O Rei Pelé (Carlos Hugo Christensen, 1962): cinema, futebol e racismo

17/11/2020

– Pelé é bonzinho! (Silene, amiga adolescente)

– Pelé é uma criança! (mãe de Silene)

– Mas é preto! Eu sou um sujeito que não bebe cachaça,

porque cachaça é bebida de preto! (pai de Silene)

 

O inusitado diálogo acima é parte do enredo de O Rei Pelé, o primeiro longa sobre nosso futebolista-mor. Hoje, o post é sobre essa película. Na verdade, a lembrança veio após uma nova visita ao filme (disponível no youtube, aliás: https://www.youtube.com/watch?v=J0AmFTZ5TX8&t=491s) e no fato de que esta publicação estava agendada em meio às comemorações dos 80 anos de Edson Arantes do Nascimento, no último dia 23 de outubro e o dia da Consciência Negra, na próxima sexta (20 de novembro). Se as efemérides servem para algo (e servem), talvez valha a pena aproveitarmos essas referências para o breve comentário abaixo.

O último aniversário de Pelé, agora octagenário, suscitou comemorações e debates (Esporte da Globo celebra os 80 anos do Rei Pelé-https://imprensa.globo.com/programas/futebol/textos/esporte-da-globo-celebra-os-80-anos-do-rei-pele/).

Como não podia deixar de ser, dentre outras, a questão do racismo e das posturas do Rei voltaram à tona (Pelé: Racismo e esquecimento marcam os 80 anos do jogador. Disponível em: https://www.geledes.org.br/pele-racismo-e-esquecimento-marcam-os-80-anos-do-jogador/). Trata-se de uma discussão de longa data. Não vou entrar diretamente nessa seara; não agora, mas aproveito para mantê-la em mente, na apreciação da película (para uma pequena amostra do debate: Pelé: “o racismo não mudou, o que mudou foi a imprensa”. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/esporte/2020/03/17/pele-o-racismo-nao-mudou-o-que-mudou-foi-a-imprensa; Paulo C. Caju diz que Pelé também tem culpa por racismo no futebol. Disponível em: http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2014/04/10/paulo-c-caju-diz-que-pele-tambem-tem-culpa-por-racismo-no-futebol.htm).

O longa de Carlos Hugo Christensen, o sétimo de sua carreira, não apresenta uma trajetória muito avantajada; não no que tange a apreciação da crítica (ORICCHIO, 2006; MELO, 2009). Visto agora, quase sessenta anos depois, reveste-se de interesse histórico e reflexivo. Antes de mais nada, porém, cabe destacar que a fita constitui um marco no seio de uma considerável trajetória cinematográfica do nosso astro da bola e das telas (mais da bola; muito mais da bola, é claro). Não obstante, a presença de Pelé no cinema não é nada desprezível. O professor Victor Melo fez um apanhado em 2009: relacionou, na ocasião, 24 títulos (de todas as metragens) nos quais Pelé atua ou é representado (MELLO, 2009). Esse rol está desatualizado. As recentes produções Pelé – o nascimento de uma lenda (EUA/Brasil, Jeff Zimbalist e Michael Zimblist, 2016) e Pelé, a origem (Luiz Felipe Moura, 2019), por exemplo, precisam sem acrescidas ao conjunto. Mas vamos à obra.

O Rei Pelé mistura dramatização e documentário. Poderia ser confundido com uma concepção “moderna” no gênero, posto que evidencia sua condição de construto. Na verdade, porém, a intenção é assinalar verossimilhança. Nesse sentido, a narrativa entremeia temporalidades. Temos um Pelé adulto, já famoso, sendo interpelado ‘casualmente’ pelo produtor e argumentista Fábio Cardoso (ambos interpretam a si mesmos). Essa encenação de conversa informal/entrevista funciona como fio condutor à dramatização de uma biografia do astro-boleiro (para alguns bons detalhes, ver crítica de Gabriel Carneiro. Disponível em: http://www.portalbrasileirodecinema.com.br/christensen/filme-o-rei-pele.php?indice=filmes#).

Simultaneamente, abusa-se do modelo da narrativa heroica. O fado de Pelé está traçado desde a origem: garantido pelo oráculo local, a negra Raimunda, mãe de Santo que prevê que o menino que acabara de nascer iria consagrar-se “rei do mundo”. Seguindo o roteiro épico, temos a resistência ao chamado (Dico, apelido infantil de Edson, resiste à alcunha de Pelé… uma reticência ao destino). Com essa mesma função narrativa, temos a promessa do garoto de deixar de jogar bola (por pressão de sua mãe, Dona Celeste, interpretada pela própria!). Evidentemente a força da sina se impõe. E por aí vai, com a(s) queda(s), soerguimento e consagração. Tudo muito conhecido e, por isso, não insistiremos. O detalhe é que toda essa trajetória já pôde ser concebida (já reunia condições de possibilidade edificante) quando Pelé tinha somente 22 anos! Essa é a sua idade quando da realização do filme. Durante “a produção, o desportista conquista a Copa do Mundo, o Brasileiro, a Libertadores e o Intercontinental pelo Santos”(http://www.portalbrasileirodecinema.com.br/christensen/filme-o-rei-pele.php?indice=filmes#).

No final das contas, a película trata disso: da fulminante ascensão e extensão desse fenômeno (até aquele dado momento; sabemos que muita água, e gols, rolariam dali em diante). A narrativa é balanceada com imagens esportivas reais e com detalhes e passagens familiares e biográficos (mais ou menos romantizados – provavelmente mais) e afirmações do (bom) caráter do personagem/biografado.

Não obstante, o filme é rico. Vale um esquadrinhamento. Por hora ficarei com um único destaque. Retomando um pouco o fio desta meada (nossa conversa no início), chamo a atenção para uma discussão do enredo, a qual envolve a temática do racismo e seu lugar na biografia do jogador/personagem. Isso me saltou aos olhos desde a primeira vez que assisti ao filme, exatamente pela noção de como essa questão foi controversa ao longo da vida pública do astro. Também me chamou a atenção que alguns dos poucos comentários especializados sobre a obra não tenham desenvolvido esse ponto; fato compreensível, dada a limitação do escopo de suas abordagens específicas (estão a tratar de outros temas – ORICCHIO, 2006; MELO, 2009).

No entanto, ele está lá; de modo explícito, narrativamente significativo e curiosamente contraditório. Sintetizemos a situação e o imbróglio. Tudo começa com uma conversa entre o jogador do Santos e Fábio Cardoso, no modelo já descrito. Este último pergunta, na lata:

– Escuta, Pelé, você nunca teve problema racial?

Ao que Pelé retruca: – Não, nunca. Só uma vez. Na época em que eu jogava no Baquinho [time juvenil do Bauru Atlético Clube].

É dessa situação que trata a epígrafe deste post. Com essa “deixa”, somos transportados à dramatização do contexto de um Pelé garoto, um jovem adolescente. Na ocasião, ele contaria com uma amiga, uma menina de idade semelhante, branca. Seu nome é Silene.

A moça tem um indisfarçável crush pelo nosso protagonista. Uma atração infanto-juvenil, que envaidece a personagem de Pelé, mas frente a qual ele parece não dar muita pelota. Essa afeição, porém, é severamente reprimida. O problema: o pai da donzela. Um racista sem papas na língua. Mas é essa crueza que, em uma visão retrospectiva, potencializa a comoção. Já ilustramos sua verve na epígrafe, mas, se necessário, poderíamos acrescentar as expressões “preto sem vergonha” e “negro não é direito”, todas veementemente utilizadas pelo patriarca. Para além desse festival de horrores, parece relevante pontuar duas coisas. O importante papel desse personagem/conflito na narrativa fílmica e a constituição cinematográfica da mesma (ou seja, como ela foi escrita em termos cinematográficos). Irei me restringir a esses dois itens e encerraremos.

Para sumarizar, é importante atentar que, não bastasse o racismo, o pai de Silene é desonesto. Junto com um comparsa, ele oferece 200 cruzeiros (“dinheiro pra burro”) para que o jovem futebolista fizesse corpo mole (por arranjo de apostas, é claro). A sequência dessa primeira provação/tentação do herói é bem marcada. Acontece em uma espécie de Museu itinerante do horror, na cidade de Bauru. O garoto-Pelé é abordado e recebe a proposta indecorosa, primeiro com uma voz em off, seguida de cortes que intercalam closes do menino com a exibição de tenebrosas figuras, do acervo do tal museu. Depois de algum tempo, os personagens corruptores se fazem mostrar, estão posicionados atrás do jovem atleta, sugerindo, incentivando-o ao acordo nefasto.

Em desenho animado, isso corresponderia ao diabinho soprando a má sugestão ao incauto. Uma verdadeira encenação das encruzilhadas e tomadas de decisão, que determinam os rumos de uma vida. Essas figuras malévolas são incorporadas pelo pai da moça e um comparsa (sério candidato a assecla de Mefistófeles). Representam o mau caminho. As más práticas, o mau caráter, o racismo, o horror, explicitamente figurado nas carrancas e representações da morte da esquisita casa de entretenimento em Bauru.

A estória se desenrola, com percalços interessantes, aliás. Mas, a despeito de tudo, a opção é feita com a repulsa ao “dinheiro fácil” e à “traição aos companheiros”.

Esse ponto não é subsidiário. É crucial à trajetória que forja o herói, identifica o mal e constitui a narrativa fílmica. Para não haver dúvidas, é o próprio Pelé (na sua versão adulta, representada pelo próprio), que ‘esclarece’ o sentido ao produtor/argumentista Fábio Cardoso:

– Você comprende, Fábio? Foi bom que os caras tivessem querido me comprar. Aprendi pra toda a vida.

Dá vontade de continuar. Mas, creio que já estourei os limites razoáveis de extensão do post (vou complementar alhures: aviso ou republico aqui, para quem queira conferir).

Em arremate, uma última observação. Para uma única experimentação de racismo (à altura dos 22 anos, na década de 1960), a indicação do Pelé fílmico foi contundente (para cruzamento com declarações do Pelé histórico, voltamos a remeter aos links já citados). Foi responsável, junto com a tentativa corruptora (perpetrada pelo mesmo algoz), pelo delineamento do caráter do jogador/homem/herói. Foi constitutiva, portanto. Todo o esforço deste escrito foi motivado pelo estranhamento de, em um primeiro momento, não ter encontrado o destaque que parece cabível a essa trama, no campo dos escritos sobre cinema e futebol. Se este for o caso (o de uma ausência), espero ter contribuído para sua minimização, com este pequeno quinhão indicativo. Uma boa semana a todos!

Até a próxima!

Obras citadas:

MELO, V. A. Garrincha X Pelé: Futebol, Cinema, Literatura e a Construção da Identidade Nacional. In: MELO, V. A & DRUMOND, M. (orgs.). Esporte e Cinema: novos olhares. Rio de Janeiro, Apicuri, 2009.

ORICCHIO, Luiz Zanin. Fome de bola: cinema e futebol no Brasil. São Paulo, Imprensa Oficial, 2006.

Para outros posts que escrevi sobre filmes com/sobre o Pelé:

Os Trombadinhas (Anselmo Duarte, 1979) – https://historiadoesporte.wordpress.com/?s=os+trombadinhas

Pelé – o nascimento de uma lenda

(EUA/BRA, 2016, Jeff e Michael Zimbalisthttps://historiadoesporte.wordpress.com/2017/12/21/pele-o-nascimento-de-uma-lenda-eua-bra-2016-jeff-zimbalist-e-michael-zimbalist/

Isto é Pelé (Luiz Carlos Barreto/Eduardo Escorel, 1974) – https://historiadoesporte.wordpress.com/?s=futebol+e+cinema+v


O Medo do Goleiro diante do Pênalti (ALE Ocidental/Áustria, Wim Wenders, 1972)

16/06/2020

CARTAZ DE O MEDO DO GOLEIRO DIANTE DO PÊNALTI

Bloch, o goleiro-protagonista, na última sequência da película:

– Você já tentou manter a visão sobre o goleiro, ao invés dos atacantes?

É muito difícil deixar de olhar para a bola. É preciso fazer um esforço imenso. Ver o goleiro correr para trás e para frente, inclinar-se à direita e à esquerda, gritar com os zagueiros. Em geral, somente se presta atenção ao goleiro quando dos chutes a gol.

É engraçado observar o goleiro correndo com a bola (tradução livre; grifos próprios).

Boa noite!

Por dever, advirto sobre o óbvio: este post contém spoilers.

O extrato acima reproduz trecho do último diálogo do goleiro Joseph Bloch, vivido pelo ator Arthur Brauss. Dá-se diante de uma partida de futebol, em um uma localidade fronteiriça, em algum recanto da Alemanha ou Áustria… Nem Bloch nem seu interlocutor (um personagem sem nome, com essa única aparição) sabem quais os times estão em campo. Ambos estão de passagem e pararam para ver um jogo; fosse qual fosse. Este, talvez, seja um dos poucos pontos de contato entre essa película e alguns dos itens tradicionais de exibição e discussão de filmes que tematizam o futebol e uma cultura futebolística. Quem de nós nunca deixou de fazer qualquer coisa para se postar diante de um clássico obscuro, apenas para ver um futebolzinho qualquer… Nesses tempos de pandemia e recesso desportivo, então, campeonato do Turcomenistão ganha ares de Champions. Mas os encontros temáticos (situações, circunstâncias, conflitos) ligados a filmes de futebol (ou que tangenciam o esporte bretão) praticamente acabam aí. Por isso o destaque do diálogo em epígrafe.

Trata-se, aqui, de um convite a um “esforço imenso”, o de olhar o jogo pela ótica daquele(s) que menos aparece(m). Do ponto de vista não do goleador, do regente meio-campista, do grande craque, numa expressão: daqueles que conduzem a bola. Pelo contrário. E, nesse caso, o goleiro é a figura ideal.

Cinematograficamente, isso muda tudo. Em termos de gênero fílmico (se pensarmos em um subgênero de filmes esportivos, por exemplo) se vai na contramão do habitual. As histórias de sucesso, travessias heroicas e jornadas de superação (uma legião nas fitas de/sobre esporte) não encontram eco nessa desventura de Wim Wenders.

É, ainda não havia falado, mas é um filme de Wenders. O terceiro longa assinado pelo diretor alemão (o segundo com firma solo). E isso também muda tudo. Mas não queria me alongar em comentários sobre o diretor. Basta chamar a atenção (para futuras empreitadas ou investidas curiosas) que O Medo do goleiro é a primeira colaboração de Wenders com o escritor Peter Hanke (Nobel de literatura em 2019), em um conjunto que inclui Movimento em falso (1975) e o ilustre Asas do desejo (1987 – Ver https://www.uai.com.br/app/noticia/pensar/2017/03/03/noticias-pensar,202770/livro-analisa-parceria-entre-escritor-peter-handke-e-wim-wenders.shtml). A conexão entre essas três obras é patente e trata-se de grandes peças do cinema. Fica a dica.

Voltemos ao nosso filme.

Temos, portanto, uma anti-história heroica. E, é claro, essa imagem-narrativa não se limita ao espectro esportivo. Não é só no esporte (no futebol, no caso) que a absurda maioria não se encontra sob a luz dos holofotes. É evidente que o filme de Wenders não é sobre futebol; é sobre goleiros, ou melhor, sobre uma condição de des-protagonismo, desmotivação (ou desconhecimento mesmo de motivações/propósitos que pudessem se confundir com a busca pelo ‘sucesso’, fama…). É sobre o des-propósito, sobre a solidão, sobre a zona des-iluminada. É sobre um pouco de nós ou de porções nossas do dia a dia. Se isso tem sentido, é claro que a narrativa fílmica não poderia ser estandardizada (não poderia adotar o padrão dos filmes de superação heroica; não teria sentido fílmico/artístico; não seria Wenders).

Por isso o filme é descrito (é só conversar com os colegas que acharam que iam ver futebol alemão na película…) como arrastado, monótono, sem sentido.

– É puro nonsense! Vaticinou um outro. Não se pode saber o que se passa na cabeça de Bloch nem o porquê de suas ações des-propositadas, que incluem um homicídio sem nenhuma motivação.

E por um acaso se pode saber o que se passa na cabeça de alguém? Se nos lembrarmos de Asas do Desejo, vamos ver que este é um tema comum; somente os anjos de Wenders conhecem a natureza exata do pensamento dos homens, mas o preço é a des-humanidade; é nunca experimentar o que nos compõe/configura.

Nesse sentido, a narrativa imagética é ligeiramente esgarçada, temos cortes secos e sintéticos, assim como as conversas: curtas e enviesadas. Muitas vezes não há diálogo; embora em pretensa conversação, na verdade os interlocutores não são os outros, mas os próprios personagens que falam para si mesmos. Será que nos é impossível reconhecer situações semelhantes, presenciadas e/ou vivenciadas? Ou isso é mais uma parte do “esforço imenso” ao qual somos convidados pela fita?

Vou parar por aqui, mas admito que ainda nem comecei. Não falei nem do título… Pretendo retomar essa película como um gancho para uma mirada atualizada na literatura que lida com o futebol filmado. A relação futebol e cinema é escancarada e potencialmente rica na atuação do nosso goleiro anti-protagonista. São duas coisas (três, na verdade) que, independentemente de qualquer sorte (ou falta de), aparecem como constantes para Joseph Bloch: futebol, cinema (ele passa o filme entrando e saindo de salas de exibição) e mulheres, inclusive, e sintomaticamente, a… bilheteira de seu cinema de vizinhança.

Saúde,

Abraços!

 

Referências:

Artigo. Professor e crítico analisa significado da ligação entre escritor austríaco Peter Handke e cineasta alemão Wim Wenders. Por Carlos Marcelo. Disponível em: https://www.uai.com.br/app/noticia/pensar/2017/03/03/noticias-pensar,202770/livro-analisa-parceria-entre-escritor-peter-handke-e-wim-wenders.shtml. Consultado em 14 de junho de 2020.

Crítica: O medo do goleiro diante do pênalti de Wim Wenders (Die Angst des Tormanns beim Elfmeter, 1972). Disponível em: https://sigacena.blogspot.com/2015/07/o-medo-do-goleiro-diante-do-penalti-de.html?m=1. Consultado em 14 de junho de 2020.

Filme na íntegra (legendas em espanhol): O medo do goleiro diante do pênalti. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=kYmLkqox3hQ&feature=youtu.be. Acessado em 14 de junho de 2020.

IMDB. O Medo do goleiro diante do pênalti. Disponível em: https://www.imdb.com/title/tt0066773/?ref_=tttr_tr_tt. Consultado em 14 de junho de 2020.


Kung Fu Futebol clube (Shaolin Soccer, China, Stephen Chow, 2001)

13/01/2020

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Jogador do Kung Fu Futebol clube – Como elas conseguem voar?

Cante (“poderoso perna de aço”) – São os efeitos especiais…

Kung fu (…) a tradução literal (…) é trabalhar duro ou tempo e habilidade, sendo que (…) esta expressão também é usada para se referir a algo que foi adquirido com mérito, esforço e competência na luta corporal (Disponível em: https://www.significados.com.br/kung-fu/, acessado em 11/01/2020).

Estamos em janeiro; período de férias. Nesse espírito, o filme que trago hoje é uma comédia; das mais bizarras (e divertidas). Shaolin Soccer tem enredo simples, capitaneado por seu protagonista (ator, diretor e co-roteirista) Stephen Chow. Esse faz-tudo cinematográfico do oriente interpreta o jovem Cante, o “Poderoso perna de aço”. Seu codinome faz jus a uma patada sobrenatural, adquirida com a prática Shaolin (um dos vários estilos de arte marcial chinesa).

Cante ganha a vida como catador de lixo. Via de regra não conta com um tostão no bolso, mas sua autoestima e confiança são impagáveis. Graças a sua fé no Kung Fu, nada lhe parece impossível. Sua crença é a de que o Kung Fu serve para tudo (literalmente). De fazer pães (ofício da protagonista Mui) a sobreviver incólume a incidentes corriqueiros, como escorregar numa casca de banana (há uma personagem, identificada nos créditos como “menina da casca de banana”, que tem duas aparições apenas: uma caindo de forma estabanada e a outra, na sequência final da película, esbanjando equilíbrio: o Kung Fu a salvou…).

Bom, Cante encontra um ex-jogador em péssimas condições (“Perna de ouro Fung”) e em uma conversa definem seus rumos (e o enredo da película). Vão unir esforços para juntar o Kung Fu com o futebol, explorando a fenomenal habilidade do “Perna de aço” e o Know How futebolístico de Fung. Acabam por disputar o campeonato chinês e, é claro, sagram-se campeões.

Desse ponto em diante o filme segue a estrutura narrativa básica de epopeias heroicas, mas de forma escrachada. Isso implica a formação de uma equipe de guerreiros-jogadores (quatro irmãos de Cante e coadjuvantes), sequências de treino e o percurso até um ápice desportivo: a final do campeonato. Para a incrível sucessão de mirabolantes desdobramentos, remetemos ao filme. De tão improvável, acaba consistindo em boa diversão. Cabe, no entanto, algumas palavras sobres as epígrafes acima.

A primeira se refere à natureza do gênero fílmico em questão: trata-se de uma comédia; do tipo que sabe rir de si própria e, por isso, denuncia suas auto-evidências humorísticas (mais de uma vez).

A segunda tem a ver com o princípio narrativo básico da película. Um norte simplório, mas que não deixa de agradar pelo seu alegre e ingênuo otimismo. O Kung Fu, aqui, não se restringe a uma técnica de combate, mas à utilização de um conjunto tradicional de práticas corporais e mentais que server, sim, para a luta. Não necessariamente com os punhos, mas à luta da (pela) vida. O Kung Fu Futebol clube foi composto por um bando de indivíduos descontentes, exercendo funções subalternas e desacreditados (inclusive por eles próprios). A partir do Kung Fu, Cante propõe o despertar da força interior de cada um. Trata-se, é claro, de mais uma narrativa de superação pelo esporte. O que chama a atenção, no entanto, é o inusitado da combinação (Kung Fu/Futebol) e a dinâmica e jocosidade das imagens, gerando uma certa originalidade ao produto.

Vale uma conferida nessas férias.

Bom proveito e até a próxima!

Referências:

Disponível em: https://www.ludopedio.com.br/biblioteca/kung-fu-futebol-clube/. Consultado em 11/01/2020.

Disponível em: https://www.imdb.com/title/tt0286112/. Consultado em 11/01/2020.

Disponível em: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-43986/. Consultado em 11/01/2020.


Chico Buarque – o futebol (BRA, Roberto de Oliveira, 2006)

12/08/2019

CARTAZ CHICO BUARQUE 0 O FUTEBOL

Pelé (no campo de Politheama) –  Aqui você fez quantos gols?

Chico Buarque  – Eu perdi a conta, Pelé…rs. Até  mil eu contei, depois… O milésimo eu me lembro, mas isso já faz muito tempo (gargalhada).

 

O diálogo acima ilustra o tom jocoso e divertido do filme de Roberto Oliveira, Chico Buarque – o futebol (2006). Pelé, Ronaldinho Gaucho, Pagão (Paulo César Araujo, jogador do Santos, companheiro do Rei) são os principais convivas dessa conversa entre a música e a bola. Ao longo de seus 77 minutos de duração, Chico Buarque vai traçando uma auto-história sentimental de sua experiência como torcedor, admirador e jogador amador. Além do Chico, a maior estrela da fita é o Politheama, o mundialmente ilustre time do cantor. Trata-se de coisa séria, como sempre no que tange ao futebol. O Politheama tem hino (interpretado por Chico, na abertura da filmagem), etimologia (Poli = muitos, theama = espetáculos) e um cartel insuperável: “2.600 jogos oficiais, 26 anos, nenhuma derrota… alguns empates”.

Parte da película narra e mostra as aventuras internacionais do Polithema em Portugal, França e Hungria. Na ‘excursão’ à Espanha, Chico aproveita pra trocar figurinha com Ronaldo Gaucho, em um hilário confronto (verbal) de técnica entre o craque do Barcelona e o titularíssimo do Politheama.

A maior parte da fita, porém, gira mesmo em torno das muitas impressões e memórias futebolísticas de Chico: sobre a copa do mundo de 1950, sobre o Fluminense, o Santos de Pelé, Pagão e Cia. etc. É em meio a essas reminiscências que uma série de canções (que abordam ou tangenciam o jogo de alguma forma) vão sendo desdobradas e interpretadas. Inclusive a canção tema, O futebol, do próprio Chico Buarque (https://www.letras.mus.br/chico-buarque/681103/).

Futebol, música e Chico Buarque. É só isso. E tá bom.


Bola no asfalto (Ballon sur Bitume, França, Jesse Adang, 2016)

12/03/2019

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“Sempre haverá um garoto que adora jogar futebol e que sonha em viver disso” (Bernard Diomèd, selecionador da equipe francesa sub 17).

“De cinco mil garotos só um se profissionaliza. De cem garotos num centro de treinamento oitenta e seis saem aos 16 anos, sem qualquer diploma ou habilitação” (Ferhat Cicek, técnico de futebol).

“O desenvolvimento do futebol profissional pelo mundo afora deve muito às peladas disputadas nas ruas da França” (Sinopse promocional do filme, disponível em: https://www.netflix.com/br/title/80184974. Consultado em 11/03/2019).

 

Bom início de ano, após os feriados momescos, caro leitor!

Hoje faremos um breve comentário sobre o documentário intitulado Bola no asfalto, produção francesa de 2016. As três citações acima servem-nos de guia. Cada uma delas expressa, além do seu conteúdo manifesto, linhas marcantes na condução narrativa da obra. A película consiste em uma série de depoimentos e imagens de peladas e torneios de futebol de rua e futebol de salão. Sempre em algum subúrbio ou departamento francês, com imensa maioria de jovens e atletas negros e imigrantes diversos. De cara já nos apresenta uma paisagem urbana, étnica e social menos conhecida e difundida da capital e do país em questão. Entre outros aspectos deparamo-nos com o mundo de um futebol comunitário, juvenil, jogado com regras mais flexíveis e adaptado às condições e limitações de equipamento. Bem próximo às nossas peladas, à moda Bangu, ao golzinho marcado com havaianas …

Não obstante, se pudermos generalizar a exposição narrativa do filme, a organização, profusão e capilaridade desse futebol espetacular e popular parece se mostrar incrivelmente pujante. Na verdade, parte de uma cultura juvenil (que incluí o Rap, estilos visuais) enfronhada em comunidades pobres e periféricas. É disso que a obra trata.

Relativamente às epígrafes acima, podemos desenvolvê-las nas suas respectivas matizes, que compõe a costura discursiva em jogo. A primeira se refere a uma dimensão lúdica do jogo (qualquer jogo) e, no caso, especificamente do futebol (modalidade que já demonstrou à exaustão seu grande apelo altamente compartilhado e apreciado, mundo afora). Aqui temos um tom universalizante; a paixão, a entrega à brincadeira, a seriedade das relações e regras informais que presidem o ritual da escolha de times, dos termos da disputa (da competitividade: “São amigos, mas não no campo”), a trajetória de amizades que começam num campinho, na infância, e atravessam a vida adulta… E o sonho, na maior parte das vezes frustrado, de esticar essa vida (boa) de garoto para o mundo profissional (“Quem nunca sonhou em ser um jogador de futebol?” – Skank: https://www.letras.mus.br/skank/72339/).

A intervenção de Ferhat Cicek, treinador de futebol, cria do mesmo ambiente dos meninos que são mostrados incessantemente no documentário, oferece o contraponto realista e bastante ponderado sobre as efetivas limitações dessas pretensões. O importante, segundo o mesmo Cicek, é se divertir saudavelmente, mas o “futuro depende da escola e não do futebol”.  Mas qual garoto quer ouvir isso?

O terceiro trecho em epígrafe parece uma assinatura francesa. Mais universal que a ludicidade do jogo e das trajetórias infantis, só mesmo a pretensão gálica: o desenvolvimento do futebol profissional mundial aparece como tributário das peladas de rua francesas. Não das inúmeras associações formais e informais para o jogo, no mundo inteiro, que há décadas fazem parte da história de vida de gerações de dezenas de nações… Enfim, c’est la vie.

 

Ficha técnica.

Ballon sur Bitume

França, 2016, 51’. Classificação 12 anos.

Documentário de Jesse Adang.

Fonte: https://filmow.com/bola-no-asfalto-t241246/ficha-tecnica/.

 

Para complementos e outras visões acessar LIMA, Arthur. Bola no asfalto: a cultura própria do futebol de rua francês. Disponível em: http://www.alambrado.net/bola-no-asfalto-a-cultura-propria-futebol-rua-frances/ ; GONÇALVES, Nathan. O futebol de rua e a socialização dos pobres na França. França. Disponível em: https://medium.com/pirata-cultural/o-futebol-de-rua-e-a-socializa%C3%A7%C3%A3o-dos-pobres-na-fran%C3%A7a-4c610ff1d954. Consultados em 11/03/2019.


O Roubo da Taça (BRA, 2016, Caíto Ortiz)

09/10/2018

IMAGEM - O Roubo da Taça (Caito Ortiz, 2016)

                         

Giulite Coutinho  – Quem será que fez isso? Nós não temos inimigo.

Secretária           – Presidente, tem a Argentina, a Alemanha, Paulo Rossi…

 

Diante de uma enorme ressaca eleitoral, achei por bem encarar uma comédia que há tempos estava me aguardando, na minha interminável lista de filmes que, de alguma maneira, abordam o futebol. A bem da verdade, O Roubo da Taça (Brasil, Caíto Ortiz, 2016) não estava bem cotado no meu ranking de expectativas. Achava, por puro pré-conceito, que dessa fita não sairia nada de interessante. Me enganei. O filme é bem construído, bem filmado, divertido e conta com algumas performances impressionantes. Principalmente de Paulo Tiefenthaler, que toma conta da trama como o vendedor de seguros que tem a ideia de assaltar a CBF. Mas comecemos pelo início.

O Roubo da taça é uma ficção que fala de um evento real e inusitado. A subtração da Taça Jules Rimet, em dezembro de 1983. Acredito que quase todos saibam do que se trata. De qualquer modo, esse troféu foi conquistado pelo Brasil por ter sido o primeiro país a sagrar-se tricampeão mundial. Desde a Copa inaugural, de 1930, o trato era esse. Enquanto ninguém conseguia a façanha, a Jules Rimet excursionava mundo afora, permanecendo quatro anos sob poder da nação campeã do momento. Aliás, a película tem duas ou três entradas informativas, que vão situando esses e outros dados sobre a trajetória da seleção canarinho. Tudo sob a voz em off de Taís Araujo. A atriz é parte narradora e também personagem, interpretando a sedutora Dolores, mulher de Peralta (Paulo Tiefentaler). O personagem de Borracha, um ex-policial e comparsa de Peralta, é vivido por Danilo Grangheia. O ótimo ator Milhen Cortaz (aquele do “Pica das galáxias”, na já antológica passagem de Tropa de Elite 2) interpreta o policial Cortez.

Pois bem, o enredo é baseado no episódio concreto do roubo da taça. Uma comédia de erros que realmente parece feita para o cinema. O maior troféu de nosso futebol ficava na sala da presidência da CBF, na época ocupada por Giulite Coutinho (vivido por Stepan Nercessian). Permanecia atrás de um vidro a prova de balas. Até aí beleza. A entidade tinha até um cofre forte. Não obstante, deixavam a original exposta e a cópia segura, trancada. Foi motivo de piada.

A guarda do prédio, por sua vez, ficava a cargo de um único vigia, que foi facilmente dominado. Mas e o vidro a prova de balas? Não ofereceu resistência (sacanagem, ninguém atirou nele) ao desmantelamento do entorno com instrumentos corriqueiros. E a taça se foi.

Narrativamente, o filme apresenta dois eixos básicos. Um deles sobre os dilemas de Peralta, com seu pouco apreço ao trabalho, vício na jogatina e conflitos com sua fogosa esposa. O outro, secundário, usa o descaso a toda prova com nossa relíquia futebolística para sugerir traços da personalidade nacional. Se não tomamos conta nem daquilo que mais nos diverte, orgulha e nos destaca mundialmente, que dirá do resto… Como exclama o Giulite Coutinho do filme:

– Puta que pariu! Como é que a gente ganhou três Copas?!

Em uma introdução ao clima da época, a voz em off de Taís Araujo explica:

Em 82 a crise tava braba. A esperança que a gente tinha era o futebol, de novo. Falcão, Sócrates, Zico, aquele bonitão do Éder… O time dos sonhos de todo brasileiro, até hoje. Bom, depois todo mundo sabe o que aconteceu (…). Aí voltamos pro buraco. General, inflação, desemprego.

Este último trecho dá até um desânimo. Porque a saudade daquele futebol realmente continua; a inflação tá até quietinha, mas o resto parece reprise. Das piores…

Em duas outras sequências temos lances relativos à difícil negociação da muamba. Afinal, como se desfazer de um item tão ilustre, cujas fotos e notícias estavam em todas as mídias da época? O único que aceitou fazer a arriscada transação foi um comerciante/atravessador argentino. Outra piada feita. E, mais incrível, verdadeira. Na chamada vida real o receptador era mesmo portenho! Acabou preso, como os demais. Novamente a voz de Tais Araujo (ilustrada com sequências de jogos do Brasil com nossos hermanos) é quem comenta:

Tantos anos de luta, de sangue, de cotovelada, de dedo no olho. Mais de cem anos de Brasil e Argentina e a gente ia vender o nosso maior patrimônio sabe pra quem? Que beleza, hem?

Sem mais no momento, uma boa semana e que sobrevivamos ao segundo turno. Abraços!

 

Referências:

BAZARELLO, Pablo. Crítica. O Roubo da Taça. Disponível em:  https://cinepop.com.br/critica-o-roubo-da-taca-126675. Consultado em 08 de outubro de 2018.

BONSANTI, Bruno. O Roubo da Jules Rimet: uma história inacreditavelmente real que virou uma boa comédia. Disponível em: https://trivela.com.br/o-roubo-da-jules-rimet-uma-historia-inacreditavelmente-real-que-virou-uma-boa-comedia/. Consultado em 08 de outubro de 2018.

FERNANDEZ, Alexandre Agabiti. Crítica – ‘O Roubo da Taça’ revela vida inteligente no humor nacional. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/09/1811161-o-roubo-da-taca-revela-vida-inteligente-no-humor-nacional.shtml. Consultado em 08 de outubro de 2018.

Matéria. Trinta anos depois, relembre roubo da Taça Jules Rimet no Brasil. Disponível em: https://www.terra.com.br/esportes/futebol/copa-2014/trinta-anos-depois-relembre-roubo-da-taca-jules-rimet-no-brasil,2014adac27d03410VgnVCM3000009af154d0RCRD.html. Consultado em 08 de outubro de 2018.


Barba, cabelo e bigode (Brasil, Lucio Branco, 2016)

07/05/2018

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Em uma determinada situação você se sente vivendo intensamente, vivendo tudo aquilo que você pode. A alegria é a prova dos nove e a liberdade, a felicidade são a mesma coisa e são o objetivo do homem como ser humano.

(Afonsinho; ao fim da película, aproximadamente às 2 horas de exibição).

 

Fazer barba, cabelo e bigode constitui expressão que indica um percurso completo, ou seja, implica uma experiência abusiva: extensiva e intensiva (isso para não entrarmos em meandros de conotação outra – ver https://www.dicionarioinformal.com.br/barba+cabelo+e+bigode/). Nesse sentido, e complementarmente às menções estético-capilares dos protagonistas, o título é bastante pertinente. Faz juz às trajetórias de seus três personagens: Afonsinho, Nei Conceição e Paulo Cezar Caju.

Para todos aqueles que gostam de futebol, tratam-se de nomes usualmente associados a pelo menos a duas características marcantes: à reconhecida qualidade técnica e à força da personalidade. E também, é claro, às suas posições contestadoras. Há uma enormidade de material a respeito: reportagens, artigos, entrevistas e filmes.

Destacamos o documentário Passe Livre (Oswaldo Caldeira, 1974, a partir da vitoriosa disputa judicial de Afonsinho pela possibilidade de dispor de seu próprio passe) e a série de João Moreira Salles e Arthur Fontes, Futebol (1998), novamente incluindo Afonsinho, mas também o Paulo Cezar Caju e outros (indicamos ainda a leitura do estudo de Euclides de Freitas Couto –  Da ditadura à ditadura – uma história política da futebol brasileiro 1930/1978. Niterói, Ed. UFF, 2014).

O filme em questão coloca o tema novamente em foco. A película estreou bem, saindo-se vencedora da sétima edição do Festival de cinema sobre futebol, o Cinefoot (2017 – http://www.cinefoot.org/e-campeao-conheca-os-vencedores-do-cinefoot-7/).

Sem grande preocupação cronológica, a obra remonta episódios relacionados ao mencionado trio futebolístico. Não se restringe ao mundo do futebol, no entanto (embora as cenas de jogo tenham um bom papel ao longo da fita). Repassa os desentendimentos de Afonsinho no Botafogo (no qual a questão da manutenção ou não de sua barba ganhou uma importância que somente a época parece permitir entender), o corte de Paulo Cezar do escrete de 1978 e a história da (não) efetivação de Nei Conceição pelo Palmeiras. Dentre outras histórias. Nessa conversa também não fica de fora o estado atual do futebol brasileiro, cuja situação não é bem avaliada pelos depoentes; tanto organizativa como tecnicamente. Nas suas duas horas de duração, temos contato com muitas cenas e fotos de época, imagens de jogos e da vida pessoal e atual dos três “rebeldes” do futebol. Há ainda uma participação especial de Daniel Cohn-Bendit, em um papo com Afonsinho.

Conforme mencionamos acima, essas e outras narrativas ganham maior implicação ao envolverem temas como racismo, ditadura, participação política: a vida dentro e fora dos campos. É nesse âmbito mais geral que a obra ganha importância como registro histórico e como espaço de discussão. Mas também como libelo humanizante. Este parece ser o sentido do trecho em epígrafe, com o qual iniciamos este post. Por essas e outras, fica o convite ao longa de Lucio Branco.


Pelé – o nascimento de uma lenda (EUA/BRA, 2016, Jeff Zimbalist e Michael Zimbalist)

21/12/2017

CARTAZ PELÉ - O NASCIMENTO DE UMA LENDA (2016)

 

Senhoras e senhores: segurem seus chapéus. Ainda temos dez minutos no segundo tempo. Vamos sambar!

(narrador em voice over, durante jogo entre o time infantil do King e o Shoeless ones, equipe capitaneada por Dico/Pelé).

 

Entenderam o trecho acima? Nem eu…

Hoje vamos falar do mais novo empreendimento cinematográfico (longa) envolvendo a mítica figura de Pelé. Já comentamos, aqui mesmo, pelo menos uma das aventuras ou desventuras fílmicas do nosso grande atleta (ver post Os Trombadinhas, 1979 – https://historiadoesporte.wordpress.com/2011/12/05/os-trombadinhas-1979/). Mas a lista de produções envolvendo o “maior atleta do século” é bem razoável. O professor Victor Melo relacionou 24 filmes nos quais Pelé atua ou é representado (MELO, V. & DRUMOND, M. (orgs). Esporte e Cinema: novos olhares, RJ, Apicuri, 2009, p. 230).

Atentemos, no entanto, ao “nascimento de uma lenda”. Essa película deveria ter estreado em julho, com a Copa do Brasil, em 2014, mas assim como parte considerável das obras de cal e pedra também não cumpriu o calendário inicial. O filme abarca o período que vai da infância de Pelé até a conquista da Copa de 1958, na Suécia, a primeira vitória do selecionado nessa competição. Na oportunidade, Pelé contava com apenas 17 anos.

Pois bem, o filme não foi bem recebido pela crítica (ver http://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2016/05/pele-o-nascimento-de-uma-lenda-bate-um-bolao-so-nas-cenas-de-futebol.html; https://observatoriodocinema.bol.uol.com.br/criticas/2017/10/critica-pele-o-nascimento-de-uma-lenda; https://omelete.uol.com.br/filmes/criticas/pele-birth-of-a-legend/?key=138225. Consultadas em 21 de dezembro de 2017).  De modo justo. Eu também não gostei. Não como filme, como material para se pensar é um prato cheio…

O trecho em epígrafe indica o tom estereotipado (caricaturizado mesmo) da obra. Mas o conjunto é pior. Se quiséssemos sintetizar poderíamos resumir a tese do filme como uma luta pela afirmação da “ginga” do futebol brasileiro (tendo Pelé como sua apoteose) contra a forma europeia de se praticar o esporte. Essa “ginga”, aliás, não definiria somente o futebol nacional, mas o “espírito brasileiro”. Há um ilustrativo diálogo fictício (a obra é pródiga em encenar situações que nunca aconteceram e de estabelecer diálogos ou desdobramentos inverossímeis) entre Waldemar de Brito e o jovem Pelé. A conversa se passa em uma estação de trem, em Santos, na qual o aspirante espera o trem para voltar para Bauru, descontente por sua incapacidade de satisfazer as condições solicitadas pelo treinador do clube. Pelo inusitado do enredo, vale a transcrição:

Waldemar de Brito – Os portugueses chegaram no Brasil com os escravos africanos. Mas a determinação dos africanos era forte. E muitos fugiram para o mato. Para se protegerem, os escravos africanos apelaram para a ginga. A base da capoeira, a arte marcial de guerra. Quando a escravidão foi abolida, saíram do mato e descobriram que a capoeira foi posta na ilegalidade. Eles viram o futebol como a maneira ideal de praticar a ginga sem serem presos. Era a forma mais atualizada de ginga. E em pouco tempo a ginga evoluiu, se adaptou, até não ser somente nossa [da população afro-descendente brasileira, presumo]. Era o ritmo dentro de todos os brasileiros. Mas, na Copa de 1950, muitos acharam que nosso estilo era o culpado pela derrota e passaram a repudiar tudo que era ligado a nossa herança africana. Assim como seu treinador tem tentado tirar a ginga do seu jeito de jogar, nós temos tentado tirar de nós mesmos, do nosso povo, desde então.

Mas a ginga é muito forte em você, Dico [apelido de Edson Arantes, quando criança]. Então, nos mostre o que acontece quando você tem a coragem de aceitar quem você realmente é ou você pode pegar esse trem e nunca saberá.

Todo o filme está baseado nessa caracterização, reforçada em vários trechos. Essa cinebiografia (epopeia, fantasia) de Pelé equivale a uma narrativa da assunção e ascensão dessa tal “ginga” por parte dos negros e de toda população brasileira, protagonizada pelo herói de ébano. Dá pano pra muita manga…

Aliás, as mangas, esse nosso produto tropical abundante, têm um papel importante. É com elas que o pai de Pelé, Dondinho (segundo o filme), treinava suas habilidades de controle: “as verdes para chutar, as maduras para as embaixadinhas”. Essa técnica revolucionária teria sido passada para o filho o qual, depois, em campo, ganha cenas alternadas para evidenciar o link entre essa estratégia tropical e o domínio da bola nos gramados. Lembra as dezenas de filmes de Kung Fu e seus treinamentos mirabolantes (Olá senhor Miyagi ! Karate Kid, 1984, John Avildsen).

É um filme curioso. Há ainda a construção de uma animosidade entre Mazola (José Joel Altafini) e Pelé. Veja, segundo o enredo, esses dois grandes jogadores que conquistaram a primeira Copa do Mundo para o Brasil se conheciam desde criança. A mãe de Pelé (numa construção fílmica) trabalhava para a família de Mazola e este, quando pequeno, zombava do filho da empregada (Dico, o futuro Pelé), vindo encontrar-se com ele no escrete de 1958.

O Mazola do filme é um contraponto a Pelé. O primeiro quer ser estrangeiro, jogar como estrangeiro e Pelé representaria a autenticidade nacional (receosa de afirmação, mas irrebatível quando assumida). O conjunto de representações, simplificações e visões bem vale uma apreciação mais detida (para um outro momento). Para finalizar estas considerações iniciais, apenas indicaria algumas referências cinematográficas que saltam aos olhos na edificação narrativa em questão.

Primeiramente, alguém já aludiu que a tal da ginga se assemelha ao fenômeno da “força” nos filmes de Star Wars (“a ideia de dizer que a ginga é uma espécie de força Jedi originada da capoeira é demais pra cabeça de qualquer um. GOMES, Fábio S. Disponível em: https://omelete.uol.com.br/filmes/criticas/pele-birth-of-a-legend/?key=138225. Consultado em 21 de dezembro de 2017). A afirmação do personagem de Waldemar de Brito destacando que “a ginga é muito forte” em Dico parece uma caricatura hollywoodiana para um pretenso e nacional Luke Skywalker de chuteiras.

A tese da “ginga”, evidentemente tem raízes na caracterização Freiriana de nosso futebol flamboyant, mas, filmicamente, não há como não pensar no título Ginga – alma do futebol brasileiro (Brasil, Hank Levine, Marcel Machado e Tocha Alves, 2004; para mais informações ver SANT’ANA, L. C. “Ginga: alma nacional, expressão universal – representações e aspirações de nacionalidade e pertencimento”. In MELO, V. A. & DRUMOND, M. 2009, op. cit.). A tese é quase a mesma, embora a qualidade das obras seja distinta (o filme Besouro, Brasil, 2009, de João Tikhomiroff, que apresenta similaridades com a obra em questão, também é imageticamente citado).

A oposição Pelé  X  Mazola faz lembrar quase imediatamente àquela entre Mozart e Saliere, no filme de Milos Forman, Amadeus (1984), para ficarmos com uma referência apenas.

A performance de Pelé (toda vez que se permite incorporara a “ginga”), aliás, está mais para a plástica dos games de futebol, também expressa, por exemplo, na peça de propaganda da Nike, intitulada “O último jogo”(Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=59t31RqeY88. Acessado em 21 de dezembro de 2017). Está muito mais para malabarismo com bola do que para futebol.

Enfim, uma película curiosa, disso não se pode duvidar.

Um belo fim de ano para todos nós é o que este comentarista e este blog desejam a todos.


O Maraca é nosso?

24/07/2017

 

Imagem de ilustração do novo maracanã. Disponível em: http://campos24horas.com.br/portal/futebol-carioca-nao-sustenta-o-novo-maracana/. Consultado em 23 de julho de 2017.

 

GERAL MARACA

Imagem da geral. Disponível em: http://brasil.estadao.com.br/blogs/mario-vitor-rodrigues/bicha-mil-vezes-bicha/. Acessado em 23 de julho de 2017.

 

 

Hoje estou editando um post um pouco diferente. Não vou falar de nenhum filme específico, mas sim de um personagem ilustre: o Maracanã (e, é claro, de algumas películas que o tem como objeto/protagonista das telas).

O Maracanã, embora em forma, já é um senhor. Sua construção original se liga à preparação da Copa de 1950 (1). Do maior estádio do mundo até a configuração atual, muita coisa mudou (2). Uma coisa é certa, ao longo desses quase 70 anos, o estádio Mario Filho adentrou à história e imagem do Rio de Janeiro, de modo indelével.

Nesses dias que passaram estive ocupado em um primeiro levantamento de uma das facetas desse ente excepcional: exatamente aquela que o configura como um monumento marcante da cidade. O reconhecimento desse protagonismo de “cal e pedra” ganhou a forma de um decreto de tombamento, em julho de 2002. Nesse documento afirma-se a “grande importância histórica, arquitetônica, cultural e afetiva para a Cidade do Rio de Janeiro” (Disponível em: http://www.rio.rj.gov.br/web/irph/patrimonio . Consultado em 18 de junho de 2017).

Mas não é só isso. De forma mais ou menos associada ao conjunto arquitetônico, quatro “bens imateriais” foram consagrados pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, a saber: A torcida do flamengo (em 2007), as torcidas dos clubes de futebol da cidade (2012), a partida de futebol fla-flu (2012) e os gols do Zico no Maracanã (2013 – Disponível em: http://www.rio.rj.gov.br/web/irph/patrimonio-imaterial. Consultado em 18 de junho de 2017).

Cada um desses itens apresenta um arrazoado próprio, desenvolvido em decretos municipais específicos para esse fim. As ponderações sobre o fla-flu são impagáveis, por isso reproduzo parcialmente:

CONSIDERANDO que o Fla-Flu é uma celebração que sintetiza a identidade carioca e signo máximo do saudável antagonismo esportivo;

CONSIDERANDO as distintas manifestações artísticas e culturais que fazem referência à partida como atributo estético universal, como bem sintetizou o jornalista e escritor Nelson Rodrigues na máxima: “O Fla-Flu surgiu quarenta minutos antes do nada” (Disponível em: http://www.rio.rj.gov.br/dlstatic/10112/4368015/4108336/23DECRETO35878PartidadeFutebolFlaFlu.pdf. Consultado em 23 de julho de 2017).

Dadas as modificações sofridas mais ou menos recentemente pelo Maraca, entre as quais a diminuição da capacidade de receber público (que já foi de incrível 200 mil e que hoje está em 78 mil espectadores), o substancial aumento de preço dos ingressos e o fim da geral, muito se discute sobre um processo de gentrificação desse equipamento/monumento para lá de esportivo (3). Mas isso talvez fique para uma outra conversa.

Ah, quase ia esquecendo: faltaram os filmes. Para ver essas e outras discussões nas telas, estive procurando e assistindo algumas produções de fácil acesso, dentre os quais destacaria Geraldinos, de Pedro Asbeg e Renato Martins (Brasil, 2016, 1:13 horas) e Geral, curta de Anna Azevedo (Brasil, 2010, 14’ 59”). Ambos, como os títulos não nos deixam enganar, comentam a existência e o fim do espaço da geral. O Maraca é nosso? trabalha exatamente novas formas de participação coletiva da torcida em um estádio de acesso financeiramente mais elitizado. Maracaná, binacional (Uruguai/Brasil), revisita o inolvidável Maracanazo, de 1950, sob uma perspectiva que emparelha visões de brasileiros e de uruguaios e confere a Obdúlio Varela (capitão da Celeste) um papel heroico (quase mítico). E, para rever, não resisti em incluir Barbosa, esse clássico de Anna Luiza Azevedo e Jorge Furtado (Brasil, 12’, 1988). Bom fim de julho, meu caro público!

 

Notas:

(1). Para detalhes ver MOURA, Gisella de Araujo. O Rio corre para o Maracanã. Rio de Janeiro, Ed. Fundação Getúlio Vargas, 1988);

(2) Sobre as últimas e consideráveis reformas pelas quais o estádio passou, ver HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque. O fim do Estádio-nação? Notas sobres a construção e a remodelagem do Maracanã para a Copa de 2014. In: CAMPOS, Flavio de e ALFONSI, Daniela. Futebol – objeto das ciências humanas. São Paulo, Leya, 2014, p. 320 – 345.

(3) Ver, por exemplo, MELLO, Paulo Thiago. O Maracanã da gentrificação (Disponível em http://www.canalibase.org.br/o-maracana-da-gentrificacao/. Acessado em 18 de junho de 2017).

 

Filmes:

Barbosa. Anna Luiza Azevedo e Jorge Furtado, Brasil, 12’, 1988. Disponível em: http://portacurtas.org.br/filme/?name=barbosa . Consultado em 18 de junho de 2017.

Geral. Curta de Anna Azevedo, Brasil, 14’ 59”, 2010. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=vDCD9kL9pvI. Acessado em 18 de junho de 2017. Jogo Fla X Flu, final da Taça Rio (4X1), retratado no curta. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=IqMmWyIKoX0, acessado em 18 de junho de 2017.

Geraldinos. Filme de Pedro Asbeg e Renato Martins. Brasil, 2016 (1:13 horas). Ficha técnica disponível em http://www.adorocinema.com/filmes/filme-236958/. Consultado em 18 de junho de 2017.

O Maraca é nosso? Curta de 12 minutos, Brasil, 2014. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=CXSuvJY-xXw&t=238s. Consultado em 18 de junho de 2017. Ficha técnica disponível em: https://filmow.com/o-maraca-e-nosso-t210903/. Consultado em 18 de junho de 2017.

Maracaná. De Sebastián Bednarik e Andrés Varela. Uruguai/Brasil, 2014. Documentário, 75’.


Meninos de kichute (Luca Amberg, 2014)

27/02/2017

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Sessão nostalgia em pleno carnaval 2017. Bom, nostalgia para a geração, como a minha, que debateu ardorosamente a preferência entre o kichute, o conga e o bamba. Não sabe do que se trata? Novinho(a)! Segue a ilustração abaixo, para ajudar a garotada.

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Particularmente, nunca tive um kichute. Pra jogar bola gostava do conga (o bamba era pra passeio). Durava uns quatro meses de uso intensivo. Assim como os meninos do filme de Luca Amberg, boa parte da minha existência infanto juvenil foi passada em campinhos. Essa talvez seja uma força do livro de Márcio Américo, que virou o filme em questão. A esse respeito o diretor da película esclarece:

Acho que é uma autobiografia generalizada. O Márcio Américo escreveu um livro que lembra aqueles clássicos da literatura, que o tema retrata uma geração e seus costumes que marcaram uma época. Meninos de Kichute fala da infância de milhões de brasileiros oriundos da ‘geração kichute’, que iniciou em 1970, ano do tri, quando o kichute foi lançado, e se estendeu até os anos 90” (…). O título me atraiu de imediato (…) a cada capítulo  me identificava cada vez mais com a minha infância em Lages, porque os sonhos dos meninos de Londrina, eram os mesmos: queríamos ser jogador de futebol” (Site oficial do filme. Disponível em: http://ambergfilmes.com.br/. Consultado em 26 de fevereiro de 2017).

A citação foi um pouco longa, mas resume bem a proposta da obra. Meninos de kichute consegue estabelecer um painel facilmente reconhecível pelos contemporâneos. Ao mesmo tempo, ao tratar de crianças, bola, traquinagens, conflitos geracionais, colégio, expõe o caráter universal dessas primeiras experiências, realizações, possibilidades e decepções.

A narrativa se dá em torno do infante Beto. Esse garoto, filho de uma família pobre e com um pai rigoroso, tem duas habilidades que o destacam: sua perícia no “bafo” e sua recente destreza como goleiro. Enquanto jogava na linha não fez sucesso, mas acabou achando sua posição como guarda meta. Essa primeira descoberta infantil confere força ao personagem e à história:

Antes eu não era ninguém no campinho. Agora sou o primeiro a ser escolhido (Beto).

Toda pequena-grande odisseia de Beto (e da fita) se concentra na tentativa de dar corpo a esse ser que surge na brincadeira, dentro dos limites de um retângulo de areia. Isso vai demandar criatividade, tenacidade, ajuda e persistência. Como tudo o que vale a pena. Beto quer ser goleiro, quando crescer.

“E agora? Caga na mão e joga fora!”, como dizia esse adágio quase poético, retratado pelos garotos do filme. Ou seja, se você tá com uma folguinha entre um bloco e outro, ou cansado de seu retiro anti-momesco, por qualquer motivo, Meninos de kichute está disponível pra quem tem o Canal Brasil (ou pra quem se dispõe à arte de baixar filmes pela internet). Bom carnaval pra geral!