“Os Trombadinhas” (1979)

05/12/2011

 

Ana M. Nascimento e Silva, na personagem de   “Arlete:        “- Você é o Pelé?

Edson Arantes do Nascimento, no personagem de “Pelé”:       –  Não, eu sou o Jô Soares,  sua piranha!”

 

Este diálogo, na parte final de “Os Trombadinhas”, consta de uma lista no you tube, intitulada “As 10 maiores pérolas do cinema nacional”… merecidamente  (http://www.youtube.com/watch?v=bmg026ejP7k&feature=player_detailpage).  E não é o único atrativo desse filme de 1979, dirigido pelo insuspeito Anselmo Duarte. Trata-se, inclusive, de seu último longa metragem. A bem da verdade, muitos acham que não se trata de um desfecho de ouro na brilhante carreira do ator/diretor que, nada mais nada menos, é o ganhador do maior prêmio já recebido por um filme nacional, a Palma de Ouro de Cannes, pelo Pagador de Promessas, de 1962. Opinião por opinião, lá vai a minha: é imperdível!

Não se trata de um ‘puta’ filme… longe disso. Mas 32 anos depois, essa fita ganha traços de registro histórico, elementos de saudosismo e um charme cômico impagável. Para além da antológica sequencia acima resumida, outras tantas merecem destaque na galeria de passagens memoráveis do nosso cinema. E a história?  Pueril e às raias do non sense.

Um empresário, vivido por Paulo Goulart, encontra-se num carro que atropela um jovem meliante em fuga, um trombadinha. A partir daí o empreendedor assume a causa desses meninos. Após diálogos inverossímeis com um juiz e policiais, resolve escalar Pelé para ajuda-lo na tarefa; mas como assessor da policia!!  Edson Arantes, interpretando Pelé, passa a acompanhar “Bira”, personagem do ator Paulo Vilaça, o qual vira seu ‘parceiro’ de rondas e perseguições. Já na primeira carreira atrás de um suspeito, Pelé se vê frustrado pela agilidade do pequeno assaltante. Pelé não jogava mais, tinha acabado de voltar do Cosmos (o que é mostrado no início da produção), portanto, admite que já “não está em forma”. Nesse momento há um corte para uma sequencia na qual ele volta a treinar… para poder dar conta de alcançar os ágeis trombadinhas!

É isso, o filme é um “policial”, no qual o rei do futebol coloca todo o gênio que desenvolveu nas quatro linhas a serviço da polícia, em nome da causa da salvação das criancinhas. É um filme com tese social. O problema, como defende o rei, não são as crianças, mas os verdadeiros criminosos, adultos, que as exploram. Dentre essas figuras surge um intermediário do varejo, o seu “Manteiga” (Sergio Hingst), e um grande empresário, Renato (Francisco Di Franco). Ambos acabam mal, por conta da ação detetivesca e heroica do craque. Seu manteiga é uma espécie de versão paulista do velho Fagin, o líder do bando de delinquentes juvenis da história de Oliver Twist, escrita por Dickens, ao fim da primeira metade do XIX.

            Há, como mencionamos, indeléveis traços de época. Todos, quase literalmente, usam calças boca larga; referir-se a Pelé como “negão”, a um de seus pupilos negros de “zulu’, a um outro de “crioulinho’ ainda não era politicamente incorreto. A menção velada, mas inequívoca ao comércio de cocaína é verbalizada de forma, hoje, ridiculamente cifrada. Renato, o vilão mor convida um empresário ganancioso e inacreditavelmente ingênuo a “diversificar” seus negócios:

“- Bota pó nessa jogada que você vai logo ter mais capital! (…)

Talco, pó de arroz…”

Esse era um negócio mais sério, só para os bandidos “barra pesada”. A película inclui ainda sequencias de perseguição em carros e hilárias cenas de briga. Nestas, Pelé faz um misto de lutador de Kung fu e Homem de seis milhões de dólares (a referência a essa série da década de 1970 parece clara demais; desde as sequencias de saltos e “dribles” em câmera lenta   – o maior recurso técnico de então para ilustrar as habilidades biônicas do personagem Steve Austin-,   ao modelito usado por Pelé, um conjunto bege, que é a cara do guarda roupas do ciborgue americano).

Pelé, o empresariado consciente, a polícia (devidamente reforçada pelo detive/jogador), fazem sua parte. Mas é preciso mais. Apesar da boa vontade desse escrete do bem, o problema persistiria, como é explicitado na última tomada.  Haveria muitas explicações para essa permanência, mas fico com aquela que remete à densidade intelectual dos perpetradores do escuso negócio de exploração de menores, ilustrada nesse diálogo:

Gibi (bandido concorrente de Manteiga):   “ – [Arlete] tinha um encontro comigo e nem deu sinal [já estava presa].   O manteiga deve ter armado uma arapuca pra ela!

Bandido 2:   – C´est la vie,  c’est la vie, mon chéri!.

Gibi: – Para com essa merda de inglês!

Bandido 2: – Não é inglês, seu burro! É alemão!”.

 

Se não der vontade de ver o filme depois disso, me demito-me desse blog,  entende?

Grande abraço; bom natal e fim de ano para todos!

 

Fontes:

http://www.meucinemabrasileiro.com/filmes/trombadinhas/trombadinhas.asp

http://seriesedesenhos.com/br2/br2/index.php?option=com_content&view=article&id=2533&Itemid=68

http://terrivialidades.wordpress.com/2011/06/20/os-trombadinhas-1979-um-manifesto-ideologico-sobre-a-delinquencia-juvenil-na-sociedade-contemporanea-e-o-pele-policial/

http://www.revistazingu.net/2011/10/os-trombadinhas-2

Consultadas  em 04 12 2011.


Pelé (David Tryhorn e Bem Nicholas, 2021): novo filme revisita temas polêmicos

30/03/2021

Entrevistador (em off)   – O que você sabia (…) na época?

Pelé   – Se eu dissesse que eu não sabia (…) eu estaria mentindo. Muitas coisas a gente ficava sabendo. Muitas coisas nós não tínhamos certeza (…).

Entrevistador  – Qual foi a sua relação com os governos?

Pelé – Eu sempre tive as portas abertas, todo mundo sabe disso. Até na época que era muito ruim.

(…)

Paulo Cézar Lima  – Eu amo o Pelé! Mas não posso deixar de criticá-lo. Eu achava que ele tinha um comportamento do negro sim senhor, submisso (…) que não contesta, que não critica (…) eu mantenho até hoje.

Neste triste feriadão pandêmico, venho tecer algumas poucas considerações sobre a mais nova película sobre Pelé. A obra, lançada há pouco mais de um mês pela Netflix, é uma grata contribuição ao conjunto de produções cinematográficas já realizadas sobre o atleta do século (para uma lista do nada desprezível rol de filmes com ou sobre Pelé, ver referência citada no meu último post: O Rei Pelé – Carlos Hugo Christensen, 1962:cinema, futebol e racismo: https://historiadoesporte.wordpress.com/2020/11/17/o-rei-pele-carlos-hugo-christensen-1962-cinema-futebol-e-racismo/).

O documentário é de responsabilidade dos cineastas David Tryhorn e Bem Nicholas. Ambos apresentam uma filmografia bastante reduzida, mas com uma pegada no tema do esporte. Dirigiram ou produziram fitas sobre ídolos do atletismo e do tênis (Ver perfis e obras em: https://www.imdb.com/name/nm8510460/?ref_=tt_ov_dr). Com seu último trabalho, Pelé (2021), abriram uma nova vereda em uma tradição da narrativa fílmica sobre o “Rei do futebol”.

A crítica vem demarcando, de modo quase consensual, o diferencial mais evidente da abordagem dos diretores britânicos, a saber, o enfrentamento (mesmo que deliberadamente contido e balanceado) de delicadas questões extra-campo na biografia de Pelé. Fundamentalmente no que se refere aos posicionamentos (ou falta de) do futebolista frente ao Regime Militar e seus máximos dirigentes. Conforme Diogo Magri sumariza, a “produção (…) fez o jogador falar, pela primeira vez de forma tão longa sobre ditadura, tortura e o uso do futebol  – e dele próprio –  como propaganda do regime militar” (Pelé encara seus dilemas com a ditadura na Netflix: https://brasil.elpais.com/esportes/2021-02-23/pele-encara-seus-dilemas-com-a-ditadura-na-netflix.html).

Esse é o tema-base. Mas a película não se resume a isso. Tem muito futebol, Copa do Mundo, disputas em torno da empreitada de 1970. Sobre as sempre acionadas discussões a respeito da Copa do México e a troca de comando às vésperas da competição (substituição de João Saldanha por Mário Zagalo), também são acrescidas imagens e colocações variadas. João Saldanha é retratado, ao meu ver de modo tendencioso, como um opositor do futebol “brasileiro”. Brito, Rivelino, Juca Kfouri, e até Delfim Netto são chamados à fala (a pronunciarem-se sobre suas memórias e avaliações sobre 1970). Este último senhor, aliás, além de assumir seu papel na assinatura do AI-5 (nenhuma novidade) chama a atenção por sua sinceridade, desprovida de qualquer prurido. Perguntado se estava ciente do uso do Ato Institucional como instrumento para a tortura, a resposta é imediata: “seguramente que sim”. Sobre o acompanhamento da Copa de 70 por Emílio Médici, acrescenta:

– Aquilo se transformou, para o presidente, pessoa física, uma coisa importante.

Entrevistador: Por quê?

– Porque se o povo fica contente, o governo fica contente [rindo].

A discussão segue por vários caminhos e personagens. Esta é uma pequena amostra. Reforço que o eixo narrativo está montado numa tentativa (interessante) de cruzar o homem, o jogador excepcional e sua lida com os muitos percalços de um país. Em uma narrativa centrada principalmente no intervalo entre 1958 e 1974, temos que dez desses anos estão indelevelmente atravessados pelo Regime Ditatorial. (Re)colocar Pelé no meio desse redemoinho é do que se trata. Para tanto são convocados depoimentos de época e contemporâneos (com alguma diversidade de posicionamentos). Mostra-se o relacionamento amistoso do Rei (digamos assim) para com as autoridades e chama-se o próprio, para uma conversa/balanço.  

O comentarista PC Vasconcelos sintetizou bem a dialética da fita. Uma discussão (inevitável, mas por muitas vezes malabaristicamente driblada) entre o dentro e o fora de campo (o famoso dentro das 4 linhas e o offside, em uma provavelmente cansada metáfora boleira). A fala de Vasconcelos vem em off, após as imagens que mostram a recepção a Pelé, no Palácio da Alvorada, confraternizando com Garrastazu Médici. O futebolista havia sido convidado para uma recepção pública, três dias após a marcação de seu milésimo gol. PC comenta:

Para muita gente vai se olhar menos para o que fez dentro do campo e mais para o que fez fora. E fora é caracterizado por uma ausência de posicionamento político. Nesse momento da história isso vai pesar muito contra ele.

Neste ponto ficarei por aqui. Para os arrazoados contextualizadores (alguns contemporizadores), prós e contras, remeto ao próprio documentário. Eu recomendo. Particularmente, eu sempre achei que se deve dar a Cezar o que é de Cézar. Pelé é eterno pelo que fez como jogador, como virtuose da bola (com todas as relevantes e profundas implicações advindas da assunção de um negro pobre, nas décadas de 50 a 70, num país pouco desenvolvido e racista como o Brasil). Não obstante, não se pode viver da glória, do reconhecimento e da imagem pública, sem uma cobrança pública. O que os grandes ídolos fazem têm repercussão para além de seus campos específicos de atuação. Ônus e bônus de cada atitude serão, necessaria e independentemente da vontade de cada um, postos na balança pública. O filme de Tryhorn e Bem Nicholas ajuda nesse sentido. E o faz de modo suave e razoavelmente equilibrado.

Mais duas ou três coisas rápidas. Alguns destaques que omiti e uma palavra sobre a construção fílmica.

Há duas cenas que não gostaria de deixar passar, mesmo que ligeiramente. A primeira é por puro deleite. Por volta do minuto 26, Pelé participa de um almoço, em uma casa em Santos, com a velha turma do famoso escrete. Dorval, Pepe, Edu e companhia. É como um churrasco de velhos e bons amigos, que dividiram a juventude e as aventuras de uma parte da vida que não volta mais. Quem já jogou bola, participou de torneios de rua, quadra, colégio, faculdade (que pareciam… e eram assumidos como a coisa mais importante do mundo) certamente vai se reconhecer nas brincadeiras, nas troças, nas histórias de décadas passadas, contadas com a vivacidade de uma memória afetiva. A diferença é que aqueles octagenários fizeram parte de um dos maiores times da história, duas vezes campeão da Libertadores e do mundo e tiveram como líder a quem carinhosamente chamam de “negão”, o maior jogador de todos os tempos (se isso não estava claro até agora, essa é a minha opinião). Entre uma e outra provocação, Pelé não é poupado. Basta ele começar a cantarolar uma música de sua autoria para ouvir prontamente:

– Em questão de cantar, ele tá melhorando!! [aí a gargalhada se torna irrefreável, inclusive para a assistência].

Pelé reconhece a riqueza do momento.

– Vocês são demais! Olha o sol que vocês trouxeram. Um dia maravilhoso! [uma sequência maravilhosa!].

Um segundo e último núcleo de observações se refere à forma como a história é contada filmicamente. Trata-se de um documentário bem tradicional, mas destacaria a qualidade de algumas das imagens de época e o recurso à montagem paralela que, já nas primeiras cenas, estabelece a proposição narrativa (com a alternação de planos do indivíduo, do jogador em atividade e de imagens de época, com ênfase em cenas da repressão ditatorial).

Somos, portanto, apresentados à película a partir de um contraponto entre o homem/indivíduo, um senhor de 80 anos, que chega de andador, devagar e o atleta magnífico, a personalidade pública e o jovem jogador, cuja história de uma conquista do mundo vai passar a ser contada. É como um convite a um balanço/retrospectiva (o título seco, “Pelé”, parece se coadunar com esses primeiros planos que preparam o desenrolar da trajetória a ser apresentada).

Uma cena inicial chama (muito) a atenção. Pelé surge dirigindo-se ao centro de uma ampla sala vazia, ocupada apenas por uma cadeira. Ao acomodar-se, com certa dificuldade, desvencilha-se do andador, com um empurrão ainda enérgico. É um estorvo que não condiz com o que nos vai ser mostrado. Deve ir para fora do enquadramento (para fora do campo de visão). Tal como ao final da Copa de 70 (e conforme depoimento de Rivelino, nessa película), parece que podemos ouvir um berro:

-Eu não morri! Eu não morri! Eu não morri! [assim mesmo, três vezes, como nos conta Riva].

Pelé é eterno.

Algumas referências:

Para dar uma olhada no Trailer, segue o link (mas o bom mesmo é ver na íntegra, no NETFLIX): https://youtu.be/GS0dFi63Nzg.

E listo um pequeno apanhado de publicações da crítica, em diferentes matizes:

A seleção que ‘presenteou’ a ditadura com uma taça. Disponível em: https://brasil.elpais.com/esportes/2020-06-07/a-selecao-que-presenteou-a-ditadura-com-uma-taca.html.

BARBOSA, Nathan Pereira. Pelé”, da Netflix: entre a tradição biográfica e o necessário desconforto político. Ludopédio, São Paulo, v. 140, n. 54, 2021.

CASÉ, Rafael. O inesgotável Pelé (contém spoilers). Ludopédio, São Paulo, v. 141, n. 34, 2021. Disponível em: https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/o-inesgotavel-pele/.

Documentário sobre Pelé retoma o debate em torno da postura do ídolo diante do arbítrio…. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/cultura/documentario-sobre-pele-retoma-o-debate-em-torno-da-postura-do-idolo-diante-do-arbitrio/

Documentário ‘Pelé’, da Netflix, peca pela falta de profundidade. Disponível em: https://liberal.com.br/colunas-e-blogs/estudio-52-documentario-pele-da-netflix-peca-pela-falta-de-profundidade/.

Michael Jordan e Pelé evitaram o ativismo, mas foram enormes agentes políticos. Disponível em:https://brasil.elpais.com/esportes/2020-10-23/michael-jordan-e-pele-evitaram-o-ativismo-mas-foram-enormes-agentes-politicos.html.

Pelé encara seus dilemas com a ditadura na Netflix. Disponível em:https://brasil.elpais.com/esportes/2021-02-23/pele-encara-seus-dilemas-com-a-ditadura-na-netflix.html


Para outros posts sobre filmes de/com Pelé, que escrevi neste blog, ver:

Os Trombadinhas (Anselmo Duarte, 1979): https://historiadoesporte.wordpress.com/?s=os+trombadinhas;

 Pelé – o nascimento de uma lenda (EUA/BRA, 2016, Jeff e Michael Zimbalist): https://historiadoesporte.wordpress.com/2017/12/21/pele-o-nascimento-de-uma-lenda-eua-bra-2016-jeff-zimbalist-e-michael-zimbalist/.

Isto é Pelé (Luiz Carlos Barreto/Eduardo Escorel, 1974): https://historiadoesporte.wordpress.com/?s=futebol+e+cinema+v.

O Rei Pelé (Carlos Hugo Christensen, 1962):cinema, futebol e racismo: https://historiadoesporte.wordpress.com/2020/11/17/o-rei-pele-carlos-hugo-christensen-1962-cinema-futebol-e-racismo/.


O Rei Pelé (Carlos Hugo Christensen, 1962): cinema, futebol e racismo

17/11/2020

– Pelé é bonzinho! (Silene, amiga adolescente)

– Pelé é uma criança! (mãe de Silene)

– Mas é preto! Eu sou um sujeito que não bebe cachaça,

porque cachaça é bebida de preto! (pai de Silene)

 

O inusitado diálogo acima é parte do enredo de O Rei Pelé, o primeiro longa sobre nosso futebolista-mor. Hoje, o post é sobre essa película. Na verdade, a lembrança veio após uma nova visita ao filme (disponível no youtube, aliás: https://www.youtube.com/watch?v=J0AmFTZ5TX8&t=491s) e no fato de que esta publicação estava agendada em meio às comemorações dos 80 anos de Edson Arantes do Nascimento, no último dia 23 de outubro e o dia da Consciência Negra, na próxima sexta (20 de novembro). Se as efemérides servem para algo (e servem), talvez valha a pena aproveitarmos essas referências para o breve comentário abaixo.

O último aniversário de Pelé, agora octagenário, suscitou comemorações e debates (Esporte da Globo celebra os 80 anos do Rei Pelé-https://imprensa.globo.com/programas/futebol/textos/esporte-da-globo-celebra-os-80-anos-do-rei-pele/).

Como não podia deixar de ser, dentre outras, a questão do racismo e das posturas do Rei voltaram à tona (Pelé: Racismo e esquecimento marcam os 80 anos do jogador. Disponível em: https://www.geledes.org.br/pele-racismo-e-esquecimento-marcam-os-80-anos-do-jogador/). Trata-se de uma discussão de longa data. Não vou entrar diretamente nessa seara; não agora, mas aproveito para mantê-la em mente, na apreciação da película (para uma pequena amostra do debate: Pelé: “o racismo não mudou, o que mudou foi a imprensa”. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/esporte/2020/03/17/pele-o-racismo-nao-mudou-o-que-mudou-foi-a-imprensa; Paulo C. Caju diz que Pelé também tem culpa por racismo no futebol. Disponível em: http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2014/04/10/paulo-c-caju-diz-que-pele-tambem-tem-culpa-por-racismo-no-futebol.htm).

O longa de Carlos Hugo Christensen, o sétimo de sua carreira, não apresenta uma trajetória muito avantajada; não no que tange a apreciação da crítica (ORICCHIO, 2006; MELO, 2009). Visto agora, quase sessenta anos depois, reveste-se de interesse histórico e reflexivo. Antes de mais nada, porém, cabe destacar que a fita constitui um marco no seio de uma considerável trajetória cinematográfica do nosso astro da bola e das telas (mais da bola; muito mais da bola, é claro). Não obstante, a presença de Pelé no cinema não é nada desprezível. O professor Victor Melo fez um apanhado em 2009: relacionou, na ocasião, 24 títulos (de todas as metragens) nos quais Pelé atua ou é representado (MELLO, 2009). Esse rol está desatualizado. As recentes produções Pelé – o nascimento de uma lenda (EUA/Brasil, Jeff Zimbalist e Michael Zimblist, 2016) e Pelé, a origem (Luiz Felipe Moura, 2019), por exemplo, precisam sem acrescidas ao conjunto. Mas vamos à obra.

O Rei Pelé mistura dramatização e documentário. Poderia ser confundido com uma concepção “moderna” no gênero, posto que evidencia sua condição de construto. Na verdade, porém, a intenção é assinalar verossimilhança. Nesse sentido, a narrativa entremeia temporalidades. Temos um Pelé adulto, já famoso, sendo interpelado ‘casualmente’ pelo produtor e argumentista Fábio Cardoso (ambos interpretam a si mesmos). Essa encenação de conversa informal/entrevista funciona como fio condutor à dramatização de uma biografia do astro-boleiro (para alguns bons detalhes, ver crítica de Gabriel Carneiro. Disponível em: http://www.portalbrasileirodecinema.com.br/christensen/filme-o-rei-pele.php?indice=filmes#).

Simultaneamente, abusa-se do modelo da narrativa heroica. O fado de Pelé está traçado desde a origem: garantido pelo oráculo local, a negra Raimunda, mãe de Santo que prevê que o menino que acabara de nascer iria consagrar-se “rei do mundo”. Seguindo o roteiro épico, temos a resistência ao chamado (Dico, apelido infantil de Edson, resiste à alcunha de Pelé… uma reticência ao destino). Com essa mesma função narrativa, temos a promessa do garoto de deixar de jogar bola (por pressão de sua mãe, Dona Celeste, interpretada pela própria!). Evidentemente a força da sina se impõe. E por aí vai, com a(s) queda(s), soerguimento e consagração. Tudo muito conhecido e, por isso, não insistiremos. O detalhe é que toda essa trajetória já pôde ser concebida (já reunia condições de possibilidade edificante) quando Pelé tinha somente 22 anos! Essa é a sua idade quando da realização do filme. Durante “a produção, o desportista conquista a Copa do Mundo, o Brasileiro, a Libertadores e o Intercontinental pelo Santos”(http://www.portalbrasileirodecinema.com.br/christensen/filme-o-rei-pele.php?indice=filmes#).

No final das contas, a película trata disso: da fulminante ascensão e extensão desse fenômeno (até aquele dado momento; sabemos que muita água, e gols, rolariam dali em diante). A narrativa é balanceada com imagens esportivas reais e com detalhes e passagens familiares e biográficos (mais ou menos romantizados – provavelmente mais) e afirmações do (bom) caráter do personagem/biografado.

Não obstante, o filme é rico. Vale um esquadrinhamento. Por hora ficarei com um único destaque. Retomando um pouco o fio desta meada (nossa conversa no início), chamo a atenção para uma discussão do enredo, a qual envolve a temática do racismo e seu lugar na biografia do jogador/personagem. Isso me saltou aos olhos desde a primeira vez que assisti ao filme, exatamente pela noção de como essa questão foi controversa ao longo da vida pública do astro. Também me chamou a atenção que alguns dos poucos comentários especializados sobre a obra não tenham desenvolvido esse ponto; fato compreensível, dada a limitação do escopo de suas abordagens específicas (estão a tratar de outros temas – ORICCHIO, 2006; MELO, 2009).

No entanto, ele está lá; de modo explícito, narrativamente significativo e curiosamente contraditório. Sintetizemos a situação e o imbróglio. Tudo começa com uma conversa entre o jogador do Santos e Fábio Cardoso, no modelo já descrito. Este último pergunta, na lata:

– Escuta, Pelé, você nunca teve problema racial?

Ao que Pelé retruca: – Não, nunca. Só uma vez. Na época em que eu jogava no Baquinho [time juvenil do Bauru Atlético Clube].

É dessa situação que trata a epígrafe deste post. Com essa “deixa”, somos transportados à dramatização do contexto de um Pelé garoto, um jovem adolescente. Na ocasião, ele contaria com uma amiga, uma menina de idade semelhante, branca. Seu nome é Silene.

A moça tem um indisfarçável crush pelo nosso protagonista. Uma atração infanto-juvenil, que envaidece a personagem de Pelé, mas frente a qual ele parece não dar muita pelota. Essa afeição, porém, é severamente reprimida. O problema: o pai da donzela. Um racista sem papas na língua. Mas é essa crueza que, em uma visão retrospectiva, potencializa a comoção. Já ilustramos sua verve na epígrafe, mas, se necessário, poderíamos acrescentar as expressões “preto sem vergonha” e “negro não é direito”, todas veementemente utilizadas pelo patriarca. Para além desse festival de horrores, parece relevante pontuar duas coisas. O importante papel desse personagem/conflito na narrativa fílmica e a constituição cinematográfica da mesma (ou seja, como ela foi escrita em termos cinematográficos). Irei me restringir a esses dois itens e encerraremos.

Para sumarizar, é importante atentar que, não bastasse o racismo, o pai de Silene é desonesto. Junto com um comparsa, ele oferece 200 cruzeiros (“dinheiro pra burro”) para que o jovem futebolista fizesse corpo mole (por arranjo de apostas, é claro). A sequência dessa primeira provação/tentação do herói é bem marcada. Acontece em uma espécie de Museu itinerante do horror, na cidade de Bauru. O garoto-Pelé é abordado e recebe a proposta indecorosa, primeiro com uma voz em off, seguida de cortes que intercalam closes do menino com a exibição de tenebrosas figuras, do acervo do tal museu. Depois de algum tempo, os personagens corruptores se fazem mostrar, estão posicionados atrás do jovem atleta, sugerindo, incentivando-o ao acordo nefasto.

Em desenho animado, isso corresponderia ao diabinho soprando a má sugestão ao incauto. Uma verdadeira encenação das encruzilhadas e tomadas de decisão, que determinam os rumos de uma vida. Essas figuras malévolas são incorporadas pelo pai da moça e um comparsa (sério candidato a assecla de Mefistófeles). Representam o mau caminho. As más práticas, o mau caráter, o racismo, o horror, explicitamente figurado nas carrancas e representações da morte da esquisita casa de entretenimento em Bauru.

A estória se desenrola, com percalços interessantes, aliás. Mas, a despeito de tudo, a opção é feita com a repulsa ao “dinheiro fácil” e à “traição aos companheiros”.

Esse ponto não é subsidiário. É crucial à trajetória que forja o herói, identifica o mal e constitui a narrativa fílmica. Para não haver dúvidas, é o próprio Pelé (na sua versão adulta, representada pelo próprio), que ‘esclarece’ o sentido ao produtor/argumentista Fábio Cardoso:

– Você comprende, Fábio? Foi bom que os caras tivessem querido me comprar. Aprendi pra toda a vida.

Dá vontade de continuar. Mas, creio que já estourei os limites razoáveis de extensão do post (vou complementar alhures: aviso ou republico aqui, para quem queira conferir).

Em arremate, uma última observação. Para uma única experimentação de racismo (à altura dos 22 anos, na década de 1960), a indicação do Pelé fílmico foi contundente (para cruzamento com declarações do Pelé histórico, voltamos a remeter aos links já citados). Foi responsável, junto com a tentativa corruptora (perpetrada pelo mesmo algoz), pelo delineamento do caráter do jogador/homem/herói. Foi constitutiva, portanto. Todo o esforço deste escrito foi motivado pelo estranhamento de, em um primeiro momento, não ter encontrado o destaque que parece cabível a essa trama, no campo dos escritos sobre cinema e futebol. Se este for o caso (o de uma ausência), espero ter contribuído para sua minimização, com este pequeno quinhão indicativo. Uma boa semana a todos!

Até a próxima!

Obras citadas:

MELO, V. A. Garrincha X Pelé: Futebol, Cinema, Literatura e a Construção da Identidade Nacional. In: MELO, V. A & DRUMOND, M. (orgs.). Esporte e Cinema: novos olhares. Rio de Janeiro, Apicuri, 2009.

ORICCHIO, Luiz Zanin. Fome de bola: cinema e futebol no Brasil. São Paulo, Imprensa Oficial, 2006.

Para outros posts que escrevi sobre filmes com/sobre o Pelé:

Os Trombadinhas (Anselmo Duarte, 1979) – https://historiadoesporte.wordpress.com/?s=os+trombadinhas

Pelé – o nascimento de uma lenda

(EUA/BRA, 2016, Jeff e Michael Zimbalisthttps://historiadoesporte.wordpress.com/2017/12/21/pele-o-nascimento-de-uma-lenda-eua-bra-2016-jeff-zimbalist-e-michael-zimbalist/

Isto é Pelé (Luiz Carlos Barreto/Eduardo Escorel, 1974) – https://historiadoesporte.wordpress.com/?s=futebol+e+cinema+v


Pelé – o nascimento de uma lenda (EUA/BRA, 2016, Jeff Zimbalist e Michael Zimbalist)

21/12/2017

CARTAZ PELÉ - O NASCIMENTO DE UMA LENDA (2016)

 

Senhoras e senhores: segurem seus chapéus. Ainda temos dez minutos no segundo tempo. Vamos sambar!

(narrador em voice over, durante jogo entre o time infantil do King e o Shoeless ones, equipe capitaneada por Dico/Pelé).

 

Entenderam o trecho acima? Nem eu…

Hoje vamos falar do mais novo empreendimento cinematográfico (longa) envolvendo a mítica figura de Pelé. Já comentamos, aqui mesmo, pelo menos uma das aventuras ou desventuras fílmicas do nosso grande atleta (ver post Os Trombadinhas, 1979 – https://historiadoesporte.wordpress.com/2011/12/05/os-trombadinhas-1979/). Mas a lista de produções envolvendo o “maior atleta do século” é bem razoável. O professor Victor Melo relacionou 24 filmes nos quais Pelé atua ou é representado (MELO, V. & DRUMOND, M. (orgs). Esporte e Cinema: novos olhares, RJ, Apicuri, 2009, p. 230).

Atentemos, no entanto, ao “nascimento de uma lenda”. Essa película deveria ter estreado em julho, com a Copa do Brasil, em 2014, mas assim como parte considerável das obras de cal e pedra também não cumpriu o calendário inicial. O filme abarca o período que vai da infância de Pelé até a conquista da Copa de 1958, na Suécia, a primeira vitória do selecionado nessa competição. Na oportunidade, Pelé contava com apenas 17 anos.

Pois bem, o filme não foi bem recebido pela crítica (ver http://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2016/05/pele-o-nascimento-de-uma-lenda-bate-um-bolao-so-nas-cenas-de-futebol.html; https://observatoriodocinema.bol.uol.com.br/criticas/2017/10/critica-pele-o-nascimento-de-uma-lenda; https://omelete.uol.com.br/filmes/criticas/pele-birth-of-a-legend/?key=138225. Consultadas em 21 de dezembro de 2017).  De modo justo. Eu também não gostei. Não como filme, como material para se pensar é um prato cheio…

O trecho em epígrafe indica o tom estereotipado (caricaturizado mesmo) da obra. Mas o conjunto é pior. Se quiséssemos sintetizar poderíamos resumir a tese do filme como uma luta pela afirmação da “ginga” do futebol brasileiro (tendo Pelé como sua apoteose) contra a forma europeia de se praticar o esporte. Essa “ginga”, aliás, não definiria somente o futebol nacional, mas o “espírito brasileiro”. Há um ilustrativo diálogo fictício (a obra é pródiga em encenar situações que nunca aconteceram e de estabelecer diálogos ou desdobramentos inverossímeis) entre Waldemar de Brito e o jovem Pelé. A conversa se passa em uma estação de trem, em Santos, na qual o aspirante espera o trem para voltar para Bauru, descontente por sua incapacidade de satisfazer as condições solicitadas pelo treinador do clube. Pelo inusitado do enredo, vale a transcrição:

Waldemar de Brito – Os portugueses chegaram no Brasil com os escravos africanos. Mas a determinação dos africanos era forte. E muitos fugiram para o mato. Para se protegerem, os escravos africanos apelaram para a ginga. A base da capoeira, a arte marcial de guerra. Quando a escravidão foi abolida, saíram do mato e descobriram que a capoeira foi posta na ilegalidade. Eles viram o futebol como a maneira ideal de praticar a ginga sem serem presos. Era a forma mais atualizada de ginga. E em pouco tempo a ginga evoluiu, se adaptou, até não ser somente nossa [da população afro-descendente brasileira, presumo]. Era o ritmo dentro de todos os brasileiros. Mas, na Copa de 1950, muitos acharam que nosso estilo era o culpado pela derrota e passaram a repudiar tudo que era ligado a nossa herança africana. Assim como seu treinador tem tentado tirar a ginga do seu jeito de jogar, nós temos tentado tirar de nós mesmos, do nosso povo, desde então.

Mas a ginga é muito forte em você, Dico [apelido de Edson Arantes, quando criança]. Então, nos mostre o que acontece quando você tem a coragem de aceitar quem você realmente é ou você pode pegar esse trem e nunca saberá.

Todo o filme está baseado nessa caracterização, reforçada em vários trechos. Essa cinebiografia (epopeia, fantasia) de Pelé equivale a uma narrativa da assunção e ascensão dessa tal “ginga” por parte dos negros e de toda população brasileira, protagonizada pelo herói de ébano. Dá pano pra muita manga…

Aliás, as mangas, esse nosso produto tropical abundante, têm um papel importante. É com elas que o pai de Pelé, Dondinho (segundo o filme), treinava suas habilidades de controle: “as verdes para chutar, as maduras para as embaixadinhas”. Essa técnica revolucionária teria sido passada para o filho o qual, depois, em campo, ganha cenas alternadas para evidenciar o link entre essa estratégia tropical e o domínio da bola nos gramados. Lembra as dezenas de filmes de Kung Fu e seus treinamentos mirabolantes (Olá senhor Miyagi ! Karate Kid, 1984, John Avildsen).

É um filme curioso. Há ainda a construção de uma animosidade entre Mazola (José Joel Altafini) e Pelé. Veja, segundo o enredo, esses dois grandes jogadores que conquistaram a primeira Copa do Mundo para o Brasil se conheciam desde criança. A mãe de Pelé (numa construção fílmica) trabalhava para a família de Mazola e este, quando pequeno, zombava do filho da empregada (Dico, o futuro Pelé), vindo encontrar-se com ele no escrete de 1958.

O Mazola do filme é um contraponto a Pelé. O primeiro quer ser estrangeiro, jogar como estrangeiro e Pelé representaria a autenticidade nacional (receosa de afirmação, mas irrebatível quando assumida). O conjunto de representações, simplificações e visões bem vale uma apreciação mais detida (para um outro momento). Para finalizar estas considerações iniciais, apenas indicaria algumas referências cinematográficas que saltam aos olhos na edificação narrativa em questão.

Primeiramente, alguém já aludiu que a tal da ginga se assemelha ao fenômeno da “força” nos filmes de Star Wars (“a ideia de dizer que a ginga é uma espécie de força Jedi originada da capoeira é demais pra cabeça de qualquer um. GOMES, Fábio S. Disponível em: https://omelete.uol.com.br/filmes/criticas/pele-birth-of-a-legend/?key=138225. Consultado em 21 de dezembro de 2017). A afirmação do personagem de Waldemar de Brito destacando que “a ginga é muito forte” em Dico parece uma caricatura hollywoodiana para um pretenso e nacional Luke Skywalker de chuteiras.

A tese da “ginga”, evidentemente tem raízes na caracterização Freiriana de nosso futebol flamboyant, mas, filmicamente, não há como não pensar no título Ginga – alma do futebol brasileiro (Brasil, Hank Levine, Marcel Machado e Tocha Alves, 2004; para mais informações ver SANT’ANA, L. C. “Ginga: alma nacional, expressão universal – representações e aspirações de nacionalidade e pertencimento”. In MELO, V. A. & DRUMOND, M. 2009, op. cit.). A tese é quase a mesma, embora a qualidade das obras seja distinta (o filme Besouro, Brasil, 2009, de João Tikhomiroff, que apresenta similaridades com a obra em questão, também é imageticamente citado).

A oposição Pelé  X  Mazola faz lembrar quase imediatamente àquela entre Mozart e Saliere, no filme de Milos Forman, Amadeus (1984), para ficarmos com uma referência apenas.

A performance de Pelé (toda vez que se permite incorporara a “ginga”), aliás, está mais para a plástica dos games de futebol, também expressa, por exemplo, na peça de propaganda da Nike, intitulada “O último jogo”(Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=59t31RqeY88. Acessado em 21 de dezembro de 2017). Está muito mais para malabarismo com bola do que para futebol.

Enfim, uma película curiosa, disso não se pode duvidar.

Um belo fim de ano para todos nós é o que este comentarista e este blog desejam a todos.


La Saeta Rubia (1956)

09/07/2012

                 “ – Pero soy futbolista, no actor…”

                    (Di Stéfano “interpretando” a si mesmo).

        Imagem   

Diletos leitores, este post foi enviado direto de Madrid, onde o humilde copartícipe deste blog encontra-se em missão especial (sempre quis dizer, ou escrever isso), representando o Laboratório de História do Esporte e do Lazer – PPGHC / IFCS / UFRJ, com financiamento da CAPES. Isto posto, vamos lá..

A declaração/confissão destacada acima (ademais de desnecessária), é parte do diálogo que o supercraque Di Stéfano mantem com a personagem Julia, uma mulher quase fatal, que tenta e atenta ao jogador a participar de uma  “película”. Mais prudente na ficção do que na vida real, Dom Alfredo Di Stéfano recusa: o papel, o assédio da diva (era um homem casado) e mesmo o “bom dinheiro” que lhe foi prometido. O mesmo não ocorreu quando lhe chamaram para protagonizar “La Saeta Rubia” (de Javier Setó, 1956).  Nesse filme, o atleta-doublé de ator vai “interpretar” a si mesmo, em  um enredo de engajamento moral-cristão (realizado em plena vigência do Franquismo, não nos esqueçamos). A história é simples e quase clásica, ao menos em seus traços mais largos.

Di Stéfano, o famoso ídolo do incrível Real Madrid das décadas de 1950, principalmente, e 1960[1], se choca abruptamente com os desvalidos da sociedade espanhola de então. Um contato quase físico, quando é levado a pensar que teria atropelado um menino que surge à frente de seu carro. Ao socorrê-lo, vê que tudo está bem; é reconhecido pelo garoto e por seus amigos e é alegremente cercado por eles. Somente quando vai se trocar, no vestuario do Real Madrid, é que percebe que teve a carteira roubada. Sorri, conformado. O personagem-mirin de “Chispa” foi o autor da façanha. Faz parte de um grupo de garotos pobres que realizam pequenos furtos e inconsequencias. Ao longo do filme levam a carteira de Di Stéfano, mas devolvem-na;  capturam uma máquina fotográfica, mas apenas para doá-la a um simpático senhor, o seu “Justo”, que estava triste por haver perdido a sua própria máquina (os meninos sugerem que ele peça ajuda a seu santo de devoção e enquanto seu Justo reza, eles põem a máquina roubada junto ao oratório… Milagre!!). A outra ação consiste em surrupiar um rádio, este para poderem ouvir a partida do Real Madrid, com a participação do, agora amigo, Saeta Rubia[2].

Sem a necessidade de maiores descrições, podemos dizer que a partir dessa última empreitada, os rapazes são detidos pela polícia. Don Alfredo intercede e asume a responsabilidade pelos mesmos, treinando-os. Entusiasmado, forma um time, o “Saeta Rubia”, o qual inscreve no campeonato respectivo à idade dos jovens. Para além dos naturais percalços, conflitos e dificuldades, o futebolista, com a ajuda de sua piedosa esposa, acaba por resolver a vida de todo mundo. Dos adolescentes e das famílias. Oferece oportunidades e o apoio, tudo que precisavam para poder melhorar de vida, material e moralmente[3]. A fita evolui até um desfecho que, obviamente, redunda em partidas decisivas. Uma do campeonato dos garotos, na qual, ao final, logram o primeiro lugar; a outra se dá no ámbito profissional. O Real Madrid vai disputar mais uma final e, para variar, La Saeta arrebenta e sagram-se novamente campeões.

A riqueza de elementos históricos e narrativos, já fez desse filme objeto de algumas considerações acadêmicas[4]. Neste post vou apenas tecer uma consideração parcial, pontual e quase ‘impressionística’.  

À luz da minha recente exposição a essa película, é quase impossível não atualizá-la com o acompanhamento da crônica jornalística desses mais de três meses em Espanha. Se Dom Alfredo cumpriu um papel futebolístico espetacular na década de 1950-60, com impacto político sobejamente capitalizado, talvez ese argentino, naturalizado español, pudesse ser ainda mais util nesses dias atuais de incerteza econômica e financeira. Ao menos se pudesse resolucionar, com a mesma rapidez e facilidade, algumas das mazelas sociais representadas no enredo. Duas delas chamam a atenção: o desemprego e a saúde pública. Na película o jogador é pródigo: consegue ocupação remunerada para  todos, dos mais “chiquititos” ao pai do garoto André, um senhor que, literalmente, já havia pendurado as chuteiras (um ex-profissional dos campos que por conta de uma lesão decaiu e se entregou à bebida). Um primor de atendimento social, ao estilo Saeta, voando.

O super craque seguramente teria mais dificuldades hoje, com uma taxa de desocupação recorde na União Europeia, na faxa de 24,6% e que, para os mais jovens, chega a estratosférica cifra de 52,17% ! [5]. Haja  drible, esquema, tabelinha, para lidar com esses números. Isso sem contar que, no filme, o boleiro em questão cura até dontes. Um dos “niños”, acamado, recebe atenção especial e ao fim do filme reaparece, bom o suficiente para ir assistir seu herói ao vivo, com suas próprias pernas, no estádio de futebol. Uma beleza.

Mesmo sem recuperações tão espetaculares, um mecenato médico também cairia muito bem na Espanha contemporânea, quando se aponta, todos os dias, para a necessidade de se cobrar serviços e beneficios de saúde, até então cobertos pela seguridade. Algo que o governo chama de “copago” e os críticos, ou simplesmente os afetados, chamam de “repago” (vejam bem, até ese momento a saúde pública em Espanha parece ter atingido um grau de cobertura e qualidade com o qual não estamos nem um pouco acostumados; por isso a grita, pelo maior custo aos beneficiários e pela possível queda da qualidade, devido aos cortes orçamentários. O temor é pela perda de conquistas).

Nesse quadro, um novo Saeta Rubra viria bem a calhar. Se bem que a Fúria Roja já ajuda bastante. Na atual conjuntura, a grande vitória do selecionado espanhol não opera uma intervenção direta, pessoal (e fílmica), mas é empregada ou quer ser empregada como demonstração de capacidade, de superação do povo espanhol. Um bom exemplo é o dessa peça comercial:

“Sí, somos España. Sí, somos campeones.

El mundo nos admira por nuestro talento, nuestra entrega, nuestro empeño en perseguir un sueño. Nuestra Selección ha demonstrado que, unidos, podemos con todo. Sea cual sea el reto [reto = desafio].  ¡Felicidades España! ”. (Grifo nosso. Publicidade da cerveja Cruz Campo, patrocinadora da seleção. Jornal 20 minutos, 02 de julho de 2012, p. 9. Este diario, aliás, é muito confiável. Faz questão de ter como slogan o seguinte lema: “Um jornal que nunca se vende”.  E é verdade;  é de distribuição gratuita…).  

Nada mais típicamente esportivo (talento, empenho, espírito de equipe, capacidade de superação…) e nada mais visivelmente dirigido à contemporaneidade. Mas creio que isso já constituiría tema para uma outra conversa.

Com saudades das peladas de sábado, das discussões acadêmicas (não academicistas) e de tudo o mais, beijos e abraços,

Luiz C. Sant’ana


[1] Não cabe aqui uma resenha sobre o Real desses tempos, mas apenas para recordar ou informar ao leitor, o clube madrilenho foi, dentre outras, pentacampeão sucessivo da Copa da Europa (a Champions Legue), criada para a temporada 1955-56. Desta primeira edição até 1960-61, só deu Real. O time era liderado por Di Stéfano (bola de ouro de 1957 e 1959, além de artilheiro em vários campeonatos). No sexto ano consecutivo ainda chegaram à decisão, finalmente perdendo para o Benfica.  

[2]  O Site oficial do Real Madrid explica que ese apelido foi criado enquanto Di Stéfano ainda jogava no River Plate e na Seleçao Argentina;  “Pronto le bautizarían con el sobrenombre de ‘La Saeta Rubia’ por la explosiva velocidad que imprimía a su juego”.  http://www.realmadrid.com/cs/Satellite/es/1193041639976/1202817703443/jugador/JugadorLegendario/Di_Stefano.htm.  Consultado em 06/07/2012.

[3] A semelhança com outro filme já comentado aquí, por nós, é impresionante. Trata-se de “Os Trombadinhas”, filme brasileiro dirigido por Anselmo Duarte, em 1979.  O tema, a abordagem, o fato de terem à frente do elenco jogadores excepcionalmente populares, no papel deles próprios etc.  Há inclusive uma sequencia que mostra o diálogo entre Di Stéfano e um juiz, após a prisão dos pequenos delinquentes. Este   trecho existe em ambas as películas (no caso brasileiro o jogador é o Pelé, é claro), e é surpreendentemente parecido, nos levando a crer que a fita brasileira deve ter se inspirado ou adaptado  diretamente  da produção espanhola.   

[4] Ver, por exemplo, “Fútbol, cine y ideología”, de Luís Cantarero (Universidad Zaragoza) y Dora Blasco (Gobierno de Aragón), publicado nas atas do VIII Congreso AEISAD (Asociación Española de Investigación Social Aplicada al Deporte), de 2004.

[5]España encabeza el paro de la eurozona, que llega en mayo al récord del 11,1%. El desempleo español llega al 24,6% | Grecia, Portugal e Irlanda son los siguientes en la lista del Eurostat”. Consultado em 06/07/2012. http://www.lavanguardia.com/economia/20120702/54319875700/espana-encabeza-el-paro-de-la-eurozona-que-llega-en-mayo-al-record-del-11-1.html