Escotismo, atividades físicas e educação do corpo em Maria Montessori: um olhar a partir da obra “Da Infância à Adolescência”

19/10/2021

por Eduardo Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

No texto de hoje, irei problematizar alguns dos olhares lançados por Maria Montessori na obra “Da Infância à Adolescência”, acerca de uma ideia de inclusão das atividades físicas e da educação do corpo no processo de desenvolvimento das crianças e adolescentes. De forma mais específica e tendo como base os olhares da autora, abordarei a importância do escotismo como modelo de inclusão na educação escolar, para uma proposta que se relacione com o desenvolvimento autônomo, livre e plural de crianças, adolescentes e jovens, fatores fundamentais na metodologia montessoriana.

Maria Montessori. Foto: Lara Montessori.

Esse pequeno artigo está inserido no projeto maior de pós-doutorado intitulado “Educação do corpo em Maria Montessori: uma análise histórica, prática e metodológica (1909-1950)”, que estou desenvolvendo no âmbito da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FE/UFRJ). Trata-se de uma investigação que tem por objetivo analisar historicamente, entendendo as obras de Maria Montessori enquanto fontes, as possíveis contribuições da autora para a construção de um caminho que se relacione com o ensino da educação física e da cultura corporal.

Antes de destacar os olhares com base nas questões aqui propostas, é válido realizar uma pequena introdução acerca de pontos importantes que se relacionam com o método montessori. Assim, destacar quem foi a autora e a base de sua pedagogia científica, se faz importante, notadamente para o leitor que ainda não se deparou com a temática até esse presente momento.

Maria Tecla Artemisia Montessori nasceu em 31 de agosto de 1870 (Chiaravella, Itália), tendo falecido em 06 de maio de 1952 (Noodwijk aan Zee, Holanda). Nascida na Itália recém unificada, Montessori viveu sua infância e adolescência em um país ainda jovem, no que se diz respeito a formação de seu Estado-nação. Antes de adentrar profissionalmente no campo da Educação, fez cursos técnicos na área de Engenharia e se graduou em Medicina, tendo se especializado no campo da Psiquiatria médica.

Após começar a estudar a rotina de crianças em suas atuações médicas, cursou Pedagogia e iniciou o processo investigativo que posteriormente culminaria na construção de sua metodologia científica difundida mundialmente e que se tornaria um contraponto à educação tradicional. Atuando na área de psiquiatria, começou a reconhecer o poder da educação enquanto ferramenta de modificação do ser social, observando o tratamento inadequado que era dado a crianças em asilos e orfanatos.

No aprofundamento de sua pedagogia, separou o desenvolvimento dos seres humanos, a partir de suas observações criteriosas, em quatro planos de desenvolvimento:

. 1º plano: 0 a 6 anos

. 2º plano: 6 a 12 anos

. 3º plano: 12 a 18 anos

. 4º plano: 18 a 24 anos

Na base de sua metodologia no âmbito escolar, Montessori definiu a separação das crianças e adolescentes em classes agrupadas, normalmente por três anos. Nesses agrupamentos, os conhecimentos seriam distribuídos pelos campos da “Educação Cósmica”, “Educação como ciência” e “Autoeducação”, sendo o encontro com a vida autônoma, a coletividade e as atividades físicas, alguns dos pilares a serem no método analisados.

A passagem do segundo para o terceiro plano, se torna importante para pensarmos o desenvolvimento social dos indivíduos, para além de seus avanços cognitivos. Por isso, fatores como a construção da autonomia, do caráter e de preceitos morais, aparecem na obra “Da Infância à Adolescência”, onde a autora destaca exatamente alguns dos processos inerentes a esses dois planos.

Entendendo o livro aqui problematizado como uma fonte histórica, é válido destacar que ele explicita olhares e pensamentos da autora, de acordo com seu contexto de publicação original (foi lançado em 1948). Portanto, mesmo se tratando de uma obra que propõe difundir parte da metodologia desenvolvida por Montessori, sendo aplicada até os dias atuais, é importante fazer tais ressalvas, para assim evitarmos possíveis anacronismos ou análises rasas.

A perspectiva da pedagogia montessoriana, ao contrário de determinar um caminho pré-definido a ser seguido, tem como base a construção de um cenário de desenvolvimento autônomo do indivíduo, prezando pelo respeito, a pluralidade e o relativismo cultural.

Por isso, estabelecer uma relação que extrapole os muros da escola, possibilita a consolidação de contatos sociais necessários para o desenvolvimento das crianças, adolescentes ou jovens. Assim, se concretiza um espaço a ser ocupado de forma consciente pelos indivíduos em desenvolvimento. Esse contato colabora diretamente para o pleno avanço de suas respectivas personalidades, onde um espaço fechado ou já determinado, seria um grande limitador (MONTESSORI, 2006, p. 18). A autora compara o espaço social a ser ocupado pelos jovens com uma teia de aranha:

Igualmente, a teia da aranha ocupa um espaço bem maior que o próprio animal. E é essa teia que representa seu campo de ação, prendendo os insetos que a encontram. […] Da mesma forma que essa teia, o espírito da criança se constrói de acordo com um plano exato; e essa construção abstrata lhe permite alcançar o que se passa em seu campo, fora de seu limite inicial.

[…]

De acordo com a criança viva, numa civilização simples ou num mundo complicado, sua teia será mais ou menos vasta e lhe permitirá atingir mais ou menos objetivos (MONTESSORI, 2006, p. 19 e 20).

Portanto, estabelecer um processo educacional que valorize a interação social, o contato com o mundo e o conhecimento autônomo do mesmo, é aquilo que defende a autora, pois “uma educação que consiste em corrigir a criança, ou a fazê-la aceitar a supressão do que constitui verdadeiramente sua existência, é uma educação que leva a criança a uma anomalia” (MONTESSORI, 2006, p. 20).

Montessori destaca a importância do escotismo como alternativa complementar ao que é produzido na vida escolar, ou como possibilidade de inclusão parcial de suas atividades no âmbito das escolas montessorianas (como, por exemplo, na realização de acampamentos ou trabalhos de campo). Para a autora, trata-se de um exemplo interessante por promover na extensão da escola uma vida pautada na organização, autonomia e respeito, com base nas atividades físicas, na coletividade e na interação social (MONTESSORI, 2006, p. 20 e 21).

Como definido na página Escoteiros do Brasil, “O Escotismo é um movimento de educação não formal, que complementa os esforços da família, escola e outras instituições e se propõe a oferecer atividades progressivas, atraentes e variadas, respeitando as diferentes fases de desenvolvimento de crianças, adolescentes e jovens, considerando as particularidades do seu desenvolvimento” (https://escoteiros.org.br/beneficios-do-escotismo/).

Foto: Portal Escoteiros do Brasil.

Montessori destacava o quanto, dentro de uma perspectiva social, o escotismo poderia ser um modelo extracurricular a ser, de alguma forma, inserido no âmbito das escolas. Assim, o desenvolvimento moral dos jovens ocorreria de forma plena, plural e coesa. Destaca a autora que:

Se o escotismo obteve sucesso, é porque ele trouxe princípios morais na reunião de crianças. Ele valoriza o que se deve e o que não se deve fazer. E as crianças que aderem a esses grupos não fazem, geralmente, o que lhes é proibido no escotismo. Há aí uma atração que se torna ponto de partida: nascimento da dignidade (MONTESSORI, 2006, p. 25).

Esse caminho faz com que se desenvolva diferentes formas de interação e separa o simples “passeio escolar” de um projeto que se relacione com um trabalho de campo ativo. O “sair apenas por sair” se torna algo passivo, não necessariamente garantindo o capital cultural esperado aos alunos. Enquanto isso, a saída com participação, tarefas e afazeres, se faz diferente, caracterizando assim um passeio ativo (MONTESSORI, 2006, p. 25).

É nesse olhar que o diálogo com o escotismo aparece como um possível processo de desenvolvimento das crianças socialmente. Como destaca a autora, o escotismo promove uma ampla reunião de crianças, onde essas solicitam suas adesões socialmente, sendo a mesma sociedade onde se propõe um possível caminho moral. Assim, “a criança pode passear ou recusar; nenhum professor a obriga a entrar nessa sociedade; mas é de espontânea vontade que ela deve obedecer aos princípios se deseja fazer parte dela” (MONTESSORI, 2006, p. 26). Percebe-se aí, um verdadeiro processo de desenvolvimento da autonomia, fator fundamental na cultura dos escoteiros e que, na metodologia montessoriana, se faz essencial desde os primórdios do primeiro plano da vida humana. Explicita a autora que

Os escoteiros se impõem, então, uma regra de vida cuja dificuldade e dureza ultrapassam o que se creria de ser suportado por crianças dessa idade. Assim, as longas caminhadas, as noites ao ar livre, a responsabilidade de seus próprios atos, o fogo, os campos… representam um conjunto de esforços coletivos. O princípio moral que se encontra na base precisa de uma adesão do indivíduo: é a adesão do indivíduo à sociedade. E isso é essencial (MONTESSORI, 2006, p. 27).

A partir disso, admita-se relacionar essa proposta montessoriana com a construção de uma autonomia que se fortalece a partir do contato com a natureza, as atividades físicas, o trabalho coletivo e na terra. É a explicitação plena daquilo que Montessori classificou como um dos pilares de seu método pedagógico, a Educação Cósmica, que conglomera diferentes conhecimentos que vão desde as Ciências da Natureza até às humanidades, passando por uma ideia de vida prática. Assim sendo, como destaca, “falar da vida do homem na superfície do globo é ensinar História” (MONTESSORI, 2006, p. 51).

Esse contato com a natureza fortalece, também, o lado social dos indivíduos. “Trabalhar na terra” é para Montessori, antes de tudo, esse encontro entre natureza, seres humanos e cultura, indispensável para a consolidação de uma sociedade mais justa e progressista. Sem ser anacrônico, já que como destacado a obra original foi escrita em 1948, é plenamente possível afirmar que tais inquietações e propostas se aplicam de forma possível na atualidade. Infere Montessori que,

Reforcemos sobre os trabalhos práticos (com a terra, os gases etc.). Façamos a criança participar de algum trabalho social; ajudemo-la, intelectualmente, através dos estudos, a penetrar o trabalho do homem na sociedade, a fim de desenvolver nela essa compreensão humanitária e essa solidariedade que faltam tanto hoje em dia.

[…]

Nessa batalha feroz em que a vida social se transformou, o homem tem necessidade, além de sua coragem, de um caráter forte e de uma percepção rápida. Torna-se indispensável ao mesmo tempo reforçar seus princípios por um roteiro moral, e desfrutar de capacidades práticas, para fazer face às dificuldades da vida (MONTESSORI, 2006, p. 111 e 113).

Nessa perspectiva, Montessori destaca também o quanto o processo da educação do corpo, notadamente a partir de atividades físicas e/ou esportivas, fazem parte dessa caminhada. A autora, ao analisar o tema no contexto em questão, marcado ainda por ser um período em que os debates acerca do ensino da Educação Física passavam muitas das vezes por um olhar militarista ou eugênico, destaca que

Há pouco tempo, introduziam-se os esportes ao ar livre na educação, para serem oferecidos exercícios físicos aos jovens que viviam fechados e sedentários; hoje o que se sente é a necessidade de uma educação mais dinâmica do caráter e de uma consciência clara da realidade social.

[…]

uma existência ao ar livre, cuidados individuais, uma alimentação saudável, devem ser as primeiras condições para a organização de um centro de estudos e de trabalho (MONTESSORI, 2006, p. 115 e 126).

Assim, percebe-se que as discussões inseridas em uma proposta de “vida saudável”, relacionadas diretamente com o trabalho na terra, a socialização, o contato com a natureza, a boa alimentação, o olhar coletivo e, também, as atividades físicas, são pontos que Montessori destacou como imprescindíveis no desenvolver do ser humano, sendo o escotismo uma exemplificação de proposta que pode ser ampliada para os espaços escolares, notadamente no período em que a autora classifica como sendo o segundo plano de desenvolvimento (que vai aproximadamente dos 6 os 12 anos).

Referências:

MONTESSORI, Maria [1948]. Da Infância à Adolescência. Tradução: Sonia Maria Alvarenga Braga. Rio de Janeiro: Zig Editora, 2006.


Nani e os esportes

11/10/2021

André Alexandre Guimarães Couto

Olá, leitoras(es):

Neste breve blog de hoje, vamos fazer uma singela homenagem ao cartunista Nani, falecido no último dia 8 de outubro aos 70 anos de idade, e contabilizando mais uma vítima fatal da pandemia de Covid-19.

Mineiro de Esmeraldas, cidade da grande Belo Horizonte, Ernani Luiz Lucas, o Nani, apesar de ser mais conhecido como cartunista, também era escritor e roteirista. Trabalhou em vários jornais da cidade do Rio de Janeiro, como O Globo, Última Hora, Diário de Notícias, Tribuna da Imprensa, Jornal dos Sports e, principalmente, O Dia.

Sua carreira, porém, tinha iniciado no jornal O Diário, de BH. Poucos anos depois, partia para o Rio de Janeiro, colaborando com o emblemático periódico O Pasquim. Neste jornal, Nani desenvolveu ainda mais sua verve crítica sobre a conjuntura política no país, em plena ditadura militar no início dos anos 1970. E sempre com muito humor, aliás bastante humor, não só pela exigência da linha editorial do jornal em que passara a atuar, mas também por ser uma das suas características principais como artista. Inclusive, nesta arte, foi influenciado por nomes importantes como Millôr Fernandes, Henfil, Carlos Estêvão e Jaguar.

Criaria, junto com outros artistas, o jornal O Pingente e atuaria também na versão brasileira da revista Mad. Seu talento o levou para a televisão, assumindo charges no Jornal da Globo e trabalhando como roteirista em vários programas humorísticos da Rede Globo, como shows do Chico Anysio (Chico Total e Escolinha do Professor Raimundo), Casseta & Planeta, Sai de Baixo e Zorra Total.

Escreveu vários livros que continham charges, cartuns e textos humorísticos diversos, criticando não apenas a conjuntura política e social brasileira, mas também o politicamente correto, os valores morais e conservadores, a religião e o sexo, enfim, todo tipo de miséria humana que pudesse ser explorada. Desta forma, podemos citar, dentre tantos títulos, Batom na Cueca, Humor Barra Pesada, Humor do Miserê, Humor Politicamente Incorreto e Orai pornô.

HUMOR DO MISERÊ - Nani
Figura 1: Capa do livro Humor no Miserê (2011).
Fonte: https://www.lpm.com.br/site/default.asp?TroncoID=805135&SecaoID=0&SubsecaoID=0&Template=../livros/layout_autor.asp&AutorID=549282.

Nos esportes, Nani, atuou no Jornal dos Sports (com a tirinha De Letra), e revelara em entrevista dada à revista Bravo! em 2017 que ia pouco aos estádios e que produzia de acordo com o que lia nos jornais ou ouvia no rádio sobre os jogos de futebol. Inclusive, nesta entrevista, informara que: (…) Cismava com os nomes, por exemplo: cheguei a desenhar um cara velho e o cara era novo, um de cabelo longo e o jogador era careca (…).

Foi justamente por uma charge esportiva, que Nani se desentendeu com Ota, cartunista e editor da revista Mad (falecido no mês de setembro deste ano). Ao fazer um trabalho sobre expressões do futebol, desenhara dois jogadores se agarrando com o título Cruzando na área. Ota se preocupara com a proibição da censura, mas as máquinas já tinham rodado milhares de exemplares, o que custou a saída de Nani da revista. Sexo e irreverência tornara-se uma das marcas principais de seu trabalho.

Nas últimas décadas, tornou-se um dos principais cartunistas de O Dia, um jornal popular e que abria um leque de opções de cobertura do cotidiano local e urbano, sem perder de vista as grandes questões nacionais. Os esportes também estavam na mira das atenções deste artista contemporâneo. como podemos observar abaixo, seja no olhar ácido e crítico aos Jogos Olímpicos de 2016, ou utilizando o esporte como metáfora para atingir determinado tema.

Cartuns de Nani
Figura 4: Militares no Governo Bolsonaro.
Fonte: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/cartuns-de-nani/.

Finalmente, cabe nos para além da homenagem ao artista, chamar a atenção para os usos de fontes como cartuns, charges e tirinhas em quadrinhos no ofício de historiador, seja pela diversidade imagética que os traços possam nos oferecer, seja pelo conteúdo crítico e humorístico sobre determinada questão, local ou nacional, moral e/ou social, individual ou coletiva, dentre outras possibilidades. Como todo tipo de fonte, merece um detalhamento metodológico, que leve em conta a suas respectivas condições de produção, assim como as (inter)subjetividades dos autores em questão. Teríamos, portanto, um arsenal criativo de fontes para ser analisado, aguardando pesquisas mais contemporâneas sobre diversos temas, inclusive nos esportes.

Referências:

“Charge a favor não é charge, é cartilha”. Entrevista de Nani para revista Bravo!, por Rafael Spaca. Disponível em: https://medium.com/revista-bravo/charge-a-favor-n%C3%A3o-%C3%A9-charge-%C3%A9-cartilha-38c90848082c. Acesso em: 11/10/2021.

Vida & Obra – Nani. Disponível em: https://www.lpm.com.br/site/default.asp?TroncoID=805135&SecaoID=0&SubsecaoID=0&Template=../livros/layout_autor.asp&AutorID=549282. Acesso em: 11/10/2021.


O ESPORTE NO TRAÇADO URBANO ORIGINAL DE GOIÂNIA

04/10/2021

Por Jean Carlo Ribeiro (UFT, campus Miracema)

jeancarlo@mail.uft.edu.br

Goiânia, capital do estado de Goiás, começou a ser construída a partir do lançamento de sua pedra fundamental em 1933. Efetivada como município em 1935 e transformada oficialmente em capital em 1937, a cidade foi projetada com uma proposta de ressignificação social ambicionada para o Brasil recém-saído da Primeira República.

As cidades-metrópoles seriam o palco idealizado para a “regeneração humana” em voga. Projetada a partir de valores higiênicos, Goiânia definitivamente incluiria Goiás na reestruturação da nação proposta pelo governo de Getúlio Vargas que, em tese, passava pela interiorização, unindo o litoral ao sertão, promovendo o equilíbrio das suas regiões, amenizando suas desigualdades. A nova capital planejada seria um “símbolo civilizador”, referência desse novo país na hinterlândia brasileira (CHAUL, 1999; CHAUL, 2009).

Incluídas nesse propósito, as práticas físico-esportivas fariam parte do conjunto desse programa político que intencionava cultivar novos hábitos, costumes e experiências que alimentariam uma cultura urbana modernizada (DRUMOND, 2009).

À serviço do governo interventor em Goiás, o engenheiro civil Armando Augusto de Godoy, à época chefe da repartição de urbanismo do Distrito Federal assinou um relatório em 24 de abril de 1933, validando a área para a construção da nova capital do estado nas proximidades da pequena cidade de Campinas, localidade elevada à categoria de município em 1914, cujo censo de 1920 denunciou uma população de 3.878 moradores (BRASIL, 1929).

Vista aérea da cidade de Campinas em 1933. Fonte: Arquivo Corrêa Lima (Coleção de fotos). Disponível em: Pires (2005, p. 289).

O relatório de Godoy buscava legitimar de maneira “técnica” e “científica” a escolha argumentando sobre a “ação civilizadora e econômica” de uma cidade moderna, apontando a falta de um grande centro urbano, como principal causa do “atraso” do estado de Goiás em relação a outras unidades federativas (GODOY, 1933).

Com a definição do local, faltava o projeto de cidade. Com a recusa de Armando de Godoy para tal ofício, surgia o nome de Attílio Corrêa Lima, renomado arquiteto e urbanista com formação e experiência em planejamento urbano no Brasil e na Europa, talvez um dos raros brasileiros na época, capaz de atender as expectativas de modernidade almejadas.

Tendo pela frente o desafio de colocar uma “cidade no papel”, em julho de 1933 o arquiteto se mudaria do Rio de Janeiro para o sertão goiano com a esposa e o filho de 4 anos, ocupando uma das três casas de madeira construídas no canteiro de obras (DINIZ, 2007).

O decreto estadual n° 3.547 de 6 de julho de 1933, previa a estrutura do projeto urbanístico e o que deveria conter no traçado da nova capital. Em seu item terceiro, letra “e”, como parte da organização do plano diretor da cidade, o documento apontava a previsão de terrenos para esportes e recreio, além de outros espaços que, em tese, seriam acolhedores à momentos de lazer, passeio, descanso e divertimento da futura população como sistemas de parques, jardins e arborização das ruas.

Cumprindo o decreto, Corrêa Lima demonstrou nos traços do plano original da cidade a influência do urbanismo clássico juntamente ao seu ideal estético de modernidade, traduzindo em larga medida, os desejos políticos do “moderno no sertão”. Ainda em 1933, apresentou um esboço desse traçado urbano, exposto na pesquisa de Diniz (2007). O destaque em cores feito pela autora, nos dá uma ideia de como a cidade foi pensada a partir de zonas e parques.

Implantação do traçado urbano de Corrêa Lima para Goiânia
Fonte: Arquivo Corrêa Lima. Disponível em: Diniz (2007, p. 123).

A seta na parte inferior à direita aponta para o norte. Ainda à direita do desenho, na cor marrom, está a cidade de Campinas (atualmente bairro de Goiânia), cuja praça central (hoje, Praça Joaquim Lúcio), dista aproximadamente 5 quilômetros de onde se iniciariam as obras do “Palácio do Governo” no “Centro Administrativo”, atual Praça Cívica (na cor branca).

Em preto, o “Setor Central” com destaque para o triângulo em vermelho, cujo vértice localizado no “Centro Administrativo”, dá origem às avenidas Araguaia, Goiás e Tocantins. A avenida Anhanguera forma a base do triângulo no eixo leste-oeste, apropriando-se de parte do traçado da antiga estrada de rodagem que ligava a cidade de Campinas ao então povoado de Leopoldo de Bulhões (linha cor-de-rosa) (PIRES, 2005).

Em cinza, o aeródromo com suas duas pistas ortogonais em formato de “cruz” nos sentidos norte-sul e leste-oeste. No projeto, cada uma possuía 1 quilômetro de extensão por 100 metros de largura. Na área em lilás à esquerda das pistas está o “setor Norte”, zona industrial estrategicamente alocada junto ao terminal ferroviário (em salmão).

Em roxo, o “Setor Sul”, tendo logo acima, em azul-turquesa, o “Parque Paineira”, área verde de 16 hectares (ha), localizada no ponto mais elevado do esboço, destinado ao reservatório de água da cidade (DINIZ, 2007).

Outros parques (em verde) protegiam nascentes e matas nativas. Em tom mais escuro, separando o “Setor Central” do “Setor Oeste” (em laranja), o “Parque dos Buritis”, com seus 40ha, destinados à preservação de uma nascente que seria represada com o intuito de formar um lago para atividades esportivas e recreativas.

Já em verde-limão, os “park-ways”, áreas lineares de preservação de matas ciliares dos córregos Botafogo (à esquerda da imagem) e Capim Puba (à direita). O “Parque Botafogo”, projetado para ser o maior e principal parque da cidade com uma área de 54ha, possuía “caminhos naturais”, segundo Corrêa Lima, destinados ao lazer da população (DINIZ, 2007).

À leste (parte esquerda do esboço), na margem direita do córrego Botafogo, Corrêa Lima propôs a abertura de um outro loteamento (em cinza), já prevendo a expansão da cidade. Apesar de estar obrigado a projetar inicialmente uma área para 15.000 moradores, o urbanista devia indicar na planta espaços para comportar uma população de 50.000 habitantes,

A nordeste, a “Represa do Jaó” (em azul-claro, à esquerda da imagem), contenção do rio Meia Ponte com a função de operar a usina hidrelétrica da cidade. Os 4km de comprimento e 500m de extensão em seu ponto mais largo, levaram o urbanista a pensar no local como um “centro de atrações esportivas”, ideal para a prática de diferentes esportes aquáticos e mais um espaço de lazer para a população.

A marca de paisagista se destacou na valorização de espaços ajardinados, como praças, vias públicas e estacionamentos arborizados para veículos. No projeto, a “Avenida Pedro Ludovico” (que, em 1935, seria renomeada para “Avenida Goiás”), “Eixo Monumental” projetado para ligar o centro administrativo à estação férrea, tinha 45% de sua área ajardinada a arborizada (DINIZ, 2007). Trabalhando com o conceito de áreas livres, os setores indicados para abrigar a primeira fase de povoação da cidade, eram contemplados com “playgrounds” (áreas internas nas quadras residenciais).

Ao todo, o primeiro plano urbanístico da nova capital contemplou uma área de 1.082ha, dos quais 375ha (aproximadamente 35%) eram de espaços públicos. Para a vivência de atividades físico-esportivas ou recreativas, foram destinados 162ha, ou seja, quase 15% de toda a área urbanizada da cidade, e 43% de seu espaço público. Além disso, a generosa oferta de parques indicava uma excelente relação de área verde por habitante (ACKEL, 2007).

Especificamente, em relação aos esportes, Corrêa Lima projetou um espaço de 8ha, destinado à prática de diferentes modalidades (MEDEIROS, 2010). Um complexo, nomeado de “Estádio Municipal”, foi alocado na extremidade sul do aeródromo no encontro entre as avenidas Paranaíba e Anhanguera. A praça esportiva era formada por um campo de futebol, pistas para atletismo, corridas e jogos atléticos, arquibancada (voltada para o nascente), 12 quadras de tênis, piscina e sede social (DINIZ, 2007).

A estrutura esportiva jamais sairia do papel em sua ideia e localização original. Somente em 07 de agosto de 1940, por ocasião da visita do presidente Getúlio Vargas à Goiânia (primeiro presidente da república a pisar solo goiano), é que seria lançada a pedra fundamental de um estádio na mesma avenida Paranaíba, mas na esquina com a rua 74, a pelo menos 700 metros do local indicado no plano urbanístico de Corrêa Lima.

Evidenciando símbolos de uma sociedade seletiva e excludente, o urbanista também sugeriu a fundação de um clube esportivo/recreativo exclusivo para as elites da nova capital. Para atender tal demanda, apontou a necessidade de uma área com espaço suficiente para a construção de uma sede social com salão de festas, pavilhão de apartamentos para hóspedes, garagens, além das quadras de tênis e piscina (DINIZ, 2007).

Já em 1935, uma área na avenida anhanguera ao norte do “Parque dos Buritis” foi doada pelo estado de Goiás a uma associação civil constituída para reunir a “alta classe goianiense”, proporcionando-lhes atividades esportivas, de lazer e convívio. Os associados ao “Automóvel Club de Goiaz” inauguraram ali sua sede em 1937.

Apesar do idealismo em atender as expectativas e necessidades de uma “nova sociedade”, em grande medida, boa parte das intenções implícitas no traçado urbano de Goiânia esboçado por Attílio Corrêa Lima em 1933, ficariam comprometidas ao longo do tempo ou sofreriam modificações por dificuldades econômicas, ou mudanças de interesses e prioridades. Alguns aspectos, concretizados totalmente ou em parte, com o tempo seriam reconfigurados atendendo novas tendências e comportamentos sociais relativos ao esporte e ao lazer.

Mesmo com este comprometimento, a inserção de elementos associados ao esporte e aos divertimentos chamam a atenção no traçado urbano inicial da cidade. Certamente estas ideias contribuíram para o início de um ciclo de transição, largamente tratado na historiografia goiana como de significativa transformação estrutural, sociocultural, política e econômica.

Referências

ACKEL, L. G. M. Attílio Correa Lima: uma trajetória para a modernidade. 2007. 342 f. Tese (Doutorado) – Faculdade de arquitetura e urbanismo, USP, São Paulo, 2007.

BRASIL. Recenseamento do Brasil. Realizado em 1° de setembro de 1920. Volume IV (4ª parte). População. População do Brazil por Estados, Municipios e Districtos, segundo o gráo de instrução, por idade, sexo e nacionalidade. Ministerio da Agricultura, Industria e Commercio – Directoria Geral de Estatística. Rio de Janeiro: Typ. da Estatística, 1929.

CHAUL, N. F. A construção de Goiânia e a transferência da capital. Goiânia: Ed. da UFG, 1999.

CHAUL, N. F. Goiânia: a capital do sertão. Revista UFG – Dossiê cidades planejadas na hinterlândia, Goiânia, ano XI, n. 6, p. 100-110, jun. 2009.

DINIZ, A. Goiânia de Attílio Corrêa Lima (1932-1935) – Ideal estético e realidade política. 2007. 240 f. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, UNB, Brasília, 2007.

DRUMOND, M. Vargas, Perón e o esporte: propaganda política e a imagem da nação. Estudos históricos. Rio de Janeiro, vol. 22, n. 44, p. 398-421, jul./dez. 2009.

GODOY, A. A. de. A mudança da capital do estado. Relatório apresentado ao sr. dr. interventor federal em Goiaz, pelo engenheiro urbanista dr. Armando de Godoi, relativo à construção da nova capital do Estado de Goiaz nas proximidades da cidade de Campinas. 24 abr. 1933. Correio Oficial – Estado de Goiaz, Goiaz, GO, ano LXXVII, n. 2.470, p. 3-7, 11 maio 1933.

GOIAZ. Decreto n° 3.547 de 6 de julho de 1933. Arquivo histórico do estado – Secretaria de Estado da Cultura (SECULT Goiás). Caixa n° 1 – Pedro Ludovico Teixeira, 1932, 1933, 1934, 1935 – Decretos: mudança da capital. Governo Pedro Ludovico Teixeira. 1933.

MEDEIROS, W. de A. Goiânia metrópole: sonho, vigília e despertar (1933/1973). 2010. 333 f. Tese (Doutorado) – Faculdade de História, UFG, Goiânia, 2010.

PIRES, J. R. Goiânia – La Ciudad Premoderna del “Cerrado” (1922-1938): Modernidad y Ciudad Jardín en la urbanística de la nueva capital del Estado de Goiás. 2005. 374 f. Tese (Doutorado em Teoría e Historia de la Arquitectura) – Departamento de Composición Arquitectónica, Escola Tècnica Superior D’Arquitectura de Barcelona, Universitat Politecnica de Catalunya, 2005.

 

Para saber mais

Esse texto foi elaborado a partir da tese de doutorado, abaixo identificada. Ainda em 2021 será publicado o livro homônimo pela Editora Kelps de Goiânia.

RIBEIRO, Jean Carlo. A capital dos esportes: poder, idealismo e hábitos físico-esportivos no surgimento de Goiânia (1930-1945). 2020, 187 f. Tese (Doutorado em Estudos do Lazer) – Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Universidade Federal de Minas Gerais, 2020.


“Um bairro, um esporte, uma agremiação: o Tijuca Tênis Clube (1915-1931)”: novo título

27/09/2021

Capa.Tijuca

“Um bairro, um esporte, uma agremiação: o Tijuca Tênis Clube (1915-1931)” é o terceiro título da coleção “História do Esporte: olhares e experiências”. Dessa vez, nosso interesse se deslocou para um dos bairros mais peculiares e importantes do Rio de Janeiro: a Tijuca.

A agremiação investigada, assim, foi tratada como uma porta de entrada para nos debruçarmos sobre a história e os processos de urbanização do Rio de Janeiro. Para abordar o tema, adotamos uma postura de diálogo disciplinar entre as contribuições da História e da Geografia.

O clube é nosso interesse central, mas procuramos entende-lo na imbricação de outros percursos: a estruturação do tênis, a pregressa vida esportiva da Tijuca, a história do bairro. Da mesma forma, ao abordarmos a trajetória da agremiação, tentamos compreender suas estratégias de organização, ações esportivas e atividades sociais.

Esperamos que o(a) leitor(a) aprecie a leitura e que este livro possa ser mais uma contribuição para desvendarmos outra faceta da história do Rio de Janeiro.

O livro pode ser acessado gratuitamente aqui:

Tijuca.Tenis.Club.2021.EBOOK

Para acessar os outros dois títulos da coleção:

Um olhar sobre as revistas, Abrahão Saliture, Barra da Tijuca: coleção “História do Esporte: Olhares e Experiências”

 


POR UMA HISTÓRIA CULTURAL DOS SHAPES

27/09/2021

Por: Leonardo Brandão – @leobrandao77

Historiador e Professor Universitário

A história do skate geralmente é associada a eventos e personagens, sua evolução técnica, a formação de um campo esportivo ou aos conflitos que engendrou no espaço urbano. Entretanto, há um elemento importante que também nos ajuda a compreender sua trajetória: a prancha do skate, chamada de shape, seus formatos e grafismos.

De acordo com o pesquisador carioca Thiago Cambará, autor de uma dissertação de mestrado sobre este assunto, um primeiro desenvolvimento mais notável na arte dos grafismos nos shapes começou por volta de 1974 nos Estados Unidos, e isso a partir de um dos integrantes do grupo Z-Boys, chamado Wes Humpston. Ele começou a fazer nas suas pranchas (e na de alguns amigos), desenhos influenciados por símbolos encontrados nas jaquetas de motoqueiros ou mesmo em histórias em quadrinhos undergrounds (como as produzidas pelo desenhista Robert Crumb). Não demorou para que ele, junto a outro membro desta equipe (Jim Muir) fundassem uma marca de skate. Assim, no ano de 1978 nascia a Dogtown Skateboards, que foi a primeira empresa a fazer o uso de serigrafia para imprimir design gráficos em séries nos shapes.

Imagem 1: Shape Dogtown

Ainda de acordo com este autor, o contexto histórico do final do final dos anos 70 e início da década seguinte, marcado fortemente pela ascensão do punk-rock e do heavy metal, explica a escolha por desenhos baseados em caveiras, ossos ou animais ferozes. No ano de 1978, por exemplo, surgia nos Estados Unidos a empresa Powell Peralta, que se destacou pelo uso da famosa caveira – apelidada de Ripper – concebida pelo artista Vernon Courtlandt Johnson (VCJ).

Imagem 2: Ripper: a famosa caveira da Powel Peralta

Outra marca que fez um bom uso dos grafismos foi a Santa Cruz, que teve no artista Jim Phillips seu centro criativo, famoso pela criação da mão gritante (Screaming Hand) no ano de 1985, a qual estampou não apenas shapes mas também muitas roupas e adesivos desta marca e, até hoje, continua sendo sua principal identidade visual.

Imagem 3: Screaming Hand, da marca Santa Cruz

Com o tempo, outras influências foram surgindo, como tons mais abstratos vindo da cena musical da New Wave, e os desenhos também foram se modificando e apresentando abstracionismos e texturas mais coloridas, como vários modelos de shapes das marcas Sims e Vision atestam à época.

No Brasil, a arte dos shapes também teve um expressivo desenvolvimento. Empresas como a Lifestyle e Urgh! (entre outras) produziram shapes memoráveis no final da segunda metade da década de 1980 e início da seguinte. Nesta época, segundo Mallo Ryker (skatista desde 1987 e animador de gráficos em shapes):

“O skate tinha uma identidade com os models e com a personalidade dos skatistas, e cada um tinha a sua especialidade. Você se identificava muito com o rolê do skatista e com o model que ele usava, tanto o gráfico quanto o formato do shape, e aquilo era tua bandeira, o que te representava” (Entrevista realizada em 05/05/2020 – Arquivo do Autor).

Numa entrevista que também realizei com o Mauro Azevedo (proprietário da empresa Lifestyle), ele explicou que neste período sua marca tinha por “foco principal ouvir o skatista. A gente teve essa visão: uma marca de skate tem que ouvir o skatista. Então a Lifestyle passou a traduzir a ideia do skatista nos desenhos e formatos dos shapes (…)”. Mauro conta que cada skatista de sua equipe tinha um formato de shape diferente. Ele deu o exemplo do skatista Fernandinho “Batman”, que foi desenvolvendo o formato de seus shapes para ladeira conforme as manobras que ia realizando e aprendendo; então, conforme ele pegava no shape para dar um slide, ele falava:

“Aqui eu pego assim, aqui eu dou a manobra tal, então, ele sempre fez uns shapes diferentes né! O Daniel Bourqui, que era um skatista de vertical, era um shape largo com um tail bem alto em função das manobras que ele fazia no vertical, e o Rui Muleque e Beto or Die, ambos streeteiros, foram aperfeiçoando os pro models deles ao longo dos anos. Então, o pro model traduzia muito o rolê de cada skatista…e isso era o que era legal, o model era a característica do skatista” (Entrevista realizada em 15/06/2020 – Arquivo do Autor).

Atualmente – e infelizmente – os shapes perderam muito da estética que tinha no final dos anos 80. Tanto é que são apelidados de shapes Band-Aid ou Shapes Palito de Picolé, pois apresentam sempre um mesmo formato e gráficos pouco trabalhados. Por outro lado, há um movimento crescente que parece dizer que nada impõe que este destino seja inexorável. Nos Estados Unidos, o skatistas canadense Andy Anderson passou a assinar um model de shape todo quadrado, útil para adaptar manobras de freestyle no street moderno; empresas como a New Deal estão relançando shapes do início dos anos 90 com duas furações para os eixos e o skatista Mike Vallely vem produzindo shapes diferenciados com sua marca Street Plant.

No Brasil, recentemente, a marca Lodo Boards, numa parceria com o site Trocando Manobras do skatista Filipe Maia, lançou um shape no formato oval; e a própria Lifestyle relançou seus models que fizeram sucesso no final dos anos 80, como podemos observar na imagem a seguir:

Imagem 4: Shape da Lifestyle, model Rui Muleque (Stage III)

Talvez o futuro não seja dominado unicamente pelos shapes band-aid, pois o crescente saudosismo dos shapes com gráficos elaborados, outros formatos, com nose pequeno e tail grande, ou todo cheio de dobras e quinas, possa de fato retornar e construir um futuro mais aberto para experimentações estéticas e para a pluralidade de estilos!

Para saber mais:

CAMBARÁ, Thiago. Skate e o seu design gráfico: uma breve análise. In: BRANDÃO, Leonardo; HONORATO, Tony (Org.). Skate & Skatistas: questões contemporâneas. Londrina: UEL, 2012, p. 111 – 146.

PHILLIPS, Jim. Surf, Skate & Rock Art. Atglen: Schiffer Publishing, 2004.


A “Revelação” do futebol sul-americano com o ouro olímpico uruguaio em 1924.

20/09/2021

EXÓRDIO

Apenas para situar e contextualizar, o presente post possui uma natureza nostálgica de acionamento da Memória porém que talvez sirva de estimulo para novos pesquisadores e mesmo para que mais experientes como eu busquem novos caminhos e perspectivas nos estudos sobre o futebol na América do Sul. Em função de diversos motivos, amizades, alguns convites recentes para falar do futebol uruguaio, mas principalmente devido a novas leituras decidi reler minha dissertação que defendi faz mais de uma década e que resultaram em diversos artigos acadêmicos individuais ou em parceria com meu orientador na época, Ronaldo Helal.

Obviamente que muita coisa precisa ser atualizada, que a leitura com um olhar mais apurado e com mais vivência acadêmica aponta para lacunas teóricas e metodológicas, momentos de naturalização excessiva nas fontes, exageros na adjetivação. Mas apesar dos problemas que hoje me fariam mudar muitas coisas e também ser rígido e atento como foi minha cordial banca compostas por Victor Melo que posteriormente foi meu orientador no doutorado, o uruguaio Guillermo Giucci que desde a graduação me incentivou e ajudou tanto a estudar o Uruguai, quanto a seguir carreira acadêmica, e meu orientador, relendo minha antiga tese percebi que alguns temas e perspectivas ainda podem e devem ser exploradas academicamente tanto aqui, quanto em outros países.

O contato com os colegas pesquisadores uruguaios do GREFU (Grupo de Estudios de Fútbol en Uruguay) que está completando 10 anos como Andres Morales que escreveu uma obra fundamental , Fútbol, identidad y poder (1916-1930)., Gastón Laborido que participa conosco desse blog e Juan Carlos Luzuriaga me inspiram a reler e começar a rever hipóteses, afirmações, perspectivas além de me deixar ainda mais impressionado com a importância das campanhas olímpicas uruguaias em 1924 e 1928, tanto para o futebol uruguaio, quanto sul-americano.

Nesse sentido, decidi postar hoje uma referência muito pequena que fiz na dissertação sobre a campanha uruguaia em 1924. um assunto que não fazia parte diretamente do tema e objetivos da dissertação, mas que me fascina desde a adolescência. Talvez alguns de vocês devem ter lido, outros encontrarão alguns dos problemas mencionados acima, mas o objetivo talvez seja ressuscitar temas e talvez o próprio ânimo pessoal para novas investigações aprofundadas e atualizadas em um momento tão difícil e complexo que continuamos vivendo. Espero que curtam.

O surgimento uruguaio no cenário futebolístico internacional

Apesar dos torneios de futebol dos Jogos Olímpicos não terem sido reconhecidos pela FIFA como esfera de legitimação de campeões mundiais, as competições de 1924 em Colombes na França e 1928 em Amsterdam, além de terem sido muito disputadas, foram fundamentais para o surgimento no cenário internacional do futebol sul-americano, especialmente do bi-campeão olímpico Uruguai.

Pode-se afirmar que a campanha uruguaia no campeonato de 1924 causou espanto e deslumbramento nos europeus que até então desconheciam o potencial das seleções da América do Sul, e o título conquistado de forma invicta derrotando na final a esquadra suíça de maneira incontestável por 3×0 colocou o pequeno país “oriental” no universo futebolístico mundial.

A própria participação uruguaia já poderia ser considerada uma jornada épica. O “sonho” de um médico, político e pedagogo conhecido como Dr. Atilio Narancio, presidente da Associação Uruguaia em 1924 e 1925, e os esforços do diplomata Enrique Buero, teriam viabilizado a inscrição da delegação nos Jogos Olímpicos, pois segundo consta na obra oficial de Juan Capelán Carril (1990), “El padre de la Victoria” como era conhecido o médico, teria inclusive hipotecado um bem próprio para financiar a viagem e Buero, embaixador na Suíça teria sido o principal articulador da filiação do Uruguai a FIFA, tendo inclusive participado do Congresso realizado em Genebra em 1923. 

Antes do torneio, a equipe uruguaia, após a longa travessia marítima do Atlântico, teria se preparado enfrentando equipes de cidades espanholas como Vigo, Bilbao, San Sebastían, La Coruña e Madrid, partidas acordadas diplomaticamente com a intervenção do Sr. Enrique Buero, pelas quais receberam somas em dinheiro importantes para a estadia da delegação em Paris. A seleção venceu as nove partidas, além de marcar 25 gols e sofrer 8.

A estréia nos Jogos Olímpicos foi com uma goleada de 7 a 0 nos iugoslavos, fato que teria surpreendido a imprensa mundial, e a invicta campanha até a final contra a Suíça resultou no reconhecimento internacional do futebol praticado pelos “celestes” e posicionou a América do Sul na geografia futebolística mundial.

Ademais, os jogadores uruguaios teriam encantado os torcedores parisienses, sobretudo o negro Jose Leandro Andrade, que ficou conhecido na imprensa francesa como a “maravilha negra”, tendo participado também da campanha de 1928 e da Copa do Mundo de 1930.

            É importante destacar que antes mesmo do sucesso de Andrade, o Uruguai já tinha como principal jogador um atleta negro Isabelino Gradin, destaque da celeste na década de 1910 e início de 20, campeão do primeiro sul-americano de 1916, junto com outro negro Juan Delgado, fato que inclusive ensejou declarações racistas de um correspondente chileno na ocasião[1], além de ser um velocista campeão sul-americano diversas vezes em distintas categorias.

            Todavia, Gradin não chegou a participar da campanha olímpica de 1924, e a imprensa européia acabou exaltando o jogo elegante e as passadas esguias de José Leandro Andrade, que se tornou uma atração a parte no verão parisiense.

En apenas unos años el fútbol pasó de ser un deporte de elite y de extranjeros a ser un deporte nacional y popular, practicado y atendido por gente humilde. En el fútbol local se destacaron muchos afro-uruguayos, caso de Juan Delgado, Isabelino Gradín , Leandro Andrade, entre otros y también numerosos inmigrantes españoles e italianos recién llegados al país: José Pendibiene, Carlos Scarone, Petro Petrone, Angel Romám, Antonio Urdinarán, etc. ( BOURET e REMEDI : 2009, 291-292)

            A presença de jogadores negros nos selecionados uruguaios desde a década de 10 com Isabelino Gradin e Juan Delgado e a mítica figura de José Leandro Andrade, “a maravilha negra”, campeão olímpico em 1924 e 1928 e mundial em 1930, além do grande número de descendentes de imigrantes nas esquadras nacionais são indícios de que o futebol no Uruguai nas primeiras décadas já era um elemento agregador e popular, apesar de continuarem existindo conflitos dentro do campo esportivo.

            Um trecho do romance histórico “Gloria y Tormento. La novela de José Leandro Andrade”, apesar do seu caráter ficcional, espelha em alguns trechos metaforicamente o que foram aqueles dias na capital francesa para este mítico atleta:

Si …Yo José Leandro Andrade me paseé orondo por las calles de París con sombrero de copa, guantes de color patito, bastón con mango de plata y uno pañuelo de seda. Ay!, si mi hubiesen visto con esta pinta. Sepan, sepan todos, que hasta los árboles se inclinaban ante mí. Cada paso que daba hacía temblar la tierra como si avanzara un gigante. Un gigante que podía hacer  magia con la pelota en los pies. Un gigante del que todavía hablan en Paris. Paris dije …? No amigos! No! En toda Francia!

Qué digo? Francia? No amigos? Noooo! En el mundo entero.” (CHAGAS : 2007, 70)

      O sentimento de espanto e admiração com o futebol praticado pelos uruguaios na França é compartilhado pelo próprio presidente da FIFA, Jules Rimet, ao se referir ao torneio olímpico de 1924 e ao estilo jogo praticado pelos até então desconhecidos jogadores “celestes”:

Veinticuatro equipos participaron en aquéllos y los dos que disputaron la final fueron los representantes del Uruguay y Suiza. Este partido, que terminó con la victoria de la Republica Sudamericana, fué sensacional. Al juego rápido, enérgico y duro de los helvéticos, los uruguayos opusieran una hábil flexibilidad, un juego científico, conocedor de todas las sutilidades del fútbol, que conquistó la admiración de los espectadores europeos. Su virtuosismo y espectacularidad convirtió aquel partido en una revelación, en un match  histórico

(RIMET : 1955, 24)    

O termo “revelação” utilizado por Rimet é certamente esclarecedor deste sentimento europeu de descoberta em relação ao Uruguai e a toda América do Sul no que concerne o futebol. As exibições da “celeste” impressionaram a crônica internacional, deslumbraram os torcedores parisienses, criaram o primeiro grande mito internacional negro neste esporte, além de levar a glória olímpica para o outro lado do Oceano Atlântico colocando no mapa esportivo mundial a pequena República Oriental do Uruguai.


[1] O correspondente chileno escreveu que a seleção do seu país havia sido derrotada pela equipe uruguaia por 4×0 que tinha na sua esquadra “dois africanos” , fato que  gerou inclusive um  incidente diplomático.

BOURET  Daniela e REMEDI Gustavo. El nacimiento de la sociedad de masas (1910 -1930). Montevidéu: Ediciones de la Banda Oriental, 2009.

CARRIL, Juan A. Capelán.  Nueve décadas de gloria. Montevideo: Estampas SRL  Realizaciones, 1990.

CHAGAS, Jorge. Gloria y Tormento. La novela de Leandro Andrade. Montevidéu: Rumbo Editorial, 2007.

MORALES, Andrés. Fútbol, identidad y poder (1916-1930). Montevideo: Fin de Siglo, 2013.

RIMET, Jules. Futbol, La Copa del Mundo: Barcelona; Editorial Juventud, 1955.

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O ensino dos Jogos Tradicionais

31/08/2021

Os Jogos Tradicionais são uma disciplina oferecida na Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra. Faz parte de um grupo de unidades curriculares denominadas “Estudos Práticos”, que tem como característica fundamental reunir em seu conteúdo as disciplinas da área do esporte e da atividade física voltadas para a Educação Física escolar. A disciplina aparece na grade curricular como Jogos Tradicionais Portugueses (JTP), e a sua inclusão no currículo de formação de professores aconteceu no ano letivo 2004/2005, com o propósito da promoção do jogo étnico enquanto modalidade de ensino que abarcasse, em modo do ideário do movimento Jogos Para Todos, toda a população de todas as idades que pudesse ser clientela dos futuros profissionais de Educação Física.

Os objetivos desta disciplina são: divulgar o patrimônio multicultural dos jogos tradicionais; revitalizar a  prática lúdica tradicional no ambiente intra e extra escolar; identificar a lógica interna dos jogos tradicionais abordados e os seus potenciais formativos e educativos; implementar a sua prática como meio educativo escolar através do desenvolvimento e aplicação prática de exercícios de progressão pedagógica os quais conduzam à aquisição das habilidades específicas do jogo; implementar a sua prática como meio recreativo e para a ocupação dos tempos livres; implementar o jogo pelo jogo, o jogo tradicional pré-desportivo, e o jogo como elemento introdutório de desportos de base motora e de comunicação interpessoal equivalentes. 

A partir da experiência com a disciplina dos JTP na FCDEFUC surgiu  o “LUDUS: Laboratório de  Jogos, Recreação,  Lutas  Tradicionais  e Capoeira”, que se mantém em rede com distintas entidades nacionais e internacionais, e realiza diversas investigações, publicações científicas e eventos. Os professores-pesquisadores responsáveis por essa disciplina e área de pesquisa na Universidade de Coimbra são Ana Rosa Jaqueira e Paulo Coelho Araújo, ambos do LUDUS. Ao longo dos anos, eles identificaram alguns desafios para a implementação da disciplina: o preconceito sobre a utilidade do jogo lúdico mediante o impacto do esporte organizado; o fenômeno da desportivização na Escola; o fenômeno da biologização dos cursos de Educação Física e Desporto; a interrupção no ciclo da transmissão oral tradicional intergeracional; o avanço das tecnologias digitais; o caráter de “não seriedade” atribuído ao lúdico; a ignorância sobre o jogo e suas vertentes cooperativas, competitivas, e cooperativas-competitivas e as relações sociais daí derivadas. Todavia, a valorização do jogo é um resultado observável ao longo desse período de implementação desta disciplina, como um meio para o desenvolvimento da atividade física, do condicionamento físico e da saúde, de habilidades básicas e de habilidades específicas; como elemento inovador e motivador para as aulas de Educação Física; como meio de aprendizagem lúdica e de aquisição e transmissão de valores fundamentais (moral; social, cultural; físico); de relação, integração e comunicação entre os intervenientes na ação motora; de ocupação ativa dos tempos livres; para o desenvolvimento cultural; de aquisição de conhecimentos gerais (história, cultura, geografia); para o desenvolvimento de inteligências motora e cognitiva.

A introdução da disciplina JTP no currículo do curso de educação física vai ao encontro da recomendação feita na Declaração de Verona (onde ocorre o festival anual TOCATI), de 20 de setembro de 2015, em que se sugere a introdução de jogos tradicionais e indígenas no currículo escolar. Esta recomendação faz parte de um percurso da UNESCO que, desde 2003, reconhece a importância da herança cultural intangível e vê nos jogos tradicionais um importante pilar.

A UNESCO tem se dedicado ao tema, vendo a salvaguarda e promoção dos Jogos e Esportes Tradicionais como um desafio fundamental para o desenvolvimento futuro do esporte e das sociedades. Para a UNESCO, os jogos e esportes tradicionais também melhoram o diálogo intercultural e a paz, reforça o empoderamento dos jovens e promove práticas esportivas éticas. Em sua página dedicada ao tema, a UNESCO apresenta uma listagem de práticas e de textos de referência.

Por fim, os jogos tradicionais são uma alternativa para práticas esportivas antiéticas. Não sujeito aos desafios econômicos e da globalização dos esportes modernos, nem a uma busca equivalente por desempenho e resultados levando a práticas perigosas e ilegais, que a Convenção Internacional contra o Doping no Esporte tenta regulamentar, os jogos tradicionais oferecem aos governos, movimentos esportivos e cidadãos a oportunidade de construir práticas esportivas e culturais sustentáveis e éticas.


Grandes estádios e a memória da ditadura

23/08/2021

Por Rafael Fortes (rafael.soares@unirio.br)

Durante o período da ditadura civil-militar brasileira (1964-1985), dezenas de estádios de futebol foram construídos e inaugurados. Uma parcela importante – 14 estádios com grande capacidade – foi erguida e, posteriormente, administrada por governos estaduais que tinham à frente políticos da Aliança Renovadora Nacional (Arena). Dez deles receberam o nome do próprio governador que os construiu e inaugurou.

O assunto é explorado no artigo “‘Brasil-grande, estádios gigantescos’: toponímia dos estádios públicos da ditadura civil-militar brasileira e os discursos de reconciliação, 1964-1985“, escrito por João Malaia, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e por mim e publicado no dossiê Lugares de memória e de consciência na América Latina da revista Tempo (UFF).

Abordamos superfaturamentos e fraudes em licitações (condizente com a dinâmica mais ampla de atuação e fortalecimento de empreiteiras descrita e analisada por Campos (2014) ), acidentes e confusões nas inaugurações (com dezenas de feridos e levando a prisões e acusações arbitrárias), evasão de divisas por meio da administração posterior dos estádios e complexos esportivos e o papel predominantemente adesista e celebratório da imprensa esportiva (não só à época, mas também nas décadas seguintes).

Um de nossos objetivos é inserir tal fenômeno nas discussões historiográficas sobre construção de consentimento durante o período e após – considerando que a maioria permanece com os mesmos nomes nos dias atuais. Já no subcampo da história do esporte, embora um número razoável de trabalhos sobre esporte e ditadura tenha sido publicado nos últimos anos, aspectos como a construção de consensos, o papel dos clubes e de seus dirigentes, a atuação de governos estaduais (tanto de governadores quanto de entidades criadas para administrar os estádios, como as superintendências estaduais de desportos) e os estádios têm ficado em segundo plano. A atenção frequentemente se volta para experiências de resistência (em geral utilizando como exemplo um jogador, treinador ou time) e para a seleção brasileira, sobretudo durante o governo Medici.

O teor e os sentidos políticos de tais nomeações, que duram décadas, fazem parte da construção e manutenção, no presente, de imagens positivas do regime ditatorial entre setores da sociedade brasileira. Mesmo entre os pesquisadores e ativistas mais atentos, é pouco provável que tais nomes de estádios chamem a atenção quanto a uma possível identificação com o regime civil-militar. Em outras palavras, tais nomes de governadores – lideranças políticas civis no interior do regime – não causam identificação imediata, diferentemente do que acontece, por exemplo, com as homenagens, em todo o país, aos generais ex-presidentes Medici, Castelo Branco e Costa e Silva.

*  *  *

Amanhã (terça-feira, 24/8/2021) João Malaia e eu falaremos sobre o assunto no III Seminário Brasil Republicano, organizado pelo Instituto de História da Universidade Federal Fluminense. Transmissão pelo canal do Ludopédio: https://www.youtube.com/watch?v=NS87p9dJ5Ew.

Referências

CAMPOS, Pedro Henrique Pedreira. Estranhas catedrais: as empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar, 1964-1988. Niterói: Editora da UFF/Faperj, 2014.

MALAIA, João Manuel Casquinha; FORTES, Rafael. “‘Brasil-grande, estádios gigantescos’: toponímia dos estádios públicos da ditadura civil-militar brasileira e os discursos de reconciliação, 1964-1985”. Tempo, v. 27, n. 1, p. 165-183, jan.-abr. 2021. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/tem/a/dxyZ4FpZVhkw6KB6sb7K4Tn/?lang=pt>. Acesso em 18 ago. 2021.


Peleando no Cinema: Corpo e alma (Body and soul, Robert Rossen, 1947)

16/08/2021

Vamos variar um pouco.

Via de regra, eu escrevo, aqui, sobre filmes de/com futebol (vou continuar assim, claro). Mas hoje vamos mudar um pouco. Vou comentar um clássico do boxe filmado. Estava/estou vendo muitos filmes de esporte, no bojo da escrita de um texto, que acabei de entregar, sobre a possibilidade/proveito hermenêutico de uma noção como a de um gênero cinematográfico esportivo. A discussão é se tal gênero pode ser postulado/estabelecido e se poderíamos constatar ganho hermenêutico na análise fílmica. Não resolvi nada, mas colocamos o problema (faço a divulgação quando da publicação). Enfim, estou variando a assistência de películas. E vendo ou revendo pérolas do encontro do esporte com o cinema. Posto isso, tratemos de Corpo e alma (1947 e, claro, há spoiler).  

É Bacana! Um bom filme de boxe. Charley Davis (vivido por John Garfield) é um judeu pobre que demonstra capacidade pugilística. Sua mãe preferiria os estudos, mas a situação aperta e Charley parte mesmo é para o combate. E, para ganhar lutas, acorda com o gangster local. Isso vai ter um preço, é claro.

É uma clássica história de ascensão, deslumbramento, conquista, queda moral e redenção. Mas é bem feito e prende. Temos quase todos os elementos. Destacaria a pretendente feminina, mulher de boa índole e caráter (se envolve com Charley enquanto ele ainda não tem nada e o apóia em quase tudo, sendo, também, um esteio de amor, fidelidade e retidão moral – Peg Born, atriz Lilli Palmer). A mãe, que precisa ser amparada (mas também se constitui em fiel da balança do que é correto – Anna Davis, atriz Anne Revere) e o amigo inseparável (‘escada’ do protagonista, me parece – Shorty Polasky, ator Joseph Pevner), desde os tempos de perrengue.

Shorty começa ambicioso e audaz, mas ao ver o amigo tomando um rumo perigoso, tenta adverti-lo. Nesse movimento, entra em choque com o gangster e acaba por perder a vida (aliás, o nome Shorty, baixinho, talvez seja sintomático; ele é um personagem menor, de amparo. Não tem habilidade especial, seu capital é ser amigo do lutador promissor e agenciar parcialmente sua carreira). Shorty é a primeira baixa de Charley Davis. Na sequência vem o deslumbramento com uma linda piriguete (uma equivalente a Maria Chuteira… uma Corner’s Mary? Ou Glover’s Girl? Façam sua escolha! Alice, atriz Hazel Brooks). Pois bem, a morte de Shorty é seguida do rompimento com a noiva e com a mãe e a venda da luta final.

Talvez o mais curioso seja o desfecho. Charley acaba desafiando o arranjo do embate derradeiro. E, em uma luta na qual inicia perdendo, com várias quedas (até pq era o combinado), acaba por não se conter e parte para uma reviravolta, mantendo o título de campeão e quebrando o acordo com o gangster. Nesse momento final, reconcilia-se com sua amada (a qual sabia da situação e não aprovava a combinação da luta). O filme acaba com uma saída feliz do casal, re-aproximado, mas todos sabemos no que a quebra de acordos desse tipo implica…

Seán Crosson (que trata dessa película em mais de um momento, mas especialmente às páginas 88-90) vai salientar que, apesar do aparente happy end, insinua-se a possibilidade de retaliação. Isso acontece quando o gangster (Robert, ator Lloyd Gough) interpela o campeão, ameaçadoramente, ao fim da disputa e Charley afirma algo como: – Não se pode viver para sempre.

Mas o fato é que o assassinato não está na diegese. A caminhada do casal reconciliado, que vai se distanciando da câmera e abre a rolagem dos créditos, sim.

Uma bela película! É aconselhável, ainda, compará-la a um filme anterior: Conflito de duas almas (Golden Boy, 1939, Rouben Mamoulin). A estrutura é bem semelhante. O conflito inicial também. O dilema é mais específico e simbolicamente mais acentuado. Joe (Golden boy, vivido por um novíssimo Willian Holden) é um homem dividido entre o violino e o boxe. A metáfora é por demais evidente. Trata-se de uma cisão (em um mesmo indivíduo) entre a mão que toca, suave, artística, e os punhos rudes, agressivos e, no limite, assassinos (Joe quase mata um adversário; inutilizando-o para a carreira). Uma versão Jakyll e Hyde centrada nas mãos (na alma, passando pelas mãos). O médico e o monstro, aliás, é um outro filme, de 1931, do próprio Mamoulin. Faz lembrar também, é claro, de As mãos de Orlac (Robert Wiene, 1924). Mas sobre essa película (Golden Boy), talvez escrevamos algo mais à frente.

Até a próxima!

Referência citada:

CROSSON, Seán. Sport and Film (Frontiers of Sport). EUA: Routledge, 2013 (Edição do Kindle).


Um olhar sobre as revistas, Abrahão Saliture, Barra da Tijuca: coleção “História do Esporte: Olhares e Experiências”

08/08/2021

Por Victor Andrade de Melo

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Periódicos são das mais importantes agências do campo científico. Cumprem uma função fundamental. Merecem ser respeitados e valorizados, ainda mais em momentos tão obscuros, marcados pelo ataque à ciência. Isso não significa, todavia, que não possam ser criticados.

Não é nosso intuito produzir um tratado sobre o tema. Antes de qualquer grande reflexão sobre o assunto, o que nos move é nossa experiência concreta de autores, pareceristas e editores. Alguns dissabores que temos enfrentado não nos parecem ocorrências individuais, mas manifestações de problemas generalizados que talvez mereçam maior atenção.

Podemos resumir nossas impressões, de forma pontual, em três itens:

a) revistas cada vez mais burocráticas, com cada vez mais exigências formais, cada vez mais limites e menos espaço para a inovação;

b) pareceristas cada vez menos atentos a uma visão global do conhecimento, presos a minúcias, sem disposição de estabelecer debates a partir de seus pontos de vista (nem sempre suficientemente embasados);

c) editores cada vez menos editores, cada vez mais organizadores, cada vez menos dispostos a efetivamente intervir no delineamento de um perfil que aponte para um periódico que realmente possa oxigenar o campo e não só cumprir determinados requisitos.

Obviamente, não se trata de culpar revistas, pareceristas e editores. O problema é complexo e requereria análises e respostas mais profundas. O centro da questão é a própria forma como a ciência em geral tem sido concebida no mundo, em especial no Brasil.

Como dito, nosso intuito não é estabelecer esse debate, mas procurar alternativas. Uma que encontramos para seguir investigando à busca de abordagens e temas inovadores, considerando inclusive outros formatos de difusão das pesquisas, bem como tendo em conta a falta de recursos, foi lançar uma coleção de e-books na qual poderíamos fazer circular mais livremente o conhecimento produzido.

A coleção “História do Esporte: olhares e experiências” tem por objetivo apresentar estudos inovadores sobre as práticas corporais institucionalizadas e práticas de entretenimento. São e-books disponibilizados de forma gratuita. Trata-se de uma produção de baixo custo que tem por intuito central divulgar investigações que por seu formato encontram menor possibilidade de veiculação nos meios científicos tradicionais. É permitido o livre uso desde que citada a fonte.

Estamos lançando os dois primeiros títulos

* A Barra da Tijuca, os Clubes Recreativos e o Processo de Urbanização

Victor Andrade de Melo e João M. C. Malaia dos Santos

Capa.Ebook.Barra

O intuito do livro é – a partir de diálogos entre olhares advindos da História, da Geografia e dos Estudos Culturais – debater a ocupação recente de uma das áreas da cidade do Rio de Janeiro, a Barra da Tijuca, tendo a nos guiar a estruturação de clubes recreativos, um indicador de processos de urbanização.

Livro disponível aqui: suburbio.barra.clubes.geral.2021.EBOOK

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* “Braço é Braço”: o Sportsman Abrahão Saliture

Victor Andrade de Melo

caoa.ebook.abrahão.

O livro aborda a carreira de um dos mais notáveis atletas brasileiros, lamentavelmente hoje pouco lembrado. Traça um panorama do Rio de Janeiro das décadas iniciais do século XX, especialmente da região na qual desempenhou parte significativa de sua carreira atlética – foi filiado ao Clube de Regatas São Cristóvão.

Livro disponível aqui: Abrahao.Saliture.EBOOK.2021