenas o presente. As intensas atividades de lazer e o estímulo dos anfitriões quase levam o viajante mudar os planos e esticar a estada para incluir o período do Carnaval.

Por fim, a decisão do piloto de realizar uma escala imprevista durante o voo Rio de Janeiro-Lima é classificada como parte de um “verdadeiro estilo sul-americano” – a ver se tal categorização aparecerá em outras edições quando se menciona o Brasil e demais países do continente. Os sul-africanos seguiram viagem rumo a terras peruanas e, posteriormente, da América do Norte, onde os meses iniciais do ano correspondem ao inverno. No Canadá, como se pode notar nas fotos que ilustram a página, os sul-africanos praticaram esqui e snowboard. Era muito comum, na época, que os adeptos de uma modalidade dedicassem parte relevante do seu tempo a outras. No caso do surfe, aqueles com acesso a áreas com neve (como alguns estadunidenses e franceses, por exemplo), costumavam praticar esportes de inverno durante férias, feriados e períodos com pouca oferta de boas ondas. Esse intercâmbio de modalidades é um aspecto ainda pouco explorado nas pesquisas sobre a história do esporte que situam seu recorte na segunda metade do século XX – talvez nos levando a acreditar numa excessiva especialização que não correspondia à experiência concreta do adepto comum, e quiçá tampouco de vários atletas de ponta no âmbito competitivo mais comercial/profissional.

Para saber mais

Conferir os trabalhos do historiador Glen Thompson, incluindo sua tese de doutorado Surfing, Gender and Politics: Identity and Society in the History of South African Surfing Culture in the Twentieth-Century, defendida em 2015 na Stellenbosch University. Agradeço a ele por me facilitar a consulta de seu acervo pessoal de revistas sul-africanas, entre as quais a edição mencionada neste texto.

Uma coleção de capas escaneadas de Zigzag está disponível no site de Al Hunt.

A pesquisa que deu origem a este post tem apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), por meio do edital Jovem Cientista do Nosso Estado (2017).


Francisco Pontes, o “Manolete” do Brasil

28/07/2019

por Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

Em recente visita a um importante centro de prática e estudos sobre as touradas no mundo, a cidade de Córdoba, região da Andaluzia, na Espanha, pude sentir de perto toda a fascinação que os espanhóis possuem pela prática, assim como toda a sua significação histórica e identitária. Os toureiros, assim como os touros, são admirados e elevados a celebridades carregadas de virtudes. Nesse contexto, se destaca um personagem no cenário local, Manuel Laureano Rodríguez Sánchez, mais conhecido como Manolete, nascido em Córdoba em 1917 e falecido em Linares, também na Espanha, em 1947, com apenas 30 anos de idade após um golpe fatal de um touro Miura.

Sua morte comoveu país inteiro, sendo que, na época, o próprio ditador Franco ordenou três dias de “luto nacional”, durante os quais hinos fúnebres eram ouvidos no rádio. Em 2007 foi realizado um filme sobre a sua vida, “Manolete – Sangue e Paixão”. Tanto no Museu Taurino de Córdoba, quanto pelas ruas estreitas da cidade histórica, são inúmeras as referências a este, que pode ser considerado o mais celebrado toureiro de todos os tempos.

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Busto de Manolete – Museu Taurino de Córdoba

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No entanto, não foi somente no velho continente que esta admiração pelos astros da tauromaquia pôde ser notada. Guardadas as devidas proporções e o cuidado com as anacronias, o Brasil também teve o seu astro dos redondéis, o português Francisco Pontes, um dos mais notáveis toureiros a atuar no Brasil. Seu destaque se deu em grande parte do território brasileiro onde comandava um circo de touros itinerante. No Rio de Janeiro, se tornara um dos grandes responsáveis pela popularização da tauromaquia no século XIX, por sua notável performance nas arenas, por sua capacidade de organizar espetáculos de qualidade e por seu constante envolvimento com a filantropia. Pontes era considerado o maior artista tauromáquico a visitar o Brasil.

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Francisco Pontes
O Toureiro, 1877

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Em Porto Alegre, Pontes tornou-se, também, renomado. Na temporada de 1881, chegou a receber de presente uma valsa, “Primavera”, composta por João Fernandes de Souza Lima, a ele oferecida como prova de simpatia e admiração pelos seus méritos artísticos.

O toureiro sempre procurava retribuir o carinho do público. Por exemplo, nas corridas de 11 de agosto de 1889, tanto os bilhetes de sol como os de sombra foram acompanhados de seu retrato, que poderia ser retirado pela pessoa que os comprar antes de entrar para a corrida. Explicitamente desejava agradecer o público e a imprensa da capital sulina, pela maneira generosa que o acolhera, revelada nos abundantes aplausos prodigalizados à sua companhia e na valiosa proteção que lhe foi dispensada.

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Arena de touradas, Porto Alegre, 1909 (ver fundo da imagem)
Disponível em: https://lealevalerosa.blogspot.com/2010/05/circo-de-touros-em-porto-alegre.html

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Ainda que em algumas ocasiões houvesse ressalvas à atuação da companhia de touros, em geral os toureiros, além de Pontes, receberam grande destaque, ressaltando-se sua destreza e coragem. Lourenço Delgado, por exemplo, tornou-se um ídolo por sua capacidade de realizar técnicas muito distintas e arrojadas. Geminiano de Carvalho ganhou fama por ser um “artista ginástico”. Isso tinha relação com o fato de que tinha força para suspender um touro, bem como porque aceitava desafios de luta romana, realizados em plena arena.

Nas corridas de Porto Alegre houve mulheres lidando com os touros. Em 1889, atuaram Petrona Nogueira, Maria Soares e, com muito destaque, a espanhola Maria Dolores, considerada “valente e corajosa heroína”. Ela chegou a enfrentar um touro com “aspas nuas”, além de encarar o quase onipresente Tigre Rochedo, afamado touro.

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Arena de touradas, Porto Alegre, 1901 (ver fundo da imagem)
Disponível em: https://lealevalerosa.blogspot.com/2010/05/circo-de-touros-em-porto-alegre.html

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Já na temporada de 1875, se apresentara Julia Rachel, casada com o afamado toureiro Miguel Tranzado, anunciada como a única neste difícil trabalho em toda a América do Sul. Suas proezas eram anunciadas com grande alarde, o mesmo que ocorreu com outra pioneira, que atuara nas corridas de 1881: Zulmira da Conceição.

Como era usual em outras cidades, também em Porto Alegre foram organizadas touradas com fins beneficentes, uma iniciativa que ajudava a aumentar o reconhecimento social para com a prática. No caso das corridas que promoveu Pontes, era também uma forma de expressar sua vinculação a certas causas políticas, como as abolicionistas, por exemplo.

No Rio de Janeiro, o toureiro se envolveu profundamente com a luta contra a escravidão. Na capital gaúcha, uma das ocasiões em que isso se manifestou foi em uma sessão dedicada à Sociedade Floresta Aurora, uma ativa agremiação de negros.

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Em tudo o que pudemos verificar nas touradas do século XIX no Brasil, nenhum outro “artista” tauromaquico logrou tanto sucesso quanto Francisco Pontes. Manolete na Espanha ou Pontes no hemisfério sul, o fato é que este desafio entre o homem e o animal, entre a força e a habilidade, aflorava sentimentos extremos por onde fora praticado. Na capital do império ou na Província de São Pedro, o toureiro conquistou o seu público, sua fama e está marcado na História. Afinal, o Brasil também tem o seu Manolete.

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Para mais informações:

* Tradição e modernidade: as touradas na Porto Alegre do século XIX
Cleber Eduardo Karls, Victor Andrade Melo
História Unisinos, v. 18, n. 2 (2014)
http://revistas.unisinos.br/index.php/historia/article/view/htu.2014.182.11