Mais um Brasil x Uruguai na reta final das Eliminatórias FIFA

20/03/2017

André Alexandre Guimarães Couto

 

Olá, caros (as) leitores:

No post de hoje gostaria de lembrar o último jogo de Brasil x Uruguai que proporcionou a classificação da seleção brasileira para uma Copa do Mundo de Futebol, tendo em vista que a História pode se repetir na próxima quinta-feira.

Tratava-se das Eliminatórias de 1993 para a Copa dos Estados Unidos que ocorreria no ano seguinte. Apesar de o nosso selecionado ter reagido no segundo turno da tabela de classificação, vindo de vitórias contra Equador, Bolívia e Venezuela, o embate final seria contra a seleção do Uruguai que precisava vencer, pois tinha o saldo de gols pior que o do Brasil.

Lembramos que na ocasião, o sistema de classificação era dividido em dois grupos, o do Brasil (com 5 seleções) e que levaria dois selecionados para a Copa e o outro, com 4 seleções, mas que classificaria diretamente uma e levaria uma segunda para a repescagem (na ocasião, a Colômbia se classificaria em primeiro e a Argentina, em segundo). Lembramos ainda que o Chile estava cumprindo uma suspensão de 5 anos de punição pelos episódios ocorridos no Maracanã contra o Brasil em 1989. [1]

Porém, mais do que o destaque do fantasma uruguaio em nosso caminho, no mesmo palco do Estádio Maracanã da final de 1950, a imprensa brasileira ressaltava a convocação de Romário para aquele jogo. [2]

Ausente desde 1992 por declarar publicamente que não queria sair do continente europeu para atuar como reserva na seleção (já que jogava no Barcelona), o jogador fora esquecido pela comissão técnica comandada por Carlos Alberto Parreira e Zagallo. Este episódio fora na ocasião de um amistoso contra a Alemanha, em Porto Alegre. Além da rigidez tática que iria acompanhar o trabalho de Parreira em sua carreira como treinador, a disciplina individual e comportamental seria uma das características de Jorge Lobo Zagallo, Coordenador Técnico daquela equipe.

Em 7 de setembro de 1993, o Jornal dos Sports informava em letras garrafais “Parreira se curva a Romário”, fazendo referência a uma declaração do técnico da seleção sobre a possibilidade do atacante ser convocado para o último jogo.[3]

Apesar de informar que Parreira teria se encantado pelo último jogo de Romário no Barcelona, quando fizera três gols contra o Real Sociedad pelo Campeonato Espanhol, havia uma evidente preocupação em relação às contusões do ataque titular, formado por Bebeto e Müller. Inclusive, no penúltimo jogo, contra a Venezuela, os ataques titulares foram Valdeir e Evair.

https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=video&cd=2&cad=rja&uact=8&ved=0ahUKEwj4g43UnObSAhUEgZAKHZbtACAQtwIIHTAB&url=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3DjXxplAxn4sQ&usg=AFQjCNHSdsmuO89B7C2yVz3moi9ziNMvSQ

Gols do jogo entre Barcelona X Real Sociedad

Os jornais do Rio de Janeiro e seus vários cronistas e repórteres apresentavam uma campanha positiva mas discreta a favor do atacante do Barcelona (logo após as vitórias seguidas da seleção), e enfatizavam a impaciência da torcida brasileira no jogo contra a Venezuela no Mineirão. De fato, apesar da vitória por 4 x 0, a torcida mineira chegara a vaiar a equipe brasileira, muito em decorrência da “frustração” pois o Brasil tinha batido o time da Bolívia por 6 x 0 em Recife e esperava-se um resultado ainda mais avassalador contra os venezuelanos.

https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=video&cd=2&cad=rja&uact=8&ved=0ahUKEwjJ_6ibnebSAhWDiZAKHbahBowQtwIIHTAB&url=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3DVVL_nvefWPg&usg=AFQjCNFuGuwZmwXNxkJKY9_sCididdijNA

Gols do jogo entre Brasil x Venezuela

A Folha de São Paulo, na edição de 1º/08/1993 informava que Parreira precisava vencer a Venezuela para manter seu cargo, revelando que a imprensa de paulista era muito mais ácida e crítica com o treinador do que a imprensa carioca.[4] De modo geral, tanto no Rio, como em São Paulo, com ou sem Romário, a crítica era mais dura em relação ao esquema tático defendido por Parreira, baseado em defender-se primeiro e atacar depois. Esta forma de jogar, aliado ao ótimo desempenho de Romário em terras espanholas tornou-o um forte candidato a herói da classificação.

Se no jogo desta semana, em Montevidéu, não temos um apelo por um “salvador” (já que nos parece que o técnico Tite alcançou esta pecha pela imprensa nacional), no campo da política, temos mais algumas características bem peculiares de nosso país: no ano de 1993, a população brasileira votara em um plebiscito a favor da continuidade do sistema presidencialista de governo, muito menos pela popularidade de Itamar Franco (que substituíra o presidente que sofrera o impeachment, Fernando Collor de Mello) mas, muito mais pela desconfiança de um parlamento pouco inspirador para as mudanças que o Brasil necessitara seja no âmbito social como no da modernização da economia nacional. Sobre este último ponto, lembramos que no ano de 1993, o governo Itamar Franco dedicara parte de seu tempo a controlar o processo inflacionário. Para tanto, apesar do Plano Real ter sido criado no ano seguinte, já em 1993 a moeda tornava-se o cruzeiro real, substituindo o cruzeiro, sem falar no discurso em torno do “corte de despesas”.[5]

Mas, nos chama a atenção o papel das grandes empreiteiras no ambiente político brasileiro. De acordo com o jornal, “(…) A construção civil, por exemplo, pretende contribuir com parte das dívidas que os governos têm com as empreiteiras – as doações serão feitas à medida que elas forem recebendo dos cofres públicos.” [6] E mais: “Outros empresários ameaçam não contribuir nas campanhas se não for criada uma lei que autorize as doações”.[7] Ou seja, o financiamento eleitoral era um dos pontos de destaque no cenário político/eleitoral brasileiro naquele momento.

E, já que tocamos no assunto eleitoral, em 1993 a pesquisa do DataFolha apontava algumas preferências na corrida presidencial de 1994: Lula/PT aparecia em primeiro com 22%, seguido de Paulo Maluf/PPR (15%), Leonel Brizola/PDT (14%), José Sarney/PMDB (9%), Quércia/PMDB (6%), Tasso Gereissati/PSDB (5%) e Antonio Carlos Magalhães/PFL (4%). [8]

A população desconfiada com o cenário político se dividia entre as principais lideranças políticas daquele momento e que já tinham passado pela experiência eleitoral de 1989, sejam da esquerda, sejam de uma direita, por sua vez, mais dispersa e indefinida, como no caso do PMDB (mais uma coincidência?).

Voltando ao assunto de Brasil x Uruguai, com coincidências ou não, naquela ocasião, a seleção nacional vencera bem a chamada “Celeste Olímpica”, pelo placar de 2 x 0 com dois gols de Romário. Apesar do grande destaque (e merecido) pela imprensa à atuação do atacante do Barcelona, vários outros jogadores tiveram belíssimos desempenhos, em todos os setores, como podemos observar nos lances registrados no vídeo abaixo:

https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=video&cd=2&cad=rja&uact=8&ved=0ahUKEwirgfOaiubSAhVCIZAKHa5fCbcQtwIIIjAB&url=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3DItLIJzqV0f8&usg=AFQjCNHGLOn2YARRShpiFI-vE7Bsda50Sw&bvm=bv.150120842,d.Y2I

Gols de Brasil x Uruguai em 1993.

Desta forma, a seleção brasileira alcançaria mais uma Copa do Mundo da qual se sagraria campeã no ano seguinte.

Vinte e quatro anos depois, nos perguntamos: e agora, para onde o Brasil irá?

Pergunta difícil…

Referências:

[1] Sobre este episódio, ler o artigo de BALDINI Jr., Wilson. Há 25 anos, um Brasil e Chile que não terminou no Maracanã. Disponível em: <http://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,ha-25-anos-um-brasil-e-chile-que-nao-terminou-no-maracana,1519937&gt;.

[2] Ler o post “Por que não nos esquecemos de 1950?”.

[3] Parreira se curva a Romário. Jornal dos Sports. 7/09/1993. P. 5.

[4] Parreira depende de Vitória. Folha de São Paulo. 1º/08/1993. P.1.

[5] Brasil estréia hoje nova moeda e salário. Folha de São Paulo. 1º/08/1993. P.1-5.

[6] 12 ministros já fazem campanha. Folha de São Paulo. 1º/08/1993. P. 1

[7] Ibidem.

[8] Presidencialismo vence, Lula e Maluf lideram corrida para 1994. Folha de São Paulo. 22/04/1993. P. 1.

 

 

 

 

 

 

 

 


Cobertura quente na Guerra Fria: O Jornal dos Sports nas Olimpíadas de 1952 em Helsinque

16/10/2016

André Couto

Olá, caros (as) leitores (as):

Neste breve post, trago para vocês uma curiosa cobertura do Jornal dos Sports (JS) sobre os Jogos Olímpicos de 1952, em Helsinque, na Finlândia.

A então União Soviética iria disputar os Jogos de Verão pela primeira vez nesta ocasião e muita expectativa no mundo todo girava em torno da participação desta potência e de seus aliados, principalmente por conta da Guerra Fria travada com os Estados Unidos a partir do final da II Guerra Mundial.

No Brasil, não seria diferente e podemos utilizar o exemplo da cobertura do JS (já um jornal especializado em esportes e de grande circulação no Rio de Janeiro) para apontarmos algumas representações criadas por este periódico.

Primeiramente, é importante lembrar que as coberturas de grandes eventos internacionais como essa, era tarefa geralmente destinada ao jornalista Geraldo Romualdo da Silva, que estava na empresa desde os seus primórdios, no início da década de 1930.

Resultado de imagem para olimpíadas de 1952

Cartaz oficial dos Jogos Olímpícos de 1952[1]

Tanto neste evento como em outros, Geraldo procurava sempre trazer curiosidades sobre o país e seu respectivo povo e cultura local, ilustrando para os leitores do JS o contexto em que o esporte se apresentava. Discutia, ainda, em segundo plano, os aspectos e características principais das equipes esportivas, mas invariavelmente, privilegiando a análise sobre o futebol. A ideia, inclusive, era a de que os leitores teriam mais interesse pela cobertura dos Jogos, se o futebol fosse mais valorizado nas matérias e notícias.

Todavia, em um de seus momentos na cena de um observador, Geraldo apontava que:

Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso: assim ocorre, igualmente, no mundo novo dos atletas, que não mais se separam apenas pela cor da pele que Deus lhes deu; nem mais, somente, pela espécie de cruz que antes traziam no peito, na alma e no espírito, às vezes, mas já agora pelas duas intransponíveis fronteiras que Stalin estabeleceu da Russia até a Alemanha, e os países amigos da liberdade mais humana, desde a América, grande, rica e jovem, aos confins da França, um pouco ao norte também pelos lados da Suécia, Dinamarca, assim, assim a Finlandia (já a Noruega nem tanto), e, ao sul, graças à Itália; mais acima, de fato, nas alturas da Suíça, da Iugoslávia de Tito, da Austria e um bom pedaço da Alemanha, que poderia ser maior.[2]

Com sua “aula de Geografia”, o correspondente apresentava uma fronteira de ferro criada por Stalin e pela URSS, separada de um mundo sob a influência da “liberdade mais humana” e que seria ainda “grande”, “rica” e “jovem”, quase (ou nem isso) um exemplo a ser seguido pelo Brasil dos anos 1950. Chegava a opinar sobre a divisão da Alemanha, que segundo ele, deveria “ser maior” se não fosse a interferência soviética.

Em outro momento, informava que os húngaros viviam “(…) ostentando enormes escudos em que se vêem à distancia um martelo tosco e uma touceira de trigo”.[3] Cabe lembrar que a aproximação do jornalista com a seleção húngara de futebol se valia não só pelo tom de crítica ao regime socialista mas também pela condição de favorito à medalha de ouro, fato que se concretizou nesta edição. 

Pódium do Futebol com as seleções da Hungria (Ouro), Iusgoslávia (Prata) e Suécia (Bronze)[4]

Por fim, apontava de forma dualista que na vila olímpica, “(…) São duas babéis; uma, fortalecida pelo medo que seus habitantes têm de se descobrirem à verdade nua e crua de um regime condenado; outra, que insiste em viver abertamente, de “short”, trocando impressão seja lá com quem for, tranquila e confiante em si nos destinos dos homens que a dirigem.”[5]

Daí, atirava com suas linhas contra o comportamento dos atletas dos países socialistas que viviam em trajes sólidos e discretos, cientes de que estavam em um “regime condenado”, ao contrário dos demais que viviam “tranquilos”, de “shorts”, numa relação com a natureza mais leve e fluida, pois voltariam confiantes para suas casas, para o regime da liberdade. Desta forma, associava disciplina e liberdade por meio dos uniformes e roupas que os atletas dos dois grandes blocos de países usavam (socialistas e capitalistas).

Em outro momento, criticava o fato dos atletas do bloco socialista terem ficado em uma vila olímpica separada:

Em compensação, lá pelos lados da “Cortina de Ferro”, dentro de Otaniemi, que se formou exclusivamente para tirar todos os “vermelhos” do contagio com os que não são “vermelhos”, ideologicamente, os húngaros escapam ao rigorismo da vigilância em que vivem (um pouquinho), e simpaticamente, democraticamente, sorriem dão autógrafos e falam de suas coisas, de suas esperanças e de seus records, especialmente de seu football (pouco, é verdade), do qual se orgulham tão imensamente como nós nos orgulhamos imensamente do nosso.[6]

Com isso, conseguia cobrir os Jogos a partir da análise do futebol e valorizava a seleção húngara, sem deixar de apontar seus “defeitos ideológicos”, como a associação com o socialismo soviético.

Em síntese, a ideia da cobertura dos Jogos Olímpicos esbarrava em alguns fatores que dificultavam um debate mais amplo como a distância, ausência de informações precisas, poucos correspondentes e, principalmente, a concorrência com as competições de futebol, como o campeonato carioca, a Copa Rio de 1952 e os amistosos interestaduais e internacionais. O futebol reinava inclusive em momentos olímpicos. E os cronistas acompanhavam esta linha editorial. Geraldo Romualdo, principalmente quando assumia a posição de enviado especial, adotara a postura de narrador-repórter.[7] Com isso, se adequara piamente à ideologia do veículo em que atuara, assim como tornava-se arauto  e defensor anticomunista dos pretensos interesses de seus “consumidores”, ou seja, os leitores de JS

[1] Imagem retirada de:  http://olimpiadasdorio2016.com/olimpiadas-de-1952/

[2] SILVA, Geraldo Romualdo da. O que mais importa é competir. Democracia, Comunismo e Racismo nas Olimpíadas. In: Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, n.º 7.020, 17 de julho de 1952. P. 5.

[3] Ibidem.

[4] Imagem retirada de: http://reliquiasdofutebol.blogspot.com.br/2012/07/o-torneio-de-futebol-nos-jogos.html.

[5] SILVA, Geraldo Romualdo da. Op. Cit. P. 5.

[6] Ibidem.

[7] SÁ, Jorge de. A Crônica. São Paulo: Ática, 1987. 3 ed. P. 7-8.

 


O ano esportivo acabou… Só que não.

28/12/2015

Olá, caros(as) leitores(as):

O ano de 2015 acabou e com ele os eventos esportivos também se foram. Porém, um dos últimos suspiros do esporte neste ano será a tradicional Corrida de São Silvestre, que apesar de ser muito conhecida, tem uma série de particularidades que muitos de nós desconhecemos.

Criada em 1925 e que, portanto, comemora-se 90 anos neste próximo dia 31 de dezembro, a prova homenageia o Papa que governou a Igreja entre os anos de 314 e 355. São Silvestre morrera justamente no último dia do ano cristão de 355.

O santo São Silvestre

Fonte: http://www.saosilvestre.com.br/historia/o-santo/.

Apesar da corrida ter se popularizado ao longo do século XX, não podemos dizer o mesmo sobre a fé dos brasileiros sobre este santo, ainda pouco conhecido por boa parte da população. Inclusive, existem apenas três paróquias deste santo em todo o território nacional: Jacareí (SP), onde se localiza o distrito de São Silvestre, Viçosa (MG) e Maringá (PR).

Já sobre a corrida, podemos dizer que teve origem em 1925 a partir da ideia do jornalista Cásper Líbero, que após uma viagem à França, trouxe a proposta de promover uma corrida noturna no Brasil. Apesar de não termos notícias de outras corridas oficiais noturnas, não podemos ter certeza, por ora, de que as mesmas não ocorriam até então. Todavia, a São Silvestre tornou-se bastante popular nos anos subsequentes e atingiu uma marca bastante interessante: nunca fora interrompida, o que nos leva a refletir que o final de ano era um momento oportuno para uma nova prova esportiva, devido ao espírito festivo e celebrativo em que as pessoas costumavam se encontrar, como nos dias de hoje.

Apesar da intervenção direta da imprensa por meio do jovem jornalista, a maior parte dos jornais simplesmente ignorou o evento esportivo nos primeiros anos.  Seu sucesso nas ruas, porém, reorganizou a pauta da imprensa esportiva local e nacional em poucos anos.

 https://upload.wikimedia.org/wikipedia/pt/4/43/SaoSilvestre1.jpg

Primeira Edição da Corrida. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Corrida_Internacional_de_S%C3%A3o_Silvestre.

Somente em 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a competição tornou-se aberta a participantes de outros países da América do Sul, por meio de convite. Apesar de não sabermos os critérios deste convite, percebemos uma clara intenção de internacionalizar o evento, agora em um ambiente de euforia pacifista mundial do pós-Guerra. Apenas dois anos depois, a corrida ampliava seu leque de participação, permitindo a presença de atletas de várias partes do mundo.

É bem interessante percebermos o nascedouro da corrida por meio dos seus primeiros trajetos, porque a partir daí, notamos que se a largada era dada (como hoje), na Av. Paulista, principal via da cidade, a chegada tinha destino nas primeiras décadas (até 1948) para clubes esportivos importantes para a capital, como a Associação Athletica São Paulo (Ponte Pequena), até 1929 e o Clube de Regatas Tietê. Lembramos ainda que de 1945 a 1948, justamente nos primórdios da fase internacional, a largada era realizada não na Av. Paulista, mas no Estádio Pacaembu. Desta forma, a conformação do campo esportivo paulista é inserida de maneira proposital no trajeto da corrida de São Silvestre.

Posteriormente, a chegada fora deslocada para o Palácio da Imprensa e, finalmente, ao Edifício que abrigou o jornal A Gazeta e onde hoje se localiza a Fundação Cásper Líbero, numa demonstração de homenagear o idealizador do evento e da própria imprensa.

Apesar de famosa e contando com diversos atletas de gabarito mundial, somente em 1975 a modalidade feminina passava a ser disputada e apenas em 1989, a corrida conseguia o reconhecimento da IAAF (Federação Internacional de Atletismo). Para tanto, a competição deixava de ser noturna e os organizadores se comprometiam a estabelecer o percurso em 15km a partir de 1990.

Se o grau de dificuldade da competição aumentava, também podemos dizer acerca da popularidade da corrida, com a presença de cada vez mais pessoas, com fantasias, mensagens, promessas e manutenção de uma prática desportiva cada vez mais comum nas principais cidades brasileiras: a corrida de rua. Neste caso, como já dissemos, por se tratar de final de ano, o evento é mais uma festa para boa parte dos que ali estão.

Abaixo, a título de curiosidade, o curta metragem “São Silvestre”, lançado em 2013. Posteriormente, a partir deste trabalho, foi produzido um longa metragem com o mesmo propósito.

 

Obs.: O Brasil não vence a corrida desde 2010 (atleta Marílson Gomes dos Santos). Na modalidade feminina, a última brasileira a vencer foi Lucélia Peres (2006). Será que este ano o jejum termina? Torçamos até o último dia esportivo do ano.

Obs. 2: Para uma maior compreensão da relação da Corrida com a cidade de São Paulo, ver o post de Maurício Drummond em: https://historiadoesporte.wordpress.com/?s=s%C3%A3o+silvestre, publicado em 2013.

 

 


As Olimpíadas perdidas de Brasília

17/08/2015

Olá, leitores (as):

Próximo do grande ano esportivo de 2016, quando sediaremos as Olimpíadas no Rio de Janeiro, fui pesquisar um dos primeiros projetos de sediar tal evento no Brasil: Brasília 2000.

Pouquíssimo material está disponível para pesquisa, porém, me chamou a atenção um documento oficial, homônimo ao projeto supracitado.

O documento elaborado pela Comissão Pró-Olimpíadas 2000 e publicado em 1991, apresentado em capa dura e em 120 páginas, nos quatro idiomas principais do COI (inglês, espanhol, francês e português), era um marco para as intenções do país em sediar um megaevento esportivo.

A logomarca do projeto escolhia a Catedral de Brasília, um dos símbolos da cidade e marca arquitetônica de Oscar Niemeyer.

A conjuntura era o início dos anos 1990, no Governo do então presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992), que lançava uma política neoliberal de “enxugamento da máquina do Estado”; reestruturação, extinção e fusão de órgãos públicos; demissão de funcionários públicos e congelamento de preços e salários, além do famigerado confisco da poupança por dezoito meses com o objetivo de reduzir a circulação de moeda no mercado. O cruzeiro retornaria em substituição ao cruzado novo, tentando deixar um passado econômico de inflação do governo anterior de José Sarney. O conjunto destas medidas seria chamado de Plano Brasil Novo, vulgarmente conhecido como Plano Collor.

 

No âmbito político, oriundo de um estado pouco influente no cenário nacional e alavancado ao poder pelo pequeno PRN (Partido da Reconstrução Nacional), Collor teve que compor sua base política de apoio com partidos conservadores e de direita como o PFL, PDS, PTB e PL e outros menores.

O projeto Brasília 2000 colocaria o Brasil em evidência internacional, no momento em que a economia procurava caminhar e fugir da década perdida e inflacionária dos anos 1980. A imagem de estadista arrojado, jovem e empreendedor fora muito utilizada durante a campanha para as eleições presidenciais em 1989 e ao longo dos primeiros anos de seu governo (quem não se lembra de Collor em um caça da Aeronáutica, pilotando um jet ski ou jogando futsal com a seleção brasileira que se preparava para a Copa do Mundo de 1990, na Itália?). Cabe lembrar que a imagem de agente público incorruptível e “caçador de marajás” (ou seja, os altos funcionários públicos do estado de Alagoas) foi veiculada pelos grandes grupos empresariais de comunicação como o Grupo O Globo e Grupo Abril, conforme podemos verificar na imagem abaixo:

Porém, qual é a memória que temos hoje deste projeto falido?

De acordo com o blog de Marcelo Monteiro, “Memória E.C.” do site Globoesporte.globo.com, a ideia era celebrar os 500 anos do descobrimento do Brasil e, portanto, o governo se empenhava para fazer grande comemoração, inclusive com um evento inédito na história brasileira. De acordo com este blogueiro, a candidatura de Brasília foi liderada pelo empresário e deputado federal Paulo Octávio, ligado ao presidente, mas inicialmente não contava com o apoio do próprio COB (Comitê Olímpico Brasileiro). De acordo com Monteiro, podemos refletir porque a candidatura fora retirada pelos próprios organizadores do projeto ainda no processo de seleção, que contava com as cidades de Pequim, Berlim, Sydney, Istambul, Manchester e Milão.

Já o jornalista Sérgio Rangel, da sucursal do Rio do jornal Folha de São Paulo, informava que Juan Antonio Samaranch, então presidente do COI (Comitê Olímpico Internacional), enviara por meio do seu amigo, João Havelange (então presidente da FIFA) uma carta a Collor explicando os motivos da impossibilidade da candidatura brasiliense.

Outro blog, de Donny Silva, traz uma entrevista com Paulo Octávio, a partir de um ponto de vista bem otimista em relação à candidatura de Brasília 2000. De acordo com o empresário, “(…) Tudo começou em 1989, com a eleição do presidente Fernando Collor e as mudanças de rumo no País. Junto com um grupo de atletas, dirigentes esportivos e intelectuais, iniciei uma ampla campanha para que o Brasil se candidatasse aos Jogos de 2000, trazendo a sede para Brasília, que tinha, inegavelmente, amplas condições de abrigar as instalações requeridas para uma competição deste porte. Um ano depois, em 1990, com minha eleição a deputado federal, o trabalho ganhou força. Nasceu uma associação que atraiu patrocinadores privados e conceituados nomes do mundo esportivo, como Bernard Rajszman, Carlos Arthur Nuzman, Zico e muitos outros otimistas que trabalharam arduamente na construção do dossiê de nossa candidatura. Sempre entendi que, entre as capitais brasileiras, Brasília reunia as melhores condições para sediar o evento.” Dentre as melhores condições, estariam os empreendimentos imobiliários que o entrevistado gerenciava por meio de suas empresas?

Porém, o mais interessante, em relação à falência do projeto, de acordo com Paulo Octávio, a “(…) proposta, entregue por mim e por Márcia Kubitschek na Suíça, em 1992, foi aceita pelo Comitê Olímpico Internacional. Pela primeira vez na história dos jogos, o nosso País foi oficialmente candidato. Na decisão final, em Mônaco, porém, fomos derrotados. Perdemos para Sidney, na Austrália, a eleita entre sete cidades candidatas. Mas fizemos bonito. O problema foi que as dificuldades políticas daquele momento nos inviabilizaram. É bom não esquecer a turbulência que o País atravessava em 1992, com a economia em convulsão e vários problemas estruturais, que assustaram o Comitê Olímpico Internacional.”

Desta forma, temos três versões sobre o mesmo fato: a de que a organização desistira antes do final do processo, a de que o COI informara oficialmente de que o projeto não deveria existir e a última, de que fomos eliminados na final. Memórias e fatos confundem-se muito menos pela inexistência das fontes comprobatórias (uma visita ao COB talvez resolvesse o problema), mas muito mais pela visão de parte dos blogs e textos que tratam deste projeto e que apontam a falta de competitividade da proposta diante das demais cidades candidatas.

Brasília 2000 caiu no esquecimento e por mais que seus organizadores a associem com o sucesso da campanha Rio 2016, cabe pensar em seu contexto histórico. Como nos idos dos anos 1990, era possível pensar em um gasto astronômico de recursos públicos com uma economia ainda tão frágil? E como realizar um megaevento esportivo a partir de patrocínios desproporcionais e aquém, de empresas interessadas, sejam privadas ou ainda mesmo estatais? Foi levado em conta que um projeto de governo, liderado por um deputado federal se confundisse aos interesses privados e empresariais do Grupo Paulo Octávio (vinculado a empreendimentos imobiliários, shopping centers, televisão, hotelaria, rádio, etc)? Pois é, mas se não deu certo desta vez, outras campanhas foram realizadas. Mas, isto é assunto para outro dia.

Um abraço.

Nota 1: Cabe visualizar alguns dos vários projetos arquitetônicos para Brasília 2000, assinados por Oscar Niemeyer e Ruy Othake. Os mesmos seguem abaixo.

Nota 2: Estão lembrados da imagem do documento/livro que apresentamos lá em cima? Estava sendo vendido em um sebo virtual (desconhecido) e o site informava a seguinte nota: “A presente obra encontra-se em bom estado de conservação, contém, apenas, algumas manchas amareladas causadas pelo tempo.”

 

Estádio de Baseball

Estádio de Futebol e Atletismo

Parque Aquático

Velódromo

Quadra de Voleiball

Fontes:

MONTEIRO, Marcelo. Pela quarta vez, Brasil tenta receber os jogos olímpicos. 30/09/2009. Disponível em: <http://globoesporte.globo.com/platb/memoriaec/2009/09/30/pela-quarta-vez-brasil-tenta-receber-os-jogos-olimpicos/&gt;.

OLIMPÍADAS Anos 2000 em Brasília. Disponível em: <http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=651290&gt;.

RANGEL, Sérgio. Eterna candidata. 23/07/2007. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/especial/fj2306200707.htm#_=_&gt;.

SILVA, Donny. Brasília-2000, agora Rio-2016… 19/08/2012. Disponível em: <http://donnysilva.com.br/brasilia-2000-agora-rio-2016/&gt;.


As mulheres do Irã precisam ser mais esportivas?

06/04/2015

André Alexandre Guimarães Couto

Olá, caros(as) leitores (as):

O motivo de nossa conversa de hoje começou no domingo de Páscoa, mais conhecido como ontem, 05/04, quando ao ler o jornal O Globo, me perguntei porque uma informação tão relevante para o universo esportivo e feminino poderia estar em uma pequena matéria (com poucas frases formando uma coluna) no canto inferior do caderno “Sociedade”:

“Mudança na lei

Irã alivia restrições a mulheres em eventos esportivos
O Irã retirou parcialmente a lei que proíbe mulheres de assistirem eventos esportivos masculinos. A decisão foi anunciada ontem pelo vice-ministro dos Esportes do país, Abdolhamid Ahmadi, dias depois de uma mulher com cidadania britânica e iraniana ter sido presa por protestar contra a legislação. A nova política voltada para elas entrará em vigor ainda durante este ano iraniano, que, no calendário de Teerã, termina em março de 2016.” (O GLOBO, Rio de Janeiro, 05/04/2015)

Evidentemente, acerca do Irã, passamos o final desta última semana, ouvindo na grande mídia sobre a reaproximação das principais nações do Ocidente e o fim de embargos e punições internacionais sobre o país persa e o quanto este estava prestes a aceitar a decisão de reduzir sua capacidade de enriquecimento de urânio, um medo que a guerra fria alimentou por décadas mas que agora ganhou novas e quentes cores.

Mas, será que este “grande tema” diminuiu a importância de “outros” e talvez, “menores” assuntos como o esporte?

Fui fazer o dever de casa: pesquisar. Os grandes jornais e sites on line no Irã obviamente não deram um único destaque importante: nem mesmo o Iran Sports News Network, que enfatizou o campeonato de futebol local e o continental (asiático). Em tratamento semelhante, o Iran Sports Press, mais poliesportivo do que o anterior, apresentando notícias de outras modalidades como o handball ou luta greco romana e com um design mais arrojado do que o primeiro, falhava também no esquecimento de uma decisão ou debate tão caro.

ISP_LogoOs esquecimentos destas questões nos apontam para um processo interno no Irã de tentativa de frear um movimento em prol de uma maior liberdade das mulheres.

No Brasil, apesar de O Globo dar um destaque ínfimo a esta questão, o site do Globo Esporte apresentou uma matéria mais explicativa, apresentando dados relevantes como a permissão para as mulheres daquele país poderem a partir deste ato governamental, ter acesso a locais específicos em ginásios e estádios, desde que acompanhadas de suas famílias. Alguma informação, nenhuma reflexão, mesmo citando o caso daquela jovem Ghoncheh Ghavami, de 26 anos, após ser liberada pela justiça iraniana depois de um tempo presa. A acusação? Tentar assistir uma partida de vôlei masculino entre Irã e Itália, em junho de 2014 pela Liga Mundial.
E falando em vôlei, a auxiliar da seleção brasileira, Roberta Giglio, que lida com estatística esportiva, foi impedida de trabalhar em Teerã quando o nosso selecionado esteve por lá, também pela Liga Mundial.

Fonte: http://globoesporte.globo.com/outros-esportes/noticia/2015/04/com-restricoes-ira-libera-entrada-de-mulheres-em-competicoes-esportivas.html

Ghoncheh Ghavami

Fonte: http://globoesporte.globo.com/outros-esportes/noticia/2015/04/com-restricoes-ira-libera-entrada-de-mulheres-em-competicoes-esportivas.html

Bom, em se tratando do Irã, se a grande mídia brasileira só tem olhos, ouvidos e bocas para a nova tentativa de evitar um desequilíbrio diplomático (já criticada por vários países e políticos, não por acaso mais conservadores), a esportiva, pelo menos, registrou o fato, com pouquíssima reflexão, diga-se de passagem.

Outro ponto importante é perceber que apesar das leis iranianas tratarem as mulheres de forma subalterna e desumana, há um movimento de resistência aumentando cada vez mais naquele país com o apoio de instituições internacionais, como, por exemplo, a Anistia Internacional.

Se por um lado, há um certo avanço nas leis que abrem caminho para os esportes para as mulheres (como na notícia que acabamos de comentar), de outro há medidas de manter as mulheres como estão. É o caso, por exemplo, das propostas de leis pelo governo para aumentar a população iraniana, as chamadas Lei 315 e a Lei 446. De acordo com estas, as mulheres teriam acesso bem restrito aos usos contraceptivos e seriam excluídas do mercado de trabalho, caso se recusassem a casar e a terem pelo menos um filho.

De acordo com Hassiba Hadj Sahraoui, representante da Anistia Internacional para o Oriente Médio e o Norte da África, “The bills send a message that women are good for nothing more than being obedient housewives and creating babies and suggests they do not have the right to work or pursue a career until they have fulfilled that primary role and duty”.

Ou seja, não faz sentido comemorar um determinado avanço social e esportivo com as respectivas presenças das iranianas nos espaços esportivos como os estádios de futebol, quando temos leis que tratam as mesmas como “máquinas de fazer bebê” (expressão utilizada pela própria Anistia Internacional). Todavia, a luta pelos direitos humanos e sociais das mulheres deve estar presente a cada assento conquistado, a cada game, set, assalto ou tempo compartilhado in loco com os homens daquele país. Desta forma, o esporte também se torna palco e campo considerável e relevante de lutas sociais e de gênero. Lembrei-me ainda do filme Fora de Jogo (“Offside”), inclusive o primeiro que vi e discuti no Cineclub do Sport, em 2010. Filme do iraniano Jafar Panahi e produzido em 2006, mostrava as peripécias de jovens mulheres tentando entrar no estádio de futebol para ver a seleção do Irã nas eliminatórias da Copa do Mundo da FIFA.

fora de jogoPor outro lado, do ponto de vista estatal, além de toda a conjuntura internacional já citada neste breve post, o governo do Irã pode utilizar o esporte como peça de propaganda e publicidade. Mais ou menos assim: transformamos o papel do Estado e da sociedade, tanto dentro como para fora do país, mas para continuar a mesma coisa. Será que, por isso, a direita conservadora internacional anda tão desconfiada das medidas de Obama voltadas para o Irã?

Veremos como a imprensa nacional (de lá, como de cá), assim como a dos demais países reage nos próximos episódios. Tanto no que publica, como no que esquece.

Sugestões de Sites:

http://www.iransport.net

http://iransportspress.com/

https://www.amnesty.org/en/articles/news/2015/03/iran-proposed-laws-reduce-women-to-baby-making-machines/

http://globoesporte.globo.com/outros-esportes/noticia/2015/04/com-restricoes-ira-libera-entrada-de-mulheres-em-competicoes-esportivas.html


Copa do Brasil: da desconfiança ao sucesso?

16/11/2014

André Alexandre Guimarães Couto

Olá, caros(as) leitores:

Hoje, às vésperas de conhecermos o campeão da Copa do Brasil de 2014, no clássico mineiro entre Atlético-MG e Cruzeiro, numa final que há muito se esperava devido ao tamanho destes dois times e também à grande rivalidade dos mesmos, me veio uma questão: será que a Copa do Brasil sempre foi bem vista?

Retornamos, então, ao ano de 1989, há 25 anos atrás. A CBF (Confederação Brasileira de Futebol) resolvera criar um novo torneio de futebol de caráter nacional. Motivos? Vários, dos quais podemos comentar alguns: a necessidade de virar a página da malfadada Copa União (que gera discussão e debate até os dias de hoje), a ideia ainda que realizada de forma tacanha e politizada de modernizar o futebol brasileiro aos moldes do futebol europeu e a possibilidade de ampliar o caixa da CBF com mais jogos em um torneio mais curto e de eliminatórias desde a sua primeira rodada e ainda com direito a uma vaga na Taça Libertadores da América, principal torneio de futebol na América do Sul até os dias de hoje.

Obviamente, não poderíamos nos esquecer da possibilidade de ganhos políticos com a inserção dos representantes de cada federação do futebol brasileiro. É importante lembrar que o formato inicial previa os campeões de cada estado e mais alguns vice-campeões dos estados com maior importância e arrecadação financeira no cenário nacional. No total, 32 times de todas as federações, disputavam este torneio no ano inicial. Se pensarmos que a Copa União diminuiu radicalmente a quantidade de clubes na primeira divisão do campeonato brasileiro (em 1986, eram 44 equipes, o que já significava um declínio se considerarmos que em 1979 eram 94 clubes), entendemos o porquê da criação deste torneio.

É interessante também pensarmos na ideia de modernização do esporte, copiando os modelos quase seculares de torneios nacionais deste porte em países europeus como a Copa do Rei (Espanha), Copa da Itália, Copa da Liga Inglesa, Copa da Inglaterra e Taça de Portugal, por exemplos.

Porém, apesar do apoio das federações e da ideia interessante, pois vencer um estadual poderia levar uma equipe a uma competição nacional, ainda assim a imprensa e várias personalidades do esporte diziam que a competição não iria adiante.

Jogadores famosos como Zico davam declarações que o novo torneio não passava de um “caça-níquel” e, de forma diferente mas também crítica, parte da imprensa carioca e paulista não acreditava que jogos entre times grandes e outros pequenos pudessem gerar grandes rendas. Algumas equipes, inclusive, poupavam jogadores mais importantes nos jogos iniciais.

Grêmio

Jornal Correio do Povo.

Até mesmo a imprensa gaúcha que vibrou com a vitória do Grêmio contra o Sport, só passou a se animar (?) com a possibilidade real de um título como podemos ver acima (contra o Sport, na final) e abaixo (contra o Flamengo, na semifinal):

flamengo+ida+capa+certo

Jornal Zero Hora

Se o primeiro jogo da final, na Ilha do Retiro, teve como público pagante 36.117, o segundo jogo, apoiado pela imprensa local e pela vantagem de jogar em casa, levou 62.807 pagantes ao Estádio Olímpico em Porto Alegre.

Pronto (como dizem os nossos amigos do nordeste): estava aberta a porta para a CBF continuar investindo em um torneio nacional mais ágil e político (a despeito da mudança de regulamento de 1989 para cá, incluindo, em 2013, 86 times nesta disputa).

chave

Tabela da Copa do Brasil de 1989

Apesar de jogos deficitários neste primeiro torneio, as primeiras resistências, inclusive da imprensa eram vencidas. A imprensa carioca, por exemplo, lamentava o fracasso das equipes cariocas, apostava em um bom desempenho das mesmas no campeonato brasileiro (que O Globo, por exemplo, ainda chamava de Copa União), mas dava um grande destaque ao torneio, como podemos observar abaixo.

o globo 20 agosto de 1989

Jornal O Globo

Desta forma, temos hoje um torneio inchado, ainda com problemas deficitários, mas pouco questionado na imprensa esportiva. Aliás, questiona-se, por alguns cronistas, o formato do campeonato brasileiro por pontos corridos, já consolidado pelo modelo adotado em 2003. Contestações, aliás, que não víamos lá há 11 anos atrás, por parte destes mesmos jornalistas. Mas, esta já é outra conversa.

Por ora, deixo os gols daquela final de 1989, principalmente para os gremistas matarem a saudade de um time que tinha Assis, Cuca e Mazzaropi. Aliás, como Cuca jogava bola…

 


Por que não esquecemos de 1950?

13/07/2014

 

André Alexandre Guimarães Couto

Olá, pessoal. Final de Copa do Mundo. Muitas coisas para comentar, refletir e analisar. Porém, hoje, primeiro dia de vida pós Copa no Brasil, gostaria de dialogar com vocês sobre o trauma da Seleção Brasileira e sua respectiva cobertura jornalística. Bem, não estamos pensando exatamente sobre o 7 x 1 imposto pela campeã Alemanha, pois considero aquele jogo um baita vexame, que acredito que terá repercussões. Porém, não acho que se tornará necessariamente um trauma.

Que trauma estamos falando, então? Tratamos aqui o de 1950, que voltou às manchetes dos jornais brasileiros após a vergonha já citada. Por que tivemos que lembrar daquela data fatídica? Por que revisitar uma Copa anterior para cobrir um fato do presente?

A leitura de algumas capas de jornais brasileiros e internacionais corroboram com esta questão. Vamos a eles, então:

  Imagem 1A capa do Correio Braziliense publica uma espécie de carta ao povo escrita pelo jornalista João Valadares. De acordo com este, “(…) O que se viu ou ouviu após o primeiro gol alemão é para o ‘silêncio ensurdecedor’ de 1950 virar um barulhinho bom. O Maracanazo, agora, é derrota menor. Barbosa, o goleiro que carregou o peso de uma cruz de sofrimento até a morte, se estivesse vivo, poderia sentir que a cruz que Julio Cesar vai carregar até o fim da vida é muito mais pesada.”
O jornalista informa que esta não seria apenas a maior vergonha do futebol brasileiro, mas do esporte brasileiro, como um todo. Exageros a parte, esta peça midiática procura discutir o fato, interpretando-o como o fundo do poço da Seleção Brasileira, e, para tanto, em sua análise, redime o fracasso de 1950 com a lembrança de um de seus maiores símbolos: Barbosa.

Na mesma linha de cobertura jornalística (e por que não, apocalíptica), a Folha de S. Paulo lembra de 1950 para comparar com a derrota atual, que seria “a pior derrota da História” de seus 100 anos.

Imagem 5

 

Outros importantes jornais preferiram trabalhar com a imagem, como o jornal carioca Extra, do Grupo O Globo:

Imagem 4

A capa traz a foto de Barbosa caído, após o gol do uruguaio Ghiggia, com manchete que redimiria aquela seleção de 1950, estabelecendo um novo patamar de vergonha futebolística em uma Copa do Mundo.

O Diário de Pernambuco também usou a imagem de 1950 para redimir o goleiro Barbosa e estabelecer também uma nova marca de vexame esportivo. Nesta capa, é interessante porque há uma comparação imagética entre os dois períodos da história do futebol brasileiro em copas.

Imagem 2

A imprensa mundial também deu o mesmo tom de “tragédia do Mineirão” sem necessariamente enfatizar a comparação com 1950, mas repare que a capa do espanhol Sport faz alusão ao Maracanazo com a palavra “Fracasazo”. Em outros periódicos aparecem algumas referências no texto sobre 1950, porém, em menor importância do que nos jornais brasileiros.

Imagem 3Enfim, fica claro para nós que a o exagero do discurso jornalístico precisou utilizar a História não apenas para redimir antigos e possíveis vilões, ou mesmo por uma mera comparação de duas Copas do Mundo em um mesmo país, ou ainda porque acreditam que possam estabelecer novos paradigmas de uma vergonha esportiva ou futebolística. O que penso é que em momentos de grandes eventos como este, o exagero e a hipérbole textual e imagética casam com o ofício da cobertura jornalística esportiva. Ou seja, a memória de 1950 por si só nos traz uma carga emotiva e exagerada de se pensar o nosso futebol. Trazê-la para os dias de hoje não é uma escolha casual e sim uma fórmula editorial de apresentar os fatos aos leitores, visando a construção de um novo presente (o caos do futebol brasileiro ou, como queiram, o possível fundo do poço da Seleção Brasileira), pautado em uma análise de novos vilões (Felipão, dirigentes da CBF, os próprios jogadores) e de uma rememoração de um passado injustiçado (Seleção de 1950 e Barbosa, em especial). Aliás, outro fator importante, a injustiça redimida é, sem dúvida, mais uma “peça” editorial vendável e carregada de emoções.

Em Copa do Mundo, a mídia esportiva, de forma geral, tende a explorar os limites da carga emotiva que circunda o futebol. Com um material rico como o dia 08/07/2014, então…

Mais do que um real trauma no imaginário coletivo na sociedade brasileira causada pela derrota de 1950, aquela Copa hoje é lembrada e rememorada muito mais por parte significativa de uma imprensa esportiva brasileira, pelas razões já apresentadas, do que por outros motivos.

Para terminar, apresento uma peça publicitária que a Coca-Cola lançou para os seus consumidores brasileiros. Alguma chance de lembrar de 1950? Vejam e tirem suas próprias conclusões.

Um abraço.

 

P.S.: Para ver outras capas do dia 09/07/2014, vejam o link a seguir: http://globoesporte.globo.com/futebol/copa-do-mundo/fotos/2014/07/fotos-repercussao-da-derrota-da-selecao-brasileira-pelo-mundo.html