História do yoga no Brasil

31/07/2017

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Segundo dados da Associação Brasileira de Ioga, publicados pela revista Exame, em 2011, haveria 500 mil adeptos da prática no Brasil. [1] Os métodos e fontes dessas estimativas são sempre obscuros; passíveis, portanto, das mais variadas contestações, para mais ou para menos. Quase uma década antes, o Consulado Geral da Índia estimava em um milhão o número de praticantes de yoga no Brasil. Grupos organizados de adeptos discordavam, falando de até 5 milhões de praticantes. [2]

Outra divergência que separa mestres e adeptos do yoga é a história da prática no Brasil. Num universo onde tradição e autenticidade agregam prestígio e reputação, vários grupos disputam a primazia da difusão do yoga no país. De modo geral, todos reconhecem que, na Índia, o yoga é praticado há mais de 5 mil anos, abarcando diferentes formas: Hatha Yoga, Raja Yoga, Asthanga Yoga, entre muitas outras. Já a chegada da prática ao Brasil é permeada de divergências, muitas das quais animadas por implícitos interesses comerciais. Onde o peso da história pode ser mobilizado como estratégia publicitária, tendem a ser particularmente duras as disputas pela memória. A ausência de historiadores profissionais deste debate não ajuda.

Basicamente, para simplificar o cipoal de interpretações sobre a história do yoga no Brasil, quase sempre se aponta para acontecimentos desenrolados nas décadas de 1950 ou 1960. Mais particularmente, citam-se a fundação da Ordem dos Sarvas Swamis, no interior do Rio de Janeiro, por volta de 1953; a fundação da Associação Mística Ocidental, no interior de Santa Catarina, também por volta de 1953; a abertura da Academia de Shotaro Shimada, em São Paulo, em 1958; a inauguração da academia do francês e monge Jean Pierre Bastiou, no Rio de Janeiro, também em 1958; a publicação do livro “Libertação pelo Yoga”, em 1960, do general Caio Miranda; as iniciativas práticas e editoriais do militar José Hermógenes a partir de 1960; ou ainda as ações de Luiz de Rose, no Rio de Janeiro, também a partir de 1960.

De acordo com a “escola” de yoga a que cada praticante esteja vinculado, uma ou mais dessas versões podem ser adotadas, com diferentes níveis de entusiasmo. Obviamente, como é de se esperar em contexto de tantas convicções, todas elas estão erradas.

As primeiras notícias sobre o yoga no Brasil começaram a circular ainda na primeira década do século 20, por ocasião da divulgação de congressos de história da religião, que contavam com palestras sobre “Yoga” e “Budismo”. Desde essa época, circulavam também notícias sobre faquires indianos, onde a prática do “Hatha Yoga” era mencionada como explicação exótica das suas proezas físicas. A dimensão excêntrica disso tudo seria sempre muito bem explorada por jornais da época. Por outro lado, notícias desse tipo também ajudariam a iniciar a divulgação do yoga no Brasil, ainda que de maneira sutil.

A índia e seus mistérios

Desde princípios do século 20, notícias realçando aspectos “exóticos” da Índia ajudaram a iniciar a divulgação do yoga no Brasil.  Fonte: A Noite, Rio de Janeiro, 8 jun. 1931, n. 7015, p. 7

A partir de 1910, aproximadamente, iniciativas de Sociedades Teosóficas em várias cidades do Brasil iniciaram divulgação regular do vegetarianismo, do absenteísmo, do esoterismo, do ocultismo e também do yoga como recursos para transcender os limites da mente. Essas Sociedades Teosóficas, espécies de organizações espiritualistas sincréticas, organizadas em vários países a partir dos fins do século 19, em grande medida motivadas por ideias da aristocrata russa Helena Blavatski, e até hoje existentes, tiveram mesmo grande protagonismo no início da divulgação do yoga no Brasil. Dentre as suas muitas realizações nesse sentido, consta a tradução e publicação de um livro em princípios dos anos 1930 sobre “Introdução ao Yoga”, da inglesa Annie Besant, também ligada à Teosofia.

Helena - teosofia

Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 11 dez. 1938, n. 13526, Supplemento, p. 4

Antes ainda, direta ou indiretamente ligados à Sociedades Teosóficas, foram traduzidos e publicados no Brasil, desde meados da década de 1910, diversos livros de Yogui Ramacharakan, segundo dizem, pseudônimo do norte-americano William Atkinson (o assunto também é um pouco polêmico). Livros como “Hatha Yoga”, “Ciência da respiração” ou “Quatorze lições sobre Filosofia Yogy”, entre outros, comentados em palestras e amplamente comercializados em livrarias da época, encerravam o que haveria de mais precioso para o bem-estar físico, ensinando numerosos exercícios que deveriam ser praticados para que o corpo pudesse ser manter sempre saudável, diziam suas propagandas, publicadas em jornais dos anos 1910 e 1920. Muito antes, portanto, das publicações brasileiras sobre yoga dos anos 1950 ou 1960, geralmente apontados por entusiastas como marcos pioneiros fundamentais para o início da prática no país, já havia um significativo conjunto de materiais e informações disponíveis . Alguns dos verdadeiramente pioneiros livros de “Ramacharakan” lançados no Brasil, em grande medida impulsionados por ações de Sociedades Teosóficas, tiveram várias edições até pelo menos os anos 1970, se não depois, conformando um importante filão para a difusão da filosofia e das técnicas de yoga.

Ainda nas décadas de 1920 e 1930, palestras sobre yoga não apenas continuariam sendo realizadas, como ganhariam mais abrangência. Além das Sociedades Teosóficas, que continuaram ativamente atuantes na apresentação e divulgação do yoga, iniciativas semelhantes seriam deflagradas também por outras instituições. Além do envolvimento de diversas organizações “naturistas”, “esotéricas”, “ocultistas”, “psquistas” e de “cultura psico-transcendental e vibração mental”, como elas próprias se intitulavam, até a Associação Cristã de Moços chegou a promover conferência sobre preceitos do yoga.

O Cruzeiro

O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 27 nov. 1937, n. 4, p. 31

Em meados da década de 1930, celebridades internacionais dos esportes e do cinema começaram a adotar o yoga, o que acabou oferecendo ampla publicidade para a prática. Entre eles, destacam-se o ator Ramon Navarro, protagonista do filme Ben-Hur, grande sucesso em meados da década de 1920. Por volta de 1935, Navarro se tornou adepto do yoga. Segundo disse em entrevista para uma reportagem da época: “Ganhei todo o dinheiro que aspirava ganhar. Tornei-me um ‘yogi’ [isto é, adepto da filosofia e das práticas yoga]. Abandonei por completo o fumo e a bebida; ambos não me fazem falta. Aspiro viver na tranquilidade física e mental. Penso estar na estrada que me conduz a ela”.[3]. Nesse momento, Ramon Navarro não tinha como saber que seria brutalmente assinado anos depois por seus próprios irmãos, que acreditavam haver grandes somas de dinheiro escondido em sua casa.

O Cruzeiro, 10 jan. 1959, n. 13, p. 85

O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 10 jan. 1959, n. 13, p. 93

Outro que aderiu ao yoga na mesma época, oferecendo-lhe involuntariamente publicidade, foi o boxeador norte-americano Lou Nova. Orientado no Charkstown Country Club, em Nova York, de propriedade de um tal Dr. Pierre Bernard, conhecido também como Oom, o Onipotente, onde se prometiam curas miraculosas com a aplicação dos exercícios yoga, Lou Nova se tornou vegetariano e adepto da prática indiana como método de preparação física. Segundo reportagem do jornal O Globo de 1939, “os boxers famosos inventam às vezes processos curiosos de treinamento, rachando madeira, bebendo cerveja ou fazendo filmes. Mas, até hoje, nenhum astro do ringue treinou sentando-se como um filósofo hindu aos pés de um yogi, aprendendo a controlar os músculos do estômago”.[4] Na esteira do sucesso do boxeador famoso, divulgava-se a milenar filosofia indiana. O yoga, porém, não foi suficiente para fazer Lou Nova superar Joe Louis na disputa pelo título mundial dos pesos-pesados em 1941. Perdeu no sexto assalto por knock-out. Apenas um detalhe que em nada parece ter diminuído o entusiasmado impulso em favor da difusão do yoga.

Lou Nova... O Globo Sportivo, 10 jun. 1939, n. 42, p. 18

O Globo Sportivo, Rio de Janeiro, 10 jun. 1939, n. 42, p. 18

Daí em diante, o yoga estaria cada vez mais disponível no Brasil. Reportagens da Revista O Cruzeiro, uma das mais importantes publicações semanais de variedades do período, explicariam detalhes da prática indiana a um público mais amplo que os círculos de interessados em palestras teosóficas ou conferências exotéricas. Segundo dizia uma dessas reportagens, “a doutrina yoga é uma porta secreta que conduz a uma longa existência, sadia, calma e regrada”. Em 1938, talvez com algum exagero, a manchete de outra reportagem da mesma revista já poderia anunciar que o “yoguismo” avassalava o mundo. A reportagem, além disso,  reproduzia fotografias do livro “Yoga, uma ciência”, de Kovir T. Behana, psicólogo da universidade de Yale, que estudou e praticou yoga na Índia com o mestre Swami Kuvalayanada, como parte de um projeto de pesquisa científica, que deu origem ao livro: outra fonte relativamente importante para difusão do yoga anterior aos marcos usualmente apontados por adeptos e entusiastas.

O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 3 set. 1938, n. 44, p. 8-9

Desde essa época, a lenta, mas progressiva popularização do yoga tenderia a transmutar cada vez mais alguns dos significados da sua prática. Ao invés do horizonte religioso e espiritualmente transcendental a que aspiravam e aspiram ainda até hoje alguns dos seus mestres e incentivadores, yoga seria visto também como uma mera modalidade de ginástica – polêmica ainda capaz de exasperar seus adeptos mais puristas. Muito sintomaticamente, dizia uma reportagem de 1939, um dos segredos da beleza e da boa forma da Miss América daquele ano, além de massagens abdominais de origem romana e danças rítmicas usadas em templos hindus, era justamente a prática da “ginástica yoga”, com todas as suas sutilezas, observava com cuidado a reportagem, “onde os exercícios corporais estão estritamente ligados ao espírito, pois exigem grande grau de concentração e educação respiratória”.

O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 10 jun. 1939, n. 32, p. 23

Vários desses elementos, especialmente a ênfase na concentração e na respiração, combinados depois com outras técnicas de origens diversas, seriam apropriados mais tarde por práticas de treinamento físico atualmente bastante populares, como é o caso do método Pilates. Por trás de suas aparentes inovações, em comum, há sempre o horizonte de uma consciência transcendental, com influências do Oriente, com traços de espiritualização, e que se quer, de todo modo, mais ampla e profunda. Mito ou verdade, depende muito das inclinações ideológicas de cada um, tudo sempre produto de um longo e peculiar processo de desenvolvimento histórico.

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[1] BAGDADI, Solange. Ioga já tem 500 mil praticantes no Brasil. Disponível em: http://exame.abril.com.br/brasil/ioga-ganha-cada-vez-mais-praticantes-no-brasil/

[2] Grupos divergem sobre número de praticantes no país. Folha de São Paulo, 30 de junho de 2002. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff3006200222.htm

[3] Desiludido da vida. O Dia, Curitiba, 1 mai. 1938, n. 4527, p. 1.

[4] Lou Nova treina pelos methodos Yoga. O Globo Sportivo, Rio de Janeiro, 10 jun. 1939, n. 42, p. 18

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Dorando Pietri e a Maratona do Parque Antártica (1910)

05/03/2017

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Em 1925, a Federação Internacional de Atletismo consagrou a distância de 42.195 metros como medida oficial das corridas de maratona. Antes disso, corridas a pé que recebiam o mesmo nome, tinham distâncias bastante variadas. Provas de 10, 12, 15, 17, 20, 30, 40 ou 60 quilômetros, poderiam ser igualmente chamadas, sem nenhum problema ou conflito aparente, de corridas de maratonas.

A distância de 42.195 metros coincide com o percurso da maratona da Olimpíada de Londres, em 1908, planejado nesses termos para atender veleidades do rei Eduardo VII, que desejava assistir à largada da corrida do castelo de Windsor. Por essas prosaicas razões, a competição em Londres entrou para o panteão de símbolos do atletismo.

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Maratona da Olimpíada de Londres, 1908.

A maratona de Londres, contudo, marcaria ainda os anais da história do esporte por outra razão. Naquela competição, o corredor a cruzar a linha de chegada em primeiro lugar acabou desclassificado. O italiano Dorando Pietri, ao entrar exausto e desorientado no estádio onde terminaria a competição, desmaiou e foi assistido por árbitros, que quase o carregaram até a linha de chegada. O irlandês Johny Hayes, que cruzou a linha de chegada em segundo lugar, competindo pelos Estados Unidos, protestou e o italiano acabou desclassificado. Hayes foi declarado então vencedor.

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Chegada de Dorando Pietri, na Maratona da Olimpíada de Londres, 1908

A decisão não encerraria a celeuma, porém. Meses depois, realizou-se em Nova York uma revanche entre Pietri e Hayes. A competição, que consistiu em 260 voltas numa pista construída no Madison Square Garden, foi acompanhada por mais de 10.000 pessoas, ciosas por saber quem era o corredor, afinal. Os dois seguiram praticamente juntos durante todo o percurso, com pequena vantagem para o italiano, que cruzou a linha de chegada menos de 80 jardas e 45 segundos à frente de seu concorrente. Pietri foi carregado em triunfo por seus compatriotas, que já o haviam apoiado intensamente durante toda a competição. O apoio da comunidade italiana, contudo, não impediu que Pietri fosse também vivamente vaiado pelo restante do público, por suspeitas não confirmadas de que, nos últimos metros da corrida, teria aberto os braços para impedir a passagem do adversário. Em maio do ano seguinte uma nova disputa entre os dois foi realizada, com nova vitória de Dorando Pietri, que se consagrou, em definitivo, como um dos melhores corredores de resistência de seu tempo.

 

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Hayes (esq.) e Pietri (dir.), desfilam lado a lado em carro aberto

Pietri já era conhecido no pequeno círculo dos entusiastas das corridas a pé desde antes da olimpíada de Londres. Algumas dessas corridas que tiveram a participação de Pietri chegaram a ser brevemente noticiadas por jornais brasileiros. Depois da competição em Londres, porém, sua reputação ganhou novas dimensões. Pietri tornou-se uma espécie de estrela internacional do esporte. Como parte das vantagens de seu novo sucesso, Pietri viajava por diferentes países participando de competições de corrida com prêmios em dinheiro, o que ele provavelmente já fazia antes, talvez com menor frequência e com pagamentos menos generosos. Um dos lugares onde Pietri estivera com esses propósitos e na esteira do sucesso da Olimpíada de Londres foi o Brasil.

 

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Dorando Pietri lidera Maratona da Olimpíada de Londres, 1908

Em julho de 1910, em meio ao que parecia ser uma excursão pela América do Sul, Pietri desembarcou no porto de Santos, vindo de Montevidéu, depois de ter participado de uma corrida em comemoração ao centenário da proclamação da república na Argentina, que reuniu mais de 50.000 pessoas em Buenos Aires. Seu destino era a cidade de São Paulo, onde Pietri participaria de uma corrida no Parque Antártica. Antes, teve tempo de participar e vencer uma “maratona” de 17 quilômetros no campo do Velo Club, em Santos, com o tempo de 57 minutos e meio – 15 minutos mais rápido que o segundo colocado.

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Dorando Pietri, com a Gold Cup, conferida pela Maratona da Olimpíada de Londres, 1908

A corrida na qual tomaria parte em São Paulo, amplamente divulgada pela imprensa local, logo gerou grandes expectativas, como era usual em ocasiões como essa. Além da corrida com Dorando Pietri, que oferecia prêmio em dinheiro de 2.000 francos, o evento contaria ainda com outras duas atrações: uma corrida de resistência de 20 quilômetros, em 60 voltas ao redor de um campo de futebol, envolvendo 25 corredores, de 10 diferentes clubes de São Paulo, além de uma exibição de força protagonizada por um tal Ettore Tibério, apresentado como um “Hércules”, “campeão mundial” e “célebre gladiador italiano”; vencedor de diversos campeonatos de luta  na Europa. O anúncio de exibição de força de Tibério prometia o levantamento de um automóvel com 6 pessoas, pesando 1.700 quilos, além de uma luta contra um touro. As letras garrafais dos cartazes que anunciavam o evento prometiam mesmo que Tibério subjugaria a muque um touro bravo.

Mais de 10.000 pessoas dirigiram-se ao Parque Antártica. O jornal Correio Paulistano registrou com cores vivas o modo como transcorreu aquele domingo: “o dia esteve magnífico, e desde cedo começaram a afluir ao parque numerosos automóveis, carros particulares e de praça, charretes e outros veículos, conduzindo senhoras e cavalheiros. Os bondes, partindo da praça Antônio Prado e do Largo do São Bento, chegavam ao Parque Antarctica apinhados de gente até pelos estribos. Muito antes, pois, de começar a maratona, já o parque se achava cheio de pessoas, notadamente as arquibancadas, que repletas de famílias, apresentavam festivo aspecto”.

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Público se amontoa para assistir Maratona da Olimpíada de Londres, 1908

De fato, os bondes que se dirigiam ao Parque Antártica naquele domingo trafegavam inteiramente lotados, transportando “enorme massa de povo”, conforme destacou outro jornal paulista. Mais tarde, o excesso de passageiros, dependurados nos estribos, seria apontado como uma das causas de um acidente que deixou ao menos quatro pessoas gravemente feridas, quando passageiros saltaram de um bonde em movimento, depois de verem surgir uma misteriosa e inexplicável fagulha. Nem contratempos desse tipo, contudo, foram capazes de arrefecer o entusiasmo com as corridas e exibições de força que se anunciaram.

Precisamente às duas horas e quarenta e cinco minutos da tarde, teve início a primeira maratona do dia, entre corredores de clubes de São Paulo. Urbino Taccola, do Club Esperia, completou todas as voltas ao redor do campo em 1 hora e 29 minutos, sagrando-se vencedor. A corrida parece ter despertado algum interesse, mas era apenas o início de uma prometida tarde de diversões. Na sequência, Ettore Tibério iniciou suas demonstrações de força, levantando com os braços uma espécie de barra de ferro de 60 quilos, antes de a torcer sobre os ombros. Depois, do alto de um estrado, sustentou o peso de um automóvel com 5 pessoas, e não 6, conforme anunciaram os cartazes do evento. A diferença deve ter decepcionado alguns espectadores, mas sem ainda prejudicar o espetáculo, que prosseguiu normalmente. Tibério iniciou então a luta com o touro, no que deveria ser o ponto alto de sua apresentação. O touro, entretanto, mais uma vez diferente do que prometiam os anúncios, “não era mais que um bezerrão”, “manso como um cordeiro”, como registraram languidamente os jornais do dia seguinte. Após alguns breves e poucos momentos de luta, Tibério não o derrubou propriamente, senão apenas conseguiu fazê-lo ajoelhar. O público, a essa altura já bastante desapontado, manifestou logo a sua impressão por meio da vaia.

Restava ainda a corrida de Dorando Pietri, que enfrentaria um tal Monte Neves, apresentado como “o campeão argentino”. Dez minutos após a partida, Pietri já estava três voltas à frente de seu adversário. Na quinta volta, de um total previsto de 60, Monte Neves abandonou a pista. A decepção foi geral e o público explodiu em fúria, vaiando longamente o “campeão argentino”, que não satisfeito, reagiu, fazendo gestos obscenos para a plateia. Conforme dissera um cronista anônimo do jornal Correio Paulistano, em palavras insubstituíveis, “o público não aceitou tal atitude com a mesma disposição com que se aceita a dádiva de uma boa fruta”. Com todos os ânimos exaltados, Monte Neves foi preso por ofensas à moral, com base no artigo 282 do código penal da época.

Na delegacia, Montes Nunes revelou ao 4º subdelegado de Santa Ifigênia tudo o que estava por trás da maratona do Parque Antártica. Ettore Tibério, que promovia o espetáculo, o contratara para demarcar raias da corrida, fixar bandeiras no campo e executar outros serviços. Por um valor adicional, Tibério lhe sugeriu também competir contra Dorando Pietri, sustentando que era campeão de corridas na Argentina – o que era obviamente mentira. Montes Nunes dissera ainda que foi o próprio Ettore Tibério, em pessoa, quem lhe pregou ao peito a fatídica bandeira argentina com que participou da corrida.

Montes Nunes acabou condenado a 3 meses e 15 dias de prisão – não sabemos ao certo se por ofensas à moral ou qualquer outro motivo. Nada sabemos também sobre o destino de Ettore Tibério. Infelizmente, não sabemos também se Dorando Pietri foi implicado no assunto, embora não pareça ter sido o caso, pois mesmo depois de tudo revelado, a imprensa paulista seguiu destacando suas capacidades atléticas, sem vinculá-lo, em nenhuma medida, a toda trama farsesca da maratona do Parque Antártica. Em novembro de 1910, Pietri já participava de corridas em Roma.

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* Todas as imagens disponíveis em http://mentalfloss.com/article/31449/scenes-1908-london-olympic-marathon.


Nos calabouços da ciência

03/10/2016

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Interessados em descobertas científicas talvez desconheçam os procedimentos que operam nos bastidores das ciências. Geralmente, trata-se de um universo obscuro e cheio de jargões, inteiramente vedado, portanto, apenas aos técnicos mais altamente qualificados. Um dos principais mecanismos na regulação da produção de conhecimentos científicos novos é a “revisão por pares”, pomposamente chamado, em inglês, que é língua oficial da ciência, “peer review”. Basicamente, é um procedimento em que um, dois ou mais especialistas avaliam os resultados de uma pesquisa antes deles se tornarem públicos. A justificativa fundamental é a de que o material que comunica os resultados das pesquisas (geralmente artigos, mas às vezes também livros), devem ter sua confiabilidade e relevância assegurados por especialistas no assunto. Assim, todo conhecimento científico divulgado teria, então, passado por um crivo avaliativo rigoroso que lhe garantiria a excelência.

Para ampliar ainda mais as isenções e garantias do processo, tudo se passa de maneira anônima, de modo que os autores da pesquisa desconhecem a identidade dos avaliadores, bem como os autores desconhecem também a identidade dos avaliadores. A isso chama-se “duplo cego”. Todo acadêmico profissional confronta-se com esse sistema de julgamento, seja para publicar os resultados de suas pesquisas, seja antes para acessar recursos financeiros que garantem a sua realização.

Curiosamente, apesar da onipresença da revisão por pares no cotidiano científico, o assunto tem sido pouco explorado cientificamente. Mecanismos de avaliação de mérito, em que o avaliador é anônimo, são de fato capazes de assegurar a excelência de um trabalho científico? A própria ausência de publicidade que cerca o processo impede análises confiáveis sobre o assunto. Afinal, diante de tanto sigilo, quem pode avaliar o avaliador?

Esforços de estudar mais profundamente a revisão por pares já caracterizaram o processo como “altamente subjetivo”, “propenso a divergências”, “facilmente abusivo”, “limitado na identificação de erros graves” e “quase inútil na detecção de fraudes” (a síntese é de Mario Biagioli, da Universdade de Harvard, em artigo sobre a história da revisão por pares, publicado na revista Emergences). Negligência, incompetência, plágio e conflito de interesses têm sido também documentado entre avaliadores.

Especialistas em fraudes científicas estimam que mais de 50% dos artigos científicos publicados podem conter fraudes ou erros graves, apesar de terem sido previamente submetidos à revisão de especialistas. Estudo sobre artigos biomédicos publicados desde 1975 chegou a identificar que quase 70% deles continham algum tipo de má conduta científica, tais como fraude, suspeita de fraude, publicação duplicada ou plágio. Por outro lado, pesquisas importantes, que depois acabaram obtendo prêmios Nobel, foram rejeitadas durante a revisão por pares. As descobertas de Gerd Binning e Heinrich Rohrer, por exemplo, que permitiram o microscópio capaz de obter imagens de átomos e moléculas ao nível atômico, foi rejeitado pela revista Science, baseado em parecer anônimo que classificava o artigo como não sendo suficientemente interessante. Em entrevista recente a King’s Review Magazine, em fevereiro de 2014, Sidney Brenner, vencedor do Prêmio Nobel de Medicina ou Fisiologia de 2002, botou a boca no trombone e classificou a revisão por pares como “muito distorcida” e “completamente corrupta”.

São sempre muito tênues as fronteiras entre crítica e censura no processo de revisão por pares, especialmente porque critérios de julgamento científico quase nunca serão unívocos ou consensuais. É perfeitamente possível que dois diferentes especialistas tenham apreciações inteiramente divergentes a respeito de um mesmo artigo. O artigo original, inovador e relevante para uns, pode ser medíocre, redundante e sem fundamento para outros. E divergências agudas desse tipo acontecem com frequência. Diante dos inúmeros impasses possíveis, tende a predominar a percepção de quem está em posição de vantagem e com o poder de julgar: o anônimo revisor.

Nesse contexto, mais que apenas avaliar o mérito científico de resultados de pesquisa, a revisão por pares por vezes pode se confundir com mero exercício de poder, em que especialistas encarregados de revisarem artigos, escondidos em seus anonimatos, impõem seus próprios juízos, decidindo o que deve ou não ser vinculado publicamente. O resto é história, ou deveria sê-lo, não fossem as inúmeras formas de divulgação disponíveis atualmente.

Agora mesmo, depois de ter um artigo sobre história do esporte rejeitado pela Revista Brasileira de Ciências do Esporte, julguei por bem disponibilizá-lo aqui (porque-ainda-nao-sou-elisiano-blog). Além do artigo, como anexos, disponibilizo ainda o parecer dos revisores anônimos (anexos 1 e 2) e uma carta que enviei aos editores contestando o conteúdo da avaliação (anexo 3). Suponho que o artigo em si, bem como a exposição de todo o processo de avaliação que lhe acompanha, possa ser de algum interesse aos historiadores do esporte ou entusiastas no assunto. Para poupar o tempo e a paciência do leitor, vou privá-lo de quaisquer outros comentários sobre detalhes técnicos do artigo ou da discussão que lhe seguiu. O material em anexo já deve ser suficiente.


A moda da corrida de rua

09/05/2016

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Milhares de pessoas começaram a correr pelas ruas, estradas, praias e parques ao longo da década de 1970. Como quase sempre, havia antecedentes, claro, pois antes disso, homens corriam já médias ou longas distâncias como forma de exercício físico. Todavia, depois de 1970, o alcance e as características desse costume assumiram feições bastante originais.

Em escala global, uma vez que afetou simultaneamente vários países, grupos antes excluídos da órbita das prescrições médicas em favor da atividade física foram plenamente integrados como parte de seu público-alvo. Era o caso das mulheres e dos homens com mais de 40 anos. A recomendação médica de práticas regulares de atividades físicas já não estava confinada apenas aos homens jovens e saudáveis. Até portadores de doenças cardíacas passaram a ser incentivados a realiza-los. Assim, ampliou-se muitíssimo o universo potencial de adeptos da corrida de rua e de outras formas de exercícios. O resultado logo se fez notar.

“As calçadas de Copacabana, Ipanema, Leblon e Lagoa [bairros do Rio de Janeiro] estão repletas de cultores da nova mania”, dizia reportagem do Jornal do Brasil, em 1979. “Os primeiros chegam às 5 da manhã e os últimos só saem tarde da noite. Os homens com mais de 40 anos são a esmagadora maioria, vindo logo depois alguns jovens e uma pouco eficiente – mas muito colorida – minoria feminina […] Homens e mulheres andam e correm motivados pelos mais diversos desejos e ansiedades, que podem ser resumidas num objetivo: melhorar o corpo e a cuca. Lá pelas 7 da manhã há quase congestionamento nas calçadas”.

Veja

Capa da Revista Veja noticiando o significativo e abrupto aumento do número de praticantes de corrida. Fonte: Veja, 26 jul. 1972, n. 203.

Além da prática esportiva propriamente dita, essas transformações também afetaram um amplo mercado de produtos e serviços, que ia desde equipamentos sonoros para uso durante a corrida, até marcador de batidas do coração, passando por pedômetros, cronômetros, cintos com luzes para corrida noturna, bastão para afugentar cachorros, anel para marcar o número de voltas, bebidas especiais para hidratação corporal, chicletes contra a sede, vitaminas, revistas, livros, filmes, calçados, calções e camisetas para o frio ou para o calor. Afora os muito propalados benefícios para a saúde, a corrida também ia produzindo muito dinheiro.

Imagem 1 - JB, 25 mai. 1979, n. 47, p. 4, Caderno B

Propagandas de produtos, geralmente norte-americanos, ofertados no e para o contexto da ampliação do número de adeptos da corrida de rua. Fonte: Jornal do Brasil, 25 mai. 1979, n. 47, p. 4, Caderno B.

Em 1978, os organizadores da Semana de Moda de Nova York dedicaram o Coty Award, importante prêmio da alta costura, a Charles Suppon, estilista que confeccionara toda uma coleção inspirada nos esportes. A estilista Monika Tilley, já desde antes reputada por desenhar roupas para esportes, também ganhou destaque naquele desfile. Sua coleção apresentava roupas colantes e com cores vibrantes, declaradamente inspiradas nos esportes. Segundo ela, “se as pessoas gostam de si mesmas, gostam de moda. E se gosta de si, gostam de cuidar do corpo, de fazer esportes”.

Imagem 2.2

Estilistas inspiravam-se nos esportes para suas coleções, quando não confeccionavam especificamente para sua prática. Fonte: Jornal do Brasil, 27 jun. 1978, n. 80, p. 4, Caderno B.

Nas coleções de verão ou de inverno, em Paris ou em Nova York, a moda do fim dos anos 1970 foi fortemente marcada pelos esportes. O uso da malha ou de outros tecidos tecnologicamente mais sofisticados, como o jeans elástico ou os couros falsos, era frequentemente associado a influências ou inspirações vindas dos campos de esporte. Até cortes de cabelo foram associados ao “jogging”, como era chamado a corrida de rua na época. Simplicidade, praticidade e funcionalidade seriam algumas das principais características destes estilos, não por acaso, resumidas pelos especialistas da época como “jovem, comercial e usável”.

Imagem 2 - JB, 2 out. 1979, n. 177, p. 5, Caderno B

Fonte: Jornal do Brasil, 2 out. 1979, n. 177, p. 5, Caderno B.

Na esteira do novo entusiasmo com a prática de esportes, as novas tendências da moda também se fizeram notar no Brasil. Mais que isso, em meio a uma crise financeira que afetava o setor, itens de vestuário inspirados ou destinados à prática de esportes lideravam as vendas e garantiam o lucro de fabricantes, logo convertendo-se, segundo palavras de uma colunista de moda do Jornal do Brasil, na “grande fonte de tostões para os costureiros”. Destacavam-se nesse cenário os chamados “conjuntos training”, com blusões e calças de malha para a corrida ou outros esportes.

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Fontes: (esquerda) Jornal do Brasil, 27 jun. 1978, n. 80, p. 5, Caderno B; (direita) Jornal do Brasil, 11 ago. 1979, n. 125, p. 8, Caderno B.

Geraldo Assunção, por exemplo, era um dos estilistas que tentava explorar comercialmente a tendência, confeccionando macacões, camisetas, shorts, blusões, blazers e calças de malha inspiradas na imagem saudável e jovem dos praticantes de corrida, tênis ou iatismo. Perspicaz, Geraldo Assunção notara, à sua maneira, que os esportes eram mais que simples práticas; eram também poderosos e massificados símbolos cultuais, socialmente disponíveis a muitos fins, incluindo a articulação de identidades coletivas ou apresentação individual de si mesmo, o que os tornavam particularmente úteis para a indústria da moda, que soube então aproveitá-los com muita sagacidade. Conforme ele mesmo explicava, “não é moda para quem quer emagrecer, ou evitar o enfarte. É estilo criado por quem tem dezoito anos, e quer sair de tênis colorido, em dois números acima do seu pé e calça apertada na barra. Nem todos querem se cansar andando de bicicleta em volta do quarteirão, mas todo mundo gosta de aparentar dezoito anos”.

O traje “esporte-fino” talvez seja um dos vestígios mais persistentes, reveladores e corriqueiros das peculiares relações históricas entre o universo da moda e o dos esportes. Pois sintomaticamente, tudo a que este modo de vestir-se não se presta é a prática de esportes.


Esportes nos confins da civilização

14/12/2015

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Mato Grosso, que até 1978 abrangia também o atual Mato Grosso do Sul, é uma região que ocupa um lugar peculiar no imaginário brasileiro. Situado no extremo oeste do território nacional, nas fronteiras com a Bolívia e Paraguai, Mato Grosso foi e é ainda representado como um lugar distante, isolado e atrasado. De acordo com esta representação, quaisquer elementos de progresso material ou simbólico estariam ausentes da região. Mato Grosso, portanto, seria o lugar da falta de sofisticação dos comportamentos urbanos, marcado, ao invés disso, por uma ruralidade arcaica e temporalmente imóvel, onde transformações não chegam ou demoram muitíssimo a chegar.

Esses enquadramentos explicam parcialmente a ausência de pesquisas históricas sobre os esportes no Mato Grosso. Usualmente, o estudo histórico dos esportes esteve associado a um cenário social de progresso, urbanização e modernidade, de tal maneira que a vinculação desta prática a uma região como o Mato Grosso pareceria até uma contradição em termos. Todavia, uma arqueologia nos arquivos da região bem podem frustrar essas expectativas.

Até o final da década de 1910, futebol, tiro, turfe, remo e patinação estiveram entre as modalidades conhecidas em Mato Grosso. Depois disso, acrescentar-se-ia a esta lista, boxe, ciclismo, atletismo, tênis, basquete e vôlei. Em princípios do século, apenas as duas maiores cidades da região na época conheceram esportes de maneira regular: Cuiabá e Corumbá. Logo depois, porém, Campo Grande, Três Lagoas, Cáceres, Coimbra, Porto Murtinho, Ponta Porã, Lageado, Miranda, Aquidauana e Maracaju também conheceriam.

Mapas

Na esquerda: localização do antigo Mato Groso (em 1978, dividido em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul). Na direita, cidades que registraram o início da prática de esportes na região até 1920.

O espaço dedicado aos esportes nos jornais locais também cresceu. Ainda em 1914, o jornal O Debate, de Cuiabá, criou uma sessão especial dedicada aos esportes: Gazeta Esportiva. Em 1920 havia já notícias sobre a criação, em Cuiabá, de um jornal intitulado O Athleta, “órgão esportivo, literário e crítico, visando contribuir ao progresso intelectual e moral da mocidade”. Em 1931, também em Cuiabá, foi criado ainda o jornal O Sport, “órgão de propaganda esportiva”.

Grupos socialmente mais heterogêneos pouco a pouco se envolveram com o assunto. Além dos homens de elite, que estiveram entre os esportistas pioneiros, mulheres e grupos populares também começaram a praticar ou assistir competições esportivas diversas.

Sportwoman MT

Sportwomen do Sport Club Feminino, ligado ao Riachuelo Futebol Clube, de Corumbá, em 1923. Fonte: BAEZ, Renato. Corumbá, futebol e copa: história de todas as copas do mundo. Corumbá. s.l, s.n, 1966, s/p.

Nessa época ainda, iniciativas governamentais começaram a levar em consideração reinvindicações de apoio apresentadas por dirigentes de instituições esportistas. Em meados da década de 1910, políticos já prometiam apoio a iniciativas esportivas, o que demonstrava a importância social e simbólica que a prática ia conquistando. Todavia, boa parte dessas promessas não ultrapassaram o plano das intenções, não se efetivando jamais. A partir da década seguinte, porém, medidas governamentais mais concretas com relação aos esportes começaram a ter lugar. Melhoramentos urbanos edificados para a celebração do bicentenário de Cuiabá, por exemplo, previam já espaços para competições de futebol, turfe e tênis. Em conjunto, tudo isso revela nova dinâmica histórica que afetava o esporte no Mato Grosso a partir dos anos 1920.

Estádio MT

Arquibancada construída para campeonato estadual de 1936, em Corumbá.  Fonte: BAEZ, Renato. Corumbá, futebol e copa: história de todas as copas do mundo. Corumbá. s.l, s.n, 1966, s/p.

Desde princípios dos anos 1920, jornais mato-grossenses começariam a dar notícias da predileção por esportes que ia se incrementando na região, destacando-se “grande concorrência de pessoas”, às vezes “multidões em verdadeiro delírio”, o que equivalia, naquele contexto, a 500, 1.500 ou talvez 2.000 pessoas.


Esportista, militar e cidadão

31/07/2015

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

O associativismo civil tem sido apontado como elemento histórico importante para a difusão de esportes, onde a fundação de clubes, ligas ou federações aparece como dinâmica privilegiada desse processo. No entanto, ao lado deste aspecto, seguramente relevante, outros agentes desempenharam papel igualmente decisivo. As organizações militares estão entre elas.

Em princípios do século 20, depois de sucessivos resultados militares embaraçosos, a elite do Exército brasileiro preocupava-se sobremaneira e não sem razões com as fragilidades na defesa do país. Ao lado da falta de equipamentos, a preparação dos soldados era vista como motivo importante para tal situação. A Primeira Guerra Mundial e um estado de beligerância aparentemente generalizado só reforçava essas apreensões. Como alternativa, sugeria-se adoção do alistamento militar obrigatório e a revisão dos mecanismos para formação de oficiais e treinamento de soldados. Reformas curriculares foram uma das medidas nesse sentido, especialmente diante da tradição bacharelesca e positivista que predominava nos cursos de formação militar.

Competição de vôlei no pátio do 3 Batalhão de Caçadores Mineiros, em Diamantina, 1935. Autoria: Photo Werneck. Fonte: Arquivo Público Mineiro.

Competição de vôlei no pátio do 3º Batalhão de Caçadores Mineiros, em Diamantina, Minas Gerais, 1935. Autoria: Photo Werneck. Fonte: Arquivo Público Mineiro.

Vários militares formados neste novo contexto institucional, engajados já com a organização de treinamentos que enfatizavam habilidades propriamente militares, oferecidos para o crescente número de recrutas que ingressavam agora compulsoriamente no Exército, acabaram desempenhando também grande protagonismo na difusão de esportes em várias regiões do Brasil. Primeiro, o esporte era cada vez mais assimilado como recurso para a preparação de soldados. Segundo, devido a característica mobilidade territorial da carreira militar, que frequentemente exigia transferências por diferentes rincões do país, a atuação destes grupos como veículos de intermediação para a difusão de esportes tornou-se mesmo privilegiada. A trajetória de personagens como Roberto Drummond ilustra bem a maneira como se dava essa dinâmica.

Nascido em Pernambuco em 1902, Drummond alistou-se voluntariamente no Exército em 1917. No ano seguinte, iniciou seus estudos na Escola da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. Em 1921 foi designado para o Regimento de Artilharia Montada, em Itú, interior de São Paulo, logo destacando-se pelo “desvelo e competência na instrução dos conscritos do Regimento”, contribuindo eficazmente “para o sensível progresso da instrução do grupo”, conforme registrou seu capitão, em anotação da caderneta depositada no Arquivo Histórico do Exército.

Desenho de Roberto Drummond. Fonte: Desenho de “Gerson”. O Pais, Rio de Janeiro, 11 nov. 1928, n. 16093, p. 4.

Gravura de Roberto Drummond. Fonte: Desenho de “Gerson”. O Pais, Rio de Janeiro, 11 nov. 1928, n. 16093, p. 4.

Em Itú, encarregou-se ainda de dirigir os trabalhos no campo de instrução, especialmente a conservação de uma pista de obstáculos e a construção de um campo de tênis e outro de futebol, ao mesmo tempo em que cuidava dos exercícios de tiro do regimento. Foi também nomeado membro da comissão esportiva do regimento, organizando ou participando de campeonatos de atletismo, esgrima, equitação e futebol, em locais tão diversos como Itú, Lorena, Pirassununga, Rio de Janeiro ou São Paulo. Muitos desses eventos esportivos extrapolavam os muros dos quartéis, envolvendo também associações civis e amplificando assim os efeitos dessa atuação. Entre outras coisas, isto justificava os louvores públicos que seriam repetidas vezes endereçadas ao tenente Drummond por seus superiores pela “atividade entusiástica patente e capacidade incontestável da direção de torneios” ou “pela sua ardorosa e profícua atuação como encarregado dos desportos”.

Drummond Hipodromo

Competição hípica no Rio de Janeiro, vencida pelo Tenente Roberto Drummond, representando o Hyppophilo Club, de Itu. Fonte: Revista da Semana, Rio de Janeiro, 24 nov. 1923, n. 48, p. 18.

Ao ser transferido em 1925 para o Regimento de Artilharia Mista, no Mato Grosso do Sul, Drummond continuou ativamente envolvido com os esportes em diferentes partes, organizando festas esportivas em Campo Grande, participando de jogos de futebol contra equipes civis em Três Lagoas, coordenando equipes esportivas em competições em Aquidauana, tudo isso sem nunca descuidar da instrução militar de conscritos e mesmo de oficiais.

Em 1927, Drummond ingressou na Escola de Aviação Militar, no Rio de Janeiro, onde foi nomeado para organizar um campo de instrução física, além de ter assumido a responsabilidade pelos esportes do Grupo de Aviação, que incluiu uma vitoriosa equipe de futebol. Orgulhosamente, o comandante da Escola registrou que o trabalho do tenente Drummond nos campos de esporte só fazia concorrer para o aumento do prestígio e respeitabilidade das instituições militares.

Tragicamente, porém, a ascendente trajetória militar e esportiva do tenente Roberto Drummond foi interrompida por um acidente. Em 01 de novembro de 1928, por volta das 10 horas da manhã, o avião Morane Saulnier 137, que Drummond pilotava, caiu nas águas da baía de Guanabara durante uma manobra não autorizada, matando-o e deixando seu copiloto gravemente ferido.

A esta altura, o intenso envolvimento do tenente Drummond com os esportes estava longe de ser excepcional. Como ele, inúmeros praças e oficiais participavam, organizavam ou estimulavam diversas modalidades esportivas, dentro e fora dos quartéis. Sintomaticamente, os primeiros a chegarem no local do acidente aéreo que vitimou o tenente Drummond foram os “atletas” do 3º Regimento de Infantaria, cujos “braços vigorosos” e “grande energia”, destacou a imprensa, permitiu-lhes remar com extrema velocidade a baleeira General Menna Barreto, a tempo de socorrer com vida o outro militar que tripulava a aeronave.

“Atletas” do 3 Regimento de Infantaria que remaram a baleeira usada na operação de resgaste do avião Morane Saulnier 137. Fonte: O Malho, Rio de Janeiro, 10 nov. 1928, n. 1365, p. 36.

Os “vigorosos atletas” do 3º Regimento de Infantaria que remaram a baleeira usada na operação de resgaste do avião Morane Saulnier 137. Fonte: O Malho, Rio de Janeiro, 10 nov. 1928, n. 1365, p. 36.


Boxe no Mato Grosso

23/03/2015

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Em 2012, reportagem da TV Morena, filiada da Rede Globo no Mato Grosso do Sul, destacou os bons resultados obtidos pela equipe de boxe de Ponta Porã. Na época, a equipe havia obtido 5 medalhas de ouro, 6 de prata e de 1 bronze no circuito sul-mato-grossense de boxe. Além disso, faturou ainda o prêmio de melhor técnico e de atleta revelação. Júlio “Field”, um dos destaques da equipe, com mais de 60 lutas no cartel, já havia se sagrado vice-campeão brasileiro e campeão do centro-oeste.

 http://globotv.globo.com/tv-morena/globo-esporte-ms/v/boxe-conheca-a-equipe-de-ponta-pora/2101995/

São antigos o entusiasmo e o envolvimento dos mato-grossenses pela arte do pugilato. Desde meados da década de 1920, há registros da crescente popularidade da modalidade em toda a região. Nessa época, o Circo Quevaz promovia lutas de boxe em Corumbá, despertando grande entusiasmo entre o povo, segundo diziam os jornais. O boxe já era mesmo comparado ao futebol em popularidade.

Em Campo Grande, com efeitos similares, o Trianon-Cine exibia com interesse e destaque o filme “Pulso de ferro”, que apresentava luta entre o galã Richard Dix e o ex-campeão mundial Jack Renault. De acordo com propagandas que lhes anunciavam, tratar-se-ia de “um filme agradável, romântico e de emoções intensas”, “uma formidável luta de boxe” ou mesmo “a maior luta de boxe até hoje filmada”.

Richard Dix

O galã Richard Dix no cartaz promocional do filme “Punhos de Ferro”. Fonte: http://www.richarddix.org/knockout.htm

Nesse contexto, Ponta-Porã se destacava já como importante centro de desenvolvimento do esporte na região. Localizada no extremo sudoeste do atual Mato Grosso do Sul, o boxe na cidade beneficiou-se da sua proximidade com o Paraguai, onde havia já uma tradição de pugilato. Sintomaticamente, revanches de lutas realizadas anteriormente em Assunção ou Conceição do Paraguai começariam a se organizar nessa época em Ponta Porã.

Em princípios de 1927, lutas no Cinema e Circo Palma atraiam grande assistência, logo tomada e apresentada pela imprensa local como “prova do interesse que vai o público tomando pelo delicado desporto”. Apesar da fina ironia em classificar o boxe como desporto “delicado”, os jornais não deixariam nunca de ceder espaço a promoção desses eventos, tentando se aproveitar comercialmente da ocasião. Além de alimentar expectativas ao redor das lutas, os jornais serviam também como intermediários para o lançamento de desafios ou eventuais trocas de ofensas entre lutadores ou seus treinadores e empresários. A luta entre os paraguaios Isidro Flores e Ignacio Flores, por exemplo, iniciou-se com a publicação de cartas de provocação nas páginas do jornal O Progresso. Numa delas, em español, o empresário de Ignacio Flores dizia: “en contestacion al desafio hecho por el aficionado señor Isidro Flores, y en representación de mi pupilo, [ello] acepta las proposiciones de dicho match”.

Ignacio Flores, o campeão peso leve paraguaio, em destaque na imprensa de Ponta Porã. Fonte: O Progresso, Ponta Porã. 18 set. 1927, n.291, p.3

Ignacio Flores, o campeão peso leve paraguaio, em destaque na imprensa de Ponta Porã. Fonte: O Progresso, Ponta Porã. 18 set. 1927, n.291, p.3

O mercado de organização de lutas de boxe na cidade parece ter se intensificado nessa época. Figuras como Mathias Canela, antes protagonista de lutas de boxe, passariam a atuar como empresários, agenciando a participação de lutadores estrangeiros, especialmente paraguaios, em turnês de boxe em Ponta Porã e outras cidades do Mato Grosso ou mesmo de outros Estados. Aqui também a imprensa era peça-chave do processo, apresentando lutadores, destacando suas qualidades, glorificando seus feitos e legitimando suas credibilidades esportivas enfim.