Meninos de kichute (Luca Amberg, 2014)

27/02/2017

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Sessão nostalgia em pleno carnaval 2017. Bom, nostalgia para a geração, como a minha, que debateu ardorosamente a preferência entre o kichute, o conga e o bamba. Não sabe do que se trata? Novinho(a)! Segue a ilustração abaixo, para ajudar a garotada.

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Particularmente, nunca tive um kichute. Pra jogar bola gostava do conga (o bamba era pra passeio). Durava uns quatro meses de uso intensivo. Assim como os meninos do filme de Luca Amberg, boa parte da minha existência infanto juvenil foi passada em campinhos. Essa talvez seja uma força do livro de Márcio Américo, que virou o filme em questão. A esse respeito o diretor da película esclarece:

Acho que é uma autobiografia generalizada. O Márcio Américo escreveu um livro que lembra aqueles clássicos da literatura, que o tema retrata uma geração e seus costumes que marcaram uma época. Meninos de Kichute fala da infância de milhões de brasileiros oriundos da ‘geração kichute’, que iniciou em 1970, ano do tri, quando o kichute foi lançado, e se estendeu até os anos 90” (…). O título me atraiu de imediato (…) a cada capítulo  me identificava cada vez mais com a minha infância em Lages, porque os sonhos dos meninos de Londrina, eram os mesmos: queríamos ser jogador de futebol” (Site oficial do filme. Disponível em: http://ambergfilmes.com.br/. Consultado em 26 de fevereiro de 2017).

A citação foi um pouco longa, mas resume bem a proposta da obra. Meninos de kichute consegue estabelecer um painel facilmente reconhecível pelos contemporâneos. Ao mesmo tempo, ao tratar de crianças, bola, traquinagens, conflitos geracionais, colégio, expõe o caráter universal dessas primeiras experiências, realizações, possibilidades e decepções.

A narrativa se dá em torno do infante Beto. Esse garoto, filho de uma família pobre e com um pai rigoroso, tem duas habilidades que o destacam: sua perícia no “bafo” e sua recente destreza como goleiro. Enquanto jogava na linha não fez sucesso, mas acabou achando sua posição como guarda meta. Essa primeira descoberta infantil confere força ao personagem e à história:

Antes eu não era ninguém no campinho. Agora sou o primeiro a ser escolhido (Beto).

Toda pequena-grande odisseia de Beto (e da fita) se concentra na tentativa de dar corpo a esse ser que surge na brincadeira, dentro dos limites de um retângulo de areia. Isso vai demandar criatividade, tenacidade, ajuda e persistência. Como tudo o que vale a pena. Beto quer ser goleiro, quando crescer.

“E agora? Caga na mão e joga fora!”, como dizia esse adágio quase poético, retratado pelos garotos do filme. Ou seja, se você tá com uma folguinha entre um bloco e outro, ou cansado de seu retiro anti-momesco, por qualquer motivo, Meninos de kichute está disponível pra quem tem o Canal Brasil (ou pra quem se dispõe à arte de baixar filmes pela internet). Bom carnaval pra geral!


Cartão Vermelho (Brasil, Laís Bodanzky, 1994)

20/09/2016

 

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Hoje vamos abordar o segundo curta metragem nestes nossos escritos sobre futebol e cinema. O primeiro foi Mauro Shampoo, jogador, cabeleireiro e homem, de 2005 (ver neste blog: https://historiadoesporte.wordpress.com/2015/07/20/mauro-shampoo-jogador-cabeleireiro-e-homem-2005/).

O filme de Laís Bodanzky tem apenas 14 minutos e pode ser acessado com facilidade e proveito (http://portacurtas.org.br/filme/?name=cartao_vermelho). Trata-se de trabalho inaugural da diretora, a qual vai assinar uma interessante e original série de obras. Os maiores destaques talvez sejam Bicho de sete cabeças (2001, o primeiro e premiado longa metragem), Chega de Saudade (2007) e As melhores coisas do mundo (2010 – ver http://www.imdb.com/name/nm1738698/ e http://www.buritifilmes.com.br/a-lais.php?cat=lais).

A película em questão tem um enredo simples, mas relativamente ousado. Fernanda é uma menina que joga bola com os garotos da vizinhança (a sinopse do Porta curtas indica que a personagem tem 12 anos – http://portacurtas.org.br/filme/?name=cartao_vermelho). Ela mostra desenvoltura e habilidade. Não obstante, o elemento marcante de sua participação futebolística é que, invariavelmente, ela acerta os colegas com dolorosos arremates da bola nas partes baixas e vulneráveis. Um temor justificável começa a se apoderar dos moleques.

Sobre essa conduta duas coisas podem ser destacadas: a primeira é que Fernanda se utiliza disso para ampliar sua performance. Na última sequência de jogo, antes do encontro no “esconderijo”, os meninos abrem caminho (já ciosos pela manutenção de suas possibilidades reprodutivas) para sua colega, facilitando a vitória da temível adversária.

Em segundo lugar, é de se salientar o detalhamento cinematográfico, que indica um sorriso prazeroso de Fernanda ao atingir seus colegas. Pois bem, o roteiro e a ação ganham dramaticidade quando os amiguinhos da moça se reúnem e resolvem ir à forra. Fazem isso da seguinte maneira: refugiam-se em uma casa abandonada (o “esconderijo” da molecada) e atraem Fernanda para lá. Trata-se de um “julgamento” (e condenação). Uma das penas sugeridas seria a de uma contrapartida pura e simples, ou seja, chutar a bola em direção à “ré”, na mesma direção anatômica.

Um dos meninos, aparentando ser um pouco mais velho e em exercício de liderança, explica que isso não funcionaria, porque as meninas são diferentes. A solução então é a da exibição dessa diferença, para todo o time. Essa sequência, em um primeiro momento, é provocadora. Afinal, a menina chora e roga que não a exponham. Soa desconfortável e agressivo: são crianças. E é isso que é retomado prontamente. Os garotos, após natural curiosidade, se desinteressam rapidamente.

Outros recursos também são adotados para esfriar a narrativa. Evidentemente a intimidade de Fernanda não é devassada pela câmera; apenas os personagens a testemunham (cinematograficamente). Ademais, muito pronto dá-se um corte para uma ilustração didática da genitália feminina, narrada por aquele garoto-líder, que se chama Daniel. Uma sequência final dá cabo ao evento. Um dos meninos menores se vê diante do esboço da vulva, desenhada numa das paredes do esconderijo. Ali vemos, nitidamente, uma analogia gráfica a um campinho de futebol. Esse é o objeto de desejo realmente cobiçado pela turma. Ao menos pela maioria.

As cenas posteriores retratam Fernanda em sua cama, repassando mentalmente o ocorrido. Inicialmente a  filmagem sugere um recolhimento constrangido, mas a conotação logo muda quando a menina se recorda de Daniel e de sua atenção (aparentemente não compartilhada pelos demais) quando da sua exposição forçada.

E não é que no outro dia a Fernanda reaparece no campinho, se reapresentando para a brincadeira?  E sem mudar o tom, porque na primeira oportunidade atinge mais um infeliz portador de bolsa escrotal. Diante disso todo mundo reclama, mas Daniel impede qualquer ação coletiva;  agarra Fernanda pelo braço e deixa claro que ele vai cuidar do caso. Nesse momento uma nova aproximação da câmera explicita o sorriso da menina.

Em entrevista, a diretora esclarece que o tema abordado é o “da entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade” (http://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-50803/). Uma história corriqueira, portanto, mas que adquire contornos ligeiramente cômicos, dramáticos, inocentes e de jogo/brincadeira. Quem seduz? Quem provoca ou é provocado? Quem tem a iniciativa nessa história? Quem “pune” ou quem quer ser “punido”?

Acho que vale a pena despender 14 minutos pra entrar na brincadeira reflexiva proposta por Laís Bodansky.

Até a próxima!


Maldito Futebol Clube (Tom Hooper, RU, 2010)

25/04/2016

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Conforme o resumo apresentado na embalagem do DVD (é, alguns ainda utilizam esse instrumento arcaico de reprodução de filmes), a película em questão trata da “história repleta de humor e confrontos de Brian Clough” e seus “fatídicos 44 dias” à frente do Leeds United. Aliás, o técnico inglês é vivido por Michael Sheen, em atuação convincente. Seria mais ou menos isso. Na verdade, é outra coisa.

Não há dúvida que a assunção de Clough à chefia do time de seu maior rival (tal como apresentado na narrativa fílmica) consiste em período chave dessa história, mas há um antes e um depois, que, de fato, ocupam a maior parte da projeção.

Se tivéssemos que sintetizar essa produção, que acompanha a trajetória de um técnico de percurso inusitado, gênio difícil e controverso[1], diríamos que o marcante em toda a condução fílmica é a contraposição entre Brian Clough e Don Revie (interpretado por Colm Meaney).  Revie esteve à frente do Leads por onze anos.

Entendemos, portanto, que antes de tratar-se de um filme sobre um técnico de futebol (ou sobre o futebol na Inglaterra dos anos 60 e 70), essa obra lida, fundamentalmente, com a construção de uma identidade na perseguição de seu outro imaginado e da pujança dessa obsessão. E aqui não interessa o quanto a narrativa cinematográfica se ampara (em maior ou menor parte) na biografia histórica desses dois personagens reais. O filme até apresenta uma interessante reconstituição do período, mas isso é narrativamente secundário. Toda a lógica enunciativa se concentra na incontida busca de Clough em ser percebido por seu rival (o qual, aparentemente, e para enlouquecimento de Brian, sequer lhe dá muita atenção como adversário). Esse é o leitmotiv[2]. E é suficiente para a feitura de um bom filme (cativante e dinâmico) em torno do mundo da bola.

Pois bem, ainda sobre a oposição Brian Clough e Don Revie, destacamos quatro sequências que explicitam a conexão obsessiva do primeiro para com o segundo. Referimo-nos a um momento inaugural, em 27 de junho de 1968 (quando Clough e Revie se enfrentam pela primeira vez, em jogo entre o Derby County e o Leeds United: 0 x 2); a um diálogo entre Clough e seu parceiro, Peter Taylor (vivido por Timothy Spall), quando este se recupera de um infarto; a um telefonema de Clough para Revie, na madrugada e, finalmente, para uma aparição em programa televisivo no qual os dois são postos lado a lado, após a presidência do Leeds deliberar sobre a demissão de Clough.  Não cabe nos estendermos tanto assim, mas fixemos algumas palavras sobre o primeiro e o quarto desses momentos narrativos.

Como toda boa história, a rixa entre os dois treinadores apresenta um ponto inicial muito bem demarcado. Clough dirigia o pequeno Derby County e, pela primeira vez, teria a oportunidade de confrontar o poderoso Leeds e seu comandante, Don Revie. Com uma autoestima invejável, Clough imagina esse momento como um encontro de titãs e se prepara à exaustão. Compra um vinho especial (para um brinde após o jogo), com taças refinadas, veste-se impecavelmente, ordena uma geral nas humildes instalações do clube e, inclusive, cuida pessoalmente dos arremates de limpeza e arrumação, ele mesmo botando a mão na massa e fazendo uma minuciosa faxina. Tudo para o encontro com aquele que, parece, considera seu par e inspiração (com o retrato do que pretende ser em um futuro próximo). A expectativa e empolgação excessiva tem um sentido evidente: Clough procura reconhecimento. E é aí que o caldo entorna (expressão dileta de minha avó; deixo o registro/homenagem).

E transborda porque além do fato de que o Leeds ignora o Derby em campo, vencendo-o por 2 x 0, Don Revie simplesmente passa lotado por Clough, cumprimentando outros membros da equipe técnica, fisicamente mais próximos a ele e ignorando a existência do treinador. Neste momento preciso fica estabelecido o fio condutor da trama: mais do que ser campeão, do que erguer times pequenos, do que o sucesso dos clubes sob sua batuta, o que se torna vital para Clough é vencer Revie, impondo visibilidade àquele que elegeu como seu outro significativo.  Uma verdadeira “relação” (no filme, não têm contato direto entre si, com exceção do citado telefonema e do referido programa de TV) de ódio e amor (admiração; necessidade de reconhecimento).

O último dos quatro momentos indicados é desconcertante. Após a demissão do Leeds, Clough e Revie, como dissemos, se veem perfilados para um debate televisivo. As queixas de Clough afloram e aí é que vamos ter acesso à versão de Revie. Segundo este, no fatídico encontro de 1968, ele sequer sabia quem era o técnico do Derby. Cumprimentou quem estava a sua frente, apenas isso. Para Don Revie aquela desavença inaugural (tão fundamental para Clough) sequer havia sido constituída. Após o fim do programa, o entrevistador e Revie (recém empossado para dirigir a seleção inglesa) saem conversando. Brian Clough se vê só, imerso em seus dilemas e oposições que, talvez ele perceba naquele instante, significavam pouco ou nada para seu pretenso rival. É um momento narrativamente forte e cinematograficamente bem realizado.

O filme não acaba aí, mas o nó narrativo condutor, sim. Depois temos o soerguimento de Clough, obtido com a reconciliação: com seu parceiro de toda vida, Peter Taylor (com o qual havia brigado exatamente por conta de suas insistências obsessivas), e, principalmente, consigo mesmo.

Pouco futebol, mas um belo filme sobre alguns dos aspectos humanos (demasiadamente humanos) de dirigentes, jogadores, torcedores, escritores… dessa grande tribo da qual todos fazemos parte.

Até a próxima!

[1] Brian Clough (1935-2004) foi jogador e treinador. Como técnico foi campeão pelo Derby County, na segunda divisão inglesa, em 1968-69. Conseguiu  elevar o time à divisão principal, conquistando o título nacional de 1971-72. Sua passagem pelo Leeds United, peça destacada no filme em questão, foi meteórica e desastrosa. Não obstante, Clough conseguiu grandes feitos no Nottingham Forest: o campeonato inglês de 77-78 e a Copa dos Campeões da Europa, em 1978-9 e 1979-1980, dentre outras conquistas (Ver http://www.biography.com/people/brian-clough-17163934#early-life. Acessado em 25 de abril de 2016).

 

[2] Para outras abordagens, ver comentários de Thiago Correa e Thiago Borges, respectivamente em: http://www.cineplayers.com/critica/maldito-futebol-clube/1980 ; http://trivela.uol.com.br/maldito-futebol-clube-os-piores-44-dias-de-brian-clough/ . Acessados em 25 de abril de 2016.

 


Um time show de bola (ESP/ARG/RU/ EUA, Juan José Campanella, 2013)

01/12/2015

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Hoje vamos dedicar algumas palavras a um filme de animação. Não me recordo de ter comentado outra película do gênero, neste blog; então se trata de uma estreia. Um debut de certo peso, diga-se de passagem. Um time show de bola tem a direção de Juan José Campanella, um diretor argentino, nascido em 1959, na cidade de Buenos Aires. Campanella não dirigiu muitos filmes (nove longas), mas emplacou grandes sucessos e, principalmente, é responsável por um pequeno conjunto de preciosidades. Lembremos de O filho da noiva (2001), Clube da lua (2004), O mesmo amor, a mesma chuva (1999) e O Segredo dos seus olhos (2009). Este último obteve o Oscar de melhor filme estrangeiro, além de outros prêmios (o número relativamente pequeno de obras conquistou importantes e variados prêmios internacionais: Ariel Awards, 2009; Festival de Cartagena, 2001; Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, 2009; Goia, 2009 etc. – Ver http://www.papodecinema.com.br/artistas/juan-jose-campanella, consultado em 30 de novembro de 2015).

Muitos dos leitores que certamente já viram um ou mais dos filmes acima, também vai estar atento à dobradinha que o diretor portenho vem fazendo com o talentoso ator Ricardo Darím. Parceria que vem dando mais do que certo. Pois bem, no que tange nossa praia, ou seja, produções fílmicas a partir do futebol, Campanella já havia fornecido algum material pertinente. Referimo-nos a uma já famosa sequência de O Segredo dos seus Olhos, na qual se dá uma busca e perseguição no interior do estádio do Huracán (Estádio Tomás Adolfo Ducó; ver http://wp.clicrbs.com.br/zoom/2010/06/23/como-foi-feita-a-sensacional-cena-do-estadio-no-longa-%E2%80%98o-segredo-dos-seus-olhos%E2%80%99/?topo=52,1,1,,165,e165 . Consultado em 30 de novembro de 2015).

Não obstante, o melhor filme de língua estrangeira de 2009 (Oscar) não é um filme sobre o esporte bretão. De acordo com Campanella, nem mesmo Um time show de bola se enquadraria nesse rol. Senão, vejamos:

Em todos os filmes que fiz, nenhum fala sobre futebol. Mesmo O Segredo dos seus Olhos, naquela cena específica, os jogadores em campo aparecem por segundos, pois o foco está na torcida e nos olhos do protagonista. Metegol é nome que damos ao pebolim, e também não é um filme sobre futebol, da mesma forma que poderia ser dito que Rocky (1976) não é um filme sobre boxe (Entrevista do diretor em 14 de agosto de 2012. Disponível em: http://www.papodecinema.com.br/entrevistas/os-segredos-de-juan-jose-campanella. Consultado em 30 de novembro de 2015).

Então, do que trata Metegol? Juan José nos esclarece:

não gosto de futebol (…). O que me interessa, no entanto, é a paixão que o futebol desperta. A mim não me comove, mas nos outros vejo que é algo muito importante (Idem).

A “paixão” seria o substrato. A paixão entre o personagem de Amadeo e Laura; de Amadeo pela sua brincadeira de infância (o totó); entre pais e filhos, entre multidões e as emoções proporcionadas pelo jogo (futebol). Dentre outras.

Me ocorreu agora que ainda nem descrevi o enredo básico. Vamos a ele. Amadeo é um jovem que vive e trabalha num bar de um pequeno vilarejo. Joga totó à vera e tem uma queda por Laura. Colosso é seu contraponto e fecha o trio amoroso. Em uma partida de pebolim de proporções épicas (para os parâmetros de seu pequeníssimo pueblo natal), o garoto derrota seu rival. Uma vitória cheia de consequências, pois Colosso vai se tornar um mega astro do futebol profissional e, ressentido, comprará a cidade inteira e voltará para uma revanche, agora nos gramados. Ah, nesse meio tempo os jogadores do totó ganham vida e parte considerável da centralidade da película (para uma sinopse menos sucinta ver http://www.cinefoot.org/portfolio-item/um-time-show-de-bola/. Acessado em 30 de novembro de 2015).

Bom, mais duas coisas, pelo menos. Primeiramente a empreitada do cineasta argentino no campo da animação. Não é seara fácil, ele mesmo reconhece. A produção custou US$20 milhões, durou mais de cinco anos, mas conseguiu bom retorno de público (só na Argentina teve 2,1 milhões de ingressos vendidos). E também serviu como exemplo/manifesto político cinematográfico:

Precisamos acabar com esse monopólio e com o preconceito contra a participação de outros países que não os EUA na animação (Matéria em O Globo: “Filme de Juan José Campanella conquista o Festival do Rio”. Disponível em: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-181488/#. Consultado em 30 de novembro de 2015).

Aliás, a qualidade técnica chama a atenção e consiste, sem dúvida, em um dos pontos fortes da fita. Destacaria também a sequência inicial, com uma animada espécie de versão futebolística dos primeiros takes de 2001- Uma Odisseia no Espaço (Stanley Kubrick, 1968). Imperdível.

Dos limites eu não vou falar, só depois que vocês virem o filme, já que a aposta é a de que vale a pena.

Até a próxima!

 

 


Mauro Shampoo – jogador, cabeleireiro e homem (2005)

20/07/2015

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Hoje vamos tratar de um curta metragem. Salvo engano, ainda não havíamos lidado com filmes com essa duração; uma lástima, dada a boa produção nacional nesse formato e as interessantes abordagens sobre o futebol, nesse modelo reduzido. Um outro link pertinente é que o autor deste post atua, há 15 anos, na coordenação de um cineclube de Escola, o Cineclube Olho na Cena, o qual reexibiu esse pequeno filme em julho, com boa aceitação do público (quem tiver curiosidade pode dar um pulinho no nosso face: https://www.facebook.com/CineClubeEteab).
Pois bem, a película tem um título jocoso: Mauro Shampoo – cabeleireiro, jogador e homem (de Leonardo Cunha Lima & Paulo Henrique Fontenelle, 20’, 2005). Conforme a sinopse, trata-se de obra sobre o “ex-jogador de futebol e folclórico cabeleireiro da cidade de Recife. Com apenas um gol marcado em toda carreira, alcançou a fama como atleta-símbolo do Ibis Sport Clube, que entrou para o Guiness Book como ‘O pior time de futebol do mundo de todos os tempos’”(disponível em: http://portacurtas.org.br/filme/?name=mauro_shampoo_jogador_cabelereiro_e_homem).
Aqui já temos uma indicação instigante. A trajetória de Mauro Shampoo é curiosa. Mauro Teixeira Thorpe foi menino de rua, em Recife. Dormia na rua e, aos poucos, foi construindo uma profissão (vendedor de pastéis, engraxate e cabelereiro). E tentou ser jogador de futebol. Um dos trechos mais comoventes do curta faz menção a esse começo difícil e à ascensão social de Mauro. Com orgulho e lágrimas, o ex atleta do Ibis registra que conseguiu uma casa, uma família, educação para os filhos e “um respeito da porra” de todo o pessoal. Uma vitória e tanto.
Por outro lado (mas simultaneamente) essa escalada foi muito alavancada pelo seu insucesso no Ibis (dele e do time). O incrível percurso de Shampoo e de seu clube, que contabilizou dezenas de derrotas sucessivas, goleadas de mais de dois dígitos e o “ápice” com a indicação ao Guiness, catapultou (pela bizarrice?) uma popularidade da instituição e de seu mais carismático elemento. Um jogador/cabeleireiro de longos fios, inspirado em Maradona (o cabelo), camisa 10 e com um único gol na passagem pelo time que o “consagrou”. Realmente é inusitado.
Oswaldo Montenegro, que escreve uma canção para Mauro, o define como “o centroavante glorioso da derrota”, que a “tristeza enxota”. Um “anticraque dessas lidas”. Meio “pereba, artista, herói” e que faz “do vexame uma festança” (A incrível história de Muro Shampoo – Disponível em: http://letras.mus.br/oswaldo-montenegro/809094/).
Na verdade, o que eu gostaria de destacar é isso. O conto da derrota que se transforma em vitória. Mesmo para descrever a história do pior time, do pior camisa 10, segue-se, na narrativa que envolve o esporte, a máxima da superação. E como poderia deixar de sê-lo? Como transformar em estória exibível a ampla derrota? Talvez daqueles que não tenham conseguido transmutar o fiasco do Ibes, como time de futebol, em holofote pessoal (Mauro Shampoo foi genial nessa função; demostrando genuíno e raro talento para a autopromoção). Mas para cada vencedor há uma multidão de tentadores. Nunca teremos produções que abordem essa vertente (ao final de contas extremamente majoritária) do desporto?
Acho que a questão vale um novo post. Vamos ver.


Gracie (EUA, 2007, de Davis Guggenheim)

10/03/2015

Gracie - Cartaz

Pois bem meus caros leitores do Histórias do Sport, neste nosso primeiro post do ano, quase vizinho ao dia internacional das mulheres, vamos voltar a um tema já visto aqui: o futebol praticado por mulheres. Na verdade o que mais nos chama a atenção é um certo viés de tratamento fílmico à participação feminina no futebol, tal como tratado em algumas películas norte-americanas.

Como dissemos, já falamos algo a respeito, aqui mesmo. Em dois títulos espanhóis, duas comédias (La liga no es cosa de hombres, de 1972 e Las Ibéricas, de 1971 – ver posts neste Blog), tratamos de apreensões fílmicas sobre a presença feminina no esporte bretão. Não obstante, foi uma produção americana de 2006 (Ela é o cara – também neste Blog) que chegou mais perto do filme de hoje. Tanto neste último filme como em Gracie, temos meninas cortando um dobrado para jogar futebol (soccer) em times de Colégios.

Até aí tudo bem, viva o futebol feminino! A questão menos comum, em ambos os casos, é que a luta consiste em jogar em times de meninos, o que acaba se tornando (narrativamente) uma espécie de singelo libelo feminista. Sem entrar na discussão sobre a pertinência, viabilidade ou desejabilidade de times mistos no futebol ou em outras práticas desportiva em geral, o que parece se evidenciar é uma fórmula fílmica e uma certa visão sobre o soccer (para uma apresentação sobre a discussão sobre times mistos, ver: Fifa admite a formação de times mistos. Disponível em:   http://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/fk0210200321.htm#_=_ . Acessado em 09 de março de 2015 & Guerra dos sexos. Disponível em: http://super.abril.com.br/ciencia/guerra-sexos-444003.shtml .Acessado em 09 de março de 2015).

Bom, é preciso falar um pouco sobre o filme. Gracie é uma produção modesta, que se passa em New Jersey, no ano de 1978. A fita nos é apresentada como a história de uma jovem de 15 anos cuja vida da família gira em torno do futebol. “O sonho da adolescente é jogar bola com seus amigos, mas seu pai não acha que esse é um esporte para mulheres” (http://www.adorocinema.com/filmes/filme-111527/.Em 09 de março de 2015). Como de costume, uma quebra da ordem (uma inflexão do rumo previsto), propicia o desenrolar da trama.

O irmão bom de bola da família, o mais velho (de uma família de três varões e uma moça), protagoniza uma derrota do time escolar (perde um pênalti na final) e, desgraça pouca é bobagem, acaba morrendo em um desastre de carro. A missão de Gracie é clara (ao menos para ela e para o roteirista): vai assumir o lugar do irmão e conquistar o próximo campeonato.

Os percalços são muitos, é óbvio. Desde a inicial resistência familiar até os obstáculos institucionais: será que a escola vai permitir? Os colegas vão aceitar? E por aí vai. Até um dispositivo legal (real) é acionado. O “título nove” de uma lei federal que garantiria o “acesso igual ao esporte para as garotas”, conforme defesa de Gracie, frente ao comitê escolar (essa lei realmente existe; não é bem pra garantir a presença em times mistos… mas sim “a gender equity for boys and girls in every educational program that receives federal funding”: traduzindo com base na referência abaixo: Igualdade de direitos e acessos para garotos e garotas, em cada programa educacional que receba fundos federais: Disponível em: History of Title IX. http://www.titleix.info/history/history-overview.aspx . Em 09 de março de 2015).

Enfim, com apoio familiar tudo é possível (parece ser o mote moral do filme), e Gracie arrebenta numa final esportiva cinematográfica. A equipe local fica em desvantagem. O tempo é pouco; a garota entra com o time precisando de um gol para não deixar o título escapar de novo e, é claro, ela consegue. Não sem o suspense de uma bola na trave (em possível repetição à falha do irmão). Nos últimos momentos, no entanto, a boleira passa por dois adversários, joga na caneta do terceiro e faz um gol improvável.

E no final das contas o que eu queria destacar é isso. Uma certa modelagem do filme esportivo e do filme juvenil sobre futebol nos EUA. O soccer filmado nesse modelo transforma-se num espaço de afirmação da igualdade feminina, em um suposto direito de jogar lado a lado com os garotos. Vejam como o diretor arremata a história nos créditos finais:

Graças ao título nove e a meninas corajosas como Gracie, há cinco milhões de garotas que jogam futebol (soccer) na América. Desde 1991 a seleção feminina dos EUA venceu quatro campeonatos mundiais.

Algo aparentemente estranho até para a América, realmente um dos mais fortes núcleos do futebol feminino (não misto) mundial (ver GUEDES, Simoni L. “Um dom extraordinário ou ‘cozinhar é fácil, mas quem sabe driblar como Beckham?’:  comentários a partir do filme Driblando o destino”.  In: MELO, Victor A.  &  ALVITO, Marcos (orgs).  Futebol por todo o mundo  – diálogos com o cinema.  RJ, FGV, 2006,p. 50).

Será que essa reivindicação rolaria para o football americano?

Um abraço à todos e em especial às moças, pela data comemorativa.


1958, o ano em que o mundo descobriu o Brasil (José Carlos Asberg, 2007)

20/10/2014

CARTAZ 1958

Tudo o que aconteceu depois (…) tinha importância, mas não convencia

(Moacir Claudino, reserva de Didi)

O trecho acima, de imediato um pouco nebuloso, veio a ganhar um contorno mais nítido (ao menos para mim) quando me lembrei de um texto lido num dia qualquer: uma crônica, acho. Tratava-se de uma discussão jocosa, mas pertinente, sobre a vida de um dos pouquíssimos homens a pisar na lua (foram 12 e somente 12, até hoje – ver http://noticias.terra.com.br/ciencia/conheca-os-12-homens-que-pisaram-na-lua,b5c884bb948ea310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html). Frente às comezinhas e tediosas atividades do dia a dia, o ex-astronauta interpelava a si mesmo: porra, eu já fui à lua!

Essa sensação, a de pressentir ou mesmo saber que nada do que se fará adiante alcançará o mesmo patamar anterior, não é exclusiva aos idosos tripulantes das missões Apollo. Tendo-se isso em mente é que é possível bem compreender o meia Moacir. Outras aventuras e desventuras certamente se assomaram a trajetória do jogador (ver http://esporte.uol.com.br/futebol/copa58/selecaobrasileira/moacir.jhtm), mas como superar a participação vitoriosa em uma Copa do Mundo, a primeira do Brasil?

Esse é um tipo de conquista, ademais, que não se espraia apenas entre seus realizadores. É essa dimensão (maior, coletiva, nacional) que vai permear a condução da direção de José Carlos Asberg. Utilizando-se dos recursos de filmes de época, provocação de depoimentos memorialísticos e dramatização, Asberg nos conta a história de uma mini epopeia premonitória. Sim, porque 1958 nos é apresentado com um duplo significado. Um interno e outro externo.

Para “os brasileiros” teria significado o rompimento com o “complexo de vira latas” (reafirmado em 1962, 1970, 1994 e 2002), definido textualmente no filme com o apoio de uma dramatização de Nelson Rodrigues à máquina de escrever. Externamente, mas articuladamente, teria implicado nosso début (positivo) internacional: “o ano em que o mundo descobriu o Brasil”. Um Brasil vitorioso, altivo, talentoso e admirável.

Nesse sentido, a fita de Asberg re-escreve, cinematograficamente, parte substancial da crônica sobre os sentidos atribuídos ao futebol no Brasil; à sua associação a uma construção de uma identidade nacional positiva (a literatura acadêmica já ponderou razoavelmente sobre essas operações; ver, por exemplo, ANTUNES, Fatima M. R. Ferreira. “Com brasileiro, não há quem possa!” – Futebol e identidade nacional em José Lins do Rego, Mário filho e Nelson Rodrigues. São Paulo, Editora UNESP, 2004 &  GUEDES, Simoni Lahud. Futebol e identidade nacional: reflexões sobre o Brasil. In: PRIORE, Mary Del & MELO, Victor A. de. História do Esporte no Brasil. São Paulo, Ed. UNESP, 2009).

Particularmente, eu destacaria a boa presença do futebol na fita de Asberg (de futebol filmado e de futebol comentado). Esse é um mérito dessa película. Todos os jogos do Brasil na Copa são passados em revista, com suas vicissitudes intra e extra campo e com o recurso às imagens disponíveis. Alguns jogadores como Djalma Santos, Vavá e, principalmente, Didi, Garrincha e Pelé são devidamente destacados. Só esses três já valiam uma série fílmica inteira. Os depoimentos de ex-futebolistas estrangeiros que disputaram o certame e enfrentaram esse trio é um ponto forte da obra.

O Escrete de 1958

Por fim, e retomando a estrutura narrativa, o que parece ficar evidenciado (provavelmente à revelia dos autores) é não tanto o fim da pretensa viralatice nacional, mas sim um percurso que vai desta a uma hiperbólica auto-avaliação. Isso pode ser vislumbrado desde o título do filme até uma garrafal manchete de jornal (O Globo?) devidamente enquadrada e destacada na parte final do filme: “Curvou-se o mundo diante do maior futebol do Universo”.

Um fosso abissal teria sido atravessado. Da condição de cão sem dono a de soberania mundial e… universal (ok, Didi, Garrincha e Pelé até pareciam ser de outro mundo, mas daí a isso…).

Essa imensa oscilação autoavaliativa foi acionada historicamente outras tantas vezes (e não somente em termos futebolísticos, é claro; ver uma discussão pertinente em FICO, Carlos. Reinventando o Otimismo. Rio de Janeiro, FGV, 1997).

1958, então, parece menos a cura do complexo de “inferioridade em que o brasileiro colocava-se voluntariamente face ao resto do mundo” do que uma imersão ciclitímica da nação (de uma certa forma de se imaginar a nação) que mais parece corresponder a uma espécie de bipolaridade tupiniquim. Mas isso eu acho que já fica para um próximo post.

Abraços cívicos (a eleição está próxima)!