Machado de Assis, João do Rio, Olavo Bilac e os novos padrões corporais no Rio de Janeiro da transição dos séculos XIX e XX

17/11/2017

Por Victor Andrade de Melo

Março de 1871 (no tempo da ficção, já que a obra foi escrita nos anos finais do século XIX). Bentinho e Capitu uma vez mais deixam sua casa na Glória para jantar na residência de Escobar e Sancha, na Praia do Flamengo. Em certo momento da noite, na janela a ouvir o barulho do mar em ressaca (como os olhos de Capitu, conforme sugeria o protagonista), perdido em pensamentos, Bentinho percebe o amigo se aproximar:

– O mar amanhã está de desafiar a gente, disse-me a voz de Escobar, ao pé de mim.
– Você entra no mar amanhã?
– Tenho entrado com mares maiores, muito maiores. Você não imagina o que é um bom mar em hora bravia. É preciso nadar bem, como eu, e ter estes pulmões disse ele batendo no peito, e estes braços; apalpa.

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Banhistas na Praia do Flamengo/década de 1910

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Bentinho assume que, a princípio, em Sancha lembrou quando apalpou o braço de Escobar. Todavia, logo uma sensação constrangedora lhe acometeu: “achei-os mais grossos e fortes que os meus, e tive-lhes inveja; acresce que sabiam nadar”. No retorno à Glória, inebriado pelo forte ruído do oceano, Bentinho se dá conta do incômodo que lhe causava a figura de Escobar, materializado numa fotografia que possuía em casa.

Entre tantas leituras possíveis, podemos ver em Dom Casmurro um embate entre modelos de masculinidade. Machado de Assis, na composição de seu personagem “másculo”, o destaca, entre outras características, pela compleição muscular e pelo hábito de praticar um esporte. O comerciante e empreendedor Escobar enfrenta mares bravios com seus bons pulmões e braços fortes. Morre não por covardia, mas sim por ousadia. Bentinho, ao contrário, toma ciência de sua fraqueza e inveja o amigo: sabe-se débil em muitos sentidos.

Podemos também considerar que se trata de uma dramatização de um embate entre o homem da tradição bacharelesca, que só se dedica às coisas da “mente” e do “espírito”, e o novo burguês, que expressa com seu corpo os comportamentos e posturas que marcam uma personalidade disposta a aceitar desafios. Enfrentar o oceano com seus próprios braços é um sinal definidor do perfil desse homem.

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Remadores na Praia do Flamengo/Década de 1920

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O que bem capta Machado de Assis são as mudanças de perfil e de padrão de exposição corporal na cena fluminense das últimas décadas do século XIX, tão bem definidas por João do Rio alguns anos mais tarde. No início do século XX, ele sugeriu que “Fazer esporte há 20 anos ainda era para o Rio uma extravagância. As mães punham as mãos na cabeça, quando um dos meninos arranjava um altere. Estava perdido. Rapaz sem um pincenez, sem discutir literatura dos outros, sem cursar as academias – era um homem estragado”. A contrário disso, na virada de centúrias, segundo seu olhar,

Rapazes discutiam “muque” em toda parte. Pela cidade, jovens, outrora raquíticos e balofos, ostentavam largos peitorais e a cinta fina e a perna nervosa e a musculatura herculeana dos braços. Era o delírio do rowing, era a paixão dos esportes. Os dias de regatas tornavam-se acontecimentos urbanos.

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Regata na Enseada de Botafogo/1ª década do século XX

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Não que o esporte fosse uma novidade na cidade. Desde a primeira metade do século XIX, diversas modalidades já vinham se estruturando, em conjunto com outras práticas corporais (ginástica, dança, patinação), expressões da valorização crescente de uma vida pública, materializada, inclusive, pela conformação progressiva de um mercado ao redor dos entretenimentos.

Naquela transição de séculos, contudo, no quadro de um Rio de Janeiro em mudanças, no qual se percebe ainda maior adesão ao ideário e imaginário da modernidade, bem como fortalecimento das relações com parâmetros simbólicos do continente europeu, as atividades físicas deixaram de ser uma exceção, venceram resistências culturais e, incorporando preocupações com a saúde e higiene, tornaram-se valorizadas por um significativo estrato da população, consideradas mesmo como um modelo de um novo padrão de vida que deveria se desejar para que o país pudesse progredir.

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Remadores do Clube Boqueirão do Passeio

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Os homens, como bem observa Luiz Edmundo, “já começam a mostrar corpos rijos e bem desenhados de músculos, muito orgulhosos de suas linhas, exibindo-se em calções, mas dos longos, dos que vão abaixo da linha do joelho” (1957, p. 840). Os remadores se tornam um exemplo.

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Remadores do Vasco da Gama

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O remo era representado como o esporte do “exercício physico”, termo-chave sempre usado pelos que defendiam e propagavam os benefícios dessa prática. Era encarado como o esporte da saúde; do desafio, contra o outro e contra o mar, que educa o músculo e a moral. Seria supostamente uma prática adequada para forjar uma juventude altiva, forte e com “liberdade de espírito” suficiente para conduzir a nação ao progresso necessário.

Olavo Bilac, ardoroso defensor do progresso e da modernização do país, celebrava:

Essa geração, que está se educando no mar, face a face com o perigo, criando a energia muscular e energia moral, já é mais bela, mais forte, mais nobre do que a minha. Os adolescentes de hoje já não são como os de ontem, magros e tristes, macambúzios e histéricos, criados entre o rigor do carrancismo paterno e a brutalidade dos mestres boçais, entre sustos e palmadas, sem exercício físico e sem liberdade de espírito (…) os meninos de hoje já são bravos como homens.

Assim, sempre que se falava dos atletas de remo, procurava-se destacar suas formas físicas, sua vigorosidade, sua “saúde”. O remador campeão brasileiro de 1903 era apresentado física e moralmente como uma figura próxima da perfeição: “Arthur Amendoa, é de estatura mediana, moreno, bela estatura, bela complexão de atleta, bastante musculoso, dotado de muito bom gênio e no trato é cortes; excelente companheiro e amigo leal”. As fotos de remadores exibem para o grande público a nova formação corporal que melhor expressava o que se esperava dos novos tempos.

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Remadores do Clube de Regatas Gragoatá

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Para mais informações

MELO, Victor Andrade de Melo. Cidade sportiva. Rio de Janeiro: Relume Dumará/Faperj, 2001.

MELO, Victor Andrade de Melo. Corpos, bicicletas e automóveis: outros esportes na transição dos séculos XIX e XX. In: PRIORE, Mary del, MELO, Victor Andrade de (org.). História do esporte no Brasil: do Império aos dias atuais. São Paulo: Editora Unesp, 2009. p. 70-106.

MELO, Victor Andrade de Melo. O corpo esportivo nas searas tupiniquins – um panorama histórico. In: PRIORE, Mary del, AMANTINO, Marcia. (orgs.). História do corpo no Brasil. São Paulo: Editora da Unesp, 2011. p. 123-145.

MELO, Victor Andrade de Melo. Novas performances masculinas: o esporte, a ginástica, a educação física (século XIX). In: PRIORE, Mary del, AMANTINO, Marcia (orgs.). História dos homens no Brasil. São Paulo: Editora da Unesp, 2013. p. 119-152.

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O VI Sul-Americano de futebol no âmbito dos Jogos do Centenário de 1922 no Rio de Janeiro: entre os discursos da “nação brasileira” e a diplomacia internacional

13/11/2017

Eduardo de Souza Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

 Em 1922, o Brasil festejava o centenário de sua independência. Essa data foi marcada por uma série de comemorações e exaltações da “nação brasileira”, em eventos diplomáticos com a presença de representantes de diferentes países do mundo.

Entre esses eventos, podemos citar as “Exposições Internacionais”. Pensadas na Europa do século XIX como forma de demonstrar o desenvolvimento industrial e a inserção de alguns países desse continente, essa modalidade de evento foi entendida como ideal para os festejos de comemoração do Brasil em 1922. Tendo em vista a intenção de idealizar o Brasil como uma “nação moderna”, tal como outras do “velho mundo”, foram nesse ano iniciadas as Exposições Internacionais na então capital Rio de Janeiro. O centenário da independência do país, concretizou um cenário propício para tais eventos, tendo tido em solo brasileiro a presença de diplomatas e representantes de diferentes nações.

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Exposição Internacional de 1922 – Av. Rio Branco, Rio de Janeiro/RJ. Fonte:http://historiasemonumentos.blogspot.com.br/2014/11/exposicao-internacional-do-centenario.html

Não devemos esquecer que, além das comemorações do centenário, 1922 ficou marcado por diversos outros acontecimentos relevantes no país. Podemos destacar, apenas como forma de exemplificação, o avanço do movimento tenentista, a Revolta dos 18 do Forte, a Semana de Arte Moderna e a fundação do Partido Comunista. Tendo esses e outros acontecimentos como pano de fundo, os debates que tratavam sobre a temática das ideias de “nação” brasileira, se fortaleceram.

Um grande exemplo desses debates sobre os caminhos a serem seguidos no país foi a criação e fortalecimento, entre 1921 e 1922, da “Reação Republicana”, que foi um movimento contrário ao poder político oligárquico dominante no Brasil naquele momento. Esse, contava com a participação de políticos e parte da elite de estados (Bahia, Distrito Federal, Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul) que buscavam quebrar a política dos governadores então estabelecida pelas oligarquias de São Paulo e Minas Gerais (vejam bem, destacamos aqui uma disputa de poder e, não necessariamente, uma busca por mudanças sociais mais amplas por esses outros estados e/ou oligarquias que participavam do movimento).

Para alcançar tal objetivo, os estados que compunham a Reação Republicana lançaram como oposição, nas eleições presidenciais de 1922, a candidatura do então senador fluminense Nilo Peçanha. Peçanha, que já havia presidido o país entre 1909 e 1910, concorreu com o mineiro Artur Bernardes pelo cargo de sucessor de Epitácio Pessoa na presidência. Inserido nas alianças ligadas à Política dos Governadores, Artur Bernardes foi eleito, porém não calou as formas de contestações políticas criadas pela Reação Republicana, tendo como exemplo o já citado movimento tenentista, que seguiu com força no decorrer da década de 1920.

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Charge publicada na revista O Malho, 25/02/1922 Fonte: http://act14-anjovida.blogspot.com.br/2014/08/

Neste breve post, buscaremos compreender um pouco da presença do esporte nesse cenário diplomático de construção da ideia de nação brasileira proposta em 1922, assim como em boa parte da década de 1920. Tendo em vista que a construção e realização dos “Jogos Olímpicos Latino-Americanos de 1922” já foi abordado com maiores detalhes em post anterior (muito bem) escrito por Karina Cancella, buscaremos de forma mais específica entender o papel do VI Sul-Americano de seleções de futebol nesse processo, por se tratar de uma competição ocorrida no âmbito dos Jogos do Centenário e que teve grande relevância e repercussão no período retratado.

O que aqui chamamos de Jogos Olímpicos Latino-Americanos de 1922, foram um conjunto de competições esportivas realizadas no cenário de comemorações do centenário da independência do Brasil, contando com a disputa das seguintes modalidades: natação, polo aquático, basquete, tênis, atletismo, esgrima, tiro, remo, boxe e hipismo. Junto a esses eventos, ocorreu o VI Sul-Americano de Seleções de futebol, organizado pela Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL).

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Parada militar do centenário. Fonte: TORRES, César. Jogos Olímpicos Latino-Americanos – Rio de Janeiro 1922. Manaus: CBAt, 2012, p. 32.

Em 1919, o Brasil sediou os campeonatos sul-americanos das seguintes modalidades: futebol, natação e polo aquático. Para realizar, em 1922, um evento que pudesse conglomerar outras modalidades em âmbito continental, se fez necessário uma série de obras públicas na cidade do Rio de Janeiro. Depois da realização de uma série de debates, assim como atrasos ocorridos que, por pouco, não levaram a realização dos jogos do centenário da capital para São Paulo, chegou-se a uma definição de como seria organizadas as obras para o evento no Rio de Janeiro. Como salienta Maurício Drumond,

[…] coube ao Fluminense Football Club, presidido por Arnaldo Guinle, membro de uma das mais ricas e influentes famílias cariocas, a oportunidade de sediar os jogos, realizando assim grandes obras em seu estádio. Para executar as obras no stadium do Fluminense foi chamado o arquiteto Hypolito Pujol Jr., que também era responsável pelo pavilhão de São Paulo na Exposição do Centenário – um dos maiores especialistas brasileiros em concreto armado, tecnologia moderna a ser utilizada no centro esportivo. Apresentando assim a modernidade a ser vista nos pavilhões da Exposição, o estádio do Fluminense seria então o principal palco dos Jogos do Centenário, abrigando o campeonato sul-americano de futebol, assim como competições de tênis, boxe, polo aquático, esgrima, atletismo e tiro. Outras localidades, como o estádio do Clube de Regatas do Flamengo, a Vila Militar e o Jockey Club, entre outros, também receberam parte das provas (DRUMOND, 2012, p. 21-22).

Na América do Sul, a primeira competição continental de futebol entendida como oficial (ou seja, que possuem a chancela da Conmebol) entre seleções foi realizada em 1916, na Argentina. O Brasil a venceu pela primeira vez em 1919, ano em que também foi o país sede da competição. Em 1922, ocorreu a sexta edição do evento, sendo a segunda em que o Brasil o organizaria.

Para conseguir montar uma equipe que melhor representasse a “nação brasileira”, foi criado o primeiro Campeonato Brasileiro de seleções estaduais, em 1922. Esse campeonato, vencido pelo estado de São Paulo, tinha como principal objetivo conglomerar os “craques” do futebol nacional em vista a formação do selecionado que disputaria o Sul-Americano de seleções (maiores informações sobre a criação do Campeonato Brasileiro de seleções estaduais, ver o post de João Malaia).

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Selecionados de São Paulo (parte superior da imagem) e do Rio Grande do Sul (parte inferior), que se enfrentaram no Campeonato Brasileiro de seleções estaduais de 1922, com vitória paulista por 4×2. Fonte: http://cacellain.com.br/blog/?p=78752

A preparação para o VI Sul-Americano foi marcada por tensões entre as duas maiores federações de futebol do Brasil, do Distrito Federal e de São Paulo. Como se tornou marcante nos primórdios do futebol brasileiro, as disputas entre paulistas e cariocas pelo poder desse esporte se explicitava como algo que sobressaia aos campos dos jogos. A criação do citado Campeonato Brasileiro de futebol teria sido uma forma de tentar conciliar os estados que disputavam o poder do esporte (Distrito Federal e São Paulo), assim como idealizar um selecionado que pudesse ser entendido como mais “nacional”, ou seja, sendo composto por atletas de outras localidades também. Todavia, como infere João Malaia, vários fatores impossibilitaram esse caminho, fazendo com que a seleção continuasse a ser dominada por carioca e paulistas:

Falar em seleção brasileira com a ideia de que dela fizessem parte jogadores que efetivamente representassem o Brasil foi uma tarefa difícil, uma vez que os estatutos da CBD excluíam os analfabetos, que de acordo com o Censo de 1920, eram 65% da população brasileira. Junto a esse dado, vale ressaltar que, a despeito da organização do campeonato de seleções estaduais, a seleção de 1922 contou apenas com jogadores de São Paulo e da cidade do Rio de Janeiro, como era de costume. Da equipe que disputou a final do torneio contra o Paraguai, sete jogadores eram de equipes paulistas e quatro eram de equipes cariocas (MALAIA, 2012, p. 68).

Mesmo com todas as tensões iniciais, o Brasil acabou se tornando campeão do Sul-Americano de futebol em 1922, sendo essa sua segunda conquista na história da competição (a primeira foi em 1919, quando também havia sediado o torneio). Porém, a campanha realizada foi marcada por altos e baixos, tendo o selecionado empatado os três primeiros jogos (1×1 com o Chile; 1×1 Paraguai; e 0x0 Uruguai) e ganho os dois últimos (2×0 Argentina e 3×0 Paraguai, sendo esse último um jogo desempate).

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Premiação do Brasil campeão do Sul-Americano de 1922, no Estádio das Laranjeiras. Fonte: http://www.conmebol.com/pt-br/ano-1922-sul-americano-no-brasil-palco-de-honra-do-estadio-das-laranjeiras-do-clube-fluminense

O percurso até a vitória foi analisado com olhares diversos por parte dos jornais cariocas e de outras localidades do país. Sem obviamente buscarmos criar generalizações em proporções nacionais, tendo em vista que analisamos apenas jornais do Rio de Janeiro, foi possível apurar até o momento com a pesquisa que a linha de alguns importantes periódicos cariocas no período, como O Imparcial e Correio da Manhã, entendia que o futebol e as demais práticas esportivas ofereciam bons caminhos para idealizarem um novo Brasil “moderno” e que se diferenciasse das oligarquias dominantes ainda presentes no poder do país (nesse caso, em relação a parte da imprensa que se colocava contrária ao governo vigente).

Percebemos, pela análise das fontes, uma tentativa da imprensa em interligar a exaltação do Brasil enquanto nação com o os resultados e jogos praticados pelo selecionado nacional. Com isso, qualquer ação que fosse contraria aos “interesses da pátria”, era criticada, tal como aquelas que se demonstravam deselegantes com o evento que o país organizava.

Como exemplo, podemos citar as críticas da imprensa sobre os erros de árbitros estrangeiros ocorridos durante o Sul-Americano de 1922. Um árbitro chileno, por exemplo, que fora chamado de Ladrón de Guevara pelos jornalistas de O Imparcial, desistiu de arbitrar partidas da competição, provavelmente após ser acusado de erros (O Imparcial, Rio de Janeiro, 20 de setembro de 1922).

Todavia, quando os erros teriam ocorrido por um árbitro brasileiro, parte da imprensa relativizou as supostas irregularidades. Na partida entre Paraguai e Uruguai, esses últimos alegaram terem sido prejudicados pela arbitragem do brasileiro Carlos Santos (O Imparcial, Rio de Janeiro, 14 de outubro de 1922), que teria supostamente beneficiado os paraguaios para que assim o Brasil continuasse com chances de ser campeão sul-americano (se os uruguaios vencessem, seriam os campeões). Nas páginas de Correio da Manhã, podemos perceber como o erro foi visto por parte da imprensa:

O Sr. Carlos Santos errou e com seus erros alterou o score da partida. Não queremos entrar em análise das suas intenções, por isso que, não temos o direito de discuti-las. Sempre respeitamos a honestidade dos países estrangeiros, e não há de ser, desta vez, que vamos pôr em dúvida a de um juiz brasileiro.

[…]  os uruguaios que tantas provas de correção tem dado em campo e fora dele, não deviam jamais ter pretendido abandonar o campo, mesmo que tivessem razão (Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1922, p. 5.).

Confirmados os erros acima, o fato é que a delegação uruguaia se sentiu prejudicada a tal ponto que abdicou do direito de continuar disputando o Sul-Americano, atitude essa que foi extremamente criticada por parte da imprensa, como podemos ver na citação anterior, onde questionam o posicionamento do selecionado de optar por sair do campo de jogo, e também ao explicitarem ser essa (o abandono do torneio) uma ação “interpestiva e indelicada […] retirando-se de uma competição entre amigos de uma forma tão violenta” (Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 16 de outubro de 1922). Percebe-se também com a citação acima, que a análise não se dava na tentativa de negar os erros, mas de entender que não deveria haver dúvidas da idoneidade e honestidade do árbitro brasileiro, sendo esse um olhar diferente em relação ao que se via na imprensa sobre os árbitros estrangeiros que supostamente teriam também cometido erros.

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Equipe base do Brasil campeão sul-americano de 1922. Fonte: https://baudofutebolce.wordpress.com/2011/05/31/1788/

Essas críticas explícitas nos periódicos demonstram como a defesa da nação se fazia como prioritária por parte dos jornais em questão, deixando claro que o evento não só tinha a intenção de festejar o centenário da independência do país, mas também demonstrar no cenário internacional os valores da “nação brasileira”.

A tensão gerada pela saída do Uruguai do torneio teria acalorado as relações entre os países e estimulado o aumento de críticas por parte daqueles que já eram contrários ao futebol e demais práticas esportivas como forma de se pensar a nação diplomaticamente. Malaia reforça que esse ocorrido poderia ter abalado as relações entre os dois países:

Além desse escândalo, alguns parlamentares passaram a condenar as competições internacionais de futebol, pois estas estariam acirrando rivalidades que extrapolavam o campo e estavam dificultando relações com figuras proeminentes dos países sul-americanos. Brasil e Uruguai disputavam uma cadeira permanente na Liga das Nações e devido aos atritos com a seleção uruguaia, alguns parlamentares brasileiros viram a competição e o acirramento das rusgas entre os dois países como um revés na política internacional do país. (MALAIA, 2012, p. 69-70).

Concluímos essa breve reflexão, destacando que o VI Sul-Americano de futebol, em 1922, foi mais uma entre as várias possibilidades de se construir uma representação da nação brasileira perante outros países no sistema-mundo. Assim, com a tentativa de se fazer “moderna” como as nações europeias, inferimos que as construções da nação brasileira, feitas de diferentes maneiras por políticos e veículos de imprensa, tinham como principal característica o distanciamento em relação aos outros países vizinhos da América Latina. Mesmo quando se tinha um discurso de aproximação diplomática, se fazia questão de destacar a diferenciação brasileira em relação aos outros países da região (como, por exemplo, no caso dos árbitros, onde o brasileiro que erra é entendido como honesto, mas os demais não). Esse debate se faz importante por ser tratar de uma discussão até hoje ainda não bem definida, sobre o Brasil se entender ou não como uma nação latino-americana.

REFERÊNCIAS

DRUMOND, Maurício. Os jogos esportivos do centenário: o ponto de vista da política. In: MALAIA, João Manuel; MELO, Victor (orgs.). 1922: celebrações esportivas do centenário. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012, p. 15-36.

GOMES, Eduardo de Souza. A Reação Republicana e a imprensa carioca no VI Sul-Americano de futebol em 1922: uma análise nas páginas de O Imparcial e Correio da Manhã. ÂNCORA – Revista Latino-Americana de Jornalismo, João Pessoa, v. 4, 2017, p. 147-171.

MALAIA, João Manuel. A imprensa e o sul-americano de futebol de 1922: a “defesa das cores nacionais” ou o “campeonato internacional das futilidades”?. Revista Estudos Políticos, Rio de Janeiro, n. 5, 2012, p. 60-76.

 


Puerto Rico entre huracanes y colonialismo: lecciones del deporte

02/11/2017

Dr. Antonio Sotomayor
Profesor y Bibliotecario en la Universidad de Illinois y autor de The Sovereign Colony: Olympic Sport, National Identity, and International Politics in Puerto Rico
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Han pasado más de cinco semanas desde que el huracán María azotara catastróficamente a la isla de Puerto Rico. La situación crítica y la respuesta inadecuada de las autoridades federales han llamado la atención de la comunidad internacional. Ante la crisis humanitaria en Puerto Rico tras el paso del huracán, han sido muchas las personas que han indicado que los afectados son “americanos.” ¿Son los puertorriqueños americanos o puertorriqueños? Para muchos, esta pregunta sería fácil de contestar: son puertorriqueños. Y la más clara evidencia de ello es su equipo olímpico nacional. Para otros, la respuesta podría comenzar con un “depende,” debido a que Puerto Rico es un territorio no incorporado de los EEUU y que los puertorriqueños han sido ciudadanos de los EEUU desde 1917. Esta aparente ambigüedad en definir a los puertorriqueños como americanos o no es una pieza clave en la respuesta de la administración Trump ante el paso del huracán María por la isla.

Puerto Rico y sus habitantes continúan en una crisis humanitaria, a más de un mes del paso del huracán María, el cual azotó esta isla caribeña el 20 de septiembre con vientos sostenidos de hasta 155 millas por hora y dejando en algunos lugares casi 40 pulgadas de lluvia. El huracán provocó billones de dólares en daños, los cuales se suman a los 74 billones de deuda que ya cargaba el territorio antes de María. Ante esta calamitosa imagen, el llamado a EEUU para que ayude a Puerto Rico ha sido bajo la premisa de que los puertorriqueños son “americanos” y, por ende, deben recibir ayuda completa, inmediata y sin condiciones. Ciertamente, algunos puertorriqueños se sienten tan americanos como cualquiera en los 50 estados de la Unión. Pero, muchos otros no dirían que primero son americanos, sino que son puertorriqueños con ciudadanía estadounidense. En este sentido, y como se ha dicho en otros espacios, la puertorriqueñidad es nacional y la ciudadanía estadounidense es un tecnicismo de acceso conveniente. La diferencia en estos dos puntos es importante y creo que va al centro de la pobre respuesta de la actual administración Trump. O sea, los estadounidenses ven, no erróneamente, a los puertorriqueños como un pueblo diferente de los EEUU, otra nacionalidad, y por ende no los ven como ciudadanos estadounidenses. Como veremos, el deporte provee una buena ventana para observar la intersección entre identidad, los esfuerzos de reconstrucción después de María y la administración de Donald Trump.

Por lo general, los puertorriqueños rechazaron la campaña de americanización de los Estados Unidos durante el principio del siglo XX luego de la invasión de 1898, la cual buscaba substituir la cultura hispana por la anglo-sajona y así acercarlos a una posible admisión como un estado de la Unión. Paralelamente y desde entonces, los puertorriqueños han defendido su hispanidad como pueblo iberoamericano, lo cual ha sido suficiente para crear la idea de que Puerto Rico es oficialmente un país soberano. Que más de la mitad de los estadounidenses ignoren que los puertorriqueños son ciudadanos estadounidenses no debería ser sorpresa. Durante esos años de la negociación al plan de americanización, los puertorriqueños sí adoptaron los deportes (e.g. beisbol, baloncesto, volibol) como una práctica cultural progresista y los añadieron a su repertorio de elementos de identidad puertorriqueña.

Por lo tanto, los deportes, especialmente el Movimiento Olímpico, nos pueden ayudar a entender mejor la complejidad de la identidad puertorriqueña. Los puertorriqueños tienen su propia delegación olímpica desde 1930 como nación caribeña y latinoamericana, pero participan en el ciclo Olímpico ostentando su ciudadanía estadounidense. Los puertorriqueños valoran su delegación olímpica, pues ven en ella la única forma de tener una visible presencia internacional, una voz como nación dentro del concierto de naciones. Al hacer esto con su ciudadanía estadounidense, la cual valoran como medio de acceso fácil a los Estados Unidos y, por ende, como una protección económica y social, perciben que tienen lo mejor de dos mundos: nación y orgullo cultural + estabilidad económica y política. Este orgullo nacional quedó claro cuando Mónica Puig ganó la medalla de oro en tenis durante los Juegos Olímpicos de Rio en 2016 y cuando el equipo de beisbol llegó invicto al juego final del Clásico Mundial de Beisbol (CMB) en marzo de este año.

Si bien para los puertorriqueños los triunfos en las Olimpiadas y el CMB fueron extraordinarios, los mismos ocasionaron confusión de parte de algunos en Estados Unidos, quienes no entendían la relación compleja entre la política y la cultura de los puertorriqueños. Algunos no entendían por qué Puig, recibida en la isla como heroína, ganó una medalla para PR cuando al Puerto Rico ser un territorio de los EEUU la medalla debería ser otorgada a los EEUU. Similarmente, la recepción como héroes del equipo nacional de beisbol luego de su actuación en el CMB fue vista por algunos en EEUU como incomprensible. Estos ignoraron la capacidad del deporte para proyectar a Puerto Rico como nación, el nivel de unidad que los deportes internacionales logran entre los puertorriqueños e ignoraron también que a veces perder una medalla de oro, sino quedarse con la de plata, no es sinónimo de fracaso. Al ganar su medalla de oro, Mónica Puig dijo en entrevista que había unido a una nación. Similarmente, Yadier Molina, en entrevista previa al juego final del CMB, declaró que “Esto es por nuestro país. Te envuelve la emoción cuando juegas por tu país.”

Una voz de defensa y reclamo constante durante la actual crisis ha sido la de la alcaldesa de San Juan Carmen Yulín Cruz Soto. La alcaldesa, perteneciente a la ala soberanista del tradicional Partido Popular Democrático, se ha dado a conocer internacionalmente por retar a la administración federal para que responda adecuadamente a su responsabilidad de proteger a los puertorriqueños de esta crisis humanitaria. Durante su juventud, Carmen Yulín fue capitana del equipo de atletismo en la Escuela Superior de la Universidad de Puerto Rico, donde aún ostenta un record en la carrera de los 400 metros lisos. Cuando Mónica Puig gana la primera medalla de oro para Puerto Rico, Carmen Yulín rápidamente la halagó por ser una “¡Mujer valiante, Boricua en palabra y acción!” Igualmente, ante un tuit del Comité Olímpico Internacional diciendo que Puig había ganado la medalla “para su equipo,” Yulín los corrigió diciendo que lo había hecho “¡por su país!”

Debemos notar que el centro de mando de Yulín en el Coliseo Roberto Clemente (nombrado en honor al héroe deportivo nacional puertorriqueño por excelencia) exhibe en su entrada principal una gigantesca bandera puertorriqueña.

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Esta bandera muestra el color azul cielo asociada con el sector independentista y soberanista. Este color azul cielo también ha sido usado por el Comité Olímpico de Puerto Rico. Disponible en: https://www.telesurtv.net/english/news/Puerto-Rico-Mayor-Says-Trumps-Comments-Were-Insulting-20171004-0017.html

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A su vez, el color contrasta con el azul marino asociado con la bandera de EEUU y con el movimiento anexionista, al cual pertenece el gobernador Ricardo Rosselló. Disponible en: http://www.fortaleza.pr.gov/content/el-pa-s-recibe-sus-embajadores-ol-mpic

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Si bien el deporte internacional envía un mensaje claro de que Puerto Rico es una nación, sus ciudadanos tienen la ciudadanía estadounidense. Y como tales, tienen derecho a recibir ayuda inmediata y completa del gobierno federal ante la crisis. La actitud de reclamo de la alcaldesa Cruz Soto ante la responsabilidad del gobierno federal de proveer esa ayuda fue más que una razón para que el presidente Trump la atacara, llamándole, entre otras cosas, “nasty.” Después de esto y durante la visita de Trump a Puerto Rico el 3 de octubre, los deportes volvieron a servir de ventana especial para ver la relación política entre Puerto Rico y EEUU. Vimos al Presidente Trump lanzando papel toalla, con técnica baloncelista, a un pequeño público de simpatizantes.

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Para los puertorriqueños, el acto fue muy bien interpretado, pues el baloncesto es uno de sus deportes favoritos. Y no nos olvidemos de que la selección nacional puertorriqueña de baloncesto le propinó al llamado Dream Team de EEUU su peor derrota en el baloncesto olímpico. El mismo fue otro episodio significativo de nacionalismo deportivo puertorriqueño. El mensaje del 3 de octubre, enviado en lenguaje deportivo, fue más que revelador de un presidente enajenado de todo tipo de empatía moral. El acto refleja, en perfecta metáfora deportiva, el rol de los EEUU con sus súbditos coloniales: el apoyo federal para los puertorriqueños equivale a que se les arrojen meras migajas. Y estas migajas, tal cual la ciudadanía estadounidense, no equivale a lo que los puertorriqueños necesitan: desarrollo de una economía autosuficiente.

A pesar del fracaso de la economía colonial en Puerto Rico, los Estados Unidos no han asumido una postura razonable ante la crisis fiscal y social en la isla. Por el contrario, bajo la firma del presidente Obama, el Congreso envió en el 2016 una Junta de Control Fiscal que, en vez de proveer un desarrollo realista de la economía, lo que ha hecho es proponer medidas de austeridad extrema. Las acciones, o inacciones, del gobierno estadounidense han provocado nuevas olas de alarma y llamados para reformas de envergadura.

El 3 de octubre, los puertorriqueños no necesitaban papel toalla; necesitaban el anuncio y estrategia de implementación de un plan de asistencia comprensivo y adecuado a la urgencia de una crisis humanitaria.

Creo que el hecho de que los puertorriqueños sean un pueblo netamente iberoamericano es la razón por la cual esta actual administración en los EEUU, la cual se ha decantado por una política de odio, dedica tan pocos recursos e interés en aliviar la crisis. No veo cómo bajo la probada relación entre Trump y las posturas que defienden el nacionalismo blanco, esta administración se volcaría para ayudar sin restricciones a un territorio que es mayoritariamente mulato, que habla español y que hasta se considera una nación Caribeña y Latinoamericana distinta a los Estados Unidos.

Los puertorriqueños no son americanos, son puertorriqueños. Llamarles americanos e igualarlos a cualquier estadounidense en cualquiera de los 50 estados, sería una gran tergiversación y hasta un atentado contra el derecho a una nación a existir. Llamarlos americanos sin estar conscientes de su sentido de pueblo soberano atenta contra un proceso histórico sobresaliente donde los puertorriqueños en vista de un poderoso proceso de americanización optaron por mantener su cultura latinoamericana ante la presión de asimilación de la potencia cultural más poderosa de todos los tiempos.

Los puertorriqueños también son ciudadanos estadounidenses, por imposición desde 1917. Como tal, los puertorriqueños tienen una obligación de registrarse a los 18 años para participar en guerras de EEUU y muchos han servido desde la Primera Guerra Mundial. Esta situación entre identidad y ciudadanía de los puertorriqueños no debe ser complicada de entender, si tomamos en cuenta que la relación entre EEUU y Puerto Rico es una colonial. Y como colonia, los puertorriqueños son vistos como externos a EEUU, y por lo tanto no se “merecen” la misma asistencia y atención que los estados fidedignos. El “olimpismo colonial” de Puerto Rico nos deja ver que existe una nación vigorosa y orgullosa, pero a la misma vez atada por las camisas de fuerzas de la subordinación colonial. Aunque el olimpismo colonial puede ser un fantástico tema de investigación académica, en tiempos de crisis como el que vive Puerto Rico hoy, el juego entre nación y colonialismo puede ser uno, literalmente, de vida o muerte.

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O olhar para o estrangeiro: influências externas no processo de introdução de atividades físicas no cotidiano dos militares brasileiros

30/10/2017

Por Karina Cancella

As influências estrangeiras nas Forças Armadas (FA) brasileiras na primeira década do século XX eram identificadas em diferentes áreas. As aproximações com FA de outros países foram realizadas tanto pelo Exército como pela Marinha por meio de observações de suas atividades e processos de organização; de ações realizadas em visitas oficiais e também em recepções de forças amigas em território nacional.

Em meio às ações de reestruturação das FA brasileiras empreendidas nos primeiros anos do século XX, o “olhar” para o estrangeiro foi um movimento constante, uma vez que os modelos de organização e treinamentos dos militares da Europa, América e Ásia eram observados com vistas a elaborar um modelo adequado à realidade nacional. As questões relacionadas ao preparo do corpo também se fizeram presentes nesse contexto de buscas por modernização.

No caso do Exército Brasileiro (EB), no início do século passado, duas nações europeias “disputavam” a predominância nas influências. Alemanha e França buscavam, por meio de aproximações em missões militares e estágios internacionais, garantir um espaço de atuação no EB indicando novas formas de organização, de metodologias de trabalho e também assegurando novos mercados para seus materiais bélicos. (DOMINGOS, 2001; LUNA, 2007).

Diante desse quadro de disputa por influência militar nos primeiros anos do novecentos, grupos de militares brasileiros foram enviados para estagiar na Alemanha e a França intensificou suas aproximações com o envio de uma missão militar para atuar na Força Pública de São Paulo. As negociações se desenvolveram de forma rápida, mas o Exército Francês não apresentou grande entusiasmo em enviar uma missão para uma Força Policial. Segundo Manuel Domingos (2001), seus reais objetivos eram a entrada no Exército Brasileiro e estabelecimento de sua estrutura militar naquela instituição, mas como o EB estava em processos de aproximação com os militares alemães, a missão na Força Pública foi considerada uma alternativa interessante para marcar a presença francesa no Brasil. Em 1906, então, chegou a São Paulo a missão coordenada pelo Coronel Paul Balagny.[1]

Os franceses iniciaram suas atividades na Força Pública de São Paulo e passaram a buscar apoio junto ao General Luiz Mendes de Morais, provável substituto de Hermes da Fonseca na pasta do Ministério da Guerra, para alcançar seu objetivo maior: o Exército Brasileiro. As ações realizadas em São Paulo foram utilizadas como propaganda das possibilidades de atuação e das contribuições que uma missão francesa poderia estabelecer no EB (DOMINGOS, 2001).

A atuação dos militares franceses em São Paulo foi um marco importante para as relações entre esporte, educação física e militares no Brasil. Como desdobramento das renovações implementadas pela Missão Francesa, foi criada a primeira Escola de Educação Física do país com o objetivo de formar monitores para divulgar a prática de esporte e atividade física. Publio e Catalano (2005) transcreveram o documento que oficializou a criação da Escola de Educação Física da Força Pública de São Paulo, que inicialmente foi nomeada de “Curso de Esgrima e Ginástica” e esteve sob a direção do Capitão do Exército Francês Delphin Balancier. A sede da Escola foi estabelecida próxima ao rio Tietê, espaço tradicional de concentração dos clubes esportivos paulistas desde o final do século XIX. O documento de criação, Aviso da 3a. Seção nº 185 de 03 de março de 1910, foi publicado na Ordem do Dia nº. 52 do Comando do 1° Batalhão da Força Pública e tinha o seguinte teor:

Senhor Comandante Geral da Força Pública. Declaro-vos em referência ao Ofício nº 330 de 14 do mês passado que fica creado um Curso de Esgrima e Gymnastica, destinado aos officiais da Força Pública do Estado, devendo serem tomadas as providências para instalação do respectivo apparelho em sala adrede preparada. Saúde e fraternidade. (Assinado) W.Luiz (PUBLIO; CATALANO, 2005, p. 414).

As atividades e treinamentos desenvolvidos na Escola eram divulgados para a sociedade em geral por meio de notícias publicadas na imprensa enfatizando a importância das atividades físicas. No início do século XX, as preocupações com essas atividades ocupavam espaço nos periódicos, tal como os eventos sociais e as cerimônias das diferentes forças militares do país.

Essas influências estrangeiras tanto no Exército como na Força Pública de São Paulo auxiliaram na implantação de ações para um maior profissionalismo nessas instituições, envolvendo além de mudanças nas estruturas internas, reforma de regulamentos e inserção de novas práticas, a intensificação das preocupações com as atividades físicas. A criação da Escola de Educação Física em São Paulo é um exemplo desse novo movimento.

No caso da Marinha do Brasil (MB), uma das aproximações com influências estrangeiras na área da atividade física ocorreu de forma um tanto inusitada. No ano de 1908, o Navio-Escola Benjamin Constant realizou uma viagem de navegação ao redor do globo como parte da conclusão do curso de oficiais da MB. Ao chegar ao Oriente, no trajeto entre Honolulu e Yokohama, o navio resgatou 22 japoneses que haviam naufragado próximo à Ilha Wake, no Pacífico. Eles foram levados de volta ao país de origem pelo navio brasileiro. Esse evento fez com que a viagem do Benjamin Constant recebesse destaque da imprensa com publicações de diversas notas acompanhadas de fotografias sobre partes da viagem e sobre a recepção dos militares brasileiros no Japão, inclusive trajando os tradicionais kimonos em cerimônia do chá oferecida aos oficiais. Pelas ações de resgate dos náufragos japoneses, o comandante do navio Capitão-de-Fragata Antonio Coutinho Gomes Pereira recebeu a medalha de ouro do mérito naval japonês.[2], [3]

Essa visita ao Japão e as aproximações estabelecidas resultaram na vinda de alguns japoneses a bordo do Benjamin Constant em seu retorno ao Brasil. Os asiáticos aproveitaram a viagem para apresentar à tripulação brasileira a prática do jiu-jitsu, arte marcial de origem japonesa. O retorno do navio ao país com esses convidados foi noticiada na revista Careta do dia 19 de dezembro de 1908. Com imagens ocupando página inteira, a publicação destacava a vinda do professor Sada Miyako, seu ajudante M. Kakihara e Sensuke He, que se tornou criado de bordo do Benjamin Constant após ter sido resgatado na Ilha Wake. Além das fotografias dos japoneses, a revista ainda publicou duas fotos com os marinheiros brasileiros recebendo lições de jiu-jitsu a bordo do navio.[4]

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Fotografias em sequência com as imagens de Sada Miyako e seu ajudante M. Kakihara; Sensuke (o criado de bordo) e os marinheiros treinando os golpesFonte: Revista Careta, 19 de dezembro de 1908, p. 22.

Após sua chegada ao país, o professor Sada Miyako passou a dar lições de jiu-jitsu na Fortaleza de Villegagnon. Logo no ano seguinte à sua chegada, Miyako protagonizou um evento interessante para a história do esporte nacional. Em exibição da arte marcial japonesa no Pavilhão Paschoal Segreto, no Rio de Janeiro, o locutor anunciou que o lutador convocava um desafiante. O praticante de capoeira Francisco da Silva Ciríaco, conhecido na cidade como Macaco Velho, aceitou o convite e, em um movimento muito rápido, golpeou o japonês sendo declarado vencedor da luta (INOUE, 2009). A realização do combate foi noticiada na imprensa em diferentes periódicos, como o Jornal do Comércio de 02 de maio de 1909[5] e a Revista Careta de 29 de maio de 1909. No jornal, foram publicadas duas notas sobre o evento. A primeira informava que “sportman japonez do tão apreciado jogo jiu-jitsu foi hontem vencido pelo preto campista Cyriaco da Silva, que subjugou o seu contendor com um passo de capoeiragem”. No mesmo jornal, em um pequeno box no canto direito da página em meio aos anúncios de “vende-se” e “preciza-se” foi publicada uma nota divulgando os serviços prestados por Miyako como treinador de jiu-jitsu:

JIU-JITSU: Mr. Sada Miyako, professor contratado para leccionar jiu-jitsu na marinha brasileira, encarrega-se de dar licções particulares e a domicílio; cartas para a rua Gonçalves Dias n. 73, ou para a Fortaleza de Willegaignon. [6]

As aproximações dos militares brasileiros com técnicas e modelos de FA do exterior prosseguiram nos anos seguintes e as preocupações com as atividades físicas e esportivas se intensificaram. Esses movimentos iniciados ainda nos primeiros anos do século XIX se desdobraram na fundação de Ligas Esportivas na MB e no EB em 1915 e de suas Escolas de Educação Física na década de 1920. (CANCELLA, 2014).[7]

Referências:

CANCELLA, K. O Esporte e as Forças Armadas na Primeira República: das atividades gymnasticas às participações em eventos esportivos internacionais (1890-1922). 1. ed. Rio de Janeiro: BibliEx, 2014.

DOMINGOS, M. A disputa pela missão que mudou o Exército. Revista Estudos de História, v. 8, p. 197-215, 2001.

GRUNENNVALDT, José Tarcísio. Os militares e a construção das condições para criação das escolas para formação de profissionais de Educação Física: um caso de revolução passiva. In: IV Congresso Brasileiro de História da Educação, 2006. Anais do IV Congresso Brasileiro de História da Educação. Goiânia: Universidade Católica de Goiás, 2006.

INOUE, Mariléia Franco Marinho. Histórias sobre Saku Miura. Imigração Japonesa no Estado do Rio de Janeiro: Acervos de Imagem e Fala da Imigração Japonesa no Estado do Rio de Janeiro – Escola de Serviço Social da UFRJ, 2009. Disponível em: http://www.ess.ufrj.br/memoriaimig/index.php/presjaponesa/54-municipioriodejaneir o/376-texto-historias-sobre-saku-miura.html. Acesso 12 jan. 2012.

LUNA, C. Os “jovens turcos” na disputa pela implementação da missão militar estrangeira no Brasil. In: I Encontro Nacional da Associação Brasileira de Estudos de Defesa, 2007, São Carlos. Anais do I Encontro Nacional da Associação Brasileira de Estudos de Defesa. São Carlos: UFSCar, 2007.

PUBLIO, N.; CATALANO, I. Escola de Educação Física da Polícia Militar do estado de São Paulo. In: DACOSTA, L. P. (Org.) Atlas do Esporte do Brasil. Rio de Janeiro: Shape, 2005, p. 138-139.

 

[1] Neste mesmo período, as preocupações com o processo de formação em Educação Física entraram em pauta nos debates legislativos. Em 1905, o deputado amazonense Jorge de Morais apresentou projeto ao Congresso Nacional propondo a criação de duas escolas de Educação Física, sendo uma civil e a outra militar. Previa ainda o envio de oficiais de terra e mar para a Europa e América do Norte para se especializarem na área. Declarava a necessidade de se adquirir terrenos para a realização de jogos ao ar livre e a instituição da ginástica sueca e jogos ao ar livre no Ginásio Nacional, Colégio Militar e Escola de Aprendizes e Marinheiros. Entretanto, apesar de ter sido aprovado o projeto não foi concretizado (GRUNENNVALDT, 2006).

[2] Revista Careta 01 de agosto de 1908; Revista Careta 17 de outubro de 1908; Revista Careta 19 de dezembro de 1908; Revista Fon-Fon 01 de agosto de 1908; Revista Fon-Fon 29 de agosto de 1908; Revista Fon-Fon 10 de outubro de 1908

[3] BRASIL. Relatório do Ministério da Marinha de 1908, p. 5.

[4] Revista Careta 19 de dezembro de 1908, p. 21-22.

[5] Jornal do Commercio, 02 de maio de 1909, p. 7; p. 19.

[6] Jornal do Commercio, 02 de maio de 1909, p. 19.

[7] Para saber mais, ver: CANCELLA, K. O Esporte e as Forças Armadas na Primeira República: das atividades gymnasticas às participações em eventos esportivos internacionais (1890-1922). 1. ed. Rio de Janeiro: BibliEx, 2014.


Meios de Comunicação e Esporte: Grandes Amigos

23/10/2017

A relação entre as empresas de mídia e o esporte é longa e mutuamente proveitosa. Meios de comunicação oferecem visibilidade aos atores do mundo desportivo, permitindo mais fluxo de bilheterias e melhores contratos de publicidade, enquanto os meios de comunicação aumentam a sua circulação, devido à atratividade do conteúdo esportivo junto às audiências. A imprensa teve um papel fundamental para a independência do esporte e o seu processo de profissionalização. Mas as fronteiras entre ambos universos são fluídas e muito próxima foi a relação de empresas de mídia com o universo desportivo.

Em França, o caso mais relevante de empresas de mídia que passaram a exercer funções que seriam de organizações esportivas é o que envolve o jornal L’Équipe e o Tour de France. A prova ciclística mais famosa do mundo em sua origem foi criada e organizada pelo jornal L’Auto, em 1903. A rivalidade entre os jornais L’Auto e Le Vélo foi além da produção jornalística, chegando a organização de atividades esportivas. Limitadas a provas de dimensões menores, como Paris-Roubaix, Bordeaux-Paris, Paris-Brest, a criação do Tour de France – a primeira prova por etapas no território francês – foi pensada para assegurar um espetáculo esportivo único e aumentar a venda de jornais: desde o verão de 1903, durante o período da competição o L’Auto teve sucesso, triplicando a venda dos jornais e diminuindo os números da concorrência.

tour

Suspenso durante a segunda guerra mundial, o Tour de France passou a ser desejado pela imprensa de esquerda por conta do seu poder como vetor publicitário. Assim, três jornais (Sports, o semanário Miroir Sprint e diário generalista Ce Soir) criaram conjuntamente, a partir de um modelo semelhante, a « Ronde de France », em 1946. Contudo, em 1947, o Estado atribuiu ao Parisien Libéré e ao L’Équipe a responsabilidade de retomar o Tour de France. As condições da nomeação foram eminentemente políticas: Emilien Amaury, proprietário do Parisien Libéré, era muito próximo ao partido gaulista. Em 1965, ele aumenta o seu património comprando oficialmente o jornal L’Équipe, de modo que o grupo Amaury detém o quotidiano esportivo e o Tour de France.

A retomada da competição em 1947 foi fundamental para estruturação interna e a perenidade do jornal. Ela permitiu que fossem reestabelecidas e reforçadas as ligações com os setores da indústria ciclística e patrocinadores. Os retornos publicitários sobem, tal como as vendas que têm no mês de julho, quando se realiza a prova, o seu maior volume. O modelo económico de organização dos eventos tinha um objetivo claro: aumentar a venda dos jornais. O grupo Amaury também é hoje responsável pelo Rally Dakar.

A competição de clubes mais importante no universo do futebol também foi criada a partir do jornal L’Équipe. O primeiro congresso da UEFA só aconteceu em 2 de Março de 1955 e a maior parte dos membros fundadores estavam preocupados em criar um torneio continental de seleções, deixando espaço para a iniciativa do jornal francês. A competição idealizada pelo L’Équipe não obrigava a que os participantes fossem campeões nacionais, funcionava sim por convites aos clubes que geravam maior interesse junto dos adeptos. Representantes de 16 clubes foram convidados para uma reunião que teve lugar a 2 e 3 de Abril de 1955 e as regras do L’Équipe foram aprovadas por unanimidade. A UEFA reagiu ao contactar a FIFA, e o Comité Executivo desta, numa reunião em Londres a 8 de Maio de 1955, autorizou a realização da nova competição de clubes com a condição de ser organizada pela UEFA e que as federações nacionais dessem o consentimento à participação dos respectivos clubes. O Comité Executivo da UEFA aceitou estas premissas exigidas pela FIFA e concordou em levar a cabo a prova num encontro realizado a 21 de Junho de 1955.

A iniciativa do L’Équipe era primordialmente comercial. Tradicionalmente, o calendário esportivo concentra os seus eventos no final de semana, por isso as edições dos jornais desses dias, com as informações e prognósticos para os jogos apresentam sucesso, assim como a de segunda-feira, pois trás os resultados. Contudo, os jornais esportivos diários sofrem de um mal: a distorção de vendas – hipertrofia no final de semana e segundas, e um vazio no meio da semana. Assim, para combater esse desequilíbrio, em 1955, os responsáveis do jornal L’Équipe pensaram numa competição que preencheria a agenda esportiva no meio da semana, a Taça da Europa, que posteriormente se tornaria a Liga dos Campeões. Dois anos mais tarde, a mesma lógica foi aplicada para a criação da Taça da Europa de Basquete e, em 1967, lançaram a Copa do Mundo de Ski, para compensar a falta de informações esportivas no inverno.

Essas estratégias válidas para os impressos também é colocada em prática por canais de televisão. Ao longo dos anos, algumas empresas criaram competições esportivas, das quais se destacam os Good Will Games, lançados pela CNN, em 1986 e os X Games de verão e inverno, criados pela ESPN (ABC-Disney), em 1995. No Brasil também encontramos exemplos: a Rede Globo criou os Jogos de Verão para alavancar as audiências do domingo de manhã durante o verão, principalmente quando não havia torneios de futebol a serem disputados.

Contudo, hoje em dia, a criação de novas competições se dá mais facilmente em modalidades menos populares ou tradicionais, como os esportes radicais por exemplo. No caso do futebol, existem dois grandes obstáculos: a tutela e aprovação de organizações como a FIFA e a UEFA; e a necessidade de um investimento emocional e simbólico que tem ligação com a tradição e a história das competições que acabam por ser determinantes para a sua popularidade – haja vista o caso da Liga dos Campeões e a dificuldade em criar uma superliga europeia de futebol.

Isso não impediu que os conglomerados de mídia incluíssem organizações esportivas a sua lista de aquisições. Dentre as suas motivações estavam a tentativa de conhecer mais a fundo o espetáculo esportivo, conseguir melhores condições na hora de negociar os crescentes valores dos contratos de direitos de transmissão e tentar alguma forma de sinergia e verticalização da produção dado que o esporte foi se tornando mais próximo dos espetáculos televisivos.

As particularidades da economia do esporte acabaram por se mostrar um grande desafio para esses conglomerados, que aos poucos foram abandonando as suas participações na propriedade de organizações desportivas. Por um lado, a necessidade de conseguir vitórias – e, portanto, as receitas de equipes é revertida na aquisição de talentos – diminui a margem de lucro dessas organizações e, consequentemente, afasta o interesse de conglomerados; e por outro lado, a aquisição dos direitos de transmissão e o poder da televisão sobre a organização dos eventos desportivos já se mostraram suficiente para gerir o espetáculo da maneira que for mais conveniente para as empresas de mídia.

 


Kosovo e a Busca por Reconhecimento Internacional: a Vez do Futebol

09/10/2017

por Maurício Drumond

 

Desde sua declaração unilateral de independência da Sérvia, em 17 de fevereiro de 2008, o Kosovo vem travando uma árdua batalha diplomática em busca de reconhecimento internacional. De acordo com o Ministério de Relações Exteriores da República do Kosovo, 111 dos 193 países filiados à ONU reconhecem a independência kosovar, incluindo os Estado Unidos, a maior parte dos países da União Europeia (23 dos 28 Estados) e da OTAN (25 de 29 Estados). Da mesma forma, algumas organizações intergovernamentais financeiras, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e o Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD), reconhecem a soberania do país e negociam diretamente com suas instituições governamentais. Além disso, o Tribunal de Justiça Internacional declarou, em julho 2010, que o processo de independência não contrariou o direito internacional.

Tribunal Internacional

No entanto, o reconhecimento internacional do Kosovo ainda enfrenta forte obstáculo de países que se opõem à independência, capitaneados pela Sérvia. Desses, Rússia e China são as maiores pedras nos sapatos kosovares, uma vez que ocupam assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU, e sem sua aprovação o país não poderá ser aceito como membro da Organização. Além desses, a Espanha também se coloca como forte opositora na esfera da União Europeia, estando ela também assombrada pelo fantasma de uma declaração de independência unilateral da Catalunha.

Nesse sentido, o campo esportivo tem sido uma importante arena na luta kosovar. Com o país inicialmente fora das competições internacionais em seu pós independência, atletas como Majlinda Kelmendi, estrela do judô internacional, disputaram torneios sob o estandarte albanês – como nos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres –, sendo a Albânia uma nação com fortes laços étnicos e históricos com Kosovo. Gradualmente, a partir de 2012, o país foi sendo aceito em federações esportivas internacionais, e em 2014 foi formalmente aceito como membro do Comitê Olímpico Internacional, o que permitiu que seus atletas participassem dos Jogos do Rio de Janeiro, em 2016, sob a bandeira de seu país, e levou à conquista da primeira medalha de ouro do Kosovo, na categoria de -52 kg feminino, com Majlinda Kelmendi.

bandeiras

Publicação do 1º Ministro de Kosovo, Isa Mustafa, em rede social.

A inclusão nos ranques do COI não veio sem embates. Vlade Divac, ex-jogador da NBA e atual presidente do Comitê Olímpico da Sérvia, rebateu a entrada afirmando:

Nós fizemos tudo que podíamos, por cinco anos conseguimos bloquear  sua aceitação e proteger a Carta Olímpica. (…) O fato é que essas decisões abrem um precedente, uma vez que desde 1996, quando se mudou a Carta Olímpica (i.e. o estatuto do COI), nenhum país é admitido ao COI antes de ganhar um assento nas Nações Unidas. Não estamos satisfeitos com esta decisão, mas como um esporte, e não uma organização política, como parte do Movimento Olímpico (…).

(Дивац: Урадили смо све што смо могли [Divac: Nós fizemos tudo o que podíamos]. Политика [Política], 12 dez. 2014. Texto traduzido com o auxílio de tradutor eletrônico)

A afirmação de Divac deixa claro: a Sérvia buscou evitar o quanto pode a inclusão do Kosovo nas organizações esportivas internacionais. E sua entrada no COI abriria muitas portas.

No futebol, o reconhecimento do Kosovo pela FIFA ocorreu gradualmente, até sua admissão oficial na entidade em 2016. De acordo com circular da entidade datado de 6 de fevereiro de 2013, clubes ligados a países membros da Fifa poderiam jogar com outros associados à Federação de Kosovo em amistosos, ressaltando que “os jogos devem ser realizados sem a utilização de símbolos nacionais (bandeiras, hinos nacionais, etc.)” e que essa autorização era valida apenas para “jovens, amadores, mulheres e futebol de clubes”, deixando seleções profissionais masculinas de fora. Além disso, jogos no território de Kosovo seriam permitidos apenas com a autorização prévia da Associação de Futebol da Sérvia. Kosovo ganhava espaço, mas ainda não conseguia suplantar a oposição da Sérvia.

doc fifa

O primeiro jogo da seleção masculina principal do Kosovo contra um selecionado associado à Fifa ocorreu em março de 2014, em um empate sem gols contra o Haiti no Estádio Olímpico Adem Jashari, no Kosovo. Outro desafio que se colocou diante do Kosovo nesse momento foi formar sua seleção. Diversos atletas kosovares já jogavam por outras seleções e alguns se dispuseram a vestir o uniforme de seu país, vindo de seleções como Albânia, Finlândia, Noruega e Suíça. Apesar do empate sem gols, a mera realização do jogo foi vista como uma vitória, e ajudou a pavimentar o caminho para conquistas maiores.

Em 2016, Kosovo foi aceito como membro da UEFA e, no 66º Congresso da FIFA, realizado em maio na Cidade do México, Kosovo foi aceito como 210º país associado da Federação, juntamente com Gibraltar (211º).  Nesse mesmo congresso, foi determinado que Kosovo participaria das eliminatórias para a Copa do Mundo da Rússia de 2018, possibilitando um novo patamar de participação e visibilidade no cenário esportivo internacional.

A própria perspectiva de participar de uma competição como a Copa do Mundo em solo russo com uniforme e insígnia kosovar já era em si uma vitória apenas recentemente conquistada. Em 2014, quando Kosovo já era reconhecido como membro pela Federação internacional de Judô (IJF), Majlinda Kelmendi precisou disputar o mundial da modalidade na cidade russa de Cheliabinsk com as iniciais da federação (IJF) em seu quimono. Devido ao não reconhecimento do país pelo governo russo, a bandeira e os símbolos nacionais kosovares não podiam ser exibidos na competição. Aos poucos o esporte vai abrindo espaço para a maior representação nacional do país. Em 2016, a cidade russa de Kazan sediou o campeonato europeu de judô. Depois de longa negociação, os atletas de Kosovo já puderam participar com seus símbolos, e Majlinda Kelmendi conquistou novamente o ouro. No entanto, a possibilidade de fazê-lo em um torneio com a visibilidade internacional de uma Copa do Mundo seria um sonho. Mas para isso, tão distante quanto um sonho, seria a classificação nessas eliminatórias.

soldados russos e bandeira do Kosovo

Soldados russos perante a bandeira do Kosovo no Campeonato Europeu de Judô, em 2016.

As Eliminatórias para a Copa de 2018

O sorteio dos grupos para as eliminatórias da Copa do Mundo de 2018 já havia sido realizado quando da inclusão de Kosovo e Gibraltar nas fileiras da Fifa. A UEFA, entidade que controla as eliminatórias europeias, decidiu encaixar as duas seleções nos dois grupos que contavam com apenas cinco países (os outros possuem seis equipes). Tendo em vista evitar o confronto de Kosovo com Bósnia e Herzegovina, país com larga etnia sérvia que não reconhece Kosovo, e evitar possíveis conflitos, o novo país membro foi alocado no grupo I, juntamente com Croácia, Islândia, Ucrânia, Turquia e Finlândia.

Em termos políticos, o grupo favorecia a afirmação nacional do Kosovo. Dos cinco oponentes, apenas Ucrânia não reconhece sua independência. A Turquia foi um dos primeiros países a reconhecer Kosovo e foi um importante aliado da causa kosovar junto a países de maioria muçulmana. Os conflitos diplomáticos entre Turquia e Rússia também pesaram a favor de Kosovo, uma vez que a Rússia é o principal aliado dos sérvios em sua campanha contra o reconhecimento internacional do Kosovo. A croácia possui uma rixa histórica com a Sérvia, tendo sido o primeiro país a se desligar da antiga Iugoslávia após guerra civil. Já Finlândia e Islândia reconhecem a apoiam a causa kosovar.

O primeiro jogo foi contra a seleção da Finlândia. Novamente, a escalação do selecionado foi um grande problema a ser enfrentado. Jogadores nascidos em Kosovo que já tinham participado de outras seleções ainda não tinham sido liberados pela Fifa para disputar o jogo, e a decisão da Fifa sairia apenas horas antes do primeiro jogo. OS jogadores que desejassem jogar por Kosovo tiveram que fazer um pedido formal ao Comitê de Jogadores da Fifa, que não deixou seus critérios de aprovação muito claros. Sinan Bytyqi, meio campista do Manchester City, já havia sido liberado, mas seis jogadores ainda dependiam de parecer favorável: Samir Ujkani, Alban Meha, Herolind Shala, Milot Rashica, Amir Rrahmani and Valon Berisha. Todos os jogadores acabaram sendo liberados pela Fifa para jogar por Kosovo. Os cinco primeiro já haviam disputados jogos pela Albânia, e Berisha já jogara pela Noruega. O goleiro Samir Ujkani foi o capitão da equipe e Berisha marcou o primeiro gol oficial de Kosovo em uma competição da Fifa, no empate de 1 a 1.

kosovo e CroaciaO segundo jogo das eliminatórias foi contra a Croácia. O jogo foi realizado em clima de festa entre os torcedores, que se reuniram em Shkodër, cidade da Albânia que recebeu o confronto, uma vez que os estádios kosovares não atendem os requisitos da Uefa para a competição. O clima de amizade e união contra um inimigo em comum também deu espaço para cantos da torcida hostilizando sérvios. De acordo com o periódico Balkan Insight, gritos de “Morte aos Sérvios” eram entoados por torcedores de ambas as equipes fora do estádio – ambas as federações foram posteriormente multadas pela Fifa pelo incidente. Dentro de campo, a equipe croata não teve dificuldades e atropelou Kosovo por 6 a 0.

Na terceira rodada, Kosovo iria à Ucrânia jogar contra a seleção treinada por Andriy Shevchenko. Iria, pois devido ao não reconhecimento de Kosovo pela Ucrânia, a Federação Ucraniana decidiu realizar o jogo em Cracóvia, na Polônia. Temendo conflitos, a polícia polonesa permitiu que apenas uma pequena parcela da arquibancada fosse aberta ao público, fazendo com que apenas algumas centenas de torcedores vissem ao vivo a vitória da Ucrânia por 3 a 0. O jogo transcorreu sem maiores problemas, com apenas alguns cantos de “Putin, Putin” entoado pelos kosovares como provocação aos ucranianos.

Nas rodadas seguintes, Kosovo foi à Turquia, recebeu a Islândia e a Turquia (na Albânia), foi à Zagreb jogar com a Croácia, recebeu a Finlândia e a Ucrânia, perdendo todos os confrontos. Na última rodada, realizada hoje (09 de outubro de 2017), Kosovo perdeu por 2 a 0 para a Islândia, em Reykjavík. Terminou as eliminatórias na última posição do Grupo I, com apenas um ponto ganho, em seu empate contra a Finlândia na primeira rodada. Marcou 3 gols e sofreu 24.

Mas a campanha de Kosovo está longe de ser vista como um fracasso. James Ker-Lindsay, especialista em política do Kosovo da London School of Economics, afirmou:

Na falta de reconhecimento por outros Estados, uma das chaves para legitimar o Kosovo é integrá-lo em organizações e eventos esportivos internacionais.

Alguns anos atrás, um diplomata disse que Belgrado iria finalmente aceitar o Kosovo como um Estado independente quando visse o Kosovo jogar futebol na Copa do Mundo – e eu acho que esse é um argumento válido. Ao tomar parte na Copa do Mundo e nas Olimpíadas, o Kosovo está, na verdade, consolidando seu lugar no palco internacional. [1]

Para muitos, as eliminatórias já são consideradas a primeira fase da Copa do Mundo, especialmente aqueles que não possuem um forte histórico de participação no que chamam de “fase final” da competição. Dessa forma, o diplomata acima citado por Ker-Lindsay não está tão longe de quanto pensava. De certa maneira, Kosovo já está participando.

No entanto, ainda como em sua jornada por reconhecimento internacional, ainda há muitas batalhas a serem travadas até a participação kosovar em uma fase final de Copa do Mundo. A Eurocopa pode ser vista como um objetivo mais factível a médio prazo. Das atuais 55 equipes que disputam a classificação, 24 irão disputar a Euro 2020, um sonho mais próximo da realidade, ainda que permaneça apenas um sonho. Ao menos por enquanto.


A onipresença do general Jorge Rafael Videla na Copa da Argentina

02/10/2017

A presença ou interferência de autoridades políticas em grandes eventos esportivos é um tema recorrente na História Política dos esportes com foco no debate da utilização do esporte como meio de propaganda dos diferentes regimes políticos.. Diversos exemplos específicos como Mussolini na Itália, Hitler na Alemanha, ou mais genéricos como a importância atribuída por autoridades norte-americanas e soviéticas as disputas por medalhas olímpicas ao longo da “Guerra Fria” são emblemáticos dessa situação que envolve o campo esportivo com o domínio político.

O General Jorge Rafael Videla, líder da junta militar que assumiu o Estado argentino em 24 de março de 1976, foi  um dos principais atores políticos e grande idealizador do golpe que derrubou o governo de Isabelita Perón.

Desde o início do regime autoritário, Videla teria se destacado pela sua presença nos veículos de comunicação e por defender perante a opinião pública um discurso legalista e de manutenção da ordem pública, que encobria a violência do regime e tinha paradoxalmente uma retórica pacificadora.

Durante o mundial de 1978 a “roupagem” de legalidade era somada com a retórica ufanista da realização do evento e da campanha da seleção, contribuindo para uma representação do general como personalidade unificadora da Nação em diversos meios de comunicação como ,por exemplo, o Jornal Clarín.

A participação do ditador é destacada pelo jornal Clarín desde a abertura do torneio quando o general exerceu seu papel de chefe de estado, participando diretamente da inauguração oficial. O fato foi muito repercutido tanto na capa quanto nas páginas iniciais do jornal, as letras garrafais estampavam: “Habló Videla en el acto inaugural del Mundial”:

Pidó a Dios, nuestro señor, que este evento sea realmente una contribuicíon para afirmar la paz, esta paz que todos deseamos para todo el mundo y para todos los hombres del mundo afirmó ayer el presidente de la Nacíon y titular de la Junta Militar, teniente-general Jorge Rafael Videla, al inaugurar oficialmente el undécimo Campeonato Mundial de Fútbol en el remodelado y brillante estádio de River Plate. Sus palabras fueran coronadas por estupendos aplausos surgidos espontaneamente entre los 73.000 asistentes – entre los que hallaban numerosos grupos de extranjeros.

El teniente general Videla estuvo presente en el estádio de River juntamente con los otros integrantes de la Junta Militar, almirante Emílio Eduardo Massero y el brigadier General Orlando Ramón Agosti.

Acompaño la Junta Militar en la ocasíon un nutrido contingente de autoridades nacionales y del área deportiva, así como también personalidades mundiales y funcionários de la esfera diplomática. (CLARÍN, n. 11.585, 02 jun. 1978, p.2).

É possível perceber que, além do “apelo divino”, pacificador, existe um discurso integrador, e segundo o jornal Videla teria sido recepcionado “espontaneamente” pelo público presente, inclusive os estrangeiros.

A presença de autoridades e personalidades nacionais e internacionais caracteriza a dimensão da importância atribuída àquela celebração inaugural, bem como o papel simbólico exercido pelo general na “tradição inventada” que é a festa de abertura de um campeonato mundial de futebol.

Porém, a participação do general não se restringiu a protocolar aparição na festa inaugural. Videla esteve presente fisicamente em todas as partidas do selecionado argentino, não apenas nas arquibancadas, mas frequentando também os próprios vestiários da equipe de Menotti e até mesmo o da seleção peruana na polêmica goleada que classificou a seleção anfitriã para a final.

Videla esteve presente também em outras partidas em diferentes sedes, sempre acompanhado de grande comitiva. Na última rodada da primeira fase os membros da junta militar se dividiram, visitando cidades diferentes. Videla foi para Mendoza assistir Holanda x Escócia, o almirante Eduardo Massera esteve presente em Córdoba na partida disputada entre Peru x Irã e o representante da Aeronáutica, o brigadeiro Orlando Ramón Agosti, foi testemunha da classificação brasileira na vitória diante da Áustria por 1×0.

O mandatário argentino teria explicado a sua “onipresença” em partidas do torneio, principalmente nos jogos disputados pelo selecionado argentino, como uma necessidade de estar próximo do povo. A retórica nacionalista transcende o interesse pelo futebol que, segundo o próprio Videla, não era um assunto personalíssimo, mas elemento de interesse popular:

El teniente general Jorge Rafael Videla hizo un breve comentário acerca de su presencia en el estádio. Yo no soy hincha, no hey seguido el fútbol, no lo he vivido. Lo que me interesa de lo fútbol és lo que motiva la tribuna; todo lo que este deporte significa en el reverdecimiento que experimenta e país.  Lo importante de todo esto és lo que la prática del fútbol significa por por la transcendência que tiene para el pueblo, dije el jefe de Estado. (CLARÍN, n.11.599, 16 jun. 1978, p. 2).

Na partida disputada contra o Brasil na cidade de Rosário, novamente Videla esteve presente, acompanhado dos demais chefes da junta militar. Compartilhando a tribuna e os comentários com o brasileiro João Havelange, presidente da FIFA:

O fato de a junta militar assistir a partida disputada contra o Brasil ao lado de João Havelange pode ser interpretado como importante aliança política e espelha a importância de outra personalidade legitimadora do evento que apoiou incondicionalmente a realização da Copa na Argentina

Ademais, o fato de Videla não ser um apaixonado pelo futebol em si, considerando-se um neófito, novato, aprendiz nesse assunto, é significativo, pois corrobora com o valor simbólico atribuído tanto à realização do evento, quanto à participação da seleção nacional.

A “odisseia” do tenente-general e demais integrantes da junta militar pelas cidades e estádios argentinos demonstra a clarividência que o ditador tinha da possibilidade política de buscar associar a imagem do “Processo” ao campeonato mundial, à seleção nacional e, em última instância, ao povo.

E no esforço populista Videla estava quase sempre acompanhado de figuras simbólicas importantes para o torneio. Além do brasileiro João Havelange, Pelé, o diplomata norte-americano Henry Kissinger, o ditador boliviano Hugo Banzer entre outros estiveram presentes nas tribunas junto com o ditador argentino.

A vitória do selecionado argentino sobre os holandeses na final possibilitou o êxtase popular em um momento culminante na trajetória de Videla durante o torneio. Ao mandatário da nação coube a honra de entregar o troféu da Copa do Mundo para o capitão Daniel Passarela, fato devidamente registrado pelos articulistas do Clarín em entusiasmada reportagem intitulada “Cuando la Copa se sentió feliz”:

Cuando Daniel Alberto Passarela volvió a aparecer en cena enbcabezando la fila de compañeros, el estádio volvió a temblar. Lentamente, los jugadores, que ya vestían nuevas camisetas, avanzaron hacia el palco de honor. Subiron al estrado y se colocaron de frente a las autoridades. Cuando fué invitado a ascender el técnico César Luis Menotti, la ovacíon tomó, todavia mayor dimensíon.

El teniente General Videla con emocíon contenida, entregó la Copa de la Fifa a Daniel Passarela. Después de estrechar largamente la mano del capitán del equipo argentino hizo el gesto de la victoria y los saludó uno por uno. Tornandose hacía la enfervorizada muchedumbre que colmaba al estádio de River, Passarela levanto el preciado trofeo en señal de triunfo. (CLARÍN, SUPLEMENTO MUNDIAL, n.11.609, 26 jul. 1978, p. 6).

O momento especial da entrega da Copa foi o ápice da “onipresença” do tenente-general Jorge Rafael Videla nos estádios, o símbolo do triunfo e da integração nacional repesentada nas páginas do Clarín. A presença dos jogadores perfilados diante das autoridades políticas na tribuna de honra também pode ser interpretada como uma construção de uma imagem de união entre a seleção, o povo e o governante.

A tentativa de utilizar o campeonato mundial de futebol como símbolo maior da grandeza do povo e da nação argentina pode não ter se desdobrado em transformações estruturais na sociedade argentina, que ainda vivia à sombra da violência do regime, da crise econômica, e dos conflitos diplomáticos, relativos principalmente aos direitos humanos no país.

Porém, é possível perceber que seu mandatário se aproveitou do clima festivo, do apoio institucional e das representações geradas em veículos de comunicação, como o jornal Clarín, para se comportar como grande anfitrião e ícone de uma suposta união do país.

NUEVO HINCHA VIDELA comemorando o terceiro gol na final contra os holandeses

“NUEVO HINCHA VIDELA” comemorando o terceiro gol na final contra os holandeses. (EL GRÁFICO: 27/06/1978. N.3064)