Revista Recorde: chamada para dossiê História do Esporte e Comunicação: para além da imprensa e da mídia como fontes

14/09/2018

 

Dossiê: História do Esporte e Comunicação: para além da imprensa e da mídia como fontes

 

Organizadores: Rafael Fortes (Unirio) e Álvaro do Cabo (Ucam)

 

Os periódicos impressos são, de longe, as fontes mais utilizadas na história do esporte. Contudo, muitos trabalhos tendem a fazer um uso instrumental destas fontes, sem contextualizá-las e sem discutir aspectos básicos  – por exemplo, que tais fontes apresentam ao público não o esporte em si, mas uma construção que obecede a uma série de procedimentos e critérios e é marcada também por escolhas pessoais, acasos etc.

Por outro lado, a maioria dos trabalhos sobre o passado esportivo realizados na Comunicação tende a enfatizar o papel dos meios e a descrição de seus conteúdos, dedicando pouca atenção à contextualização histórica do período, aos estudos históricos sobre o esporte e, às vezes, ao aspecto de construção mencionado anteriormente. Não raro, trabalhos que ignoram os estudos históricos sobre o esporte apresentam um painel memorialístico, atribuindo ao presente ou a décadas recentes características que, na verdade, são perceptíveis desde a estruturação do campo esportivo em décadas anteriores do século XX ou mesmo do XIX. Ademais, diversos pesquisadores da área parecem ter o entendimento de que basta escrever sobre o passado para se realizar um trabalho “de História”.

Em ambos os casos, costuma-se dar um amplo destaque aos veículos jornalísticos. Relativamente poucos esforços têm sido direcionados às produções audiovisuais, de ficção, radiofônicas, publicitárias e editoriais que de alguma forma se relacionam ao esporte.

Este dossiê propõe explorar as múltiplas relações entre a história do esporte e os estudos do fenômeno na Comunicação. Para tanto, privilegiará trabalhos realizados a partir de uma perspectiva histórica abordando os aspectos abaixo:

 

– Esporte, publicidade e marketing

– Relações entre mídia e esporte como partes de um mercado de entretenimento

– Direitos de transmissão, patrocínio e promoção de modalidades, equipes, atletas, eventos e competições

– Comercialização e profissionalização do esporte

– Relações econômicas entre mídia e esporte

– História do Esporte e cinema: ficção e documentários

– O esporte no rádio, na televisão e nas mídias digitais

– O esporte nos meios de comunicação alternativos, contra-hegemônicos, progressistas, comunitários, de esquerda etc.

– Relações políticas entre mídia esporte

– Análise crítica da literatura jornalística sobre esporte (biografias, memórias etc.)

– Midiatização, Direito e legislação

– Veículos de comunicação como fonte para a pesquisa histórica do esporte

– O esporte nos meios de comunicação mainstream

– O esporte nos veículos impressos: jornais, revistas, panfletos, boletins etc.

– Outras abordagens/perspectivas que relacionem História, esporte e Comunicação

 

 

As submissões devem ser enviadas para o email: lachiunirio@gmail.com.

 

Data limite para submissões: até 31 de janeiro de 2019

Divulgação dos aceites: até 30 de abril de 2019

Publicação do dossiê: junho de 2019

 

Sobre a revista: No ar desde 2008, Recorde é a única revista latino-americana dedicada à história do esporte. Atualmente está classificada no Qualis de dez áreas de conhecimento. Endereço: https://revistas.ufrj.br/index.php/Recorde

 

Solicitamos a gentileza de divulgar esta chamada para seus contatos.

 

Atenciosamente,

 

Os organizadores

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Furacões, maremotos – e um relâmpago! Cenas do futebol Australiano.

02/09/2018

Por Jorge Knijnik

Para Cleiton Barbosa.

 

Aos poucos, o futebol profissional na Austrália vai retomando as suas atividades. Depois da A-League ter finalizado a sua temporada 2017-18 com a Grande Final do inicio de maio e dos jogadores dos 10 clubes profissionais entrarem em férias, há cerca de um mês estes clubes voltaram a entrar em campo para disputar a FFA Cup – uma espécie de Copa do Brasil local na qual clubes amadores e semiamadores participam, e os profissionais entram a partir das oitavas. Nas ultimas rodadas, houve ate clube grande sendo desclassificado por clube local, foi legal!

Mas enquanto os campos profissionais ficavam quietos, os bastidores do futebol australiano foram sacudidos por grandes furacões e maremotos – inclusive com a chegada de um relâmpago.

O primeiro furacão é a expansão da liga australiana, a A-League. Há anos a comunidade do futebol pressiona a Federação Australiana para que mais times entrem na Liga.  Os 10 times (franquias) que atualmente disputam a A-League representam cinco  estados da Austrália, mais um pais vizinho. São eles: Wellington Phoenix (da Nova Zelandia!); Perth Glory FC  (de Western Australia); Adelaide United FC (de South Australia); Brisbane Roar FC (de Queensland); Melbourne City FC (pertencente ao City Football Group, dono do Manchester City entre outros clubes ao redor do mundo) e Melbourne Victory FC (ambos de Victoria); e quatro times de New South Wales – Sydney FC, Central Coast Mariners FC , Newcastle Jets FC e Western Sydney Wanderers FC. São 10 times jogando entre si três vezes durante a temporada de futebol profissional, entre Outubro e Abril/Maio. Um time joga duas vezes em casa, e uma vez fora contra um mesmo adversário – sendo que na próxima temporada isto se inverte, dois jogos fora e um em casa contra aquele oponente.

O fato é que este formato já cansou. Repetitivo, cansativo, monótono, e por diversas razoes a Liga vem perdendo publico nas arquibancadas e na audiência de TV também. Mais uma razão para tentar expandir. Assim, neste ano, após uma longa espera, a Federação abriu uma concorrência para que dois times novos entrem na liga a partir da temporada 2019-20. Mais de 15 times se inscreveram, sendo alguns clubes tradicionais, com raízes em suas comunidades locais ou étnicas, e com historias quase centenárias, como o South Melbourne (comunidade grega) ou o Wollogong Wolves FC, que representa a região ao sul de Sydney e New South Wales. Outros inscritos são consórcios fabricados que tem nomes provisórios – tipo “Southern Expansion” ou “Team 11”, que são as fachadas para grandes grupos comerciais com dinheiro internacional.

No momento, sobraram nove candidatos, e tudo será decidido em algumas semanas.  Apesar dos critérios futebolísticos envolvidos nas candidaturas (proposta de estádios, categorias de base e femininas, inserção na comunidade para arrumar torcida, etc), a decisão final certamente será baseada na grana. Isso mesmo, a proposta com mais condições de bancar a quota da franquia deve levar. Alguns falam em 15 milhões pela franquia. O mundo do futebol australiano esta em polvorosa, alguns gritam contra estes consórcios comerciais e querem os times tradicionais na liga; outros clamam pela estabilidade financeira da coisa; terceiros apelam para que a expansão se radicalize e se aceitem quatro times novos, e ainda se crie uma segunda divisão; os mais exaltados querem critérios para acesso e descenso! Os clubes semiamadores já se organizaram em uma associação com cerca de cem membros para exigir seus direitos a terem uma segunda divisão, e a pressão apenas aumenta.

Em meio a este furacão de propostas de novos clubes, acordos de bastidores e contas bancarias sendo expostas, um maremoto vem deixando ainda mais turvas as aguas futebolísticas deste pais-continente – as quais nunca foram muito claras mesmo.

Há alguns anos a FIFA pressiona a Federação local (FFA) para expandir o seu congresso, dando lugar para que outras vozes (futebol de mulheres, mais clubes, segunda divisão, árbitros) sejam representadas no congresso. Atualmente, o poder de decisão do futebol australiano esta nas mãos de nove (isso, 9) membros do congresso da FFA – entre eles os representantes das sete federações estaduais, incluindo federações minúsculas, com poucos afiliados e sujeitas a enormes pressões vindas do gabinete presidencial da federação, comandado com mão de ferro pela familia do bilionário Lowy. Depois de centenas de idas e vindas, com comissões da FIFA e da Confederação Asiática passando semanas por estas praias aqui, se reunindo com as diversas partes interessadas,  como os clubes profissionais e semi, as representantes das mulheres, dos jogadores profissionais, técnicos, torcedores e outros tribos do futebol, um grupo de trabalho nomeado pela FIFA, depois de vários meses, fez uma recomendação para a expansão oficial do congresso da FFA. A familia Lowy e o presidente da FFA, Steve Lowy, são contra isso e fizeram de tudo para atrasar e boicotar os trabalhos deste grupo de trabalho. Mas parece que não vai ter jeito. O congresso da FIFA já aprovou os relatorios e propostas deste grupo, e o maremoto não cessa. Steven Lowy fez uma pressão enorme sobre os membros do atual congresso para não aprovarem a mudança da FIFA – o que provavelmente resultaria em uma intervenção direta da entidade máxima do futebol sobre a FFA ou ate na suspensão da Austrália de competições internacionais. Mas ao final Lowy anunciou que vai sair do comando da FFA ao final do ano – curiosamente, no mesmo período em que expira, conforme as leis corporativas do pais, o prazo para a FFA justificar e apresentar ao publico os documentos relativos aos 50 milhões gastos na candidatura fracassada da Austrália para a Copa de 20122. Precisa desenhar?

Não bastassem esses furacões e maremotos futebolísticos para agitar as coisas na terra australis, eis que aporta por aqui um relâmpago. Ele mesmo, Usain Bolt, o jamaicano mais veloz do mundo! Minha rara leitora deve estar se perguntando qual a relação disto com o futebol; afinal, o Bolt deve ter vindo aqui para a Austrália fazer algumas corridas para arrecadar fundos para a caridade… Mas que nada! Ele veio tentar uma vaga como atacante em um time da A-League, o Central Coast Mariners FC!

 

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O clube, que nos últimos anos disputa a liga com muitas dificuldades financeiras, pouca torcida, sempre brigando para não terminar em ultimo – sorte deles que não há segunda divisão – resolveu abrir espaço para que Bolt, o Relâmpago, participasse de sua pré-temporada – incluindo treinos e amistosos – e tentasse uma vaga e um contrato oficial com o clube.

A reação veio rapidamente. O clube nunca recebeu tanta atenção da mídia local e  internacional desde o anuncio relampejante – ate no Brasil estão falando da A-League! O desejo do Bolt de jogar futebol profissionalmente é antigo, ele falava em jogar no Manchester United e parece que já fez testes com o Borussia Dortmund.

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Por outro lado, os fãs mais ‘raiz’ do futebol local estão revoltadíssimos com o circo criado em torno dele. Comenta-se que seu contrato chegaria a 3 milhões de dólares por temporada, pagos em parte pela FFA e Foxtel, que criaram um fundo para contratar grandes estrelas do futebol mundial que queiram jogar aqui. Já tivemos o Alessandro Del Piero, por exemplo…. mas o Bolt? A galera não se conforma, as redes sociais bombam com reclamações que ele esta tirando o espaço de jovens locais que poderiam estar evoluindo na liga profissional, que tudo isso é apenas uma palhaçada e somente envergonha o futebol australiano diante do mundo, entre outros ‘elogios’ a iniciativa dos Mariners…

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Enquanto isso, Bolt é tratado pelo clube como um ‘jogador normal’, que estaria somente fazendo um teste assim como tantos outros. Nesta sexta o amistoso do Mariners contra um selecionado local de jogadores amadores, um jogo que em condições normais de temperatura e pressão atrairia meia dúzia de torcedores em uma noite fria e passaria despercebido do resto do mundo, atraiu quase 10.000 pagantes e foi mostrado ao vivo pela TV fechada. Rojões e todo o circo foram armados para a estreia deste ‘jogador normal’. Tudo para o ‘deleite’ daqueles que acreditam na evolução do futebol australiano por meio do talento local, e gostariam de uma liga de futebol de verdade.

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No seu tempo em campo, Bolt não impressionou  ; faltou velocidade (serio!) para chegar em algumas bolas e  aparentemente cansou após 20 minutos em campo. Será que o Relâmpago não é mais o mesmo? Ou será que, em meio a tantos furacões e maremotos extracampo, ele perde a sua força?

Eu gostaria de vê-lo jogando na Liga local. Se ele der certo, tambem irei atras do meu sonho e tentarei um lugar ao sol em algum time profissional destas bandas. Ao contrario dos atacantes daqui, me posiciono bem, entendo a regra do impedimento, e na cara do gol não tem pra ninguém! #BoltnaALeague #vamostodosrelampejar  #CleitonmandaoDVD.

 

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Esporte, Política e Humor: o Golpe de 2016 (parte 2)

20/08/2018

por Fabio Peres

As práticas esportivas parecem ser “boas para pensar” a vida política brasileira. Mesmo em situações difíceis, vários artistas lançam mão do esporte – com muito bom humor – para explicitar ainda mais o tom crítico com que vêem a conjuntura social e política.

Isto, aliás, não é uma novidade dos nossos tempos. Ao que tudo leva a crer, humor e política estiveram desde a gestão do campo esportivo associados às diferentes modalidades e aos contextos culturais que lhe conferiam sentido.

De fato, no século XIX o esporte (aqui entendido como práticas corporais institucionalizadas) “ajudava” a jogar uma nova luz – seja por meio de contraste zombeteiro, seja por incongruência irônica – sobre o mundo político.  Joaquim Manuel de Macedo (em 1855), Machado de Assis (1894) e Artur Azevedo (1885), apenas para citar alguns entre tantos cronistas do século XIX, escreveram sobre política tendo como argumento humorístico o esporte. Mesmo de maneira mais sutil e ampla, a política aparece em narrativas que tratam ou fazem uso do tema. Ou longe disso, quando a intenção é justamente articular de forma mais contundente humor, política e esporte; como no caso do grande espetáculo, em 1837,  de “equilíbrios gymnasticos” entre a Madame Injustiça e Mr. Patronato.

Mesmo que esta relação não corresponda ipis litteris  a uma realidade objetiva e absoluta, o que para importa para nós é que todos estes autores tinham a expectativa de que seus interlocutores compreendessem as nuances  simbólicas que garantiriam o humor, a graça e, justamente por isso, a crítica.

Em tempos de profundo esgarçamento das instituições democráticas, talvez não seja por acaso o aumento considerável de produções jornalísticas e/ou artísticas que procuram “valer-se” do esporte para expressar irreverências políticas. Sobretudo, quando a “história junta Olimpíadas, Copa do Mundo e Golpe.

O uso da camisa da seleção brasileira, não apenas produziu versões vermelhas da amarelinha, mas também gerou debates similares 1, 2, 3, 4 aos que ocorreram na Ditadura Civil-Militar (1964-1985); algo retratado em diversos relatos, romances e filmes que tratam do período ( exemplos podem ser vistos no filme O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias de Cao Hamburger, no romance A Resistência de Julián Fuks e na crônica de Luís Fernando Veríssimo, Nosso Time). Nesse contexto, bastou a Copa do Mundo da Rússia (2018) ter início, logo surgiram cartuns e charges sobre a (re)apropriação da camisa da seleção:

Maíra Colares, Hexou, 15 de junho de 2018.

 

 

Autor não identificado, 1(?) de junho de 2018.

 

As representações esportivas da crise econômica e política também procuraram, seja através do futebol, seja através de outras modalidades, criticar ironicamente as ações do governo :

Hubert. Folha de São Paulo, 6 de junho de 2018.

 

 

Jaguar. Folha de São Paulo, 15 de junho de 2018.

 

 

André Dahmer, Facebook do autor, 17 de junho de 2018.

 

 

Mor. Folha de São Paulo, 22 de junho de 2018.

 

 

A performance de Neymar também não passou despercebida. Metáforas e trocadilhos foram usados por artistas em conglomerados de mídia e comunicação que apoiaram o Golpe:

André Dahmer. O Globo, 27 de junho de 2018.

 

Bennett. Folha de São Paulo, 25 de junho de 2018.

 

A Justiça desacreditada, em função de sua participação e manutenção do Golpe de 2016, foi duramente criticada por meio de analogias com a atuação dos árbitros de futebol:

Laerte. Folha de São Paulo, 19 de junho de 2018.

 

 

Maíra Colares, Arbitrariedade, 15 de junho de 2018.

 

Até mesmo a infame entrevista da, então pré-candidata à presidência, Manuela D’Ávila (PCdoB) no programa Roda Viva (TV Cultura), não deixou de ser relacionada ao futebol:

 

Montanaro. Folha de São Paulo, 28 de junho de 2018.

 

 

As 62 interrupções que a deputada sofreu, não apenas evidenciaram o machismo e as desigualdades de gênero que as candidatas mulheres progressistas são alvo, mas especialmente as estratégias que as forças políticas conservadoras lançam mão:

No caso de Manuela, o mais grave nem foi a montagem de um pelotão de fuzilamento, que evidentemente excluía a diversidade eticamente necessária em programas que desejem promover um debate esclarecedor, mas a ocultação da filiação ideológica de alguns dos convidados. Coube à candidata apontar o vínculo de Frederico d’Ávila, apresentado apenas como diretor da Sociedade Rural Brasileira, com a campanha de Jair Bolsonaro (Sylvia Moretzsohn, The Intercept, 27 de Julho de 2018).

De acordo com o colunista da Folha, Maurício Stycer, foi um dos “piores momentos” da história do Roda Viva. O caso talvez tenha ajudado a aproximar ainda mais Chico Buarque, que em 2016 desautorizou o uso de sua música pelo programa homônimo, da deputada que atualmente compõe a candidatura de Lula. No último domingo (19), Manuela, além de postar fotos com o compositor, compartilhou uma fotografia de Chico segurando uma camisa vermelha, onde se lê:

Mas essa é uma outra história…

 

 

 

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* As opiniões aqui emitidas são exclusivamente de responsabilidade do autor da postagem, não correspondendo as intenções e/ou representações dos artistas mencionados.


Desenvolvimento do Esporte: na trilha do Lazer?

12/08/2018

Por Flávia Cruz (flacruz.santos@gmail.com)

No post anterior, meu primeiro aqui no História(s) do Sport, tentei apresentar, ainda que brevemente, indícios de que a industrialização não foi um elemento tão decisivo assim, para a configuração do esporte na cidade de São Paulo. Terminei compartilhando a seguinte pergunta: não haveria elementos mais importantes do que a industrialização, para o desenvolvimento dos esportes na capital paulista? Alguns indícios empíricos de pesquisa, me levam a suspeitar que sim.

Um desses indícios, está ligado à natureza do esporte no século XIX paulistano. Em pesquisa sobre a história do conceito de divertimento, realizada a partir da proposta da história conceitual do historiador alemão Reinhart Koselleck, uma prática que identifiquei como divertimento foi justamente o esporte. Não é que isso seja, exatamente e completamente, uma novidade. Inúmeros trabalhos de Victor Andrade de Melo[1] sobre o Rio já apontaram a indissociação entre esporte e diversão, quando dos seus primórdios. Sobre a cidade de São Paulo, Edivaldo Gois, em artigo, também já indicou tais imbricamentos, mesmo em momento posterior, já no século XX.

Mas o fato de o esporte ser uma das atividades englobadas pelo polissêmico conceito de divertimento, de ser buscado pelos paulistanos quando desejavam alegria, prazer, regozijo, de estar ao lado de práticas como os bailes, o teatro, a música, as zombarias, as touradas, os jogos, a leitura, compartilhando com elas sentimentos, expectativas e funções pode ser um indicativo de como se deu sua configuração. A novidade então, no Brasil, seria compreender o esporte, sua configuração e desenvolvimento na trilha de outras práticas culturais de divertimento.

Tendo em vista que o esporte foi a última prática cultural a chegar à cidade de São Paulo – das que identifiquei como divertimento até 1889 –, e que quando isso aconteceu outras práticas já gozavam de um desenvolvimento mais avançado, como as touradas, o teatro, a dança, não seria pertinente pensar que o esporte se desenvolveu na esteira dos divertimentos que o antecederam, que ele encontrou condições para a sua configuração graças a essas práticas?

Para dar um exemplo, vejamos o caso das touradas em São Paulo, estudado por Victor Melo e por mim e publicado em artigo. Tal divertimento acontecia na capital paulista desde o século 18, patrocinado pelo Estado. Durante o século 19, as touradas assumem novo formato, se tornam eventos empresariais. O Estado, ao invés de ter gastos com sua organização, como outrora, passou a obter receitas, tendo em vista o pagamento de impostos pelas empresas de tauromaquia para a realização dos espetáculos. Os empresários precisavam contratar profissionais, entre eles os toureiros, precisavam pedir licença à Câmara, adquirir gado, divulgar o evento, vender ingressos.

Esse último elemento, colocava uma nova exigência aos organizadores do espetáculo: agradar ao público. Sem isso, o negócio não prosperava, pois o público não comparecia e ainda reclamava, o que, por vezes, gerava incidentes. A necessidade de agradar ao público, fez com que os empresários lançassem mão, rotineiramente, de “novidades”. Eram mais ou menos o que chamaríamos hoje de estratégias mercadológicas. Se os touros ou toureiros não eram bons, a novidade era uma mulher toureira, ou números cômicos e musicais nos intervalos, a realização de sorteios, bem como a diversificação das técnicas de tourear.

Havia, constantemente, a tentativa de aperfeiçoar o espetáculo, de agradar ao público. Quanto maior a expertise do empresário, maior o sucesso das touradas. Em São Paulo o grande nome desse “gênero de divertimento” foi Francisco Pontes. Com passagem por cidades do Brasil e da Europa, esse empresário sabia adequar o espetáculo às exigências dos novos tempos. Instituiu uma diferenciação nos preços dos ingressos, criando o modelo “sol e sombra”, usava estratégias discursivas nos anúncios dos espetáculos, se ligava à causas de interesse público, sua trupe era competente, ele mesmo possuía muitas habilidades como toureiro. É um bom exemplo de empresário do ramo do entretenimento já no século XIX.

As mulheres eram presença frequente nos espetáculos tauromáquicos, como público. Mas foram também, em algumas ocasiões, toureiras e cavaleiras. Nomes como os de Maria de Aguiar Barbosa, Anna Angelica do Espírito Santo, Julia Rachel, Josephina Baggossi, figuraram nas arenas paulistanas, causando frenesi.

O que tento demonstrar com esse exemplo, é que os divertimentos anteriores ao esporte criaram não apenas uma certa ambiência para o desenvolvimento esportivo, mas condições concretas para que isso se desse. A estrutura organizacional, a exibição do corpo humano, inclusive o feminino, em exercício, a exposição ao perigo, a organização de arenas, as estratégias de mercado, são alguns dos elementos que as touradas desenvolveram ou ajudaram a desenvolver, e que podem ter sido aproveitadas pelo esporte para sua configuração. O teatro, a dança, a música, também podem ter oferecido contribuições ao esporte e à sua estruturação?

As questões bem como o raciocínio aqui apresentados tem algumas implicações. Significa e torna necessário pensar o esporte de modo menos autônomo, como uma prática que se desenvolveu em relação com outras, podendo, inclusive, ter se aproveitado de certas estruturas e elementos, desenvolvidos por essas outras práticas, para avançar.

[1] Alguns exemplos: MELO, Victor Andrade de. Esporte e lazer: conceitos – uma introdução histórica. Rio de Janeiro: Apicuri/Faperj, 2010. MELO, Victor Andrade de. O esporte como forma de lazer no Rio de Janeiro do século XIX e década inicial do XX. In: MARZANO, Andrea; MELO, Victor. (orgs.). Vida divertida: histórias do lazer no Rio de Janeiro (1830-1930). Rio de Janeiro: Apicuri, 2010.


FONTE NOVA: a síntese do futebol baiano, palco de sorriso e choro

06/08/2018

Por: Coriolano P. da Rocha Junior

     O Estádio da Fonte Nova foi inaugurado oficialmente em 28 de janeiro de 1951, um ano após a Copa do Mundo de Futebol que o Brasil sediara e perdera para o Uruguai, em 1950. O jogo de abertura foi Botafogo x Guarany, duas equipes hoje ausentes do cenário esportivo baiano. Nesse início, a capacidade estimada de público estava em torno de 30.000 pessoas. A Fonte Nova viria para substituir o já velho Campo da Graça.

     O estádio deveria ter sido uma das sedes da Copa de 1950, fato que muito orgulharia a Bahia, por a levar para a maior festa do futebol e assim, receber em suas terras equipes, jogadores e torcidas de diferentes nações. Todavia, a obra não ficou pronta a tempo, condição que ao contrário de orgulho, acabou por gerar uma insatisfação para o baiano, não apenas por perder a chance de sediar jogos da Copa, mas também, por naquele momento, ter se sentido a margem de uma pretensa capacidade criadora e renovadora que se vivia no país. Mais uma vez a Bahia ficava de fora da festa nacional, mesmo com toda sua importância e tradição.

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Imagem 1: A Fonte Nova em sua primeira versão, a da inauguração, contando com somente um anel de arquibancadas.  Fonte: http://wwwmemoriasdafontenova.blogspot.com/2010/11/os-maiores-publicos-pagantes-da-fonte.html

     Mesmo com esse dissabor inicial, durante décadas a Fonte Nova animou tardes e noites de futebol soteropolitano e mesmo nacional, sendo palco das principais competições futebolísticas locais e brasileiras. O estádio assumiu um lugar especial no coração baiano, que além de nele viver os prazeres do futebol, acabou por ver nele, mesmo com o atraso da inauguração, um orgulho da arquitetura baiana. Obra do escritório do arquiteto Diógenes Rebouças, um dos gênios baianos, cravado próximo a um cenário a época bucólico e querido, o Dique do Tororó, que foi construído no século XVII, para ser uma frente de proteção da cidade, que então, se concentrava na parte alta e que foi aos poucos, perdendo essa função e passando a fazer parte do cotidiano soteropolitano.

     Foi essa Fonte Nova que existiu em Salvador, até que a cidade entendeu que era preciso um novo estádio, ou melhor, era necessário revigorar e ampliar a Fonte Nova, já que a original se tornara pequena para os grandes públicos que lá iam.

     A remodelação previa a construção de um segundo anel de arquibancadas, que permitiria a ampliação do público. Durante as obras, os baianos lidaram com dúvidas e inquietações quanto a capacidade de segurança do estádio, se perguntava se as bases do antigo estádio suportariam a nova estrutura e aí, se lembrava que a Bahia não foi capaz de construir o Estádio a tempo da Copa de 1950 e que mesmo após a inauguração em 1951, foi mesmo apoximadamente um ano após isso que os trabalhos foram finalizados, até então ainda havia uma condição provisória.

     Após tanta espera, dúvidas, excitações, chegava a hora da nova inauguração, se abriria um novo marco no futebol baiano.

     Era verão em Salvador, mais um dia de sol, mais um dia de futebol na Fonte Nova. A cidade para lá se virava em festa, afinal, jogariam nesta data Bahia e Vitória, os dois clubes com as maiores torcidas do estado. Outros dois grandes clubes brasileiros lá estariam, o Clube de Regatas Flamengo (Rio de Janeiro) e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense (Porto Alegre). Os jogos seriam Bahia x Flamengo, de abertura e Vitória x Grêmo, no fechamento da dupla rodada de festa. Sobre a inauguração, o Jornal dos Sports e também o Jornal do Brasil (Rio de Janeiro, 04/03/1971), além de anunciarem a programação, definiam o novo estádio como um dos maiores e mais bonitos do país, com capacidade oficial de 110.000 pessoas.

     Acontece que a jornada, ao invés de ser de festa, foi de dor. Durante a rodada, no segundo jogo, um desastre aconteceu e acabou gerando acidentes e mortes e assim, o novo estádio baiano, teve sua reabertura marcada pela dor. Em 5 de março de 1971, o Jornal dos Sports e também o Jornal do Brasil estampavam que explosão e pânico causaram a tragédia.

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                   Imagem 3: O público invade o campo.
Fonte: https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/fonte-nova-tumulto-marca-festa-de-reabertura-do-anel-superior-em-1971/

     Como dito, na população sempre houve dúvida sobre a segurança no novo estádio e foi assim, que o estouro de uma lâmpada provocou estardalhaço, correria e desespero, provocando os acidentes e as mortes. Ou seja, o temor inicial acabou gerando uma onda de pavor, levando as pessoas a pensarem que seria um desabamento. Para além disso, a platéia estava acima do indicado, com pessoas espremidas em grades.

     A Fonte Nova, espaço querido do soteropolitano, templo do esporte bretão jogado em terras baianas, sempre foi palco de festas, de alegrias e comemorações, de sorrisos por vitórias, de lamentos por derrotas, mas também, em alguns momentos, de dor por tragédias. Tragédias estas que não coadunam com o espírito da torcida baiana, independente de seu time de coração, mas aconteceu e a Fonte Nova, se calou e chorou. Esta relatada foi uma, outra ainda aconteceu, mas isto fica para depois.

     Por enquanto, fiquemos com a imagem de uma Fonte Nova aberta para o Dique, que sorri para a cidade, que alegra e se alegra com a presença do público em suas arquibancadas.

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Imagem 4: A “velha” Fonte Nova, ainda antes da obra.
Fonte: http://ssa2014.blogspot.com/p/arena-fonte-nova.html

 

 

 

 

 


Um contista de futebol bissexto

29/07/2018

Por Edônio Alves

O futebol é sabidamente um jogo entranhado na vida brasileira. Queremos dizer com isso que o jogo de bola aos pés, cuja trajetória em nossa história cultural e literária procuramos explicitar nos textos publicados nesse blog, a partir de sua efetivação por meio do concurso mútuo do campo do jornalismo com o da literatura, já se firmou como mote especulativo de abrangência e legitimidade tais que os autores brasileiros de ficção têm facilmente como justificar, com a eficácia própria dos seus trabalhos literários, o investimento direcional que essa produção tem feito no assunto.

 Tal motivo literário é hoje – podemos dizer junto com o que dizem alguns textos aqui já analisados – um meio riquíssimo (dentre outros já canônicos e estabelecidos) através do qual a nossa arte literária vem eficazmente discutindo a condição humana específica do homem brasileiro, considerado na sua vinculação a uma cultura e ambiente próprios.

Assim é que, isolado o homem por trás da bola, como queria conceber Nelson Rodrigues, ou percebido na sua relação visceral com esta, como tentam apanhá-lo na condição de jogador outros tantos autores, a motivação especulativa do futebol tem gradativamente se firmado em nossa literatura como uma demanda geral a que não escapa nenhum olhar atento de escritor verdadeiramente imbuído de propósitos analísticos quanto a nossa realidade social.

Há, portanto, integrados na grande constelação de grandes autores de nossas letras, uns que tem dedicado mais atenção ao tema do futebol e outros menos. Uns até que tomaram o tema como fato motor de suas carreiras literárias e outros que só tangenciam o assunto esporadicamente; aproveitando o vai-e-vem das ondas de imput e output dos recortes emergentes em tais ou quais momentos da nossa vida cultural em ebulição.

Esse segundo caso é precisamente a situação do escritor Lourenço Diaféria quanto à ligação da sua literatura com o tema do futebol, nas letras nacionais.

Nascido em São Paulo, a 28 de agosto de 1933, Diaféria morreu na mesma cidade em 16 de setembro de 2008. Foi contista, cronista e jornalista brasileiro. Sua carreira jornalística começou em 1956 na Folha da Manhã, atual Folha de S. Paulo. Como cronista, o início foi mais tardio, em 1964, quando escreveu seu primeiro texto assinado. Permaneceu no periódico paulista até 1977, quando foi preso pelo regime militar por causa do conteúdo da crônica, Herói. Morto. Nós, considerada ofensiva às Forças Armadas. A crônica comentava o heroísmo do sargento Sílvio Hollenbach, que pulou em um poço de ariranhas no zoológico de Brasília para salvar um menino. A criança se salvou, mas o militar morreu, vencido pela voracidade dos animais. A crônica também citava o duque de Caxias, o patrono do Exército, lembrando o estado de abandono de sua estátua no centro da capital de São Paulo, próximo à estação da Luz. Diaféria só seria considerado inocente em 1979. Durante algumas semanas, a Folha deixou em branco o espaço destinado ao colunista, em repúdio à sua prisão. Depois da Folha, levou suas crônicas para o Jornal da Tarde, o Diário Popular e o Diário do Grande ABC, além de quatro emissoras de rádio e a Rede Globo de Televisão. Católico, escreveu A Caminhada da Luz, livro sobre dom Paulo Evaristo Arns, a quem admirava. Outra “religião” era o futebol: muitas de suas crônicas falavam desse esporte — e de seu time, o Corinthians.

Nas histórias curta, no entanto, o tema do futebol só comparece em dois contos escritos sob encomenda de uma editora de São Paulo, fato que o torna um típico dentre muitos dos escritores bissextos do assunto futebol na literatura brasileira. Vamos conferir sua escrita futebolística, nas análise desses dois contos que empreendemos para este blog, a seguir:

  •  Urgente, em mãos

Lourenço Diaféria

Escrito especialmente para a coleção Toque de Letra, série Lazuli, da Companhia Editora Nacional, organizada por Miguel de Almeida, com a coletânea intitulada, “A vez da bola”, publicada em 2004, este conto se insere no campo daquelas narrativas de ficção que flagra o futebol como uma arena em que seus personagens cumprem um destino trágico, a despeito – e mesmo por isso – de terem sido vazados numa atmosfera de ligeiro heroísmo.

Mutilado do braço esquerdo por causa de um acidente de trem quando voltava para o subúrbio onde morava, Reinaldo, que trabalhava de servente (sic) no jornal onde o narrador escreve, era, entretanto, um excelente jogador de futebol de várzea.

Parece que ancorado na observação do narrador que a certa altura diz, se contrapondo a um ditado popular não aplicável à circunstância em que ambos foram apresentados na vida – narrador e personagem – : “A gente tem que usar a mão que resta na vida”, ao invés de: “Uma mão lava a outra e ambas lavam o rosto” ­- que seria mais plausível para a situação de duas pessoas que vão se precisar mútua e profissionalmente (Reinaldo era uma espécie de officeboy do jornal) -, o personagem compensa nos campos de futebol, com a excelência de sua maestria com a bola, a deficiência física que carrega na vida.

Conduzida com uma ironia simétrica ao destino do personagem, a narrativa pretende leva ao leitor a ideia de que o jogo da vida, também composto de lances inesperados e traiçoeiros, assim como o jogo de futebol, é bem mais difícil de ser jogado. Vide o desfecho que é dado à trama:

 “Consta ter sido uma batida seca, definitiva. Nenhuma mancha de sangue tingiu o asfalto. Atirado ao longe, no chão, junto ao corpo ainda morno, o envelope gordo onde se lia: Urgente, em mãos”.

A radicalidade irônica da expresão “Urgente, em mãos”, diz tudo numa situação em que, sem as duas mãos, ferramentas de resto sempre necessárias ao enfrentamento da vida entre os humanos (ainda mais nesse caso em que o personagem era entregador de documentos), também não lhe valeram os pés, ainda que exímios na condução do jogo da bola.

Se, como dizem, o mundo é uma bola, o personagem deste conto de Lourenço Diaféria sequer teve a chance de trocar as mãos pelos pés, no seu particular enfrentamento do mundo.

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  • A rã misteriosa

Lourenço Diaféria

Também escrito especialmente para a coleção Toque de Letra, da Companhia Editora Nacional, organizada por Miguel de Almeida, com a coletânea intitulada, “A vez da bola”, publicada em 2004, este conto é bem mais simplório do que “Urgente, em mãos”. Tanto do ponto de vista da situação da trama, mais propensa a ter melhor rendimento estético no gênero crônica, porque se assenta naquelas veredas por onde costumeiramente se captam as coisas do cotidiano, quanto da resolução que é dada a ela, através de um texto fluido em que se quer expor, a partir do mote dos esporte (aqui, de novo o futebol), o lado mais uma vez irônico e também risível dos contrastes da vida.

O personagem central é Petronilho, um senhor aposentado que ainda “bate sua bolinha com amigos”, mas ao invés de envergar, na foto, algum troféu por alguma façanha nos campos de pelada, esse nosso senhor do bizonho, é flagrado, nesse texto quase-crônica, com um anuro nas mãos.

O tempero do texto, que não apresenta novidade alguma em termos de procedimentos estéticos aplicados ao conto, nesse caso só digno desta classificação por causa do desfecho criado com ligeira inventividade, fica por conta do seu tom jocoso e da novidade da situação criada. “Na mão direita, segura uma bola de futebol usada; na mão esquerda o anuro ainda vivo”. Talvez se não tivesse antecipado ao leitor o que significa o vocábulo “anuro”, e, portanto, enfraquecido a sua função diegética para o caso, o texto rendesse mais em termos de efeito de sentido, conforme certamente nos asseguraria o mestre das estórias curtas, Julio Cortàzar.

PARA LER MAIS:

As histórias curtas do autor, acima, estão em: DIAFÉRIA, Lourenço; PIZA, Daniel; ANGELO, Ivan. A vez da bola: crônicas e contos do imaginário esportivo brasileiro. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2004. p. 7-9. (Coleção t


Mohamed Salah, a Chechênia e a Diplomacia do Futebol

23/07/2018

Por Maurício Drumond

 

Chegou ao fim mais uma Copa do Mundo. E como sempre, ao final de uma Copa, fica um gostinho de quero mais. Uma sensação de desânimo ao pensar que a próxima só acontecerá daqui a quatro anos. Somando-se a essa tensão há também, para nós que escrevemos sobre futebol, outra questão: praticamente todos os estudiosos do esporte estão publicando suas reflexões sobre a Copa, abordando o objeto a partir de perspectivas diversas e com diferentes graus de profundidade e de qualidade de análise. Assim, tendo um artigo programado nesse blog apenas uma semana após seu encerramento, encontro-me em um dilema: como não escrever algo sobre a Copa do Mundo, mesmo sabendo que um texto sobre o assunto tende a ser mais um sobre o tema, e que dificilmente trará algo ainda não disponível em outros sítios?

Essa situação se complica ainda mais no que se refere à relação entre futebol e política. Se ainda existem aqueles que defendem que futebol e política não se misturam, a fragilidade de seus argumentos ficou ainda mais evidente após essa Copa, que foi marcada por diversas situações que exaltaram essa simbiótica interação. Assim, artigos de jornalistas, acadêmicos, cronistas e outros infestaram a rede apontando os aspectos políticos que a Copa exibia em seus jogos, especialmente sobre os mais evidentes, mas também de alguns mais sutis.

Retomo aqui então um momento realizado antes do início da competição, que demonstra a importância do esporte, e do futebol em especial, como importante fonte de aquisição de capital político. Aproveitando-se da atenção e dos sentimentos gerados por estrelas de futebol ou pela própria Copa do Mundo, agentes do campo político buscam ser vistos e associados a atletas e ao evento em si, como forma de publicidade doméstica e internacional. Nesse sentido, destacam-se as iniciativas de Ramzan Kadyrov em aproximar sua imagem à de Mohamed Salah, astro do futebol internacional.

 

Quem é Ramzan Kadyrov?

Ramzan Kadyrov é o presidente e líder político nacionalista da Chechênia, uma república da Federação Russa de maioria islâmica, com histórico separatista envolvendo guerras por sua independência nos anos 1990. Depois do fim da União Soviética, um grupo de líderes chechenos declarou sua independência e a formação de um governo autônomo. A Rússia reagiu em 1994, enviando tropas para a região e iniciando a primeira Guerra da Chechênia, que durou até 1996, terminando com um cessar fogo e reincorporando a região à Rússia. Nos anos 1999 e 2000 novos conflitos surgiram, com grupos guerrilheiros islâmicos, que continuam em atividade até os dias de hoje, ainda que com menor atividade.

Aliado de Putin e homem forte da região, Kadyrov tem um histórico ligado aos conflitos. Seu pai, Akhmad Kadyrov, era uma importante figura no movimento independentista, mas mudou de lado e passou a apoiar os russos a partir da segunda Guerra da Chechênia. Em 2003 ele se tornou o primeiro presidente da República da Chechênia, uma região da Federação Russa. Sete meses depois, ele foi assassinado por uma bomba nas tribunas de um estádio de futebol, ao assistir um desfile em homenagem à vitória russa na Segunda Guerra Mundial. Ramzan Kadyrov assumiu então o comando da milícia de seu pai, os Kadyrovtsy (os seguidores de Kadyrov) e foi eleito presidente da região em 2007, mantendo-se no cargo até hoje.

Controverso em relação a direitos humanos, ligados a torturas e desaparecimentos de oposicionistas políticos, além de políticas de perseguição e encarceramento a homossexuais e de discriminação de mulheres, sob a égide de um discurso de radicalização religiosa. Ele também tem forte ligação com o mundo do futebol. É presidente honorário do principal clube de futebol da cidade de Grozny, capital da Chechênia. Originalmente chamado de Terek Grozny, o clube foi renomeado como Akhmad Grozny em 2017, em homenagem ao pai de Kadyrov, abandonando a referência ao principal rio da cidade.

 

Kadyrov e Mohamad Salah

Não é mera coincidência, então, que Grozny tenha sido a sede inicial de preparação da seleção egípcia em solo russo, e que Kadyrov tenha se utilizado da presença da principal estrela egípcia, o atacante Mohamed Salah, para se promover. De acordo com a imprensa britânica, o presidente checheno teria aparecido de surpresa no hotel onde a seleção egípcia se hospedava antes de sua estreia na competição. Salah ainda estava no hotel se recuperando da lesão sofria na final da Liga dos Campeões e teria sido surpreendido pela comitiva presidencial, e teria sido levado com Kadyrov para o estádio do Akhmad Grozny, onde o resto da equipe treinava. Lá, foi alvo de fotos e vídeos andando junto a Kadyrov e apertando sua mão.

 

O evento culminou com um jantar oferecido à delegação egípcia antes de sua partida para seu jogo final na Copa, contra a Arábia Saudita, onde Kadyrov entregou para Salah o título de cidadão honorário da Chechênia. “Mohamed Salah é um cidadão honorário da República da Chechênia! É isso mesmo!” Kadyrov publicou na internet. “Dei a Mohamed Salah uma cópia do decreto e um botton no banquete que dei em homenagem à seleção egípcia”.

07 Salah cidadania

A escolha por Salah não foi aleatória. Um dos jogadores de maior destaque na temporada europeia, Salah é o principal jogador de futebol muçulmano da atualidade, e talvez de todos os tempos. O islamismo é uma das bases do poder de da política de Kadyrov, e sua aproximação com o astro do futebol islâmico seria certamente vantajosa, como parte da estratégia de se apresentar como um líder benevolente, contrapondo a imagem difundida pela imprensa ocidental de perpetrador de crimes contra a humanidade.

Salah, por sua parte não se pronunciou oficialmente sobre o caso. De acordo com a imprensa, o jogador foi pego de surpresa e cogitou até mesmo abandonar a delegação egípcia antes do jogo contra a Arábia Saudita. Apesar da federação egípcia alegar que a informação, veiculada pela CNN, não tinha fundamento, algumas evidências demonstram o contrário. Após marcar o gol egípcio contra a Arábia Saudita, em sua despedida da Copa, Salah não comemorou o gol, mas simplesmente andou para o centro do gramado, cumprimentando os colegas de equipe que vinham celebrar com ele o 1 a 0. Antes do jogo contra a Arábia Saudita, o jogador postou em rede social a seguinte mensagem, traduzida pela imprensa britânica como “Todos no Egito estão juntos e não há qualquer desentendimento entre nós. Nos respeitamos e nosso relacionamento é ótimo”.

salah tweet

Outra postagem do atacante, dias depois, trouxe o incidente novamente à tona. No dia 1 de julho, Salah escreveu “Alguns podem achar que acabou, mas não acabou. Precisa haver mudança”. Ainda que alguns acreditem que a postagem, feita após a eliminação da Espanha no torneio, tenha se dirigido a Sergio Ramos, responsável pela lesão que quase tirou o atacante da Copa do Mundo, outros apontam para uma indireta sobre a Federação Egípcia de Futebol. É importante lembrar que Salah e a Federação Egípcia já tinham entrado em disputa meses antes da Copa em relação à utilização de direitos de imagem do atleta sem sua permissão.

Seja como for, Salah foi mais uma peça utilizada pelo presidente chechênio em sua estratégia de associar sua imagem com a de celebridades ligadas ao mundo do esporte. Seu governo autoritário sobre a região e suas raízes ligadas ao radicalismo islâmico são mantidos por meio da opressão e da produção de consenso. E uma das formas de consolidar sua imagem de força e masculinidade é através do esporte, especialmente o futebol e o MMA. Ao longo dos anos, uma longa lista de personalidades ligadas ao esporte e ao mundo da luta visitaram a Chechênia a convite de Kadyrov. Os atores Jean-Claude Van Damme e Hillary Swank participaram de sua festa de aniversário em 2011, recebendo altos cachês. Steven Seagal se encontrou com ele em 2013. O lutador brasileiro Fabrício Werdum foi patrocinado por Kadyrov, que mantém contato com muitos outros lutadores, incluindo Floyd Mayweather.

A ligação de Kadyrov com o mundo do esporte ainda precisa ser melhor investigada, seja através do futebol ou da luta. Em 2017, Kadyrov organizou um jogo de futebol em comemoração ao aniversário de Vladimir Putin. O jogo foi realizado entre uma equipe de celebridades esportivas russas e uma seleção master italiana, que contava com Paolo Rossi e outros ex-jogadores. O time russo contou com a participação de Ronaldinho Gaúcho e do próprio Kadyrov, que empunhava a braçadeira de capitão, no estádio do Akhmad Grozny. A equipe russa venceu o jogo por 6 a 3, com gols de Ronaldinho e do próprio Kadyrov. No Instagram, Kadyrov publicou:

“Eu quero compartilhar a boa notícia de que tive a honra de marcar um gol nesse jogo dedicado à Vladimir Vladimirovich contra a seleção italiana! As arquibancadas estavam cheias. Antes do início da partida, cantamos os hinos nacionais da Itália, Rússia e da República da Chechênia.  O Estádio estava repleto de belas imagens. Durante o jogo, um retrato de 1.800 metros quadrados de Vladimir Putin foi exibido em uma das arquibancadas. Após o apito final, o céu sobre a Arena Akhmad se iluminou com os coloridos fogos de artifício”.

Através do futebol Kadyrov estabelece vínculos com o nacionalismo checheno e com a mãe Rússia. Com o mundo do esporte internacional e com o islamismo. E busca associar sua imagem ao jogo a moldar a percepção internacional a seu respeito. No entanto, ele não inovou em nenhum desses quesitos. A promoção da imagem política através do futebol é tão velha quanto o próprio esporte bretão. Nessa mesma Copa do Mundo, por exemplo, vimos outro caso de destaque nesse sentido, com Kolinda Grabar-Kitarović, presidente da Croácia. Mas isso fica para outro dia.