Nos calabouços da ciência

03/10/2016

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Interessados em descobertas científicas talvez desconheçam os procedimentos que operam nos bastidores das ciências. Geralmente, trata-se de um universo obscuro e cheio de jargões, inteiramente vedado, portanto, apenas aos técnicos mais altamente qualificados. Um dos principais mecanismos na regulação da produção de conhecimentos científicos novos é a “revisão por pares”, pomposamente chamado, em inglês, que é língua oficial da ciência, “peer review”. Basicamente, é um procedimento em que um, dois ou mais especialistas avaliam os resultados de uma pesquisa antes deles se tornarem públicos. A justificativa fundamental é a de que o material que comunica os resultados das pesquisas (geralmente artigos, mas às vezes também livros), devem ter sua confiabilidade e relevância assegurados por especialistas no assunto. Assim, todo conhecimento científico divulgado teria, então, passado por um crivo avaliativo rigoroso que lhe garantiria a excelência.

Para ampliar ainda mais as isenções e garantias do processo, tudo se passa de maneira anônima, de modo que os autores da pesquisa desconhecem a identidade dos avaliadores, bem como os autores desconhecem também a identidade dos avaliadores. A isso chama-se “duplo cego”. Todo acadêmico profissional confronta-se com esse sistema de julgamento, seja para publicar os resultados de suas pesquisas, seja antes para acessar recursos financeiros que garantem a sua realização.

Curiosamente, apesar da onipresença da revisão por pares no cotidiano científico, o assunto tem sido pouco explorado cientificamente. Mecanismos de avaliação de mérito, em que o avaliador é anônimo, são de fato capazes de assegurar a excelência de um trabalho científico? A própria ausência de publicidade que cerca o processo impede análises confiáveis sobre o assunto. Afinal, diante de tanto sigilo, quem pode avaliar o avaliador?

Esforços de estudar mais profundamente a revisão por pares já caracterizaram o processo como “altamente subjetivo”, “propenso a divergências”, “facilmente abusivo”, “limitado na identificação de erros graves” e “quase inútil na detecção de fraudes” (a síntese é de Mario Biagioli, da Universdade de Harvard, em artigo sobre a história da revisão por pares, publicado na revista Emergences). Negligência, incompetência, plágio e conflito de interesses têm sido também documentado entre avaliadores.

Especialistas em fraudes científicas estimam que mais de 50% dos artigos científicos publicados podem conter fraudes ou erros graves, apesar de terem sido previamente submetidos à revisão de especialistas. Estudo sobre artigos biomédicos publicados desde 1975 chegou a identificar que quase 70% deles continham algum tipo de má conduta científica, tais como fraude, suspeita de fraude, publicação duplicada ou plágio. Por outro lado, pesquisas importantes, que depois acabaram obtendo prêmios Nobel, foram rejeitadas durante a revisão por pares. As descobertas de Gerd Binning e Heinrich Rohrer, por exemplo, que permitiram o microscópio capaz de obter imagens de átomos e moléculas ao nível atômico, foi rejeitado pela revista Science, baseado em parecer anônimo que classificava o artigo como não sendo suficientemente interessante. Em entrevista recente a King’s Review Magazine, em fevereiro de 2014, Sidney Brenner, vencedor do Prêmio Nobel de Medicina ou Fisiologia de 2002, botou a boca no trombone e classificou a revisão por pares como “muito distorcida” e “completamente corrupta”.

São sempre muito tênues as fronteiras entre crítica e censura no processo de revisão por pares, especialmente porque critérios de julgamento científico quase nunca serão unívocos ou consensuais. É perfeitamente possível que dois diferentes especialistas tenham apreciações inteiramente divergentes a respeito de um mesmo artigo. O artigo original, inovador e relevante para uns, pode ser medíocre, redundante e sem fundamento para outros. E divergências agudas desse tipo acontecem com frequência. Diante dos inúmeros impasses possíveis, tende a predominar a percepção de quem está em posição de vantagem e com o poder de julgar: o anônimo revisor.

Nesse contexto, mais que apenas avaliar o mérito científico de resultados de pesquisa, a revisão por pares por vezes pode se confundir com mero exercício de poder, em que especialistas encarregados de revisarem artigos, escondidos em seus anonimatos, impõem seus próprios juízos, decidindo o que deve ou não ser vinculado publicamente. O resto é história, ou deveria sê-lo, não fossem as inúmeras formas de divulgação disponíveis atualmente.

Agora mesmo, depois de ter um artigo sobre história do esporte rejeitado pela Revista Brasileira de Ciências do Esporte, julguei por bem disponibilizá-lo aqui (porque-ainda-nao-sou-elisiano-blog). Além do artigo, como anexos, disponibilizo ainda o parecer dos revisores anônimos (anexos 1 e 2) e uma carta que enviei aos editores contestando o conteúdo da avaliação (anexo 3). Suponho que o artigo em si, bem como a exposição de todo o processo de avaliação que lhe acompanha, possa ser de algum interesse aos historiadores do esporte ou entusiastas no assunto. Para poupar o tempo e a paciência do leitor, vou privá-lo de quaisquer outros comentários sobre detalhes técnicos do artigo ou da discussão que lhe seguiu. O material em anexo já deve ser suficiente.


A moda da corrida de rua

09/05/2016

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Milhares de pessoas começaram a correr pelas ruas, estradas, praias e parques ao longo da década de 1970. Como quase sempre, havia antecedentes, claro, pois antes disso, homens corriam já médias ou longas distâncias como forma de exercício físico. Todavia, depois de 1970, o alcance e as características desse costume assumiram feições bastante originais.

Em escala global, uma vez que afetou simultaneamente vários países, grupos antes excluídos da órbita das prescrições médicas em favor da atividade física foram plenamente integrados como parte de seu público-alvo. Era o caso das mulheres e dos homens com mais de 40 anos. A recomendação médica de práticas regulares de atividades físicas já não estava confinada apenas aos homens jovens e saudáveis. Até portadores de doenças cardíacas passaram a ser incentivados a realiza-los. Assim, ampliou-se muitíssimo o universo potencial de adeptos da corrida de rua e de outras formas de exercícios. O resultado logo se fez notar.

“As calçadas de Copacabana, Ipanema, Leblon e Lagoa [bairros do Rio de Janeiro] estão repletas de cultores da nova mania”, dizia reportagem do Jornal do Brasil, em 1979. “Os primeiros chegam às 5 da manhã e os últimos só saem tarde da noite. Os homens com mais de 40 anos são a esmagadora maioria, vindo logo depois alguns jovens e uma pouco eficiente – mas muito colorida – minoria feminina […] Homens e mulheres andam e correm motivados pelos mais diversos desejos e ansiedades, que podem ser resumidas num objetivo: melhorar o corpo e a cuca. Lá pelas 7 da manhã há quase congestionamento nas calçadas”.

Veja

Capa da Revista Veja noticiando o significativo e abrupto aumento do número de praticantes de corrida. Fonte: Veja, 26 jul. 1972, n. 203.

Além da prática esportiva propriamente dita, essas transformações também afetaram um amplo mercado de produtos e serviços, que ia desde equipamentos sonoros para uso durante a corrida, até marcador de batidas do coração, passando por pedômetros, cronômetros, cintos com luzes para corrida noturna, bastão para afugentar cachorros, anel para marcar o número de voltas, bebidas especiais para hidratação corporal, chicletes contra a sede, vitaminas, revistas, livros, filmes, calçados, calções e camisetas para o frio ou para o calor. Afora os muito propalados benefícios para a saúde, a corrida também ia produzindo muito dinheiro.

Imagem 1 - JB, 25 mai. 1979, n. 47, p. 4, Caderno B

Propagandas de produtos, geralmente norte-americanos, ofertados no e para o contexto da ampliação do número de adeptos da corrida de rua. Fonte: Jornal do Brasil, 25 mai. 1979, n. 47, p. 4, Caderno B.

Em 1978, os organizadores da Semana de Moda de Nova York dedicaram o Coty Award, importante prêmio da alta costura, a Charles Suppon, estilista que confeccionara toda uma coleção inspirada nos esportes. A estilista Monika Tilley, já desde antes reputada por desenhar roupas para esportes, também ganhou destaque naquele desfile. Sua coleção apresentava roupas colantes e com cores vibrantes, declaradamente inspiradas nos esportes. Segundo ela, “se as pessoas gostam de si mesmas, gostam de moda. E se gosta de si, gostam de cuidar do corpo, de fazer esportes”.

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Estilistas inspiravam-se nos esportes para suas coleções, quando não confeccionavam especificamente para sua prática. Fonte: Jornal do Brasil, 27 jun. 1978, n. 80, p. 4, Caderno B.

Nas coleções de verão ou de inverno, em Paris ou em Nova York, a moda do fim dos anos 1970 foi fortemente marcada pelos esportes. O uso da malha ou de outros tecidos tecnologicamente mais sofisticados, como o jeans elástico ou os couros falsos, era frequentemente associado a influências ou inspirações vindas dos campos de esporte. Até cortes de cabelo foram associados ao “jogging”, como era chamado a corrida de rua na época. Simplicidade, praticidade e funcionalidade seriam algumas das principais características destes estilos, não por acaso, resumidas pelos especialistas da época como “jovem, comercial e usável”.

Imagem 2 - JB, 2 out. 1979, n. 177, p. 5, Caderno B

Fonte: Jornal do Brasil, 2 out. 1979, n. 177, p. 5, Caderno B.

Na esteira do novo entusiasmo com a prática de esportes, as novas tendências da moda também se fizeram notar no Brasil. Mais que isso, em meio a uma crise financeira que afetava o setor, itens de vestuário inspirados ou destinados à prática de esportes lideravam as vendas e garantiam o lucro de fabricantes, logo convertendo-se, segundo palavras de uma colunista de moda do Jornal do Brasil, na “grande fonte de tostões para os costureiros”. Destacavam-se nesse cenário os chamados “conjuntos training”, com blusões e calças de malha para a corrida ou outros esportes.

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Fontes: (esquerda) Jornal do Brasil, 27 jun. 1978, n. 80, p. 5, Caderno B; (direita) Jornal do Brasil, 11 ago. 1979, n. 125, p. 8, Caderno B.

Geraldo Assunção, por exemplo, era um dos estilistas que tentava explorar comercialmente a tendência, confeccionando macacões, camisetas, shorts, blusões, blazers e calças de malha inspiradas na imagem saudável e jovem dos praticantes de corrida, tênis ou iatismo. Perspicaz, Geraldo Assunção notara, à sua maneira, que os esportes eram mais que simples práticas; eram também poderosos e massificados símbolos cultuais, socialmente disponíveis a muitos fins, incluindo a articulação de identidades coletivas ou apresentação individual de si mesmo, o que os tornavam particularmente úteis para a indústria da moda, que soube então aproveitá-los com muita sagacidade. Conforme ele mesmo explicava, “não é moda para quem quer emagrecer, ou evitar o enfarte. É estilo criado por quem tem dezoito anos, e quer sair de tênis colorido, em dois números acima do seu pé e calça apertada na barra. Nem todos querem se cansar andando de bicicleta em volta do quarteirão, mas todo mundo gosta de aparentar dezoito anos”.

O traje “esporte-fino” talvez seja um dos vestígios mais persistentes, reveladores e corriqueiros das peculiares relações históricas entre o universo da moda e o dos esportes. Pois sintomaticamente, tudo a que este modo de vestir-se não se presta é a prática de esportes.


Esportes nos confins da civilização

14/12/2015

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Mato Grosso, que até 1978 abrangia também o atual Mato Grosso do Sul, é uma região que ocupa um lugar peculiar no imaginário brasileiro. Situado no extremo oeste do território nacional, nas fronteiras com a Bolívia e Paraguai, Mato Grosso foi e é ainda representado como um lugar distante, isolado e atrasado. De acordo com esta representação, quaisquer elementos de progresso material ou simbólico estariam ausentes da região. Mato Grosso, portanto, seria o lugar da falta de sofisticação dos comportamentos urbanos, marcado, ao invés disso, por uma ruralidade arcaica e temporalmente imóvel, onde transformações não chegam ou demoram muitíssimo a chegar.

Esses enquadramentos explicam parcialmente a ausência de pesquisas históricas sobre os esportes no Mato Grosso. Usualmente, o estudo histórico dos esportes esteve associado a um cenário social de progresso, urbanização e modernidade, de tal maneira que a vinculação desta prática a uma região como o Mato Grosso pareceria até uma contradição em termos. Todavia, uma arqueologia nos arquivos da região bem podem frustrar essas expectativas.

Até o final da década de 1910, futebol, tiro, turfe, remo e patinação estiveram entre as modalidades conhecidas em Mato Grosso. Depois disso, acrescentar-se-ia a esta lista, boxe, ciclismo, atletismo, tênis, basquete e vôlei. Em princípios do século, apenas as duas maiores cidades da região na época conheceram esportes de maneira regular: Cuiabá e Corumbá. Logo depois, porém, Campo Grande, Três Lagoas, Cáceres, Coimbra, Porto Murtinho, Ponta Porã, Lageado, Miranda, Aquidauana e Maracaju também conheceriam.

Mapas

Na esquerda: localização do antigo Mato Groso (em 1978, dividido em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul). Na direita, cidades que registraram o início da prática de esportes na região até 1920.

O espaço dedicado aos esportes nos jornais locais também cresceu. Ainda em 1914, o jornal O Debate, de Cuiabá, criou uma sessão especial dedicada aos esportes: Gazeta Esportiva. Em 1920 havia já notícias sobre a criação, em Cuiabá, de um jornal intitulado O Athleta, “órgão esportivo, literário e crítico, visando contribuir ao progresso intelectual e moral da mocidade”. Em 1931, também em Cuiabá, foi criado ainda o jornal O Sport, “órgão de propaganda esportiva”.

Grupos socialmente mais heterogêneos pouco a pouco se envolveram com o assunto. Além dos homens de elite, que estiveram entre os esportistas pioneiros, mulheres e grupos populares também começaram a praticar ou assistir competições esportivas diversas.

Sportwoman MT

Sportwomen do Sport Club Feminino, ligado ao Riachuelo Futebol Clube, de Corumbá, em 1923. Fonte: BAEZ, Renato. Corumbá, futebol e copa: história de todas as copas do mundo. Corumbá. s.l, s.n, 1966, s/p.

Nessa época ainda, iniciativas governamentais começaram a levar em consideração reinvindicações de apoio apresentadas por dirigentes de instituições esportistas. Em meados da década de 1910, políticos já prometiam apoio a iniciativas esportivas, o que demonstrava a importância social e simbólica que a prática ia conquistando. Todavia, boa parte dessas promessas não ultrapassaram o plano das intenções, não se efetivando jamais. A partir da década seguinte, porém, medidas governamentais mais concretas com relação aos esportes começaram a ter lugar. Melhoramentos urbanos edificados para a celebração do bicentenário de Cuiabá, por exemplo, previam já espaços para competições de futebol, turfe e tênis. Em conjunto, tudo isso revela nova dinâmica histórica que afetava o esporte no Mato Grosso a partir dos anos 1920.

Estádio MT

Arquibancada construída para campeonato estadual de 1936, em Corumbá.  Fonte: BAEZ, Renato. Corumbá, futebol e copa: história de todas as copas do mundo. Corumbá. s.l, s.n, 1966, s/p.

Desde princípios dos anos 1920, jornais mato-grossenses começariam a dar notícias da predileção por esportes que ia se incrementando na região, destacando-se “grande concorrência de pessoas”, às vezes “multidões em verdadeiro delírio”, o que equivalia, naquele contexto, a 500, 1.500 ou talvez 2.000 pessoas.


Esportista, militar e cidadão

31/07/2015

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

O associativismo civil tem sido apontado como elemento histórico importante para a difusão de esportes, onde a fundação de clubes, ligas ou federações aparece como dinâmica privilegiada desse processo. No entanto, ao lado deste aspecto, seguramente relevante, outros agentes desempenharam papel igualmente decisivo. As organizações militares estão entre elas.

Em princípios do século 20, depois de sucessivos resultados militares embaraçosos, a elite do Exército brasileiro preocupava-se sobremaneira e não sem razões com as fragilidades na defesa do país. Ao lado da falta de equipamentos, a preparação dos soldados era vista como motivo importante para tal situação. A Primeira Guerra Mundial e um estado de beligerância aparentemente generalizado só reforçava essas apreensões. Como alternativa, sugeria-se adoção do alistamento militar obrigatório e a revisão dos mecanismos para formação de oficiais e treinamento de soldados. Reformas curriculares foram uma das medidas nesse sentido, especialmente diante da tradição bacharelesca e positivista que predominava nos cursos de formação militar.

Competição de vôlei no pátio do 3 Batalhão de Caçadores Mineiros, em Diamantina, 1935. Autoria: Photo Werneck. Fonte: Arquivo Público Mineiro.

Competição de vôlei no pátio do 3º Batalhão de Caçadores Mineiros, em Diamantina, Minas Gerais, 1935. Autoria: Photo Werneck. Fonte: Arquivo Público Mineiro.

Vários militares formados neste novo contexto institucional, engajados já com a organização de treinamentos que enfatizavam habilidades propriamente militares, oferecidos para o crescente número de recrutas que ingressavam agora compulsoriamente no Exército, acabaram desempenhando também grande protagonismo na difusão de esportes em várias regiões do Brasil. Primeiro, o esporte era cada vez mais assimilado como recurso para a preparação de soldados. Segundo, devido a característica mobilidade territorial da carreira militar, que frequentemente exigia transferências por diferentes rincões do país, a atuação destes grupos como veículos de intermediação para a difusão de esportes tornou-se mesmo privilegiada. A trajetória de personagens como Roberto Drummond ilustra bem a maneira como se dava essa dinâmica.

Nascido em Pernambuco em 1902, Drummond alistou-se voluntariamente no Exército em 1917. No ano seguinte, iniciou seus estudos na Escola da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. Em 1921 foi designado para o Regimento de Artilharia Montada, em Itú, interior de São Paulo, logo destacando-se pelo “desvelo e competência na instrução dos conscritos do Regimento”, contribuindo eficazmente “para o sensível progresso da instrução do grupo”, conforme registrou seu capitão, em anotação da caderneta depositada no Arquivo Histórico do Exército.

Desenho de Roberto Drummond. Fonte: Desenho de “Gerson”. O Pais, Rio de Janeiro, 11 nov. 1928, n. 16093, p. 4.

Gravura de Roberto Drummond. Fonte: Desenho de “Gerson”. O Pais, Rio de Janeiro, 11 nov. 1928, n. 16093, p. 4.

Em Itú, encarregou-se ainda de dirigir os trabalhos no campo de instrução, especialmente a conservação de uma pista de obstáculos e a construção de um campo de tênis e outro de futebol, ao mesmo tempo em que cuidava dos exercícios de tiro do regimento. Foi também nomeado membro da comissão esportiva do regimento, organizando ou participando de campeonatos de atletismo, esgrima, equitação e futebol, em locais tão diversos como Itú, Lorena, Pirassununga, Rio de Janeiro ou São Paulo. Muitos desses eventos esportivos extrapolavam os muros dos quartéis, envolvendo também associações civis e amplificando assim os efeitos dessa atuação. Entre outras coisas, isto justificava os louvores públicos que seriam repetidas vezes endereçadas ao tenente Drummond por seus superiores pela “atividade entusiástica patente e capacidade incontestável da direção de torneios” ou “pela sua ardorosa e profícua atuação como encarregado dos desportos”.

Drummond Hipodromo

Competição hípica no Rio de Janeiro, vencida pelo Tenente Roberto Drummond, representando o Hyppophilo Club, de Itu. Fonte: Revista da Semana, Rio de Janeiro, 24 nov. 1923, n. 48, p. 18.

Ao ser transferido em 1925 para o Regimento de Artilharia Mista, no Mato Grosso do Sul, Drummond continuou ativamente envolvido com os esportes em diferentes partes, organizando festas esportivas em Campo Grande, participando de jogos de futebol contra equipes civis em Três Lagoas, coordenando equipes esportivas em competições em Aquidauana, tudo isso sem nunca descuidar da instrução militar de conscritos e mesmo de oficiais.

Em 1927, Drummond ingressou na Escola de Aviação Militar, no Rio de Janeiro, onde foi nomeado para organizar um campo de instrução física, além de ter assumido a responsabilidade pelos esportes do Grupo de Aviação, que incluiu uma vitoriosa equipe de futebol. Orgulhosamente, o comandante da Escola registrou que o trabalho do tenente Drummond nos campos de esporte só fazia concorrer para o aumento do prestígio e respeitabilidade das instituições militares.

Tragicamente, porém, a ascendente trajetória militar e esportiva do tenente Roberto Drummond foi interrompida por um acidente. Em 01 de novembro de 1928, por volta das 10 horas da manhã, o avião Morane Saulnier 137, que Drummond pilotava, caiu nas águas da baía de Guanabara durante uma manobra não autorizada, matando-o e deixando seu copiloto gravemente ferido.

A esta altura, o intenso envolvimento do tenente Drummond com os esportes estava longe de ser excepcional. Como ele, inúmeros praças e oficiais participavam, organizavam ou estimulavam diversas modalidades esportivas, dentro e fora dos quartéis. Sintomaticamente, os primeiros a chegarem no local do acidente aéreo que vitimou o tenente Drummond foram os “atletas” do 3º Regimento de Infantaria, cujos “braços vigorosos” e “grande energia”, destacou a imprensa, permitiu-lhes remar com extrema velocidade a baleeira General Menna Barreto, a tempo de socorrer com vida o outro militar que tripulava a aeronave.

“Atletas” do 3 Regimento de Infantaria que remaram a baleeira usada na operação de resgaste do avião Morane Saulnier 137. Fonte: O Malho, Rio de Janeiro, 10 nov. 1928, n. 1365, p. 36.

Os “vigorosos atletas” do 3º Regimento de Infantaria que remaram a baleeira usada na operação de resgaste do avião Morane Saulnier 137. Fonte: O Malho, Rio de Janeiro, 10 nov. 1928, n. 1365, p. 36.


Boxe no Mato Grosso

23/03/2015

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Em 2012, reportagem da TV Morena, filiada da Rede Globo no Mato Grosso do Sul, destacou os bons resultados obtidos pela equipe de boxe de Ponta Porã. Na época, a equipe havia obtido 5 medalhas de ouro, 6 de prata e de 1 bronze no circuito sul-mato-grossense de boxe. Além disso, faturou ainda o prêmio de melhor técnico e de atleta revelação. Júlio “Field”, um dos destaques da equipe, com mais de 60 lutas no cartel, já havia se sagrado vice-campeão brasileiro e campeão do centro-oeste.

 http://globotv.globo.com/tv-morena/globo-esporte-ms/v/boxe-conheca-a-equipe-de-ponta-pora/2101995/

São antigos o entusiasmo e o envolvimento dos mato-grossenses pela arte do pugilato. Desde meados da década de 1920, há registros da crescente popularidade da modalidade em toda a região. Nessa época, o Circo Quevaz promovia lutas de boxe em Corumbá, despertando grande entusiasmo entre o povo, segundo diziam os jornais. O boxe já era mesmo comparado ao futebol em popularidade.

Em Campo Grande, com efeitos similares, o Trianon-Cine exibia com interesse e destaque o filme “Pulso de ferro”, que apresentava luta entre o galã Richard Dix e o ex-campeão mundial Jack Renault. De acordo com propagandas que lhes anunciavam, tratar-se-ia de “um filme agradável, romântico e de emoções intensas”, “uma formidável luta de boxe” ou mesmo “a maior luta de boxe até hoje filmada”.

Richard Dix

O galã Richard Dix no cartaz promocional do filme “Punhos de Ferro”. Fonte: http://www.richarddix.org/knockout.htm

Nesse contexto, Ponta-Porã se destacava já como importante centro de desenvolvimento do esporte na região. Localizada no extremo sudoeste do atual Mato Grosso do Sul, o boxe na cidade beneficiou-se da sua proximidade com o Paraguai, onde havia já uma tradição de pugilato. Sintomaticamente, revanches de lutas realizadas anteriormente em Assunção ou Conceição do Paraguai começariam a se organizar nessa época em Ponta Porã.

Em princípios de 1927, lutas no Cinema e Circo Palma atraiam grande assistência, logo tomada e apresentada pela imprensa local como “prova do interesse que vai o público tomando pelo delicado desporto”. Apesar da fina ironia em classificar o boxe como desporto “delicado”, os jornais não deixariam nunca de ceder espaço a promoção desses eventos, tentando se aproveitar comercialmente da ocasião. Além de alimentar expectativas ao redor das lutas, os jornais serviam também como intermediários para o lançamento de desafios ou eventuais trocas de ofensas entre lutadores ou seus treinadores e empresários. A luta entre os paraguaios Isidro Flores e Ignacio Flores, por exemplo, iniciou-se com a publicação de cartas de provocação nas páginas do jornal O Progresso. Numa delas, em español, o empresário de Ignacio Flores dizia: “en contestacion al desafio hecho por el aficionado señor Isidro Flores, y en representación de mi pupilo, [ello] acepta las proposiciones de dicho match”.

Ignacio Flores, o campeão peso leve paraguaio, em destaque na imprensa de Ponta Porã. Fonte: O Progresso, Ponta Porã. 18 set. 1927, n.291, p.3

Ignacio Flores, o campeão peso leve paraguaio, em destaque na imprensa de Ponta Porã. Fonte: O Progresso, Ponta Porã. 18 set. 1927, n.291, p.3

O mercado de organização de lutas de boxe na cidade parece ter se intensificado nessa época. Figuras como Mathias Canela, antes protagonista de lutas de boxe, passariam a atuar como empresários, agenciando a participação de lutadores estrangeiros, especialmente paraguaios, em turnês de boxe em Ponta Porã e outras cidades do Mato Grosso ou mesmo de outros Estados. Aqui também a imprensa era peça-chave do processo, apresentando lutadores, destacando suas qualidades, glorificando seus feitos e legitimando suas credibilidades esportivas enfim.


Samba, futebol e jogo do bicho

03/11/2014

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

 A região de Bangu, Padre Miguel e adjacências, destaca-se, além do poder de seus termômetros, que frequentemente ultrapassam a marca dos 40º, por uma conhecida história de articulação entre alguns dos mais importantes e arquetípicos símbolos da cultura popular carioca: o samba, o futebol e o jogo do bicho. Duas das mais perenes instituições da região, a escola de samba Mocidade Independente de Padre de Miguel e o time de futebol do Bangu Atlético Clube, compartilham elementos comuns em suas histórias, entre os quais, o fato de terem se ligado a um dos mais famosos proprietários de bancas de jogo do bicho de sua época: Castor de Andrade.

Castor Andrade, em desfile da Mocidade, na Marquês de Sapucaí

Castor Andrade, em desfile da Mocidade, na Marquês de Sapucaí

Filho de Eusébio Gonçalves de Andrade, mais conhecido como “Seu” Zizinho, Castor de Andrade herdou do pai bancas de jogo do bicho, que soube transformar depois, com empenho e dedicação, num poderoso império da contravenção. Castor de Andrade tornou-se um dos mais conhecidos “bicheiros” de sua época, não apenas pelo poder econômico acumulado, mas também pelas lendárias histórias que lhe cercavam, sempre no limite entre o mito e a realidade. Segundo declarara certa vez a Revista Placar: “Eu não compro juiz. Ligo pra ele e digo: você não pode errar. Nada de coação. Só um jeitinho especial”.

Episódios envolvendo o nome de Castor, como até hoje é intimamente lembrado por muitos moradores da região, fazem mesmo parte do amplo repertório de mitos, lendas e folclores do futebol brasileiro. Castor era uma espécie de Eurico Miranda dos anos 60, 70 e 80. Sob o seu comando, que durou mais de 20 anos, o time do Bangu foi campeão carioca em 1966 e vice campeão brasileiro em 1985. Castor assistia aos jogos do time de dentro do campo – sempre armado, claro, para qualquer eventualidade. Certa vez, Castor presenteou o jogador Marcelinho com um fusca. O jogador faltava aos treinos frequentemente alegando que morava longe. Ao oferecer-lhe o presente, Castor teria feito questão de compartilhar com o atleta suas novas expectativas com relação ao seu comportamento: “Agora não quero mais ver você faltar aos treinos. Se faltar, te dou um tiro”.

Graças em larga medida a sempre generosa disponibilidade financeira de Castor, parte da equipe de futebol do Bangu formou o que ficaria conhecido nessa época como “o esquadrão da malandragem”. Eram jogadores de futebol mais experientes, acima dos 30 anos, que gozavam de regalias e amplo clima de liberdade no clube. Ganhavam carros, apartamentos ou dinheiro extra de presente, além de poderem interferir na organização tática do time e ainda ter autorização para fazer churrasco ou beber chope depois dos treinos. Tudo isso, na opinião de Marco Antônio, lateral-esquerdo da seleção brasileira de 70 e membro deste esquadrão, fazia do time do Bangu o “paraíso do futebol brasileiro”. Segundo dissera, “o Castor é a Serra Pelada da minha vida”.

Capa Placar - Castor

Castor de Andrade, na capa da Revista Placar (2 ago. 1985, n. 793)

Na opinião de Castor, todavia, não se tratavam de malandros propriamente ditos, mas sim de jogadores de futebol que mesclavam equilibradamente sabedoria e picardia, “uma forma mais refinada de malandragem”, de acordo com palavras da peculiar filosofia do “bicheiro”. O jogador Carlos Roberto também via a liberdade praticada na organização do time do Bangu sob outra perspectiva. Para ele, não se tratava de um ambiente desordenado, mas sim de uma democracia, “uma democracia à moda Bangu”.

Mascote Bangu

Charge de autor desconhecido, sem data, representando Castor de Andrade, o símbolo do Bangu Atlético Clube e o seu novo mascote. Fonte:http://futebolinteriorano.blogspot.com.br/2011_10_01_archive.html

No mundo do samba, como patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel, Castor viu a escola vencer os campeonatos de 1979 e 1985, além dos vice-campeonatos de 1980 e 1987. Foi a era de ouro da agremiação. Não sem razão, o nome da família Andrade já fora mais de uma vez imortalizado em verso e prosa em sambas da região.

Quero agradecer ao Sr. Zizinho

O nosso presidente de verdade

Também não posso deixar de falar

No grande Castro de Andrade…

 Em 1981, ao lado do brasão desenhado por José Vilas Boas em 1904, a camisa da equipe banguense passaria a ostentar o novo mascote do time: um castor, que simbolizava, de maneira bastante óbvia, uma homenagem ao grande benemérito e futuro patrono da equipe, que inaugurara, de fato, nova era para o time conhecido outrora como o dos “mulatinhos rosados”, mas com um futebol insistentemente classificado pela imprensa esportiva carioca como “crioulo”, “malandro” e “aguerrido”.


Samba e futebol no subúrbio carioca

30/06/2014

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Alguns dos nossos blogueiros são homens da periferia; suburbanos de nascimento que inevitavelmente carregam consigo as marcas dessa história. Pois como já ensina o famoso dito popular: o indivíduo pode até sair da favela, mas a favela não sai do indivíduo.

Dr. Victor Melo, por exemplo, nasceu e cresceu no Jabour, o elegante bairro localizado entre Bangu e a Favela do Sapo, em Senador Camará. Nei Jorge, cujo nome e sobrenome já denunciam suas origens de classe, também nasceu no subúrbio. É natural de Santa Cruz, embora as atuais transformações na estrutura econômica do Brasil o tenham conduzido até Campo Grande. Está visivelmente em ascensão social. É este também o meu caso, expatriado em Belo Horizonte, mas nascido e criado em Padre Miguel.

Todos esses bairros têm em comum, além de alguns elementos da sua história, a sua localização: a Zona Oeste do Rio de Janeiro. Para o leitor alheio a geografia carioca, esta é uma região – abre aspas – “feia, quente, pobre e longe pra caralho”. Sei que não é uma maneira adequada de se apresentar um lugar. Mas quem quiser conhecer a Zona Oeste do Rio terá de confrontar-se com realidades nem sempre agradáveis. Além do mais, é assim mesmo que os moradores dos bairros mais glamorosos referem-se àquela parte da cidade, embora, para muitos de seus nativos, a região guarde também seus encantos.

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Igreja de Santa Cecília, no pitoresco bairro de Bangu, emoldurado, de um lado e de outro, pelos bucólicos maciços montanhosos da Pedra Branca e do Gericinó. Pedro da Costa, sem data (http://ppedrodacosta.blogspot.com.br/p/paint-to-sell-obras-venda.html)

O bairro de Padre Miguel é um desmembramento tardio da freguesia de Realengo, ocupada, inicialmente, por sesmarias de propriedade da família Barata. O nome do futuro bairro, só oficialmente demarcado pela prefeitura em 1985, está ligado a Monsenhor Miguel de Santa Maria Mochon, nascido em Granada, na Espanha, em 1879.

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Monsenhor Miguel de Santa Maria Mochon, o padre Miguel

 Miguel chegou ao Brasil por volta dos dez anos de idade. Pouco depois, tornou-se órfão, ficando desde então sob cuidados dos padres lazaristas. Depois de estudar no colégio dos salesianos, no seminário do Rio Comprido e de passar uma temporada na França, foi nomeado, em 1910, vigário da igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Realengo (atualmente na Av. Santa Cruz). Padre Miguel atuou ativamente por toda a região da paróquia, não só em assuntos religiosos, mas também em atividades educacionais e culturais, como abertura de escolas, organização de teatros ou exibição de filmes. Seu ativismo lhe angariou bastante respeito e consideração.

Uma dinâmica de ocupação mais intensa do futuro bairro só aconteceria a partir do final da década de 1930, com o início da construção da estação ferroviária de Moça Bonita, inaugurada em 1940. A estação fazia parte do ramal de Angra, depois chamado também ramal de Mangaratiba, inaugurado em 1878.

Como efeito imprevisto das obras de construção dessa estação, trabalhadores começaram a ocupar terrenos nas suas imediações. O lugar logo passaria a ser chamado de Vila ou Favela do Vintém. O nome devia-se as condições de seus terrenos, que segundo dizia-se, não valiam nem sequer um vintém: em meio a um grande charco de água e distantes do centro da cidade. Estava aí o primeiro impulso para ocupação mais regular da região.

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Foto aérea do Estádio Proletário Guilherme da Silveira, mais conhecido como Estádio de Moça Bonita, do poderoso time do Bangu. Ao lado, a atual praça Guilherme da Silveira.

Com a morte de padre Miguel, em 1947, a diretoria da Estrada de Ferro Central do Brasil, atendendo a um pedido do Cardeal Dom Jaime Câmara, mudou o nome da estação de Moça Bonita, a fim de homenageá-lo. Era o início da identificação do bairro que conhecemos atualmente. Prova inconteste da nova identificação é o novo tratamento dispensado às instalações esportivas do bairro, nomeadamente o Estádio Proletário Guilherme da Silveira, do respeitável time do Bangu (inaugurado em 1947 em substituição ao antigo estádio da Rua Ferrer). Desse momento em diante, o “alçapão de Moça Bonita”, “a cancha dos mulatinhos rosados”, logo passou a ser designado pela imprensa esportiva da época como o Estádio de Padre Miguel – apesar da estação que servia aos passageiros nos dias de jogo nessa época já ser a de Guilherme da Silveira, construída, justamente, em 1947, entre as atuais estações de Bangu e Padre Miguel. Apesar de algum esforço para desfazer-se o mal-entendido, até os dias de hoje o estádio é mais conhecido como o de Moça Bonita.

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Foto aérea da construção dos Conjuntos Habitacionais, marco arquitetônico e civilizatório de Padre Miguel e adjacências

A partir da década de década de 1940, os Institutos de Aposentadoria e Pensão (IAPs), criados a partir de 1930, iniciaram uma grande política de construção de moradias populares. Milhares de novas unidades domiciliares foram espalhadas pela cidade, especialmente pelos bairros suburbanos, entre os quais, Realengo, Irajá, Olaria, Coelho Neto e Penha. Padre Miguel também foi afetado pela iniciativa. Dois conjuntos de prédios foram construídos no bairro nesse contexto, atualmente conhecidos como IAPIs do Ponto Chic e da Caixa d’Água. Pelas características do financiamento imobiliário dos IAPs, com exigência de vínculo empregatício formal por exemplo, o público prioritário de suas ações acabou sendo os níveis mais superiores da classe operária.

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Foto área mais recente de Padre Miguel. Do lado esquerdo, o Conjunto Habitacional Dom Helder Camara. Do lado direito, o IAP do Ponto Chic.

Com o novo perfil de moradores, seguido por um progressivo adensamento demográfico, dinamizou-se o comércio, os serviços e também o mercado de entretenimento de Padre Miguel. Além de instituições como cinema e clubes recreativos, como o CREIB, que numa época anterior aos lendários festivais de frango assado ao som da música de Bebeto, recebera até shows da Emilinha Borba, havia também cada vez mais clubes de futebol: Carioca, Onze Amigos, Ceres, entre outros. Um deles desdobrou-se em outra importantíssima instituição de lazer do bairro: uma escola de samba. Em 1955, o Independente Futebol Clube deu origem a Mocidade Independente de Padre Miguel, que dispensa apresentações.

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Cohab 1

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Crianças ocupam as ruas do Conjunto Dom Helder Camara em diferentes momentos. Acima, salvo improvável engano, dado que os mais experimentados podem caminhar de olhos fechados por suas ruas, foto da Rua Barra do Corda, mais precisamente entre a pracinha e a rua do valão (Rafael Galdo e Rogperio Daflon, O Globo, 11 mai. 2011) . No centro e abaixo, outro ponto da mesma rua, na esquina da Estrada Porto Nacional, entre meados dos anos 1970 e 1980, respectivamente (Arquivo pessoal de D. Lidia, que generosamente cedeu os créditos da imagem e autorizou seu uso).

Ampliando o processo, na década de 1960 inaugurar-se-ia o Conjunto Habitacional Dom Helder Câmara, parte de mais um projeto de construção de moradias populares – dessa vez flagrantemente mais proletárias. O maior de todos os conjuntos habitacionais já construídos no Rio de Janeiro, com 180 prédios e 7.200 apartamentos, incrementaria ainda mais a dinâmica social e cultural de Padre Miguel. Basta dizer que eu e Soninha Batista, prestigiada porta-bandeira da Mocidade entre 1978 e 1985, estivemos entre os ilustres moradores do Conjunto.

Numa época anterior ao crime organizado, às milícias ou à máfia dos caça-níqueis, a contravenção do jogo do bicho é quem fazia às vezes de patrono e bem feitor. Em Bangu e Padre Miguel, a família Andrade, através, sobretudo, do futebol e do samba, ficaria para sempre vinculada a história desses bairros e de duas de suas principais instituições. Mas isso são cenas de um próximo capítulo…

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Dedico este post ao Dr. Marcos Dias, pela bravura na conquista de seu diploma universitário. Em matéria de guarida irmão, esperaste muito a tua vez…


Os militares e os esportes

24/02/2014

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Em outra ocasião, já havia destacado o papel que militares exerceram sobre o desenvolvimento da educação física e do esporte em Goiás (veja aqui). A Companhia de Aprendizes Militares, por exemplo, criada em 1876 em regiões desprovidas de Arsenal de Guerra, foi a primeira instituição a oferecer práticas de ginástica na região.

Soldados alemães e ingleses disputam partida de futebol durante I Guerra Mundial, em episódio conhecido como a Tregua de Natal (1914). Fonte: http://oglobo.globo.com/blogs/pelada/posts/2012/12/27/paul-maccartney-a-tregua-de-natal-480176.asp

Soldados alemães e ingleses disputam partida de futebol durante I Guerra, em episódio conhecido como a Tregua de Natal. Fonte: http://oglobo.globo.com/blogs/pelada/posts/2012/12/27/paul-maccartney-a-tregua-de-natal-480176.asp

Com a proclamação da república, de maneira mais ampla e geral, a relação dos militares com a sociedade mudou. No novo regime, militares assumiram postura cada vez mais ativa na vida social e política nacional. E a participação em atividades de educação física e esporte foi uma das formas através da qual militares puderam exercer suas influências para além dos muros dos quartéis. Se em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, o desenvolvimento dos esportes esteve muito ligado a organização de entidades civis, como os clubes, em outras regiões, a progressiva capacidade de atuação de instituições militares em direção ao interior pode ter sido elemento igualmente decisivo para o estímulo de práticas esportivas.

Soldados norte-americanos jogam volei durante a II Guerra. Fonte: http://www.volleyballmag.com/articles/43002-spreading-the-gospel

Soldados norte-americanos jogam volei durante a II Guerra. Fonte: http://www.volleyballmag.com/articles/43002-spreading-the-gospel

Em Goiás, por exemplo, personagens como Floriano de Lima Brayner estão entre os principais articuladores das primeiras iniciativas para organização de esportes na região. Nascido na Paraíba do Norte em 1897, Floriano ingressou voluntariamente na Escola Militar de Realengo, no Rio de Janeiro, em 1913, aos 16 anos de idade. Depois de algumas dificuldades iniciais com os estudos, tendo sido reprovado no 1º ano do curso fundamental, tornou-se, finalmente, 2º tenente em 1918, fazendo praça no 2º Regimento da 1º Brigada de Infantaria, na recém-construída Vila Militar, no Rio de Janeiro. Ali, responsabilizou-se pelo exame de reservistas do Tiro de Guerra número 7, além da instrução de recrutas. Obteve êxito e bom desempenho nessas funções, a ponto de seu comandante registar lhe elogios no Boletim de Ordens do Dia, “pelo interesse que liga à sua honrosa função de instrutor”. Provavelmente pela comprovada capacidade de liderança na instrução de recrutas e reservistas, foi nomeado também “auxiliar de instrução de Football do Regimento”, conforme registra sua caderneta de assentamento – no Arquivo Histórico do Exército.

Na foto, Floriano de Lima Brayner, já Marechal, "pai do esporte em Goiás"

Na foto, Floriano de Lima Brayner, “pai do esporte em Goiás”, já no posto de Marechal. Fonte: http://www.stm.jus.br

Foi com essas credenciais que Floriano se viu transferido para o 6º Batalhão de Caçadores, em Goiás, em 1922. No novo posto, Floriano continuou se destacando pelo empenho nas atividades de instrução. Poucos meses depois de sua chegada, seus superiores já o elogiavam por “exercer as suas atribuições de administrador, instrutor e educador de modo digno de menção […] demonstrando muito interesse pela instrução”. A organização de “lindas tardes esportivas” fazia parte de seu reportório de realizações. Nessa época, seguindo prescrições do regulamento de instrução física militar de 1921, jogos esportivos já compunham parte dos programas de instrução de recrutas e reservistas dos tiros de guerra, que multiplicavam-se por todo o país.

Soldados britânicos jogam futebol na França durante II Guerra Mundial (1939). Fonte: http://www.historiadigital.org/curiosidades/30-fotos-raras-da-historia-do-futebol/

Soldados britânicos jogam futebol na França durante II Guerra Mundial. Fonte: http://www.historiadigital.org/curiosidades/30-fotos-raras-da-historia-do-futebol/

Floriano, por seu turno, parece ter sido capaz de se beneficiar da experiência como instrutor acumulada nos anos anteriores. Pois alguns anos depois, em princípios da década de 1930, já no posto de capitão, o militar seria reconhecido como alguém a quem o esporte em Goiás muito devia. Nessa época, partidas de futebol em Goiás realizar-se-iam em sua homenagem. Conforme registrou entusiasmada e exageradamente um jornal goiano da época: “pode-se mesmo afirmar, sem receio de contestação, que o Capitão Brayner foi o pai do esporte em Goiás”.

A situação não parece ter sido exclusiva à Goiás. Em muitas regiões do país, a presença de militares mostrou-se importante para a organização e disseminação de esportes. Em Mato Grosso, por exemplo, militares do Exército e da Marinha estiveram ativamente envolvidos na criação de pelo menos meia dúzia de importantes clubes de futebol em Corumbá, em meados da década de 1910. No Pará, de maneira semelhante, marcantes “festivas esportivos” realizar-se-iam sob a égide de “distintos oficiais” da Marinha, também em princípios do século 20. Acontecimentos do mesmo tipo são registrados em Pernambuco, Maranhão, Ceará ou no interior da Bahia – no que talvez possa ser extensivo à outras partes. A influência de militares sob este aspecto, portanto, bem pode ter sido maior do que historiadores do esporte tem considerado até agora.


Memórias regionais do esporte

21/10/2013

 Cleber Dias

cag.dias@bol.com.br

 A elaboração de uma memória sobre o futebol tem privilegiado um olhar e uma retórica que exagera o lugar e o papel de determinadas regiões, como bem problematizaram recentemente João Malaia e Maurício Drumond, em artigo na revista Tempo. Memorialistas como Floriano Peixoto Correa ou Thomás Mazzoni, inseridos em contextos de disputas pela primazia simbólica do futebol no Brasil, afirmaram suas respectivas cidades como lócus privilegiado para identificação da origem dessa prática em todo o país. A pouca atenção que a historiografia brasileira do esporte vem dedicando a esse processo de construção de memórias fora do eixo Rio-São Paulo tende apenas a reforçar a situação.

Todavia, não foram apenas intelectuais dessas cidades que se dedicaram ao assunto. Uma literatura regional, pouquíssimo explorada pelos estudiosos dos esportes, conhecera também seus gêneros voltados a edificação de uma memória sobre os esportes. Um caso bastante interessante é o livro História do futebol em Uberaba, de Hildebrando Pontes, uma espécie de intelectual total do que ele próprio chamava de “civilização do Brasil Central”. Escrito em 1922, o livro é um trabalho interessante, extemporâneo até, escrito numa época em que temas como esses não eram sequer cogitados como objeto de reflexão séria.

Hildebrando Pontes, espécie de intelectual total da "civilização do Brasil Central". Fonte: Academia de letras do Triângulo Mineiro.

Hildebrando Pontes, espécie de intelectual total da “civilização do Brasil Central”. Fonte: Academia de letras do Triângulo Mineiro.

Por causa da sua situação de entreposto comercial obrigatório entre Goiás, Minas Gerais e São Paulo, Uberaba acabava funcionando como ponto de referência simbólico e geográfico para toda a região, a “Princesa do Sertão”, como era conhecida. Essa cidade do Triângulo Mineiro exerceu grande importância para o desenvolvimento do esporte numa vasta região sertaneja. No início dos anos 1920, quando jovens de Goiás estavam interessados em praticar o futebol, era até Uberaba que viajavam para comprar bolas, chuteiras e uniformes.

Atendida por linhas da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro desde 1889, Uberaba testemunhava práticas esportivas desde os fins do século XIX. Nessa época, sabe-se que os uberabenses conheciam já corridas de cavalo, a bocha, o bilhar, o ciclismo, a patinação, os exercícios de ginástica e as rodas de peteca. No que diz respeito ao futebol, logo o mais popular dos esportes, diferentes vias incidiram simultaneamente na disseminação da modalidade. Por volta de 1903, padres Maristas assumiram a direção do Ginásio Diocesano, e entre as práticas promovidas pelos religiosos estava o “bate-bolão”, “pálido arremedo do rugby”, segundo avaliação de Hildebrando Pontes. Mesmo assim, alunos do Ginásio foram se engajando nos jogos. Por volta de 1905, um grupo de alunos conseguiu comprar, em São Paulo, um guia e bolas de futebol, além de formarem um time, chamado Clube de Futebol. Apesar do nome e do contato com as regras do association, o time praticava um jogo diferente, valendo-se ainda das mãos. Paralelamente, uberabenses que haviam estudado em São Paulo, nomeadamente em Campinas, no Colégio São Luís, começavam a voltar para Uberaba nessa época, trazendo consigo mais entusiasmo pelo esporte bretão, bem como mais noções de regras, técnicas e táticas. Em 1906, um grupo de uberabenses cotizou-se para comprar uma bola de futebol em São Paulo, com a intenção de formar um clube de futebol, o que acabou não ocorrendo. Rapazes frequentadores das aulas de luta livre e luta romana na Sociedade Italiana Santo Eustáquio também fomentavam a ideia de criar um clube de futebol, segundo memórias de José Mendonça. A ideia mostrava-se quase sempre efêmera e claudicante. Mesmo assim, parte deles estaria envolvida, mais tarde, na criação de alguns dos primeiros clubes de futebol da cidade.

Inauguração do Uberabão, em 1972. Foto de J. Schroden. Arquivo Público de Ueberaba (http://alternativaculturalevirtual.blogspot.com.br/2011/02/historia-de-uberaba-uberabao.html)

Inauguração do Uberabão, em 1972. Foto de J. Schroden. Arquivo Público de Ueberaba (http://alternativaculturalevirtual.blogspot.com.br/2011/02/historia-de-uberaba-uberabao.html)

Em 1908, uma área atrás do Ginásio Diocesano foi adquirida para a realização de evoluções militares. O local acabou servindo também como campo de esportes, usado para partidas de futebol entre os times “branco-preto” e “verde-amarelo”, formados por alunos do colégio. Os jornais uberabenses da época falavam desses jogos como “animados matches de futebol no sport field do Ginásio”. Em abril de 1909, segundo notícia publicada no jornal O Paladino, fora “animadíssimo e muito concorrido” o jogo de futebol realizado ali.

Diante do sucesso das atividades, em 1910, a Reitoria do Ginásio Diocesano instituiu um campeonato interno, a “Taça Jeanne D’Arc” [sic]. Paralelamente, outros clubes de futebol surgiam na cidade, como o Atlético Futebol Clube e o Mogiana Futebol Clube; este último, formado por ajudantes de tráfego, chefes de depósitos e outros funcionários da Companhia Mogiana de Estrada de Ferros.

Em 1911, por ocasião de uma exposição agropecuária, o presidente da municipalidade sugeriu aos times do Ginásio que organizassem uma seleção para enfrentar uma equipe de Araguari. Surgia assim o Diocesano Futebol Clube, um dos primeiros times a mobilizar grandes contingentes para a prática do futebol na cidade. Na sua primeira partida, o time venceu seus adversários de Araguari por 2 x 0, logo passando a ser reconhecido como “o invencível”. Segundo Hildebrando Pontes, intérprete e testemunha dos acontecimentos, “o garbo com que os rapazes desse eleven se exibiram pelas ruas de Uberaba [após essa partida], despertou entre a mocidade um entusiasmo desusado, impelindo todos a um intenso movimento pró-futebol”.

Nessa época, os times multiplicaram-se rapidamente: Tiradentes, Comercial, Floriano Peixoto, Duque de Caxias, Coronel Sampaio, Guarani. Consolidava-se, enfim, “um movimento caloroso, vibrante em prol da definitiva e benéfica implantação do esportismo entre nós”. Os uberabenses agitavam-se já por causa dos jogos de futebol: cogitavam a formação de uma liga, planejavam a organização de um campeonato e testemunhavam a fundação de um jornal esportivo (em 1918).


Bastidores de uma pesquisa histórica

01/07/2013

Cleber Dias

cag.dias@bol.com.br

Como denunciam alguns dos meus últimos posts aqui no blog, estou me dedicando atualmente a história do esporte em Goiás. Antes de mudar-me para Belo Horizonte, dias de trabalho no Arquivo Histórico Estadual de Goiás constituíam um dos meus prazeres diletos. O arquivo tem um acervo riquíssimo, resistente ao tempo, apesar do costumeiro descaso governamental. Mas não é sobre isto o que vou lhes falar. Hoje, gostaria de comentar o que podemos chamar de “bastidores da pesquisa histórica”, particularmente os bastidores do Arquivo Histórico Estadual de Goiás. Quem passa diariamente pelo centro de Goiânia talvez não imagine que atrás do Centro Cultural Marieta Telles Machado e ao lado do Palácio das Esmeraldas jaz pilhas e pilhas de papéis antigos, que os historiadores preferem chamar documentos.

Complexo arquitetônico da Praça Cívica, morada do Arquivo Histórico Estadual de Goiás

Complexo arquitetônico da Praça Cívica, morada do Arquivo Histórico Estadual de Goiás. Disponível em: http://linsgalvao.com.br/blog/arquitetura/a-beleza-da-art-deco-em-goiania

Apesar do cenário lúgubre, o lugar está cheio de vida, ou melhor, de vidas, de hoje e de ontem. As de hoje dizem respeito tanto a estudantes neófitos, quanto a pesquisadores mais experimentados, sem falar nos curiosos, que eventualmente também marcam presença, à cata não se sabe do quê.

No cotidiano atual do arquivo, tardes de pesquisa são interrompidas para um dedinho de prosa regado à café com Sr. Orlando, engenheiro e professor aposentado da Universidade Federal de Goiás, que trabalha num livro sobre a história desta universidade. Sr. Orlando, que sempre leva biscoitos ou bolos, faz questão de convidar a todos para compartilhar seus intervalos. Nunca deixei de aceitar. Já as histórias de ontem podem ser parcialmente recuperadas através da leitura dos documentos guardados ali. Literalmente, eles contam histórias.

José Nicolau Saddi, "um esforçado esportista goiano". Fonte: Cidade de Goyas, Goiás, 25 de junho de 939, n. 49, p. 1.

José Nicolau Saddi, “um esforçado esportista goiano”. Fonte: Cidade de Goyas, Goiás, 25 de junho de 939, n. 49, p. 1.

No meu caso, estou particularmente interessado agora em histórias como as de José Nicolau Saddi, membro de importante família de comerciantes “sírio-libaneses”, que em princípios da década de 1930 atuaram ativamente e de diferentes formas no estímulo a práticas esportivas na Cidade de Goiás, quando era ali ainda a capital goiana. Reuniões para criação da primeira associação esportiva em Goiás – a Associação Goiana de Esportes Atléticos – aconteceram na casa de Jacques Saddi, ao que parece, irmão de José Nicolau. Enquanto Jacques presidia clubes, emprestava sua casa às reuniões da recém-criada associação e assumia a sua comissão de sindicância, José Nicolau disponibilizava sua casa comercial para expor os prêmios de uma rifa organizada visando a construção de um estádio. José Nicolau, além disso, servia de árbitro a algumas partidas de futebol, ao mesmo tempo em que integrava “embaixadas” responsáveis por organizar “caravanas” para disputar partidas em várias cidades. Era um entusiasta do esporte, um “sportman”. Com justiça, José Nicolau, ex-aluno do Lyceu de Goyaz, proprietário e fundador do jornal Cidade de Goiás, logo seria reconhecido como “um dos grandes propugnadores do esporte”, “um esforçado esportista goiano”.

Para além do esporte, contudo, parte do meu tempo no arquivo consome-se às vezes na leitura de histórias que nada tem a ver com o esporte. Quase não posso evitá-las. Quando dou por mim, já estou a ler sobre brigas, assassinatos, acusações de calúnia, rumores de infidelidades ou qualquer saborosa banalidade que preenche o cotidiano de qualquer sociedade, de ontem ou de hoje.

De certo modo, o arquivo e todas as suas histórias operam como intermediários entre o passado e o presente, entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Certa vez, ao sair do arquivo, tocado ainda por este contato, decidi fazer caminho diferente do usual. Queria descer a Avenida Araguaia, até o número 68, onde funcionava outrora o Hotel Araguaia. Queria saber o que funcionaria ali nos dias de hoje. Poderia ser o hotel ainda? Por curiosidade gratuita, sei que durante muito tempo a cozinha do lugar esteve a cargo do “Mestre Cuca Irineu”. Quem teria sido ele?

Avenida Anhanguera, imediações da Avenida Araguaia, em dois diferentes momentos. SIMIENA, Carolina. Foto exibem o ‘antes e depois’ do desenvolvimento urbano de Goiânia. Disponível em: http://g1.globo.com/goias/noticia/2011/10/fotos-exibem-o-antes-e-depois-do-desenvolvimento-urbano-de-goiania.html

Avenida Anhanguera, imediações da Avenida Araguaia, em dois diferentes momentos. SIMIENA, Carolina. Foto exibem o ‘antes e depois’ do desenvolvimento urbano de Goiânia. Disponível em: http://g1.globo.com/goias/noticia/2011/10/fotos-exibem-o-antes-e-depois-do-desenvolvimento-urbano-de-goiania.html

 Para muitos, tais interesses talvez pareçam estanhos. Pois é assim que se resgatam vidas em arquivos. Como disse certa vez Robert Darnton, todos têm fantasias, mas alguns as têm em forma de devaneios históricos:

 “O contato com o passado altera o sentido do que pode ser conhecido. Estamos sempre nos ombreando com mistérios – não simplesmente a ignorância (fenômeno familiar), mas a insondável estranheza da vida entre os mortos. Os historiadores voltam desse mundo como missionários que partiram para conquistar culturas estrangeiras e agora retornam convertidos, rendidos à alteridade dos outros. Quando retomamos nossa rotina diária, às vezes contamos entusiasmados nossas histórias ao público. Mas poucos param para ouvir. Como o velho marinheiro, falamos com os mortos, porém temos dificuldade em nos fazer ouvir entre os vivos. Para eles, somos maçantes”.