Festa, futebol, ressaca, literatura e bola

02/03/2014

Por Edônio Alves

Em clima de carnaval, trago, desta vez, para nosso blog, uma história que reúne festa (embora seja a festa junina típica das cidades do interior do Brasil), futebol e ressaca. Nosso intuito, como sempre, é o de relacionar futebol e literatura, numa tentativa de esclarecer nosso internauta-leitor sobre as nuances dessas duas formas de expressão da alma nacional, que ora se faz pelos pés, ora se faz pelas mãos, ou seja: pelas chuteiras dos nossos jogadores de futebol ou pela escrita mágica de nossos escritores. A narrativa abordada aqui é de autoria do escritor Renard Perez e intitula-se “Copa do Mundo”. Vamos a ela.

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O conto é uma pequena história, que relembra, em ritmo e clima de ressaca, a primeira conquista de um título mundial de futebol pelo Brasil, na Copa de 1958, realizada na Suécia. O texto é todo um registro nauseado das lembranças matutinas de um personagem que acorda ressacado dos excessos de uma festa junina a que tinha ido na noite anterior, e que se vê, agora, conduzido pela ambiência festiva e patriótica em seu entorno, diante da circunstância de enfrentar (assistir, ouvir) ou não, pelo rádio, a partida final da Copa contra a própria Suécia. Este é um daqueles contos através do qual se opera o encontro da consciência com a memória do narrador para disso resultar uma atmosfera intimista como esta que passa a narrar.

 Sendo assim, certo mal-estar vai logo se instaurando na história como resultado de algumas lembranças do personagem-narrador-protagonista marcadas por certa experiência traumática: a de ter também assistido o jogo final da Copa de 50, no Brasil, e em decorrência disso, ter amargado o acre sabor da derrota num momento em que sob todas as evidências do mundo, éramos o melhor país do mundo nas instâncias do futebol. Momento em que o futebol, para nós brasileiros, já era mais que o futebol. Era a face simbólica da nossa própria cara.

 “Entendo o patriotismo, patriotismo é a vitória do futebol no estrangeiro. Pátria é esse orgulho que me enche o peito, e me engrandece, dá-me vários metros de altura. De súbito, o Brasil é a mais soberana das nações, e as grandes potências de dez minutos atrás de repente se amesquinham e olham para nós lá de baixo, respeitosamente”, diz a certa altura o personagem-narrador, alternando seu estado de espírito de momento entre eufórico e nauseabundo.

 “Tenho um aperto na garganta. Mas sinto-me um tanto sem graça, ali sozinho no apartamento, de pijama e dorso nu, sem ninguém a quem comunicar a minha felicidade. Os livros enfileirados na estante parecem-me absurdos, é ridículo o jornal jogado por baixo da porta, com seus conscienciosos prognósticos sobre uma partida futura…”, observa noutro trecho o enfastiado narrador.

 Acreditamos, como exemplo, que estes dois registros acima já são suficientes para dar ao leitor a dimensão singular deste conto que, se não é inovador no tratamento simbólico do tema da posse e da perda – e da suas fundas repercussões no âmbito individual ou coletivo -, ao menos não é tributário do lugar-comum em termos de fatura narrativa que elenca o jogo de bola aos pés como motivo acessório ou principal.

 Um último momento-síntese desta narrativa de Renard Perez que, esclareçamos, não inova em nada em termos de investimento formal e que, contudo, traz alguma inflexão alvissareira no tocante a sua determinação temática, simboliza bem o caráter reflexivo geral da representação literária sobre a matéria social sobre a qual se debruça: no caso, a experiência da mentalidade brasileira sobre um dia tão especial.

 “É preciso contar o resto? Cada brasileiro, naquela manhã, a princípio terrível, depois gloriosa de domingo, sofreu como eu. Os gols que se sucederam me levaram definitivamente a ressaca. Mas não me tranquilizaram. Cheguei a desejar um avanço no tempo – chegar logo ao fim da partida, qualquer que ele fosse. O horrível era aquele martírio lento, martírio chinês”.

 E não terá sido assim que os brasileiros então sentiram – ou sentirão, agora, com esta narrativa – aquilo tudo?

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PARA SABER MAIS:

Renard Perez nasceu em Macaíba (RN), em 3 de janeiro de 1928, e é um escritor brasileiro que dedicou sua carreira, sobretudo, aos gêneros do conto e da novela, embora tenha se aventurado também no romance e no ensaio crítico. Estreou com O beco em 1952. Sob a liderança de Dinah Silveira de Queiroz, integrou o grupo Café da Manhã, ao lado de Fausto Cunha, Samuel Rawet, Luis Canabrava, Daniel Dantas entre outros escritores. Advogado de formação, Renard dedicou-se principalmente ao jornalismo cultural. Passou por diversos jornais e revistas, dentre eles o Correio da Manhã, Revista da Semana, Revista Branca, de Saldanha Coelho, revista Manchete e jornal Última Hora, tendo sido ainda redator-chefe da revista Literatura. Em setembro de 2003, recebeu a Medalha Antônio Houaiss, oferecida pelo Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro (SEERJ) em sua sede, na Casa de Cultura Lima Barreto, pelos serviços prestados à literatura brasileira. A narrativa de futebol, Copa do Mundo, encontra-se publicada na reunião de contos sobre o tema intitulada, Contos brasileiros de futebol, organizada em 2005 por Cyro de Matos, sob os auspícios da Editora LGE, de Brasília.


De pai para filho: o goleiro Leleta e sua história

28/10/2013

Por Edônio Alves

Desta feita, mais uma vez amparado pela relação literatura e futebol, vamos destrinçar aqui a história de uma grande homenagem, tecida pelas malhas da ficção. O autor deste conto de futebol é Cyro de Matos, um experiente escritor que tem no jogo de bola aos pés uma das chaves de sua literatura abrangente e multifacetada. A análise que fizemos do seu texto, abaixo, visa tão somente apresentar ao apreciador deste blog (porque uma análise literária mais abrangente não caberia nesse espaço) a perícia que alguns escritores do tema têm ao jogar com a palavra como se bola elas fossem. Boa leitura!

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O goleiro Leleta

Esta é uma narrativa simplória sobre futebol, o que não quer dizer desprovida de tom dramático e certo lirismo às vezes bucólico, às vezes elegíaco, que derrama seus efeitos sobre o leitor. O motivo do texto é contar uma situação humana particular vivida por entre um clima que mistura festa e alegria com pesar e tristeza. E em meio a tudo isso, o flagrar-se a universalidade do futebol enquanto motivo de sociabilidade humana presente nas mais diferentes culturas e nos mais distantes e longínquos rincões do mundo.

O bucolismo do texto é responsável por apresentar ao leitor essa faceta ubíqua da facilidade do jogo de bola em servir de fator de congraçamento universal entre os homens estejam onde eles estiverem. Trinta blocos-parágrafos de texto, quem sabe figurando os trinta anos de existência do Expressinho de Burburinho do Paraíso, clube de um lugarejo cerca de vinte quilômetros perto de Rio Claro, cidade onde se desenrola a história, são usados pelo narrador para contar um dia na sua vida e na vida de Leleta, o goleiro do time em apreço, que ao evitar um gol defendendo um pênalti em favor do adversário, dá o primeiro título ao clube fundado pelo seu pai, logo no dia em que ele morreu.

Depois de apresentar o lócus dos maiores atrativos da gente pacata dos dois lugarejos ­ em que se desenrola a história, nos dois blocos-textos que seguem:

“Em Rio Claro existe uma praça com jardim. A bandinha toca valsas, choros e marchas no coreto, aos domingos pela manhã. O cinema foi instalado no salão atrás da feirinha. O padroeiro da cidade é Santo Antônio, sua pequena igreja foi construída numa colina e é avistada de qualquer parte da cidade. Os fiéis chegam até à igreja depois de subirem uma escadaria com muitos degraus”.

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“Burburinho do Paraíso (…) é bastante falado por causa da feira que funciona na pracinha onde o trem faz uma parada antes de seguir para o fim da linha, nas imediações do vilarejo de Serra Grande. O movimento é intenso em Burburinho do Paraíso aos sábados. A feira tem tudo que se possa imaginar. (…) Os moradores de Burburinho do Paraíso dizem que ali é que é lugar de viver. Ora essa, é um lugar mais bonito que Rio Claro. Nem se pode comparar” -,

o narrador desce propriamente às coisas do futebol sugerindo ligeiramente o clima de rivalidade entre as duas localidades. É esse clima que vai servindo de pano de fundo para se descortinar, através de uma prosa escorreita e leve, emocionalmente envolvente e psicologicamente empatizante, o dia triste de Leleta, vivido na mais esfuziante alegria, com a conquista do título de campeão pelo clube fundado pelo seu pai e no qual era ídolo da torcida.

“Quando se discute futebol em Rio Claro, na praça ou em outro lugar, o torcedor do São José Futebol Clube, sem esconder certo orgulho na voz, diz que o seu time é o mais querido na cidade. É o que tem mais torcida e mais títulos de campeão, entre os filiados à Liga Amadora de Futebol de Rio Claro”.

Todavia, há que se registrar, é precisamente esse contraste de uma cidade maior com um time melhor que prepara e potencializa, ao nível da narrativa, o impacto dramático do título de campeão, conseguido pelo Expressinho de Burburinho do Paraíso e vivido por Leleta, justamente no dia em que este perde seu pai:

“Quem esteve com o goleiro Leleta antes de começar o jogo ficou admirado de sua passiva tristeza. Ele explicou que queria jogar aquela partida de qualquer maneira porque nada mais adiantava fazer. ´(…) Essa é uma hora que chega pra todos nós`, observou, com seu jeito simples. Mas não ia ser um acontecimento difícil daquele que ia tirar a sua tranqüilidade e impedir que defendesse as cores do Expressinho de Burburinho do Paraíso”.

Consta, como se sabe, que o jogo houve e que o Expressinho de Burburinho do Paraíso foi campeão sobre o São José Futebol Clube, para a alegria e a tristeza do seu goleiro Leleta. E consta também que é típico do futebol o assentar-se sobre certos paradoxos de fundação, como o de separar para unir, o de perder pra ganhar, por exemplo; e aqui, o de sorrir para chorar, como conta Cyro de Matos nesta narrativa sob este aspecto bastante exemplar.

“Tudo era só festa na arquibancada e na geral. A torcida do Expressinho de Burburinho do Paraíso vibrava e cantava. Torcedores abraçavam-se. No gramado, um menino, que tinha Leleta como seu maior ídolo e depois viria a escrever esta história, viu quando o goleiro pegou a bola com as mãos sujas e aninhou-a no peito, como se estivesse tentando abafar uma dor que vinha pulsando dentro dele. (…) Geralmente, o goleiro atirava a bola ou sua camisa para o velho Neco no meio dos torcedores, onde sempre gostava de ficar, quando o Expressinho de Burburinho do Paraíso ganhava uma partida importante”.

Esta partida era particularmente importante, mas este não é o fim de tudo porque ainda consta que, então, o goleiro Leleta chorou muito só  – muito só -, debaixo do gol.

PARA SABER MAIS:

Cyro de Matos nasceu em Itabuna, Bahia, a 31 de janeiro de 1939. É contista, novelista, ensaísta, cronista, organizador de antologias e autor de livros para jovens e crianças. Advogado aposentado e jornalista com passagem na imprensa do Rio de Janeiro, publicou – na condição de poeta que também o é – dez livros para o leitor adulto assim como quatro infanto-juvenis. Como autor de prosa de ficção curta, publicou Os Brabos, que ganhou o Prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras de 1979; O Mar na Rua Chile, crônicas, com o qual foi finalista do Prêmio Jabuti de 2003, e O Goleiro Leleta e Outras Fascinantes Histórias de Futebol, que venceu o Prêmio Hors Concours Adolfo Aizen da União Brasileira de Escritores, também 2003. Está presente em diversas antologias do conto no Brasil e em Portugal, Alemanha, Dinamarca e Rússia. Sua história “Ladainha nas Pedras” participa da antologia “Visões da América Latina”, organizada por Uffe Harder e Peter Poulsen, Editora Vindrose, Copenhague, ao lado de contos de Jorge Luís Borges, Juan Rulfo, Mario Vargas Llosa, Uslar Pietri, Alejo Carpentier, Juan José Arreola, Miguel Astúrias, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Aníbal Machado e Clarice Lispector, dentre outros.

O conto O goleiro Leleta, analisado acima, integra a coletânea de história curtas organizada pelo autor, intitulada Contos brasileiros de futebol, publicada pela editora LGE, de Brasília, em 2005.


Futebol e linguagem: o gol como exclamação!

14/07/2013

Por Edônio Alves

Dentro do nosso propósito permanente de relacionar, no espaço desse blog, o futebol com a literatura, voltemos, pois, ao assunto.
Conforme uma sugestiva proposição do historiador Hilário Franco Júnior, o futebol pode ser entendido como uma integral metáfora de várias instâncias do viver humano. Isso porque, em sua abordagem do jogo, ele o compreende como um fenômeno cultural que em última instância se exerce como linguagem; uma linguagem que a nosso ver é irredutível (tem sua autonomia própria) e é imanente (produz efeitos no interior de si mesma), mas também dotada de um potencial de narratividade que força, por isso mesmo, uma aplicação transcendente do seu universo temático.
Explica-se: graças ao fato de nutrir-se de códigos verbais (o vocabulário utilizado por jogadores, torcedores e imprensa para falar do jogo) e também não-verbais (a sua linguagem corporal; como numa dança), o fenômeno do futebol poder ser pensado, segundo ainda Franco Júnior, “como ao mesmo tempo [uma linguagem] natural (correr, fugir, enganar, chutar e pegar fazem parte da história evolutiva da espécie); e artificial – [um conjunto de] regras para organizar a representação moderna desses atos primordiais”.
Neste sentido, ainda na sua compreensão do futebol como sendo uma específica linguagem de fundo gestual, Franco Júnior faz uma sugestiva relação entre este jogo e a linguagem verbal tipicamente humana. Diz ele, nessa direção, que o futebol se constitui numa linguagem porque possui morfologia, semântica e sintaxe próprias, apresentando, no entanto, uma particularidade que lhe é essencial: cada falante é coletivo (o time) e seu discurso construído com material dos vários indivíduos (jogadores) que fazem parte de tal comunidade linguística e que, submetidos à gramática do jogo, desenvolvem roteiro predefinido (tática), porém adaptável às intervenções do interlocutor (o time adversário). Tudo isso – acrescenta o historiador – sob o olhar de muitíssimos outros indivíduos (torcedores), que vêem naquela troca de mensagens, na interatividade daqueles discursos, um sentido que os sensibiliza.
Numa curiosíssima e pertinente teorização comparativa, Hilário Franco Júnior segue traçando as sugestivas relações entre o futebol e a linguagem verbal humana, instrumentalmente transformada numa língua. E já que a unidade básica de todas as línguas é o fonema, conforme sabemos, esta constatação linguística aplica-se perfeitamente ao futebol, segundo ele. “Já comentamos as unidades menores de forma isolada (passe, drible, chute). Lembremos agora de passagem, que a combinação daqueles gestos compõe frases futebolísticas. Uma troca de passes, mesmo na zona defensiva, apenas esperando melhor posicionamento dos jogadores de frente, constitui uma frase ou sentença, ainda que não faça de imediato o discurso avançar. Na classificação funcional das frases, seria uma interrogação”, diz, para concluir mais à frente, que o chute a gol, com a respectiva marcação do tento, nada mais é, no domínio do futebol, do que uma sentença de exclamação, aquela cuja função é exprimir os sentimentos do falante (e de toda a sua comunidade).

“Gol é enunciação emocional”, arremata o historiador.

Pois bem! Leiamos, agora, como uma sugestiva exemplificação prática das teorias expostas pelo nosso Franco Júnior, esse conto de futebol do escritor Salim Miguel, que nasceu em Kfarsouroun, Líbano, em 30 de janeiro de 1924, mas há muito tempo reside em Florianópolis, Santa Catarina. A narrativa intitula-se O gol e é exposta pelo narrador de modo a figurar, através da sua linguagem-motivo, a própria jogada-tema. Vejamos:

O gol

Salim Miguel

Texto de cunho pitoresco que narra, no provável tempo da própria jogada, o momento crucial do futebol: um gol. Narrativa curtíssima, portanto, e sem muitas implicações de caráter estético a não ser o válido intuito de contar ficcionalmente os quinze minutos de glória de um personagem até então desconhecido, mas que entra em campo e faz o que se espera (ou talvez o que não se espera) dele, o filho do seu Zé.

A destacar apenas o tratamento dado pelo escritor Salim Miguel aos narradores do rádio que, assim como os ficcionistas de plantão, têm o poder de tornar mito, lenda, epopeia…, o simples ato de se jogar bola com os pés e com isso enfatizar o poder do elemento lúdico na constituição das culturas humanas. Para isso, a narrativa é conduzida num bate-bola entre o seu narrador propriamente dito e o narrador radiofônico, que dá a ela o tom pitoresco requerido para o causo. Confiramos isso, num trecho único que literalmente encerra o verdadeiro mitema em que se torna o chute-gol do filho do seu Zé:

“Pela potência do chute certeiro, ficou sendo conhecido (expressão utilizada pelo locutor e logo incorporada) como ‘coice de mula’, pouco importando que a rede estivesse podre”.

Pronto, alcançado aqui o melhor tento desta estória curta sobre futebol: o tornar permanente sob a guarda da palavra estética um feito dispersivo e de caráter efêmero que é uma jogada-gol.

O AUTOR:
Salim Miguel é romancista, contista, poeta, ensaísta crítico e jornalista. Integrou o movimento modernista catarinense Grupo Sul, nas décadas de 1940 e 1950. Entre os seus romances, destacam-se NUR na escuridão em quinta edição pela Record, e A voz submersa – este último, reeditado em 2007 pela mesma editora. O livro mais recente desse autor é o volume O sabor da fome, coletânea de contos que promove a união dos seus dois extremos estilísticos: uma prosa mais solene, rígida, e uma escrita ágil, que reproduz a fala coloquial dos seus personagens. Dessa segunda fase é, com efeito, esse seu conto de futebol, O gol, que está incluso na coletânea, Contos brasileiros de futebol, organizada em 2005 por Cyro de Matos, sob os auspícios da Editora LGE, de Brasília.

VER TAMBÉM:
FRANCO JUNIOR, Hilário. A dança dos deuses: futebol, sociedade, cultura. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.


No último minuto – futebol e invenção

19/03/2013

Por Edônio Alves

A nossa proposta de estudar (ou discutir) a arte da literatura quando vinculada à arte do futebol – propósito da minha gratificante participação neste blog – tem considerado vários aspectos técnicos destes dois campos de expressão humanos. Desde a relação mais direta entre a bola e a palavra por meio da perspectiva lúdica em que tanto o jogador de futebol como o escritor se irmanam na maneira de criar ou produzir beleza até as formas diferenciadas com que cada um deles maneja o material de que dispõe para tocar a sua arte – a instauração da realidade ficcional por parte de um e a peripécia fugidia inventada pelo contato do corpo com a bola por parte do outro – tudo, mas tudo mesmo, nesse campo, se estabelece como que realizado pelo poder radiante da invenção. Ou da inventividade, por assim dizer. É isso que vamos conferir, precisamente, nesse conto de futebol do escritor carioca, Sergio Sant’ anna, um verdadeiro craque na arte da invenção literária. Sant’ anna talvez seja o nosso “Neymar” da literatura brasileira contemporânea, tão amplo é o seu repertório de jogadas geniais com a palavra ficcional. Um daqueles craques para quem a palavra – assim como a bola, tornada tema literário – se entrega sem receio e sem reservas como a pedir que lhe chutem em direção à meta, ao gol, ou mesmo ao agrado de uma firula ou de um drible desconcertante dado na cara do adversário. A bola a qui é a palavra e o jogador aqui é o nosso Sérgio Sant’ anna que a domina como poucos, no campo da literatura. É só conferir o que eu estou dizendo lendo o texto abaixo, uma análise comentada, feita por mim,  de um dos seus contos futeblísticos mais geniais.

x.x.x

No último minuto

Sérgio Sant´anna

Este é um texto ficcional muito inventivo que revela o domínio das formas de narrar em ficção e que se debruça sobre aspectos relevantes do futebol quando entendido como metáfora lingüística da vida em alguns dos seus aspectos essenciais. O elemento do imponderável, presente tanto na vida quanto no jogo; a força das circunstâncias na definição de situações que parecem revelar certa autonomia dos objetos sobre os seres; a impotência destes diante de fatos consumados que informam a existência; a sensação de um tempo decisivo na configuração de estados sem volta na permanente mudança dos entes e das coisas são, enfim, alguns desses aspectos colocados em pauta por esta história.

Mais uma vez a linguagem televisiva é requisitada como elemento formal e o que sobressai nessa narrativa, por conseguinte, é a capacidade que a televisão tem de potencializar os efeitos dos fatos decorridos sobre a consciência e o psiquismo dos que deles participam. Seja diretamente, ampliando a repercussão desses efeitos no íntimo dos seus protagonistas; seja indiretamente, reapresentando para nós espectadores (e, agora, leitores) dimensões múltiplas desses fatos em função da sua recorrente e sistemática repetição através das imagens que os configuram – passam e repassam – nesses tempos de modernidade.

O caso aqui é o de um goleiro que conta a história de um lance imprevisto que o envolveu numa partida de final de campeonato e que, justamente por ser previsível o seu desenrolar, torna imprevisíveis e duros os impactos do seu desfecho no âmbito humano desse jogador de futebol. A história nada mais é do que o reviver, por parte do goleiro personagem e narrador, o drama em que tomou parte e que, dadas as circunstâncias do seu momento decisivo, tenta, por este recurso narrativo, compreendê-lo no que ele tem de mais incompreensível e de imponderável.

“Canal 5”.

Começa assim a narrativa.

“É uma rebatida de defesa deles. A bola vem alta e cai pro Breno, nosso médio-apoiador. Ele a mata no peito, põe no chão e aí perde o domínio da pelota. Mas ninguém vai se lembrar disso: que a primeira falha foi do Breno. A bola fica, então, para o meia-armador deles: o Luiz Henrique. É o momento do desespero, o último minuto”.

Esse trecho, explique-se – como, ademais, todos os que vão ser transcritos aqui – é a descrição, pelo narrador, do lance capital que protagonizou e a que ele assiste depois pelas câmeras de TV de um dos canais que o transmitiram. Note-se o recurso da descrição imagética da TV como a conferir objetividade plena a algo que, no interior do personagem-narrador, é vivido de forma intensamente subjetiva.

“(…) É um chute rasteiro, um centro chocho… E eu grito: ‘deixa’. Eu fechei o ângulo direitinho e caio na bola. Eu sinto a bola nos meus braços e no peito. E sei que a torcida vai gritar e aplaudir, desabafando o nervosismo, naquele último ataque do jogo. Eu tenho a bola segura com firmeza no meu peito e, de repente, sinto aquele vazio no corpo. Eu estou agarrando o ar. A bola escapando e penetrando bem de mansinho no gol. A bola não chega nem alcançar a rede; ela fica paradinha ali…, depois da linha fatal.”

Como a não acreditar no que acontecera, tudo é literalmente repassado pelo narrador outra vez, agora através de um utilíssimo recurso da televisão.

“EM CÂMARA LENTA”.

“(…) O ponta esquerda deles, o Canhotinho, está tão longe da bola que parece impossível que consiga alcançá-la. (…) O passe foi tão longo [refere-se ao passe que o adversário Luiz Henrique fizera a esmo: ‘É um desses lançamentos de araques na afobação de fim de jogo, só pra ver o que acontece’] que mesmo em vídeo-tape, já sabendo do jogo, a gente custa a se convencer que ele chegará a tempo de tocar na bola. Então me vem agora, essa sensação absurda de que ainda pode acontecer tudo diferente, e corrigir minha falha”

Para conseguir um efeito cumulativo do seu drama – efeito que vai se ampliando à medida que a história avança –, o narrador conclui assim, a descrição do que via pelo canal 5: “E agarrei a bola, ela está segura nos meus braços e no meu peito. Nós vamos ser campeões. Eles param o tape só para mostrar isso: como eu estou tranqüilo com a bola. Neste instante, nós ainda somos campeões do Brasil”.

Os trechos seguintes da narrativa fazem a ligação entre a sua dimensão puramente intrínseca ao futebol e a repercussão humana, já, do ocorrido. Daí ser funcionalmente interessante, o narrador mudar a sua perspectiva de visão através da mudança do canal de TV.

“CANAL 3”.

“São vinte e dois minutos do primeiro tempo. Minha mulher senta ao meu lado e diz pra eu desligar a televisão e me esquecer daquilo tudo. ‘Amanhã é outro dia’, Ela diz. Amanhã é outro dia, eu penso. Eu vou sair na rua e ver o meu retrato em todos os jornais dependurados nas bancas: eu me preparando para defender aquele chute; eu com a bola nas mãos; eu com a bola perdida e já entrando no gol. Eu, o culpado da derrota. Eu, frangueiro, se não falarem pior: que eu estava vendido.”

“Quando vai começar o segundo tempo, minha mulher aperta a minha mão e fica me olhando assim meio de lado. Eu digo para ela ir dormir, não quero a piedade de ninguém”.

“O tempo passando, minuto por minuto. Eu ouço aquele barulho todo da torcida e é incrível como a alegria pode se transformar em tristeza tão de repente. Eu penso, também, como a vida se decide às vezes num centímetro de espaço ou numa fração de segundos. E me volta aquela loucura, a sensação de poder modificar um destino já cumprido, fazer tudo diferente. Ir naquela bola de outro jeito, espalmá-la para corner, mesmo sem necessidade”.

Novamente o recurso da câmara lenta e do vídeo-tape para intensificar ainda mais a sensação do drama vivido e, diante do incompreensível, tentar compreendê-lo ao divisá-lo sob os mais diferentes ângulos:

“Tape parado: Eu estou com a bola segura e escondida nos braços e sob o corpo”.

“Tape rodando lentamente: a gente percebe, a princípio, apenas que a bola se deformou: ela parece um ovo, com a ponta aparecendo entre os meus braços. É como se a bola inchasse e por isso se despregando do meu corpo e escorrendo mansamente pela grama. Até parar, caprichosamente, um pouco depois da linha fatal”

“POR DETRÁS DO GOL: No meio daquele inferno todo, eu me viro para trás e estou de cabeça baixa diante dos fotógrafos e cinegrafistas. Eu tenho vontade que o mundo desapareça ao meu redor. O mundo não desaparece. Eu cubro o rosto com as mãos e é assim que aquela câmera me focaliza. Eu cubro o rosto com as mãos aqui sentado diante do televisor, que me mostra cobrindo o rosto com as mãos lá dentro do gramado”.

Aqui fica concluída a mixagem dos três planos que envolvem a ocorrência vivida pelo personagem-narrador: o do jogo em si, quando o goleiro constata desolado o gol improvável que tomou; o do homem em jogo, quando ele sente o impacto do fato sobre os seus ombros e reage impotente, literalmente indefeso, e do jogo espetáculo, quando sua dor subjetiva é mostrada objetivamente pelas impiedosas objetivas das câmeras de TV.

Daí que o narrador, para ressaltar todos esses elementos envolvidos num jogo de futebol moderno, e para compor uma mimese adequada a sua transfiguração pela palavra literária, tenha inteligentemente escolhido o suporte da linguagem da televisão e com ela fixado a maneira pela qual, através da lógica do espetáculo, um momento que é de experiência individual, torna-se de vivência coletiva.

E para expandir ainda mais o âmbito de repercussão da sua falha de goleiro, e com isso expor mais precisamente a dimensão da sua dor interior, o narrador encerra a sua história a partir de mais um ângulo de observação em que a imagem cede lugar ao som, como a evidenciar, para o caso narrado, a eficácia da natureza tátil do veículo televisão, conforme preconizava deste meio de comunicação, o pensador Marshal McLuhan.*

O recurso de tirar partido do efeito cumulativo é o mesmo com as repetições da cena capital levadas ao paroxismo.

“CANAL 8 – Eles abriram os microfones e a gente escuta nitidamente os gritos da nossa torcida: ‘É campeão, é campeão’. Um grito que ecoará durante a noite inteira na cidade. Só que a torcida adversária que irá comemorar. ‘É campeão, é campeão’, o grito apenas mudando de um lado para o outro das arquibancadas”.

(…)

“EM CÂMERA LENTA – (…) Eles voltam à câmara uma porção de vezes. Aquela bola que sai de dentro do gol e volta aos meus braços e daí ao Canhotinho e dele de volta ao Luiz Henrique. Aquela bola que sai de novo dos pés de Luiz Henrique e rola para a ponta esquerda e até a linha de fundo, onde o Canhotinho bate nela todo torto e de esquerda e daí aos meus braços e depois para dentro do gol”.

“Eles repassam uma porção de vezes a jogada. (…) Como se fosse repetir-se para sempre, igual a um pesadelo”.

De temática simples, um evento relativamente comum em jogos de futebol (o lance em que o goleiro é traído pela bola, deixando passar um gol que todos – inclusive ele – asseguravam defendido: o chamado “gol frango”), o grande lance desse conto de Sérgio Sant´anna é a forma de narrá-lo. Um caso típico em que a forma ilumina o conteúdo. Conteúdo esse, o leitor pôde notar, tecido aqui por uma fabulação que é ela mesma rica em significados extras, e que por conseqüência disso salta da categoria de um mero evento de jogo para a dimensão de um daqueles pequenos dramas humanos que, mais do que as câmaras de TV, só as lentes da boa literatura sabem captar.

QUEM É O AUTOR:

Sérgio Sant’Anna nasceu no Rio de Janeiro, em 30 de outubro de 1941. É contista, romancista e poeta. Sua obra é notória pelo caráter experimental, abordando temas urbanos de várias formas diferentes, algumas bastante transgressivas e inovadoras. Embora já tenha publicado poesia, peças de teatro, novelas e romances, Sant’anna se considera primeiramente um contista. Seu romance mais célebre é As Confissões de Ralfo, publicado em 1975. O livro é a história de um escritor que decide escrever uma “autobiografia imaginária”, narrando vários fatos extraordinários numa sucessão inverossímil. Além de O sobrevivente (1969), publicou Notas de Manfredo Rangel, repórter – A respeito de Kramer (1973), Simulacros (1977), O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (1982), Amazona (1986), Senhorita Simpson (1989), Breve história do espírito (1991), O monstro (1994) e Contos e novelas reunidos (1997). Ganhou por duas vezes o prêmio Jabuti e também, por duas vezes, foi agraciado com o prêmio Status de Literatura. A narrativa, acima, No último minuto foi publicada, no livro, Contos brasileiros de futebol, editado em 2005, por Cyro de Matos, sob os auspícios da Editora LGE, de Brasília, e 22 contistas em campo, reunião de textos organizada por Flávio Moreira da Costa e publicada pela Ediouro, do Rio de Janeiro, em 2006.


O futebol de salão na literatura

18/11/2012

Por Edônio Alves

Em homenagem ao heptacameponato mundial de futebol de salão conquistado ontem, na Tailândia, pela Seleção Brasileira da modalidade, trago a este blog, dentro daquela nossa proposta de relacionar sempre o futebol com a arte da literatura, a análise de um conto de ficção em que este esporte figura como tema central. Dententor de uma hegemonia inquestionável no futebol de salão do planeta, o Brasil – como se não bastasse ter ganho sete vezes a taça mundial -, ostenta ainda o privilégio de possuir o maior jogador de futebol da modalidade, o nosso Falcão, que acaba de disputar a sua última Copa do Mundo pela seleção canarinho. A narrativa que segue, analisada em seus detalhes literários e estéticos – e porque não dizer técnico e táticos – trata da figura do goleiro no futsal, um personagem do futebol sempre rico em caracteres humanos e esportivos. Boa leitura!

Homem vestido de negro

Lourenço Cazarré

 Como já antecipamos acima, esta narrativa tem como objeto o futebol de salão e como tema o talento e a figura de um goleiro virtuose na sua função debaixo das traves. É narrada em primeira pessoa para um interlocutor virtual inominado a quem outro goleiro confessa sua admiração pelo mestre que certa vez enfrentou sem sucesso. Desta feita, a figura do goleiro é heroicizada utilizando-se para isso um recurso narrativo adequado: o solilóquio – tipo de diálogo sempre útil por meio do qual uma personagem pode expressar para outra, com a verossimilhança da sinceridade testemunhada, as suas impressões sobre as coisas e os seres deste mundo.

Isso pode ser visto já no início do conto quando a história principia com a resposta a uma pergunta virtualmente feita pelo interlocutor do narrador que, a partir daí, toma a palavra numa conversa em primeira pessoa: “A melhor partida? Sei lá! Foram tantas”.

E a prosa continua, em ritmo de papo informal com o relato que segue, em seus momentos principais:

“Ah, tem uma! Aquela foi inesquecível: jogamos contra uns caras que trabalhavam num matadouro. Uma noite infernal.

Foi assim”.

Com esse gancho dêitico, o narrador continua o relato esmerando-se em apresentar as circunstâncias de tempo e de espaço em que a tal partida se desenrolara, numa tarde-noite de muito calor em certo dia, no ginásio da cidade. Os pormenores da atmosfera pesada do clima e sua influência sobre a fisiologia humana são realçados ao máximo como pretexto funcional para que se apresente ao leitor as características daquela variante do jogo de futebol, o futebol de salão, ou futsal, como a modalidade é hoje mais conhecida:

“Ah, sim, claro, estou falando aqui é de futebol de salão e não desse negócio sem graça que é o futebol de campo. Estou falando de um jogo que é disputado numa quadra de cimento liso por caras que correm feito loucos, que trombam e caem a todo instante porque o campo é pequeno e a velocidade deles é tremenda. Caem e levantam no mesmo instante. Não tem aquela moleza do futebol de campo, com o sujeito se rebolando na grama só para engabelar o juiz”.

E a comparação entre os dois tipos de futebol não pára por aí. Prossegue com o intuito claro de supervalorizar o futsal em oposição ao congênere dos gramados – como, aliás, costumam fazer muitos dos amantes do jogo de futebol em geral – que, com efeito, quaisquer que sejam suas condições de prática, se na rua ou nos estádios, nas praias ou nas quadras fechadas, é o mesmo, no geral, para os goleiros. É aqui, pois, que o narrador introduz habilmente, sugestivamente, sorrateiramente, na conversa, o tema da sua história:

“De repente, o Magro me bateu no ombro e disse:

– Eu é que não queria estar na tua pele: vestir camiseta de goleiro com este baita calor!”

Pronto, está dada a deixa para a figura do goleiro entrar na narrativa como seu tema principal. E mais: com toda a sua carga de personagem um tanto marginal, mescla de herói e anti-herói, um tanto síntese ambígua e polissêmica (por isso, um tanto polêmica) de salvador e de vilão em meio à plataforma estrutural e comunicativa do jogo de futebol. E para demonstrar a sua capacidade criativa, no que tange à construção de estórias curtas de cunho ficcional tematizando o jogo da bola, o escritor Lourenço Cazarré aproveita-se da estrutura do conto – sempre curto, otimizado ao máximo em seus recursos expressivos – e com apenas dois diálogos sintetiza o universo funcional sempre controverso do goleiro; tanto no contexto do jogo como no da trama, simultaneamente:

“- Jogar no gol é moleza – continuou o magro. – Goleiro fica o tempo todo parado.

– Parado não quer dizer descansado – retruquei”.

E arremata (ele, o narrador) com essa: “Não se podia dar muita conversa ao magro. Ele vivia sempre tentando arranjar uma discussão”.

Segue agora, depois de um papo de vestiário entre os colegas de time, o momento em que o Magro, companheiro de clube, coloca em cena o personagem central do conto:

“- O pior para nós é o goleiro deles…”

Após o esclarecimento de quem se tratava, o narrador é taxativo:

“- Claro – eu disse. – Não vai dá pra nós. Ninguém mete gol nele”.

A narrativa, então, muda de tom, vazada agora num viés mais intimista, quase confessional. É o momento em que o relato torna-se memorialístico, com as reminiscências infantis do personagem-narrador moldando com uma espécie de ternura apaixonada um retrato pouco comum da figura dos goleiros em narrativas de futebol:

“Quando eu era pequeno, nas noites de sábado, meu pai me levava para assistir às partidas do campeonato de futebol de salão da cidade. No início eu não prestava muita atenção nos jogos porque, a todo instante, meus olhos se voltavam para os homens debaixo das traves. Eu era fascinado pelos goleiros. Torcia por eles, vibrava quando um deles, qualquer um, fazia uma defesa. Achava meio estúpido aquilo de correr atrás da bola. O legal era ficar debaixo do gol, esperando o ataque”, registra com saudade.

Uma digressão que não retarda o texto, mas, muito ao contrário, serve para adiantar o ponto nodal da trama, a configuração prosoprográfica do seu personagem nuclear, é utilizada para além disso, para encenar uma representação social muito comumente colada às emblemáticas e fascinantes figuras dos goleiros de futebol:

“Dentre os goleiros, o meu preferido era o Catofe. Não só porque ele era o melhor, e ele era de longe o melhor, mas principalmente porque era o mais elegante. Sempre impecável. Alto, magro, só se vestia de negro: tênis, meias, luvas, calção e camiseta. Até as joelheiras eram negras! Estava sempre bem penteado: o cabelo loiro besuntado de brilhantina, repartido no lado por uma risca perfeita”.

A digressão então se encerra com uma chave retórica típica: “Está bem, volto ao jogo que lhe contava”.

E a história caminha para o seu final com o narrador explicando, antes, como fora a partida: o entrosamento antigo do seu time que de nada servira, embora tenham jogado uma barbaridade; as qualidades do seu principal jogador, o Boca, que chutava muito bem etc., e uma conjectura que lhe viera à cabeça sobre a filosofia pragmática do esporte.

“No futebol de salão, ganha quem erra menos. O sujeito não pode chegar um milésimo de segundo atrasado. Todo erro é fatal. É jogo de paciência, de espera. Pra ganhar é preciso acertar quando o adversário erra. É como na vida, o sujeito só sobe quando o outro falseia a passada”.

Em momento algum, portanto, o grande goleiro falseou a passada porque o time do narrador desta história não venceu aquele jogo.

“E por que isso?, se pergunta, a certa altura.

“Ora, por causa daquele goleiro, o goleiro do time do matadouro de porcos, o alemão velho, o que chamavam Catofe”, responde a si mesmo, para logo em seguida confessar ao seu interlocutor oculto:

“Quando terminou a partida, saí correndo do meu gol, comovido. Atravessei a quadra, abracei o Catofe pelos joelhos e levantei ele. Ele ficou meio espantado com aquilo porque há muito tempo não tinha mais fãs. Mas, depois, passou a mão pelos meus cabelos e disse:

– Valeu Guri!”

Isso porque o narrador registra que ele pegou todas. Que guarnecia o gol inteiro, porque sempre, com uma perna ou um braço, ele mudava a trajetória da bola, viesse ela de onde viesse. Enfim, que o goleiro fechou o gol.

Essa, todavia – esse “Valeu guri”-, é a expressão-chave da história, o seu fecho de ouro, porque logo mais à frente, o narrador conclui, emocionado:

“Como lhe disse, daquela época para cá, joguei centenas de partidas. Esqueço todas, nem contos os gols. Mas aquele zero a zero com os caras do matadouro não consigo esquecer. Até hoje eu ainda me lembro da leveza do corpo magro dele. Vejo o espanto nos olhos dele. Sinto o peso da mão dele, enluvada, na minha cabeça. Escuto a sua voz rouca me dizendo:

– Valeu, guri”.

PARA SABER MAIS:

Lourenço Cazarré, o autor da história acima, nasceu em Pelotas (RS) em 29 de julho de 1953. Desde 1981, ano em que saiu seu primeiro livro, Agosto, sexta-feira, treze, este escritor e jornalista gaúcho já teve mais de duas dezenas de obras publicadas. Grande contista brasileiro, conquistou o Prêmio Açorianos de Literatura, na categoria Contos, em 2002, com Ilhados. Esteve presente por duas vezes na Bienal Nestlé de Literatura, em 1982 e 1984; no Prêmio Jabuti, em 1999 e em mais de uma dezena de outros concursos. Sua novela, O mistério da obra-prima, foi traduzida para o espanhol e editada pela Fondo de Cultura Económica, do México. Entre sua obra infanto-juvenuil destacam-se os livros, Clube dos leitores e histórias tristes, A cidade dos ratos: uma ópera-roque, Quem matou o mestre de matemática? e Nadando contra a morte, que levou o Prêmio Jabuti de 1999. O conto, O homemvestido de negro, foi publicada na coletânea, 11 Histórias de futebol, integrante da Coleção Prosa Presente, da Editora Nova Alexandria, de São Paulo, que saiu em 2006.


A grandeza dos pequenos

29/07/2012

Por Edônio Alves

O espaço que ocupo neste blog tem a função de apresentar ao nosso internauta-leitor o produto dos meus estudos e reflexões sobre a intersecção do futebol com a literatura. Ambos, paixões minhas, tanto o futebol como a literatura são, na minha modesta compreensão das coisas, campos de expressão e atuação humanos em que a surpresa, o aleatório, a singularidade de tudo que vemos ou podemos fazer reponta como uma marca particular da nossa ação no mundo. Sendo assim, cabe ao escritor, ao poeta, no caso da literatura, por exemplo, agir na sua escrita a partir de um olhar inaugurador de realidades novas; a partir de uma mirada descortinadora de possibilidades inéditas para a prática da existência humana. Mesmo que tais possibilidades inovadoras – eis o segredo de tudo isso – sejam passíveis de concretização apenas no universo da linguagem, uma vez que a vida em si mesmo é limitada. Fazemos arte, já dizia o poeta, porque viver não basta. Ou no dizer de outro bardo: “Simplesmente viver, meu cão faz isso e muito bem!”.

Pois bem. Quanto ao futebol, ele nos encanta precisamente pelo mesmo motivo, penso eu. Por ser um jogo que envolve e emociona seus praticantes e admiradores não apenas pelos efeitos e resultados práticos que produz (a vitória da equipe que conseguir marcar mais gols no adversário), mas sim, e talvez principalmente, pelo conjunto de sentidos e significados que comunica para além de sua visualidade objetiva e imediata. Ou seja: o futebol, paradoxalmente, talvez encante muito mais pelo que não se vê dentro do campo quando se assiste ao seu espetáculo diretamente, mesmo que esta experiência seja por si só gratificante e prazerosa. Quiçá, repita-se, o futebol encante mesmo é pelo que se sente e se experimenta ao vivenciá-lo como fenômeno pleno de cultura dentro e fora dos gramados.

Sim, porque, curiosamente, o futebol é um jogo que extrapola as suas próprias regras.  Entendido em sentido amplo, ele começa antes dos 90 minutos regulamentares de uma partida e vai além deles; é um jogo que não se resume aos poucos personagens que o praticam diretamente nos gramados ou campos de várzea, e – mais significativo ainda – é um jogo que não se encerra no mero espaço delimitado para a sua prática, tornando-se, assim, portanto, ao menos para nós, brasileiros, bem mais do que uma prática esportiva: “é a síntese complexa da cultura brasileira, é a sua metalinguagem”, no dizer do sociólogo Maurício Murad.

Portanto, penso eu, entendido assim dá para ver a clara e visceral ligação do futebol com a prática da literatura. Ambos são uma espécie de jogo humano (um mediado por uma bola; outro mediado pela linguagem) em que os jogadores realizam em campo mais ou menos a mesma coisa: a revelação da surpresa; do inesperado; do ainda não visto como potencialidade realizadora latente e prenhe de significados. É só “ver” a sensação que sentimos ao lermos um poema verdadeiramente original e bem realizado esteticamente; ou um romance, um conto, uma crônica, no caso da literatura. Ou uma bela e inesperada jogada de efeito (um drible desconcertante ou um golaço) no caso do futebol.

 Digo isso porque há pouco mais de duas semanas essa certeza foi reforçada em mim quando recebi um singelo presente de um amigo meu e fiquei intrigado com uma coisa que tal gesto de amizade me realçou: a noção que devemos ter da pequenez e da grandeza de todas as coisas. Louco por futebol como eu, meu amigo me presenteou com um desses souvenirs de clubes brasileiros feitos para serem colados na geladeira e, portanto, para ficarem à nossa vista sempre que entramos na cozinha para fazermos algo do cotidiano doméstico. Conhecendo-me como me conhece, o amigo sabia que aquele não era o clube da minha predileção, mas também sabia que nutro por aquela agremiação esportiva uma admiração ímpar. O tal clube, já dá para dizer, era o Íbis, de Pernambuco, considerado e conhecido no mundo futebolístico como o pior clube do mundo. Talvez justamente por isso, o tal presente tenha me inquietado tanto.

Pois digo que a inquietação foi tamanha que resolvi, a partir dela, como já anunciei aqui, utilizá-la para digredir sobre a relação do futebol com a literatura a partir de um tema que esta relação me sugeriu: a noção que temos da grandeza e pequenez de todas as coisas.

A ideia de fundo, enraizada em todas as culturas, é a de que sempre nos orientamos sob os dados da realidade baseados num providencial senso de horizontalidade e, principalmente, de verticalidade, por assim dizer. Isto é, consideramos sempre que há coisas superiores – os gestos nobres, as ações heroicas, por exemplo –, mas também coisas pequenas, inferiores, tais como os gestos mesquinhos, as ações pusilânimes, enfim, as atitudes menores ou covardias inclassificáveis.

Trazendo essa discussão para o mundo do futebol, nos debatemos sempre com o hábito de colocarmos num patamar superior de nossa consideração e estima os chamados clubes grandes do futebol brasileiro, a exemplo do Flamengo, Fluminense, Corinthians, Grêmio, Palmeiras, Vasco, entre outros; e, por oposição de valores, empurramos para a prateleira dos cacarecos insignificantes os ditos clubes pequenos, a exemplo do Brasil de Pelotas, Baré de Roraima, Fast Clube do Amazonas, Dom Pedro do Distrito Federal, Gurany de Sobral, Sinop do Mato Grosso, e, principalmente, a estrela maior dessa constelação de times menores: o Íbis, de Pernambuco, que tem esta posição de destaque entre os pequenos por ser considerado unanimemente como “o pior clube do mundo”, com inscrição no livro dos recordes e tudo.

Trouxe o Íbis para esta nossa conversa de agora porque entendo ser ele (o glorioso Íbis, o pior de todos os times do planeta) um exemplo palpitante do quanto é arbitrária a nossa maneira hierárquica de olharmos para a realidade. Para atestar essa arbitrariedade em julgarmos as coisas do mundo, podemos dizer, por exemplo, que algo pode ser grande justamente por comportar-se como algo pequeno; humilde na sua maneira de ser, nem soberbo nem ostentatório das virtudes que lhes é constituinte, enfim, singelo na sua grandeza de ser pequeno.

O contrário pode também ser verdadeiro, conjecturo eu, ampliando o exemplo: algo pode ser pequeno justamente por insistentemente querer ser grande, pretender assentar a sua existência num patamar além dos limites do seu próprio tamanho, ostentar uma grandeza que nada mais é do que a face oculta da sua própria pequenez.  

É aqui, meus caros leitores, que reponta a grandeza do Íbis no cenário do futebol brasileiro. Não se preocupando em querer ser o melhor, o maior, contenta-se o Íbis na modéstia de ser o pior, e por isso é grande. E a sua grandeza, com efeito, é invejável. Alguém já viu o Íbis perdendo o sono por estar metido em dívidas impagáveis? Pois este não é o atual caso do Flamengo, do Corinthians, do Vasco e de muitas outras figurinhas carimbadas do futebol brasileiro, que só sobrevivem empurrando os débitos (e alguns dirigentes) com a barriga? Não, ninguém nunca viu tal problema com o Ìbis. Ninguém nunca viu o Íbis chorando ou lamentando as perdas constantes que lhe caem nos ombros. Fundando um paradoxo genial, são as derrotas as maiores conquistas do Íbis e isso é o exemplo maior de sua grandeza.

Não, o caso do Íbis é outro, meus amigos, outro porque o Íbis é grande. Grande até na sua infinita generosidade. Assim são as coisas desse mundo se as observarmos bem. O grande pode ser justamente o pequeno e o pequeno pode ser precisamente o grande. Tudo depende da maneira como olhamos o mundo e o mundo, todos nós sabemos, não passa de uma bola: esse objeto distinto de todos os outros – sem quinas, pontas, dorso ou face, igual a si mesmo em todas as direções de superfícies – que rola e quica como se animado por uma força interna, projetável e abraçável como nenhum outro, no dizer do poeta. E os poetas têm sempre razão!

 


A arte de jogar e a arte de narrar

08/04/2012

Por Edônio Alves

O futebol é um jogo (para não dizer uma arte) visceral. Tanto para quem joga quanto para quem aprecia. A arte de narrar idem; embora tal envolvimento nesse campo, por parte do escritor, seja bem mais contundente do que para o leitor, que o aprecia. Em sendo assim, tanto jogar quanto narrar exige do seu participante ativo (o escritor ou o jogador) uma entrega quase que incondicional. Por isso é que muitos dos analistas dos dois campos veem nestas profissões uma atividade existencial por excelência. Viver é jogar e jogar é viver. Assim como viver é escrever e escrever é viver.

É com esta interpretação do jogo e da arte de narrar que analiso o conto abaixo, intitulado, Campeonato de futebol, de autoria do escritor baiano Luiz Henrique, dentro daquela nossa proposta de sempre ligar, nesse espaço, o futebol com a literatura. Nessa narrativa, por exemplo, o contista vai jogando junto com os jogadores propriamente ditos ao narrar. Por isso mesmo, vai expondo as ligações sutis e secretas da literatura com o futebol, pelas páginas em branco e os verdes gramados do Brasil.

***

Campeonato de futebol

Luiz Henrique

 Essa é uma história rápida, curtíssima, que narra as jogadas-proeza de uma dupla de ataque de um time qualquer, de um bairro qualquer, de uma cidade qualquer do Brasil, país do futebol. O texto é veloz e instantâneo como a figurar a própria fugacidade dos dribles e fintas dos dois personagens que quer destacar para o leitor, através de um testemunho em terceira pessoa comandado por uma reminiscência admirada com o que conta e com a distância do tempo que decorreu do que conta. Daí o texto fixar-se no motivo do talento de um tipo de futebol que talvez já tenha se perdido na poeira da sua própria história: o nosso tão decantado futebol-arte.

Por aqueles tempos, a velocidade do jogo não se contrapunha ainda as suas potencialidades criativas. À sua demanda artística – melhor dizendo -, que o narrador transfigura como elemento do próprio texto narrativo para dar ritmo ao transcorrer das ações: “Tô Falando com a bola. Ele era um jogador bom de negaças e um corredor. Ele corria com disposição. Quando pegava uma reta, a bola nos pés, ninguém o alcançava. Certa feita Português tentou parar Tô Falando e Tô Falando fez o seguinte: levou a bola até a linha de gol do adversário, não chutou, mas deu uma queda de corpo, algo lindo! Enganou Fausto e Faustino, levou Chuteirão à grama, depois subiu para a própria área. Português correndo atrás e segurando nos lados, lá nele, cai-não-cai, Tô Falando fez um arco, tá entendendo? Fez um arco e deu uma bola e tanto pra Didiu e Didiu cometeu a sua especialidade: bateu com o pé esquerdo e foi gol”.

A história se adianta nesse ritmo frenético e veloz. Registre-se que Tô Falando é o nome inusitado do companheiro de Didiu, com quem compõe a dupla de ataque infernal. Assim como no universo do erotismo existe a figura da fêmea fatal, no não menos “incendiário” mundo do futebol existe também a figura do jogador fatal, aquele que ao receber a bola de jogo sob determinadas condições já era, é só correr pro abraço, a bola está lá no fundo das redes e gol.

“Naquela partida Tô Falando suspendeu a bola. Taí, ninguém entendeu! Mas a gente logo viu a treta. A bola subiu para a esquerda e desceu nos pés de Didiu, uma bola 5, nova, novinha, de modo que foi descendo pela esquerda, cada vez mais pela esquerda, superou Cagão e Torresmo, fez Sossegado de bobo, parou, um rei! Olhou o campo e chutou. Gol, claro! Quem ia pegar aquela bola?”

Assim a narrativa de Luiz Henrique vai contando os prodígios daqueles jogadores do seu tempo numa prosa simples, mas eficiente no que tem de artístico. Vai encaminhando seu texto no ritmo do jogo que narra, o proseado fluindo ao sabor das jogadas relembradas com teor de crônica. A destacar ainda nesse conto curto como um drible de Romário (verdadeiro jogador fatal!), só mais duas coisas, para encerrar: o efeito cômico criado pela homonímia dos jogadores (Cagão, Torresmo, Zé de Viu, Adrenalina) e o seu arremate memorialístico eficiente.

Sobre a primeira, deve-se assinalar que a ficção não é mais extravagante do que a realidade. Como exemplo, vejam-se os nomes de jogadores que disputaram a Copa do Brasil de 1990, numa pesquisa curiosa feita pelos jornalistas, Alex Escobar e Marcelo Migueres, entre as fichas técnicas dos jogos dos clubes participantes deste campeonato de caráter nacional (ver: 20 anos da Copa do Brasil, 2009, p.174, 176). Para cada ano da disputa, os jornalistas escolheram um time de nomes esquisitos. Assim é que em 1990 entrou em campo pelo Brasil afora o seguinte esquadrão: Marega, Balu, Chicletão, Lúcio Surubim e Mingo; Chico Monte Alegre, Tanta, Miolinho e Erijânio; Ibateguara, Gulliver e Limão. O ano de 1995 não fica atrás em matéria de nomes estranhos: Isoton, Bocage, Gelásio, Gilberto Corneta e Nemias; Barata, Adalberon, Caçote e Petrólio; Nailson Xororó, Testinha e Zé Rebite.

Sobre a segunda observação, exemplificaríamos com o próprio texto o aspecto que queremos ressaltar, quando após outro gol fenomenal de Didiu, o narrador fecha a conta com essa: “Foi aí que o dono da bola correu para o campo e recolheu a bola. Ele era do lado que estava perdendo. E estava uma fúria. – Vão ganhar na… Todos tínhamos 12 anos e embolamos no Campo da Cuia”.

 Quem é Luiz Henrique:

O autor nasceu em Nazaré das Farinhas (BA), em 25 de janeiro de 1926. É contista, novelista, cronista e romancista. Doutor em História do Brasil e Professor Emérito da Universidade Federal da Bahia. Publicou, entre outros livros, História da Bahia (1987); Moça sozinha na sala (1961), com o qual ganhou o Prêmio Carlos de Laet da Academia Brasileira de Letras, e Almoço posto na mesa (1990). A história curta, Campeonato de futebol, está na coletânea, Contos brasileiros de futebol, organizada em 2005 por Cyro de Matos, sob os auspícios da Editora LGE, de Brasília.


Futebol e literatura: O templo dos encontros

25/12/2011

 

Por Edônio Alves

Para o brasileiro que ama futebol, esses dois meses que formam o interstício que vai de uma temporada a outra, no calendário das disputas da bola pelo País afora, são como que um período tedioso em que a alegria de ir aos estádios é substituída pela ansiedade de que tudo comece novamente. Ou seja: que a bola role de novo e que o time de cada um de nós possa, no novo ano que se inicia, recuperar o tempo perdido e fazer uma campanha digna do título nacional ou da conquista da tão desejada taça mundial.

         Este é um período, por assim dizer, em que começamos a sentir saudade do clima dos estádios; da alegria de encontrar os amigos para vermos juntos as atuações do time do coração; da festa que é, para o brasileiro, o campo de futebol às quartas-feiras e domingos do Brasil.

         A literatura, arte através da qual analiso a também arte do futebol, tem o condão de pautar várias questões que dizem respeito ao homem-torcedor; aquela pessoa que tem no futebol um grande motivo existencial.      Sendo assim, trago a seguir – para os seguidores deste nosso blog esportivo – uma pequena análise de um conto que versa sobre o lugar desses encontros em que a magia do jogo da bola aos pés nos encanta e vivifica.  Boa Leitura.

 ***

 Estádio

 Autor: Antonio Barreto

Através de uma mímese direta, sustentada basicamente por diálogos (o que naturaliza e presentifica a situação evocada), vozes e sons ambientes de várias espécies, este conto narra o ambiente e o clima de um dia de jogo importante num estádio de futebol, num domingo qualquer do Brasil.

A partida é entre o Clube Atlético Mineiro, o Galo das Minas Gerais, e o Flamengo do Rio de Janeiro, e o que faz justificar seu título, Estádio, e a sua proposta narrativa, são as diferentes situações justapostas pelo narrador, que se coloca como uma câmera de TV, ou melhor, um microfone de áudio que, a partir da sua movimentação pelo espaço físico dentro e ao redor do Estádio, tudo colhe e espalha, compondo a típica paisagem humana que se forma nos domingos de futebol pelo Brasil afora.

O pano de fundo da narrativa é contar a história de um pai que leva o filho a um jogo de futebol junto com as possíveis implicações que esta experiência, a princípio lúdica, pode trazer para a vida de um cidadão comum desta nação do futebol. Todavia, o que se quer mesmo (e talvez aqui esteja condensada toda a cota de criação do seu autor, o escritor Antonio Barreto, neste seu intento ficcional sobre o tema) é montar, a partir desse pequeno plot narrativo, um extenso painel do mundo dos estádios de futebol em dias de jogos.

Para tanto, a narrativa começa em terceira pessoa apenas no parágrafo inicial e descamba em seguida para a mímese direta, mais apta, conforme a estratégia do autor, a formar na mente do leitor as imagens evocativas do objeto em descrição.

“Pai e filho. Mar de gente querendo entrar. Mar de cambistas. Mar de autoridades. Mar de bandeiras e torcidas organizadas. Mar de pivetes. Mar de camelôs. Mar de guardadores. Mar de assaltantes. Mar de polícia. Mar de meninos e mulheres. Mar de churrasquinho, cachaça e cerveja. Mar de esperanças. A frase pichada na parede da bilheteria: Futebol é o ópio do povo. E o alto-falante: Atenção, senhor Jéferson Macário Ribeiro de Araújo, seus documentos foram encontrados. Favor comparecer urgentemente ao saguão principal, na seção de achados e perdidos…”.

Pronto! A partir deste ponto, o leitor acompanha numa síntese condensada de imagens e sons, um sem número de situações prototípicas da condição, eventual, provisória – ou mais estável, definidora do seu lugar no mundo social – do homem dos estádios, aquele que no dizer de Ivan Ângelo, “não está sozinho, não é um, é parte, pertence a uma irmandade, é cavaleiro de uma ordem que tem cores, brasão e bandeira”.[1]

“Quer que olhe o carro, doutor?”

Este diálogo-síntese (diálogo porque pressupõe um interlocutor que a este pedido responde, mesmo que com o silêncio) dá o mote para o desfecho da pequena história – no meio de tantas outras sugeridas pelo interior do texto – do pai que leva o filho para o jogo de futebol no estádio.

“Olha lá! O time tá inteirinho, ta completinho! Um dia cê me leva pra ser mascote, pai, que nem aqueles meninos lá? Aquilo é tudo filho da gente granfina, filho, diretores do time, sabe como? Não é pra gente pobre que nem nós não, né pai? Isso aí, filho. Cê fechou bem a porta da Brasília? Fechei pai, já falei.

O desfecho dessa história num país como o Brasil é, talvez, bastante previsível, embora não o seja o encaminhamento dado para ela pelo narrador deste conto razoável sobre futebol escrito por Antonio Barreto. Talvez mais do que o desfecho em si importe mais a condição do micro-universo social representado pelo estádio de futebol que brota da do seu entrecho, da articulação das muitas outras histórias paralelas que o autor faz desfilar a partir desta outra, e de mais outras, e de mais outras…até o ponto final.

“Por que você disse pra soltar o homem, pai? Olhei nos olhos deles, filho. Não é bandido não, eu conheço. Conhece como, pai? Um dia te conto filho. Eu também já fui… Vamos voltar pro jogo, vamos? E a Brasília, pai? Depois a gente resolve isso… E a volta a pé pra casa, pai? Volta, mas se quiser, pode subir nas minhas costas. Posso? Pode. Posso gritar, pai? Pode filho: Paiêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêê”.

 A OBRA:

Para ler o conto, Estádio, na íntegra, ver: Contos Brasileiros de Futebol, organizada por Cyro de Mattos, e publicada pela Editora LGE de Brasília, em 2005.

O AUTOR:

Antonio de Pádua Barreto Carvalho nasceu em Passos (MG) em 13 de junho de 1954. Reside em Belo Horizonte desde 1973. Morou também em algumas cidades do Oriente Médio, onde trabalhou como projetista de Engenharia Civil, na construção de estradas, pontes e ferrovias. Tem vários prêmios nacionais e internacionais de literatura, para obras inéditas e publicadas, nos gêneros: poesia, conto, romance e literatura infanto-juvenil. Participa também de várias antologias nacionais e estrangeiras de poesia e contos. Foi redator do Suplemento Literário do Minas Gerais, articulista e cronista do jornal Estado de Minas e da revista “Morada”, de Belo Horizonte. Colabora com textos críticos, poemas e artigos de opinião para “El Clarín” (Buenos Aires), “Ror” (Barcelona); “Zidcht” (Frankfurt), “Somam” (Bruxelas), entre outros periódicos. Atualmente coordena a coleção “Para Ler o Mundo”, da Editora Scipione, São Paulo, cujo objetivo é criar condições de recepção e produção de textos verbais e não-verbais, de diferentes gêneros e esferas de circulação, visando atender às necessidades lingüístico-discursivas dos alunos do ensino médio brasileiro. Publicou, entre outros, os seguintes livros: O sono provisório (1978) e Vasta fala (1988), de poesia; Os ambulacros das holotúrias (1990) e Reflexões de um caramujo (1993), de contos, além de A barca dos amantes (1990) e A guerra dos parafusos (1993), romance.


[1] Está observação provém de uma frase inclusa no conto-crônica, O homem do Maracanã, deste autor, e está publicado na coletânea, A vez da bola: crônicas e contos do imaginário esportivo brasileiro, que inclui nomes de escritores-jornalistas como Lourenço Diaféria e Daniel Piza, e foi editada pela Companhia Editora Nacional, de São Paulo, em 2004.

 


A palavra na sombra da bola

11/09/2011

Por Edônio Alves

Nos meus estudos sobre a relação do futebol com a literatura, pude perceber, através das pesquisas que fiz com o gênero do conto, as diferentes formas de abordagem do tema deste jogo que os ficcionistas brasileiros empreendem para transformá-lo em narrativa literária. Por conta disso, mapeei essas modelizações formais do tema do futebol em nossa literatura em categorias de leitura para melhor inserir o assunto no universo dos nossos leitores.

Numa dessas classificações de leitura do gênero, eu incluí uma série de narrativas sobre a rubrica que denominei de “Contos de demanda intrínseca”, que são aqueles textos que encerram um tipo de investimento ficcional em que se tenta debater, analisar, demonstrar ou meramente flagrar a condição humana, no seu todo ou em algum aspecto dela, por meio de suas narrativas, a partir da função que o homem exerce dentro do próprio campo temático do texto, neste caso, o campo[1] do futebol.

Nesses sentido, apresento, aqui, mais uma leitura de uma boa narrativa literária sobre o futebol. Trata-se do conto, A sombra, do escritor cearense, Caio Porfírio Carneiro. Vamos a ela:

Narrativa de demanda intrínseca, como já antecipei, esse conto de Caio Porfírio Carneiro põe em cena aquele conflito clássico (bíblico até!) em que a força do mais forte procura se impor à humildade do mais fraco.

E aqui os reveses da condição humana adentra as quatro linhas para costurar mais uma vez, através dos finos tecidos da palavra, a imbricação do jogo da vida com o jogo da bola. Afinal, o personagem principal da narrativa é mais que um jogador de futebol, é um homem que intenta a todo custo escapar da opressão insidiosa de um oponente vigorosamente mais forte e que, dada a sua limitação técnica no campo de jogo, procura se impor não por meio da força do argumento, o que equivaleria à sua melhor técnica e habilidade, mas, sim, pelo argumento da força: o vigor físico em si em conjunto com as artimanhas e malandragens para esconder da arbitragem as suas deslealdades e desrespeitos às regras do jogo. A violência, enfim; assim no campo, assim como na vida.

E se o futebol, como advoga o poeta Ferreira Gullar, não é a vida mesma e, sim, uma idealização desta: “Melhor dizendo, um modo de lutar e derrotar o adversário, sem liquidá-lo fisicamente e dentro de normas pré-estabelecidas” [2][3], esta narrativa parece ter sido criada para desdizer o poeta não na sua concepção ideal do futebol, mas sim, e em última instância, na potencialidade que ele tem também, enquanto um jogo que é – ademais como na vida, aliás – de trazer para o seu campo prático as imperfeições e mazelas da existência humana tais como a sordidez, a injustiça, a inveja, enfim, o lixo humano, demasiado humano, produzido no campo das relações sociais.

De posse de uma técnica narrativa simples e, no entanto, bastante eficaz, em que uma terceira pessoa do singular é utilizada para expressar uma visão do narrador em uníssono com a visão do personagem principal do conto, um meia-armador habilidoso que passa um jogo inteiro pensando numa forma de se livrar definitivamente de uma sombra (o adversário brutamontes que o acompanha milímetro a milímetro dentro do campo e quer anulá-lo mesmo com a violência), Caio Porfírio Carneiro arquiteta a história de sua vingança (a do personagem, claro) em que a abertura já diz tudo.

Haveria de pegá-lo, de tal jeito que o afastasse de vários jogos. Ou o quebrasse definitivamente. O revide frontal seria impossível. Não teria físico para tanto. Disciplinadíssimo. Atropelara-se naquela montanha de músculos. Justificava-se, humilde e cheio de ódios. Fizera ver ao juiz as inúmeras faltas sofridas. De nada serviria a solidariedade do capitão do time, dos companheiros. Cartão amarelo. O jequitibá lá no chão, contorcendo-se de dor nenhuma, cena pura”.

A partir deste ponto, portanto, toda a história segue variando ora a terceira pessoa ora um discurso indireto livre que melhor expresse os pensamentos silenciosos do jogador que trama a superação de sua condição de opressão diante do adversário desleal:

Aquilo vinha de longe, desde que passara a titular e subira como foguete no conceito da torcida e dos adversários. Bola no seu pé era fila de jogadores estonteados e pânico nos zagueiros.

“(…) Contra aquele adversário, porém, nunca. Um suplício. Dois metros, nenhum futebol, colado. Recuava, deslocava-se para o centro, seguia as instruções do técnico, a gritar-lhe, mãos afuniladas na boca:

­            -­ Vá para a direita!

            Inútil.”

O texto segue por dentro dos pensamentos, consciência e hesitações do personagem que se debate entre a necessidade de produzir uma boa performance que leve o seu time à vitória – neste jogo e também no campeonato inteiro – e a urgência de se livrar do obstáculo que justamente vem impedindo, no caso,  esse seu projeto de vida. E, para um caso clássico, uma solução clássica por parte do narrador, o que se não dá a sua história foros de originalidade, ao menos chama a cumplicidade do leitor para uma saída formal confortavelmente conservadora:

“(…) Olhou-o rápido e até cumprimentou-o. Recebeu em resposta, um sorriso e o mesmo piscar de olho, de alto dos dois metros. Na base, os tendões, fios sobre as chuteiras enormes. Pegaria o direito. Estraçalharia.”

Não é necessário lembrar aqui a força simbólica dos tendões nas histórias clássicas em que se pretende mostrar que onde reside a força é que justamente pode também morar a maior fraqueza. Aquiles que o diga, junto com Homero. O desfecho desse caso, deixe-se o leitor procurar. Ressalvando-se, entretanto, que aqui, nessa narrativa curta sobre futebol, também se intenta demonstrar, através da figuração típica da representação literária, o quanto as regras de convívio (sejam éticas, técnicas, morais ou políticas) são insuficientes para pautar a ação humana quando a questão em foco for a vivência da plenitude da existência, o que inevitavelmente inclui o efeito das desigualdades, injustiças, crueldades e violências, no corriqueiro enfrentamento homem a homem da vida.

Mas, a propósito, levemos em consideração – porque absolutamente pertinentes para este caso do conto de Caio Porfírio Carneiro – as reflexões do poeta Ferreira Gullar sobre a vida e sobre o futebol:

De todos os modos, essa marcação homem a homem, na vida, é impraticável, já que não se passa numa área delimitada, às vistas da torcida e transmitido pela televisão. Além do mais, na vida a desigualdade é maior, uma vez que, além de o juiz estar ausente, quem pode mais manda mais e até mesmo anula as normas do convívio social. Sim, porque a vida também tem regras, tem leis, só que mais difíceis de aplicar do que numa disputa esportiva.

Em suma, o futebol nos permite viver numa disputa justa, uma vez que o número de contendores é o mesmo de cada lado e as regras valem para todos. Se um time é melhor que outro, isso se deve às qualidades dos jogadores e do treinador. Aqui também, como na vida, quem pode mais manda mais, isto é, contrata mais e melhor, o que nos levará, fatalmente, a concluir que a igualdade total, que não existe na vida, tampouco no futebol se consegue alcançar. Mas, nele, se chega muito mais perto e, às vezes mesmo, se alcança, pois há partidas entre times igualmente bons, cujo resultado é impossível prever.”

Como o final de um conto, talvez, diria o autor dessa história de futebol.


[1] A expressão aqui deve ser entendida também na acepção em que é utilizada pela conceituação de campo social, feita pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu. Cf. BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. p. 59-74.  

[2] Ver artigo do poeta Ferreira Gullar sobre o tema, publicado na Folha de São Paulo: edição de domingo, 15 de março de 2009.

 Para ler o conto na íntegra, consultar:

Histórias de futebol, organizada por Maria Viana e Adilson Miguel, com ilustrações de Rubem Filho, editada pela Editora Scipione, de São Paulo, em 2006.

 

 

 


Futebol e literatura

29/05/2011

Jogo de bola, jogo de palavras…

Por Edônio Alves

Como se pode constatar dando uma olhada nos textos que compõem essa seção do nosso blog, a minha inserção aqui tem como finalidade a discussão teórica e/ou analítica da relação entre o jogo de futebol e a literatura. Tal ligação entre os dois campos, pode-se dizer, tem como base o pressuposto de que tanto o futebol como a literatura encerram códigos de comunicação específicos, porém relacionais entre si. A idéia que funda esse pressuposto é a noção de jogo, uma vez que o esporte futebol tem origem e se sustenta, tanto na teoria quanto na prática, no conceito antropológico de jogo. Assim também é a literatura, uma forma de expressão estética da linguagem (tal qual o futebol como linguagem corporal que também o é) que se realiza muito fortemente na estruturação de jogos de palavras.

Uma peça literária nada mais é, portanto – seja ela um romance, um conto ou um poema -, do que a formalização, em nível linguistico, da expressão verbal da língua sob a forma de um jogo de palavras que intenta transmitir algo, seja isso uma idéia, uma sensação, um conceito ou uma mera referência direta da realidade objetiva em que vivemos. Nesse sentido, ao estudar bastante a presença do futebol na literatura brasileira em suas mais diferentas formas, pude comprovar, ao menos analiticamente, uma alvissareira constatação: a clara impressão de que, talvez motivada pela centralidade do tema do futebol na nossa cultura, a literatura brasileira já elaborou um conjunto de operações modelizantes, através da contribuição conjunta, sucessiva e pessoal dos seus mais distintos escritores, com as quais construiu um tipo específico de peça literária: o conto brasileiro de futebol. Não se diga o conto de futebol no geral, mas, precisamente, o conto brasileiro de futebol, significando isto uma peculiar formalização estética de um tema cuja efetivação literária só é possível graças a dimensão estruturante desse jogo no âmbito específico da nossa mentalidade e formação cultural.

Um bom exemplo para a comprovação dessa minha idéia é a presença de temas de formalização literária que só seriam possíveis na realidade peculiar da nossa cultura futebolística. Cito, neste caso, à guisa de exemplificação, um dos assuntos mais pautados pelos escritores brasileiros que escreveram sobre futebol no gênero conto: a derrota do Brasil para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950 em pleno estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro. Pelo trauma que o fato causou na memória emocional brasileira, o chamado “maracanazzo” tem mobilizado a inteligência narrativa de vários de nossos escritores tornando-se, assim, um assunto típico do conto futebolístico brasileiro. Vejamos, agora, a leitura, feita por nós, do conto intitulado, 1958, do escritor Deonísio da Silva, no contexto que acima referimos.

Maracanã, Rio de Janeiro, na final da Copa de 1958

O conto é uma excelente narrativa de viés memorialístico que tem o futebol como tema (“E tudo isso escrevo para dizer que eu nasci em 1958. Dez anos depois de ter vindo ao mundo”) e na qual, ao encetar uma jogada em que forma e conteúdo se irmanam num paralelismo de fundo tático, o narrador começa dando um drible no leitor quanto as suas intenções com o manejo da palavra ficcional para expor as suas próprias motivações interiores como centralidade de uma história em que o jogo de bola entra como dissimulado leitmotif. Se não, vejamos, em trechos do próprio narrador:

“A psicóloga disse que nasceu aí minha paixão por mulheres mais velhas do que eu. Não posso vê-las, sinto um aperto no coração, vontade de celebrar alguma coisa. Na última vez que fiz isso na rua com uma desconhecida, eu disse: ‘posso abraçar a senhora?’ ‘É sem maldade!’ ‘Mas aqui?’, ela disse, ‘aqui no meio da rua?’ ‘Aonde a senhora quiser’, eu disse. Ela falou de soslaio: ‘você disse que era sem maldade!’ ‘Mas é sem maldade’, eu disse, ‘pode ser naquele cantinho, perto do Banco do Brasil, em frente ao correio’.

Quem, ao ler inicialmente esse trecho do texto de Deonísio da Silva, assegura estar se tratando de um conto sobre futebol?  E quem, ao passar a vista na continuação da página, adquire a sensação, típica nesses casos, de que se vai ouvir falar de gols, dribles, jogadas miraculosas, partidas memoráveis, jogos inesquecíveis, enfim; aquela sensação de prolongamento, pela palavra, do fruir o mundo do futebol através da magia e o encanto místicos da literatura?

“Entardecia. Agarrei aquela mulher de blusa branca e saia preta, de cabelos molhados, ela também me abraçou e disse: ‘eu não entendo mais os homens’. Eu disse: ‘eu também não entendo mais o mundo, como ele é diferente do que eu imaginava em minha infância!’ ‘Sua infância’, a mulher perguntou. ‘Sim’, eu disse, ‘sim, sim, sim’, eu repeti bem agarradinho, ‘sim, dona Estela, eu jamais esqueci da senhora!’.

E não tinha como esquecer mesmo, pois essa dona Estela vem a ser a árbitra daquele jogo (agora sim, eis que adentra as quatro linhas que delimitam a página do livro o universo também mágico e encantado do futebol) em que se enfrentariam, em tempos pretéritos, para tirar uma forra, dois meninos rivais do Grupo Escolar onde estudavam e onde um deles se depararia com a maior epifania de sua vida.

Para contar o ocorrido, o personagem-narrador, ele mesmo um desses meninos (recurso ficcional bastante corriqueiro nas tramas textuais em que a infância é o elemento diegético por excelência das histórias que tem como meta o recorte proustiano da realidade reminiscente dos tempos da bola), apresenta, assim, dois dos principais participantes daquela história, depois de advertir que “Carlinhos jogava no time que dali a alguns dias enfrentaria o nosso e não perderia por esperar”.

Um é ele próprio:

“(…) Eu era meia-direita, meu modelo era Didi. Sabia que o príncipe etíope era uma elegância só. E procurava imitá-lo em campo. Mas eu só sabia dele pelo rádio. Jamais eu vira uma única jogada de Didi”.

 O outro, é o goleiro do seu time de nome um tanto esquisito: “O nosso goleiro era Semenrique, enorme e gordo e, coisa surpreendente, com uma agilidade extraordinária. Seu modelo era Gilmar. ‘Agarra, Gilmaaaaaaaaar!’, ele gritava quando pegava qualquer bola, por mais fraca que fosse”.

Agora, sim, delimitado o tempo, o espaço e alguns personagens de intervenção na história, o narrador ocupa-se, a partir deste ponto, a desfiar, em meio a um tempo da narrativa que dura uma partida de futebol, as impressões que os acontecimentos daquele dia deixariam para sempre como marcas fundadoras de uma índole agora adulta e muito afeita à arte da escrita e da reflexão. E, por incrível que pareça, o futebol comparece neste contexto como uma espécie de mito fundador, um típico ritual de passagem, um universo litúrgico em meio do qual um menino vai se tornando homem através da interiorização dos ensinamentos da experiência lúdica e quase erótica que ali se desenrola em forma de epifanias e descobertas.

Pode-se dizer que neste singelo conto de Deonísio da Silva, a magia da escrita e do jogo de bola se imbricam de tal forma que seu narrador pode perfeitamente ser visto como um exímio jogador que detém sobre si o controle tanto dos segredos da bola quanto da linguagem de teor literário. E mais ainda: que cada uma de suas boas jogadas num campo implica igualmente boas jogadas no outro, como se pode comprovar pelos trechos a seguir:

“Recebia a bola de Moacir. Não pude dominar direito, então toquei ao lado de um zagueiro deles, corri pelo outro lado, tomei a bola adiante, esse drible era chamado de meia lua, o zagueiro escorregou, todos riram muito e gritaram, segui em disparada em direção ao gol deles, eu queria fazer o meu de qualquer jeito, o Moacir apareceu de repente ao meu lado, pedindo a bola livre, dentro da grande área já, mas eu não passei a bola para ele e­ ­– vejam só! – quem aparece na minha frente como o último menino antes do goleiro? Justamente o Carlinhos! Não sei quanto duraram aqueles pequenos momentos que eu não sabia ainda medir na vida; frações de segundos…(…) Só sei que eu fazia que fosse e ouvia o Carlinhos ameaçar ‘tu faz que vai, mas não vai e eu e pego pelo outro lado’. Mas eu fui pelo mesmo lado porque num daqueles minúsculos e exatos momentos me lembrei de Garrincha, que ia para onde ameaçava ir, pela direita, por onde sempre saía, fiz o mesmo e chutei de pé esquerdo, mesmo não sendo canhoto, porque não dava tempo de trocar. A bola saiu mascada, mas passou pelo Carlinhos, que ainda teve tempo de se virar, passou pelo goleiro deles e entrou enviezada e torta lá no cantinho. 4 x 1 para eles, mas o meu eu fiz. Corri para dona Estela e nunca mais me esqueci daquele abraço”.

O trecho é longo, mas, junto com este outro que segue, serve para dar a dimensão do sofisticado entrecho narrativo que Deonísio da Silva criou como que para comprovar a idéia hipotética aventada por nós, lá no início deste trabalho, de que parece haver uma homologia entre a maneira singular com que nossos melhores jogadores jogam o futebol (veja-se justamente artífices como Pelé e Garrincha, por exemplo) e a forma igualmente ardilosa com que os nossos melhores escritores narram o jogo – ou alguns dos seus aspectos – através da arte da ficção.

“Corremos para dona Estela, o nosso Armando Marques de Saia. Linda aquela mestra! Eu tinha paixão por minhas professoras, mas a minha preferida era outra, que tinha um cheirinho bom e me alfabetizara. Seria fiel a ela a vida inteira porque o prazer que a escrita me deu, sem exagero posso dizer que poucas mulheres me deram ao longo da vida. Ou melhor: se não fosse eu saber ler, não teria aprendido a amar as minhas amadas”.

Claro que a narrativa segue brindando o leitor com episódios diversos e variados no tom e no teor. Com lances de lirismo e de comicidade; de latente ternura e manifesta poesia; tudo isso fruto maduro de uma memória afetiva que se lembra a si mesma como o mais lídimo recurso de que o homem dispõe para, na lida imemorial da palavra com a vida, ou mais precisamente: da vida com a palavra, ele recorrer ao passado para dar sentido ao presente.

E, como atesta o narrador, num fecho-síntese do que expusemos acima acerca da relação palavra/bola, tudo graças ao futebol:

“Jamais tive a oportunidade de dizer a Garrincha, a Didi e a Vavá que eles me ajudaram a ser escritor, a ser professor, a estudar, a lutar, a virar partidas, ou ao menos a fazer o nosso”.

Deonísio da Silva, o autor do conto acima, nasceu em Siderópolis, Santa Catarina, em 1948.  É escritor e professor universitário brasileiro, que mora no Rio de Janeiro e trabalha na Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de Cultura e Coordenador de Letras. Doutor em Letras pela USP, com uma tese sobre os livros proibidos no Brasil no período pós-1964, sempre conciliou sua vida de escritor com a docência universitária e com uma ativa colaboração na imprensa brasileira. Já Publicou os seguintes romances: A mulher silenciosa (1981); A cidade dos padres (1986); Orelhas de aluguel (1988); Avante, soldados: para trás (1992), que ganhou o prêmio internacional Casa de las Américas, em júri presidido por José Saramago, e publicado também em Cuba, Portugal e na Itália; Teresa (1997), Os guerreiros do campo (2000) e Goethe e Barrabás (2008). Também escreveu diversos livros de contos, gênero com o qual estreou, começando em 1975, e de que são exemplos as seguintes coletâneas, com contos publicados em francês, espanhol, alemão e sueco, entre outras: Exposição de motivos (1976), transposto para a televisão por Antunes Filho; Livrai-me das tentações (1984); O assassinato do presidente (1994) e A primeira coisa que eu botei na boca (2002). Publicou também livros infanto-juvenis e vários ensaios literários. Atualmente escreve uma coluna semanal de etimologia na revista Caras, periodicamente reunidas no livro De onde vêm as palavras (1997), constantemente reeditado, e outra, de crítica de mídia, no Observatório da Imprensa. O conto, “1958”, também compõe a coletânea, 11 histórias de futebol, publicada em 2006, pela Editora Nova Alexandria, de São Paulo, tendo como tema central o futebol.

Para entender melhor o tema, ler:

OLIVIERI, Antonio Carlos et al. 11 histórias de futebol. São Paulo: Nova Alexandria, 2006.