Historiografando o turismo

17/11/2013

Por Valeria Lima Guimarães

Olá!

Vem chegando a época do ano que muita gente fica ávida por relaxar, tirar férias, aproveitar a temporada de verão e, quem sabe, realizar aquela tão esperada viagem de lazer.

As viagens de turismo, uma das mais fortes expressões do lazer em nosso tempo e um dos mais importantes fenômenos sociais do planeta, tornaram-se cada vez mais comuns no Brasil, dada a conjuntura econômica e a diversificação da oferta para os mais variados perfis de consumidores.

Esse fenômeno implica numa intensa mobilidade de pessoas e capitais entre os países e regiões, provocando a criação ou o aperfeiçoamento de uma infraestrutura necessária para receber esse tipo de viajante, com a oferta de equipamentos e serviços adequados ao turista, além de provocar a produção de fortes impactos econômicos, culturais e sociais, principalmente nas localidades receptoras.

Apesar da importância do turismo, que vem sendo debatido entre nós no SPORT como um dos motores da modernidade, o tema permaneceu à margem da História. Só muito recentemente na Europa e nas Américas, incluindo-se o Brasil, é que têm surgido iniciativas de escrita de uma história do turismo com as ferramentas e preocupações inerentes ao ofício do historiador. Isto significa dizer que as velhas cronologias que reificavam os mitos fundadores do turismo (e da modernidade) começam a ser deixadas para trás e o fenômeno acaba sendo percebido como uma nova e interessante lente para se ver as sociedades contemporâneas.

Como costuma dizer Victor Melo em nossas conversas, a história do turismo vem desenvolvendo uma trajetória muito parecida com a que a história do esporte percorreu há alguns anos. Aliás, em nossos debates e pesquisas desenvolvidas no SPORT e no HisTur (Laboratório de História do Turismo, da UFF), fica bem clara a estreita relação entre os dois fenômenos (o turismo até foi considerado uma modalidade esportiva, lá pelas décadas de 1910 e 1920). De vagarinho o subcampo vai se constituindo, aqui e em outros países, e já estão sendo superados alguns mitos assim como as análises explicativas que tomam o modelo dos países centrais como referência para a manifestação do fenômeno nas periferias.

Um exemplo disso é a ideia de que durante a Segunda Guerra o turismo ficou paralisado em todo o mundo, o que não se confirma a partir do momento em que se investiga os acervos documentais de países como Brasil, Argentina, Uruguai, México e Estados Unidos, por exemplo, que estavam bastante mobilizados em fomentar um turismo pancontinental e alternativo ao mercado europeu no período do conflito.

Aos poucos vão surgindo novas produções que atestam a preocupação dos historiadores com o turismo, como o Journal of Tourism History, editado desde 2009 pelo inglês John Walton, pela Taylor & Francis Online. Walton, que pesquisa a história do turismo desde a década de 1960, é conhecido como um dos mais antigos pesquisadores da história do turismo em atividade e suas investigações se relacionam às viagens turísticas de operários ingleses nos séculos XIX e XX, sem a mitificação do nome do inglês Thomas Cook, considerado o inventor do turismo moderno. Em 2012 tive o prazer de conhecê-lo em Mar del Plata, na Argentina, num encontro de pesquisadores de história do turismo, promovido por colegas da Universidad Nacional de Mar del Plata.

Dentre as novas produções da área, chamam a atenção os livros de Ema Cláudia Pires, “O baile do turismo: turismo e propaganda no Estado Novo”, publicado em 2003, e o de Sacha Packs “La invasión pacífica: los turistas en la España de Franco”, de 2006. O primeiro investiga o turismo sob o regime de Salazar, em Portugal e o segundo, o fenômeno turístico na ditadura de Franco, na Espanha. Ambos apontam como o estímulo ao turismo foi importante para o fortalecimento da identidade nacional sob a ideologia dos dois regimes.

Outro que estuda a relação entre o turismo e a identidade da nação é Eric Zuellow, cuja obra mais conhecida é Making Ireland Irish: Tourism and National Identity Since the Irish Civil War, publicada em 2009. O olhar sobre o nacionalismo irlandês e sobre as clivagens entre irlandeses e ingleses, vistos sob o ângulo do turismo (com a análise da construção de atrativos valorativos à nação), ganham um novo fôlego nos estudos deste historiador que é ainda conhecido pelos pesquisadores de história do esporte pelas suas inserções também nesse campo.

Na Argentina destaco os trabalhos de Elisa Pastoriza e Melina Piglia, que investigam, respectivamente, a construção da argentina turística, especialmente pela via do peronismo, e a trajetória do Automóvil Club Argentino, uma das principais instituições responsáveis pela construção do turismo rodoviário no país.

Aqui no Brasil, uma obra bastante importante é o livro Uma pré-história do Turismo no Brasil – recreações aristocráticas e lazeres burgueses (1808-1850), de Haroldo Leitão Camargo, pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). O autor parte da concepção do turismo como uma invenção social e identifica na passagem para a sociedade industrial no Brasil, as condições possíveis para o surgimento e desenvolvimento de uma cultura do turismo no país.

Também estão sendo desenvolvidas no país, âmbito da História, teses e dissertações que tratam do passado do turismo sob diversos enfoques, uma delas de minha autoria, orientada por Victor Melo e defendida em 2012 no Programa de Pós-Graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no qual está inserido o SPORT. Nas referências bibliográficas ao final deste post você poderá ver algumas dessas novas teses e dissertações.

O fortalecimento da relação entre as duas disciplinas, a História e o Turismo vem ganhando força a ponto de, desde 2011, serem organizados simpósios temáticos nos dois mais importantes fóruns de História e de Turismo do país – O Simpósio da ANPUH (Associação Nacional de História) e o Seminário da ANPTUR (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Turismo), nos quais temos tido ativa participação.

Nesses fóruns, estudiosos de várias regiões brasileiras têm apresentado suas pesquisas apontando cada vez mais – assim como nas discussões acerca da história do esporte no Brasil – que a história do turismo nacional não se resume ao Rio de Janeiro, “Cidade Maravilhosa”, capital da nação até 1960 e ainda hoje principal portão de entrada do turista de lazer no país.

As recreações aristocráticas em Pelotas no século XIX, a invenção da “cearensidade” pelo turismo, nos idos dos anos 1960, a invenção das tradições gaúchas para/pelo turismo, a construção da Natal litorânea, os projetos paulistanos de superação do Rio em importância turística, as viagens de turismo na literatura brasileira, o desenvolvimento do turismo noutras cidades fluminenses, como Paraty e Petrópolis, a construção do turismo social no Brasil, entre outros temas, apontam para a relevância das pesquisas históricas que estão sendo desenvolvidas sobre o turismo, com uma investigação séria e profunda das fontes documentais.

Em agosto de 2013 foi lançado o livro História do Turismo no Brasil, do qual tive o prazer de ser uma das organizadoras, ao lado dos colegas Celso Castro e Aline Montenegro. Trata-se de uma coletânea de artigos apresentados no I Simpósio de História e Memória do Turismo da ANPUH de 2011, juntamente com outros textos de autores convidados.

Esses jovens trabalhos demonstram que o turismo também tem história e que vale muito a pena não só praticá-lo como também estudá-lo. Boa viagem por essas leituras! Você descobrirá muitas proximidades entre a história do esporte e a do turismo.

Voltarei a falar do tema nos meus futuros posts, trazendo novos estudos empíricos e fontes sobre o assunto.

Até lá!

Referências

AGUIAR, Leila Biachi. Turismo e preservação nos sítios urbanos brasileiros: o caso de Ouro Preto. Niterói: Universidade Federal Fluminese/Programa de Pós Graduação em História, 2006 (Tese de Doutorado).

CAMARGO, Haroldo Leitão. Uma pré-história do turismo no Brasil: recreações aristocráticas e lazeres burgueses (1808-1850). São Paulo: Aleph, 2007.

CASTRO, Celso, GUIMARÃES, Valeria e MONTENEGRO, Aline (orgs.). História do turismo no Brasil. Rio de Janeiro: FGV, 2013.

DAIBERT, André Barcelos Damasceno. História do Turismo em Petrópolis entre 1900 e 1930. Rio de Janeiro: Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas, 2010 (Dissertação de Mestrado).

GUIMARÃES, Valeria Lima. O turismo levado a sério: discursos e relações de poder no Brasil e na Argentina (1933-1946). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro/Programa de Pós-Graduação em História Comparada.

MARCELO, Hernán Venegas. Patrimônio Cultural e Turismo no Brasil em perspectiva Histórica: encontros e desencontros em Paraty. Niterói: Universidade Federal Fluminense: Programa de Pós-Graduação em História, 2011 (Tese de Doutorado).

PACK, Sasha D. La invasión pacífica: los turistas y la España de Franco. Madrid: Turner, 2009.

PIRES, Ema Cláudia. O Baile do turismo: turismo e propaganda no Estado Novo. Lisboa: Caleidoscópio, 2003.

PASTORIZA, Eliza. La conquista de las vacaciones: breve historia del turismo en la Argentina. Buenos Aires: Edhasa, 2011.

PIGLIA, Melina. Automóviles, Turismo y carreteras como problemas públicos: los clubes de automovilistas y la configuración de las políticas turísticas y viales em la Argentina (1918-1943). Buenos Aires: Facultad de Filosofia y Letras de la Universidad de Buenos Aires, 2009. (Tese de doutorado).

WALTON, John. Welcome to the Journal of Tourism History. In: Journal of Tourism History, 1:1, p. 1-6, 2009. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1080/17551820902739034&gt;. Acesso em 15 de novembro de 2013.

ZUELOW, Eric. G. E. Making Ireland Irish: tourism and national identity since the Irish Civil War. New York: Syracuse University, 2009.


A Olimpíada Nacional em História do Brasil: o esporte como incentivo ao estudo da História

29/07/2013

Por Valéria Guimarães

Olá a todos!

Começo este post parabenizando os coordenadores Rafael Fortes e Miguel Archanjo de Freitas Jr. e todos os participantes de mais uma edição bem sucedida do Simpósio de História do Esporte, ocorrido na última semana durante o Simpósio Nacional de História promovido pela ANPUH na belíssima capital potiguar. Que venham muitas outras edições!

Inspirada no clima do evento da ANPUH, escolhi abordar nesta semana um outro grande evento nacional que tem a História como objeto e, puxando a brasa para a nossa sardinha, o esporte como motivação: a Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB).

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Final da Olimpíada na UNICAMP (2012). Fonte: ONHB.

Essa forma inovadora de aprendizagem e reflexão sobre a História, apoiada e incentivada inclusive pela ANPUH, vem alcançando grande sucesso entre professores e estudantes de escolas públicas e privadas do país, utilizando como fórmula os códigos próprios da linguagem esportiva. Na última edição, em 2012, a Olimpíada atraiu quase 65.000 participantes.

Iniciada em 2009, a iniciativa do Museu Exploratório de Ciências da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) é pioneira no campo das ciências humanas, inaugurando uma tradição já bastante sedimentada nas ciências exatas e biológicas, onde são realizadas as olimpíadas brasileiras de Matemática, de Química, de Física, de Robótica, de Astronomia, de Biologia entre outras.

A metodologia empregada na Olimpíada Nacional de História do Brasil  consiste na realização de trabalho em equipe, composta por três alunos e um professor orientador, que, utilizando-se das ferramentas próprias do trabalho do historiador, estudam artigos acadêmicos e analisam documentos escritos, iconográficos,  cartográficos, entre outros, para responderem às questões formuladas nas 6 fases do certame.

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Foto oficial da equipe Cana Caiana, de Maceió: uma das finalistas da ONHB em 2012. Fonte: Facebook ONHB.

As 5 primeiras fases são realizadas à distância, com o envio das respostas pela internet. A final, que reúne as 300 melhores equipes num fim de semana, é feita de forma presencial, onde os alunos respondem as questões discursivas na sede da UNICAMP enquanto que os professores que orientaram essas equipes assistem palestras e participam de mini-cursos com renomados nomes da historiografia brasileira. Os professores e alunos dos cursos de graduação e pós-graduação em História dessa universidade assumem a correção das provas, envolvendo, portanto, todos os segmentos onde é ministrado o ensino de História, do ensino fundamental à pós-graduação. Na manhã de domingo ocorre a cerimônia de premiação.

A conquista da viagem para participar da final é mais um dos atrativos e elementos de sucesso da competição, além das atividades de lazer oferecidas no tempo livre, que incluem passeios à cidade e shows.

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Equipe de estudantes a caminho da ONHB. Fonte: Facebook ONHB.

No cartaz de divulgação da 5ª edição do evento, que terá início no próximo dia 19/08 (escolhido em alusão ao Dia Nacional do Historiador), lê-se a seguinte chamada: “Uma empolgante competição para equipes de oitavo e nono anos do ensino fundamental e do ensino médio de todo o Brasil. Monte sua equipe e venha participar!”

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A ONHB é, de fato, uma moderna e bem sucedida competição esportiva cuja especialidade é o conhecimento de história do Brasil. Os relatos de quem já participou cruzados com as definições acadêmicas acerca do fenômeno esportivo, visto como prática institucionalizada, não deixam dúvida: os ânimos ficam acirrados; os alunos se preparam física, técnica e emocionalmente para o confronto, com a ajuda de um professor orientador (que faz as vezes de um treinador); brotam rivalidades entre estados, entre escolas e entre equipes; a competição atrai patrocínio, apoios e publicidade;  premiam-se os melhores competidores com medalhas que simbolizam o ouro, a prata e o bronze, estabelecem-se recordes, entre outras semelhanças.

Segundo o professor Marcelo Duarte de Almeida, que leciona nas redes estadual e municipal do Rio de Janeiro e já participou de 4 edições da ONHB, indo a 3 finais com suas equipes, “no momento em que os alunos questionam a validade do ensino de História nas escolas e apresentam grande desinteresse em estudar , a ONHB traz a proposta de valorizar o ensino e a aprendizagem da disciplina por meio da experimentação do ofício do historiador e da aplicação prática dos conhecimentos de História na vida diária, utilizando a linguagem da competição esportiva, tão sedutora aos jovens”.

Em poucos dias inicia-se a edição de 2013 da ONHB, mobilizando com sucesso mais uma vez dezenas de milhares de estudantes, seus professores orientadores, suas escolas, suas famílias e suas cidades. Parabéns a todos os colegas envolvidos na organização dessa competição que, com muita originalidade e ousadia, sacode e estimula o estudo da História entre os jovens do país.

Um abraço fraterno.


Cenas esportivas argentinas do início do século XX

06/04/2013

Por Valeria Lima Guimarães

A diferença histórica entre os seus processos de colonização e a rivalidade política e cultural (que se expressa muito claramente no futebol), entre outros fatores, impuseram o desconhecimento mútuo entre Brasil e Argentina. Apesar de ao longo do século XX termos conhecido importantes tentativas de aproximação tanto pela diplomacia oficial quanto pela sociedade civil (particularmente com os intercâmbios artísticos, acadêmicos, turísticos e esportivos), ainda sabemos muito pouco sobre a terra do Papa Francisco, de Maradona e de Messi, sobre as nossas diferenças e afinidades.

Nos últimos anos, o Laboratório de História do Esporte e do Lazer (SPORT), do Programa de História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem contribuído sistematicamente na produção de teses e dissertações que lançam um olhar comparativo sobre o fenômeno esportivo e sobre o lazer nos dois países[1], tendo-se o cuidado metodológico de evitar tomar o modelo dos grandes centros, Rio de Janeiro e Buenos Aires, para explicar o processo de interiorização do esporte nos diferentes estados/províncias desses países.[2]

Em comum, é possível ver, por exemplo, que a introdução e a popularização de alguns esportes modernos, vindos do Velho Continente – particularmente da Inglaterra – no início do século XX, se deram principalmente por meio da entrada e circulação massiva de europeus nas duas principais capitais da América do Sul. Os ventos da modernidade também sopraram no Atlântico Sul, introduzindo novos hábitos de cuidar de si e novas formas de sociabilidade e de lazer urbanas, dentre elas a vida esportiva.

Na revista Caras y Caretas, um “semanário festivo, literário, artístico e de atualidade”, fundado em 1898 e voltado para a emergente burguesia portenha, a celebração da vida esportiva era um dos signos mais claramente explícitos da vida moderna. A prática de esportes ao ar livre, nos elegantes hotéis de proprietários europeus, nos novos clubs esportivos, nas escolas – na forma de educação física – ou nos anúncios dos mais diversos produtos, era tema recorrente no semanário.

Os conteúdos de muitas edições da revista podem ser acessados pela internet.[3] Como aperitivo, fiquemos restritos apenas ao ano de 1901. Na virada para o novo século, já está posta a importância dos esportes modernos na sociedade argentina, assim como é possível reconhecer o papel fundamental do fenômeno esportivo no discurso de modernidade que a revista procurava veicular (e vender).

Num anúncio de tônico depurativo e estimulante, publicado pelo periódico em 12 de outubro de 1901, é explícita a associação entre a vida saudável, a prática esportiva e a medicalização da sociedade através do consumo. A escolha do ciclismo não é gratuita: trata-se de uma das modalidades esportivas que mais simbolizam a modernidade, unindo a técnica de domínio da máquina, a força física, a velocidade e o deslocamento. Não por acaso o ciclismo já àquela altura era um dos esportes mais populares na Europa e também no mais europeu dos países da América do Sul.

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André Schetino (2007) já escreveu sobre a influência do turfe (outro esporte de grande impacto entre os argentinos da capital) na invenção e organização do ciclismo, na transição do século XIX para o XX. Entre outras similitudes, o autor destacou a denominação da bicicleta como “cavalo de ferro” e a inspiração dos ciclistas na figura dos jóqueis para compor a sua indumentária e a própria maneira de conduzir a bicicleta nas corridas.[4] Na cena anterior, é possível identificar algumas dessas familiaridades entre o ciclismo e o turfe, a começar pelo próprio local em que se dá a corrida ciclística.

As corridas sobre veículos, sejam eles bicicletas, cavalos ou automóveis, ganhariam grande destaque na revista Caras y Caretas. A edição de 23 de novembro de 1901 trouxe os flagrantes do que teriam sido as primeiras corridas automobilísticas do país, realizadas no Hipódromo Argentino. O texto e a segunda imagem publicada na matéria dão ênfase à vitória do competidor Marcelo Torcuato de Alvear, um jovem aristocrata e político portenho que mais tarde chegaria à presidência do país (1922 a 1928).

carro

outros carros

Outro destaque nesta rápida imersão pela Caras y Caretas do início do século XX refere-se a mais um esporte que também cairia rapidamente no gosto dos argentinos: o boxe. Uma aula-exibição, ocorrida num elegante clube esportivo da capital do país e publicado na edição de 26 de outubro de 1901, foi chamada pela revista de “espetáculo completamente ianque”. O embate, observado bem de perto por uma atenta platéia masculina, envolvia dois pugilistas norte-americanos, como segue:

box texto

box foto

O lutador à esquerda era o professor de boxe M. Jaquier, um dos poucos mestres disponíveis em Buenos Aires, quando o esporte dava os seus primeiros passos na Argentina. O seu adversário e compatriota não teve a identidade revelada. O entusiasmo da revista pelo esporte bretão, que na Argentina foi fortemente influenciado pelos afro-americanos, produziria ainda muitas outras matérias, a exemplo de uma que reafirma a importância do professor Jaquier como um dos responsáveis por difundir a moda do boxe na capital portenha (edição de 23 de novembro).

Para terminar, destaco uma galeria montada pela revista em 26 de outubro de 1901, divulgando os feitos dos principais atletas mundiais de diferentes modalidades: a luta, o hipismo, o ciclismo e o remo, esportes bastante apreciados em Buenos Aires.

box homem forte

Qual seria o recado dado por Caras y Caretas aos seus leitores, especialmente à juventude burguesa bonaerense?

Até o próximo post!


[1] Ver a produção das teses, dissertações e artigos produzidos no âmbito do SPORT, do PPGHC da UFRJ, onde incluem-se:

CABO, Álvaro V. G. T. P. Olhares das Copas de 1970 e 1978 no Brasil e Argentina a partir da mídia escrita. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro/Programa de Pós-Graduação em História Comparada (Doutorado em andamento).

DRUMMOND, Maurício. Nações em jogo: esporte e propaganda política nos governos Vargas (1930-1945) e Perón (1946-1955). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro/Programa de Pós-Graduação em História Comparada, 2008 (Dissertação de mestrado).

MELO, Victor Andrade de e DRUMOND, Maurício. Esporte, cinema e política na Argentina de Juan Perón (1946-1955). Estudos Ibero-Americanos (PUCRS. Impresso), v. 35, p. 56-72, 2009.

GUIMARÃES, Valeria. O turismo levado a sério: discursos e relações de poder entre Brasil e Argentina (1933-1946). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro/Programa de Pós-Graduação em História Comparada, 2012 (Tese de doutorado).

SANTOS, Ricardo Pinto dos.  Futebol e História – Uma Jogada da Modernidade – Uma História Comparada entre o desenvolvimento do Futebol no Rio de Janeiro e Buenos Aires (1897-1924). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em História Comparada, 2008 (dissertação de mestrado).

[2] A esse respeito ver ROCHA JR., Coriolano da. Esporte e Modernidade: Uma análise comparada da experiência esportiva no Rio de Janeiro e na Bahia. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em História Comparada, 2011 (Tese de doutorado).

 [3] Basta acessar o seguinte link:

http://www.archive.org/stream/1901carasycaretas04buenuoft#page/n5/mode/2up

[4] Para saber mais sobre o assunto, ver  SCHETINO, André Maia. . Pedalando na Modernidade: a bicicleta e o ciclismo na transição do século XIX para o XX. Rio de Janeiro: Apicuri, 2008;  e SCHETINO, André  Maia. Do Tour de France ao Velódromo Nacional: o ciclismo em Paris e no Rio de Janeiro na transição dos séculos XIX e XX. In: Victor de Andrade Melo. (Org.). História comparada do esporte. Rio de Janeiro: Shape, 2007, p. 125-143.


Algumas reflexões sobre a proibição dos jogos de azar no Brasil

15/12/2012

Por Valéria Guimarães

Caros seguidores do blog Histórias do Sport,

No meu último post do ano, em plena temporada turística de verão, escolhi um tema bastante polêmico, que divide a opinião da sociedade e cujo debate está longe de se dar por encerrado: a proibição dos jogos de azar e o fechamento dos cassinos no Brasil.

Em meio a repetidos escândalos, investigações e apreensões de pessoas e de equipamentos de jogos de azar nos últimos anos no Brasil, permanece vivo o debate sobre a sua liberação e a volta das apostas sobre o pano verde à legalidade.

Entre muitas proibições e liberações que marcaram a história dos cassinos na primeira metade do século XX, numa retrospectiva histórica, é possível perceber que os cassinos brasileiros inauguraram novas sociabilidades urbanas e representaram um capítulo importante na história dos divertimentos sociais no Brasil.

Os cassinos eram ambientes luxuosos voltados para atrair a fina flor da sociedade nativa e os abastados turistas que visitavam as principais capitais da nação, os balneários, serras ou nossas estâncias hidrotermais, localizadas em cidades como Lambari, Poços de Caldas, Araxá, Petrópolis e Teresópolis, onde se instalaram importantes hotéis-cassinos.  Dessa forma, esses sofisticados complexos de diversão e lazer que conjugavam funções de entretenimento, hotelaria e restauração proporcionaram a fundação ou deram um grande impulso no desenvolvimento de muitos de nossos destinos turísticos.

Clique e veja um depoimento do popular artista Ankito, acompanhado de cenas memoráveis do Cassino da Urca (incluindo a presença de Walt Disney)

Não era pouco o dinheiro deixado sobre o pano verde, o que fez a fortuna de seus donos e encheu os cofres públicos com os altos impostos que eram recolhidos desses estabelecimentos. Durante o governo Vargas, a exploração do jogo no Brasil ganhou um grande impulso, sendo um dos mais bem sucedidos empresários do setor o o mineiro Joaquim Rolla, proprietário de diversos cassinos no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, incluindo o Cassino da Urca, comprado por ele em meados da década de 1930.

A proibição do jogo de azar no país e o fechamento dos cassinos, ocorreu a 30 de abril de 1946, por meio do Decreto-Lei nº 9.215, assinado pelo presidente Dutra.  Não seria esse mais um dos aspectos para a revisão do se convencionou chamar na historiografia de “período de democratização” ou “intervalo democrático”?

O anúncio da proibição dos jogos de azar no Brasil teve o apoio da Igreja Católica e dos principais jornais do país, como o Diário de Notícias, que fez uma campanha insistente contra as apostas e as casas de jogos e assim comemorou a notícia do impedimento da prática dos jogos de azar:

“(…) Maior é, pois, o entusiasmo com que assinalamos a medida ontem decretada, pois contém ela um inegável sentido afirmativo contra certos entorpecentes da ação moralizadora atribuída ao Estado. Vem ela ao cabo de anos e anos de campanha tenaz, que este jornal sustentou, sozinho, seja recusando não só a publicidade ostensiva dos cassinos, como de suas roupagens artísticas e turísticas, seja profligando doutrinariamente o vício, seja provocando pronunciamentos de vozes autorizadas, muitas vezes sofrendo vedações e castigos. (…)”  (Diário de Notícias, 1º de maio de 1946, capa)

Algumas poucas vozes discordantes levantaram os prejuízos econômicos e sociais dessa medida legal, como a perda de milhares de empregos e a diminuição da atividade turística nos destinos que tinham os cassinos entre os principais atrativos, como foi o caso do jornal paulistano Folha da Noite, que com frequência abordava o assunto em suas matérias e editoriais.  A 14 de maio de 1946, lia-se na página 5:

“Setenta mil pessoas deixaram de chegar a Santos. Setenta mil pessoas que iam aos cassinos jogar. Setenta mil pessoas que movimentavam Santos; que lotavam suas pensões, seus hotéis, seus cafés, seus trens, seus ônibus, seus automóveis. Setenta mil pessoas que justificavam empregos para cerca de oito mil viventes que trabalhavam nos cassinos e que, por força de seu fechamento, se encontram agora desempregados”.

Passados 66 anos de sua proibição formal, os jogos de azar não deixaram de ser praticados, apenas se transfeririam dos luxuosos salões dos cassinos para salas de apartamento e outros ambientes distantes (ou nem tanto) dos olhos da fiscalização. O patrimônio edificado remanescente dos cassinos e hotéis-cassinos ou teve o seu uso adaptado a novas funções (como condomínio residencial e até mesmo reitoria de universidade) ou encontra-se em estado de abandono (caso do Cassino da Urca, um dos maiores ícones de seu tempo).

No que se refere aos fluxos turísticos, estes foram revertidos: se antes do fechamento dos cassinos os turistas estrangeiros vinham para o Brasil também com o intuito de divertir-se nos nossos cassinos e assistir aos shows de artistas de projeção internacional, hoje são os brasileiros que vão ao exterior divertir-se nos cassinos dos outros, em Mar del Plata, Punta del Leste, Las Vegas ou em outras paragens, deixando por lá muitas divisas.

Dessa forma, volta-se à discussão a respeito da reabertura dos cassinos e da legalização dos jogos de azar no país, questionando-se se o antigo diploma legal que proibia a sua prática ainda tem valor em nossa sociedade, considerando-se as mudanças culturais e a conquista do estado democrático de direito.

A discussão tramita no Congresso Nacional e com ela reacendem as esperanças dos velhinhos amantes do bingo e dos apostadores do jogo do bicho, entre outros jogos hoje proibidos, de se divertirem e de exercerem a sua “fezinha” sem serem incomodados.

Resta-nos, por fim refletir se, repetindo-se a experiência da sua época de ouro, uma vez de volta à legalidade, os cassinos serão novamente direcionados às elites locais e aos abastados visitantes, concentrando-se nas zonas turísticas (território livre para os jogos de apostas) e permanecerão os divertimentos populares reprimidos como jogos “de azar”, ou se a prática do jogo de apostas estará acessível a todos os que com ela quiserem se divertir.

Boas Festas para todos vocês e até a próxima!

Valeria


Os dois filhos de Touro Moreno

27/08/2012

Por Valeria Lima Guimarães

Estando em final de doutorado, escrevendo a tese a mil por hora, nada me fazia sair de casa ou sequer levantar da cadeira do computador. Mas as Olimpíadas exercem um fascínio tão grande que ficava difícil não dar uma espiadinha nas competições, na organização daquela megafesta esportiva com todo o seu cerimonial impecável, seus extraordinários equipamentos esportivos e é claro, a presença dos atletas de todos os lugares representando os seus pavilhões.

Escrevo estas palavras simples, de alguém que não estuda o assunto, para saudar particularmente o grande feito do boxe brasileiro em Londres. O boxe era um esporte que não me chamava atenção até bem pouco tempo. Mas comecei a desconfiar dos meus preconceitos a partir dos debates acadêmicos realizados no SPORT. Descobri que havia algo além de surrar e ser surrado num circuito milionário para alguns.

Assistimos em 2010 no Cineclube SPORT o documentário “Touro Moreno”, de Juliano Enrico (2007), debatido pelo nosso craque Rafael Fortes. Fiquei muito impressionada com a abnegação do personagem-título e sua obsessão pelo boxe. Em meio às condições mais adversas na cidade de Serra, no Espírito Santo, considerada uma das mais violentas do país, o jovem senhor septuagenário treinava obstinadamente no fundo do quintal, com recursos rudimentares e estranhos rituais, como beber água de macarrão para manter a forma e continuar derrotando adversários muito mais novos. Trabalhava também na formação de novos lutadores, incluindo muitos dos seus 18 filhos, dando-lhes uma alternativa de vida e de futuro.

Clique aqui e veja um trecho do documentário “Touro Moreno”:

http://www.youtube.com/watch?v=Y04JQ26X26o

 

Em 2011, foi a vez de o Cineclube SPORT exibir “Hurricane”, de Norman Jewison (1999), brilhantemente estrelado por Denzel Washington e debatido pelo Victor Melo. O filme, não necessariamente sobre o boxe, aborda a história real do pugilista campeão que na década de 1960 foi golpeado pelo racismo e pela violência das instituições sociais norte-americanas, dando a volta por cima depois de muito sofrimento.

Neste ano, por uma dessas coincidências da vida, realizei um trabalho com um numeroso grupo de crianças de todas as idades participantes de um projeto social de educação pelo boxe. Definitivamente, não dava mais para ignorar o esporte…

Eis que me surpreendo sentada no sofá, acompanhando todas as lutas dos brasileiros nas Olimpíadas de Londres. Com a estréia do boxe feminino nos jogos, a baiana Adriana Araújo já de cara nos deu um bronze. Foram apenas três categorias no debut do boxe das meninas e já trouxemos medalha, igualando o feito de Servílio de Oliveira, no longínquo 1968, no México. Mas Adriana quebrou também um grande tabu. Se o boxe, como mostrou Victor Melo, é um dos esportes que mais projeta os ideais de masculinade,  Adriana e todas as lutadoras que ela representava naquele momento transgrediram esse imaginário socialmente compartilhado e demonstraram que mulher também tem vez nos ringues de boxe competitivo (e não só nas academias, fabricando corpos desejáveis). Uma dupla vitória!

Ainda faltava algo: O que eu mais queria ver naquelas olimpíadas eram os dois filhos do Touro Moreno, tal qual os do Francisco, subirem no lugar mais alto daquele palco chamado pódio. Os irmãos Falcão, Esquvia e Yamagushi, que tem seus prenomes alusivos à luta, estavam ali protagonizando mais uma história verídica de dramas, dificuldades e vitórias.

O ouro não veio, mas o seu Touro, hoje com 75 anos, se sentiu recompensado: uma prata discutível e um bronze (junto com a medalha da Adriana), representaram o maior resultado da história do boxe brasileiro nos jogos olímpicos. Os irmãos Falcão deram a seus pais uma alegria só sentida pela família dos irmãos Grael, até então os dois únicos irmãos brasileiros a “medalhar” numa mesma olimpíada.

Yamaguchi, Esquiva e Touro Moreno

Os irmãos Falcão, seu grande mentor e o T que o mundo inteiro viu nas Olimpíadas. (Foto: Sportv)

O juiz admitiu ter errado e tirado a vitória de Esquiva Falcão, mais um aspecto humano de uns jogos cada vez mais mercantilizados, espetacularizados e padronizados. Talvez seja por isso que esse evento esportivo ainda seja tão interessante: por trás da megaestrutura, das máquinas de alto rendimento postas à prova e de seus rígidos controladores, há a possibilidade do erro, da falha, do desapontamento, das quedas e também das glórias. (Não sai da minha memória o drama vivido pela esgrimista sul-coreana em função daquele segundo que insistiu em se postergar por uma eternidade…)

Esquiva foi o porta-bandeira do Brasil na cerimônia de encerramento dos jogos, outro feito inédito. Os irmãos Falcão foram recebidos pela Presidenta da República, em Brasília. A imprensa soube aproveitar o momento para revirar suas vidas, ressaltando que o boxe, graças à obstinação de Touro Moreno os salvou dos riscos sociais. Dois brasileiros humildes, que com persistência venceram as batalhas da vida pelo boxe, tornaram-se medalhistas olímpicos e foram homenageados pela Presidenta do país.

Esse é, sem dúvida, um bom enredo para mais um filme de boxe, protagonizado por brasileiros, com final feliz. Na mesma semana em que três dos nossos pugilistas recebiam as honrarias olímpicas e o país festejava seus feitos inéditos, uma notícia de violência brutal contra uma criança de Praia grande, em São Paulo, estampava os jornais. A “arma” do crime, praticado por uma mulher da sua família, foi o emprego de golpes de boxe, sem chances de defesa para a vítima.

Prefiro histórias reais, como a de Adriana Araújo e as dos dois filhos de Touro Moreno, envolvendo o esporte (esse fenômeno humano, demasiadamente humano, como gosta de enfatizar Victor Melo, parafraseando o artista), àquelas em que o domínio das técnicas do esporte – do boxe ou de qualquer outro que seja –  é usado covardemente contra outro ser humano indefeso.

Que os pugilistas do futuro encontrem melhores condições do que os campeões brasileiros em Londres enfrentaram em suas trajetórias. Que o boxe no país seja tratado com mais seriedade e organização. Que as futuras gerações que praticam boxe nos milhares de projetos sociais existentes envolvendo esse esporte, encontrem nesses campeões uma motivação a mais para seguir adiante nesse esporte tão complexo e tão completo, como se diz no jargão esportivo.


A trilha sonora do lazer no subúrbio carioca na década de 1980: uma singela homenagem a Dicró

05/05/2012

Por Valéria Lima Guimarães

 No último dia 25 de abril, “abotoou o paletó” prematuramente um dos mais criativos artistas populares que o Rio de Janeiro já conheceu. Escrevo este post revirando o baú da memória para fazer uma homenagem ao divertido e já saudoso Dicró,  autor e intérprete de muitas músicas que fizeram parte da trilha sonora do lazer do subúrbio carioca a partir do final da década de 1970.

Nascido Carlos Roberto de Oliveira, em Mesquita, na Baixada Fluminense, há 66 anos, meu conterrâneo Dicró era um orgulho na região. Quem tem mais de 30 anos deve se lembrar do auge do sucesso na tevê e nas rádios desse artista que fez carreira cantando com muito bom humor as crônicas da vida cotidiana nos subúrbios da cidade. Era chamado carinhosamente de “Prefeito de Ramos”, por suas declarações de amor ao balneário, que frequentava desde criança, hábito muito comum para os moradores da Baixada Fluminense meio século atrás. Dicró contava que costumava ir a pé do bairro da Chatuba (lá dentro de Mesquita) até a Praia de Ramos, por falta de dinheiro da passagem.

Quando estourou o sucesso “Praia de Ramos”, no início da década de 1980, esta já era considerada a praia mais poluída da cidade por conta do adensamento populacional em seu entorno e da falta de políticas públicas adequadas. A divertida letra falava da confusão que a sogra aprontou na praia, matando o genro de vergonha. Tem henê, negão salva-vidas que perde o calção, nega de maiô samba-canção, sogra se afogando, filho jogando siri no calção do pai, caminhão alugado para ir com a família a Ramos, frases de duplo sentido, todos os ingredientes de sucesso da escrachada crônica de costumes populares.

As músicas de Dicró embalavam as horas de lazer do pessoal do subúrbio. No churrasco, nas festas de final de semana, no futebol, em casa, no pagode no fundo do quintal ou bem alto na vitrola da sala, suas músicas e piadas inteligentes e de fácil identificação, tinham como maior inspiração a sogra, mas também falavam de outros tipos muito populares, como o cunhado intrometido, a loira, a nega, o negão/crioulo, o gurufim (velório e enterro com música), o “Ricardão”, o “rapaz que fala macio”, a “sapatão”, o “macumbeiro”, a confusão que terminava na delegacia, num contexto em que o humor e a sociedade não eram tão politicamente corretos como hoje.

Naquela época também fazia muito sucesso a coluna humorística “Avesso da Vida”, escrita pelo jornalista policial Léo Montenegro no Jornal O Dia, com os mesmos ingredientes do humor popular de Dicró. Genival Lacerda, Manhoso e Bezerra da Silva foram outros artistas populares de sua época que estouraram com suas músicas bem humoradas e de forte apelo popular. Quem não se lembra dos “Três Malandros”, o encontro entre Dicró, Bezerra e Moreira da Silva nos anos 1990, numa paródia dos “Três Tenores” (Carreras, Domingo e Pavarotti)?

Os divertimentos populares, como o churrasco, o futebol e o bingo foram captados com muita irreverência nas músicas de Dicró, um vascaíno doente, que gravou o sucesso “O bom de bola”, em que se dizia o professor de Pelé, Beckenbauer e do “tal de Cruijff”. Na música, o supercraque Deu drible no Rivelino, “lençol” no Gérson e no Tostão, tabelou com Pelé e fez gol na Copa de 58, e ainda ganhou poços de petróleo e mais de um milhão na Arábia com o seu desempenho no futebol! O refrão é memorável:  “Joga Bola Mané/ Joga Bola Mané/ Vou lhe mostrar quem eu sou/Fui eu que ensinei a Pelé”.

Nos últimos 10 anos, era figura certa no Largo da Carioca, no Centro do Rio de Janeiro, onde vendia seus CDs e DVDs de forma alternativa, pertinho do povo. Em 2010 foi redescoberto pela Rede Globo e fez uma participação no programa Fantástico, mostrando num divertido quadro os contrastes entre os costumes do povo e as invenções luxuosas e extravagantes da vida moderna, como os navios de cruzeiro. No ano seguinte, foi ao Programa do Jô e disse que tinha 65 anos, mas pelado lhe davam 18 ou 19, fazendo todo o auditório gargalhar.

Tudo na vida é finito, mas as coisas boas bem que poderiam durar um pouco mais.  Falar de Dicró é falar de alegria e dar boas risadas com suas músicas e piadas que captavam com propriedade aspectos cotidianos da cultura popular.

Pra terminar em alto astral, com a melhor lembrança do artista de alma suburbana que animava as horas de folga de tanta gente, segue uma cena antológica que reuniu outros quatro craques do humor nos inesquecíveis videoclipes do programa Os Trapalhões:

Pois é…


Manual de sobrevivência na calçada: um guia prático para pedestres e ciclistas nas novas ciclovias da Zona Oeste do Rio de Janeiro

15/01/2012

Por Valeria Guimarães

As novas ciclovias, que começaram a ser construídas no segundo semestre do ano passado, são resultado do plano estratégico da Prefeitura chamado “Rio, capital da bicicleta”, com o objetivo de “incentivar o uso da bicicleta como modal de transporte e ampliar a infra-estrutura existente”. De acordo com a Prefeitura, o Rio já é a cidade com o maior número de ciclovias do país. 

 É claro também que essas ciclovias estão diretamente relacionadas à construção da “marca” Rio de Janeiro, caracterizada por profundas intervenções urbanísticas e pela redefinição dos modelos de gestão urbana, tão debatidos neste blog. Esses projetos em grande parte se inspiram no projeto de revitalização da cidade de Bogotá. Uma das metas do prefeito Eduardo Paes até o final de 2012 é dotar a cidade de uma malha de 300 km de ciclovias, superando a capital colombiana e garantindo assim o título de cidade da América Latina com o maior número de ciclovias.

Até aí não haveria nada demais (não vou entrar no mérito da execução das obras, qualidade dos materiais utilizados, licitações). Mas quando as ciclovias são projetadas e implantadas – eu diria até improvisadas – pelo poder público em cima da calçada, em bairros onde é intenso o fluxo de pedestres e de ciclistas, o melhor é tomar alguns cuidados básicos para evitar situações que vem se repetindo cotidianamente.

Vou me deter apenas à rota inaugurada em 2011 que liga os bairros da Praça Seca e Vila Valqueire. A intenção é evitar que mais algum leitor que precisar circular pela área venha a sofrer com os desagradáveis problemas trazidos pelas ciclovias projetadas sobre a calçada e, obviamente, para levantar uma discussão sobre o custo social de uma gestão urbana que nos impõe projetos modernizadores que não levam em conta o bem-estar da população nem as particularidades de cada canto dessa imensa cidade.

Para desfrutar e sobreviver às novas ciclovias sobre as calçadas, procurando manter a segurança e as relações de civilidade entre moradores, comerciantes, ciclistas e pedestres nos trechos afetados, elaborei algumas dicas que podem ser bastante úteis, baseadas numa coleção de sustos a partir da minha  “observação participante”:

Dicas para quem for pegar um ônibus nas calçadas equipadas com ciclovias:

1. Ao pegar o ônibus, não corra, muito menos em ziguezague. Nunca se sabe se atrás de você tem uma bicicleta.

2. Ao descer do ônibus, certifique-se de que o veículo esteja totalmente parado e escolha bem aonde você vai por os pés: pode ser na ciclovia (o ponto de ônibus fica dentro da “faixa compartilhada”) ou numa das temidas barras de ferro dispostas ao longo de sua extensão e, inclusive, no próprio ponto de ônibus.

 

3. Em dias de muito sol, vento ou chuva forte, o melhor mesmo é ficar exposto às intempéries enquanto aguarda a sua condução. Não use guarda-chuva como alternativa ao abrigo que lhe foi retirado. Isso dificultará a sua visão das bicicletas.

 Para os pedestres que ainda insistem em usar o que sobrou das calçadas, o melhor é seguir alguns conselhos básicos:

1. Use um retrovisor para andar na calçada e cuidado máximo nos trechos compartilhados.

Se possível, tente se manter fora da ciclovia, mesmo nos trechos de grande estreitamento da calçada.

2. Se você tem criança na faixa de 2 a 4 anos, oriente-a a não andar olhando para os lados. Um galo na cabeça pode esperar por ela, já que as barras de ferro estão logo ali na sua direção.

 3. Carrinhos de bebês tornam-se potencialmente perigosos na calçada-ciclovia. No estreitamento da calçada, você pode, sem querer, ir parar na ciclovia (ver foto abaixo).

 4. Não faça como o rapaz que vinha lendo seu texto universitário em apagada fotocópia, forçando a leitura bem próximo ao rosto: as barras de ferro não costumam ser benevolentes com quem anda distraído. Além da dor física, você ainda terá que encarar os risinhos disfarçados… Mas sempre aparece alguém solidário nessa hora, contando histórias de outros acidentes semelhantes naquela ciclovia-calçada.

5.Ao sair de casa, da padaria, da creche com seu filho pequeno, do comércio local em geral, para pisar na calçada, pare, olhe e escute. E segure muito bem a mão de sua criança. É mínima a distância entre a porta de muitos estabelecimentos e a ciclovia.

6. Criançada de férias: ao correr atrás da pipa voada, não se esqueça que na calçada agora, oficialmente, também tem trânsito de veículos e um monte de barras de ferro para machucar vocês.

 7. Alunos dessa escola: a alternativa mais segura de acesso é utilizar velocípedes ou bicicletas na extinta calçada. 

Se você é morador e a ciclovia passa rente ao seu portão, fique atento a essas recomendações:

1. A dica principal é fazer um seguro de acidentes pessoais. Ao abrir o portão de sua casa, pense bastante se vale a pena por os pés na calçada.

 2. Seria mais prudente se você instalasse alarmes sonoros tanto no seu portão de garagem quanto no portão menor.

 

3. Se você tem carro, cuidado com as barras de ferro (instaladas na maior parte do percurso) ao sair e entrar na sua garagem. O prejuízo será todo seu.

 Motoristas e motociclistas:

 Já está muito complicado, mas se alguns de vocês continuarem utilizando a calçada-ciclovia como “via expressa” para driblar os engarrafamentos, qual será o futuro dos pedestres e ciclistas?

 Para os ciclistas, redobrar o cuidado é mais do que necessário:

1. Não corra na calçada-ciclovia: ao menor sinal de pedestre, obstáculos e todo tipo de surpresas que aparecem na sua frente, você não terá tempo de frear e a tendência é ziguezaguear e se chocar contra as barras de ferro, o poste ou sabe0se lá o quê.

 2. Esteja atento a tudo no seu caminho: desde pessoas e animais trafegando na ciclovia até as surpresas mais inusitadas, como este bueiro sem tampa e as estacas de advertência, alertando para a falta de manutenção na pista…

  

… e este hidrante (!), preservado no “projeto” que improvisou a ciclovia na calçada.

A ciclovia é sua. Use-a e desfrute-a com prazer e muita atenção. Ah, sim:  não se esqueça que a calçada, de direito, (também) pertence ao pedestre.

Que a mobilidade é um dos mais importantes temas contemporâneos e um imperativo para a sobrevivência das grandes cidades, ninguém tem dúvida. Que a bicicleta é um equipamento fantástico de locomoção, lazer, promoção de uma vida saudável (se utilizada sem exageros) e “ecologicamente correto”, também parece ser consensual.  Adequar as cidades para uma melhor mobilidade com a construção de ciclovias deveria, em tese, ser um dos maiores acertos nas políticas públicas de planejamento urbano. Mas, seria esse exemplo uma adequação para a mobilidade?

Antes de finalizar, registro aqui dois sustos que passei para escrever este post: ao percorrer o que sobrou da calçada bem rente a um portão de garagem, quase fui atropelada por um motorista que simplesmente tinha a intenção de sair de sua residência, não de atropelar uma pedestre numa microfatia do que sobrou de sua calçada. No reflexo, fui parar involuntariamente na ciclovia e, adivinhem, um inocente ciclista vinha passando bem na hora. Foram só dois muitos sustos…

Boa sorte em 2012 e menos sustos a todos que transitam por essas mal traçadas calçadas-ciclovias, especialmente às crianças e bebês que ficaram sem calçada na porta da escola e da creche.

 


As antigas e as novas faces do Rio turístico

01/10/2011

Por Valéria Guimarães

O post desta semana é dedicado aos novos usos turísticos na cidade do Rio de Janeiro, que passa por transformações profundas para receber os balados jogos esportivos, criticadas de forma muito pertinente nos posts anteriores. Espera-se que um dos “legados” dos jogos na cidade remodelada seja fortalecer a sua imagem turística no exterior, tornando-se um importante destino internacionalmente competitivo. Embora seja a principal cidade do país procurada para o turismo de lazer, é inexpressiva a participação do Rio de Janeiro – e do Brasil – como destino turístico no cenário mundial. Isso se explica pelo mau aproveitamento do potencial turístico da cidade, mal planejada e mal gestada ao longo de toda a história do seu desenvolvimento turístico.

Os novos empreendimentos públicos associados ao capital privado para o setor turístico, embalados pelo reposicionamento e projeção da “marca Rio de Janeiro” na vitrine mundial, concentram-se na exploração do mix de cultura e lazer como produtos, transformando em espetáculo pago as novas opções de turismo e lazer projetadas para a cidade, especialmente aquelas intervenções burguesas, de elevadíssimo custo social, concentradas na área portuária ou na “nova” Lapa.

Como bem analisa Victor Melo , a cidade vivenciou na primeira metade do século XX uma experiência moderna de construção identitária que consagra o uso de espaços públicos, especialmente da praia, como lugar do sujeito carioca. Ficariam para trás os valores sociais e estéticos que elegiam os tipos magros, pálidos e engravatados, para dar lugar aos signos que associavam juventude e modernidade carioca: corpos expostos, atléticos, modelados pela prática esportiva ao ar livre e dourados pelo sol.

As representações historicamente construídas sobre o paraíso tropical, terra de sol e de mar, de gente hospitaleira e mulheres exuberantes, associadas às novas sociabilidades que se manifestavam na urbe, especialmente nos novos usos da praia como espaço de lazer e de uma nova relação com o corpo a ser ali exibido, assumiram por muitas décadas um lugar central no discurso turístico sobre o Rio de Janeiro.

A idéia de uma “vocação natural” do Rio de Janeiro para a prática de um turismo de sol, de mar, de apreciação da floresta urbana, do samba e da mulher bonita de biquíni mínimo foi plenamente incorporada no discurso oficial, nas políticas públicas e privadas para o turismo, e divulgada na folheteria turística, nos guias impressos, nos cartões postais, nos souvenires e nas atrações culturais voltadas para os turistas – particularmente os shows de mulatas.

Os cartões postais de mulheres de biquíni, os preferidos dos turistas internacionais, estão proibidos por uma polêmica lei desde 2005, sob o argumento de vinculação da imagem da mulher e da cidade a um paraíso do turismo sexual. Fonte: http://colees-e.blogspot.com/2009/06/sera-que-e-de-proibir.html

A esse repertório, que compunha a maior parte dos roteiros comercializados pelas agências de turismo, sugeridos pelos guias e espalhados pelo “boca a boca”, somaram-se o futebol e a bossa nova como elementos representativos da cultura de uma cidade para turista ver, coração e síntese da cultura do Brasil. Essa imagem turística do Rio de Janeiro (e por que não dizer do país?), que ganha força na segunda metade do século passado, sem dúvida, amplificada pelo cinema de Hollywood, que construiu e reforçou estereótipos e acentuou no olhar estrangeiro o quanto éramos “sensuais”, “exóticos” e “pitorescos”, imagem esta reproduzida pelo próprio discurso turístico nacional.

O turismo no Rio de Janeiro hoje vem sendo ressignificado não só pelos novos investimentos feitos a pretexto da realização dos megaeventos esportivos e seu “legado”, mas também por uma nova visão de mundo da sociedade a partir das demandas sociais por inclusão das minorias étnicas e culturais e ampliação de seus direitos civis, como o direito à propriedade da terra, por exemplo. Até então invisíveis ao turismo, os bens culturais produzidos por esses grupos socialmente excluídos passam a ser objeto de interesse turístico, alargando consideravalmente o repertório turístico da cidade.

Tamanha é a importância do turismo em favelas na cidade do Rio de Janeiro que o mercado turístico já o reconhece como um “nicho”; outras formas de viver relacionadas à presença histórica de grupos étnicos na cidade – e no estado – também passaram a ser objeto de interesse dos turistas. Você já ouviu falar em “turismo étnico”? É possível hoje hospedar-se em aldeias indígenas de Niterói ou de Angra do Reis, por exemplo. Na cidade, o Mercadão de Madureira, a “Pequena África no Rio de Janeiro”, localizada na região portuária, particularmente o Quilombo da Pedra do Sal, escolas de samba, centros de candomblé e festas religiosas negras passaram a integrar o roteiro de muitos turistas negros, especialmente provenientes dos Estados Unidos, à procura de uma origem comum (“afro-americana”) por eles imaginada. Os novos gringos na cidade já não são identificados apenas pela pele clara e pelos olhos azuis ou pelas coloridas roupas florais.

Fachada de uma das loja de tecidos e roupas de santo do Mercadão de Madureira. A concentração e o movimento nas lojas de artigos para a prática de religiões de matriz africana viraram atrativo turístico. Foto de João Xavi. Fonte: http://www.overmundo.com.br/guia/mercadao-de-madureira

 E quando o turista é o próprio morador, a descobrir a sua cidade? Quem anda pelas ruas do Centro do Rio já deve ter reparado um aumento significativo no número de pessoas que em pleno frenesi dos dias úteis, onde quase somos atropelados se voltarmos para olhar uma banca de jornal, por exemplo, procura apreciar as belezas e os detalhes que os mais apressados nunca tem tempo de notar. Nas redes sociais, grupos de aficcionados pela cidade se organizam para passeios a pé, inventando novos roteiros que fogem aos ícones Pão de Açúcar–Floresta da Tijuca–Praia de Copacabana–Cristo Redentor e gastam muito pouco ou nenhum dinheiro, dependendo do roteiro, se for operado por pequenos empreendedores ou oferecidos de graça.

 

Visitas noturnas ao centro do Rio, promovidas gratuitamente, por iniciativa do Projeto Roteiros Geográficos do Rio (IGEO/UERJ): uma forma original de apreciação estética do Rio de Janeiro e de ocupação da cidade como alternativa à violência. Fonte: youtube=http://www.youtube.com/watch?v=vuyWRIvSmCc

De dia ou de noite, da Pedra do Sal, aqui já citada, ao “território da Daspu” , tudo atrai a atenção dos curiosos, a maioria moradores da cidade, que raramente tem a oportunidade de apreciar um espaço onde nos acostumamos a percorrer marchando ou, literalmente, correndo. E cruzar as fronteiras simbólicas da cidade? Quantos moradores começam, embevecidos, a despertar para o interesse de atravessar o túnel, embarcar num trem em direção ao subúrbio, comer uma feijoada numa quadra de escola de samba, participar de eventos, conhecer territórios simbolicamente impenetráveis?

Vídeo Samba na Pedra, de David Obadia, registra um dia de festa na Pedra do Sal. Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=FdKMROSWkGM

O mochileiro, aquele “turista alternativo”, que se hospeda em hostels (os antigos albergues agora com nomes moderninhos) ou na casa de pessoas comuns, no estilo “cama e café”, que vem fazendo bastante sucesso por aqui, há muito tempo aprendeu – talvez até primeiro que muitos de nós – a descobrir e curtir lugares invisíveis à ótica do turismo tradicional. Para muitos deles, mais vale a experiência no contato com os nativos do que a quantidade de atrativos/clichês turísticos criados para serem consumidos pelos turistas.

Enquanto o poder público e o empresariado se unem nas parcerias público-privadas para formatar produtos turísticos com cara globalizada, desenvolvidos para um perfil de consumidor com poder aquisitivo elevado e onde muito poucos ganham muito, a cidade turística mais importante do país, que pleiteia junto à UNESCO o título de Paisagem Cultural da Humanidade , ainda bem, continua oferecendo opções de turismo e lazer alternativos que atraem moradores e turistas interessados em conhecer as outras faces de um Rio que, apesar dos pesares (vide o abandono de nossos bens culturais, como o triste caso dos bondes de Santa Teresa), insistem em sobreviver.


Esporte dá samba

06/03/2011

Por Valéria Guimarães

Estimados leitores, a minha estréia neste blog não poderia ter sido em ocasião melhor: é carnaval, é verão, a cidade está cheia de turistas (falarei deles em outros posts), chegamos ao final da Taça Guanabara bem do jeito que boa parte dos cariocas queria, e estamos na Semana em que são comemoradas as conquistas da mulher em nossa sociedade, dentro e fora de casa. Nesse clima, começo meu primeiro post agradecendo o presentão de escrever na semana mais animada do ano. Convoco toda a mulherada e os marmanjos – que se vestem de mulher ou não no carnaval – para cair na folia literária e, como não poderia deixar de ser, falar da mistura de duas das paixões nacionais: esporte e carnaval.

Eles tem muito em comum: envolvem diversão, paixão, competitividade, são extremamente populares e irresistíveis. Nasceram um para o outro e, em muitos casos, um do outro. Bem antes das escolas de samba, os clubes recreativos e desportivos já se relacionavam com o carnaval, promovendo requintados bailes de salão. “Vert, Blanc & Rouge”, “Baile do Almirante”, “Baile do Diabo” e “Baile do Vermelho e Preto” são instituições tradicionais do carnaval carioca, conhecidas internacionalmente. Os tempos mudaram, os bailes foram se popularizando, ganharam versões infantis e continuam sendo promovidos pelas agremiações esportivas.

A cara do futebol e do carnaval: craque com a bola e com o samba no pé, o bamba Ronaldinho Gaúcho, que desfila por três escolas de samba e põe o seu próprio bloco na rua (“Samba, amor e Paixão”), é coroado o rei do Baile do Vermelho e Preto 2011.

O Independente FC, time amador da Zona Oeste, deu origem à Mocidade Independente de Padre Miguel, em 1955, e a Mangueira adotou o verde e o rosa (versão do grená ao alcance do tricolor Agenor de Oliveira, o Cartola), em homenagem ao clube das Laranjeiras. O GRES Nação Rubro-Negra, mal teve tempo de fazer o urubu voar também na avenida e encerrou suas atividades após o fiasco da estréia no grupo D, em 1997, quando foi rebaixada pelo seu 11º lugar no certame. As escolas surgidas de clubes de futebol são uma tendência bastante atual no carnaval paulistano, que conta com a Gaviões da Fiel (Corinthians), a Mancha Verde (Palmeiras), a Dragões da Real (São Paulo), a Camisa 12 (Corinthians), a Torcida Jovem (Santos) e a TUP (Palmeiras), todas bastante jovens e batizadas com os mesmos nomes das respectivas torcidas organizadas. Falou-se até, em 2006, na criação de um campeonato à parte, com a formação de um “Grupo Especial das Escolas de Samba Desportivas”, o que não foi adiante. A agressividade de alguns membros de torcidas organizadas paulistanas foi reproduzida também na avenida e chegou-se a cogitar o banimento definitivo das agora agremiações carnavalescas desportivas. Talvez a incidência de tantas escolas de samba desportivas explique a predileção dos “manos” pelos enredos ligados ao esporte, tema que está em evidência também entre as escolas não desportivas, como a Vai-Vai, que em 2010 festejou os seus 80 anos com o enredo “80 anos das Copas do Mundo”.

Dos estádios para o Anhembi, a Gaviões da Fiel é um dos mais expressivos traços de união entre a bola e o samba.

Nos enredos das escolas de samba que desfilam no carnaval carioca, habilmente manejado pelo marketing como “o maior espetáculo da Terra”, e que já era chamado de “Oitava Maravilha do Mundo” em pleno ano de 1934, conforme atestam os jornais da época, curiosamente, o esporte não é tão popular. Vasculhando os alfarrábios do carnaval, encontramos poucas referências ao esporte como tema principal das escolas de samba cariocas. Na maior parte dos casos, o futebol é citado como um dos elementos importantes da cultura carioca, com as tradicionais alas onde os componentes se vestem com a camisa estilizada dos clubes ou da seleção brasileira, de bandeira em punho. Como não poderia deixar de ser, é o futebol a modalidade esportiva mais representada no carnaval, mas não a mais bem sucedida. O melhor resultado do esporte nas passarelas – e aqui não interessam a hierarquia e a estrutura dos diferentes grupos – foi obtido com o primeiro lugar de “Bernard do vôlei, uma jornada de sucesso”, da Unidos de Lucas, em 2003, então no Grupo C. No rastro da ECO 92, “Pepê, esporte, ecologia e carnaval”, da Mocidade Unida de Jacarepaguá, conquistou o terceiro lugar e o direito de acesso ao Grupo 1 no ano seguinte; e a Balanço de Lucas, em 1993, saiu do Grupo de Acesso (o último) com o pé quente “Bebeto, a emoção do gol”, que lhe rendeu o quarto lugar e o direito de desfilar no Grupo 3 naquele que seria o ano da Copa e do tetracampeonato do Brasil.

Para o leitor não se perder: a organização do carnaval guarda semelhanças com a organização do futebol e regulamentos e nomes dos grupos são revistos com freqüência, ora sendo representados por letras, ora por números e ora por letras e números, assim como o Grupo de Acesso deixou de ser o último e agora é aquele imediatamente após o Grupo Especial, que, por sua vez, já foi Grupo 1 e Grupo 1-A. Ah, sim, antes que alguém me repreenda: o inesquecível “O Mundo é uma bola”, da Beija-Flor de Nilópolis, que contou a história da Copa do Mundo no ano do mundial do México (1986), consagrou o futebol como enredo carnavalesco e fez os deuses chorarem de emoção resultando numa enxurrada na hora do desfile. Ninguém entendeu o segundo lugar da escola… A Unidos de Lucas, no mesmo ano, também escolheu falar do maior evento esportivo do mundo e ficou em 7º lugar no Grupo 1-B, com o enredo “No ano da Copa, bota no meio”.

A história dos enredos das escolas de samba está diretamente ligada à história oficial, encarregada de perpetuar e mitificar a memória de heróis e instituições que configuraram a nacionalidade brasileira, habilmente manejada na escrita dos livros didáticos da rede escolar e no conteúdo exibido nos cinemas (àquela altura muito populares) através dos cinejornais, principalmente durante os regimes ditatoriais de Vargas e dos militares. Essas foram por muito tempo as principais fontes de informação dos autores dos enredos e dos compositores. A fórmula variava pouco: heróis nacionais, militares ou civis, “gênios” das artes brasileiras, destacados cientistas, governantes da nação e a própria “brasilidade” eram os temas recorrentes. A partir da década de 50, o negro cada vez mais vai se tornando o tema preferido dos enredos, ainda ao lado dos vultos e efemérides oficiais afinados à propaganda oficial.

Os primeiros enredos que traziam o esporte como tema principal foram levados para a avenida na década de 1970. Seria lógico pensarmos que o uso político do futebol pela ditadura militar, a conquista do tricampeonato mundial em 1970 e o alinhamento de muitas escolas de samba ao regime produziriam enredos referentes ao desenvolvimento do Brasil, embalado pela seleção canarinho. Em vez disso, a estréia dos esportes como enredos na avenida acontece em 1974, quando a Paraíso do Tuiuti contou a história das “Olimpíadas, festa de um povo”, no Grupo 2, ficando em 12º lugar no certame. A Arrastão de Cascadura, por sua vez, foi pioneira na homenagem a um clube de futebol, no mesmo ano. Com o enredo “Flamengo, glória de um povo”, obteve a 8ª colocação no Grupo 3.

O Flamengo ainda seria enredo em 1990, pela Difícil é o Nome, que levou para a avenida “Tua glória é lutar, Flamengo, Flamengo”, ficando em terceiro lugar no Grupo 3. Em 1995, ano do centenário do clube, “o mais querido do Brasil” desfilou no Sambódromo junto com a Estácio de Sá, que obteve a decepcionante sétima colocação com “Uma vez Flamengo”, alvo de chacota das torcidas adversárias que, mal sabiam, mais tarde também veriam chegar a sua vez com o rebaixamento da Unidos da Tijuca, em 1998, que obteve o penúltimo lugar no Grupo Especial (12º) com o enredo “De Gama a Vasco, a epopéia da Tijuca”, e o interminável “Nas asas da realização, entre glórias e tradições, a Rocinha faz a festa dos 100 anos de um clube campeão… Sou tricolor de coração” não passou do 10º lugar do grupo A, em 2003. O América, por sua vez, foi homenageado pela Unidos da Ponte, em 2004, no então grupo B, que ficou em quinto lugar com o “Hei de torcer, torcer, torcer… América 100 anos de paixão”. Os alvinegros, por pouco, não festejaram o acesso da Unidos de Vila Isabel ao Grupo Especial em 2002: “O Glorioso Nilton Santos… sua bola, sua vida, nossa Vila” perdeu o campeonato do Grupo A por um décimo. Bateu na trave…

Outras personalidades do esporte homenageadas na passarela do samba foram: Pelé, inúmeras vezes citado no carnaval carioca e tema principal de enredos das escolas paulistanas; Ronaldo, Fenômeno, além de estrela do camarote da Brahma há vários carnavais, queimou calorias em 2010 no desfile da Gaviões da Fiel em homenagem ao centenário do clube (quinto lugar na classificação final), ao lado de vários colegas de elenco e ex-jogadores do clube. Em 2003, deu bolo na Tradição, quando foi ele próprio o enredo, com “Brasil é penta: R é 9, o fenômeno iluminado”, por não ter sido liberado pelo Real Madrid (a escola por pouco escapou do rebaixamento, ficando em 13º lugar). Ayrton Senna, numa homenagem póstuma da Tradição, foi cantado em 1995: quem não se lembra do “Acelera aí, que eu quero ver, na Fórmula 1, o lema é vencer”? O enredo falava da velocidade sobre rodas, que também foi levado para a avenida pela Gaviões da Fiel em 2009, lembrando mais uma vez de Senna no carnaval; e Rildo Menezes, lateral do Botafogo, do Santos e da seleção brasileira nos tempos de Pelé, foi homenageado no Grupo E pela Unidos do Uraiti, em 2005.

O Fenômeno em dois tempos no carnaval: no início da carreira, desfilando misturado aos passistas numa ala da Beija-Flor...

... e na Gaviões da Fiel, em 2010, quando foi considerado “a cereja do bolo do desfile”.

O fanático tricolor Nelson Rodrigues, com o seu Sobrenatural de Almeida, o Maracanã, o radialismo esportivo, o engajamento nas campanhas pelo direito do Rio de Janeiro sediar os megaeventos esportivos (Rio 2004, Pan 2007 e Rio 2016) e até o surfe e o vôlei de alto nível como referências de Saquarema também foram carnavalizados.

As músicas das escolas de samba e as dos estádios de futebol transitam pelos dois universos. Exemplos de arrepiar são os “ecumênicos” “Peguei um Ita no Norte” (“Explode coração/ na maior felicidade/ é lindo o meu Mengão/ Vascão/ Fluzão/ Fogão/ contagiando e sacudindo essa cidade”), que o Salgueiro nos presenteou em 1993, e “O Campeão”, na voz consagrada de Neguinho da Beija-Flor, no “esquenta” da escola e no coro das torcidas (“Domingo/eu vou ao Maracanã…”), além é claro, das eternas marchinhas carnavalescas, animadas pelas charangas desde a década de 1940, onde a torcida adversária costuma ser o alvo em muitas paródias: “Se a canoa não virar, olê olê, olá…”, “Mamãe eu quero…”, “Mulata bossa nova…” e por aí vai.

Como é de bom tom, em blogs se escreve pouco, mas o meu bom leitor folião, amante de esportes e de carnaval, que teve paciência e chegou ao final do texto em pleno período momesco, certamente me perdoará pelos excessos de empolgação na estréia. Como carnaval é transgressão, me permitam o exagero. E olha que ficou faltando falar da transformação do carnaval e do futebol em negócios, deixando de serem vistos como objetos de alienação das massas, da preparação física dos corpos para o carnaval, fazendo dos destaques verdadeiros atletas, dos projetos esportivos das escolas de samba, das comemorações dos gols com “sambadinhas” que contagiaram até Rubens Barrichello nos pódios da Fórmula 1, das celebridades do esporte que freqüentam os camarotes, os ensaios técnicos, as quadras ou desfilam nas escolas e nos blocos carnavalescos (prato cheio para Júnior, Zico, Roberto, Romário, Edmundo, Pet, Maradona, Robinho, Adriano, Ronaldinho Gaúcho, Diego e Daniele Hipólito, Daiane dos Santos, Guga e tantos outros), e, finalmente não foi possível falar sobre quem do esporte diz no pé na avenida e quem é perna de pau no samba, nem das fantasias de carnaval e das máscaras inspiradas nos atletas…  com quantos Ronaldinhos Gaúchos você vai se esbarrar por aí?

 Boa folia!