The Matildas enfiaram 6 na Seleção: notas sobre o futebol de mulheres na Austrália

20/08/2017

(para Paula Botelho-Gomes e Claudia Kessler)

Por Jorge Knijnik

 

Há poucas semanas, O Brasil tomou outro vareio internacional. Desta vez, nossos algozes foram as Matildas, a equipe Feminina Australiana de futebol, que enfiaram 6 x 1 na Seleção feminina brasileira no “Tournament of Nations” realizado no inicio de agosto nos Estados Unidos. Além de massacrarem o Brasil, as Matildas paparam o torneio de forma invicta, vencendo pela primeira vez na historia as anfitriãs (1×0) e convencendo contra o time do Japão (4×2).  Até onde eu sei este ‘vexame’ futebolístico passou quase despercebido na mídia brasileira, que nao tomou muito conhecimento desta goleada.

Na Austrália,  o grande feito das Matildas infelizmente, tambem não teve a repercussão que merecia. Se no Brasil os ‘6×1’ não chegou às manchetes nem virou sinônimo de todo e qualquer descalabro publico e social da nação (ah! Os eternos ‘7×1’ a mastigar pela eternidade nosso complexo de vira-latas!), na Austrália, as vitorias espetaculares e a conquista inédita das Matildas obtiveram alguma reação positiva da grande mídia e das mídias sociais – muito aquém, porem, do seu significado esportivo e histórico.

Comentaristas ‘sociais’ de todos os naipes, afoitos, encontraram a desculpa da vez para a ausência do espaço devido ao futebol feminino: o sucesso internacional das Matildas teria sido rapidamente abafado na cobertura jornalística pelos graves problemas que afetam a administração do futebol australiano,   e com a recente visita da delegação da FIFA  para tentar minimizar a crise da Federação local – visita esta que aparentemente não foi bem sucedida.

O fato permanece: tivessem os Socceroos enfiado seis no Brasil e vencido um torneio com as principais seleções do mundo, todos sabemos o que teria acontecido: estatuas teriam sido erguidas, rádios, jornais, TVs, internet, tudo teria girado em torno deles por meses. Eles estariam bombando!

 

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No futebol de mulheres, entretanto, a historia é outra. Alias, tem sido outra há muito tempo. Seja aqui ou no Brasil, elas tem que resistir e lutar para construir a própria historia nos gramados. Deste modo, com muitos paralelos com a historia das mulheres no futebol brasileiro, as australianas vem forjando nos campos de futebol mais um espaço importante para a luta pela equidade de gênero – seja em nível politico, educacional, social ou recreativo.

O contexto histórico mundial é bem conhecido. Mesmo sendo uma atividade predominantemente masculina, o futebol foi praticado pelas mulheres europeias desde o século XVIII, tanto de forma recreativa como competitiva. No inicio do século XX o movimento futebolístico das mulheres na Inglaterra chegou ao ápice, com jogos atraindo mais de 50.000 espectadores. Entretanto, com a constante oposição dos ‘donos da bola’, que escondiam seus preconceitos através de alegações pseudocientíficas de natureza biológica e medica para restringirem legalmente a participação esportiva das mulheres, as dificuldades foram aumentando e a presença delas nos campos diminuindo – ou será que elas continuaram jogando, mesmo contra tudo e principalmente todos?

Na Austrália, a presença das mulheres nos campos de futebol começou a ser noticiada na mídia ao final do século XIX. Uma pequena nota no West Australian em 1895 afirmava que ‘um jogo entre moças  aconteceu recentemente em Melbourne, atraindo mais de 12.000 pessoas’. Referencias a jogos femininos de futebol aparecem em diversas fontes desde os anos 1880, e se intensificam a partir de 1910. Nestas fontes há algumas confusões quando se menciona ‘futebol’, sem se saber ao certo se a noticia fala sobre rugby, Australian Rules ou futebol propriamente dito.

No período entre guerras, o futebol entre mulheres começou a florescer e ganhar reconhecimento: novos times surgiram em Melbourne e Brisbane (La Trobe Ladies Football Club, North Brisbane, South Brisbane) atraindo plateias na casa dos 10.000 torcedores para seus jogos. Entidades estaduais, como a New South Wales ladie’s soccer football association e a Queensland Ladies’ soccer football Association foram criadas em 1821 para organizar o jogo das mulheres. Clubes com nomes sui generis, como Arnotts, Zig-Zags and State Mine faziam jogos disputadíssimos, atraindo milhares de pagantes aos estádios para desfrutar desta nova forma de lazer, e para torcer pelas suas equipes e atletas favoritas. Os jornais da época noticiavam que as mulheres ‘jogavam com a mesma energia e vigor dos homens, e muito frequentemente brigavam tal como eles’.

 

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De fato, desde aquela época a mídia já gostava de narrar confusões e brigas. Assim, qualquer probleminha virava manchete. Casos de torcedoras que discutiram com goleiros adversários, ou mesmo de um arbitro que foi ‘enfiado na lama pelos dois times de mulheres depois do jogo’ em Lightow em 1931, ganhavam proeminência nos jornais locais.

A realidade patriarcal, entretanto, sempre se mostrou muito dura para as mulheres futebolistas. Os mesmos argumentos usados no Brasil e no mundo contra a pratica de esportes de contato pelas mulheres eram também brandidos pelas bandas Australianas. Questoes medicas, fisiológicas, estéticas, tudo era levantado para impedir que as mulheres se emancipassem nesta área tão importante para a vida social australiana. Na maior parte dos tempos, a participação feminina era restrita a ajudar nas cantinas ou a papel de voluntarias para ajudar na administração geral dos clubes, levantar fundos, cuidar dos campos e uniformes, entre funções deste tipo.

Depois da segunda Guerra Mundial, o futebol de mulheres se revitalizou na Austrália. Em New South Wales, o numero de garotas e mulheres jogando, tanto formal quanto informalmente, não parou de crescer. Ao final dos anos 1970, havia 4.500 jogadoras adultas registradas na Australia, e 14.500 garotas menores de 18 anos jogando oficialmente o jogo de futebol – destas, 9.000 jogavam em New South Wales.

Nesta época, o futebol se expandia por todo o pais. Competições estaduais foram estabelecidas nos estados de Victoria e New South Wales. Times internacionais visitavam a Austrália para jogar amistosos contra times locais, muitas vezes aproveitando que as seleções masculinas vinham jogar por aqui. O numero de torcedoras também não parava de crescer, sendo que em Victoria, um estado fanático pelo Australian Rules, a quantidade de mulheres que assistia o futebol era minimamente inferior daquelas que frequentavam os estádios do maior esporte daquele estado, o Australian Rules Football.

Um nome importante no inicio dos anos 1960 foi Pat O’Connor, que fundou a Metropolitan Ladies’ Soccer Association em New South Wales, com uma liga que chegou a ter 12 times em sua competição principal.

Como secretaria-geral da Australian Women’s Soccer Association, O’Connor ajudou a organizar a primeira Copa Australiana de Futebol de Mulheres que se realizou em Sydney, em 1974; além de dirigente, ela também era jogadora e aos 35 anos foi uma das melhores atletas da competição. O’Connor também assumiu o posto de vice-presidente da Asian Ladies Football Confederation naquele mesmo ano, e mais tarde foi induzida no Hall of Fame do futebol australiano.

O futebol das mulheres continuou crescendo na Austrália; entretanto, mesmo conseguindo algum patrocínio de entidades nacionais, a maior parte dos custos sempre caia nos ombros das jogadoras, que tinham que se virar vendendo rifas e fazendo diversas atividades para angariar fundos e poder disputar competições estaduais e nacionais em um pais do porte da Austrália.

Somente em 1996 uma liga nacional de futebol de mulheres foi constituída, com seis equipes representando a maioria dos estados ou territórios australianos. A liga não durou muito, mas constituiu um embrião para o surgimento, anos depois, da W-League, que atualmente se configura como a liga semiprofissional de futebol de mulheres na Austrália.

Em nível internacional, o primeiro jogo de uma seleção australiana de mulheres aconteceu em  outubro de 1979 contra a Nova Zelandia, em um estádio chamado Sheymour Park, pertinho aqui de casa, no bairro de Miranda, no sudoeste de Sydney. Em 1994 o time Australiano de mulheres se classificou para o Mundial de mulheres a ser jogado na Suécia em 1995. Assim, em fevereiro de 1995 um grupo de jogadoras disputando vaga naquela seleção fez uma partida preliminar a um jogo amistoso dos Socceroos (a seleção masculina) contra a Colômbia no Sydney Football Stadium. No programa oficial, o time das mulheres foi chamado de ‘Socceroos feminino’. Assim que o jogo acabou, o SBS (um dos maiores canais televisivos públicos australianos) lançou uma competição entre seus espectadores para eleger o apelido do time das mulheres. Em maio de 1995, o nome ‘Matildas’ foi anunciado o vencedor. Apesar das resistências iniciais, o apelido pegou e desde o mundial de 1995 as Matildas vem competindo regularmente em nível internacional.

Waltzing Matilda é uma canção popular do folclore australiano. Muitos a consideram como o ‘segundo hino nacional’ da Australia e a cantam fervorosamente no dia nacional após alguns drinques. A canção fala sobre uma personagem mitológica australiana, o ‘swagman’ que anda pelo pais a procura de trabalho, com seu chapéu de palha e sua trouxa de pano onde carrega suas poucas roupas e pertences – a trouxa foi carinhosamente apelidada de ‘Matilda’. Waltzing Matilda significa, então, viajar pelo pais tal como um swagman, com sua trouxa no ombro, procurando trabalho.

Muitas Matildas (jogadoras do time de mulheres) ainda estão assim, vendendo seu trabalho pela Australia ou pelo mundo: quando acaba a curta temporada da W-League no verão australiano (quando chegam a jogar ao meio-dia sob temperaturas de 40 graus ou mais, com contratos temporários nos quais na maior parte das vezes recebem apenas o necessario para a sua subsistencia), elas viajam aos Estados Unidos ou a Europa, para pegarem as temporadas de lá; ou seguem aqui, agora jogando em times da 2ª divisão. De uma forma ou de outra, as Matildas são guerreiras: há alguns anos já peitaram a federação Australiana, entrando em greve para exigir pagamento igual ao dos Socceroos, e a federação foi obrigada a cancelar a participação do time em um torneio internacional as vésperas da competição.

Como se viu nos seus resultados mais recentes,  elas também são guerreiras nos campos. Melhorando cada vez mais como futebolistas e como time, com uma consciência social que vem crescendo, as Matildas tem tudo para brilhar nas próximas competições internacionais. No mês que vem, a Seleção Brasileira vem disputar uma serie de amistosos contra as Matildas na Australia. Eu já estou me perguntando com que roupa que eu vou.

 

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A primavera (do futebol) Australiano; ou lá vem a segunda divisão?

27/03/2017

Por Jorge Knijnik

Para MaguiLeo e a Rua Javari

Ao final de 2010 e começo de 2011 uma onda revolucionaria varreu diversos países árabes do Oriente Médio e do Norte da África. A ‘Primavera Árabe’, ou a ‘Primavera da Democracia’, teve inicio na Tunísia em 17 de dezembro de 2010 e rapidamente se alastrou para diversos países da região, tais como o Egito, Líbia, Síria, Argélia, Iraque, Sudão, entre outros. Centenas de manifestações, marchas e protestos, alguns pacíficos outros mais violentos, varreram as ruas destes países: apesar de agendas variadas e de terem obtido resultados bem diferentes, estes movimentos traziam o mesmo mote: Ash-sha`b yurid isqat an-nizam, palavras árabes para o slogan ‘o povo quer derrubar o regime’.

 

ultras egito

Há poucas semanas uma rebelião começou a ser gestada no futebol australiano; apesar do curto espaço de tempo, esta revolta já vem inclusive chamando a atenção internacional. Em alusão ao movimento árabe do inicio da década, e demonstrando plena consciência do que se passa no futebol neste canto do mundo, alguns dirigentes da FIFA rapidamente qualificaram esta insurreição incipiente como a ‘primavera do futebol Australiano’.

¿Pero que passo? Quais as razões que levaram um movimento de clubes de futebol a ser comparado, mesmo que metaforicamente, a verdadeiras revoluções que tentaram mudar estruturas de poder arcaicas, mas profundamente arraigadas em algumas sociedades?

A resposta pode ser encontrada na historia recente do futebol na Austrália e no preconceito ainda existente contra comunidades estrangeiras e seu esporte predileto; mas também deve ser compreendida nos termos da crescente comodificação do futebol no mundo e neste país também

A Austrália é um país relativamente novo, formado por dezenas de grupos socioculturais e étnicos diferentes, que chegaram ( e ainda chegam) por aqui em diversos períodos destes duzentos e poucos anos. Obviamente, muitos imigrantes chegaram de mãos abanando, fugindo de guerras e perseguições; mas trouxeram algo muito importante dentro de si: as suas culturas, sendo que muitos destas tinham algo em comum: o futebol. Assim, pouco a pouco, diversos clubes étnicos (o clube português, clube sírio, italiano, grego, judaico, macedônio, sérvio, croata, entre tantos outros) foram se formando. Muitas vezes certas comunidades que vieram em massa para a Austrália, conseguiam fundar mais de um clube em cidades diferentes ou ate mesmo em uma mesma cidade, como é o caso dos gregos e dos italianos.

Nestes clubes, uma tradição em comum: o futebol, atividade competitiva onde cada  comunidade se esforçava para fazer o seu melhor, brilhar e ganhar. Como abordei ligeiramente no meu post sobre “Aborígenes, futebol e racismo na Austrália”, certos clubes contratavam jogadores de outras comunidades para reforçarem seus elencos.

A modalidade foi crescendo e em 1974 a seleção Australiana de futebol (os Socceroos) conquistaram pela primeira vez uma vaga nas finais da Copa do Mundo. O ímpeto desta participação gerou um frenesi na comunidade futebolística e levou a criação na National Soccer League (NSL – Liga Nacional de Futebol) em 1977.  Aqui é importante que o leitor fique  atento as diferenças entre o ‘soccer’ e o ‘football’, pois estas são importantes para se entender a ‘primavera do futebol australiano’ que mencionei inicialmente.

A NSL (soccer) funcionou durante quase três décadas, gerida inicialmente pela Australian Soccer Federation que posteriormente virou a Soccer Australia. Sua primeira divisão era formada por 14 clubes, e dezenas de outros nas divisões inferiores; estes clubes, majoritariamente constituídos por comunidades étnicas, formaram diversas gerações de futebolistas australianos, inclusive aquela que os saudosistas denominam da ‘Geração de Ouro’ que não apenas levou os Socceroos as finais de uma Copa novamente, depois de mais de 30 anos de espera, mas também conquistou a primeira vitória da seleção Australiana em Copas do Mundo, ao bater o Japão na Alemanha por 2 x 1. Entretanto, estes mesmos clubes e a própria liga sempre foram vitimas de muito escrutínio e preconceito, em virtude de algumas rivalidades étnicas (sérvios e croatas, por exemplo) extrapolarem os campos e terminarem em  violentos confrontos físicos.

 

australia_soccer

Estes incidentes, somados a uma crescente migração de jogadores australianos para a Europa e as  dificuldades em se conseguir patrocínio para uma modalidade que nunca foi a primeira nos corações poliesportivos australianos (bom lembrar que aqui há dois tipos de rúgbi, o cricket, o netball, o AFL…)  trouxeram crescentes  problemas administrativos e financeiros para a National Soccer League. Em 2003, o governo federal encomendou uma auditoria independente do soccer australiano. Conhecido como ‘relatório Crawford’, as recomendações desta auditoria atingiram em cheio o coração da modalidade. O relatório concluía que a NSL não era mais economicamente viável e aconselhava a criação de uma nova entidade baseada em um modelo rentável; assim, a temporada 2003-2004 foi a ultima do soccer na Australia. Em 2004, nascia a Federação de Futebol Australiano (FFA) e a Liga australiana de futebol profissional, a A-League.

Muitos comentam que, por trás das cortinas,  a destruição da NSL também teve motivações étnicas. O fato é que a FFA, que teve como seu primeiro presidente ‘imposto’ o mega-bilionario Frank Lowy (dono da Westfield, uma imensa cadeia de shopping centers), criou um modelo de competição extremamente comercializado, na qual os times não eram mais baseados nas diversas comunidades futebolísticas espalhadas pelo pais. A nova A-League, que se iniciou na temporada de 2005-2006 inicialmente com oito times, foi composta por clubes franqueados, pertencentes a grupos milionários, os quais compravam da FFA a licença para participar da competição. Baseados em regiões metropolitanas (Brisbane, Sydney, Melbourne, Perth, Adelaide, Newcastle, Central Coast), o proposito era de que as rivalidades étnicas da época do soccer fossem substituídas pelas disputas regionais que o novo football traria, atraindo assim novos fãs.

Entre avanços e retrocessos, com clubes falindo e novas franquias abrindo, atraindo ‘ex-jogadores em atividade’ como o italiano Alessandro Del Piero, e tendo subido seu numero de participantes para 10 clubes, a A-League sobreviveu e já se encontra hoje em sua 11ª edição. Apesar de ser uma liga de clubes, ela é controlada pela FFA, que inclusive indica o diretor-chefe desta liga.

Os clubes étnicos não se desfizeram; ao contrario, continuaram existindo sob o controle da FFA e das federações estaduais, as quais muitas vezes encaminharam medidas polemicas, tais como proibir quaisquer referencia a símbolos ‘étnicos’ nos uniformes destes clubes. Os diversos clubes comunitários disputam competições sob o guarda chuva da ‘National Premier League’ (NPL), que conta com três divisões. Exatamente aqui que começamos a entender a dimensão da ‘primavera do futebol australiano’.

As centenas de clubes de futebol (de totalmente amadores ate times semiprofissionais) disputam a NPL em seus estados, e os campeões estaduais da 1ª divisão da NPL competem em um torneio em nível nacional, um mata-mata de poucos dias, em uma sede, ao final da temporada. Entretanto, aos vencedores desta competição nacional cabe … continuar disputando esta divisão. Não há sistema de promoção tampouco de rebaixamento para a liga profissional (A-League); o ultimo colocado da A-League pode continuar sossegado que na próxima temporada continuara jogando na mesma divisão.

Exatamente aqui que começa a primavera futebolística. A FFA, a qual desde sua criação esteve sob rígido controle da familia Lowy (em 2015 o patriarca Lowy passou o bastão da presidência da entidade para seu filho Steve, em uma eleição de cartas absolutamente marcadas) vem  há alguns anos sobrevivendo a varias crises. Durante a temporada da A-League de 2015-2016, as torcidas organizadas realizaram boicotes a jogos em virtude de banimentos injustos de torcedores dos estádios, obrigando os dirigentes da FFA a se reunirem com os torcedores e acordarem um compromisso de revisão das punições – o que alias ainda não foi cumprido. Ainda em 2015, os Socceroos realizaram boicotes as atividades de mídia e propaganda da FFA para pressionar por um melhor acordo para os jogadores da seleção, enquanto as jogadoras da seleção feminina (as Matildas) fizeram uma greve por melhores condições de trabalho e na ultima hora não participaram de um torneio agendado nos Estados Unidos.

Mais recentemente, desde meados de 2016, a FFA vem sendo intensamente pressionada pela FIFA a realizar de imediato mudanças para democratizar as estruturas do futebol australiano. Entre estas mudanças, estão a ampliação do colégio eleitoral da FFA – o qual  é o menor e mais fechado dentre todas as federações filiadas a FIFA; a FIFA, juntamente com a Confederação de Futebol Asiática (AFC) exige que a FFA amplie o numero de equipes participantes da A-League (que atualmente esta em 10) bem como implemente um sistema de acesso e descenso. Como se não bastasse, os clubes da A-League, também insatisfeitos com a FFA, querem mudanças e exigem mais poder decisório nos colegiados da entidade.

Entretanto, a ‘primavera do futebol’ vem dos clubes de base. Cansados de esperar por mudanças e apoio da FFA para melhoria das suas estruturas; fartos de serem alijados das decisões centrais do futebol na Austrália apesar de prepararem e fornecerem a maior parte do ‘pé-de-obra’ para os times profissionais sem ganharem quase nada por isso; estes clubes, sentindo o momento delicadíssimo que a FFA atravessa, resolveram se unir, e no inicio de março de 2017 criaram a Associação dos clubes de Futebol Australiano. Na agenda desta Associação, demandas semelhantes as da FIFA; mais poder decisório para o setor dos clubes e por um sistema de acesso e rebaixamento; enfim, o velho soccer contra-ataca e quer fazer parte de verdade do novo football. .

Na pauta Associação e de outros importantes setores do futebol, também está a ampliação da A-League. Fala-se muito da necessidade da inclusão de entre dois a quatro novos times na competição, a curto prazo. A FFA, como sempre, patina e quer mais tempo para a viabilização de um torneio maior. Por outro lado, a midia pressiona pela ampliação, e semanalmente noticia o surgimento de novos contendores para estas vagas, novos clubes a serem criados com o subsidio de milionarios da Australia ou da Asia. De olho neste movimento, os maiores clubes da Associação pleiteam que os clubes ja existentes, com historia  e com mais base regional sejam escolhidos para fazer parte da A-League, e não um clube sem historia mas apenas om dinheiro suficiente para comprar uma licenca junto a FFA.

Esta Associação, que conta com quase 100 clubes de todo o pais, já promoveu sua primeira reunião em Melbourne e tem mantido contato constante com a FIFA, que monitora a situação da FFA bem de perto. Há poucas semanas, Lowy Jr (presidente) e o diretor executivo da FFA foram ate a Suíça, visitar o quartel-general da FIFA. Em seu encontro com o presidente da entidade maior do futebol mundial, eles tentaram negociar um acordo que lhes desse um tempinho para respirar… Mas não foram bem sucedidos. A FIFA  continua insistindo que a democratização das estruturas da FFA aconteça ainda neste mês.

A primeira vista, a comparação de um movimento clubistico de futebol com toda a agitação politica que gerou a ‘Primavera Árabe’ parece exagerada. Afinal, é ‘apenas’ um jogo. Entretanto, se considerarmos que futebol sempre foi um veiculo de integração – ou discriminação – social na Austrália; que, por outro lado, a ‘Primavera Árabe’ foi também gestada em arquibancadas de futebol, onde torcedores organizados continuam se manifestando contra regimes autoritários, talvez possamos, em um exercício de imaginação politica, perceber os paralelos entre ambos movimentos que vieram da base da sociedade. Mais ainda, talvez percebamos que o futebol, apesar da sua crescente comercialização e muitas vezes do seu distanciamento do ‘povo’, continua sendo um elemento social importante para a contestação do autoritarismo e para a organização politica de diversos segmentos sociais.

 

 


A primavera (do futebol) Australiano; ou lá vem a segunda divisão?

26/03/2017

por Jorge Knijnik

Para MaguiLeo e a Rua Javari

Ao final de 2010 e começo de 2011 uma onda revolucionaria varreu diversos países árabes do Oriente Médio e do Norte da África. A ‘Primavera Árabe’, ou a ‘Primavera da Democracia’, teve inicio na Tunísia em 17 de dezembro de 2010 e rapidamente se alastrou para diversos países, tais como o Egito, Líbia, Síria, Argélia, Iraque, Sudão, entre outros. Centenas de manifestações, marchas e protestos, alguns pacíficos outros mais violentos, varreram as ruas destes países: apesar de agendas variadas e de terem obtido resultados bem diferentes, estes movimentos traziam o mesmo mote: ‘Ash-sha`b yurid isqat an-nizam, palavras árabes para o slogan ‘o povo quer derrubar o regime’.

Há poucas semanas uma rebelião começou a ser gestada no futebol australiano; apesar do curto espaço de tempo, esta revolta já vem inclusive chamando a atenção internacional. Em alusão ao movimento árabe do inicio da década, e demonstrando plena consciência do que se passa no futebol neste canto do mundo, alguns dirigentes da FIFA rapidamente qualificaram esta insurreição incipiente como a ‘primavera do futebol Australiano’.

¿Pero que passo? Quais as razões que levaram um movimento de clubes de futebol a ser comparado, mesmo que metaforicamente, a verdadeiras revoluções que tentaram mudar estruturas de poder arcaicas, mas profundamente arraigadas em algumas sociedades?

A resposta pode ser encontrada na historia recente do futebol na Austrália e no preconceito ainda existente contra comunidades estrangeiras e seu esporte predileto; mas também deve ser compreendida nos termos da crescente comodificação do futebol no mundo e neste país também.

 

ultras egito

A Austrália é um país relativamente novo, formado por dezenas de grupos socioculturais e étnicos diferentes, que chegaram (e ainda chegam) por aqui em diversos períodos destes duzentos e poucos anos de historia (sem contar, claro, os 50.000 anos anteriores quando as populações aborígines por aqui viviam). Obviamente, muitos imigrantes chegaram de mãos abanando, fugindo de guerras e perseguições; mas trouxeram algo muito importante dentro de si: as suas culturas, sendo que muitos destas tinham algo em comum: o futebol. Assim, pouco a pouco, diversos clubes étnicos (o clube português, clube sírio, italiano, grego, judaico, macedônio, sérvio, croata, entre tantos outros) foram se formando. Muitas vezes certas comunidades que vieram em massa para a Austrália, conseguiam fundar mais de um clube em cidades diferentes ou ate mesmo em uma mesma cidade, como é o caso dos gregos e dos italianos, por exemplo.

Nestes clubes, uma tradição em comum: o futebol, atividade competitiva onde cada  comunidade se esforçava para fazer o seu melhor, brilhar e ganhar. Como abordei ligeiramente no meu post sobre Aborígenes, futebol e racismo na Austrália, certos clubes contratavam jogadores de outras comunidades para reforçarem seus elencos.

A modalidade foi crescendo e em 1974 a seleção Australiana de futebol (os Socceroos) conquistou pela primeira vez uma vaga nas finais da Copa do Mundo. O ímpeto desta participação gerou um frenesi na comunidade futebolística e levou a criação na National Soccer League (NSL – Liga Nacional de Futebol) em 1977.  Aqui é importante que o leitor fique atento as diferenças entre o ‘soccer’ e o ‘football’, pois estas são importantes para se entender a ‘primavera do futebol australiano’ que mencionei inicialmente.

A NSL (soccer) funcionou durante quase três décadas, gerida inicialmente pela Australian Soccer Federation que posteriormente virou a Soccer Australia. Sua primeira divisão era formada por 14 clubes, e dezenas de outros nas divisões inferiores; estes clubes, majoritariamente constituídos por comunidades étnicas, formaram diversas gerações de futebolistas australianos, inclusive aquela que os saudosistas denominam da ‘Geração de Ouro’ que não apenas levou os Socceroos as finais de uma Copa novamente, depois de mais de 30 anos de espera, mas também conquistou a primeira vitória da seleção Australiana em Copas do Mundo, ao bater o Japão na Alemanha por 2 x 1. Entretanto, estes mesmos clubes e a própria liga sempre foram vitimas de muito escrutínio e preconceito, em virtude de algumas rivalidades étnicas (sérvios e croatas, por exemplo) extrapolarem os campos e terminarem em socos, pontapés e pancadaria gerais.

australia_soccer

Estes incidentes, somados a uma crescente migração de jogadores australianos para a Europa e as dificuldades em se conseguir patrocínio para uma modalidade que nunca foi a primeira nos corações poliesportivos australianos (bom lembrar que aqui há dois tipos de rúgbi, o cricket, o netball, o AFL…) trouxeram crescentes problemas administrativos e financeiros para a National Soccer League. Em 2003, o governo federal encomendou uma auditoria independente do soccer australiano. Conhecido como ‘relatório Crawford’, as recomendações desta auditoria terminaram por nocautear este soccer. O relatório concluía que a NSL não era mais economicamente viável e aconselhava a criação de uma nova entidade baseada em um modelo rentável; assim, a temporada 2003-2004 foi a ultima do soccer na Australia. Em 2004, nascia a Federação de Futebol Australiano (FFA) e a Liga Australiana de futebol profissional, a A-League.

Muitos comentam que, por trás das cortinas, a destruição da NSL também teve motivações étnicas. O fato é que a FFA, que teve como seu primeiro presidente ‘imposto’ o mega-bilionario Frank Lowy (dono da Westfield, uma imensa cadeia de shopping centers), criou um modelo de competição extremamente comercializado, na qual os times não eram mais baseados nas diversas comunidades futebolísticas espalhadas pelo pais. A nova A-League, que se iniciou na temporada de 2005-2006 inicialmente com oito times, foi composta por clubes franqueados, pertencentes a grupos milionários, verdadeiras corporações as quais compravam da FFA a licença para participar da competição. Baseados em regiões metropolitanas (Brisbane, Sydney, Melbourne, Perth, Adelaide, Newcastle, Central Coast, entre outras), o proposito era de que as rivalidades étnicas da época do soccer fossem substituídas pelas disputas regionais que o novo football traria, atraindo assim novos fãs.  Claramente, a nova competição era uma empreitada comercial, distante dos clubes e de suas comunidades. Novas torcidas deveriam ser criadas, sob a égide corporativa.

Entre avanços e retrocessos, com clubes falindo e novas franquias abrindo, atraindo ‘ex-jogadores em atividade’ como Alessandro Del Piero, e tendo subido seu numero de participantes para 10 clubes, a A-League sobreviveu e já se encontra hoje em sua 11ª edição. Apesar de ser uma liga de clubes, ela é controlada pela FFA, que inclusive indica o diretor desta liga.

Os clubes étnicos não se desfizeram; ao contrario, continuaram existindo sob o controle da FFA e das federações estaduais, as quais muitas vezes encaminharam medidas polemicas, tais como proibir quaisquer referencia a símbolos ‘étnicos’ nos uniformes destes clubes. Os diversos clubes comunitários disputam competições sob o guarda chuva da ‘National Premier League’ (NPL), que conta com três divisões. Exatamente aqui que começamos a entender a dimensão da ‘primavera do futebol australiano’.

As centenas de clubes de futebol (de totalmente amadores ate times semiprofissionais) disputam a NPL em seus estados, e os campeões estaduais da 1ª divisão da NPL se reúnem em uma sede única ao final da temporada para, em poucos dias, em um sistema de ‘mata-mata’, decidirem o titulo de campeões nacionais. Entretanto, aos vencedores desta competição nacional cabe … continuar disputando esta divisão. Não há sistema de promoção tampouco de rebaixamento para a liga profissional (A-League); o ultimo colocado da A-League pode continuar sossegado que na próxima temporada continuara jogando na mesma divisão.

Exatamente aqui que começa a primavera futebolística. A FFA, a qual desde sua criação esteve sob rígido controle da familia Lowy (em 2015 o patriarca Lowy passou o bastão da presidência da entidade para seu filho Steve, em uma eleição de cartas absolutamente marcadas) vem  há alguns anos sobrevivendo a varias crises. Durante a temporada da A-League de 2015-2016, as torcidas organizadas realizaram boicotes a jogos em virtude de banimentos injustos de torcedores dos estádios, obrigando os dirigentes da FFA a se reunirem com eles e acordarem um compromisso de revisão das punições – o que alias ainda não foi realizado. Ainda em 2015, os Socceroos realizaram boicotes as atividades de mídia e propaganda da FFA para pressionar por um melhor acordo para os jogadores da seleção, enquanto as jogadoras da seleção feminina (as Matildas) promoveram uma greve em busca de melhores condições de trabalho, forçando a FFA a cancelar, na ultima hora, a participação do time em um torneio já agendado contra a seleção norte-americana nos Estados Unidos.

Mais recentemente, desde meados de 2016, a FFA vem sendo muito pressionada pela FIFA a realizar mudanças imediatas para democratizar as estruturas do futebol australiano. Entre estas mudanças, está a ampliação do colégio eleitoral da FFA – o qual atualmente é o menor e mais fechado dentre todas as federações filiadas a FIFA; a FIFA, juntamente com a Confederação de Futebol Asiática (AFC) também exige que a FFA amplie o numero de equipes participantes da A-League (que atualmente esta em 10) bem como implemente um sistema de acesso e descenso. Como se não bastasse, os clubes da A-League, também insatisfeitos com a FFA, querem mudanças e exigem mais poder decisório nos colegiados da entidade.

Entretanto, a ‘primavera do futebol’ vem dos clubes de base. Cansados de esperar por mudanças e apoio da FFA para melhoria das suas estruturas; fartos de serem alijados das decisões centrais do futebol na Austrália apesar de prepararem e fornecerem a maior parte do ‘pé-de-obra’ para os times profissionais sem ganharem quase nada por isso; estes clubes, sentindo o momento delicadíssimo que a FFA atravessa, resolveram se unir, e no inicio de março de 2017 criaram a Associação dos clubes de Futebol Australiano. Na agenda desta Associação, demandas por mais poder decisório, por um sistema de acesso e rebaixamento, enfim, aquilo que a FIFA e a AFC também querem.

Os clubes também exigem uma maior participação nos critérios que irão decidir a ampliação dos times participantes da A-League. A própria ampliação, que vem sendo muito discutida nas mídias, é um assunto bem polemico. A FFA, como de  costume, pretende adiar este debate, colocando que necessita de mais tempo para viabilizar economicamente uma competição com 12 ou 14 equipes; por outro lado, a cada semana surge uma noticia de uma nova entidade a ser criada para participar de uma A-League expandida. Geralmente, estes pretendentes possuem parcerias com milionários locais ou mesmo asiáticos. Por outro lado, os maiores clubes tradicionais, rejeitam esta visão e querem que critérios como historia e inserção comunitária sejam levados em conta para a provisão de novas licenças da A-League. É o velho soccer brigando com o novo football…

A Associação, que conta com quase 100 clubes de todo o pais (desde clubes completamente amadores a outros semiprofissionais em termos futebolísticos), já promoveu sua primeira reunião em Melbourne e tem mantido contato constante com a FIFA, que monitora a situação da FFA bem de perto. Há poucas semanas, tanto Lowy Jr (presidente) quanto o diretor executivo da FFA foram ate a Suíça, visitar o quartel-general da FIFA. Em seu encontro com o presidente da entidade maior do futebol mundial, eles tentaram negociar um acordo que lhes desse um tempinho para respirar… Mas não foram bem sucedidos. A FIFA continua insistindo que a democratização das estruturas da FFA aconteça ainda neste mês.

A primeira vista, a comparação de um movimento clubistico de futebol com toda a agitação politica que gerou a ‘Primavera Árabe’ parece exagerada. Afinal, é ‘apenas’ um jogo. Entretanto, se considerarmos que futebol sempre foi um veiculo de integração – ou discriminação – social na Austrália; que, por outro lado, a ‘Primavera Árabe’ foi também gestada em arquibancadas de futebol, onde torcedores organizados continuam se manifestando contra regimes autoritários, talvez possamos, em um exercício de imaginação politica, perceber os paralelos entre ambos movimentos que vieram da base da sociedade. Mais ainda, talvez percebamos que o futebol, apesar da sua crescente comercialização e muitas vezes do seu distanciamento do ‘povo’, continua sendo um elemento social importante para a contestação do autoritarismo e para a organização politica de diversos segmentos sociais.

 


Borroloola na Copa: Aborígenes, futebol e racismo na Austrália.

24/10/2016

Por Jorge Knijnik com Jane Hunter e Les Vozzo

Em 2014, durante a Copa no Brasil, um pequeno grupo de adolescentes australianos teve o privilegio de não apenas viajar ao Brasil e assistir a alguns jogos, mas também de conhecer de perto e treinar com seus ídolos dos Socceroos, a Seleção  Masculina de futebol australiana. Este grupo, composto por quatro garotas e quatro rapazes, todos aborígines provindos da pequena vila de Borroloola no Northern Territory – norte da Austrália –  foi liderado por John Moriarty, um ex-jogador de futebol e líder aborígine que em sua infância foi roubado da sua mãe com quem vivia em Borroloola e criado em uma missão anglicana em South Austrália.

Crianças pequeninas retiradas do convívio familiar e enviadas para lares ou missões religiosas. Esta foi a realidade daquelas que são conhecidas como as Stolen Generations  australianas. As Gerações Roubadas, ou Sequestradas, são composta por milhares de crianças aborígines que tiveram como destino crescerem longe de suas famílias e comunidades durante boa parte do século 20 na Austrália.

Após a “descoberta” da Austrália por James Cook (o Cabral deles) em 1770, a Inglaterra começou a colonizar a terra em 1788. Se os contatos iniciais entre as tribos Aborígines locais (que já viviam no continente há mais de 40.000 anos, formando o que se considera a cultura humana mais antiga do mundo) e os colonizadores (ou invasores) foi amigável, aos poucos  os Aborígines  foram percebendo que aquela relação seria extremamente desfavorável a eles, e se organizaram para resistir. Após anos de resistência local, entre guerras e disputas durante o século 19, obviamente vencidas pelos invasores, vieram as fases seguintes da dominação  : segregação dos Aborígines em reservas muitas vezes bem distantes de suas cidades natais. Nestas reservas, todos os aspectos das vidas dos moradores eram controlados por agentes governamentais: sua liberdade de ir e vir eram bem restritas, assim como a provisão de comida fornecida pelos seus “guardiões”, os quais controlavam inclusive os casamentos e a educação das crianças. Simultaneamente a segregação, iniciou-se uma politica oficial de assimilação dos aborígines aos padrões culturais e religiosos europeus. É no quadro desta politica de assimilação que se encaixa o  sequestro das crianças para serem catequisadas e  educadas conforme as normas da civilização Anglo-saxônica que aqui se estabelecia. No inicio do século 20, com a implementação da politica da ”Austrália Branca – White Australia” este processo de sequestros se estruturou e se institucionalizou – sendo executado pelas autoridades que controlavam as reservas aborígines, suas policias, com apoio de “assistentes sociais” e ajuda de rastreadores locais de crianças, muitos deles também Aborígines.

John Moriarty, o líder da excursão dos adolescentes de Borroloola ao Brasil, foi retirado à força da sua mãe ao final dos anos 1940, quando tinha somente 4 anos de idade. Ele nos contou que foi revê-la apenas aos 15 anos, um pouco ao acaso – ele andava pelas ruas de Alice Springs quando viu uma senhora de aparência tribal ; as pernas dele começaram a tremer assim que ela o encarou bem firme e perguntou como ele se chamava. John, ele respondeu, ao que ela simplesmente disse “eu sou sua mãe”. Depois disso, eles conversaram, ela contou tudo sobre a família em sua cidade natal, e John Moriarty manteve uma ligação muito forte com a comunidade de  Borroloola, onde em 2012 fundou um projeto socioeducativo chamado John Moriarty Football – jmf.org.au .

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Borroloola la no Norte da Australia

Entretanto, assim que removido de sua família, Moriarty foi inicialmente parar nas Blue Mountains, a cerca de uma hora de Sydney, onde viveu na Igreja Anglicana de St. Thomas em um enorme dormitório para todas as crianças aborígines roubadas. Aos 11 anos, foi forçado novamente a se mudar e foi parar no estado de South Australia, em outra missão Anglicana chamada St. Francis, na cidade de Adelaide. Foi ali que sua carreira futebolística se iniciou e deslanchou.

Já no inicio da adolescência, ele e seus colegas que dormiam juntos em um grande dormitório em St. Francis se destacavam em muitos esportes. Atividades fisicas tinham algum significado para eles, enquanto na escola tradicional eles eram dados como ‘caso perdido’; a escola nao fazia esforço algum para inclui-los e a sua cultura. Em uma tarde quando apenas olhavam um grupo de rapazes de cerca de 18 anos do time estadual treinarem, foram convidados para bater uma bola com eles. Inicialmente recusaram-se, mas acabaram aceitando e basicamente destruíram os adversários, com “muitos gols a zero”. Conta a lenda que eles nunca haviam jogado futebol antes mas na verdade jogavam muito, mas descalços com bolinhas de tênis velhas!

Claro que o técnico do time estadual rapidamente convidou-os para integrarem o seu time.  Os rapazes aborígines novamente negaram, eram garotos pobres, da floresta, muito tímidos. O técnico insistiu, e depois de algumas negativas, ofereceu-se para pagar os uniformes, as chuteiras e as meias para Moriarty e seus amigos. Eles toparam, e rapidamente se destacaram no mundo futebolístico. Moriarty foi jogar no principal time italiano da cidade, o Adelaide Juventus. Neste clube, ele começou a fazer gols e virou ídolo. Mais importante, entretanto, foi a aceitação social; pela primeira vez na vida ele foi aceito socialmente por quem ele realmente era, sem racismo ou humilhações. A natureza do futebol na Austrália era outra – o jogo era visto com maus olhos pelas elites Anglofônicas, uma vez que era praticado pelas minorias imigrantes provenientes da Europa entre guerras e após a Segunda Guerra mundial. Futebol era um jogo de estrangeiros que não falavam inglês e que também sofriam discriminação social – ainda vou escrever um post sobre isso muito em breve. No meio dos discriminados socialmente, Moriarty começou a ser aceito, e ganhar recompensas por suas ótimas atuações no campo, suas assistências e seus gols – jantares de graça em bons restaurantes italianos, roupas e ternos feitos sob medidas pelos melhore alfaiates da comunidade… O futebol estava abrindo novas portas para ele.

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Moriarty jovem jogador de sucesso carregado pela torcida

Moriarty e alguns de seus colegas eram regularmente chamados para comporem a seleção estadual de South Austrália, e disputarem campeonatos nacionais contra as outras seleções estaduais. Foi em uma dessas competições, em Melbourne em 1960, que ele foi convocado para a seleção australiana, tornando-se o primeiro jogador aborígine a ser selecionado para o time nacional (infelizmente, naquela época a FIFA suspendeu a Austrália  por dois anos de todas as competições internacionais  , e Moriarty nunca pode jogar pelos Socceroos – o que obviamente não retira seu mérito de ter sido o primeiro Aborígine a ser convocado para o time).

No entanto, estas seguidas competições interestaduais também tiveram outras consequências, desta vez no campo politico. Cada vez que precisavam viajar para fora do Estado, os dirigentes esportivos precisavam requerer anuência das autoridades que comandavam as questões aborígines locais (claro que estas pessoas não eram Aborígines) para que Moriarty e outros jogadores Aborígines pudessem viajar. Ao descobrir isso, Moriarty ficou extremamente insatisfeito e ofendido. A partir dai, começou a participar de diversos encontros e movimentos sobre a causa aborígine, virando um ativista e mais tarde assumindo cargos no governo federal para lutar a favor dos direitos da população aborígine oprimida e discriminada na Austrália.

Através do futebol, Moriarty viajou a Europa e percebeu como em outras comunidades e países ele podia ser aceito; ele testemunhou inclusão social de pessoas de diferentes origens. Mais tarde, quando já formado na universidade e com seu trabalho de ativista consolidado, ele reuniu a família para implementar o trabalho socioeducativo com o futebol em sua comunidade, o projeto da John Moriarty Football em Borroloola, uma cidadezinha com cerca de 1500 habitantes, predominantemente Aborígines, localizada muito ao norte da Austrália – são 12 horas de carro para se chegar a Darwin, a capital do território. As temperaturas no verão por lá são altíssimas e, junto com a umidade da região, fazem as condições de vida bem difíceis.

Mas o projeto se iniciou em 2012, e logo Moriarty e seu filho James tiveram a ideia de trazer um grupo de adolescentes para a Copa do Brasil. A sintonia com o futebol brasileiro sempre foi muito forte para os aborígines australianos. Além de pessoalmente Moriarty admirar o ‘futebol-arte’ brasileiro, o Brasil tem em Garrincha um dos maiores expoentes indígenas do futebol mundial. As historias e as lendas brasileiras, tais como a do protetor das florestas, o Curupira, encontram varias correspondências com as lendas Aborigines da criação do mundo e dos entes protetores da natureza.

Assim, com muito esforço, tendo que batalhar muito pelo dinheiro, cortar alguns jogadores por falta de verba, conseguir passaportes para crianças que mal tinham certidão de nascimento, lá foram eles e elas ao Brasil! A turminha viajou cerca de quatro dias para chegar a Vitoria do Espirito Santo, onde os Socceroos tinham a sua base de treinamento : 12 horas para Darwin, avião para Sydney e depois para Melbourne, de lá para o Chile, Rio de Janeiro e Vitoria. Uma aventura impressionante que com certeza ampliou a visão de mundo desta gurizada que nunca havia saído de sua pequena vila antes. Eles jogaram bola com outros times locais, na praia ;  visitaram e treinaram junto com os Socceroos, sendo o centro das atenções da torcida que assistia aos treinos (foram aplaudidos em pé por 3.000 pessoas!) e da mídia internacional que a tudo acompanhava, afoitamente ; também assistiram os Socceroos jogarem em Cuiabá e passaram alguns dias em uma aldeia indígena no Mato Grosso, onde puderam participar de cerimonias com as tribos locais, pintar o rosto e o corpo em rituais semelhantes aos de sua comunidade e, importante, nadar em rios sem crocodilos! Pois estes infestam as aguas do Northern Territory.

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A turma com Moriarty, Cahill e o Tecnico Australiano, Ange P.

De volta para casa, o amadurecimento e o crescimento dos participantes da excursão eram visíveis. Tal como com Moriarty quando saiu de sua missão  para viajar pela Australia e pelo mundo, os jogadores e as jogadoras de Borroloola viram outras formas de viver, e gostaram. Querem seguir jogando futebol, e se profissionalizar. Ao mesmo tempo, viraram referencia na sua vila para outras crianças menores, que agora querem entrar no projeto da JMF também. Os participantes da excursão pretendem ser monitores para orientar com seus conhecimentos recém-adquiridos as crianças menores – não poderia haver melhor beneficio educativo que este, inspiração e vontade de prosseguir no esporte! Muito tempo e muita luta se passaram entre o racismo sofrido por John Moriarty e a participação da turma de Borroloola na Copa.  Certamente, o futebol fez e continuara fazendo parte destas vidas e desta comunidade – sempre do lado certo, apoiando eles e elas nas suas batalhas por um lugar ao sol e contra qualquer tipo de discriminação.

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SAIBA MAIS

Maynard, J. (2011). The Aboriginal soccer tribe: A history of Aboriginal involvement with the world game. Broome, Western Australia: Magabala Books.

Projeto de pesquisa – https://animoto.com/play/ct1dmcx75G1aPgHMVhHgjg

John Moriarty Football – jmf.org.au


“Somos contra tudo”: Çarşı, as vozes rebeldes e ensurdecedoras do futebol turco

29/05/2016

Por Jorge Knijnik

 

Esta é a historia de uma comunidade acústica futebolística. Um conceito interessante, já que estamos razoavelmente acostumados com o barulho associado ao futebol, dentro e fora do estádio. Mas a torcida retratada aqui conseguiu produzir um nível de sons futebolísticos que esta muito acima do patamar conhecido por estas bandas.

Cabe antes um adendo. Apesar dos infames sete a um da Copa de 2014 – e mesmo em face dos inúmeros ‘um-sete-um’ aplicados semanalmente sobre os torcedores (e as torcedoras) brasileiros, muitos ainda acreditam romanticamente no poder do futebol pátrio. Se não no campo, onde andamos tropeçando bastante, talvez nas arquibancadas – afinal, quem seria capaz de suplantar a paixão e o barulho da charanga do Flamengo?

Esta certeza do ‘torcer’ como algo legitimamente brasileiro foi levemente arranhada na própria Copa, com outras torcidas como a argentina fazendo festas incríveis durante o evento. Claro que alguns alegam que a Copa foi uma exceção, o “verdadeiro’ torcedor brasileiro não teria ido a Copa por conta dos preços, etc. Brasileiros ainda seriam os eternos e incontestes campeões mundiais do carnaval futebolístico.

Se há vários grupos de “ultras” ao redor da América do Sul e do mundo com muita energia para questionar esta verdade, a resposta derradeira vem do grupo de torcedores de um time do futebol turco, o Beşiktaş Gymnastics Club. Um dos maiores clubes do futebol turco,  pelo qual já passaram alguns jogadores  brasileiros bem conhecidos, como Ricardinho (campeão do mundo em 2002) e Bobo, fora do campo o Beşiktaş conta com um dos grupos mais barulhentos – se não o mais – de torcedores ao redor do mundo. Falo do Çarşı (pronuncia-se Charshi), um grupo de torcedores famoso tanto pelas suas coreografias, pelas suas posições mais a esquerda (se consideram anti-racistas, anti-sexistas, anti-fascistas, pluralistas e ecológicos), e sobretudo pela sua maneira genuína de vocalizar seu amor e apoio a sua equipe.

Em geral, no futebol turco, os torcedores chamam seus grupos e subgrupos pelo nome do próprio clube, de uma cidade ou mesmo de um lugar na cidade. Assim nasceu o Çarşı (palavra que significa ‘Mercado’ em turco): no inicio dos anos 1980, vários jovens torcedores do Beşiktaş se reuniam no mercado central da sua localidade, para conversar, curtir e torcer pelo seu time. Assim, em 1982, surgia o Çarşı, um grupo  que se define por ser muito mais que um amontoado de pessoas que se junta no Kapalı (Arquibancadas cobertas) do estádio: segundo o poeta Alp Batu Keçeci, Çarşı “é qualquer um que expresse amor pelo clube/pode ser uma pichação no metro nova-iorquino/ou nos muros de Praga/ ou um quadro em preto e branco nas cidades turcas”.

besiktas

 

Na Turquia, torcer por um time é parte essencial da identidade de uma pessoa. Se você é turco, as pessoas querem saber em qual cidade você nasceu, de onde vem seus pais, e para que time você torce. Essa centralidade que o futebol assumiu na vida social turca data dos anos 1950, quando uma onda gigantesca de imigração levou milhões de pessoas das zonas rurais para as áreas urbanas do país. Deslocadas de suas regiões natais, desconfortáveis e isoladas nas cidades, escolher um time de futebol para torcer foi a maneira que estas pessoas encontraram para diminuir sua solidão e tentar pertencer a uma comunidade.

Com a crescente comercialização do futebol turco, e como consequência do fim da ditadura militar nos anos 1980, novos grupos de torcedores começaram a surgir. Estes grupos eram uma resposta aos anseios das novas gerações, que buscavam maior independência dos clubes e suas torcidas oficiais. Dentre estes grupos destacam-se o Genç  Fenerliler (Torcida Jovem) do Fenerbahçe, o Ultraslanlar ( os Leões Ultra)  do Galatasaray e o Çarşi. Se os dois primeiros clubes sempre foram associados à aristocracia turca, o Beşiktaş é o time “do povo”.

Mas voltemos ao barulhento Çarşi. Fundado por um punhado de jovens do bairro de Beşiktaş, esta torcida em muito se assemelha a alguns grupos ultras da Europa: são superdedicados ao time, se reúnem informalmente para criar bandeiras, faixas, danças e musicas para levar ao estadio; organizam atividades comunitárias como doação de sangue, rifas para levantar dinheiro para entidades assistenciais, encontro de jogadores e crianças com necessidades especiais. Assim como seus pares europeus, o Çarşi tem uma postura de confronto em face das autoridades estabelecidas. Segundo a socióloga turca Sema Tuğçe Dikici (autora de um livro sobre o grupo, do qual ela faz parte), as faixas do grupo geralmente expressam solidariedade a um grupo que necessita ajuda – operários, aposentados, negros, armênios – mas também se manifestam contrariamente aos fascistas, a guerras, a pornografia infantil, ao aquecimento global. Sarcasmo e ironia fazem parte da identidade do grupo: eles já demonstraram seu apoio a Plutão quando este foi desclassificado enquanto planeta; também já se manifestaram veementemente contra o… Çarşi!

Carsilogo

Este sarcasmo também é visto nas letras de alguns de seus cânticos, como a Fener Opera. Criada depois que palavrões e palavras ofensivas foram proibidas nos estádios, e cantada sobre a melodia de “Those were the days” (Mary Hopkin), a musica faz uma “homenagem” aos torcedores do Fenerbahçe , os Feners, seus grandes rivais:

Nós torcemos pelo Beşiktaş, nos somos contra xingar e ofender

Futebol é amizade, futebol é companheirismo

Vamos ser educados e esquecer o passado

Mas pela ultima vez, venham chupar meu pau, seus Feners!

 

Mas o que impressiona no Çarşi, como já disse, é o seu volume sonoro. É praticamente impossível andar pelas redondezas de Beşiktaş – um bairro de Istambul localizado as margens do estreito de Bósforo – e não sentir a presença sonora do Çarşı.

cidade besiktas

Os torcedores – na maior parte homens entre 15 e 35 anos – se encontram no mercado para ensaiar as velhas canções e testar as novas criações. Em dias de jogo, com sua cervejinha nas mãos, eles se reúnem por lá varias horas antes da partida para cantar, beber e entrar no coşmak, no clima da partida.

Quem não vai ao estádio se reúne no Kazan pub, mas também entra no pique da brincadeira. A torcida presente no pub acompanha os cânticos e o ritmo dos torcedores no estádio; mais do que apoiar o time (que obviamente não pode ouvir estes torcedores no bar), o objetivo aqui é fazer parte desta comunidade acústica, ajudando a criar o clima carnavalesco do ambiente.

Já dentro do estádio[i] o ambiente de Carnaval é intenso. A torcida já faz barulho bem antes do jogo começar, e quando os jogadores estão se aquecendo, grita o nome deles um a um; o jogador chamado chega então perto da torcida, acena, e recebe gritos de ‘Oley! Oley!Oley!’. Há cantos festivos e vibrantes; há os chamados cantos em “ziguezague”, quando uma parte da torcida fala uma coisa e o resto responde com a segunda parte do canto; mas há também musicas quase ‘românticas’, que falam do amor da torcida pelo clube, como “Em um dia chuvoso”, cantada em uma melodia melancólica:

Eu te vi em um dia chuvoso

Você vestia uma camiseta listrada

De repente, eu fiquei apaixonado

O sentido da vida virou branco e preto

A linha que separa a vida e a morte

Não consegue separar o branco e o preto

Mesmo que a morte seja o fim da jornada

Ninguém consegue separar aqueles que se amam

 

Faixas no estádio alertam quem assiste aos jogos pela TV para não ajustar o som do aparelho, pois o volume que se escuta é exatamente aquele que vem do campo, não há distorção alguma.

O Çarşi é invejado e admirado pelos seus rivais por ser um grupo que jamais vira as costas para seu time, e que torce entusiasticamente mesmo em momentos de crise ou derrota do clube. O grupo faz questão de levar a sua comunidade acústica para os estádios dos adversários, mesmo que isso signifique viajar longas distancias. Sua paixão e volume sonoro já foram realçados ate no New York Times, em uma matéria de 2009 a qual destacava o show do Çarşi em um jogo contra o Manchester United no estádio rival: “O time do Beşiktaş foi encorajado pela vibração constante da sua torcida, um pequeno grupo de 4.500 fãs que superaram de longe o barulho feito pela maioria dos 75.000 torcedores locais presentes no estádio. Eles não pararam de cantar durante um segundo sequer da partida”.

Claro que acontecimentos como estes são motivos de muito orgulho para a turma do Çarşi. No seu fórum online eles vibravam com sua vitória nas arquibancadas sobre os torcedores rivais: “A torcida do BJK fez a diferença. Os 80.000 ingleses em Old Trafford estavam quietos, apenas nos escutando!”.

O carnaval ensurdecedor do Çarşi é aclamado mundialmente. Em um jogo entre Liverpool e BJK, o comentarista, maravilhado com o som, disse que a torcida estava produzindo um barulho de 132 decibéis – barulho equivalente a uma decolagem de um jato escutada a uma distancia de 100 metros. Orgulhosos, os membros do Çarşi declararam que aquilo devia ser um recorde mundial digno de entrar no livro dos recordes!

Todo este barulho traz poder. Ao longo da ultima década, muitas vozes se levantaram reclamando que o Çarşi estava ficando maior e mais importante que o próprio BJK. Para por fim a esta polemica, na primavera de 2008, Alen Markaryan, um dos lideres (“amigos” em turco) do grupo, apoiado por outros membros fundadores da torcida, fez um discurso muito sentimental em que declarava o grupo extinto, e que todos dali em diante seriam apenas torcedores do BJK. Entretanto, a falta da musica e do barulho do Çarşi mexeu com a identidade dos torcedores, fazendo com que esta decisão fosse revista; deste modo, o grupo prosseguiu com sua presença não apenas na cena futebolística, mas também no cenário politico da Turquia, sendo um dos principais protagonistas da resistência popular a intensa repressão da policia as manifestações de rua de 2013.

Por fim, uma pergunta: o que um post sobre o futebol turco esta fazendo em uma coluna sobre esporte na Oceania? A resposta é simples, a solução complexa, mas penso que o Çarşi[ii] talvez tenha algo a ensinar as torcidas brasileiras, australianas – e ao resto do mundo.

NOTAS

[i] O İnönü Stadyumu, localizado as margens do estreito de Bosforo, foi o estadio nacional turco entre 1940 e 1980, onde os melhores times e os jogos principais aconteciam. O Beşiktaş alugou este estádio em 1998, e ficou com ele ate 2013, quando ele foi demolido para dar lugar a uma ‘arena’.

[ii] Referencias:  Kytö, M. (2011). ‘We are the rebellious voice of the terraces, we are Çarşı’: constructing a football supporter group through sound. Soccer & Society, 12(1), 77-93.

 


16/11/2005: o dia em que “o jogo virou” – e os Socceroos voltaram para a Copa do Mundo

04/01/2016

Por Jorge Knijnik

(com uma pequena homenagem ao Cleiton)

Foi na noite de 16 de novembro de 2005. Aquilo que tantos sonhavam, mas ao mesmo tempo consideravam impossível, finalmente aconteceu: liderados pelo “super-tecnico” holandês Guus Hiddink, os Socceroos (a seleção australiana masculina de futebol) conseguiram o que naquela época seria a sua segunda participação na fase final da Copa do Mundo, a ser disputada em 2006 na Alemanha.guss abracando

Segundo Simon Hill, um comentarista de futebol da TV local, foi uma das “mais longas e doloridas sagas esportivas da historia do esporte australiano”. Depois de mais de três décadas– os Socceroos só haviam participado uma vez da fase final do torneio na Holanda, em 1974 – eis que a espera chegava ao fim. A “geração de ouro” do futebol australiano enfim conseguia o que muitas antes tentaram, mas falharam: chegar novamente à fase final da Copa!

Aquilo que para a Seleção brasileira é considerado uma mera obrigação – passar pelas eliminatórias e conseguir a vaga na Copa – para muitos países é uma conquista muito valorizada. No mais das vezes, esta vitória vem com muito sangue, suor e lagrimas também.

Foi assim em 2005, quando os Socceroos ainda estavam filiados a Confederação de Futebol da Oceania. Pelo sistema de eliminatórias da FIFA, o campeão da disputa na Oceania não garante a vaga diretamente: ainda tem que disputar uma repescagem com jogos de ida e volta com o quinto colocado das eliminatórias Sul-Americanas para ver quem chega à fase final da Copa. Jogo duro.

Os Socceroos já haviam jogado esta repescagem em anos anteriores, como em 1993 quando disputaram a vaga contra a Argentina, que contava com ninguém menos que Dieguito Maradona: o lugar na Copa escorreu das mãos australianas com um empate em Sydney por 1×1, seguido de uma derrota em Buenos Aires (na qual certamente os Socceroos ficaram ‘levemente’ intimidados com a torcida local) por 1×0. Ou mesmo na tentativa de ir a Copa de 2002, quando os australianos, já então hegemônicos na Confederação da Oceania, foram à repescagem com o Uruguai: apesar de já possuírem algum respeito no cenário internacional – afinal, além da histórica goleada por 31×0 contra a Samoa Americana durante as eliminatórias da Oceania (quando Archie Thompson fez 13 gols, estabelecendo um recorde de artilharia em eventos da Copa que dura ate hoje), em 2001 os Socceroos haviam conquistado o terceiro lugar da Copa das Confederações, ao derrotarem por 1×0 a Seleção Brasileira – os australianos não aguentaram a pressão uruguaia e, após ganharem em casa por 1×0, perderam no estádio Centenário de Montevidéu por 3×0, sofrendo dois gols seguidos nos momentos finais do jogo.

Em 2005, entretanto, tudo parecia diferente. O futebol australiano estava se reestruturando a passos largos: primeiro, suas federações, associações e clubes pararam de usar “soccer” e assumiram oficialmente o uso de “football” (ironicamente, o único remanescente do período “soccer” é justamente o apelido da seleção); a liga nacional profissional de futebol (A-League) estava em seu primeiro ano de existência; mais ainda, como prova da sua crescente influencia politica e futebolística, após anos de muita insistência, a partir de 2006 o futebol australiano se mudaria da Confederação da Oceania e passaria a integrar a Confederação Asiática de Futebol, uma região na qual o futebol é muito maior, há mais times (alguns milionários como os chineses e árabes), competições mais importantes, e mais vagas para a Copa.  Por fim, havia a “geração de ouro” do futebol local, com atletas como o zagueiro Lucas Neill, o goleiraço Mark Schwarzer, o meia-atacante Harry Kewell  e o artilheiro Tim Cahill, todos já fazendo um bom sucesso em clubes europeus de primeira linha.time socceroos correndo

Mas faltava aquela vaguinha na Copa… E ela veio, depois de uma disputa de pênaltis que parou o coração do pais; mas sobretudo após uma repescagem internacional na qual os lances extracampo se mostrarem tão ou mais importantes que as táticas, defesas e chutes a gol dos jogadores. Para os Socceroos, a experiência e a malandragem do técnico Guus foram essenciais no caminho desta classificação.

Já havia uma historia de “sangue ruim” entre as duas equipes. No inicio da década de 1970, os uruguaios vieram jogar em Sydney, e o pau comeu, os sul-americanos bateram muito, houve ate jogador australiano que nunca mais pode jogar depois das contusões que sofreu. As manchetes dos jornais locais salientaram o “banho de sangue futebolístico” ocorrido naquele jogo.

Na repescagem de 2001, a coisa também não foi fácil: o primeiro jogo em Melbourne terminou 1×0 para os australianos, e logo em seguida as equipes viajaram simultaneamente com destino a Montevidéu, para a disputa da segunda partida. Ao se encontrarem na escala em Auckland (Nova Zelândia), alguns jogadores australianos estranharam  “o relaxamento e a segurança” que os uruguaios aparentavam. Depois eles perceberam que os nuestros hermanos sabiam o que aguardava os Socceroos no Uruguai: horas para desembarcar no aeroporto, mais uma grande demora na alfandega, com uma revista minuciosa e lenta em todas as bagagens australianas; na saída do aeroporto para o ônibus, centenas de pessoas xingando, cuspindo e agredindo a delegação visitante. A intimidação continuou nas ruas, no hotel e no estádio lotado com 60.000 uruguaios fanáticos, gritando suas almas pelo seu time. Os Socceroos, desacostumados com a atmosfera, foram presa fácil para a “raça” uruguaia. Outra vez fora da Copa.

Em 2005, entretanto, tudo foi diferente. O holandês Guss (técnico “macaco velho”, com o qual a Coreia do Sul chegou ao quarto lugar na Copa de 2002 e que ha poucos meses, ao final de 2015, assumiu o Chelsea na English Premier League, apos a queda do portugues Jose Mourinho), estudou bem a historia desta repescagem e preparou o esquema: havia um ônibus para pegar o time australiano diretamente na pista do aeroporto de Montevidéu, evitando assim tanto a espera na alfandega como as agressões de torcedores nas ruas. Em um jogo equilibrado, o Uruguai fez 1×0 em casa, deixando a decisão para o jogo de volta, desta vez em Sydney. Entretanto, as viagens que ambos os times fizeram para a Austrália foram talvez mais decisivas que o jogo em si.

Enquanto os Socceroos voltavam em um jatinho privado, com direito a cama, classe executiva, tratamento fisioterápico e massagens, a Celeste fazia um trajeto complicado, com a delegação viajando em voos separados e todos apertados nas classes econômicas da vida.

Diferença de orçamentos das federações? Injustiça social? Não, apenas malandragem. O técnico dos Socceroos aplicou um golpe e reservou com antecedência todos os lugares de classe executiva, em todos os voos disponíveis entre o Uruguai e a Austrália naquele período. Os Uruguaios, cuja torcida havia invadido o aeroporto para atrasar a partida dos australianos, não conseguiram fazer nada a não ser alterar seus roteiros, e chegaram bem cansados do outro lado do mundo.

O jogo em si também mostrou outra faceta dos australianos. Os Uruguaios haviam dado declarações desastrosas para a imprensa local, brandindo de forma arrogante o seu “direito divino” a uma vaga na Copa. Mostrando total falta de respeito com os Socceroos, acabaram alimentando tanto a confiança do time quanto uma vontade de vencer inédita, a qual foi muito bem utilizada pelo Guus para motivar os seus jogadores.

Nunca se viu um time dos Socceroos tão agressivo, distribuindo cotoveladas, não se intimidando com empurrões e ofensas em campo e mesmo fazendo algumas “fitas” que não se enquadram no arquétipo do espirito esportivo australiano. Nas arquibancadas, um publico recorde de 85.000 mil pessoas fazia um barulho ensurdecedor no estádio Olímpico de Sydney. Uma senhora de origem uruguaia, ao ser entrevistada no intervalo do jogo, dava a tônica do ambiente festivo: com um forte sotaque que delatava a sua origem sul-americana, ela falava que torcia pelos Socceroos, afinal, eles representavam o pais que havia acolhido tanto a ela quanto a sua família durante a ditadura uruguaia – e agora ela era uma australiana. A torcida arrebentou ao ouvir isso.

O resto é historia: em jogo tenso, Recoba, o grande artilheiro uruguaio, perdeu varias chances e acabou substituído. Os australianos fizeram seu gol, levando o jogo a prorrogação e aos pênaltis, quando Mark Schwartzer fez duas grandes defesas e John Aloisi assinalou o ultimo gol, fazendo o estádio explodir em uma comemoração “tipicamente” sul-americana. O jogo havia virado. A agonia havia acabado.aloisi correndo

A TV australiana recentemente transmitiu o documentário 16 November, que conta esta historia com muito mais detalhes, imagens, depoimentos e emoção

A Federação Australiana de Futebol também comemorou bastante a data, com um jantar de gala no estádio Olímpico em novembro ultimo, com a presença dos jogadores e da comissão técnica que participaram daquela jornada histórica. Vários personagens daquela época foram induzidos ao “Hall da Fama” da Federação naquela noite, cujos convites custavam mais de mil dólares por cabeça.

Não comprei ingresso tampouco fui chamado para estas festividades. Ate onde se sabe, a entidade que comanda o futebol australiano ainda não percebeu a contribuição que eu poderia dar aos Socceroos; desconhecem a minha inteligência tática aguda, minha visão de sete cabeças e o meu estilo de jogo malemolente. Cleiton Barbosa,  envia logo este DVD!


Melbourne Cup, a “corrida que para uma nação”.

24/08/2015

Por Jorge Knijnik

Lembro-me que há muitos anos, ainda em São Paulo, eu estava envolvido em um julgamento em uma corte trabalhista o qual, por diversas circunstancias, era constantemente adiado. Uma vez, caiu o sistema; na outra, faltou luz; na terceira, tinha “o jogo”. Isso mesmo, a Seleção brasileira jogava uma partida na Copa do Mundo em algum lugar na Europa – e quase que compulsoriamente, a maior parte dos serviços públicos e privados parava… Uma delicia andar pela cidade naqueles dias festivos e sem transito! Saudades de ter vontade de assistir a Seleção parando o país…

Saudosismos a parte, há alguns anos, ja em Sydney, estava eu trabalhando na minha salinha da Universidade. Era inicio de Novembro, e o o ar quente prenunciava um verão fervente. Entretanto, tudo parecia calmo aqui no Oeste de Sydney, quando de repente … Todo mundo começou a sair correndo de suas salas, e vieram me buscar: ‘vem Jorge, vai começar a corrida!’ ‘Que corrida?’ ‘A Melbourne Cup, obvio!’ Ah, claro… Não fazia ideia do que se tratava, mas, sob forte pressão social, sai com o bando.

Fomos andando por corredores com todas as salas fechadas. La embaixo, no salão de festividades, rango na faixa, champanhe rolando, suco, e um montão de gente de chapéu: ‘façam suas apostas!’ um animador gritava. Sob forte pressão social, apostei dois dólares em um cavalo que me pareceu ter o nome mais engraçadinho. Claro que perdi.

Depois fui entender: o povão todo estava lá para assistir a “corrida que para a nação”, a mais que centenária Melbourne Cup, uma prova de 3.2 quilômetros para cavalos com mais de três anos e jóqueis mais pesados do que 49 quilos. Promovida pelo Victorian Racing Club, ela acontece no Flemington Racecourse na cidade de Melbourne, capital do estado de Victoria. Aparentemente, é um dos eventos com esta distancia onde mais rola grana ao redor do mundo: somente no ano passado, seis milhões de dólares australianos (cerca de 15 milhões e meio de reais) foram distribuídos em prêmios aos donos dos cavalos e aos jóqueis competidores e vencedores. As apostas rolam soltas, tanto as oficiais quanto os bolões em todos os locais de trabalho. A secretária que todo ano ganha na minha faculdade (será que tem esquema?) embolsa uns 300 dólares cada vez.

A Melbourne Cup acontece toda a primeira terça-feira do mês de novembro, desde 1861, quando Frederick Standish organizou a primeira prova na qual 17 jóqueis competiram por uma bolsa nada modica, a época, de 700 libras, mais um relógio de ouro talhado a mão. Os primórdios do marketing esportivo já estavam se delineando naquele ano: para aquele evento inicial, o secretário-geral do Victorian Racing Club deu para cada membro do clube duas entradas extras para mulheres: “aonde elas vão, os homens irão atrás”, calculava o marqueteiro. Com a sua estratégia, atraiu um publico de quatro mil pessoas para o Flemington Racecourse, batendo um recorde de audiência de mais de dois anos naquele estádio.

O premio continuou o mesmo ate 1865, quando um troféu cunhado na Inglaterra substitui o relógio de ouro como premiação ao vencedor da prova. Foi apenas em 1876 que o trofeu da Melbourne Cup foi produzido na Australia por um austríaco que havia imigrado para ca. Edward Fischer fez um troféu em prata, com um formato de um copo etrusco, tendo uma bela montanha representando Flemington de um lado, junto com uma corrida de cavalos  e o nome ‘Melbourne Cup’ do outro lado da copa.

Atualmente, o cavalo vencedor leva um troféu feito de ouro, produzido por um famoso ourives australiano, com um valor aproximado de 125 mil dólares! Curiosamente, eles também fazem um segundo troféu, identico, para o caso de ocorrer um ‘dead heat’ – um rigoroso empate entre dois cavalos.

O vencedor da primeira Melbourne Cup, em 1861, foi um garanhão chamado Archer, que era um ‘outsider’, pois havia vindo de Sydney para correr na prova. Apesar das lendas que dizem que ele teria percorrido o trajeto de 800 quilômetros entre as duas cidades, marchando ate chegar a Melbourne no dia anterior a prova, os jornais da época revelam a verdade: ele veio em um barco a vapor com seu treinador, Etienne de Mestre, que na época também estava alugando o cavalo. Por ser considerado um forasteiro desconhecido, Archer atraiu pouquíssimas apostas e, ao vencer por quatro corpos de vantagem o cavalo Mormon, que era o então campeão de Victoria, acabou levando para Sydney uma grande bolada, o que categoricamente reacendeu a rivalidade esportiva entre as duas maiores cidades australianas.

Apesar do glamour aristocratico que envolve a Melbourne Cup desde o seu inicio, a primeira prova também foi marcada por tragédias: um cavalo escapou da pista logo no inicio da prova, três cavalos tropeçaram, caíram e dois morreram em consequência da queda. Ate hoje em dia, acusações de cavalos doentes, maltratos de animais e doping são uma constante nos jornais que cobrem o evento.

Entretanto, Archer, o cavalo que fez historia ao ganhar a primeira Melbourne Cup, voltou a Melbourne no ano seguinte para, em frente de um publico de sete mil pessoas, faturar o troféu novamente, deixando para trás o seu velho rival Mormon, desta vez por uma distancia de seis corpos, um recorde que demorou 100 anos para ser batido.

No ano seguinte, 1863, Archer voltou a Melbourne, decidido a  sagrar-se tricampeão. Todavia, uma ‘tecnicalidade’ o deixou  fora da prova: a inscrição dele, feita via telegrafo, chegou fora do prazo porque, devido a um feriado local, o telegrama foi entregue com atraso a comissão organizadora. Sob protestos gerais, os donos de outros cavalos que também eram treinados por de Mestre resolveram boicotar a prova, que acabou tendo apenas sete participantes, o menor numero de cavalos em toda a sua longa historia.

E assim a Melbourne Cup prossegue ate hoje, carregando o glamour de uma prova importantíssima não apenas no cenário australiano de corridas de cavalo, mas também na cena mundial: cavalos do mundo inteiro vêm disputar a prova, mas somente em 2010 um cavalo estrangeiro, o garanhão francês de nome American, faturou a Cup.

Em 1865 o dia da Melbourne Cup foi declarado ‘meio-feriado’ nas regiões metropolitanas de Melbourne, mas não no interior do estado de Victoria. Em 1873, servidores públicos estaduais e federais da região ganharam o dia inteiro de folga. O mesmo acontece no território do Distrito Federal, que substituiu outro feriado pelo dia da Melbourne Cup.

Na minha área não rola nada. A “corrida que para a nação” dura alguns minutos, e ponto. Para os padrões brasileiros, é um mero cafezinho. A coisa acaba, toma-se mais um ou outro gole de champanhe, e todos voltamos ao trabalho – alguém sempre com o bolso um pouco mais cheio. Os restaurantes locais exploram a data, oferecendo pacotes com almoços especiais para as pessoas curtirem a Melbourne Cup. O pessoal usa aqueles chapéus caros da ‘alta sociedade’, com penas, imitando os frequentadores do Flemington Racecourse. Os jornais são cobertos de anúncios e crônicas sobre o evento, uma resenha que dura por dias antes e depois da Cup, cobrindo os ‘fait divers’ do ‘creme de la creme’ local, os ‘VIPs’ que frequentam a corrida, incluindo uma gama de fofocas e bastidores sobre apostas, doping, dinheiro, traições amorosas e tramoias – enfim, aquela decadência chique que já foi cantada e decantada em versos e prosas em outros tempos menos obscuros.

Assim, se você estiver pela Australia no inicio de Novembro, não se esqueça de fazer a sua fezinha: quem sabe você não tem uma sorte de principiante e fatura um extra. No meu caso, a minha sorte definitivamente não esta no jogo – mas como sempre apreciei ditos populares, eu nunca me queixei por conta disso! Cheers!