“Força pela Alegria” ou o lazer sob o jugo totalitário – o caso da Alemanha Nazista

02/07/2021

por Elcio Cornelsen

(cornelsen@ufmg.br)

Introdução

Em regimes totalitários, que procuram controlar todos os âmbitos da vida social, nenhum segmento da cultura permanece incólume a uma intervenção. Sem dúvida, a Alemanha nazista é um exemplo patente de tal processo, inclusive nos âmbitos do esporte e do lazer. Por um lado, o uso propagandista do esporte no contexto dos XI Jogos Olímpicos de Berlim, realizados em agosto de 1936, é uma dessas facetas. Por outro, o lazer, menos estudado se comparado à prática esportiva, também se tornou instrumento de política de indução de adesão da população ao regime. Este estudo, realizado entre março de 2014 e novembro de 2017, teve por objetivo enfocar as organizações do Estado nazista alemão que instrumentalizaram o âmbito do lazer, sobretudo a Deutsche Arbeiterfront (DAF; Frente Alemã de Trabalho) e a Kraft durch Freude (KdF; Força pela Alegria). Para isso, tomou-se por base estudos históricos e documentários sobre o lazer sob o jugo totalitário.

Metodologia

A metodologia empregada no estudo em questão pautou-se, basicamente, por dois procedimentos: em primeiro lugar, foi necessário selecionar e ler obras de cunho teórico que contemplassem o tema da relação entre história, memória, políticas públicas e lazer; em segundo lugar, o estudo orientou-se também por seleção de pesquisas históricas e documentários (Kloft, 2001; Mühlen, 2009) sobre o tema, que demandaram leitura e análise. Para lazer e políticas públicas, tomamos por base os estudos de Linhales (2001), Marcellino (2001; 2008), Gomes (2008), e Isayama (2010). Para história e memória do lazer, nos orientamos pelos estudos de Melo (2011; 2013). Por fim, para a contextualização do lazer no período nazista, adotamos os estudos de Grube e Richter (1982), Giesecke (1983), Kammer e Bartsch (1992), Studt (1995), Wendt (1999), Schneider (2004), Baranowski (2004), e Dillon e Richthofen (2008).

Resultados e Discussão

A criação de uma instância reguladora de políticas de lazer na Alemanha nazista resultou de uma política de intervenção no âmbito do trabalho, como parte de uma política de Gleichschaltung (“Sincronização”), promovida pelo partido nazista no sentido de uniformizar e controlar, sob princípios ideológicos, todas as instituições públicas e sociais até então autônomas (BROSZAT, 1995, p. 62). Segundo o historiador Bernd Jürgen Wendt, a extinção dos sindicatos das inúmeras categorias profissionais e de suas centrais sindicais em 02 de maio de 1933 foi seguida pela criação de uma organização totalitária em 10 de maio de 1933, que deveria abranger todos os trabalhadores e segmentos profissionais: a DAF – Deutsche Arbeitsfront (Frente Alemã de Trabalho) (WENDT, 1999, p. 64).

Por sua vez, diretamente subordinada a essa organização surgiu em novembro de 1933 outra organização destinada, exclusivamente, a instrumentalizar o lazer e o esporte no âmbito trabalhista: a KdF Nationalsozialistische Gemeinschaft Kraft durch Freude (Comunidade Nacional-Socialista Força pela Alegria) (KAMMER; BARTSCH, 1992, p. 104). Entre outras atribuições, destinava-se a promover políticas de higiene e saúde no âmbito das empresas, bem como de construção de restaurantes, espaços de descanso e de centros esportivos mantidos pelas próprias empresas, destinados a seus trabalhadores, além de determinar um aumento das férias anuais remuneradas, de 3 para 12 dias, e de promover uma ampla oferta de programas de lazer culturais e esportivos (WENDT, 1999, p. 65).

De acordo com os historiadores Frank Grube e Gerhard Richter, esse tipo de organização não foi uma invenção do nazismo, mas sim criada a partir das estruturas pré-existentes do movimento sindical na República de Weimar, bem como a partir de um modelo italiano de organização do tempo livre e do lazer: a “Il Dopolavoro” (Após o Trabalho), criada em maio de 1925 por Benito Mussolini (GRUBE; RICHTER, 1982, p. 123). Em seu ápice, a KdF contou com mais de 150.000 funcionários encarregados de organizar o tempo livre e o lazer do trabalhador alemão. Sua estrutura organizacional abrangia cinco instâncias: o “Serviço de Nacionalidade e Pátria” (Amt Volkstum und Heimat), encarregado de organizar a participação de trabalhadores em eventos de caráter popular; o “Serviço de Formação Popular Alemã” (Deutsches Volksbildungswerk), encarregado de promover cursos para adultos; o “Serviço de Esporte” (Sportsamt), que se tornou um fator de concorrência para os clubes tradicionais ao promover, entre os trabalhadores, a prática de determinadas modalidades esportivas; o “Serviço para Viagens, Passeios e Férias” (Amt für Reisen, Wandern und Urlaub), responsável pela ampla oferta de viagens de férias ou mesmo de excursões aos fins de semana; por fim, o âmbito “Beleza do Trabalho” (Schönheit der Arbeit), responsável por melhorias nas instalações dos locais de trabalho (GRUBE; RICHTER, 1982, p. 124-126).

Sem dúvida, a KdF incentivou, sobretudo, o turismo de massa, à época um verdadeiro “luxo” para o trabalhador. De acordo com Ursula Becher, até os anos 1920, devido às crises econômicas enfrentadas pelo país e às limitações salariais, o trabalhador alemão não dispunha de meios próprios ou mesmo de financiamento para empreender viagens de férias. A pouca oferta de lazer limitava-se a atividades nos finais de semana, como, por exemplo, a organização de caminhadas e passeios em parques e em áreas verdes próximas às cidades (BECHER, 1995, p. 126). Segundo a autora, tal organização visava a duas metas: “Para os nacional-socialistas, ela era um excelente meio de propaganda no sentido de combater a resistência dos trabalhadores ao programa ideológico e, respectivamente, de ganhar novos adeptos” (BECHER, 1995, p. 126-127).


Nosso estudo revelou que o programa da KdF previa uma ampla oferta de atividades de lazer: idas a teatros, cinemas, concertos e exposições; formação de grupos de passeios e de práticas desportivas, bem como de danças folclóricas; exibição de filmes nas empresas; promoção de cursos sobre os mais variados temas. Todavia, o carro-chefe de tal intervenção política no âmbito do lazer era, sem dúvida, a promoção de viagens a partir de programas de subsídios, não apenas para regiões da Alemanha, como também para viagens marítimas ao Exterior, principalmente a Portugal e ao Mediterrâneo, contando com uma frota de 12 navios. As estatísticas apresentadas por Grube e Richter impressionam: de 2,3 milhões de pessoas que viajaram de férias, atendidas pela organização em 1934, esse número elevou-se em 1938 para 10,3 milhões. No mesmo período, o número de pessoas que buscaram orientação e subsídio junto à KdF para outras atividades de lazer subiu de 9,1 para mais de 54 milhões (GRUBE; RICHTER, 1982, p. 123).
Mesmo que tais números possam ser questionados, e mesmo que, como salienta Ursula Becher, seja difícil mensurar o nível de adesão em termos ideológicos (BECHER, 1995, p. 129), a popularidade da KdF é inegável, embora ela tenha sido muito mais motivada pela carência de “alegria” (Freude), do que propriamente pela “força” (Kraft), um dos vetores da doutrinação ideológica. Além disso, para o ramo de hotelaria e para a Rede Ferroviária Alemã – a Deutsche Reichsbahn –, o turismo subvencionado pelo Estado significou uma lucratividade garantida.


Os resultados de uma pesquisa de opinião realizada com empregados da Siemens em Berlim, no ano de 1937, demonstram bem que o aparente sucesso da KdF deveu-se justamente pela organização ter ocupado um segmento do mercado até então não explorado nessas proporções. Dos 42.000 entrevistados, 28.000 ainda não tinham passado férias fora de Berlim (GRUBE; RICHTER, 1982, p. 123).

Em primeira linha, pode-se afirmar que o intuito de uma política dessa natureza era organizar o tempo de descanso, relaxamento e lazer (não trabalho) frente ao tempo de produção (trabalho), no sentido de possibilitar aos trabalhadores uma recuperação das forças física e psíquica exigidas por suas funções, através do empreendimento de atividades lúdicas. Esse parece ser, aliás, um fenômeno comum, oriundo da própria industrialização e da formação de centros urbanos, conforme aponta Victor Andrade de Melo: “A estruturação das fábricas e a subsequente necessidade de facilitar a circulação de mercadorias transformaram a cidade no novo lócus privilegiado de vivências sociais, sede das tensões que se estabeleceram na transição entre o novo e o antigo regime” (MELO, 2011, p. 68). E o autor prossegue em sua argumentação: “À necessidade de gestar um novo conjunto de comportamentos considerados adequados para a consolidação do modelo de sociedade em construção, adenda-se a reorganização dos tempos sociais: a artificialização do tempo do trabalho, uma decorrência da industrialização, dá origem a um mais claro delineamento do tempo livre” (MELO, 2011, p. 68-69).

Todavia, nosso estudo nos permitiu constatar também que a promoção de atividades de lazer com vistas à recuperação da força de trabalho não era o único aspecto que levou a cúpula nazista a interferir, através de política de Estado, na organização do tempo livre, não a deixando mais a cargo do indivíduo ou da população. Segundo Ursula Becher, tal intervenção foi motivada pelo ceticismo diante da capacidade do trabalhador organizar, ele mesmo, o seu tempo livre, pois se temia que o tempo livre produzisse ócio, e que dele surgissem “pensamentos, tolos, difamatórios e, por fim, criminosos” (LEY apud BECHER, 1995, p. 128), como o próprio dirigente da Frente Alemã de Trabalho (DAF), Robert Ley, certa vez formulou. Portanto, a organização do tempo livre e do lazer não escapou ao controle “total” do Estado, como Robert Ley afirmou: “Não temos mais pessoas num sentido privado. O tempo, onde cada um podia e era permitido fazer o que quisesse, passou” (LEY apud BECHER, 1995, p. 128).

Cabe, aliás, ressaltar que até mesmo o Volkswagen (literalmente, “veículo do povo”) foi idealizado como parte da política da DAF e da KdF. A produção do KdF-Wagen, como também era chamado, começou no segundo semestre de 1938. No final daquele ano, cerca de 150.000 pessoas já haviam encomendado o carro e estavam esperando ansiosamente pela entrega. Eles deveriam começar a receber seus carros no início de 1940. Entretanto, com a eclosão da guerra em setembro de 1939, a produção foi direcionada para a construção de veículos de combate.

Sendo assim, é patente o grau de intervenção do Estado nazista num âmbito em que, tradicionalmente, haveria uma liberdade maior de escolha por parte do individuo de suas atividades de lazer, frente a suas necessidades e possibilidades. Pois o controle de cada indivíduo em todo o tempo, inclusive no tempo livre e nas férias, era uma meta do nazismo. Portanto, o lazer durante o regime nazista tornou-se mais um campo social abarcado por uma política de cerceamento de liberdade e de doutrinação de valores.

Considerações finais

O presente estudo permitiu-nos constatar que o lazer sofreu a interferência do Estado com fins de propaganda e de estabilização política, do mesmo modo como havia ocorrido no âmbito do esporte, principalmente no contexto dos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. Inegavelmente, o lazer sob o jugo totalitário foi um âmbito que garantiu a adesão de amplos segmentos da sociedade alemã à ideologia nazista. Se, por um lado, a Olimpíada de Berlim serviria – como realmente serviu – de “vitrine”, através da qual a cúpula nazista empreenderia todos os meios para mostrar ao mundo – e, portanto, fabricar – uma bela imagem da “nova” Alemanha (das neue Deutschland), bem diferente daquela vivenciada no dia-a-dia de um Estado totalitário erigido sobre a base de uma ideologia carismática e imperialista defendida por um líder – o Führer –, um único partido populista – o NSDAP, “Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães” –, aparelhos de repressão – SA, SS e Gestapo – e um monopólio de armas, informações e propaganda, por outro, desde que chegaram ao poder em janeiro de 1933, os governantes nazistas implantaram políticas de lazer que fomentassem entre os trabalhadores um sentido de adesão e, ao mesmo tempo, reduzisse a possível resistência entre eles, uma vez que modificações drásticas ocorreram no âmbito trabalhista com a supressão dos sindicatos e a criação de uma instituição centralizadora, a Frente Alemã do Trabalho (Deutsche Arbeiterfront ou DAF), lembrando, mais uma vez, que a ela se vinculava a organização Força pela Alegria (Kraft durch Freude ou KdF), responsável pelos âmbitos do lazer e do turismo no Terceiro Reich.

Referências

BARANOWSKI, Shelley. Strength Through Joy: Consumerism and Mass Tourism in The Third Reich. New York: Cambridge University Press, 2004, p. 1-10. Disponível online: http://catdir.loc.gov/catdir/samples/cam041/2003060603.pdf. Acesso em 18 dez. 2014.

BECHER, Ursula A. J. Kraft durch Freude. In: STUDT, Christoph (org.). Das Dritte Reich: Ein Lesebuch zur deutschen Geschichte 1933-1945. München: Beck, 1995, p. 126-129.

BROSZAT, Martin. Gleichschaltung. In: STUDT, Christoph (org.). Das Dritte Reich: Ein Lesebuch zur deutschen Geschichte 1933-1945. München: Beck, 1995, p. 62-64.

DILLON, Chris; RICHTHOFEN, Esther von. Alltag im Dritten Reich. Erfuhrt: Sutton Verlag, 2008.

GIESECKE, Hermann. Leben nach der Arbeit: Ursprünge und Perspektive der Freizeitpädagogik. München: Juventa-Verlag, 1983.

GOMES, Christianne Lucy. Lazer, trabalho e educação: relações históricas, questões contemporâneas. 2. ed., Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2008. [coleção “Aprender“]

GRUBE, Frank; RICHTER, Gerhard. Alltag im Dritten Reich: So lebten die Deutschen 1933-1945. Hamburg: Hoffmann und Campe, 1982.

ISAYAMA, Hélder Ferreira (org.). Lazer em estudo: currículo e formação profissional. Campinas, SP: Papirus, 2010.

KAMMER, Hilde; BARTSCH, Elisabet. Nationalsozialismus: Begriffeaus der Zeit der Gewaltherrschaft 1933-1945. Reinbek bei Hamburg: Rowohlt, 1992.

LINHALES, Meily Assbú. Jogos da Política, Jogos do Esporte. In: MARCELLINO, Nelson Carvalho (org.). Lazer e Esporte: políticas públicas. Campinas/SP: Autores Associados, 2001, p. 31-56.

MARCELLINO, Nelson Carvalho (org.). Lazer e Esporte: políticas públicas. Campinas/SP: Autores Associados, 2001.

MARCELLINO, Nelson Carvalho (org.). Políticas públicas do lazer. Campinas, SP: Alínea, 2008. [coleção “Estudos do Lazer”]

MELO, Victor Andrade de et al. (org.). Pesquisa histórica e história do esporte. Rio de Janeiro: 7Letras, 2013.

MELO, Victor Andrade de. O lazer (ou a diversão) e os estudos históricos. In: ISAYAMA, Hélder Ferreira; SILVA, Silvio Ricardo da (org.). Estudos do lazer: um panorama. Rio de Janeiro: Apicuri, 2011, p. 65-80.

SCHNEIDER, Claudia. Die NS-Gemeinschaft Kraft durch Freude (2004). Disponível em: http://www.zukunft-braucht-erinnerung.de/die-ns-gemeinschaft-kraft-durch-freude/. Acesso em 21 fev. 2015.

STUDT, Christoph (org.). Das Dritte Reich: Ein Lesebuch zur deutschen Geschichte 1933-1945. München: Beck, 1995.

WENDT, Bernd Jürgen. Das nationalsozialistische Deutschland. Berlin: Landeszentrale für politische Bildung, 1999.


A Associação Portuguesa de Desportos e a simbologia da cruz

18/01/2021

por Elcio Cornelsen

(cornelsen@letras.ufmg.br)

A já centenária Associação Portuguesa de Desportos, diferindo de outros clubes brasileiros de origem lusitana, como, por exemplo, o Club de Regatas Vasco da Gama e a Tuna Luso Brasileira, não surgiu, originalmente, no âmbito dos esportes náuticos, mas sim como clube de futebol. Fundado em 14 de agosto de 1920 com o nome de Associação Portuguesa de Esportes, o clube resultou da fusão de outras cinco agremiações já existentes à época: o Luziadas Futebol Club, a Associação 5 de Outubro, o Esporte Club Lusitano, a Associação Atlética Marques de Pombal e o Portugal Marinhense, formando um único clube de futebol da colônia lusitana em São Paulo, apto a disputar a primeira divisão do campeonato paulista. [1]

A data de fundação da Portuguesa, longe de ser fortuita, remonta a um fato histórico fundamental para a construção de Portugal enquanto nação, ocorrido na Idade Média: o dia 14 de agosto de 1385 entrou para a história como o dia da Batalha de Aljubarrota, em que Portugal derrotou a Espanha e conseguiu se afirmar como reino independente de Castela e Leão. Lideradas por D. João, mestre da Ordem de Avis, as tropas portuguesas derrotaram as tropas espanholas sob o comando de D. Juan I de Castela no campo de São Jorge, próximo à vila de Aljubarrota, nas imediações de Leiria e Alcobaça, no centro de Portugal. Um dos acontecimentos mais significativos da história de Portugal, a Batalha de Aljubarrota marcou o inicio da Dinastia de Avis, que permaneceria no poder até 1580, abrangendo, portanto, a era dos Descobrimentos, e garantiu ao reino português sua soberania diante das pretensões do reino de Castela e Leão e promoveu a consolidação da identidade nacional enquanto nação livre e independente. [2]

Figura 1 – A Batalha de Aljubarrota
Fonte: https://www.fundacao-aljubarrota.pt/

No Mundo Ocidental, a simbologia da cruz consolidou-se, sobretudo, pela difusão do Cristianismo, em que a cruz aparece como símbolo do sofrimento de Cristo e da fé cristã. De acordo com o jornalista e historiador Guss de Lucca, a Cruz Cristã, também denominada de Cruz Latina, remonta à cruz utilizada pelos romanos para executar criminosos e inimigos do Império. No contexto cristão, “ela nos remete ao sacrifício que Jesus Cristo ofereceu pelos pecados das pessoas. Além da crucificação, ela representa a ressurreição e a vida eterna”. [3] Dessa tradição, surgiram outras cruzes, como, por exemplo, a Cruz de Santo André, a Cruz de Santo Antonio, a Cruz Patriarcal ou de Caravaca, a Cruz de Jerusalém, a Cruz da Páscoa, a Cruz do Calvário, a Cruz da Ordem dos Templários, a Cruz de Malta, a Cruz da Ordem de Cristo e a Cruz da Ordem de Avis. Para nosso estudo, interessa-nos, justamente, esta última.

Figura 2 – A Cruz da Ordem de Avis
Fonte: http://paineis.org/C06.htm

Além de atrelarem-se à história de Portugal através da data de fundação, os laços de origem da Associação Portuguesa de Desportos, como não poderia deixar de ser, foram reforçados através de elementos de identidade simbólica. As cores escolhidas para o uniforme foram o verde e o vermelho, as mesmas cores de Portugal. E o primeiro distintivo do clube, adotado no ato de fundação, foi composto pelo escudo português sobre um fundo verde e vermelho. Por sua vez, este foi substituído em 1923 pela Cruz de Avis, adotada como elemento componente de seu brasão. [4]

Além de símbolo das glórias lusitanas nas Cruzadas, a Cruz de Avis também representava o fim do domínio do Reino de Castela sobre Portugal com a batalha de Aljubarrota, de modo que, simbolicamente, a adoção do novo brasão associava-se diretamente à data de fundação do clube. Cabe ressaltar que a Ordem de Avis, fundada em 1319 e, portanto, posterior às Cruzadas, é uma continuidade, em Portugal, da Ordem dos Templários, dissolvida pelo Papa Clemente V em 1312.


Figura 4 – Os escudos e as mascotes da Portuguesa
Fonte: http://www.acervodalusa.com.br/

A Lusa, como é carinhosamente denominada por seus torcedores, originalmente, teve um primeiro hino, composto por Arquimedes Messina e Carlos Leite Guerra:

Você faz parte de uma grande família

Que muito pode se orgulhar

E a família unida e muito amiga

Da Portuguesa querida

Muitas obras vai realizar

Pelo esporte brasileiro

Rubro verde espetacular

Esportivo recreativo clube de tradição

E o clube da amizade orgulho da cidade O clube do coração

Viva a Lusa

Viva a Lusa

Clube Esportivo e social

Portuguesa de desportos

Orgulho do esporte nacional [5]

Em termos textuais, o primeiro hino da Portuguesa, além do nome do clube e da expressão carinhosa “Lusa”, traz ainda a identidade simbólica a partir das cores mencionadas no verso “Rubro verde espetacular”, mas não faz menção à Cruz de Avis.

Todavia, no início dos anos 1980, o hino original da Portuguesa de Desportos foi substituído por outro, composto por um de seus torcedores ilustres, o saudoso cantor Roberto Leal (1951-2019), em parceira com a compositora Márcia Lúcia. Em entrevista concedida ao Globo Esporte, datada de 11 de janeiro de 2011, Roberto Leal fez a seguinte declaração a respeito do novo hino por ele criado nos anos 1980:

O hino da Portuguesa era bonito, mas os torcedores queriam uma coisa mais forte. Resolvi fazer um e sempre cantava nos encontros. Quando os diretores perceberam que a música estava na boca das pessoas, resolveram fazer uma assembléia no clube e oficializaram o hino que criei. […] [6]

Composta e gravada em 1983, a letra do novo hino da Portuguesa reproduz em seus versos alguns traços de identidade simbólica:

Vamos à luta, ó campeões,

hão de vibrar os nossos corações

Na tua glória, toda certeza,

que tu és grande, ó Portuguesa!

Vamos à luta, ó Campeões,

há de brilhar a cruz dos teus brasões

E tua bandeira verde-encarnada,

que é a luz da tua jornada!

Vitória e a certeza

da tua forca e tradição

Em campo, ó Portuguesa, pra nós,

és sempre um time campeão! [7]

Além do nome do clube, e das cores mencionadas no verso “E tua bandeira verde-encarnada”, a letra do novo hino retoma a simbologia da cruz, presente no distintivo, no verso “há de brilhar a cruz dos teus brasões”. Desse modo, a letra do novo hino, de maneira implícita, reforça o laço entre a data de fundação como marco histórico – a Batalha de Aljubarrota e a Cruz da Ordem de São Bento de Avis –, o distintivo do clube – a Cruz de Avis em verde sobre escudo de fundo branco e contornos vermelhos – e suas cores.

Portanto, a simbologia da cruz, no caso específico da Associação Portuguesa de Desportos, discursivamente, atrela o clube às tradições medievais da Ordem de São Bento de Avis, ordem religiosa militar de cavaleiros portugueses surgida no século XII, e à era de ouro da Dinastia de Avis nos séculos XV e XVI. O hino e sua letra também contribuem discursivamente para a divulgação dessa simbologia.

Notas

[1] As informações históricas contidas neste item foram coletadas no site oficial do clube – disponível em: http://www.portuguesa.com.br/fhistorico.asp; acesso em: 11 jan. 2021 –, bem como no blog “Alma Lusa” – disponível em: http://almalusa.net/curiosidades.html; acesso em: 21 fev. 2012.

[2] MONTEIRO, João Gouveia. Aljubarrota, 1385: A batalha real. Lisboa: Tribuna da História, 2003, p. 26-27. Conferir também: http://www.fundacao-aljubarrota.pt/?idc=21 ; acesso em: 11 jan. 2021.

[3] LUCCA, Guss de. A Cruz e seus Simbolismos. Disponível em: http://www.spectrumgothic.com.br/ocultismo/simbolos/cruz_simbolismos.htm; acesso em: 11 jan. 2021.

[4] Disponível em: http://almalusa.net/distintivos.html; acesso em: 21 fev. 2012.

[5] Disponível em: http://www.acervodalusa.com.br/; acesso em: 11. jan. 2021.

[6] In: Meu jogo inesquecível (entrevista datada de 11/01/2011); disponível em: http://globoesporte.globo.com/futebol/times/portuguesa/noticia/2011/01/meu-jogo-inesquecivel-finalda-lusa-fez-roberto-leal-abandonar-seu-carro.html ; acesso em: 06 mar. 2012.

[7] Disponível em: http://www.acervodalusa.com.br/; acesso em: 11. jan. 2021.


Futebol e Lazer em dois contos de Antônio de Alcântara Machado

24/08/2020

Por Elcio Loureiro Cornelsen

Desde os primórdios do futebol no Brasil, intelectuais não ficaram alheios àquela modalidade esportiva e de lazer que, gradativamente, ultrapassava os limites do ground e do field dos clubes nobres de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro e alcançava os campos improvisados, as ruas e os terrenos baldios das cidades brasileiras. A crônica seria o gênero eleito por intelectuais para versarem sobre o esporte bretão, seja para criticá-lo, seja para louvá-lo. Numa seleta galeria figuram nomes como João do Rio, Coelho Neto, Lima Barreto, Graciliano Ramos, entre outros, que trouxeram o football para os debates nos salões literários.

No final da década de 1910, o futebol já iniciava a sua franca popularização, que se intensificaria nas décadas seguintes. Um dos grandes marcos literários da época foi o movimento modernista, capitaneado, entre outros, por escritores como Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Antônio de Alcântara Machado. E o futebol não ficou de fora do projeto modernista. Um dos expoentes da vanguarda paulista, Mário de Andrade fez uma referência ao futebol em sua obra prima, o romance Macunaíma (1928). De maneira inusitada, o “herói sem nenhum caráter”, ao mesmo tempo índio e negro, surgiria como o inventor do futebol em terras brasilis, em uma espécie de mito fundador antropofágico. Vejamos o trecho a seguir, extraído do capítulo “A francesa e o gigante”, em que os irmãos Manaape, Jiguê e Macunaíma encenam a invenção do futebol:

[…] O herói não maliciava nada. Vai, Jiguê pegou num tijolo, porém pra não machucar muito virou-o numa bola de couro duríssima. Passou a bola pra Maanape que estava mais a frente e Maanape com um pontapé mandou ela bater em Macunaíma. Esborrachou todo o nariz do herói. – Ui! Que o herói fez. Os manos bem sonsos gritaram: – Uai! Está doendo, mano! Pois quando bola bate na gente nem não dói! Macunaíma teve raiva e atirando a bola com o pé bem pra longe falou: – Sai, peste! Veio onde estavam os manos: – Não faço mais papiri, pronto! E virou tijolos pedras telhas ferragens numa nuvem de iças64 que tomou São Paulo por três dias. O bichinho caiu em Campinas. A taturana caiu por aí. A bola caiu no campo. E assim foi que Macunaíma inventou o bicho-do-café, Jiguê a lagarta-rosada e Macunaíma o futebol, três pragas. (ANDRADE, 1992, p. 62)

E a “praga” do futebol, como é designada pelo narrador do romance, se alastraria ainda mais nas décadas seguintes, tornando-se um dos traços culturais, esportivos e de lazer de grande significado para o Brasil. Outro expoente da vanguarda paulista, Oswald de Andrade, também abriu espaço para o futebol no célebre romance Memórias sentimentais de João Miramar (1924), no qual incluiu um poema intitulado “Bungalow das rosas e dos pontapés”, no qual o futebol aparece como parte de um cenário urbano:

Bondes gols
Aleguais
Noctâmbulos de matches campeões
E poeira
Com vesperais
Desenvoltas tennis girls
No Paulistano
Paso doble. (ANDRADE, 1967, p. 123)

De acordo com o historiador Bernardo Borges Buarque de Hollanda,

Oswald de Andrade registra com seus versos livres, em forma de instantâneos fotográficos, a mesma presença do futebol na cidade moderna de São Paulo. Ao lado dos bondes eletrificados, elemento simbólico do progresso […], bem como da eletricidade de modo geral, que possibilita as primeiras partidas noturnas na cidade, em princípio dos anos 1920, os gols integram-se a esse novo tempo de agitação e frenesi que contagia as grandes metrópoles sob o influxo da modernização. (HOLLANDA, 2015, p. 26-27)

O poema “Bungalow das rosas e dos pontapés” é composto por uma única estrofe que contém 08 versos livres, ou seja, com métricas variáveis. Em seu segundo verso, composto apenas pela palavra “Aleguais”, temos uma gíria do jargão do futebol nos anos 1920: de acordo com o dicionário Aulete, tal expressão teria sido um dos primeiros “cantos de guerra” da torcida brasileira, que teria origem no enunciado “Allez! Go! Hack!”, transformado em “Aleguá-guá-guá”. E segundo o historiador Bernardo Borges Buarque de Holanda,

[a] palavra “Aleguais”, por exemplo, era um grito usual no período, abrasileiramento de uma expressão francesa. Com ela, o torcedor paulistano tradicionalmente comemorava o gol de sua equipe. A bem dizer, tratava-se de uma interjeição similar a outra bem comum á época, ‘hip, hip, hurrah’, dos torcedores no Rio de Janeiro. (HOLLANDA, 2015, p. 27)

Se em Macunaíma o futebol surge numa linha de passe entre os irmãos Manaape, Jiguê e Macunaíma, em Memórias sentimentais de João Miramar o futebol já faz parte do cenário urbano da “pauliceia desvairada”, e os “aleguais” atestam que o esporte bretão já era parte do lazer daqueles que acorriam aos clubes – no caso, o tradicional Clube Athletico Paulistano – para vibrar e torcer por seus times.

Entretanto, seria em dois contos de Antônio de Alcântara Machado, publicados na obra Brás, Bexiga e Barra Funda (1927), que o futebol surgiria como lazer para garotos do bairro étnico do Brás. O primeiro deles é “Gaetaninho”, em que o protagonista, filho de italianos, gostava de jogar bola na rua. Como em flashes, o narrador assim se refere à habilidade de Gaetaninho que, mesmo quando tentava fugir das chineladas de sua mãe, valia-se da ginga do futebol: “Balançou o corpo. Recurso de campeão de futebol. Fingiu tomar a direita. Mas deu meia-volta instantânea e varou pela esquerda porta adentro. Eta salame de mestre!” (MACHADO, 2010, p. 27). E os jogos na rua representavam o momento de lazer dos meninos: “O jogo na calçada parecia de vida ou morte” (MACHADO, 2010, p. 28). Nino, Beppino e Gaetaninho jogavam futebol animados:

Beppino deu dois passos e meteu o pé na bola. Com todo o muque. Ele cobriu o guardião sardento e foi parar no meio da rua.
─ Vá dar tiro no inferno!
─ Cala a boca, palestrino!
─ Traga a bola!
Gaetaninho saiu correndo. Antes de alcançar a bola, um bonde o pegou. Pegou e matou. No bonde vinha o pai de Gaetaninho. (MACHADO, 2010, p. 28)

Além do momento trágico alcançado no conto com o atropelamento e morte de Gaetaninho, ironicamente, ele realizou seu sonho de um dia poder andar de carro, como o Beppino já havia feito no início do conto, ao acompanhar o féretro da Tia Peronetta, que fora sepultada no Cemitério do Araçá. Gaetaninho seria levado para o cemitério de carro: “Às dezesseis horas do dia seguinte saiu um enterro da Rua do Oriente e Gaetaninho caixão fechado com flores pobres em cima” (MACHADO, 2010, p. 29).

Portanto, nesse conto de Antônio de Alcântara Machado, o futebol aparece como prática urbana de lazer em um bairro étnico, com vários representantes da colônia italiana de São Paulo. Com todos os riscos que se corria ao se jogar bola nas calçadas e vias, com um trânsito já em expansão no final da década de 1920, o protagonista acaba sendo vitimado por correr atrás de uma bola perdida sem prestar atenção e acaba atropelado por um bonde.

Entretanto, é no conto “Corinthians 2 x Palestra 1” que o futebol ganha maiores contornos enquanto lazer. Numa disputa entre dois dos principais clubes de São Paulo, o Sport Club Corinthians Paulista, fundado em 1910, e o Palestra Itália, fundado em 1914, time da colônia italiana, constroi-se uma imagem do torcer como lazer. No estádio do Parque Antártica, os torcedores vibram com seus times:

[…] Em torno do trapézio verde a ânsia de vinte mil pessoas. De olhos ávidos. De nervos elétricos. De preto. De branco. De azul. De vermelho.
Delírio futebolístico no Parque Antártica. (MACHADO, 1993, p. 32)

Quando o Corinthians marca o primeiro tento, as arquibancadas extravasam a emoção:

─ Aleguá-guá-guá! Aleguá-guá-guá! Urrá-urrá! Corinthians!
Palhetas subiram no ar. Com os gritos. Entusiasmos rugiam. Pulavam. Dançavam. E as mãos batendo nas bocas:
─ Go-o-o-o-o-o-ol! (MACHADO, 1993, p. 33)

Nota-se que o narrador se esmera em descrever algo que é da ordem da performance do torcedor, como movimentos corporais, gestos e cânticos. E os torcedores do Palestra Itália também tiveram o seu momento de euforia:

Matias centrou. A assistência silenciou. Imparato emendou. A assistência berrou.
─ Palestra! Palestra! Aleguá-guá! Palestra! Aleguá! Aleguá! (MACHADO, 1993, p. 34)

E o comportamento da torcida também é tema em um lance da arbitragem:

Mas o juiz marcou um impedimento.
─ Vendido! Bandido! Assassino!
Turumbamba na arquibancada.
[…]
─ Nem torcer a gente pode mais! Nunca vi! (MACHADO, 1993, p. 35)

Após o Corinthians marcar o segundo gol e findar a partida, as ruas da cidade foram tomadas pelos torcedores eufóricos pela vitória de seu time: “A alegria dos vitoriosos demandou a cidade. Berrando, assobiando e cantando” (MACHADO, 1993, p. 39).

A título de conclusão, reconhece-se que esses flashes urbanos ficcionais da Paulicéia no final da década de 1920 evidenciam a crescente popularização pela qual o futebol passava, como lazer para muitos, seja nos jogos dos garotos no Brás, seja no comportamento dos torcedores nas arquibancadas do estádio do Palestra Itália diante de um clássico reunindo dois clubes cada vez mais populares naquela época. Essas cenas da vida cotidiana, de Brás, Bexiga e Barra Funda, pautadas pelas trivialidades e pelo corriqueiro, fazem desfilar seus tipos humanos em meio a eventos hilários ou trágicos, em que o futebol aparece como um momento de lazer.

Referências

ANDRADE, Mário. Macunaíma (1928). São Paulo, Círculo do Livro, 1992.

ANDRADE, Oswald de. Bungalow das rosas e dos pontapés (1024). In: PEDROSA, Milton. Gol de letra: o futebol na literatura brasileira. Rio de Janeiro: Ed. Gol, 1967, p. 123.

AULETE. Aleguá (verbete). Disponível em: http://www.aulete.com.br/alegu%C3%A1. Acesso em: 09 jul. 2020.

HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. Ecos da Semana de Arte Moderna? A recepção ao futebol em São Paulo e o movimento modernista nas décadas de 1920 e 1930. In: CORNELSEN, Elcio; AUGUSTIN, Günther; SILVA, Silvio Ricardo da (orgs.). Futebol, linguagem, artes, cultura e lazer. Rio de Janeiro: Jaguatirica, 2015, p. 17-26.

MACHADO, Antônio de Alcântara. Corinthians 2 x Palestra 1 (1927). In: RAMOS, Ricardo (org.). A palavra é… futebol. São Paulo: Scipione, 1993, p. 31- 39.

MACHADO, Antônio de Alcântara. Gaetaninho (1927). In: In: LIMA, João Gabriel de (org.). Livro Bravo! Literatura e Futebol. São Paulo: Ed. Abril, 2010, p. 27-29.


Futebol e Lazer em dois contos de Antônio de Alcântara Machado

24/08/2020

Elcio Loureiro Cornelsen

Desde os primórdios do futebol no Brasil, intelectuais não ficaram alheios àquela modalidade esportiva e de lazer que, gradativamente, ultrapassava os limites do ground e do field dos clubes nobres de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro e alcançava os campos improvisados, as ruas e os terrenos baldios das cidades brasileiras. A crônica seria o gênero eleito por intelectuais para versarem sobre o esporte bretão, seja para criticá-lo, seja para louvá-lo. Numa seleta galeria figuram nomes como João do Rio, Coelho Neto, Lima Barreto, Graciliano Ramos, entre outros, que trouxeram o football para os debates nos salões literários.

No final da década de 1910, o futebol já iniciava a sua franca popularização, que se intensificaria nas décadas seguintes. Um dos grandes marcos literários da época foi o movimento modernista, capitaneado, entre outros, por escritores como Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Antônio de Alcântara Machado. E o futebol não ficou de fora do projeto modernista. Um dos expoentes da vanguarda paulista, Mário de Andrade fez uma referência ao futebol em sua obra prima, o romance Macunaíma (1928). De maneira inusitada, o “herói sem nenhum caráter”, ao mesmo tempo índio e negro, surgiria como o inventor do futebol em terras brasilis, em uma espécie de mito fundador antropofágico. Vejamos o trecho a seguir, extraído do capítulo “A francesa e o gigante”, em que os irmãos Manaape, Jiguê e Macunaíma encenam a invenção do futebol:

[…] O herói não maliciava nada. Vai, Jiguê pegou num tijolo, porém pra não machucar muito virou-o numa bola de couro duríssima. Passou a bola pra Maanape que estava mais a frente e Maanape com um pontapé mandou ela bater em Macunaíma. Esborrachou todo o nariz do herói. – Ui! Que o herói fez. Os manos bem sonsos gritaram: – Uai! Está doendo, mano! Pois quando bola bate na gente nem não dói! Macunaíma teve raiva e atirando a bola com o pé bem pra longe falou: – Sai, peste! Veio onde estavam os manos: – Não faço mais papiri, pronto! E virou tijolos pedras telhas ferragens numa nuvem de iças64 que tomou São Paulo por três dias. O bichinho caiu em Campinas. A taturana caiu por aí. A bola caiu no campo. E assim foi que Macunaíma inventou o bicho-do-café, Jiguê a lagarta-rosada e Macunaíma o futebol, três pragas. (ANDRADE, 1992, p. 62)

E a “praga” do futebol, como é designada pelo narrador do romance, se alastraria ainda mais nas décadas seguintes, tornando-se um dos traços culturais, esportivos e de lazer de grande significado para o Brasil. Outro expoente da vanguarda paulista, Oswald de Andrade, também abriu espaço para o futebol no célebre romance Memórias sentimentais de João Miramar (1924), no qual incluiu um poema intitulado “Bungalow das rosas e dos pontapés”, no qual o futebol aparece como parte de um cenário urbano:

Bondes gols
Aleguais
Noctâmbulos de matches campeões
E poeira
Com vesperais
Desenvoltas tennis girls
No Paulistano
Paso doble. (ANDRADE, 1967, p. 123)

De acordo com o historiador Bernardo Borges Buarque de Hollanda,

Oswald de Andrade registra com seus versos livres, em forma de instantâneos fotográficos, a mesma presença do futebol na cidade moderna de São Paulo. Ao lado dos bondes eletrificados, elemento simbólico do progresso […], bem como da eletricidade de modo geral, que possibilita as primeiras partidas noturnas na cidade, em princípio dos anos 1920, os gols integram-se a esse novo tempo de agitação e frenesi que contagia as grandes metrópoles sob o influxo da modernização. (HOLLANDA, 2015, p. 26-27)

O poema “Bungalow das rosas e dos pontapés” é composto por uma única estrofe que contém 08 versos livres, ou seja, com métricas variáveis. Em seu segundo verso, composto apenas pela palavra “Aleguais”, temos uma gíria do jargão do futebol nos anos 1920: de acordo com o dicionário Aulete, tal expressão teria sido um dos primeiros “cantos de guerra” da torcida brasileira, que teria origem no enunciado “Allez! Go! Hack!”, transformado em “Aleguá-guá-guá”. E segundo o historiador Bernardo Borges Buarque de Holanda,

[a] palavra “Aleguais”, por exemplo, era um grito usual no período, abrasileiramento de uma expressão francesa. Com ela, o torcedor paulistano tradicionalmente comemorava o gol de sua equipe. A bem dizer, tratava-se de uma interjeição similar a outra bem comum á época, ‘hip, hip, hurrah’, dos torcedores no Rio de Janeiro. (HOLLANDA, 2015, p. 27)

Se em Macunaíma o futebol surge numa linha de passe entre os irmãos Manaape, Jiguê e Macunaíma, em Memórias sentimentais de João Miramar o futebol já faz parte do cenário urbano da “pauliceia desvairada”, e os “aleguais” atestam que o esporte bretão já era parte do lazer daqueles que acorriam aos clubes – no caso, o tradicional Clube Athletico Paulistano – para vibrar e torcer por seus times.

Entretanto, seria em dois contos de Antônio de Alcântara Machado, publicados na obra Brás, Bexiga e Barra Funda (1927), que o futebol surgiria como lazer para garotos do bairro étnico do Brás. O primeiro deles é “Gaetaninho”, em que o protagonista, filho de italianos, gostava de jogar bola na rua. Como em flashes, o narrador assim se refere à habilidade de Gaetaninho que, mesmo quando tentava fugir das chineladas de sua mãe, valia-se da ginga do futebol: “Balançou o corpo. Recurso de campeão de futebol. Fingiu tomar a direita. Mas deu meia-volta instantânea e varou pela esquerda porta adentro. Eta salame de mestre!” (MACHADO, 2010, p. 27). E os jogos na rua representavam o momento de lazer dos meninos: “O jogo na calçada parecia de vida ou morte” (MACHADO, 2010, p. 28). Nino, Beppino e Gaetaninho jogavam futebol animados:

Beppino deu dois passos e meteu o pé na bola. Com todo o muque. Ele cobriu o guardião sardento e foi parar no meio da rua.
─ Vá dar tiro no inferno!
─ Cala a boca, palestrino!
─ Traga a bola!
Gaetaninho saiu correndo. Antes de alcançar a bola, um bonde o pegou. Pegou e matou. No bonde vinha o pai de Gaetaninho. (MACHADO, 2010, p. 28)

Além do momento trágico alcançado no conto com o atropelamento e morte de Gaetaninho, ironicamente, ele realizou seu sonho de um dia poder andar de carro, como o Beppino já havia feito no início do conto, ao acompanhar o féretro da Tia Peronetta, que fora sepultada no Cemitério do Araçá. Gaetaninho seria levado para o cemitério de carro: “Às dezesseis horas do dia seguinte saiu um enterro da Rua do Oriente e Gaetaninho caixão fechado com flores pobres em cima” (MACHADO, 2010, p. 29).

Portanto, nesse conto de Antônio de Alcântara Machado, o futebol aparece como prática urbana de lazer em um bairro étnico, com vários representantes da colônia italiana de São Paulo. Com todos os riscos que se corria ao se jogar bola nas calçadas e vias, com um trânsito já em expansão no final da década de 1920, o protagonista acaba sendo vitimado por correr atrás de uma bola perdida sem prestar atenção e acaba atropelado por um bonde.

Entretanto, é no conto “Corinthians 2 x Palestra 1” que o futebol ganha maiores contornos enquanto lazer. Numa disputa entre dois dos principais clubes de São Paulo, o Sport Club Corinthians Paulista, fundado em 1910, e o Palestra Itália, fundado em 1914, time da colônia italiana, constroi-se uma imagem do torcer como lazer. No estádio do Parque Antártica, os torcedores vibram com seus times:

[…] Em torno do trapézio verde a ânsia de vinte mil pessoas. De olhos ávidos. De nervos elétricos. De preto. De branco. De azul. De vermelho.
Delírio futebolístico no Parque Antártica. (MACHADO, 1993, p. 32)

Quando o Corinthians marca o primeiro tento, as arquibancadas extravasam a emoção:

─ Aleguá-guá-guá! Aleguá-guá-guá! Urrá-urrá! Corinthians!
Palhetas subiram no ar. Com os gritos. Entusiasmos rugiam. Pulavam. Dançavam. E as mãos batendo nas bocas:
─ Go-o-o-o-o-o-ol! (MACHADO, 1993, p. 33)

Nota-se que o narrador se esmera em descrever algo que é da ordem da performance do torcedor, como movimentos corporais, gestos e cânticos. E os torcedores do Palestra Itália também tiveram o seu momento de euforia:

Matias centrou. A assistência silenciou. Imparato emendou. A assistência berrou.
─ Palestra! Palestra! Aleguá-guá! Palestra! Aleguá! Aleguá! (MACHADO, 1993, p. 34)

E o comportamento da torcida também é tema em um lance da arbitragem:

Mas o juiz marcou um impedimento.
─ Vendido! Bandido! Assassino!
Turumbamba na arquibancada.
[…]
─ Nem torcer a gente pode mais! Nunca vi! (MACHADO, 1993, p. 35)

Após o Corinthians marcar o segundo gol e findar a partida, as ruas da cidade foram tomadas pelos torcedores eufóricos pela vitória de seu time: “A alegria dos vitoriosos demandou a cidade. Berrando, assobiando e cantando” (MACHADO, 1993, p. 39).

A título de conclusão, reconhece-se que esses flashes urbanos ficcionais da Paulicéia no final da década de 1920 evidenciam a crescente popularização pela qual o futebol passava, como lazer para muitos, seja nos jogos dos garotos no Brás, seja no comportamento dos torcedores nas arquibancadas do estádio do Palestra Itália diante de um clássico reunindo dois clubes cada vez mais populares naquela época. Essas cenas da vida cotidiana, de Brás, Bexiga e Barra Funda, pautadas pelas trivialidades e pelo corriqueiro, fazem desfilar seus tipos humanos em meio a eventos hilários ou trágicos, em que o futebol aparece como um momento de lazer.

Referências

ANDRADE, Mário. Macunaíma (1928). São Paulo, Círculo do Livro, 1992.

ANDRADE, Oswald de. Bungalow das rosas e dos pontapés (1024). In: PEDROSA, Milton. Gol de letra: o futebol na literatura brasileira. Rio de Janeiro: Ed. Gol, 1967, p. 123.

AULETE. Aleguá (verbete). Disponível em: http://www.aulete.com.br/alegu%C3%A1. Acesso em: 09 jul. 2020.

HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. Ecos da Semana de Arte Moderna? A recepção ao futebol em São Paulo e o movimento modernista nas décadas de 1920 e 1930. In: CORNELSEN, Elcio; AUGUSTIN, Günther; SILVA, Silvio Ricardo da (orgs.). Futebol, linguagem, artes, cultura e lazer. Rio de Janeiro: Jaguatirica, 2015, p. 17-26.

MACHADO, Antônio de Alcântara. Corinthians 2 x Palestra 1 (1927). In: RAMOS, Ricardo (org.). A palavra é… futebol. São Paulo: Scipione, 1993, p. 31- 39.

MACHADO, Antônio de Alcântara. Gaetaninho (1927). In: In: LIMA, João Gabriel de (org.). Livro Bravo! Literatura e Futebol. São Paulo: Ed. Abril, 2010, p. 27-29.