Australianos e sul-africanos metem o pé na porta do surfe no Havaí (1974-1977)

01/06/2014

Por Rafael Fortes

Bustin´ Down The Door (As Lendas do Surf) narra/constrói a história de como um punhado de surfistas australianos e sul-africanos transformou a modalidade durante a segunda metade dos anos 1970. Até então, havia dois parâmetros para o ato de surfar:

Entre os havianos, cabia ao surfista seguir a onda, unir-se a ela. Na Califórnia, o objetivo era embelezar a onda, aparentando um certo desdém e realizando poucas manobras: ‘esforçar-se muito na onda era um sinal de indignidade’ (Fisher, 2005, p. 18). Os australianos (e os sul-africanos) pegaram o estilo californiano e desenvolveram cada vez mais a agressividade. Na Austrália, particularmente, o objetivo era dominar, despedaçar, destruir a onda (Booth, 2001, p. 100-1). A existência de visões distintas foi um dos problemas impostos aos que queriam desenvolver o surfe competitivo: ‘competições organizadas requeriam regras formais, mas a codificação não era uma questão fácil, pois os estilos de surfe refletiam variações regionais’ (Booth, 2001, p. 100). A construção de parâmetros unificados de avaliação das manobras nas competições internacionais se deu em meio a conflitos, mas a vertente australiana acabou se impondo. Nos dias atuais, a predominância do padrão agressivo leva à realização constante de manobras impensáveis, raríssimas ou impossíveis de completar nos anos 1980, como as muitas variedades de aéreo. Como ressalta Booth, a evolução se deve a fatores técnicos (como número de quilhas, peso, formato e material das pranchas), esportivos e culturais.

É destes australianos e sul-africanos que o documentário trata.

Pôster do filme (extraído daqui).

Pôster do filme (extraído daqui).

Introdução

Como recurso narrativo, embora enfoque o período 1974-1977, a trama começa e termina no presente. O início mostra campeões do final dos anos 1970 recebendo troféus na festa de fim de ano da ASP (Associação dos Surfistas Profissionais) na Austrália em 2007. E finaliza com diversos entrevistados – tanto os premiados quanto outros, de gerações posteriores – confirmando a relevância do papel desempenhado pelos primeiros para o surfe chegar ao estágio atual.

E o que fizeram esses agentes – além de serem os primeiros vencedores do circuito mundial de surfe – para merecer tal honraria? “Criamos um esporte, uma cultura e uma indústria”, afirma um deles. Foram fundamentais na criação do surfe profissional, porque queriam ser surfistas profissionais.

Narrado por Edward Norton, o filme fala basicamente de Pete Townend (Austrália), Shaun Tomson (África do Sul), Mark Richards (Austrália) e Wayne “Rabbit” Bartholomew (Austrália), que foram os quatro primeiros campeões mundiais de surfe, e de Michael Tomson (África do Sul) e Ian Cairns (Austrália). O documentário considera-os figuras fundamentais nas notáveis mudanças observadas na modalidade naquele período. Boa parte do tempo é preenchido com depoimentos dos seis.

O primeiro inverno havaiano (1974-1975)

Sendo surfistas de destaque em seus países, os seis sonhavam com o Havaí. Nas palavras de Rabbit: “Fizemos o Havaí. Conquistamos o lugar.” Tal postura, de acordo com eles, não significava desrespeito pelos locais. No início do filme, um dos depoentes se refere a Reno Abellira e outros que entravam na água em dias casca-grossa do North Shore como “deuses”.

Shaun Tomson afirma que, no primeiro verão “de verdade” no Havaí, seu objetivo era mostrar-se o melhor, porque era contestado em Durban, sua cidade natal. Praticantes de outros continentes viajavam para as ilhas porque, a partir de 1965, elas sediavam campeonatos. De 1970 em diante, ocorria algo inédito: o pagamento de prêmios em dinheiro para os vencedores.

Foram distribuídos 24 convites para participar dos campeonatos daquela temporada, sendo 22 para havaianos, o que Wayne Bartholomew considera “justo”. Afinal, surfar no North Shore era uma atividade para havaianos. Cabia aos cidadãos das demais nações do mundo mandar cartas pedindo para serem convidados para os campeonatos. Três dos protagonistas foram suplentes do Smirnoff Pro e disputaram uma vaga para a competição.

Naquele ano, os havaianos foram hospitaleiros com os visitantes.

A temporada 1975-1976

É o ponto de virada do surfe em direção ao profissionalismo.

As pranchas eram monoquilhas, mas Shaun Tomson inovou na forma de pegar tubos. Novas pranchas permitiram manobras e performances antes impossíveis, como surfar Pipeline de backside.

Tem início um “novo estilo” que valoriza a adrenalina. “Queríamos ser os mais agressivos, os mais radicais, fazer novas manobras”, diz um depoente. Os haoles inovam ao surfar Off The Wall e afirmam que criaram aquele pico. Fotógrafos passam a acompanhá-los com avidez de uma praia a outra.

“Quebrando a tradição”, aussies e sul-africanos ganham todas as competições do inverno havaiano de 1975. Os membros da nova geração se tornam ídolos da molecada e ocupam as capas de revista e os filmes. Ciosos do que desejavam – viver do esporte -, fizeram marketing e promoveram a si mesmos e ao surfe.

Passada a temporada, Rabbit escreve um artigo (Bustin´ down the door) no qual afirma que ele e os demais não ficariam mais esperando favores para entrar pela porta dos fundos nos campeonatos: haviam arrombado a porta.

Os havaianos ficaram enfurecidos. No inverno seguinte vieram as consequências.

A temporada 1976-1977

Uma delas foi a criação dos black trunks (ou Da Hui), um grupo de locais do North Shore. Entre eles, Eddie Rothman, cujo depoimento no filme é uma pérola, repleto de episódios dos quais não se lembra, sempre rindo. Chegaram a ser presos e ganharam fama pelo localismo casca-grossa.

Além do texto de Rabbit, outros textos publicados em revistas de surfe – como um que criticava a formação do Da Hui – irritaram os havaianos.

Os membros do clube meteram a porrada em Rabbit na primeira ocasião em que o australiano surfou em Sunset naquele ano. Na sequência, ameaçaram queimar a casa em que estava hospedado. O haole fugiu para o meio do mato e depois se escondeu com Ian Cairns num hotel, do qual não podiam sair.

Ambos receberam escolta policial para comparecer ao Pipe Masters (até hoje o importante campeonato de surfe mais importante do mundo). Os protagonistas relatam ter apanhado muito, e mais de uma vez. Um comprou uma escopeta. Outro comprou uma arma e um taco de beisebol.

Em dado momento, ainda isolados no hotel, recebem a visita de Eddie Aikau, lendário surfista e salva-vidas. Eddie os conduz a um julgamento, em que atua como mediador. Mark Richards, um dos protagonistas, é usado no julgamento como o bom australiano, em oposição a Cairns e Bartholomew. No salão de conferências de um famoso resort de Oahu, 150 pessoas participaram do julgamento de dois estrangeiros – com veredito e tudo.

De acordo com os depoimentos, os problemas extrapolavam o universo das praias: havia um clima de violência em Oahu, em meio a intenso consumo e tráfico de drogas. Muitos havaianos tinham a sensação de que haviam perdido tudo para os estrangeiros e ocupantes – a começar pelos EUA. Só lhes sobrara o surfe, e agora haoles estavam querendo tomá-lo. No universo do surfe, houve ameaças de morte até para os jornalistas que escrevessem sobre as brigas, grupos e ameaças.

Outros conflitos

Embora o documentário trate o ocorrido com os australianos e sul-africanos como sui generis, há ao menos duas experiências similares, respectivamente com californianos e brasileiros:

a) no “inverno de 1969-70, quando os havaianos atacaram os ‘surfistas hippies e cabeludos principalmente da Califórnia [sic] que traziam drogas e se sentiam os donos de tudo’.” (Reinaldo Andraus, “Arrepio: só nas ondas”, Fluir 20, mai 1987, p. 48)

b) no inverno de 1986-1987, foi a vez dos brasileiros. Um grupo teve a casa onde passava a temporada cercada e ameaçada de incêndio por havaianos. O sítio ao imóvel “repetiu-se algumas vezes e só foi suspenso com apelos à polícia e ao consulado brasileiro”. (Alberto A. Sodré, “Hawaii: um inverno quente nas ilhas”, Fluir 20, mai 1987, p. 44)

(Para os historiadores que se encantam com a leitura de fontes, fica a dica: estas duas reportagens são maravilhosas!)

Considerações finais

O filme termina com informações sobre a criação da IPS (International Professional Surfers), primeira entidade a organizar um circuito mundial de surfe. Executivos de multinacionais da indústria de surfwear afirmam que aqueles seis foram fundamentais para as empresas crescerem e se tornarem o que passaram a ser: com eles, havia ídolos para estampar os anúncios das marcas nas páginas das revistas e despertar a admiração dos jovens.

Bustin´ Down the Door traz depoimentos riquíssimos. (Fico imaginando o material bruto com o depoimento completo de cada entrevistado…) Também pode ser visto como uma produção audiovisual que cristaliza e reforça um mito fundador bastante presente na subcultura da modalidade (para uma reflexão sobre a relação entre mitos fundadores no surfe e pesquisa científica, ver Dias, 2011).

Para além do conteúdo – foco deste texto -, é um filme bonito, que mescla imagens produzidas para ele com gravações de arquivo. Há muitas imagens granuladas de grande beleza, tanto em cor quanto em P&B.

Informações técnicas

EUA, 2008, 96′

Direção: Jeremy Gosch

Um dos protagonistas, Shaun Tomson, filmou boa parte das imagens registradas no campeonato de 1974-5 em que Mark Richards tomou parte. Tomson é também o produtor executivo e um dos roteiristas.

O filme é “inspirado” por Wayne “Rabbit” Bartholomew.

Entre os depoentes estão lendas do surfe como Ben Aipa, Tom Carroll e Greg Noll.

Na trilha sonora: Leonardo Cohen, The Stooges e David Bowie, entre outros.

Para saber mais

– Sobre o esporte na Austrália, ler os textos de Jorge Knijnik;

– Sobre esporte e cinema, os de Luiz Carlos Sant´Ana;

BOOTH, Douglas. Australian Beach Cultures: The History of Sun, Sand and Surf. London: Frank Cass, 2001.

DIAS, Cleber. Vaca longa: repensando a historiografia brasileira do esporte a partir do surfe na Bahia. Recorde: Revista de História do Esporte, Rio de Janeiro, v. 4, n. 2, p. 1-11, dez. 2011.

FISHER, Kevin. Economies of Loss and Questions of Style in Contemporary Surf Subcultures. Junctures: The Journal for Thematic Dialogue, Dunedin, n. 4, p. 13-20, June 2005.

A primeira citação longa foi extraída de FORTES, Rafael. O surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri/Faperj, 2011, p. 194-5.

Em tempos de redes sociais, cabe registrar a dificuldade de encontrar dados no site atual da ASP (reformulado em 2014). Deve ser ótimo para ver na tela do celular, mas simplesmente sumiu com boa parte das informações antes disponíveis – e, pior, com os meios de encontrá-las! A extensa quantidade e qualidade de dados que havia sobre a entidade e o passado do surfe profissional foi trocada por uma historinha pobre e sem links.


O Rugby e o Haka

31/10/2011

por Maurício Drumond

Em minhas contribuições a esse blog, venho destacando como outros esportes que não o futebol também podem assumir o caráter de símbolos nacionais. No Brasil, o futebol ocupa um lugar tão importante em nossa cultura e nossa identidade nacional, que por vezes podemos não notar que essa característica não é inerente a esse jogo em particular, mas é uma característica historicamente construída que pode estar ligada aos mais variados esportes. Já abordei aqui o caso do críquete , do hóquei no gelo e até mesmo do chamado “International Rules Football” , um jogo híbrido entre o futebol gaélico e o futebol australiano, criado para estabelecer um confronto internacional entre esses dois esportes que, profundamente ligados à identidade nacional de seus países, não tinha possibilidades de confrontos internacionais que pudesses “colocar à prova” suas seleções. Nessas postagens, procuro demonstrar que o esporte, e não alguma modalidade em particular, é um importante mediador de identidades e um grande produtor de símbolos. O sucesso no esporte por muitas vezes ultrapassa as fronteiras desportivas e se torna a vitória de um povo, de uma nação,  ou de forma mais geral, nas palavras de Benedict Anderson, de uma comunidade imaginada.

Neste novo post decidi olhar para a Copa do Mundo de rugby, a competição esportiva mundial de maior audiência depois da Copa do Mundo de futebol e das Olimpíadas, realizada entre os dias 9 de setembro e 23 de outubro deste ano, na Nova Zelândia. Hesitei um pouco ao abordar o rugby neste blog, uma vez que a relação deste esporte com a questão de identificação nacional já foi abordada em diversos trabalhos, acadêmicos ou não, especialmente a partir do filme Invictus   (Clint Eastwood, 2009), que lida com a mesma competição em 1995  – como exemplo pode-se apontar as resenhas publicadas em Recorde: Revista de História do Esporte e na revista Esporte e Sociedade.

No entanto, o recente desfecho da maior competição de rugbi, com a equipe da Nova Zelândia consquistando o bicampeonato em casa, trouxe o esporte novamente à tona. Realizada de quatro em quatro anos, a Copa do Mundo de rugby é a maior competição internacional da modalidade – o rugby conta também com outras quatro competições internacionais, divididos entre os hemisférios norte e sul: a copa “Seis Nações” (Six Nations), entre Inglaterra, Escócia, País de Gales, Irlanda, França e Itália e a “Copa Heineken”, entre 24 equipes desses seis países, no hemisfério norte; a “Três Nações” (Tri Nations), entre Nova Zelândia, Austrália e África do Sul e o “Super 15” (Super Rugby), entre 15 equipes desses três países, no hemisfério sul.

A primeira edição da Copa do Mundo de rugby foi realizada em 1987, na Austrália e na Nova Zelândia. Na ocasião, os “All Blacks”, nome pelo qual é conhecida a seleção neozelandesa, conquistou o título em uma final contra a França. Nesta sétima edição da Copa do Mundo, a mesma final do torneio inaugural se repetiu, com a Nova Zelândia conquistando novamente o título, dessa vez com um placar mais apertado, 8-7 (contra os 29-9 de 1987). Com essa conquista, a Nova Zelândia se equiparou à Austrália e à África do Sul, com dois títulos cada, tendo a Inglaterra conquistado o troféu William Webb Ellis (nome do supostos criador do Rugby) uma vez, em 2003.

Troféu William Webb Ellis

A vitória no mundial de rugby trouxe os All Black mais uma vez para os olhares da mídia e, com eles, aparece seu maior ícone identitário, o haka. O haka é uma tradicional dança cerimonial maori (povo nativo da Nova Zelandia). Existem centenas de haka (a palavra não recebe o s no plural), sendo alguns executados com mulheres, por crianças, haka de guerra, com armas, sem armas, enfim, uma infinidade de variações e tipos, dependendo da situação. A divulgação do haka pela equipe de rugby neozelandesa levou à associação do mesmo com um tipo específico de haka, mas como se deu essa ligação?

Em 1889-1890, uma equipe de rugby neozelandesa (quase toda formada por jogadores maori), excursionando pela Grã Bretanha apresentou um haka antes de cada jogo, como demonstração da diversidade cultural que o então império britânico englobava. A princípio executariam a dança em vestimentas típicas maori, mas logo abandonaram esse pormenor. Em 1905 a seleção neozelandesa conhecida como “os originais” (a primeira a excursionar a Grã Bretanha como uma seleção oficial, recebendo o apelido de “All Blacks”) teria executado o haka “ka mate” em alguns jogos, incluindo a abertura contra a Escócia e contra a Irlanda. A partir de então, esse haka em particular se tornou um símbolo do rugby neozelandês e passou a ser executado não apenas pela seleção, mas também por equipes em jogos internacionais.

Apesar de sua aparência hostil e desafiadora, o haka “ka mate”, se traduzido, revela-se não tão assustador. Segundo contam as tradições, ele teria sido criado por um líder maori após ter escapado da morte, auxiliado por um líder de outra tribo. Uma tradução livre do haka (feita a partir da tradução para o inglês disponível no vídeo “Ka mate explained”) seria: “Vou morrer? Vou morrer? Vou viver? Vou viver? Esse homem cabeludo acima de mim me ajudará a ver a luz do sol novamente? Um passo fora do buraco, o segundo, o terceiro, o quarto. Eu vi o sol brilhar novamente.”

Em 2005 o haka “Kapo o Pango” foi criado especialmente para os All Blacks. Versando sobre os guerreiros de camisa negra e a pena prateada, o haka foi alvo de grande debate devido a seu gesto final, em que o polegar atravessa o pescoço, de modo muito similar ao sinal de degola. “Kapo o Pango” chegou a ser proibido pela International Rugby Board (IRB, a federação internacional do esporte) durante alguns meses. Mas a explicação oficial, de que o gesto teria um significado diferente junto à cultura maori, expressando a energização dos órgãos vitais e o sopro da vida, acabou prevalecendo e o gesto foi aprovado, sendo este haka utilizado em jogos especiais, como na final do campeonato mundial.

Apesar de estar profundamente ligado à equipe neozelandesa, em mais uma evidente tradição inventada ligada ao esporte, o haka não é exclusividade dos All Blacks. Outras equipes polinésias também executam um haka antes de seus jogos, chegando até a haver um duelo de haka em algumas ocasiões, como entre Nova Zelândia e Samoa, no vídeo abaixo.

O haka neozelandês é então uma figura fácil na publicidade, estrelando comerciais da adidas (patrocinadora dos All Blacks) ou mesmo com um flash mob para a divulgação de um canal de TV maori que transmitiria os jogos da copa do mundo.

Rugby, o jogo nacional neozelandês, tem assim uma ligação especial com as supostas raízes do país. O rugby seria visto como um jogo que desde cedo fora adotado pelos maori, uma vez que seria um palco preferencial para a demonstração de sua força, agilidade e destreza. Aí estaria a chave para se entender a superioridade neozelandesa no esporte. E o haka seria uma demonstração pública da ligação desta seleção com suas raízes locais, ao mesmo tempo em que levaria a cultura maori ao resto do mundo, se tornando embaixadores da mesma. E, é claro, é uma das principais demonstrações de identidade do país, sendo executado também em outros esportes, como o hóquei no gelo, sem ter, no entanto, o mesmo impacto.


LOUCO POR BOLA TEM EM TUDO QUE E’ LUGAR ou QUANDO AS CINZAS RENASCEM…

05/06/2011

By Jorge Knijnik

‘’Os australianos pensam que sabem tudo sobre esporte, e que eles, mais que ninguem, sao os mais fanaticos praticantes e torcedores do mundo. Nao sabem nada. Deviam ir ate’ a Argentina ou o Brasil para verem quem sao os verdadeiros loucos e fanaticos por esporte…’’. Esta frase me foi dita pelo meu querido amigo Michael Gard, australiano, professor de Educacao Fisica, dancarino e sociologo do esporte – quem, entre outras grandes qualidades, ja morou no Brasil (Floripa) e portanto sabe um pouco mais sobre a America do Sul do que o australiano medio.

Olha, eu nao sei quem e’ mais louco ou mais fanatico. Acho ate’ que as ‘loucuras’ e ‘fanatismos’ esportivos se expressam em formas tao diversas como o numero de esportes existentes mundo afora. E muitas destas ‘loucuras’ acabam criando tradicoes fantasticas que perduram seculos adentro.

Uma destas tradicoes malucas e’ uma serie de jogos de cricket chamada ‘The Ashes’ (literalmente, As Cinzas), que e’ disputada bienalmente entre as selecoes de cricket Australiana e a Inglesa. The Ashes e’ considerada uma das maiores rivalidades existentes no mundo do cricket. Ela e’ composta por uma serie de cinco jogos, os quais sao realizados uma vez na Inglaterra e na vez seguinte na Australia. Como cricket e’ um ‘esporte de verao’, claro que o espacamento entre os torneios chega a cerca de 30 meses, conforme o verao nos diferentes hemisferios.

Mas o interessante de tudo e’ entender como a loucura, digo, a tradicao comecou. Tudo data do seculo XIX, mais precisamente do ano de 1882. Naquele ano, pela primeira vez na historia, a equipe Australiana de cricket venceu a equipe Inglesa em pleno solo ingles…Ou eu deveria dizer que a equipe Inglesa foi derrotada pelos australianos em um dos mais tradicionais palcos do cricket internacional, conhecido como The Oval (atualmente batizado com o nome do patrocinador, The Kia Oval). Isso custou demais para aquela equipe. Ato continuo a derrota, o tambem tradicional jornal britanico The Sporting Times publicou um obituario ironico, decretando a ‘morte’ do cricket ingles. O jornal foi mais alem na ironia, falando que o corpo do cricket ingles seria cremado e suas cinzas (the ashes!) seriam levadas para a Australia. Dias depois, a imprensa inglesa ja desafiava o Cricket English team para, em sua proxima viagem a Australia, ir ate Melbourne  (cidade australiana sede do Melbourne Cricket Oval (MCG), o maior estadio de cricket no mundo!)  e recuperar aquelas cinzas!

Assim, no ano seguinte, naquela excursao para Melbourne (1883) um grupo de mulheres australianas entregou ao capitao do time ingles (Ivo Bligh) uma pequena urna de ceramica terracota, a qual dizem que continha as cinzas de uma parte do equipamento de cricket (uma bail, um dos pauzinhos menores que formam a wicket, que e’ a ‘casinha’ a ser atingida pela bola no cricket).

Um aspecto interessantissimo de tudo isso e’ que a tradicao perdura ate’ hoje. O trofeu da The Ashes e’ representado atualmente por uma urna de cristal. The Ashes sao jogadas regularmente a cada dois anos, e na ultima delas, no verao australiano de  2010/11, a Australia levou um baile dos Ingleses, perdendo todos os jogos em casa (cada jogo foi feito em uma grande cidade Australiana), o que levou a queda e a aposentadoria do capitao do time australiano – feita em grande estilo, em uma coletiva de imprensa com todos muito bem vestidos, com enorme repercussao na midia.

Outro aspecto pitoresco e’ que eu nao entendo patavinas de cricket. Confesso que meus filhos e filhas jogaram um pouco no verao passado, e continuei sem entender nada. Durante a ultima ‘The Ashes’ fiquei totalmente por fora de todas as conversas nos bares e no trabalho. Um mesmo jogo que nunca acaba, pode durar diversos dias e terminar empatado! Coisa de ingles maluco …

Mas o fato desta enorme popularidade do cricket no mundo do antigo imperio britanico continuar perdurando me chama a atencao. Por exemplo, voces sabem qual o time com maior numero de torcedores no mundo? A selecao Indiana de cricket, um bilhao de torcedores completamente louquinhos (e fanaticos) pelo time, numero que a selecao canarinho ainda nao atingiu…

Coisas que realmente me intrigam no cricket sao: como que um jogo que parece com o ‘taco’ que era parte das minhas brincadeiras nas ruas da minha infancia (mas afinal de contas, que esporte nao e’ no fundo uma boa brincadeira de crianca?) tem esta popularidade toda em uma grande parte do mundo? A partir desta, outra questao se impoem: como um esporte que goza de tamanha admiracao e fanatismo no mundo ‘britanico’ nao e’ conhecido no ‘mundo ocidental’, tampouco faz parte das 26 modalidades esportivas a serem disputadas nos Jogos Olimpicos de Londres em 2012? Justo em Londres?!

Uma reflexao que realmente fica e’ que no mundo ha uma diversidade incrivel de esportes regionais, que as vezes nao chegam as telinhas da nossa televisao. Estes esportes retratam, expressam e representam as mais variadas culturas e tradicoes. Na atualidade, ja e’ possivel olhar para alem do grupinho de esportes representados em grandes torneios como os do Comite Olimpico Internacional, e buscar nestas tradicoes regionais modos de escrever e entender, de respeitar e promover a grande diversidade cultural existente no nosso planeta. O(s) esporte(s) reflete(m) estes diversos modos de entender e ‘fazer’ o mundo. Penso que a cada vez mais devemos valorizar esta diversidade de modalidades, esta miriade esportiva, abrindo mais portas para diferentes pessoas se engajaram no infinito mundo do esporte.

Quem diriam que ‘cinzas jogadas ao vento’ por conta de uma derrota esportiva no seculo XIX continuariam sendo lembradas e celebradas nos mesmos campos esportivos mais de cem anos depois? Que loucura deliciosa!  Que fanatismo gostoso!

 

 

 


Esporte e voluntarismo na Australia

21/02/2011

Por – Jorge Knijnik

O grande historiador e filosofo do esporte, o australiano nascido em Adelaide Daryl Adair uma vez ja chamou o esporte de ‘a vaca sagrada’ da Australia. Os brasileiros tem uma visao da Australia sendo um ‘paraiso esportivo…’; talvez pela quantidade de medalhas olimpicas e pelo sucesso deste pais no esporte de rendimento, ficamos achando que a Australia deve ser ‘tudo de bom’ nesta area… Se voce pegar seu carro e sair pelas ruas de Sydney e adjacencias em um sabado ou domingo a tarde, ira ver centenas, melhor,milhares de criancas e jovens e adultos e gente de todas as idades, culturas, sexos, cores, jogando uma diversidade incrivel de modalidades. Rugby (dois tipos diferentes), cricket, futebol (o ‘nosso’…), futebol australiano (sim, aqui joga-se Australian Football Rules, o ‘footy’, um jogo bem interessante, dezoito de cada lado! Com liga profissional, TV, bons salarios e bastante gente jogando ‘for fun’ tambem); netball, baseball (e suas derivacoes) entre varios outros. No seu passeio, o visitante ira’ tambem ver centenas (isso mesmo) de grandes campos gramados (o que eles chamam de ‘oval’) ocupados por estas pessoas, espacos publicos comunitarios para a pratica esportiva.
Para quem gosta, isso e’ muito legal! Muita gente olhando, jogando, se divertindo, competindo… Mas tem uma coisa que vai chocar o leitor brasileiro, principalmente se ele for professor de Educacao Fisica (como eu, alias) ou, nos tempos atuais, ‘profissional de EF’, com registro em algum Conselho Regional da area… Este esporte de final de semana, praticado por milhares de pessoas, e’ totalmente organizado, dirigido e coordenado por… voluntarios! Isso mesmo, managers, organizadores, tecnicos e professores sao voluntarios, pais ou maes ou pessoas da comunidade que se voluntariam para tocar o time dos seus filhos e filhas, irmaos menores, amigos, tanto para dar treinos, preparar as tabelas, pintar as marcacoes dos campos, vender na cantina, arrecadar fundos para os clubes, fazer o churrasco, enfim, tudo o que se refere aos clubes onde o ‘esporte de base’, ou o esporte ‘participativo’ acontece, e’ tocado basicamente por voluntarios, sem formacao em EF! Alias, pouca relacao a EF tem com este esporte por aqui…
Chocado?Revoltado? Acha que o Conselho Brasileiro devia processar todos os sem-registro australianos? Olha, mas esta e’ a tradicao aqui, o voluntariado, as pessoas fazendo coisas por sua comunidade. Eu, como bom professor de EF, estranhei no comeco – onde estao os profissionais? O que este pessoal entende de movimento humano? Mas me voluntariei para ser tecnico de um time de futebol Under -6… Foi uma farra, dirigir aquela molecadinha nos treinos semanais e nos jogos aos sabados de manhazinha … Jogamos mais de duas dezenas de joguinhos de ‘small-sided soccer’, 4X4 com campinho pequeno e golzinho em ‘ovals’ espalhados por Sydney… Sempre com uma intensa vibracao da comunidade voluntaria organizando tudo.
Mas a pulga continuava atras da minha orelha,afinal, voluntarios nao entendem muito de esporte…
A resposta veio neste verao, quando uma tragedia natural quase que destruiu a terceira maior cidade australiana: Brisbane, capital de Queensland, foi inundada pelo rio que corta a cidade, eles chamaram isso de ‘Tsunami in-land’, realmente, horrivel e impresssionante a destruicao…
Momentos de tristeza e terror.
Quando as aguas abaixaram um pouco, as pessoas comecaram a voltar para suas casas, alagadas, destruidas, cheias de lama, etc… E simplesmente comecou um transito nas entradas da cidade, lotadas, entupidas por nada menos que 24.000 (isso mesmo, vinte e quatro mil) voluntarios, que sairam de suas casam por toda a Australia, pegaram seus carros, pegaram avioes, para ajudar a reconstrucao da cidade… Velhos, mulheres,criancas, gente de todas as culturas,nacionalidades, sexos, idades…Algo lindo, impressionante, tocante!
Ai eu entendi aonde nasce este espirito voluntario… E que nos campos esportivos se aprende muito mais do que tecnicas esportivas ensinadas por profissionais, se aprende a construir uma alma comunitaria!
Na proxima vez, vou falar das maluquices que os australianos fazem sobre esportes… e compara-las com os sulamericanos…Quem sera mais louco?