Proezas Ginásticas no Rio de Janeiro do século XIX: aproximações de uma história corporal da história da cidade

18/03/2018

Por: Fabio Peres e Victor Melo[i]

Em posts anteriores tentamos argumentar que a ginástica – em suas diferentes conotações, formas e tipos – fazia parte da paisagem do Rio de Janeiro do século XIX.  

Mas algo que parece ser central, que constitui ainda um desafio pouco explorado no campo da História do Esporte no Brasil, é corpo per se  tomado como domínio ou objeto de investigação histórica.  

De forma provocativa, podemos dizer que, via de regra, a história das práticas corporais são pouco ou quase nada, com as devidas exceções, corporal.  

No nosso caso, por exemplo, devemos discutir melhor a possibilidade do papel das exibições de ginástica na gestação de um (talvez novo?) ethos corporal na cidade.

A ausência de tipos variados de fontes, sem dúvida, é um obstáculo. Mas será que não haveria formas de se aproximar, mesmo que de maneira ainda incipiente, das representações do corpo?

No decorrer do século XIX, circos que destacavam proezas ginásticas como uma atração se tornaram comuns e muito apreciados na cidade. Mesmo que essa “ginástica-espetáculo” não tivesse grande número de praticantes, sempre cativou um público ávido por novidades; ao que parece de distintos estratos sociais. Temos defendido, inclusive, que antes dos exercícios oferecidos em escolas e agremiações, ela ajudou a gestar uma sensibilidade pública para com a prática.

A especificidade desses espetáculos é que seu poder de sedução estava atrelado diretamente ao próprio corpo, o que incomodava alguns intelectuais, que desejavam anexar à ginástica uma base moral e sanitária.

Devemos lembrar que “a crítica aos exageros do desenvolvimento muscular por ele mesmo e ao funambulismo é ponto passível em todos os educadores que pensaram a educação física escolar nesse momento de transição da sociedade brasileira” (HEROLD JUNIOR, 2005, p. 247).

Para o público, todavia, essa não era uma preocupação. Mesmo quando cresceram as contestações, continuou sendo observável a influência circense nos mais distintos âmbitos.

Se a ginástica era uma das atrações de muitos espetáculos, que tipos de exercícios eram realizados?

Vejamos, por exemplo, a apresentação de Mr. Vally no “Pomposo espetáculo ginástico e dramático, para ser representado perante S. M. o Imperador, o Senhor D. Pedro II, a Augusta Família Imperial”, no Teatro Constitucional Fluminense, em abril de 1838. O “mestre de ginástica de Londres e de Paris” (O Despertador, 27/2/1839, p. 3) prometia executar “na coluna giratória, e nas duas colunas, os mais lindos e delicados exercícios ginásticos, forças, e posições acadêmicas” (O Despertador, 19/4/1838, p. 3).

cap.1.figura 5. O Despertador, 27.2.1839, p. 3.

O Despertador, 27/2/1839, p. 3.

Algumas dessas proezas se tornariam comuns não só nas exibições artísticas como também no cotidiano das sociedades ginásticas e clubes.

Era o caso de números como “A flor da ginástica”, a “Escada perigosa” e o “Salto do Niágara”, “de cujo desempenho deixa o espectador extasiado” (Correio Mercantil, 18/1/1863, p. 4). Em muitas outras ocasiões, os exercícios foram fartamente descritos, um belo retrato de como se organizava a ginástica naquela ocasião).

Vally tornou-se também modelo da Academia Imperial de Belas Artes, em função da sua compleição corporal e por executar as “mais elegantes Estátuas, tiradas da mitologia e da história antiga” (Ver Diário do Rio de Janeiro, 4/4/1839, p. 2.). Vale o registro de como um novo padrão de corpo começava a circular e ser apreciado na cidade, antecipando um movimento que se tornará mais perceptível no quartel final do século XIX e começo do XX (MELO, 2011).

Nos circos melhor constituídos, a ginástica dividia espaço com as atividades equestres e dramáticas, ainda que seja difícil precisar exatamente os limites de cada termo.

Em março de 1840, por exemplo, promoveu um espetáculo João Bernabó, que trabalhara com Chiarini e tinha parcerias constantes com E. G. Mead. Suas apresentações ocorreram em um curro de propriedade de Manoel Luiz Alves de Carvalho, situado no Campo de São Cristóvão, onde também seriam organizadas corridas de touros. A imagem do anúncio, uma parada de mão realizada em um cavalo em movimento, nos permite ver o quanto os exercícios equestres e ginásticos se mesclavam.

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Diário do Rio de Janeiro, 16/5/1840, p. 3.

Outros detalhes conseguimos saber na atuação da Companhia do francês Fouraux, que se apresentou, em 1852, no mesmo Circo Olympico. Na programação das funções de fevereiro, num rol de 11 atividades divididas em duas partes, cinco referem-se a exercícios de equilíbrios, entre os quais “a luta ginástica, e vários saltos perigosos por cima de seis cavalos, executada por todos os artistas da companhia”, e “exercícios ginásticos e salto dos duplos toneis” (Correio Mercantil, 12/2/1852, p. 4).

Uma informação merece ser destacada no que tange à atuação dessa companhia: “O Sr. Fouraux tem a honra de prevenir o público que dá lições de equitação” (ibid.). Na realidade, vários foram os profissionais que trabalharam nos dois âmbitos, no espetáculo e no ensino, importante indício de que houve um trânsito de informações e referências.

Vejamos outro exemplo. Ao comentar a performance de Neal e Rogers, do Circo Grande Oceano, um cronista lembra que muitos amadores buscavam os ginásios para se exercitarem, e que as atividades acrobáticas eram as mais difíceis e apreciadas. Informa que os dois artistas dirigiam uma escola de ginástica própria, além de encantarem por sua exibição:

Uma vez são as provas de uma força hercúlea o que admira a todos, outra a flexibilidade dos seus corpo, como se fossem de borracha, os graciosos movimentos, as transformações incríveis, as posições incompreensíveis (Correio Mercantil, 24/6/1862, p. 4),

Nas exibições ginásticas utilizavam-se implementos diversos: camas elásticas, cordas, pórticos, barras e trapézios, material que também seria adotado em escolas e clubes. Força, equilíbrio, flexibilidade, agilidade eram valências físicas mobilizadas. Coragem e ousadia eram valores destacados. O risco era a dimensão mais comumente exaltada, tida como importante fator de atração de “um público que sabe reconhecer o quanto custa um trabalho cheio de perigos, pela incerteza que há nesta arte”.

cap.1.Imagem2

Correio Mercantil, 22/1/1860, p. 4

Vejamos essa longa descrição de um cronista sobre as sensações causadas pelo espetáculo de dois ginastas no Politeama Fluminense:

Todos os corações como que deixam de palpitar; o sangue gela-se nas veias; o sistema nervoso sofre violentas impressões e das mãos frias do espectador dessora uma transpiração gélida e incomoda. Só volta o coração a sua regular oscilação de pêndulo da vida, e o calor se espalha pelo corpo, quando os dois artistas terminaram aquele perigosíssimo exercício. Então as mãos aplaudem freneticamente e o entusiasmo transborda em todos os peitos (Gazeta da Tarde, 30/7/1881, p. 2).

Essas impressões mobilizaram a cidade de tal maneira que chegaram a ser desencadeadas iniciativas de controle por parte das autoridades:

O Sr. Desembargador chefe de polícia expediu circular aos subdelegados determinando que obriguem os empresários de circos ginásticos a usar redes e outros aparelhos de salvação, próprios para guardarem a vida dos artistas que se arriscam em tais trabalhos (O Globo, 1/9/1877, p. 2).

De fato, eventualmente vemos pelos jornais algum incidente, em número bem menor do que fazia crer as propagandas dos circos, que exageravam para atrair o público. Vejamos a notícia de um acidente: “No espetáculo da tarde de ontem no circo Grande Oceano, teve lugar um deplorável acontecimento. O Sr. Julius Buislay teve a infelicidade de cair de um dos trapézios da altura de 30 pés, ficando com o braço direito fraturado em duas partes” (A Atualidade, 13/7/1863, p. 3). Essas ocasiões, de alguma forma, ajudavam a reforçar a ideia de que aquela atividade era mesmo perigosa. Curiosamente, uma das companhias em que mais incidentes foram registrados foi a do Teatro-Circo, que se apresentava como a “nec plus ultra da ginástica”, isso é, “a que não pode ser ultrapassada”. De fato, suas apresentações eram marcadas por números muito arriscados, chamando muito a atenção do público.

Desafiar e superar as condições naturais eram claramente dimensões mobilizadas nos espetáculos, intencionalidades que vão marcar, seja qual for o teor do discurso, a prática da ginástica na Corte. Isso por vezes era mais sutil, por outras era explícito. Vejamos como se anuncia a apresentação de Jeronymo Lauriano da Costa, que sem os braços executava várias proezas somente com os pés: “Prodígio e aborto da natureza” (Correio Mercantil, 5/2/1860, p. 4).

Uma vez mais o circo refletia um dos dramas da modernidade. Era possível superar os limites divinos por um processo de produção racional de conhecimento. Doenças podiam ser superadas pela medicina. Pontes superavam obstáculos naturais. As técnicas permitiam aos homens “flutuar”. A ginástica dos circos transitava por padrões de racionalidade tanto quanto a dos médicos. A diferença era a especificidade do diálogo.

As proezas ganhavam diferentes definições, tais como: “Grandes volteios aéreos, e saltos por cima das tiras, executados pela Sra. Varin”; “Diferentes exercícios de equilíbrio e força, pelo Sr. Francisco”; “Trabalho grotesco de elevações, passando por cima de diferentes objetos e pipas, executados pelo Sr. Joanny Fouraux” (Correio Mercantil, 11/3/1852, p. 4). Da mesma forma, muitas eram as denominações utilizadas: salto ginástico, salto aéreo, elevações ginásticas, volteios ginásticos.

Um exercício muito conhecido era assim descrito: “As argolas volantes, ou os suplícios romanos, trabalho de forças e grande dificuldade, executado pelo Sr. Francisco” (Correio Mercantil, 16/5/1852, p. 4). Voos e saltos eram muito valorizados. Por exemplo, a “Grande luta ginástica e acadêmica” tratava-se da execução de “saltos mortais em diferentes sentidos, por cima de muitos cavalos” (Correio Mercantil, 24/6/1852, p. 4.)

Em muitas ocasiões relacionavam-se as cenas a feitos “históricos” (como “O grego heroico em combate com o mouro rebelde”), “primitivos” (como “o selvagem do norte no exercício da caça) ou “exóticos” (como “a carreira rápida do volteador chinês” e “a carreira veloz da sílfide”). Todas essas atrações integraram a programação do Circo Olympico de 27 de maio de 1860 (Correio Mercantil, 27/5/1860, p. 4).

No decorrer do século XIX vários sentidos se cruzavam ao redor da palavra “gymnastica”, bem como diversos termos tocavam em dimensões que se relacionavam com a prática, tais como “exercício”, “athleta”, “lucta”. Não surpreende, assim, que alguns circos tenham abrigado atividades correlatas.

Por exemplo, em dezembro de 1856, o Circo da Guarda Velha anuncia a realização de “Grande luta de assalto” (Correio Mercantil, 19/12/1856, p. 4), da qual participariam “jovens atletas desta capital”. Tratava-se de uma eliminatória: ao fim do dia sairia o campeão. Os promotores, Duffaud e Hyppolite, não somente convidavam a tomar parte “os amadores destas partidas de ginástica”, como anunciam que “dão lições particulares da luta Chausson, ou de pés e pugilato, ou de socos, etc”.

Enfim, como já apontamos em outras ocasiões, parecia mesmo onipresente no Rio do século XIX, inclusive corporalmente, nossa estimada ginástica.

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[i] Parte deste texto foi publicado originalmente em MELO, Victor Andrade de; PERES, Fabio de Faria. A gymnastica no tempo do Império. Rio de Janeiro: 7Letras/Faperj, 2014. (Coleção Visão de Campo)

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A GINÁSTICA COMO PRÁTICA EDUCATIVA NA BAHIA (1850-1920)

17/07/2017

Aline Gomes Machado

O século XIX, no Brasil, representou um momento de mudanças significativas nos diversos setores. Via-se a efervescência de uma busca pela modernização do país. Civilização e modernidade se convertiam, neste momento, em palavras de ordem; virando instrumento de batalhas, além de fotografias de um ideal alentado.

 A Bahia, como a antiga capital do país, não ficou de fora desse processo. Também ela viu fervilhar o desejo pela modernidade, por novos ares, modos de vida, novos comportamentos e hábitos, inclusive, os de saúde e higiene.

Sabemos que a essa época, Salvador era uma cidade sem nenhum tipo de cuidado com o esgoto, estava sempre suscetível a moléstias infectocontagiosas, que atacavam sua população. Especialmente, a camada negra e pobre era a mais massacrada pelas epidemias que tomavam a cidade, já que era mais exposta às situações de risco sanitário.

Muito em função disso e por possuir em suas terras, uma escola médica, tida como um cenário de ciência, um dos discursos de modernização na Bahia assentou-se no pressuposto de que o saber científico possuía uma proposição especial para promover o desenvolvimento.

Dessa forma, a ciência tornou-se fundamental, por, pretensamente, apresentar caminhos objetivos para solucionar os problemas sociais, especialmente a ciência médica. Sendo assim, vimos que a camada ‘letrada, científica e lógica’, apoiada nos poderes políticos, dirigiu diretamente o projeto de modernidade, inclusive o baiano, justo por conta do papel de destaque dado ao conhecimento científico.

Assim, na Bahia, pautados nos pressupostos higienistas, os senhores da ciência constatavam as mazelas e indicavam os meios para se atingir os objetivos de uma melhor higiene, como podemos perceber no Relatório do Conselho Interino de 1856, elaborado pelo secretário da Commissão de Hygiene Publica, Dr. Malaquias Avares dos Santos:

Nas demais comarcas existem também muitas causas de insalubridade, como sejam mais geralmente habitações húmidas, e mal arejadas, alimentação irregular e de má qualidade, pântanos de todos os gêneros, e nenhum apuro na educação physica; ao que demais se ajunctam muitos vicios na educação.” moral e intelectual dos habitantes, o que se encontra ainda n’esta capital e mormente, nos seus suburbios.

O discurso médico figurou no movimento de modernidade baiano, articulando o progresso, a necessidade de higiene. A exemplo disso temos a fala de Mathias de Campos Velho, na tese apresentada para conclusão do curso de medicina na Faculdade de Medicina da Bahia em 1886, aonde afirma que a higiene:

esta quasi sempre em razão directa com a civilização de um povo e constitue fonte de riqueza, porque concede dous thesouros preciosos, a saude e a ordem (p.70) e, neste sentido diz, também, que o homem civilisado tem sempre em vista: a hygiene geral (p.67).

Dentre as estratégias elaboradas para atingir a higiene necessária, os higienistas reconheciam a importância de uma educação que se enquadrasse nos objetivos desse movimento. Objetivos esses que não se restringiam ao controle das variáveis físicas, biológicas, mas também buscavam uma retidão moral, uma disciplinarização necessária para atender as demandas sociais da época. Assim, os higienistas indicavam quais medidas deveriam ser tomadas pela população e governo, inclusive nas instituições escolares.

Contando com o apoio de articulistas, os higienistas apontavam como elemento basilar para formar o homem higiênico, o cuidado com o corpo, onde a prática de atividades físicas possuía fundamental importância. Dentre eles, a ginástica aparecia como a prática dileta.

Sabemos que a ginástica, como uma prática educativa, era tratada como algo que atuaria na formação de novos corpos e mentes, tida como uma extensão dos poderes e saberes gerados pela higiene, ganhando assim, a defesa de médicos e articulistas que se encarregavam de garantir os porquês da importância dessa atividade, não apenas fundamentando os benefícios corporais, mas também para formação moral do ‘homem vigoroso’.

Como justificativas a este apoio a uma nova ação ‘educativa’, a ginástica, encontramos nos jornais baianos questionamentos, inclusive, sobre a forma como os mais ricos educavam seus filhos. O Correio Mercantil (02 de junho de 1838, p.02) apontava que “os mimos e branduras com que as pessoas mais ricas e poderosas custumão criar os filhos os fazem commummente aleminados e de débil compleição”, e coloca a ginástica “com o exercício acertado” como corretiva desta situação, e segue garantindo que “a gymnastica, porém, nas cidades he absolutamente precisa, não para formar arlequins, como o para cuidado, mas para educar homens vigorosos”.

Por conta de pensamentos como esse, os discursos voltaram-se, então para a prática da ginástica como instrumento capaz de fornecer os idealizados objetivos dessa sociedade modernizada, civilizada e higiênica.

A partir da influência de um saber científico, os propósitos conferidos à prática metódica se tornaram mais expressivos com o passar do século XIX, demarcando que a ginástica valorizada era aquela cujos princípios básicos seriam a disciplina, a saúde e a higiene, distanciando-a de uma prática mais livre e expressiva. Era preciso uma ‘ginástica científica’ que se enquadrasse nos ideais modernizadores e higiênicos, que apresentasse caminhos para resolver as mazelas sociais que se circundavam todo país.

Nesse sentido, o Brasil e a Bahia, sob o prisma do higienismo, esforçando-se para acompanhar o desenvolvimento dos países modernos do continente europeu, adotavam muitas de suas práticas culturais e educacionais como símbolos de modernidade. Se na Europa a ginástica era parte da educação oferecida pelos principais colégios, aqui, ela seria utilizada num sentido semelhante.

A tese Hygiene Pedagogica, de Umbelino Heraclio Muniz Marques, apresentada a Faculdade de Medicina da Bahia, procurou demonstrar como uma educação higiênica, digamos assim, seria o símbolo de uma modernidade

A higiene pedagógica, que aliás age decisivamente sobre o desenvolvimento da creança, e sobre a conservação de sua saude, ainda nos paizes, mais adiantados deixa muito a desejar…(1886, p.01).

O mesmo Umbelino ainda afirma como uma educação higiênica “adapta todas as potencias physycas, intellectuaes e moraes de cada individuo á função plena do papel que lhe esteja destinado desempenhar na coletividade” (p.02). Perceba como a preocupação está centrada em tornar harmônica esta tríade das faculdades humanas para que o sujeito possa desempenhar seu papel sem alterar a ordem social desejada, que neste caso é a ordem para o progresso, a modernização.

Desta forma, nesse momento aqui tratado, vimos, na Bahia, um movimento que visou, sobretudo, civilizar os costumes, moralizar as condutas e moldar comportamentos e corpos para alicerçar as bases da sociedade higiênica e moderna. Este movimento configurou as principais estratégias do projeto higienista. Essa foi à intenção e motivação, agora saber como se deu e mesmo se alcançou tal objetivo, fica para outros escritos.

 


Quando música e Educação Física se cruzam

24/06/2017

por Victor Andrade de Melo
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Recentemente, fui ao Teatro Municipal do Rio de Janeiro assistir a uma montagem de Carmina Burana (http://www.theatromunicipal.rj.gov.br/programacao/carmina-burana/), a magnífica cantata cujo um dos temas se tornou um dos mais executados e conhecidos do século XX. Para quem não lembrou de pronto do que se trata, basta ver uma das execuções aqui.

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Uma curiosa informação me chamou a atenção no programa do belíssimo espetáculo, montado como peça de resistência e agradecimento dos funcionários do Teatro ao apoio que tem recebido do público para minimizar as dificuldades que enfrentam em função dessa lamentável administração governamental (a propósito, Fora Pezão! Fora Temer!). Já sabia que o compositor Carl Orff se notabilizou pelo desenvolvimento de um método de ensino da música, mas não que em algumas dessas iniciativas isso esteve articulado com a ginástica.

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Foto de Theatro Municipal do Rio de Janeiro por Cibelle Bertoni

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Interessado já há alguns anos nas interfaces entre esporte e arte (tema sobre o qual já escrevi algumas coisas, especialmente tocando nas relações com o cinema, dança, artes plásticas e artes cênicas, fui dar uma vasculhada na internet para saber um pouco mais. Pareceu-me interessante dividir algumas dessas leituras com os leitores de nosso blog.

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Portrait Carl Orff Radierung und geschabte Aquatinta
Jens Rusch

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Rosangela Lambert, no blog Terra da Música, lembra que Orff sempre pensou a ideia de educação musical a partir de uma visão global dos alunos. Talvez isso ajude a entender a atenção que dava para o corpo. De tal forma que, em 1924, em conjunto com Dorothee Gunther, fundou, em Munique, uma escola dedicada ao ensino de música, ginástica e dança, a Guntherschule. Partindo do Método de Dalcroze, desenvolveram uma proposta original aplicada com crianças e jovens, mas também com professores de educação física, para que aperfeiçoassem sua forma de atuação e difundissem a ideia.

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Günther School Munich

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Nesse escola, Carl Orff desenvolveu e aplicou uma de suas ideias mais originais e potentes: “the concept of an elemental music which was a synthesis of music, language and movement. The objective was the regeneration of music through movement, with the aid of dance” (disponível em http://www.orff.de/en/life/educational-works/guenther-school.html).

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A despeito de suas relações pouco claras com o regime nazista (Orff foi um dos responsáveis por organizar os espetáculos dos Jogos Olímpicos de 1936), sua escola foi fechada em 1944 e posteriormente destruída num bombardeio.

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Histórias do esporte em Rubem Fonseca (parte 1)

17/04/2017

por Fabio Peres

Cruel, realista, desconcertante, brutal, mórbido. Entre tantos termos utilizados para descrever a literatura de Rubem Fonseca, talvez possamos também adicionar o adjetivo esportivo. Afinal, basta uma breve leitura de sua obra para perceber que não são poucos os contos e romances em que o esporte e as atividades físicas, em geral, ocupam lugar – ora mais, ora menos – privilegiado.

Desde a publicação de Os Prisioneiros (1963), primeira coletânea de contos do autor, o objeto está lá, por assim dizer, em suas variadas formas; às vezes de maneira mais clara ou quase desapercebido de modo sútil. Como aponta a escritora Maria Alice Barroso, Rubem já se destacava no conto Fevereiro ou março (1963)  pela incorporação de “um excelente tipo à galeria de personagens da literatura brasileira: o atleta vagabundo, frequentador das academias de boxe, portador de uma ética toda sua” (apud AUGUSTO, 2009, posfácio)[i].

Capa da edição de 1963 de Os Prisioneiros

O personagem-narrador inicia a história descrevendo como a condessa Bernstroa, mulher casada com a qual teve um caso, explicava a manutenção de suas formas corporais:

Era uma velha, mas podia dizer que era uma mulher nova e dizia. Dizia: põe a mão aqui no meu peito e vê como é duro. E o peito era duro, mais duro que os das meninas que eu conhecia. Vê minha perna, dizia ela, como é dura. Era uma perna redonda e forte, com dois costureiros salientes e sólidos. Um verdadeiro mistério. Me explica esse mistério, perguntava eu, bêbado e agressivo. Esgrima, explicava a condessa, fiz parte da equipe olímpica austríaca de esgrima — mas eu sabia que ela mentia.

O personagem continua desfiando a história explicando como foi seu dia, um sábado de carnaval, marcado por certa imprevisibilidade e também, não por acaso, por certa angústia:

Era de manhã, no primeiro dia de carnaval. Ouvi dizer que certas pessoas vivem de acordo com um plano, sabem tudo o que vai acontecer com elas durante os dias, os meses, os anos. […] Eu — eu vaguei pela rua, olhando as mulheres. De manhã não tem muita coisa para ver. Parei numa esquina, comprei uma pera, comi e comecei a ficar inquieto. Fui para a academia.

A descrição dos exercícios na academia é acompanhada por uma série de sentidos, pensamentos, práticas e gestos:

[…] comecei com um supino de noventa quilos, três vezes oito. O olho vai saltar, disse Fausto, parando de se olhar no espelho grande da parede e me espiando enquanto somava os pesos da barra. Vou fazer quatro séries pro peito, de cavalo, e cinco para o braço, disse eu, série de massa, menino, pra homem, vou inchar. E comecei a castigar o corpo, com dois minutos de intervalo entre uma série e outra para o coração deixar de bater forte; e eu poder me olhar no espelho e ver o progresso. E inchei: quarenta e dois de braço, medidos na fita métrica.

A academia, por sua vez, é lugar de encontros, de construção (e também de desconstrução) de vínculos e laços sociais. Os amigos, frequentadores de academia -ao que tudo indica de um bairro da Zona Sul carioca –, organizam a “diversão” para aquele carnaval:  “porrada pra todo lado”. A ideia era simples. Se fantasiar de mulher e então:

O povo cerca a gente pensando que somos bichas, nós estrilamos com voz fina, quando eles quiserem tascar, a gente, e mais vocês, se for preciso, põe a maldade pra jambrar e fazemos um carnaval de porrada pra todo lado. Vamos acabar com tudo que é bloco de crioulo, no pau, mesmo, pra valer. Você topa?

Após alguns desdobramentos (e outras referências aos sentidos e usos do corpo), o narrador se auto descreve para o marido da condessa, adquirindo assim características de um novo “tipo” inserido em um meio social com senso moral e ético próprios, como chamou atenção Maria Alice Barroso:

na academia eu faço ginástica de graça e ajudo o João, que é o dono, que ainda me dá um dinheirinho por conta; vendo sangue pro banco de sangue, não muito para não atrapalhar a ginástica, mas sangue é bem-pago e o dia em que deixar de fazer ginástica vou vender mais e talvez viver só disso, ou principalmente disso. Nessa hora o conde ficou muito interessado e quis saber quantos gramas eu tirava, se eu não ficava tonto, qual era o meu tipo de sangue e outras coisas. Depois o conde disse que tinha uma proposta muito interessante para me fazer e que se eu aceitasse eu nunca mais precisaria vender sangue, a não ser que eu já estivesse viciado nisso, o que ele compreendia, pois respeitava todos os vícios. Não quis ouvir a proposta do conde, não deixei que ele a fizesse; afinal eu tinha dormido com a condessa, ficava feio me passar para o outro lado. Disse para ele, nada que o senhor tenha para me dar me interessa. Tenho a impressão que ele ficou magoado com o que eu disse […] Por isso, continuei, não vou ajudar o senhor a fazer nenhum mal à condessa, não conte comigo para isso. Mas como?, exclamou ele, […], mas eu só quero o bem dela, eu quero ajudá-la, ela precisa de mim, e também do senhor, deixe-me explicar tudo, parece que uma grande confusão está ocorrendo, deixe-me explicar, por favor. Não deixei. Fui-me embora. Não quis explicações. Afinal, elas de nada serviriam.

No mesmo livro (Os prisioneiros de 1963) novamente a ginástica, a “malhação”, bem como as competições de “físico”, típicas de academia, seriam mencionadas no conto Os inimigos; para alguns críticos da época o melhor da coletânea. Além disso, o conto que dá nome ao livro curiosamente se inicia por uma conversa entre uma psicanalista e um cliente sobre a inconveniência e mesmo inadequação de usar roupa “esportiva” no Centro da cidade, lugar por excelência de trabalho.

O panorama, por assim dizer, esportivo da literatura de Rubem Fonseca, de fato, é vasto e instigante. Por exemplo, o ambiente e os frequentadores de academia voltariam a fazer parte da obra do autor em 1965 no conto A Força Humana (do livro A Coleira do cão). Na realidade, trata-se em certo sentido de uma continuação de Fevereiro ou março. Já em 1969, o antigo Vale-Tudo seria objeto central do conto O Desempenho no famoso livro Lúcia McCartney.

Em 1979, breves referências ao futebol e ao balé apareceriam em O cobrador (no livro homônimo). Na mesma obra menções à ginástica retornariam em Mandrake (além do xadrez) e, em 1992, em o Romance Negro. Por outro lado, uma competição inusitada no Pantanal está em AA (abreviação do “esporte” de mesmo nome) em 1998 no livro a Confraria dos Espadas. Também em 1992, há uma menção à rua do Jogo da Bola – uma prática de diversão que esteve presente na cidade do Rio de Janeiro no século XVIII e XIX[ii] – em A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro.

Em 2001, exercícios aeróbicos, de alongamento e de musculação são citados em Copromancia, na obra Secreções, excreções e desatinos. Corrida na praia aparece em Caderninhos de nomes no ano seguinte em Pequenas criaturas. Em Laurinha surge mais uma vez uma referência ao futebol no livro Ela e outras mulheres de 2006. E a relação de Lima Barreto com o futebol é citada no romance O seminarista de 2009.

Mas essas e outras histórias ficarão para os próximos posts. Em todo caso, mais do que uma mera provocação, denominar a literatura de Rubem Fonseca de esportiva pode ser uma forma de perturbar os limites e as fronteiras do campo da História do Esporte; uma maneira talvez que nos ajude a entrecruzar várias histórias: do corpo, de gênero, da cidade, de classe, da discriminação racial, da homofobia, das diferentes modalidades e práticas esportivas, das emoções, da estética, da literatura, entre muitas outras histórias.

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[i] AUGUSTO, Sergio. Estreia consagradora. In: FONSECA, Rubem. Os prisioneiros. Rio de Janeiro: Agir, 2009.

[ii] Maiores informações ver MELO, Victor Andrade de. MUDANÇAS NOS PADRÕES DE SOCIABILIDADE E DIVERSÃO: O jogo da bola no Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). História,  Franca ,  v. 35,  e105,    2016 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742016000100514&lng=en&nrm=iso>. access on  17  Apr.  2017.  Epub Dec 19, 2016.  http://dx.doi.org/10.1590/1980-436920160000000105.


Educação Física, Higiene e Saúde Pública na Corte – Parte 3

20/11/2016

por Fabio Peres[i]

No século XIX, a educação física e, em particular, a ginástica se tornaram pouco a pouco em um domínio defendido pelo saber médico. Como mencionado em outras ocasiões (por exemplo, aqui e aqui), tratou-se de uma relação que se consolidou no decorrer daquele século, apesar de inúmeras controvérsias. Não apenas a comunidade médico-científica teve que “lutar” pela legitimação de suas práticas e saberes junto ao Estado e à sociedade, como também teve que lidar internamente com a regulação dos conflitos e dilemas dessa mesma comunidade.

A própria emergência da educação física nos periódicos médicos do século XIX pode ser lida como justaposição entre, por um lado, a formação e, por isso, controle de uma comunidade médico-científica que estava se conformando no período e, por outro, a instrução de um público mais amplo, reforçando a sua legitimação enquanto saber médico.

Um capítulo dessa história, mostrado em um post anterior, foi a elaboração em 1830 do relatório da Comissão de Salubridade Geral, no qual o tema foi abordado[ii]. Outro indício importante desse processo se deu dois anos depois, em 1832. A ginástica voltaria a ser objeto de atenção no Semanário de Saúde Pública (11/08/1832, n.113). A ata da sessão realizada no dia 14 de julho daquele ano informa que o capitão Guilherme Luiz Taube entregou à Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (SMRJ), para avaliação, uma memória intitulada A Short Treatise on the Physic, and Moral Effects of Gymnastic, and Kalistenic Exercises.

Taube na ocasião tinha em mente duas iniciativas: a tradução do material apresentado, escrito em inglês e abrir um estabelecimento para oferecer aulas de ginástica. O sueco exercera o cargo de mestre em um colégio de ginástica em Nova York. No Brasil, atuara como capitão do Exército Imperial (é possível, portanto, que tenha chegado depois de 1822), tendo se casado com uma brasileira. Ficara desempregado em função dos desdobramentos da Lei de 24 de Novembro de 1830[iii], motivo pelo qual desejava ministrar aulas.

Guilherme Taube solicitava que a SMRJ emitisse um parecer sobre seu tratado, atestando os benefícios dos exercícios ginásticos. A intenção era que a escola de ginástica, que pretendia estabelecer na capital, tivesse o respaldo científico da entidade. Na mesma sessão, ficara definido que o relator do parecer seria o médico De-Simoni, membro titular e secretario perpétuo da SMRJ.

Relatorio sobre huma memoria do Sr. Guilherme Luiz Taube acerca dos effeitos physicos e moraes dos exercicios gymnasticos: lido na Sociedade de Medecina do Rio de Janeiro, em 4 de agosto de 1832 (Simoni, Luiz Vicente de, 1792-1881)

Relatorio sobre huma memoria do Sr. Guilherme Luiz Taube acerca dos effeitos physicos e moraes dos exercicios gymnasticos: lido na Sociedade de Medecina do Rio de Janeiro, em 4 de agosto de 1832 (Simoni, Luiz Vicente de, 1792-1881)

 

Menos de um mês depois, o relatório foi lido em uma das sessões da SMRJ, sendo depois publicado nas edições do Semanário de Saúde Pública[iv] (o relatório completo pode ser acessado aqui). Luiz Vicente De-Simoni percebe a validade do material, mesmo reconhecendo que carece de base científica:

A Memória que o Sr. Guilherme Luiz Taube apresentou a esta Sociedade, e de cujo exame vos dignastes encarregar-me, não é trabalho de um escritor que se proponha ilustrar esta parte da ciência, mas sim de um indivíduo, que, tencionando estabelecer neste pais uma escola, aonde os exercícios ginásticos sejam praticados debaixo da sua direção; dirige-se a prevenir o público em favor do seu estabelecimento, e do objeto dele; o que, para acreditar perante o mesmo público a utilidade física, e moral deles, assim como a veracidade das asserções com que ele a afiança no seu escrito, recorre a esta Sociedade submetendo ao seu juízo e aprovação o mencionado seu trabalho; não para ela julgar da sua perfeição como obra, mas da sua veracidade como peça dirigida a um público que pode duvidar dos princípios nela expendidos, e da utilidade da instituição que ele se propõe (1832, n.119, p. 413).

Mesmo não tendo acesso ao tratado entregue à SMRJ, é possível dimensionar, pelo relatório escrito por De-Simoni, os principais argumentos que Guilherme Taube utilizou para solicitar um parecer favorável da instituição médica. Além da descrição dos possíveis benefícios físicos (como desenvolvimento da força muscular; aumento da flexibilidade, da agilidade e da energia; diminuição dos efeitos da vida sedentária) e dos morais (como a interdependência do intelecto e do físico, o incremento do brio, da coragem, da confiança, entre outros), Guilherme Taube “assevera que em diferentes partes do mundo, entre as nações mais clássicas, os exercícios ginásticos têm sido adotados, animados, e muito proveitosos, e como tais julgados necessários pelos Médicos” (1832, p. 414).

Para além dos argumentos utilizados por Taube, segundo De-Simoni já havia na época posições consolidadas, pelo menos em parte da comunidade médica, sobre o valor da ginástica:

A Sociedade sem garantir a perfectibilidade do método que o Sr. Taube se propõe empregar, o que ele não expende, pode emitir o seu parecer em geral acerca da utilidade dos estabelecimentos ginásticos, o afiançar que quanto o Sr. Taube assevera no seu escrito, sobre esta utilidade é uma verdade reconhecida por todos os Médicos, e escritores ilustrados […]. Os Médicos mais distintos por seu saber tem abonado a ginástica em todos os tempos e em todas as partes do mundo instruído (1832, p. 414).

De acordo com o membro titular da SMRJ, o parecer positivo refere-se a uma preocupação maior, ao reconhecimento da relação entre saúde e condições sociais, tão cara à naquele início de século:

[…] pois o fim desta declaração não é somente beneficiar um indivíduo que os estabelece, mas a população no meio da qual o estabelecimento vai ser erigido; por isso que as vantagens que este pode produzir podem ser grandes, e gerais, e são incontestáveis, e certas quando os exercícios sejam nele praticados com método, e debaixo dos preceitos da higiene. Trata-se neste caso, não de favorecer a instituição de hum simples estabelecimento particular, mas a de um estabelecimento público cujas vantagens poderão ser aproveitadas por muitas pessoas, e principalmente pela classe mais débil, e enferma da população; estabelecimento que até poderá influir sobre a conservação da saúde dos que o não forem, e sobre o melhoramento da constituição individual da nossa mocidade; desenvolvendo melhor seus órgãos, e a sua forca para melhor defender e servir a pátria, quer como Soldados, quer como Cidadãos, e artífices (1832, p. 414).

Para De-Simoni, a prática poderia “exercer uma grande influência sobre o caráter, a glória, e prosperidade de uma nação, e não só ela é capaz de a beneficiar debaixo de um ponto de vista higiênico, como também social, e politico” (1832, p. 415). O médico enfatizou que a relação entre a prática corporal e as ciências médicas não era uma novidade, lançando mão de um artifício argumentativo: uma mobilização da história:

As vantagens pois da ginástica não são problemáticas a face da Medicina; elas são atestadas pela história, e afiançadas pela ciência; nada há mais reconhecido, e provado do que elas. A opinião favorável dos Médicos de todos os países e de todos os séculos podemos francamente adicionar a nossa, e favorecer com ela a instituição de um estabelecimento a ela destinado, tal como o que se propõe o Sr. Taube (1832, p. 416).

Não temos informação se Guilherme Luiz Taube abriu, de fato, o referido estabelecimento que ofereceria aulas de ginástica na Corte. O que sabemos, através dos jornais, é que Taube foi nomeado mestre de ginástica do Colégio Pedro II em 1841[v].

De todo modo, pode-se entrever que já naquele momento não se tratava somente de uma ginástica, mas de uma ginástica médica, que se institucionalizava à luz dos preceitos da higiene e da saúde pública, mesmo que ainda de forma incipiente.

Anos mais tarde, a tentativa de fundar um instituto ginástico e ortopédico na Corte evidenciaria cisões e divergências na comunidade médica. Mas essa história ficará para um próximo post.

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[i] Esse post é um desdobramento das pesquisas realizadas com Victor Andrade de Melo no pós-doutorado, entre 2012-2015, no PPGHC/IH/UFRJ. Parte dele foi publicado em MELO, V. A.; PERES, F.F. A gymnastica no tempo do Império. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014.

[ii] A ata da sessão da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (19/6/1830), em que houve a aprovação do relatório,  foi posteriormente publicada no Semanário de Saúde Pública (9/4/1831).

[iii] Brasil. Lei de 24 de Novembro de 1830. Fixa as forças de terra para o anno financeiro de 1831-1832 (Coleção de Leis do Império do Brasil – 1830, p. 55, v. 1, pt. I). Disponível em: <http://www2.camara.gov.br/legin/fed/lei_sn/1824-1899/lei-37992-24-novembro-1830-565665-publicacaooriginal-89410-pl.html>. Acesso em: 18 de novembro de 2016. Por essa lei, à exceção daqueles que participaram da campanha da independência, foram mutilados ou gravemente feridos em conflitos, os estrangeiros foram demitidos e proibidos no Exército.

[iv] Inicialmente, uma síntese do parecer emitido por De-Simoni foi publicada no número 117 de 8 de setembro de 1832 (p. 405). Foi depois publicado na íntegra no número 119 de 22 de setembro de 1832 (p. 413-416).

[v] Jornal do Commercio, 8/10/1841, p.1


Educação Física, Higiene e Saúde Pública na Corte – Parte 2

10/05/2015

por Fabio Peres[i]

Em um post anterior destacamos como alguns relatórios da Junta Central de Hygiene Pública no final do século XIX deixavam entrever, não apenas o estabelecimento da relação entre educação física, exercícios corporais, saúde pública e higiene, como também sua institucionalização: isto é, enquanto saber médico materializado nas ações do Estado.

Contudo, como foi mencionado, essa relação não era gratuita, nem óbvia e muito menos incontestada. Tratava-se de uma construção que se deu de forma lenta, paulatina e muitas vezes pouca harmônica entre atores, práticas e ideias que configuravam o saber médico-científico do século XIX.

Na verdade, médicos da Corte já debatiam sobre a importância de tal associação desde, pelo menos, a década 1830. Periódicos médicos como o Semanário de Saúde Pública (1831-1833), Revista Médica Fluminense (1835-1841), a Revista Médica Brasileira (1841-1843), entre outros, revelam como a educação física se tornou pouco a pouco um domínio defendido pelos esculápios (Melo, Peres, 2014)[ii].

Em uma das sessões da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (19/06/1830), cuja a ata foi publicada no Semanário de Saúde Pública em 1831 (09/04), houve apresentação do relatório da Comissão de Salubridade Geral, no qual a educação física era mencionada.

Vale destacar que tal comissão era responsável por apresentar sugestões para melhoramentos da higiene pública que a SMRJ defenderia junto ao Estado, que naquele mesmo ano reconhecera a entidade como colaboradora no aperfeiçoamento das questões ligadas à saúde.

1831.04.09.Semanario.de.Saude.Publica.ed.p77

No relatório que foi aprovado pela Sociedade, dois pontos reforçam a ideia de que a educação física e, em particular, a ginástica, começavam a se institucionalizar no saber médico da cidade.

Por um lado, havia uma maior preocupação com a educação física das crianças.  A proposta era que, dada a existência de diversas obras sobre o tema publicadas em francês e inglês, a SMRJ deveria lançar uma contribuição própria que reunisse o que sobre o assunto “parecesse melhor”. O objetivo principal era a circulação, “em língua vulgar” (p. 77), de informações que fossem úteis a “todos os pais de família”.

Por outro, ao listar uma série de tópicos que deveriam ser considerados pelo poder público, tendo em vista a questão da salubridade, o relatório fez menção à ginástica, considerada pela Comissão como uma prática ligada à saúde e aos divertimentos públicos, cuja importância deveria ser reconhecida pelo governo:

Ainda nos restaria muito a dizer sobre a construção viciosa das nossas casas, o estreitamento das ruas, […] a falta de passeios, de plantações de árvores nas praças, […] a falta de exercícios ginásticos, em que muito ganharia o povo, e o Governo, que deve interessar-se em vê-lo alegre e divertido […] (1831, p. 79).

Chama atenção a chave pela qual são lidas tais referências à educação física e à ginástica. A Comissão defendia a interdependência entre higiene privada e higiene pública como um dos eixos norteadores da elaboração do documento, revelando as relações entre indivíduo e sociedade que permeavam a concepção de saúde naquela ocasião.

Poucos anos depois a educação física e a ginástica voltariam a ser temas debatidos pelos médicos, quando a SMRJ é procurada por um não-médico para dar um parecer sobre um tratado de sua autoria . A intenção do autor era abrir um estabelecimento que oferecesse aulas de ginástica, obtendo antes o respaldo da Sociedade Médica da Corte. Mas essa história fica para um próximo post.

[i] Esse post é fruto das conversas e pesquisas realizadas no âmbito do projeto “O corpo da nação: educando o físico, disciplinando o espírito, forjando o país: as práticas corporais institucionalizadas na sociedade da Corte (1831-1889)”, que conta com o apoio da FAPERJ e do CNPq e é coordenado por Victor Andrade de Melo.

[ii] Maiores informações ver MELO, V. A.; PERES, F.F. A gymnastica no tempo do Império. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014.


Ginástica e carnaval

13/02/2015

por Victor Andrade de Melo

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No nosso cronograma anual, coube-me escrever o post da segunda de carnaval. Grande injustiça para com um carnavalesco fervoroso!! Como escrever algo decente já inebriado pelas festividades momescas? Como produzir algo pensando nos dias mais felizes do ano que finalmente chegaram depois de insuportáveis mais de 300 dias sem carnaval?

Farei então um post híbrido, meio informação, meio festa! A parte da informação versará sobre os bailes de carnaval em uma sociedade ginástica do século XIX. A festa será celebrada por flashs dos blocos cariocas que mais gosto.

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Vários clubes e sociedades ginásticas promoveram bailes de carnaval no Rio de Janeiro do século XIX. Por exemplo, a Sociedade Francesa, que era bastante festiva e cujos eventos tinham grande repercussão nos jornais fluminenses, promovia festas carnavalescas muito elogiadas. Foi inclusive uma das responsáveis por introduzir na cidade os bailes de máscaras, durante décadas muito apreciados.

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Nenhuma sociedade ginástica ganhou tanto renome no carnaval quanto o Congresso Ginástico Português. Seu formato mais popular e a animação de suas festas marcou época! A agremiação chegou a promover eventos conjuntos com outros grupos de carnaval, como os Fenianos. Como se anunciou em certa ocasião:

Mais uma vez a rapaziada congressista, eterna amiga e aliada do soberano-Zé-povinho, resolveu franquear os confortáveis e luxuosos salões de seu palácio a todos os sexos, idades e condições que constituem o sempre respeitável publico ordeiro e folgazão, para com ele fraternizar nos dois esplêndidos bailes à fantasia (Gazeta de Notícias, 16/2/1879).

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Em todos os carnavais, os eventos do Congresso marcavam lugar na agenda dos foliões. Eram considerados entre os mais animados das festas momescas. João Coelho, em 1885, dedicou um folhetim exclusivamente a um baile à fantasia do clube. O cronista era só elogios: à organização da atividade, à ornamentação do edifício, à qualidade da música e da comida, ao clima agradável e aos modos dos presentes. Curiosamente, apresentações de ginástica integravam a programação dessas festividades, algo improvável nos dias de hoje.

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De fato, com o decorrer do tempo, o clube conseguiu construir uma marca, distinguindo-se do Clube Ginástico: “O Congresso não tem retórica, tem músculos e vive pela elasticidade e fortaleza deles. Há uma coisa que paira mais baixo do que a filosofia, e tem aspirações muito mais modestas – a caridade”. Para o cronista, a agremiação não ficava de braços cruzados esperando privilégios, entabulava iniciativas que uniam o “útil ao agradável”. Por reconhecer os benefícios de sua ação, enviava “um agradecimento sincero de brasileiro patriota ao Congresso Ginástico Português”.

 Curiosamente, a sua vinculação com o carnaval fazia parte do delineamento desse perfil.

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