AS NOITES DANÇANTES DE BANGU

28/10/2018

Nei Jorge dos Santos Junior

A noite de sábado do dia 27 de janeiro de 1923 foi marcada por comemorações no bairro operário de Bangu[1]. O baile a fantasia das Sociedades Dançantes Prazer das Morenas e Flor da Lyra movimentaram a região, nos quais membros e simpatizantes das “queridas sociedades” tiveram muitos momentos de diversão até alta madrugada[2]. Pelo lado do Prazer das Morenas, adjetivos como “sucesso”, “grandiosa” e “brilhante” definiram o evento em homenagem às Sociedades Dançantes Suburbanas, destacando, principalmente, a comissão de festas do clube, composta pelas senhoritas Herondina Freire, Adelina Gama, Alice Teixeira, Erresedina Parada, Nair Oliveira e as irmãs Noêmia Guimarães e Benedicta Guimarães[3].

Além da organização, formada sempre por mulheres, indicando um protagonismo feminino no preparo dos bailados, que recebera, aliás, aplausos e elogios das diversas colunas de entretenimento que ali cobriam a festa, outras questões também chamaram a atenção dos jornais[4]. A primeira delas, o entusiasmo dos convidados, “abrilhantados” pela “Caravana Musical”, dirigida pelo Maestro Tenente Gentil Pereira Gonçalves, que não deu trégua aos frequentadores, transformando o baile a fantasia, na opinião de alguns cronistas, o melhor festejo realizado até o momento pela “estimada sociedade”[5]. Certamente, o bairro há de se orgulhar do brilhantismo que compõe a comissão de festas, “constituindo uma das notas mais vibrantes das pugnas carnavalescas da aprazível localidade”, sinalizou o entusiasmado redator do periódico O Imparcial[6].

Nos intervalos das contradanças, houve um leilão de prendas, doadas pelo Sr. José Costa, mais conhecido no bairro como “José Pião”[7]. O segundo ponto, está no especial “lunch” aos representantes da imprensa, além de brindes e uma contradança especial oferecida pelas “gentis morenas” da comissão[8], o qual revela certa ambiguidade na relação imprensa e agremiações populares, que será tratada com maior profundidade mais adiante.

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Entre os membros da Flor da Lyra a paixão parecia ainda maior, destacaram os periódicos[9]. A festa teve início às 20h, na “lindíssima” sede do marco 6, em Bangu. Rapidamente o baile lotou, não só com a “enorme presença das principais famílias da localidade como de toda circunvizinhança”[10]. Afinal, a festa foi “abrilhantada” pela orquestra do maestro Gastão Bomfim, “que não deu uma folga sequer nas contradanças até alta madrugada”[11].

O baile seguia “extraordinário”[12]. Para o cronista do Jornal do Brasil, “os inúmeros pares mal conseguiam se movimentar no vasto salão, lindamente engalanado e iluminado por centenas de lâmpadas multicores”[13]. Compartilhando da mesma opinião, o cronista do jornal O Imparcial vai além, para ele “é de lamentar-se o salão não ser cinco ou seis vezes maior, devido a entusiasmada animação que despertam os bailes da Flor da Lyra”[14].  Por fim, como uma espécie de “mimosidade”[15], os cronistas foram agraciados com uma bela valsa, lavrada pelo aplaudido maestro Gentil Gonçalves.

Àquela altura, já eram muitas as pequenas sociedades voltadas para o lazer nos subúrbios da cidade. Para além das homenagens expostas acima, tratava-se de mais um dos muitos bailes ofertados mensalmente pelos diversos clubes da região, os quais mereciam a cobertura dos principais órgãos da imprensa carioca, entre eles, O Imparcial, a Gazeta de Notícias, O Paiz e o Jornal do Brasil.

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Além de revelar o espaço cada vez mais privilegiado que os veículos dedicavam aos festejos suburbanos, as “brilhantes festas”, parafraseando o termo utilizado por vários autores que cobriam os bailes, são importantes indicadores para compreendermos o universo de entretenimento nos arrabaldes da cidade. Ali, festejavam homens e mulheres coletivamente, em sociedades espalhadas por diferentes bairros, produzindo uma infinidade de práticas, linguagens e costumes. Através delas, podemos desvendar teias de sociabilidade expressivas nas disputas por legitimidade e na atribuição de significados, analisando as tensões latentes sob os sentidos e representações de diversão à moda suburbana.

Não por acaso que o número de festas em Bangu já se mostrava um relevante hábito social consolidado. Afinal, como sustenta Pereira, fala-se dos bailes suburbanos, capazes de desertar o entusiasmo dos moradores se transformando em elemento fundamental da experiência de seus pares[16]. Contudo, é importante chamar a atenção que essa relação não deixou de ter seus matizes, tampouco esvaziado de contradições. Na verdade, como já tratado em outros textos no blogue, é justamente sobre essa relação tênue e dúbia que merece atenção, não somente referente às oscilações da grande imprensa e suas representações sobre o comportamento suburbano, notadamente pelos discursos de subtração dos bárbaros folguedos tradicionais, como também a demarcação de grupos mais apropriados e bem colocados incorporados a um desenho hierárquico do conjunto das manifestações populares.

[1] Jornal do Brasil, 27 de janeiro de 1923, Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923; O Paiz, 27 de janeiro de 1923; Gazeta de Notícias, 29 de janeiro de 1923.
[2] Jornal do Brasil, 27 de janeiro de 1923, Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923; O Paiz, 30 de janeiro de 1923; Gazeta de Notícias, 29 de janeiro de 1923.
[3] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923 e Gazeta de Notícias, 29 de janeiro de 1923.
[4] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923.
[5] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923.
[6] O Imparcial, 30 de janeiro de 1923.
[7] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923.
[8] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923.
[9] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923; O Paiz, 30 de janeiro de 1923.
[10] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923.
[11] Ibid.
[12] O Imparcial, 30 de janeiro de 1923.
[13] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923.
[14] Ibid.
[15] Ibid.
[16] PEREIRA, L. A. M. O Prazer das Morenas: bailes ritmos e identidades no Rio de Janeiro da Primeira República. In: MARZANO, A. e MELO, V. Vida Divertida: histórias do lazer no Rio de Janeiro (1830-1930). Rio de Janeiro: Apicuri, 2010, p.276.
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UM SPORT DE REPRESENTAÇÕES: o futebol suburbano e a grande imprensa carioca

28/05/2018

Por Nei Jorge dos Santos Junior

Os primeiros momentos do futebol no Rio de Janeiro foram marcados por uma série de interesses e representações que relacionavam o velho esporte bretão à formação de um novo modelo de cidadão. Mesmo pautado pelos valores do cavalheirismo, do fair­play, e do amadorismo, elementos indispensáveis para uma sociedade em que adotava o modelo europeu como parâmetro cultural para a recém ­instaurada República brasileira, a prática foi difundida pelos mais distintos bairros da cidade, desencadeando conflitos ao redor da imagem de distinção social desejada pelos sportsmen e pela grande imprensa da época.

Foto.Sport.1915

Fonte: Sports, ano 01, n.2, 1915, p.21.

Nesse cenário, aumentava-se o número negros, operários e indivíduos das camadas populares, que incomodava àqueles que revestiam a modalidade, pelo menos discursivamente, de um caráter “civilizacional” superior. Esses novos personagens, tanto a torcida quanto os jogadores, adotavam certos comportamentos que, no olhar dos setores sociais mais privilegiados economicamente, eram considerados lamentáveis. Essa mudança de sentidos reforçava um fator ideológico, já que as páginas dos principais periódicos da cidade deixavam de celebrar a sofisticação e a fidalguia para declarar a desmoralização e o repúdio pela prática nos centros mais pobres da cidade. Buscava-­se, portanto, no comportamento desses sujeitos, ações que diferenciassem das propostas idealizadas pelos sportsmen, reproduzindo, efetivamente, um conjunto de reações extraídos das agremiações da Zona Sul. Vejamos o que publicou o Correio da Manhã em 14 de julho de 1919, sob o título: “O encontro Bangu x S. Christovão não terminou…”

A Infelizmente o nosso football ainda não está de todo civilizado.
inda ontem no campo do Bangu A. C., por ocasião do encontro dos teams locais com os do S. Cristóvão, registraram-se factos que são tão indignos, que mais mereciam ser lamentados numa secção policial.
Faltando 22 minutos para terminar o encontro Patrich perdendo a pelota para Hugo agride este jogador no que é repelido.
Estabeleceu-se o tumulto, que teve como consequência a invasão do campo, novas agressões, pauladas, revólveres e navalhas em cena e… suspensão do jogo!
Não sabemos ainda quais os culpados de tamanha falta de educação: se os desordeiros da Favela ou se os agressores do Morro Pinto.
Francamente, srs. Sportmen. Isto nunca foi football! Acabemos com estas cenas lamentáveis, antes que a polícia prepare um lugar seguro para serem trancafiados os desordeiros que se querem impingir como sportmen! (Correio da Manhã, 14 de julho de 1919, p. 06).

Ao descrever que “infelizmente o nosso football ainda não está de todo civilizado”, o cronista parecia esquecer que o excesso desses conflitos não era uma exclusividade dos clubes sediados nas regiões mais pobres da cidade. Vendo nos seguidores dessas agremiações os principais responsáveis pela desmoralização do futebol, ele lamentava a “perniciosa” mistura social, uma perda irreparável, causada pela índole natural dos novos admiradores do jogo (PEREIRA, 2000).

Em seu estudo sobre o cotidiano das camadas populares, Chalhoub (2001) nos ajuda entender porque o registro dos conflitos entre sócios e torcedores dessas agremiações era tradicionalmente abordado sob o estigma de “desordeiros da Favella” ou de “agressores do Morro”. A pobreza, na perspectiva dos teóricos da patologia social, produziria a ausência de normas ou a falta de padrões de comportamento. Dessa forma, embora alguns torcedores reivindicassem contra “as acusações injustas” que atingiam “um povo laborioso e, sobretudo, honesto como é o Bangu”, eles eram vistos como os principais suspeitos de quaisquer desordens que viessem a acontecer em seus jogos (PEREIRA, 2000). Por isso, a cada partida marcada, a própria polícia se apressava em reforçar o patrulhamento local, na tentativa de conter os ânimos dos torcedores dessas agremiações. A liga Metropolitana, por sua vez, mandava frequentemente ofícios aos clubes da zona suburbana, pedindo que tentassem evitar o contato dos jogadores com seus torcedores, buscando proteger os visitantes da propagada fúria local.

De fato, a estigmatização fica ainda mais clara quando comparada aos conflitos causados por clubes da elite carioca. Por exemplo, um tumulto na partida realizada entre América e Botafogo, em 1914, foi apresentado como mero fruto do amor dedicado ao clube. Por vezes, até mesmo os incidentes ocorridos nos campos das equipes mais tradicionais, com a total participação dos seus sócios, eram atribuídos aos torcedores “impertinentes e mal-educados” do subúrbio (PEREIRA, 2000).

De fato, percebemos que os jornais foram agências centrais na construção de representações sociais sobre as agremiações do subúrbio da cidade. Como lembra Moscovici (2004), a representação social desponta no momento em que existe ameaça para a identidade coletiva, quando o conjunto de conhecimentos submerge as regras que a sociedade se outorgou. Foi nesse cenário que o discurso produzido por esses jornais perpassava pela objetividade e subjetividade. A grande imprensa, por exemplo, procurava estabelecer restrições às agremiações da zona suburbana. Uma das iniciativas foi a institui­ção de regulamentos que destacavam a violência e o desserviço prestado ao futebol. Tratava­-se de uma noção particular de subúrbio, enraizado por estigmas fortemente marcados pela estratificação socioespacial da cidade. A partir dessa descontextualização e recontextualização, o jornal traduzia sua visão de mundo, impregnado por estigmas que desqualificavam não só torcedores e jogadores, como também o território em que eles ocupavam e habitavam.


UM PADRINHO ESPORTIVO: JOÃO FERRER E O BANGU A. C.

04/09/2017

Nei Jorge Santos Junior

Entre os anos de 1903 a 1919, João Ferrer exerceu a função de diretor-chefe da Companhia Progresso Industrial do Brazil. Contratado para substituir o antigo diretor-gerente da Fábrica, o português Eduardo Gomes Ferreira, Ferrer, com sua visão moderna para o período, foi responsável por uma série de melhorias na região, as quais não estavam circunscritas às questões de infraestrutura, permitindo dotar de conforto a pequena vila operária, mas também oferecendo várias formas de lazer à sua população.

O benemérito João Ferrer, em fotografia de 1905.

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Fonte: MOLINARI, C. Mestres estrangeiros; operariado nacional: resistências e derrotas no cotidiano da maior fábrica têxtil do rio de janeiro (1890 – 1920). 2015. 259 f., il. Dissertação (Mestrado em História) —Universidade de Brasília, Brasília, 2015.

Certamente, a de maior impacto foi a participação na criação do Bangu A. C. Como já fora exposto em outros posts no blog, seus fundadores do clube, todos trabalhadores da Companhia Progresso Industrial do Brasil, bem que tentavam desde 1897 organizar uma agremiação esportiva[1], mas os diretores da empresa não pareciam dispostos a apoiar tal iniciativa. O antigo administrador da fábrica, o português Eduardo Gomes Ferreira, alegava ser contra qualquer tipo de jogo e, por isso, impedia a criação de qualquer agremiação esportiva. Os ingleses, porém, não esmoreceram e continuaram a pedir recursos para a fundação do clube.

Contudo, desdobramentos externos transformariam de vez as relações de lazer da região. Durante a greve geral de 1903, mesmo tendo a Fábrica Bangu participação pouco expressiva no movimento, curiosamente o diretor-gerente da Companhia, Eduardo Gomes Ferreira, pediu exoneração do cargo em 17 de agosto daquele ano, alegando problemas de saúde[2]. Na ocasião, o cargo acabou nas mãos do até então tesoureiro espanhol João Ferrer, que há tempos mantinha ligações estreitas com a cúpula da empresa.

Logo após a ascensão do espanhol ao cargo de administrador, as restrições em relação aos jogos chegariam ao fim, pois João Ferrer enxergava com bons olhos a criação de uma agremiação.

Rapidamente, a notícia se espalhara por toda fábrica. Para compor o quadro de associados, sem qualquer distinção de cargos ou nacionalidade, bastava aos interessados darem seus nomes ao secretário Andrew Procter, responsável pela filiação[3]. Naquele momento formou-se, aos 17 dias de abril de 1904, na longínqua estação de Bangu, um “club athletic sob a denominação de “Bangu Athletic Club”, tendo “por fins os jogos de football, cricket, lawn tennis e outros jogos variados.”[4]

A relação entre o espanhol Ferrer e a agremiação não ficou circunscrita às ações daquele dia. Pelo contrário, frequentemente o clube recorria aos subsídios oferecidos pelo então dirigente espanhol, entre eles, um terreno de propriedade da fábrica para a instalação do campo de futebol e a construção da sede social. Além disso, o diretor também  liberava com frequência um quantia em dinheiro, a fim de complementar seu orçamento, que incluía despesas com conservação[5], limpeza da sede social e do campo, pagamento de impostos, energia elétrica, compra de uniformes[6], transporte de jogadores e outras, por exemplo, o pedido feito em janeiro de 1906, em que o clube recorreria novamente ao Sr. João Ferrer, desta vez, “pedindo auxílio para aumentar as arquibancadas e colocar no campo diversos jogos e exercícios atléticos para o divertimento dos sócios e seus familiares aos domingos e feriados”[7].

Como uma espécie de extensão recreativa da fábrica, essa área representava uma continuidade do espaço do trabalho. A força dos operários e seu empenho na estruturação do Bangu se estendiam para além das questões trabalhistas, embora diretamente ligadas ao mundo do trabalho, a partir do qual se mobilizavam e com o qual reiteradamente dialogavam.

Dessa forma, percebe-se que Ferrer exercia um papel de benfeitor, liberando frequentemente recursos ao clube arrabaldino. Para facilitar a liberação da verba, o clube agia da seguinte forma: a solicitação de fundos era encaminhada ao Presidente Honorário do clube, cargo definido claramente no artigo sete de seus estatutos – “será conferido sempre o título de – Presidente Honorário –  o Diretor Gerente da Companhia Progresso Industrial do Brasil, o qual será consultado em todas as resoluções tomadas pela diretoria, estranhas a estes estatutos”[8]. Isto é, o administrador gerente avaliava e designava os recursos necessários para o bom andamento do clube, no qual suas ações interferiam diretamente na política do grêmio, principalmente no controle e na composição de seus quadros e dirigentes. Vale salientar que, qualquer obra ou evento realizado pelo clube, por ter sua sede no terreno da companhia, precisava de autorização prévia da fábrica, até mesmo jogos e torneios, como a disputa da Taça Ferrer, em que o administrador impôs o número de competidores, data e condição de participação: “só poderá tomar parte neste torneio, jogadores que são empregados da Cia. Progresso Industrial do Brasil”[9].

No entanto, o benfeitor espanhol teve sua reputação abalada por conta da crise econômica enfrentada pelas indústrias de tecidos em decorrência da Primeira Guerra Mundial. Silva sustenta que a verificação de irregularidades, que vinham sendo encobertas ano após ano pelo corpo de diretores por meio de recursos, provocou o abandono do seu posto em 27 de janeiro de 1919[10].

Após a saída do cargo, inúmeras denúncias sobre fraudes fiscais e irregularidades de diversos tipos vieram à tona. Além disso, a Gazeta de Notícias publicou uma série de denúncias intitulada: “Ladrões do fisco: o contrabando da fábrica Bangu”[11].

No entanto, mesmo frente à sequência de escândalos, algumas agremiações, que tanto se beneficiaram das ações patriarcais do ex-diretor, não esqueceram suas benesses. Acreditamos que as redes socais locais estabelecidas entre Ferrer e o Bangu A. C. marcaram fortemente o modus operandi da região, assumindo papel determinante na inclusão de suas pautas locais não só no debate sobre condições de trabalho e moradia, mas também sobre as múltiplas opções de entretenimento do bairro.

[1] MOLINARI, C. Mestres estrangeiros; operariado nacional: resistências e derrotas no cotidiano da maior fábrica têxtil do rio de janeiro (1890 – 1920). 2015. 259 f., il. Dissertação (Mestrado em História) —Universidade de Brasília, Brasília, 2015.
[2] Ibid.
[3] Ata de Fundação, The Bangu Athletic Club, 1904.
[4] Ibid.
[5] Acta da Sessão da Diretoria do Bangu Athletic Club de 19 de janeiro de 1906.
[6] De acordo com a Ata de fundação, logo após a escolha das cores do uniforme, coube ao Sr. Stark, a missão de conseguir, junto ao Diretor da Fábrica, o pano necessário para fazer o fardamento do clube. Além disso, por diversas vezes, essa mesma atitude pode ser vista nas atas de reunião do clube. Ver: Ata de Fundação, The Bangu Athletic Club, 1904; Acta da Sessão da Diretoria do Bangu Athletic Club de 19 de janeiro de 1906.
[7] Acta da Sessão da Diretoria do Bangu Athletic Club de 19 de janeiro de 1906.
[8] Art. 7 dos Estatutos do Bangu Athletic Club de 20 de abril de 1913, p. 1-2.
[9] Acta da Sessão da Diretoria do Bangu Athletic Club de 21 de março de 1911.
[10] SILVA, G. A. A. Bangu: a fábrica e o bairro. Um Estudo Histórico (1889-1930). Dissertação (Mestrado em História Social) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1985.
[11] Gazeta de Notícias, 28 de junho de 1920.

O Prazer das Morenas de Bangu

10/04/2017

Por Nei Jorge dos Santos Junior

“Não resta dúvida que o carnaval de Bangu vai ser em grande parte devido ao Grêmio Carnavalesco Prazer das Morenas”, escrevera o entusiasmado cronista da Gazeta de Notícias em 08 de fevereiro de 1920.

As palavras do jornalista podem, inicialmente, apresentarem para o leitor características hiperbólicas. Afinal, como já fora escrito em alguns textos no blog, a região banguense possuía uma vida divertida intensa, com vários clubes dançantes, carnavalescos, recreativos e esportivos. No entanto, o Prazer das Morenas se destacava por algumas características peculiares, mesmo comparada aos clubes da região fabril.

 Como bem nos lembra Pereira, não era de se estranhar que o Prazer das Morenas iniciasse a década de 1920 como a principal sociedade dançante de Bangu[1]. A composição social do grêmio, desde a sua fundação, já traçava caminhos em direção a consolidação de uma imagem multicultural, permitindo que negros, brancos pobres e imigrantes pudessem compor seu quadro de associados sem qualquer distinção.

JB, Prazer das Morenas

Jornal do Brasil, fevereiro de 1920.

 Fundado em 04 de março de 1909, com sede na Rua Coronel Tamarindo, número 647, o Prazer das Morenas tinha como fins “proporcionar aos seus associados, em sua sede ou fora dela, festas carnavalescas e outras diversões, compatíveis com o caráter da sociedade”[2]. Além desses objetivos, apontados quase copiosamente por outras associações, a sociedade se destacava por outros pontos poucos comuns, pelo menos oficialmente, em outros clubes:

Estimular por todos os meios, que exista entre todos os seus sócios a máxima distinção para evitar preconceitos entre os mesmos, sendo imposta a eliminação aos que a isso derem causa; concorrer aos festejos carnavalescos, organizando, para isso, préstitos, alegóricos e críticos; realizar em sua sede, pelo menos, 5 bailes anualmente;  manter em sua sede, para recreio de seus sócios, toda espécie de jogos não proibidos por lei; manter uma biblioteca acessível ao público; manter uma escola que ministre, gratuitamente, instrução primária a quantos procurarem; promover outras quaisquer reuniões, que possam constituir divertimento para os seus associados.[3]

No mínimo, três objetivos, dos seis apresentados pela associação, mostram-se pouco habituais comparados aos demais clubes da região. Manter uma biblioteca e uma escola “que ministre, gratuitamente, instrução primária a quantos procurarem” revela uma grande preocupação com a formação dos associados do clube e seus pares. Para se ter ideia, a população da freguesia Campo Grande, a qual Bangu fazia parte, sofria com um grande quantitativo de analfabetismo nos primeiros anos do século XX. Todavia, coincidência ou não, esse índice se transformou completamente se levarmos em conta o período em que a escola da sociedade fora implementada[4]. De acordo com os dados do Recenseamento de 1920, a freguesia mudaria seu patamar, pois dos 52.328 residentes na região, 22.087 sabiam ler e escrever[5]. Isto é, 42,20% da população, um número expressivo comparado ao índice nacional, que era de apenas 24,45%, incluindo brasileiros e imigrantes.[6]

Ademais, outro ponto também nos chamou a atenção. Tratar, por exemplo, sobre preconceito num ambiente recheado de imigrantes e negros sinalizava uma preocupação com o modus operandi local, explicitada apenas pela Sociedade Flor da União, notadamente no momento em que indica, em seus estatutos, a inclusão de pessoas, independente da nacionalidade, religião ou cor, para compor suas fileiras.

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Comissão de festas do Prazer das Morenas. Fonte: Jornal do Brasil, 08 de fevereiro de 1920.

Acreditamos que tais evidências não são meros devaneios colocados em seus estatutos. Analisando periódicos locais e de grande circulação, conseguimos identificar facilmente exemplos que expressam a consolidação de uma imagem multicultural e miscigenada. Ademais, enfatizar que atitudes preconceituosas de sócios pudessem gerar a eliminação no quadro de associados mostra-se, no mínimo, algo a ser investigado com maior profundidade, pois a rivalidade entre estrangeiros e brasileiros não estava circunscrita somente ao ambiente fabril, mas se estendia pelas festas realizadas nos quatro cantos da zona arrabaldina.

Dessa forma, a ideia de estabelecer relações mínimas de convivência, não só para o bom funcionamento das atividades do clube, como também para a própria unificação de força na luta por melhores condições de trabalho, teve desdobramentos positivos. Para Pereira, o prestígio alcançado pelo Prazer das Morenas garantiu o apoio de grande parte dos comerciantes arrabaldinos, que “não hesitavam, a cada carnaval, em patrocinar os desfiles do clube”[7].  Talvez, a próprio escolha do nome “Prazer das Morenas” já seria uma forma de simbolizar o ambiente multicultural presente do cotidiano do clube, expressando com orgulho a identidade mestiça que o acompanhara desde sua fundação.

[1] PEREIRA, L. A. M. A flor da união: festa e identidade nos clubes carnavalescos do Rio de Janeiro (1889-1922). Terceira Margem, Rio de Janeiro, n. 14, p.169-179, jan./jun., 2006.

[2] Estatutos do Grêmio Dançante Carnavalesco Prazer das Morenas, 1917.

[3] Estatutos do Grêmio Dançante Carnavalesco Prazer das Morenas, 1917.

[4] O bairro já contava com outras escolas, entre elas a Escola Rodrigues Alves, fundada em 1905 para filhos de operários da fábrica.

[5] Recenseamento Geral de 1920, p. 464-465.

[6] Recenseamento Geral de 1920, p. 464-465.

[7] PEREIRA, L. A. M. O Prazer das Morenas: bailes ritmos e identidades no Rio de Janeiro da Primeira República. In: MARZANO, A. e MELO, V. Vida Divertida: histórias do lazer no Rio de Janeiro (1830-1930). Rio de Janeiro: Apicuri, 2010, p.296.


OLAVO BILAC E A FESTA DA PENHA

07/11/2016

Por Nei Jorge dos Santos Junior

A festa da Penha, instituída no bairro do mesmo nome, subúrbio da cidade do Rio de Janeiro, teve seu início no final do século XVIII. Organizada num primeiro momento pela comissão de festejos da Irmandade da Penha, transformou-se rapidamente numa das principais alternativas de divertimento popular, com “missa solene, as cerimônias de bênção e as barraquinhas de prendas, jogos e comidas, a que se juntaria o ritual e o espetáculo do cumprimento de promessas que faziam penitentes infatigáveis subir os 365 degraus que levam ao santuário”[1].

Ao passar dos anos a festa tomava ares e manifestações socioculturais distintas – rodas de samba, as batucadas, danças, capoeiristas, as barracas montadas pelas chamadas tias –, sobretudo pelo grande número de negros, operários, capoeiras e músicos que compunham os festejos. No entanto, o componente religioso não se contrapunha à profana, pelo contrário, visto como um canal de comunicação privilegiado entre diversos segmentos sociais, o cronista do periódico O Paiz descreve a romaria como “um espetáculo maravilhoso pela completa fusão de todas as classes sociais, numa só leva de peregrinos, impelida pelos sentimentos religiosos”[2].

festapenha

Fonte: Revista O Malho, 5 de novembro de 1910, p.42.

Em contraposição, alguns intelectuais da época, em especial Olavo Bilac, acreditavam que essa manifestação popular e religiosa em nada acrescentaria à modernização da cidade, pois compreendiam que a cada ano a festa tornava-se ainda mais brutal. Para Bilac, a celebração era “tão desordenada, e assinalada por tantas vergonhas e por tantos crimes” que poderia ser facilmente comparada a “um folguedo da idade moderna, no seio de uma cidade civilizada, mas uma daquelas orgias da idade antiga ou da idade média, em que triunfavam as mais baixas paixões da plebe e dos escravos”[3].

Consciente que “atacar as tradições (e principalmente as tradições religiosas)” seria um “ato de ousadia”, Bilac não se intimidou. Para ele, “há tradições grosseiras, irritantes, bestiais, que devem ser impiedosa e inexoravelmente demolidas, porque envergonham a Civilização”, entre elas, “a ignóbil festa da Penha, que todos os anos, neste mês de outubro, reproduz no Rio de Janeiro as cenas mais tristes das velhas saturnais romanas, transbordamentos tumultuosos e alucinados dos instintos da gentalha”[4].

Carregado de adjetivos, na tentativa de construir uma imagem pejorativa para tais manifestações, Olavo Bilac expõe um dos inúmeros exemplos dos contrastes do Rio de Janeiro na primeira década do século XX: o velho e bárbaro — carroções enfeitados com tecido barato, puxados por burros arreados com flores e folhagens entrelaçados com fitas e carregando gente embriagada — e o novo, civilizado e moderno — a bela Avenida Central, maior símbolo dessa metropolização, a passarela de asfalto polido, com fachadas ricas dos prédios altos e automóveis que desfilavam sua beleza. Além disso, Bilac também “associa” essa gente incivilizada à violência. Nas palavras do poeta parnasiano, ir à festa da Penha seria “caminhar para o Martírio!”[5]. Mais do que isso, “ir à Penha é afrontar mil vezes a morte, — porque todos os desordeiros da cidade se encontram ali, nos quatro domingos da clássica festa, e transformam o arraial numa arena, em que se travam batalhas sangrentas”[6].  Dessa forma, aos olhos do autor, a cidade deveria ser civilizada e moderna, e para que esse desejo pudesse ser concretizado os trabalhadores de baixa renda não poderiam coabitar esses espaços, pois a civilização estaria ligada aos hábitos europeizados, distante das práticas de lazer vivenciadas por trabalhadores braçais de uma camada social desfavorecida.

Em outras passagens, Olavo Bilac dá indicações ainda mais claras quanto aos desserviços prestados por tais manifestações populares. Ao falar de hábitos característicos de uma cidade colonial, como os “abomináveis cordões”, resquícios culturais de um Rio de Janeiro ainda folclórico, o autor traz consigo uma cidade de “aspecto fatigado e triste, um ar de quem passou a noite na orgia”[7]. Para o autor, mesmo após o período de festas “ainda havia nas ruas, como remanescentes do folguedo carnavalesco, alguns confetes, esquecidos pelas vassouras da limpeza pública”[8].

De fato, Bilac expunha a ambiguidade de quem experimenta o próprio processo de metamorfose, fomentando uma modernização estabelecida através de uma intensa distinção hierárquica, na tentativa de assegurar prerrogativas de classe no universo urbano. Adepto do cosmopolitismo e da civilização como um símbolo de aspiração lato, Olavo Bilac acreditava que outros aspectos também conjurariam em prol da evolução urbana e profilática da cidade e, consequentemente, da nação. Na verdade, o poeta parnasiano buscou nas questões do cotidiano ações que pudessem estabelecer um melhor desenvolvimento social da população, não restritos as melhorias na infraestrutura, mas, sobretudo, na higienização das práticas de lazer da população pobre da cidade do Rio de Janeiro.

No entanto, embora ojerizada em seus escritos, as práticas populares representavam, além de festas e celebrações, momentos de ruptura e transgressão, pois estabeleciam novas manifestações identitárias, não somente por diferentes performances, mas, sobretudo, por novas políticas culturais e diferentes estratégias de consumo. E por isso, enquanto porta-voz da modernidade, o autor impulsionará valores sociais próprios de uma elite citadina, corroborando um desejo de cidade profícua para os passeios fidalgos, a vida de requinte. Assim, a narrativa proposta pelo autor possibilitou a composição de um conjunto de “realidades sociais”, permitindo, cotidianamente, por conta do caráter eloquente do boletim mensal, filtrar e tratar os fatos a serem publicados. Afinal, como afirma Nogueira, a revista Kosmos não estava no cenário para proclamar os ambientes populares e simplórios — que eram a “pedra no sapato” de uma elite ansiosa por um verniz cosmopolita — e ainda abundantes para uma elite que se queria branca, civilizada e europeizada[9].

[1] MOURA, R. M. Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, Divisão de Editoração, 1995, p.156.

[2] O Paiz, 8 de outubro de 1906, p.2.

[3] Kosmos, ano III, n.10, outubro de 1906.

[4] Kosmos, ano III, n.10, outubro de 1906.

[5] Kosmos, ano III, n.10, outubro de 1906.

[6] Kosmos, ano III, n.10, outubro de 1906.

[7] Kosmos, março de 1904. p. 3

[8] Kosmos, março de 1904. p. 3.

[9] NOGUEIRA, C. M. A. Cronistas do Rio: o processo de modernização do Rio de Janeiro nas crônicas de Olavo Bilac (Kosmos, 1904-1908) e Lima Barreto (Careta, 1915-1922). Tese (Doutorado em Letras). Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Assis, 2012.


A fábrica e a vida esportiva em Bangu

13/06/2016

Por Nei Jorge dos Santos Junior

Reunidos num domingo de sol, aos 17 dias de abril de 1904, na longínqua estação de Bangu, dez operários, todos estrangeiros[1], fundavam uma nova agremiação nos moldes daquelas que existiam em seus países: o Bangu Athletic Club[2]. Seus fundadores, todos trabalhadores da Companhia Progresso Industrial do Brasil, bem que tentavam há tempos organizar uma agremiação esportiva, mas os diretores da empresa não pareciam dispostos a apoiar tal iniciativa, pois o administrador da fábrica, Sr. Eduardo Gomes Ferreira, alegava ser contra qualquer tipo de jogo. Os ingleses, porém, não esmoreceram e continuaram a pedir recursos para a fundação do clube. No entanto, as restrições chegariam ao fim com o apoio do novo administrador, João Ferrer, que enxergava com bons olhos a criação de uma agremiação.

Rapidamente, a notícia se espalhara por toda fábrica. Para compor o quadro de associados, sem qualquer distinção de cargos ou nacionalidade, bastava aos interessados darem seus nomes ao secretário Andrew Procter, responsável pela filiação[3]. Naquele momento formou-se um “club athletic sob a denominação de “Bangu Athletic Club”, tendo “por fins os jogos de football, cricket, lawn tennis e outros jogos variados.”[4]

Diferentemente de outros clubes da cidade, nos quais o núcleo de ingleses convidava compatriotas para compor a equipe, no Bangu, até pelo isolamento geográfico do bairro, chefes, empregados e trabalhadores de outras nacionalidades integravam o time sem qualquer distinção, transformando a prática esportiva em uma das principais opções de lazer dos moradores da região. O próprio valor para associar-se ao clube já expressava a possibilidade de aceitação de trabalhadores das mais variadas origens: 2$000 de joia e uma mensalidade de 1$000[5], sendo que o salário dos operários variava de 94$800 (no setor da fiação) até 260$640 (no setor de acabamento)[6].  Ou seja, o clube, desde sua formação, já apresentava indicadores que pretendia agregar o maior número de funcionários possível, o que permitiu a difusão da prática e o acesso mais direto ao futebol entre as camadas populares.

Contudo, a prática esportiva não estava circunscrita apenas ao futebol. Pelo contrário, partidas de críquete, tênis, ping-pong, corridas e boxe faziam parte do cotidiano de Bangu. Os diversos jogos eram distribuídos da seguinte forma[7]:

  • Segunda-feira: football para os menores
  • Terça-feira: football para os menores
  • Quarta-feira: cricket
  • Quinta-feira: football
  • Sexta-feira: cricket
  • Sábado: football
  • Domingo: cricket de manhã, football de tarde
  • Lawn Tennis: todas as tardes. Jogo para terminar às 6:30 ou mais tarde, conforme a decisão do juiz.

Chacara-Dulley

Como pode ser visto, o críquete e tênis recebiam também uma atenção especial, sendo muito praticados entre os operários da fábrica. Contudo, as modalidades sofriam dos mesmos problemas que o futebol, já que a compra do material deveria ser feita fora do país, tornando o equipamento ainda mais custoso.

Para resolver o problema, a fórmula era simples. A empresa subsidiava as atividades do clube; entre elas, cedendo um terreno de propriedade da fábrica para a instalação do campo de futebol, críquete e tênis e a construção da sede social ou, então, contribuindo para o pagamento de aluguéis. Além disso, a companhia oferecia ao clube uma quantia em dinheiro, a fim de complementar seu orçamento, que incluía despesas com conservação[8], limpeza da sede social e do campo, pagamento de impostos, energia elétrica, compra de uniformes[9], transporte de jogadores e outras, como nos mostra a ata da assembleia realizada no dia 25 de outubro de 1904, em que o Sr. Hartley, conselheiro fiscal do clube, revela que o “Presidente Honorário João Ferrer tinha oferecido de concorrer com a quantia que falta para completar a compra dos aparelhos de cricket e lawn tennis,”[10] autorizando o sócio “Henry Bennet, que atualmente está em viagem para a Inglaterra, de fazer as compras ali”[11]. Outras iniciativas também podem ser vistas no mesmo ano, por exemplo, a compra do “pano necessário para fazer o fardamento do clube”[12], “nivelamento do terreno do Pavilhão, a fim de ficar pronto para os jogos de football e cricket” [13]e a organização da Festa Sportiva do clube, cotando com várias modalidades esportivas[14]:

  • Corrida a pé, 100 metros
  • Corrida em sacos, 100 metros
  • Corrida de costas, 100 metros
  • Corrida com barril, 200 metros
  • Corrida para moças, 200 metros
  • Corrida de 3 pernas, 200 metros
  • Corrida de bicicletas, 5 voltas
  • Corrida de colheres e ovos, 100 metros
  • Corrida a pé, 500 metros
  • Corrida de obstáculos, 200 metros
  • Corrida de carrinhos de mão, 200 metros
  • Partida de football entre teams A e B.

Como uma espécie de extensão recreativa da fábrica, essa área representava uma continuidade do espaço do trabalho. A força dos operários e seu empenho na estruturação do Bangu se estendiam para além das questões trabalhistas, embora diretamente ligadas ao mundo do trabalho, a partir do qual se mobilizavam e com o qual reiteradamente dialogavam. Dessa forma, percebe-se que as instalações da agremiação se confundiam com as da companhia, compondo harmoniosamente um conjunto arquitetônico construído pela empresa no distante bairro fabril. Era normal, portanto, que a empresa oferecesse ao clube uma estrutura adequada para seu funcionamento, condicionando o clube como mais um departamento da empresa.

[1] Dos dez fundadores, 8 eram ingleses, 1 português e 1 italiano.

[2] Estavam presentes os seguintes srs.:John Stark, Fred. Jacques, Clarence Hibbs, Thomas Hellowell, José Soares, William Procter, William Hellowell, William French, Segundo Maffeu e Andrew Procter, formando um club athletic sob a denominação de “Bangu Athletic Club”. Ver: Ata de Fundação, The Bangu Athletic Club, 1904.

[3] Ata de Fundação, The Bangu Athletic Club, 1904.

[4] Ibid.

[5] Ibid.

[6] MALAIA, J. M. Revolução Vascaína: a profissionalização do futebol e inserção socioeconômica de negros e portugueses na cidade do Rio de Janeiro (1915-1934). 2010. 489f. Tese (Doutorado em História Econômica) – Departamento de História, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.

[7] Acta da Sessão da Diretoria do Bangu Athletic Club de 25 de outubro de 1904.

[8] Acta da Sessão da Diretoria do Bangu Athletic Club de 19 de janeiro de 1906.

[9] De acordo com a Ata de fundação, logo após a escolha das cores do uniforme, coube ao Sr. Stark, a missão de conseguir, junto ao Diretor da Fábrica, o pano necessário para fazer o fardamento do clube. Além disso, por diversas vezes, essa mesma atitude pode ser vista nas atas de reunião do clube. Ver: Ata de Fundação, The Bangu Athletic Club, 1904; Acta da Sessão da Diretoria do Bangu Athletic Club de 19 de janeiro de 1906.

[10] Acta da Sessão da Diretoria do Bangu Athletic Club de 24 de abril de 1904.

[11] Acta da Sessão da Diretoria do Bangu Athletic Club de 24 de abril de 1904.

[12] Acta da Sessão da Diretoria do Bangu Athletic Club de 17 de abril de 1904.

[13] Acta da Sessão da Diretoria do Bangu Athletic Club de 24 de janeiro de 1905.

[14] Acta da Sessão da Diretoria do Bangu Athletic Club de 01 de junho de 1904.


Um Casino em Bangu

18/01/2016

Por Nei Jorge dos Santos Junior

O 1º de maio de 1907 foi motivo de festa para os operários da Companhia Progresso Industrial do Brasil. A fábrica suspendeu suas atividades para a comemoração do dia dos trabalhadores, tendo um dia inteiro repleto de celebrações. Entre elas: a abertura da nova sede do Casino Bangu[1].

A animação ficou por conta da banda de música Progresso de Bangu, que viera animar, como de praxe, “a encantadora festa”[2]. Animados, os convidados mostravam-se satisfeitos, no entanto, a festa estava longe do seu fim. Começava a escurecer quando os Srs. Comendadores Costa Pereira e João Ferrer chegaram ao edifício do Casino, que recebia os retoques finais para a sua inauguração[3].

O prédio foi construído pelos próprios trabalhadores da fábrica, “uma espécie de símbolo do “maior esforço que se pode imaginar daquela gente ativa e boa”[4]. De acordo com Silva, seu estilo era neoclássico, com fachada em calçada, em que as esquadrias superiores não acompanhavam as esquadrias inferiores e as platibandas eram delimitadas por frisos na fachada, que era construída (ou formada) em alvenaria de pedra com paredes de tijolo pintado sobre as mesmas[5].

Sede social do Clube

A cobertura e a parte interna eram sustentadas por pilares de ferro; já o forro e o piso eram formados de pinho de riga, bem como todas as esquadrias. Além disso, “o seu velarium de veludo negro-rubro esconde um palco chic em que se ostentam cenários do inteligente e hábil artista Dumiense”[6]. Toda a decoração foi “inteligente e lindamente feita pelo Sr. José Villas” Boas[7], com guirlandas de gesso dourado e grades lustres de ferro com mangas de cristal, como se pode observar na imagem abaixo[8].

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A solenidade ficou por conta do Professor Jacintho Alcides, que pronunciou um discurso ao ato, mostrando com aquele exemplo vivo o quanto podem a união e a amizade reinarem entre os operários[9]. Em seguida, o discurso ficou por conta da menina Ermelinda Fernandes, agradecendo, em nome dos seus companheiros e companheiras de trabalho, a boa vontade dos diretores com que se houveram apoiando e auxiliando a construção do edifício que se ia destinar às noites, ao recreio e à instrução daqueles que se entregam ao trabalho e à luta pela vida[10].

Impressionado com a organização administrativa, cuja diretoria zelava pelo bom andamento dos festejos, o cronista afirmava que “o Casino é positivamente um excelente teatro, que obedece rigorosamente as construções modernas, cheio de conforto e de luz”[11].

É importante salientar que o auxílio material proporcionado pela fábrica Bangu aos clubes da região se instituía através da associação entre as partes. Uma relação que, embora fosse quase sempre determinada pelo respeito aos representantes das fábricas, não significava passividade e resignação, mas uma apropriação por parte dos operários-associados do discurso dos diretores, como uma estratégia para alcance de seus interesses mais imediatos. Talvez, por essa razão, em meados de 1929, a Fábrica solicitou a devolução do prédio, alegando que “paulatinamente foram sendo eliminados da sociedade os operários da fábrica”[12]. Dessa forma, o Casino fixou sua sede na Rua Fonseca, n° 534, permanecendo até os dias de hoje.

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De fato, o clube fundado em 24 de Janeiro de 1895, por iniciativa dos Operários da Companhia Progresso Industrial do Brasil, com o nome inicial de Sociedade Musical Progresso, mudado, em assembleia de 7 de janeiro de 1906, para Casino Bangu, foi, e continua sendo, um dos principais espaços da vida festiva da região[13].

[1] Gazeta de Notícias, 03 de maio de 1907.

[2] Gazeta de Notícias, 03 de maio de 1907, p3.

[3] Gazeta de Notícias, 03 de maio de 1907, p3.

[4] Gazeta de Notícias, 03 de maio de 1907, p3.

[5] SILVA, G. A. A. Bangu: a fábrica e o bairro. Um Estudo Histórico (1889-1930). Dissertação – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 1985.

[6] Gazeta de Notícias, 03 de maio de 1907.

[7] Gazeta de Notícias, 03 de maio de 1907.

[8] Gazeta de Notícias, 03 de maio de 1907, p.3.

[9] Gazeta de Notícias, 03 de maio de 1907.

[10] Gazeta de Notícias, 03 de maio de 1907.

[11] Gazeta de Notícias, 03 de maio de 1907, p.3.

[12] Diário Oficial, abril de 1929, p. 9890.

[13] Estatutos do Casino Bangu, 1929.