Esporte e eugenia: a Ginástica Feminina da Primavera em Minas Gerais

07/11/2012

Por André Schetino

Olá amigos do História(s) do Sport. É com muito prazer que escrevo mais um post sobre a história do esporte em Belo Horizonte e no Estado de Minas Gerais. Hoje, vou falar um pouco sobre as relações entre Esporte e Eugenia, dando como exemplo um evento esportivo do ano de 1959.

As relações entre esporte e Eugenia sempre me interessaram. Vale lembrar, que a eugenia foi uma corrente de pensamento que dominou os círculos de poder desde o início do século XX, e a exemplo do papel representado pela Higiene na transição dos séculos XIX e XX,  foi mais um movimento que conquistou pessoas influentes no campo político, ganhando espaço em países como os Estados Unidos e a Alemanha na administração pública. Por trás do discurso principal de seleção genética e melhoramento da raça, a eugenia conquistaria a partir de um discurso pseudo-científico grande espaço e poder político, e viria experimentar o auge de suas teorias racistas durante a Segunda Guerra Mundial.

O esporte seria então um mecanismo imprescindível para o melhoramento da raça, para elevação espiritual de uma nação. Os atletas, exemplos perfeitos de uma raça melhorada, deixavam multidões boquiabertas com seus feitos. Podemos perceber esse discurso em alguns eventos envolvendo a prática esportiva. O mais conhecido deles, foram os Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, retratados no filme Olympia, de Leni Riefenstahl.

Mas não precisamos ir tão longe, pois no Brasil os ideais eugênicos também estiveram em voga. Mesmo com o fim da Segunda Guerra, esses valores ainda perduraram por muito tempo, e eram frequentemente relacionados à prática esportiva. É o que podemos constatar em um evento que aconteceu em Belo Horizonte em novembro de 1959. A II Ginástica Feminina da Primavera era um festival de ginástica, que reuniu delegações de cidades como Ubá, Rio de Janeiro e Belo Horizonte em torno da prática esportiva.

Destaco abaixo o texto da reportagem da Revista Alterosa nº 318, de novembro de 1959.

Aos olhos encantados do grande público que acorreu para prestigiar as equipes integrantes – desfilaram, em números aplaudidos, jovens que bem expressam, na exuberância de seu aprimoramento físico e beleza feminina, o esplendor da nova geração brasileira. (…) Todas as equipes se caracterizaram pela homogeneidade de movimentos coreográficos e alto índice de beleza física, numa comprovação dos benefícios resultados da ginástica moderna. Foi, na realidade, festa de eugenia e beleza, evidenciando a eternidade da legenda helênica: mens sana in corpore sano, que deveria ser o roteiro da mocidade universal para a elevação espiritual dos povos. (p.56)

A Ginástica Feminina da Primavera mostra que os ideais eugênicos estiveram em voga durante muito tempo no Brasil e no mundo. O esporte seria também responsável pelo desenvolvimento do corpo e o aprimoramento da raça, que deveria ser dotado de força, utilidade e beleza. Os valores esportivos se disseminaram mundo afora, o que contribuiu para que ele se tornasse uma das práticas mais massificadas do planeta.
Para saber mais:
Livro: BLACK, Edwin. A Guerra contra os Fracos: a eugenia e a campanha dos Estados Unidos para criar uma raça dominante. São Paulo: A Girafa Editora, 2003.
Filme: Olympia – Leni Refensthal (1938). Link para o filme no Youtube

Peregrinações em bicicleta – um pouco de história, um pouco de cinema

16/07/2012

Por André Schetino

Olá amigos

Escrevo esse post durante as férias. Acabo de chegar a Paraty de bicicleta, vindo de Ouro Preto, ao longo de alguns dias de pedaladas pela Estrada Real. Ainda inspirado pela viagem, resolvi trazer nesse post alguns exemplos de viagens e peregrinações de bicicleta ao longo da história.

A Estrada Real foi o caminho brasileiro percorrido por nosso ouro até Portugal. Hoje transformada em roteiro turístico, o percurso bem difundido por viajantes de bicicleta, contando inclusive com guias específicos para percorrer o caminho sobre duas rodas. O cicloturismo é uma atividade muito popular na Europa, e vem ganhando adeptos no Brasil. Contudo, as viagens e peregrinações em bicicletas são encontradas desde pouco depois de sua invenção, no ano de 1862.

Mas a bicicleta é muito utilizada no Brasil de diversas maneiras. Em uma reportagem sobre a inauguração de Brasília, a Revista Alterosa clicou um ciclista que saiu do Rio Grande d o Sul e foi até a recém inaugurada capital nacional.

Fonte: Revista Alterosa, nº 330, junho de 1960, página 70.

Outro exemplo atual sobre grandes peregrinações em bicicletas foi a Bicicletada Nacional realizada durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável – Rio +20. Ciclistas saíram de diversas cidades do Brasil e se encontraram no Rio de Janeiro para reinvindicar políticas de mobilidade urbana que diminuam a dependência dos automóveis e incentivem o uso da bicicleta como meio de transporte.

Para terminar, um exemplo diferente de mobilidade em bicicletas, desta vez vindo do cinema. Trata-se do belíssimo filme “O Caminho das Nuvens”, do ano de 2003. Wagner Moura interpreta um pai de família cujo sonho é conseguir um emprego com salário de R$1000 para sustentar sua família. Para isso viaja com todos de bicicleta, do sertão nordestino rumo ao Rio de Janeiro. Baseado numa história real, o filme mostra de forma bela – e dura – a vida de um migrante, baseada em sonho, esperança e fé. Pra quem ainda não assistiu ou memso pra quem já conhece o filme, vale acompanhar sob a ótica da bicicleta como elemento da cultura.  Deixo vocês com o trailer do filme.


O esporte nas Alterosas

26/03/2012

Por André Schetino

Olá amigos do História(s) do Sport. Como todo bom atleta, após o período de férias e pré-temporada, é com muita alegria que estreio nos campos do blog neste ano de 2012.

Nos últimos tempos tenho trabalhado (e me divertido) bastante com a Revista Alterosa. Trata-se de uma das revistas mais populares da capital mineira entre as décadas de 40 e 60, que em dezembro do ano passado foi disponibilizada on-line pelo Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte.

O primeiro número da Revista, em agosto de 1939.

Interessante perceber como o esporte aparece em uma “revista de sociedade” (ao estilo das mais conhecidas Fon Fon e Cruzeiro), dedicada principalmente ao público feminino. Apesar de não possuir uma seção exclusiva dedicada ao esporte (o que só acontece nos exemplares da década de 60), o mesmo aparece em suas páginas em praticamente todos os números.

Dicas de exercícios para manter a forma sem sair de casa, artistas do cinema americano em trajes esportivos, os grandes nomes do rádio esportivo e especialmente, a participação feminina nos esportes são alguns dos exemplos encontrados nas páginas da revista. Abaixo, uma reportagem do ano de 1942 (clique na imagem para ampliar)

Fonte: Revista Alterosa, ano 04, janeiro de 1942, p. 34

Fonte: Revista Alterosa, ano 04, janeiro de 1942, p. 35

A reportagem dá o tom de alguns valores esportivos da época, bem como do contexto da Belo Horizonte que começava a experimentar período de grande progresso. Uma cidade tão moderna, “forçosamente” deveria ser desportiva. A empreitada esportiva de Belo Horizonte iniciada e mal sucedida nos primeiros anos da capital finalmente começava a tomar corpo. Na verdade corpos: “atléticos”, “moços, palpitantes de saúde e de vitalidade”. 

Eis aí uma ótima dica de leitura para os interessados não somente na história do esporte, mas também na sociedade mineira nas décadas de 40 a 60. Nos próximos posts trarei mais algumas pitadas esportivas das Alterosas.

Para ter acesso à coleção completa da Revista Alterosa digitalizada pelo Arquivo Público da Cidade e Belo Horizonte é só clicar no link abaixo:

http://portalpbh.pbh.gov.br/pbh/ecp/comunidade.do?evento=portlet&pIdPlc=ecpTaxonomiaMenuPortal&app=arquivopublico&tax=26801&lang=pt_BR&pg=6742&taxp=0&


1949: pílulas sobre o esporte em Belo Horizonte

12/12/2011
por André Schetino
O ano vai terminando, e com ele meu último post da temporada 2011 aqui do História(s) do Sport. Recebi por email a indicação do vídeo abaixo, que divido com vocês. Trata-se de Belo Horizonte em 1949, em um filme produzido pelo Escritório de Serviços Estratégicos Americanos em colaboração com o Escritório de Coordenação dos Negócios Inter-americanos dos E.U.A.
Vale lembrar que que o período em questão é de grande desenvolvimento para a cidade, marcado pela industrialização, os investimentos do Prefeito Juscelino Kubitschek e a busca por parceiros comerciais para a capital mineira, naquele momento a 7ª do país e com pouco mais de 200mil habitantes.
O vídeo é longo, são 17 minutos ao todo (divididos em 2 partes), e aborda diversos aspectos do desenvolvimento de Belo Horizonte. Na primeira parte o destaque é a indústria da mineração, que alavancava a economia do Estado. Destaco a segunda parte do vídeo, especialmente a partir dos 5’22” onde o lazer e o esporte entram em cena.
Primeiro ao mostrar o Parque Municipal, que podemos considerar como o berço do esporte na cidade. Lá ocorreram competições de ciclismo, jogos de futebol, patinação, tenis e muitos outros. O Parque até hoje é um dos espaços privilegiados para o lazer na cidade, famoso por estar sempre lotado aos domingos para os passeios em família ou de casais de namorados.
Além disso, o Minas Tennis Clube, que já foi tema do meu segundo post aqui no blog sobre os clubes esportivos da cidade. As imagens são belíssimas, com destaque para as exibições de ginástica. No Iate Clube, na recém construída Pampulha, os esportes náuticos faziam sucesso àquela época. Além, é claro, do Cassino (onde hoje se localiza o Museu de Arte).
Desejo a  todos os leitores ótimas festas de fim de ano, e um 2012 com muitas alegrias. Um abraço!

Tapa na peteca

01/08/2011

Por André Schetino

Desde o início do “Historias do Sport” pensava em dedicar um post à Peteca. O artefato está presente na infância de grande parte dos belo horizontinos. Lembro de jogar com meu primo petecas feitas de palha de milho e penas de galinha, confeccionadas pela avó dele. Lembro também da dos clubes esportivos que freqüentei e trabalhei, onde as muitas quadras viviam sempre lotadas aos finais de semana, com jogos e campeonatos. Eis que pouco antes do pequeno recesso do mês de julho tive a oportunidade de ler o trabalho de Renato Machado dos Santos, a dissertação de mestrado “A peteca, o Campo do Lazer e a dinâmica da cidade de Belo Horizonte (1980-1994)”.

Em seu trabalho, Renato mostra como a peteca se tornou uma verdadeira febre em Belo Horizonte, com direito a um jornal específico – chamado O Petequeiro – e um bar (ao melhor estilo mineiro) com várias quadras de peteca, pro pessoal curtir um happy hour depois de um dia de trabalho. Além disso, Belo Horizonte foi palco do 1º Campeonato Brasileiro de Peteca, em 1987.

Foto noturna do bar Boa Forma, em Belo Horizonte. Fonte: O PETEQUEIRO, p. 6, 1984

Em uma cidade onde os clubes esportivos se estabeleceram durante muito tempo como um dos principais espaços de lazer, a peteca encontrou um vasto campo para seu desenvolvimento e caiu no gosto e no cotidiano da cidade. Para realizar sua pesquisa Renato entrevistou pessoas importantes no cenário da peteca, e centrou sua investigação nos anos de 1980 a 1994, período em que existiu um dos espaços mais importantes para sua prática – o Campo do Lazer (antigo campo do Clube Atlético Mineiro e hoje um shopping center).

O Campo do Lazer. Fonte: SMES, 1985, p. 23.

Vale ressaltar a importância do registro oral de fontes que foram importantes para a prática desse esporte em Belo Horizonte, além de preservar a memória de uma prática esportiva ainda muito pouco estudada no âmbito da História do Esporte.

A dissertação de Renato é a primeira no Brasil sobre o esporte. Afinal, em Belo Horizonte o tapa na peteca é coisa séria


Esporte Clube da Esquina

16/05/2011

Por André Schetino

Álbum Clube da Esquina, de 1972


A música popular brasileira caminhou sempre ao lado de outras manifestações de nossa cultura, dentre elas o esporte, e especialmente o futebol. Como apreciador do Clube da Esquina, movimento musical mineiro que cresceu nas ruas do boêmio bairro de Santa Tereza, sempre me perguntei sobre as relações que a turma das alterosas teria com o esporte. Será que os “hippies” mineiros em suas viagens musicais não vivenciavam a cultura esportiva?

Dificilmente.

Foi aí que encontrei a tese de doutorado: Na esquina do mundo: trocas culturais na música popular brasileira através da obra do Clube da Esquina (1960-1980), de Luiz Henrique Assis Garcia. No trabalho (defendido em 2007 e no ano passado transformado em livro), Garcia nos mostra que a obra do Clube da Esquina deve ser compreendida dentro de seu contexto histórico, nas influências de seus diversos membros, das suas relações com outros grupos e movimentos (nacionais e internacionais). O trabalho cita um trecho de entrevista com Lô Borges, onde o mesmo afirma que a “esquina” onde os músicos partilhavam seu cotidiano era o “lugar onde acontecia de tudo: música, futebol, peladas homéricas”, um lugar “democrático”(p. 174).

E nada como o tempo para modificar a história, dar a ela novos sentidos e significados. Em uma época de bondes sem freio, trens balas e carroças desembestadas, cabe lembrar que é do Clube da Esquina uma analogia anterior, envolvendo o veículo sobre trilhos tão querido nas Minas Gerais e o futebol: “o trem azul“.

A música, lançada em 1972 no álbum Clube da Esquina não foi composta sob a ótica do futebol. Para muitos, o trem azul seria a metáfora da própria vida. Porém, tornou-se em tempos mais recentes (especialmente a partir dos anos 2000) uma homenagem à grandes equipes formadas pelo Cruzeiro Esporte Clube. Essa ressignificação da canção pode ser vista no vídeo abaixo, na voz de ilustres cruzeirenses: Lô Borges (autor da música), Milton Nascimento e Samuel Rosa, todos devidamente uniformizados.

E a parceria música e esporte não parou por aí. Em breve trarei em outros posts um pouco mais dessa relação em música e futebol em Belo Horizonte. Para terminar em alto estilo, outra parceria linda de Milton Nascimento e Fernando Brant, de 1995, onde a bola rola solta: bola de meia, bola de gude.

P.S. – Quis o destino que o calendário de atualização do blog me presenteasse com essa segunda-feira pós campeonato mineiro, onde o glorioso Clube Atlético Mineiro viu diminuir sua vantagem de títulos estaduais sobre o grande rival celeste. Apesar da ressaca, fica este post com as merecidas felicitações aos meu amigos cruzeirenses.


M.S.E. – Movimento dos sem estádio

31/01/2011

por André Schetino

No último dia 29 iniciou-se o campeonato Mineiro de Futebol. A imprensa exalta o bom momento do futebol mineiro, com a presença dos três clubes de Belo Horizonte na primeira divisão do futebol brasileiro, o que não ocorria desde 2001. No entanto, destaca também um aspecto inusitado: a cidade de Belo Horizonte inicia o ano sem um estádio de futebol, fazendo com que Atlético, América e Cruzeiro mandem seus jogos em cidades do interior ou da região metropolitana da cidade.

A intempérie começou com Belo Horizonte largando na frente na corrida pela Copa do Mundo de 2014. Com interesses claros em colocar a cidade na disputa pelo jogo de abertura da Copa, o então gorvenador Aécio Neves mostrou seu pioneirismo, sendo o estádio do Mineirão o primeiro a ser fechado para início das obras, em julho de 2010.

A medida que agradara a comissão organizadora dos jogos deixou Atlético e Cruzeiro sem estádio para o Campeonato Brasileiro de 2010. A idéia inicial era que o transtorno durasse pouco, pois o estádio do Independência – pertencente ao América Mineiro e construído para a copa de 1950 – seria também reformado, e entregue à cidade em novembro de 2010, permitindo  aos clubes de Minas a sua utilização nos jogos finais do campeonato.

Porém, como infelizmente é comum e se obseravar Brasil afora com a questão dos estádios, as obras não só atrasaram como ultrapassaram o valor orçado para o projeto inicial. Moro próximo a região do estádio e tive a oportunidade de acompanhar o estágio inicial de das obras, que consistiu na demolição e limpeza do terreno, deixando-o com a “assustadora” aparência da foto abaixo.

O processo foi rápido, iniciou-se em 22 de janeiro de 2010, o que deu a impressão de que o cronogarama de obras seria cumprido. Mas a entrega do estádio já teve sua data alterada algumas vezes. A última divulgação estipula o mês de junho deste ano. Os responsáveis pela obra alegam que as chuvas do início do ano de 2010 e mudanças no projeto inicial feitas pelo América atrasaram o cronograma de obras. Além disso, o projeto que estava orçado em R$ 54 milhões tem agora seu custo recalculad o para R$ 70  milhões, até o momento.

A falta de um estádio em Belo Horizonte foi a principal reclamação dos clubes no ano passado. E persistirá esse ano, com o início do Campeonato Brasileiro sem um estádio para mandarem seus jogos. Apesar das obras estarem em andamento, o medo maior é de que o probelema perdure por todo o ano.

Abaixo, um link para a reportagem que mostra o atual momento das reformas no estádio do Independência.

http://globoesporte.globo.com/minas-gerais/noticia/2010/11/novo-estadio-independencia-ficara-pronto-ate-o-mes-de-junho-de-2011.html


Nós vamos invadir sua praia…

07/11/2010

Por André Schetino

Vi há algumas semanas na tv uma notícia que logo me remeteu à uma das irreverentes música da banda Ultraje a Rigor (que intitula esse post) e também ao meu camarada Rafael Fortes, que escreve aqui no blog. Era uma pequena reportagem cobrindo o IV Campeonato Mineiro de Surf, realizado no final do mês de agosto na praia de Geribá, em Búzios (RJ).

Os esportes náuticos em MG são bastante difundidos quando se trata de práticas que podem ser realizadas em rios, lagos, represas e afins, como o rafting, wakeboard, jet ski entre outros. No caso do surf, confesso que inicialmente achei inusitado, mas logo compreendi que o que acabara de assistir fazia parte de um movimento até comum nos esportes: a escolha de modalidades esportivas na qual sua prática é inviabilizada pela ausência de espaço próprio no local.

Talvez o maior exemplo disso esteja no filme “Jamaica abaixo de zero”, comédia que fez bastante sucesso, e hoje já figura entre os clássicos dignos das reprises da Sessão da Tarde. O filme mostra com boa dose de humor a participação da equipe da Jamaica nas provas de trenó no gelo, modalidade conhecida como bobsled.

Jamaicanos praticando bobsled, brasileiros com delegação nos Jogos Olímpicos de Inverno, campeonato brasileiro de esqui e snowboard realizado na Argentina, e mineiros nas ondas do surf são alguns exemplos do esporte quebrando barreiras geográficas. O caso do campeonato mineiro de surf (em sua 4ª edição) evoca o discurso do fascínio que os representantes das alterosas têm pelo mar. Apesar de faltarem indícios científicos que comprovem essa teoria, a escolha de pacotes turísticos e a alta taxa de ocupação de hotéis e pousadas nas praias por mineiros (dentre os quais me incluo) mostram que o discurso não é construído sem fundamento.

Para terminar em grande estilo, escolhi outro exemplo para ressaltar a relação dos mineiros com o surf, além de mostrar a amplitude das práticas do campo esportivo. Deixo vocês com o clipe da música  Harbor Patrol da banda mineira de surf music, chamada Estrume n’ tal. A banda figura entre as muitas que participam do “Primeiro Campeonato Mineiro de Surf”, festival de surf music que acontece em Belo Horizonte se encontra em sua 10ª edição.

Para saber mais:

IV Campeonato Mineiro de Surf – http://www.ysports.com.br/index.php?primario=sala&id_sala=96

10º Primeiro Campeonato Mineiro de Surf – http://campeonato.reverb-brasil.org/


O maior clássico de Minas: René Barrientos x Che Guevara

16/08/2010

por André Schetino

Há alguns meses atrás tive a oportunidade de ler o trabalho de um aluno sobre a constituição identitária do torcedor cruzeirense. Torcedor fanático do clube, foi mais um aluno que elegeu como objeto de estudos o seu esporte preferido e seu clube de coração. Ao ler o trabalho me interessei particularmente sobre a questão da rivalidade entre Atlético e Cruzeiro, que ao longo da história se firmou como a maior de Minas Gerais. O tema por certo não é novo, mas dentro do amplo quadro de disputas dentro da rivalidade do clássico mineiro, me chama atenção o embate das bandeiras das torcidas organizadas.

Primeiro com relação ao tamanho. As torcidas disputam já faz um bom tempo o título de maior bandeira de Minas (e do Brasil). De tempos em tempos, surge uma bandeira alguns metros ou centímetros maior do que a anterior. As bandeiras são erguidas no início dos jogos e a cada gol dos times, ocupando toda a largura do anel superior da arquibancada do Mineirão. Com o fechamento do estádio para reformas a disputa fica também adiada, uma vez que as bandeiras são tão grandes que não cabem em um estádio de proporções menores.

Fonte: site oficial Torcida Organizada Galoucura

Em segundo lugar, o caso mais interessante na minha opinião. A constituição da rivalidade a partir da escolha de símbolos para as bandeiras das torcidas. A torcida organizada Máfia Azul, do Cruzeiro, confeccionou várias bandeiras com o rosto de Ernesto Che Guevara, escolhido como um dos símbolos da torcida.

Fonte: site oficial da Torcida Organizada Máfia Azul

Em “resposta”, a Torcida Organizada Galoucura, do Atlético, confeccionou uma bandeira que estampa o rosto do General René Barrientos, que comandou o exército responsável pela captura e execução de Che.

Fonte: site oficial da Torcida Organizada Galoucura

Isso obviamente desencadeou em algumas discussões relativas às posições políticas tanto entre as torcidas como por parte da imprensa. Tanto que a torcida organizada do Atlético mantém em seu site uma nota oficial que explica a escolha do General para estampar a bandeira, reproduzida abaixo:

“Esse cara é 22, só fez loucura…. René Barrientos 100% Galoucura.

O Conselho Administrativo do G.C.R.T.O. Galoucura, deixa aqui de forma oficial, a explicação pelo uso da bandeira do General René Barrientos.

A Galoucura é uma agremiação de torcedores de futebol, não somos partido político e nem temos ligação com qualquer um, não somos movimento revolucionário ou nada do tipo.

A bandeira do General René Barrientos, idealizada por um dos membros do Conselho da Galoucura, tem apenas um objetivo, Rivalidade, assim como, o Galo come a Raposa, René acabou com Che, como o outro lado usa a imagem de Che.

Usamos a imagem de René Barrientos, mas a mídia e muitas pessoas com “birra” da Galoucura já vieram dizer asneiras do tipo: Galoucura apóia a ditadura, Galoucura contra a Democracia.

Carregamos no sangue o orgulho de sermos Atleticanos, Brasileiros, Mineiros, a bandeira do René Barrientos atinge plenamente seu objetivo, a rivalidade, simples, pura e saudável.”

Para além das bandeiras com o rosto de jogadores que foram ídolos dos clubes, em Minas o caso Che Guevara e René Barrientos mostra que a rivalidade entre as torcidas pode relegar questões políticas a um outro plano, transformando o esporte na principal bandeira de luta, ou na luta das bandeiras.


Clubes x Seleções: quem bate não esquece

24/05/2010

por André Schetino

andreschetino@pop.com.br

Nosso blog, assim como todo o país e grande parte do globo terrestre já entrou na contagem regressiva para a Copa do Mundo. Faltam apenas 18 dias. Como não haveria a menor possibilidade e nem vontade de evitar o assunto que domina todas as mesas (do botequim ao escritório), resolvi pensar então em alguma maneira de tratar o tema “Esporte em Belo Horizonte” relacionado à Seleção Brasileira. Não tive dúvidas ao escolher um jogo que há 8 meses atrás completou 40 anos de sua realização. Atlético Mineiro 2×1 Seleção Brasileira, realizado no dia 03 de setembro de 1969, no estádio do Mineirão.

Nada de mau agouro sobre a Seleção Canarinho, mesmo porque levaríamos o tricampeonato na Copa do México. A lembrança do jogo é um momento pró-memória, importante para para o futebol mineiro (devo admitir, especialmente para os atleticanos) e para a discussão sobre o confronto “clubes versus seleção brasileira”. E para este bate-bola acontecer em grande estilo, nada melhor do que assitir à matéria sobre o jogo feita pelo Canal 100.

Somente três times nacionais conseguiram sagrar-se vencedores em confrontos contra a Seleção Brasileira. O time do Santa Cruz (vitória por 3×2 em 1934), o Atlético Mineiro (2×1 em 1969) e o Flamengo (2×0 em 1976).

Podemos considerar o confronto entre uma seleção e um clube de futebol um mau negócio para o primeiro, e um ótimo para o segundo. O discurso entoado é o de que, se a seleção vence, em alguma medida, não fez mais que sua obrigação. Por outro lado, se perde, deve encontrar algumas justificativas, que muitas vezes soarão como meros sussurros diante das glórias e louvações ao time vencedor. E não foi diferente com o Galo.

Se a reportagem do Canal 100 faz questão de enfatizar a “ressaca” da seleção brasileira, que “não queria muita coisa com a bola” após a classificação para a Copa do México, a torcida atleticana trata de lembrar o que a matéria não cita, como por exemplo os autores dos gols atleticanos, Amauri e Dadá Maravilha (já devidamente homenageado por este blog). Dadá inclusive seria convocado para a Copa de 1970. E o jogo contra a Seleção Brasileira entra para o hall das grandes vitórias do clube mineiro.

A própria CBF reconhece o mau negócio, tanto que os amistosos entre a Seleção e os clubes de futebol caíram em desuso. A vitória de um time sobre uma seleção é o típico acontecimento que derruba a máxima de que aquele que bate esquece, e quem apanha se lembra para sempre. Que o digam os torcedores do Santa Cruz, Flamengo e Atlético Mineiro.

Para saber mais:

Ficha técnica e reportagem sobre o jogo Atlético 2×1 Seleção Brasileira: http://colunas.globoesporte.com/memoriaec/2009/09/03/o-dia-em-que-o-galo-de-vermelho-venceu-as-feras-do-saldanha/

Que clubes já venceram a seleção brasileira? – http://mundoestranho.abril.com.br/esporte/pergunta_287809.shtml