ELEVAR O SPORT SUBURBANO: O FUTEBOL NOS ARRABALDES DE CAMPO GRANDE – RIO DE JANEIRO

19/04/2021

Por Nei Santos Junior

As experiências com o futebol nos vários cantos arrabaldinos não foram poucas. Nos primeiros anos do século XX, os bairros de Bangu, Santa Cruz, Campo Grande e Realengo já contavam com um número expressivo de associações esportivas ligadas ao futebol, ciclismo, boxe, cricket entre outras.

No caso de Campo Grande, a fundação do Campo Grande Athletic Club nos chama atenção. Inicialmente, por ser uma região que transitava entre ações tipicamente rurais e outras de caráter urbano. Num segundo momento, porque, talvez, a própria criação de um clube de futebol permita elucidar essa inter-relação complexa, que há algum tempo emerge em nossas reflexões e que muito nos inquieta, mas que em nenhum momento possa ser compreendida como dicotômica.

Fundado em 16 de maio de 1908, com sede na rua Augusto Vasconcellos, n.62, o então Campo Grande Football Club foi um dos principais clubes da zona suburbana. No bairro, não era o único dedicado ao futebol. Entre outros, havia o Sportivo Campo Grande, Monteiro Football Club, Sport Club Juary e, posteriormente, o Clube dos Alliados. Todavia, acreditamos que nenhuma outra agremiação local tenha alcançado o mesmo destaque, já que o clube esteve nos grounds das ligas mais importantes da cidade.

Na década de 1910, o Campo Grande filiou-se à Liga Suburbana de Football (LIGA, p.7, 1917; UM GRANDE, p.4, 1917). No tempo em que esteve associado, fez-se presente entre os principais clubes da 1° divisão, juntamente com Royal Football Club, Modesto F. Club, Cascadura e o Engenho de Dentro A. Club.

No mesmo período, o clube também participou de vários festivais esportivos, alguns em homenagem aos jornais dedicados à cobertura do futebol e, em outros momentos, festejos que mobilizavam um enfrentamento local. Um exemplo que congrega esses dois pontos, foi o torneio Interclubes Suburbano, dedicado ao jornal A Epoca, que reuniu clubes da Liga Suburbana e Liga Metropolitana, sendo disputado no campo do Cascadura Football Club (UM GRANDE, p.4, 1917).

Em 1920, o Campo Grande passou por uma reconfiguração.  Influenciado por uma maior valorização dos resultados, a agremiação uniu suas forças ao Paladino Football Club, que antes jogava em Piedade. Com a fusão, além da mudança de nome, sendo agora chamado de Campo Grande Athletic Club, ele também migraria para a Liga Metropolitana de Desportos. Ainda que disputasse, inicialmente, a 3°divisão, pode-se supor que tal filiação seja reflexo de um conjunto de interesses, desejos e aspirações da agremiação nos meios futebolísticos cariocas.

Ainda em 1920, a equipe, agora composta por nomes que faziam parte do Paladino, entrou forte para a disputa da 3° divisão. Com ótimos resultados, fez a final com o Bonsucesso Football Club, alcançando, em seu primeiro ano na Liga Metropolitana, o acesso a 2° divisão. No entanto, dias depois da conquista, a morte do então presidente Firmino Gameleira causou certa instabilidade política no clube (FALLECEU, p.8, 1920). Os jornais lamentaram o falecimento do “conhecido e antigo sportman”, considerado uma figura importante do esporte local. Funcionário da prefeitura, o Sr. Firmino também foi um dos fundadores do clube, sendo, aliás, importantíssimo para a aquisição da sede em Campo Grande.

Com essa nova fase, o Campo Grande Athletic Club passou por algumas instabilidades internas. Curiosamente, no primeiro dia do ano de 1921, após a posse da nova diretoria, outra agremiação fora fundada: o Sportivo Campo Grande, com muitos integrantes que figuravam entre os associados do clube atlético. Segundo o Jornal do Brasil:

a novel sociedade recentemente fundada em Campo Grande por um grupo de abnegados e fervorosos admiradores do football, conta já com grande número de adeptos e dispões de todos os elementos necessários a um rápido progresso (SPORTIVO, p.10, 1921).

Mesmo com a presença do Sportivo Campo Grande, o protagonismo local continuou sob as ordens do Campo Grande Athletic Club. Isso porque, a nova agremiação focou, inicialmente, em ações intermediárias, optando por não disputar as competições promovidas pelas principais Ligas da época.  Até meados da década de 1930, é possível identificar ações isoladas, entre amistosos e festivais suburbanos. Tal prática, fora até mesmo cobrado por alguns jornais esportivos da época, sob a justificativa que o Sportivo de Campo Grande teria, “com esforço e boa vontade”, condições de “ser um sério rival do Bangu” (O CAMPO GRANDE, p.4, 1935).

De toda forma, as atividades esportivas seguiam em ritmo acelerado no bairro. Em 1926, o Campo Grande Athletic Club realizou um grande festival esportivo em comemoração ao seu 18° aniversário. Alguns clubes da região foram convidados, entre eles, o Modesto, Fidalgo, Engenho de Dentro, Vasco da Gama e Bangu. A festa, sem a presença do coirmão Sportivo, também seria para inaugurar a sua nova e elogiada arquibancada, considerada um símbolo do progresso da população campograndense (O PRÓXIMO, p.11, 1926).  

Contudo, os anos seguintes foram marcados por uma intensa movimentação política. Em 1927, novas eleições foram convocadas, mas o quadro de diretores permaneceu praticamente o mesmo. Na tentativa de atrair um maior número de sócio, o clube resolveu suspender a joia de admissão, além de facilidades no acesso aos jogos de futebol (CAMPO GRANDE, p.10, 1927).

Ainda assim, o clube permanecia distante da trajetória de bons resultados – na disputa da 2° divisão e no péssimo desempenho na excursão por São Paulo. Curiosamente, nesse período, o clube entra numa espécie de declínio. Um ofício enviado a Liga Metropolitana, publicado pelo Jornal do Brasil, no final de 1929, mostra alguns itens interessantes. No texto, o presidente convoca uma assembleia geral extraordinária, pedindo o comparecimento dos associados, pois nela será tratada a “reorganização do club, o qual acha-se em condições esportivas, administrativas e sociais bastante melindrosas, reportando-se a assembleia em sua organização ou dissolução” (LIGA, p.15, 1929).

Campo Grande Atlético Clube – fundado em 1940

Não sabemos ao certo os desdobramentos da reunião, mas fica claro que após a sua realização as notícias sobre a agremiação tornaram-se escassas. O fato é que, depois de 1930, não encontramos nos jornais mais notícias sobre o Campo Grande Athletic Club. Acreditamos que ainda tenha ficado algum tempo realizando atividades locais, até encerrarem de vez suas ações. Sabe-se, no então, que alguns dos seus principais sócios migraram para outras sociedades esportivas. Alguns ajudaram a desenvolver o Alliados de Campo Grande, outros, juntamente com sócios remanescentes do Sportivo Campo Grande, fundaram, em junho de 1940, o Campo Grande Atlético Clube. Agremiação na qual encontra-se em funcionamento até os dias de hoje.  


DIVERSÕES NA ZONA OESTE CARIOCA: À MODA BANGU

07/12/2020

Por Nei Jorge dos Santos Junior

Discutir sobre a formação de um mercado de entretenimento nos subúrbios da cidade do Rio de Janeiro, seja no século XIX ou início do XX, não é nenhuma novidade nesta página. Ademais, a temática mostra-se recorrente, inicialmente pela aproximação pessoal com o objeto, por conseguinte, pela importância apresentada nas últimas décadas no âmbito das ciências humanas e sociais. E, justamente por esses motivos, retorno ao tema, desta vez, com o objetivo de apresentar um panorama sobre as diversões de alguns bairros da zona oeste carioca. Como fora proposto outrora, começo por Bangu, um dos bairros mais populosos da cidade.

O bairro Bangu sempre apresentou singularidades. A região, localizada na zona suburbana da cidade do Rio de Janeiro, fica numa distância aproximada de 31 km da zona central. Atualmente, com cerca de 250.000 habitantes, mostra-se muito distante do cenário apresentado no início do século XX, quando era basicamente rural, formado por fazendas que se dedicavam à produção de açúcar, aguardente e produtos que se destinavam à exportação pelo porto de Guaratiba.

É claro que a construção da Companhia de Progresso Industrial do Brasil, inaugurada em 1889, teve papel fundamental no desenvolvimento do bairro e na formação de um mercado de entretenimento promissor, uma vez que as associações recreativas e esportivas mantinham ligação direta com a empresa, fosse pela composição de seus associados, diretores e trabalhadores da fábrica, ou até mesmo pelo uso do espaço físico oferecido pela companhia (PEREIRA, 2006).

Não era de se estranhar, portanto, que alguns desses trabalhadores, em sua maioria estrangeiros, quisessem a construção de um espaço para diversão como tivera em seus países. Em 24 de janeiro de 1895, fora fundada o primeiro clube recreativo: Sociedade Musical Progresso, formada integralmente por trabalhadores da Companhia Progresso Industrial do Brasil. O clube, que posteriormente mudaria o nome para Casino Bangu, em 1906, era um dos principais espaços da vida festiva da região. Ainda que em condições precárias, o clube se mantém até os dias de hoje.

Em 05 de março de 1899, fora fundado o Grêmio Carnavalesco Flor da União, com fins de criar diversões carnavalescas e familiares aos seus associados. Mais do que ser simplesmente uma agremiação formada por operários da Companhia Progresso Industrial do Brasil, o Flor da União mostrava através dos estatutos indicadores do caráter amplo do clube, “o qual pode pertencer todas as pessoas desde que sejam dignas e honestas sem distinção de nacionalidade, religiões, cor, ect.” (ESTATUTOS…, 1904). Longe de ser um elemento pormenor, essa marca étnica estava na própria base de identidade construída pelos sócios do clube.

Em 1900, outra sociedade fora fundada: o Club Carnavalesco Flor da Lyra, com o objetivo de “proporcionar aos seus associados diversões em épocas apropriadas à sua espécie e outros divertimentos a juízo de sua administração” (ESTATUTOS…, 1903). A sociedade, também formada majoritariamente por empregados da fábrica, além de desfilar por toda região banguense, fazia-se presente em várias festas na região suburbana, estabelecendo relações muito próximas com agremiações de Campo Grande, Santa Cruz e Realengo.[1]

Aos 17 dias de abril de 1904, na estação de Bangu, outro clube fora formado: o Bangu Athletic Club, certamente o que tivera maior destaque na região. Para compor o quadro de associados, sem qualquer distinção de cargos ou nacionalidade, bastava aos interessados darem seus nomes ao secretário Andrew Procter, responsável pela filiação (ATA FUNDAÇÃO…, 1904). Naquele momento formou-se um “club athletic sob a denominação de “Bangu Athletic Club”, tendo “por fins os jogos de football, cricket, lawn tennis e outros jogos variados”(ATA FUNDAÇÃO…, 1904).

Outra associação que surgiu, ainda nos primeiros anos do século XX, foi Grêmio Carnavalesco Estrella da Aurora. De modo muito semelhante, o clube foi fundado em 2 de dezembro de 1905, com fins de “proporcionar aos seus associados diversões em épocas apropriadas à sua espécie e outros divertimentos a juízo de sua administração desde que estes sejam morais e honestos”, era uma das principais associações da região (ESTATUTOS…, 1905).

Composto por trabalhadores da fábrica, assim como os demais clubes citados, o grêmio se concentrava apenas na realização de bailes dançantes e carnavalescos, sendo o último, um dos seus principais objetivos. O número de sócios era limitado, não havendo qualquer item discriminatório, mas uma preocupação com a lotação do espaço.

Uma outra associação que gozava grosso prestígio na região era o Grêmio Dançante Carnavalesco Prazer das Morenas. Fundado em 04 de março de 1909, o clube tinha como fins “proporcionar aos seus associados, em sua sede ou fora dela, festas carnavalescas e outras diversões, compatíveis com o caráter da sociedade” (ESTATUTOS…, 1917). Além desses objetivos, apontados quase copiosamente por outras associações, o Prazer das Morenas destacava, em seus estatutos, alguns pontos poucos comuns, pelo menos oficialmente, em outros clubes:

Estimular por todos os meios, que exista entre todos os seus sócios a máxima distinção para evitar preconceitos entre os mesmos, sendo imposta a eliminação aos que a isso derem causa; concorrer aos festejos carnavalescos, organizando, para isso, préstitos, alegóricos e críticos; realizar em sua sede, pelo menos, 5 bailes anualmente;  manter em sua sede, para recreio de seus sócios, toda espécie de jogos não proibidos por lei; manter uma biblioteca acessível ao público; manter uma escola que ministre, gratuitamente, instrução primária a quantos procurarem; promover outras quaisquer reuniões, que possam constituir divertimento para os seus associados (ESTATUTOS…, 1917).

No mínimo, dois objetivos, dos seis apresentados pela associação, mostram-se pouco habituais comparados aos demais clubes da região. Manter uma biblioteca e uma escola “que ministre, gratuitamente, instrução primária a quantos procurarem” revela uma preocupação com a formação de seus associados e seus pares.

Ademais, outro ponto nos chamou ainda mais a atenção. Tratar sobre preconceitos num ambiente recheado de imigrantes e negros sinalizava uma preocupação com o modus operandi local. Até o momento, somente a Flor da União havia destacado a inclusão de pessoas, independente da nacionalidade, religião ou cor, para compor suas fileiras.

Isto posto, acreditamos que tais evidências não são meros devaneios colocados em seus estatutos. A rivalidade entre estrangeiros e brasileiros estabelecida em Bangu causava alguns problemas não só no interior da fábrica, mas, sobretudo, em festas realizadas pelos quatro cantos da região arrabaldina.

De fato, os clubes recreativos se apresentam como uma das formas mais tradicionais de associativismo na sociedade brasileira. Originados por diversos interesses, fossem físico-esportivos, políticos, culturais ou sociais, os clubes concorreram para a delimitação de dissensões, fazendo emergir “outras identidades”, que coexistiam, mas que em alguns momentos podiam sobrepujar aquela habitualmente associada ao espaço em que esses trabalhadores ocupavam no interior de um sistema mais extenso.

No caso de Bangu, a influência da Companhia Progresso Industrial do Brasil nos clubes, em função de sua participação objetiva na sobrevivência dos mesmos, asseverava a dimensão do controle exercido sobre seus operários, não circunscrito do trabalho à moradia, mas, sobretudo, potencializado por sua presença no espaço de lazer desses trabalhadores. Contudo, é importante destacar que o auxílio material proporcionado pela fábrica Bangu aos clubes da região se instituía através da associação entre as partes. Uma relação que, embora fosse quase sempre determinada pelo respeito aos representantes das fábricas, não significava passividade e resignação, mas uma apropriação por parte dos operários-associados do discurso dos diretores, como uma estratégia para alcance de seus interesses mais imediatos. Nesse sentido, os clubes da região banguense mostram-se proficientes, pois, definidos como entidades esportivas, carnavalescas, culturais ou recreativas, isoladas, portanto, diretamente, do mundo do trabalho, trouxeram em suas fundações e em seus primeiros tempos – e, ainda hoje, pela memória de seus sócios – as marcas dos trabalhadores que tomaram a iniciativa de criar os clubes e que ocuparam por décadas – como aconteceu com vários deles – cargos em sua direção, ao mesmo tempo em que trabalhavam na Companhia Progresso Industrial do Brasil.


[1] CORREIO DA MANHÃ, 17 out. 1906.


DIVERSÕES NA ZONA OESTE CARIOCA

06/07/2020

Por Nei Jorge dos Santos Junior

Em algumas oportunidades já escrevi sobre as múltiplas formas de divertimentos do bairro Bangu. Em outras, optei por um olhar mais geral sobre as diversões suburbanas. No entanto, nesse espaço, sinto-me à vontade em optar por um novo caminho; desbravando os bairros da zona oeste carioca. Para que isso ocorra, pretendo nas próximas 4 publicações aqui no blog apresentar um pouco sobre as experiências de divertimento nos bairros de Santa Cruz, Campo Grande, Bangu e Realengo nas primeiras décadas do século XX. Por isso, nesse primeiro momento, irei apresentar de maneira geral um pouco sobre os bairros; suas principais atividades recreativas e esportivas.  Vejamos!

O termo Zona Oeste é muito utilizado para definir a região ocupada pelos 41 bairros[1] nas áreas de planejamento IV e V. Com marcas de desigualdades sociais e realidades contrastantes, ela apresenta o menor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) comparada aos demais bairros que compõem as outras zonas da cidade carioca, em especial a Zona Sul. No entanto, ainda que atentemos ao cenário desigual, eles desempenharam funções importantes enquanto espaços de possíveis experiências de modernização, os quais estabeleciam diferentes formas de convivência.

Imagem:https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Zoneamento_da_Cidade_do_Rio_de_Janeiro.svg#/media/Ficheiro:Zoneamento_da_Cidade_do_Rio_de_Janeiro.svg

Em Bangu, na década de 1910, aproximadamente vinte e cinco associações, divididas entre esportivas, Sport Club Americano, Esperança Foot-ball Club e Bangu Athletic Club, ou direcionadas às atividades recreativas como a Flor da Lyra, o Casino Bangu, a Flor da União e o Grêmio Prazer das Morenas, movimentavam as noites arrabaldinas. Já em Santa Cruz, o número era um pouco inferior, mas não menos expressivo, cerca de vinte associações, em sua maioria recreativas: Grêmio Carnavalesco Flor da Mocidade, o Club Democráticos de Santa Cruz, o Progresso da Areia Branca, o Club Progressistas de Santa Cruz e o Filhos do Oceano. Entre as esportivas, destacamos o Club de Corridas Santa Cruz.

Em Realengo, bairro que abrigou a Fábrica de Cartuchos e Artifícios de Guerra e a Escola Militar, podemos citar as inciativas do Clube Dramático de Realengo, Tiro Brasileiro do Realengo e o Realengo Pedal Clube, grêmios que apresentavam singularidades e tensões comparados aos demais. Por fim, o bairro de Campo Grande, reconhecido como o bairro mais populoso da cidade, cerca de 10.444,51 hectares, abrigando um total de 328.370 habitantes, também apresentava um significativo núcleo de diversões, entre eles,  o Alliados de Campo Grande, Campo Grande Athletic Club, Sociedade Musical Campograndense, Casino Campo Grande, Grupo Carnavalesco Heróis Brazileiros, Grupo Carnavalesco União da Floresta, Grupo dos Silenciosos, Sociedade Carnavalesca Paz e Amor, Grupo Carnavalesco Gargantas de Campo Grande, Grupo Carnavalesco Sereno de Ouro, Feniano de Campo Grande, entre outros.

Diante do exposto, fossem nos espaços esportivos, nas agremiações e ruas localizadas nos arrabaldes suburbanos, é notável a consolidação de uma indústria de entretenimento nos primeiros anos do século XX nos bairros da Zona Oeste Carioca. Com esse amplo leque de diversões é possível afirmar que a cidade do Rio de Janeiro, independente da região, mantinha um mercado de entretenimento pulsante. Talvez seja possível afirmar, no caso carioca, que as diversões citadinas eram correntes, independentemente do local.  


[1] Os bairros que fazem parte da Zona Oeste são: Bangu, Barra de Guaratiba, Barra da Tijuca, Camorim, Campo Grande, Cidade de Deus, Cosmos, Curicica, Deodoro, Freguesia, Gardênia Azul, Gericinó, Grumari, Guaratiba, Inhoaíba, Itanhangá, Jacarepaguá, Joá, Magalhães Bastos, Mallet, Paciência, Padre Miguel, Pedra de Guaratiba, Realengo, Recreio dos Bandeirantes, Santa Cruz, Santíssimo, Senador Camará, Senador Vasconcelos, Sepetiba, Sulacap, Taquara, Vargem Grande, Vargem Pequena, Vila Militar e Vila Valqueire.


OS HOMENS DAS LETRAS E SUAS REPRESENTAÇÕES: UM SUBÚRBIO MORAL

02/02/2020

Por Nei Jorge dos Santos Junior

A relação entre grande imprensa e agremiações suburbanas sempre trilhou por caminhos conturbados. Empenhados num duplo movimento de imposição de uma nova ordem social e também na construção de uma capital institucionalizada, os jornais utilizavam mecanismos simples; funcionavam como uma espécie de campanha de modernização da festa (SANTOS JUNIOR, 2019). Isto é, por meio de notas e editoriais, os veículos de imprensa reprovavam as “bagunças promovidas” pelas chamadas pequenas sociedades suburbanas (CUNHA, 2011).

Em contraposição, os grandes veículos narravam o cosmopolismo das Grandes Sociedades, que almejavam novos símbolos de diversão desde os meados do século XIX. De certa forma, aos olhos deles, as Grandes Sociedades surgem como um arquétipo de autoimagem de instituição civilizadora, legitimadas por sua origem social e pelo conteúdo letrado de seus préstitos. Formadas por jornalistas e setores mais abastados da sociedade carioca, suas atividades não estavam circunscritas somente ao universo da festa. Suas ações iam além, incluíam movimentos políticos e atividades de cunho filantrópico e, claro, a reformulação das práticas festivas e hábitos de lazer – considerados “atrasados” e incompatíveis com aqueles ideais de progresso.

Claramente, esses elementos resultavam num olhar atípico quando lançado aos préstitos suburbanos. Talvez, o caso do Luiz Edmundo, memorialista de destaque no período, revela importantes transcrições em sua visita jornalista à sede da Sociedade Carnavalesca Tira do Dedo do Pudim, localizada no morro da Conceição, zona central da cidade.

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Luís Edmundo. ( Pintura de Eliseu Visconti).

Embora o clube não esteja localizado nos subúrbios carioca, o morro também era espaço de estigmas e estereótipos, já que seus pares reuniam, juntamente com a zona suburbana, a população pobre da cidade. O conceito, na verdade, caracteriza muito mais uma identidade, uma cultura e uma vida com peso ideológico muito forte, representado como espaço de pessoas simplórias, trabalhadores pobres, não modernos, precarizados e imersos na violência da cidade. Dessa forma, vamos seguir próximo ao memorialista em seu passeio de registros e considerações, na tentativa de compreender os estereótipos e estigmas através dos seus olhos.

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“Panorama da Cidade do Rio de Janeiro, Vista do Terraço do Morro da Conceição”, de Thomas Ender, em 1817. A obra reproduz a paisagem vista a partir do Palácio Episcopal, na parte mais alta da Rua Major Daemon.

No alto da ladeira do Homem, o autor observa atentamente uma casa toda pintada de azul-marinho. Era a sede da Sociedade Carnavalesca e Recreativa Tira o Dedo do Pudim, que reunia “moçoilas rapazelhos que vivem ajanelados em seus casebres que se dependuram como gaiolas de pássaros pela íngreme viela torta, feias, imunda, porém movimentadíssima” (EDMUNDO, 2009, p. 506).

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Ladeira do Homem (Morro da Conceição).

A vizinhança parecia satisfeita, toda formada por moradores do morro. Das quatro da tarde às nove da noite, a região era animada por músicos da localidade, fazendo uma barulheira que o incomodara.

De longe, o memorialista era saudado pelos moradores, não mais do “rude e atordoante zé-pereira”, porém a de mil bocas: “gritos, berros, ou estrídulas risadas, de envolta com o afinar de instrumentos de corda ou sopro, balburdia amável e festiva, confuso bruaá”, denunciando desafogo e alegria da “massa ingênua” que livremente se diverte (EDMUNDO, 2009, p.506).

A decoração também chamou a atenção do autor, notadamente por sua tentativa de parecer elegante. “A sédea”, grafada pelo autor – um estilo utilizado pelo memorialista quando reproduzia em seus escritos a fala popular –, tinha na fachada um escudo feito em folha-de-flandres, pitado com as cores sociais, o qual mostrava uma mão que aponta com o dedo indicador para um disco enorme, algo próximo de uma lua cheia (EDMUNDO, 2009, p.506). E mais um S e um C, referente à “Sociedade Carnavalesca”, antecedendo as letras negras e garrafais do título: Tira o Dedo do Pudim (EDMUNDO, 2009).

As portas e janelas estavam par a par, sempre abertas, mostrando o interior de um “salãozinho” que mal comporta a “chusma” de associados e seus penetras, todo forrado de um papel azul cor do manto de nossa senhora onde, em desenhos “grotescos”, prateados e como que em relevo se veem, em confusão, liras e rosas que se entrelaçam (EDMUNDO, 2009). Para o autor, um dos caprichos dessas agremiações “mômicas” é o papel da sala, sempre “espalhafatosa e cara”. No caso desta sociedade custou uma fortuna, sendo votada em “assembleia gerá”, como se faz nas sociedades abastadas (EDMUNDO, 2009). Além disso, a luz era de querosene, com um lampião suspenso ao teto, que ao resvalar pela parede, arrancava, de seu prateado escandaloso, chispas. O forte cheiro de querosene e o calor que transformava o rosto da assistência em “verdadeiras cascatas de suor” incomodavam imensamente Luiz Edmundo (EDMUNDO, 2009). Ali, ventiladores não existem, por isso os convidados andam de mão os leques e as ventarolas de papel.

Pelos cantos da sala há enormes cartuchos de papel, muitos deles cobertos de malha de “crochet”, com aplicações de espelhinhos, “grotescamente” emoldurando fotografias minúsculas, em maioria aproveitadas de cartões postais (EDMUNDO, 2009). Para Luiz Edmundo, “isso é moda em casa de pobre”, “ânsia ingênua de decoração” (EDMUNDO, 2009, p.507).

Decerto que as imprecisões contidas por Luiz Edmundo sobre as sociedades recreativas não podem ser transformadas em verdades ou em fatos consumados. Contudo, a recorrência do tema na produção literária se dá, sobretudo, em razão da discussão que se estabelece entre os intelectuais quando o assunto era o crescimento das sociedades dançantes ou esportivas entre a população pobre da cidade. Adjetivos como “grotesco”, “espalhafatoso” ou até mesmo o diminutivo sintético utilizado muitas vezes como menosprezo as ações dos populares, caracterizava-se em verdadeiras campanhas contra e a favor da prática. A própria análise elaborada pelo Luiz Edmundo mostra um certo antagonismo em questão, pois havia um claro desejo de aproximação com aquilo que conscientemente era definido como civilizado ou moderno.

Essa tentativa de apropriação de signos de distinção intensifica as contradições expostas pela imprensa carioca da época. Vive-se um estágio de mudança, em que o confronto entre as práticas populares e as práticas à moda europeia tornam-se o ponto central, propagando posicionamentos ideológicos os quais princípios como nacionalidade, identidade cultural, tradição e modernidade determinam o ritmo da narrativa.

Isso significa que há diferenças essenciais nos interesses e nas formas de lidar com as diversões populares entre os cronistas. Essas narrativas, notadamente por conta do crescimento em número e importância dos clubes populares, estabelecem grupos de intelectuais que escreveram seus posicionamentos e visões da “cultura popular”. Tais cronistas formularam uma noção de cultura popular urbana heterogênea, em que noções como as de civilidade e moralidade dos grupos sociais e dos sujeitos podem determinar coletivos satisfatórios – ou não – dentro de uma moção classificatória do extenso quadro das manifestações populares.

REFERÊNCIAS

CUNHA, M. C. P. Ecos da folia. Uma história social do carnaval carioca entre 1880 e 1920. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
EDMUNDO, L. O Rio de Janeiro do meu tempo. Niterói: Imprensa Oficial, 2009.
OLIVEIRA, M. P.; FERNANDES, N. N. (Orgs). 150 anos de subúrbio carioca. Rio de Janeiro: Lamparina: Faperj: EdUFF, 2010.
SANTOS JUNIOR, N.J. Diversão à moda suburbana: repressão, tensão e violência (1900-1923). Revista Licere, v. 22, p. 167-187, 2019.

SPORTS NOS SUBÚRBIOS CARIOCAS

02/09/2019

Nei Jorge dos Santos Junior

Quando refletimos sobre a constituição das experiências esportivas na cidade do Rio de Janeiro é comum reduzi-la à espaços com maior visibilidade, ou para ser mais exato: centro e zona sul. Todavia, esse pensamento trilha por uma noção particular de lugar, desconsiderando o contraste e a complexidade na demarcação dos territórios existentes em áreas periféricas. Dessa forma, as múltiplas possibilidades de diversão presentes nessas regiões acabam preteridas e, consequentemente, contribuem para o processo de miopia, em que subjuga espaços periféricos, entre eles os subúrbios, a um status de coadjuvante, ignorando a multiplicidade de práticas existentes nessa região.

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Carta das linhas da Estrada de Ferro Central do Brasil. Fonte: HEMEROTECA DIGITAL: https://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/

De qualquer forma, é crescente o interesse sobre as práticas esportivas e corporais presentes nos subúrbios cariocas. É possível identificar um aumento expressivo no número de estudos que tratam o tema, inclusive aqui no blogue[1]. Vejamos:

As diversões em Bangu são dadas pelos clubs que lá existem. Imagine-se, pois, o que é uma festa ali, onde se reúne o inglês, o francês, o italiano e o brasileiro branco e de cor na mais ampla cordialidade, na mais encantadora harmonia, que não é perturbadora pela distinção de posições sociais e de outros prejuízos abomináveis. Todos ali têm um fim, divertem-se, têm um dever, portarem-se bem; porque lá estão os seus diretores solícitos e prontos, dispensando a todos eles amabilidades, atenções e tanta cousa, tanta que até parecem seus companheiros beber quando são seus dirigentes[2].

No início do século XX já eram muitas as pequenas sociedades voltadas para o esporte nos subúrbios da cidade. Mesmo apresentando uma visão romântica sobre a região, a matéria nos mostra indícios sobre a lógica de articulação inicial desses clubes. A diversão local, a princípio, ficava por ponta das associações, expondo, inicialmente, a importância dessas na construção de elementos na conformação de uma identidade local. Ali frequentavam sujeitos de vários estratos sociais, em clubes espalhados por diferentes bairros, produzindo uma infinidade de práticas, linguagens e costumes. Através delas, podemos desvendar teias de sociabilidades expressivas nas disputas por legitimidade e na atribuição de significados, analisando as tensões latentes sob os sentidos e representações dos esportes à moda suburbana.

Isso significa que a antiga Capital da república, a partir de suas nuances, revelava um fortalecimento de um mercado de entretenimento plural. Não por acaso havia um crescimento significativo de sociedades que se autodenominavam esportivas, recreativas, dançantes, ginásticas, culturais ou carnavalescas. A cidade contava aproximadamente com um número de 1.600 associações, demonstrando que o hábito de associar-se já fazia parte de uma tendência facilmente observável no Rio de Janeiro.

 

 Curiosamente, grande parte dessas associações não estavam localizadas nos bairros mais abastados. Pelo contrário, as regiões central e suburbana reuniam, até mesmo pelo número expressivo de habitantes, a maior parcela das sociedades presentes na cidade. Para se ter ideia, ainda nos primeiros anos de 1910, a região do Grande Andaraí contava com um pouco mais de quarenta associações, fossem elas de caráter esportivo como o Sport Club Andarahy, Andarahy Club  e o Andarahy Athletic Club, fossem aquelas diretamente dedicadas às atividades dançantes ou carnavalescas como o Andarahy Club Carnavalesco, o Flor do Andarahy, o Grêmio Amantes da Folia e o Clube Intrépidos Tico-ticos. Em Bangu, no mesmo período, o número era um pouco menor, porém não pouco expressivo, aproximadamente vinte e cinco associações, divididas entre esportivas, Sport Club Americano, Esperança Foot-ball Club e Bangu Athletic Club, ou direcionadas às atividades recreativas como a Flor da Lyra, o Casino Bangu, a Flor da União e o Grêmio Prazer das Morenas, movimentavam as noites arrabaldinas.

Certamente, fossem em espaços privilegiados para a prática da dança, esportes e ginástica, ou, até mesmo, nas agremiações e ruas localizadas nos arrabaldes suburbanos, é notável a consolidação de uma indústria de entretenimento na transição dos séculos XIX e XX. Por isso, a constituição do campo esportivo não pode ser pensada desarticulada das ações sociais dos subúrbios, tampouco podemos entendê-la ignorando a história da mesma. Dessa forma, talvez caiba uma questão final: com esse amplo leque de clubes e práticas corporais é possível afirmar que a cidade do Rio de Janeiro, independente da região, mantinha um mercado de entretenimento consolidado?

[1] Ver: MELO, Victor Andrade de; SANTOS JUNIOR, Nei Jorge. O esporte nos arrabaldes do Rio de Janeiro: o cricket em Bangu (1904-1912). Movimento, Rio de Janeiro, 2017.; MELO, Victor Andrade de. Entre a elite e o povo: o sport no Rio de Janeiro do século XIX (1851-1857). Tempo, Niterói, v. 20, n. 37, p. 1-22, 2015.; MELO, Victor Andrade de. Um hipódromo suburbano: a experiência do Club de Corridas Santa Cruz (Rio de Janeiro – 1912/1918). Topoi (Rio J.),  Rio de Janeiro ,  v. 20, n. 40, p. 157-184,  Apr.  2019 .; SANTOS JUNIOR, N. J. A construção do sentimento local: o futebol nos arrabaldes de Andaraí e Bangu (1914-1923). 2012. 126f.  Dissertação (Mestrado em História Comparada) – Instituto de História, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2012.;  SANTOS JUNIOR, N.J.MELO, V. A. Recrear, instruir e advogar os interesses suburbanos: posicionamentos sobre o futebol na Gazeta Suburbana e no Bangú-jornal (1918-1920). Revista Movimento, v. 20, p. 193, 2013.; MALAIA, J. M. Revolução Vascaína: a profissionalização do futebol e inserção sócio-econômica de negros e portugueses na cidade do Rio de Janeiro (1915-1934). 2010. 489f. Tese (Doutorado em História Econômica) – Departamento de História, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.

[2] Gazeta de Notícias, 12 de dezembro de 1907.


O SUPLÍCIO DO LICENCIAMENTO: O CASO DA SOCIEDADE DANÇANTE CLUB DOS MANGUEIRAS

02/04/2019

Por Nei Jorge dos Santos Junior

Como já fora registrado em outros pôsteres no blogue, as dificuldades em adquirir a autorização da Secretaria de Polícia do Distrito Federal para garantirem a realização de bailes e festas suburbanas não era algo objetivo. Pelo contrário, os critérios para obtê-las eram definidos pelo Chefe da Polícia. Não eram critérios precisos, de fácil aplicação. Tampouco, totalmente eficazes do ponto de vista policial, sendo anualmente revistos e modificados. No primeiro registro, as associações deviam apresentar seus estatutos, os nomes dos dirigentes e o local da sede. Posteriormente, um policial era enviado para comprovar as informações fornecidas nos documentos, como também recolher dados sobre o cotidiano das associações e de seus sócios. Após essa investigação, o policial emitia um parecer, no qual poderia ser favorável ou não ao que havia sido requerido. Em caso de mudança de endereço, todo esse processo era repetido, havendo a necessidade de uma nova autorização.

 

Além de toda a burocracia citada, outros fatores contribuíam para dificultar ainda mais a abertura de clubes nos subúrbios da cidade. Questões como a estruturação dos espaços, por exemplo, ganhavam corpo frente ao cenário moderno apresentado em alguns pontos específicos da cidade. Aos olhos da grande imprensa carioca era inadmissível uma sede recreativa sem condições de higiene e segurança.

 

Na tentativa de enquadrar os divertimentos suburbanos dentro das estreitas expectativas do cosmopolismo, os clubes deveriam ser submetidos a um processo de investigação feito pelo Chefe de Polícia. Logo, aqueles clubes que reuniam entre seus associados sujeitos considerados incivilizados e desordeiros, eram alvos de perseguição, dificultando a autorização de funcionamento.

Brigas em anos anteriores, cobrança de ingressos para os bailes e sócios com antecedentes criminais subtraiam significativamente as chances de conquistar a sonhada permissão.   O caso da Sociedade Familiar Dançante e Carnavalesca Club dos Mangueiras”, com “sede” na Vila proletária Marechal Hermes, subúrbios da cidade, talvez seja um caso explícito de tal repressão. Vejamos.

Vila Operária Marechal Hermes

Vila Operária de Marechal Hermes, 1913. Fonte: Arquivos de Alfredo Cesar Tavares de Oliveira.

Em março de 1915, o então presidente Cypriano José de Oliveira fez o pedido de licenciamento para sair às ruas e promover bailes internos naquele ano, conforme propunha seu estatuto: “festejar todos os anos a data de sua fundação, assim como também o Carnaval externo por meio de préstito com críticas e alegorias pela maneira resolvida em assembleia, dentre os preceitos e normas policiais”[1]. Todavia, a negativa foi incisiva.

A Careta.1913

 Inauguração da “Vila Proletária” junto à estação. Fonte: A Careta, 10 de maio de 1913.

Mesmo tendo enfatizado os “preceitos” e “normas” estabelecidas pela força policial em seus estatutos, a Sociedade suburbana, cujo objetivo era “proporcionar aos associados e suas famílias divertimentos lícitos”[2], não teve a licença aprovada.  De acordo com o Delegado da Circunscrição Suburbana, o clube “tem a sua sede em um botequim à avenida 1° de maio, n. 6, na Vila Marechal Hermes”[3]. Ademais, havia um atenuante que complicaria ainda mais a aquisição do licenciamento, tratava-se do próprio presidente, Cypriano José de Oliveira, o qual “figura nesta seção registrado em prontuário como grevista, e como tal já foi processado”[4]. A Sociedade ainda contava com Caralampio Trille como sócio; indivíduo, que segundo a polícia “é agitador, revolucionário e perigoso, pois, em 1904, esteve envolvido e tomando parte saliente nas greves e acontecimentos ocorridos neste ano”[5]. Por fim, a “sindicância apurou que os demais associados deste clube são negociantes, operários e empregados da estiva”[6].

Semanas depois, o 23° Distrito Policial enviou um manuscrito que complementaria alguns dados sobre a composição do quadro social do clube. O presidente “grevista”, Cypriano José de Oliveira, era carregador no cais do porto. Foi fiscal geral e, anos depois, em 1923, assume também a presidência da “Sociedade de Resistência dos Trabalhadores em Trapiche e Café”, cargo que exerceu forte militância no cais. Já os secretários eram funcionários dos Correios e os demais cargos ocupados por operários da Estrada de Ferro Central do Brasil e um funcionário da Escola Politécnica[7].

Outro membro que compunha o dossiê enviado era o sócio “agitador e revolucionário, Caralampio Trille, espanhol anarquista com um longo histórico de militância em seu país[8]. No Brasil, ajudou a fundar jornais libertários como “A Greve”, em 1903, e participou de várias sociedades operárias, chegando a presidir, em 1910, a Sociedade Operária Fraternidade e Progresso da Gávea[9]. Com uma diretoria potencialmente “perigosa”, cujo o desfecho certamente caminhou para uma negativa, destacamos o esforço policial em estabelecer relações que transcendem o campo da diversão. Para além da sede em um botequim, a busca por questões políticas e comportamentos considerados subversivos geraria um motivo ainda maior para esquivar-se de transgressões que pudessem ocorrer no interior desses grêmios.

Aos olhos daqueles que pregavam a “moral” e a “civilidade”, agremiações como a Sociedade Familiar Club dos Mangueiras representavam o verdadeiro perigo. Formados por um grupo de trabalhadores de baixa renda, estas pequenas sociedades, assim como seus pares, tornavam-se alvo de constantes cuidados e permanente repressão, fosse pelo extenso número de circulares e processos de concessão ou cassação de licenças para funcionamento, ou até mesmo pela infinidade de notícias nas páginas policiais dos grandes jornais da cidade[10]. No caso específico do clube citado, que tinha no movimento grevista uma preocupação clara, as autoridades policiais o tratavam ainda com mais rigor, pois reconheciam o ato como fruto da manipulação que alguns militantes anarquistas exerciam sob a maioria dos trabalhadores cariocas, buscando legitimar assim os discursos que defendiam o controle e repressão ao movimento operário e a própria greve[11]. Nesse caso, fechar os olhos aos clubes que tinham militantes em suas fileiras era legitimar um espaço de certa forma considerado por eles subversivo, um local potencializador para futuras manifestações.

[1] Estatutos da Sociedade Familiar Club dos Mangueiras de 1915.

[2] Pedido de Licença da Sociedade Familiar Club dos Mangueiras de 1915

[3] Ibid.

[4] Ibid.

[5] Ibid.

[6] Pedido de Licença da Sociedade Familiar Club dos Mangueiras de 1915.

[7] CUNHA, M. C. P. Ecos da folia. Uma história social do carnaval carioca entre 1880 e 1920. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

[8] A Época, 19 de setembro de 1913; A Época, 3 de outubro de 1913.

[9] Ibid.

[10] COSTA, M. B. C. Entre o lazer e a luta: o associativismo recreativo entre os trabalhadores fabris do Jardim Botânico (1895-1917). Dissertação (Mestrado em História Social da Cultura) – Departamento de História, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014.

[11] PEREIRA, L. A. de M. E o Rio dançou. Identidades e tensões nos clubes recreativos cariocas (1912-1922). In: CUNHA, M. C. P. (org.). Carnavais e outras f(r)estas. Campinas, SP: Editora Unicamp/ Cecult, 2002, p. 419-444.


AS NOITES DANÇANTES DE BANGU

28/10/2018

Nei Jorge dos Santos Junior

A noite de sábado do dia 27 de janeiro de 1923 foi marcada por comemorações no bairro operário de Bangu[1]. O baile a fantasia das Sociedades Dançantes Prazer das Morenas e Flor da Lyra movimentaram a região, nos quais membros e simpatizantes das “queridas sociedades” tiveram muitos momentos de diversão até alta madrugada[2]. Pelo lado do Prazer das Morenas, adjetivos como “sucesso”, “grandiosa” e “brilhante” definiram o evento em homenagem às Sociedades Dançantes Suburbanas, destacando, principalmente, a comissão de festas do clube, composta pelas senhoritas Herondina Freire, Adelina Gama, Alice Teixeira, Erresedina Parada, Nair Oliveira e as irmãs Noêmia Guimarães e Benedicta Guimarães[3].

Além da organização, formada sempre por mulheres, indicando um protagonismo feminino no preparo dos bailados, que recebera, aliás, aplausos e elogios das diversas colunas de entretenimento que ali cobriam a festa, outras questões também chamaram a atenção dos jornais[4]. A primeira delas, o entusiasmo dos convidados, “abrilhantados” pela “Caravana Musical”, dirigida pelo Maestro Tenente Gentil Pereira Gonçalves, que não deu trégua aos frequentadores, transformando o baile a fantasia, na opinião de alguns cronistas, o melhor festejo realizado até o momento pela “estimada sociedade”[5]. Certamente, o bairro há de se orgulhar do brilhantismo que compõe a comissão de festas, “constituindo uma das notas mais vibrantes das pugnas carnavalescas da aprazível localidade”, sinalizou o entusiasmado redator do periódico O Imparcial[6].

Nos intervalos das contradanças, houve um leilão de prendas, doadas pelo Sr. José Costa, mais conhecido no bairro como “José Pião”[7]. O segundo ponto, está no especial “lunch” aos representantes da imprensa, além de brindes e uma contradança especial oferecida pelas “gentis morenas” da comissão[8], o qual revela certa ambiguidade na relação imprensa e agremiações populares, que será tratada com maior profundidade mais adiante.

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Entre os membros da Flor da Lyra a paixão parecia ainda maior, destacaram os periódicos[9]. A festa teve início às 20h, na “lindíssima” sede do marco 6, em Bangu. Rapidamente o baile lotou, não só com a “enorme presença das principais famílias da localidade como de toda circunvizinhança”[10]. Afinal, a festa foi “abrilhantada” pela orquestra do maestro Gastão Bomfim, “que não deu uma folga sequer nas contradanças até alta madrugada”[11].

O baile seguia “extraordinário”[12]. Para o cronista do Jornal do Brasil, “os inúmeros pares mal conseguiam se movimentar no vasto salão, lindamente engalanado e iluminado por centenas de lâmpadas multicores”[13]. Compartilhando da mesma opinião, o cronista do jornal O Imparcial vai além, para ele “é de lamentar-se o salão não ser cinco ou seis vezes maior, devido a entusiasmada animação que despertam os bailes da Flor da Lyra”[14].  Por fim, como uma espécie de “mimosidade”[15], os cronistas foram agraciados com uma bela valsa, lavrada pelo aplaudido maestro Gentil Gonçalves.

Àquela altura, já eram muitas as pequenas sociedades voltadas para o lazer nos subúrbios da cidade. Para além das homenagens expostas acima, tratava-se de mais um dos muitos bailes ofertados mensalmente pelos diversos clubes da região, os quais mereciam a cobertura dos principais órgãos da imprensa carioca, entre eles, O Imparcial, a Gazeta de Notícias, O Paiz e o Jornal do Brasil.

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Além de revelar o espaço cada vez mais privilegiado que os veículos dedicavam aos festejos suburbanos, as “brilhantes festas”, parafraseando o termo utilizado por vários autores que cobriam os bailes, são importantes indicadores para compreendermos o universo de entretenimento nos arrabaldes da cidade. Ali, festejavam homens e mulheres coletivamente, em sociedades espalhadas por diferentes bairros, produzindo uma infinidade de práticas, linguagens e costumes. Através delas, podemos desvendar teias de sociabilidade expressivas nas disputas por legitimidade e na atribuição de significados, analisando as tensões latentes sob os sentidos e representações de diversão à moda suburbana.

Não por acaso que o número de festas em Bangu já se mostrava um relevante hábito social consolidado. Afinal, como sustenta Pereira, fala-se dos bailes suburbanos, capazes de desertar o entusiasmo dos moradores se transformando em elemento fundamental da experiência de seus pares[16]. Contudo, é importante chamar a atenção que essa relação não deixou de ter seus matizes, tampouco esvaziado de contradições. Na verdade, como já tratado em outros textos no blogue, é justamente sobre essa relação tênue e dúbia que merece atenção, não somente referente às oscilações da grande imprensa e suas representações sobre o comportamento suburbano, notadamente pelos discursos de subtração dos bárbaros folguedos tradicionais, como também a demarcação de grupos mais apropriados e bem colocados incorporados a um desenho hierárquico do conjunto das manifestações populares.

[1] Jornal do Brasil, 27 de janeiro de 1923, Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923; O Paiz, 27 de janeiro de 1923; Gazeta de Notícias, 29 de janeiro de 1923.
[2] Jornal do Brasil, 27 de janeiro de 1923, Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923; O Paiz, 30 de janeiro de 1923; Gazeta de Notícias, 29 de janeiro de 1923.
[3] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923 e Gazeta de Notícias, 29 de janeiro de 1923.
[4] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923.
[5] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923.
[6] O Imparcial, 30 de janeiro de 1923.
[7] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923.
[8] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923.
[9] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923; O Paiz, 30 de janeiro de 1923.
[10] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923.
[11] Ibid.
[12] O Imparcial, 30 de janeiro de 1923.
[13] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923.
[14] Ibid.
[15] Ibid.
[16] PEREIRA, L. A. M. O Prazer das Morenas: bailes ritmos e identidades no Rio de Janeiro da Primeira República. In: MARZANO, A. e MELO, V. Vida Divertida: histórias do lazer no Rio de Janeiro (1830-1930). Rio de Janeiro: Apicuri, 2010, p.276.

UM SPORT DE REPRESENTAÇÕES: o futebol suburbano e a grande imprensa carioca

28/05/2018

Por Nei Jorge dos Santos Junior

Os primeiros momentos do futebol no Rio de Janeiro foram marcados por uma série de interesses e representações que relacionavam o velho esporte bretão à formação de um novo modelo de cidadão. Mesmo pautado pelos valores do cavalheirismo, do fair­play, e do amadorismo, elementos indispensáveis para uma sociedade em que adotava o modelo europeu como parâmetro cultural para a recém ­instaurada República brasileira, a prática foi difundida pelos mais distintos bairros da cidade, desencadeando conflitos ao redor da imagem de distinção social desejada pelos sportsmen e pela grande imprensa da época.

Foto.Sport.1915

Fonte: Sports, ano 01, n.2, 1915, p.21.

Nesse cenário, aumentava-se o número negros, operários e indivíduos das camadas populares, que incomodava àqueles que revestiam a modalidade, pelo menos discursivamente, de um caráter “civilizacional” superior. Esses novos personagens, tanto a torcida quanto os jogadores, adotavam certos comportamentos que, no olhar dos setores sociais mais privilegiados economicamente, eram considerados lamentáveis. Essa mudança de sentidos reforçava um fator ideológico, já que as páginas dos principais periódicos da cidade deixavam de celebrar a sofisticação e a fidalguia para declarar a desmoralização e o repúdio pela prática nos centros mais pobres da cidade. Buscava-­se, portanto, no comportamento desses sujeitos, ações que diferenciassem das propostas idealizadas pelos sportsmen, reproduzindo, efetivamente, um conjunto de reações extraídos das agremiações da Zona Sul. Vejamos o que publicou o Correio da Manhã em 14 de julho de 1919, sob o título: “O encontro Bangu x S. Christovão não terminou…”

A Infelizmente o nosso football ainda não está de todo civilizado.
inda ontem no campo do Bangu A. C., por ocasião do encontro dos teams locais com os do S. Cristóvão, registraram-se factos que são tão indignos, que mais mereciam ser lamentados numa secção policial.
Faltando 22 minutos para terminar o encontro Patrich perdendo a pelota para Hugo agride este jogador no que é repelido.
Estabeleceu-se o tumulto, que teve como consequência a invasão do campo, novas agressões, pauladas, revólveres e navalhas em cena e… suspensão do jogo!
Não sabemos ainda quais os culpados de tamanha falta de educação: se os desordeiros da Favela ou se os agressores do Morro Pinto.
Francamente, srs. Sportmen. Isto nunca foi football! Acabemos com estas cenas lamentáveis, antes que a polícia prepare um lugar seguro para serem trancafiados os desordeiros que se querem impingir como sportmen! (Correio da Manhã, 14 de julho de 1919, p. 06).

Ao descrever que “infelizmente o nosso football ainda não está de todo civilizado”, o cronista parecia esquecer que o excesso desses conflitos não era uma exclusividade dos clubes sediados nas regiões mais pobres da cidade. Vendo nos seguidores dessas agremiações os principais responsáveis pela desmoralização do futebol, ele lamentava a “perniciosa” mistura social, uma perda irreparável, causada pela índole natural dos novos admiradores do jogo (PEREIRA, 2000).

Em seu estudo sobre o cotidiano das camadas populares, Chalhoub (2001) nos ajuda entender porque o registro dos conflitos entre sócios e torcedores dessas agremiações era tradicionalmente abordado sob o estigma de “desordeiros da Favella” ou de “agressores do Morro”. A pobreza, na perspectiva dos teóricos da patologia social, produziria a ausência de normas ou a falta de padrões de comportamento. Dessa forma, embora alguns torcedores reivindicassem contra “as acusações injustas” que atingiam “um povo laborioso e, sobretudo, honesto como é o Bangu”, eles eram vistos como os principais suspeitos de quaisquer desordens que viessem a acontecer em seus jogos (PEREIRA, 2000). Por isso, a cada partida marcada, a própria polícia se apressava em reforçar o patrulhamento local, na tentativa de conter os ânimos dos torcedores dessas agremiações. A liga Metropolitana, por sua vez, mandava frequentemente ofícios aos clubes da zona suburbana, pedindo que tentassem evitar o contato dos jogadores com seus torcedores, buscando proteger os visitantes da propagada fúria local.

De fato, a estigmatização fica ainda mais clara quando comparada aos conflitos causados por clubes da elite carioca. Por exemplo, um tumulto na partida realizada entre América e Botafogo, em 1914, foi apresentado como mero fruto do amor dedicado ao clube. Por vezes, até mesmo os incidentes ocorridos nos campos das equipes mais tradicionais, com a total participação dos seus sócios, eram atribuídos aos torcedores “impertinentes e mal-educados” do subúrbio (PEREIRA, 2000).

De fato, percebemos que os jornais foram agências centrais na construção de representações sociais sobre as agremiações do subúrbio da cidade. Como lembra Moscovici (2004), a representação social desponta no momento em que existe ameaça para a identidade coletiva, quando o conjunto de conhecimentos submerge as regras que a sociedade se outorgou. Foi nesse cenário que o discurso produzido por esses jornais perpassava pela objetividade e subjetividade. A grande imprensa, por exemplo, procurava estabelecer restrições às agremiações da zona suburbana. Uma das iniciativas foi a institui­ção de regulamentos que destacavam a violência e o desserviço prestado ao futebol. Tratava­-se de uma noção particular de subúrbio, enraizado por estigmas fortemente marcados pela estratificação socioespacial da cidade. A partir dessa descontextualização e recontextualização, o jornal traduzia sua visão de mundo, impregnado por estigmas que desqualificavam não só torcedores e jogadores, como também o território em que eles ocupavam e habitavam.


UM PADRINHO ESPORTIVO: JOÃO FERRER E O BANGU A. C.

04/09/2017

Nei Jorge Santos Junior

Entre os anos de 1903 a 1919, João Ferrer exerceu a função de diretor-chefe da Companhia Progresso Industrial do Brazil. Contratado para substituir o antigo diretor-gerente da Fábrica, o português Eduardo Gomes Ferreira, Ferrer, com sua visão moderna para o período, foi responsável por uma série de melhorias na região, as quais não estavam circunscritas às questões de infraestrutura, permitindo dotar de conforto a pequena vila operária, mas também oferecendo várias formas de lazer à sua população.

O benemérito João Ferrer, em fotografia de 1905.

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Fonte: MOLINARI, C. Mestres estrangeiros; operariado nacional: resistências e derrotas no cotidiano da maior fábrica têxtil do rio de janeiro (1890 – 1920). 2015. 259 f., il. Dissertação (Mestrado em História) —Universidade de Brasília, Brasília, 2015.

Certamente, a de maior impacto foi a participação na criação do Bangu A. C. Como já fora exposto em outros posts no blog, seus fundadores do clube, todos trabalhadores da Companhia Progresso Industrial do Brasil, bem que tentavam desde 1897 organizar uma agremiação esportiva[1], mas os diretores da empresa não pareciam dispostos a apoiar tal iniciativa. O antigo administrador da fábrica, o português Eduardo Gomes Ferreira, alegava ser contra qualquer tipo de jogo e, por isso, impedia a criação de qualquer agremiação esportiva. Os ingleses, porém, não esmoreceram e continuaram a pedir recursos para a fundação do clube.

Contudo, desdobramentos externos transformariam de vez as relações de lazer da região. Durante a greve geral de 1903, mesmo tendo a Fábrica Bangu participação pouco expressiva no movimento, curiosamente o diretor-gerente da Companhia, Eduardo Gomes Ferreira, pediu exoneração do cargo em 17 de agosto daquele ano, alegando problemas de saúde[2]. Na ocasião, o cargo acabou nas mãos do até então tesoureiro espanhol João Ferrer, que há tempos mantinha ligações estreitas com a cúpula da empresa.

Logo após a ascensão do espanhol ao cargo de administrador, as restrições em relação aos jogos chegariam ao fim, pois João Ferrer enxergava com bons olhos a criação de uma agremiação.

Rapidamente, a notícia se espalhara por toda fábrica. Para compor o quadro de associados, sem qualquer distinção de cargos ou nacionalidade, bastava aos interessados darem seus nomes ao secretário Andrew Procter, responsável pela filiação[3]. Naquele momento formou-se, aos 17 dias de abril de 1904, na longínqua estação de Bangu, um “club athletic sob a denominação de “Bangu Athletic Club”, tendo “por fins os jogos de football, cricket, lawn tennis e outros jogos variados.”[4]

A relação entre o espanhol Ferrer e a agremiação não ficou circunscrita às ações daquele dia. Pelo contrário, frequentemente o clube recorria aos subsídios oferecidos pelo então dirigente espanhol, entre eles, um terreno de propriedade da fábrica para a instalação do campo de futebol e a construção da sede social. Além disso, o diretor também  liberava com frequência um quantia em dinheiro, a fim de complementar seu orçamento, que incluía despesas com conservação[5], limpeza da sede social e do campo, pagamento de impostos, energia elétrica, compra de uniformes[6], transporte de jogadores e outras, por exemplo, o pedido feito em janeiro de 1906, em que o clube recorreria novamente ao Sr. João Ferrer, desta vez, “pedindo auxílio para aumentar as arquibancadas e colocar no campo diversos jogos e exercícios atléticos para o divertimento dos sócios e seus familiares aos domingos e feriados”[7].

Como uma espécie de extensão recreativa da fábrica, essa área representava uma continuidade do espaço do trabalho. A força dos operários e seu empenho na estruturação do Bangu se estendiam para além das questões trabalhistas, embora diretamente ligadas ao mundo do trabalho, a partir do qual se mobilizavam e com o qual reiteradamente dialogavam.

Dessa forma, percebe-se que Ferrer exercia um papel de benfeitor, liberando frequentemente recursos ao clube arrabaldino. Para facilitar a liberação da verba, o clube agia da seguinte forma: a solicitação de fundos era encaminhada ao Presidente Honorário do clube, cargo definido claramente no artigo sete de seus estatutos – “será conferido sempre o título de – Presidente Honorário –  o Diretor Gerente da Companhia Progresso Industrial do Brasil, o qual será consultado em todas as resoluções tomadas pela diretoria, estranhas a estes estatutos”[8]. Isto é, o administrador gerente avaliava e designava os recursos necessários para o bom andamento do clube, no qual suas ações interferiam diretamente na política do grêmio, principalmente no controle e na composição de seus quadros e dirigentes. Vale salientar que, qualquer obra ou evento realizado pelo clube, por ter sua sede no terreno da companhia, precisava de autorização prévia da fábrica, até mesmo jogos e torneios, como a disputa da Taça Ferrer, em que o administrador impôs o número de competidores, data e condição de participação: “só poderá tomar parte neste torneio, jogadores que são empregados da Cia. Progresso Industrial do Brasil”[9].

No entanto, o benfeitor espanhol teve sua reputação abalada por conta da crise econômica enfrentada pelas indústrias de tecidos em decorrência da Primeira Guerra Mundial. Silva sustenta que a verificação de irregularidades, que vinham sendo encobertas ano após ano pelo corpo de diretores por meio de recursos, provocou o abandono do seu posto em 27 de janeiro de 1919[10].

Após a saída do cargo, inúmeras denúncias sobre fraudes fiscais e irregularidades de diversos tipos vieram à tona. Além disso, a Gazeta de Notícias publicou uma série de denúncias intitulada: “Ladrões do fisco: o contrabando da fábrica Bangu”[11].

No entanto, mesmo frente à sequência de escândalos, algumas agremiações, que tanto se beneficiaram das ações patriarcais do ex-diretor, não esqueceram suas benesses. Acreditamos que as redes socais locais estabelecidas entre Ferrer e o Bangu A. C. marcaram fortemente o modus operandi da região, assumindo papel determinante na inclusão de suas pautas locais não só no debate sobre condições de trabalho e moradia, mas também sobre as múltiplas opções de entretenimento do bairro.

[1] MOLINARI, C. Mestres estrangeiros; operariado nacional: resistências e derrotas no cotidiano da maior fábrica têxtil do rio de janeiro (1890 – 1920). 2015. 259 f., il. Dissertação (Mestrado em História) —Universidade de Brasília, Brasília, 2015.
[2] Ibid.
[3] Ata de Fundação, The Bangu Athletic Club, 1904.
[4] Ibid.
[5] Acta da Sessão da Diretoria do Bangu Athletic Club de 19 de janeiro de 1906.
[6] De acordo com a Ata de fundação, logo após a escolha das cores do uniforme, coube ao Sr. Stark, a missão de conseguir, junto ao Diretor da Fábrica, o pano necessário para fazer o fardamento do clube. Além disso, por diversas vezes, essa mesma atitude pode ser vista nas atas de reunião do clube. Ver: Ata de Fundação, The Bangu Athletic Club, 1904; Acta da Sessão da Diretoria do Bangu Athletic Club de 19 de janeiro de 1906.
[7] Acta da Sessão da Diretoria do Bangu Athletic Club de 19 de janeiro de 1906.
[8] Art. 7 dos Estatutos do Bangu Athletic Club de 20 de abril de 1913, p. 1-2.
[9] Acta da Sessão da Diretoria do Bangu Athletic Club de 21 de março de 1911.
[10] SILVA, G. A. A. Bangu: a fábrica e o bairro. Um Estudo Histórico (1889-1930). Dissertação (Mestrado em História Social) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1985.
[11] Gazeta de Notícias, 28 de junho de 1920.

O Prazer das Morenas de Bangu

10/04/2017

Por Nei Jorge dos Santos Junior

“Não resta dúvida que o carnaval de Bangu vai ser em grande parte devido ao Grêmio Carnavalesco Prazer das Morenas”, escrevera o entusiasmado cronista da Gazeta de Notícias em 08 de fevereiro de 1920.

As palavras do jornalista podem, inicialmente, apresentarem para o leitor características hiperbólicas. Afinal, como já fora escrito em alguns textos no blog, a região banguense possuía uma vida divertida intensa, com vários clubes dançantes, carnavalescos, recreativos e esportivos. No entanto, o Prazer das Morenas se destacava por algumas características peculiares, mesmo comparada aos clubes da região fabril.

 Como bem nos lembra Pereira, não era de se estranhar que o Prazer das Morenas iniciasse a década de 1920 como a principal sociedade dançante de Bangu[1]. A composição social do grêmio, desde a sua fundação, já traçava caminhos em direção a consolidação de uma imagem multicultural, permitindo que negros, brancos pobres e imigrantes pudessem compor seu quadro de associados sem qualquer distinção.

JB, Prazer das Morenas

Jornal do Brasil, fevereiro de 1920.

 Fundado em 04 de março de 1909, com sede na Rua Coronel Tamarindo, número 647, o Prazer das Morenas tinha como fins “proporcionar aos seus associados, em sua sede ou fora dela, festas carnavalescas e outras diversões, compatíveis com o caráter da sociedade”[2]. Além desses objetivos, apontados quase copiosamente por outras associações, a sociedade se destacava por outros pontos poucos comuns, pelo menos oficialmente, em outros clubes:

Estimular por todos os meios, que exista entre todos os seus sócios a máxima distinção para evitar preconceitos entre os mesmos, sendo imposta a eliminação aos que a isso derem causa; concorrer aos festejos carnavalescos, organizando, para isso, préstitos, alegóricos e críticos; realizar em sua sede, pelo menos, 5 bailes anualmente;  manter em sua sede, para recreio de seus sócios, toda espécie de jogos não proibidos por lei; manter uma biblioteca acessível ao público; manter uma escola que ministre, gratuitamente, instrução primária a quantos procurarem; promover outras quaisquer reuniões, que possam constituir divertimento para os seus associados.[3]

No mínimo, três objetivos, dos seis apresentados pela associação, mostram-se pouco habituais comparados aos demais clubes da região. Manter uma biblioteca e uma escola “que ministre, gratuitamente, instrução primária a quantos procurarem” revela uma grande preocupação com a formação dos associados do clube e seus pares. Para se ter ideia, a população da freguesia Campo Grande, a qual Bangu fazia parte, sofria com um grande quantitativo de analfabetismo nos primeiros anos do século XX. Todavia, coincidência ou não, esse índice se transformou completamente se levarmos em conta o período em que a escola da sociedade fora implementada[4]. De acordo com os dados do Recenseamento de 1920, a freguesia mudaria seu patamar, pois dos 52.328 residentes na região, 22.087 sabiam ler e escrever[5]. Isto é, 42,20% da população, um número expressivo comparado ao índice nacional, que era de apenas 24,45%, incluindo brasileiros e imigrantes.[6]

Ademais, outro ponto também nos chamou a atenção. Tratar, por exemplo, sobre preconceito num ambiente recheado de imigrantes e negros sinalizava uma preocupação com o modus operandi local, explicitada apenas pela Sociedade Flor da União, notadamente no momento em que indica, em seus estatutos, a inclusão de pessoas, independente da nacionalidade, religião ou cor, para compor suas fileiras.

ComissãodoPrazerdasMorenas

Comissão de festas do Prazer das Morenas. Fonte: Jornal do Brasil, 08 de fevereiro de 1920.

Acreditamos que tais evidências não são meros devaneios colocados em seus estatutos. Analisando periódicos locais e de grande circulação, conseguimos identificar facilmente exemplos que expressam a consolidação de uma imagem multicultural e miscigenada. Ademais, enfatizar que atitudes preconceituosas de sócios pudessem gerar a eliminação no quadro de associados mostra-se, no mínimo, algo a ser investigado com maior profundidade, pois a rivalidade entre estrangeiros e brasileiros não estava circunscrita somente ao ambiente fabril, mas se estendia pelas festas realizadas nos quatro cantos da zona arrabaldina.

Dessa forma, a ideia de estabelecer relações mínimas de convivência, não só para o bom funcionamento das atividades do clube, como também para a própria unificação de força na luta por melhores condições de trabalho, teve desdobramentos positivos. Para Pereira, o prestígio alcançado pelo Prazer das Morenas garantiu o apoio de grande parte dos comerciantes arrabaldinos, que “não hesitavam, a cada carnaval, em patrocinar os desfiles do clube”[7].  Talvez, a próprio escolha do nome “Prazer das Morenas” já seria uma forma de simbolizar o ambiente multicultural presente do cotidiano do clube, expressando com orgulho a identidade mestiça que o acompanhara desde sua fundação.

[1] PEREIRA, L. A. M. A flor da união: festa e identidade nos clubes carnavalescos do Rio de Janeiro (1889-1922). Terceira Margem, Rio de Janeiro, n. 14, p.169-179, jan./jun., 2006.

[2] Estatutos do Grêmio Dançante Carnavalesco Prazer das Morenas, 1917.

[3] Estatutos do Grêmio Dançante Carnavalesco Prazer das Morenas, 1917.

[4] O bairro já contava com outras escolas, entre elas a Escola Rodrigues Alves, fundada em 1905 para filhos de operários da fábrica.

[5] Recenseamento Geral de 1920, p. 464-465.

[6] Recenseamento Geral de 1920, p. 464-465.

[7] PEREIRA, L. A. M. O Prazer das Morenas: bailes ritmos e identidades no Rio de Janeiro da Primeira República. In: MARZANO, A. e MELO, V. Vida Divertida: histórias do lazer no Rio de Janeiro (1830-1930). Rio de Janeiro: Apicuri, 2010, p.296.