Adhemar Ferreira da Silva: representações de um herói olímpico (parte 1)

27/09/2020

por Fabio Peres e Victor Melo[i]

Adhemar Ferreira da Silva destacou-se no movimento olímpico internacional por se sagrar bicampeão na prova do salto triplo (Helsinque/1952 e Melbourne/1956). Suas conquistas tiveram grande repercussão no cenário brasileiro. Na década de 1950, o Brasil estava há 32 anos sem ganhar uma medalha de ouro olímpica (desde a edição de 1920, quando uma delegação do país participou pela primeira vez do evento[ii]).

Naquele momento, o Brasil tentava se afirmar no cenário esportivo internacional, mas lidava com a “tragédia” da Copa do Mundo de Futebol de 1950, quando a seleção nacional foi derrotada pelo selecionado uruguaio em pleno Maracanã. No olhar do jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues, esse fracasso se converteu em um ethos que anos mais tarde seria ironicamente denominado de “complexo de vira-latas”, um certo “pudor em acreditar em si mesmo” mesclado com o “medo da desilusão”; em outras palavras, um sentimento de “inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”[iii].

Naquela década, politicamente, o país passava por um momento de transição democrática, depois de viver 15 anos sobre a presidência de um mesmo líder (1930-1945), que governou de forma ditatorial durante oito anos (1937-1945) – Getúlio Vargas, que voltou ao cargo pela via eleitoral em 1951. Do ponto de vista econômico, passos mais seguros eram dados no caminho da industrialização, modificando-se a estrutura societária nacional. As cidades cresceram bastante, diversificando-se o perfil de seus habitantes. O fortalecimento dos meios de comunicação contribuiu tanto para expor as crises identitárias pelas quais passava o Brasil quanto para mobilizar mais intensamente os brasileiros ao redor da ideia de nação[iv].

Nesse contexto, deve-se considerar que Adhemar Ferreira da Silva tinha um perfil típico de boa parte da população brasileira. Negro, nascido na maior cidade do Brasil (São Paulo), era membro de uma família de camada popular (filho de um operário com uma cozinheira) que conseguiu melhorar sua condição socioeconômica. Não fora o primeiro grande atleta a receber atenção do país, nem tampouco o primeiro esportista negro a tornar-se reconhecido (o antecedeu, por exemplo, o notável futebolista Leônidas da Silva). Mas foi certamente o que maior fama obteve até então, antecipando a espetacular repercussão que outro personagem teria a partir da década de 1960, o Pelé.

Mas quais foram as representações veiculadas na imprensa do Rio e de São Paulo sobre as conquistas olímpicas de Adhemar? Como elas se cruzavam com as questões nacionais, com os conflitos e desejos de uma nação que passava por rápidas e intensas mudanças e, ao mesmo tempo, mantinha contradições históricas? Como elas nos ajudam a ter um olhar um pouco mais complexo sobre o campo esportivo brasileiro?

Divido em três partes, abordaremos neste e nos próximos posts estas questões e as histórias que enredam as conquistas de 1952 e 1956 de Adhemar.

1952: “Venci Porque Sou Brasileiro”, o encanto de uma comunidade imaginada que “assombrou o mundo”

Pouco tempo antes de embarcar para Helsinque, a fim de disputar os Jogos Olímpicos de 1952, uma parte da imprensa brasileira, ainda que de forma cautelosa, depositava em Adhemar a esperança de conquista da medalha de ouro que o Brasil não ganhava desde 1920. Naquela altura, o atleta já havia igualado o recorde mundial do salto triplo (em 1950) e vencido os campeonatos pan-americano de 1951 e sul-americano de 1952.

O periódico Última Hora chegou a recorrer à opinião de especialistas para avaliar a “representação brasileira” que participaria dos Jogos Olímpicos. Osvaldo Gonçalves, catedrático da cadeira de atletismo na Escola Nacional de Educação Física e treinador da equipe que iria para Helsinque, considerado “um dos maiores técnicos nacionais”, asseverou:

É na realidade a seleção dos maiores valores do atletismo nacional. Todos possuindo performances e técnica a altura da grandeza dos Jogos Olímpicos. Contudo, passar pelas duas eliminatórias contra os expoentes do atletismo mundial, para classificar-se até o 6º lugar na final, não é tarefa fácil ou coisa que se espere que aconteça como proteção da sorte ou por simples “chance” oferecida por erros de fortes concorrentes. Nos jogos Olímpicos participarão os maiores campeões com os mesmos desejos de uma medalha até o 3° lugar. Uma classificação assim tão honrosa, exige do atleta esforço, treinamento, capacidade física e muito apuro de técnica[v].

Tratava-se, de acordo com o técnico, de uma perspectiva realista considerando as marcas e os desempenhos obtidos por cada membro da equipe no decorrer daquele ano[vi]. Alcançar a classificação para a final já era considerado um “grande feito”. De todo modo, Adhemar era cotado pelo treinador como um dos prováveis vencedores. Oswaldo Gonçalves considerava que o brasileiro se encontrava no mesmo patamar que outros atletas já consagrados mundialmente:

Poucas são as provas em que se poderão apontar os possíveis vencedores. Neste caso, já não são mais campeões e sim campeoníssimos. Dos atletas nacionais, Ademar Ferreira, no Triplo Salto, está nessa classificação, juntamente com Jim Fuchs, recordista mundial do Peso com 17m95; com Zatopeck nos 10.000 metros, com 29m02s […].[vii]

A despeito dessa análise, o técnico posteriormente foi mais comedido, sugerindo esperar uma “honrosa colocação”. A prudência era justificável. Não apenas os obstáculos para uma melhor preparação de atletas amadores eram significativos, como o Brasil já havia sofrido a “traumática” perda da Copa do Mundo de Futebol de 1950. O excesso de confiança e a falta de modéstia pareciam ser vistos com desconfiança por determinados atores do campo esportivo, incluindo, jornalistas e treinadores.

Em todo caso, o Última Hora fez questão de reverenciar os competidores brasileiros do atletismo, contrastando com o estilo ponderado do catedrático. O jornal estampou no dia do embarque a manchete em letras garrafais “ESTES ATLETAS DEFENDERÃO O BRASIL”[viii]. Os termos usados na matéria não eram casuais. As ideias de defesa e elogio da nação eram posturas valorizadas no contexto histórico pelo qual o país atravessava (e que ainda persistem como chaves interpretativas da história, em especial, política e econômica brasileiras[ix]).

Destaque para os atletas que representariam o Brasil no atletismo (Última Hora, 7 jul. 1952, p.8.)

Os periódicos, naquele momento, de fato, davam grande repercussão à luta entre os partidários do “nacionalismo” e os do que foram pejorativamente chamados de “entreguistas”. Eram correntes que defendiam modelos conflitantes de desenvolvimento do Brasil, de um lado, com uso de capital e usufruto exclusivamente nacionais com monopólio estatal, de outro, com a participação do capital privado, sobretudo internacional, e exploração das “riquezas” nacionais por grupos estrangeiros[x].

Neste sentido, a discussão sobre o papel que o Estado deveria ocupar na “modernização” do país delineava projetos distintos de nação. O então presidente Getúlio Vargas (1951-1954), vale sublinhar, ganhou as eleições com uma plataforma que propunha a independência e soberania econômica através da nacionalização progressiva da indústria vis-à-vis à superação do modelo agroexportador[xi].

Não surpreende, portanto, a natureza dos discursos dos periódicos acerca da vitória de Adhemar. Quase todos os jornais estamparam fotografias do atleta acompanhadas de textos com tom ufanista. A conquista da medalha de ouro se colocou acima de disputas políticas, com diferentes e mesmo divergentes grupos buscando se vincular ao feito. A busca pela legitimação internacional do país era por todos desejada, ainda que com interesses e apropriações distintas no que tange à construção de narrativas sobre a nação[xii]

De toda forma, as representações sobre a conquista da medalha de ouro de Adhemar Ferreira pareciam se alinhar mais aos discursos que inflavam o valor do nacional em detrimento de possíveis estrangeirismos. A propósito, as instituições esportivas brasileiras – a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), regida desde 1941 pelo Conselho Nacional de Desportos (CND)[xiii], assim como o Comitê Olímpico Brasileiro – eram diretamente ligadas ao Estado, que no momento defendia a “bandeira nacionalista”[xiv] – o que não impedia apropriações diversas.

Propaganda da Esso por ocasião da medalha nos Jogos Olímpicos – Standard Oil

Para a imprensa, Adhemar era um exemplo da abdicação e dedicação que caracterizam os mártires nacionais. Um cronista sugeriu que o atleta “prometera tudo fazer, não pela projeção individual do seu nome, mas, para projetar ainda mais, no cenário esportivo mundial, o nome do Brasil” [xv]. A sua índole e sua devoção à nação adquiriam maior dimensão, em especial, pela origem “pobre e modesta” de seus pais[xvi]. O esportista, a propósito, constantemente enfatizava as dificuldades de ser um esportista amador. De fato, a trajetória de Adhemar reflete em parte as tensões presentes no amadorismo brasileiro, sobretudo, para aqueles oriundos das camadas populares: desde o começo de sua carreira, o atleta teve que conciliar diversas ocupações profissionais com o treinamento e viagens para competições nacionais e internacionais. Uma das situações mais emblemáticas das contradições da condição de amador foi quando, mesmo já tendo ganho sua medalha de ouro em 1952, Adhemar teve seus vencimentos descontados durante 18 dias por ter comparecido aos Jogos Sul-americanos de 1953, sendo, depois, dispensado do cargo que ocupava na Prefeitura de São Paulo pelo então prefeito Jânio Quadros[xvii]. Na época houve protestos contra a medida. Parte inclusive de sua transferência de São Paulo para o Rio de Janeiro se deve justamente por questões laborais e financeiras[xviii].

Todavia, não poucas vezes, fazia questão de destacar sua principal motivação para superá-las – seu compromisso com o país:

Confiava em minhas possibilidades, apesar de reconhecer que encontraria grandes adversários. Mas, além disso, havia o desejo de não decepcionar os meus patrícios. E, pensando no Brasil, somente no Brasil, parti para a caixa de areia onde consegui o maior resultado de toda a minha carreira (grifos nossos)[xix].

O sentimento de pertencimento à nação demarcava, nos seus discursos, o auge de suas experiências: “Quando tocaram o Hino Nacional brasileiro senti que estava vivendo o maior momento de minha vida”[xx]. Sensação semelhante se repetira ao chegar no refeitório da Vila Olímpica, quando atletas de todos os países da América Latina levantaram-se e gritaram “Brasil! Brasil!”, ovacionando Adhemar[xxi].

Dias depois de sua vitória, o olhar estrangeiro, ao dar ênfase a um aspecto invisibilizado (ou visível em outros termos), iria contrastar com o olhar da imprensa brasileira: a “cor” de Adhemar. Mas essa história ficará para o próximo post.


[i] Texto publicado originalmente em PERES, Fabio de Faria; MELO, Victor Andrade de. Adhemar Ferreira da Silva: Representations of the Brazilian Olympic Hero. In: Antonio Sotomayor; Cesar R Torres. (Org.). Olimpismo: The Olympic Movement in the Making of Latin America and the Caribbean. Fayetteville: University of Arkansas Press, 2020, p. 95-110.

[ii] Guilherme Paraense conquistou uma medalha de ouro na prova de tiro (pistola de velocidade ou tiro rápido).

[iii] Manchete Esportiva, 31 mai. 1958, p. 4. Meses antes, o autor já havia se referido a tal sentimento de inferioridade no jornal Última Hora (7 fev. 1958, p. 14). Para mais informações, ver: ANTUNES, Fátima Martin Rodrigues Ferreira. “Com brasileiro, não há quem possa!”. São Paulo: Editora da Unesp, 2004.

[iv] Para mais informações sobre o período histórico, ver: FERREIRA, Jorge, DELGADO, Lucilia de Almeida N. (org.). O Brasil Republicano – O tempo da experiência democrática. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

[v] Última Hora, 21 jun. 1952, Suplemento Esportivo, p. 2.

[vi] A delegação brasileira de atletismo era composta por Wanda dos Santos (80 metros com barreira e salto em distância), Ary Façanha de Sá (salto em distância e 4 x 100), José Teles da Conceição (salto em altura, salto triplo e 4 x 100), Helena Cardoso de Menezes (100 metros e salto em distância), Devse Jurdelína de Castro (200 metros e salto em altura), Wilson Gomes Carneiro (110 e 400 metros com barreira e 4 x 100), Argemiro Roque (400 e 800 metros), Hélcio Buck Silva (salto com vara), Geraldo de Oliveira (salto em distância, triplo e 4 x 100), além de Adhemar Ferreira da Silva.

[vii] Última Hora, 21 jun. 1952, Suplemento Esportivo, p. 2.

[viii] Última Hora, 7 jul. 1952, p. 8.

[ix] Como consequência desse contexto, o Brasil viu surgir uma série de intelectuais que buscariam interpretar e mesmo nomear o “lugar” ocupado pelo país no sistema capitalista, entre os quais, Caio Prado Jr., Florestan Fernandes e Celso Furtado. Para mais informações, ver: SAMPAIO Jr., Plínio de Arruda. Entre a nação e a barbárie: uma leitura de Caio Prado Jr., Florestan Fernandes e Celso Furtado à crítica do capitalismo dependente. Tese (Doutorado em Economia) – Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1997.

[x] Para mais informações sobre o período histórico, ver: FERREIRA, Jorge, DELGADO, Lucilia de Almeida N. (org.). O Brasil Republicano – O tempo da experiência democrática. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

[xi] Dias antes da viagem da delegação de atletismo para a Finlândia, o Última Hora publicou na capa – por ocasião do avanço na extração de petróleo em Candeias (no estado da Bahia) – com grandes letras que ocupavam mais que ¼ da página a fala do presidente: “Ninguém arrebata das minhas mãos a bandeira nacionalista”. O texto era antecedido por uma explicação de importante valor simbólico “Vargas mergulhou a mão no petróleo e a estendeu aos técnicos e trabalhadores”, sendo acompanhado por uma fotografia do próprio presidente com uma das mãos estendida para o alto, na qual se lia a seguinte legenda: “Presidente sob aplauso da multidão: ‘Nada pedimos ao estrangeiro. Dele, nada precisamos’”. Última Hora, 24/6/1952, p.1. Vale destacar que o debate entorno da exploração dos bens nacionais, inclusive, do petróleo já vinha desde a década de 1930, quando Vargas também era presidente. Em outubro de 1953, foi aprovada e sancionada por Vargas que dispôs sobre a Política Nacional do Petróleo e definiu as atribuições do Conselho Nacional do Petróleo, instituiu a Sociedade Anônima Petróleo Brasileiro S. A. (que usaria a sigla Petrobrás). Em síntese, a lei garantia o monopólio estatal na exploração, produção, refino e transporte do petróleo no Brasil.

[xii] A própria realização da Copa do Mundo de Futebol de 1950 era vista pelo governo e demais autoridades brasileiras – naquele momento em posição contrária ao monopólio estatal na exploração dos recursos considerados estratégicos para o país – como forma de projetar a imagem do Brasil no exterior. Maiores informações ver: CABO, Alvaro Vicente. Copa do Mundo de 1950: Brasil X Uruguai — uma análise comparada do discurso da imprensa. In MELO, Victor Andrade (org.). História comparada do esporte. Rio de Janeiro: Shape, 2007, p. 47-60.

[xiii] Brasil. Decreto-lei nº 3.199, April 14,1941, accessed May 23, 2017.,http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/1937-1946/Del3199.htm

[xiv] Em uma cerimônia realizada na Finlândia, o ministro brasileiro das relações exteriores, Jorge Latour, declarou: “Esta noite, nós brasileiros, sentimo-nos particularmente felizes pela vitória de Ademar Ferreira, que atleta modesto e simples, recebeu a consagração espontânea do público que assistiu sua brilhante vitória […]” (Correio da Manhã, 24 jul. 1952, 2º Caderno, p. 1).

[xv] Correio da Manhã, 24 jul. 1952, 2º Caderno, p. 2.

[xvi] Na cidade de São Paulo, chegou-se a organizar uma iniciativa para oferecer uma casa para a família de Adhemar (Diário de Notícias, 24 jul. 1952, 3ª Seção, p. 1.) A doação, porém, ao fim não se concretizou, pois acreditava-se que poderia se configurar como pagamento, o que iria de encontro ao status de amador do atleta.

[xvii] Mundo Esportivo,São Paulo, May 12, 1953, 2; Imprensa Popular, Rio de Janeiro, January 1, 7.

[xviii] Revista do Rádio, Rio de Janeiro, April 14, 1956, 14.

[xix] Última Hora, 11 ago. 1952, p. 7.

[xx] Correio da Manhã, 25 jul. 1952, 2º Caderno, p. 1.

[xxi] Correio da Manhã, 25 jul. 1952, 2º Caderno, p. 1.


Uma Salvador e seus esportes iniciais

15/09/2020

Coriolano P. da Rocha Junior

Salvador foi capital do Brasil, todavia, no início do séc. XX vivia uma fase de decadência, num cenário em que a Bahia se viu afastada do poder, sem a influência tivera antes. No estado via-se um apelo ao seu passado de “glória” e isso, acontecia pelo fato desta unidade da federação se considerar “injustiçada” no novo cenário nacional, clamando para si a volta de uma época tida como gloriosa.

Para tentar instalar a modernidade, a Bahia, experimentou ações que buscaram reordenar o espaço urbano e os modos de vida dos cidadãos, num conjunto de mudanças socioeconômicas, culturais, estruturais e higienizantes, marcando um novo momento histórico, que buscou tornar a cidade de Salvador um espaço de novas vivências e práticas sociais.

De maneira geral, podemos afirmar que um projeto modernizador se assenta em alguns pontos básicos, que eram: construção e/ou alargamento de novas vias; construção de edifícios de arquitetura imponente e consequente derrubada de antigos prédios; a higienização da cidade; a criação do belo, do apreciável; a instalação de um comércio caro e de padrões europeus.

Foi durante o governo estadual de J.J. Seabra (1912-1916), que Salvador, viveu as ações que tentaram reordenar seu espaço urbano e adequar seus habitantes aos novos comportamentos e posturas da modernidade.

Ao analisar esse período e o quadro da Bahia, Risério (2004, p. 310), assevera que “sua capitalização era fraca, havia a enorme dificuldade de transporte, a carência de energia e, ainda, a hegemonia dos comerciantes, que não se interessavam tanto por investimentos em atividades produtivas”, ou seja, a Bahia destoava dos princípios aventados pela ideia de progresso. Salvador estava presa a uma lógica econômica que se não impedia, certamente limitava as aspirações por um maior crescimento, pelo progresso, não sendo ainda suficientemente “civilizada”, estando, portanto, fora dos padrões propalados pela modernidade carioca.

Nesse quadro, a elite soteropolitana aspirava mudanças e a bem da verdade, o que existia mesmo era uma tentativa de se criar uma cidade moderna e que exultava o progresso.

Leite (1996), ao falar sobre as aspirações modernizantes de Salvador, mostra que se tentava atender “a um interesse comum de certos segmentos elitistas da sociedade local, inconformados com a cidade em que viviam” (p.18). A cidade de Salvador, em sua aventura pela modernidade, teve de conviver com uma clara dificuldade que em muito limitava qualquer aspiração, a fragilidade econômica.

Se em Salvador o pretendido por Seabra e as elites locais na questão de uma nova urbanização não avançou como se esperava, no que é tocante aos hábitos, também parece não ter havido mudança significativa. Salvador sempre se destacou por possuir uma imensa população negra, herança do longo tempo de escravatura no país e que servia de mão de obra nas fazendas e casas grandes de toda a Bahia e de Salvador. No entanto, essa herança envergonhava a cidade, já que para a elite local, os negros, com seus hábitos e modos mais se assemelhavam a bárbaros e eram símbolos de uma cidade que não atingira padrões modernos. Era preciso embranquecer Salvador, acabar ou ao menos jogar para fora da cidade os rituais e práticas dessa população

Essa tentativa civilizadora de se acabar com festas, gestos, sons e práticas corporais dos negros não avançou muito, já que de certa forma, estavam internalizados na cidade, na população.

Assim, identificamos que existiu na cidade um sentimento e uma ansiedade por mudanças que fizessem com que nela se instaurasse o novo, numa tentativa de apagar o passado. Em ambas, a perspectiva foi de construção sem preocupações com manutenção ou preservação do patrimônio ou de qualquer outro vestígio que as ligasse ao passado. Fundamental nessa análise sobre Salvador é perceber o quanto a cultura foi um foco das ações modernizadoras, já que é nela que se apoiaram as perspectivas de mudanças do cotidiano da cidade, para além das paredes dos prédios e das vias públicas. Era preciso construir um novo povo, com uma nova cultura. Nesse caso, se acentuava o sentimento de inferioridade do brasileiro em relação ao europeu, ao francês, já que para a elite era lá que existia a cultura real e moderna.

O que se operou realmente foi uma reafirmação da cultura de elite, em detrimento da cultura popular, como uma forma de manipulação e afirmação dos detentores do controle econômico e político, assim, as reformas urbanas advindas da modernidade, são mesmo a configuração de um cenário que melhor representava esse princípio de dominação. Todavia, não podemos entender que esse mecanismo se deu de forma plena, sem uma contra ação dos rejeitados, que mesmo sob as forças do poder central e sofrendo as agruras de seu deslocamento e as violências contra um modo de cultura, souberam agir. Mesmo estando à margem das benesses da modernidade, essa população continuou a existir culturalmente, com seus hábitos e gostos, muita das vezes incorporando e ressignificando as práticas vividas pelas elites, que muita das vezes assumiu para si as práticas populares.

Foi nesse cenário e sob essas condições, que em Salvador, se iniciaram as “aventuras” da população com o esporte, sendo esse um dos elementos dessa que se mostrava como uma nova era, a modernidade.

Num contexto onde essa cidade passava pela experiência da modernidade, tentando conjugar reformas urbanas, mudanças de comportamento, construção de novos hábitos e gestar uma nova relação do homem com a cidade, com o espaço, com o tempo, com o outro e consigo próprio, o esporte surgiu como uma das novas formas de vivência, como uma prática social representativa da modernidade. Pode-se atribuir isso ao fato do esporte incorporar elementos que simbolizavam as aspirações por mudanças, assumindo papéis que caracterizaram modificações nas formas de agir e de circular do homem na sociedade, articulando em sua prática elementos como: maior exposição do corpo, movimento, risco e desafio, fatores que significavam uma busca pelo prazer e por uma excitação inovadora, sendo também uma forma das cidades se apropriarem de mais um elemento da modernidade.

Dessa forma, compreendemos que a instauração de todo um conjunto de mudanças nas cidades, ao mesmo tempo em que proporcionou e motivou as pessoas à prática esportiva, também foi por este influenciado, ou seja, a noção de que pessoas e cidades deveriam ser ativas, trabalhar por melhorias, valer-se dos avanços científicos, acelerando suas percepções e relações, significou que a modernidade e seu ideário foram encampados, seja pelas obras na nova cidade, seja pelo movimento no novo ser humano. Era preciso engajar-se em todas as mudanças, identificando-se com o novo.

Para ser moderno, era necessário superar a imagem de um homem lento, sedentário, assim como a cidade deveria deixar de ser antiquada, colonial.

Para falar da presença dos esportes em terras soteropolitanas, tomaremos como elementos de análise, os esportes que tiveram, por alguma razão, uma menor circulação e um deles, foi o críquete. 

O críquete foi uma prática esportiva que aportou em terras brasileiras trazida por ingleses (em meados do século XIX) e em Salvador, alguns clubes foram fundados para sua prática, que acontecia normalmente no Campo Grande (LEAL, 2002), embora também haja notícias de jogos na Fonte do Boi[1] e Quinta da Barra (GAMA, 1923), no Campo da Pólvora[2] e no Largo da Madragoa[3].

Em Salvador, como em outras cidades, essa prática teve vida curta, ficando basicamente restrita aos ingleses e poucos brasileiros. Clubes foram fundados, mas logo mudaram suas bases de ação, a exemplo do Club de Cricket Victoria, fundado por brasileiros em maio de 1899, que passou a se chamar Sport Club Victoria, assumindo o futebol como uma prática, e ainda o Club Internacional de Cricket, fundado por ingleses em novembro de 1899.

Além do críquete, outros esportes existiram, só que com menor impacto na composição do cenário esportivo de Salvador. Foram eles: a natação, a patinação e o ciclismo, esportes que traziam como experiência maior, justamente, a noção de velocidade, desafio e superação de limites, aspectos importantes na vivência da modernidade.

Esses são exemplos de atividades corporais que tiveram seu início vinculado à ideia de desafio e superação de limites, explorando os espaços livres das cidades, implicando uma nova relação como ambiente e ainda mais, alguns desses faziam uso de implementos e equipamentos, que demarcavam uma nova tecnologia.

Em Salvador, as atividades de natação, até mesmo pela inexistência de piscinas, aconteciam no mar e quase sempre sob a forma de desafios, por vezes de longas distâncias. Via-se que por vezes, a natação aparecia como uma atração de festas, notadamente as do Rio Vermelho. O porto de Salvador, que constou no projeto de Seabra para melhoramentos da cidade, teve entre seus funcionários, um clube chamado de Sport Club Docas[4] que promoveu “festas de natação” para comemorar as datas de inauguração do novo porto de Salvador. Tal fato demonstra a vinculação entre a prática esportiva e a modernidade, visto que um celebrava o outro.

Assim, em Salvador, competições mais estruturadas de natação estiveram a cargo da Federação de Regatas, que as promovia entre seus sócios, mas também com espaço para não associados. A natação passava por uma fase de implantação, uma novidade que era apresentada e, portanto, ainda demoraria a ser assimilada pela população e só tempos depois ganhou mais status e estrutura, avançando acentuadamente após a construção de piscinas.

Sobre a patinação, em Salvador, é possível perceber que entre 1912 e 1916 esta atividade despertou razoável interesse. Nesse período existiram clubes de patinação (Internacional Club de Patinagem, Sport Club Colombo de Ciclo-Patinação) e eventos foram realizados na cidade, basicamente nas ruas do Bairro do Comércio ou em passeios do Centro Histórico ao Rio Vermelho. Esses eventos, na maioria das vezes, assumiam um caráter competitivo, cujos participantes eram distribuídos por páreos (como no turfe), em função das distâncias a serem percorridas. Em Salvador, na maior parte das vezes, esse esporte foi competitivo e organizado em clubes específicos, mesmo que em lugares improvisados, porém, também existiu como divertimento nas festas dos diversos outros clubes, que não apenas os de patinação.

O ciclismo foi uma atividade esportiva conhecida desde fins do século XIX, uma “novidade” que a cidade aprendia a lidar, assim como a própria modernidade. O ciclismo e a bicicleta, mais que tudo, têm em si a essência da velocidade, do risco e da tecnologia. Em Salvador jornais noticiavam “garagens” e aluguel de bicicletas, sempre importadas, o que nos faz entender, que já era então algo conhecido na cidade, mesmo que pouco vivido, já que importadas, não faziam parte do cotidiano da população.

Em terras baianas, o ciclismo pareceu acontecer sob a mesma estrutura dos clubes de patinação. Era fato comum que houvesse atividades simultâneas das duas práticas, desenvolvidas pelos mesmos clubes nos mesmos espaços e, aqui, falamos do período entre 1912 e 1916. As corridas eram desenvolvidas para velocidade, sendo mais comuns no Comércio e no Centro Histórico ou para resistência, com deslocamentos até o Rio Vermelho e também faziam parte das festividades promovidas pelos clubes.

O Jornal de Notícias[5] divulgou o que dizia ser a primeira corrida de bicicletas da Bahia, realizada no bairro do Canela. Nos jornais, eram comuns notas com as provas a serem disputadas, clubes, participantes e premiação, além do local em si. Dias após as provas, eram noticiados os vencedores e seus tempos. Em Salvador não construiu (mesmo na atualidade) um espaço específico para as provas de ciclismo, mas soteropolitanos assumiram a bicicleta, por mais que a cidade, até hoje, por sua geografia e estrutura urbana, dificulte seu uso.

Por fim, podemos afirmar que Salvador viveu experiências com o esporte, associando-o as novas configurações da cidade, a partir de seu projeto de modernidade. O esporte era considerado uma atividade que simbolizava novos tempos, um novo homem para um novo espaço urbano

REFERÊNCIAS

GAMA, Mario. Como os “sports” se iniciaram e progrediram na Bahia. In: Diário oficial do Estado da Bahia, Edição Especial do Centenário. Salvador: [s.n], 1923.

LEAL, Geraldo da Costa. Perfis urbanos da Bahia: os bondes, a demolição da Sé, o futebol e os gallegos. Salvador: Gráfica Santa Helena, 2002.

LEITE, Rinaldo C. N. E a Bahia civiliza-se… ideais de civilização e cenas de anti-civilidade em um contexto de modernização urbana 1912-1916. 1996. Dissertação (mestrado em História). Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, UFBA, Salvador, 1996.

RISÉRIO, Antonio. Uma história da cidade da Bahia. 2ªed. Rio de Janeiro: Versal, 2004.


[1] Localizado no bairro do Rio Vermelho. Jornal Diário da Bahia, 25/01/1902.

[2] Jornal Diário de Notícias, 24/03/1903 e 12/09/1903.

[3] Jornal Diário da Bahia, 11/01/1902. Localizado na Cidade Baixa, na área do bairro da Ribeira.

[4] Jornal Diário de Notícias, 11/05/1915.

[5] Jornal de Notícias, 23/04/1912.


O Medo do Goleiro diante do Pênalti (ALE Ocidental/Áustria, Wim Wenders, 1972)

16/06/2020

CARTAZ DE O MEDO DO GOLEIRO DIANTE DO PÊNALTI

Bloch, o goleiro-protagonista, na última sequência da película:

– Você já tentou manter a visão sobre o goleiro, ao invés dos atacantes?

É muito difícil deixar de olhar para a bola. É preciso fazer um esforço imenso. Ver o goleiro correr para trás e para frente, inclinar-se à direita e à esquerda, gritar com os zagueiros. Em geral, somente se presta atenção ao goleiro quando dos chutes a gol.

É engraçado observar o goleiro correndo com a bola (tradução livre; grifos próprios).

Boa noite!

Por dever, advirto sobre o óbvio: este post contém spoilers.

O extrato acima reproduz trecho do último diálogo do goleiro Joseph Bloch, vivido pelo ator Arthur Brauss. Dá-se diante de uma partida de futebol, em um uma localidade fronteiriça, em algum recanto da Alemanha ou Áustria… Nem Bloch nem seu interlocutor (um personagem sem nome, com essa única aparição) sabem quais os times estão em campo. Ambos estão de passagem e pararam para ver um jogo; fosse qual fosse. Este, talvez, seja um dos poucos pontos de contato entre essa película e alguns dos itens tradicionais de exibição e discussão de filmes que tematizam o futebol e uma cultura futebolística. Quem de nós nunca deixou de fazer qualquer coisa para se postar diante de um clássico obscuro, apenas para ver um futebolzinho qualquer… Nesses tempos de pandemia e recesso desportivo, então, campeonato do Turcomenistão ganha ares de Champions. Mas os encontros temáticos (situações, circunstâncias, conflitos) ligados a filmes de futebol (ou que tangenciam o esporte bretão) praticamente acabam aí. Por isso o destaque do diálogo em epígrafe.

Trata-se, aqui, de um convite a um “esforço imenso”, o de olhar o jogo pela ótica daquele(s) que menos aparece(m). Do ponto de vista não do goleador, do regente meio-campista, do grande craque, numa expressão: daqueles que conduzem a bola. Pelo contrário. E, nesse caso, o goleiro é a figura ideal.

Cinematograficamente, isso muda tudo. Em termos de gênero fílmico (se pensarmos em um subgênero de filmes esportivos, por exemplo) se vai na contramão do habitual. As histórias de sucesso, travessias heroicas e jornadas de superação (uma legião nas fitas de/sobre esporte) não encontram eco nessa desventura de Wim Wenders.

É, ainda não havia falado, mas é um filme de Wenders. O terceiro longa assinado pelo diretor alemão (o segundo com firma solo). E isso também muda tudo. Mas não queria me alongar em comentários sobre o diretor. Basta chamar a atenção (para futuras empreitadas ou investidas curiosas) que O Medo do goleiro é a primeira colaboração de Wenders com o escritor Peter Hanke (Nobel de literatura em 2019), em um conjunto que inclui Movimento em falso (1975) e o ilustre Asas do desejo (1987 – Ver https://www.uai.com.br/app/noticia/pensar/2017/03/03/noticias-pensar,202770/livro-analisa-parceria-entre-escritor-peter-handke-e-wim-wenders.shtml). A conexão entre essas três obras é patente e trata-se de grandes peças do cinema. Fica a dica.

Voltemos ao nosso filme.

Temos, portanto, uma anti-história heroica. E, é claro, essa imagem-narrativa não se limita ao espectro esportivo. Não é só no esporte (no futebol, no caso) que a absurda maioria não se encontra sob a luz dos holofotes. É evidente que o filme de Wenders não é sobre futebol; é sobre goleiros, ou melhor, sobre uma condição de des-protagonismo, desmotivação (ou desconhecimento mesmo de motivações/propósitos que pudessem se confundir com a busca pelo ‘sucesso’, fama…). É sobre o des-propósito, sobre a solidão, sobre a zona des-iluminada. É sobre um pouco de nós ou de porções nossas do dia a dia. Se isso tem sentido, é claro que a narrativa fílmica não poderia ser estandardizada (não poderia adotar o padrão dos filmes de superação heroica; não teria sentido fílmico/artístico; não seria Wenders).

Por isso o filme é descrito (é só conversar com os colegas que acharam que iam ver futebol alemão na película…) como arrastado, monótono, sem sentido.

– É puro nonsense! Vaticinou um outro. Não se pode saber o que se passa na cabeça de Bloch nem o porquê de suas ações des-propositadas, que incluem um homicídio sem nenhuma motivação.

E por um acaso se pode saber o que se passa na cabeça de alguém? Se nos lembrarmos de Asas do Desejo, vamos ver que este é um tema comum; somente os anjos de Wenders conhecem a natureza exata do pensamento dos homens, mas o preço é a des-humanidade; é nunca experimentar o que nos compõe/configura.

Nesse sentido, a narrativa imagética é ligeiramente esgarçada, temos cortes secos e sintéticos, assim como as conversas: curtas e enviesadas. Muitas vezes não há diálogo; embora em pretensa conversação, na verdade os interlocutores não são os outros, mas os próprios personagens que falam para si mesmos. Será que nos é impossível reconhecer situações semelhantes, presenciadas e/ou vivenciadas? Ou isso é mais uma parte do “esforço imenso” ao qual somos convidados pela fita?

Vou parar por aqui, mas admito que ainda nem comecei. Não falei nem do título… Pretendo retomar essa película como um gancho para uma mirada atualizada na literatura que lida com o futebol filmado. A relação futebol e cinema é escancarada e potencialmente rica na atuação do nosso goleiro anti-protagonista. São duas coisas (três, na verdade) que, independentemente de qualquer sorte (ou falta de), aparecem como constantes para Joseph Bloch: futebol, cinema (ele passa o filme entrando e saindo de salas de exibição) e mulheres, inclusive, e sintomaticamente, a… bilheteira de seu cinema de vizinhança.

Saúde,

Abraços!

 

Referências:

Artigo. Professor e crítico analisa significado da ligação entre escritor austríaco Peter Handke e cineasta alemão Wim Wenders. Por Carlos Marcelo. Disponível em: https://www.uai.com.br/app/noticia/pensar/2017/03/03/noticias-pensar,202770/livro-analisa-parceria-entre-escritor-peter-handke-e-wim-wenders.shtml. Consultado em 14 de junho de 2020.

Crítica: O medo do goleiro diante do pênalti de Wim Wenders (Die Angst des Tormanns beim Elfmeter, 1972). Disponível em: https://sigacena.blogspot.com/2015/07/o-medo-do-goleiro-diante-do-penalti-de.html?m=1. Consultado em 14 de junho de 2020.

Filme na íntegra (legendas em espanhol): O medo do goleiro diante do pênalti. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=kYmLkqox3hQ&feature=youtu.be. Acessado em 14 de junho de 2020.

IMDB. O Medo do goleiro diante do pênalti. Disponível em: https://www.imdb.com/title/tt0066773/?ref_=tttr_tr_tt. Consultado em 14 de junho de 2020.


O skate vai ao cinema

23/02/2020

Por: Leonardo Brandão (brandaoleonardo@uol.com.br)

            Muitos ficaram surpresos com o resultado do Oscar 2020 quando viram o anúncio, no dia 09 de fevereiro, da vitória do curta-metragem documental Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl) – Aprendendo a andar de skate em uma zona de guerra (se você é uma menina) – dirigido pela norte-americana Carol Dysinger e com produção de Elena Andreicheva. Este filme, de 39 minutos, retrata um grupo de garotas integrantes do Skateistan, um projeto social (sem fins lucrativos) fundado em 2007 por dois skatistas australianos, Oliver Percovich e Sharna Nolan, os quais tinham como objetivo introduzir o skate como um elemento de ludicidade para crianças e jovens afegãs de bairros pobres e que tiveram suas vidas marcadas pela violência. Esse documentário foi descrito por Orlando von Einsiedel (vencedor do Oscar em 2017 com Os Capacetes Brancos) como um “bonito retrato de esperança, sonhos e superação de medos”.

Figura 1: Cartaz do filme “Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl)”, o qual traz também a informação que o mesmo havia vencido o prêmio de melhor curta-documentário no festival Tribeca no ano de 2019.

Mas não é de hoje, todavia, que existe uma relação muito forte entre cinema e skate. Neste post, iremos categorizar os tipos de filme que o envolvem, diferenciando documentários de filmes feitos por empresas de skate, assim como sua aparição em filmes de grande produção (muitas vezes breve) de seu uso em filmes independentes e realizados com baixo orçamento. Para tanto, elencamos quatro categorias que nos ajudarão a diferenciar esses diversos modos como o skate vem aparecendo nos cinemas e nas telas.

1 – Documentários sobre skate: Além do supracitado Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl), que ganhou a estatueta do Oscar, a prática do skate, e em especial determinados skatistas, vem sendo há tempos retratados em documentários. Um bastante relevante neste quesito é Dogtown and Z-Boys (2001/EUA), dirigido por Stacy Peralta, o qual venceu na categoria melhor diretor no Festival de Sundance em 2001 com esse documentário. O filme retrata a equipe de skatistas Z-Boys, em especial, o modo como eles influenciaram o desenvolvimento dessa atividade durante a década de 1970, e isso tanto no tocante ao estilo corporal (advindo do surfe) quanto na utilização de espaços inusitados para sua prática, como as piscinas vazias (as quais foram posteriormente reproduzidas com rampas de madeira no formato de um grande “U”, dando origem ao skate vertical). Além deles, também podemos citar aqui o reflexivo e trágico Stoked: the rise and fall of Gator (EUA, 2002, dirigido por Helen Stickler) que narra a vida do skatista norte-americano Mark “Gator” Rogowski, um grande expoente do skate vertical durante a década de 1980, mas que, num ato insensato, acabou preso e condenado por 31 anos pelo assassinato da amiga de sua namorada. Numa temática semelhante à de Stoked, o filme documentário Rising Son: The Legend of Skateboarder Christian Hosoi (EUA, 2006, dirigido por Cesario Montaño), buscou reproduzir a complicada trajetória do skatista Christian Hosoi (que junto com Tony Hawk, foi o skatista mais popular da década de 1980). Hosoi, de astro internacional desta prática, chegou a ser preso – por acusação de tráfico de drogas – e ficou durante quatro anos numa prisão federal dos EUA, chamada San Bernardino Central Detention Center.

No Brasil, destacamos o documentário Vidas sobre Rodas (2010), do cineasta paulistano Daniel Baccaro, produzido sob patrocínio de grandes empresas, como Guaraná Antarctica e Banco Bradesco. Exibido em circuitos de cinema alternativos, esse filme baseia-se na trajetória de quatro skatistas (Sandro Dias “Mineirinho”, Lincoln Ueda, Cristiano Mateus e Bob Burnquist) e por meio da biografia desses personagens, também narra aspectos da história do desenvolvimento do skate brasileiro. Na contracapa do DVD deste documentário, encontramos a seguinte descrição: “O filme irá contar a história do skate brasileiro nesses últimos 20 anos, um período marcado pela transição da marginalidade para a chamada fase pop, quando o skate nacional conquista seu espaço na grande mídia e com ele o respeito da sociedade como um todo”.

Figura 2: Cartaz do documentário brasileiro “Vida sobre Rodas” dirigido por Daniel Baccaro e lançado em 2010.

2 – Super produções: Existem muitos filmes de “grande produção” que fizeram uso do skate. Um dos principais exemplos neste sentido é Back to the future (De volta para o futuro), de 1985, do diretor Robert Zemeckis. Na trama, o skate aparece sob os pés do protagonista, interpretado por Michael J. Fox. Na continuação da franquia, com “De volta para o futuro II”, de 1989, a cena com o skate flutuante mexeu com a imaginação de toda uma geração (ver cena retirada do Youtube logo abaixo). Ainda neste mesmo campo de exemplos, podemos citar o longa-metragem Espetacular Homem-Aranha, dirigido por Marc Webb e que estreou no Brasil no ano de 2012. Esse filme retratou a saga do icônico herói dos quadrinhos como sendo ele, antes de tudo, um skatista (nas cenas de skate, o ator Andrew Garfield sedia lugar ao dublê, skatista e também praticante de parkour, Willian Spencer). O Homem-Aranha skatista foi visto por inúmeros espectadores ao redor do mundo e arrecadou uma grande bilheteria.

3 – Filmes independentes: Numa perspectiva menos comercial, existem os filmes de baixo orçamento e feitos por diretores que envolvem a prática do skate com o debate de questões sociais. Um dos mais premiados dessa categoria foi Paranoid Park (2007, EUA, dirigido por Gus Vant Sant), longa que gira em torno de um skatista de 16 anos – interpretado por Gabe Nevins – que acaba matando, acidentalmente, um segurança nas proximidades de uma pista de skate onde pratica. Nesta mesma linha, temos os filmes do diretor Larry Clark. No ano de 1995, Clark dirigiu Kids, filme que se tornou um marco em sua carreira e causou furor ao exibir nos cinemas o cotidiano junkie de um grupo de skatistas de Nova York (alguns dos protagonistas do filme eram, de fato, skatistas bastante atuantes nesta cidade, como Harold Hunter). Embalado por manobras de skate, uso de drogas e recheado de cenas de sexo adolescente, Kids acabou por denunciar a facilidade com que o vírus HIV estava sendo transmitido por uma geração que vivia o presente sem as clássicas perspectivas profissionais de futuro. Outro filme com direção de Larry Clark chama-se “Roqueiros” (Wassup Rockers, EUA, 2005), o qual aborda os problemas causados por um grupo de skatistas – ouvintes de punk rock – de um bairro pobre de Los Angeles que decidem, aleatoriamente, praticar skate numa das áreas mais nobres do condado de Los Angeles, Berverly Hills. Neste filme, além de debater a problemática da apropriação dos espaços urbanos e a repressão policial, Larry Clark também problematiza o contato entre jovens de diferentes classes sociais.

4 – Filmes produzidos por empresas de skate: A emergência desse gênero de filmes, com foco prioritário na execução de manobras de skate, teve início no ano de 1984 com o lançamento de “The Bones Brigade Video Show”, pela empresa Powell Peralta, a qual foi fundada no ano de 1978 por George Powell e Stacy Peralta. Essa marca veio a produzir, nos anos subsequentes, os filmes: Future Primitive (1985), The Search for Animal Chin (1987), Public Domain (1988), Ban This (1989) e Propaganda (1990). Tais filmes, assim como muitos outros que foram produzidos por diferentes companhias de skate, apresentam como objetivo principal exibir a técnica corporal dos skatistas membros de suas equipes, e isso tanto com filmagens realizadas nas ruas quanto em pistas. Por intermédio de tais filmes, nomes (antes desconhecidos) foram divulgados, pequenas marcas tornaram-se famosas e manobras (antes consideradas impossíveis) foram imortalizadas. Nos Estados Unidos, além da já citada Powell Peralta, muitas outras empresas produziram filmes com manobras de skate que se tornaram bastante cultuados. Dentre esses, destaca-se Video Days, produzido pela empresa Blind Skateboards e dirigido por Spike Jonze no ano de 1991. Entre os talentosos skatistas que aparecem neste filme, como Guy Mariano e Marc Gonzales, um deles, chamado Jason Lee, acabou se tornando um comediante festejado em seriados de televisão da NBC, onde fez fama com o engraçado e inusitado My Name is Earl.

Para finalizar esse post, ficamos com a parte do skatista Jason Lee em Video Days, de 1991. Essa parte foi retirada do Youtube e apresenta como trilha sonora as músicas “Real World” da banda Hüsker Dü e a canção “The Knife Song” do Milk.

PARA SABER MAIS

BRANDÃO, Leonardo. Trajetórias do skate no cinema: dos filmes de grande produção ao documentário Dogtown and Z-Boys. In: FORTES, Rafael; MELO, Victor Andrade de. (orgs). Comunicação e Esporte: reflexões a partir do cinema. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014, p. 71 – 86.


Kung Fu Futebol clube (Shaolin Soccer, China, Stephen Chow, 2001)

13/01/2020

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Jogador do Kung Fu Futebol clube – Como elas conseguem voar?

Cante (“poderoso perna de aço”) – São os efeitos especiais…

Kung fu (…) a tradução literal (…) é trabalhar duro ou tempo e habilidade, sendo que (…) esta expressão também é usada para se referir a algo que foi adquirido com mérito, esforço e competência na luta corporal (Disponível em: https://www.significados.com.br/kung-fu/, acessado em 11/01/2020).

Estamos em janeiro; período de férias. Nesse espírito, o filme que trago hoje é uma comédia; das mais bizarras (e divertidas). Shaolin Soccer tem enredo simples, capitaneado por seu protagonista (ator, diretor e co-roteirista) Stephen Chow. Esse faz-tudo cinematográfico do oriente interpreta o jovem Cante, o “Poderoso perna de aço”. Seu codinome faz jus a uma patada sobrenatural, adquirida com a prática Shaolin (um dos vários estilos de arte marcial chinesa).

Cante ganha a vida como catador de lixo. Via de regra não conta com um tostão no bolso, mas sua autoestima e confiança são impagáveis. Graças a sua fé no Kung Fu, nada lhe parece impossível. Sua crença é a de que o Kung Fu serve para tudo (literalmente). De fazer pães (ofício da protagonista Mui) a sobreviver incólume a incidentes corriqueiros, como escorregar numa casca de banana (há uma personagem, identificada nos créditos como “menina da casca de banana”, que tem duas aparições apenas: uma caindo de forma estabanada e a outra, na sequência final da película, esbanjando equilíbrio: o Kung Fu a salvou…).

Bom, Cante encontra um ex-jogador em péssimas condições (“Perna de ouro Fung”) e em uma conversa definem seus rumos (e o enredo da película). Vão unir esforços para juntar o Kung Fu com o futebol, explorando a fenomenal habilidade do “Perna de aço” e o Know How futebolístico de Fung. Acabam por disputar o campeonato chinês e, é claro, sagram-se campeões.

Desse ponto em diante o filme segue a estrutura narrativa básica de epopeias heroicas, mas de forma escrachada. Isso implica a formação de uma equipe de guerreiros-jogadores (quatro irmãos de Cante e coadjuvantes), sequências de treino e o percurso até um ápice desportivo: a final do campeonato. Para a incrível sucessão de mirabolantes desdobramentos, remetemos ao filme. De tão improvável, acaba consistindo em boa diversão. Cabe, no entanto, algumas palavras sobre as epígrafes acima.

A primeira se refere à natureza do gênero fílmico em questão: trata-se de uma comédia; do tipo que sabe rir de si própria e, por isso, denuncia suas autoevidências humorísticas (mais de uma vez).

A segunda tem a ver com o princípio narrativo básico da película. Um norte simplório, mas que não deixa de agradar pelo seu alegre e ingênuo otimismo. O Kung Fu, aqui, não se restringe a uma técnica de combate, mas à utilização de um conjunto tradicional de práticas corporais e mentais que servem, sim, para a luta. Não necessariamente com os punhos, mas à luta da (pela) vida. O Kung Fu Futebol clube foi composto por um bando de indivíduos descontentes, exercendo funções subalternas e desacreditados (inclusive por eles próprios). A partir do Kung Fu, Cante propõe o despertar da força interior de cada um. Trata-se, é claro, de mais uma narrativa de superação pelo esporte. O que chama a atenção, no entanto, é o inusitado da combinação (Kung Fu/Futebol) e a dinâmica e jocosidade das imagens, gerando uma certa originalidade ao produto.

Vale uma conferida nessas férias.

Bom proveito e até a próxima!

Referências:

Disponível em: https://www.ludopedio.com.br/biblioteca/kung-fu-futebol-clube/. Consultado em 11/01/2020.

Disponível em: https://www.imdb.com/title/tt0286112/. Consultado em 11/01/2020.

Disponível em: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-43986/. Consultado em 11/01/2020.


“The two Escobars”. Conexões de vidas antagônicas mediadas pelo futebol e a violência.

16/04/2019

The Two Escobars

O documentário “The two Escobars”(2010) de Jeff e Michael Zimbalist  , mescla depoimentos de pessoas próximas as duas personalidades com um grande acervo de imagens e reportagens da época , buscando reconstruir a trajetória pessoal de cada um deles a partir do seu vínculo com o futebol colombiano.

 

A película começa com uma referência à partida contra os Estados Unidos, a tensão que envolvia a equipe antes da disputa e a emblemática  imagem do gol contra de Andrés Escobar na partida disputada no Rose Bowl em Pasadena, explorando diversas tomadas que reforçam uma representação trágica do que a princípio seria uma mera fatalidade esportiva.

A representação do jogador a partir das declarações dos parentes, amigos, companheiros de equipe e seleção estabelecem a imagem de um homem extremamente correto, solidário, humilde que ajudava as crianças carentes e era extremamente nacionalista.

Andrés Escobar era o filho caçula de uma família tradicional de classe média católica de Medelín e desde muito jovem teria se destacado no futebol em função da sua disciplina, talento e paixão pelo futebol segundo alguns relatos como o da irmã Maria Ester Escobar. A construção heroica do seu caminho até virar atleta passa também pela superação das mortes do irmão Juan Fernando assassinado nos Estado Unidos, e da mãe Beatriz que falece de câncer em 1985 ainda quando ele buscava seu espaço no futebol profissional.[1]

Sua trajetória pessoal se cruza com a do poderoso Pablo Escobar em função da relação do futebol colombiano com o narcotráfico, situação que é abordada em depoimentos e imagens do próprio documentário.

Andrés Escobar era o capitão do clube Atlético Nacional de Medelín, equipe que junto como o Deportivo Independiente Medelín seria financiada por Pablo Escobar desde o final dos anos oitenta segundo a película, e foi o primeiro time colombiano a se tornar campeão do prestigiado torneio continental Libertadores da América, em 1989. Apesar de não ser amigo íntimo do chefe do cartel da cidade como notoriamente era o goleiro René Higuita, o defensor também tinha que se socializar com Pablo Escobar.

O futebol colombiano no período é representado como um espelho da própria sociedade do país no documentário: corrupção, controle das principais equipes por narcotraficantes, violência, assassinatos de juízes, além da onipresença da influência e do poder de Pablo Escobar.  Segundo Agostino[2]

O famoso narcotraficante é representado a partir dos depoimentos e das reportagens na película de forma ambígua. Enquanto seus parceiros como o primo Jaime Gavíria e o homem de confiança Juan Jairo, mas conhecido como “Popeye” e sua irmã  Luz Maria  argumentam um suposto caráter popular de Pablo Escobar em função da sua proximidade com as camadas mais pobres, exaltando suas obras sociais como por exemplo a construção de um bairro popular onde era um lixão no subúrbio de Medelín, declarações do agente norte-americano Tom Cash do D.E.A (Departamento Anti-drogas) e do próprio ex-presidente César Gavíria  associam a imagem do chefe do cartel de Medellin a brutalidade dos conflitos sociais que se proliferavam na sociedade colombiana. O ex-presidente chega a afirmar que Pablo Escobar era uma espécie de “Bin Laden” da sua época.

Paradoxalmente, o mandatário que busca implantar uma guerra contra o narcotráfico, em especial Pablo Escobar, com apoio dos Estados Unidos se utiliza do futebol, mas especificamente da ótima campanha da seleção nacional antes do mundial de 1994, para estimular uma ideia de integração em um país que se encontrava completamente esfacelado em diversos conflitos políticos e sociais. César Gavíria que acompanhava a seleção colombiana viajava com a equipe por todo o continente, distribuía prêmios aos jogadores e associava a imagem do seu governo a um grupo de jogadores que ainda representavam um futebol marcado pelo poder de Pablo Escobar e outros chefões da droga. O ex-presidente chega a afirmar que “tem que transmitir esperança ao povo” e que “o futebol seria um elemento de orgulho nacional”.

Uma declaração de um dos principais jogadores da equipe, Carlos Valderrama ajuda a fortalecer essa ideia de integração em uma sociedade muito dividida: “ O futebol une nações,une inimigos na guerra”. Essa frase teria sido dita no contexto de uma situação em que paramilitares e guerrilheiros teriam feito uma trégua para assistir uma partida da seleção colombiana. Segundo o historiador Gilberto Agostino[3]:

Nesse sentido essa equipe da “integração’ do país, continuou mantendo relações com Pablo Escobar mesmo depois dele conseguir anular a possibilidade de extradição para os Estados Unidos, e se entregar para ser preso em uma luxuosa “prisão” que ficou conhecida como a “Catedral”. No seu presídio o narcotraficante tinha um grande campo de futebol com espaço de lazer onde recebia amigos e compartilhava churrascos e festas animadas.

A divulgação da presença do amigo Higuita na Catedral pela imprensa gerou uma grande polêmica com o arqueiro da seleção colombiana, mas posteriormente foi descoberto que não apenas ele, mas toda a seleção tinha sido “convocada” para uma “pelada” e um churrasco com o poderoso Pablo Escobar, antes da sua  fuga do presídio para não ser preso por tropas do exército colombiano com apoio explícito norte-americano. Até Andrés Escobar teria ido, a contragosto, segundo depoimento da sua irmã Maria Ester.

Entretanto, mesmo com a perseguição das autoridades locais e internacionais na “guerra” contra o narcotráfico, Pablo Escobar acabaria assassinado pela pressão de outros adversários, outrora aliados que formam o grupo narcoparamilitar los Pepes[4] (Perseguidos por Pablo Escobar). Os irmãos Castaño que originaram também o grupo paramilitar AUC (Auto Defesas da Colômbia) teriam sido os grandes incentivadores à “caçada” aos familiares e colaboradores do Cartel de Medellin que acabou com a emboscada a “El Patrón”.

No documentário a comoção popular é registrada nas imagens do enterro do narcotraficante e nas manifestações nas ruas em Medelín, assim como é defendida a hipótese de que com a morte do chefe do cartel ocorreu um aumento muito grande na escalada da violência na cidade.

Violência que também seria emblemática no assassinato de Andrés Escobar na saída de uma boate sete meses depois. Após a eliminação da seleção colombiana e do fatídico gol contra do zagueiro, Andrés estaria se confraternizando com amigos quando acabou sendo provocado e baleado no estacionamento da casa noturna  pelos “hermanos Gallón”,  paramilitares, membros do grupo dos Pepes segundo o documentário. Eles teriam perdido dinheiro com apostas na seleção durante o mundial e a responsabilidade pelo crime acabou ficando totalmente nas costas do motorista Humberto Muñoz Castro dos irmãos que teria disparado os seis tiros[5].

O funeral de Andrés Escobar também foi marcado pela comoção popular, com a presença de familiares, milhares de fãs, jogadores, autoridades políticas e teve grande repercussão no país. O presidente César Gavíria discursou se utilizando de metáforas futebolísticas para exaltar Andrés e tentar responder à atmosfera de violência social: “Colômbia não pode perder a partida contra a violência. Colômbia não pode permitir que seus melhores filhos sejam expulso do campo da vida. Colômbia não pode tolerar mais faltas contra a paz”. O técnico Francisco Maturana afirma que quem matou o zagueiro foi a sociedade

O discurso no final do documentário tenta aproximar novamente os dois “Escobares”, sugerindo através de depoimentos do primo de Pablo, Jaime Gaviria, e do jogador Chincho Serna que se Pablo estivesse vivo, Andrés não teria sido executado. Obviamente trata-se de uma licença poética de uma obra cinematográfica que termina exaltando Andrés, o Escobar mocinho e vilanizando Pablo o sanguinário narcotraficante.

Todavia, a construção de um documentário cinematográfico onde a conexão de duas vidas de personalidades públicas colombianas populares, representadas como eticamente antagônicas, é feita através do futebol e cuja morte é marcada pela  proximidade, brutalidade e por comoções populares em uma sociedade latino-americana extremamente violenta, pode ajudar a compreender as representações coletivas geradas a partir da relação futebol e política na Colômbia.

[1] Para maiores informações sobre a vida pessoal e a carreira futebolística de Andrés Escobar ver https://trivela.com.br/o-cavalheiro-do-futebol-um-retrato-de-andres-escobar-o-jogador-e-o-homem-alem-da-tragedia/.

[2] O crescimento da influência do narcotráfico contribuiu para acirrar as rivalidades clubísticas, levando a uma onda de violência sem precedentes em torno do futebol do país. Em dezembro de 1989, no momento decisivo do campeonato nacional, o juiz que atuara na partida entre Deportivo Independiente Medelín e América de Cali, Alvaro Ortega, foi mortos a tiros nas ruas de Medelín. Ganhando grande repercussão, o assassinato foi encarado pelas autoridades do país como a gota d`água, levando a paralisação da competição. Além das suspeitas que recaíam sobre os homens de Pablo Escobar, surgiam boatos que a máfia da bolsa de apostas podia estar envolvida. Enquanto o mundo desfiava a teia que envolvia o futebol e o narcotráfico. A FIFA preferia acreditar que nada estava acontecendo. (AGOSTINO:2002, P.189-190)

 

[3] O crescimento da influência do narcotráfico contribuiu para acirrar as rivalidades clubísticas, levando a uma onda de violência sem precedentes em torno do futebol do país. Em dezembro de 1989, no momento decisivo do campeonato nacional, o juiz que atuara na partida entre Deportivo Independiente Medelín e América de Cali, Alvaro Ortega, foi mortos a tiros nas ruas de Medelín. Ganhando grande repercussão, o assassinato foi encarado pelas autoridades do país como a gota d`água, levando a paralisação da competição. Além das suspeitas que recaíam sobre os homens de Pablo Escobar, surgiam boatos que a máfia da bolsa de apostas podia estar envolvida. Enquanto o mundo desfiava a teia que envolvia o futebol e o narcotráfico. A FIFA preferia acreditar que nada estava acontecendo. (AGOSTINHO:2002, P.189-190)

[4] Sobre o grupo ver https://almanaquedosconflitos.wordpress.com/2015/08/09/los-pepes-os-perseguidos-por-pablo-escobar/  . Acessado em 01/04/1019.

[5] Para ver mais informações sobre a os Irmãos Gallón e sua relação com o crime ver https://pacifista.tv/notas/los-hermanos-gallon-y-el-crimen-que-derroto-a-la-seleccion-colombia/.


Tom Carroll no Pipe Masters de 1987, ou sobre a “superação” no esporte

01/01/2018

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

Superação é uma palavra comumente associada ao esporte. Aparece com frequência nas representações midiáticas do fenômeno esportivo, em geral relacionada ao desempenho de atletas de alto rendimento. No pouco espaço dedicado aos atletas paralímpicos, o enquadramento de “superação” me parece predominante e onipresente. Muitas narrativas midiáticas construídas a respeito do surfe, de certos surfistas e competições se inserem nesta lógica.

Neste primeiro texto de 2018, abordo brevemente uma delas: a vitória de Tom Carroll no Pipe Masters de 1987. Uso como fonte o filme Pipeline Masters, de 2006 (não encontrei em lugar algum os créditos de direção), disponível na íntegra abaixo (tampouco achei uma versão com legendas em português):

O filme aborda o campeonato disputado em Pipeline/Backdoor, no litoral norte da ilha de Oahu, no arquipélago havaiano. Trata-se, possivelmente, da onda mais famosa do mundo – e uma das mais perigosas. Realizado desde o início dos anos 1970 – antes de haver um circuito mundial de surfe profissional masculino -, o Pipe Masters é o campeonato de maior prestígio na modalidade, além de um dos mais tradicionais. A mídia do surfe em língua inglesa volta e meia usa a expressão “he’s a Pipe Master” (algo como “ele é um mestre de Pipe”) para se referir a algum ex-campeão. Desde que o circuito foi estabelecido, na maioria dos anos ele termina lá. Com isso, o certame decide não apenas quem será o Pipe Master, mas também o campeão da Tríplice Coroa Havaiana (composta pelos campeonatos realizados em Haleiwa, Sunset e Pipeline) e, frequentemente – como em 2017 – o título de campeão mundial masculino.

Por esses e outros motivos, o campeonato é um prato cheio para tais construções narrativas, como se pode perceber ao longo do documentário, tanto em edições anteriores quanto posteriores (por exemplo, na performance de Sunny Garcia em 1992, quase se sagrando campeão apesar de uma contusão séria que limitava-lhe os movimentos de um dos braços – as imagens são impressionantes).

Por volta de 47′, a narração do documentário classifica o que aconteceu em 1987 como “um dos momentos mais dramáticos da história das competições de surfe”. A partir daí, estabelece uma narrativa sobre a trajetória do australiano Tom Carroll. Bicampeão mundial, ele é apresentado como corajoso e até certo ponto irresponsável (até passar a ser um dos poucos a usar capacete por lá), características consideradas importantes para conseguir surfar bem uma onda veloz, poderosa e perigosa como Pipeline. Sua trajetória inclui uma final já na primeira participação, em 1979. Fez outras finais, mas, até então, nunca fora campeão. Novamente ia bem no campeonato de 1987, até que…

…recebe a notícia da morte de sua irmã, na Austrália, num acidente de carro. Em meio ao campeonato mais importante da temporada, Carroll é obrigado a lidar com a tragédia pessoal e familiar e pensar nas providências para retornar à Austrália para o funeral. Numa conversa ao telefone, o pai lhe diz para ficar no Havaí, “porque ela [a irmã] quer que você ganhe”.

Num depoimento emocionado (52′ em diante), o surfista diz: “senti que ela estava lá”. “Eu não surfei para ela. Eu surfei com ela”, afirma. Carroll venceu a final e tornou-se um Pipe Master – depois ganhou duas edições, em 1990 e 1991. Ajuda sobrenatural? Desempenho potencializado por um estado emocional alterado? Coincidência? Rumo natural dos acontecimentos – ou seja, um excelente surfista, em grande forma, finalmente vencendo um campeonato disputado na onda onde era, há anos, um dos melhores? Todas as alternativas anteriores?

Questões boas para a psicologia do esporte, e que considero interessantes para pensarmos o fenômeno esportivo e suas representações midiáticas. E, por que não, também as representações históricas e historiográficas que construímos.

Além disso, frequentemente, nós historiadores somos também admiradores, torcedores, espectadores e/ou praticantes: é possível termos envolvimentos de diversas ordens com os times, atletas, modalidades etc. que pesquisamos.

Para saber mais

Textos com a palavra superação publicados neste blogue.

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Este post é uma homenagem a minha avó Dirce, que se foi em agosto de 2016, aos 91 anos. Devo a ela muito do que sou (sobretudo do que tenho de bom). Na tarde em que recebi a notícia da morte dela, faltava menos de uma semana para eu retornar ao Brasil. Tinha uma partida de tênis marcada com Steve, um coroa com quem vinha jogando duas ou três vezes por mês, invariavelmente perdendo por 2×0 (às vezes, em uma hora dava tempo de perder dois sets inteiros). Steve joga muito melhor do que eu – estava uns dois ou três níveis acima, tinha um excelente saque e o forehand mais demolidor que já enfrentei. Pensei em desmarcar a partida. Não o fiz, nem contei a ele o que tinha acontecido. Naquele dia, jogamos apenas um set, que durou cerca de uma hora. Embora arrasado por dentro, senti uma calma e consegui um grau de concentração e foco que nunca experimentara. Pela primeira e única vez, ganhei um set de Steve. Ele me parabenizou, ao mesmo tempo em que não escondia estar bastante irritado consigo mesmo e com o resultado (como acontece com todo tenista fominha). Nos despedimos e ele foi embora. Por um tempo que não sei precisar, fiquei ali, sozinho, sentado no banco à beira da quadra, olhando as árvores e o céu azul de fim de tarde do Balboa Park.


O esporte na filmografia dos Trapalhões – Parte 1

30/08/2015

Por Valeria Lima Guimarães

Tempos atrás, numa sessão do Cineclube do Sport, o nosso Laboratório de História do Esporte e do Lazer da UFRJ, tive a honra e o prazer de debater o filme Os Trapalhões e o Rei do Futebol, uma produção de 1986, dirigida por Carlos Manga. Rever e comentar um dos filmes da minha infância décadas depois com um olhar acadêmico foi uma experiência muito interessante. Na ocasião, realizei uma pesquisa sobre a filmografia do quarteto que por décadas divertiu dezenas de milhões brasileiros. Por isso, resolvi revisitar o tema, prolongando o sabor da discussão e registrando nessas mal traçadas linhas um pouco do que conversamos naquele dia.

A filmografia dos Trapalhões é bem extensa e soma quase 50 produções cinematográficas, entre os anos de 1965 (quando os Trapalhões eram apenas Didi e Dedé) e 2008. Mussum e Zacarias se integraram ao grupo no cinema em 1976 (O Trapalhão no Planalto dos Macacos) e 1978 (Os Trapalhões na Guerra dos Planetas), respectivamente. Seus filmes figuram entre as maiores bilheterias do cinema brasileiro. Para se ter uma ideia, dos 50 filmes de maior público, 20 são dos Trapalhões.[1] O sucesso foi tão grande, que os Trapalhões na virada para os anos 1980 passaram a produzir de 2 a 3 filmes por ano.

Muitos diretores trabalharam com os comediantes mais queridos do Brasil, entre eles Carlos Manga, José Alvarenga Jr.,Roberto Farias, Sílvio Tendler, Tizuka Yamasaki, J.B. Tanko e Adriano Stuart, esses dois últimos os mais recorrentes.

Os filmes dos Trapalhões sempre dialogaram com as tendências da cultura de massa da época em que foram produzidos, fórmula que ajudaria a alavancar o sucesso de suas produções no cinema. O primeiro deles, “Na onda do iê-iê-iê” (1965), pegava carona na Beatlemania, em seu auge, e fazia referência também aos festivais nacionais da canção. Como se tornaria de praxe, vários artistas famosos participaram do filme, reunindo diferentes gerações que à época  faziam sucesso no rádio, como Sílvio César, Mário Lago, Paulo Sérgio, Wilson Simonal, Wanderley Cardoso, Rosemery, The Fevers e Os Vips. Além das antigas e novas gerações de cantores do rádio, artistas do circo, mais recorrentemente Beto Carrero, do teatro de revista, como José Lewgoy, Wilza Carla e Wilson Grey, artistas de cinema e televisão, como Mário Cardoso, Roberto Guilherme e Eduardo Conde, e jovens atrizes, modelos/manequins conhecidas pela sua beleza, como Mila Moreira, Lucinha Lins, Luiza Brunet, Xuxa e Luma de Oliveira, comporiam os elencos, garantindo ainda mais sucesso aos filmes.

As histórias clássicas da literatura infantil inspiraram muitos filmes dos Trapalhões, que arrancavam boas risadas do público, como as paródias: Ali Babá e os 40 Ladrões (1972); Aladim e a Lâmpada Maravilhosa (1973); Robin Hood, o Trapalhão da Floresta (1974); Simbad, o Marujo Trapalhão (1976); O Cinderelo Trapalhão (1979); Os Três Mosqueteiros Trapalhões (1980); Os Saltimbancos Trapalhões (1981); Os Trapalhões e o Mágico de Oroz (1984), entre muitos outros.

A maior parte das produções atingia um público maior que 2 milhões de espectadores. Era um tempo em que o cinema era uma das principais opções de lazer das massas, especialmente nas férias escolares. Não havia shopping center, os cinemas eram todos de rua e se pagava um ingresso para ver o filme em qualquer altura da sua exibição, podendo-se permanecer por todas as sessões do dia em salas de cinema lotadas, mal ventiladas e com um som sofrível, que mal dava para entender o que os personagens falavam, sem esquecer daqueles  fortes estalos característicos do áudio da exibição e de uns risquinhos que apareciam na tela. Não havia combos nem poltronas luxuosas e as salas eram gigantescas, mas sempre lotadas. Várias vezes assisti os filmes em pé, sentada no chão na frente da primeira fila ou na “carcunda” de meu pai, como diria Didi Mocó.

Os filmes dos Trapalhões, em seu conjunto, trazem invariavelmente cenas de muita ação, velocidade e movimento, com fugas, lutas e perseguições em lanchas, carros, motos, veículos improvisados com ferro velho, pedalinho e até jegue, como marca de uma certa “nordestinidade” tão fortemente impressa nos filmes de Renato Aragão, com elementos como humildade, bom humor, bravura, honestidade e persistência.

Outros ingredientes se somam à fórmula que rendeu tanto sucesso ao grupo, como o humor simples e de grande aceitação popular; a escolha das locações; os estereótipos bem marcados, definindo os mocinhos e os vilões, que entram em conflito; a frustração e ingenuidade do protagonista em perder a mocinha para algum tipo bonitão, jovem e urbano, restando-lhe o posto de melhor amigo de sua amada; os temas de grande identificação das massas.

A temática dos esportes, associada às cenas de ação, esteve muito presente nos filmes dos Trapalhões, tendo surgido pela primeira vez em 1967, com o filme Dois na Lona, estrelado por Renato Aragão e pelo lutador ítalo-brasileiro Ted Boy Marino, no auge do sucesso dos programas de Telecatch.

Cena de Dois na Lona (1967)

Cena de Dois na Lona (1967)

Ted Boy Marino interpreta o papel de um lutador de vale-tudo estreante, descoberto por acaso numa briga num parque. Com a ajuda de seu amigo (Renato Aragão),  disputa o cinturão com o campeão da categoria e fica em grande desvantagem até o 9º assalto. Ao ver seus amigos torcendo e gritando o seu nome, num rompante de superação característico do discurso sobre o esporte, o lutador no último assalto passa a lutar extraordinariamente, com coreografias magistrais, numa plasticidade que funciona muito bem no cinema. O personagem vence por nocaute, conquista o público presente na luta, a arbitragem, o cinturão e, pode-se deduzir, os espectadores do filme.

Em O Incrível Monstro Trapalhão (1980), uma paródia das histórias de O Médico e o Monstro, Hulk e dos Super-Heróis, Didi, o Doutor Jegue, inventa um combustível extraído de marmeleiro nordestino e o testa numa corrida de Stock Car em Interlagos, cenário de muitas cenas do filme, inclusive de uma longa sequência de abertura.

No grande dia da corrida, todos os carros partem, mas o do personagem de Didi, uma estranha espécie de carro, “vindo de outra galáxia”, como anuncia o locutor, não consegue largar. Numa divertida sequência, Renato Aragão tenta de todas as formas fazer o veículo partir e utiliza até o triângulo de sinalização em plena pista de corrida, driblando os demais carros que completavam várias voltas. A torcida se desespera. Depois de várias tentativas frustradas, o personagem resolve utilizar uma gota do seu novo combustível e o veículo dispara, ultrapassando todos os demais e, novamente, atingindo a superação das dificuldades e vencendo a competição, num dos clichês mais fortes no que se refere aos filmes populares envolvendo a temática esportiva.

fig 2

Renato Aragão (no estranho veículo) em cena no autódromo de Interlagos

Outro filme que trouxe o esporte em primeiro plano foi Os Trapalhões e o Rei do Futebol (1986), com Pelé no papel-título. O último filme dirigido por Carlos Manga, conhecido diretor de filmes de chanchada da companhia Atlântida, tinha como fórmula a junção de dois fenômenos de massa – O quarteto de comediantes e o futebol, estrelado pelo nosso herói brasileiro de fama mundial. O resultado foi um extraordinário sucesso, com aproximadamente 3.650.000 expectadores, segundo o site Adorocinema.

Cartaz oficial do filme

Cartaz oficial do filme

O filme uniu adultos e crianças para verem dois ídolos dos brasileiros no cinema, em cenas antológicas rodadas no Maracanã, inverossímeis e inesquecíveis, como o lance do Didi cobrando escanteio para si mesmo e fazendo gol de cabeça, e aquele em que Nascimento (Pelé) defende um pênalti e faz gol de tiro de meta.

Embora não figure nas listas de filmes interessantes ao estudo da história de sua época de produção, o filme traz fortes elementos da cultura política do momento, sendo mais um documento alusivo ao contexto do fim da ditadura civil-militar no Brasil, citada diversas vezes entre falas mais sutis e outras mais explícitas, associadas à crítica à cartolagem e à corrupção no futebol brasileiro.

Mas isso é assunto para um outro post, quando retornarei dedicando um espaço exclusivo à análise desse filme sobre futebol que marcou a vida de muita gente, especialmente do público infanto-juvenil de férias naquele inverno de 1986.

Até lá!

[1] Os filmes dos Trapalhões não circularam no exterior, exceto Os Trapalhões no Auto da Compadecida (1987), que foi exibido em Portugal.


Mauro Shampoo – jogador, cabeleireiro e homem (2005)

20/07/2015

Mauro Shampoo CARTAZ

Hoje vamos tratar de um curta metragem. Salvo engano, ainda não havíamos lidado com filmes com essa duração; uma lástima, dada a boa produção nacional nesse formato e as interessantes abordagens sobre o futebol, nesse modelo reduzido. Um outro link pertinente é que o autor deste post atua, há 15 anos, na coordenação de um cineclube de Escola, o Cineclube Olho na Cena, o qual reexibiu esse pequeno filme em julho, com boa aceitação do público (quem tiver curiosidade pode dar um pulinho no nosso face: https://www.facebook.com/CineClubeEteab).
Pois bem, a película tem um título jocoso: Mauro Shampoo – cabeleireiro, jogador e homem (de Leonardo Cunha Lima & Paulo Henrique Fontenelle, 20’, 2005). Conforme a sinopse, trata-se de obra sobre o “ex-jogador de futebol e folclórico cabeleireiro da cidade de Recife. Com apenas um gol marcado em toda carreira, alcançou a fama como atleta-símbolo do Ibis Sport Clube, que entrou para o Guiness Book como ‘O pior time de futebol do mundo de todos os tempos’”(disponível em: http://portacurtas.org.br/filme/?name=mauro_shampoo_jogador_cabelereiro_e_homem).
Aqui já temos uma indicação instigante. A trajetória de Mauro Shampoo é curiosa. Mauro Teixeira Thorpe foi menino de rua, em Recife. Dormia na rua e, aos poucos, foi construindo uma profissão (vendedor de pastéis, engraxate e cabelereiro). E tentou ser jogador de futebol. Um dos trechos mais comoventes do curta faz menção a esse começo difícil e à ascensão social de Mauro. Com orgulho e lágrimas, o ex atleta do Ibis registra que conseguiu uma casa, uma família, educação para os filhos e “um respeito da porra” de todo o pessoal. Uma vitória e tanto.
Por outro lado (mas simultaneamente) essa escalada foi muito alavancada pelo seu insucesso no Ibis (dele e do time). O incrível percurso de Shampoo e de seu clube, que contabilizou dezenas de derrotas sucessivas, goleadas de mais de dois dígitos e o “ápice” com a indicação ao Guiness, catapultou (pela bizarrice?) uma popularidade da instituição e de seu mais carismático elemento. Um jogador/cabeleireiro de longos fios, inspirado em Maradona (o cabelo), camisa 10 e com um único gol na passagem pelo time que o “consagrou”. Realmente é inusitado.
Oswaldo Montenegro, que escreve uma canção para Mauro, o define como “o centroavante glorioso da derrota”, que a “tristeza enxota”. Um “anticraque dessas lidas”. Meio “pereba, artista, herói” e que faz “do vexame uma festança” (A incrível história de Muro Shampoo – Disponível em: http://letras.mus.br/oswaldo-montenegro/809094/).
Na verdade, o que eu gostaria de destacar é isso. O conto da derrota que se transforma em vitória. Mesmo para descrever a história do pior time, do pior camisa 10, segue-se, na narrativa que envolve o esporte, a máxima da superação. E como poderia deixar de sê-lo? Como transformar em estória exibível a ampla derrota? Talvez daqueles que não tenham conseguido transmutar o fiasco do Ibes, como time de futebol, em holofote pessoal (Mauro Shampoo foi genial nessa função; demostrando genuíno e raro talento para a autopromoção). Mas para cada vencedor há uma multidão de tentadores. Nunca teremos produções que abordem essa vertente (ao final de contas extremamente majoritária) do desporto?
Acho que a questão vale um novo post. Vamos ver.


Historiografando o turismo

17/11/2013

Por Valeria Lima Guimarães

Olá!

Vem chegando a época do ano que muita gente fica ávida por relaxar, tirar férias, aproveitar a temporada de verão e, quem sabe, realizar aquela tão esperada viagem de lazer.

As viagens de turismo, uma das mais fortes expressões do lazer em nosso tempo e um dos mais importantes fenômenos sociais do planeta, tornaram-se cada vez mais comuns no Brasil, dada a conjuntura econômica e a diversificação da oferta para os mais variados perfis de consumidores.

Esse fenômeno implica numa intensa mobilidade de pessoas e capitais entre os países e regiões, provocando a criação ou o aperfeiçoamento de uma infraestrutura necessária para receber esse tipo de viajante, com a oferta de equipamentos e serviços adequados ao turista, além de provocar a produção de fortes impactos econômicos, culturais e sociais, principalmente nas localidades receptoras.

Apesar da importância do turismo, que vem sendo debatido entre nós no SPORT como um dos motores da modernidade, o tema permaneceu à margem da História. Só muito recentemente na Europa e nas Américas, incluindo-se o Brasil, é que têm surgido iniciativas de escrita de uma história do turismo com as ferramentas e preocupações inerentes ao ofício do historiador. Isto significa dizer que as velhas cronologias que reificavam os mitos fundadores do turismo (e da modernidade) começam a ser deixadas para trás e o fenômeno acaba sendo percebido como uma nova e interessante lente para se ver as sociedades contemporâneas.

Como costuma dizer Victor Melo em nossas conversas, a história do turismo vem desenvolvendo uma trajetória muito parecida com a que a história do esporte percorreu há alguns anos. Aliás, em nossos debates e pesquisas desenvolvidas no SPORT e no HisTur (Laboratório de História do Turismo, da UFF), fica bem clara a estreita relação entre os dois fenômenos (o turismo até foi considerado uma modalidade esportiva, lá pelas décadas de 1910 e 1920). De vagarinho o subcampo vai se constituindo, aqui e em outros países, e já estão sendo superados alguns mitos assim como as análises explicativas que tomam o modelo dos países centrais como referência para a manifestação do fenômeno nas periferias.

Um exemplo disso é a ideia de que durante a Segunda Guerra o turismo ficou paralisado em todo o mundo, o que não se confirma a partir do momento em que se investiga os acervos documentais de países como Brasil, Argentina, Uruguai, México e Estados Unidos, por exemplo, que estavam bastante mobilizados em fomentar um turismo pancontinental e alternativo ao mercado europeu no período do conflito.

Aos poucos vão surgindo novas produções que atestam a preocupação dos historiadores com o turismo, como o Journal of Tourism History, editado desde 2009 pelo inglês John Walton, pela Taylor & Francis Online. Walton, que pesquisa a história do turismo desde a década de 1960, é conhecido como um dos mais antigos pesquisadores da história do turismo em atividade e suas investigações se relacionam às viagens turísticas de operários ingleses nos séculos XIX e XX, sem a mitificação do nome do inglês Thomas Cook, considerado o inventor do turismo moderno. Em 2012 tive o prazer de conhecê-lo em Mar del Plata, na Argentina, num encontro de pesquisadores de história do turismo, promovido por colegas da Universidad Nacional de Mar del Plata.

Dentre as novas produções da área, chamam a atenção os livros de Ema Cláudia Pires, “O baile do turismo: turismo e propaganda no Estado Novo”, publicado em 2003, e o de Sacha Packs “La invasión pacífica: los turistas en la España de Franco”, de 2006. O primeiro investiga o turismo sob o regime de Salazar, em Portugal e o segundo, o fenômeno turístico na ditadura de Franco, na Espanha. Ambos apontam como o estímulo ao turismo foi importante para o fortalecimento da identidade nacional sob a ideologia dos dois regimes.

Outro que estuda a relação entre o turismo e a identidade da nação é Eric Zuellow, cuja obra mais conhecida é Making Ireland Irish: Tourism and National Identity Since the Irish Civil War, publicada em 2009. O olhar sobre o nacionalismo irlandês e sobre as clivagens entre irlandeses e ingleses, vistos sob o ângulo do turismo (com a análise da construção de atrativos valorativos à nação), ganham um novo fôlego nos estudos deste historiador que é ainda conhecido pelos pesquisadores de história do esporte pelas suas inserções também nesse campo.

Na Argentina destaco os trabalhos de Elisa Pastoriza e Melina Piglia, que investigam, respectivamente, a construção da argentina turística, especialmente pela via do peronismo, e a trajetória do Automóvil Club Argentino, uma das principais instituições responsáveis pela construção do turismo rodoviário no país.

Aqui no Brasil, uma obra bastante importante é o livro Uma pré-história do Turismo no Brasil – recreações aristocráticas e lazeres burgueses (1808-1850), de Haroldo Leitão Camargo, pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). O autor parte da concepção do turismo como uma invenção social e identifica na passagem para a sociedade industrial no Brasil, as condições possíveis para o surgimento e desenvolvimento de uma cultura do turismo no país.

Também estão sendo desenvolvidas no país, âmbito da História, teses e dissertações que tratam do passado do turismo sob diversos enfoques, uma delas de minha autoria, orientada por Victor Melo e defendida em 2012 no Programa de Pós-Graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no qual está inserido o SPORT. Nas referências bibliográficas ao final deste post você poderá ver algumas dessas novas teses e dissertações.

O fortalecimento da relação entre as duas disciplinas, a História e o Turismo vem ganhando força a ponto de, desde 2011, serem organizados simpósios temáticos nos dois mais importantes fóruns de História e de Turismo do país – O Simpósio da ANPUH (Associação Nacional de História) e o Seminário da ANPTUR (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Turismo), nos quais temos tido ativa participação.

Nesses fóruns, estudiosos de várias regiões brasileiras têm apresentado suas pesquisas apontando cada vez mais – assim como nas discussões acerca da história do esporte no Brasil – que a história do turismo nacional não se resume ao Rio de Janeiro, “Cidade Maravilhosa”, capital da nação até 1960 e ainda hoje principal portão de entrada do turista de lazer no país.

As recreações aristocráticas em Pelotas no século XIX, a invenção da “cearensidade” pelo turismo, nos idos dos anos 1960, a invenção das tradições gaúchas para/pelo turismo, a construção da Natal litorânea, os projetos paulistanos de superação do Rio em importância turística, as viagens de turismo na literatura brasileira, o desenvolvimento do turismo noutras cidades fluminenses, como Paraty e Petrópolis, a construção do turismo social no Brasil, entre outros temas, apontam para a relevância das pesquisas históricas que estão sendo desenvolvidas sobre o turismo, com uma investigação séria e profunda das fontes documentais.

Em agosto de 2013 foi lançado o livro História do Turismo no Brasil, do qual tive o prazer de ser uma das organizadoras, ao lado dos colegas Celso Castro e Aline Montenegro. Trata-se de uma coletânea de artigos apresentados no I Simpósio de História e Memória do Turismo da ANPUH de 2011, juntamente com outros textos de autores convidados.

Esses jovens trabalhos demonstram que o turismo também tem história e que vale muito a pena não só praticá-lo como também estudá-lo. Boa viagem por essas leituras! Você descobrirá muitas proximidades entre a história do esporte e a do turismo.

Voltarei a falar do tema nos meus futuros posts, trazendo novos estudos empíricos e fontes sobre o assunto.

Até lá!

Referências

AGUIAR, Leila Biachi. Turismo e preservação nos sítios urbanos brasileiros: o caso de Ouro Preto. Niterói: Universidade Federal Fluminese/Programa de Pós Graduação em História, 2006 (Tese de Doutorado).

CAMARGO, Haroldo Leitão. Uma pré-história do turismo no Brasil: recreações aristocráticas e lazeres burgueses (1808-1850). São Paulo: Aleph, 2007.

CASTRO, Celso, GUIMARÃES, Valeria e MONTENEGRO, Aline (orgs.). História do turismo no Brasil. Rio de Janeiro: FGV, 2013.

DAIBERT, André Barcelos Damasceno. História do Turismo em Petrópolis entre 1900 e 1930. Rio de Janeiro: Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas, 2010 (Dissertação de Mestrado).

GUIMARÃES, Valeria Lima. O turismo levado a sério: discursos e relações de poder no Brasil e na Argentina (1933-1946). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro/Programa de Pós-Graduação em História Comparada.

MARCELO, Hernán Venegas. Patrimônio Cultural e Turismo no Brasil em perspectiva Histórica: encontros e desencontros em Paraty. Niterói: Universidade Federal Fluminense: Programa de Pós-Graduação em História, 2011 (Tese de Doutorado).

PACK, Sasha D. La invasión pacífica: los turistas y la España de Franco. Madrid: Turner, 2009.

PIRES, Ema Cláudia. O Baile do turismo: turismo e propaganda no Estado Novo. Lisboa: Caleidoscópio, 2003.

PASTORIZA, Eliza. La conquista de las vacaciones: breve historia del turismo en la Argentina. Buenos Aires: Edhasa, 2011.

PIGLIA, Melina. Automóviles, Turismo y carreteras como problemas públicos: los clubes de automovilistas y la configuración de las políticas turísticas y viales em la Argentina (1918-1943). Buenos Aires: Facultad de Filosofia y Letras de la Universidad de Buenos Aires, 2009. (Tese de doutorado).

WALTON, John. Welcome to the Journal of Tourism History. In: Journal of Tourism History, 1:1, p. 1-6, 2009. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1080/17551820902739034&gt;. Acesso em 15 de novembro de 2013.

ZUELOW, Eric. G. E. Making Ireland Irish: tourism and national identity since the Irish Civil War. New York: Syracuse University, 2009.