A história do esporte gaúcho: um caso único

23/09/2017

por Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

A história do esporte do Rio Grande do Sul apresenta uma série de peculiaridades que o tornam caso singular no Brasil. O estado mais austral do país, devido a fatores diferenciados como as suas características geográficas, sua relação e integração com a fronteira nacional, além de uma formação étnica singular, o tornam distinto. É fácil visualizar diferentes percepções e uma relação única entre a tradição e a inovação. No extremo sul do Brasil o novo e o tradicional se fundem, se acomodam e se integram de maneira diferenciada em relação ao resto do país. Foi esta mescla que formou o esporte gaúcho, sempre aliando o moderno ao conservador e o caracterizando de maneira original.

Para exemplificarmos estas questões basta fazermos uma simples análise e uma comparação que pode parecer, inicialmente, um tanto desconexa: e relação entre as touradas e o turfe praticado em Porto Alegre no século XIX com a construção da Arena do Grêmio, inaugurada no final de 2012.

No caso das touradas, a relação dos circos de touros com os gaúchos era especial. Basta dizer que as mesmas companhias tauromachicas que se apresentavam por todo o Brasil e pelos países do Rio da Prata, também excursionavam por Porto Alegre e pelas principais cidades do estado. No entanto, para atrair o público sulista, atrações diferenciadas eram oferecidas. “Touritos” eram ofertados para as crianças brincarem, assim como autênticos “campeiros” disputavam a bravura com os artistas portugueses e espanhóis frente aos touros. Uma postura totalmente diferente do que acontecia, por exemplo, no Rio de Janeiro, capital imperial até 1889, onde as touradas eram vistas como praticas que beiravam a barbárie. No Rio Grande do Sul, nada mais era que um divertimento que trazia o cotidiano campeiro para a cidade e entretinha o povo urbano.

Da mesma forma, o turfe dividia opiniões. Se, por um lado, a prática do esporte inglês em substituição às consideradas “selvagens” carreiras de cancha reta exigia novos modos, técnicas, regras e ambientes que o tornasse cada vez mais próximo ao que era desenvolvido no velho continente, havia, também, muitos representantes que eram partidários, pelo menos em parte, às velhas disputas, obsoletas aos mais progressistas. Os cavalos puro sangue ingleses, representantes da mais refinada raça de acordo com os europeus, ficariam ainda melhores se cruzados com os equinos crioulos, diziam os periódicos porto alegrenses de grande circulação da época. Os jockeys britânicos possuíam eficientes técnicas, mas não se comparavam aos “centauros dos pampas”, como eram chamados os cavaleiros gaúchos. Cavalos mestiços, jockeys de bombacha e categorias diferenciadas fizeram do turfe gaúcho oitocentista outro caso especial. Enquanto em São Paulo e Rio de Janeiro, centros econômicos e políticos do Brasil, o discurso era favorável a cópia da prática britânica, nos hipódromos do Rio Grande do Sul os cavalos crioulos e seus ginetes eram celebrados.

Chegando ao século XXI, temos outro exemplo desta peculiar relação do Rio Grande do Sul com a tradição e a inovação nos esportes. Foi inaugurado no dia 8 de dezembro de 2012 um moderno estádio multiuso chamado de Arena do Grêmio em substituição ao defasado Estádio Olímpico Monumental que servia de casa ao time do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense desde 1954. Mesmo sendo um dos mais avançados e modernos palcos para o futebol do Brasil e seguindo as mais exigentes tendências mundiais, o clube decidiu não instalar cadeiras na parte inferior do setor norte, devido a uma reivindicação de parte da torcida. Esta gostaria de se manter fiel a antiga tradição de torcer em arquibancadas e não em cadeiras. Desta forma, a Arena do Grêmio se mostra como mais um exemplo onde o inovador se mescla com o tradicional no esporte do Rio Grande do Sul. Enquanto que vários modernos estádios são construídos pelo mundo, Porto Alegre o faz de maneira excêntrica, aliando tendências contemporâneas com as rústicas arquibancadas.

De fato, a história do esporte no Rio Grande do Sul é peculiar. Sendo nos circos de touros, nos hipódromos ou nos estádios de futebol, os gaúchos tem uma maneira diferenciada de tratar com as renovações. A modernidade gaúcha tem essas especificidades. Adaptações, negociações, acomodações fazem do esporte do Rio Grande do Sul um caso à parte. Se no Brasil e no mundo os esportes se popularizaram, ganharam no extremo sul do país a marca gaúcha.

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TRAUMAS COLETIVOS E O RACISMO NO ESPORTE

18/09/2017

            Em geral, o racismo no esporte é compreendido de forma equivocada. Na verdade, rotineiramente, salvo para as vítimas, as atitudes racistas vivenciadas no campo esportivo são encaradas como brincadeiras ou, como dizem alguns, são coisas do jogo que, quando proferidas, não tornam ninguém um racista.

            De forma objetiva, essa compreensão é bem eficiente para esvaziar o fenômeno e os seus desdobramentos legais e sociais. Nesse contexto, assistimos o crime de racismo se travestir em qualquer coisa bem distante da gravíssima violência que ele, efetivamente, representa. Quase sempre enquadrado como injúria racial, onde a pena é menor e os danos facilmente absorvidos, o crime de racismo no Brasil, especialmente no esporte, se torna quase que um crime impossível.

            Tentando encarar o desafio de expandir a nossa compreensão acerca desse fenômeno e, de algum modo, demonstrar o quanto somos condescendente com o crime de racismo, resolvi aproximar esse tema aos novos estudos denominados: pedagogia do ensino dos traumas coletivos.

            Com ênfase inicial no Holocausto, Francisco Carlos Teixeira da Silva e Karl Schurster, em texto publicado em 2016[1], apresentam essas novas análises e, principalmente, revelam uma demanda urgente em revisitarmos os estudos realizados sobre o tema e, sobretudo, a forma de ensinar esse fenômeno nos diversos níveis escolares. Dessa forma, enquanto ferramenta de ensino, a proposta visa combater a violência e as diversas manifestações de ódio presentes no cotidiano social.

            Ainda que o foco inicial seja o holocausto, os estudos dos traumas coletivos se aplicam perfeitamente ao racismo enquanto fenômeno que atingiu um grupo especifico da sociedade e que, dia a dia, continua sofrendo com os reflexos do seu passado. No caso do racismo, no Brasil, ainda possuímos alguns agravantes que são, em geral, difíceis de serem superados sem uma reestruturação completa na forma de ensinar e no conteúdo ensinado sobre o tema.

            Como sabemos o racismo é um tema pouco estudado no brasil. Quase sempre tratado de forma periférica nas escolas e universidades, assim como ocorre com o holocausto que é visto na periferia do estudos da Segunda Guerra Mundial, o racismo acabou se tornando um fenômeno pouco explicado e, consequentemente, pouco entendido.

            Quando aproximamos esse tema do esporte isso se torna ainda mais grave, visto que, quase sempre, as manifestações esportivas estão imersas naquilo que definimos como sendo o espaço do “não sério” e, principalmente, seguem sendo definida por um perspectiva completamente romantizada.

            Nesse sentido, há sempre a desculpa de que o que se faz em campo/arquibancada, diante de suas especificidades e sendo um lugar de catarse, não devem ser levados tão a sério. Tudo, no final, não passaria de um ação momentânea sem desdobramentos maiores.

            Esse trato peculiar sobre o tema é visto nos desdobramentos dos casos de racismo no esporte. Apenados, quase sempre, de forma branda, os que agridem não compreendem a dor do “outro”, tampouco a gravidade da sua violência. Via de regra, os agressores se escondem sobre a desculpa de que “não são racistas” e que foi apenas um momento quente do jogo.

            Sobre isso, em seu texto, Silva e Schurster trazem uma reflexão importante sobre a experiência alemã que pode nos ajudar a trilhar nossos primeiros passos nessa nova tentativa de aprofundar sobre o racismo. Gitta Sereny (historiadora, austríaca, 1921-2012), citam os autores, revela em seu livro, Trauma Alemão. Experiência e reflexões, que “ foi através de um melhor entendimento sobre o idealismo e a capacidade de uma determinada tirania de perversão dos instintos humanos, que conseguiu chegar a uma definição do ‘trauma alemão’”. Ou seja, explicam os autores, o “trauma alemão teria sido capaz de causar e deixar profundas feridas com as quais as futuras gerações do processo histórico tiveram e ainda têm , para o bem e para o mal, a obrigação de lidar”.

            A idéia de um passado que não passa é fundamental para a compreensão desse sistema onde se distanciam aqueles que sentem e sofrem com a dor e aqueles que agridem e a negam o dano. No Brasil, como sabemos, “não reconhecemos” o racismo porque acreditamos que ele ficou no passado. ademais, há um esforço brutal em negar as consequências e, fundamentalmente, as responsabilidades sobre ele.

            E isso é facilmente explicável, vejamos: como quase sempre atrelamos os estudos sobre o racismo ao tema escravidão e pós-escravidão (aqui ate os anos de 1930), dessa forma, conseguimos afastar nesse tempo histórico as nossas relações e conexões com esse fenômeno social. Assim, parece muito bem resolvido uma renúncia em revisitar o tema.

            Talvez por isso, na maior parte dos casos de racismo no Brasil, encerramos o debate com o enquadramento dos fatos como injúria racial. Pela sua natureza jurídica, a injúria são “apenas” palavras proferidas que acabariam se encerrando nelas mesmas. Nesses casos, não se compreende a continuidade da violência estrutural na qual a injúria está inserida. Ou seja, retiramos o racismo que estruturou a injúria e resolvemos a questão para seguirmos em frente.

            Quando vamos debater o racismo no esporte contamos ainda com outro desafio. Cotidianamente, definido a partir de uma perspectiva estéril e romântica, qualquer fenômeno que afete essa estrutura são consideradas desvios do esporte e não parte dele. Assim, como ocorre com a análises apressadas acerca da violência no esporte, que busca rapidamente defini-la como algo externo ao campo esportivo, o racismo também é um desses fenômenos que nada tem haver com o esporte.

            Enfim, já passou da hora de reconhecermos o racismo no esporte como um fenômeno bem mais complexo e grave do que tratamos hoje. Do contrário, de nada vai adiantar times entrando em campo com faixas dizendo “não ao racismo”, quando, na verdade, eles não sabem nada sobre o tema. igualmente, de nada vai adiantar respostas apressadas aos eventos de racismos no esporte, se elas não vierem substanciadas de uma compreensão mais ampla, realista e corajosa sobre o tema. Em síntese, precisamos falar seriamente sobre o racimo no esporte.

[1] SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. SCHURSTER, Karl. Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre, v. 42. N.2. p. 744-772, mai-ago 2016.


TRAUMAS COLETIVOS E O RACISMO NO ESPORTE

18/09/2017

Por Ricardo Pinto dos Santos

            Em geral, o racismo no esporte é compreendido de forma equivocada. Na verdade, rotineiramente, salvo para as vítimas, as atitudes racistas vivenciadas no campo esportivo são encaradas como brincadeiras ou, como dizem alguns, são coisas do jogo que, quando proferidas, não tornam ninguém um racista.

            De forma objetiva, essa compreensão é bem eficiente para esvaziar o fenômeno e os seus desdobramentos legais e sociais. Nesse contexto, assistimos o crime de racismo se travestir em qualquer coisa bem distante da gravíssima violência que ele, efetivamente, representa. Quase sempre enquadrado como injúria racial, onde a pena é menor e os danos facilmente absorvidos, o crime de racismo no Brasil, especialmente no esporte, se torna quase que um crime impossível.

            Tentando encarar o desafio de expandir a nossa compreensão acerca desse fenômeno e, de algum modo, demonstrar o quanto somos condescendente com o crime de racismo, resolvi aproximar esse tema aos novos estudos denominados: pedagogia do ensino dos traumas coletivos.

            Com ênfase inicial no Holocausto, Francisco Carlos Teixeira da Silva e Karl Schurster, em texto publicado em 2016[1], apresentam essas novas análises e, principalmente, revelam uma demanda urgente em revisitarmos os estudos realizados sobre o tema e, sobretudo, a forma de ensinar esse fenômeno nos diversos níveis escolares. Dessa forma, enquanto ferramenta de ensino, a proposta visa combater a violência e as diversas manifestações de ódio presentes no cotidiano social.

            Ainda que o foco inicial seja o holocausto, os estudos dos traumas coletivos se aplicam perfeitamente ao racismo enquanto fenômeno que atingiu um grupo especifico da sociedade e que, dia a dia, continua sofrendo com os reflexos do seu passado. No caso do racismo, no Brasil, ainda possuímos alguns agravantes que são, em geral, difíceis de serem superados sem uma reestruturação completa na forma de ensinar e no conteúdo ensinado sobre o tema.

            Como sabemos o racismo é um tema pouco estudado no brasil. Quase sempre tratado de forma periférica nas escolas e universidades, assim como ocorre com o holocausto que é visto na periferia do estudos da Segunda Guerra Mundial, o racismo acabou se tornando um fenômeno pouco explicado e, consequentemente, pouco entendido.

            Quando aproximamos esse tema do esporte isso se torna ainda mais grave, visto que, quase sempre, as manifestações esportivas estão imersas naquilo que definimos como sendo o espaço do “não sério” e, principalmente, seguem sendo definida por um perspectiva completamente romantizada.

            Nesse sentido, há sempre a desculpa de que o que se faz em campo/arquibancada, diante de suas especificidades e sendo um lugar de catarse, não devem ser levados tão a sério. Tudo, no final, não passaria de um ação momentânea sem desdobramentos maiores.

            Esse trato peculiar sobre o tema é visto nos desdobramentos dos casos de racismo no esporte. Apenados, quase sempre, de forma branda, os que agridem não compreendem a dor do “outro”, tampouco a gravidade da sua violência. Via de regra, os agressores se escondem sobre a desculpa de que “não são racistas” e que foi apenas um momento quente do jogo.

            Sobre isso, em seu texto, Silva e Schurster trazem uma reflexão importante sobre a experiência alemã que pode nos ajudar a trilhar nossos primeiros passos nessa nova tentativa de aprofundar sobre o racismo. Gitta Sereny (historiadora, austríaca, 1921-2012), citam os autores, revela em seu livro, Trauma Alemão. Experiência e reflexões, que “ foi através de um melhor entendimento sobre o idealismo e a capacidade de uma determinada tirania de perversão dos instintos humanos, que conseguiu chegar a uma definição do ‘trauma alemão’”.  Ou seja, explicam os autores, o “trauma alemão teria sido capaz de causar e deixar profundas feridas com as quais as futuras gerações do processo histórico tiveram e ainda têm , para o bem e para o mal, a obrigação de lidar”.

            A idéia de um passado que não passa é fundamental para a compreensão desse sistema onde se distanciam aqueles que sentem e sofrem com a dor e aqueles que agridem e a negam o dano.  No Brasil, como sabemos, “não reconhecemos” o racismo porque acreditamos que ele ficou no passado. ademais, há um esforço brutal em negar as consequências e, fundamentalmente, as responsabilidades sobre ele.

            E isso é facilmente explicável, vejamos: como quase sempre atrelamos os estudos sobre o racismo ao tema escravidão e pós-escravidão (aqui ate os anos de 1930), dessa forma, conseguimos afastar nesse tempo histórico as nossas relações e conexões com esse fenômeno social. Assim, parece muito bem resolvido uma renúncia em revisitar o tema.

            Talvez por isso, na maior parte dos casos de racismo no Brasil, encerramos o debate com o enquadramento dos fatos como injúria racial. Pela sua natureza jurídica, a injúria são “apenas” palavras proferidas que acabariam se encerrando nelas mesmas. Nesses casos, não se compreende a continuidade da violência estrutural na qual a injúria está inserida. Ou seja, retiramos o racismo que estruturou a injúria e resolvemos a questão para seguirmos em frente.

            Quando vamos debater o racismo no esporte contamos ainda com outro desafio. Cotidianamente, definido a partir de uma perspectiva estéril e romântica, qualquer fenômeno que afete essa estrutura são consideradas desvios do esporte e não parte dele. Assim, como ocorre com a análises apressadas acerca da violência no esporte, que busca rapidamente defini-la como algo externo ao campo esportivo, o racismo também é um desses fenômenos que nada tem haver com o esporte.

             Enfim, já passou da hora de reconhecermos o racismo no esporte como um fenômeno bem mais complexo e grave do que tratamos hoje. Do contrário, de nada vai adiantar times entrando em campo com faixas  dizendo “não ao racismo”, quando, na verdade, eles não sabem nada sobre o tema. igualmente, de nada vai adiantar respostas apressadas aos eventos de racismos no esporte, se elas não vierem substanciadas de uma compreensão mais ampla, realista e corajosa sobre o tema. Em síntese, precisamos falar seriamente sobre o racimo no esporte.

[1] SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. SCHURSTER, Karl. Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre, v. 42. N.2. p. 744-772, mai-ago 2016.

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O dia em que o Maracanã reverenciou o “maior atleta do mundo”: histórias das (des)construções de uma identidade nacional

10/09/2017

por Fabio Peres[i]

A história é fascinante e cheia de nuances. No dia 19 de março de 1955, o leitor do jornal O Globo era informado sobre uma exibição prevista para ocorrer em abril no Maracanã. O evento se daria antes de uma partida de futebol, o match entre Rio-São Paulo. A ocasião não parecia ser trivial. Uma medalha de ouro, inclusive, estaria sendo cunhada especialmente para a ocasião.

O “grande campeão” a ser homenageado, porém, não era ligado (pelo menos diretamente) ao “mundo” do futebol; já na época o esporte mais popular do Brasil. Mas sim ao atletismo. O triplista Adhemar Ferreira da Silva, campeão olímpico em 1952 (Helsinque), havia conquistado mais uma façanha: bateu o recorde mundial no salto triplo nos Jogos Pan-americanos da Cidade do México com a marca de 16,56m – uma diferença de 33 centímetros a mais, que os periódicos buscavam quase sempre registrar, do seu rival russo Leonid Scherbakov. Diante do contexto da época não parece casual o reforço da suposta rivalidade entre Brasil e Rússia (algo que merece ser melhor investigado).

O Globo fez questão de publicar uma matéria especial, de página inteira, similar aos infográficos atuais, com vários dados sobre Adhemar (ver figura 1)[ii].

Figura 1: O Globo, 19/3/1955, segunda seção, p.1.

 

Na perspectiva do periódico carioca não se tratava de um feito que seria rapidamente esquecido, mas sim um marco histórico do atletismo. Uma das manchetes destacava que “OS TÉCNICOS E OS LIVROS EM 16 M 48 O MÁXIMO A SER ALCANÇADO POR QUALQUER ATLETA – FEITO SUPERIOR A [Roger] BANNISTER[iii] AO ULTRAPASSAR A ‘BARREIRA DO SOM’ NA MILHA”. Até mesmo uma charge brincava com a ideia da necessidade de nomear uma avenida com o nome do atleta (ver figura 2).

Figura 2: Charge de Constantino, O Globo, 19/3/1955, 2ª Seção, p.1. No texto superior à direita lê-se: Quando Bob Mathias ganhou o decatlo dos Jogos Olímpicos [o decatleta ganhou ouro nas Olímpiadas de 1948 (Londres) e de 1952 (Helsinque)] , a pequena cidade norte-americana de Tulare – onde nasceu Mathias – resolveu mudar o nome em MATHIASVILLE.
Abaixo da imagem lê-se: TURISTA – Ó mister guarda, pode me indicar a Avenida Ademar Ferreira da Silva?

 

A conquista, porém, não se dera sem um tom dramático. Dias antes, Adhemar havia sido desclassificado no salto em distância (Última Hora, 15/3/1955, p.12). Certa expectativa cercava, então, o desempenho do triplista. Talvez por isso, a notícia de sua vitória ganhou um colorido de catarse. Os jornais não apenas destacavam que aos “soluços” o atleta dissera que poderia ter saltado mais, como “ninguém parecia acreditar no que a fita métrica afirmava”.  A manchete do Última Hora refletia e, ao mesmo tempo, reforçava os sentimentos de orgulho, identidade e pertencimento compartilhados pela “comunidade imaginada” (Anderson, 2008) ao dar destaque a fala do “grande campeão do mundo”: “VENCI NÃO PARA MIM; MAS PARA O BRASIL” (Última Hora, 17/3/1955, p.12). A importância ao feito era tão grande que o jornal publicou a sequência de fotografias que resultou recorde (ver Figura 3).

Figura 3: Última Hora, 17/3/1955, p.12

 

Dias depois, o Última Hora fazia questão de publicar a opinião do técnico americano Don King que afirmava que o Brasil nas Olímpiadas de 1960 só ficaria atrás dos Estados Unidos e da Rússia; expressando assim que tal sentimento de nacionalidade também passava pelo reconhecimento do olhar do outro, não qualquer estrangeiro, mas o estrangeiro “qualificado” (Última Hora, 19/3/1955, 2º Caderno, p.1).

Isso não significava, por sua vez, que esse sentimento não era alvo de críticas. Uma coluna não assinada destacava em seu título: “BRASIL ENVERGONHA NO MÉXICO”. O texto destacava:

O noticiário aí está diário, doloroso, triste para todos os brasileiros. Nós, que temos a péssima moda de achar que nosso avanço esportivo em determinados setores é ultra espetacular, somos forçados a reconhecer que ainda não atingimos a expressão de outras nações, que somos discípulos, ainda, em esportes que nos julgávamos senhores de primazia (Mundo Esportivo, 25/3/1955, p.2).

O desempenho dos atletas brasileiros, de acordo com a análise, não correspondia às expectativas, à “propaganda” que se torna “ruinosa”, mostrando para nós e – vale destacar – principalmente para o mundo “a nossa inferioridade esportiva” que “mais se acentua entre os países que lá estão representados” (op. cit.). A coluna não deixava de sublinhar a decepção com os resultados dos demais atletas brasileiros, ainda que enfatizasse a importância de Adhemar e do boxeador Luiz Ignácio, responsáveis pelas únicas medalhas de ouro que o Brasil conquistou no México:

Tiremos o chapéu ao fabuloso Adhemar Ferreira da Silva. Saudemos Luiz Ignácio, do boxe, outro campeão, que forma, com o campeão do salto triplo, a dupla que se recomenda na delegação brasileira. Estes dois falam bem do Brasil. […] Verdade dura, duríssima, fruto único da ilusão criada de que nossos índices são compatíveis com o avanço internacional no terreno esportivo. […] Nossas equipes envergonham no México. (Mundo Esportivo, 25/3/1955, p.2).

 

As matérias, por conseguinte, acabavam por reforçar os méritos de Adhemar como também por valorizar as competições internacionais como forma de projeção nacional. Por outro lado, as colunas no jornal Mundo Esportivo contrastam com um sentimento ufanista presente em determinadas coberturas sobre a atuação dos atletas brasileiros. Isso se deu, inclusive, no bicampeonato olímpico de Ademar no ano seguinte em Melbourne (1956). Poucos dias após a notícia de sua vitória, uma pequena nota no jornal esportivo já chamava atenção para apropriação política em torno da exaltação exagerada da nação. Na seção Galeria Branca e Negra, em que eram apresentados os piores e melhores da semana, a “pior coisa” escolhida pelo periódico eram os “urubus e demagogos”; “abutres” que revestiam a conquista de Adhemar com “frases ocas, enfeitadas, demagógicas, estarrecedoras falando em bandeiras, patriotadas etc.” (Mundo Esportivo, 30/12/1956, p.13). De fato, não foram poucas as manifestações, inclusive de políticos, exaltando o feito.

Em todo caso e a despeito de alguns contrastes, prevaleceu um tom festivo e celebratório ao redor do herói e, por associação, da nação. A popularidade e o prestígio de Adhemar, não é demais assinalar, se tornaram bastante expressivos no intervalo entre as duas Olimpíadas. Além da repercussão das conquistas de 1952 e no Pan-americano de 1955, seu nome era frequentemente citado como o maior esportista do Brasil, inclusive por atletas de outras modalidades como o futebol[iv]. Matérias e colunas de jornais sobre “famosos”[v], vi] e “personalidades”[vii], mesmo fora do campo esportivo, se referiam a ele.

Figura 4: Vitória de Luiz Ignácio no boxe (Última Hora, 28/3/1955, p.1).

 

O retorno do triplista ao Brasil não poderia ser menos noticiado. A capa do Última Hora do dia 31/3/1955 saudava o campeão que chegara no dia anterior na cidade do Rio de Janeiro, dando mais um destaque à fala daquele que “abalou os meios esportivos do mundo inteiro, pondo em dúvida até o princípio da lei da gravidade”: “NÃO PODIA FALTAR À CONFIANÇA DO MEU POVO”.

Figura 5: capa do Última Hora do dia 31/3/1955.

 

O Globo, por sua vez, destacava que “O BRASIL AGRADECE AO SEU CAMPEÃO” estampando uma fotografia do então presidente Café Filho apertando a mão do triplista. A recepção foi marcada por uma solicitação do atleta ao presidente, que o tratava o triplista por “meu herói”, de que o governo “ajude o esporte cada vez mais”.

Figura 6: O Globo, 1/4/1955, p.10.

 

Não se sabe ao certo o que aconteceu com a exibição do salto de Adhemar, que seria organizado pelo O Globo. Vale lembrar que o atleta se tornou também repórter do Última Hora. De todo modo, Adhemar de terno deu (talvez a primeira) volta olímpica do Maracanã na final do torneio Rio-São Paulo:

Nem tudo foi tristeza para os cariocas, na noite de football no Maracanã. A presença de Ademar Ferreira da Silva, que fez a volta olímpica sob a ovação da assistência, foi uma nota marcante do espetáculo de ontem. Foram torcedores, cariocas e paulistas, irmanados na homenagem ao grande recordista mundial do salto triplo (O Globo, 1/4/1955, p.12).

Figura 7: O Globo, 1/4/1955, p.12.

 

As construções dos sentimentos de nacionalidades através do esporte é cheia matizes. Passaram também por outras modalidades, além do futebol, merecendo ser melhor investigadas, assim como o uso político do esporte e o uso esportivo da política. Mas esse debate ficará para um próximo post.

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EM TEMPO: esse post é dedicado à memória de Oswaldo Sérvulo de Faria, que não nos deixava esquecer – mesmo diante das adversidades – de mantermos sempre a esperança, e que possuía grande orgulho de Adhemar ter vestido as cores de seu time, o Clube de Regatas Vasco da Gama.

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[i] Uma pequena parte dessa história foi escrita com Victor Melo e está inserida no capítulo “Adhemar Fereira da Silva: Representations of the Brazilian Olympic Hero” do livro organizado por Antonio Sotomayor e Cesar Torres, que será lançado em breve.

[ii] O Globo, 19/03/1955, segunda seção, p.1.

[iii] Por exemplo, no Mundo Esportivo a coluna Perguntas e Respostas – dedicada a entrevistar personalidades esportivas, em sua maioria do futebol – comumente perguntava “qual é a maior expressão esportiva do Brasil?”. Com frequência os atletas escolhiam o nome de Adhemar, às vezes seguido de termos como “indiscutivelmente” (ver edições de 23/3/1956, p.2; 27/4/1956, p.2; 11/5/1956, p.2; 25/5/1956, p.15; 15/6/1956, p.3).

[iv] O Cruzeiro, 12/05/1956, p.118.

[v] Última Hora, 12/10/1956, Caderno 2, p.3.

[vi] A Noite, 31/08/1956, 2º Caderno, p.2.


UM PADRINHO ESPORTIVO: JOÃO FERRER E O BANGU A. C.

04/09/2017

Nei Jorge Santos Junior

Entre os anos de 1903 a 1919, João Ferrer exerceu a função de diretor-chefe da Companhia Progresso Industrial do Brazil. Contratado para substituir o antigo diretor-gerente da Fábrica, o português Eduardo Gomes Ferreira, Ferrer, com sua visão moderna para o período, foi responsável por uma série de melhorias na região, as quais não estavam circunscritas às questões de infraestrutura, permitindo dotar de conforto a pequena vila operária, mas também oferecendo várias formas de lazer à sua população.

O benemérito João Ferrer, em fotografia de 1905.

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Fonte: MOLINARI, C. Mestres estrangeiros; operariado nacional: resistências e derrotas no cotidiano da maior fábrica têxtil do rio de janeiro (1890 – 1920). 2015. 259 f., il. Dissertação (Mestrado em História) —Universidade de Brasília, Brasília, 2015.

Certamente, a de maior impacto foi a participação na criação do Bangu A. C. Como já fora exposto em outros posts no blog, seus fundadores do clube, todos trabalhadores da Companhia Progresso Industrial do Brasil, bem que tentavam desde 1897 organizar uma agremiação esportiva[1], mas os diretores da empresa não pareciam dispostos a apoiar tal iniciativa. O antigo administrador da fábrica, o português Eduardo Gomes Ferreira, alegava ser contra qualquer tipo de jogo e, por isso, impedia a criação de qualquer agremiação esportiva. Os ingleses, porém, não esmoreceram e continuaram a pedir recursos para a fundação do clube.

Contudo, desdobramentos externos transformariam de vez as relações de lazer da região. Durante a greve geral de 1903, mesmo tendo a Fábrica Bangu participação pouco expressiva no movimento, curiosamente o diretor-gerente da Companhia, Eduardo Gomes Ferreira, pediu exoneração do cargo em 17 de agosto daquele ano, alegando problemas de saúde[2]. Na ocasião, o cargo acabou nas mãos do até então tesoureiro espanhol João Ferrer, que há tempos mantinha ligações estreitas com a cúpula da empresa.

Logo após a ascensão do espanhol ao cargo de administrador, as restrições em relação aos jogos chegariam ao fim, pois João Ferrer enxergava com bons olhos a criação de uma agremiação.

Rapidamente, a notícia se espalhara por toda fábrica. Para compor o quadro de associados, sem qualquer distinção de cargos ou nacionalidade, bastava aos interessados darem seus nomes ao secretário Andrew Procter, responsável pela filiação[3]. Naquele momento formou-se, aos 17 dias de abril de 1904, na longínqua estação de Bangu, um “club athletic sob a denominação de “Bangu Athletic Club”, tendo “por fins os jogos de football, cricket, lawn tennis e outros jogos variados.”[4]

A relação entre o espanhol Ferrer e a agremiação não ficou circunscrita às ações daquele dia. Pelo contrário, frequentemente o clube recorria aos subsídios oferecidos pelo então dirigente espanhol, entre eles, um terreno de propriedade da fábrica para a instalação do campo de futebol e a construção da sede social. Além disso, o diretor também  liberava com frequência um quantia em dinheiro, a fim de complementar seu orçamento, que incluía despesas com conservação[5], limpeza da sede social e do campo, pagamento de impostos, energia elétrica, compra de uniformes[6], transporte de jogadores e outras, por exemplo, o pedido feito em janeiro de 1906, em que o clube recorreria novamente ao Sr. João Ferrer, desta vez, “pedindo auxílio para aumentar as arquibancadas e colocar no campo diversos jogos e exercícios atléticos para o divertimento dos sócios e seus familiares aos domingos e feriados”[7].

Como uma espécie de extensão recreativa da fábrica, essa área representava uma continuidade do espaço do trabalho. A força dos operários e seu empenho na estruturação do Bangu se estendiam para além das questões trabalhistas, embora diretamente ligadas ao mundo do trabalho, a partir do qual se mobilizavam e com o qual reiteradamente dialogavam.

Dessa forma, percebe-se que Ferrer exercia um papel de benfeitor, liberando frequentemente recursos ao clube arrabaldino. Para facilitar a liberação da verba, o clube agia da seguinte forma: a solicitação de fundos era encaminhada ao Presidente Honorário do clube, cargo definido claramente no artigo sete de seus estatutos – “será conferido sempre o título de – Presidente Honorário –  o Diretor Gerente da Companhia Progresso Industrial do Brasil, o qual será consultado em todas as resoluções tomadas pela diretoria, estranhas a estes estatutos”[8]. Isto é, o administrador gerente avaliava e designava os recursos necessários para o bom andamento do clube, no qual suas ações interferiam diretamente na política do grêmio, principalmente no controle e na composição de seus quadros e dirigentes. Vale salientar que, qualquer obra ou evento realizado pelo clube, por ter sua sede no terreno da companhia, precisava de autorização prévia da fábrica, até mesmo jogos e torneios, como a disputa da Taça Ferrer, em que o administrador impôs o número de competidores, data e condição de participação: “só poderá tomar parte neste torneio, jogadores que são empregados da Cia. Progresso Industrial do Brasil”[9].

No entanto, o benfeitor espanhol teve sua reputação abalada por conta da crise econômica enfrentada pelas indústrias de tecidos em decorrência da Primeira Guerra Mundial. Silva sustenta que a verificação de irregularidades, que vinham sendo encobertas ano após ano pelo corpo de diretores por meio de recursos, provocou o abandono do seu posto em 27 de janeiro de 1919[10].

Após a saída do cargo, inúmeras denúncias sobre fraudes fiscais e irregularidades de diversos tipos vieram à tona. Além disso, a Gazeta de Notícias publicou uma série de denúncias intitulada: “Ladrões do fisco: o contrabando da fábrica Bangu”[11].

No entanto, mesmo frente à sequência de escândalos, algumas agremiações, que tanto se beneficiaram das ações patriarcais do ex-diretor, não esqueceram suas benesses. Acreditamos que as redes socais locais estabelecidas entre Ferrer e o Bangu A. C. marcaram fortemente o modus operandi da região, assumindo papel determinante na inclusão de suas pautas locais não só no debate sobre condições de trabalho e moradia, mas também sobre as múltiplas opções de entretenimento do bairro.

[1] MOLINARI, C. Mestres estrangeiros; operariado nacional: resistências e derrotas no cotidiano da maior fábrica têxtil do rio de janeiro (1890 – 1920). 2015. 259 f., il. Dissertação (Mestrado em História) —Universidade de Brasília, Brasília, 2015.
[2] Ibid.
[3] Ata de Fundação, The Bangu Athletic Club, 1904.
[4] Ibid.
[5] Acta da Sessão da Diretoria do Bangu Athletic Club de 19 de janeiro de 1906.
[6] De acordo com a Ata de fundação, logo após a escolha das cores do uniforme, coube ao Sr. Stark, a missão de conseguir, junto ao Diretor da Fábrica, o pano necessário para fazer o fardamento do clube. Além disso, por diversas vezes, essa mesma atitude pode ser vista nas atas de reunião do clube. Ver: Ata de Fundação, The Bangu Athletic Club, 1904; Acta da Sessão da Diretoria do Bangu Athletic Club de 19 de janeiro de 1906.
[7] Acta da Sessão da Diretoria do Bangu Athletic Club de 19 de janeiro de 1906.
[8] Art. 7 dos Estatutos do Bangu Athletic Club de 20 de abril de 1913, p. 1-2.
[9] Acta da Sessão da Diretoria do Bangu Athletic Club de 21 de março de 1911.
[10] SILVA, G. A. A. Bangu: a fábrica e o bairro. Um Estudo Histórico (1889-1930). Dissertação (Mestrado em História Social) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1985.
[11] Gazeta de Notícias, 28 de junho de 1920.

Sábados e domingos no Rio são dias de… aeromodelismo!

28/08/2017

Por Valeria Guimarães

Salve, salve!

Lembrei-me esses dias de um sujeito que conheci, anos atrás, praticante do aeromodelismo. Aos domingos, quando retornava do seu aeroclube, desmontava as peças, limpava-as e cuidava do seu equipamento fitando-o demoradamente. Deixava-o tomando ar na varanda e depois o guardava meticulosamente para o próximo final de semana. Parecia um menino admirando encantado o seu brinquedo favorito. Na verdade, ele era um esportista nato.

Neste post falarei do aeromodolismo no Rio de Janeiro, aquela prática de projetar e pilotar aviões em miniatura, que alcançou relativa popularidade no Brasil, e que para muitos é um esporte levado bastante a sério, sendo reconhecido como desporto aéreo pela Federação Aeronáutica Internacional.

O aeromodelismo possui várias modalidades, como o Voo Circular Controlado ( VCC), também chamado de U-control, onde o piloto está ligado ao avião por cabos que fazem a aeronave subir ou descer;  Rádio Controlado, a mais praticada no Brasil, e Voo livre.

O ruído característico dos aviõezinhos no ar aos finais de semana no Campo dos Afonsos, na zona oeste do Rio de Janeiro, já faz parte da paisagem do bairro há longas décadas e atrai aficionados pela arte do aeromodelismo de todas as partes do Rio de Janeiro. Num dos berços da aviação brasileira, além do Museu Aeroespacial, que possui um acervo inestimável, reunindo exemplares raros desde os tempos de Santos Dumont à aviação civil comercial, e dos tradicionais shows da Esquadrilha da Fumaça durante a Semana da Asa, encontra-se também a sede da Associação Carioca de Aeromodelismo, ACA, fundada em 1949, herdeira do antigo Departamento de Aeromodelismo do Aeródromo de Manguinhos.

O Aeródromo de Manguinhos, por sua vez, praticamente esquecido pela história, foi outro palco importante para a aviação e para a prática do aeromodelismo no Rio de Janeiro. Fundado em 1936, o aeródromo localizava-se às margens da Avenida Brasil, onde atualmente encontra-se a comunidade da Vila do João. O local foi utilizado para o aperfeiçoamento de instrutores e a formação de pilotos para recreio e desporto, tendo  sediado acontecimentos importantes relacionados ao desporto aéreo, como o primeiro Campeonato Brasileiro de Acrobacia (cuja data ainda não foi possível apurar), além dos shows acrobáticos da Semana da Asa (PIRES, 2009). O aeródromo foi desativado em 1961. Como dito antes, um departamento de aeromodelismo foi criado naquele aeródromo e há raros registros fotográficos em blogues na internet de jovens no local praticando o desporto, que era também um momento de lazer para as crianças, como se vê nas fotos de família enviadas ao blog Saudades do Rio (http://saudadesdoriodoluizd.blogspot.com.br/2017/02/aeromodelismo-em-manguinhos.html).

Em 1963 foram inauguradas pelo governador Carlos Lacerda no Parque do Flamengo duas pistas para a prática do aeromodelismo na modalidade Voo Circular Controlado. As pistas até hoje são utilizadas pelos membros da Associação de Aeromodelismo do Aterro.

Na Ilha do Fundão, onde se localiza o campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro, funciona o clube de aeromodelismo AMA UFRJ, que inclui o drone entre as suas modalidades. Neste vídeo é possível ver a estrutura do clube e conhecer um pouco da prática do aermodelismo:

A cultura do aeromodelismo, que ao que parece se consolida no Rio de Janeiro por volta da década de 1940, deu origem a diversos clubes, pistas e lojas de materiais especializados, fomentando um mercado em expansão, ainda mais agora, considerando a chegada do drone. Novos clubes e encontros de apaixonados pelo esporte se manifestam não só na capital como na região metropolitana, como os que acontecem aos finais de semana em Icaraí (Niterói), na Vila Olímpica de Mesquita e no Parque Natural de Gericinó, em Nilópolis, os dois últimos na Baixada Fluminense.

O aeromodelismo mobiliza seus praticantes e familiares mas também os que aproveitam o lazer de final de semana ao ar livre, contemplando aquelas pequenas aeronaves colorindo os céus nos clubes e pistas cariocas e a perícia de seus pilotos.

Até o próximo post!

 

Referências

AMA UFRJ. Disponível em: https://www.amaufrj.com.br/heli

PARQUE DO FLAMENGO. Pistas de Aeromodelismo. Disponível em: http://www.parquedoflamengo.com.br/equipamentos/pistas-de-aeromodelismo-2/

FAY, Claudia Musa e FONTES, Rejane de Souza. O papel do Aeroclube do Brasil na construção de uma política nacional de aviação brasileira (1911-1972). In: História (São Paulo). vol. 36. 5 ed., 2017. Disponível em: http;//www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742017000100505.

SAUDADES DO RIO, 08 de fevereiro de 2017. Aeromodelismo em Manguinhos. Disponível em: http://saudadesdoriodoluizd.blogspot.com.br/2017/02/aeromodelismo-em-manguinhos.html


The Matildas enfiaram 6 na Seleção: notas sobre o futebol de mulheres na Austrália

20/08/2017

(para Paula Botelho-Gomes e Claudia Kessler)

Por Jorge Knijnik

 

Há poucas semanas, O Brasil tomou outro vareio internacional. Desta vez, nossos algozes foram as Matildas, a equipe Feminina Australiana de futebol, que enfiaram 6 x 1 na Seleção feminina brasileira no “Tournament of Nations” realizado no inicio de agosto nos Estados Unidos. Além de massacrarem o Brasil, as Matildas paparam o torneio de forma invicta, vencendo pela primeira vez na historia as anfitriãs (1×0) e convencendo contra o time do Japão (4×2).  Até onde eu sei este ‘vexame’ futebolístico passou quase despercebido na mídia brasileira, que nao tomou muito conhecimento desta goleada.

Na Austrália,  o grande feito das Matildas infelizmente, tambem não teve a repercussão que merecia. Se no Brasil os ‘6×1’ não chegou às manchetes nem virou sinônimo de todo e qualquer descalabro publico e social da nação (ah! Os eternos ‘7×1’ a mastigar pela eternidade nosso complexo de vira-latas!), na Austrália, as vitorias espetaculares e a conquista inédita das Matildas obtiveram alguma reação positiva da grande mídia e das mídias sociais – muito aquém, porem, do seu significado esportivo e histórico.

Comentaristas ‘sociais’ de todos os naipes, afoitos, encontraram a desculpa da vez para a ausência do espaço devido ao futebol feminino: o sucesso internacional das Matildas teria sido rapidamente abafado na cobertura jornalística pelos graves problemas que afetam a administração do futebol australiano,   e com a recente visita da delegação da FIFA  para tentar minimizar a crise da Federação local – visita esta que aparentemente não foi bem sucedida.

O fato permanece: tivessem os Socceroos enfiado seis no Brasil e vencido um torneio com as principais seleções do mundo, todos sabemos o que teria acontecido: estatuas teriam sido erguidas, rádios, jornais, TVs, internet, tudo teria girado em torno deles por meses. Eles estariam bombando!

 

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No futebol de mulheres, entretanto, a historia é outra. Alias, tem sido outra há muito tempo. Seja aqui ou no Brasil, elas tem que resistir e lutar para construir a própria historia nos gramados. Deste modo, com muitos paralelos com a historia das mulheres no futebol brasileiro, as australianas vem forjando nos campos de futebol mais um espaço importante para a luta pela equidade de gênero – seja em nível politico, educacional, social ou recreativo.

O contexto histórico mundial é bem conhecido. Mesmo sendo uma atividade predominantemente masculina, o futebol foi praticado pelas mulheres europeias desde o século XVIII, tanto de forma recreativa como competitiva. No inicio do século XX o movimento futebolístico das mulheres na Inglaterra chegou ao ápice, com jogos atraindo mais de 50.000 espectadores. Entretanto, com a constante oposição dos ‘donos da bola’, que escondiam seus preconceitos através de alegações pseudocientíficas de natureza biológica e medica para restringirem legalmente a participação esportiva das mulheres, as dificuldades foram aumentando e a presença delas nos campos diminuindo – ou será que elas continuaram jogando, mesmo contra tudo e principalmente todos?

Na Austrália, a presença das mulheres nos campos de futebol começou a ser noticiada na mídia ao final do século XIX. Uma pequena nota no West Australian em 1895 afirmava que ‘um jogo entre moças  aconteceu recentemente em Melbourne, atraindo mais de 12.000 pessoas’. Referencias a jogos femininos de futebol aparecem em diversas fontes desde os anos 1880, e se intensificam a partir de 1910. Nestas fontes há algumas confusões quando se menciona ‘futebol’, sem se saber ao certo se a noticia fala sobre rugby, Australian Rules ou futebol propriamente dito.

No período entre guerras, o futebol entre mulheres começou a florescer e ganhar reconhecimento: novos times surgiram em Melbourne e Brisbane (La Trobe Ladies Football Club, North Brisbane, South Brisbane) atraindo plateias na casa dos 10.000 torcedores para seus jogos. Entidades estaduais, como a New South Wales ladie’s soccer football association e a Queensland Ladies’ soccer football Association foram criadas em 1821 para organizar o jogo das mulheres. Clubes com nomes sui generis, como Arnotts, Zig-Zags and State Mine faziam jogos disputadíssimos, atraindo milhares de pagantes aos estádios para desfrutar desta nova forma de lazer, e para torcer pelas suas equipes e atletas favoritas. Os jornais da época noticiavam que as mulheres ‘jogavam com a mesma energia e vigor dos homens, e muito frequentemente brigavam tal como eles’.

 

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De fato, desde aquela época a mídia já gostava de narrar confusões e brigas. Assim, qualquer probleminha virava manchete. Casos de torcedoras que discutiram com goleiros adversários, ou mesmo de um arbitro que foi ‘enfiado na lama pelos dois times de mulheres depois do jogo’ em Lightow em 1931, ganhavam proeminência nos jornais locais.

A realidade patriarcal, entretanto, sempre se mostrou muito dura para as mulheres futebolistas. Os mesmos argumentos usados no Brasil e no mundo contra a pratica de esportes de contato pelas mulheres eram também brandidos pelas bandas Australianas. Questoes medicas, fisiológicas, estéticas, tudo era levantado para impedir que as mulheres se emancipassem nesta área tão importante para a vida social australiana. Na maior parte dos tempos, a participação feminina era restrita a ajudar nas cantinas ou a papel de voluntarias para ajudar na administração geral dos clubes, levantar fundos, cuidar dos campos e uniformes, entre funções deste tipo.

Depois da segunda Guerra Mundial, o futebol de mulheres se revitalizou na Austrália. Em New South Wales, o numero de garotas e mulheres jogando, tanto formal quanto informalmente, não parou de crescer. Ao final dos anos 1970, havia 4.500 jogadoras adultas registradas na Australia, e 14.500 garotas menores de 18 anos jogando oficialmente o jogo de futebol – destas, 9.000 jogavam em New South Wales.

Nesta época, o futebol se expandia por todo o pais. Competições estaduais foram estabelecidas nos estados de Victoria e New South Wales. Times internacionais visitavam a Austrália para jogar amistosos contra times locais, muitas vezes aproveitando que as seleções masculinas vinham jogar por aqui. O numero de torcedoras também não parava de crescer, sendo que em Victoria, um estado fanático pelo Australian Rules, a quantidade de mulheres que assistia o futebol era minimamente inferior daquelas que frequentavam os estádios do maior esporte daquele estado, o Australian Rules Football.

Um nome importante no inicio dos anos 1960 foi Pat O’Connor, que fundou a Metropolitan Ladies’ Soccer Association em New South Wales, com uma liga que chegou a ter 12 times em sua competição principal.

Como secretaria-geral da Australian Women’s Soccer Association, O’Connor ajudou a organizar a primeira Copa Australiana de Futebol de Mulheres que se realizou em Sydney, em 1974; além de dirigente, ela também era jogadora e aos 35 anos foi uma das melhores atletas da competição. O’Connor também assumiu o posto de vice-presidente da Asian Ladies Football Confederation naquele mesmo ano, e mais tarde foi induzida no Hall of Fame do futebol australiano.

O futebol das mulheres continuou crescendo na Austrália; entretanto, mesmo conseguindo algum patrocínio de entidades nacionais, a maior parte dos custos sempre caia nos ombros das jogadoras, que tinham que se virar vendendo rifas e fazendo diversas atividades para angariar fundos e poder disputar competições estaduais e nacionais em um pais do porte da Austrália.

Somente em 1996 uma liga nacional de futebol de mulheres foi constituída, com seis equipes representando a maioria dos estados ou territórios australianos. A liga não durou muito, mas constituiu um embrião para o surgimento, anos depois, da W-League, que atualmente se configura como a liga semiprofissional de futebol de mulheres na Austrália.

Em nível internacional, o primeiro jogo de uma seleção australiana de mulheres aconteceu em  outubro de 1979 contra a Nova Zelandia, em um estádio chamado Sheymour Park, pertinho aqui de casa, no bairro de Miranda, no sudoeste de Sydney. Em 1994 o time Australiano de mulheres se classificou para o Mundial de mulheres a ser jogado na Suécia em 1995. Assim, em fevereiro de 1995 um grupo de jogadoras disputando vaga naquela seleção fez uma partida preliminar a um jogo amistoso dos Socceroos (a seleção masculina) contra a Colômbia no Sydney Football Stadium. No programa oficial, o time das mulheres foi chamado de ‘Socceroos feminino’. Assim que o jogo acabou, o SBS (um dos maiores canais televisivos públicos australianos) lançou uma competição entre seus espectadores para eleger o apelido do time das mulheres. Em maio de 1995, o nome ‘Matildas’ foi anunciado o vencedor. Apesar das resistências iniciais, o apelido pegou e desde o mundial de 1995 as Matildas vem competindo regularmente em nível internacional.

Waltzing Matilda é uma canção popular do folclore australiano. Muitos a consideram como o ‘segundo hino nacional’ da Australia e a cantam fervorosamente no dia nacional após alguns drinques. A canção fala sobre uma personagem mitológica australiana, o ‘swagman’ que anda pelo pais a procura de trabalho, com seu chapéu de palha e sua trouxa de pano onde carrega suas poucas roupas e pertences – a trouxa foi carinhosamente apelidada de ‘Matilda’. Waltzing Matilda significa, então, viajar pelo pais tal como um swagman, com sua trouxa no ombro, procurando trabalho.

Muitas Matildas (jogadoras do time de mulheres) ainda estão assim, vendendo seu trabalho pela Australia ou pelo mundo: quando acaba a curta temporada da W-League no verão australiano (quando chegam a jogar ao meio-dia sob temperaturas de 40 graus ou mais, com contratos temporários nos quais na maior parte das vezes recebem apenas o necessario para a sua subsistencia), elas viajam aos Estados Unidos ou a Europa, para pegarem as temporadas de lá; ou seguem aqui, agora jogando em times da 2ª divisão. De uma forma ou de outra, as Matildas são guerreiras: há alguns anos já peitaram a federação Australiana, entrando em greve para exigir pagamento igual ao dos Socceroos, e a federação foi obrigada a cancelar a participação do time em um torneio internacional as vésperas da competição.

Como se viu nos seus resultados mais recentes,  elas também são guerreiras nos campos. Melhorando cada vez mais como futebolistas e como time, com uma consciência social que vem crescendo, as Matildas tem tudo para brilhar nas próximas competições internacionais. No mês que vem, a Seleção Brasileira vem disputar uma serie de amistosos contra as Matildas na Australia. Eu já estou me perguntando com que roupa que eu vou.

 

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