História do ciclismo de estrada

04/02/2019

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Para Kaká, a melhor treinadora de corrida.

“Toda história é história contemporânea”. A frase famosa é do filósofo e historiador italiano Benedetto Croce. Com ela, Croce queria dizer que toda reflexão sobre o passado encontra motivação em preocupações do presente.[1] Vários outros teóricos da história, bem como prestigiados praticantes do ofício, repetiram-na com outras palavras.

De fato, o surgimento de especialidades como a história das mulheres, a recente história da mobilidade urbana ou mesmo a história dos esportes são exemplos que confirmam tais assertivas. Apenas depois de assuntos como esses terem entrado na ordem do dia é que um crescente número de historiadores se voltou a eles, formando então uma comunidade de especialistas dedicada a tentar dar respostas a inquietações de seu próprio tempo. De que forma mulheres tomavam parte em acontecimentos históricos – até então sempre narrados de um ponto de vista tão masculino? Quais foram os principais modos de se deslocar adotados ao longo do tempo? Como e porque os esportes ganharam a atual popularidade?

Ao lado das grandes agendas do debate público, questões mais pessoais também podem influenciar nas decisões de historiadores dedicarem-se a este ou aquele assunto. Experiências de preconceito e sentimentos de vergonha diante de sua própria homossexualidade parecem ter sido importantes nas decisões do historiador e filósofo francês Michel Foucault em dedicar parte de suas obras à história da sexualidade, conforme já apontaram alguns de seus biógrafos.[2]

Não é tão comum ver historiadores expondo as razões pelas quais abraçam os assuntos aos quais se dedicam. É raro um relato como o do historiador Li Liu, professor do Colégio de Esportes e Educação Física da Universidade Normal Anhui, na China, narrando os caminhos que o levaram a se especializar no estudo do esporte.[3] Além das formalidades do método, que às vezes desaconselham confissões desse tipo, as razões para o despertar de certos interesses podem inclusive escapar aos próprios historiadores. Nem todas os interesses intelectuais, afinal, são tão oniscientes. Às vezes só Freud explica.

Com muita ou pouca consciência, porque, então, um historiador ou uma historiadora decide se dedicar aos esportes? Paixão? Experiências prévias? Interesse intelectual por outros assuntos sociológicos que acabam levando aos esportes, como o uso político de fenômenos de massas ou a mobilização popular ao redor de certas práticas? Tudo isso ao mesmo tempo?

Cada qual poderia oferecer suas versões. Da minha parte, tenho apenas pequeno relato pessoal que explicam meus próprios interesses recentes – que aparecem neste blog, inclusive. O engajamento com corridas de rua colocara-me um novo horizonte de questões: quando, como e porque tantas pessoas começaram a ter prazer em correr pelas ruas?

Minha pesquisa sobre a história da corrida de rua está em curso ainda. Um artigo na Revista Brasileira de História do Esporte e outro na Revista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (em coautoria com Tauan Nunes) adiantam alguns de seus primeiros achados.[4] Na prática, porém, depois de sucessivas lesões, decidi encerrar precocemente o que acreditava ser uma promissora carreira amadora de corredor de longas distâncias, embora talvez fosse mais honesto dizer corredor de pequenas distâncias. É o adeus do queniano branco da Pampulha. O que fazer? Aposentar definitivamente as chuteiras?

Mudar de esporte e começar de novo pode ser uma alternativa. Depois de comprar em segredo uma bicicleta, dispensando as negociações domésticas por vezes difíceis sobre onde guardar um brinquedo com tais dimensões, acredito agora estar começando uma nova e promissora carreira amadora de ciclista de estrada. Junto com um novo cotidiano de “sprints” e “kings-of-the-mountains”, já dentro do jargão da subcultura, novas perguntas e novos interesses de pesquisa.

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O ciclismo surgiu e se desenvolveu em países da Europa Ocidental em meados do século 19. Obviamente, esta é uma modalidade que depende bastante de inovações tecnológicas. Diferente do que afirmam versões mais populares, porém, que enfatizam saltos tecnológicos abruptos, supostamente realizados por um único homem, em um único país, essas inovações, na verdade, foram paulatinas e cumulativas, realizadas simultaneamente em diferentes lugares, envolvendo diferentes pessoas ao longo de décadas, em processos permeadas por plágios, espionagem industrial e disputas por patentes.[5] Por volta de 1880, o modelo de bicicleta que conhecemos hoje já estava disponível e iria se popularizar rapidamente: com rodas de igual tamanho, pneus infláveis e acionada por correntes. Comparado aos modelos anteriores, era mais leve, mais segura e mais fácil de guiar. Logo sua fabricação se tornaria também menos custosa, diminuindo, então, os preços para os consumidores.

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Bicicletas para mulheres em Londres, 1819. Fonte: Tony Hadland e Hans-Erhard Lessing. Bicycle Design: an Illustrated History. Cambridge / London: MIT Press, 2014, p. 24.

Em 1893, uma bicicleta custava, em média, 1.655 horas de trabalho na França. Em 1911, esse custo seria apenas de 357 horas.[6] Em parte como resultado da redução dos preços, o número de bicicletas cresceu initerruptamente a partir de 1890. No fim do século 19, havia 300 mil bicicletas na França. Em 1938, seriam mais de 9 milhões. Não por acaso, o ciclismo desenvolveria forte relação com a França, talvez mais do que em qualquer outro país. A popularização das bicicletas parece ter sido um aspecto crucial desse processo. Segundo opinião do historiador Richard Holt, “o interesse no ciclismo como espetáculo esportivo correspondeu amplamente ao crescimento do número de bicicletas em circulação”.[7]

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Propaganda da bicicleta de John Starley, conhecida também como “Roover segura”, consagrando o modelo que usamos até hoje. Fonte: Tony Hadland e Hans-Erhard Lessing. Bicycle Design: an Illustrated History. Cambridge / London: MIT Press, 2014, p. 54

Afora a redução do preço das bicicletas, outros fatores mais gerais também desempenharam um papel importantíssimo nesse processo, especialmente a elevação gradual de salários, a diminuição do tempo dedicado ao trabalho e a popularização de certos produtos e serviços vistos até então como luxos (como viagens, compra de jornais ou a própria posse de bicicletas). Entre 1890 e 1950, o PIB per capita de vários países da Europa Ocidental quase dobrou. Ao mesmo tempo, a duração média das jornadas de trabalho diminui em mais de 50%.[8]

Novos títulos de jornais concebidos deliberadamente para terem preço reduzido e notícias compatíveis com os interesses populares também alcançaram grandes tiragens.[9] Essa imprensa popular e comercial, dependente da venda de grandes quantidades de exemplares aos leitores, mas também de publicidade de anunciantes, desempenhou um papel bastante importante na difusão do ciclismo de estrada.

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Até 1880, a maioria das corridas de bicicleta era organizada em velódromos. Na década de 1890, porém, jornais começaram a organizar corridas em estradas na Bélgica, na Itália e na França. A corrida de ida e volta entre Paris e Brest, Paris-Brest-Paris, criada em 1891 pelo editor de jornais Pierre Giffard, é um exemplo frequentemente lembrado nesse sentido. Pierre Giffard, além de ter sido o editor de um dos mais importantes periódicos esportivos da França no fim do século 19, Le Vélo (lançado em 1892), criaria ainda várias outras competições esportivas, não apenas de ciclismo, mas de corridas a pé e de automóvel.

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Jornal francês “Le Vélo“. Fonte: E-bay [link]

Fabricantes de bicicletas e de pneus logo se associaram a competições desse tipo através do patrocínio a ciclistas. Já em 1891, os irmãos André e Édouard Michelin, que dois anos antes tinham inaugurado uma fábrica de pneus, patrocinaram o ciclista Charles Terront na primeira corrida Paris-Brest-Paris. Usando o protótipo de uma nova tecnologia de pneus destacáveis com câmera de ar, desenvolvida e depois patenteada pelos próprios irmãos Michelin, Charles Terront venceu aquela corrida. Para Charles Terront foi mais uma vitória em uma extensa lista de conquistas no ciclismo de estrada que ele ia acumulando desde os anos 1880. Para os irmãos Michelin foi o prenúncio de uma invenção que lhes ajudaria decisivamente a fazer fortuna. Podemos imaginar a satisfação dos irmãos Michelin com a vitória de Charles Terront.

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Cartaz de propaganda dos pneus Michelin, já com o famoso mascote “Bibendum” ou o “Homem Michelin” ou ainda o “Homem de Pneus Michelin” (c. 1913). Fonte: Pinterest [link]

O motivo pelo qual jornais começaram a organizar corridas de bicicleta em estradas e não competições de outros esportes radica-se grandemente na astúcia comercial dos proprietários de jornais. Corridas de bicicleta em velódromos podem se tornar enfadonhas para os espectadores depois do entusiasmo inicial com a novidade. A tendência geral de se proibir apostas em esportes a partir do final do século 19 apenas tornou ainda menos interessante essas competições para o grande público.

Em corridas de bicicleta em estradas, no entanto, a imprevisibilidade do resultado e da própria evolução da competição é maior, o que ajuda a manter o interesse dos espectadores por mais tempo. Igualmente importante, competições em meio a vários desafios físicos e meteorológicos, como eram as corridas em estradas, tendiam a gerar notícias sensacionais, capazes de manter a atenção do público e ajudar a vender jornais por vários dias. Proprietários de jornais sabiam perfeitamente disso.

Não por acaso, jornais noticiavam os acontecimentos dessas corridas como aventuras épicas, onde homens heroicos lutavam bravamente contra seus adversários, contra o cansaço, contra as dificuldades do percurso e ainda contra o frio, a fome e a sede. Acidentes, acasos, rivalidades, brigas, trapaças, superações e pequenos gestos de grandeza apenas acentuavam os dramas humanos ao redor dessas competições, tornando-as ainda mais atraentes.

Além disso, o que era especialmente importante para os jornais, nas competições em estradas os espectadores viam os ciclistas passarem em velocidade por pouco tempo. A única maneira de ter informações sobre o desfecho dessas corridas em fins do século 19 era comprando jornais, que graças a crescente alfabetização, a redução de preços, ao aumento geral do tempo livre dos trabalhadores e ao crescimento dos salários, ia se tornando, justamente nessa época, um meio de comunicação bastante acessível.

Outro aspecto importante: nas competições de ciclismo de estrada, não era bem o público que ia ao espetáculo, se não o espetáculo que ia até o público, por mais distantes que este estivesse. Na verdade, com as competições em estradas, não haveria virtualmente público distante o suficiente. Cedo ou tarde, o trajeto das competições levaria uma ou mais caravanas de ciclistas até os mais recôndidos lugares. Para populações em pequenos e isolados vilarejos rurais no final do século 19, essas competições às vezes representavam a única oportunidade de assistir espetáculos desse tipo. Em várias ocasiões, milhares de pessoas acorreram às beiras das estradas para assistirem a passagem dos ciclistas por suas cidades.

Escrevendo de Bourdeaux, onde acontecera uma das etapas da primeira edição do Tour de France, em 1903, Geo Lefèvre, o jornalista que de fato idealizou aquele evento, tentou descrever em carta para Henri Desgrange, proprietário do jornal que organizou a competição (L’Auto, criado em 1901 com o nome de L’Auto-Vélo e que em 1944 passaria a se chamar L’Equipe), o impacto que o evento tivera na cidade: “eu vi mais de 10 mil camponeses olhando suas cópias de L’Auto nos campos hoje”.[10] Podemos imaginar a satisfação de Henri Desgrange com as notícias que lhe chegavam sobre o evento promovido por seu jornal.

Corridas de bicicletas por estradas também permitiam que os espectadores observassem os ciclistas mais de perto, apesar de por pouco tempo, o que podia favorecer empatia e identificação. Essa proximidade era especialmente verdadeira nas pequenas competições paralelas que costumavam ser organizadas nas cidades por onde passavam os ciclistas envolvidos na travessia dos grandes percursos de estrada. Na medida em que o investimento de jornais e de fábricas de bicicletas elevavam os prêmios em dinheiro dessas corridas, um número cada vez maior de indivíduos das classes populares se interessava pelo esporte, vendo aí uma oportunidade de ganhos e de ascensão social. O interesse das classes populares, por sua vez, ampliava o público e o mercado consumidor potencial das corridas, das bicicletas e dos jornais.

Embora tenham sido poucas as pessoas que se aventuraram com o ciclismo competitivo, pois a maioria das bicicletas que começavam a ser vendidas em larga escala nessa época era usada para passeios ou para fins mais utilitários no cotidiano, os feitos atléticos dos ciclistas profissionais eram parte fundamental da nova dinâmica que se instalava ao redor dessas práticas. Além do ciclismo profissional servir como uma espécie de referência difusa, a repercussão das competições ampliava muito a visibilidade do esporte e dos produtos a ele relacionados. Essas competições serviam de palco privilegiado para a exibição das qualidades de produtos que fabricantes tentavam divulgar, a fim de convecer possíveis consumidores a comprarem-nos de uma vez por todas. Nesse contexto, esportes como o ciclismo de estrada desempenharam papel muito importante na criação de uma nova cultura do consumo.[11]

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Cartaz publicitário de bicicletas Peugeot, recentemente exibidas numa famosa casa de leilões de Paris. (sem data). Fonte: L’Est Républicain [link]

Tudo isso vai explicando porque o ciclismo de estrada foi uma das primeiras modalidades esportivas a se profissionalizar e a se organizar em termos explicitamente comerciais. O sucesso da associação dos interesses dos ciclistas, dos proprietários de jornais, dos fabricantes de bicicletas ou de pneus e do público cioso em assistir e ter informações sobre essas corridas, fortaleceu os laços entre todos esses agentes e manteve o impulso em favor da popularidade da modalidade.

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Entre o final do século 19 e o início do século 20, várias cidades brasileiras também experimentaram certo entusiasmo com corridas de bicicleta. Pesquisas de André Schetino no Rio de Janeiro, Wilson Gambeta em São Paulo, Marilita Rodrigues em Belo Horizonte e Eliza Soares em Manaus, narram algumas dessas histórias em detalhes.[12]

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Cartão postal do Velódromo Paulista, 1896. Fonte: Toninho Sereno. Velódromo Paulistano: o primeiro estádio de futebol da cidade de São Paulo. In: Blog História do Futebol – a enciclopédia do futebol na internet. 3 jan. 2015. [link]

Diferente do que aconteceu na Europa, contudo, no Brasil, as corridas de bicicleta em estradas não alcançaram o mesmo prestígio que as corridas em velódromos. Corridas de bicicletas na rua, não exatamente em estradas, com distâncias menores, portanto, chegaram a ser realizadas, especialmente no Rio de Janeiro. Aparentemente, porém, o sucesso dessas iniciativas foi menor do que aquelas realizadas em velódromos, que por alguns poucos anos foram capazes de mobilizar relativo interesse. Porque organizadores de corridas de bicicleta no Brasil não tentaram realizar competições mais longas em estradas, como aconteceu na Europa? Porque na primeira década do século 20 arrefeceu quase subitamente o relativo entusiasmo que havia diante de corridas de bicicleta em algumas cidades do Brasil? Finalmente, por que o interesse pela prática do ciclismo parece ter aumentado nos últimos anos?

Voltaremos ao assunto.

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[1] Originalmente: “A necessidade prática, que está no fundo de todo juízo histórico, dá a toda história o caráter de ‘história contemporânea’” (Benedetto Croce. A história: pensamento e ação. Rio de Janeiro: Zahar, 1962, p. 14).

[2] David Macey. Las vidas de Michel Foucaut. Madrid: Catédra, 1995.

[3] Li Liu. When a Choice Becomes a Chance: My Encounters with Sports History. The International Journal of the History of Sport, v. 34, Issue 5-6, p. 378-382, 2017.

[4] Cleber Dias. Corrida de rua no país do futebol. Recorde, v. 10, n. 1, 2017 (link); Cleber Dias e Tauan Nunes. Conhecendo o Rio de Janeiro a pé: “excursionismo”, “pedestrianismo” e “montanhismo” entre os séculos XIX e XX. Revista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, n. 13, p. 523-534, 2017 (link).

[5] Tony Hadland e Hans-Erhard Lessing. Bicycle Design: an Illustrated History. Cambridge / London: MIT Press, 2014.

[6] Eugene Weber. França fin-de-siècle. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

[7] Richard Holt. Sport and Society in Modern France. New York: Routledge, 1981, p. 84.

[8] Jean-François Mignot. The History of Professional Road Cycling. In: Daam Van Reeth e Daniel Joseph Larson (eds.). The economics of professional road cycling. New York: Springer, 2016, p. 7-32.

[9] Asa Briggs. Mass entertainment: the origins of a modern industry. In: Kym Anderson (ed.). Australia’s Economy in its International Context: the Joseph Fisher Lectures, volume 2, 1956-2012. Adelaide: University of Adelaide Press, 2012, p. 49-76.

[10] Andrew Ritchie. Early bicycles and the quest for speed: a history, 1868–1903. North Carolina: McFarland & Company, p. 270.

[11] Mark Dyreson. The Emergence of Consumer Culture and the Transformation of Physical Culture:American Sport in the 1920s. Journal of Sport History, v. 16, n. 3, p. 261-281, 1989.

[12] André Schetino. Pedalando na modernidade: a bicicleta e o ciclismo na transição do século XIX para o XX. Rio de Janeiro: Apicuri, 2008; Wilson Gambeta. A bola rolou: o velódromo paulista e os espetáculos de futebol. São Paulo: SESI-SP editora, 2015; Marilita Rodrigues. Constituição e enraizamento do esporte na cidade: uma prática moderna de lazer na cultura urbana de Belo Horizonte (1894-1920). Tese (Doutorado em História). Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2006; Eliza Salgado de Souza. Panorama do esporte em Manaus, 1897-1911. Dissertação (Mestrado em Estudos do Lazer). Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2017.

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O fim do Ministério do Esporte: boa ou má notícia?

26/11/2018

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

A eleição de Bolsonaro alarmou setores ligados aos esportes. O motivo das preocupações, porém, não estava nas suas filosofias políticas ou nas suas declarações polêmicas. Eram bem mais mundanas as razões do sobressalto.

Ainda durante o segundo turno das eleições, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro manifestou preocupações quanto ao futuro dos investimentos governamentais para o setor, que beneficiam grandemente instituições como o próprio Comitê Olímpico Brasileiro.[1]

Confirmada a eleição de Bolsonaro, Leandro Cruz, atual Ministro do Esporte, queixou-se do fato de sua equipe não ter sido procurada pelo grupo responsável pela transição de governos. Segundo ele, a falta de interesse prenunciava a pouca importância política que o novo governo pretendia atribuir aos esportes.[2]

Como reação, Leandro Cruz tentou justificar a importância de um ministério exclusivamente dedicado aos esportes em artigo na Folha de São Paulo. Segundo dizia esse artigo, mais que bons resultados em competições internacionais, ações governamentais para o setor esportivo justificam-se pelas suas supostas capacidades de promover “inclusão social”. Nas palavras do ministro: “Somos um ministério que mostra resultados sociais. Todos sabemos dos benefícios do esporte na saúde, para geração de empregos e na prevenção à violência”.[3]

Mas, afinal, faz sentido reivindicar a existência de um Ministério do Esporte? O Ministério do Esporte de fato tem “resultados sociais” para mostrar? Porque seria benéfico ou vantajoso para o país uma estrutura institucional desse tipo? Seria correto que os esportes podem prevenir a criminalidade, melhorar os índices de educação, gerar empregos e promover a “inclusão social”? Há algum fundamento objetivo para essas crenças? O que nos dizem as evidências disponíveis?

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Primeiro, esportes não oferecem oportunidades amplas e efetivas de emprego ou ascensão social. Em 2015, mais de 80% dos jogadores de futebol do Brasil – que é a modalidade com maiores oportunidades profissionais de trabalho e renda – ganhavam apenas até R$ 1.000 por mês, conforme dados oficiais da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Comparados com dados do Ministério do Trabalho, é um salário médio inferior ao de categorias profissionais como as de “garçom”, “ascensorista”, “ajudante de pedreiro”, “tratador de porcos” e “catador de material reciclável”. Além disso, a maioria dos contratos de trabalho no futebol é temporário, restrita ao primeiro semestre do ano, quando se realizam os campeonatos estaduais. Depois disso, cerca de 60% desses jogadores têm os contratos de trabalho rescindidos e estão oficialmente desempregados.[4]

Um estudo da Fundação João Pinheiro, considerando um amplo universo de ocupações possíveis no setor esportivo, indicou rendimentos médios mensais ainda menores, entre R$ 487 e R$ 560 (em 2010). Segundo este estudo, cerca de 70% dos atletas auferem rendimentos abaixo do salário mínimo e necessitam de uma segunda ocupação. Além disso, conforme indica o estudo, as oportunidades de trabalho nessa área são limitadas, respondendo por menos de 0,5% das vagas de emprego formal no Brasil (a maioria em atividades de condicionamento físico, que em certa medida se diferenciam de esportes propriamente ditos). Não bastasse, entre 2007 e 2012, o desempenho do setor foi inferior ao da média dos demais setores econômicos do país.[5]

Se emprego e salário parecerem boas estratégias para a “inclusão social”, os interessados nesse assunto talvez devam buscar outras alternativas que não os esportes. Por mais tocantes que sejam casos de atletas que obtiveram prosperidade por meio dos esportes, tratam-se de exceções que apenas confirmam a regra.

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Afora limitações na capacidade do setor esportivo oferecer empregos e assim oportunidades de ascensão social, boa parte dos investimentos governamentais nessa área não se destinam a propósitos de promoção da saúde, estímulo a participação esportiva ou mesmo a tal “inclusão social” – apesar desses tópicos serem frequentemente citados pelos que saem em defesa do envolvimento governamental com esportes, como fez o atual ministro Leandro Cruz e como fazem vários outros que se engajam nessa causa.

Há poucos meses, quando o governo de Michel Temer anunciou a criação de um Fundo Nacional para Segurança Pública, que seria em parte constituído por recursos antes destinados aos esportes, uma ampla coalização se mobilizou a fim de tentar reverter a decisão. Durante audiência na Comissão de Esporte da Câmara, o velejador Lars Grael, superintendente de relações institucionais do Comitê Brasileiro de Clubes, classificou a medida como um “equívoco histórico” e um “crime lesa pátria”.[6] O judoca Tiago Camilo, presidente da comissão de atletas do Comitê Olímpico Brasileiro, sugeriu que a diminuição de gastos no esporte comprometeria medidas de combate à violência.[7] Por meio de um vídeo na internet, o tenista Gustavo Kuerten também se manifestou, classificando a medida como “totalmente insensata”; um “ato de desespero e covardia”, ele disse.[8] O ex-jogador de futebol Raí, a ex-jogadora de basquete Magic Paula e Louise Bezerra, ligados a organização Atletas pelo Esporte, também criticaram a medida. Segundo argumentaram, a expectativa de diminuição de recursos do Ministério do Esporte era “um gol contra para as áreas que têm impacto na prevenção da criminalidade”. Segundo eles, “esporte e educação são parte da estratégia utilizada com êxito em diversos países para diminuir os índices de criminalidade”.[9] Até o Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte, associação científica que reúne estudiosos brasileiros dos esportes, publicou uma manifestação contra a medida, onde se destacava o esporte e o lazer como “direitos sociais inalienáveis”.[10]

Nenhuma dessas declarações, contudo, parece ter levado suficientemente em conta a dureza terra-a-terra das políticas de esportes no Brasil, onde cerca de 70% dos recursos públicos gastos nessa área destinam-se ao alto rendimento.[11] Conforme disseram Felipe Sigollo e Pedro Trengrouse, respectivamente, atual secretário executivo adjunto do Ministério do Esporte e professor da Fundação Getúlio Vargas, “sob a ótica do alto rendimento, o Brasil, sem dúvida, está entre os países com maior investimento esportivo nos últimos anos. Foram R$ 8,3 bilhões nos estádios da Copa, R$ 7,2 bilhões nas arenas dos Jogos Olímpicos e, desde 2001, quase R$ 10 bilhões das loterias destinados ao Ministério do Esporte, Comitê Olímpico do Brasil, clubes de futebol, Comitê Paralímpico Brasileiro, Comitê Brasileiro de Clubes e Federação Nacional de Clubes / A soma corrigida de incentivos fiscais, Jogos Pan-Americanos, Mundiais Militares, Copa do Mundo, Jogos Olímpicos e Paralímpicos —com os valores destinados anualmente ao esporte olímpico pelas loterias e empresas estatais— passa de R$ 100 bilhões”.[12].

Por princípio, esportes de alto rendimento oferecem poucas oportunidades de participação, além de terem consequências nulas ou até negativas para a maioria da população. Não esqueçamos as violações de direitos humanos e as escassas evidências de legados positivos dos megaeventos recentemente realizados no Brasil.[13] A linguagem abstrata dos direitos sociais inalienáveis pode ser comovente, mas pode também ser enganosa e vazia de conteúdo político. Em palavras de ordem desse tipo, genéricas e pré-fabricadas, não há diagnósticos implícitos ou explícitos, nem tampouco o direcionamento para reivindicações ou propostas concretas. Tudo se resume a um palavrório velho e desgastado.

Não é um golpe do azar, portanto, que quase 59% de escolas de ensino fundamental do país não tenham quadras esportivas, conforme dados oficiais do Censo Escolar de 2017 (número que pode chegar a 71%, se considerarmos apenas escolas municipais, que reúnem 64% dos estabelecimentos de ensino fundamental do país).[14] Como se vê, 15 anos de existência de um Ministério do Esporte fizeram muito pouco pela “inclusão social” de crianças e jovens das escolas públicas do país.

Em 2005, um relatório do Tribunal de Contas da União sobre o Programa Segundo Tempo, iniciativa do Ministério do Esporte que oferece oportunidades de práticas esportivas para crianças e jovens depois do turno escolar, já apontava para uma falta de representatividade desta ação, que atendia, na época, apenas 1% do total da população entre 7 e 17 anos.[15]

Não foi falta de recursos, no entanto, o que impôs essa estreiteza de horizontes e essa tibieza de resultados. Foi falta de prioridade política pura e simplesmente. Ou melhor, foi o predomínio de outras prioridades políticas.

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Na mesma época em que ações do Ministério do Esporte voltadas ao esporte educacional atendiam um número reduzidíssimo de crianças e jovens, o Brasil se preparava para sediar os Jogos Pan-Americanos de 2007, que apenas iniciaram a abertura dos cofres públicos para a família olímpica. Pouco depois viriam ainda os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo. Nenhum desses esforços, porém, que demandaram altos investimentos, como se sabe, não parecem ter melhorado ou ampliado as condições de prática esportiva das escolas brasileiras, como o provam as atuais situações da maioria desses estabelecimentos de ensino.

Dentre as poucas e pobres ações governamentais voltadas aos esportes educacionais, as evidências capazes de sustentar que tais investimentos são benéficos ou eficientes são também bastante controversas. Crianças que praticam esportes têm vantagens educacionais decorrentes deste envolvimento? Projetos com esportes podem de fato prevenir a criminalidade?

A literatura especializada nesses assuntos é extensa e inconclusa. Pesquisas sobre os efeitos de esportes sobre a educação, de maneira geral, realizadas em diferentes lugares e a partir de diversos métodos, frequentemente indicam resultados conflitantes.[16] Em meio a achados tão controvertidos, nenhum estudioso sério se precipitaria em afirmar categoricamente que projetos esportivos podem cumprir promessas de desenvolvimento, prevenção ao crime, combate a delinquência juvenil ou “inclusão social”, independente das circunstâncias gerais que os envolvem. Ao contrário, existem mesmo sérias objeções acadêmicas à ideia de que o esporte ou políticas públicas nesse setor podem afetar condições gerais de vida e cidadania.

Na verdade, vários pesquisadores que estudam o assunto se referem a suposição de que os esportes podem agenciar transformações sociais como algo “problemático”, “sem muito efeito” ou tão somente como “ideologias carentes de evidências”. Andrew Guest, por exemplo, professor da Universidade de Portland, nos Estados Unidos, ao realizar uma pesquisa de campo em meio a um projeto de esportes para residentes de um campo de refugiados na África, concluiu que a iniciativa simplesmente não era capaz de promover os objetivos que prometia. Conforme suas duras palavras, “suspeito que o esporte não pode ser uma parte útil do desenvolvimento […] Esportes não desenvolvem diretamente ninguém ou qualquer comunidade”.[17]

Alguns outros vão além, afirmando não apenas que os esportes, na maioria das vezes, de fato não são capazes de promover a tão almejada “inclusão social”, como dizem ainda que políticas públicas concentradas em oferecer esportes para comunidades pobres podem até mesmo atrapalhar o desenvolvimento social. Conforme famosas palavras de Jay Coakley, professor da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, ao direcionar recursos públicos geralmente escassos para tais projetos, essas iniciativas, apesar de bem-intencionadas, podem às vezes camuflar e até fazer esquecer os verdadeiros problemas que afligem essas comunidades.[18] Nesse sentido, tais projetos desviam a atenção dos problemas fundamentais e acabam por dificultar a orquestração de esforços com maior potencial de realmente mitigar a pobreza e promover o desenvolvimento.

Frequentemente, projetos de esportes voltados para residentes de bairros pobres limitam-se a oferecer escusas para políticos dissimularem que estão fazendo algo de útil e importante em favor desses grupos, quando na verdade estão fazendo muito pouco ou quase nada; ou então para que gestores de organizações não governamentais garantam recursos financeiros para suas próprias instituições, quando não para os seus próprios bolsos. Em todos os casos, é a indústria do problema social em plena ação.

O principal problema dos pobres é sempre a pobreza, e não a falta de oportunidades de praticar esportes. Quando o ministro do esporte afirma que “todos sabemos dos benefícios do esporte”, ele talvez precise então especificar melhor o sujeito da oração. Todos, quem?

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Fred Coalter, professor da Escola de Esportes da Universidade de Stirling, na Escócia, e uma das principais autoridades internacionais em estudos sobre políticas de esporte, dono de uma volumosa e reputada obra sobre o assunto, há anos vem chamando atenção para a sistemática falta de evidências que marca o pensamento e a prática política da atuação governamental com relação aos esportes. Segundo suas conclusões, não é a participação em esportes o que contribui para a “inclusão social”, mas sim a “inclusão social” o que permite a participação em esportes.[19]

Rigorosamente no mesmo sentido, Anthony Veal, professor da Universidade Tecnológica de Sidnei, na Austrália, concluiu, a partir de um amplo estudo de quase 30 países europeus, que a desigualdade de renda é o fator fundamental a facilitar ou dificultar a participação em práticas esportivas. Desse modo, ele afirma, políticas públicas dedicadas especificamente aos esportes teriam pouca ou nenhuma capacidade de alterar os índices de participação esportiva, mesmo quando fossem estes os objetivos dessas políticas (o que de todo modo nunca foi o caso do Ministério do Esporte no Brasil, que sempre privilegiou os esportes de alto rendimento, como destacamos). Segundo palavras do pesquisador australiano, “se a causa fundamental dos problemas sociais é a desigualdade estrutural na sociedade, políticas focadas diretamente sobre o problema da desigualdade na participação esportiva dificilmente serão bem-sucedidas”.[20]

Situações bem documentadas em que esportes parecem ter contribuído ou de alguma forma tomado parte em iniciativas bem-sucedidas com propósitos de desenvolvimento social existem, mas não são tantas quanto os defensores mais entusiastas do envolvimento governamental com esportes fazem parecer. “Desenvolvimento”, “cidadania” ou “inclusão social”, além de conceitos cheios de ambiguidades, não contam com fórmulas pré-estabelecidas para a sua realização, de modo que alcançá-los é um empreendimento difícil e incerto.

Nesses casos, o que pesquisadores examinam não é se esportes podem ou não oferecer oportunidades nesse sentido – o que é sempre relativo e dependente de uma grande variedade de condições, às vezes inteiramente circunstanciais. O que se examina são justamente as condições que parecem facilitar ou dificultar a realização de objetivos dessa natureza. Ninguém sabe ao certo que condições são essas. Se soubessem, haveria então uma fórmula pronta para ser seguida e seríamos todos felizes para sempre.

No entanto, embora não ofereçam receitas, o acúmulo de pesquisas sobre o assunto já sugere insights e aponta caminhos. De projetos para a prática de esportes entre meninas na Índia, até jogos de basquete em bairros com altos índices de criminalidade nos Estados Unidos, passando pela oferta de esportes para jovens com suas famílias na Islândia, um elemento frequentemente presente é a profunda articulação dessas iniciativas com outros projetos e instituições movidos por finalidades muito mais amplas do que a prática de esportes em si mesmo.[21]

Profunda articulação com outros projetos e instituições movidos por finalidades muito mais amplas, bem entendido, não equivale a discursos bonitos, mas vazios, de que o propósito deste ou daquele projeto de esportes é o de formar cidadãos e não atletas, o que muitas vezes está limitado ao plano meramente retórico. Projetos de esportes que acontecem na escola ou que dizem ter finalidades educativas, mas que não têm relação com currículos, com professores ou com projetos pedagógicos das escolas, na prática não guardam nenhuma articulação nem com as escolas, nem tampouco com projetos educacionais de maneira mais ampla. Com efeito, é precisamente desta maneira desarticulada das escolas e de seus projetos pedagógicos que funciona o Programa Segundo Tempo – aquela iniciativa do Ministério do Esporte que oferece oportunidades para uma parcela reduzidíssima da população em idade escolar.

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Ao que tudo indica, portanto, nas situações em que há indícios empíricos de que os esportes parecem ter desempenhado algum efeito positivo e significativo sobre projetos de desenvolvimento social, o esporte aparece como uma espécie de pretexto ou “ponto de partida” para mobilizar e motivar indivíduos a se engajarem em certas ações – que podem ser de combate ao crime, de orientação sexual, de reforço escolar, de capacitação para o trabalho ou de desincentivo ao consumo de álcool entre jovens, entre várias outras possibilidades.[22] Assim, quanto mais integrado com outros projetos e instituições voltadas a “inclusão social” ou a prevenção da criminalidade, melhor; enquanto mais isolado dessa rede de ação, pior.

Nesse contexto, a ideia de subordinar políticas de esporte a políticas educacionais, vinculando o Ministério do Esporte ao Ministério da Educação, parece não apenas boa, como talvez seja a mais lógica e sensata medida a ser tomada nesse quesito. Tal decisão, de fato, pode representar uma derrota para os atletas de alto nível, para os gestores de organizações não-governamentais que manejam iniciativas ligadas aos esportes ou ainda para os dirigentes de federações e confederações esportivas, que apesar de serem entidades privadas e oferecerem benefícios limitadíssimos ao conjunto da população, se é que oferecem algum, têm historicamente sido os principais beneficiários das políticas e investimentos públicos em esportes no Brasil. Como bem demonstrou certa vez João Malaia, professor do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, desde que o Estado brasileiro se envolveu sistematicamente com o apoio e o financiamento de práticas esportivas, ainda nos meados da década de 1920, subsídios para atletas participarem em competições internacionais e para a organização de grandes eventos esportivos têm sido a tônica dessas políticas.[23]

Grosso modo, políticas de esporte no Brasil têm sido apenas uma forma sutil e mais ou menos hipócrita de garantir acesso de grupos privilegiados às chaves que guardam os recursos dos cofres do Tesouro. Muitos dos que criticam e se mobilizam contra a extinção do Ministério do Esporte fazem-no, é certo, por boa fé; movidos que estão por uma ideologia obtusa, mas bem-intencionada, como o são quase todas as ideologias. Outros, porém, menos inocentes, fazem-no apenas por receio de que a diluição institucional das ações governamentais dessa área lhes prive do acesso direto ao balcão de negócios que a porta da sala dos Ministros de Estado pode franquear com mais facilidades.

A defesa do esporte ou de uma decidida ação do Estado nessa área, porém, não deve se confundir com a defesa dos interesses de atletas de elite. Tampouco deve se confundir com os interesses de grandes federações e confederações esportivas. Também não deve se limitar a reproduzir uma ideologia ingênua e mal informada, que atribui superpoderes de transformação social aos esportes. Tudo isso são apenas fantasias irrealistas ou lobbies corporativos (chamados também rent-seeking, isto é, tentativas de obter vantagens econômicas por meio da influência política). Talvez já tenha passado da hora das vozes críticas que pensam o esporte se erguerem contra esse estado de coisas, a fim de se empenharem mais decididamente em separar o bebê da água suja da bacia.

Conforme revelaram os dados do Diagnóstico Nacional do Esporte, a maior parte dos praticantes de esportes no Brasil (70%) não têm vínculos com instituições esportivas (clubes, ligas ou federações).[24] O caráter informal e institucionalmente desorganizado desses esportistas amadores tende a privá-los de representação política nas instâncias decisórias do poder público. Afinal, não se veem em Brasília lobistas ou grupos de pressão organizados a defender os interesses difusos dos que praticam esporte por lazer. Em defesa desses grupos, não há manifestos, cartas públicas, vídeos no youtube, discursos no Congresso ou artigos em jornais de grande circulação.

O fim do Ministério do Esporte como estrutura autônoma, em favor de ações integradas às políticas educacionais, afora garantir, ao menos formalmente, o cumprimento do preceito constitucional que determina privilegio do investimento estatal nesse setor ao esporte educacional, algo olimpicamente ignorado nos últimos anos, pode ser o prenúncio de uma pequena vitória para os milhões de estudantes das redes públicas de educação do Brasil, onde de fato se concentram os jovens e crianças pobres do país, quase sempre desprovidos de quaisquer apoios ou incentivos para a prática de esportes.  Nada garante que será esse o caso. Oxalá, que assim seja!

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[1] Marcelo Laguna. Haverá mobilização se próximo governo cortar verbas, diz presidente do COB. Folha de São Paulo, 11 out. 2018.

[2] Diego Garcia, João Gabriel e Sérgio Rangel. Esporte não será prioridade em governo Bolsonaro, diz atual ministro. Folha de São Paulo, 13 nov. 2018.

[3] Leandro Cruz. O esporte como prioridade. Folha de São Paulo, 16 nov. 2018, p. A3.

[4] Rodrigo Capelo. A fábrica de ilusões do futebol. Época, 22 fev. 2016.

[5] Fundação João Pinheiro. Cadeia produtiva do esporte de alto rendimento em Minas Gerais. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 2013.

[6] https://www.youtube.com/watch?v=PbSZ9ZtjEF8.

[7] Marcelo Laguna. Entidades do esporte se unem para evitar perda de R$ 300 milhões. Folha de São Paulo, 12. jun. 2018.

[8] https://www.youtube.com/watch?v=vaxZG_PPXak.

[9] Raí, Magic Paula e Louise Bezerra. Um novo 7 a 1 no esporte brasileiro. Folha de São Paulo, São Paulo, 1 jul. 2018, p. A3.

[10] http://www.cbce.org.br/upload/biblioteca/Manifesta%C3%A7%C3%A3o_CBCE_MP_841.pdf

[11] Marcelo Resende Teixeira e colaboradores. Esporte, fundo público e pequena política: os reveses de um orçamento (r)emendado. Movimento, Porto Alegre, v. 24, n. 2, p. 593-606, abr./jun. de 2018; Fernando Mascarenhas. O orçamento do esporte: aspectos da atuação estatal de FHC à Dilma. Revista Brasileira Educação Física e Esporte, v. 30, n.4, p. 963-980, out./dez. 2016.

[12] Felipe Sigollo e Pedro Trengrouse. Investimento inteligente no esporte. Folha de São Paulo, 26 jun. 2018, p. A3.

[13] Andrew Jennings e colaboradores. Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas? São Paulo: Boitempo, 2014; Dave Zirin. O Brasil dança com o diabo: Copa do Mundo, Olimpíadas e a luta pela democracia. São Paulo: Lazuli, 2014, especialmente cap. 7; Flávio de Campos. O lulismo em campo: aspectos da relação entre esportes e política no Brasil. In: Gilberto Maringoni e Juliano Medeiros (organizadores). Cinco mil dias: o Brasil na era do lulismo. São Paulo: Boitempo / Fundação Lauro Campos, 2017, p. 241-247. Uma visão mais panorâmica sobre o assunto encontra-se em John Horne. The Four ‘Knowns’ of Sports Mega‐Events. Leisure Studies, v. 26, n. 1, p. 81-96, 2007.

[14] Brasil. Censo Escolar 2017: notas estatísticas. Brasília / Rio de Janeiro: Ministério da Educação / Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2018, p. 6.

[15] Tribunal de Contas da União. Relatório de Avaliação do Programa Segundo Tempo. Brasília: Tribunal de Contas da União, 2006, p. 20 e 84.

[16] Dois exemplos: Richard Bailey. Physical education and Sport in Schools: a Review of Benefits and Outcomes. Journal of School Health, vol. 76, p. 397-401, 2006; H. David Hunt. The effect of extracurricular activities in the educational process: influence on academic outcomes? Sociological Spectrum, v. 25, issue 4, 2005.

[17] Andrew M. Guest. The diffusion of development-through-sport: analysing the history and practice of the Olympic Movement’s grassroots outreach to Africa. Sport in Society, v. 12, n. 10, Dec. 2009, p. 1.346 e 1.348.

[18] Jay Coakley. Using sports to control deviance and violence among youths: Let’s be critical and cautious. In: Margaret Gatz, Michael A. Messner & Sandra J. Ball-Rokeach (Editors). Paradoxes of Youth and Sport. Albany: SUNY Press, 2002, p. 13-30.

[19] Anthony J. Veal. Leisure, income inequality and the Veblen effect: cross-national analysis of leisure time and sport and cultural activity. Leisure Studies, v. 35, issue 2, 2016, p. 226.

[20] Uma síntese recente das observações deste autor sobre o assunto pode ser encontrada em Fred Colter. Sport for Development: What game are we playing? New York: Routledge, 2013.

[21] Tess Kay. Developing through sport: evidencing sport impacts on young people. Sport in Society, v. 12, issue 9, p. 1.177-1.191, 2009; Inga Dóra Sigfúsdóttir e colaboradores. Substance use prevention for adolescents: the Icelandic Model. Health Promotion International, v. 24, Issue 1, p. 16–25, 2009; Douglas Hartmann e Brooks Depro. Notes on Midnight Basketball and the Cultural Politics of Recreation, Race, and At-Risk Urban Youth. Journal of Sport and Social Issues, v. 25, n. 4, p. 339-371, 2001.

[22] Geoff Nichols e Iain Crow. Measuring the Impact of Crime Reduction Interventions Involving Sports Activities forYoung People. Howard Journal, v. 43, n. 3, p. 227-236, 2004; Douglas Hartmann. Theorizing Sport as Social Intervention: A View From the Grassroots. Quest, v. 55, n. 2, p. 118-140, 2003.

[23] João Manuel Casquinha Malaia Santos. Brazil: An Emerging Power Establishing Itself in the World of International Sports Mega-Events. The International Journal of the History of Sport, v. 31, Issue 10, p. 1312-1327, 2014.

[24] Brasil. Diesporte, caderno 2: o perfil do sujeito praticante ou não de esportes e atividades físicas da população brasileira. Brasília: Ministério do Esporte, 2016, p. 40.

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Para o artigo completo em PDF: O fim do Ministério do Esporte – boa ou má notícia [pdf].

 


Qual o primeiro clube de montanhismo do Brasil?

25/06/2018

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Praticantes brasileiros de montanhismo, especialmente os do Rio de Janeiro, costumam se referir ao Centro Excursionista Brasileiro, fundado em 1919, como a primeira e mais antiga associação desse esporte não apenas no Brasil, se não em toda a América do Sul. A informação é repetida em vários blogs, sites, listas de e-mails, reportagens da imprensa e até em livros. Mas seria correta tal informação?

ceb

Emblema do Centro Excursionista Brasileiro. Fonte: http://www.ceb.org.br/site/sobre/

De fato, o Centro Excursionista Brasileiro é a associação esportiva dedicada ao montanhismo ainda em atividade mais antiga do Brasil. Nenhuma outra associação dedicada a esse esporte criada antes manteve-se em funcionamento. É realmente notável a capacidade do CEB, como é geralmente chamado, ter-se mantido ativo por um período tão longo de tempo – que completa um século ano que vem (2019). Hurrahs ao CEB!

Todavia, antes dele, outras associações dedicadas ao montanhismo estiveram em atividade no país. A rigor, portanto, o CEB não foi o primeiro clube de montanhismo fundado no Brasil – o que pode soar um pouco frustrante a alguns de seus sócios.

Em outro post deste blog, eu já havia comentado como grupos carnavalescos, bandas de música, sociedades beneficentes ou clubes sociais organizavam regularmente passeios a pé pelas montanhas do Rio de Janeiro desde a década de 1870. Apesar de terem sido arranjadas por instituições diversas, alheias mesmo ao universo dos esportes, essas iniciativas têm a relevância histórica de terem inaugurado um modelo de organização de atividades de lazer na natureza que, grosso modo, seria adotado depois por vários clubes de montanhismo – inclusive pelo próprio CEB.

A partir dos primeiros anos do século 20, vários clubes esportivos promoviam atividades de “excursionismo”, que era a maneira usual como se referiam ao montanhismo naquela época. Não por acaso, como já anuncia obviamente o seu nome, o próprio CEB fora criado como um Centro dedicado ao “excursionismo”.

O “Atlético Club” e o “Centro de Cultura Física” estiveram entre as primeiras associações atléticas do Rio de Janeiro a organizarem excursões pedestres pelas montanhas da cidade nos primeiros anos do século 20. A regularidade dessas atividades, porém, era apenas eventual, já que o propósito principal desses clubes se endereçava a outras modalidades.

Apenas em meados da década de 1910, antes ainda da fundação do CEB, portanto, seriam criados os primeiros clubes totalmente voltados ao excursionismo.

O primeiro deles parece ter sido o “Centro dos Andarilhos do Brasil”, criado, ao que tudo indica, em meados de 1914. A partir dessa época, o Centro dos Andarilhos do Brasil começou a organizar regularmente uma série de atividades excursionistas. A primeira que temos notícias, mas que deve ter sido precedida por outras, é de uma travessia a pé entre o Silvestre e o Alto da Boa Vista. A excursão teria envolvido sete pessoas, numa jornada “agradável” e “feita em meio da mais franca alegria”, conforme noticiou o jornal O Paiz, “aguçada pela amena temperatura da floresta e pelo radiar de um morno e dourado sol de inverno”, concluiu.

O Centro dos Andarilhos do Brasil teria tido ainda uma sede na famosa Galeria Cruzeiro, na Avenida Rio Branco, de onde às vezes partiam algumas de suas excursões. Basicamente, suas atividades, cujos vestígios documentais desaparecem no primeiro semestre de 1916, geralmente envolviam excursões a pé até Santa Teresa, Alto da Boa Vista, “Serra da Tijuca”, Gávea, Leblon, Ipanema ou Jacarepaguá, às vezes com realização de churrasco e “chapas fotográficas”, e sempre buscando os “melhores pontos de vista”, com muita “alegria”, “familiaridade” e “bons espíritos”, conforme registraram notícias de jornais sobre tais atividades.

Galeria Cruzeiro - avenida Central

Galeria do Cruzeiro, na Av. Rio Branco, Rio de Janeiro, onde tinha sede o Centro dos Andarilhos do Brasil. Fonte: http://www.rioquepassou.com.br/2006/05/10/galeria-cruzeiro-interior-i/

No ano seguinte, em 1915, notícias sobre atividades organizadas por um tal “Centro Suíço de Excursões Pedestres”, cujo nome oficial, em alemão, era “Scheweizer Wandervogel Rio de Janeiro”, começariam a ser publicadas em diferentes jornais cariocas. Basicamente, as atividades desse centro de excursões consistiam em passeios a pé até o Pico do Andaraí, Alto da Boa Vista, Pico da Tijuca, Pedra Branca, Corcovado, Gávea ou Itacuruçá, praia da vizinha cidade de Mangaratiba, há mais de 90 quilômetros do centro do Rio de Janeiro (para onde provavelmente devem ter partido a pé desde a estação ferroviária de Santa Cruz).

A julgar pelo nome, o Centro Suíço de Excursões Pedestres era uma espécie de extensão do movimento jovem Wandervogel, criado na Alemanha na transição entre os séculos 19 e 20, cujo fundamento era buscar um ideal de vida simples, através de longas caminhadas e acampamentos na natureza.

wandervogel

Caminhada na natureza na Alemanha em princípios da década de 1920 (Arquivo der Deutschen Jugendbewegung). Fonte: John Alexander Williams. Turning to Nature in Germany: Hiking, Nudism, and Conservation, 1900-1940. Stanford University Press, 2007.

Antes ainda do CEB, houve também o “Raid Club”, o “Tourist Club” e o “Andarilhos Brasileiros” (que não está claro se tinha ligações com o Centro dos Andarilhos do Brasil). Em comum, todos parecem ter tido sempre vida curta, nunca excedendo dois ou três anos de existência, apesar do eventual dinamismo com que organizaram suas ações no período em que estiveram ativos.

De todo modo, com muito ou pouco dinamismo, não é apropriado confinar a memória de um esporte apenas às instituições que sobreviveram à prova do tempo. Os perdedores ou os malsucedidos, afinal, também desempenham papéis importantes na evolução de fenômenos históricos. Hurrahs, então, aos antecessores do CEB!


Vida ao ar livre no Rio de Janeiro

25/12/2017

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

No Rio de Janeiro, desde os fins do século 18 realizavam-se passeios pelas montanhas e outros recantos naturais. Atividades desse tipo acabaram consagrando alguns lugares da cidade como instâncias privilegiadas para o descanso e o recreio em meio à natureza, como é o caso do Corcovado, da Tijuca ou da Urca. Esses hábitos se disseminaram ao longo da primeira metade do século 19. Meu livro Epopeias em dias de prazer apresenta mais detalhes sobre o assunto, entre os anos de 1779 e 1838, num período em que tais costumes estavam ainda em formação. Depois disso, algumas evidências sugerem uma ligeira popularização desses hábitos.

rio de janeiro e seus arredores (do corcovado) - sem data - martinet

Fonte: Alfred Martinet, Rio de Janeiro e seus arredores (do Corcovado)
n. 1, Gravura, 54 x 82,5 cm. Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro (s/d). 

Por volta dos anos 1870, associações civis tão distintas como grupos carnavalescos, bandas de música, sociedades beneficentes ou clubes sociais diversos promoviam passeios para Santa Tereza, para a Tijuca, para o Corcovado, para o Jardim Zoológico, para o Jardim Botânico ou para o que era identificado na época como “arrabaldes”, isto é, bairros rurais dentro ainda do perímetro da cidade, mas fora já do seu centro urbano, como eram Vila Isabel, Engenho da Rainha, Andaraí ou Jacarepaguá. Nesse momento, já se registrava também grupos ou clubes especialmente dedicados à organização de passeios na natureza, como o Grupo Excursionista dos Canecas. Basicamente, atividades desses grupos eram constituídos por excursões ao som das fanfarras, destinadas à folgança e ao esquecimento de todas as cousas que causavam tormentos, como dizia a propaganda de um desses passeios, promovido pelo Congresso Ginástico Português em 1879, publicada no Jornal do Commercio.

Jornal do Commercio, 1891, n. 32, p. 4

Propaganda de passeio campestre do “Club Gymnastico Portuguez”. Fonte: Jornal do Commercio, 1891, n. 32, p. 4.

Em outra dessas ocasiões, dessa vez em 1890 e sob a iniciativa da Euterpe Comercial Tenentes do Diabo (que ao menos desde 1876 realizava atividades desse tipo), um relato vinculado no jornal Gazeta de Notícias deixa ver o ambiente que cercava um passeio desse tipo na época: alegria e expansividade já nos bondes especiais que levavam o extenso grupo, com quase 200 pessoas, para um dia de muita comida, música e contemplação de paisagens no Corcovado, tidas por belas e encantadoras.

Jornal do Commercio, 1890, n. 238, p. 3

Propaganda de passeio campestre da “Euterpe Comercial Tenentes do Diabo”. Fonte: Jornal do Commercio, 1890, n. 238, p. 3.

Em princípios da década de 1890, a frequência aos domingos na região do Silvestre, nas imediações do Corcovado, poderia ser classificada já como “muito notável”, conforme registrou uma notícia do jornal O Paiz. De fato, além de setores mais elitizados, grupos de extratos médios ou mesmo de camadas populares também poderiam frequentar e frequentaram o local como parte de suas atividades de lazer. Em 1895, o Clube União Comercial, espécie de “sindicato” dos trabalhadores do comércio, realizou um passeio campestre para o Silvestre, como parte das comemorações pelo quinto aniversário da medida que determinou o fechamento do comércio do Rio de Janeiro aos domingos.

Jornal do Commercio, 1895, n. 333, p. 6

Propaganda de passeio campestre do “Club União Commercial”. Fonte: Jornal do Commercio, 1895, n. 333, p. 6.

Pouco antes, a notícia de um acidente fatal na Cascata Grande da Tijuca revelava a presença de “três raparigas da vida alegre”, que foram até o local de trem, para descansar e “em ruidosa patuscada”, conforme informara o jornal O Tempo. Involuntariamente, a notícia permite perceber a heterogeneidade social que já marcava os espaços usualmente utilizados para atividades de lazer na natureza naquela época.

Atentos às oportunidades comerciais que a demanda por diversões ao ar livre já representava naquele período, empresários tentavam claramente se aproveitar da ocasião. O presidente da Companhia Ferro Carril Carioca, por exemplo, empenhava-se, às vezes pessoalmente, em tratar “de maneira atenciosa e delicada” determinados grupos e instituições durante seus passeios, frequentemente disponibilizando bondes especialmente destinados a tais atividades. Ao longo da década de 1890, propagandas do Jardim Zoológico, publicadas no Jornal do Brasil, destacavam as vantagens e virtudes do lugar para os interessados em passear na natureza. Segundo uma dessas propagandas: “A temperatura elevada destes últimos dias convida a um passeio campestre, onde se possa respirar ar puro à sombra de frondosos arvoredos. Para isso, nenhum local melhor se presta do que o aprazível jardim de Vila Isabel, na qual também não faltam divertimentos para todos os gostos e classes sociais”.

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Excursão do Clube Excursionista Light, s/d (c. 1957). Fonte: http://celight.org.br/ocel.php

Até hoje, o Rio de Janeiro é apontado como uma cidade onde atividades ao ar livre são bastante  desenvolvidas. De fato, entre vários indicadores nesse sentido, conta-se ali ao menos cinco clubes de montanhismo ativos e sob diversos aspectos muito bem estruturados, além de muitos praticantes deste esporte que optam por não manter vínculos associativos com nenhuma instituição do tipo.

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Parte do post é um fragmento resumido do artigo “Conhecendo o Rio de Janeiro a pé: ‘excursionismo’, ‘pedestrianismo’ e ‘montanhismo’ entre os séculos XIX e XX”, com a co-autoria de Tauan Nunes Maia, que será publicado brevemente na Revista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (http://wpro.rio.rj.gov.br/revistaagcrj/)


História do yoga no Brasil

31/07/2017

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Segundo dados da Associação Brasileira de Ioga, publicados pela revista Exame, em 2011, haveria 500 mil adeptos da prática no Brasil. [1] Os métodos e fontes dessas estimativas são sempre obscuros; passíveis, portanto, das mais variadas contestações, para mais ou para menos. Quase uma década antes, o Consulado Geral da Índia estimava em um milhão o número de praticantes de yoga no Brasil. Grupos organizados de adeptos discordavam, falando de até 5 milhões de praticantes. [2]

Outra divergência que separa mestres e adeptos do yoga é a história da prática no Brasil. Num universo onde tradição e autenticidade agregam prestígio e reputação, vários grupos disputam a primazia da difusão do yoga no país. De modo geral, todos reconhecem que, na Índia, o yoga é praticado há mais de 5 mil anos, abarcando diferentes formas: Hatha Yoga, Raja Yoga, Asthanga Yoga, entre muitas outras. Já a chegada da prática ao Brasil é permeada de divergências, muitas das quais animadas por implícitos interesses comerciais. Onde o peso da história pode ser mobilizado como estratégia publicitária, tendem a ser particularmente duras as disputas pela memória. A ausência de historiadores profissionais deste debate não ajuda.

Basicamente, para simplificar o cipoal de interpretações sobre a história do yoga no Brasil, quase sempre se aponta para acontecimentos desenrolados nas décadas de 1950 ou 1960. Mais particularmente, citam-se a fundação da Ordem dos Sarvas Swamis, no interior do Rio de Janeiro, por volta de 1953; a fundação da Associação Mística Ocidental, no interior de Santa Catarina, também por volta de 1953; a abertura da Academia de Shotaro Shimada, em São Paulo, em 1958; a inauguração da academia do francês e monge Jean Pierre Bastiou, no Rio de Janeiro, também em 1958; a publicação do livro “Libertação pelo Yoga”, em 1960, do general Caio Miranda; as iniciativas práticas e editoriais do militar José Hermógenes a partir de 1960; ou ainda as ações de Luiz de Rose, no Rio de Janeiro, também a partir de 1960.

De acordo com a “escola” de yoga a que cada praticante esteja vinculado, uma ou mais dessas versões podem ser adotadas, com diferentes níveis de entusiasmo. Obviamente, como é de se esperar em contexto de tantas convicções, todas elas estão erradas.

As primeiras notícias sobre o yoga no Brasil começaram a circular ainda na primeira década do século 20, por ocasião da divulgação de congressos de história da religião, que contavam com palestras sobre “Yoga” e “Budismo”. Desde essa época, circulavam também notícias sobre faquires indianos, onde a prática do “Hatha Yoga” era mencionada como explicação exótica das suas proezas físicas. A dimensão excêntrica disso tudo seria sempre muito bem explorada por jornais da época. Por outro lado, notícias desse tipo também ajudariam a iniciar a divulgação do yoga no Brasil, ainda que de maneira sutil.

A índia e seus mistérios

Desde princípios do século 20, notícias realçando aspectos “exóticos” da Índia ajudaram a iniciar a divulgação do yoga no Brasil.  Fonte: A Noite, Rio de Janeiro, 8 jun. 1931, n. 7015, p. 7

A partir de 1910, aproximadamente, iniciativas de Sociedades Teosóficas em várias cidades do Brasil iniciaram divulgação regular do vegetarianismo, do absenteísmo, do esoterismo, do ocultismo e também do yoga como recursos para transcender os limites da mente. Essas Sociedades Teosóficas, espécies de organizações espiritualistas sincréticas, organizadas em vários países a partir dos fins do século 19, em grande medida motivadas por ideias da aristocrata russa Helena Blavatski, e até hoje existentes, tiveram mesmo grande protagonismo no início da divulgação do yoga no Brasil. Dentre as suas muitas realizações nesse sentido, consta a tradução e publicação de um livro em princípios dos anos 1930 sobre “Introdução ao Yoga”, da inglesa Annie Besant, também ligada à Teosofia.

Helena - teosofia

Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 11 dez. 1938, n. 13526, Supplemento, p. 4

Antes ainda, direta ou indiretamente ligados à Sociedades Teosóficas, foram traduzidos e publicados no Brasil, desde meados da década de 1910, diversos livros de Yogui Ramacharakan, segundo dizem, pseudônimo do norte-americano William Atkinson (o assunto também é um pouco polêmico). Livros como “Hatha Yoga”, “Ciência da respiração” ou “Quatorze lições sobre Filosofia Yogy”, entre outros, comentados em palestras e amplamente comercializados em livrarias da época, encerravam o que haveria de mais precioso para o bem-estar físico, ensinando numerosos exercícios que deveriam ser praticados para que o corpo pudesse ser manter sempre saudável, diziam suas propagandas, publicadas em jornais dos anos 1910 e 1920. Muito antes, portanto, das publicações brasileiras sobre yoga dos anos 1950 ou 1960, geralmente apontados por entusiastas como marcos pioneiros fundamentais para o início da prática no país, já havia um significativo conjunto de materiais e informações disponíveis . Alguns dos verdadeiramente pioneiros livros de “Ramacharakan” lançados no Brasil, em grande medida impulsionados por ações de Sociedades Teosóficas, tiveram várias edições até pelo menos os anos 1970, se não depois, conformando um importante filão para a difusão da filosofia e das técnicas de yoga.

Ainda nas décadas de 1920 e 1930, palestras sobre yoga não apenas continuariam sendo realizadas, como ganhariam mais abrangência. Além das Sociedades Teosóficas, que continuaram ativamente atuantes na apresentação e divulgação do yoga, iniciativas semelhantes seriam deflagradas também por outras instituições. Além do envolvimento de diversas organizações “naturistas”, “esotéricas”, “ocultistas”, “psquistas” e de “cultura psico-transcendental e vibração mental”, como elas próprias se intitulavam, até a Associação Cristã de Moços chegou a promover conferência sobre preceitos do yoga.

O Cruzeiro

O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 27 nov. 1937, n. 4, p. 31

Em meados da década de 1930, celebridades internacionais dos esportes e do cinema começaram a adotar o yoga, o que acabou oferecendo ampla publicidade para a prática. Entre eles, destacam-se o ator Ramon Navarro, protagonista do filme Ben-Hur, grande sucesso em meados da década de 1920. Por volta de 1935, Navarro se tornou adepto do yoga. Segundo disse em entrevista para uma reportagem da época: “Ganhei todo o dinheiro que aspirava ganhar. Tornei-me um ‘yogi’ [isto é, adepto da filosofia e das práticas yoga]. Abandonei por completo o fumo e a bebida; ambos não me fazem falta. Aspiro viver na tranquilidade física e mental. Penso estar na estrada que me conduz a ela”.[3]. Nesse momento, Ramon Navarro não tinha como saber que seria brutalmente assinado anos depois por seus próprios irmãos, que acreditavam haver grandes somas de dinheiro escondido em sua casa.

O Cruzeiro, 10 jan. 1959, n. 13, p. 85

O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 10 jan. 1959, n. 13, p. 93

Outro que aderiu ao yoga na mesma época, oferecendo-lhe involuntariamente publicidade, foi o boxeador norte-americano Lou Nova. Orientado no Charkstown Country Club, em Nova York, de propriedade de um tal Dr. Pierre Bernard, conhecido também como Oom, o Onipotente, onde se prometiam curas miraculosas com a aplicação dos exercícios yoga, Lou Nova se tornou vegetariano e adepto da prática indiana como método de preparação física. Segundo reportagem do jornal O Globo de 1939, “os boxers famosos inventam às vezes processos curiosos de treinamento, rachando madeira, bebendo cerveja ou fazendo filmes. Mas, até hoje, nenhum astro do ringue treinou sentando-se como um filósofo hindu aos pés de um yogi, aprendendo a controlar os músculos do estômago”.[4] Na esteira do sucesso do boxeador famoso, divulgava-se a milenar filosofia indiana. O yoga, porém, não foi suficiente para fazer Lou Nova superar Joe Louis na disputa pelo título mundial dos pesos-pesados em 1941. Perdeu no sexto assalto por knock-out. Apenas um detalhe que em nada parece ter diminuído o entusiasmado impulso em favor da difusão do yoga.

Lou Nova... O Globo Sportivo, 10 jun. 1939, n. 42, p. 18

O Globo Sportivo, Rio de Janeiro, 10 jun. 1939, n. 42, p. 18

Daí em diante, o yoga estaria cada vez mais disponível no Brasil. Reportagens da Revista O Cruzeiro, uma das mais importantes publicações semanais de variedades do período, explicariam detalhes da prática indiana a um público mais amplo que os círculos de interessados em palestras teosóficas ou conferências exotéricas. Segundo dizia uma dessas reportagens, “a doutrina yoga é uma porta secreta que conduz a uma longa existência, sadia, calma e regrada”. Em 1938, talvez com algum exagero, a manchete de outra reportagem da mesma revista já poderia anunciar que o “yoguismo” avassalava o mundo. A reportagem, além disso,  reproduzia fotografias do livro “Yoga, uma ciência”, de Kovir T. Behana, psicólogo da universidade de Yale, que estudou e praticou yoga na Índia com o mestre Swami Kuvalayanada, como parte de um projeto de pesquisa científica, que deu origem ao livro: outra fonte relativamente importante para difusão do yoga anterior aos marcos usualmente apontados por adeptos e entusiastas.

O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 3 set. 1938, n. 44, p. 8-9

Desde essa época, a lenta, mas progressiva popularização do yoga tenderia a transmutar cada vez mais alguns dos significados da sua prática. Ao invés do horizonte religioso e espiritualmente transcendental a que aspiravam e aspiram ainda até hoje alguns dos seus mestres e incentivadores, yoga seria visto também como uma mera modalidade de ginástica – polêmica ainda capaz de exasperar seus adeptos mais puristas. Muito sintomaticamente, dizia uma reportagem de 1939, um dos segredos da beleza e da boa forma da Miss América daquele ano, além de massagens abdominais de origem romana e danças rítmicas usadas em templos hindus, era justamente a prática da “ginástica yoga”, com todas as suas sutilezas, observava com cuidado a reportagem, “onde os exercícios corporais estão estritamente ligados ao espírito, pois exigem grande grau de concentração e educação respiratória”.

O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 10 jun. 1939, n. 32, p. 23

Vários desses elementos, especialmente a ênfase na concentração e na respiração, combinados depois com outras técnicas de origens diversas, seriam apropriados mais tarde por práticas de treinamento físico atualmente bastante populares, como é o caso do método Pilates. Por trás de suas aparentes inovações, em comum, há sempre o horizonte de uma consciência transcendental, com influências do Oriente, com traços de espiritualização, e que se quer, de todo modo, mais ampla e profunda. Mito ou verdade, depende muito das inclinações ideológicas de cada um, tudo sempre produto de um longo e peculiar processo de desenvolvimento histórico.

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[1] BAGDADI, Solange. Ioga já tem 500 mil praticantes no Brasil. Disponível em: http://exame.abril.com.br/brasil/ioga-ganha-cada-vez-mais-praticantes-no-brasil/

[2] Grupos divergem sobre número de praticantes no país. Folha de São Paulo, 30 de junho de 2002. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff3006200222.htm

[3] Desiludido da vida. O Dia, Curitiba, 1 mai. 1938, n. 4527, p. 1.

[4] Lou Nova treina pelos methodos Yoga. O Globo Sportivo, Rio de Janeiro, 10 jun. 1939, n. 42, p. 18


Dorando Pietri e a Maratona do Parque Antártica (1910)

05/03/2017

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Em 1925, a Federação Internacional de Atletismo consagrou a distância de 42.195 metros como medida oficial das corridas de maratona. Antes disso, corridas a pé que recebiam o mesmo nome, tinham distâncias bastante variadas. Provas de 10, 12, 15, 17, 20, 30, 40 ou 60 quilômetros, poderiam ser igualmente chamadas, sem nenhum problema ou conflito aparente, de corridas de maratonas.

A distância de 42.195 metros coincide com o percurso da maratona da Olimpíada de Londres, em 1908, planejado nesses termos para atender veleidades do rei Eduardo VII, que desejava assistir à largada da corrida do castelo de Windsor. Por essas prosaicas razões, a competição em Londres entrou para o panteão de símbolos do atletismo.

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Maratona da Olimpíada de Londres, 1908.

A maratona de Londres, contudo, marcaria ainda os anais da história do esporte por outra razão. Naquela competição, o corredor a cruzar a linha de chegada em primeiro lugar acabou desclassificado. O italiano Dorando Pietri, ao entrar exausto e desorientado no estádio onde terminaria a competição, desmaiou e foi assistido por árbitros, que quase o carregaram até a linha de chegada. O irlandês Johny Hayes, que cruzou a linha de chegada em segundo lugar, competindo pelos Estados Unidos, protestou e o italiano acabou desclassificado. Hayes foi declarado então vencedor.

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Chegada de Dorando Pietri, na Maratona da Olimpíada de Londres, 1908

A decisão não encerraria a celeuma, porém. Meses depois, realizou-se em Nova York uma revanche entre Pietri e Hayes. A competição, que consistiu em 260 voltas numa pista construída no Madison Square Garden, foi acompanhada por mais de 10.000 pessoas, ciosas por saber quem era o corredor, afinal. Os dois seguiram praticamente juntos durante todo o percurso, com pequena vantagem para o italiano, que cruzou a linha de chegada menos de 80 jardas e 45 segundos à frente de seu concorrente. Pietri foi carregado em triunfo por seus compatriotas, que já o haviam apoiado intensamente durante toda a competição. O apoio da comunidade italiana, contudo, não impediu que Pietri fosse também vivamente vaiado pelo restante do público, por suspeitas não confirmadas de que, nos últimos metros da corrida, teria aberto os braços para impedir a passagem do adversário. Em maio do ano seguinte uma nova disputa entre os dois foi realizada, com nova vitória de Dorando Pietri, que se consagrou, em definitivo, como um dos melhores corredores de resistência de seu tempo.

 

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Hayes (esq.) e Pietri (dir.), desfilam lado a lado em carro aberto

Pietri já era conhecido no pequeno círculo dos entusiastas das corridas a pé desde antes da olimpíada de Londres. Algumas dessas corridas que tiveram a participação de Pietri chegaram a ser brevemente noticiadas por jornais brasileiros. Depois da competição em Londres, porém, sua reputação ganhou novas dimensões. Pietri tornou-se uma espécie de estrela internacional do esporte. Como parte das vantagens de seu novo sucesso, Pietri viajava por diferentes países participando de competições de corrida com prêmios em dinheiro, o que ele provavelmente já fazia antes, talvez com menor frequência e com pagamentos menos generosos. Um dos lugares onde Pietri estivera com esses propósitos e na esteira do sucesso da Olimpíada de Londres foi o Brasil.

 

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Dorando Pietri lidera Maratona da Olimpíada de Londres, 1908

Em julho de 1910, em meio ao que parecia ser uma excursão pela América do Sul, Pietri desembarcou no porto de Santos, vindo de Montevidéu, depois de ter participado de uma corrida em comemoração ao centenário da proclamação da república na Argentina, que reuniu mais de 50.000 pessoas em Buenos Aires. Seu destino era a cidade de São Paulo, onde Pietri participaria de uma corrida no Parque Antártica. Antes, teve tempo de participar e vencer uma “maratona” de 17 quilômetros no campo do Velo Club, em Santos, com o tempo de 57 minutos e meio – 15 minutos mais rápido que o segundo colocado.

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Dorando Pietri, com a Gold Cup, conferida pela Maratona da Olimpíada de Londres, 1908

A corrida na qual tomaria parte em São Paulo, amplamente divulgada pela imprensa local, logo gerou grandes expectativas, como era usual em ocasiões como essa. Além da corrida com Dorando Pietri, que oferecia prêmio em dinheiro de 2.000 francos, o evento contaria ainda com outras duas atrações: uma corrida de resistência de 20 quilômetros, em 60 voltas ao redor de um campo de futebol, envolvendo 25 corredores, de 10 diferentes clubes de São Paulo, além de uma exibição de força protagonizada por um tal Ettore Tibério, apresentado como um “Hércules”, “campeão mundial” e “célebre gladiador italiano”; vencedor de diversos campeonatos de luta  na Europa. O anúncio de exibição de força de Tibério prometia o levantamento de um automóvel com 6 pessoas, pesando 1.700 quilos, além de uma luta contra um touro. As letras garrafais dos cartazes que anunciavam o evento prometiam mesmo que Tibério subjugaria a muque um touro bravo.

Mais de 10.000 pessoas dirigiram-se ao Parque Antártica. O jornal Correio Paulistano registrou com cores vivas o modo como transcorreu aquele domingo: “o dia esteve magnífico, e desde cedo começaram a afluir ao parque numerosos automóveis, carros particulares e de praça, charretes e outros veículos, conduzindo senhoras e cavalheiros. Os bondes, partindo da praça Antônio Prado e do Largo do São Bento, chegavam ao Parque Antarctica apinhados de gente até pelos estribos. Muito antes, pois, de começar a maratona, já o parque se achava cheio de pessoas, notadamente as arquibancadas, que repletas de famílias, apresentavam festivo aspecto”.

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Público se amontoa para assistir Maratona da Olimpíada de Londres, 1908

De fato, os bondes que se dirigiam ao Parque Antártica naquele domingo trafegavam inteiramente lotados, transportando “enorme massa de povo”, conforme destacou outro jornal paulista. Mais tarde, o excesso de passageiros, dependurados nos estribos, seria apontado como uma das causas de um acidente que deixou ao menos quatro pessoas gravemente feridas, quando passageiros saltaram de um bonde em movimento, depois de verem surgir uma misteriosa e inexplicável fagulha. Nem contratempos desse tipo, contudo, foram capazes de arrefecer o entusiasmo com as corridas e exibições de força que se anunciaram.

Precisamente às duas horas e quarenta e cinco minutos da tarde, teve início a primeira maratona do dia, entre corredores de clubes de São Paulo. Urbino Taccola, do Club Esperia, completou todas as voltas ao redor do campo em 1 hora e 29 minutos, sagrando-se vencedor. A corrida parece ter despertado algum interesse, mas era apenas o início de uma prometida tarde de diversões. Na sequência, Ettore Tibério iniciou suas demonstrações de força, levantando com os braços uma espécie de barra de ferro de 60 quilos, antes de a torcer sobre os ombros. Depois, do alto de um estrado, sustentou o peso de um automóvel com 5 pessoas, e não 6, conforme anunciaram os cartazes do evento. A diferença deve ter decepcionado alguns espectadores, mas sem ainda prejudicar o espetáculo, que prosseguiu normalmente. Tibério iniciou então a luta com o touro, no que deveria ser o ponto alto de sua apresentação. O touro, entretanto, mais uma vez diferente do que prometiam os anúncios, “não era mais que um bezerrão”, “manso como um cordeiro”, como registraram languidamente os jornais do dia seguinte. Após alguns breves e poucos momentos de luta, Tibério não o derrubou propriamente, senão apenas conseguiu fazê-lo ajoelhar. O público, a essa altura já bastante desapontado, manifestou logo a sua impressão por meio da vaia.

Restava ainda a corrida de Dorando Pietri, que enfrentaria um tal Monte Neves, apresentado como “o campeão argentino”. Dez minutos após a partida, Pietri já estava três voltas à frente de seu adversário. Na quinta volta, de um total previsto de 60, Monte Neves abandonou a pista. A decepção foi geral e o público explodiu em fúria, vaiando longamente o “campeão argentino”, que não satisfeito, reagiu, fazendo gestos obscenos para a plateia. Conforme dissera um cronista anônimo do jornal Correio Paulistano, em palavras insubstituíveis, “o público não aceitou tal atitude com a mesma disposição com que se aceita a dádiva de uma boa fruta”. Com todos os ânimos exaltados, Monte Neves foi preso por ofensas à moral, com base no artigo 282 do código penal da época.

Na delegacia, Montes Nunes revelou ao 4º subdelegado de Santa Ifigênia tudo o que estava por trás da maratona do Parque Antártica. Ettore Tibério, que promovia o espetáculo, o contratara para demarcar raias da corrida, fixar bandeiras no campo e executar outros serviços. Por um valor adicional, Tibério lhe sugeriu também competir contra Dorando Pietri, sustentando que era campeão de corridas na Argentina – o que era obviamente mentira. Montes Nunes dissera ainda que foi o próprio Ettore Tibério, em pessoa, quem lhe pregou ao peito a fatídica bandeira argentina com que participou da corrida.

Montes Nunes acabou condenado a 3 meses e 15 dias de prisão – não sabemos ao certo se por ofensas à moral ou qualquer outro motivo. Nada sabemos também sobre o destino de Ettore Tibério. Infelizmente, não sabemos também se Dorando Pietri foi implicado no assunto, embora não pareça ter sido o caso, pois mesmo depois de tudo revelado, a imprensa paulista seguiu destacando suas capacidades atléticas, sem vinculá-lo, em nenhuma medida, a toda trama farsesca da maratona do Parque Antártica. Em novembro de 1910, Pietri já participava de corridas em Roma.

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* Todas as imagens disponíveis em http://mentalfloss.com/article/31449/scenes-1908-london-olympic-marathon.


Nos calabouços da ciência

03/10/2016

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Interessados em descobertas científicas talvez desconheçam os procedimentos que operam nos bastidores das ciências. Geralmente, trata-se de um universo obscuro e cheio de jargões, inteiramente vedado, portanto, apenas aos técnicos mais altamente qualificados. Um dos principais mecanismos na regulação da produção de conhecimentos científicos novos é a “revisão por pares”, pomposamente chamado, em inglês, que é língua oficial da ciência, “peer review”. Basicamente, é um procedimento em que um, dois ou mais especialistas avaliam os resultados de uma pesquisa antes deles se tornarem públicos. A justificativa fundamental é a de que o material que comunica os resultados das pesquisas (geralmente artigos, mas às vezes também livros), devem ter sua confiabilidade e relevância assegurados por especialistas no assunto. Assim, todo conhecimento científico divulgado teria, então, passado por um crivo avaliativo rigoroso que lhe garantiria a excelência.

Para ampliar ainda mais as isenções e garantias do processo, tudo se passa de maneira anônima, de modo que os autores da pesquisa desconhecem a identidade dos avaliadores, bem como os autores desconhecem também a identidade dos avaliadores. A isso chama-se “duplo cego”. Todo acadêmico profissional confronta-se com esse sistema de julgamento, seja para publicar os resultados de suas pesquisas, seja antes para acessar recursos financeiros que garantem a sua realização.

Curiosamente, apesar da onipresença da revisão por pares no cotidiano científico, o assunto tem sido pouco explorado cientificamente. Mecanismos de avaliação de mérito, em que o avaliador é anônimo, são de fato capazes de assegurar a excelência de um trabalho científico? A própria ausência de publicidade que cerca o processo impede análises confiáveis sobre o assunto. Afinal, diante de tanto sigilo, quem pode avaliar o avaliador?

Esforços de estudar mais profundamente a revisão por pares já caracterizaram o processo como “altamente subjetivo”, “propenso a divergências”, “facilmente abusivo”, “limitado na identificação de erros graves” e “quase inútil na detecção de fraudes” (a síntese é de Mario Biagioli, da Universdade de Harvard, em artigo sobre a história da revisão por pares, publicado na revista Emergences). Negligência, incompetência, plágio e conflito de interesses têm sido também documentado entre avaliadores.

Especialistas em fraudes científicas estimam que mais de 50% dos artigos científicos publicados podem conter fraudes ou erros graves, apesar de terem sido previamente submetidos à revisão de especialistas. Estudo sobre artigos biomédicos publicados desde 1975 chegou a identificar que quase 70% deles continham algum tipo de má conduta científica, tais como fraude, suspeita de fraude, publicação duplicada ou plágio. Por outro lado, pesquisas importantes, que depois acabaram obtendo prêmios Nobel, foram rejeitadas durante a revisão por pares. As descobertas de Gerd Binning e Heinrich Rohrer, por exemplo, que permitiram o microscópio capaz de obter imagens de átomos e moléculas ao nível atômico, foi rejeitado pela revista Science, baseado em parecer anônimo que classificava o artigo como não sendo suficientemente interessante. Em entrevista recente a King’s Review Magazine, em fevereiro de 2014, Sidney Brenner, vencedor do Prêmio Nobel de Medicina ou Fisiologia de 2002, botou a boca no trombone e classificou a revisão por pares como “muito distorcida” e “completamente corrupta”.

São sempre muito tênues as fronteiras entre crítica e censura no processo de revisão por pares, especialmente porque critérios de julgamento científico quase nunca serão unívocos ou consensuais. É perfeitamente possível que dois diferentes especialistas tenham apreciações inteiramente divergentes a respeito de um mesmo artigo. O artigo original, inovador e relevante para uns, pode ser medíocre, redundante e sem fundamento para outros. E divergências agudas desse tipo acontecem com frequência. Diante dos inúmeros impasses possíveis, tende a predominar a percepção de quem está em posição de vantagem e com o poder de julgar: o anônimo revisor.

Nesse contexto, mais que apenas avaliar o mérito científico de resultados de pesquisa, a revisão por pares por vezes pode se confundir com mero exercício de poder, em que especialistas encarregados de revisarem artigos, escondidos em seus anonimatos, impõem seus próprios juízos, decidindo o que deve ou não ser vinculado publicamente. O resto é história, ou deveria sê-lo, não fossem as inúmeras formas de divulgação disponíveis atualmente.

Agora mesmo, depois de ter um artigo sobre história do esporte rejeitado pela Revista Brasileira de Ciências do Esporte, julguei por bem disponibilizá-lo aqui (porque-ainda-nao-sou-elisiano-blog). Além do artigo, como anexos, disponibilizo ainda o parecer dos revisores anônimos (anexos 1 e 2) e uma carta que enviei aos editores contestando o conteúdo da avaliação (anexo 3). Suponho que o artigo em si, bem como a exposição de todo o processo de avaliação que lhe acompanha, possa ser de algum interesse aos historiadores do esporte ou entusiastas no assunto. Para poupar o tempo e a paciência do leitor, vou privá-lo de quaisquer outros comentários sobre detalhes técnicos do artigo ou da discussão que lhe seguiu. O material em anexo já deve ser suficiente.