2 de dezembro, Dia Nacional do Samba: O Trem do samba e o subúrbio carioca como novas atrações turísticas

01/12/2014

Por Valeria Guimarães

Olá, no post de hoje venho falar de lazer, na forma de uma festa muito peculiar e de um tipo diferente de turismo que está se consolidando na cidade do Rio de Janeiro: conhecer o subúrbio carioca. Já escrevi aqui antes sobre a presença de turistas, especialmente afro-americanos, no Mercadão de Madureira (https://historiadoesporte.wordpress.com/2011/10/01/as-antigas-e-as-novas-faces-do-rio-turistico/). Outra motivação da ida de turistas ao subúrbio carioca, sem dúvida, são as festas e feijoadas nas quadras das escolas de samba suburbanas. Mas de longe a principal atração de forasteiros (de outras nacionalidades, de outros estados, e por que não dizer de outras partes dessa cidade partida?) é o Trem do Samba, um evento anual que reúne multidões no subúrbio de Oswaldo Cruz.

Todos os anos, no dia 2 de dezembro, comemora-se o Dia Nacional do Samba. A data foi instituída em 1940 pela Câmara dos Vereadores de Salvador, em homenagem ao compositor Ary Barroso. Hoje, por todo o país registram-se várias festas populares para celebrar o mais brasileiro dos ritmos num dia dedicado a ele. Por aqui, no Rio de Janeiro, além da tradicional festa organizada pela Liga das Escolas de Samba, ganhou força nos últimos anos um evento bastante interessante, chamado Trem do Samba.

Com o nome inicial de Pagode do Trem, começou nos idos dos anos 1990 como uma tímida ação de um grupo de ativistas de Oswaldo Cruz, bairro do subúrbio carioca, onde está sediada a escola de samba Portela, dentro do trem que liga o bairro à gare Central do Brasil. O grupo, liderado pelo sambista Marquinhos de Oswaldo Cruz, buscava a elevação da auto-estima de seus moradores a partir da invenção de uma tradição que remonta à memória e resistência operárias com o batuque no trem no início do século XX, cujo protagonista, como conta-se, era Paulo Benjamim de Oliveira, o notável Paulo da Portela.

O Pagode do Trem envolvia alguns rituais cuidadosamente repetidos a cada edição, como a festiva acolhida das Velhas Guardas do Império Serrano e da Mangueira nos vagões dos trens, em alusão às práticas de hospitalidade dos antigos sambistas dessas agremiações, e o canto de sambas tradicionais de ilustres moradores de Oswaldo Cruz e de outros bairros do subúrbio, incluindo-se Paulo da Portela, Cartola e Silas de Oliveira.

O que era uma ação pontual de um grupo de ativistas do bairro suburbano rapidamente caiu no gosto popular e transformou-se num grande evento da cidade, incluído no calendário oficial, tendo recebido também o apoio do Ministério do Turismo. Hoje, chamado de Trem do Samba, o evento mobiliza vários trens que partem da Central do Brasil com destino a Oswaldo Cruz . Em cada vagão uma roda de samba é comandada por grupos musicais da cidade ou da região metropolitana, algo de encher os olhos de turistas e cariocas, que sambam no sacolejo do trem e no embalo do samba.

Ao chegarem ao destino, em Oswaldo Cruz, a 16ª estação do ramal da Central do Brasil, os participantes são recebidos com queima de fogos e existem várias rodas de samba espalhadas pelo bairro com renomados artistas populares. A cada ano, o evento ganha novas atrações. Nas últimas edições, foram criadas as “tendas do conhecimento”, com debates acadêmicos sobre o samba, o subúrbio e sua história e foi criado um tour pelo bairro, organizado por agência de turismo especializada em atrativos histórico-culturais.

A expressão cultural identitária de um grupo suburbano é hoje, 20 anos depois, um evento de massas conhecido internacionalmente e organizado com os sofisticados recursos da indústria cultural. Por iniciativa do prefeito de Nice, o Trem do Samba desembarcará também na França.

http://www.tremdosamba.com/2014/

A festa popular, que reivindicou tradições de um passado histórico apropriado às suas demandas do presente (e aqui é uma leitura própria a partir da ideia de Hobsbawn e Ranger (1990)), foi ressignificada, ganhou o mundo, mas não perdeu, no íntimo, o charme do samba e da alma suburbana, os seus principais atrativos.

Axé!

 

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Sobre a Copa do Mundo e o turismo sul-americano

27/07/2014

Por Valeria Guimarães

 

Não é de hoje que sabemos que turismo e esporte estão intimamente ligados. Na sua forma moderna, são duas práticas sociais gestadas simultaneamente, com as transformações sócio-culturais e econômicas decorrentes da modernidade, inclusive o desejo de se praticar o lazer ao ar livre. Já comentamos aqui que o turismo, nos primórdios do século XX era considerado uma modalidade esportiva. Viajar por esporte ou viajar para ver ou praticar algum esporte sempre fez parte da cultura do turismo moderno.

Neste post atenho-me à chamada invasão argentina, a chegada em massa dos hermanos amantes do futebol às cidades-sede dos jogos de sua seleção na Copa do Mundo do Brasil, quer dizer, da FIFA, no Brasil. Voltando ao post do nosso amigo André Alexandre Guimarães Couto referente à retórica da imprensa esportiva sobre o Maracanazo e o agora “Mineirazo” (https://historiadoesporte.wordpress.com/2014/07/13/por-que-nao-esquecemos-de-1950/), é possível fazer o mesmo exercício e perceber os discursos construídos por setores expressivos da imprensa e também por alguns profissionais do turismo sobre a presença dos “durangos” (e esse termo tomo de empréstimo da imprensa) argentinos entre nós, fala sempre recorrente e depreciativa.

Nos estudos acadêmicos em turismo muito se propala a importância da relação turismo e inclusão social em nossos dias. O turismo não mais como um privilégio, mas como um instrumento de democratização que está diretamente ligado ao direito ao lazer. Na prática, o que vimos na cobertura dos jornais, salvo raras exceções, e nos depoimentos de alguns especialistas do turismo foi um total ataque ao que parecia-lhes ser uma invasão bárbara: sujeitos taxados de despossuídos e mal educados que não queriam ou não podiam pagar pelos caríssimos serviços necessários à sobrevivência no país da Copa e causavam constrangimentos aos residentes, não deixando nada de positivo por aqui. Choveram comentários intolerantes e xenófobos dos leitores ao final das matérias publicadas nos sites da imprensa e nas redes sociais. Essa motivação, sem dúvida, veio da repetição explícita ou velada no discurso dos formadores de opinião de que o argentino é um povo desordeiro e indesejável, apimentada, é claro, pela rivalidade futebolística.

Uma apresentadora de televisão assim se referiu à fan fest na final da Copa: “Vamos ver como está o tumulto na fan fest lá na Praia de Copacabana”, em alusão à presença massiva dos argentinos. Não se viu na matéria nenhum tumulto e ela não se referiu assim a nenhuma outra fan fest. A repórter, que fez sua participação ao vivo do local, relatou com entusiasmo uma grande festa e entrevistou alguns dos animados participantes, contrariando as expectativas da apresentadora.

Por outro lado, muito se endeusou o comportamento dos alemães durante a Copa e de outros povos vindos do hemisfério norte. Ao mesmo tempo, já é frequente entre nós em fontes diversas, como os jornais e os blogs de viagem, a publicação de dicas de como gastar pouco viajando pela Europa, recado destinado a todos os públicos, especialmente aos intercambistas e mochileiros, e visto como uma atitude “cult”, moderninha e descolada.

Nosso maior emissor de turistas, em qualquer época e não só durante os megaeventos ou alta temporada, entretanto, sofreu com uma avalanche de matérias depreciativas e com as críticas do setor turístico sobre os seus gastos muito contidos. E reforçaram-se as desigualdades e estereótipos pelo turismo. Li as opiniões de alguns profissionais em turismo conceituadíssimos no mercado e influentes formadores de opinião a respeito de o turismo não ser para qualquer um, que esse não era o público pretendido por não deixar nenhum legado financeiro e sujar a cidade, envergonhando a todos.

Antes de culpar o visitante e taxá-lo de indesejável, cabe refletir muito seriamente sobre o assunto e questionar por que não planejamos e não criamos condições para receber os vizinhos amantes do futebol e turistas costumazes e apenas fizemos propaganda turística em seus países, aguçando ainda mais o seu desejo de nos visitar. Isso incluiria reconhecer que seria preciso garantir que esse público também pudesse se instalar e gastar na cidade, com serviços e preços mais acessíveis a esses visitantes e também aos moradores, que sofreram com o alto custo de vida provocado pela Copa do Mundo. Da mesma forma, por que não instruímos os visitantes sobre as leis em nosso país e não fomos tão atuantes nos casos de comportamentos indevidos de alguns, como nos episódios de racismo?

Em resposta, o que se viu e tanto incomodou foram o improviso, a sobrevivência precária, mas também o direito conquistado de estar aqui e desfrutar, cada um à sua maneira, desse evento caríssimo do qual muito poucos de fato saíram lucrando.

Na contramão desse discurso corrente, autoridades municipais e estaduais têm dado declarações sobre a importância de se criar para 2016 uma infraestrutura na cidade-sede das Olimpíadas para acolher os viajantes sul-americanos que chegarem em seus veículos particulares, acomodando-os em campings em áreas públicas. Uma posição sensata que vem tardiamente com o aprendizado da experiência da Copa.

Fato é que as Olimpíadas estão quase aí e o Rio de Janeiro precisa melhor se preparar para receber os turistas sul-americanos que praticam viagens em moto-homes, carros particulares, motocicletas e até bicicletas, de forma digna. Conforme foi possível constatar nos estudos desenvolvidos para o doutorado no SPORT, sob a orientação de Victor Melo, a cultura do turismo argentino é o rodoviarismo, desde os tempos em que o país era um dos mais ricos do mundo e construiu uma belíssima malha rodoviária, das mais modernas do planeta. Foi um dos pioneiros nesse tipo de turismo, que está entranhado na alma do viajante platino. Do mesmo modo, o esporte está intrinsecamente ligado à cultura do argentino moderno, fato que se vê historicamente com as intensas influências, adaptações e inovações feitas a partir das correntes imigratórias européias para a Argentina na virada do século XIX e primeiras décadas do século XX.

Para encurtar a história: amei a farofa argentina porque foi possível ensinar a uma cidade caríssima que pretendeu ser vendida unicamente aos viajantes mais abastados que um megaevento esportivo que mobiliza a paixão de pessoas de todas as classes pode e deve ser acessível e que a mesma precisa se planejar para acolher de forma hospitaleira todos que a visitam.

A lição que fica é que o turismo brasileiro poderia ter saído ganhando muito mais se o público-alvo idealizado como o turista desejável na Copa do Mundo não fosse unicamente aquele que utiliza os serviços mais requintados e gasta muito em pouco tempo de permanência no destino. E quanto às queixas de desordens provocadas pelos visitantes “durangos” argentinos e de outras nacionalidades sul-americanas, que estes que criarem algum tipo de constrangimento em nossa casa sejam punidos na forma da nossa lei, mas que não generalizemos nem sejamos xenófobos com o nosso principal visitante o ano inteiro ou com qualquer outro que queira ter o prazer e o direito de participar dos maiores espetáculos esportivos do mundo, num congraçamento dos povos dentro e fora das caríssimas arenas.

2016 vem aí.


A santificação de um surfista carioca

24/03/2014

Por Valeria Guimarães

Sabe quando a gente tem planos de escrever um post sobre aquele tema de nossa pesquisa, que nos dá segurança de escrever com algumconhecimento de causa e de repente é surpreendido por algo que faz mudar o rumo da prosa e nos leva a pisar num terreno novo e movediço? Pois é. Aconteceu com este post.

A edição do jornal carioca O Dia do último domingo, 23 de março de 2014, trazia uma matéria com o curioso título “Túmulo de surfista que pode virar santo atrai romeiros”. O texto ressalta a intenção de abertura de um processo por autoridades eclesiásticas brasileiras no Vaticano, no próximo mês de maio, para a beatificação de Guido Vidal França Shäffer.

A beatificação, se reconhecida, será a primeira conquista rumo ao processo de santificação de Guido, uma aspiração de sua família, da Igreja Católica do Rio de Janeiro e de um crescente número de pessoas do país e do exterior que vem recorrendo à intervenção de Guido no alcance de alguma graça, havendo, inclusive peregrinações organizadas ao seu túmulo, no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. De acordo com o jornal O Dia, já existem relatos de milagres alcançados por devotos de Guido. Esses milagres estão sendo documentados para comporem o processo junto ao Vaticano.

Um santo surfista carioca. Assim é que tem sido trabalhada pela mídia a imagem de Guido, um médico e seminarista, também filho de médico, que morava em Copacabana e era praticante de surf no mar do Arpoador, onde ensinava jovens e adultos a praticar o esporte. Foi num acidente justamente quando surfava que Guido perdeu a vida precocemente, aos 34 anos de idade, em 2009.

A trajetória de vida de Guido, que se tornaria padre no ano em que ocorreu a sua morte, está ligada à dedicação aos mais necessitados tanto pelo trabalho pastoral quanto pelo ofício de médico. Residia na Santa Casa de Misericórdia e organizava grupos de oração na Igreja Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, sendo amigo do Padre Jorjão, um dos principais elos de ligação da Igreja Católica com o público jovem.Para Dom Roberto Lopes, delegado episcopal para a Causa dos Santos da Arquidiocese do Rio, Guido era “um São Francisco Carioca”.

O que me chama a atenção nessa interessante história e me motiva a trazer o tema para este blog de história do esporte é o forte destaque dado ao surf, marcando uma identidade jovem e um ideal de saúde e plenitude do esporte ao lado da vida vocacional e de uma possível santificação.Além do título da matéria do jornal e de outras já publicadas, um livro lançado no ano passado e um documentário com data de lançamento para este mês ressaltam em seus títulos a condição de surfista de Guido.

o diaMatéria de O Dia sobre o lançamento do livro O anjo surfista, com imagens de Guido em ação no mar e na Igreja (20 de junho de 2013)

 

 

Como já escreveram Rafael Fortes (2011) e Ana Carolina Cruz (2012), pesquisadores do Sport e autores de trabalhos sobre o surfe carioca, historicamente o esporte, que chega a configurar uma subcultura, esteve relacionado a movimentos de contracultura, com um forte corte de classe (as classes média e alta), concentrado na Zona Sul carioca e muito estigmatizado como uma cultura marginal (ou pelo menos como uma adaptação à cultura de consumo), tendo muitos de seus praticantes sofrido, inclusive, repressão policial.

Essas imagens foram sendo ressignificadas ao longo das 3 últimas décadas com o interesse das grandes marcas de roupas, equipamentos e acessórios que compunham a linha surfwear e se tornaram febre mesmo entre os jovens que viviam distantes do litoral carioca. Somado a isso, uma mídia especializada (que Rafael Fortes chama de mídia de nicho) e os movimentados campeonatos de surfe integrados a circuitos internacionais, entre outros fatores, foram dando uma nova cara ao esporte.

Os estigmas foram sendo desfeitos e a subcultura do surfe passou a incorporar novos valores, inclusive os da geração saúde e de inclusão social, possibilitando a construção de um imaginário contemporâneo de juventude suficientemente forte e compatível com a imagem de um santo, que no auge da sua vida e em plena prática esportiva no mar (“lugar onde realizava seus melhores encontros com Deus”, segundo seu biógrafo) perdeu a sua vida trágica e precocemente.

A biografia de Guido, lançada em junho de 2013  no contexto da Jornada Mundial da Juventude, sediada no Rio de Janeiro, tem como título “O anjo surfista”. Como subtítulo, a condição de surfista também aparece em primeiro lugar: “a verdadeira história de um surfista e médico que, prestes a se tornar padre, transformou-se em anjo”, com 176 páginas, publicada pela editora Leya, uma casa editorial com grande penetração em Portugal, Angola e Moçambique. Manuel Arouca, o autor da obra, aliás, é moçambicano radicado em Portugal. Certamente a obra alcançará esses países católicos de língua portuguesa.

 

livro anjo

Capa da biografia deGuido Schäffer

 

Guido era uma forte liderança na ala jovem da Igreja e, sem dúvida, a intensa associação entre a sua imagem, a ser santificada, e a prática do surfe reforçam a comunicação com um público-alvo tão valioso para a renovação e fortalecimento da Igreja Católica, o jovem, ao mesmo tempo em que vê algo de sagrado na antes reprimida prática do surfe.

Salve São Guido!

Referências

AROUCA, Manuel. O anjo surfista. Rio de Janeiro: Leya, 2013.

BARROS, Maria Luiza. Túmulo de surfista que pode virar santo atrai romeiros. O Dia, 23 de março de 2014. Disponível em: < http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2014-03-22/tumulo-de-surfista-que-pode-virar-santo-atrai-romeiros.html>. Data de acesso: 23 de março de 2014.

CRUZ, Ana Carolina Costa. Mulheres nas pranchas: trajetórias das primeiras competidoras do surfe carioca (década de 1960). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2012 (dissertação de mestrado em Educação Física).

FORTES, Rafael. O surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri, 2011.

SCHOTT, Ricardo. Mergulho divino. O Dia, 20 de junho de 2013, p.3.


Historiografando o turismo

17/11/2013

Por Valeria Lima Guimarães

Olá!

Vem chegando a época do ano que muita gente fica ávida por relaxar, tirar férias, aproveitar a temporada de verão e, quem sabe, realizar aquela tão esperada viagem de lazer.

As viagens de turismo, uma das mais fortes expressões do lazer em nosso tempo e um dos mais importantes fenômenos sociais do planeta, tornaram-se cada vez mais comuns no Brasil, dada a conjuntura econômica e a diversificação da oferta para os mais variados perfis de consumidores.

Esse fenômeno implica numa intensa mobilidade de pessoas e capitais entre os países e regiões, provocando a criação ou o aperfeiçoamento de uma infraestrutura necessária para receber esse tipo de viajante, com a oferta de equipamentos e serviços adequados ao turista, além de provocar a produção de fortes impactos econômicos, culturais e sociais, principalmente nas localidades receptoras.

Apesar da importância do turismo, que vem sendo debatido entre nós no SPORT como um dos motores da modernidade, o tema permaneceu à margem da História. Só muito recentemente na Europa e nas Américas, incluindo-se o Brasil, é que têm surgido iniciativas de escrita de uma história do turismo com as ferramentas e preocupações inerentes ao ofício do historiador. Isto significa dizer que as velhas cronologias que reificavam os mitos fundadores do turismo (e da modernidade) começam a ser deixadas para trás e o fenômeno acaba sendo percebido como uma nova e interessante lente para se ver as sociedades contemporâneas.

Como costuma dizer Victor Melo em nossas conversas, a história do turismo vem desenvolvendo uma trajetória muito parecida com a que a história do esporte percorreu há alguns anos. Aliás, em nossos debates e pesquisas desenvolvidas no SPORT e no HisTur (Laboratório de História do Turismo, da UFF), fica bem clara a estreita relação entre os dois fenômenos (o turismo até foi considerado uma modalidade esportiva, lá pelas décadas de 1910 e 1920). De vagarinho o subcampo vai se constituindo, aqui e em outros países, e já estão sendo superados alguns mitos assim como as análises explicativas que tomam o modelo dos países centrais como referência para a manifestação do fenômeno nas periferias.

Um exemplo disso é a ideia de que durante a Segunda Guerra o turismo ficou paralisado em todo o mundo, o que não se confirma a partir do momento em que se investiga os acervos documentais de países como Brasil, Argentina, Uruguai, México e Estados Unidos, por exemplo, que estavam bastante mobilizados em fomentar um turismo pancontinental e alternativo ao mercado europeu no período do conflito.

Aos poucos vão surgindo novas produções que atestam a preocupação dos historiadores com o turismo, como o Journal of Tourism History, editado desde 2009 pelo inglês John Walton, pela Taylor & Francis Online. Walton, que pesquisa a história do turismo desde a década de 1960, é conhecido como um dos mais antigos pesquisadores da história do turismo em atividade e suas investigações se relacionam às viagens turísticas de operários ingleses nos séculos XIX e XX, sem a mitificação do nome do inglês Thomas Cook, considerado o inventor do turismo moderno. Em 2012 tive o prazer de conhecê-lo em Mar del Plata, na Argentina, num encontro de pesquisadores de história do turismo, promovido por colegas da Universidad Nacional de Mar del Plata.

Dentre as novas produções da área, chamam a atenção os livros de Ema Cláudia Pires, “O baile do turismo: turismo e propaganda no Estado Novo”, publicado em 2003, e o de Sacha Packs “La invasión pacífica: los turistas en la España de Franco”, de 2006. O primeiro investiga o turismo sob o regime de Salazar, em Portugal e o segundo, o fenômeno turístico na ditadura de Franco, na Espanha. Ambos apontam como o estímulo ao turismo foi importante para o fortalecimento da identidade nacional sob a ideologia dos dois regimes.

Outro que estuda a relação entre o turismo e a identidade da nação é Eric Zuellow, cuja obra mais conhecida é Making Ireland Irish: Tourism and National Identity Since the Irish Civil War, publicada em 2009. O olhar sobre o nacionalismo irlandês e sobre as clivagens entre irlandeses e ingleses, vistos sob o ângulo do turismo (com a análise da construção de atrativos valorativos à nação), ganham um novo fôlego nos estudos deste historiador que é ainda conhecido pelos pesquisadores de história do esporte pelas suas inserções também nesse campo.

Na Argentina destaco os trabalhos de Elisa Pastoriza e Melina Piglia, que investigam, respectivamente, a construção da argentina turística, especialmente pela via do peronismo, e a trajetória do Automóvil Club Argentino, uma das principais instituições responsáveis pela construção do turismo rodoviário no país.

Aqui no Brasil, uma obra bastante importante é o livro Uma pré-história do Turismo no Brasil – recreações aristocráticas e lazeres burgueses (1808-1850), de Haroldo Leitão Camargo, pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). O autor parte da concepção do turismo como uma invenção social e identifica na passagem para a sociedade industrial no Brasil, as condições possíveis para o surgimento e desenvolvimento de uma cultura do turismo no país.

Também estão sendo desenvolvidas no país, âmbito da História, teses e dissertações que tratam do passado do turismo sob diversos enfoques, uma delas de minha autoria, orientada por Victor Melo e defendida em 2012 no Programa de Pós-Graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no qual está inserido o SPORT. Nas referências bibliográficas ao final deste post você poderá ver algumas dessas novas teses e dissertações.

O fortalecimento da relação entre as duas disciplinas, a História e o Turismo vem ganhando força a ponto de, desde 2011, serem organizados simpósios temáticos nos dois mais importantes fóruns de História e de Turismo do país – O Simpósio da ANPUH (Associação Nacional de História) e o Seminário da ANPTUR (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Turismo), nos quais temos tido ativa participação.

Nesses fóruns, estudiosos de várias regiões brasileiras têm apresentado suas pesquisas apontando cada vez mais – assim como nas discussões acerca da história do esporte no Brasil – que a história do turismo nacional não se resume ao Rio de Janeiro, “Cidade Maravilhosa”, capital da nação até 1960 e ainda hoje principal portão de entrada do turista de lazer no país.

As recreações aristocráticas em Pelotas no século XIX, a invenção da “cearensidade” pelo turismo, nos idos dos anos 1960, a invenção das tradições gaúchas para/pelo turismo, a construção da Natal litorânea, os projetos paulistanos de superação do Rio em importância turística, as viagens de turismo na literatura brasileira, o desenvolvimento do turismo noutras cidades fluminenses, como Paraty e Petrópolis, a construção do turismo social no Brasil, entre outros temas, apontam para a relevância das pesquisas históricas que estão sendo desenvolvidas sobre o turismo, com uma investigação séria e profunda das fontes documentais.

Em agosto de 2013 foi lançado o livro História do Turismo no Brasil, do qual tive o prazer de ser uma das organizadoras, ao lado dos colegas Celso Castro e Aline Montenegro. Trata-se de uma coletânea de artigos apresentados no I Simpósio de História e Memória do Turismo da ANPUH de 2011, juntamente com outros textos de autores convidados.

Esses jovens trabalhos demonstram que o turismo também tem história e que vale muito a pena não só praticá-lo como também estudá-lo. Boa viagem por essas leituras! Você descobrirá muitas proximidades entre a história do esporte e a do turismo.

Voltarei a falar do tema nos meus futuros posts, trazendo novos estudos empíricos e fontes sobre o assunto.

Até lá!

Referências

AGUIAR, Leila Biachi. Turismo e preservação nos sítios urbanos brasileiros: o caso de Ouro Preto. Niterói: Universidade Federal Fluminese/Programa de Pós Graduação em História, 2006 (Tese de Doutorado).

CAMARGO, Haroldo Leitão. Uma pré-história do turismo no Brasil: recreações aristocráticas e lazeres burgueses (1808-1850). São Paulo: Aleph, 2007.

CASTRO, Celso, GUIMARÃES, Valeria e MONTENEGRO, Aline (orgs.). História do turismo no Brasil. Rio de Janeiro: FGV, 2013.

DAIBERT, André Barcelos Damasceno. História do Turismo em Petrópolis entre 1900 e 1930. Rio de Janeiro: Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas, 2010 (Dissertação de Mestrado).

GUIMARÃES, Valeria Lima. O turismo levado a sério: discursos e relações de poder no Brasil e na Argentina (1933-1946). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro/Programa de Pós-Graduação em História Comparada.

MARCELO, Hernán Venegas. Patrimônio Cultural e Turismo no Brasil em perspectiva Histórica: encontros e desencontros em Paraty. Niterói: Universidade Federal Fluminense: Programa de Pós-Graduação em História, 2011 (Tese de Doutorado).

PACK, Sasha D. La invasión pacífica: los turistas y la España de Franco. Madrid: Turner, 2009.

PIRES, Ema Cláudia. O Baile do turismo: turismo e propaganda no Estado Novo. Lisboa: Caleidoscópio, 2003.

PASTORIZA, Eliza. La conquista de las vacaciones: breve historia del turismo en la Argentina. Buenos Aires: Edhasa, 2011.

PIGLIA, Melina. Automóviles, Turismo y carreteras como problemas públicos: los clubes de automovilistas y la configuración de las políticas turísticas y viales em la Argentina (1918-1943). Buenos Aires: Facultad de Filosofia y Letras de la Universidad de Buenos Aires, 2009. (Tese de doutorado).

WALTON, John. Welcome to the Journal of Tourism History. In: Journal of Tourism History, 1:1, p. 1-6, 2009. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1080/17551820902739034&gt;. Acesso em 15 de novembro de 2013.

ZUELOW, Eric. G. E. Making Ireland Irish: tourism and national identity since the Irish Civil War. New York: Syracuse University, 2009.


A Olimpíada Nacional em História do Brasil: o esporte como incentivo ao estudo da História

29/07/2013

Por Valéria Guimarães

Olá a todos!

Começo este post parabenizando os coordenadores Rafael Fortes e Miguel Archanjo de Freitas Jr. e todos os participantes de mais uma edição bem sucedida do Simpósio de História do Esporte, ocorrido na última semana durante o Simpósio Nacional de História promovido pela ANPUH na belíssima capital potiguar. Que venham muitas outras edições!

Inspirada no clima do evento da ANPUH, escolhi abordar nesta semana um outro grande evento nacional que tem a História como objeto e, puxando a brasa para a nossa sardinha, o esporte como motivação: a Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB).

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Final da Olimpíada na UNICAMP (2012). Fonte: ONHB.

Essa forma inovadora de aprendizagem e reflexão sobre a História, apoiada e incentivada inclusive pela ANPUH, vem alcançando grande sucesso entre professores e estudantes de escolas públicas e privadas do país, utilizando como fórmula os códigos próprios da linguagem esportiva. Na última edição, em 2012, a Olimpíada atraiu quase 65.000 participantes.

Iniciada em 2009, a iniciativa do Museu Exploratório de Ciências da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) é pioneira no campo das ciências humanas, inaugurando uma tradição já bastante sedimentada nas ciências exatas e biológicas, onde são realizadas as olimpíadas brasileiras de Matemática, de Química, de Física, de Robótica, de Astronomia, de Biologia entre outras.

A metodologia empregada na Olimpíada Nacional de História do Brasil  consiste na realização de trabalho em equipe, composta por três alunos e um professor orientador, que, utilizando-se das ferramentas próprias do trabalho do historiador, estudam artigos acadêmicos e analisam documentos escritos, iconográficos,  cartográficos, entre outros, para responderem às questões formuladas nas 6 fases do certame.

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Foto oficial da equipe Cana Caiana, de Maceió: uma das finalistas da ONHB em 2012. Fonte: Facebook ONHB.

As 5 primeiras fases são realizadas à distância, com o envio das respostas pela internet. A final, que reúne as 300 melhores equipes num fim de semana, é feita de forma presencial, onde os alunos respondem as questões discursivas na sede da UNICAMP enquanto que os professores que orientaram essas equipes assistem palestras e participam de mini-cursos com renomados nomes da historiografia brasileira. Os professores e alunos dos cursos de graduação e pós-graduação em História dessa universidade assumem a correção das provas, envolvendo, portanto, todos os segmentos onde é ministrado o ensino de História, do ensino fundamental à pós-graduação. Na manhã de domingo ocorre a cerimônia de premiação.

A conquista da viagem para participar da final é mais um dos atrativos e elementos de sucesso da competição, além das atividades de lazer oferecidas no tempo livre, que incluem passeios à cidade e shows.

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Equipe de estudantes a caminho da ONHB. Fonte: Facebook ONHB.

No cartaz de divulgação da 5ª edição do evento, que terá início no próximo dia 19/08 (escolhido em alusão ao Dia Nacional do Historiador), lê-se a seguinte chamada: “Uma empolgante competição para equipes de oitavo e nono anos do ensino fundamental e do ensino médio de todo o Brasil. Monte sua equipe e venha participar!”

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A ONHB é, de fato, uma moderna e bem sucedida competição esportiva cuja especialidade é o conhecimento de história do Brasil. Os relatos de quem já participou cruzados com as definições acadêmicas acerca do fenômeno esportivo, visto como prática institucionalizada, não deixam dúvida: os ânimos ficam acirrados; os alunos se preparam física, técnica e emocionalmente para o confronto, com a ajuda de um professor orientador (que faz as vezes de um treinador); brotam rivalidades entre estados, entre escolas e entre equipes; a competição atrai patrocínio, apoios e publicidade;  premiam-se os melhores competidores com medalhas que simbolizam o ouro, a prata e o bronze, estabelecem-se recordes, entre outras semelhanças.

Segundo o professor Marcelo Duarte de Almeida, que leciona nas redes estadual e municipal do Rio de Janeiro e já participou de 4 edições da ONHB, indo a 3 finais com suas equipes, “no momento em que os alunos questionam a validade do ensino de História nas escolas e apresentam grande desinteresse em estudar , a ONHB traz a proposta de valorizar o ensino e a aprendizagem da disciplina por meio da experimentação do ofício do historiador e da aplicação prática dos conhecimentos de História na vida diária, utilizando a linguagem da competição esportiva, tão sedutora aos jovens”.

Em poucos dias inicia-se a edição de 2013 da ONHB, mobilizando com sucesso mais uma vez dezenas de milhares de estudantes, seus professores orientadores, suas escolas, suas famílias e suas cidades. Parabéns a todos os colegas envolvidos na organização dessa competição que, com muita originalidade e ousadia, sacode e estimula o estudo da História entre os jovens do país.

Um abraço fraterno.


Cenas esportivas argentinas do início do século XX

06/04/2013

Por Valeria Lima Guimarães

A diferença histórica entre os seus processos de colonização e a rivalidade política e cultural (que se expressa muito claramente no futebol), entre outros fatores, impuseram o desconhecimento mútuo entre Brasil e Argentina. Apesar de ao longo do século XX termos conhecido importantes tentativas de aproximação tanto pela diplomacia oficial quanto pela sociedade civil (particularmente com os intercâmbios artísticos, acadêmicos, turísticos e esportivos), ainda sabemos muito pouco sobre a terra do Papa Francisco, de Maradona e de Messi, sobre as nossas diferenças e afinidades.

Nos últimos anos, o Laboratório de História do Esporte e do Lazer (SPORT), do Programa de História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem contribuído sistematicamente na produção de teses e dissertações que lançam um olhar comparativo sobre o fenômeno esportivo e sobre o lazer nos dois países[1], tendo-se o cuidado metodológico de evitar tomar o modelo dos grandes centros, Rio de Janeiro e Buenos Aires, para explicar o processo de interiorização do esporte nos diferentes estados/províncias desses países.[2]

Em comum, é possível ver, por exemplo, que a introdução e a popularização de alguns esportes modernos, vindos do Velho Continente – particularmente da Inglaterra – no início do século XX, se deram principalmente por meio da entrada e circulação massiva de europeus nas duas principais capitais da América do Sul. Os ventos da modernidade também sopraram no Atlântico Sul, introduzindo novos hábitos de cuidar de si e novas formas de sociabilidade e de lazer urbanas, dentre elas a vida esportiva.

Na revista Caras y Caretas, um “semanário festivo, literário, artístico e de atualidade”, fundado em 1898 e voltado para a emergente burguesia portenha, a celebração da vida esportiva era um dos signos mais claramente explícitos da vida moderna. A prática de esportes ao ar livre, nos elegantes hotéis de proprietários europeus, nos novos clubs esportivos, nas escolas – na forma de educação física – ou nos anúncios dos mais diversos produtos, era tema recorrente no semanário.

Os conteúdos de muitas edições da revista podem ser acessados pela internet.[3] Como aperitivo, fiquemos restritos apenas ao ano de 1901. Na virada para o novo século, já está posta a importância dos esportes modernos na sociedade argentina, assim como é possível reconhecer o papel fundamental do fenômeno esportivo no discurso de modernidade que a revista procurava veicular (e vender).

Num anúncio de tônico depurativo e estimulante, publicado pelo periódico em 12 de outubro de 1901, é explícita a associação entre a vida saudável, a prática esportiva e a medicalização da sociedade através do consumo. A escolha do ciclismo não é gratuita: trata-se de uma das modalidades esportivas que mais simbolizam a modernidade, unindo a técnica de domínio da máquina, a força física, a velocidade e o deslocamento. Não por acaso o ciclismo já àquela altura era um dos esportes mais populares na Europa e também no mais europeu dos países da América do Sul.

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André Schetino (2007) já escreveu sobre a influência do turfe (outro esporte de grande impacto entre os argentinos da capital) na invenção e organização do ciclismo, na transição do século XIX para o XX. Entre outras similitudes, o autor destacou a denominação da bicicleta como “cavalo de ferro” e a inspiração dos ciclistas na figura dos jóqueis para compor a sua indumentária e a própria maneira de conduzir a bicicleta nas corridas.[4] Na cena anterior, é possível identificar algumas dessas familiaridades entre o ciclismo e o turfe, a começar pelo próprio local em que se dá a corrida ciclística.

As corridas sobre veículos, sejam eles bicicletas, cavalos ou automóveis, ganhariam grande destaque na revista Caras y Caretas. A edição de 23 de novembro de 1901 trouxe os flagrantes do que teriam sido as primeiras corridas automobilísticas do país, realizadas no Hipódromo Argentino. O texto e a segunda imagem publicada na matéria dão ênfase à vitória do competidor Marcelo Torcuato de Alvear, um jovem aristocrata e político portenho que mais tarde chegaria à presidência do país (1922 a 1928).

carro

outros carros

Outro destaque nesta rápida imersão pela Caras y Caretas do início do século XX refere-se a mais um esporte que também cairia rapidamente no gosto dos argentinos: o boxe. Uma aula-exibição, ocorrida num elegante clube esportivo da capital do país e publicado na edição de 26 de outubro de 1901, foi chamada pela revista de “espetáculo completamente ianque”. O embate, observado bem de perto por uma atenta platéia masculina, envolvia dois pugilistas norte-americanos, como segue:

box texto

box foto

O lutador à esquerda era o professor de boxe M. Jaquier, um dos poucos mestres disponíveis em Buenos Aires, quando o esporte dava os seus primeiros passos na Argentina. O seu adversário e compatriota não teve a identidade revelada. O entusiasmo da revista pelo esporte bretão, que na Argentina foi fortemente influenciado pelos afro-americanos, produziria ainda muitas outras matérias, a exemplo de uma que reafirma a importância do professor Jaquier como um dos responsáveis por difundir a moda do boxe na capital portenha (edição de 23 de novembro).

Para terminar, destaco uma galeria montada pela revista em 26 de outubro de 1901, divulgando os feitos dos principais atletas mundiais de diferentes modalidades: a luta, o hipismo, o ciclismo e o remo, esportes bastante apreciados em Buenos Aires.

box homem forte

Qual seria o recado dado por Caras y Caretas aos seus leitores, especialmente à juventude burguesa bonaerense?

Até o próximo post!


[1] Ver a produção das teses, dissertações e artigos produzidos no âmbito do SPORT, do PPGHC da UFRJ, onde incluem-se:

CABO, Álvaro V. G. T. P. Olhares das Copas de 1970 e 1978 no Brasil e Argentina a partir da mídia escrita. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro/Programa de Pós-Graduação em História Comparada (Doutorado em andamento).

DRUMMOND, Maurício. Nações em jogo: esporte e propaganda política nos governos Vargas (1930-1945) e Perón (1946-1955). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro/Programa de Pós-Graduação em História Comparada, 2008 (Dissertação de mestrado).

MELO, Victor Andrade de e DRUMOND, Maurício. Esporte, cinema e política na Argentina de Juan Perón (1946-1955). Estudos Ibero-Americanos (PUCRS. Impresso), v. 35, p. 56-72, 2009.

GUIMARÃES, Valeria. O turismo levado a sério: discursos e relações de poder entre Brasil e Argentina (1933-1946). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro/Programa de Pós-Graduação em História Comparada, 2012 (Tese de doutorado).

SANTOS, Ricardo Pinto dos.  Futebol e História – Uma Jogada da Modernidade – Uma História Comparada entre o desenvolvimento do Futebol no Rio de Janeiro e Buenos Aires (1897-1924). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em História Comparada, 2008 (dissertação de mestrado).

[2] A esse respeito ver ROCHA JR., Coriolano da. Esporte e Modernidade: Uma análise comparada da experiência esportiva no Rio de Janeiro e na Bahia. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em História Comparada, 2011 (Tese de doutorado).

 [3] Basta acessar o seguinte link:

http://www.archive.org/stream/1901carasycaretas04buenuoft#page/n5/mode/2up

[4] Para saber mais sobre o assunto, ver  SCHETINO, André Maia. . Pedalando na Modernidade: a bicicleta e o ciclismo na transição do século XIX para o XX. Rio de Janeiro: Apicuri, 2008;  e SCHETINO, André  Maia. Do Tour de France ao Velódromo Nacional: o ciclismo em Paris e no Rio de Janeiro na transição dos séculos XIX e XX. In: Victor de Andrade Melo. (Org.). História comparada do esporte. Rio de Janeiro: Shape, 2007, p. 125-143.


Algumas reflexões sobre a proibição dos jogos de azar no Brasil

15/12/2012

Por Valéria Guimarães

Caros seguidores do blog Histórias do Sport,

No meu último post do ano, em plena temporada turística de verão, escolhi um tema bastante polêmico, que divide a opinião da sociedade e cujo debate está longe de se dar por encerrado: a proibição dos jogos de azar e o fechamento dos cassinos no Brasil.

Em meio a repetidos escândalos, investigações e apreensões de pessoas e de equipamentos de jogos de azar nos últimos anos no Brasil, permanece vivo o debate sobre a sua liberação e a volta das apostas sobre o pano verde à legalidade.

Entre muitas proibições e liberações que marcaram a história dos cassinos na primeira metade do século XX, numa retrospectiva histórica, é possível perceber que os cassinos brasileiros inauguraram novas sociabilidades urbanas e representaram um capítulo importante na história dos divertimentos sociais no Brasil.

Os cassinos eram ambientes luxuosos voltados para atrair a fina flor da sociedade nativa e os abastados turistas que visitavam as principais capitais da nação, os balneários, serras ou nossas estâncias hidrotermais, localizadas em cidades como Lambari, Poços de Caldas, Araxá, Petrópolis e Teresópolis, onde se instalaram importantes hotéis-cassinos.  Dessa forma, esses sofisticados complexos de diversão e lazer que conjugavam funções de entretenimento, hotelaria e restauração proporcionaram a fundação ou deram um grande impulso no desenvolvimento de muitos de nossos destinos turísticos.

Clique e veja um depoimento do popular artista Ankito, acompanhado de cenas memoráveis do Cassino da Urca (incluindo a presença de Walt Disney)

Não era pouco o dinheiro deixado sobre o pano verde, o que fez a fortuna de seus donos e encheu os cofres públicos com os altos impostos que eram recolhidos desses estabelecimentos. Durante o governo Vargas, a exploração do jogo no Brasil ganhou um grande impulso, sendo um dos mais bem sucedidos empresários do setor o o mineiro Joaquim Rolla, proprietário de diversos cassinos no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, incluindo o Cassino da Urca, comprado por ele em meados da década de 1930.

A proibição do jogo de azar no país e o fechamento dos cassinos, ocorreu a 30 de abril de 1946, por meio do Decreto-Lei nº 9.215, assinado pelo presidente Dutra.  Não seria esse mais um dos aspectos para a revisão do se convencionou chamar na historiografia de “período de democratização” ou “intervalo democrático”?

O anúncio da proibição dos jogos de azar no Brasil teve o apoio da Igreja Católica e dos principais jornais do país, como o Diário de Notícias, que fez uma campanha insistente contra as apostas e as casas de jogos e assim comemorou a notícia do impedimento da prática dos jogos de azar:

“(…) Maior é, pois, o entusiasmo com que assinalamos a medida ontem decretada, pois contém ela um inegável sentido afirmativo contra certos entorpecentes da ação moralizadora atribuída ao Estado. Vem ela ao cabo de anos e anos de campanha tenaz, que este jornal sustentou, sozinho, seja recusando não só a publicidade ostensiva dos cassinos, como de suas roupagens artísticas e turísticas, seja profligando doutrinariamente o vício, seja provocando pronunciamentos de vozes autorizadas, muitas vezes sofrendo vedações e castigos. (…)”  (Diário de Notícias, 1º de maio de 1946, capa)

Algumas poucas vozes discordantes levantaram os prejuízos econômicos e sociais dessa medida legal, como a perda de milhares de empregos e a diminuição da atividade turística nos destinos que tinham os cassinos entre os principais atrativos, como foi o caso do jornal paulistano Folha da Noite, que com frequência abordava o assunto em suas matérias e editoriais.  A 14 de maio de 1946, lia-se na página 5:

“Setenta mil pessoas deixaram de chegar a Santos. Setenta mil pessoas que iam aos cassinos jogar. Setenta mil pessoas que movimentavam Santos; que lotavam suas pensões, seus hotéis, seus cafés, seus trens, seus ônibus, seus automóveis. Setenta mil pessoas que justificavam empregos para cerca de oito mil viventes que trabalhavam nos cassinos e que, por força de seu fechamento, se encontram agora desempregados”.

Passados 66 anos de sua proibição formal, os jogos de azar não deixaram de ser praticados, apenas se transfeririam dos luxuosos salões dos cassinos para salas de apartamento e outros ambientes distantes (ou nem tanto) dos olhos da fiscalização. O patrimônio edificado remanescente dos cassinos e hotéis-cassinos ou teve o seu uso adaptado a novas funções (como condomínio residencial e até mesmo reitoria de universidade) ou encontra-se em estado de abandono (caso do Cassino da Urca, um dos maiores ícones de seu tempo).

No que se refere aos fluxos turísticos, estes foram revertidos: se antes do fechamento dos cassinos os turistas estrangeiros vinham para o Brasil também com o intuito de divertir-se nos nossos cassinos e assistir aos shows de artistas de projeção internacional, hoje são os brasileiros que vão ao exterior divertir-se nos cassinos dos outros, em Mar del Plata, Punta del Leste, Las Vegas ou em outras paragens, deixando por lá muitas divisas.

Dessa forma, volta-se à discussão a respeito da reabertura dos cassinos e da legalização dos jogos de azar no país, questionando-se se o antigo diploma legal que proibia a sua prática ainda tem valor em nossa sociedade, considerando-se as mudanças culturais e a conquista do estado democrático de direito.

A discussão tramita no Congresso Nacional e com ela reacendem as esperanças dos velhinhos amantes do bingo e dos apostadores do jogo do bicho, entre outros jogos hoje proibidos, de se divertirem e de exercerem a sua “fezinha” sem serem incomodados.

Resta-nos, por fim refletir se, repetindo-se a experiência da sua época de ouro, uma vez de volta à legalidade, os cassinos serão novamente direcionados às elites locais e aos abastados visitantes, concentrando-se nas zonas turísticas (território livre para os jogos de apostas) e permanecerão os divertimentos populares reprimidos como jogos “de azar”, ou se a prática do jogo de apostas estará acessível a todos os que com ela quiserem se divertir.

Boas Festas para todos vocês e até a próxima!

Valeria