Futurismo: um movimento esportivo II – “Demonstração Intervencionista”

23/07/2011

Por Victor Andrade de Melo

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Em post anterior, já discutimos como, no âmbito do futurismo, importante e ruidoso movimento artístico que esteve ativo nas décadas iniciais do século XX, o esporte não só foi um tema constante em muitas obras como também estava presente na sua dinâmica interna, citado em muitos manifestos como exemplo de fenômeno cultural que se afastava da tão combatida ideia de tradição, uma expressão dos novos tempos que tanto fascinavam os artistas envolvidos com o grupo.

No post de hoje vou brevemente discutir uma obra que considero sintetizar a relação com o esporte estabelecida no âmbito do Futurismo: “Demonstração Intervencionista”, de Carlo Carrá (1914, têmpera e colagem sobre cartão, 38,5 x 30 cm, acervo de Peggy Guggenheim Collection/Veneza).

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Esse artista, em seu manifesto “A pintura de sons, barulhos e cheiros” (1913), já sugerira que o esporte deveria ser predominantemente representado em vermelho. Carrá segue o próprio conselho em “O Cavaleiro Vermelho” (1913, têmpera e tinta sobre papel, 26 x 36 cm, acervo de Civico Museo D’Arte Contemporanea/Milão) e poucas não foram as vezes, na obra de outros futuristas, em que a cor foi utilizada para representar elementos da prática esportiva.

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Curioso é também, do mesmo artista, “Nadadoras” (1910, óleo sobre tela, 105 x 156 cm, acervo de Carnegie Museum of Art/Pittsburgh), um dos primeiros quadros futuristas. A obra era uma clara referência ao poeta futurista Libero Altomare, que fazia uma relação entre a natação e os estados da mente.

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Mais do que referências literais em obras, é interessante destacar o sentido de excitabilidade proposto por Carrá, expressando sua compreensão sobre a presença da prática na sociedade de seu tempo.

Ainda que já estivesse se afastando das propostas de Marinetti, o que se tornaria mais claro nos anos seguintes, notadamente depois de seu encontro com De Chirico, no ano de 1914, Carrá deixa-se contagiar pelas noções de patriotismo, no cenário tenso da véspera da 1ª Grande Guerra. Esse sentido impregna “Demonstração Intervencionista”: “Fiel à sua ideia anterior de pintar ruídos, a ‘abstração plástica do tumulto civil’, como ele mesmo definiu essa peça, celebra a Itália, seus aviadores, os ruídos da guerra, Marinetti e outros heróis do movimento moderno” (Humphreys, 2000, p.67).

“Demonstração Intervencionista” foi publicada na revista Lacerba, órgão de difusão do Futurismo, com o título de “Festa Patriótica”. Tratava-se de um claro diálogo com as propostas de Picasso na segunda fase do Cubismo, já adequado às características específicas do movimento futurista. Desaparece a figura e emerge a representação abstrata do tumulto e do caos urbano. O quadro é composto por palavras que fazem referência às novas dimensões da modernidade, apresentadas na forma de caleidoscópio, uma analogia ao turbilhão de novidades que assolava a sociedade.

Nesse contexto, a palavra “sports”, colocada ao centro, como destaque, nos relembra tanto o papel que tal manifestação ocupava no contexto social (sua adequação aos “novos tempos”) quanto sua ligação com as propostas do grupo.

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Enfim, trata-se de mais um indício de que houve um profundo diálogo entre o esporte e o Futurismo Italiano.

Consideremos que esse movimento, de diferentes formas e com diversas recepções, serviu de inspiração para artistas de outros países. De certa maneira, percebe-se essa influência no Dadaísmo e em certos momentos da trajetória de Marcel Duchamp e Robert Delaunay. Mas é certamente na Rússia e na Inglaterra que tal relação fica mais clara. Nesses casos, seria possível identificar algum grau de relacionamento com o esporte?

Esse é um assunto para outro post.

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Futurismo: um movimento esportivo

10/04/2011

por Victor Andrade de Melo

1909 é considerado o ano de fundação do Futurismo: Filippo Marinetti, um dos nomes-chave do movimento, publicou, no jornal francês Le Figaro, o primeiro (de muitos) manifesto com uma série de provocações e propostas para a arte. Já nessa ocasião, afirmara: “Nós tencionamos exaltar a ação agressiva, uma insônia febril, o passo do atleta, o salto mortal, o soco e a bofetada”. A figura do esportista e imagens comuns ao esporte são utilizadas para estabelecer um contraponto à imobilidade que, segundo o autor, caracterizaria a arte naquele instante.

Essa ideia é mais à frente reforçada: “Nós afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma nova beleza: a beleza da velocidade. Um carro de corrida cujo capô é adornado de grossos tubos, qual serpentes de hálito explosivo (…) é mais belo que a Vitória de Samotrácia”. Uma prática esportiva, o automobilismo, é apresentada como esteticamente superior (ou pelo menos mais adequada a uma nova sensibilidade) a um monumento símbolo da tradição artística.

Automóvel + Velocidade + Luz/ Giácomo Balla/ 1913

 Não surpreende a referência ao automobilismo, que se tornara uma febre na Europa das primeiras décadas do século XX. Dividindo com o ciclismo a preferência esportiva popular em muitos países, este esporte era relacionado às ideias de aventura, superação, progresso e rapidez. Esteticamente, ia ao encontro do interesse de artistas que combatiam a ideia de valorização da tradição, celebrando com empenho alguns dos sentidos correntes na construção do imaginário da modernidade: a máquina, a velocidade, o dinamismo, a agressividade, a violência.

Por seu caráter de comparação e por demonstrar que certas dimensões já eram consideradas por alguns futuristas mesmo antes do manifesto, destacamos a gravura “Automóvel e a caça da raposa” (1904), de Umberto Boccioni.

Na obra, os cavalos, símbolos de poder e da nova excitabilidade urbana no século XIX, tão representados no âmbito do Impressionismo, têm que sair da estrada para dar passagem a velozes carros. Diferencia-se claramente as roupas dos cavaleiros que praticam a tradicional caça às raposas (com seus cães que fogem assustados com a aproximação do automóvel) daquelas usadas pelos personagens que conduzem os veículos. As expressões são contrastantes: o olhar irônico dos “modernos”, a preocupação estampada na face dos que seguem a tradição.

As opções estéticas reforçam esses sentidos. O uso das linhas de força diagonais ajuda a enfatizar a idéia de movimento dos carros, criando um contraste com o imobilismo dos cavalos. A utilização de uma técnica de reprodução como a gravura, que avançara muito nas últimas décadas do século XIX, aproxima a obra de um pôster, já na ocasião comumente utilizado para a difusão de produtos da modernidade. Perspectivas semelhantes são trabalhadas em outras 7 obras, não surpreendentemente hoje pertencentes ao Automóvel Clube da Itália.

A prática esportiva foi uma temática constante na obra de muitos futuristas: foram representados com constância o automobilismo, o ciclismo, o motociclismo, o atletismo, o futebol, entre outros.

Várias são as dimensões que favorecem o diálogo entre esporte e Futurismo. Uma delas é o fato de o espetáculo esportivo se organizar de forma diferenciada da restrita tradição acadêmica; era “o novo”, uma manifestação plenamente integrada à cultura de massas que recém se estruturava nos anos iniciais do século XX. Se os futuristas contestavam as bibliotecas, galerias e museus, encontravam em outros espaços, como estádios e quadras, seus locus de celebração de uma nova arte. Adenda-se a isso o aspecto visual da prática esportiva: dinâmico, veloz, tumultuado, ótimo para ser representado a partir das proposições do grupo.

Dinamismo de um Jogador de Futebol/Umberto Boccioni/1913

Aproxima-os também o fascínio do Futurismo pela organização espetacular dessa diversão moderna, sua possibilidade de envolver multidões em torno de uma prática social, algo que por razões diferenciadas também tinha chamado a atenção de outros artistas, como Bertold Brecht.

Outra importante dimensão a ser considerada é a ideia de que os artistas deveriam se assumir enquanto soldados e trabalhadores, o que os aproximavam dos esportistas, eles também encarados como combatentes e operários de uma nova celebração moderna: o esporte entendido como um simulacro da guerra, uma forma de violência controlada, algo eivado de agressividade, além de uma ode ao nacionalismo e patriotismo.

Ciclista/Gerardo Dottori/1914

O esportista era o novo herói da modernidade, enquanto não vinha o conflito bélico tão propalado, esperado e requisitado pelos futuristas no período que antecede à 1ª Grande Guerra. Era o misto de homem e máquina que poderia ajudar a construir a ideia da necessidade de progresso.

Por compartilharem sensibilidades, a construção de sentidos e significados culturais e a celebração de determinadas imagens em comum, o entendimento das relações entre esporte e Futurismo nos permite lançar mais um olhar sobre o processo de construção e consolidação do ideário e do imaginário da modernidade.

Voltaremos ao tema em um post futuro.


Balanço de 2012…Feliz 2013!!

30/12/2012

por Victor Melo

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Estimados e estimadas colegas que acompanham nosso blog,

Já está programado para entrar no ar, amanhã, 31 de dezembro, o nosso ultimo post de 2012, de autoria da querida irmã Silvana Goellner.

Os resultados desse ano que agora termina merecem ser comemorados. Estamos no ar desde maio de 2009. De lá para cá, com pouquíssimas falhas, semanalmente temos tido um novo post no ar, tratando dos mais diversos assuntos. Foram 221 posts e chegamos bem próximos ao incrível número, para um blog como o nosso, de quase 100.000 acessos. É impossível falar dos diversos contatos que se geraram a partir dessa nossa iniciativa.

 Vejamos os resultados de 2012:

* O blog teve 53.000 acessos in 2012. Isso é, mais da metade do que tivemos nos anos anteriores

 * Foram publicados 57 novos posts. Foram carregadas 136 imagens.

* O dia com mais tráfego foi 1 de maio, com 395 visitas. O artigo mais popular nesse dia foi Getúlio Vargas, São Januário e o 1º de Maio.

* Estes são os artigos mais visitados:

 1 Esporte e arte na Inglaterra do século XVIII- novembro 2009

2 Futurismo: um movimento esportivo – abril 2011

3 Getúlio Vargas, São Januário e o 1º de Maio – fevereiro 2012

4 O maior clássico de Minas: René Barrientos x Che Guevara – agosto 2010

5 Velhos projetos, novos projetos: os estádios construídos para as competições internacionais no Brasil – setembro 2011

 * Colegas de 96 países diferentes nos acessaram, com destaque para Brasil, Portugal e Estados Unidos

Tudo já está preparado para 2013!!

Há mudanças na equipe de nosso blog. Nosso time agora está assim formado: Victor Melo, Rafa Fortes, Mauricio Drumond, Andre Schetino, Alvaro do cabo, Luiz Santana, Cleber Dias, Coriolano Rocha Junior, Edonio Nascimento, Valeria Guimarães, Nei Santos Junior, Silvana Goellner, Jorge knijinik, Silvio Correa, Fabio Peres, Andre Couto.

Ao encerrar mais um ano, devo agradecer a esses e a outros colegas que no decorrer do tempo contribuíram com nosso blog. Ele não seria possível sem a gentileza, envolvimento, compromisso e competência desses querido(a)s amigo(a)s.

 E a você, colega leitor, que nos brinda com seu prestígio, nosso muito 0brigado!

Que em 2013 sigamos juntos, e que o ano que chega seja cheio de alegria, paz, harmonia, prosperidade, musica, poesia!

Um grande abraço,

Victor.

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