Negacionismo Olímpico: o último apelo para cancelarem os Jogos Pandêmicos de Tokyo *

18/07/2021

por Neilton Ferreira Junior (1) e Jorge Knijnik (2)

Pierre de Coubertin, militar, aristocrata, historiador francês e idealizador dos Modernos Jogos Olímpicos, sonhava com uma agenda esportiva internacional que traria paz e fraternidade a um mundo imerso em crises econômicas e conflitos.

Apesar de seu otimismo implacável, seu projeto olímpico foi rapidamente permeado pela fome de acumulação capitalista e avanço tecnológico de uma Era de Extremos, tal como descreveu Eric Hobsbawm. Capital e novas tecnologias industriais e de guerra, mas sobretudo imagéticas, estiveram presentes desde as primeiras edições dos Jogos e se tornaram inexoráveis ​​na década de 1930, período em que Coubertin é engolido pela própria criação. Ao assumir a forma espetáculo, isto é, da “reconstrução material da ilusão religiosa”, do domínio da categoria do ver como única forma de acesso ao real, como bem expressou Guy Debord, os Modernos Jogos Olímpicos transformaram-se em uma arma poderosa e exemplarmente perigosa “de dominação dos homens vivos quando a economia já os dominou totalmente (Sociedade do Espetáculo – Guy Debord, 1997, pp. 16-19). Munido de força política e de um arsenal discursivo ancorado ao idealismo liberal, o movimento olímpico internacional atravessou o século 20 sobre as asas de um “compromisso ético e moral” incapaz de reconhecer as realidades socioculturais e econômicas distintas. Seu programa de expansão na África entre os anos 1910 a 1920, por exemplo, não esboçava qualquer oposição ao colonialismo. Pelo contrário, muitas das teses que justificavam a manutenção do regime genocida europeu encontravam guarida no próprio COI, que ignorando contundentes reivindicações anticoloniais dos povos oprimidos reservava-se a discutir não mais que os termos da assim chamada Colonisation Sportive. Projeto que, fiel ao nome, contava com o patrocínio e entusiasmo de colonialistas notórios, conferindo à “raça” uma importância capital.

Jogos Nazistas

Embora hoje em dia tenhamos a tendência de lembrar os Jogos Olímpicos de Berlim de 1936 por meio de imagens de um Adolf Hitler extremamente irritado após a vitória no atletismo do atleta afro-americano Jesse Owens, as narrativas cotidianas do período eram centradas em uma exaltação ao regime nazista. Aparentemente, essa ideologia de cunho ultranacionalista ia muito além dos “ideais internacionalistas” de Coubertin, poderíamos pensar. Porém, a abordagem do COI e do próprio Barão francês ao megaevento nos conta uma outra história, que expressa mais nitidamente o caráter imperativo que os Jogos Olímpicos assumiam já nessa época, em detrimento dos povos sobre os quais estendia a sua tenda. 

Os Jogos nazistas foram saturados pelas imagens da suástica e pela saudação nazista, entre outras imagens cativantes e representações do estado fascista controlado pelo Partido Nacional Socialista. Tudo isso sob a supervisão complacente do Comitê Olímpico Internacional e do então presidente honorário, De Coubertin, que não só reiterou total apoio aos Jogos nazistas, como teceu largos elogios àquela que foi, segundo ele, uma edição exemplar. Contrário às críticas dos jornalistas esportivos franceses, que lamentavam a utilização dos Jogos como pretexto para fins visivelmente nefastos, De Coubertin diria que a ideia Olímpica de fato não foi sacrificada em prol da propaganda nazista, mas, pelo contrário, “o grandioso êxito dos Jogos de Berlim contribuiu de modo magnífico para com o ideal Olímpico”

A torch bearer passes the Brandenburg Gate, Berlin, 1 August 1936

Durante essa edição, dois atletas judeus americanos, Marty Glickman e Sam Stoller, foram removidos por seus técnicos do revezamento 4×100 horas antes da competição. Este foi o destino de vários atletas judeus durante a década de 1930. Ao longo dos três anos que antecederam os Jogos, o Terceiro Reich conduziu perseguições, esterilizações forçadas e prisões de homossexuais, deficientes, judeus e outros “não-arianos”. No plano esportivo, os nazistas instituíram a política denominada somente para arianos, que determinava a expulsão de atletas “não-arianos”, parcialmente judeus e ciganos de todas as associações atléticas alemãs. Figuras renomadas como o boxeador Erich Seelig, o tenista Daniel Prenn e a saltadora Gretel Bergmann, foram expulsos de seus clubes e, posteriormente, impedidos de integrar a delegação olímpica alemã. Os atletas judeus barrados dos clubes esportivos alemães formaram associações judaicas, tais como os grupos denominados Maccabee e Shield, e criaram instalações improvisadas para continuar a treinar. Entretanto, as precárias instalações esportivas judaicas não podiam se comparar às dos grupos alemães, muito bem financiados. Os ciganos, incluindo o grande boxeador Sinti Johann Rukelie Trollmann, também foram excluídos dos esportes alemães

The Olympic torch in the Lustgarten, Berlin, 1 August 1936

Às vésperas dos Jogos, atletas que viviam fora da Alemanha, coletivos comunistas, socialistas e associações trabalhistas e esportivas na Grã-Bretanha, França, Suécia, Tchecoslováquia, Países Baixos e Estados Unidos, tentaram articular a realização de um boicote e uma grande agenda esportiva paralela denominada Contra Olimpíadas. Movimento que não logrou sucesso, uma vez que não pôde contar com o apoio decisivo da Associação de Atletas Amadores dos Estados Unidos, favorável à agenda olímpica.

O boicote a esta edição dos Jogos representaria um golpe importante da comunidade internacional nas intenções nazistas. Contudo, cabe lembrar que a verve racista não era uma exclusividade do estado alemão. A concepção de raça enquanto categoria biológica e cultural de determinação da “superioridade” e “inferioridade” entre seres humanos, tinha status de verdade científica, e orientava boa parte da elite intelectual e política mundial .

Até meados do século 20, a raça seguia sendo um dos principais instrumentos retóricos de justificação de um civilizacionismo colonial europeu que, na prática, servia à política de expropriação, superexploração, segregação e genocídio de povos ameríndios, africanos e orientais

A forma assustadoramente descompromissada com que o programa olímpico circulava por esse terreno era perfeitamente condizente com o que o principal teórico do Olimpismo pensava. Historiador de formação, Coubertin dedicou longas e entusiasmadas considerações ao colonialismo europeu, com especial atenção ao francês

Jogos da Era Jim Crow

Embora o brilhantismo de Owens e de outros atletas afro-americanos nos Jogos nazistas tenha desafiado o ideal ariano de superioridade, Coubertin já havia sustentado duas edições anteriores dos Jogos nos Estados Unidos. Os Jogos de Saint Louis de 1904 e os Jogos de Los Angeles de 1932 foram realizados durante a vigência das Leis Jim Crow, que entre 1877 e 1964 orientaram politicas de segregação de negros e brancos em espaços públicos e um regime de violência impune contra afro-americanos, americanos nativos, latino-americanos e asiáticos, produzindo efeitos devastadores no plano político e cultural

Cabe registrar que Saint Louis tanto era uma das cidades mais segregadas dos Estados Unidos à época, como servia de palco à atrações bizarras, acompanhadas da exposição de africanos enjaulados

Paul Robeson pickets St. Louis theater

A edição Olímpica foi anexada ao Louisiana Purchase Exposition, conhecido em português como Exposição Universal de 1904. Entre os 12 e 13 de agosto daquele ano, fez-se conhecer os assim chamados “Dias Antropológicos”. Programação que no primeiro dia contou com  competições tradicionalmente europeias, incluindo arremesso de peso, salto em altura, salto em distância, dedicando o segundo dia ao que seus organizadores denominaram “exibições mais amigáveis ​​para os selvagens”. Nenhuma das atividades propostas (escalada em tronco, arco e flecha, lutas e lacrosse) diziam respeito aos “convidados” não-brancos, os quais não sabiam que estavam sendo submetidos a um “exame científico” de deflagração de sua “inferioridade racial”, conforme defenderam James Edward Sullivan e William John McGee, co-organizadores do evento infame

Antuerpia: Jogos acima de tudo

Em 1920, o mundo acabava de experimentar uma guerra, e mal saía de uma pandemia, quando o Movimento Olímpico decidiu pela realização dos Jogos de Antuérpia, tendo em Coubertin um dos seus mais irrepreensíveis defensores

Além das críticas que recebia pela baixa receptividade às mulheres e à classe trabalhadora, os Jogos Olímpicos se tornaram alvos de forte resistência pública, sobretudo quanto à destinação de fundos públicos para a realização de um megaevento esportivo em detrimento de necessidades mais urgentes. Esse fato gerou uma antipatia generalizada em relação aos Jogos de Antuérpia e ao Movimento Olímpico. Situação que parece se repetir agora, quando movimentos de oposição aos Jogos reivindicam com razão maior atenção às prioridades impostas por uma pandemia

Munique: “os Jogos devem continuar!”

Em 1972, o então presidente do COI, Avery  Brundage, insistiu para que os Jogos Olímpicos de Munique fossem adiante. “Os Jogos devem continuar!”, exclamou, apesar do assassinato de atletas israelenses perpetrado pelo grupo terrorista Setembro Negro, e da manutenção de reféns na vila oímpica durante longas horas. Após uma interrupção de 34 horas, os atletas voltaram às quadras e campos para “celebrar a vida”.

Este breve relato sugere que a história dos Jogos Olímpicos também é a história de seu “não adiamento”, seu “negacionismo”, sua política imperativa. A agenda e a ideologia olímpica se naturalizaram de tal modo, que a entidade máxima do esporte pode hoje constranger nações inteiras à realização de um megaevento, mesmo que não existam condições humanas e sanitárias para isso. Sublinhado pelas determinações econômicas, essa política imperativa suspende soberanias nacionais, reduzindo-as a estados de exceção que desencadeiam violações do meio ambiente e dos direitos humanos

Mas como é possível à agenda olímpica prevalecer sobre qualquer circunstância – a despeito de suas vítimas? “Por seu próprio modo de manifestação”, conforme nos dizem Jean-Marie Brohm, Marc Perelman e Patrick Vassort, “o esporte tornou-se um dos vetores da globalização em curso, uma espacialização planetária sob o regime de um tempo único reificado”, alimentado pela força universalizante televisão. “O tempo ainda marcado pela historicidade, um tempo complexo, de uma certa fluidez dialética, foi substituído, portanto, pelo tempo do esporte”, esse tempo que divide tudo, que reduz a história ao expediente competitivo, das marcas do espetáculo televisivo. “Atualmente”, concluem, “o esporte não é mais do que um dos componentes de um tempo e de um espaço autonomizados no e pelo capital

Integralmente submetido aos interesses financeiros, os Jogos Olímpicos passam agora à condição de infraestrutura de uma escalada neoliberal de grande teor autoritário.

O Negacionismo de Tóquio

Em fevereiro, uma pesquisa apontou que mais de 80% dos japoneses não querem que os Jogos de Tóquio sejam realizados. Esses números não diminuíram nos últimos meses, e o público japonês continua preocupado com as consequências para seu sistema de saúde se os Jogos levarem a infecções generalizadas.

Petition against Tokyo Olympics submitted to organisers | Sports News |  Onmanorama

Como o sistema de saúde abrangente do Japão é fundamentalmente baseado na detecção precoce e prevenção de doenças, a preocupação do público é compreensível. Eles temem que não haja instalações médicas suficientes para cuidar das pessoas infectadas que ficam gravemente doentes

No final de junho, em uma declaração pública extremamente rara, o imperador japonês Naruhito revelou sua profunda preocupação sobre a disseminação do coronavírus durante os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de Tóquio

Outra voz relevante dentro da sociedade japonesa manifestou seu profundo receio em relação aos Jogos: em uma entrevista com a CNN, Hiroshi Mikitani, CEO da gigante de tecnologia Rakuten, voz relevante dentro do setor empresarial japonês, chamou os jogos de uma “missão suicida“. Em sua entrevista, Mikitani revelou que tentou alertar o governo sobre os riscos do megaevento, dizendo que não havia mais tempo para vacinação em massa da população japonesa. Ele tentou persuadi-los a adiar ou cancelar os Jogos, mas sem sucesso

Por outro lado, o Comitê Olímpico Internacional (COI) insiste em dar continuidade ao evento. O presidente do comitê, Thomas Bach, declarou recentemente que o trabalho de sua organização é consolidar e montar um show esportivo majestoso, não cancelá-lo. Com as mãos amarradas pelos contratos que o país assinou com o COI e temendo um grande desastre econômico, o governo japonês até agora mantem o evento.

A Pandemia ainda não acabou

Infelizmente, a pandemia de COVID-19 continua afetando gravemente várias regiões ao redor do globo. Em muitos países, as taxas de vacinação são baixas, enquanto os níveis de infecção são altos. Mesmo em regiões como a Europa – onde a Eurocopa deu a impressão de que a vida estava se normalizando, o COVID-19 é duradouro, com milhares de adeptos de futebol recentemente ligados a infecções advindas dos estádios de futebol

A Austrália, onde a pandemia parecia estar sob controle, viu nas últimas semanas as suas principais capitais e outras cidades regionais voltarem ao lockdown. Além disso, países como Alemanha e Israel estão enfrentando problemas com a variante Delta do vírus

No entanto, mesmo com todas as enormes e evidentes ameaças à saúde do Japão e da comunidade internacional, os Jogos parecem seguir o seu rumo. Parece que as Olimpíadas inspiram o mundo a entrar em um estado de espírito completamente negacionista, acompanhando aquilo a que o cientista brasileiro, Miguel Nicolelis, tem chamado de “nova onda de negacionismo no mundo, amparada por um vírus informacional com alto potencial de penetração, capaz de atingir inclusive setores progressistas e intelectuais da sociedade”. Um negacionismo de dimensões ‘Olímpicas”.

Apesar de seu potencial para ser um evento ‘super spreader’, disseminando novas cepas durante a competição, e depois pelo mundo, quando os atletas, treinadores e jornalistas estiverem de volta aos seus países, parece que nada pode impedir os #JogosPandemicos.

Olimpismo

O Comitê Olímpico Internacional é o guardião do Movimento Olímpico, que visa promover a filosofia olímpica muito além dos Jogos. Conhecida como Olimpismo, os objetivos desta filosofia de vida são criar um estilo de vida equilibrado, combinando corpo, espírito e mente. Além disso, o Olimpismo visa promover “o valor educacional do bom exemplo e o respeito pelos princípios éticos universais”.

Muitas pesquisas foram realizadas sobre o legado questionável dos megaeventos esportivos, como os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos ou a Copa do Mundo da FIFA. Os pesquisadores demonstraram como esses eventos podem perturbar as comunidades e seus direitos à moradia ou ao acesso à educação pública

Apesar de tais alegações, o COI segue promovendo os valores e legados positivos de seus eventos, do ponto de vista econômico, mas também educacional e social. Esses valores, mais às claras determinações econômicas e implicações financeiras dos Jogos, mantêm a comunidade japonesa e o mundo em cativeiro

Nessa lógica, os Jogos de Tóquio devem ir em frente, custe o que custar. Independentemente da pandemia e do fato de ser difícil e provavelmente impossível criar uma bolha esportiva gigante e perfeita para controlar o vírus; the show must go on, custe o que custar. Este é o mantra do COI ao longo da historia.

Os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de Tóquio parecem ser mais importantes do que os bilhões de vidas humanas em todo o planeta.

Rain check: Japanese woman arrested after SQUIRTING WATER at Olympic flame as anti-Games protests continue (VIDEO)
Mulher ‘ataca a tocha olimpica’ com uma arminha d’agua – parece que foi presa por isso

Último apelo para interromper os jogos

Nós desafiamos essa lógica. Aqui, juntamos nossa voz às centenas de milhares que já solicitaram o fim dos jogos para salvar suas vidas. Parece bastante simples que uma instituição que visa promover e respeitar os princípios éticos universais tente, antes de mais nada, proteger vidas.

Pode parecer ingênuo, mas aqui vamos lançar o último apelo para impedir os “Jogos Pandêmicos  do COI”. Apesar dos determinantes econômicos, cancelar ainda parece ser a melhor opção. Do ponto de vista político, este gesto sinalizaria o apreço há muito perdido do COI pela soberania popular, as recomendações da comunidade científica, a democracia e os valores anteriormente defendidos por seu fundador.

O Japão, por sua vez, entraria para a história como o primeiro país que exemplarmente “disse não” aos princípios econômicos que norteiam o Movimento Olímpico contemporâneo.

O mundo não precisa de outro “legado” como o dos Jogos nazistas – destruição e morte. No momento, a única maneira de manter a fidelidade à Carta Olímpica para celebrar a vida é dizer “não” aos Jogos de Tóquio em 2020.

O cancelamento de Tóquio será então seu verdadeiro legado.

#stopthePandemicGames

Petition · Cancel the Tokyo Olympics to protect our lives · Change.org

* Uma versao reduzida deste texto foi publicada no The Globe Post

(1) Neilton Ferreira Junior é doutorando na Universidade de Sao Paulo

(2) Jorge Knijnik escreveu ‘The World Cup Chronicles: 31 days that Rocked Brazil


Ah! A Copa no Brasil!

01/03/2021

Resenha de The World Cup Chronicles: 31 Days That Rocked Brazil [i]

(Por Jorge Knijnik, Balgowlah Heights, Australia, Fair Play Publishing, 2018, 164 pp. (paperback), ISBN: 978-0-6481333-1-5)

por Tiago Fernandes Maranhão [ii]

Jorge Knijnik escreveu uma compilação interessante de crônicas analíticas sobre a Copa do Mundo de 2014 sediada no Brasil. A capa de The World Cup Chronicles mostra uma jovem negra controlando uma bola de futebol no ombro e tendo uma favela brasileira ao fundo. Prepara o público leitor para as contradições enfrentadas pelo país-sede daquele megaevento esportivo. O livro tem 28 crônicas e é dividido em três partes, oferecendo uma perspectiva histórica importante sobre as confluências de ‘imaginar, viver’ e compreender o ‘legado’ da Copa do Mundo de 2014. As crônicas de Knijnik percorrem um território familiar, mas trazem intencionalmente o que os estudiosos da história e das ciências sociais apontam como aspectos interdisciplinares de segregação, preconceito e participação cidadã. O livro é particularmente bom em cruzar os aspectos políticos da abordagem branqueadora e elitista do mais famoso campeonato internacional masculino quadrienal com a exclusão social e racial que permeia a sociedade brasileira.

O interesse provocador na análise das crônicas é notável. Não só na forma, mas também no conteúdo, reafirmando a qualidade indiscutível do livro. Knijnik faz um trabalho admirável ao analisar o quadro geral. O compromisso do autor com a coragem de não ser monótono não perde de vista nossas preocupações diárias com os grupos sub-representados, vulneráveis ​​e marginalizados. Um bom exemplo é a forma como Knijnik nos aproxima do caminho da realidade sem negar suas muitas contradições e complexidades. Por isso, a palavra trilha é apropriada, pois nos lembra dos perigos e incertezas ao analisar os fatos sociais. The World Cup Chronicles vislumbram um megaevento que segue esse caminho mais amplo de polêmicas que costuma ser uma realidade no esporte, analisando os aspectos que transformaram figuras como Pelé e Ronaldo ‘de orgulho nacional em anti-heróis’ (p. 28); bem como o tratamento conflituoso e oposto em favor da superestrela do futebol Marta, ou canalizado contra a presidente Dilma em uma sociedade ainda machista (p. 113; p. 142).

Outro ponto positivo deste livro é a análise de Knijnik – que permeia a primeira e a segunda partes do livro – de como o governo brasileiro vendeu a ideia de que os grandes eventos, especificamente a Copa do Mundo, seriam uma forma de reafirmar o desenvolvimento nacional e mostrar à comunidade internacional que O Brasil estava preparado para ser a próxima superpotência mundial. The World Cup Chronicles mostram que a proposta megalomaníaca de construir ou reformar 12 estádios de futebol para a Copa do Mundo de 2014 foi justificada pelo interesse da FIFA, de políticos brasileiros e de empreiteiros que buscavam lucrar com a corrupção de projetos de construção caros. Knijnik descreve como os interesses políticos e financeiros ditaram os termos diante das reivindicações da população brasileira por melhores condições de vida e justiça social. Os manifestantes se tornaram, nas palavras de Knijnik, ‘uma consciência coletiva’ inundando as ruas brasileiras como uma demonstração pública de desaprovação aos bilhões de dólares gastos em um torneio que forçou milhares de ‘brasileiros vulneráveis ​​a se mudarem de suas casas em nome dessa festa gigantesca’. p. 72)

Apesar do desastroso 7 x 1 na semifinal da competição, Knijnik destaca que houve “consequências muito piores” que os brasileiros tiveram de enfrentar após a Copa (p. 61). O Brasil está agora em uma situação econômica pior, experimentando o caos político e ainda está pagando pelos ‘elefantes brancos’ que o país construiu, como resultado do desperdício de dinheiro público e da ineficiência dos projetos de infraestrutura (p. 138). Knijnik fornece na terceira parte de seu livro um manancial de informações sobre como o Brasil convive com ‘o legado’ da Copa de 2014, ainda investigando a corrupção que favoreceu quem soube manipular o futebol como paixão nacional e capitalizar os laços sentimentais que uniam  a população brasileira a sua seleção. O grande destaque que The World Cup Chronicles traz é a reação popular contra a ilusão de que grandes eventos esportivos tentam vender e contra a manipulação do mito do ‘país do futebol’.

Knijnik nos guia pelas trilhas da complexa realidade social brasileira e sua intrincada relação com o futebol. A riqueza temática e a distribuição dos temas abordados no livro acompanham o prazer de comunicar o conhecimento. É evidente a preocupação do autor em aprofundar as mudanças e permanências da relação política e social que os brasileiros historicamente têm com o futebol. The World Cup Chronicles mostram a complexidade efetiva de um evento esportivo histórico e suas múltiplas possibilidades investigativas. A relação completamente entrelaçada entre o mundo dos negócios esportivos, a política, cultura e relações de poder – políticas ou simbólicas – está no cerne da narrativa de The World Cup Chronicles. As trilhas traçadas no livro explicam claramente a complexidade das lutas, das disputas e da vida lúdica dos torcedores durante a Copa, coexistindo com a morte de certos mitos fundadores do futebol brasileiro. A narrativa de Knijnik também traz, para um público mais amplo, o submundo frequentemente negligenciado da vida cotidiana brasileira, nos lembrando que os tempos históricos não são separados.

A extensa variedade de temas propostos por The World Cup Chronicles pode servir de ponto de partida para quem deseja desenvolver outras análises sobre os aspectos políticos, sociais e culturais do futebol no Brasil. Acessível, pesquisado e perspicaz, The World Cup Chronicles: 31 Days That Rocked Brazil mostra claramente a existência de diferentes formas de pensar e sentir sobre a Copa do Mundo de 2014, que negam a visão romântica de uma sociedade brasileira homogênea na forma de viver o evento. As Crônicas da Copa finalmente dão voz, com equilíbrio, à multiplicidade de visões e formas pelas quais esporte, política e cidadania se cruzam em um período de turbulência no Brasil. Apesar de olhar para o presente da Copa do Mundo de 2014, Knijnik mostra, de forma elegante, as dificuldades e conexões do passado político e social do futebol.


[i] Este texto foi publicado originalmente por Tiago Fernandes Maranhão (2021) no The International Journal of the History of Sport, DOI: 10.1080/09523367.2020.1867988

[ii] Tougaloo College, Jackson, MS maranhaotj@hotmail.com


Resenha de ‘Futbolera: A history of women and sports in Latin America’. Brenda Elsey e Joshua Nadel, Austin, University of Texas Press, 2019.

03/05/2020

Por Jorge Knijnik

Sobrevoando o espaço aéreo francês, em julho de 2019. Estou voando de volta para casa após a mais incrível das Copas do Mundo Feminina da FIFA de todos os tempos. Começo a ler Futbolera, enquanto não paro de pensar no profundo impacto que a comemoração de gol da Marta, quando ela mostrou a chuteira reivindicando igualdade de gênero, teve nos sonhos futebolísticos de milhares de meninas e mulheres em todo o mundo. Enquanto Futbolera me apresenta a centenas de mulheres sul-americanas – professoras de educação física, educadoras, treinadoras e atletas que lutaram por muitas décadas pelo direito de praticar esportes -, vejo que as chuteiras da Marta carregam uma história longa, profunda e ainda a ser contada sobre as mulheres latino-americanas e sua relação com o esporte. Enquanto minha aeronave sobrevoa a América do Sul, não olho pelas janelas do avião para tentar ver esta história: fico imerso nas páginas de Futbolera para descobrir as formas históricas em que a “representação corporal das diferenças de gênero” (p. 23) foi profundamente arraigada na história das esportistas e do esporte para mulheres na América Latina.

Os autores reconhecem, com razão, que “América Latina” é um conceito problemático, pois representa um espaço geográfico, político, cultural e socialmente diverso. Portanto, eles não pretendem cobrir todo o continente em seu livro, mas apresentam estudos de caso aprofundados do desenvolvimento do esporte feminino em países como Argentina, Chile, Brasil, México e também na América Central. Tanto os paralelos históricos que podem ser traçados a partir desses estudos de caso, mas também os contrastes aqui apresentados, constroem uma narrativa poderosa da diversidade das questões de gênero que surgem em cada país retratado, ao mesmo tempo em que revelam as estruturas patriarcais entre as quais as mulheres tinham que encontrar espaços alternativos para desenvolver suas atividades esportivas. Esse feminismo inicial incorporado nos esportes é detalhado pelos autores, que apontam como em diferentes países – por exemplo na Argentina e no Chile – as professoras de Educação Física estavam na vanguarda das atividades esportivas e físicas das meninas. O leitor pode até traçar um paralelo com a história das mulheres e do esporte nos EUA, onde o papel das professoras solteiras de Educação Física também foi fundamental nos estágios iniciais do desenvolvimento das atividades físicas para as meninas.

Apesar das muitas variações entre o desenvolvimento social e histórico do esporte nos diferentes países aqui analisados, um traço é comum a todos: assim que a arena esportiva das mulheres começava a ter uma presença maior em suas comunidades e na mídia, os homens tentavam assumir o controle. Em toda a região, a interferência de homens que impunham seus conhecimentos “científicos” sobre os corpos e atividades físicas das mulheres foi assustadora. Ao mostrar como esses campos de batalha de gênero custaram às mulheres muitos anos de esquecimento na arena esportiva da América Latina, os autores também descrevem o conjunto de estratégias e a ampla gama de esportes que meninas e mulheres praticavam para resistir às tentativas generificadas de minar sua participação no esporte. Ao apresentar as evidências históricas para sustentar suas afirmações, Elsey e Nadel revelam detalhes que mesmo para a leitora especialista representam novidades e certamente abrirão novos caminhos para futuras investigações deste campo.

 

futbolera

Futbolera é um livro muito bem ilustrado. As imagens em preto e branco nas páginas foram cuidadosamente selecionadas para fornecer ao leitor a noção exata da energia e paixão que as esportistas brasileiras, chilenas, mexicanas, argentinas e latino-americanas colocavam em seus jogos; olhamos para os rostos das jogadoras e, por trás dos sorrisos para a câmera, elas sussurram “estamos aqui para ficar”. Além disso, algumas fotos também demonstram o impacto social e político do esporte feminino na região: minhas fotos favoritas são a do presidente populista argentino Juan Peron, aparentemente fazendo um arremesso de bola para cima no início de um jogo de basquete feminino de 1952 (p. 30); e uma partida de futebol em Recife em 1970, em um campo de várzea (p. 131) cercado por uma multidão de crianças, homens e mulheres das classes trabalhadoras se divertindo enquanto assistem a peleja. Essas fotos demonstram claramente como as atletas e o esporte feminino já eram importantes para o povo da América do Sul ao longo do século 20 – e para seus políticos também.

Além de mostrar retratos históricos relevantes das equipes esportivas femininas na América do Sul, essas imagens também evidenciam o tipo de fontes que os autores acessaram para dar vida as muitas histórias que eles apresentam em seu manuscrito. Cabe um grande elogio a Elsey e Nadel por terem procurado, tanto quanto possível, fontes primárias absolutamente relevantes para os contextos pesquisados, sempre em Espanhol e Português; ao recuperarem os significados históricos e sociais desses materiais, eles foram capazes de traduzi-los de maneira significativa para o ‘English reader’, transmitindo com clareza a extensão da participação das mulheres no esporte na América do Sul desde as primeiras décadas do século XX.

 

O que realmente me intriga no livro é seu título. A primeira parte deste, a palavra ‘Futbolera’ é definida pelos autores como uma ‘maneira um tanto capciosa mas direta de se referir a uma garota ou uma mulher que joga futebol’ (p. 1). Já a segunda parte do título reconhece corretamente que o livro é ‘uma história das mulheres Latino Americanas e os esportes’. Os autores reconhecem posteriormente que usaram a palavra ‘futbolera’ em virtude do papel especial que o futebol ocupa ‘na compreensão das ideologias de gênero, classe, raça e sexualidade na América do Sul’ (p. 2). Apesar dessa explicação sucinta, eu não consigo parar de pensar nas ‘basketboleras’ ou nas ‘tennisboleras’ ou em muitas outras mulheres latino-americanas que praticavam um esporte que não o futebol, e são evocadas no livro. Além disso, o uso da ‘futbolera’ pode induzir o leitor a pensar que está colocando as mãos em um ‘livro de futebol’ puramente, em vez de uma história abrangente de mulheres e esportes. Fiquei imaginando que esse título deve ter sido uma questão bastante discutida entre os escritores e os editores, e se esse uso também pode ser considerado como uma ‘maneira capciosa’ de chamar a atenção dos potenciais leitores do livro, dada a relevância do futebol na América Latina.

No entanto, esse detalhe não interfere em nada na qualidade do livro e na validade da extensa pesquisa que Elsey e Nadel apresentam neste manuscrito. Como acima mencionado, eles usaram diversas fontes primárias que conferem autenticidade histórica as suas narrativas. No final do livro, o leitor também encontra notas detalhadas para cada capítulo, complementadas por uma lista de fontes primárias e secundárias empregadas na pesquisa, além de um índice bem organizado para cada palavra-chave empregada no texto.

A Copa do Mundo Feminina da FIFA de 2019 bateu todos os recordes de audiência da televisão. Não só atraiu milhões de novos espectadores para o esporte e estendeu seu conhecimento para as mulheres que jogam em alto nível; a Copa da França definitivamente ratificou a relevância do futebol para a luta feminista em todas as culturas e comunidades.

Futbolera, por sua vez, abre caminho para novas pesquisas sociais e históricas sobre o incrível, mas muitas vezes negligenciado, mundo do esporte feminino na América Latina. Além disso, confirma os papéis significativos e contínuos que as mulheres em todo o continente exerceram no campo esportivo desde os primeiros dias das atividades esportivas organizadas.

Futbolera é uma leitura agradável para o público em geral e é uma ferramenta essencial para estudiosos que, em qualquer estágio de suas carreiras, procuram entender as complexas relações entre gênero, esportes e estruturas políticas nos mais variados contextos latino-americanos.

Esta resenha já tem uma versão em inglês que pode ser acessada aqui: agora, aguardamos o lançamento das versões em Português e em Espanhol do LIVRO!  mas já ficaríamos felizes com a edição em Portunhol.

 


‘Habemus Nero’; e ele gosta de críquete

01/12/2019

                                                                                                                                    Por Jorge Knijnik

                                                Para Selma

 

Fazer boa historiografia não é tarefa fácil.  Nosso querido Victor Melo, articulador deste blog aqui, que o diga. Deve-se consultar diversas fontes, amassar o barro e talvez nem seja esta a função deste nosso historia(s) do sport – no qual contamos historias com boas fontes, não com o intuito de exauri-las, mas sim de provocar novas reflexões.

Peguemos o exemplo do tirano ai do título, o Nero – opa, chamei de tirano? Quais minhas fontes? Há muitas, mas devemos sempre pensar que, tal como hoje, a política romana não era feita de anjos, mas sim de pessoas e grupos que disputavam o poder e o controle do estado, vivendo em meio a tensões e disputas internas, e guerras externas. Nero tornou-se imperador em 54, com apenas 16 anos, e muitos grupos (incluindo nestes a sua mãe Agripina, a qual foi suspeita de ter envenenado e assassinado Claudio, o imperador a quem Nero substituiu) tentavam influenciar as direções de seu governo.  Amante das artes e dos jogos, Nero construiu diversos teatros e ginásios. Entretanto, acredito que para grande parte das pessoas, a simples menção do seu nome gera uma associação com um maluco que tocava harpa enquanto Roma, sua cidade, ardia em chamas. Afinal, quantas caricaturas já vimos embasadas neste tema?

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De fato, Nero era afeito a poesia e também tocava harpa.  Em 64, o ano do incêndio, ele, que até então se apresentava apenas para seus nobres nos saguões do império, passou a fazer concertos públicos, a fim de aumentar a sua popularidade.

Assim, quando em 18 de julho de 64, Roma foi devastada por um incêndio que durou cinco dias e destruiu por completo um terço da cidade, além de danificar cerca de 60% do restante, não faltaram acusações que ele, completamente alienado, tocava harpa e admirava o fogo. Há historiadores da época que inclusive o acusam de ter iniciado o fogo, para destruir a cidade e reconstruí-la a partir de suas próprias ideias. Outras fontes porem, afirmam que ele estava longe de Roma na data, e assim que soube do incêndio, voltou para ajudar na recuperação, inclusive abrindo seu palácio para abrigar pessoas atingidas pelo fogo, fornecendo abrigo, comida e dinheiro.

Entretanto, a imagem de Nero definitivamente se associa a de um governante completamente dissociado do que acontece no mundo real e no cotidiano do seu povo. Tocando musica enquanto tudo queima ao seu redor.

 

Introduzi estes detalhes sobre Nero para tentar fazer uma metáfora com o que se passa na Austrália no momento.  Já aludi em outros posts como a Austrália é um país diverso em termos esportivos, com um mercado que disputa cada palmo de espaço nos estádios e nas mídias, e cada dólar dos participantes e consumidores esportivos. Os esportes aqui se dividem geralmente entre temporadas de verão e de inverno, tanto para o esporte-espetáculo quanto para a população que pratica. O Rugby e o AFL profissionais são jogados no inverno, enquanto o futebol profissional no verão. Para os praticantes de ‘base’, as temporadas competitivas destes esportes e também do netball rolam no inverno, e muitas crianças e jovens jogam por exemplo futebol no inverno e tênis, basquete ou críquete no verão. Há inclusive casos de atletas que chegam a seleções nacionais em dois esportes! Mostrando uma diversidade esportiva bem interessante. Aliás, já escutei indiretas que brasileiros/as são bons em futebol porque so fazem isso, enquanto os australianos fazem muito mais coisas…mas vamos deixar estas questões paroquiais de lado, para finalmente focar no tema deste texto – pão e circo.

Umas das paixões australianas sem dúvida é o criquete. Jogado no verão, atrai multidões aos estádios, é televisado na TV aberta e como disse acima, a temporada de base, dos clubes locais, também é jogada no verão. São horas e horas debaixo do sol escaldante acompanhando o cricket local ou nacional. Há pessoas que afirmam que o cargo de capitão do time nacional de cricket só perde em importância para o cargo de primeiro-ministro australiano.  Exatamente sobre este cargo e seu atual ocupante que gostaria de falar.

A Austrália vive um momento seríssimo. O pais está, literalmente, em chamas. Quem vive aqui se acostuma depois de um tempo a conviver com a temporada de incêndios florestais que acontece no verão. Eu que vivo em uma área próxima a muitas florestas, no ano passado tive que sair de casa pois os incêndios chegaram bem perto daqui, e a fumaceira era muito forte para umas das minhas filhas que tem asma. É sempre muito triste a quantidade de casas perdidas, algumas vidas e muitos animais. Por outro lado, a solidariedade e o espirito comunitário que aparecem nestes momentos são incríveis. Ha comunidades inteiras doando seu tempo, dinheiro, recursos, remedios, casas e saberes para ajudar as pessoas, a fauna e a flora atingidas [1]. Dentre estes, há um contingente enorme de bombeiros/as, gente voluntaria e profissional que vai encarar o fogo dentro dele, lutando bravamente para que este não destrua tanta coisa assim. O ano passado, por exemplo, na minha área, vieram bombeiros/as de todos os lugares do estado e conseguiram fazer com que o fogo não atingisse nenhuma casa que fazia fronteira com as florestas. Durante dias, víamos eles circulando aqui nas ruas, com a cara toda suja, exauridos deitados no chão, enquanto os restaurantes e a comunidade locais faziam tudo para alimentá-los e mantê-los saudáveis.

Este ano, entretanto, a coisa entrou em um novo patamar. Os incêndios começaram antes do verão, e com uma gravidade muito maior. Há incêndios em todos os cantos do pais, e não há recursos suficientes para combatê-los.  Governos estaduais cortaram recursos dos bombeiros rurais, há poucos equipamentos e, pior, os especialistas confirmam que estes incêndios são de proporções nunca antes vistas neste pais. As chamas são maiores, mais fortes, e lançam fagulhas há quilômetros de distancia, estas sim que podem atingir casas e cidades. No norte do estado onde vivo, centenas de casas foram dizimadas e algumas pessoas morreram, além de centenas de bichinhos. Há algumas semanas, tivemos que tirar nossa família de casa pois as condições climáticas foram consideradas catastróficas pelos cientistas, algo nunca visto anteriormente – se houvesse um fogo naqueles dias, não seriam capazes de controla-lo e a coisa ficaria feia. Felizmente nada aconteceu e retornamos numa boa.

Enquanto isso, em Roma…digo, em Canberra, a capital australiana, o primeiro-ministro e seus asseclas, se negam a admitir a relação destes incêndios com o aquecimento global. Pior, continuam fazendo lobby para que se relaxem as proteções ambientais de diversas áreas e parques nacionais, para as mineradoras poderem entrar lá e devastar tudo.  Nas áreas que pegaram fogo ao norte do estado, que mencionei acima, houve uma destruição florestal sem precedentes nos últimos cinco anos, pois o governo estadual autorizou o desmatamento em parques onde sempre havia sido proibida a derrubada de mata nativa. Desta forma, os incêndios com os quais as comunidades estavam habituadas a conviver e a lidar, mudaram de patamar e se transformaram em montanhas massivas de fogo contra as quais não havia possibilidade de luta.

Eu não irei colocar fotos dos incêndios aqui. Quem tiver estomago, basta procurar na internet e vai achar varias. Fotos dos heróis e heroínas que salvam casas, pessoas e animais, mas também fotos de muita destruição. Muito triste. Meu propósito, entretanto, é outro. Quero mostrar que sim, ‘Habemus Nero’, e ele gosta de críquete!

Vejam o tuite abaixo, feito pelo 1º ministro no auge da crise de fogo que toma conta do pais. Ele fala que ‘será um  verão otimo para o críquete: e nossos jogadores certamente trarão alegria e animo para os nossos bombeiros, e para as comunidades afetadas pelos incêndios florestais’.

 

MORISON

Não quero incitar discussões sobre ‘esporte ser o ópio do povo’; tampouco acho que os amantes do críquete devam parar de assistir ou jogar por conta desta crise (apesar de que a fumaça que está chegando nas cidades já fez com que algumas rodadas de esportes ao ar livre fossem canceladas).

Quero mesmo agradecer o fato deste 1º ministro não tocar harpa…

 

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[1] Enquanto escrevo, a minha amada companheira de 25 anos a serem completados em dezembro! passa seus  dias organizando uma gama de voluntarios/as, recolhendo material e costurando pequenas caminhas que serao enviadas a diversos pontos do pais, em hospitais veterinarios e outros lugares, para que as coalas, morcegos e outros bichinhos afetados pelos incêndios possam descansar e se recuperar, um esforço massivo de comunidades inteiras através da Australia. Um hospital vetererinario pequeno, em uma regiao afetada, lancou uma vaquinha online para arrecadar A$25 mil para ajudar no tratamento com as coalas. Em dois dias a arrecadacao atingiu um milhao e quatrocentos mil!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Devaneando o futebol

30/06/2019

Para Gilmar Mascarenhas

Resenha de A Vida pela Bola de Luiz Guilherme Piva[1] 

 Por Jorge Knijnik

 

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De repente – derrepentemente – o centroavante sentiu uma ausência. Não sabe de que, nem onde, tampouco quando. ‘Só repete que foi uma ausência’. Até os amigos parecem ficar meio de saco cheio desta ausência insistente, recalcitrante. Foi gol? Chutou? Pênalti? Não sabe, ninguém sabe. O que há é uma ausência.

Assim como em seu livro anterior, o magistral Eram todos camisa dez (sobre o qual alias eu escrevi uma pequena nota nos antigos blogs do CEV, comentário que nos transformou em amigos virtuais – um dia apertaremos as mãos!), o destaque da nova e não menos magistral obra do Piva são as ausências. As quais se fazem tão presentes enquanto vemos – sim, literalmente vemos – as histórias futebolísticas saltarem das páginas maravilhadas de A Vida pela Bola , se infiltrarem nas nossas salas e ocuparem todos os espaços de nossos devaneios dominicais.

As ausências de Piva definem, melhor, fornecem uma essência ao jogo. Ao verdadeiro jogo de futebol. O qual se transforma em vida ali nas suas páginas– ‘o resto, antes e depois, dentro e fora do botequim, sem o futebol, são derrotas – e sem ninguém para assistir’, pois afinal, estamos perdendo…sempre. A verdadeira vida ausente apresentada por Piva é a vida dos pobres. Dos excluídos de tudo. Vida vero vida, não este fantoche futebolístico que nos vendem (e pior, que nos compramos!) pela TV. Estas ausências consagram os personagens do livro. Mas também nos desesperam. Sem o chamado ao constante devaneio da bola, estas faltas nos paralisariam.

As crônicas de Piva nos levam a um ambiente de sonhos. De lembranças. Aquele livro e suas histórias saíram de nossas próprias vidas – vividas? Reais? Não sabemos ao certo, mas poderiam ter sido. Vidas na neblina – mas não nebulosas. Vidas de memorias distantes. Aconteceram? Certamente. Tal como o centroavante da crônica ‘Ausências’, vivemos cotidianamente submersos – e imersos – em devaneios futebolísticos.  Os quais são a matéria prima da obra-prima de Piva.

A Vida pela Bola  é um livro-artilheiro. Um 9 purinho. Um romário feito apenas de bico de chuteiras. Um dadá maravilha pairando sobre todos os campos de beira de estrada do Brasil.  Em ritmo de arquibancada-batucada de estádio antigo. E cheiro de vestiário de várzea, ao final da tarde. Ou talvez, da pré-varzea. Não existe, mas insiste. A sintaxe das crônicas, a sua pontuação, os seus entremeios, as palavras não ditas, tudo ali nos deixa resfolegantes. Quase que impedidos, em êxtase no meio do campo.  Segue o jogo. Sem VAR. Com nossos mais primordiais temores, terrores e amores, desenhados letra por letra, esculpidos a cada palavra, à beira de despencar do abismo, um fosso tão grande que paradoxalmente é capaz de nos unir, assim como os devaneios de Piva (ou os meus? já nem sei…) reuniram – na mesma crônica, na mesma página, no mesmo parágrafo, na mesma área – o centroavante cuja ex virou a atual do goleiro adversário. Uma parodia perfeita do English Team, digo, Dream.

Como eu disse acima, a gente não lê A Vida pela Bola. Este é um livro que a gente vê.  Cada crônica, um roteiro de filme. Ao manusear as folhas deste livro, se assiste a uma serie de curtas-metragens, ou talvez um longa com pequenas histórias ligadas pela linha invisível que une uma área a outra, cortando o campo verticalmente. Povoado com craques rejeitados, duelos amorosos, fantasmas e zumbis. Brigas e dinheiro. Chuvas torrenciais. Personagens sumidos e jogos inacabados. Enxofre, anjos e diabos. Pobres e filhos. Pais e derrotas.

E Kombis! As crônicas de Piva passeiam de Kombi por um mundo que, de tão fantástico, só pode ser verdadeiro.  Ao ler o livro, a gente embarca numa Kombi beeeeem antiga, cheia de amigos cantando o que der na telha, e que não querem – ou talvez nem consigam mais  – desembarcar…

 

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Há novas ausências neste livro. Há palavras não ditas – aliás, quais são as palavras que nunca são ditas? pergunta o roqueiro. Piva anuncia que, de tão fortes, estas não podem mais ser ditas – mas sim devem ser jogadas e vividas – pela bola. Entretanto, nos devaneios de Piva – ou nos nossos? as palavras ausentes, nos encharcam de sentido.  Nos transportam para o centro do redemoinho. Ensurdecedor em seu silencio. De onde brotam tesouros como um neologismo genial tipo ‘antiacalanto’.

Para quem não sabe – mas existe alguém tão ruim da cabeça ou doente do pé que não saiba disso? – as crônicas do Piva são publicadas periodicamente no blog do Juca.  Na contracapa do livro, Juca escreve que A Vida pela Bola ‘vale pela vida e pela bola’. O Kfouri comenta que as crônicas ali escritas são tão cheias de vida que, mesmo que não as tenhamos vivido, gostaríamos de voltar no tempo para vive-las novamente.

O Mestre tem razão.

O futebol de Piva contem a memória de tudo.

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[1] Luiz Guilherme Piva escreveu o posfácio de The World Cup Chonicles: 31 days that Rocked Brazil  e certamente vai adorar (!) meu jeito ‘sutil’ de usá-lo para fazer propaganda do meu livro! Seus livros sao pubicados pela editora Iluminuras.


Furacões, maremotos – e um relâmpago! Cenas do futebol Australiano.

02/09/2018

Por Jorge Knijnik

Para Cleiton Barbosa.

 

Aos poucos, o futebol profissional na Austrália vai retomando as suas atividades. Depois da A-League ter finalizado a sua temporada 2017-18 com a Grande Final do inicio de maio e dos jogadores dos 10 clubes profissionais entrarem em férias, há cerca de um mês estes clubes voltaram a entrar em campo para disputar a FFA Cup – uma espécie de Copa do Brasil local na qual clubes amadores e semiamadores participam, e os profissionais entram a partir das oitavas. Nas ultimas rodadas, houve ate clube grande sendo desclassificado por clube local, foi legal!

Mas enquanto os campos profissionais ficavam quietos, os bastidores do futebol australiano foram sacudidos por grandes furacões e maremotos – inclusive com a chegada de um relâmpago.

O primeiro furacão é a expansão da liga australiana, a A-League. Há anos a comunidade do futebol pressiona a Federação Australiana para que mais times entrem na Liga.  Os 10 times (franquias) que atualmente disputam a A-League representam cinco  estados da Austrália, mais um pais vizinho. São eles: Wellington Phoenix (da Nova Zelandia!); Perth Glory FC  (de Western Australia); Adelaide United FC (de South Australia); Brisbane Roar FC (de Queensland); Melbourne City FC (pertencente ao City Football Group, dono do Manchester City entre outros clubes ao redor do mundo) e Melbourne Victory FC (ambos de Victoria); e quatro times de New South Wales – Sydney FC, Central Coast Mariners FC , Newcastle Jets FC e Western Sydney Wanderers FC. São 10 times jogando entre si três vezes durante a temporada de futebol profissional, entre Outubro e Abril/Maio. Um time joga duas vezes em casa, e uma vez fora contra um mesmo adversário – sendo que na próxima temporada isto se inverte, dois jogos fora e um em casa contra aquele oponente.

O fato é que este formato já cansou. Repetitivo, cansativo, monótono, e por diversas razoes a Liga vem perdendo publico nas arquibancadas e na audiência de TV também. Mais uma razão para tentar expandir. Assim, neste ano, após uma longa espera, a Federação abriu uma concorrência para que dois times novos entrem na liga a partir da temporada 2019-20. Mais de 15 times se inscreveram, sendo alguns clubes tradicionais, com raízes em suas comunidades locais ou étnicas, e com historias quase centenárias, como o South Melbourne (comunidade grega) ou o Wollogong Wolves FC, que representa a região ao sul de Sydney e New South Wales. Outros inscritos são consórcios fabricados que tem nomes provisórios – tipo “Southern Expansion” ou “Team 11”, que são as fachadas para grandes grupos comerciais com dinheiro internacional.

No momento, sobraram nove candidatos, e tudo será decidido em algumas semanas.  Apesar dos critérios futebolísticos envolvidos nas candidaturas (proposta de estádios, categorias de base e femininas, inserção na comunidade para arrumar torcida, etc), a decisão final certamente será baseada na grana. Isso mesmo, a proposta com mais condições de bancar a quota da franquia deve levar. Alguns falam em 15 milhões pela franquia. O mundo do futebol australiano esta em polvorosa, alguns gritam contra estes consórcios comerciais e querem os times tradicionais na liga; outros clamam pela estabilidade financeira da coisa; terceiros apelam para que a expansão se radicalize e se aceitem quatro times novos, e ainda se crie uma segunda divisão; os mais exaltados querem critérios para acesso e descenso! Os clubes semiamadores já se organizaram em uma associação com cerca de cem membros para exigir seus direitos a terem uma segunda divisão, e a pressão apenas aumenta.

Em meio a este furacão de propostas de novos clubes, acordos de bastidores e contas bancarias sendo expostas, um maremoto vem deixando ainda mais turvas as aguas futebolísticas deste pais-continente – as quais nunca foram muito claras mesmo.

Há alguns anos a FIFA pressiona a Federação local (FFA) para expandir o seu congresso, dando lugar para que outras vozes (futebol de mulheres, mais clubes, segunda divisão, árbitros) sejam representadas no congresso. Atualmente, o poder de decisão do futebol australiano esta nas mãos de nove (isso, 9) membros do congresso da FFA – entre eles os representantes das sete federações estaduais, incluindo federações minúsculas, com poucos afiliados e sujeitas a enormes pressões vindas do gabinete presidencial da federação, comandado com mão de ferro pela familia do bilionário Lowy. Depois de centenas de idas e vindas, com comissões da FIFA e da Confederação Asiática passando semanas por estas praias aqui, se reunindo com as diversas partes interessadas,  como os clubes profissionais e semi, as representantes das mulheres, dos jogadores profissionais, técnicos, torcedores e outros tribos do futebol, um grupo de trabalho nomeado pela FIFA, depois de vários meses, fez uma recomendação para a expansão oficial do congresso da FFA. A familia Lowy e o presidente da FFA, Steve Lowy, são contra isso e fizeram de tudo para atrasar e boicotar os trabalhos deste grupo de trabalho. Mas parece que não vai ter jeito. O congresso da FIFA já aprovou os relatorios e propostas deste grupo, e o maremoto não cessa. Steven Lowy fez uma pressão enorme sobre os membros do atual congresso para não aprovarem a mudança da FIFA – o que provavelmente resultaria em uma intervenção direta da entidade máxima do futebol sobre a FFA ou ate na suspensão da Austrália de competições internacionais. Mas ao final Lowy anunciou que vai sair do comando da FFA ao final do ano – curiosamente, no mesmo período em que expira, conforme as leis corporativas do pais, o prazo para a FFA justificar e apresentar ao publico os documentos relativos aos 50 milhões gastos na candidatura fracassada da Austrália para a Copa de 20122. Precisa desenhar?

Não bastassem esses furacões e maremotos futebolísticos para agitar as coisas na terra australis, eis que aporta por aqui um relâmpago. Ele mesmo, Usain Bolt, o jamaicano mais veloz do mundo! Minha rara leitora deve estar se perguntando qual a relação disto com o futebol; afinal, o Bolt deve ter vindo aqui para a Austrália fazer algumas corridas para arrecadar fundos para a caridade… Mas que nada! Ele veio tentar uma vaga como atacante em um time da A-League, o Central Coast Mariners FC!

 

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O clube, que nos últimos anos disputa a liga com muitas dificuldades financeiras, pouca torcida, sempre brigando para não terminar em ultimo – sorte deles que não há segunda divisão – resolveu abrir espaço para que Bolt, o Relâmpago, participasse de sua pré-temporada – incluindo treinos e amistosos – e tentasse uma vaga e um contrato oficial com o clube.

A reação veio rapidamente. O clube nunca recebeu tanta atenção da mídia local e  internacional desde o anuncio relampejante – ate no Brasil estão falando da A-League! O desejo do Bolt de jogar futebol profissionalmente é antigo, ele falava em jogar no Manchester United e parece que já fez testes com o Borussia Dortmund.

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Por outro lado, os fãs mais ‘raiz’ do futebol local estão revoltadíssimos com o circo criado em torno dele. Comenta-se que seu contrato chegaria a 3 milhões de dólares por temporada, pagos em parte pela FFA e Foxtel, que criaram um fundo para contratar grandes estrelas do futebol mundial que queiram jogar aqui. Já tivemos o Alessandro Del Piero, por exemplo…. mas o Bolt? A galera não se conforma, as redes sociais bombam com reclamações que ele esta tirando o espaço de jovens locais que poderiam estar evoluindo na liga profissional, que tudo isso é apenas uma palhaçada e somente envergonha o futebol australiano diante do mundo, entre outros ‘elogios’ a iniciativa dos Mariners…

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Enquanto isso, Bolt é tratado pelo clube como um ‘jogador normal’, que estaria somente fazendo um teste assim como tantos outros. Nesta sexta o amistoso do Mariners contra um selecionado local de jogadores amadores, um jogo que em condições normais de temperatura e pressão atrairia meia dúzia de torcedores em uma noite fria e passaria despercebido do resto do mundo, atraiu quase 10.000 pagantes e foi mostrado ao vivo pela TV fechada. Rojões e todo o circo foram armados para a estreia deste ‘jogador normal’. Tudo para o ‘deleite’ daqueles que acreditam na evolução do futebol australiano por meio do talento local, e gostariam de uma liga de futebol de verdade.

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No seu tempo em campo, Bolt não impressionou  ; faltou velocidade (serio!) para chegar em algumas bolas e  aparentemente cansou após 20 minutos em campo. Será que o Relâmpago não é mais o mesmo? Ou será que, em meio a tantos furacões e maremotos extracampo, ele perde a sua força?

Eu gostaria de vê-lo jogando na Liga local. Se ele der certo, tambem irei atras do meu sonho e tentarei um lugar ao sol em algum time profissional destas bandas. Ao contrario dos atacantes daqui, me posiciono bem, entendo a regra do impedimento, e na cara do gol não tem pra ninguém! #BoltnaALeague #vamostodosrelampejar  #CleitonmandaoDVD.

 

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A Copa de 2022 não será na Austrália

01/04/2018

Resenha do livro Whatever it Takes: the inside story of the FIFA way [A], de Bonita Mersiades (2018, Powderhouse Press).

                                                                                                                       Por Jorge Knijnik

WHATEVER IT TAKES

 

Titulo estranho o deste post. Alias, porque estou falando do futuro em um blog de Historia(s), onde a gente normalmente fala de coisas passadas? Como não diria Lulu Santos, desta historia, todos sabem o fim. A Copa de 2022 será realizada nas pirâmides pós-modernas do Qatar (se algo mudar depois que eu publicar este post voces serao os primeiros a saber!).  Os mais inteirados também sabem que a candidatura da Austrália para sediar o evento foi um enorme fiasco: o ‘time’ da candidatura australiana captou aproximadamente R$ 130 milhões em dinheiro publico para ao final, receber apenas um (isso mesmo, um!) misero voto na eleição em que o Comitê Executivo da FIFA escolheu o Qatar para sediar a copa.

Mas meu texto não é sobre o final do jogo e sim sobre todos os seus meandros que foram detalhados no recente e tão aguardado livro, Whatever it takes (Custe o que custar). A autora? Bonita Mersiades[i], que em seu relato narra com minucias o que aconteceu durante este jogo pesado da escolha da sede da Copa da FIFA de 2022. Afinal, ninguém melhor para trazer esta historia a luz do dia do que aquela que viveu dentro do jogo, e manteve sua dignidade. Mersiades conheceu todos os personagens VIPs (e os VVIPs, ‘very VIPS’) que frequentam os castelos, iates e palácios onde são decididos os destinos do ‘people’s game’; no seu livro, ela traz para seus leitores e leitoras toda a historia desta disputa, toda a mesquinharia e ganancia travestidas de luxo e riqueza que envolvem os processos internos da FIFA.

Mas, quem é Mersiades? Filha de refugiados do Leste Europeu, ela cresceu na Austrália rodeada por futebol e imersa nas diversas comunidades étnicas que sempre tiveram o jogo como uma das suas maiores expressões culturais. Foi neste caldeirão cultural que ela não apenas aprendeu a amar o jogo, mas se dedicou a ele, como voluntaria em clubes locais (acordando bem cedinho aos finais de semana para demarcar campos, organizar a cantina, vender uniformes e gerenciar os clubes comunitários) e depois profissionalmente. Foi dirigente de equipes da liga nacional e passou a trabalhar na Federação de Futebol Australiana (FFA), como coordenadora da seleção masculina (os Socceroos). Ainda na FFA, Mersiades assumiu o posto de diretora de negócios públicos e corporativos. Foi nesta condição que ela começou a trabalhar com a candidatura australiana a Copa do Mundo. Foi deste cargo que ela viu e vivenciou de perto e por dentro o ‘mundo FIFA’; foi com toda esta experiência que ela virou uma das informantes centrais a fornecerem evidencias para que os escândalos da FIFA viessem à tona (e levassem a prisão do ex-presidente da CBF entre tantos outros). Reunindo todas as suas anotações detalhadas deste período que Mersiades, apos sete anos, concluiu seu livro.

Um livro prefaciado por ninguém menos que Andrew Jennings, o repórter investigativo escocês que sempre foi a mosca na sopa da FIFA e a pedra no sapato do Comitê Olímpico Internacional. O jornalista que, na CPI do futebol liderada por Romario no parlamento brasileiro, declarou que a corrupção na FIFA começou no Brasil, com Joao Havelange nos anos 1970. Homem que, indignado com as concessões que o governo brasileiro fez a FIFA para sediar a Copa de 2014, perguntou aos parlamentares na CPI “que tipo de orgulho um país tem ao deixar que gângsteres entrem e ditem as regras?”.

Em seu prefacio, Jennings escreve que Mersiades é a “única com coragem de contar a verdade” sobre uma historia que não é nada bonita. Com um prefacio destes, a leitora já imagina que lá vem bomba…

O relato de Mersiades é realmente bombástico. Tanto no conteúdo quanto na forma. As descrições dos ambientes cinco-estrelas (ou mais) que ela é obrigada a frequentar são precisas sem serem maçantes; os diálogos, de uma fidelidade incrível; as observações, argutas. A voz narrativa de Mersiades fornece uma velocidade lancinante às historias. O leitor sente como se estivesse viajando com ela entre Sydney, Cairns, Abu Dabi, Zurich, London, Toquio, Joanesburgo, Munique, Frankfurt, de volta pra Sydney, um pulinho em Canberra… ufa! Haja milhagem! Cansa só de pensar… Mas é precisamente esta velocidade que  faz a trama dela parecer um filme de suspense, ou uma serie do Netflix, estilo Narcos ou House of Cards (qualquer coincidência com a FIFA é mera semelhança[ii]…). A narradora é onipresente, e é por meio da sua voz interior, da sua leitura dos eventos e jornais da época, ou da descrição dos diálogos e telefonemas dos quais ela participa, que conseguimos sentir por dentro todos os dilemas éticos e as violências simbólicas que ocorrem no processo de escolha das sedes da Copa.

Tudo começou em 2004. Ou talvez um pouquinho antes, quando Mersiades e um grupo de jornalistas esportivos, preocupados com a situação decadente em que se encontrava o futebol no país, se reuniu para convencer Frank Lowy a assumir a presidência da FFA que seria criada para substituir a antiga National Soccer League. Lowy, que estava afastado do futebol, aceitou o encargo, ficando na presidência da FFA entre 2003 e 2015, quando passou o bastão da presidência para seu filho.

Frank Lowy é um multibilionário australiano, um dos cinco homens mais ricos da Austrália e provavelmente na lista dos top 300 mais ricos do mundo. Nascido na então Tchecoslováquia, passando por guetos na Hungria, a familia de Lowy se refugiou na Austrália depois da guerra. Antes de chegar ao país, entretanto, Frank Lowy ainda foi preso pelas autoridades britânicas em Cyprus, se uniu a Haganah na Palestina e lutou na Guerra Árabe-Israelense em 1948. Cinco anos depois, ele foi à Austrália, onde, com seu espirito empreendedor, fundou uma cadeia de shopping centers que se espalhou pela Oceania, Europa e Estados Unidos, construindo assim sua riqueza formidável.

Lowy não gosta muito do frio. Quando o inverno chega ao hemisfério sul, ele vai de férias para o  hemisfério norte, onde possui varias propriedades. Foi assim que, durante os Jogos Olímpicos de 2004, ele ancorou o Ilona IV, seu iate de luxo no Porto de Piraeus, em Atenas (um dos maiores portos do Mediterrâneo) e começou a oferecer convescotes chiquérrimos para a cúpula da FIFA que lá se encontrava para o torneio olímpico de futebol. Desde então, ele passou a ser convidado de honra nos magníficos jantares oferecidos pelo qatari Bin Hamman[iii], então presidente da Confederação Asiática de Futebol (AFC) e membro do Comitê Executivo da FIFA (as 24 pessoas que escolhem as sedes da Copa). Outros convidados do circuito Abu Dhabi-Kuala Lampur incluíam Jack Warner[iv], presidente da CONCAFAF e também membro do Comitê Executivo da FIFA, e a própria realeza, Sepp Blatter, presidente da FIFA entre 1998 e 2015. Outras autoridades futebolísticas assim como figuras obscuras deste mundo, como o consultor suíço-húngaro Peter Hargitay[v], também frequentavam assiduamente as festas do presidente da AFC.

Foi nesta época que Frank Lowy decidiu que ele traria a Copa para a Austrália, “custe o que custar”.

 

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[Kevin Rudd (entao 1o ministro da Australia), Blatter and Lowy]

Foi assim que Mersiades se envolveu com a candidatura australiana. Tendo um cargo alto na direção da FFA, e a pedido de Ben Buckley, o diretor-executivo (CEO) da Federação, seu amigo e chefe imediato, Mersiades, mesmo sem estar particularmente excitada com esta candidatura, que para ela era um bola fora, foi a cada dia mais deixando o seu trabalho cotidiano e mergulhando na candidatura australiana, chegando a trabalhar 90 horas por semana neste projeto. Afinal, Lowy tinha que coroar a sua carreira de dirigente esportivo sediando o megaevento, “custe o que custar”. Este seria seu legado final[vi].

O livro tem 39 capítulos, todos bem dinâmicos, mas poderia ser dividido em duas grandes partes. A primeira delas, entre 2008 e 2009, detalha os dias que Mersiades trabalhou na candidatura. A intensidade desta parte é tremenda. São reuniões e eventos pelo mundo afora com gente de todos os naipes. Mersiades tem que discutir e preparar orçamentos para o governo federal, que havia se comprometido a apoiar a candidatura da FFA. Lowy considerava que ele já contribuía o suficiente com o futebol e abria todas as portas com a sua presença e liderança; ele não queria tirar dinheiro do próprio bolso, e convenceu os governantes a bancarem a empreitada.  Ela não concorda com o uso de dinheiro publico, ainda mais com o pagamento de consultores externos que aparentemente não fazem nada, além de mostrar que para ganhar a Copa, mais do que o conteúdo das propostas, são necessárias as aparências de luxo e riqueza nos eventos, nos hotéis, presentes e carros para os membros do Comitê Executivo da FIFA. Afinal, conforme os consultores, a sede da Copa é decidida por “questões intangíveis”. Nesta metade do livro o leitor claramente percebe a tensão crescente entre Mersiades, que, ao questionar cada passo a ser dado e o uso muitas vezes obscuro do dinheiro publico, entra em atrito com os consultores que exigem cada vez mais luxo – afinal, eles vivem de vender (ou traficar?) influencia. Ben Buckley, o CEO, que sabe de todas as jogadas, tenta fazer o meio de campo entre estes personagens do submundo do futebol e Mersiades – a quem considera “a pessoa mais integra com quem jamais trabalhou”.

Mas o livro também possui momentos de puro humor. Como quando a FFA trouxe um grupo de jornalistas internacionais para conhecerem melhor a Austrália, a  infraestrutura e as propostas para a Copa. Com Mersiades na liderança, o grupo realiza um tour que termina na capital federal (Canberra) com um encontro com funcionários de diversos escalões do Ministério de Relações Exteriores. Ao final da reunião, com a palavra aberta, uma das diplomatas presentes se levanta e fala, sem nenhuma ponta de vergonha:

“Vocês precisam entender que aqui na Austrália a gente não gosta muito de ‘soccer’ (sic), nosso negocio é AFL. Este é o nosso esporte nacional. ‘Soccer’ não é muito popular e sempre foi associado com violência étnica no passado”.

Silencio absoluto. O constrangimento é geral. Mersiades se pergunta como esta moça passou nos testes para entrar na carreira diplomática.

Outro momento bem humorado aconteceu em dezembro de 2009, na cidade do Cabo (África do Sul). O mundo do futebol se concentrava lá, entre diversos eventos: o sorteio dos grupos da Copa de 2010, o Congresso da FIFA, o Congresso do Comitê Executivo da FIFA, reuniões de Confederações e a exposição internacional de futebol. Nesta ultima, cada Federação candidata a sediar as futuras Copas (de 2018 ou de 2022) iria lançar oficialmente a sua candidatura perante a imprensa mundial. Em um salão para 2.500 pessoas, a organização rigorosa da FIFA só iria credenciar nove pessoas de cada país-candidato. Mersiades não sabia o que fazer para enfiar os diplomatas australianos presentes, a sua equipe técnica, Lowy e demais pessoas da sua delegação.  Enquanto os outros países trouxeram os seus ‘embaixadores’ (jogadores como Luís Figo, David Beckham, Ruud Gullit[vii]) para apoiarem suas apresentações, a Austrália tinha trazido um grupo de crianças que ganharam um sorteio para participarem do evento como embaixadores da candidatura da Austrália. Vestidas com camisetas da campanha australiana (‘Come Play!’, ‘Venha Jogar!’) as crianças acabaram virando a atração da recepção inicial. Assim, não tinha como elas serem barradas na porta do evento principal. Tampouco o pessoal da embaixada e Lowy seriam barrados. Ao final, usando o ‘jeitinho australiano’, ela conseguiu entrar com mais de vinte pessoas no salão.

A apresentação australiana foi um arraso. Com as crianças sorrindo, segurando balões e atraindo mais a atenção que os jogadores internacionais – de quem ate conseguiram autógrafos – a Austrália mostrou seu filme estrelado por Nicole Kidman. Arrasaram. A imprensa mundial, surpresa, reportou nos quatro cantos do mundo como o projeto australiano era competitivo e figurava entre os principais contendores, sendo melhor inclusive que o da Inglaterra.

Dezembro de 2009 foi o auge da candidatura. Mersiades, que estava no comando de toda aquela empreitada, foi elogiadíssima por todos pelo bom gosto e competência da apresentação australiana. Seu chefe Ben Buckley lhe pagou um bônus máximo de final de ano por conta de seu desempenho positivo.

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O baque veio depois do recesso de final de ano. Atenção, aqui não vai nenhum spoiler, afinal, Mersiades conta isso logo no segundo paragrafo da introdução. No inicio de Janeiro de 2010, ao retornar a sede da FFA, Buckley a chama a sua sala. O CEO inventa umas desculpas esfarrapadas, e ela é demitida. A arrogância, o machismo e as negociatas dos consultores haviam vencido. Mersiades estava fora não apenas da equipe da candidatura, mas da própria FFA. Os consultores talvez estivessem certos em um ponto: eles intuíam que alguém tão integra acabaria por entregar os esquemas todos. Como de fato aconteceu, ao longo destes sete anos, inclusive na comissão Garcia.

Aqui entramos na segunda parte do livro . As viagens não são mais tão frequentes, mas o suspense permanece alto!  Mersiades continua recebendo informações de contatos em todo o mundo sobre a disputa pela sede da Copa.  Eu confesso que tive que me segurar para não trapacear e ir direto ao ultimo capitulo para saber das respostas a tantas questoes levantadas nesta parte: Por que a FFA aceitou trabalhar com estes consultores indicados pelos alemães? Os russos tinham um acordo com a Austrália? Quem deu o único voto aos australianos? Qual o papel de sua realeza Beckenbauer em tudo isso? Como o Qatar conseguiu bater a candidatura dos Estados Unidos? Lowy foi enrolado pelos consultores e por todos os seus amigos do futebol? Como foi gasto todo aquele dinheiro publico? Por que mantiveram os consultores e demitiram alguém que era, segundo a opinião geral, a “alma e o coração da candidatura” do país? Como a candidatura da Austrália conseguiu em um ano decair daquela empolgação mostrada na Cidade do Cabo para receber apenas um voto ao final? Quem deixou de lado Nicole Kidman e produziu aquele filme ‘clichê do clichê’ que foi apresentado aos senhores do Comitê Executivo da FIFA antes da votação final?

bidding nation 1

Mas eu controlei minha ansiedade e, comportadamente, li capitulo por capitulo. Soube dos espiões que invadiram o site, o e-mail e o telefone de Mersiades. Tomei consciência das calunias e também de um telefonema ameaçador feito por um daqueles jornalistas ‘muy amigo’ o qual, junto com ela, havia trazido Lowy para a presidência da FFA no inicio do século. Apesar das chantagens, Mersiades não revela o nome da pessoa. Li o depoimento ‘confidencial’ que ela deu a Mike Garcia e como isso serviu para demoniza-la ainda mais. Fiquei sensibilizado quando, em um momento da mais pura psicanalise, ela descobre a verdade por trás de diferentes planilhas orçamentarias da FFA. A sensação de leveza que esta clareza trouxe, depois de tanta obscuridade, é maravilhosa, segundo a autora.

Meio que insone cheguei ao capitulo final, intitulado ‘Do lado certo da historia’. Estar do lado certo desta confusão toda, digo, da história, é algo que Mersiades reivindica com muita autoridade desde o início do livro.

As duas passagens a seguir evidenciam a coerência da autora e demonstram de que lado da historia ela está.

A primeira, com a qual eu particularmente me identifico, aconteceu em Londres, em abril de 2009, em um dos seus primeiros encontros com o consultor Hargitay. Como alguém que vende e vive de aparências, Hargitay queria impressiona-las e a levou para jantar em um camarote exclusivo (o Armani Lounge) no Stamford Bridge, o estádio do Chelsea, onde o time da casa enfrentaria o Everton pela English Premier League. Apesar de cansada de todas as viagens, ela estava excitada por assistir seu primeiro jogo dn EPL. Após a janta, eles se sentam nos seus lugares VIP,  com a melhor vista do campo. Mersiades esta ao lado do CEO do Chelsea, e Hargitay faz questão de notar isso: “Você viu Bonita, tudo o que consegui para você? Lugar VIP ao lado do homem! Ninguém mais faria isso por vocês! Não é maravilhoso?” Ela responde com um sorriso amarelo e pensa que gostaria muito mais de estar ao lado do povão nas arquibancadas[viii].

A segunda passagem, na verdade é a dedicatória do livro, a qual de forma poética, mostra os motivos pelos quais ela continuou nesta luta e finalizou o seu manuscrito após sete anos. Mersiades dedica o livro para

Todas as pessoas reais do futebol, em qualquer lugar do mundo; para aqueles que amam o jogo e que acreditam em jogo limpo em tudo o que fazem.

Este é um verdadeiro legado.

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NOTAS

[A] Em uma tradução livre, o titulo do livro ficaria “Custe o que custar: por dentro do jeitinho FIFA” .

[i] TRANSPARENCIA: Possuo uma relação profissional com Bonita Mersiades, que é a diretora-executiva da Fair Play Publishing, editora que publicou meu mais recente livro “The World Cup Chronicles: 31 days that Rocked Brazil”

[ii] Vale lembrar que, dentre as acusações aos membros da FIFA feitas pela justiça norte-americana estão:  conspiração para cometer fraude, fraude eletrônica, lavagem de dinheiro e obstrução de justiça. Eles se referem a FIFA como uma ‘enterprise’, um negocio que foi enquadrado na legislação RICO a qual geralmente é aplicada a Máfia e outras organizações criminosas.

[iii] Banido do futebol por toda a vida em 2012 por pagamentos ilegais feitos a União Caribenha de Futebol durante a sua campanha para a presidência da FIFA em 2011.

[iv] Depois do banimento de Bin Hammam em 2011, Jack demitiu-se de todos os seus cargos no futebol. Foi indiciado em 2015 pela justiça americana e ate hoje luta para não ser extraditado de Trinidad Tobago. Seus dois filhos estão em prisão domiciliar nos Estados Unidos desde 2011.

[v] Um dos três consultores europeus que trabalharam na candidatura Australiana para a Copa; vieram recomendados pela Federação Alemã e possuem estreitos laços com Franz Beckenbauer.

[vi] Alias, me perdoem a digressão, mas neste livro eu aprendi um significado novo para a palavra ‘legado’ – sempre ouvimos falar do legado cultural, politico, social, esportivo dos eventos. Mas Mersiades, ao ver no orçamento da candidatura alguns itens destinados a legado, rapidamente percebe que neste contexto, ‘legado’ significa ‘dinheiro da mala’.

[vii] Os ‘embaixadores’ recebem entre U$ 50.000 (no caso dos baratos como o camaronês Roger Milla) ate mais de um milhão de dólares, no caso dos top como Pelé , para apertarem mãos e deixarem sua imagem ser usada para apoiar uma candidatura ou outra. Mersiades recebeu varias propostas de embaixadores mas, apesar da insistência dos consultores, recusou a todas.

[viii] Será que ela iria curtir estar aqui junto com a galera do Mengao, saudando o Gilmar Mascarenhas, o Otavio Tavares e toda a torcida botafoguense?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[i] Em uma tradução adaptada, o  titulo do livro ficaria “A qualquer preço: o jeitinho FIFA contado de dentro”


The Matildas enfiaram 6 na Seleção: notas sobre o futebol de mulheres na Austrália

20/08/2017

(para Paula Botelho-Gomes e Claudia Kessler)

Por Jorge Knijnik

 

Há poucas semanas, O Brasil tomou outro vareio internacional. Desta vez, nossos algozes foram as Matildas, a equipe Feminina Australiana de futebol, que enfiaram 6 x 1 na Seleção feminina brasileira no “Tournament of Nations” realizado no inicio de agosto nos Estados Unidos. Além de massacrarem o Brasil, as Matildas paparam o torneio de forma invicta, vencendo pela primeira vez na historia as anfitriãs (1×0) e convencendo contra o time do Japão (4×2).  Até onde eu sei este ‘vexame’ futebolístico passou quase despercebido na mídia brasileira, que nao tomou muito conhecimento desta goleada.

Na Austrália,  o grande feito das Matildas infelizmente, tambem não teve a repercussão que merecia. Se no Brasil os ‘6×1’ não chegou às manchetes nem virou sinônimo de todo e qualquer descalabro publico e social da nação (ah! Os eternos ‘7×1’ a mastigar pela eternidade nosso complexo de vira-latas!), na Austrália, as vitorias espetaculares e a conquista inédita das Matildas obtiveram alguma reação positiva da grande mídia e das mídias sociais – muito aquém, porem, do seu significado esportivo e histórico.

Comentaristas ‘sociais’ de todos os naipes, afoitos, encontraram a desculpa da vez para a ausência do espaço devido ao futebol feminino: o sucesso internacional das Matildas teria sido rapidamente abafado na cobertura jornalística pelos graves problemas que afetam a administração do futebol australiano,   e com a recente visita da delegação da FIFA  para tentar minimizar a crise da Federação local – visita esta que aparentemente não foi bem sucedida.

O fato permanece: tivessem os Socceroos enfiado seis no Brasil e vencido um torneio com as principais seleções do mundo, todos sabemos o que teria acontecido: estatuas teriam sido erguidas, rádios, jornais, TVs, internet, tudo teria girado em torno deles por meses. Eles estariam bombando!

 

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No futebol de mulheres, entretanto, a historia é outra. Alias, tem sido outra há muito tempo. Seja aqui ou no Brasil, elas tem que resistir e lutar para construir a própria historia nos gramados. Deste modo, com muitos paralelos com a historia das mulheres no futebol brasileiro, as australianas vem forjando nos campos de futebol mais um espaço importante para a luta pela equidade de gênero – seja em nível politico, educacional, social ou recreativo.

O contexto histórico mundial é bem conhecido. Mesmo sendo uma atividade predominantemente masculina, o futebol foi praticado pelas mulheres europeias desde o século XVIII, tanto de forma recreativa como competitiva. No inicio do século XX o movimento futebolístico das mulheres na Inglaterra chegou ao ápice, com jogos atraindo mais de 50.000 espectadores. Entretanto, com a constante oposição dos ‘donos da bola’, que escondiam seus preconceitos através de alegações pseudocientíficas de natureza biológica e medica para restringirem legalmente a participação esportiva das mulheres, as dificuldades foram aumentando e a presença delas nos campos diminuindo – ou será que elas continuaram jogando, mesmo contra tudo e principalmente todos?

Na Austrália, a presença das mulheres nos campos de futebol começou a ser noticiada na mídia ao final do século XIX. Uma pequena nota no West Australian em 1895 afirmava que ‘um jogo entre moças  aconteceu recentemente em Melbourne, atraindo mais de 12.000 pessoas’. Referencias a jogos femininos de futebol aparecem em diversas fontes desde os anos 1880, e se intensificam a partir de 1910. Nestas fontes há algumas confusões quando se menciona ‘futebol’, sem se saber ao certo se a noticia fala sobre rugby, Australian Rules ou futebol propriamente dito.

No período entre guerras, o futebol entre mulheres começou a florescer e ganhar reconhecimento: novos times surgiram em Melbourne e Brisbane (La Trobe Ladies Football Club, North Brisbane, South Brisbane) atraindo plateias na casa dos 10.000 torcedores para seus jogos. Entidades estaduais, como a New South Wales ladie’s soccer football association e a Queensland Ladies’ soccer football Association foram criadas em 1821 para organizar o jogo das mulheres. Clubes com nomes sui generis, como Arnotts, Zig-Zags and State Mine faziam jogos disputadíssimos, atraindo milhares de pagantes aos estádios para desfrutar desta nova forma de lazer, e para torcer pelas suas equipes e atletas favoritas. Os jornais da época noticiavam que as mulheres ‘jogavam com a mesma energia e vigor dos homens, e muito frequentemente brigavam tal como eles’.

 

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De fato, desde aquela época a mídia já gostava de narrar confusões e brigas. Assim, qualquer probleminha virava manchete. Casos de torcedoras que discutiram com goleiros adversários, ou mesmo de um arbitro que foi ‘enfiado na lama pelos dois times de mulheres depois do jogo’ em Lightow em 1931, ganhavam proeminência nos jornais locais.

A realidade patriarcal, entretanto, sempre se mostrou muito dura para as mulheres futebolistas. Os mesmos argumentos usados no Brasil e no mundo contra a pratica de esportes de contato pelas mulheres eram também brandidos pelas bandas Australianas. Questoes medicas, fisiológicas, estéticas, tudo era levantado para impedir que as mulheres se emancipassem nesta área tão importante para a vida social australiana. Na maior parte dos tempos, a participação feminina era restrita a ajudar nas cantinas ou a papel de voluntarias para ajudar na administração geral dos clubes, levantar fundos, cuidar dos campos e uniformes, entre funções deste tipo.

Depois da segunda Guerra Mundial, o futebol de mulheres se revitalizou na Austrália. Em New South Wales, o numero de garotas e mulheres jogando, tanto formal quanto informalmente, não parou de crescer. Ao final dos anos 1970, havia 4.500 jogadoras adultas registradas na Australia, e 14.500 garotas menores de 18 anos jogando oficialmente o jogo de futebol – destas, 9.000 jogavam em New South Wales.

Nesta época, o futebol se expandia por todo o pais. Competições estaduais foram estabelecidas nos estados de Victoria e New South Wales. Times internacionais visitavam a Austrália para jogar amistosos contra times locais, muitas vezes aproveitando que as seleções masculinas vinham jogar por aqui. O numero de torcedoras também não parava de crescer, sendo que em Victoria, um estado fanático pelo Australian Rules, a quantidade de mulheres que assistia o futebol era minimamente inferior daquelas que frequentavam os estádios do maior esporte daquele estado, o Australian Rules Football.

Um nome importante no inicio dos anos 1960 foi Pat O’Connor, que fundou a Metropolitan Ladies’ Soccer Association em New South Wales, com uma liga que chegou a ter 12 times em sua competição principal.

Como secretaria-geral da Australian Women’s Soccer Association, O’Connor ajudou a organizar a primeira Copa Australiana de Futebol de Mulheres que se realizou em Sydney, em 1974; além de dirigente, ela também era jogadora e aos 35 anos foi uma das melhores atletas da competição. O’Connor também assumiu o posto de vice-presidente da Asian Ladies Football Confederation naquele mesmo ano, e mais tarde foi induzida no Hall of Fame do futebol australiano.

O futebol das mulheres continuou crescendo na Austrália; entretanto, mesmo conseguindo algum patrocínio de entidades nacionais, a maior parte dos custos sempre caia nos ombros das jogadoras, que tinham que se virar vendendo rifas e fazendo diversas atividades para angariar fundos e poder disputar competições estaduais e nacionais em um pais do porte da Austrália.

Somente em 1996 uma liga nacional de futebol de mulheres foi constituída, com seis equipes representando a maioria dos estados ou territórios australianos. A liga não durou muito, mas constituiu um embrião para o surgimento, anos depois, da W-League, que atualmente se configura como a liga semiprofissional de futebol de mulheres na Austrália.

Em nível internacional, o primeiro jogo de uma seleção australiana de mulheres aconteceu em  outubro de 1979 contra a Nova Zelandia, em um estádio chamado Sheymour Park, pertinho aqui de casa, no bairro de Miranda, no sudoeste de Sydney. Em 1994 o time Australiano de mulheres se classificou para o Mundial de mulheres a ser jogado na Suécia em 1995. Assim, em fevereiro de 1995 um grupo de jogadoras disputando vaga naquela seleção fez uma partida preliminar a um jogo amistoso dos Socceroos (a seleção masculina) contra a Colômbia no Sydney Football Stadium. No programa oficial, o time das mulheres foi chamado de ‘Socceroos feminino’. Assim que o jogo acabou, o SBS (um dos maiores canais televisivos públicos australianos) lançou uma competição entre seus espectadores para eleger o apelido do time das mulheres. Em maio de 1995, o nome ‘Matildas’ foi anunciado o vencedor. Apesar das resistências iniciais, o apelido pegou e desde o mundial de 1995 as Matildas vem competindo regularmente em nível internacional.

Waltzing Matilda é uma canção popular do folclore australiano. Muitos a consideram como o ‘segundo hino nacional’ da Australia e a cantam fervorosamente no dia nacional após alguns drinques. A canção fala sobre uma personagem mitológica australiana, o ‘swagman’ que anda pelo pais a procura de trabalho, com seu chapéu de palha e sua trouxa de pano onde carrega suas poucas roupas e pertences – a trouxa foi carinhosamente apelidada de ‘Matilda’. Waltzing Matilda significa, então, viajar pelo pais tal como um swagman, com sua trouxa no ombro, procurando trabalho.

Muitas Matildas (jogadoras do time de mulheres) ainda estão assim, vendendo seu trabalho pela Australia ou pelo mundo: quando acaba a curta temporada da W-League no verão australiano (quando chegam a jogar ao meio-dia sob temperaturas de 40 graus ou mais, com contratos temporários nos quais na maior parte das vezes recebem apenas o necessario para a sua subsistencia), elas viajam aos Estados Unidos ou a Europa, para pegarem as temporadas de lá; ou seguem aqui, agora jogando em times da 2ª divisão. De uma forma ou de outra, as Matildas são guerreiras: há alguns anos já peitaram a federação Australiana, entrando em greve para exigir pagamento igual ao dos Socceroos, e a federação foi obrigada a cancelar a participação do time em um torneio internacional as vésperas da competição.

Como se viu nos seus resultados mais recentes,  elas também são guerreiras nos campos. Melhorando cada vez mais como futebolistas e como time, com uma consciência social que vem crescendo, as Matildas tem tudo para brilhar nas próximas competições internacionais. No mês que vem, a Seleção Brasileira vem disputar uma serie de amistosos contra as Matildas na Australia. Eu já estou me perguntando com que roupa que eu vou.

 

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A primavera (do futebol) Australiano; ou lá vem a segunda divisão?

27/03/2017

Por Jorge Knijnik

Para MaguiLeo e a Rua Javari

Ao final de 2010 e começo de 2011 uma onda revolucionaria varreu diversos países árabes do Oriente Médio e do Norte da África. A ‘Primavera Árabe’, ou a ‘Primavera da Democracia’, teve inicio na Tunísia em 17 de dezembro de 2010 e rapidamente se alastrou para diversos países da região, tais como o Egito, Líbia, Síria, Argélia, Iraque, Sudão, entre outros. Centenas de manifestações, marchas e protestos, alguns pacíficos outros mais violentos, varreram as ruas destes países: apesar de agendas variadas e de terem obtido resultados bem diferentes, estes movimentos traziam o mesmo mote: Ash-sha`b yurid isqat an-nizam, palavras árabes para o slogan ‘o povo quer derrubar o regime’.

 

ultras egito

Há poucas semanas uma rebelião começou a ser gestada no futebol australiano; apesar do curto espaço de tempo, esta revolta já vem inclusive chamando a atenção internacional. Em alusão ao movimento árabe do inicio da década, e demonstrando plena consciência do que se passa no futebol neste canto do mundo, alguns dirigentes da FIFA rapidamente qualificaram esta insurreição incipiente como a ‘primavera do futebol Australiano’.

¿Pero que passo? Quais as razões que levaram um movimento de clubes de futebol a ser comparado, mesmo que metaforicamente, a verdadeiras revoluções que tentaram mudar estruturas de poder arcaicas, mas profundamente arraigadas em algumas sociedades?

A resposta pode ser encontrada na historia recente do futebol na Austrália e no preconceito ainda existente contra comunidades estrangeiras e seu esporte predileto; mas também deve ser compreendida nos termos da crescente comodificação do futebol no mundo e neste país também

A Austrália é um país relativamente novo, formado por dezenas de grupos socioculturais e étnicos diferentes, que chegaram ( e ainda chegam) por aqui em diversos períodos destes duzentos e poucos anos. Obviamente, muitos imigrantes chegaram de mãos abanando, fugindo de guerras e perseguições; mas trouxeram algo muito importante dentro de si: as suas culturas, sendo que muitos destas tinham algo em comum: o futebol. Assim, pouco a pouco, diversos clubes étnicos (o clube português, clube sírio, italiano, grego, judaico, macedônio, sérvio, croata, entre tantos outros) foram se formando. Muitas vezes certas comunidades que vieram em massa para a Austrália, conseguiam fundar mais de um clube em cidades diferentes ou ate mesmo em uma mesma cidade, como é o caso dos gregos e dos italianos.

Nestes clubes, uma tradição em comum: o futebol, atividade competitiva onde cada  comunidade se esforçava para fazer o seu melhor, brilhar e ganhar. Como abordei ligeiramente no meu post sobre “Aborígenes, futebol e racismo na Austrália”, certos clubes contratavam jogadores de outras comunidades para reforçarem seus elencos.

A modalidade foi crescendo e em 1974 a seleção Australiana de futebol (os Socceroos) conquistaram pela primeira vez uma vaga nas finais da Copa do Mundo. O ímpeto desta participação gerou um frenesi na comunidade futebolística e levou a criação na National Soccer League (NSL – Liga Nacional de Futebol) em 1977.  Aqui é importante que o leitor fique  atento as diferenças entre o ‘soccer’ e o ‘football’, pois estas são importantes para se entender a ‘primavera do futebol australiano’ que mencionei inicialmente.

A NSL (soccer) funcionou durante quase três décadas, gerida inicialmente pela Australian Soccer Federation que posteriormente virou a Soccer Australia. Sua primeira divisão era formada por 14 clubes, e dezenas de outros nas divisões inferiores; estes clubes, majoritariamente constituídos por comunidades étnicas, formaram diversas gerações de futebolistas australianos, inclusive aquela que os saudosistas denominam da ‘Geração de Ouro’ que não apenas levou os Socceroos as finais de uma Copa novamente, depois de mais de 30 anos de espera, mas também conquistou a primeira vitória da seleção Australiana em Copas do Mundo, ao bater o Japão na Alemanha por 2 x 1. Entretanto, estes mesmos clubes e a própria liga sempre foram vitimas de muito escrutínio e preconceito, em virtude de algumas rivalidades étnicas (sérvios e croatas, por exemplo) extrapolarem os campos e terminarem em  violentos confrontos físicos.

 

australia_soccer

Estes incidentes, somados a uma crescente migração de jogadores australianos para a Europa e as  dificuldades em se conseguir patrocínio para uma modalidade que nunca foi a primeira nos corações poliesportivos australianos (bom lembrar que aqui há dois tipos de rúgbi, o cricket, o netball, o AFL…)  trouxeram crescentes  problemas administrativos e financeiros para a National Soccer League. Em 2003, o governo federal encomendou uma auditoria independente do soccer australiano. Conhecido como ‘relatório Crawford’, as recomendações desta auditoria atingiram em cheio o coração da modalidade. O relatório concluía que a NSL não era mais economicamente viável e aconselhava a criação de uma nova entidade baseada em um modelo rentável; assim, a temporada 2003-2004 foi a ultima do soccer na Australia. Em 2004, nascia a Federação de Futebol Australiano (FFA) e a Liga australiana de futebol profissional, a A-League.

Muitos comentam que, por trás das cortinas,  a destruição da NSL também teve motivações étnicas. O fato é que a FFA, que teve como seu primeiro presidente ‘imposto’ o mega-bilionario Frank Lowy (dono da Westfield, uma imensa cadeia de shopping centers), criou um modelo de competição extremamente comercializado, na qual os times não eram mais baseados nas diversas comunidades futebolísticas espalhadas pelo pais. A nova A-League, que se iniciou na temporada de 2005-2006 inicialmente com oito times, foi composta por clubes franqueados, pertencentes a grupos milionários, os quais compravam da FFA a licença para participar da competição. Baseados em regiões metropolitanas (Brisbane, Sydney, Melbourne, Perth, Adelaide, Newcastle, Central Coast), o proposito era de que as rivalidades étnicas da época do soccer fossem substituídas pelas disputas regionais que o novo football traria, atraindo assim novos fãs.

Entre avanços e retrocessos, com clubes falindo e novas franquias abrindo, atraindo ‘ex-jogadores em atividade’ como o italiano Alessandro Del Piero, e tendo subido seu numero de participantes para 10 clubes, a A-League sobreviveu e já se encontra hoje em sua 11ª edição. Apesar de ser uma liga de clubes, ela é controlada pela FFA, que inclusive indica o diretor-chefe desta liga.

Os clubes étnicos não se desfizeram; ao contrario, continuaram existindo sob o controle da FFA e das federações estaduais, as quais muitas vezes encaminharam medidas polemicas, tais como proibir quaisquer referencia a símbolos ‘étnicos’ nos uniformes destes clubes. Os diversos clubes comunitários disputam competições sob o guarda chuva da ‘National Premier League’ (NPL), que conta com três divisões. Exatamente aqui que começamos a entender a dimensão da ‘primavera do futebol australiano’.

As centenas de clubes de futebol (de totalmente amadores ate times semiprofissionais) disputam a NPL em seus estados, e os campeões estaduais da 1ª divisão da NPL competem em um torneio em nível nacional, um mata-mata de poucos dias, em uma sede, ao final da temporada. Entretanto, aos vencedores desta competição nacional cabe … continuar disputando esta divisão. Não há sistema de promoção tampouco de rebaixamento para a liga profissional (A-League); o ultimo colocado da A-League pode continuar sossegado que na próxima temporada continuara jogando na mesma divisão.

Exatamente aqui que começa a primavera futebolística. A FFA, a qual desde sua criação esteve sob rígido controle da familia Lowy (em 2015 o patriarca Lowy passou o bastão da presidência da entidade para seu filho Steve, em uma eleição de cartas absolutamente marcadas) vem  há alguns anos sobrevivendo a varias crises. Durante a temporada da A-League de 2015-2016, as torcidas organizadas realizaram boicotes a jogos em virtude de banimentos injustos de torcedores dos estádios, obrigando os dirigentes da FFA a se reunirem com os torcedores e acordarem um compromisso de revisão das punições – o que alias ainda não foi cumprido. Ainda em 2015, os Socceroos realizaram boicotes as atividades de mídia e propaganda da FFA para pressionar por um melhor acordo para os jogadores da seleção, enquanto as jogadoras da seleção feminina (as Matildas) fizeram uma greve por melhores condições de trabalho e na ultima hora não participaram de um torneio agendado nos Estados Unidos.

Mais recentemente, desde meados de 2016, a FFA vem sendo intensamente pressionada pela FIFA a realizar de imediato mudanças para democratizar as estruturas do futebol australiano. Entre estas mudanças, estão a ampliação do colégio eleitoral da FFA – o qual  é o menor e mais fechado dentre todas as federações filiadas a FIFA; a FIFA, juntamente com a Confederação de Futebol Asiática (AFC) exige que a FFA amplie o numero de equipes participantes da A-League (que atualmente esta em 10) bem como implemente um sistema de acesso e descenso. Como se não bastasse, os clubes da A-League, também insatisfeitos com a FFA, querem mudanças e exigem mais poder decisório nos colegiados da entidade.

Entretanto, a ‘primavera do futebol’ vem dos clubes de base. Cansados de esperar por mudanças e apoio da FFA para melhoria das suas estruturas; fartos de serem alijados das decisões centrais do futebol na Austrália apesar de prepararem e fornecerem a maior parte do ‘pé-de-obra’ para os times profissionais sem ganharem quase nada por isso; estes clubes, sentindo o momento delicadíssimo que a FFA atravessa, resolveram se unir, e no inicio de março de 2017 criaram a Associação dos clubes de Futebol Australiano. Na agenda desta Associação, demandas semelhantes as da FIFA; mais poder decisório para o setor dos clubes e por um sistema de acesso e rebaixamento; enfim, o velho soccer contra-ataca e quer fazer parte de verdade do novo football. .

Na pauta Associação e de outros importantes setores do futebol, também está a ampliação da A-League. Fala-se muito da necessidade da inclusão de entre dois a quatro novos times na competição, a curto prazo. A FFA, como sempre, patina e quer mais tempo para a viabilização de um torneio maior. Por outro lado, a midia pressiona pela ampliação, e semanalmente noticia o surgimento de novos contendores para estas vagas, novos clubes a serem criados com o subsidio de milionarios da Australia ou da Asia. De olho neste movimento, os maiores clubes da Associação pleiteam que os clubes ja existentes, com historia  e com mais base regional sejam escolhidos para fazer parte da A-League, e não um clube sem historia mas apenas om dinheiro suficiente para comprar uma licenca junto a FFA.

Esta Associação, que conta com quase 100 clubes de todo o pais, já promoveu sua primeira reunião em Melbourne e tem mantido contato constante com a FIFA, que monitora a situação da FFA bem de perto. Há poucas semanas, Lowy Jr (presidente) e o diretor executivo da FFA foram ate a Suíça, visitar o quartel-general da FIFA. Em seu encontro com o presidente da entidade maior do futebol mundial, eles tentaram negociar um acordo que lhes desse um tempinho para respirar… Mas não foram bem sucedidos. A FIFA  continua insistindo que a democratização das estruturas da FFA aconteça ainda neste mês.

A primeira vista, a comparação de um movimento clubistico de futebol com toda a agitação politica que gerou a ‘Primavera Árabe’ parece exagerada. Afinal, é ‘apenas’ um jogo. Entretanto, se considerarmos que futebol sempre foi um veiculo de integração – ou discriminação – social na Austrália; que, por outro lado, a ‘Primavera Árabe’ foi também gestada em arquibancadas de futebol, onde torcedores organizados continuam se manifestando contra regimes autoritários, talvez possamos, em um exercício de imaginação politica, perceber os paralelos entre ambos movimentos que vieram da base da sociedade. Mais ainda, talvez percebamos que o futebol, apesar da sua crescente comercialização e muitas vezes do seu distanciamento do ‘povo’, continua sendo um elemento social importante para a contestação do autoritarismo e para a organização politica de diversos segmentos sociais.

 

 


A primavera (do futebol) Australiano; ou lá vem a segunda divisão?

26/03/2017

por Jorge Knijnik

Para MaguiLeo e a Rua Javari

Ao final de 2010 e começo de 2011 uma onda revolucionaria varreu diversos países árabes do Oriente Médio e do Norte da África. A ‘Primavera Árabe’, ou a ‘Primavera da Democracia’, teve inicio na Tunísia em 17 de dezembro de 2010 e rapidamente se alastrou para diversos países, tais como o Egito, Líbia, Síria, Argélia, Iraque, Sudão, entre outros. Centenas de manifestações, marchas e protestos, alguns pacíficos outros mais violentos, varreram as ruas destes países: apesar de agendas variadas e de terem obtido resultados bem diferentes, estes movimentos traziam o mesmo mote: ‘Ash-sha`b yurid isqat an-nizam, palavras árabes para o slogan ‘o povo quer derrubar o regime’.

Há poucas semanas uma rebelião começou a ser gestada no futebol australiano; apesar do curto espaço de tempo, esta revolta já vem inclusive chamando a atenção internacional. Em alusão ao movimento árabe do inicio da década, e demonstrando plena consciência do que se passa no futebol neste canto do mundo, alguns dirigentes da FIFA rapidamente qualificaram esta insurreição incipiente como a ‘primavera do futebol Australiano’.

¿Pero que passo? Quais as razões que levaram um movimento de clubes de futebol a ser comparado, mesmo que metaforicamente, a verdadeiras revoluções que tentaram mudar estruturas de poder arcaicas, mas profundamente arraigadas em algumas sociedades?

A resposta pode ser encontrada na historia recente do futebol na Austrália e no preconceito ainda existente contra comunidades estrangeiras e seu esporte predileto; mas também deve ser compreendida nos termos da crescente comodificação do futebol no mundo e neste país também.

 

ultras egito

A Austrália é um país relativamente novo, formado por dezenas de grupos socioculturais e étnicos diferentes, que chegaram (e ainda chegam) por aqui em diversos períodos destes duzentos e poucos anos de historia (sem contar, claro, os 50.000 anos anteriores quando as populações aborígines por aqui viviam). Obviamente, muitos imigrantes chegaram de mãos abanando, fugindo de guerras e perseguições; mas trouxeram algo muito importante dentro de si: as suas culturas, sendo que muitos destas tinham algo em comum: o futebol. Assim, pouco a pouco, diversos clubes étnicos (o clube português, clube sírio, italiano, grego, judaico, macedônio, sérvio, croata, entre tantos outros) foram se formando. Muitas vezes certas comunidades que vieram em massa para a Austrália, conseguiam fundar mais de um clube em cidades diferentes ou ate mesmo em uma mesma cidade, como é o caso dos gregos e dos italianos, por exemplo.

Nestes clubes, uma tradição em comum: o futebol, atividade competitiva onde cada  comunidade se esforçava para fazer o seu melhor, brilhar e ganhar. Como abordei ligeiramente no meu post sobre Aborígenes, futebol e racismo na Austrália, certos clubes contratavam jogadores de outras comunidades para reforçarem seus elencos.

A modalidade foi crescendo e em 1974 a seleção Australiana de futebol (os Socceroos) conquistou pela primeira vez uma vaga nas finais da Copa do Mundo. O ímpeto desta participação gerou um frenesi na comunidade futebolística e levou a criação na National Soccer League (NSL – Liga Nacional de Futebol) em 1977.  Aqui é importante que o leitor fique atento as diferenças entre o ‘soccer’ e o ‘football’, pois estas são importantes para se entender a ‘primavera do futebol australiano’ que mencionei inicialmente.

A NSL (soccer) funcionou durante quase três décadas, gerida inicialmente pela Australian Soccer Federation que posteriormente virou a Soccer Australia. Sua primeira divisão era formada por 14 clubes, e dezenas de outros nas divisões inferiores; estes clubes, majoritariamente constituídos por comunidades étnicas, formaram diversas gerações de futebolistas australianos, inclusive aquela que os saudosistas denominam da ‘Geração de Ouro’ que não apenas levou os Socceroos as finais de uma Copa novamente, depois de mais de 30 anos de espera, mas também conquistou a primeira vitória da seleção Australiana em Copas do Mundo, ao bater o Japão na Alemanha por 2 x 1. Entretanto, estes mesmos clubes e a própria liga sempre foram vitimas de muito escrutínio e preconceito, em virtude de algumas rivalidades étnicas (sérvios e croatas, por exemplo) extrapolarem os campos e terminarem em socos, pontapés e pancadaria gerais.

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Estes incidentes, somados a uma crescente migração de jogadores australianos para a Europa e as dificuldades em se conseguir patrocínio para uma modalidade que nunca foi a primeira nos corações poliesportivos australianos (bom lembrar que aqui há dois tipos de rúgbi, o cricket, o netball, o AFL…) trouxeram crescentes problemas administrativos e financeiros para a National Soccer League. Em 2003, o governo federal encomendou uma auditoria independente do soccer australiano. Conhecido como ‘relatório Crawford’, as recomendações desta auditoria terminaram por nocautear este soccer. O relatório concluía que a NSL não era mais economicamente viável e aconselhava a criação de uma nova entidade baseada em um modelo rentável; assim, a temporada 2003-2004 foi a ultima do soccer na Australia. Em 2004, nascia a Federação de Futebol Australiano (FFA) e a Liga Australiana de futebol profissional, a A-League.

Muitos comentam que, por trás das cortinas, a destruição da NSL também teve motivações étnicas. O fato é que a FFA, que teve como seu primeiro presidente ‘imposto’ o mega-bilionario Frank Lowy (dono da Westfield, uma imensa cadeia de shopping centers), criou um modelo de competição extremamente comercializado, na qual os times não eram mais baseados nas diversas comunidades futebolísticas espalhadas pelo pais. A nova A-League, que se iniciou na temporada de 2005-2006 inicialmente com oito times, foi composta por clubes franqueados, pertencentes a grupos milionários, verdadeiras corporações as quais compravam da FFA a licença para participar da competição. Baseados em regiões metropolitanas (Brisbane, Sydney, Melbourne, Perth, Adelaide, Newcastle, Central Coast, entre outras), o proposito era de que as rivalidades étnicas da época do soccer fossem substituídas pelas disputas regionais que o novo football traria, atraindo assim novos fãs.  Claramente, a nova competição era uma empreitada comercial, distante dos clubes e de suas comunidades. Novas torcidas deveriam ser criadas, sob a égide corporativa.

Entre avanços e retrocessos, com clubes falindo e novas franquias abrindo, atraindo ‘ex-jogadores em atividade’ como Alessandro Del Piero, e tendo subido seu numero de participantes para 10 clubes, a A-League sobreviveu e já se encontra hoje em sua 11ª edição. Apesar de ser uma liga de clubes, ela é controlada pela FFA, que inclusive indica o diretor desta liga.

Os clubes étnicos não se desfizeram; ao contrario, continuaram existindo sob o controle da FFA e das federações estaduais, as quais muitas vezes encaminharam medidas polemicas, tais como proibir quaisquer referencia a símbolos ‘étnicos’ nos uniformes destes clubes. Os diversos clubes comunitários disputam competições sob o guarda chuva da ‘National Premier League’ (NPL), que conta com três divisões. Exatamente aqui que começamos a entender a dimensão da ‘primavera do futebol australiano’.

As centenas de clubes de futebol (de totalmente amadores ate times semiprofissionais) disputam a NPL em seus estados, e os campeões estaduais da 1ª divisão da NPL se reúnem em uma sede única ao final da temporada para, em poucos dias, em um sistema de ‘mata-mata’, decidirem o titulo de campeões nacionais. Entretanto, aos vencedores desta competição nacional cabe … continuar disputando esta divisão. Não há sistema de promoção tampouco de rebaixamento para a liga profissional (A-League); o ultimo colocado da A-League pode continuar sossegado que na próxima temporada continuara jogando na mesma divisão.

Exatamente aqui que começa a primavera futebolística. A FFA, a qual desde sua criação esteve sob rígido controle da familia Lowy (em 2015 o patriarca Lowy passou o bastão da presidência da entidade para seu filho Steve, em uma eleição de cartas absolutamente marcadas) vem  há alguns anos sobrevivendo a varias crises. Durante a temporada da A-League de 2015-2016, as torcidas organizadas realizaram boicotes a jogos em virtude de banimentos injustos de torcedores dos estádios, obrigando os dirigentes da FFA a se reunirem com eles e acordarem um compromisso de revisão das punições – o que alias ainda não foi realizado. Ainda em 2015, os Socceroos realizaram boicotes as atividades de mídia e propaganda da FFA para pressionar por um melhor acordo para os jogadores da seleção, enquanto as jogadoras da seleção feminina (as Matildas) promoveram uma greve em busca de melhores condições de trabalho, forçando a FFA a cancelar, na ultima hora, a participação do time em um torneio já agendado contra a seleção norte-americana nos Estados Unidos.

Mais recentemente, desde meados de 2016, a FFA vem sendo muito pressionada pela FIFA a realizar mudanças imediatas para democratizar as estruturas do futebol australiano. Entre estas mudanças, está a ampliação do colégio eleitoral da FFA – o qual atualmente é o menor e mais fechado dentre todas as federações filiadas a FIFA; a FIFA, juntamente com a Confederação de Futebol Asiática (AFC) também exige que a FFA amplie o numero de equipes participantes da A-League (que atualmente esta em 10) bem como implemente um sistema de acesso e descenso. Como se não bastasse, os clubes da A-League, também insatisfeitos com a FFA, querem mudanças e exigem mais poder decisório nos colegiados da entidade.

Entretanto, a ‘primavera do futebol’ vem dos clubes de base. Cansados de esperar por mudanças e apoio da FFA para melhoria das suas estruturas; fartos de serem alijados das decisões centrais do futebol na Austrália apesar de prepararem e fornecerem a maior parte do ‘pé-de-obra’ para os times profissionais sem ganharem quase nada por isso; estes clubes, sentindo o momento delicadíssimo que a FFA atravessa, resolveram se unir, e no inicio de março de 2017 criaram a Associação dos clubes de Futebol Australiano. Na agenda desta Associação, demandas por mais poder decisório, por um sistema de acesso e rebaixamento, enfim, aquilo que a FIFA e a AFC também querem.

Os clubes também exigem uma maior participação nos critérios que irão decidir a ampliação dos times participantes da A-League. A própria ampliação, que vem sendo muito discutida nas mídias, é um assunto bem polemico. A FFA, como de  costume, pretende adiar este debate, colocando que necessita de mais tempo para viabilizar economicamente uma competição com 12 ou 14 equipes; por outro lado, a cada semana surge uma noticia de uma nova entidade a ser criada para participar de uma A-League expandida. Geralmente, estes pretendentes possuem parcerias com milionários locais ou mesmo asiáticos. Por outro lado, os maiores clubes tradicionais, rejeitam esta visão e querem que critérios como historia e inserção comunitária sejam levados em conta para a provisão de novas licenças da A-League. É o velho soccer brigando com o novo football…

A Associação, que conta com quase 100 clubes de todo o pais (desde clubes completamente amadores a outros semiprofissionais em termos futebolísticos), já promoveu sua primeira reunião em Melbourne e tem mantido contato constante com a FIFA, que monitora a situação da FFA bem de perto. Há poucas semanas, tanto Lowy Jr (presidente) quanto o diretor executivo da FFA foram ate a Suíça, visitar o quartel-general da FIFA. Em seu encontro com o presidente da entidade maior do futebol mundial, eles tentaram negociar um acordo que lhes desse um tempinho para respirar… Mas não foram bem sucedidos. A FIFA continua insistindo que a democratização das estruturas da FFA aconteça ainda neste mês.

A primeira vista, a comparação de um movimento clubistico de futebol com toda a agitação politica que gerou a ‘Primavera Árabe’ parece exagerada. Afinal, é ‘apenas’ um jogo. Entretanto, se considerarmos que futebol sempre foi um veiculo de integração – ou discriminação – social na Austrália; que, por outro lado, a ‘Primavera Árabe’ foi também gestada em arquibancadas de futebol, onde torcedores organizados continuam se manifestando contra regimes autoritários, talvez possamos, em um exercício de imaginação politica, perceber os paralelos entre ambos movimentos que vieram da base da sociedade. Mais ainda, talvez percebamos que o futebol, apesar da sua crescente comercialização e muitas vezes do seu distanciamento do ‘povo’, continua sendo um elemento social importante para a contestação do autoritarismo e para a organização politica de diversos segmentos sociais.