A invenção do skate vertical

22/04/2019

Por Leonardo Brandão

Como surgiu o skate vertical? Esse que é praticado em rampas no formato de “U”? Uma explicação relevante acerca de seu surgimento pode ser conferida no vídeo-documentário Dogtown and Z-Boys, dirigido por Stacy Peralta e lançado no ano de 2001. Esse filme traz imagens raras sobre o início da prática do skate nos EUA, enfatizando uma equipe de skatistas norte-americana conhecida como Z-Boys, exibindo suas primeiras manobras e espaços percorridos.

A equipe Z-Boys, abreviatura de Zephyr (uma loja montada para surfe e skate), era composta de doze pessoas, surfistas na sua origem, mas que acabaram fazendo do skate sua prática principal. Com exceção de um, Chris Cahill, todos os demais foram localizados pelo produtor do documentário, o norte-americano Stacy Peralta, o qual também fazia parte dessa equipe de skatistas. A única mulher do grupo era a skatista Peggy Oky. Compunham o restante da equipe os skatistas Shogo Kubo, Bob Biniak, Nathan Pratt, Jim Muir, Allen Sarlo, Tony Alva, Paul Constantineau, Jay Adams e Wentzle Ruml.

Stacy Peralta, ex-skatista profissional e atual diretor de documentários, conseguiu reencontrar praticamente todos esses skatistas da década de 1970, os quais tomaram caminhos díspares na vida, e desde o final da referida época não tinham mais se encontrado. Hoje eles são empresários, a maioria casada e alguns ainda praticam o skate regularmente. Através de entrevistas, conversas e depoimentos, Stacy Peralta foi estruturando seu documentário, fazendo da atual memória desses skatistas o fio condutor de sua história.

A explicação sobre o surgimento do skate vertical aparece na parte final deste documentário. Sabemos que, dentre as modalidades existentes atualmente na prática do skate, a de maior popularidade junto ao grande público é o skate vertical. Constantemente exibido pelos canais televisivos, muitas vezes em campeonatos “Ao Vivo”, como os transmitidos pelo programa Esporte Espetacular da Rede Globo, o skate vertical se caracteriza por ser uma modalidade onde o skate é praticado em grandes rampas de madeira ou cimento, com aproximadamente quatro metros de altura e denominadas “half-pipe” (“meio tubo” em português) ou em pistas com rampas no formato de uma bacia “bowl”. Nessas rampas, que podem ser representadas pela letra “U”, os skatistas executam inúmeras manobras, mas as que normalmente mais chamam a atenção são os saltos, chamados de aéreos, onde tanto o skate quanto o corpo do skatista permanecem no ar por alguns segundos até retornarem novamente o contato com a rampa.

De acordo como o vídeo-documentário Dogtown and Z-Boys, o surgimento do skate vertical foi possível após a conjugação de dois fatores: de um lado, houve a apropriação dos movimentos do surfe na prática do skate, e, de outro, ocorreu uma grande seca no Estado da Califórnia em meados de 1970.

Segundo relatam os depoentes desse filme, “a prefeitura não permitia molhar o jardim e nem se podia servir água em restaurante, então, o que aconteceu, foi que todas as piscinas abundantes no sul da Califórnia estavam secando”. Por isso: “a seca da Califórnia atuou como parteira da revolução do skate, enquanto centenas de piscinas de Los Angeles foram deixadas vazias e sem uso”.

O aspecto pitoresco dessa história encontra-se na arquitetura das piscinas californianas, pois elas não se assemelham com as encontradas no Brasil. Aqui as piscinas são quadradas, retangulares, com as paredes retas, as quais formam um ângulo de 90º graus com o solo. Na Califórnia, as piscinas exibidas no filme possuíam um formato oval, redondo. As paredes dessas piscinas continham transições, que lembravam as ondas do mar, com ondulações simétricas e perfeitas. Foi essa “rampa” nas paredes das piscinas californianas, somada à habilidade e à técnica dos skatistas de Dogtown, sobretudo os da equipe Z-Boys, que forneceram às piscinas vazias uma outra utilidade nunca antes pensada: elas viraram as primeiras pistas de skate vertical.

De acordo com o filme, foram esses skatistas que, ao praticarem skate em piscinas vazias revolucionaram essa atividade, apontando para horizontes nunca antes imaginados, e tornando possível, anos depois, a montagem de rampas verticais (half-pipes) que passariam a imitar as paredes inclinadas das piscinas californianas. Segundo os membros da equipe Zephyr, eles foram os primeiros a andarem em piscinas vazias, e nem imaginavam o que era possível fazer. Em seus relatos, eles dizem:

A primeira meta no primeiro dia foi passar acima da lâmpada (que fica na parede inclinada da piscina). Depois começamos com arcos duplos (andar com dois skatistas de uma só vez), chegando ao ladrilho da piscina dos dois lados. A meta era chegar à beirada, bater a roda na beirada.

Tony Alva, considerado um dos mais habilidosos skatistas da equipe, lembra o fato de que só foi possível realizarem tal feito por terem sido, antes de skatistas, surfistas. Pois os mesmos movimentos que faziam com suas pranchas na onda do mar, eram os necessários para subirem com seus skates nas paredes curvas das piscinas. Segundo seu relato: “era completamente fora dos padrões, mental e fisicamente. Mas, por sermos surfistas sabíamos os movimentos necessários, só não sabíamos se eram possíveis”. Ainda de acordo com Alva, o pioneirismo da equipe Z-Boys foi algo marcante na exploração desse novo terreno. Para ele, “definitivamente fomos os primeiros a andar numa piscina”, e finaliza lembrando: “é preciso entender que o que fazíamos nunca havia sido feito, aquilo simplesmente não existia”.

Figura 1: Uso do skate nas ondulações de uma piscina na Califórnia no início da década de 1970. Fonte: Imagem do filme Dogtown and Z-boys.

O que os Z-boys chamavam de andar “com o eixo baixo”, ou seja, com o corpo mais abaixado, tal como faziam nas ondas, forneceu a eles a possibilidade de executarem manobras diferenciadas e em lugares até então inusitados, como nas ondulações das piscinas. Eles, enquanto surfistas, transportaram seus movimentos para o skate. Não se trata de skatistas que se espelharam em surfistas, mas de surfistas que se fizeram skatistas.

Na invenção cultural de utilizar piscinas vazias como lugares possíveis de se praticar skate, houve tanto uma representação quanto uma apropriação. Representação porque a piscina passou a ser vista não como um tanque de água para banhos e mergulhos, mas sim como um lugar de exercícios físicos e acrobáticos para o skate. Mudaram-se, pois, os sentidos, as representações. Deste modo, a invenção do skate vertical se deu por meio de práticas de reutilização, efetivando as representações como apropriações. A piscina foi, mais do que pensada de uma forma diferente do usual, experimentada em sua concretude. Os skatistas não só a significaram de um modo diferente, mas também a utilizaram com outras finalidades.

Para saber mais:

Dogtown and Z-Boys. Ficha Técnica: Título Original: Dogtown and Z-Boys. Gênero: Documentário. Tempo de Duração: 87 minutos. Ano de Lançamento (EUA): 2001. Site Oficial: http://www.dogtownmovie.com. Estúdio: Agi Orsi Productions / Vans Off the Wall. Distribuição: Sony Pictures Classics / Imagem Filmes. Direção: Stacy Peralta. Roteiro: Stacy Peralta e Craig Stecyk. Produção: Agi Orsi. Música: Paul Crowder e Terry Wilson. Fotografia: Peter Pilafian. Desenho de Produção: Craig Stecyk. Edição: Paul Crowder.

Referências

BRANDÃO, Leonardo. Para além do esporte: uma história do skate no Brasil. Blumenau: Edifurb, 2014.

BRANDÃO, Leonardo. Prazeres sobre pranchas: o lúdico e o corpo nos esportes californianos. In: Recorde: Revista de História do Esporte. Vol. 2, n. 2, dezembro de 2009, p. 1 – 29.

Anúncios

“The two Escobars”. Conexões de vidas antagônicas mediadas pelo futebol e a violência.

16/04/2019

The Two Escobars

O documentário “The two Escobars”(2010) de Jeff e Michael Zimbalist  , mescla depoimentos de pessoas próximas as duas personalidades com um grande acervo de imagens e reportagens da época , buscando reconstruir a trajetória pessoal de cada um deles a partir do seu vínculo com o futebol colombiano.

 

A película começa com uma referência à partida contra os Estados Unidos, a tensão que envolvia a equipe antes da disputa e a emblemática  imagem do gol contra de Andrés Escobar na partida disputada no Rose Bowl em Pasadena, explorando diversas tomadas que reforçam uma representação trágica do que a princípio seria uma mera fatalidade esportiva.

A representação do jogador a partir das declarações dos parentes, amigos, companheiros de equipe e seleção estabelecem a imagem de um homem extremamente correto, solidário, humilde que ajudava as crianças carentes e era extremamente nacionalista.

Andrés Escobar era o filho caçula de uma família tradicional de classe média católica de Medelín e desde muito jovem teria se destacado no futebol em função da sua disciplina, talento e paixão pelo futebol segundo alguns relatos como o da irmã Maria Ester Escobar. A construção heroica do seu caminho até virar atleta passa também pela superação das mortes do irmão Juan Fernando assassinado nos Estado Unidos, e da mãe Beatriz que falece de câncer em 1985 ainda quando ele buscava seu espaço no futebol profissional.[1]

Sua trajetória pessoal se cruza com a do poderoso Pablo Escobar em função da relação do futebol colombiano com o narcotráfico, situação que é abordada em depoimentos e imagens do próprio documentário.

Andrés Escobar era o capitão do clube Atlético Nacional de Medelín, equipe que junto como o Deportivo Independiente Medelín seria financiada por Pablo Escobar desde o final dos anos oitenta segundo a película, e foi o primeiro time colombiano a se tornar campeão do prestigiado torneio continental Libertadores da América, em 1989. Apesar de não ser amigo íntimo do chefe do cartel da cidade como notoriamente era o goleiro René Higuita, o defensor também tinha que se socializar com Pablo Escobar.

O futebol colombiano no período é representado como um espelho da própria sociedade do país no documentário: corrupção, controle das principais equipes por narcotraficantes, violência, assassinatos de juízes, além da onipresença da influência e do poder de Pablo Escobar.  Segundo Agostino[2]

O famoso narcotraficante é representado a partir dos depoimentos e das reportagens na película de forma ambígua. Enquanto seus parceiros como o primo Jaime Gavíria e o homem de confiança Juan Jairo, mas conhecido como “Popeye” e sua irmã  Luz Maria  argumentam um suposto caráter popular de Pablo Escobar em função da sua proximidade com as camadas mais pobres, exaltando suas obras sociais como por exemplo a construção de um bairro popular onde era um lixão no subúrbio de Medelín, declarações do agente norte-americano Tom Cash do D.E.A (Departamento Anti-drogas) e do próprio ex-presidente César Gavíria  associam a imagem do chefe do cartel de Medellin a brutalidade dos conflitos sociais que se proliferavam na sociedade colombiana. O ex-presidente chega a afirmar que Pablo Escobar era uma espécie de “Bin Laden” da sua época.

Paradoxalmente, o mandatário que busca implantar uma guerra contra o narcotráfico, em especial Pablo Escobar, com apoio dos Estados Unidos se utiliza do futebol, mas especificamente da ótima campanha da seleção nacional antes do mundial de 1994, para estimular uma ideia de integração em um país que se encontrava completamente esfacelado em diversos conflitos políticos e sociais. César Gavíria que acompanhava a seleção colombiana viajava com a equipe por todo o continente, distribuía prêmios aos jogadores e associava a imagem do seu governo a um grupo de jogadores que ainda representavam um futebol marcado pelo poder de Pablo Escobar e outros chefões da droga. O ex-presidente chega a afirmar que “tem que transmitir esperança ao povo” e que “o futebol seria um elemento de orgulho nacional”.

Uma declaração de um dos principais jogadores da equipe, Carlos Valderrama ajuda a fortalecer essa ideia de integração em uma sociedade muito dividida: “ O futebol une nações,une inimigos na guerra”. Essa frase teria sido dita no contexto de uma situação em que paramilitares e guerrilheiros teriam feito uma trégua para assistir uma partida da seleção colombiana. Segundo o historiador Gilberto Agostino[3]:

Nesse sentido essa equipe da “integração’ do país, continuou mantendo relações com Pablo Escobar mesmo depois dele conseguir anular a possibilidade de extradição para os Estados Unidos, e se entregar para ser preso em uma luxuosa “prisão” que ficou conhecida como a “Catedral”. No seu presídio o narcotraficante tinha um grande campo de futebol com espaço de lazer onde recebia amigos e compartilhava churrascos e festas animadas.

A divulgação da presença do amigo Higuita na Catedral pela imprensa gerou uma grande polêmica com o arqueiro da seleção colombiana, mas posteriormente foi descoberto que não apenas ele, mas toda a seleção tinha sido “convocada” para uma “pelada” e um churrasco com o poderoso Pablo Escobar, antes da sua  fuga do presídio para não ser preso por tropas do exército colombiano com apoio explícito norte-americano. Até Andrés Escobar teria ido, a contragosto, segundo depoimento da sua irmã Maria Ester.

Entretanto, mesmo com a perseguição das autoridades locais e internacionais na “guerra” contra o narcotráfico, Pablo Escobar acabaria assassinado pela pressão de outros adversários, outrora aliados que formam o grupo narcoparamilitar los Pepes[4] (Perseguidos por Pablo Escobar). Os irmãos Castaño que originaram também o grupo paramilitar AUC (Auto Defesas da Colômbia) teriam sido os grandes incentivadores à “caçada” aos familiares e colaboradores do Cartel de Medellin que acabou com a emboscada a “El Patrón”.

No documentário a comoção popular é registrada nas imagens do enterro do narcotraficante e nas manifestações nas ruas em Medelín, assim como é defendida a hipótese de que com a morte do chefe do cartel ocorreu um aumento muito grande na escalada da violência na cidade.

Violência que também seria emblemática no assassinato de Andrés Escobar na saída de uma boate sete meses depois. Após a eliminação da seleção colombiana e do fatídico gol contra do zagueiro, Andrés estaria se confraternizando com amigos quando acabou sendo provocado e baleado no estacionamento da casa noturna  pelos “hermanos Gallón”,  paramilitares, membros do grupo dos Pepes segundo o documentário. Eles teriam perdido dinheiro com apostas na seleção durante o mundial e a responsabilidade pelo crime acabou ficando totalmente nas costas do motorista Humberto Muñoz Castro dos irmãos que teria disparado os seis tiros[5].

O funeral de Andrés Escobar também foi marcado pela comoção popular, com a presença de familiares, milhares de fãs, jogadores, autoridades políticas e teve grande repercussão no país. O presidente César Gavíria discursou se utilizando de metáforas futebolísticas para exaltar Andrés e tentar responder à atmosfera de violência social: “Colômbia não pode perder a partida contra a violência. Colômbia não pode permitir que seus melhores filhos sejam expulso do campo da vida. Colômbia não pode tolerar mais faltas contra a paz”. O técnico Francisco Maturana afirma que quem matou o zagueiro foi a sociedade

O discurso no final do documentário tenta aproximar novamente os dois “Escobares”, sugerindo através de depoimentos do primo de Pablo, Jaime Gaviria, e do jogador Chincho Serna que se Pablo estivesse vivo, Andrés não teria sido executado. Obviamente trata-se de uma licença poética de uma obra cinematográfica que termina exaltando Andrés, o Escobar mocinho e vilanizando Pablo o sanguinário narcotraficante.

Todavia, a construção de um documentário cinematográfico onde a conexão de duas vidas de personalidades públicas colombianas populares, representadas como eticamente antagônicas, é feita através do futebol e cuja morte é marcada pela  proximidade, brutalidade e por comoções populares em uma sociedade latino-americana extremamente violenta, pode ajudar a compreender as representações coletivas geradas a partir da relação futebol e política na Colômbia.

[1] Para maiores informações sobre a vida pessoal e a carreira futebolística de Andrés Escobar ver https://trivela.com.br/o-cavalheiro-do-futebol-um-retrato-de-andres-escobar-o-jogador-e-o-homem-alem-da-tragedia/.

[2] O crescimento da influência do narcotráfico contribuiu para acirrar as rivalidades clubísticas, levando a uma onda de violência sem precedentes em torno do futebol do país. Em dezembro de 1989, no momento decisivo do campeonato nacional, o juiz que atuara na partida entre Deportivo Independiente Medelín e América de Cali, Alvaro Ortega, foi mortos a tiros nas ruas de Medelín. Ganhando grande repercussão, o assassinato foi encarado pelas autoridades do país como a gota d`água, levando a paralisação da competição. Além das suspeitas que recaíam sobre os homens de Pablo Escobar, surgiam boatos que a máfia da bolsa de apostas podia estar envolvida. Enquanto o mundo desfiava a teia que envolvia o futebol e o narcotráfico. A FIFA preferia acreditar que nada estava acontecendo. (AGOSTINO:2002, P.189-190)

 

[3] O crescimento da influência do narcotráfico contribuiu para acirrar as rivalidades clubísticas, levando a uma onda de violência sem precedentes em torno do futebol do país. Em dezembro de 1989, no momento decisivo do campeonato nacional, o juiz que atuara na partida entre Deportivo Independiente Medelín e América de Cali, Alvaro Ortega, foi mortos a tiros nas ruas de Medelín. Ganhando grande repercussão, o assassinato foi encarado pelas autoridades do país como a gota d`água, levando a paralisação da competição. Além das suspeitas que recaíam sobre os homens de Pablo Escobar, surgiam boatos que a máfia da bolsa de apostas podia estar envolvida. Enquanto o mundo desfiava a teia que envolvia o futebol e o narcotráfico. A FIFA preferia acreditar que nada estava acontecendo. (AGOSTINHO:2002, P.189-190)

[4] Sobre o grupo ver https://almanaquedosconflitos.wordpress.com/2015/08/09/los-pepes-os-perseguidos-por-pablo-escobar/  . Acessado em 01/04/1019.

[5] Para ver mais informações sobre a os Irmãos Gallón e sua relação com o crime ver https://pacifista.tv/notas/los-hermanos-gallon-y-el-crimen-que-derroto-a-la-seleccion-colombia/.


O SUPLÍCIO DO LICENCIAMENTO: O CASO DA SOCIEDADE DANÇANTE CLUB DOS MANGUEIRAS

02/04/2019

Por Nei Jorge dos Santos Junior

Como já fora registrado em outros pôsteres no blogue, as dificuldades em adquirir a autorização da Secretaria de Polícia do Distrito Federal para garantirem a realização de bailes e festas suburbanas não era algo objetivo. Pelo contrário, os critérios para obtê-las eram definidos pelo Chefe da Polícia. Não eram critérios precisos, de fácil aplicação. Tampouco, totalmente eficazes do ponto de vista policial, sendo anualmente revistos e modificados. No primeiro registro, as associações deviam apresentar seus estatutos, os nomes dos dirigentes e o local da sede. Posteriormente, um policial era enviado para comprovar as informações fornecidas nos documentos, como também recolher dados sobre o cotidiano das associações e de seus sócios. Após essa investigação, o policial emitia um parecer, no qual poderia ser favorável ou não ao que havia sido requerido. Em caso de mudança de endereço, todo esse processo era repetido, havendo a necessidade de uma nova autorização.

 

Além de toda a burocracia citada, outros fatores contribuíam para dificultar ainda mais a abertura de clubes nos subúrbios da cidade. Questões como a estruturação dos espaços, por exemplo, ganhavam corpo frente ao cenário moderno apresentado em alguns pontos específicos da cidade. Aos olhos da grande imprensa carioca era inadmissível uma sede recreativa sem condições de higiene e segurança.

 

Na tentativa de enquadrar os divertimentos suburbanos dentro das estreitas expectativas do cosmopolismo, os clubes deveriam ser submetidos a um processo de investigação feito pelo Chefe de Polícia. Logo, aqueles clubes que reuniam entre seus associados sujeitos considerados incivilizados e desordeiros, eram alvos de perseguição, dificultando a autorização de funcionamento.

Brigas em anos anteriores, cobrança de ingressos para os bailes e sócios com antecedentes criminais subtraiam significativamente as chances de conquistar a sonhada permissão.   O caso da Sociedade Familiar Dançante e Carnavalesca Club dos Mangueiras”, com “sede” na Vila proletária Marechal Hermes, subúrbios da cidade, talvez seja um caso explícito de tal repressão. Vejamos.

Vila Operária Marechal Hermes

Vila Operária de Marechal Hermes, 1913. Fonte: Arquivos de Alfredo Cesar Tavares de Oliveira.

Em março de 1915, o então presidente Cypriano José de Oliveira fez o pedido de licenciamento para sair às ruas e promover bailes internos naquele ano, conforme propunha seu estatuto: “festejar todos os anos a data de sua fundação, assim como também o Carnaval externo por meio de préstito com críticas e alegorias pela maneira resolvida em assembleia, dentre os preceitos e normas policiais”[1]. Todavia, a negativa foi incisiva.

A Careta.1913

 Inauguração da “Vila Proletária” junto à estação. Fonte: A Careta, 10 de maio de 1913.

Mesmo tendo enfatizado os “preceitos” e “normas” estabelecidas pela força policial em seus estatutos, a Sociedade suburbana, cujo objetivo era “proporcionar aos associados e suas famílias divertimentos lícitos”[2], não teve a licença aprovada.  De acordo com o Delegado da Circunscrição Suburbana, o clube “tem a sua sede em um botequim à avenida 1° de maio, n. 6, na Vila Marechal Hermes”[3]. Ademais, havia um atenuante que complicaria ainda mais a aquisição do licenciamento, tratava-se do próprio presidente, Cypriano José de Oliveira, o qual “figura nesta seção registrado em prontuário como grevista, e como tal já foi processado”[4]. A Sociedade ainda contava com Caralampio Trille como sócio; indivíduo, que segundo a polícia “é agitador, revolucionário e perigoso, pois, em 1904, esteve envolvido e tomando parte saliente nas greves e acontecimentos ocorridos neste ano”[5]. Por fim, a “sindicância apurou que os demais associados deste clube são negociantes, operários e empregados da estiva”[6].

Semanas depois, o 23° Distrito Policial enviou um manuscrito que complementaria alguns dados sobre a composição do quadro social do clube. O presidente “grevista”, Cypriano José de Oliveira, era carregador no cais do porto. Foi fiscal geral e, anos depois, em 1923, assume também a presidência da “Sociedade de Resistência dos Trabalhadores em Trapiche e Café”, cargo que exerceu forte militância no cais. Já os secretários eram funcionários dos Correios e os demais cargos ocupados por operários da Estrada de Ferro Central do Brasil e um funcionário da Escola Politécnica[7].

Outro membro que compunha o dossiê enviado era o sócio “agitador e revolucionário, Caralampio Trille, espanhol anarquista com um longo histórico de militância em seu país[8]. No Brasil, ajudou a fundar jornais libertários como “A Greve”, em 1903, e participou de várias sociedades operárias, chegando a presidir, em 1910, a Sociedade Operária Fraternidade e Progresso da Gávea[9]. Com uma diretoria potencialmente “perigosa”, cujo o desfecho certamente caminhou para uma negativa, destacamos o esforço policial em estabelecer relações que transcendem o campo da diversão. Para além da sede em um botequim, a busca por questões políticas e comportamentos considerados subversivos geraria um motivo ainda maior para esquivar-se de transgressões que pudessem ocorrer no interior desses grêmios.

Aos olhos daqueles que pregavam a “moral” e a “civilidade”, agremiações como a Sociedade Familiar Club dos Mangueiras representavam o verdadeiro perigo. Formados por um grupo de trabalhadores de baixa renda, estas pequenas sociedades, assim como seus pares, tornavam-se alvo de constantes cuidados e permanente repressão, fosse pelo extenso número de circulares e processos de concessão ou cassação de licenças para funcionamento, ou até mesmo pela infinidade de notícias nas páginas policiais dos grandes jornais da cidade[10]. No caso específico do clube citado, que tinha no movimento grevista uma preocupação clara, as autoridades policiais o tratavam ainda com mais rigor, pois reconheciam o ato como fruto da manipulação que alguns militantes anarquistas exerciam sob a maioria dos trabalhadores cariocas, buscando legitimar assim os discursos que defendiam o controle e repressão ao movimento operário e a própria greve[11]. Nesse caso, fechar os olhos aos clubes que tinham militantes em suas fileiras era legitimar um espaço de certa forma considerado por eles subversivo, um local potencializador para futuras manifestações.

[1] Estatutos da Sociedade Familiar Club dos Mangueiras de 1915.

[2] Pedido de Licença da Sociedade Familiar Club dos Mangueiras de 1915

[3] Ibid.

[4] Ibid.

[5] Ibid.

[6] Pedido de Licença da Sociedade Familiar Club dos Mangueiras de 1915.

[7] CUNHA, M. C. P. Ecos da folia. Uma história social do carnaval carioca entre 1880 e 1920. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

[8] A Época, 19 de setembro de 1913; A Época, 3 de outubro de 1913.

[9] Ibid.

[10] COSTA, M. B. C. Entre o lazer e a luta: o associativismo recreativo entre os trabalhadores fabris do Jardim Botânico (1895-1917). Dissertação (Mestrado em História Social da Cultura) – Departamento de História, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014.

[11] PEREIRA, L. A. de M. E o Rio dançou. Identidades e tensões nos clubes recreativos cariocas (1912-1922). In: CUNHA, M. C. P. (org.). Carnavais e outras f(r)estas. Campinas, SP: Editora Unicamp/ Cecult, 2002, p. 419-444.


Só há um Belenenses

25/03/2019

O recente caso do Clube de Futebol Os Belenenses tem gerado um interessante debate sobre a propriedade dos clubes, a relação entre o clube e seu caráter social e o lado empresarial e econômico do futebol. Recentemente, iniciei um projeto de pesquisa para avaliar o papel dos elementos culturais e simbólicos do futebol dentro da organização industrial do futebol moderno e o caso do CF Os Belenenses oferece algumas pistas para entender a situação.

belenenses_cruz_de_cristo_foto_belenenses_sad1868cd9f.jpg

Após uma série de mudanças na legislação portuguesa, a partir de meados dos anos 1990, os clubes de futebol do país foram obrigados a assumir um novo formato jurídico para poder disputar os campeonatos profissionais de futebol. Dentre as duas opções – Sociedade Anônima Desportiva (SAD) e Sociedade Desportiva Unipessoal por Quotas (SDUQ) -, a maior parte dos clubes optou pelas SADs. Como Sociedades Anônimas, cotadas em bolsa, a legislação portuguesa obriga que o clube fundador mantenha no mínimo 10% do capital da SAD, ou seja, é possível que investidores passem a ter o controle do futebol de um clube.

A venda do capital da SAD d’Os Belenenses foi o ponto de partida para uma relação que tem sido conturbada desde o início. Em 2012, em um momento financeiro complicado, a Assembleia Geral do clube decidiu vender a maioria da SAD para um grupo de investimento, Codecity Sports Management. Na altura, fazia parte do acordo a possibilidade de recompra do capital por parte do clube.

Contudo, a relação entre investidor e clube nunca foi positiva. Desde o início, a Codecity rasgou o acordo fechando as portas para a recompra do capital da SAD pelo clube. Dentre as várias queixas do clube em relação ao comportamento da SAD estão: a falta de investimento (a grande maioria dos jogadores que foram contratados vieram a custo zero ou foram emprestados); os custos de manutenção do estádio eram suportados integralmente pelo clube, entidade sem fins lucrativos, sem compensação pela SAD; a não utilização de jogadores que vinham das escolas de formação do clube (pois implicava o pagamento da SAD ao clube que detém o futebol de formação); e o desagrado pelo envolvimento do nome do clube, através do Presidente da SAD, Rui Pedro Soares, em investigações de corrupção.

restelo_topo_norte

Depois que um tribunal de justiça deu ganho de causa à SAD, na questão da recompra das ações, o clube proôs que fosse criado uma equipe de futebol d’Os Belenenses a disputar os escalões amadores do futebol português e que a SAD passasse a pagar um aluguel pelo uso do estádio do Restelo. Porém, a SAD manteve a sua postura de incompatibilidade com a direção do clube e negou o acordo. Houve aí uma cisão entre ambos, o CF Os Belenenses criou uma equipe para jogar a 2ª divisão dos distritais de Lisboa (algo como a sexta divisão) que joga no Estádio do Restelo, enquanto a Belenenses SAD disputa a 1ª divisão do futebol profissional e aluga o Estádio do Jamor.

No âmbito jurídico tem havido disputas entre as partes e destaco aqui a luta pelo nome e uso dos símbolos do clube. Para o clube e grande maioria de seus sócios, só “há um Belenenses, que joga no Restelo” e tentam impedir que a SAD use os símbolos do clube. No passado 8 de março, o clube teve uma vitória jurídica, fazendo com que a equipe da SAD entrasse em campo com um novo emblema no jogo contra o Benfica.

SAD

Novo emblema do Belenenses SAD

clube

Emblema do CF Os Belenenses

Aparentemente, a maior parte dos torcedores tem dado razão ao clube, fazendo com que a média de público no Restelo, para o campeonato amador, seja bastante superior ao Belenenses SAD, apesar de estarem conseguindo uma de suas melhores temporadas em campo, estando a disputar uma vaga na próxima Liga Europa. Um dos exemplos de que a ligação com o clube supera a relação comercial e profissional do “futebol moderno” foi o jogo entre Belenenses e Estrela – formado após a falência do tradicional Estrela da Amadora – que lotou o estádio reunindo 5 mil pessoas.

centenario_exposicao-alegro-alfragide.jpg

É ainda mais interessante que essa disputa aconteça tão próximo ao centenário do clube, criado em setembro de 1919. A direção do clube organizou uma exposição itinerante para celebrar a data e tem circulado por Lisboa, tendo funcionado como importante ferramenta para criar uma maior ligação com a sua história, com seus sócios e seus torcedores. Do ponto de vista patrimonial, o clube detém o seu estádio e a sua galeria de troféus, além de manter a relação com todas as outras modalidades que são praticadas no clube, enquanto a SAD é dona “apenas” do futebol profissional e toda atenção e dinheiro que cirucula em torno disso. O caso do Clube de Futebol Os Belenses vem mostrando que as ligações humanas, a relação com o local e a história são elementos fundamentais para o futebol, mesmo que seja profissional, moderno e comercial.

cfb_opengraph


Rugby, de Manuel Soriano

17/03/2019

Por Rafael Fortes

Rugby é o título de uma novela do escritor argentino Manuel Soriano (para saber mais sobre o autor, ver esta entrevista); depois de ter lido o livro, mas antes de escrever esse texto, esbarrei com uma referência a um outro texto de Soriano no episódio 4 do Podcast Stadium), publicada em 2010. Não conhecia o livro, com o qual esbarrei num sebo de Buenos Aires. Embora abordar questões de forma, estrutura e narrativa literárias a respeito do esporte seja terreno de outros autores deste blogue – André Couto, Edônio Alves, Elcio Cornelsen e Victor Melo -, me aventuro a mais um texto a respeito de uma obra ficcional.

A trama é narrada em primeira pessoa por Mocho, 22 anos, advogado (tal qual o autor) que joga rugby numa equipe amadora, formada em sua maioria por ex-alunos de uma escola tradicional da Grande Buenos Aires. A trama oferece dezenas de oportunidades para discutir-se as relações entre o esporte e a sociedade, notadamente no que diz respeito aos diferentes grupos sociais. Abaixo cito algumas.

a) Racismo e preconceito

Há uma conversa em que vários dos envolvidos associam uma excursão à África do Sul para jogar rubgy à possibilidade de “comer uma negra”, e também ao risco de contrair HIV – mas, claro, afirma um deles, os sul-africanos é que são racistas. Nas conversas do terceiro tempo, há também piadas relacionadas a judeus e coreanos.

À parte a questão esportiva, há muitos outros trechos notáveis, inclusive combinando racismo com preconceito de classe, como o ato de se confundir com “bolivianos” membros de povos autóctones das províncias de Salta e Jujuy (eu mesmo já cometi esse erro na primeira vez que estive na Argentina, ao comprar uma bata na Feirinha de San Telmo).

b) O jovem de classe média-alta revoltado

“Se ouve mais cumbia em Barrio Parque e Recoleta que na própria favela”. “Há uma idade, digamos os quinze ou dezesseis, em que é uma coisa bem vista renegar sua classe. É parte da rebeldia adolescente.” “Os de San Isidro se tornam torcedores do Tigre. Brabões de torcida desde criancinha. Os de Belgrano, de Excursionistas ou Defensores (melhor Excursionistas, porque são chamados “os favelados”)” (p. 54).

“Mas tudo isso é passageiro. É coisa da adolescência. A rebeldia se desvanece facilmente porque na realidade nunca existiu. Com os anos aparece um trabalho e sua gravata, as madeixas, voltam os esses e as palavras em inglês, aparecem as namoradas, as aulas de tênis e as saladinha de rúcula. Tudo isso se sucede com total naturalidade. Fiquem tranquilos, pais: não se desesperem. Seus filhos vão se parecer com vocês. Os melões do sistema se acomodam sozinhos.” (p. 55)

Aqui, a escolha de times que raramente disputam a primeira divisão do campeonato argentino é uma das maneiras de ser – ou, ao menos, de parecer – diferente. Tommy, um amigo yuppie de Mocho que decide torcer pelo Huracán no futebol para ser diferentão entre os amigos, diz: “Todos nós aspirantes a milionários temos uma [excentricidade].” E fazer aula de tênis é um dos indícios de conformidade com a normalidade.

c) Esporte na escola

Mocho estudou na Christian School (o nome é assim mesmo, em inglês), um “colégio inglês e misto” localizado entre os bairros de classe alta de Palermo e Nuñez. Nele,

“o esporte é muito importante, mais do que a História e as Matemáticas. Para os homens há duas opções: o rugby ou o vôlei. Esta decisão parece insignificante mas determina a vida social de cada aluno. O vôlei é para os maricas, aqueles que gostam de poesia, os que têm medo das pancadas. O rugby é para os que não são maricas, os que não têm medo das bordoadas. Com as mulheres acontece mais ou menos o mesmo, mas com o hóquei: elas são as lindas, as de sainha curta e pernas bronzeadas, e as do vôlei são as feias, as gordas e as de óculos” (p. 21).

Tais afirmações não estão lá para reforçar tal estado de coisas, mas para expor as vísceras de uma sociedade extremamente preconceituosa, a partir de dentro. Mocho não se identifica com tais valores, embora em alguma medida compartilhe deles e se beneficie do meio social em que foi criado e circula. Há muito sarcasmo e ironia ao longo de toda a narrativa.

O colégio é administrado pelos filhos dos fundadores, que têm o rugby em alta estima: “Se a equipe ganha (…) até te deixam faltar na manhã seguinte”. “Não é casualidade que o futebol não seja uma opção. Os donos têm medo que tire gente do rugby. Um ano fizeram um teste e saiu meio time. Todos nós gostamos do futebol”. Há uma estratificação de jogadores/alunos na escola entre os da equipe principal e os do segundo time. Uniformes distintos, ônibus com ou sem ar-condicionado para deslocamento até os campos de jogo etc.

d) O círculo de contatos e o esporte na vida adulta como mecanismos que auxiliam a perpetuação de privilégios

Uma rede de relações é estabelecida entre companheiros e ex-companheiros de time, extensiva a amigos próximos e familiares. O Christian Old Boys Rugby & Hockey Club, pelo qual Mocho joga no presente da trama, é um clube fundado para ser frequentado exclusivamente por ex-alunos e ex-alunas da Christian School. Após alguns anos, passa a aceitar sócios que não sejam ex-aluno, porque precisa de gente para completar os times e porque está mal financeiramente. E aí aparecem figuras completamente estranhas ao convívio social dos ex-alunos, como o gerente de um camelódromo em Avellaneda, “que sempre anda com peça” (ou seja, armado “com um 38 carregado debaixo do assento”).

Eis a caracterização do lugar do clube na liga:

“O clube compete na terceira divisão da União de Rugby de Buenos Aires. O ascenso está sempre próximo, mas nunca se concretiza. Nesta categoria de rugby é mais digno que glamouroso. Nunca rola de jogar em San Isidro ou em Pilar, nem há modelos nos olhando nas arquibancadas. O mais comum é visitar lugares como Florencio Varela, Ciudad Evita, Lanús ou Ituzaingó; lugares com nome de estação de trem, campos sem grama, de terra dura e sangue nos joelhos, banhos de água fria (…)”

Na narrativa sobre o passado construída aos 22 anos de idade pelo protagonista, ficam claras as relações sociais proporcionadas pelo ambiente escolar e pelo time, que incluem as famílias dos colegas. O rugby funciona dentro desta teia de relações: no fim das contas, o protagonista consegue um estágio num escritório de direito porque o entrevistador também foi rugbier a vida inteira.

e) Atribuição de apelidos, iniciação sexual e trotes

Aqueles que de alguma forma desviam de certas normas e convenções recebem tratamento específico e um apelido: Cristãozinho, o colega com deficiência que é “incluído” na turma, à custa de piadas sobre o tamanho de seu membro e outras zoações; “China” [Chino], o colega de time cujo apelido não é considerado uma ofensa, “desde que o cara não seja chinês de verdade”.

A iniciação sexual de vários membros do time da escola com uma mesma prostituta, durante uma viagem à província de Tucumán, sob os auspícios do técnico: “muitos vão a este tour como garotos e voltarão como homens”.

As noções normativas de masculinidade e heterossexualidade que se cruzam com o caráter de classe. A “estreia” sexual dos filhos homens da classe alta com as mulheres trabalhadoras domésticas. No time adulto, os “trotes” com os novatos, como uma ocasião em que um deles é deitado no no chão e obrigado a beber cerveja que escorre pelo peito, barriga e genitais de um colega de time; depois, companheiros de equipe lhe enfiam um desodorante pelo ânus.

f) Crimes contra o patrimônio como principal forma de violência

Um árbitro que, dirigindo seu automóvel rumo a uma partida de fim de semana, erra uma saída na autopista e vai parar na entrada de uma “favela fudidíssima”, sofre um sequestro-relâmpago.

Mocho e seu amigo Ariel, também colega de equipe, vivem no mesmo bairro de classe média alta, “cheio de embaixadas e mansões, mas […] muito próximo da Favela 31”. Ao contrário do narrador, Ariel já foi assaltado várias vezes. Conta uma delas: “Me cercaram três negros de merda na praça e roubaram meu iPod e o celular”. (A trama se passa em 2007). Nem todos, contudo, são assim. Os “cartoneros” (o nome vem das caixas de papelão que recolhem e vendem para atravessadores do mercado de reciclagem), designação daqueles que catam lixo, “são bons negros. Exemplares. Ensinam o ofício a seus filhos. Estão mostrando a eles seu futuro. Antes trabalhavam com carros puxados por cavalos, mas a sensibilidade da Sociedade Protetora dos Animais acabou com isso. É um esforço desumano para um cavalo, argumentaram. Agora as pessoas puxam seus próprios carros” (p. 11). A esses bons negros se contrapõem os maus: os viciados em crack. “Esses negros são os piores. Um negro desesperado é um negro perigoso” (p. 12).

Há a participação de famílias de bem em passeatas e manifestações “por mais segurança”. Na prática, demandam mais policiamento e punições mais duras para condenados por crimes dos quais se veem como vítimas – mas não para todos os crimes, cometidos por quaisquer pessoas, como fica claro ao longo da própria trama.

g) A atribuição de valores a uma modalidade esportiva (e a suposição de que são exclusivos dela)

– A associação das pessoas às posições em que jogam, incluindo elaborações pseudo-psicológicas e sociais a respeito de por que cada um joga em tal posição, e o que isso significa a respeito do perfil e do caráter do indivíduo. (O leitor atento e afeito a outros esportes perceberá que esta lógica e os próprios atributos não são exclusivos do rugby, mas, pelo contrário, comuns a muitas modalidades esportivas. Mas, para ter tal percepção, é preciso conhecer a historiografia disponível sobre outras modalidades.). Tais explicações, por um lado, emulam/reproduzem um certo senso comum do rugby, funcionando como uma rica chave de leitura para interpretação do pesquisador. Por outro, trazem uma visão própria do narrador, às vezes ácida e repleta de críticas a este mesmo senso comum.

– Marcas no corpo: a situação “miserável” da coluna cervical causada pelos impactos do jogo; a orelha deformada como símbolo de coragem e de dedicação ao esporte.

– A (suposta) coragem necessária para praticar o jogo: “Muito cedo em minha vida me dei conta de que era um covarde”. Isto não impede Mocho de ter uma extensa carreira no esporte, mas o expõe a situações em que sua masculinidade e companheirismo são postos à prova. Em dado momento, adversários o perseguem por todo o campo gritando: “Cagão! Cagão!”

“Simplesmente não gostava do contato. De qualquer forma, o rugby é um esporte muito mais tático e estratégico do que se pensa.  É possível ser bom usando a cabeça, entendendo o jogo, e deixando para os gordos e os brutos a parte das pancadas”.

– Além da coragem, há noção de sacrifício, explicitada pelas discussões com o preparador físico. “Não me dou muito bem com ele. É jovem mas tem alma e cabeça de milico. Ele diz que eu não jogo para o time, que jogo para mim, que não gosto de me sacrificar. Claro que não. Quem gosta de se sacrificar? Se eu gostasse, já não seria sacrifício.”

“Hernán Perdomo é o nome do preparador físico. Foi um jogador bem bom de Primeira, mas destruiu um joelho e teve que largar antes da hora. É daí que deve vir o ressentimento. Daí e de não poder ter feito carreira militar. Duchas frias de madrugada, o indivíduo não é nada, o time é tudo, saltos de rã, obediência devida. Esse seria seu paraíso. A disciplina e a convicção são essenciais para a vida militar e para o rugby. Não há êxito sem disciplina e não há disciplina dem a mais cega obediência. É “raro” que os alemães não tenham gostado deste esporte” (p. 49-50).

– Inclusão de biotipos e corpos marginalizados: “o rugby é especialmente amável com os gordos”

– A chatice dos treinamentos e de certas partes do jogo: “O único que me cansa é treinar o scrum, sem dúvida uma das coisas mais estúpidas do esporte mundial, junto com o arremesso de martelo. (…) Se o scrum é absurdo durante um jogo, muito mais embaraçante é treiná-lo”. Há frases maravilhosas para aqueles que, como eu, já treinaram, mesmo odiando fazê-lo: “Há algo de curativo nisto de correr como um imbecil ao redor de um campo.”

– A marcada diferença, ao menos no discurso do narrador, entre o olhar para o juiz no rugby em relação ao do futebol. O árbitro é convidado e participa da confraternização pós-jogo (terceiro tempo).

– O consumo abusivo de álcool. “No rugby pega mal não beber, é como ser viado ou vegetariano”. No episódio principal narrado, os jogadores começaram a beber já no vestiário, após uma “derrota humilhante” que não “murchou o clima de euforia” com a festa que viria a seguir.

– A violência e as agressões como parte do jogo e da intimidação psicológica do adversário. Nunca joguei rugby, mas já competi em vôlei, basquete, futebol, futsal, futebol soçaite e tênis e em todas estas há mecanismos semelhantes. No surfe, que pesquiso há anos, tais práticas também acontecem em competições.

– Aturar o discurso motivador do capitão na roda de jogadores antes de entrar em campo. O capitão em questão gostava de discursar sobre a família e os valores cristãos, mas era um bandido capaz de cometer “todas as infrações possíveis”, inclusive pedofilia. (Um típico cidadão de bem ou humano direito…). Mocho considera esse discurso motivador dos capitães um dos maiores sofrimentos de sua “carreira rugbística”. Contudo, o contraste é brutal em relação ao capitão até o ano anterior, “um grande jogador e uma ótima pessoa”, que foi jogar “em um clube da segunda divisão da Itália. A prática, contudo, se estende a outras modalidades. E o caso específico da hipocrisia do capitão não é exclusivo do rugby, nem do esporte: trata-se de algo presente em toda a sociedade.

– As relações com os técnicos.

“Espécie rara, os técnicos de rugby. Nunca conheci gente com tanta vocação para o que fazem; estão convencidos de que se pode construir um mundo melhor à base de tackles, rucks e malls. Tive de tudo: bons, maus, autoritários, estudiosos, socialistas, compreensivos, moralistas, dogmáticos, gritões e silenciosos. Mas todos compartilham essa convicção de que o rugby te faz uma pessoa melhor, o rugby formador de sujeitos, escola de vida, como se joga se vive. Até tive um no colégio que falava conosco em inglês” (p. 70-1).

Um deles “parecia saído de um desses filmes ianques em que um técnico obstinado torna um grupo de inúteis campeões do mundo”.

– Outras referências a outros esportes. O uso de quadras de tênis pelo narrador-jogador como unidade de medida para informar ao leitor o tamanho do salão do clube onde os jogadores almoçam antes das partidas. Embora alguns pesquisadores brasileiros reproduzam o senso comum de que “tênis é um esporte de elite” (já ouvi isso várias vezes), na Argentina ele é um dos esportes mais populares, tal qual em países como Estados Unidos e França. Há referências a outras modalidades: um jogador muito inteligente “é como Juan Román Riquelme” e “pode pensar como um enxadrista”.

h) Confraternizações e festas em torno do esporte

O acontecimento fundamental da trama é o terceiro tempo de uma partida de rugby que acontece na véspera da semifinal histórica à qual a seleção argentina da modalidade havia se classificado, na Copa do Mundo de 2007, contra a África do Sul. Há uma extensa narrativa dos procedimentos.

O almoço de equipe antes da partida, “um compromisso inadiável”. Nas conversas à mesa, o assunto inevitável da partida da seleção. Uns dizem acreditar ser possível vencer os favoritos sul-africanos. Outro dispara: “- Fico de saco cheio das propagandas dos Pumas [seleção argentina de rugby]. […] Prefiro que perdam para não seguir suportanto essa tortura.” Fiquei pensando nas propagandas envolvendo jogadores, seleção e técnico brasileiros antes e durante as copas do mundo de futebol.

A preparação para o terceiro tempo:

“Esse dia estávamos nos preparando para uma festa. Estava tudo pronto: engradados de cerveja, iluminação e som, litros de fernet [bebida popular na Argentina, geralmente tomada junto com coca-cola] e até uma máquina de fumaça. Não preparávamos festa em todos os terceiros tempos, mas o sucesso dos Pumas nos tinha contagiado e essa era uma ocasião especial. Havíamos combinado com as MINITAS do hóquei. Elas jogavam fora, mas viriam assim que terminasse sua partida. Nunca há muitas mulheres em nossos terceiros tempos: namoradas, algumas amigas e pare de contar.”

O narrador explica também o que é o terceiro tempo:

“O terceiro tempo é o orgulho do rugby. É o momento em que os membros das duas equipes, que haviam se matado de lutar dentro do campo, se unem para compartilhar um espaço de diversão e camaradagem. É o momento de ser cavalheiros, de distinguir-se do futebol, de fazer brincadeiras com os rivais e o árbitro, de ser um pouquinho ingleses”.

 

 


Bola no asfalto (Ballon sur Bitume, França, Jesse Adang, 2016)

12/03/2019

AAAABQbMyPljrHIPcO9uIV-y82XKyAhk0HTePZuPJWx0MmNs-iWLLGxHtN1oJMN-YkUOTpiIQiV3uiMN7jgaudH36Gfus85NhHn9LrqN8eWuvUJTh87PytkBCnXI2I_-8wgXL9B5U6A8gQ

“Sempre haverá um garoto que adora jogar futebol e que sonha em viver disso” (Bernard Diomèd, selecionador da equipe francesa sub 17).

“De cinco mil garotos só um se profissionaliza. De cem garotos num centro de treinamento oitenta e seis saem aos 16 anos, sem qualquer diploma ou habilitação” (Ferhat Cicek, técnico de futebol).

“O desenvolvimento do futebol profissional pelo mundo afora deve muito às peladas disputadas nas ruas da França” (Sinopse promocional do filme, disponível em: https://www.netflix.com/br/title/80184974. Consultado em 11/03/2019).

 

Bom início de ano, após os feriados momescos, caro leitor!

Hoje faremos um breve comentário sobre o documentário intitulado Bola no asfalto, produção francesa de 2016. As três citações acima servem-nos de guia. Cada uma delas expressa, além do seu conteúdo manifesto, linhas marcantes na condução narrativa da obra. A película consiste em uma série de depoimentos e imagens de peladas e torneios de futebol de rua e futebol de salão. Sempre em algum subúrbio ou departamento francês, com imensa maioria de jovens e atletas negros e imigrantes diversos. De cara já nos apresenta uma paisagem urbana, étnica e social menos conhecida e difundida da capital e do país em questão. Entre outros aspectos deparamo-nos com o mundo de um futebol comunitário, juvenil, jogado com regras mais flexíveis e adaptado às condições e limitações de equipamento. Bem próximo às nossas peladas, à moda Bangu, ao golzinho marcado com havaianas …

Não obstante, se pudermos generalizar a exposição narrativa do filme, a organização, profusão e capilaridade desse futebol espetacular e popular parece se mostrar incrivelmente pujante. Na verdade, parte de uma cultura juvenil (que incluí o Rap, estilos visuais) enfronhada em comunidades pobres e periféricas. É disso que a obra trata.

Relativamente às epígrafes acima, podemos desenvolvê-las nas suas respectivas matizes, que compõe a costura discursiva em jogo. A primeira se refere a uma dimensão lúdica do jogo (qualquer jogo) e, no caso, especificamente do futebol (modalidade que já demonstrou à exaustão seu grande apelo altamente compartilhado e apreciado, mundo afora). Aqui temos um tom universalizante; a paixão, a entrega à brincadeira, a seriedade das relações e regras informais que presidem o ritual da escolha de times, dos termos da disputa (da competitividade: “São amigos, mas não no campo”), a trajetória de amizades que começam num campinho, na infância, e atravessam a vida adulta… E o sonho, na maior parte das vezes frustrado, de esticar essa vida (boa) de garoto para o mundo profissional (“Quem nunca sonhou em ser um jogador de futebol?” – Skank: https://www.letras.mus.br/skank/72339/).

A intervenção de Ferhat Cicek, treinador de futebol, cria do mesmo ambiente dos meninos que são mostrados incessantemente no documentário, oferece o contraponto realista e bastante ponderado sobre as efetivas limitações dessas pretensões. O importante, segundo o mesmo Cicek, é se divertir saudavelmente, mas o “futuro depende da escola e não do futebol”.  Mas qual garoto quer ouvir isso?

O terceiro trecho em epígrafe parece uma assinatura francesa. Mais universal que a ludicidade do jogo e das trajetórias infantis, só mesmo a pretensão gálica: o desenvolvimento do futebol profissional mundial aparece como tributário das peladas de rua francesas. Não das inúmeras associações formais e informais para o jogo, no mundo inteiro, que há décadas fazem parte da história de vida de gerações de dezenas de nações… Enfim, c’est la vie.

 

Ficha técnica.

Ballon sur Bitume

França, 2016, 51’. Classificação 12 anos.

Documentário de Jesse Adang.

Fonte: https://filmow.com/bola-no-asfalto-t241246/ficha-tecnica/.

 

Para complementos e outras visões acessar LIMA, Arthur. Bola no asfalto: a cultura própria do futebol de rua francês. Disponível em: http://www.alambrado.net/bola-no-asfalto-a-cultura-propria-futebol-rua-frances/ ; GONÇALVES, Nathan. O futebol de rua e a socialização dos pobres na França. França. Disponível em: https://medium.com/pirata-cultural/o-futebol-de-rua-e-a-socializa%C3%A7%C3%A3o-dos-pobres-na-fran%C3%A7a-4c610ff1d954. Consultados em 11/03/2019.


Avenida, tu és o culpado!

25/02/2019

Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

A noite era de uma escaldante quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019, naquela cidade que adotei como minha, a maravilhosa e complicada Rio de Janeiro. Acabava de ministrar uma aula onde debatíamos sobre as ideias de modernidade e sua influência no mundo contemporâneo. Exemplos não faltavam: a ciência, o humanismo, a industrialização e o esporte… No entanto, ao deparar-me com o avançado horário, minha preocupação foi a de verificar o placar de uma histórica partida de futebol que estava acontecendo naquele momento: Corinthians Paulista 0, Avenida 2! Mal poderia acreditar! O placar final foi o menos importante. O pequeno Avenida de Santa Cruz do Sul, minha terra natal, se tornara um gigante conhecido nacionalmente. Naquela mesma noite decidira que o meu próximo texto trataria sobre o E.C. Avenida.

.

.

A verdade é que esse jogo vencido pelo bicampeão mundial, detentor de uma das maiores torcidas do país sobre um pequeno clube do interior do Rio Grande do Sul, que disputava a Copa do Brasil pela primeira vez e foi eliminado na segunda rodada, pouca diferença fez na história do esporte do Brasil. Contrariamente, após aquele memorável derby, o meu olhar sobre a história, assim como a minha percepção sobre a minha origem e a minha opção em me tornar um pesquisador do esporte foi totalmente reformatada e rearranjada.

Nas minhas muitas reflexões sobre aquele momento de quarta-feira a noite e o objeto de estudo da minha tese de doutorado e de outras pesquisas que desenvolvi e ainda desenvolvo, não pude deixar de lembrar da minha orientadora do mestrado, a professora Sandra Pesavento. A memorável historiadora tratava a história, também, como o resultado do “sensível”. Ela destacava que o papel do historiador era ter a percepção necessária para reconhecer nas fontes históricas as “sensibilidades” de uma época, de um local, de uma relação social. E aquele momento foi o responsável por aflorar uma série de lembranças da minha infância que, não poucas vezes, me deixaram com os olhos marejados.

Este não é um texto que trata sobre uma análise científica, mas uma simples reflexão sobre como o esporte marca profundamente as relações sociais, a formação e o futuro. Talvez por isso que eu tenha me apaixonado tanto por esse objeto de estudo. O esporte fascina, une, mas também divide, faz chorar em momentos alegres e tristes. Se, nas inúmeras reflexões sobre a história e desenvolvimento do esporte e do campo esportivo fomos levados a relacionar essas práticas com a racionalidade, a ciência e a modernidade, como associá-lo, ao mesmo tempo, ao inconsciente, a emoção, ao “sensível”?

Após o jogo de quarta-feira, percebi que meu gosto pelo esporte não estava ligado aos megaeventos ou aos grandes times (o Grêmio que me perdoe). As lembranças mais fortes e que não pararam de renascer a cada momento, estavam associadas a minha infância em Santa Cruz do Sul e as primeiras experiências com o futebol. Como não lembrar dos primeiros jogos onde eu era levado pelo meu pai jogador, vestido com o uniforme do time, e posava orgulhosamente para a foto do jogo? Como apagar da lembrança todas as histórias contadas, feitos memoráveis, conquistas épicas? Como esquecer aquela caixa de medalhas escondida lá na última e mais alta porta do roupeiro dos meus pais que regularmente me era mostrada envolta em uma magia indescritível como se fossem (ou de fato eram) troféus de batalhas?

No entanto, o primeiro clube que aprendi a admirar foi o Avenida. Desde a mais tenra idade ele esteve envolto no meu imaginário. Ouvia histórias a seu respeito nas rodas de conversa após os jogos onde eu acompanhava meu pai. Também foi o Estádio dos Eucaliptos o palco das primeiras “grandes” disputas que pude presenciar. As arquibancadas de cimento, a tela enferrujada que era o limite entre o campo e a torcida, o tradicional cachorro quente de linguiça, até mesmo aqueles históricos torcedores que tinham o seu lugar cativo, são lembranças emocionadas que tenho daquele tempo.

Tudo isso me fez pensar. Enquanto historiador do esporte, até quando somos cientistas racionais, analistas das fontes históricas? Quando deixamos que as nossas lembranças, carregadas de sentimento, interfiram na crítica do historiador? Infelizmente, eu não tenho respostas. Depois de quarta-feira a história se tornou ainda mais complexa pra mim. Continuarei abordando a metodologia histórica em sala de aula e a necessidade do distanciamento com o objeto, mas sem ter a convicção da real possibilidade que isso aconteça. No entanto, uma certeza eu tenho: Avenida, tu és o culpado!

.