Histórias do esporte em Rubem Fonseca (parte 1)

17/04/2017

por Fabio Peres

Cruel, realista, desconcertante, brutal, mórbido. Entre tantos termos utilizados para descrever a literatura de Rubem Fonseca, talvez possamos também adicionar o adjetivo esportivo. Afinal, basta uma breve leitura de sua obra para perceber que não são poucos os contos e romances em que o esporte e as atividades físicas, em geral, ocupam lugar – ora mais, ora menos – privilegiado.

Desde a publicação de Os Prisioneiros (1963), primeira coletânea de contos do autor, o objeto está lá, por assim dizer, em suas variadas formas; às vezes de maneira mais clara ou quase desapercebido de modo sútil. Como aponta a escritora Maria Alice Barroso, Rubem já se destacava no conto Fevereiro ou março (1963)  pela incorporação de “um excelente tipo à galeria de personagens da literatura brasileira: o atleta vagabundo, frequentador das academias de boxe, portador de uma ética toda sua” (apud AUGUSTO, 2009, posfácio)[i].

Capa da edição de 1963 de Os Prisioneiros

O personagem-narrador inicia a história descrevendo como a condessa Bernstroa, mulher casada com a qual teve um caso, explicava a manutenção de suas formas corporais:

Era uma velha, mas podia dizer que era uma mulher nova e dizia. Dizia: põe a mão aqui no meu peito e vê como é duro. E o peito era duro, mais duro que os das meninas que eu conhecia. Vê minha perna, dizia ela, como é dura. Era uma perna redonda e forte, com dois costureiros salientes e sólidos. Um verdadeiro mistério. Me explica esse mistério, perguntava eu, bêbado e agressivo. Esgrima, explicava a condessa, fiz parte da equipe olímpica austríaca de esgrima — mas eu sabia que ela mentia.

O personagem continua desfiando a história explicando como foi seu dia, um sábado de carnaval, marcado por certa imprevisibilidade e também, não por acaso, por certa angústia:

Era de manhã, no primeiro dia de carnaval. Ouvi dizer que certas pessoas vivem de acordo com um plano, sabem tudo o que vai acontecer com elas durante os dias, os meses, os anos. […] Eu — eu vaguei pela rua, olhando as mulheres. De manhã não tem muita coisa para ver. Parei numa esquina, comprei uma pera, comi e comecei a ficar inquieto. Fui para a academia.

A descrição dos exercícios na academia é acompanhada por uma série de sentidos, pensamentos, práticas e gestos:

[…] comecei com um supino de noventa quilos, três vezes oito. O olho vai saltar, disse Fausto, parando de se olhar no espelho grande da parede e me espiando enquanto somava os pesos da barra. Vou fazer quatro séries pro peito, de cavalo, e cinco para o braço, disse eu, série de massa, menino, pra homem, vou inchar. E comecei a castigar o corpo, com dois minutos de intervalo entre uma série e outra para o coração deixar de bater forte; e eu poder me olhar no espelho e ver o progresso. E inchei: quarenta e dois de braço, medidos na fita métrica.

A academia, por sua vez, é lugar de encontros, de construção (e também de desconstrução) de vínculos e laços sociais. Os amigos, frequentadores de academia -ao que tudo indica de um bairro da Zona Sul carioca –, organizam a “diversão” para aquele carnaval:  “porrada pra todo lado”. A ideia era simples. Se fantasiar de mulher e então:

O povo cerca a gente pensando que somos bichas, nós estrilamos com voz fina, quando eles quiserem tascar, a gente, e mais vocês, se for preciso, põe a maldade pra jambrar e fazemos um carnaval de porrada pra todo lado. Vamos acabar com tudo que é bloco de crioulo, no pau, mesmo, pra valer. Você topa?

Após alguns desdobramentos (e outras referências aos sentidos e usos do corpo), o narrador se auto descreve para o marido da condessa, adquirindo assim características de um novo “tipo” inserido em um meio social com senso moral e ético próprios, como chamou atenção Maria Alice Barroso:

na academia eu faço ginástica de graça e ajudo o João, que é o dono, que ainda me dá um dinheirinho por conta; vendo sangue pro banco de sangue, não muito para não atrapalhar a ginástica, mas sangue é bem-pago e o dia em que deixar de fazer ginástica vou vender mais e talvez viver só disso, ou principalmente disso. Nessa hora o conde ficou muito interessado e quis saber quantos gramas eu tirava, se eu não ficava tonto, qual era o meu tipo de sangue e outras coisas. Depois o conde disse que tinha uma proposta muito interessante para me fazer e que se eu aceitasse eu nunca mais precisaria vender sangue, a não ser que eu já estivesse viciado nisso, o que ele compreendia, pois respeitava todos os vícios. Não quis ouvir a proposta do conde, não deixei que ele a fizesse; afinal eu tinha dormido com a condessa, ficava feio me passar para o outro lado. Disse para ele, nada que o senhor tenha para me dar me interessa. Tenho a impressão que ele ficou magoado com o que eu disse […] Por isso, continuei, não vou ajudar o senhor a fazer nenhum mal à condessa, não conte comigo para isso. Mas como?, exclamou ele, […], mas eu só quero o bem dela, eu quero ajudá-la, ela precisa de mim, e também do senhor, deixe-me explicar tudo, parece que uma grande confusão está ocorrendo, deixe-me explicar, por favor. Não deixei. Fui-me embora. Não quis explicações. Afinal, elas de nada serviriam.

No mesmo livro (Os prisioneiros de 1963) novamente a ginástica, a “malhação”, bem como as competições de “físico”, típicas de academia, seriam mencionadas no conto Os inimigos; para alguns críticos da época o melhor da coletânea. Além disso, o conto que dá nome ao livro curiosamente se inicia por uma conversa entre uma psicanalista e um cliente sobre a inconveniência e mesmo inadequação de usar roupa “esportiva” no Centro da cidade, lugar por excelência de trabalho.

O panorama, por assim dizer, esportivo da literatura de Rubem Fonseca, de fato, é vasto e instigante. Por exemplo, o ambiente e os frequentadores de academia voltariam a fazer parte da obra do autor em 1965 no conto A Força Humana (do livro A Coleira do cão). Na realidade, trata-se em certo sentido de uma continuação de Fevereiro ou março. Já em 1969, o antigo Vale-Tudo seria objeto central do conto O Desempenho no famoso livro Lúcia McCartney.

Em 1979, breves referências ao futebol e ao balé apareceriam em O cobrador (no livro homônimo). Na mesma obra menções à ginástica retornariam em Mandrake (além do xadrez) e, em 1992, em o Romance Negro. Por outro lado, uma competição inusitada no Pantanal está em AA (abreviação do “esporte” de mesmo nome) em 1998 no livro a Confraria dos Espadas. Também em 1992, há uma menção à rua do Jogo da Bola – uma prática de diversão que esteve presente na cidade do Rio de Janeiro no século XVIII e XIX[ii] – em A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro.

Em 2001, exercícios aeróbicos, de alongamento e de musculação são citados em Copromancia, na obra Secreções, excreções e desatinos. Corrida na praia aparece em Caderninhos de nomes no ano seguinte em Pequenas criaturas. Em Laurinha surge mais uma vez uma referência ao futebol no livro Ela e outras mulheres de 2006. E a relação de Lima Barreto com o futebol é citada no romance O seminarista de 2009.

Mas essas e outras histórias ficarão para os próximos posts. Em todo caso, mais do que uma mera provocação, denominar a literatura de Rubem Fonseca de esportiva pode ser uma forma de perturbar os limites e as fronteiras do campo da História do Esporte; uma maneira talvez que nos ajude a entrecruzar várias histórias: do corpo, de gênero, da cidade, de classe, da discriminação racial, da homofobia, das diferentes modalidades e práticas esportivas, das emoções, da estética, da literatura, entre muitas outras histórias.

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[i] AUGUSTO, Sergio. Estreia consagradora. In: FONSECA, Rubem. Os prisioneiros. Rio de Janeiro: Agir, 2009.

[ii] Maiores informações ver MELO, Victor Andrade de. MUDANÇAS NOS PADRÕES DE SOCIABILIDADE E DIVERSÃO: O jogo da bola no Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). História,  Franca ,  v. 35,  e105,    2016 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742016000100514&lng=en&nrm=iso>. access on  17  Apr.  2017.  Epub Dec 19, 2016.  http://dx.doi.org/10.1590/1980-436920160000000105.

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A primeira árbitra de futebol credenciada pela FIFA é brasileira

14/12/2014

por Silvana Vilodre Goellner
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Léa Campos (Asaléa de Campos Micheli), nascida em Belo Horizonte no ano de 1945, é uma mulher avante do seu tempo. Em plena Ditadura Militar formou-se árbitra pela Federação Mineira de Futebol, a despeito dos papéis de gênero estabelecidos como adequados para aquele contexto cultural. Diplomada em Educação Física e Jornalismo, teve muito trabalho para fazer valer sua vontade e o reconhecimento de seu diploma pela FIFA se deu apenas no ano de 1971. Para tanto, enfrentou pessoas e instituições como  a CBF e seu presidente João Havelange que não reconhecia nem permitia que desempenhasse sua função. Léa buscou apoio de diferentes modos recorrendo, inclusive, ao então presidente Emílio Garrastazu Médici, que ao recebê-la assinou uma carta autorizando-a a atuar.

Uma vez reconhecido o seu título pelo governo brasileiro, Léa arbitrou em vários estados e em países da Europa e das Américas sendo elogiada pela sua competência e dedicação.

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Praia de Atlântida, Rio Grande do Sul – década de 1970

Praia de Atlântida, Rio Grande do Sul – década de 1970

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Em 1971 representou o Brasil em um Campeonato Mundial de Futebol Feminino realizado no México, competição que possibilitou o reconhecimento de  seu diploma pela FIFA. Vale lembrar que neste período estava em vigência a Deliberação n. 7 de 2 de agosto de 1965 do Conselho Nacional de Desportos (CND) que nomeava as modalidades proibidas às mulheres complementando, assim a determinação do Decreto Lei n. 3199, de 14 de abril de 1941 que considerava a prática de alguns esportes incompatíveis  com a  “natureza feminina”. O Decreto, assinado pelo então Presidente do CND, General Eloy Massey Oliveira de Menezes, asseverava  que não era permitida às mulheres a  prática de lutas , futebol, futebol de salão, futebol de praia, pólo-aquático, pólo, rugby, halterofilismo e baseball. Ou seja, as mulheres não podiam praticar jogando mas nenhuma  referência era feita à prática da  arbitragem. O que conferiu à Lèa o direito de atuar.

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Praia de Atlântida, Rio Grande do Sul – década de 1970

Praia de Atlântida, Rio Grande do Sul – década de 1970

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Em 1974 Léa sofreu um acidente que prejudicou sobremaneira sua carreira. Com dificuldades de locomoção por dois anos usou cadeiras de rodas. Recuperada do acidente aproximou-se do universo das lutas dedicando-se à luta livre e o boxe, modalidades que como sabemos não eram (e não são) recomendadas para as mulheres.

Exitosa em sua trajetória, o protagonismo de Léa Campos evidencia que a presença das mulheres na arbitragem é um direito de quem deseja seguir a profissão. Sua presença nos campos abriu caminhos para que muitas mulheres possam concretizar este desejo, pois faz ver que não existem justificativas plausíveis que limitem ou impeçam  essa atuação senão o preconceito e a ignorância.  Por essas é outras  que se torna fundamental narrar a sua história e reconhecer a importância que esta mulher tem para a história do esporte brasileiro. Quiçá possamos ver publicada no Brasil a biografia Lea Campos: rules can be broken, escrita por Luis Eduardo Medina em 2001. Quiçá possamos conhecer mais além dessas parcas informações que aqui registro. Este é um de meus objetivos para 2015. Aguardem!!!!

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Mulheres nas águas (Rio de Janeiro, século XIX)

28/09/2014

Por Victor Andrade de Melo

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Não sendo exatamente um especialista nas questões de gênero (como o é minha querida amiga e irmã Silvana Goellner, com a qual temos a honra e o prazer de contar na equipe desse blog), sempre procurei, no âmbito de minhas investigações sobre o esporte no Rio de Janeiro do século XIX, registrar a participação feminina. Tratava-se de uma constatação explícita: a presença de mulheres nas iniciativas esportivas era anterior do que a princípio pensávamos, claro indício de uma posição protagonista, dentro dos limites do tempo (tratei um pouco do tema aqui, num artigo publicado na Revista Brasileira de História).

Os novos estudos que tenho procedido sobre as práticas corporais no Rio de Janeiro do século XIX, alguns deles em conjunto com o amigo e irmão Fábio Peres (que também integra a equipe desse blog), têm mostrado que o envolvimento das mulheres brasileiras com o esporte é ainda mais anterior. No post de hoje, tratarei brevemente da participação feminina nas iniciativas ligadas à natação. Será mesmo uma abordagem bem breve, dado que há muitos outros indícios que aqui não serão abordados por uma questão de espaço.

Para o memorialista Luiz Edmundo (1957), assim se trajavam as mulheres para os banhos de mar em determinado momento:

“calças muito largas de baeta tão áspera que mesmo molhada não lhe pode cingir o corpo. Do mesmo tecido, um blusão com gola larguíssima, à marinheira, obrigada a laço, um laço amplo que serve de enfeite e, ao mesmo tempo, de tapume a uma possível manifestação de qualquer linha capaz de sugerir o feitio vago de um seio. As calças vão até tocar o tornozelo quando não caem num babado largo, cobrindo o peito do pé. Toda a roupa é sempre azul-marinho e encadarçada de branco. Sapatos de lona e corda, amarrados no pé e na perna, à romana. Na cabeça, vastas toucas de oleado, com franzido à Maria Antonieta, ou exagerados chapelões de aba larga, tornando disformes as cabeças, por uma época em que os cabelos são uma longa, escura e pesada massa”.

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Nas duas últimas décadas do século, contudo, os jornais já veiculam algumas mudanças. Pelos números de A Estação, periódico que tinha a moda como assunto principal, podemos acompanhar as sugestões para as mulheres que procuravam os banhos de mar e a natação. Em 1879, apresentou-se o seguinte modelo: “A blusa e a calça são abotoadas, uma à outra, no cinto sofrivelmente largo, pregado de modo a correr com facilidade. Este modelo, de baetilha branca, é apertado por uma faixa, e enfeitado de bordado à ponto de marca”.

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Quase um ano depois, na coluna Crônica da Moda, Antonina Aubé observa a possibilidade de uso de uma vestimenta menos rigorosa para as que praticavam a modalidade: “As senhoras que aprenderem a nadar ou conhecerem a natação, a farão mais curta e com mais roda, para que não pareça repuxada, o que é extremamente feio e incômodo”.

A longa matéria descreve todos os detalhes da vestimenta, ainda bastante rigorosa se compararmos aos parâmetros atuais. Todavia, há que se destacar que a abordagem enfatiza mais a elegância e o conforto do que o pudor, embora essa seja uma dimensão que não deve ser negligenciada.

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No decorrer do século, sempre às vésperas do verão, o tema voltava à baila, com abordagem semelhante a essa já comentada. Além das vestimentas, comentavam-se comportamentos adequados e cuidados com a saúde e beleza a serem observados. Sempre se faziam ressalvas às distensões aceitáveis para as “nadadoras”.

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Já mais para o fim do século, a colunista Paula Cândida, é ainda mais enfática no que tange à participação feminina. Ao observar que as mulheres já tomam parte ativa em jogos e diversões públicas (“As senhoras idosas ficam admiradas diante dos jogos aos quais tomam parte as suas descendentes”), entre os quais duas novidades, o tênis e o ciclismo (rechaçado pela cronista por ser deselegante e sem função), Cândida sugere que a natação se encontraria entre os mais graciosos gêneros de diversão. Para ela, “a natação é indispensável para todas as senhoras e devia fazer parte da educação”.

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A ideia de que mulheres podiam praticar a natação não foi rapidamente aceita pela sociedade fluminense. Contribuíram para uma maior aceitabilidade não somente as ações de médicos e pedagogos, mas também a própria conformação de um mercado de entretenimentos e a circulação de notícias de nadadoras que se destacavam por proezas no exterior realizadas, especialmente recordes batidos por Miss Agnes Beckwith, chamada de “a primeira nadadora do mundo”. Logo também surgem notícias de mulheres nadando na cidade, especialmente na Praia do Boqueirão do Passeio.

Entre tantas, vale registrar o nome de duas pioneiras: Adélia Cardoso Silva, “uma elegante moça de 20 anos” que, em 1882, realizou com “admirável coragem a travessia da praia do Boqueirão à Ilha de Villegagnon”; e Ignez Victoria de S. e Souza, vencedora do páreo feminino de uma competição de natação organizada pelo Grêmio Filhos de Thetis, em 1886.

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Antes das sportswomen: as toureiras nas arenas brasileiras

24/05/2014

por Victor Andrade de Melo

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As atividades esportivas foram das mais importantes ocasiões a sinalizar a nova presença pública das mulheres na sociedade brasileira. Antes delas, contudo, outro espetáculo apresentou performances femininas ousadas, por alguns consideradas mesmo inusitadas: as touradas.

No Diário do Rio de Janeiro, de 22 de maio de 1847, vemos essa incrível notícia, considerando que no momento era até mesmo rara a presença feminina em muitos fóruns sociais: “O empresário sente não poder apresentar uma jovem de 23 anos, toureando com braço varonil, e impavidez de cavalheiro, mas pretende apresentar em compensação a srta. JOANNA PAULINA”. A praça estava instalada na esquina de rua Nova do Conde (atual Frei Caneca) com Matacavalos (atual Riachuelo).

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Diário do Rio de Janeiro, 22 de maio de 1847

Diário do Rio de Janeiro, 22 de maio de 1847

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Em 2 de junho de 1878, uma vez mais é anunciada, com grande estardalhaço, a performance de uma francesa, dessa vez na praça da Marquês de Abrantes (Rio de Janeiro): a “Heroína Mme. Julia Rachel”. A Gazeta de Notícias brinca com a novidade: “A tourada de hoje deve ser magnífica. Imaginem que o cavaleiro é uma cavaleira e por aí ajuízem que peripécias poderão haver, se os touros não forem assaz cavalheiros para respeitar a destemida cavaleira”.

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Gazeta de Notícias, 2 de junho de 1878

Gazeta de Notícias, 2 de junho de 1878

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A performance da “heroína”, todavia, parece não ter agradado muito, pelo menos aos jornalistas. Para a Gazeta de Notícias, “esta Rachel, que por certo não é na arte tauromáquica o que sua homônima foi na arte dramática, fez a figura mais ridícula que imaginar se pode”. É possível, pelo tom da matéria, que se tratasse mais de preconceito do que efetivamente de uma análise técnica. Ainda tardaria alguns anos para que mulheres fossem mais bem aceitas em funções públicas como essas.

Essa toureira atuara antes em São Paulo, onde parece ter conseguido mais sucesso, mesmo causando perplexidade. Chamava a atenção uma mulher desempenhar funções públicas tão ousadas, consideradas tipicamente masculinas. Antes mesmo de oficializar-se sua apresentação, sugeria-se em A Província de São Paulo: “Andam por aí a dizer tanta coisa da próxima corrida! Uns, que os pegadores propõem-se a fazer maravilhas; outros, que aparecerá uma amazona que há de mostrar para o que serve uma saia. Queremos ver isso”.

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Correio Paulistano, 1 de dezembro de 1877

Correio Paulistano, 1 de dezembro de 1877

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O Correio Paulistano ironizou: “Como é lá isso? Uma mulher toureando! Se a moda pega… É verdade que os touros de casa costumam ser mansos. Contudo, a coisa dá que pensar”. No Diário de São Paulo, uma breve nota dá uma noção da expectativa: “Rapaziada, vamos ver Mme. Rachel meter farpas de fogo em um bravio touro. É hoje o dia em que pela primeira vez aparecerá em público esta heroína”. A Província de São Paulo exalta: “Estreia hoje na Praça de touros (…) uma valorosa dama. (…). Decididamente a empresa quer abarrotar-nos de novidades”.

Ainda que, segundo os jornais, o evento não tenha sido dos melhores, Rachel foi elogiada por sua atuação. Um leitor, que assina como Palafox, chega a ironizar que foi melhor do que o cavaleiro: “Mira, pícaro caballero. Si vuelves a caer, rompo-te l’alma – Caramba! Que hombre! No ves que hasta una dama te vá dar leciones de cabaleria?”. Posteriormente, a toureira surpreenderia por sua coragem, mesmo nos acidentes nos quais se envolveu.

Esses são apenas alguns exemplos. Apresentaram-se nas arenas brasileiras outras mulheres, nas citadas e em outras cidades (também em Porto Alegre e Salvador, por exemplo). Mais ainda, deve-se destacar sua importância presença nas arquibancadas e mesmo organizando eventos tauromáquicos. Retomaremos o tema em outra ocasião.

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Jogos Abertos Femininos (1954-1963): espaço de visibilidade para as mulheres gaúchas

06/04/2014

por Silvana Vilodre Goellner

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Os Jogos Abertos Femininos foram realizados em Porto Alegre entre os anos de 1954 a 1963 com o objetivo de incentivar as mulheres à prática de esportes assim como dar visibilidade aos clubes e agremiações do Estado.   Idealizados pelo jornalista Túlio de Rose e pelo Jornal Folha da Tarde mantinham um caráter festivo  que envolvia  clubes de Porto Alegre e  de diversas cidades do Rio Grande do Sul.

As competições geralmente aconteciam durante o período de uma semana em diferentes locais de Porto Alegre, sobretudo, no clubes e em alguns espaços públicos. A cerimônia de abertura era realizada no estádio da Sociedade de Ginástica Porto Alegre (SOGIPA) que comportava mais de 30 mil espectadores, o que foi  insuficiente para  alojar o público presente na abertura dos Jogos no ano de 1959. Essa cerimônia acontecia seguindo o mesmo roteiro em todas as adições e contava com o tradicional Desfile de Abertura no qual todos os clubes participantes apresentavam suas atletas. Após o desfile  dos clubes e das atletas participantes acontecia o hasteamento das bandeiras  ao som o  Hino Nacional, a proclamação  do  juramento  feita por uma  atleta escolhida pela organização do evento e, por fim,  o desfile em carro aberto da Rainha e das Princesas  dos Jogos.

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Abertura dos Jogos Abertos Femininos de 1957 Fonte: Jornal Folha da Tarde

Abertura dos Jogos Abertos Femininos de 1957
Fonte: Jornal Folha da Tarde

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 A programação apresentava competições em várias modalidades tais como atletismo, arco e flecha, ginástica, ciclismo, esgrima, hipismo, natação, basquete, saltos ornamentais, tênis, lance livre, voleibol, bolão, golfe, remo, regata à vela, pesca, tênis de mesa, bridge, tiro ao alvo, entre outras. Algumas dessas modalidades tais como o tênis, a natação, o atletismo e o voleibol   tinham certo destaque em função de já existirem equipes e competições consolidadas no estado do Rio Grande do Sul.

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Pesca. Jogos Abertos Femininos de 1960 Fonte: Folha da Tarde

Pesca. Jogos Abertos Femininos de 1960
Fonte: Folha da Tarde

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A competição previa a premiação da Atleta Destaque cujo critério principal para a escolha era a participação no maior número de modalidades. Diná Pettenuzzo Santiago, uma participante dos Jogos assim se refere ao evento: “tínhamos a oportunidade de fazer coisas que a gente não fazia, como por exemplo, pescar, jogar pingue-pongue, bocha, atletismo, a gente se metia em tudo, às vezes nem sabíamos muita coisa, mas íamos pelo clube,  primeiro para auxiliar e para clube ter representação e segundo pra tentar ganhar, e quem sabe ser escolhida a atleta dos jogos” (2002, p. 6).

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Diná Pettenuzzo Santiago em entrevista ao Centro de Memória do Esporte (2006) Fonte: Centro de Memória do Esporte

Diná Pettenuzzo Santiago em entrevista ao Centro de Memória do Esporte (2006)
Fonte: Centro de Memória do Esporte

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Em um tempo no qual o esporte não era observado como possibilidade de carreira profissional para as mulheres, os Jogos Abertos Femininos deram visibilidade às praticas corporais e esportivas como um espaço de  sociabilidade das mulheres das elites.  Vale lembrar que para participar da competição  havia a necessidade de pertencer a algum clube e assim representá-lo. Essa participação foi importante para muitas atletas que, em função de seu desempenho e pertencimento clubístico, foram convocadas para participarem de competições nacionais e internacionais representando o Rio Grande do Sul e o Brasil, fundamentalmente, nas modalidades de natação, tênis, voleibol e basquetebol. Ou seja, ainda que para uma pequena elite, promoveram a divulgação do esporte de forma a fazer ver que o esporte também poderia ser uma prática delas.

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Margot Ritter recebendo de Túlio de Rose o troféu  Atleta de Destaque nos Jogos Abertos Femininos  de 1956 Fonte: Centro de Memória do Esporte

Margot Ritter recebendo de Túlio de Rose o troféu
Atleta de Destaque nos Jogos Abertos Femininos de 1956
Fonte: Centro de Memória do Esporte


Os Jogos Intermunicipais do Rio Grande do Sul e as “Rainhas da Beleza” (1967-1971)

01/12/2013

por Silvana Vilodre Goellner e Natália Bender
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Os Jogos Intermunicipais do Rio Grande do Sul (JIRGS) foram realizados pela primeira vez no ano de 1967 na cidade de Caxias do Sul chegando em 2013 a sua 41ª edição.  Como de praxe em outros eventos esportivos, nas suas edições inaugurais as atletas disputaram uma prova específica a qual não tinha disputa correlata entre os atletas homens: a prova da beleza.

Dotadas de capital simbólico as representações que circunscreviam este título estavam direcionadas para a consagração de um ideal de feminilidade no qual a participação em competições esportivas reafirmava um modo de ser e de se comportar considerado adequado ao que se esperava de uma jovem mulher: beleza, elegância, simpatia e graciosidade.

Concursos desta natureza buscaram inspiração em eventos já reconhecidos fora das arenas esportivas tais como o Miss Universo e Miss Brasil. O primeiro surgiu na Califórnia (Estados Unidos) no ano de 1952 e foi determinante para a realização, em 1954, da primeira edição do Miss Brasil que aconteceu na boate do Hotel Quitandinha, na cidade de Petrópolis (RJ) e teve como vencedora a baiana Martha Rocha. No contexto gaúcho foi também em 1954 que despontou o Miss Rio Grande do Sul, concurso realizado na cidade de Porto Alegre tendo como primeira vencedora Ligia Carotenuto, representante da cidade de Caxias do Sul e eleita, no mesmo ano, como segunda colocada no Miss Brasil.

Nos eventos que envolviam competições esportivas alguns critérios foram adicionados à escolha da atleta que seria consagrada como “Rainha”. Nos Jogos da Primavera, realizados na cidade do Rio de Janeiro entre o final dos anos 1940 e meados de 1970, o julgamentos relacionava a plástica feminina, os traços fisionômicos, a eficiência esportiva e a disciplina da atleta na participação nos jogos, ainda que a estética fosse  exaltada com o maior peso entre os critérios de seleção, segundo afirma Ludmila Mourão em estudos sobre essa competição esportiva.

Os Jogos da Primavera foram referência para a organização, no Rio Grande do Sul, dos Jogos Abertos Femininos que aconteceram entre os anos de 1954 e 1963 com o objetivo de contribuir para a popularização da prática esportiva entre as mulheres gaúchas. Idealizados pelo jornalista Túlio de Rose, tiveram grande adesão na época  e contavam com  a disputa de modalidades pouco convencionais como a pesca e a bocha.

Os Jogos Intermunicipais do Rio Grande do Sul foram criados depois destes eventos esportivos e mantiveram algumas práticas em comuns como, por exemplo, a   realização do concurso de beleza feminina. Nesse texto destacaremos as suas três primeiras edições tendo como fonte de pesquisa a cobertura que o evento teve nos jornais da época.

Na primeira edição dos JIRGS, realizada entre os dias 26 a 28 de outubro de 1967 na cidade de Caxias do Sul, foi organizado um júri que, além de presenciar o desfile das candidatas, teve a oportunidade de entrevistá-las sobre temas que envolviam o esporte amador. Reunidos os critérios e avaliadas as candidatas, fez-se vencedora a atleta Magdalene Krolow, representante da cidade de Ijuí. Na sua segunda edição, realizada entre 27 de abril e 1º de maio de 1968 em Santa Maria, a escolha da Rainha foi bastante noticiada pela imprensa da época que foi unânime em destacar os atributos estéticos da jovem vencedora, Maria Dani, representante de Novo Hamburgo. Vejamos uma dessas matérias, publicadas no jornal Folha Esportiva do dia 03 de maio de 1968.
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Santa Cruz do Sul sediou nos dias 17 a 21 de abril a  terceira edição do JIRGS e, consequentemente, do concurso de Rainha tornando-se vencedora Beatriz Regina Neves representante da cidade de Taquara. A conquista do título foi registrada na imprensa que não deixou de mencionar os atributos estéticos da vencedora.
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A simpatia de Taquara

A turma de Taquara – muitas moças e poucos rapazes – é uma turma diferente. Não só porque entre elas está a Rainha dos III Jogos Intermunicipais, mas também porque é uma turma alegre e muito comunicativa. É a segunda vez que Taquara vence o concurso de beleza em certames atléticos: no ano passado, nos Jogos Intercolegiais, em Ijuí, também teve sua representante escolhida como rainha.

A rainha dos III Jogos – Beatriz Regina Costa Neves – tem cabelos longos aloirados e é muito bonita e desembaraçada. Suas colegas, Verona Lacerda e Lison Brodbeck dizem que o apelido dela é Gina e que está fazendo um “sucesso bárbaro” em Santa Cruz:

– Você precisava ouvir o que os rapazes diziam para ela ontem, no desfile.

– O que é que eles diziam?

– Ah, não dá para contar. Mas basta olhar para ela que a gente logo adivinha

Beatriz Regina tem apenas 15 anos, mas pode-se dar até 18 ou 19. Tem 1,68 m de altura e está cursando a 3ª série do ginasial no Colégio Santa Teresinha, em Taquara. Quer fazer o Científico depois, e, futuramente, Educação Física ou Psicologia. Sua matéria preferida, apesar de tudo, é Matemática. Seus passatempos são leitura e treinos de Vôli. Pratica também natação, mas nos Jogos está competindo apenas em vôli. Gosta de cinema e diz que basta saber que Frank Sinatra trabalha num filme, que ela vai ver sem se preocupar com mais nada. Está aprendendo piano e torce para o Internacional.

Ao meio-dia a Rainha e suas colegas, almoçam na Lancheria Xodó, que se torna, evidentemente, centro das atenções de muitas outras delegações.

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Na quarta edição, realizada nos dias 22 a 25 de outubro de 1970 na cidade de Pelotas, foi a representante da delegação de Cachoeira do Sul, Maria Helena Luchsinger que levou o título de IV Rainha do JIRGS. Já em 1971, foi uma atleta da delegação de Santa Cruz do Sul, a escolhida para o título de Rainha dos V Jogos Intermunicipais, realizados no período de 21 a 24 de outubro na cidade de Novo Hamburgo. Essa conquista foi noticiada pelo jornal Folha da Tarde no dia 22 de outubro conforme reportagem abaixo.

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Ainda que a beleza das atletas tivesse destaque no concurso que alçava uma delas à condição de “Rainha” e outras duas à de “Princesas”, os atributos estéticos das mulheres participantes do JIRGS foram exibidos de outros modos. Nos jornais que fizeram a cobertura das suas cinco primeiras edições foi possível identificar outros  textos e imagens nas quais podemos visualizar as mulheres em ação. Ma isso já é outra história…

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Candidatas à Glória: a mulher esportiva da década de 1940

16/10/2013

Por André Schetino

Olá amigos do História(s) do Sport. Há alguns meses atrás fiz um post falando sobre esporte e eugenia em Minas Gerais, e mostrei essa relação a partir de um evento esportivo chamado “Ginástica Feminina da Primavera”.

No post de hoje vou mostrar, a partir de alguns exemplos, diferentes relações entre as mulheres e o esporte na década de 40. Trouxe duas imagens que tratam a mulher de forma distinta, mas ambas colocam os esportes como elemento importante oui mesmo predominante.

A primeira delas foi o anúncio e o texto transcrito abaixo, que encontrei nas páginas da Revista Alterosa e divido com vocês:

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 Prestigiae a grande obra de educação e cultura que o Governo de Minas vem realisando com absoluta firmeza, adquirindo os bilhetes da Loteria Mineira. Amparareis, assim, o futuro da nossa terra, porque esse futuro depende dos homens de amanhã, isto é, da mocidade que está aprimorando o espírito e o corpo nas escolas e nos nossos campos de esporte.[ii]

Trata-se de um anúncio da Loteria Esportiva Mineira, promovida pelo governo do Estado, de 1939. Apesar de enfatizar que o futuro de nossa terra depende dos homens de amanhã, o anúncio era ilustrado com o desenho de uma mulher (principal público da Revista Alterosa) realizando o movimento de arremesso de peso. Além disso, o texto destacado permite diferentes interpretações: na primeira, o esporte estaria colocado em pé de igualdade com a educação, servindo como forma de aprimoramento corporal e espiritual. Mas o texto permite também pensarmos sobre uma importância relativa do esporte, mostrando o entendimento de que havia espaços e momentos distintos para a educação do espírito e do corpo.

Se no primeiro exemplo a mulher já aparecia praticando esporte (mesmo com uma referência no texto aos homens), nosso segundo exemplo ela se torna a protagonista. Trata-se de uma reportagem de 1945, na qual a revista Alterosa apresentava “conselhos às jovens que desejam vencer na vida”. Entre dicas como alimentação moderada, estudos e polidez, estava também a prática esportiva regular.

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Clicando nas imagens você consegue ver a reportagem ampliada. Destaco o trecho abaixo:

A proeficiência em esporte ao ar livre é sempre um ativo na conta da jovem que deseja progredir em sua carreira. O esporte, além de desenvolver harmoniosamente o físico, quando praticado com método, ainda auxilia a relaxar a torsão nervosa tão frequente nas pessoas de grandes aspirações.[iii]

A reportagem mostra agora uma mulher que ganhara o mercado de trabalho com a II Guerra Mundial e nele deveria permanecer e buscar sucesso, desde que seguindo alguns conselhos. O esporte estava no rol das práticas imprescindíveis para aquelas que queriam alcançar não só a saúde e o bem estar, mas também o sucesso no mundo do trabalho.
O que acho mais interessante nesses exemplos é que, mesmo com uma mensagem clara, eles fazem parte de um conjunto de fatos que marcaram um aumento na participação feminina na sociedade, seja no mundo do trabalho ou nos esportes. Falando de participação em alto nível, como nas Olimpíadas, temos 11 mulheres na delegação brasileira no jogos de Londres em 1948, contra 6 em Berlim (1936) e apenas uma em Los Angeles (1932), que marcou o início da participação de brasileiras nos jogos.
E já que estamos falando de mulheres e esportes, aproveito para indicar o excelente documentário Mulheres Olímpicas, de Lais Bodansky, exibido no último domingo no canal ESPN Brasil. Deixo pra vocês o trailer.
Abraços e até o próximo post!

[ii] REVISTA ALTEROSA nº 01, agosto de 1939, p. 22. Grifos meus.

[iii] Candidatas à Glória – conselhos às jovens que desejam vencer na vida. REVISTA ALTEROSA, nº 67, novembro de 1945, p.86 e 94(continuação). Matéria não assinada