As Olimpíadas perdidas de Brasília

17/08/2015

André Couto

Olá, leitores (as):

Próximo do grande ano esportivo de 2016, quando sediaremos as Olimpíadas no Rio de Janeiro, fui pesquisar um dos primeiros projetos de sediar tal evento no Brasil: Brasília 2000.

Pouquíssimo material está disponível para pesquisa, porém, me chamou a atenção um documento oficial, homônimo ao projeto supracitado.

O documento elaborado pela Comissão Pró-Olimpíadas 2000 e publicado em 1991, apresentado em capa dura e em 120 páginas, nos quatro idiomas principais do COI (inglês, espanhol, francês e português), era um marco para as intenções do país em sediar um megaevento esportivo.

A logomarca do projeto escolhia a Catedral de Brasília, um dos símbolos da cidade e marca arquitetônica de Oscar Niemeyer.

A conjuntura era o início dos anos 1990, no Governo do então presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992), que lançava uma política neoliberal de “enxugamento da máquina do Estado”; reestruturação, extinção e fusão de órgãos públicos; demissão de funcionários públicos e congelamento de preços e salários, além do famigerado confisco da poupança por dezoito meses com o objetivo de reduzir a circulação de moeda no mercado. O cruzeiro retornaria em substituição ao cruzado novo, tentando deixar um passado econômico de inflação do governo anterior de José Sarney. O conjunto destas medidas seria chamado de Plano Brasil Novo, vulgarmente conhecido como Plano Collor.

 

No âmbito político, oriundo de um estado pouco influente no cenário nacional e alavancado ao poder pelo pequeno PRN (Partido da Reconstrução Nacional), Collor teve que compor sua base política de apoio com partidos conservadores e de direita como o PFL, PDS, PTB e PL e outros menores.

O projeto Brasília 2000 colocaria o Brasil em evidência internacional, no momento em que a economia procurava caminhar e fugir da década perdida e inflacionária dos anos 1980. A imagem de estadista arrojado, jovem e empreendedor fora muito utilizada durante a campanha para as eleições presidenciais em 1989 e ao longo dos primeiros anos de seu governo (quem não se lembra de Collor em um caça da Aeronáutica, pilotando um jet ski ou jogando futsal com a seleção brasileira que se preparava para a Copa do Mundo de 1990, na Itália?). Cabe lembrar que a imagem de agente público incorruptível e “caçador de marajás” (ou seja, os altos funcionários públicos do estado de Alagoas) foi veiculada pelos grandes grupos empresariais de comunicação como o Grupo O Globo e Grupo Abril, conforme podemos verificar na imagem abaixo:

Porém, qual é a memória que temos hoje deste projeto falido?

De acordo com o blog de Marcelo Monteiro, “Memória E.C.” do site Globoesporte.globo.com, a ideia era celebrar os 500 anos do descobrimento do Brasil e, portanto, o governo se empenhava para fazer grande comemoração, inclusive com um evento inédito na história brasileira. De acordo com este blogueiro, a candidatura de Brasília foi liderada pelo empresário e deputado federal Paulo Octávio, ligado ao presidente, mas inicialmente não contava com o apoio do próprio COB (Comitê Olímpico Brasileiro). De acordo com Monteiro, podemos refletir porque a candidatura fora retirada pelos próprios organizadores do projeto ainda no processo de seleção, que contava com as cidades de Pequim, Berlim, Sydney, Istambul, Manchester e Milão.

Já o jornalista Sérgio Rangel, da sucursal do Rio do jornal Folha de São Paulo, informava que Juan Antonio Samaranch, então presidente do COI (Comitê Olímpico Internacional), enviara por meio do seu amigo, João Havelange (então presidente da FIFA) uma carta a Collor explicando os motivos da impossibilidade da candidatura brasiliense.

Outro blog, de Donny Silva, traz uma entrevista com Paulo Octávio, a partir de um ponto de vista bem otimista em relação à candidatura de Brasília 2000. De acordo com o empresário, “(…) Tudo começou em 1989, com a eleição do presidente Fernando Collor e as mudanças de rumo no País. Junto com um grupo de atletas, dirigentes esportivos e intelectuais, iniciei uma ampla campanha para que o Brasil se candidatasse aos Jogos de 2000, trazendo a sede para Brasília, que tinha, inegavelmente, amplas condições de abrigar as instalações requeridas para uma competição deste porte. Um ano depois, em 1990, com minha eleição a deputado federal, o trabalho ganhou força. Nasceu uma associação que atraiu patrocinadores privados e conceituados nomes do mundo esportivo, como Bernard Rajszman, Carlos Arthur Nuzman, Zico e muitos outros otimistas que trabalharam arduamente na construção do dossiê de nossa candidatura. Sempre entendi que, entre as capitais brasileiras, Brasília reunia as melhores condições para sediar o evento.” Dentre as melhores condições, estariam os empreendimentos imobiliários que o entrevistado gerenciava por meio de suas empresas?

Porém, o mais interessante, em relação à falência do projeto, de acordo com Paulo Octávio, a “(…) proposta, entregue por mim e por Márcia Kubitschek na Suíça, em 1992, foi aceita pelo Comitê Olímpico Internacional. Pela primeira vez na história dos jogos, o nosso País foi oficialmente candidato. Na decisão final, em Mônaco, porém, fomos derrotados. Perdemos para Sidney, na Austrália, a eleita entre sete cidades candidatas. Mas fizemos bonito. O problema foi que as dificuldades políticas daquele momento nos inviabilizaram. É bom não esquecer a turbulência que o País atravessava em 1992, com a economia em convulsão e vários problemas estruturais, que assustaram o Comitê Olímpico Internacional.”

Desta forma, temos três versões sobre o mesmo fato: a de que a organização desistira antes do final do processo, a de que o COI informara oficialmente de que o projeto não deveria existir e a última, de que fomos eliminados na final. Memórias e fatos confundem-se muito menos pela inexistência das fontes comprobatórias (uma visita ao COB talvez resolvesse o problema), mas muito mais pela visão de parte dos blogs e textos que tratam deste projeto e que apontam a falta de competitividade da proposta diante das demais cidades candidatas.

Brasília 2000 caiu no esquecimento e por mais que seus organizadores a associem com o sucesso da campanha Rio 2016, cabe pensar em seu contexto histórico. Como nos idos dos anos 1990, era possível pensar em um gasto astronômico de recursos públicos com uma economia ainda tão frágil? E como realizar um megaevento esportivo a partir de patrocínios desproporcionais e aquém, de empresas interessadas, sejam privadas ou ainda mesmo estatais? Foi levado em conta que um projeto de governo, liderado por um deputado federal se confundisse aos interesses privados e empresariais do Grupo Paulo Octávio (vinculado a empreendimentos imobiliários, shopping centers, televisão, hotelaria, rádio, etc)? Pois é, mas se não deu certo desta vez, outras campanhas foram realizadas. Mas, isto é assunto para outro dia.

Um abraço.

Nota 1: Cabe visualizar alguns dos vários projetos arquitetônicos para Brasília 2000, assinados por Oscar Niemeyer e Ruy Othake. Os mesmos seguem abaixo.

Nota 2: Estão lembrados da imagem do documento/livro que apresentamos lá em cima? Estava sendo vendido em um sebo virtual (desconhecido) e o site informava a seguinte nota: “A presente obra encontra-se em bom estado de conservação, contém, apenas, algumas manchas amareladas causadas pelo tempo.”

 

Estádio de Baseball

Estádio de Futebol e Atletismo

Parque Aquático

Velódromo

Quadra de Voleiball

Fontes:

MONTEIRO, Marcelo. Pela quarta vez, Brasil tenta receber os jogos olímpicos. 30/09/2009. Disponível em: <http://globoesporte.globo.com/platb/memoriaec/2009/09/30/pela-quarta-vez-brasil-tenta-receber-os-jogos-olimpicos/&gt;.

OLIMPÍADAS Anos 2000 em Brasília. Disponível em: <http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=651290&gt;.

RANGEL, Sérgio. Eterna candidata. 23/07/2007. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/especial/fj2306200707.htm#_=_&gt;.

SILVA, Donny. Brasília-2000, agora Rio-2016… 19/08/2012. Disponível em: <http://donnysilva.com.br/brasilia-2000-agora-rio-2016/&gt;.


As mulheres do Irã precisam ser mais esportivas?

06/04/2015

André Alexandre Guimarães Couto

Olá, caros(as) leitores (as):

O motivo de nossa conversa de hoje começou no domingo de Páscoa, mais conhecido como ontem, 05/04, quando ao ler o jornal O Globo, me perguntei porque uma informação tão relevante para o universo esportivo e feminino poderia estar em uma pequena matéria (com poucas frases formando uma coluna) no canto inferior do caderno “Sociedade”:

“Mudança na lei

Irã alivia restrições a mulheres em eventos esportivos
O Irã retirou parcialmente a lei que proíbe mulheres de assistirem eventos esportivos masculinos. A decisão foi anunciada ontem pelo vice-ministro dos Esportes do país, Abdolhamid Ahmadi, dias depois de uma mulher com cidadania britânica e iraniana ter sido presa por protestar contra a legislação. A nova política voltada para elas entrará em vigor ainda durante este ano iraniano, que, no calendário de Teerã, termina em março de 2016.” (O GLOBO, Rio de Janeiro, 05/04/2015)

Evidentemente, acerca do Irã, passamos o final desta última semana, ouvindo na grande mídia sobre a reaproximação das principais nações do Ocidente e o fim de embargos e punições internacionais sobre o país persa e o quanto este estava prestes a aceitar a decisão de reduzir sua capacidade de enriquecimento de urânio, um medo que a guerra fria alimentou por décadas mas que agora ganhou novas e quentes cores.

Mas, será que este “grande tema” diminuiu a importância de “outros” e talvez, “menores” assuntos como o esporte?

Fui fazer o dever de casa: pesquisar. Os grandes jornais e sites on line no Irã obviamente não deram um único destaque importante: nem mesmo o Iran Sports News Network, que enfatizou o campeonato de futebol local e o continental (asiático). Em tratamento semelhante, o Iran Sports Press, mais poliesportivo do que o anterior, apresentando notícias de outras modalidades como o handball ou luta greco romana e com um design mais arrojado do que o primeiro, falhava também no esquecimento de uma decisão ou debate tão caro.

ISP_LogoOs esquecimentos destas questões nos apontam para um processo interno no Irã de tentativa de frear um movimento em prol de uma maior liberdade das mulheres.

No Brasil, apesar de O Globo dar um destaque ínfimo a esta questão, o site do Globo Esporte apresentou uma matéria mais explicativa, apresentando dados relevantes como a permissão para as mulheres daquele país poderem a partir deste ato governamental, ter acesso a locais específicos em ginásios e estádios, desde que acompanhadas de suas famílias. Alguma informação, nenhuma reflexão, mesmo citando o caso daquela jovem Ghoncheh Ghavami, de 26 anos, após ser liberada pela justiça iraniana depois de um tempo presa. A acusação? Tentar assistir uma partida de vôlei masculino entre Irã e Itália, em junho de 2014 pela Liga Mundial.
E falando em vôlei, a auxiliar da seleção brasileira, Roberta Giglio, que lida com estatística esportiva, foi impedida de trabalhar em Teerã quando o nosso selecionado esteve por lá, também pela Liga Mundial.

Fonte: http://globoesporte.globo.com/outros-esportes/noticia/2015/04/com-restricoes-ira-libera-entrada-de-mulheres-em-competicoes-esportivas.html

Ghoncheh Ghavami

Fonte: http://globoesporte.globo.com/outros-esportes/noticia/2015/04/com-restricoes-ira-libera-entrada-de-mulheres-em-competicoes-esportivas.html

Bom, em se tratando do Irã, se a grande mídia brasileira só tem olhos, ouvidos e bocas para a nova tentativa de evitar um desequilíbrio diplomático (já criticada por vários países e políticos, não por acaso mais conservadores), a esportiva, pelo menos, registrou o fato, com pouquíssima reflexão, diga-se de passagem.

Outro ponto importante é perceber que apesar das leis iranianas tratarem as mulheres de forma subalterna e desumana, há um movimento de resistência aumentando cada vez mais naquele país com o apoio de instituições internacionais, como, por exemplo, a Anistia Internacional.

Se por um lado, há um certo avanço nas leis que abrem caminho para os esportes para as mulheres (como na notícia que acabamos de comentar), de outro há medidas de manter as mulheres como estão. É o caso, por exemplo, das propostas de leis pelo governo para aumentar a população iraniana, as chamadas Lei 315 e a Lei 446. De acordo com estas, as mulheres teriam acesso bem restrito aos usos contraceptivos e seriam excluídas do mercado de trabalho, caso se recusassem a casar e a terem pelo menos um filho.

De acordo com Hassiba Hadj Sahraoui, representante da Anistia Internacional para o Oriente Médio e o Norte da África, “The bills send a message that women are good for nothing more than being obedient housewives and creating babies and suggests they do not have the right to work or pursue a career until they have fulfilled that primary role and duty”.

Ou seja, não faz sentido comemorar um determinado avanço social e esportivo com as respectivas presenças das iranianas nos espaços esportivos como os estádios de futebol, quando temos leis que tratam as mesmas como “máquinas de fazer bebê” (expressão utilizada pela própria Anistia Internacional). Todavia, a luta pelos direitos humanos e sociais das mulheres deve estar presente a cada assento conquistado, a cada game, set, assalto ou tempo compartilhado in loco com os homens daquele país. Desta forma, o esporte também se torna palco e campo considerável e relevante de lutas sociais e de gênero. Lembrei-me ainda do filme Fora de Jogo (“Offside”), inclusive o primeiro que vi e discuti no Cineclub do Sport, em 2010. Filme do iraniano Jafar Panahi e produzido em 2006, mostrava as peripécias de jovens mulheres tentando entrar no estádio de futebol para ver a seleção do Irã nas eliminatórias da Copa do Mundo da FIFA.

fora de jogoPor outro lado, do ponto de vista estatal, além de toda a conjuntura internacional já citada neste breve post, o governo do Irã pode utilizar o esporte como peça de propaganda e publicidade. Mais ou menos assim: transformamos o papel do Estado e da sociedade, tanto dentro como para fora do país, mas para continuar a mesma coisa. Será que, por isso, a direita conservadora internacional anda tão desconfiada das medidas de Obama voltadas para o Irã?

Veremos como a imprensa nacional (de lá, como de cá), assim como a dos demais países reage nos próximos episódios. Tanto no que publica, como no que esquece.

Sugestões de Sites:

http://www.iransport.net

http://iransportspress.com/

https://www.amnesty.org/en/articles/news/2015/03/iran-proposed-laws-reduce-women-to-baby-making-machines/

http://globoesporte.globo.com/outros-esportes/noticia/2015/04/com-restricoes-ira-libera-entrada-de-mulheres-em-competicoes-esportivas.html


Copa do Brasil: da desconfiança ao sucesso?

16/11/2014

André Alexandre Guimarães Couto

Olá, caros(as) leitores:

Hoje, às vésperas de conhecermos o campeão da Copa do Brasil de 2014, no clássico mineiro entre Atlético-MG e Cruzeiro, numa final que há muito se esperava devido ao tamanho destes dois times e também à grande rivalidade dos mesmos, me veio uma questão: será que a Copa do Brasil sempre foi bem vista?

Retornamos, então, ao ano de 1989, há 25 anos atrás. A CBF (Confederação Brasileira de Futebol) resolvera criar um novo torneio de futebol de caráter nacional. Motivos? Vários, dos quais podemos comentar alguns: a necessidade de virar a página da malfadada Copa União (que gera discussão e debate até os dias de hoje), a ideia ainda que realizada de forma tacanha e politizada de modernizar o futebol brasileiro aos moldes do futebol europeu e a possibilidade de ampliar o caixa da CBF com mais jogos em um torneio mais curto e de eliminatórias desde a sua primeira rodada e ainda com direito a uma vaga na Taça Libertadores da América, principal torneio de futebol na América do Sul até os dias de hoje.

Obviamente, não poderíamos nos esquecer da possibilidade de ganhos políticos com a inserção dos representantes de cada federação do futebol brasileiro. É importante lembrar que o formato inicial previa os campeões de cada estado e mais alguns vice-campeões dos estados com maior importância e arrecadação financeira no cenário nacional. No total, 32 times de todas as federações, disputavam este torneio no ano inicial. Se pensarmos que a Copa União diminuiu radicalmente a quantidade de clubes na primeira divisão do campeonato brasileiro (em 1986, eram 44 equipes, o que já significava um declínio se considerarmos que em 1979 eram 94 clubes), entendemos o porquê da criação deste torneio.

É interessante também pensarmos na ideia de modernização do esporte, copiando os modelos quase seculares de torneios nacionais deste porte em países europeus como a Copa do Rei (Espanha), Copa da Itália, Copa da Liga Inglesa, Copa da Inglaterra e Taça de Portugal, por exemplos.

Porém, apesar do apoio das federações e da ideia interessante, pois vencer um estadual poderia levar uma equipe a uma competição nacional, ainda assim a imprensa e várias personalidades do esporte diziam que a competição não iria adiante.

Jogadores famosos como Zico davam declarações que o novo torneio não passava de um “caça-níquel” e, de forma diferente mas também crítica, parte da imprensa carioca e paulista não acreditava que jogos entre times grandes e outros pequenos pudessem gerar grandes rendas. Algumas equipes, inclusive, poupavam jogadores mais importantes nos jogos iniciais.

Grêmio

Jornal Correio do Povo.

Até mesmo a imprensa gaúcha que vibrou com a vitória do Grêmio contra o Sport, só passou a se animar (?) com a possibilidade real de um título como podemos ver acima (contra o Sport, na final) e abaixo (contra o Flamengo, na semifinal):

flamengo+ida+capa+certo

Jornal Zero Hora

Se o primeiro jogo da final, na Ilha do Retiro, teve como público pagante 36.117, o segundo jogo, apoiado pela imprensa local e pela vantagem de jogar em casa, levou 62.807 pagantes ao Estádio Olímpico em Porto Alegre.

Pronto (como dizem os nossos amigos do nordeste): estava aberta a porta para a CBF continuar investindo em um torneio nacional mais ágil e político (a despeito da mudança de regulamento de 1989 para cá, incluindo, em 2013, 86 times nesta disputa).

chave

Tabela da Copa do Brasil de 1989

Apesar de jogos deficitários neste primeiro torneio, as primeiras resistências, inclusive da imprensa eram vencidas. A imprensa carioca, por exemplo, lamentava o fracasso das equipes cariocas, apostava em um bom desempenho das mesmas no campeonato brasileiro (que O Globo, por exemplo, ainda chamava de Copa União), mas dava um grande destaque ao torneio, como podemos observar abaixo.

o globo 20 agosto de 1989

Jornal O Globo

Desta forma, temos hoje um torneio inchado, ainda com problemas deficitários, mas pouco questionado na imprensa esportiva. Aliás, questiona-se, por alguns cronistas, o formato do campeonato brasileiro por pontos corridos, já consolidado pelo modelo adotado em 2003. Contestações, aliás, que não víamos lá há 11 anos atrás, por parte destes mesmos jornalistas. Mas, esta já é outra conversa.

Por ora, deixo os gols daquela final de 1989, principalmente para os gremistas matarem a saudade de um time que tinha Assis, Cuca e Mazzaropi. Aliás, como Cuca jogava bola…

 


Por que não esquecemos de 1950?

13/07/2014

 

André Alexandre Guimarães Couto

Olá, pessoal. Final de Copa do Mundo. Muitas coisas para comentar, refletir e analisar. Porém, hoje, primeiro dia de vida pós Copa no Brasil, gostaria de dialogar com vocês sobre o trauma da Seleção Brasileira e sua respectiva cobertura jornalística. Bem, não estamos pensando exatamente sobre o 7 x 1 imposto pela campeã Alemanha, pois considero aquele jogo um baita vexame, que acredito que terá repercussões. Porém, não acho que se tornará necessariamente um trauma.

Que trauma estamos falando, então? Tratamos aqui o de 1950, que voltou às manchetes dos jornais brasileiros após a vergonha já citada. Por que tivemos que lembrar daquela data fatídica? Por que revisitar uma Copa anterior para cobrir um fato do presente?

A leitura de algumas capas de jornais brasileiros e internacionais corroboram com esta questão. Vamos a eles, então:

  Imagem 1A capa do Correio Braziliense publica uma espécie de carta ao povo escrita pelo jornalista João Valadares. De acordo com este, “(…) O que se viu ou ouviu após o primeiro gol alemão é para o ‘silêncio ensurdecedor’ de 1950 virar um barulhinho bom. O Maracanazo, agora, é derrota menor. Barbosa, o goleiro que carregou o peso de uma cruz de sofrimento até a morte, se estivesse vivo, poderia sentir que a cruz que Julio Cesar vai carregar até o fim da vida é muito mais pesada.”
O jornalista informa que esta não seria apenas a maior vergonha do futebol brasileiro, mas do esporte brasileiro, como um todo. Exageros a parte, esta peça midiática procura discutir o fato, interpretando-o como o fundo do poço da Seleção Brasileira, e, para tanto, em sua análise, redime o fracasso de 1950 com a lembrança de um de seus maiores símbolos: Barbosa.

Na mesma linha de cobertura jornalística (e por que não, apocalíptica), a Folha de S. Paulo lembra de 1950 para comparar com a derrota atual, que seria “a pior derrota da História” de seus 100 anos.

Imagem 5

 

Outros importantes jornais preferiram trabalhar com a imagem, como o jornal carioca Extra, do Grupo O Globo:

Imagem 4

A capa traz a foto de Barbosa caído, após o gol do uruguaio Ghiggia, com manchete que redimiria aquela seleção de 1950, estabelecendo um novo patamar de vergonha futebolística em uma Copa do Mundo.

O Diário de Pernambuco também usou a imagem de 1950 para redimir o goleiro Barbosa e estabelecer também uma nova marca de vexame esportivo. Nesta capa, é interessante porque há uma comparação imagética entre os dois períodos da história do futebol brasileiro em copas.

Imagem 2

A imprensa mundial também deu o mesmo tom de “tragédia do Mineirão” sem necessariamente enfatizar a comparação com 1950, mas repare que a capa do espanhol Sport faz alusão ao Maracanazo com a palavra “Fracasazo”. Em outros periódicos aparecem algumas referências no texto sobre 1950, porém, em menor importância do que nos jornais brasileiros.

Imagem 3Enfim, fica claro para nós que a o exagero do discurso jornalístico precisou utilizar a História não apenas para redimir antigos e possíveis vilões, ou mesmo por uma mera comparação de duas Copas do Mundo em um mesmo país, ou ainda porque acreditam que possam estabelecer novos paradigmas de uma vergonha esportiva ou futebolística. O que penso é que em momentos de grandes eventos como este, o exagero e a hipérbole textual e imagética casam com o ofício da cobertura jornalística esportiva. Ou seja, a memória de 1950 por si só nos traz uma carga emotiva e exagerada de se pensar o nosso futebol. Trazê-la para os dias de hoje não é uma escolha casual e sim uma fórmula editorial de apresentar os fatos aos leitores, visando a construção de um novo presente (o caos do futebol brasileiro ou, como queiram, o possível fundo do poço da Seleção Brasileira), pautado em uma análise de novos vilões (Felipão, dirigentes da CBF, os próprios jogadores) e de uma rememoração de um passado injustiçado (Seleção de 1950 e Barbosa, em especial). Aliás, outro fator importante, a injustiça redimida é, sem dúvida, mais uma “peça” editorial vendável e carregada de emoções.

Em Copa do Mundo, a mídia esportiva, de forma geral, tende a explorar os limites da carga emotiva que circunda o futebol. Com um material rico como o dia 08/07/2014, então…

Mais do que um real trauma no imaginário coletivo na sociedade brasileira causada pela derrota de 1950, aquela Copa hoje é lembrada e rememorada muito mais por parte significativa de uma imprensa esportiva brasileira, pelas razões já apresentadas, do que por outros motivos.

Para terminar, apresento uma peça publicitária que a Coca-Cola lançou para os seus consumidores brasileiros. Alguma chance de lembrar de 1950? Vejam e tirem suas próprias conclusões.

Um abraço.

 

P.S.: Para ver outras capas do dia 09/07/2014, vejam o link a seguir: http://globoesporte.globo.com/futebol/copa-do-mundo/fotos/2014/07/fotos-repercussao-da-derrota-da-selecao-brasileira-pelo-mundo.html

 

 


Carnaval realmente combina com Futebol?

09/03/2014

André Alexandre Guimarães Couto

Olá, caros (as) leitores (as):

Fugindo um pouco da minha proposta de discutir a relação entre Imprensa e os Esportes, mas ainda assim utilizando a mídia como fonte para este post, resolvi pensar junto com vocês algo que vem tomando o meu tempo há alguns anos. Se o Carnaval é a nossa principal festa popular e se o futebol é o nosso principal esporte e ambos permeiam a nossa cultura nacional, por que, por vezes, a combinação entre eles nem sempre é reconhecida positivamente?

Para exemplificar, podemos utilizar três dos quatro grandes times de futebol do Rio de Janeiro. Em 1995, no ano comemorativo do centenário do Flamengo, a Escola de Samba Estácio de Sá lançava o enredo “Uma Vez Flamengo” (clara e óbvia alusão ao hino oficial do time rubro negro) e conseguia um modestíssimo sétimo lugar no Grupo Especial (principal).

Pior ainda foi o desempenho da Escola de Samba Unidos da Tijuca (hoje campeã na era Paulo Barros, o talentoso carnavalesco da agremiação do Morro do Borel) em 1998, quando a mesma resolvera homenagear o centenário do Vasco da Gama com o enredo “De Gama a Vasco, a Epopéia da Tijuca”. Resultado final: 13ª colocação no Grupo Especial e rebaixamento para o então Grupo de Acesso (hoje, Grupo A).

Em 2002, mais um centenário de um time grande e a Escola de Samba Acadêmicos da Rocinha homenageava o Fluminense com o enredo: “Nas Asas da Realização, Entre Glórias e Tradições, a Rocinha Faz a Festa dos 100 Anos de Campeão… Sou Tricolor de Coração!”. Porém, mais um vexame clubístico: 13ª colocação no Grupo de Acesso.

Estes três exemplos acima são importantes, mas também são parciais. Podemos concluir, apesar de sabermos da importância de um estudo bem mais aprofundado, que a relação entre clubes de futebol do Rio de Janeiro e o Carnaval exibido pelas principais escolas de samba desta cidade não geraram resultados expressivos na competição entre as mesmas. Vejam, esta é a realidade da cidade do Rio de Janeiro, pois em São Paulo, teríamos que levar em conta, por exemplo, a formação de escolas de samba a partir de torcidas organizadas como a Gaviões da Fiel e a Mancha Verde.

Mas, algumas hipóteses poderiam ser levadas em conta. A primeira é de que poderia haver uma certa resistência no universo carnavalesco em detrimento do futebol, que já dominaria a atenção dos cariocas e brasileiros durante todo o ano. Ou de que a paixão pelos clubes de futebol seria um elemento na hora do lançamento das notas pela Comissão Julgadora. Ou seja, o que acabaria sendo julgado seria o clube e não o desfile da escola de samba. Por fim, em alguns casos, a aproximação de determinados dirigentes dos clubes com as escolas, poderia gerar uma antipatia geral, entre os demais clubes, escolas de samba, torcedores, foliões, etc. Até hoje, a escola de samba Unidos da Tijuca tem uma forte relação com o Vasco da Gama. Era possível ver na comemoração deste ano (ao vencer o Grupo Especial) camisas e bandeiras do cruz-maltino.

Porém, este raciocínio não vale tanto quando tratamos da idolatria. Se os clubes sofrem para se destacar como enredos nas principais escolas de samba, os ídolos do futebol apresentam melhores resultados. Seja porque se destacaram em um contexto mais amplo (clube e seleção), seja pela carreira ilibada e responsável (sendo considerados, portanto, grandes profissionais, inclusive pelos torcedores de clubes rivais) ou mesmo pela simpatia e carisma pessoais.

Nestes casos, temos como fortes exemplos a homenagem a Nilton Santos pela Unidos de Vila Isabel em 2002 que, com o enredo “O Glorioso Nilton Santos… Sua Bola, Sua Vida, Nossa Vila…” conseguiu o vice-campeonato no Grupo de Acesso.

Neste ano de 2014, a Imperatriz Leopoldinense homenageou Zico com o enredo “Arthur X: O Reino do Galinho de Ouro na Corte da Imperatriz” e conquistou o 5º lugar no Grupo Especial.

Apesar de um certo destaque, ainda é pouco e modesto se comparado com os resultados das escolas de samba que homenagearam grandes ídolos da música, literatura e cultura de forma geral, como a Imperatriz Leopoldinense com Lamartine Babo (Campeã do Grupo 1-A em 1981), Beija-Flor com Bidu Sayão (3ª Colocada do Grupo Especial em 1995) e Roberto Carlos (Campeão do Grupo Especial em 2011) e a Estação Primeira de Mangueira com Dorival Caymmi (Campeã do Grupo 1-A, em 1986), Carlos Drummond de Andrade (Campeã do Grupo 1-A, em 1987) e Chico Buarque (Campeã do Grupo Especial em 1998).

Não poderíamos deixar de mencionar a grande vitória da Unidos da Tijuca em 2014, com o enredo “Acelera, Tijuca”, com ênfase na homenagem à Ayrton Senna. Um ídolo nacional do esporte. Pois é, esporte, não futebol. Mas, sobre isto comentaremos em um próximo post.

Referências:

CARNAVAL 2014. Disponível em: <http://liesa.globo.com/&gt;. Acesso em: 09/02/2014.

CARNAVAL E BOLA: relembre os desfiles que levaram o futebol para a Avenida. Disponível em: <http://m.globoesporte.globo.com/futebol/noticia/2014/03/carnaval-e-bola-relembre-os-desfiles-que-levaram-o-futebol-para-avenida.html&gt;. 02/03/2014. Acesso em: 09/02/2014.


Meia hora de Notícias e muitas outras de Emoções e Sensações

03/11/2013

André Alexandre Guimarães Couto

Olá, caros (as) leitores (as):

Confesso que o tema de hoje não seria este, mas mudei de ideia aos 45 minutos do segundo tempo por uma razão que explicarei no final do post.

Temos discutido por aqui a relação entre a imprensa e os esportes além de outras inter-relações importantes ao longo da História recente brasileira. Porém, o veículo de comunicação que trataremos aqui é o jornal carioca Meia Hora, no auge da sua performance gráfica, ou seja, nos dias de hoje.

Meia Hora de Notícias (nome oficial) pertence ao grupo de outro periódico importante no Rio de Janeiro: O Dia, criado em 1951 por Chagas Freitas e que atingiu muita fama na década de 1980, a partir da gestão do empresário e jornalista Ary de Carvalho (falecido em 2003). Hoje está sob a gerência da EJESA (Empresa Jornalística Econômico SA).

Jornal de cunho altamente sensacionalista traz em suas páginas um discurso bem popular (chegando ao popularesco) e abusando de temas impactantes como a criminalidade, o erotismo e, é claro, os esportes.

Não temos a intenção neste breve post, de analisar o jornal como um todo, mas apenas selecionar duas capas importantes que exemplificam o tipo de discurso escolhido pelo veículo no que diz respeito ao futebol.

A linguagem visual se confunde com a linguagem verbal e gestual da população carioca. As gírias, sinais e frases de duplo sentido põe graça e mexe com o imaginário coletivo numa relação mais do que direta com o leitor. Se não há um diálogo propriamente dito, há expectativa pelas próximas capas, e há multiplicidade das gozações e sacações das matérias, manchetes e imagens (muitas escrachadamente montadas) entre os leitores/torcedores. Se pensarmos que a estratégia linguística e discursiva é interessante, a de marketing não fica atrás, por conta do investimento de venda dos jornais em veículos de comunicação de massa como os trens da Supervia, por exemplo.

Meia Hora 1

08/10/2013

Um bom exemplo destas capas sensacionalistas (e por que não sensacionais?) é a brincadeira com as palavras e imagens acerca da possibilidade de punição ao Vasco por conta de um gesto de Juninho Pernambucano para a torcida adversária. Temos, então, poucas palavras e uma imagem que destila a graça sem sutileza porém informando de forma direta para o seu público. Se em outros jornais temos o fator humor impresso nas charges, como exemplo, aqui a capa e a montagem do texto das manchetes causa um efeito mais forte e contundente neste aspecto.

Meia hora 2

24/10/2013

Em outra capa, a brincadeira é com o Botafogo, que por ter perdido pelo Flamengo de goleada, com 3 gols de Hernane sentiria a fúria do Brocador (apelido do artilheiro). A capa é montada, tendo como apelo o erotismo (presença de uma mulher-fruta), a gozação com a derrota (Broca D’Or lembra a rede D’Or de hospitais) e a linguagem popular, sarcástica e bem-humorada.

Cabe lembrar que a proposta do jornal é criar sensações múltiplas em seus leitores, como o escracho (conforme os dois exemplos apresentados), o espanto (principalmente pelas notícias sobre os crimes que assombram a cidade do Rio de Janeiro) e o apelo à sexualidade (este último se associando ora ao crime, ora aos esportes, ora em outras situação inventadas pelo jornal).

Os esportes, então e principalmente o futebol, mais ainda do que os temas sexuais, seriam espécies de “válvulas de escape” de uma cobertura jornalística do cotidiano da cidade carioca que impressiona algumas vezes por uma brutalidade sem limites e de um espanto que se perpetua por alguns dias.

Se a imprensa há muito tempo descobriu como lidar com a relação entre as palavras e imagens e as emoções específicas do esporte, até mesmo como uma fator de sobrevivência daquela, estes veículos inauguram uma lógica mais contundente de (re)criar a informação, com estratégias específicas para tanto. Normas e técnicas de redação e a pseudo neutralidade e lucidez jornalística são jogadas nas gavetas pelos idealizadores do Meia Hora.

O jornal muito provavelmente aprendeu com O Dia no aspecto sobre a supervalorização das notícias sobre os crimes, já que na década de 1980 dizia-se no imaginário popular que ao “espremê-lo saía sangue”. Será que Meia Hora também bebeu na “tradição” sensacionalista dos tablóides ingleses, por exemplo? Só uma investigação mais apurada para saber. De qualquer forma, entender a imprensa carioca hoje, passa pela análise deste estilo (?) de informação.

Obs.1: Agradeço ao colega de SPORT e amigo Nei Santos, que nos chamou a atenção deste jornal como objeto de estudo.

Obs.2: Este post é em homenagem ao Sr. Jorge Marques Guimarães, tricolor doente e também meu pai, que faleceu há cerca de 2 meses. Leitor deste jornal, já que minha irmã o compra até hoje, se divertia bastante com o Meia Hora.


Em tempos de Copa do Mundo, dá para confiar na Imprensa Esportiva?

14/07/2013

André Alexandre Guimarães Couto

guimaraescouto@yahoo.com.br

Olá, caros (as) leitores (as):

Ninguém aguenta mais falar sobre a Copa das Confederações que terminou neste mês de julho. Porém, uma situação me chamou muito a atenção na relação entre imprensa e seleção nacional. Principalmente porque não foi a nossa seleção brasileira.

Trata-se do selecionado espanhol, que virou manchete nos jornais do Brasil por conta de uma suposta farra que os jogadores teriam realizado em Recife, na ocasião do jogo entre Espanha e Uruguai.  A festa realizada no hotel envolveria mulheres, pôquer e sabe lá o que mais.

A seleção da Espanha negara tudo e contou com o apoio de um grande e histórico aliado: a imprensa espanhola. Esta acusara os seus colegas brasileiros de que tudo não passara de um plano para desestabilizar a Fúria.

Joaquín Maroto (nome sugestivo?), colunista do diário AS, um dos mais importantes periódicos esportivos na Espanha, declarava que os brasileiros tinham “um medo visceral, uma depressão profunda” e que “Os anfitriões esperam que a Itália faça frente à Espanha, para que se evite um novo Maracanazo”. Portanto, para a maior parte da imprensa espanhola, o máximo que tinha ocorrido no hotel era de que ocorrera um furto, porém sem graves consequências.

Sem fazermos anacronismos, mas pensando em outra situação nesta relação entre seleção de futebol e imprensa, podemos lembrar da cobertura da Copa do Mundo de 1938 pelo Jornal dos Sports (JS), a partir de uma notícia de indisciplina, brigas e prisões dos atletas brasileiros em sua chegada à Lisboa, antes da viagem para a França, sede daquele Mundial.

Em um primeiro momento, o JS partia para a severa crítica, apontando que a seleção brasileira deveria ser o último lugar para apresentar tais atos de indisciplina ou de indulgência, tendo em vista que não se tratava de um time qualquer, mas de uma representação nacional em um momento peculiar, o de um time capaz de jogar bem o campeonato, mesmo que não o pudesse ganhá-lo:

Nenhuma confirmação esclareceu o incidente de Lisboa. Sabe-se apenas que alguns jogadores brasileiros foram presos e soltos mediante fiança.

Assim a indisciplina resalta, projecta-se para o primeiro plano, como personagem principal.

Esquece-se o nome do culpado ou os varios culpados. Houve, realmente, o intuito de diminuir o escândalo. A prova está em que sómente uma agencia telegraphica divulgou o incidente, com um laconismo significativo.

(…) O Campeonato do Mundo oferecia e offerece ainda uma opportunidade magnífica para o sport brasileiro. Não se tratava apenas da conquista de um trophéo. A victoria em um certamen mundial depende de factores variados, alguns dos quaes imprevistos. Constitue uma eventualidade, um resultado de esforços não implicam (…) em enthusiasmo (…) e sim, de forma cabal, em disciplina. Por outro lado a representação do Brasil no Campeonato do Mundo deixou de ser apenas uma questão sportiva, transformando-se em uma questão nacional. Dahi o movimento maravilhoso de incentivo, de solidariedade, que raiou ao sacrifício. Os clubs cedem os melhores “cracks”, nada exigindo em troca; a industria, o commercio, o povo, o governo, todos se unem para que o scratch brasileiro esteja apto a desempenhar uma missão sportiva no sentido de lealdade e de cavalheirismo.

Por isso, vamos perguntar, sem ingenuidade, para que serve o compromisso de honra, sendo para ser cumprido, o programma de disciplina, senão para uma execução inflexível. Não ha logar para indisciplinados no Campeonato Mundial mas também não ha logar para indulgentes. A disciplina não admitte hesitações ou recuos.[1]

Neste texto em especial, a indisciplina e a indulgência seriam fantasmas que poderiam assombrar o caminho da nossa vitória. Porém, na edição seguinte, marcada novamente pelo exagero e sensacionalismo jornalístico, o JS publicava em sua primeira página: “Tudo Não Passou de Mentira!” e “Lisboa Affirma Que Os Jogadores Brasileiros Não Promoveram Conflicto!”.[2]

Delegação Brasileira: Afonsinho, Argemiro,Batatais, Brandão, Britto, Domingos da Guia, Hércules, Jau, Leônidas, Lopes, Luisinho, Machado, Martim, Nariz, Niginho, Patesko, Perácio, Roberto, Romeu, Tim, Walter, Zezé Procópio, Técnico Adhemar Pimenta. Formação antes do jogo contra a Polônia. Fonte: .

Delegação Brasileira: Afonsinho, Argemiro,Batatais, Brandão, Britto, Domingos da Guia, Hércules, Jau, Leônidas, Lopes, Luisinho, Machado, Martim, Nariz, Niginho, Patesko, Perácio, Roberto, Romeu, Tim, Walter, Zezé Procópio, Técnico Adhemar Pimenta. Formação antes do jogo contra a Polônia.
Fonte: <http://www.mochileiro.tur.br/copa-1938.htm&gt;.

Desta forma, o jornal desfazia a ideia de uma seleção irresponsável ou indisciplinada e criticava a atuação de agências de notícias como a United Press, que teria construído um fato que não existira. Os motivos, para o JS, seriam vários, desde o preconceito contra jogadores sul-americanos em terras europeias e “civilizadas” até uma tentativa de boicotar um time que teria reais condições de vencer o campeonato mundial de futebol, desbancando a força do futebol europeu, campeão na última copa, em 1934.[3]

Ao invés de uma retratação do JS neste episódio, em que colocara dúvida na capacidade de representação responsável do Brasil pelos atletas da seleção de futebol, o jornal mirava na incapacidade da agência internacional de notícias de respeitar o nosso povo e a própria nação, conforme podemos observar no editorial do dia 18/05/1938:

Noticias de Lisboa desmentem qualquer escândalo durante a curta permanência dos jogadores brasileiros.

(…) Não se comprehendia nem se admittiria que os “cracks” brasileiros, mal attingissem uma terra amiga e hospitaleira, se desmandassem, offerecendo um triste espectaculo de indisciplina. Mais grave, porém, do que a accusação é a falsidade da denuncia. Espanta que se distribua uma noticia de tal natureza, com o fito de diminuir a confiança depositada no scratch brasileiro, sem a certeza das verdades plenas.

Durante quarenta e oito horas se duvidou da disciplina dos “cracks” que defenderão o renome sportivo do Brasil e se buscou os culpados para uma punição severa.

Verifica-se agora que não houve incidente, que não houve escândalo, que não houve prisão de jogadores brasileiros. É indisfarçável, portanto, a responsabilidade da agencia que divulgou a noticia escandalosa.

(…) Não podemos consentir que se empreste aos embaixadores do foot-ball brasileiro vícios condemnados pela pura noção do sport, exhibindo-os aos olhos do mundo como indisciplinados e arruaceiros.

Venha sem a demora a explicação – restabeleça-se a verdade dos factos e retire-se a calumnia com a mesma pressa da divulgação do escândalo inexistente.[4]

Com este editorial, o jornal procurava redimir a sua culpa e aproveitava o suposto escândalo envolvendo a seleção brasileira para vender edições que tratavam dos bastidores da Copa do Mundo. Todavia, o JS atentava para uma qualidade que deveria estar presente no dia-a-dia dos atletas: a disciplina, o que, naquele momento, pretendia-se para a própria sociedade.

Como podemos perceber, a relação entre disciplina, nacionalidade e futebol ainda se torna, hoje, um dos maiores elementos de interesse pelo jornalismo esportivo que amplia esta discussão em torno de mitos, verdades e interpretações de ambos. Obviamente, a caixa de amplificação da Copa do Mundo ou de um evento pré-Copa como a das Confederações é um fator a mais neste caldeirão midiático. Poderíamos dizer que a forma de publicizar os fatos em torno da seleção nacional nestes eventos é diferente? Neste caso, em que medida(s)? Bem, aí já papo para outros posts.


[1] A indulgencia gera a indisciplina: não ha logar para indulgentes ou indisciplinados. In: Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, nº 2.678, 17/05/1938. p. 2. Coluna Críticas e Suggestões.

[2] Tudo Não Passou de Mentira! In: Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, nº 2.679, 18/05/1938. p. 1. Antes do texto desta matéria, o jornal informava que “A C.B.D. incumbiu a Agencia Havas de promover um inquérito rigoroso”.

[3] Copa do Mundo disputada na Itália, e vencida pelos próprios donos da casa.

[4] A United Press tem de explicar a divulgação de um escândalo inexistente. In: Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, nº 2.679, 18/05/1938. p. 2. Coluna Críticas e Sugestões.


Brasil X Itália: Tem alguém aí interessado em Futebol?

25/03/2013

André Alexandre Guimarães Couto

Olá, caros (as)  leitores (as):

Em uma semana em que a Seleção Brasileira de Futebol empatou com a Itália em 2 x 2, no início do trabalho do treinador Luis Felipe Scolari (versão 2013), lembramos de outro Brasil X Itália na década de 1980.

Calma, não estou me referindo ao fatídico jogo na Copa do Mundo da Espanha, em 1982, quando perdemos de 3 x 2.

Sete anos depois, mais precisamente no dia 14/10/1989, Brasil e Itália jogavam em Bolonha, na preparação da Copa do Mundo de 1990, também na Itália.

Enquanto isto, no Brasil, apesar do interesse na Seleção Brasileira treinada por Sebastião Lazaroni, a população já vivia uma grande expectativa pela eleições presidenciais que ocorreriam no dia 15/11 (1º turno). Depois de tantos anos de ditadura militar e de eleições indiretas em 1985, que levou ao poder José Sarney, substituindo o eleito Tancredo Neves, que falecera logo após a vitória, o país vivia a expectativa de eleger pelo voto direto o próximo presidente da república.

Nada menos do que 22 candidatos de diversos partidos (pequenos, médios e grandes) disputaram o maior cargo do executivo brasileiro. Muitos grupos sociais se fizeram representar como os ruralistas, sindicalistas, industrialistas, ambientalistas e outros “istas”. No final Fernando Collor de Mello, do pequeno PRN, vencia em segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 49,94% dos votos. Os jornais e as televisões davam intenso destaque para o evento político e social mais importante depois de anos para os brasileiros.

Mesmo com um grupo considerado vencedor, pois ganhara a Copa América depois de 40 anos, a Seleção não conseguia empolgar na mídia. Nos jornais e revistas de variedades, o assunto era um só: eleições para presidentes. Na TV, novelas da Rede Globo como Vale Tudo e Que Rei Sou Eu? lançavam discussões acerca da desconfiança no poder público e da construção de uma nova ordem republicana.

Havia, então, espaço para o futebol? Por certo que sim, mas bem menor do que em outros momentos da História. Porém, pensando bem, o espaço alcançado pela Seleção Brasileira refletia um momento de reestruturação da própria CBF, assumida naquele ano por Ricardo Teixeira. Dentre estas mudanças, destacam-se a criação da Copa do Brasil (vencida pelo Grêmio) e a tranformação da entidade numa sólida associação de captação de recursos privados e públicos.

Mas, hoje o interesse pela Seleção é significativo em relação a 1989? Surpreendentemente, às vésperas de uma Copa do Mundo no Brasil, o destaque na imprensa pode ter permanecido o mesmo, mas o interesse pelo público vem diminuindo de forma significativa. À exceção de um ou outro jogador, não temos mais os protagonistas de grandes clubes europeus como em 1989, como astros do Campeonato Italiano (Careca, Alemão e Branco), considerado centro do futebol mundial naquele momento, ou mesmo craques que se destacavam em outros centros como Romário e Bebeto.

Se aquele jogo com a Itália foi importante pelo resultado e por ter sido o primeiro depois do jogo com o Chile no Maracanã, que o Brasil ganhou no campo por 1 x 0 e fora dele por conta da farsa promovida pelo goleiro Rojas, a conjuntura brasileira, na prática, exigia outras demandas de preocupação e de interesse. A seleção formada por Taffarel, Jorginho, Aldair (André Cruz), Ricardo Rocha, Mauro Galvão e Mazinho; Dunga, Alemão (Geovani) e Silas (Tita); Müller e Careca, procurava uma afirmação às vésperas de uma Copa do Mundo. Coincidência ou não, este é o panorama que temos hoje. Para os saudosistas, como eu, segue o gol (aliás, golaço) do zagueiro André Cruz.

Porém, até mesmo as revistas de esporte como Placar, se rendiam à cobertura do pleito presidencial, como podemos observar nesta charge publicada na edição de 27.10.1989, acerca do candidato do PRONA, Enéas, representante da ultra-direita brasileira e que se tornou uma figura quase folclórica no meio político e midiático.

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Seleção Brasileira sim, Nacional não

26/11/2012

Por: André Alexandre Guimarães Couto

guimaraescouto@yahoo.com.br

Em tempos em que a seleção brasileira de futebol é tema de discussão da imprensa por seu desgoverno e  não por seus resultados expressivos em campo, cabe uma reflexão e um olhar no passado acerca da composição dos jogadores que nela atuavam.

O Jornal dos Sports (JS), na década de 1930, criava representações sociais e nacionais em suas páginas a partir da defesa dos interesses brasileiros, ou seja, da identidade e das cores do Brasil no cenário internacional, ao propor uma seleção mais técnica, mais forte e, portanto, mais adequada e representativa do verdadeiro futebol brasileiro. Mesmo não tendo uma posição de destaque no cenário mundial, como já era a seleção uruguaia, por exemplo, já se criavam condições na imprensa para exigir uma legítima forma barsileira de se jogar.

Assim, a única Copa do Mundo coberta pelo JS no período de Argemiro Bulcão (seu editor e proprietário no período de 1931 a 1936), a de 1934, era um sinal de derrota não só da seleção brasileira, mas também, da oportunidade de mostrarmos ao mundo como os esportes nacionais estavam avançados e competitivos, símbolos de uma sociedade mais ajustada, moderna, ordenada e disciplinada.

O fiasco dos atletas brasileiros nos Jogos Olímpicos de 1932 e a briga entre CBD e FBF na Copa do Mundo de 1934 eram perdas muito fortes, para o jornal, na construção de um novo brasileiro que merecia maior destaque no âmbito internacional.

Para o JS, o futebol já era, na primeira metade da década de 1930, um símbolo do valor do novo homem brasileiro, mais voltado para o futuro e para uma modernidade cujos sentidos fossem valorizar a excelência na relação entre trabalho, vigor físico e saúde perfeita, disciplina e organização.

Para melhorar a qualidade do futebol brasileiro, todavia, era necessário buscar mais amplitude do principal esporte nacional. Ou seja, era importante que o futebol, que já era praticado em todo o país, pudesse ser mais organizado e que contasse com a criação de clubes e ligas estaduais e regionais para além do eixo Rio-São Paulo. O futebol representava o homem brasileiro, que estava presente em todo o território nacional:

A Evolução do Football Brasileiro

Uma época houve em que o football brasileiro evolucionou bastante, surgiram jogadores de qualidades excepcionaes, tivemos comjunctos harmônicos que actuavam com uma notoria efficiencia. Veio, depois, um período de declínio, sensivelmente no Rio e em São Paulo. Foi imposta uma disciplina mais rigorosa, um regimen mais severo de treinos, de preparo physico e surgiram, indiscutivelmente, quadros mais perfeitos do que ha alguns annos passados.

Uma vez que existe uma Federação Brasileira de Football é de presumir-se que a sua acção não se circunscreva ao Districto Federal e a São Paulo, no que concerne ao interesse pelo progresso technico e diffusão do football.

Deve ter maior amplitude e extender-se a outros Estados, o que póde ser conseguido, entre outros meios, com um intercambio mais intenso, com a realização mais frequente de partidas interestaduaes, effectuadas não apenas em São Paulo e no Rio mas em outras cidades. Um seleccionado carioca e outro paulista que excursionassem através do Brasil, produziriam um notavel incremento no football, movimentariam grandes assistências, concorreriam, em summa, para a evolução do football brasileiro.

           Vemos nesta passagem a preocupação em associar a evolução do futebol com uma “disciplina mais rigorosa”, “um regime mais severo de treinos” e “preparo físico”, para justificar uma evolução natural da capacidade do brasileiro para jogar futebol. Portanto, para o jornal, com o desenvolvimento físico dos nossos atletas, o nosso futebol poderia se tornar mais competitivo e representativo.

Porém, era necessário regionalizá-lo, levando a expertise carioca e paulista para todos os cantos do país, informando, então, que a capacidade técnica e organizacional destas duas cidades da região sudeste era o futuro do melhor futebol brasileiro. Para continuarmos nesta linha de desenvolvimento esportivo, os demais estados, portanto, deveriam seguir o modelo construído e projetado por Rio e São Paulo.

O JS, desta forma, valorizava o esporte nacional, mas centralizava justamente este valor do esporte e como consequência, do homem brasileiro moderno, nestas cidades, pois ali seria a origem e o meio para o futebol seguir seu rumo vitorioso. Em contrapartida, além de poucas menções a Minas Gerais, o que já era raro, as referências do futebol praticado nos outros estados mereciam pouquíssimas ou nenhuma importância nas páginas do jornal.

Desta forma, por mais que o jornal pretendesse ampliar geograficamente o raio de atuação desta prática desportiva e, com isso, intentava melhorar a qualidade do futebol brasileiro, partia-se de uma centralidade em torno do eixo Rio-São Paulo. Ou seja, não se discute um aproveitamento de outras partes do Brasil no modus operandi do futebol nacional, mas sim uma divulgação de uma forma pré-estabelecida por Rio de Janeiro e São Paulo.

A centralidade que era criticada pelo jornal também era, sob o aspecto discursivo, defendido pelo mesmo.

E hoje, qual é o espaço que as demais regiões ocupam em nossa mídia esportiva? Bem, esta discussão fica para um próximo texto.

Referências Bibliográficas:

A EVOLUÇÃO do Football Brasileiro. In: Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, nº 951, 24/06/1934. p. 2. Coluna Críticas e Suggestões.

COUTO, André Alexandre Guimarães Couto. A hora e a vez dos esportes: a criação do Jornal dos Sports e a consolidação da imprensa esportiva no Rio de Janeiro (1931-1950). São Gonçalo: UERJ/FFP, 2011. Dissertação de Mestrado.

HALL, Stuart. A Centralidade da Cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo. Disponível em: <http://www.gpef.fe.usp.br/teses/agenda_2011_02.pdf&gt;. Acesso em: 26/11/2012.

HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. O cor-de -rosa: ascensão, hegemonia e queda do Jornal dos Sports entre 1930 e 1980. In: HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de e MELO, Victor Andrade de. O esporte na imprensa e a imprensa esportiva no Brasil. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2012. No prelo.


Todos os Homens do Jornal dos Sports

09/08/2012

Por: André Alexandre Guimarães Couto

guimaraescouto@yahoo.com.br

Neste breve texto que vos apresento, retomo a discussão em torno dos cronistas do Jornal dos Sports. No texto anterior, apresentamos Vargas Netto, importante articulista deste jornal entre as décadas de 1940 e 1950. Mais do que um redator, Vargas Netto era também um literato e autor de obras poéticas no Rio Grande do Sul.

Hoje, porém, retomamos com Geraldo Romualdo da Silva. Autor de diversas crônicas neste veículo, era jornalista esportivo desde a década de 1930, tendo ingressando na primeira administração do JS (1931-1936) sob a direção de Argemiro Bulcão e compartilhava, com seus colegas de redação, da campanha “A Batalha do Estádio” que o jornal empreendia para vencer as últimas resistências em torno da construção do Maracanã. Menos literato e mais jornalista, se é que podemos fazer esta separação formal, Geraldo assinava matérias e crônicas e ganharia mais espaços no periódico, pois se destacava na cobertura de grandes eventos esportivos como a Copa do Mundo de 1938, na França, por exemplo.

Mesmo com os cuidados para não cairmos no anacronismo, mas propondo apenas uma comparação temática, em tempos atuais em que as notícias da construção e reforma dos estádios brasileiros para a Copa de 2016 poderiam estar tranquilamente nas páginas policiais, segue um exemplo de crônica do referido autor:

(…) É inestimável, é incalculável e é inacreditável o que se ficará devendo à “Copa do Mundo” de 50, como agente de expansão do nome do Brasil. Praza a Deus que nos campos das próximas refregas, possamos contar com atletas que ratifiquem pelo empenho, pela capacidade técnica e pela disciplina, essa publicidade, que tem suplantado em muito, em tudo, o café, ao samba e ao “colar de pérola” de Copacabana.
Porque esta é uma dura verdade, mas é uma verdade os europeus não nos conhecem senão pela força desses agentes e, um pouco, também, pelas graças de Carmen Miranda…
Incrível, pois não? Mas acreditem nessa dura verdade. Nessa verdade que muito custa a ser dita, mas que deve ser dita em benefício da própria verdade.
(…)
Mas, já que se aponta o football como o mais recente e o mais sério rival do café, do samba e de Carmen, é justo e natural, entretanto, que se o tenha “xipofagamente” ligado ao Estádio Municipal.
Sim, porque desde que se anunciou ao mundo que anda em crescimento no Brasil, um estádio com capacidade para 155 mil pessoas, nada se conta nem nada se diz ou se escreve na Europa em relação à “Coupe Jules Rimet”, que também não tenha por base o Estadio Municipal – esse nosso estádio que continua aparecendo aos olhos dos europeus menos crédulos como um simples prenuncio de estádio. (Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, 03/01/1950)

Apesar de não estar investido em um cargo político propriamente dito, o que ocorria com outros colegas de JS, Geraldo adotava a defesa do discurso em torno de uma característica cada vez mais nacional: o futebol. A praça de esportes não seria representativa se a víssemos de forma isolada e estática, mas apenas se a enxergássemos de forma estrutural, um símbolo da capacidade técnica do brasileiro de jogar este esporte. Uma representação comunicativa que visava elevar o padrão de reconhecimento da identidade cultural do Brasil para além do já conhecido: “café”, “samba” e “praia”, além, é claro, da presença de Carmen Miranda, que mesmo sem ser brasileira, representava a beleza, alegria e irreverência do nosso povo.
O Brasil teria uma oportunidade única de mostrar ao mundo de que seria o país do futebol e tal informação tornava-se factível pela construção do Estádio Municipal. Se ainda não tínhamos o título da Copa do Mundo, teríamos o título de maior estádio do mundo e muitas possibilidades de conquistar o campeonato em casa. O futebol, para o cronista, seria uma das principais identidades brasileiras no plano internacional, como o café, Carmen Miranda e a Praia de Copacabana.
Se Mário Filho liderava o JS na campanha pela “batalha do estádio”, há que se chamar a atenção da atuação dos vários escritores que fizeram da crônica esportiva a sua arma principal. Nomes como Vargas Netto, Geraldo Romualdo da Silva e outros construíram uma trincheira literária em prol da construção do estádio e da importância que este teria para o êxito brasileiro na Copa do Mundo de 1950.
Para além do futebol, o esporte seria um meio de abrir caminho para o progresso do Brasil, por meio de uma construção arquitetônica moderna, arrojada e, sobretudo, internacional.
Tais autores, tomando para nós os estudos de Bourdieu, exerciam uma autoridade delegada do discurso, ou seja, a linguagem utilizada pelos cronistas possibilitava o entendimento pelos leitores da institucionalização de determinadas ideias. Aqueles estavam instituídos de forma múltipla: pelo público leitor, pela direção do jornal e pelos próprios pares no mundo jornalístico.

Hoje, na sangria de dinheiro público com a construção de estádios em lugares onde a média de torcida é um número muito pequeno, sem falar de reformas infindáveis e com construtoras mais do que suspeitas (caso do Rio de Janeiro), segue uma pergunta: quem instituiu o discurso de parte da imprensa que defende estes disparates? Difícil de saber.

Referências Bibliográficas:

BOURDIEU, Pierre. A Economia das Trocas Linguísticas: O que falar quer dizer. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1996.

SILVA, Geraldo Romualdo da. A “Copa do Mundo” Descobre o Brasil…Base da Propaganda: Estadio Municipal. In: Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, nº 2.648, 03/01/1950. p. 3.