A crise do “país do futebol”: uma pequena reflexão

10/07/2018

Eduardo de Souza Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

No post de hoje, aproveitando o momento Copa do Mundo e a recente eliminação da seleção brasileira, peço licença para escrever uma pequena reflexão acerca de alguns discursos e narrativas consolidadas sobre os caminhos atuais e históricos de nosso futebol. É, de fato, mais uma reflexão, baseada em análise de discursos e olhares pessoais, do que um texto acadêmico em si.

Bom, chegamos nas semifinais da Copa do Mundo 2018 na Rússia e, curiosamente, sem nenhum representante sul-americano ainda “vivo” como postulante ao título. Desde 2006 não tínhamos uma semifinal sem a presença de pelo menos um país sul-americano, ano em que Itália e França venceram, respectivamente, Alemanha e Portugal, tendo ambas as seleções depois disputado a final que valeu o título para os italianos e ficou marcada pela cabeçada de Zinedine Zidane no zagueiro Marco Materazzi.

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Zidane é expulso na final da Copa de 2006 após uma cabeçada em Materazzi. Fonte: http://www.espn.com.br/noticia/612206_10-anos-depois-materazzi-revela-o-que-disse-a-zidane-antes-da-cabecada-na-final-da-copa

Antes de 2006, apenas em 1934, 1966 e 1982 (mesmo com o esquadrão brasileiro de Zico e companhia), não tivemos uma seleção sul-americana entre as quatro melhores do torneio mundial. Nas finais, os sul-americanos estiveram presentes em 12 das 21 edições da Copa do Mundo (já contando 2018), tendo sido campeões em nove dessas oportunidades.

Considerando o número de países filiados à sua entidade principal, a Conmebol, é possível inferir que a participação dos países sul-americanos nas Copas do Mundo é, historicamente, muito notável. São apenas dez nações que disputam as eliminatórias para poderem jogar a fase final da Copa do Mundo, o menor número de participantes dentre todas as federações continentais. As eliminatórias na Europa, América Central/Norte, África, Ásia e até mesmo na Oceania, possuem mais países disputando vagas na fase final da Copa do Mundo do que a América do Sul.

É claro que não podemos deixar de destacar a preponderância de três seleções, de forma mais específica, para esse sucesso sul-americano em Copas: Argentina, Brasil e Uruguai. O pentacampeonato dos brasileiros e o bicampeonato de argentinos e uruguaios, elevaram o futebol sul-americano para um outro nível no cenário internacional, batendo de frente com os europeus pela hegemonia nessa modalidade esportiva. Fora essas três seleções, apenas o Chile ficou uma vez entre os quatro primeiros em uma Copa do Mundo, quando foi terceiro colocado jogando em casa em 1962. Colômbia e Paraguai já formaram fortes equipes, mas nunca passaram das quartas de final. O Peru chegou, também com uma grande equipe, ao quadrangular semifinal da Copa de 1978, onde o vencedor garantiria uma vaga na decisão. Mas acabou eliminado como lanterna da chave enfrentando a Polônia e os vizinhos Brasil e Argentina, tendo essa Copa sido marcada pelo famoso e duvidoso jogo do “6×0”, onde os argentinos venceram os peruanos e garantiram, assim, a vaga na final e o consequente título mundial sobre a Holanda.

De toda forma, mesmo com poucas seleções tendo alcançado historicamente o “estrelato”, o futebol sul-americano sempre ficou marcado por discursos e narrativas que o diferenciavam do futebol europeu. A construção social miscigenada do continente (e de forma mais específica em alguns países, como o Brasil), fruto do processo colonizador de dominação europeia e da escravidão por aqui imposta, fez com que diferentes intelectuais, cronistas e veículos de comunicação, tratassem o futebol sul-americano como distinto do “frio” e “tático” futebol europeu, devido suas possibilidades de “improviso”, “ginga” e “malevolência”. Não foram raras as vezes que, ainda nessa Copa de 2018, se fez possível ouvir diferentes comentaristas falando das possibilidades de improviso e da ginga sul-americana em contraste aos europeus.

Mas será essa narrativa real ou apenas uma construção? De onde vem esse olhar? Qual a relação que possui com nossa identidade? E o que isso influenciou (ou não) na eliminação atual do Brasil em 2018? Para entendermos melhor todo esse debate acerca dos discursos sobre o futebol sul-americano e, mais especificamente o brasileiro, temos que retornar à Copa de 1938, ocorrida na França.

Nesse mundial, o cientista social Gilberto Freyre escreveu um artigo, intitulado “Foot-ball Mulato”, onde explicitou um pouco do olhar que buscava consolidar sobre o futebol brasileiro. Nas palavras do autor (1938), em relação a boa participação brasileira na Copa de 1938:

[…] uma das condições dos nossos triunfos, este ano, me parecia a coragem, que afinal tivemos completa, de mandar a Europa um team fortemente afro-brasileiro. Brancos, alguns, é certo; mas grande número, pretalhões bem brasileiros e mulatos ainda mais brasileiros. […] O novo estilo de jogar foot-ball me parece contrastar com o dos europeus por um conjunto de qualidades de surpresa, de manha, de astúcia, de ligeireza e ao mesmo tempo de espontaneidade individual em que se exprime o mesmo mulatismo de que Nilo Peçanha foi até hoje a melhor afirmação na arte política. […] Acaba de se definir de maneira inconfundível um estilo brasileiro de foot-ball; e esse estilo é mais uma expressão do nosso mulatismo ágil em assimilar, dominar, amolecer em dança, em curvas ou em músicas técnicas europeias ou norte-americanas mais angulosas para o nosso gosto. […] O mulato brasileiro deseuropeisou o foot-ball dando-lhe curvas. […] O estilo mulato, afro-brasileiro, de foot-ball é uma forma de dança dionisíaca.

É notório nas palavras de Freyre o seu olhar teórico, posteriormente muito debatido e criticado, que se refere a existência de uma “democracia racial” no Brasil. Sem ser nosso objetivo, neste post, analisar as críticas e debates lançados acerca das obras do autor, é, todavia, inegável a importância de suas referências na consolidação de um imaginário acerca da sociedade brasileira, seja entendido como positivo ou não. O encontro das três “raças” (brancos, negros e índios) marcaria a miscigenação do povo brasileiro, contrastando com outros povos, como os europeus. E, como exemplificação da teoria, o futebol se evidenciou como uma das manifestações culturais utilizadas por Gilberto Freyre para explicitar seus pensamentos (tal como o samba, a capoeira, entre outros).

Anos depois, Mario Filho, que hoje dá nome ao Estádio do Maracanã, publicou o livro “O negro no futebol brasileiro”, onde dialogou com esses referenciais teóricos de Freyre. Inclusive, na primeira edição da obra em 1947, o prefácio foi escrito pelo próprio Freyre. A tese de Mario Filho/Gilberto Freyre passava por essa ideia de que o encontro de raças e a presença do negro teriam sido fatores positivos para o futebol brasileiro, pois faria com que se diferenciasse do “frio” e “tático” futebol europeu.

Essa narrativa ganhou sua exacerbação a partir da conquista dos mundiais de 1958, 1962 e 1970, tendo tido como destaques jogadores negros e/ou mulatos, como Pelé, Garrincha, Didi, entre outros. Após o fracasso de 1950 e a culpabilidade pela derrota construída posteriormente e dada a atletas como Barbosa, Bigode e Juvenal, a conquista do tricampeonato em doze anos fez com que a narrativa freyriana, difundida na mídia por Mario Filho e espetacularizada por diferentes cronistas, como seu irmão Nelson Rodrigues, ganhasse força e consolidasse a ideia do Brasil enquanto país do futebol.

Após a Copa de 1970, iniciou-se os primeiros momentos de “crise”, acerca do “tipo brasileiro” de jogar futebol. Com um futebol mais tático e burocrático, o Brasil não venceu os mundiais de 1974 e 1978, mesmo não fazendo campanhas ruins. Porém, o 4º lugar de 1974 e o 3º em 1978 (sem perder um jogo!), não se tornaram mais marcantes que o 5º lugar de 1982. Tudo pelo retorno do “verdadeiro futebol brasileiro”, como destacou a imprensa da época, narrativa consolidada e difundida até os dias atuais. Não podemos negar o quanto a prática ajudou a referendar esse discurso. Com um selecionado recheado de craques e, mesmo com as pressões por “tirar os pontas” do esquema tático da seleção, Telê Santana conseguiu estabelecer um padrão de jogo mais técnico à equipe, semelhante ao que se via de 1970 para trás. O resultado negativo naquela Copa foi um choque, tanto para aqueles que acompanhavam o futebol brasileiro, quanto para a própria identidade da seleção que buscava “jogar novamente o futebol arte”. Seja ou não esse um discurso, tratava-se de algo presente nos debates acerca do selecionado nacional brasileiro, notadamente na grande mídia e no senso comum.

Essa busca pelo futebol arte foi se tornando constante mas, em muitas ocasiões, também distante, devido o processo de mercantilização do futebol que se consolidou com força total a partir da década de 1980. Como falar de uma identidade de jogo brasileiro, se nossos principais jogadores já não atuam mais no país? Foi nesse cenário de transição que o Brasil, ainda com Telê, tropeçou em 1986 e, já sem ele, decepcionou em 1990, com uma seleção armada por Sebastião Lazaroni com três zagueiros e que “desconstruiu o modo brasileiro de jogar futebol”, tal como se falava na imprensa. A questão é: temos de fato uma forma de jogar futebol? É possível manter um modelo “raiz” de se jogar, enquanto outras escolas vão avançando taticamente e tecnicamente? São questões para pensar. O fato é que, em 1994, com um time mais “burocrático” e comandado por um inspirado Romário (que desde 1988 já atuava no “Velho Mundo”), o selecionado voltou a conquistar uma Copa depois de 24 anos, mas não convenceu aqueles que buscavam reencontrar o “futebol arte”.

Todavia, a tentativa por essa busca não se encerrou. Retornou com Ronaldo fenômeno, naquele período ainda denominado Ronaldinho, mas esbarrou na sua estranha convulsão na Copa de 1998. Voltou em 2002, cheio de dúvidas e percalços, e encheu de esperança aqueles que clamavam pela volta do “verdadeiro” futebol brasileiro, a partir da conquista do penta comandado pelos três “Rs” (Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo).

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Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e Rivaldo comandaram o Brasil no pentacampeonato em 2002. Fonte: http://www.espn.com.br/noticia/516264_rivaldo-monta-seu-11-ideal-da-champions-com-cinco-brasileiros-messi-e-zidane

2006 seria o ápice. A efetivação do retorno desse “verdadeiro” futebol brasileiro, como afirmavam na mídia. E o cenário prévio destacava isso. Além de ser a então campeã mundial, a seleção brasileira havia conquistado uma Copa América (2004) e uma Copa das Confederações (2005), ambas vencendo a rival Argentina na final. Além disso, consolidou a liderança nas eliminatórias sul-americanas para a Copa de 2006, carimbando o passaporte para o torneio que ocorreu na Alemanha e esbanjando qualidade em campo com o então melhor do mundo Ronaldinho Gaúcho e seus coadjuvantes que, na verdade, dividiam o protagonismo: Ronaldo Fenômeno, Kaká, Adriano “Imperador” e Robinho “pedalada”. Fora a defesa sólida, formada por Cafu, Lúcio, Juan e Roberto Carlos. Um goleiro campeão europeu (Dida) e volantes que marcavam e, também, jogavam (Emerson, Gilberto Silva e, principalmente, Zé Roberto e Juninho Pernambucano). Um timaço que deixou craques, como o meia Alex, de fora do grupo final da Copa. E que, tal como em 1982, caiu antes do esperado, nas quartas de final para a França (novamente ela…) de Zinedine Zidane e Thierry Henry.

A derrota de 2006 marcou, definitivamente, uma transição no contexto atual do futebol brasileiro: a derrocada da seleção em detrimento da preparação e planejamento das grandes equipes europeias. Equipes essas que apostaram em longos trabalhos para colherem frutos. Casos como os de Joaquim Low, desde 2006 na Alemanha; de Didier Deschamps, desde 2012 treinando a França; ou de Vicente del Bosque, que comandou a Espanha de 2008 a 2016.

O planejamento passou a ser o caminho para mesclar, no mundo globalizado do futebol, a tática com a técnica. E o Brasil, nesse processo, ficou para trás. Ficou com Dunga em 2010 e com Felipão em casa no ano de 2014, com o inesperado jogo do 7×1. Curiosamente, desde então, a Copa em que o Brasil chegou mais longe foi exatamente em 2014, quando em casa alcançou as semifinais e saiu derrotada de forma vergonhosa para a Alemanha. Em 2006 e 2010, a equipe não ultrapassou as quartas de final (fato repetido agora em 2018).

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Derrota por 7×1 para a Alemanha foi a maior da história da seleção brasileira em Copas Fonte: https://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2018/06/28/7×1-fez-com-que-colocassemos-a-alemanha-num-pedestal-que-ela-jamais-mereceu/

Mais do que derrotas, não se enxergava mais um caminho de melhoras para a equipe nacional, que cada vez mais perdia força com seus aficionados. Questões mais centrais e problemáticas saltaram aos olhos do povo brasileiro, que viu no futebol, no máximo, uma forma de protestar contra algumas das injustiças sociais que passa diariamente. E quando olhavam para os dirigentes da CBF e de determinados clubes de nosso futebol, envolvidos em diferentes escândalos, o desinteresse aumentava.

Após um 7×1 e duas eliminações seguidas na Copa América, perdendo para Paraguai e Peru, a aposta no nome de Tite pareceu ser aquela que poderia “salvar” a seleção e nos reservar, pelo menos, dias melhores, recuperando o prestígio da equipe canarinho. E, até a Copa, talvez seja notório falar que o resultado foi muito além do esperado, culminando com a liderança isolada nas eliminatórias sul-americanas e a classificação antecipada para a fase final da Copa, após pegar um grupo desacreditado que estava em sexto lugar na disputa.

Seria assim o Tite, de fato, o salvador da pátria? A derrota para a Bélgica na última semana demonstrou, para muitos, que não, passando esses a exigir a saída do técnico do comando da seleção. Para muitos outros, o trabalho demonstrou avanços, sendo o mantimento fundamental para a continuidade do que vem sendo feito, visando saltos maiores no futuro.

De fato, os feitos nas eliminatórias e o resgate, pelo menos no campo simbólico, do valor do selecionado nacional na “Era Tite”, foi inegável. Mas não foi o suficiente para ganhar a Copa. Pelo menos não ainda. Esqueceram de avisar ao Tite que, assim como os estaduais não são parâmetros para a disputa do Brasileirão, as eliminatórias não garantem o sucesso na fase final da Copa. O treinador brasileiro demonstrou que, mesmo buscando se “profissionalizar aos moldes do tático futebol europeu”, não foi capaz de derrotá-los taticamente. Muito pela própria teimosia em não ousar.

O ditado “em time que está ganhando não se mexe” nunca se demonstrou tão equivocado, como no jogo do Brasil contra a Bélgica. Tite, que ganhou tudo no âmbito dos clubes no Brasil, esqueceu que a Copa do Mundo era um torneio curto, diferente de um Brasileirão de 38 rodadas. E que cada adversário deveria ser estudado cautelosamente. Fora algumas convocações extremamente contestáveis, insistir em manter atletas como Gabriel Jesus e Paulinho em campo, após sucessivas atuações irregulares na competição, não só foi um tiro no pé como uma forma de queimar a imagem dos próprios atletas. Com Firmino no banco, Gabriel Jesus poderia ter sido preservado aos 21 anos e não ficar taxado pela imprensa como o “centroavante que não fez gol na Copa”. E Paulinho talvez não precisasse retornar para o futebol chinês (por mais que venha a receber, agora, até mais do que ganhava para ser reserva no Barcelona).

E o que dizer do Neymar? Jogador de talento indiscutível, mas que de longe ainda não é o melhor do mundo, como almeja ser. Nem dentro, nem fora de campo. O lado psicólogo do Tite, quase no estilo “autoajuda” também falhou, pois se uma de suas tarefas mais elogiadas na mídia era a de “recuperar” a vontade dos atletas de jogarem pela seleção nacional após sucessivos fracassos, se esqueceu de moldar, para o melhor atleta tecnicamente falando, um caminho em que esse não tomasse atitudes que fossem reprovadas e buscasse, com trabalho, fazer a diferença que todos sabem que possui a capacidade de fazer. Mas não o fez. Muito pelos mimos e acolhimentos que não condizem mais com as responsabilidades de um atleta global aos 26 anos. Se frases como “o menino Ney” ou “é muito difícil ser o Neymar” fossem substituídas por trabalho sério (tal como Cristiano Ronaldo faz em campo a cada dia que recebe uma crítica), talvez o resultado e a construção de imagem, pelo menos no aspecto individual desse atleta, poderiam ter sido diferentes, o fazendo superar a “síndrome de Peter Pan” e, finalmente, amadurecer enquanto jogador e pessoa. Torcemos que, pelo bem dele e do selecionado nacional, essa experiência da Copa de 2018 tenha servido, minimamente, para fazer uma reflexão.

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Cena comum na Copa de 2018: Neymar no chão reclamando de pancadas. Mesmo caçado, em alguns casos, atitude do atleta foi muito questionada. Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/07/06/deportes/1530911803_045897.html

Roberto Martínez, técnico da Bélgica que assumiu a seleção em período similar ao Tite no Brasil (em 2016), entendeu que em time que ganha, se precisar, se mexe sim. E foi com um nó tático que conseguiu derrotar o Brasil. Se fosse por resultados, teria tantos motivos como seu colega brasileiro para não mudar seu grupo titular. Afinal, vinha de ótima campanha nas eliminatórias e 100% de aproveitamento até então na Copa. Porém, entendeu que, contra o Brasil, teria que mudar o seu 3-4-3. Reforçou seu meio campo com a entrada de Fellaini, adiantando De Bruyne, um dos craques do time, para fazer um trio de ataque com Lukaku e Hazard. Lukaku que antes atuava centralizado, jogou pela direita e foi fundamental no combate e arrancadas contra a zaga brasileira.

Era um 3-4-3 que, defendendo, virava 7-3, com o retorno dos alas e volantes. E o Brasil de Tite, que não quis mudar, ou mudou muito tarde, não ultrapassou a barreira belga, mesmo nos momentos em que esteve melhor em campo. Um verdadeiro nó tático daquele que ousou mudar por estudar o adversário. E por ser menos teimoso.

Roberto Martínez deu continuidade ao trabalho de Marc Wilmots em 2016, marcando uma continuidade que moldava uma geração de talentos desde 2012. Joaquim Low está no comando da seleção alemã desde 2006. Deschamps desde 2012 na França. Oscar Tabárez treina o Uruguai desde 2006, conseguindo levar a celeste de volta a disputas importantes no futebol, alcançando uma semifinal de Copa em 2010, as quartas nesse ano e um título inesquecível da Copa América em 2011, depois de 16 anos. Até mesmo o trabalho de José Pékerman a frente da Colômbia, onde está desde 2012, deve ser valorizado, pois mesmo sem títulos, levou a equipe de volta aos mundiais depois de 16 anos, disputando duas copas seguidas (fato que não ocorria desde os anos 1990) e alcançando campanhas honrosas tanto em 2018 quanto em 2014 (que foi a melhor da história do selecionado colombiano).

Não sei se nos próximos dias será anunciado o mantimento ou a saída de Tite enquanto técnico da seleção. A continuidade parece ser o caminho mais provável. Pessoalmente, acredito que a seleção teve avanços e que, corrigir os erros, pode ser mais fácil do que recomeçar um trabalho do zero. Mas o primeiro ponto é assumir esses erros e reconhecer que está, ainda, muitos passos atrás de outros treinadores e equipes. E estar pronto para fazer mudanças e ousar. O fato é que, o ideal, independente de ser ou não o Tite aquele que irá comandar a seleção nacional daqui para frente, deve-se dar tempo para a realização do trabalho. E, também, compreendermos que, mais que o técnico, nosso problema maior está nos bastidores sujos da CBF, onde enquanto estivermos sendo controlados por “Teixeiras” e “Marins”, continuaremos em uma crise estrutural que vai muito além da simples escolha do treinador e/ou dos jogadores.

BIBLIOGRAFIA

FREYRE, Gilberto. Foot-ball mulato. In: Diário de Pernambuco, 18 de junho e 1938.

 

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Brasil X México na Copa do Mundo: o Início de um Encontro

02/07/2018

André Alexandre Guimarães Couto

Olá, leitor (a):

Dia feliz para todos(as) os(as) brasileiros(as). Hoje a tarde, a seleção brasileira de futebol venceu o México por 2 x 0 pelas oitavas de final da Copa do Mundo da Rússia. Com gols de Neymar e Roberto Firmino, o Brasil avança para as quartas de final e jogará contra a Bélgica.

Brasil tem um histórico de bons encontros (pelo menos, para nós) com o México e o primeiro deles foi em 1950, justamente na primeira Copa do Mundo sediada por nós.

Neste jogo, em 24 de junho, os brasileiros estreavam na competição e emplacaram 4 x 0 no México com gols de Ademir (2), Jair e Baltazar. O Maracanã, construído para a Copa de 1950 tornava-se o palco não apenas de um projeto modernizante e desenvolvimentista de país, mas um lócus de esperança para a conquista de um título importante no esporte.

A cobertura da Copa do Mundo nos Jornal dos Sports dividia espaços importantes nas páginas do jornal com uma gama de propagandas de equipamentos tecnológicos como vitrolas, máquinas de escrever, máquinas de calcular, de fotografar, bombas d´água, cronógrafos, relógios, bicicletas e rádios de última geração. Uma enxurrada de produtos ditos modernos para uma sociedade que passara a valorizar o consumo de itens simbólicos de um novo momento do país.

O periódico carioca Jornal dos Sports celebrava por meio dos textos dos seus cronistas e jornalistas e enaltecia o início da caminhada do selecionado brasileiro rumo ao título inédito. Todavia, como era de costume, não havia uma confiança excessiva entre os mesmos. Álvaro do Nascimento (conhecido como “Zé de São Januário”) escrevia que: “(…) por incrível que pareça, nunca temi os adversários que chegam do exterior. O meu receio consiste nos adversários cá de dentro. Os ‘quinta colunas’ que por aí andam a dar palpites, metidos a técnicos, verdadeiros espíritos de porco, que jamais se satisfazem com o que Deus lhe deu. Esses, sim, meus amigos!… Esses são capazes de tudo para que subsistam suas opiniões insensatas como as dos asnos. (…) (NASCIMENTO, Álvaro. Jornal dos Sports. 25/07/1950. p. 14). Nascimento aproveitava a crônica sobre o jogo para avisar que deveríamos ter cuidado com o próximo adversário, a Suíça, mas criticava os derrotistas de plantão por não confiar na seleção brasileira.

Antonio Olinto, que escrevia sobre teatro e cinema no mesmo jornal, usa desta cena (conceito proposto por Maingueneau) para ilustrar a bela atuação de Ademir: “(…) Jair sente que pode demonstrar as filigranas de sua técnica se sua técnica, os meandros de sua arte inimitável. Olha para cima, vê um monstro de cimento, repleto de cabeças, de olhos que contemplam suas avançadas, de bocas que exigem seu pé para uma penalidade. Então, respira fundo e sente-se como o ator que vai interpretar o ‘Hamlet” diante da mais culta das plateias. (…)” (OLINTO, Antonio. Jornal dos Sports. 25/07/1950. p.11)

Finalmente, outro grande cronista do jornal, José Lins do Rego apontava a cidade do Rio de Janeiro como a grande protagonista no início do torneio da FIFA: “A cidade mudou de cara com a ‘Copa do Mundo’. Por toda a parte se vê uma mudança de fisionomia. As bandeiras desfraldadas, e por toda parte a ansiedade pelo acontecimento. O Rio de Janeiro se entregou de corpo e alma aos visitantes que aqui chegaram, para ver de perto uma autêntica maravilha da natureza. O Rio não esconde um pedaço de mar, um recanto de floresta, uma nesga do céu. A cidade se preparou com suas melhores festas, aí está bonita como nunca”. (REGO, José Lins do. Jornal dos Sports. 25/07/1950. p.11).

Enfim, a estreia do Brasil era retratada pelo Jornal dos Sports como uma oportunidade de: 1) Manter o caleidoscópio discursivo e estilístico dos cronistas deste jornal; 2) Mobilizar a defesa da cidade do Rio de Janeiro como palco central do campo esportivo brasileiro; 3) Compreender que era necessário vencer o excesso de confiança sobre o desempenho da seleção brasileiro na mesma medida que a mesma deveria ser apoiada de forma inconteste, inclusive nos elogios aos jogadores que se destacavam a cada partida daquele torneio; 4) Ampliar o campo publicitário da empresa por meio da oferta de produtos e serviços. 5) Articular a cobertura esportiva impressa com outros veículos de comunicação como o rádio.

Bem, o resultado daquela campanha todos nós sabemos. Porém, ao olharmos para a Copa de 1950, precisamos descortinar o evento como um todo, em todos os seus meandros e possibilidades, para além de uma preocupação exclusiva com a final contra o Uruguai.

Curiosidade: Em 1950, assim como em 2018, o Brasil ganhou do México, empatou com a Suíça e ganhamos da Iugoslávia (Em 2018, foi o caso da Sérvia). Repetiremos 1950 chegando na final? A saber…

Curiosidade 2: Além do primeiro e último encontro com o México em Copas do Mundo, o Brasil jogou em 1954 (5 x 0), 1962 (2 x 0), 2014 (0 x 0). Ou seja, nunca perdeu e nem sequer levou um gol.

 

 

 


Qual o primeiro clube de montanhismo do Brasil?

25/06/2018

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Praticantes brasileiros de montanhismo, especialmente os do Rio de Janeiro, costumam se referir ao Centro Excursionista Brasileiro, fundado em 1919, como a primeira e mais antiga associação desse esporte não apenas no Brasil, se não em toda a América do Sul. A informação é repetida em vários blogs, sites, listas de e-mails, reportagens da imprensa e até em livros. Mas seria correta tal informação?

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Emblema do Centro Excursionista Brasileiro. Fonte: http://www.ceb.org.br/site/sobre/

De fato, o Centro Excursionista Brasileiro é a associação esportiva dedicada ao montanhismo ainda em atividade mais antiga do Brasil. Nenhuma outra associação dedicada a esse esporte criada antes manteve-se em funcionamento. É realmente notável a capacidade do CEB, como é geralmente chamado, ter-se mantido ativo por um período tão longo de tempo – que completa um século ano que vem (2019). Hurrahs ao CEB!

Todavia, antes dele, outras associações dedicadas ao montanhismo estiveram em atividade no país. A rigor, portanto, o CEB não foi o primeiro clube de montanhismo fundado no Brasil – o que pode soar um pouco frustrante a alguns de seus sócios.

Em outro post deste blog, eu já havia comentado como grupos carnavalescos, bandas de música, sociedades beneficentes ou clubes sociais organizavam regularmente passeios a pé pelas montanhas do Rio de Janeiro desde a década de 1870. Apesar de terem sido arranjadas por instituições diversas, alheias mesmo ao universo dos esportes, essas iniciativas têm a relevância histórica de terem inaugurado um modelo de organização de atividades de lazer na natureza que, grosso modo, seria adotado depois por vários clubes de montanhismo – inclusive pelo próprio CEB.

A partir dos primeiros anos do século 20, vários clubes esportivos promoviam atividades de “excursionismo”, que era a maneira usual como se referiam ao montanhismo naquela época. Não por acaso, como já anuncia obviamente o seu nome, o próprio CEB fora criado como um Centro dedicado ao “excursionismo”.

O “Atlético Club” e o “Centro de Cultura Física” estiveram entre as primeiras associações atléticas do Rio de Janeiro a organizarem excursões pedestres pelas montanhas da cidade nos primeiros anos do século 20. A regularidade dessas atividades, porém, era apenas eventual, já que o propósito principal desses clubes se endereçava a outras modalidades.

Apenas em meados da década de 1910, antes ainda da fundação do CEB, portanto, seriam criados os primeiros clubes totalmente voltados ao excursionismo.

O primeiro deles parece ter sido o “Centro dos Andarilhos do Brasil”, criado, ao que tudo indica, em meados de 1914. A partir dessa época, o Centro dos Andarilhos do Brasil começou a organizar regularmente uma série de atividades excursionistas. A primeira que temos notícias, mas que deve ter sido precedida por outras, é de uma travessia a pé entre o Silvestre e o Alto da Boa Vista. A excursão teria envolvido sete pessoas, numa jornada “agradável” e “feita em meio da mais franca alegria”, conforme noticiou o jornal O Paiz, “aguçada pela amena temperatura da floresta e pelo radiar de um morno e dourado sol de inverno”, concluiu.

O Centro dos Andarilhos do Brasil teria tido ainda uma sede na famosa Galeria Cruzeiro, na Avenida Rio Branco, de onde às vezes partiam algumas de suas excursões. Basicamente, suas atividades, cujos vestígios documentais desaparecem no primeiro semestre de 1916, geralmente envolviam excursões a pé até Santa Teresa, Alto da Boa Vista, “Serra da Tijuca”, Gávea, Leblon, Ipanema ou Jacarepaguá, às vezes com realização de churrasco e “chapas fotográficas”, e sempre buscando os “melhores pontos de vista”, com muita “alegria”, “familiaridade” e “bons espíritos”, conforme registraram notícias de jornais sobre tais atividades.

Galeria Cruzeiro - avenida Central

Galeria do Cruzeiro, na Av. Rio Branco, Rio de Janeiro, onde tinha sede o Centro dos Andarilhos do Brasil. Fonte: http://www.rioquepassou.com.br/2006/05/10/galeria-cruzeiro-interior-i/

No ano seguinte, em 1915, notícias sobre atividades organizadas por um tal “Centro Suíço de Excursões Pedestres”, cujo nome oficial, em alemão, era “Scheweizer Wandervogel Rio de Janeiro”, começariam a ser publicadas em diferentes jornais cariocas. Basicamente, as atividades desse centro de excursões consistiam em passeios a pé até o Pico do Andaraí, Alto da Boa Vista, Pico da Tijuca, Pedra Branca, Corcovado, Gávea ou Itacuruçá, praia da vizinha cidade de Mangaratiba, há mais de 90 quilômetros do centro do Rio de Janeiro (para onde provavelmente devem ter partido a pé desde a estação ferroviária de Santa Cruz).

A julgar pelo nome, o Centro Suíço de Excursões Pedestres era uma espécie de extensão do movimento jovem Wandervogel, criado na Alemanha na transição entre os séculos 19 e 20, cujo fundamento era buscar um ideal de vida simples, através de longas caminhadas e acampamentos na natureza.

wandervogel

Caminhada na natureza na Alemanha em princípios da década de 1920 (Arquivo der Deutschen Jugendbewegung). Fonte: John Alexander Williams. Turning to Nature in Germany: Hiking, Nudism, and Conservation, 1900-1940. Stanford University Press, 2007.

Antes ainda do CEB, houve também o “Raid Club”, o “Tourist Club” e o “Andarilhos Brasileiros” (que não está claro se tinha ligações com o Centro dos Andarilhos do Brasil). Em comum, todos parecem ter tido sempre vida curta, nunca excedendo dois ou três anos de existência, apesar do eventual dinamismo com que organizaram suas ações no período em que estiveram ativos.

De todo modo, com muito ou pouco dinamismo, não é apropriado confinar a memória de um esporte apenas às instituições que sobreviveram à prova do tempo. Os perdedores ou os malsucedidos, afinal, também desempenham papéis importantes na evolução de fenômenos históricos. Hurrahs, então, aos antecessores do CEB!


Deslizar, escorregar, equilibrar: o corpo e o lúdico nos esportes californianos

17/06/2018

Por Leonardo Brandão

Segundo o historiador Roy Porter (1992) a fotografia pode ser uma grande fonte (embora ainda permaneça “estranhamente subexplorada”) de compreensão do corpo. O registro fotográfico já documenta quase um século e meio dos aspectos físicos e, embora ela não seja um instantâneo da realidade, é um registro da linguagem corporal e do espaço social tão ou mais informativo que o texto impresso. Acreditamos, nesse sentido, que o arquivo fotográfico pode nos revelar e confirmar variados aspectos das transformações físicas na contemporaneidade, apresentando também dados sobre a linguagem corporal, os gestos e seus modos de utilização e investimento.

Observemos a fotografia a seguir:

Figura 1: Jovem praticando o “surfe na rua” na cidade do Rio de Janeiro em 1975. Fonte: Revista Pop, nº 38, 1975, p. 61.

Vemos nessa imagem – originalmente publicada nas páginas de uma revista chamada Pop, existente entre 1972 e 1979 – um jovem praticando skate numa rua levemente em declive. Pela descrição da matéria, sabemos que se trata de um espaço localizado no Rio de Janeiro e que essa imagem data de 1975. Não há dúvidas que se trata de uma fotografia sobre o equilíbrio. Pois o que esse jovem faz é um jogo de equilíbrio corporal. A ausência dos calçados e equipamentos de proteção revela o uso do skate como um “surfinho”, isto é, apenas como divertimento espontâneo e sem vínculos com campeonatos, juízes, tabelas etc. Além disso, o próprio movimento corporal realizado era muito próximo daqueles utilizados pelos surfistas nas ondas do mar.

Essa imagem (figura 1) é ilustrativa de uma característica central dessas atividades oriundas da Califórnia e que estavam se introduzindo no cotidiano das práticas juvenis no Brasil, pois tais atividades investiam mais numa flexibilidade física atenta aos gestos de equilíbrio do que no acúmulo de forças para o levantamento de algum peso, o que fazia do corpo menos um suporte do gesto do que sua expressão.

Ao reduzirem o esforço muscular em prol de outros elementos para praticá-lo, o skate – assim como o surfe ou outras atividades praticadas à maneira californiana – abria novas possibilidades de euforia, êxtase e vertigem. Não tanto a força dos músculos, mas sim a flexibilidade e a busca pelo equilíbrio estariam no cerne performático em questão. De acordo com as palavras da historiadora Denise Bernuzzi de Sant’Anna,

Os esportes californianos, por exemplo, que se expandem em várias partes do mundo a partir dos anos 70, tem por objetivo menos o cansaço salutar – característica dos antigos esportes comprometidos com os ideais higienistas de salvação de uma raça – do que a vivência de sensações de prazer, físicas e mentais, imediatas e inovadoras. O surfe, a asa delta, o windsurf, por exemplo, conduzem o olhar do esportista menos em direção à força realizada por seus músculos do que às flexibilidades motoras que ele é capaz de manter sob controle. De onde se explica, nessas atividades, o emprego de verbos que evocam o prolongamento de sensações de prazer e de controle do conjunto dos movimentos, tais como voar, escorregar, equilibrar (2000, p. 3).

Iniciar-se em tais atividades, portanto, significava dar menos evidência às questões corporais que envolviam força muscular e uma maior atenção ao equilíbrio corporal, controlado sob tênues movimentos de braços e pernas.  Esse investimento lúdico do corpo, para além de suas possibilidades de força, potência muscular e virilidade – aspectos tão bem explorados pelos esportes tradicionais –, favoreceu sua interpretação como um possível objeto de comunicação através de uma série inusitada de gestos e movimentos (os quais passariam a ser chamados, posteriormente, como “manobras” ou “truques”). A construção dessa nova relação com o corpo, ou desta nova corporalidade, também passou a expressar um desejo por aventuras e deslizamentos os mais variados, sendo o aprendizado de tais técnicas uma questão de conquistar, através do corpo – ou “in-corporar” – essas novas possibilidades de movimento, equilíbrio e frenesi estético.

Ao observar o que chama de “práticas emergentes contemporâneas”, o professor Deibar René Herrera (2009) também afirmou ser possível percebermos nessas atividades outras formas de construção do corpo já diferentes daquelas apontadas pelo filósofo Michel Foucault através de seus estudos sobre as instituições disciplinares, as quais evidenciavam a formação de corpos dóceis. Para Herrera, faz-se importante admitirmos que o mundo contemporâneo também vem configurando outros usos do corpo que já não estão de acordo somente com a sociedade disciplinar e nem necessitam da obediência de outros tempos. Usos do corpo, em sua visão, que se formaram a partir dessas novas práticas culturais juvenis e que se constituíram enquanto práticas de subjetivação.

Assim, algumas das análises de Foucault propõem-se a descrever e analisar um mundo no qual estamos deixando de conhecer, um presente que está se transformando em passado, cujas marcas ainda moldam muitas experiências, mas não todas. As atividades do surfe e do skate, entre outras, se constituíram num momento histórico onde os poderes disciplinares já eram menores e menos expressivos.

Para muitos jovens, os chamados “esportes californianos” representaram, nesses anos iniciais, uma espécie de liberdade e fonte de criação para novos movimentos corporais. Além disso, essas atividades também incentivaram outras formas de sociabilidade, que se fizeram como agregações tribais pautadas na diversão, na ludicidade e na vivência festiva do cotidiano.

 

Referências

BRANDÃO, Leonardo. Para além do esporte: uma história do skate no Brasil. Blumenau: Edifurb, 2014.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. Petrópolis: Vozes, 2009.

HERRERA, Deibar René Hurtado Herrera. “In-corporar en la sociedad moderna y en las prácticas emergentes contemporaneas” In Recorde: Revista de História do Esporte. Volume 2, número 2, dezembro de 2009, p. 1- 19.

PORTER, Roy. História do corpo. In: BURKE, Peter (org.). A Escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Editora UNESP, 1992, p. 291 – 326.

SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. Entre o corpo e a técnica: antigas e novas concepções. In Motrivivência, ano XI, n. 15, agosto de 2000, p. 1 – 6.


O surfe e a diplomacia cultural dos EUA

11/06/2018

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

The Endless Summer (no Brasil, Alegria de Verão), dirigido e produzido por Bruce Brown, é, provavelmente, o filme de surfe mais famoso já feito. A película narra a trajetória de surfistas dos EUA que viajam ao redor do mundo em busca de ondas desconhecidas e do verão sem fim do título. Segundo o historiador Scott Laderman (2014), “gravado em 1963, The Endless Summer percorreu o circuito tradicional dos filmes de surfe em centros culturais públicos e auditórios de escolas secundárias na Califórnia, Havaí, Austrália e África do Sul ao longo dos dois anos subsequentes” (p. 48). Laderman e outros pesquisadores da história do surfe afirmam que o documentário foi fundamental para disseminar a ideia de viajar como um valor positivo dentro da subcultura do surfe. O autor afirma ainda que o filme foi “um dos documentários de maior sucesso em todos os tempos” e que “seu impacto cultural foi profundo”, tendo sido decisivo para dar visibilidade ao surfe ao redor do mundo (p. 49).

Contudo, este texto não é uma resenha de Alegria de Verão ou do livro de Laderman (o que já fiz). Meu objetivo é apresentar a descrição e análise de Lazerman a respeito do seguinte: “(…) de formas que ainda não foram exploradas pelos pesquisadores, The Endless Summer também ilustra como, durante o auge da Guerra Fria, os Estados Unidos vieram a enxergar o surfe como uma arma ideológica em sua cruzada anticomunista, pois, em maio de 1967, anunciou-se que o documentário apareceria, sob patrocínio do Departamento de Estado, no bienal Festival de Cinema de Moscou” (p. 49).

De acordo com o autor, algumas características da trama motivaram a escolha. A elas se aliava a liberdade de viajar demonstrada pelos protagonistas – “diferentemente da maioria daqueles vivendo no bloco soviético” -, o que serviria para evidenciar a superioridade do capitalismo. Havia ainda as tentativas simpáticas de contato face-a-face com populações locais de diferentes continentes, “pintando um retrato dos Estados Unidos como uma potência benevolente e simpática” (p. 50). O filme acabaria sendo cortado do festival por iniciativa de uma entidade representativa dos estúdios de Hollywood (MPAA – Motion Picture Association of America). Após a organização decidir que um único documentário dos EUA seria exibido, a entidade escolheu o documentário indicado pelo estúdio Columbia Pictures, que o produzira, em detrimento do filme independente de Bruce Brown.

Mas “aqueles que estavam a cargo da diplomacia cultural americana deram outra chance ao surfe algum tempo depois. O ano era 1970, o local era o Japão, e o cenário era a primeira exposição universal realizada na Ásia: a Exposição Universal do Japão, ou Expo’70, em Osaka” (p. 51). Documentos oficiais do governo dos EUA consultados pelo autor atestam que a participação na exposição converteu-se em mais um campo de disputas com a União Soviética. A organização ficou a cargo da United States Information Agency (USIA). A exposição do Pavilhão dos EUA foi dividida em sete temas – um deles, “esportes”. “Foi lá, no interior da exibição de esportes, que, até onde tenho conhecimento, o surfe tornou-se, pela primeira vez, assunto oficial da diplomacia cultural dos EUA” (p. 52).

Segundo Laderman, “os organizadores deram ao surfe papel de destaque na exibição” de esportes (p. 53). Havia uma instalação com 13 pranchas produzidas por shapers dos EUA (Dewey Weber, Rick Stoner e Bob White), reprodução de imagens cinematográficas de surfe feitas por Bruce Brown e fotografias de surfistas no Havaí. Segundo Laderman, o surfe moderno fora introduzido no Japão após a Segunda Grande Guerra, a partir da presença de militares estadunidenses. Ressalto que isto não ocorreu apenas no arquipélago japonês. Tal foi o caso, por exemplo, da Andaluzia, na Espanha (Esparza, 2015).

Naquele momento (1970), o surfe já era bastante conhecido no Japão e tinha praticantes em diversas partes do litoral. Tamio Katori, um surfista japonês, visitou mais de uma vez a exposição e “escreveu para as autoridades dos EUA perguntando se ele poderia adquirir as pranchas para seu clube de surfe após o término da exposição” (p. 54). Segundo ele, as pranchas poderiam contribuir para a “amizade entre ambos os países”. Eis como termina o episódio: “Três das 13 pranchas haviam sido emprestadas por Bob White e tinham que ser devolvidas ao shaper de Virginia Beach, mas as outras dez tinham sido adquiridas pela USIA. Para os Estados Unidos, atender à solicitação de Katori seria uma maneira eficiente de descartar objetos volumosos e, ao mesmo tempo, contribuir para a globalização daquele que era, agora, o mais americano dos passatempos prazerosos, além de estimular a amizade transpacífica. Não havia o que pensar. As pranchas foram vendidas” (p. 55).

Laderman destaca dois aspectos neste episódio. Primeiro, as ligações cada vez mais comuns entre o surfe e o “poder norte-americano global” (p. 55), como ficaria evidenciado na circulação de surfistas estadunidenses ao redor do globo, na presença de surfistas militares (ou militares surfistas) em praias de dezenas de países (aproveitando a existência de bases militares, especialmente as numerosas unidades da Marinha no Oceano Pacífico), na circulação de produtos de mídia (surf music, cinema, revistas) e no estabelecimento do inglês como língua-padrão da modalidade. Segundo, a exposição de 70 “ilumina o quanto o surfe, tal qual o Havaí, haviam se tornado naturalizados como, de alguma forma, americanos” (p. 55).

Acrescento um terceiro: a questão da nacionalidade, da identidade nacional e das distintas apropriações (culturais e de outras naturezas) do surfe ao redor do mundo são um tema bastante atual. Em março último, foram divulgados os critérios para classificação dos 40 atletas que disputarão, pela primeira vez, medalhas olímpicas na modalidade. Este ano, os atletas que disputam a divisão principal do Circuito Mundial passaram a competir com bandeiras dos países desenhadas no ombro de seus uniformes (acentuando-se a construção, no âmbito da principal liga de surfe profissional, da associação entre competição individual e nacionalidade) – e pelo menos dois deles (Kanoa Igarashi e Tatiana Weston-Webb) trocaram de nacionalidade, de olho em maiores probabilidades de se qualificarem para competir em Tóquio. Ambos criados e residentes em território estadunidense (ele, na Califórnia; ela, no Havaí) e filhos de pais estrangeiros. Ele passou a competir pelo Japão; ela, pelo Brasil. Com isso, ambos evitam participar da dificílima briga por vaga entre americanos e havaianos.

Bibliografia

ESPARZA, Daniel. Hacia una historia del surf en Andalucía: génesis y consolidación del surf en Cádiz y Málaga. Materiales para la Historia del Deporte, n. 13, p. 47-62, 2015. Disponível em: <http://upo.es/revistas/index.php/materiales_historia_deporte/article/view/1327/1210>. Acesso em 10 jul. 2015.

FORTES, Rafael. Surfe, política e relações internacionais. [Resenha de Empire in Waves]. Topoi, v. 18, n. 35, p. 453-456, abr.-ago. 2017. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/topoi/v18n35/2237-101X-topoi-18-35-00453.pdf . Acesso em 10/6/2018.

LADERMAN, Scott. Empire In Waves: A Political History of Surfing. Berkeley: University of California Press, 2014.


A Sociedade Recreio Marítimo: primeira agremiação náutica do país

03/06/2018

por Victor Andrade de Melo

Em 1851, funda-se a Sociedade Recreio Marítimo, a primeira agremiação náutica do país. No final desse ano, Francisco Leão Cohn, filho de negociante francês, militar de destacada carreira, funcionário da Alfândega, secretário do clube, informou que já se contava com 200 sócios e se começava a preparar a primeira regata. Os interessados em competir deveriam se inscrever com o já citado João Manuel Corte Real. Há um diferencial se compararmos com as corridas de cavalos: se estabelecia que amadores deveriam tripular os escaleres[1].

Os preparativos da regata inaugural passaram a ser acompanhados com expectativa, sendo a data estabelecida a partir da confirmação da presença do Imperador. Além disso, teve-se em conta o perfil dos associados para definir o dia 1 de novembro de 1851. Embora houvesse trânsito e coincidências entre os grupos, percebe-se outra diferença entre os envolvidos com o turfe e com o remo:

A escolha do sábado foi determinada por duas razões: a maior parte dos sócios e amadores que têm de entrar nos diferentes páreos pertence à classe do comércio e muitos deles, por princípios religiosos, aos domingos não podem entrar em trabalhos dessa ordem; assim como em dias úteis perde a sociedade a cooperação dessas pessoas que não podiam ser distraídas das operações comerciais[2].

Há duas questões que merecem nossa atenção. A primeira é o limite imposto pela religião: no futuro isso se dissolverá, o esporte se tornará mesmo um concorrente dos cultos, o profano conquistará muitos espaços do sagrado. Na verdade, já naquele ano de 1851, a medida parecia atender mais aos hábitos religiosos de estrangeiros, notadamente de britânicos.

Deve-se também destacar o envolvimento de gente do comércio com a prática de atividades físicas, que, como vimos, no caso do remo era um elemento pronunciado, ao contrário do turfe. Isso será observado em outras ocasiões, como, por exemplo, com as touradas e a ginástica[3].

Como no caso das corridas de 1850, houve grande preocupação em explicar os detalhes técnicos das provas: o horário (em função da condição do mar e do clima), o percurso (tendo em conta o desempenho dos remadores, mas também o público que desejava assistir às contendas), os páreos, disputados por ingleses, alemães, americanos e brasileiros, a maior parte desses ligados à Armada.

Os jornais, aliás, lembravam que os europeus já organizavam regatas com um fim específico: “Nos outros países refutam-se tais funções como incentivos para a construção naval e para a marinha nacional, e os monarcas lhes prestam sua presença e proteção”[4].

Uma vez mais vemos a mobilização da ideia de utile dulce: tratava-se de um divertimento sim, mas que tinha muitas utilidades para a nação. Uma delas, argumento bem semelhante ao de desenvolvimento da raça de cavalos, seria o aperfeiçoamento da Armada. Seu valor parecia irrefutável: era uma diversão séria.

Isso ajuda a entender que um traço do desenvolvimento esportivo nacional seja a constante presença de militares, os do Exército mais ligados ao turfe, enquanto os da Armada mais ao remo, um quadro que vai se complexificar às vésperas da proclamação da República, quando os civis republicanos relacionavam-se mais ao segundo, preferido daquela Força Armada que se mantivera mais monarquista, na mesma medida em que os civis monarquistas preferiam o primeiro, mais ligados à Força na qual o pensamento republicano floresceu.

No que tange à organização do evento, havia uma notável preocupação: em função das peculiaridades da modalidade, como oferecer condições de confortos aos influentes que comparecessem? A solução encontrada foi: alguns proprietários de casas na praia de Botafogo as ofeeceram para recepção; foram cedidas, para acolher alguns convidados, salas do Hospício Pedro II (hoje campus da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro); uma parte do público se distribuiu por navios a vapor e embarcações a vela, que também demarcavam a raia. Refrescos, boa comida, músicas e danças eram oferecidos como atrativos à parte[5].

Chegou a haver um debate sobre os moldes do evento, tendo alguns estranhado o horário (manhã) e o local da raia (na altura da praia da Saudade, hoje ocupada pelo Iate Clube do Rio de Janeiro). Segundo os críticos, o calor e a dificuldade de acesso afastariam os interessados, sendo melhor transferir para a parte da tarde e utilizar a faixa que já estava consagrada pelas corridas de cavalos (o trecho que vai do Caminho Velho, atual Senador Dantas, até a São Clemente): “salvo se o divertimento é exclusivo para os sócios, e o público for considerado intruso nele”[6].

O debate antecipa em alguns anos o que se constituirá em outro diferencial do remo em relação ao turfe: o seu caráter supostamente mais popular por ser realizado em um espaço público, em que não era necessário pagar ingressos. Aliás, a regata de 1851 ocorreu no mesmo local onde a modalidade viveria seu momento áureo, no qual, nos anos iniciais do século XX, seria construído, por Pereira Passos, o Pavilhão de Regatas, a primeira tribuna fixa para a modalidade náutica[7].

Atendendo aos pedidos, o horário foi alterado para a tarde. Um conjunto de remadores, todavia, ameaçou não competir, sugerindo que não faria bem fazer exercícios físicos depois de jantar (que na ocasião ocorria ao redor das 14-15 horas). Os jornais criticaram muito tal posição[8]. Um dos sócios, que, assina como Remador, defendeu o ponto de vista dos competidores, mas conclamou:

Pedimos-lhes em nome da associação que compareçam, remem, brinquem, dancem, em uma palavra, que não deem cavaco; e aconselhamos-lhes também que finda as festas providencias tomemos em nossos estatutos para que não possam ser eles alterados à vontade da minoria contra a maioria[9].

A regata inaugural entusiasmou mesmo um setor da cidade. Às vésperas, a matéria de capa da Marmota na Corte (que se apresentava como “jornal de modas e variedades”) é uma expressão dessa expectativa. De início, se elogia um dos dinamizadores do Recreio Marítimo, Angelo Muniz da Silva Ferraz, inspetor da Alfândega e importante político do Império (foi ministro e agraciado com o título de Barão de Uruguaiana), por liderar uma iniciativa que poderia contribuir para solucionar um sério problema da cidade: “A falta de divertimentos públicos e gratuitos”[10]. Ressaltava-se o fato de que, para comparecer aos eventos náuticos, bastaria apenas arcar com as despesas de “transporte e comestível”.

Para o cronista, merecia ainda destaque o fato de que o divertimento era adequado à presença feminina. Lembrava que Ferraz também era dirigente do Recreação Campestre, outra agremiação que acolhia bem as mulheres, inclusive em função do grande número de bailes que promovia.

Sendo uma expressão dos “novos tempos”, para o periodista não surpreendeu que a iniciativa contasse com o apoio do Imperador e da família real, que honrariam: “com suas presenças o divertimento da fogosa mocidade nacional e estrangeira”. Para ele: “Assim o Magnânimo Príncipe se mostra o primeiro a interessar-se pelo seu povo, tanto no que lhe é útil, como no que lhe pode ser agradável. Deus o ajude e lhe conserve os dias para que seja o penhor da paz e da integridade do Império”. A celebração, enfim, era intensa:

Como lindo o Botafogo

Não ficará nesse dia,

Vendo correrem de aposta

Muitos botes à porfia!

De carros e seges a praia hordada,

Bordado de moças o cais ficará.

De imensa faluas aquela enseada

Que vista agradável então formará!

Patuscos folgai

Que tendes ensejos

De pordes em prática

Os vossos desejos!

Voar hade a notícia da Regata

Desde o Amazonas

Até o Prata.

Se a expectativa era grande, o resultado não deixou a desejar. O Correio Mercantil dedicou quatro colunas para comentar o evento. Para o cronista, a cidade já tinha “bailes mascarados”, “óperas italianas”, “corridas de cavalos”,: “só nos faltavam na verdade as regatas, que, para ser francos, devemos dizer, consideramos mais úteis (…)”[11]. O momento era mesmo de otimismo:

Somos hoje na verdade o povo mais feliz do mundo! Tudo anda neste belo Rio de Janeiro às mil maravilhas! Divertimentos e mais divertimentos! As sociedades bailantes multiplicam-se, as de música crescem progressivamente, os soirées e saraus dão-se de continuo, as corridas de cavalos ao Prado Fluminense, a Regata recreio marítimo!! E até o Pão de Açúcar já serve para um tour de promenade; e isto sem falarmos nos nossos dois teatros que com suas portas abertas dão ingresso quase todos os dias aos espectadores destes divertimentos. E que viva o pais que nos viu nascer, que vai todo em folia[12].

A ideia de utile dulce a todo momento veio à tona. Para um jornalista, era urgente desenvolver o espírito marítimo no Brasil, em função de sua imensa costa. Nesse sentido, “nada pode contribuir tanto para esse resultado do que as regatas, que fazem tomar para objeto de divertimento aquilo que em outras ocasiões é considerado pesadíssima tarefa”[13]. Os exemplos da Inglaterra, França e Estados Unidos são mobilizados como comprovações dessa utilidade.

Haveria ainda outra grande potencialidade. Como supostamente nossa “raça” seria “naturalmente fraca e indolente”, o remo seria o estímulo necessário para reverter tal situação: “o exercício de remar é um dos mais violentos, porém ao mesmo tempo é um dos que mais desenvolve a força física”. Para ele, com o apoio do governo, a modalidade traria benefícios inegáveis para a população.

Segundo o empolgado cronista, o novo espírito público propugnado pela Sociedade Recreio Marítimo fazia-se sentir já nas embarcações destinadas aos convidados, que conversavam de forma animada, amistosa e respeitosa, inclusive desfrutando da companhia de “belas e elegantes senhoras”.

O aspecto da enseada também chamou sua atenção: eram embarcações diversas ancoradas e muito público espalhado na areia e nas casas da praia de Botafogo. De uma delas, de propriedade do na época Visconde de Abrantes, D. Pedro II e a família real assistiram às competições[14].

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1ª Regata da Sociedade Recreio Marítimo na Enseada de Botafogo em 1º de Novembro de 1851

Litografia (300 x 480 mm) de A. L. Guimarães, impressa na oficina de Heaton e Rensburg. Acervo da Biblioteca Nacional (FERREZ, Gilberto. A muito leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Castro Maya, 1965).

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Entre as provas, parece ter chamado a atenção um páreo em que se enfrentaram equipes de alemães, ingleses, americanos e brasileiros, sagrando-se vencedora, para entusiasmo do público, a guarnição do escaler Nympha, que competia com a bandeira do Brasil na proa e na proa. O clima de grande festividade se misturava ao de patriotismo, que chegou a seu auge por ocasião da cerimônia de premiação, quando o hino nacional foi executado em homenagem ao Imperador. Não houve, aliás, prêmios em dinheiro, apenas presentes. Deixava-se claro que eram amadores os competidores.

Segundo os cronistas, comentou-se largamente que foi das maiores celebrações já vistas na capital. Estima-se que mais de 10 mil pessoas tenham comparecido ao evento, elogiado pela organização e animação. Os principais diretores do Recreio Marítimo, os já citados Ferraz e Cohn, bem como Leopoldo Augusto da Camara Lima (Barão de São Nicolau, Guarda-Mor da Alfândega) e Joaquim Marques Lisboa (o futuro Almirante Tamandaré), foram exaltados pelo contributo dado à nação. Para um jornalista, o Brasil finalmente “adquiriu o direito a poder marcar uma época de civilização, de confraternidade, de magnificência”[16].

Ainda demoraria alguns anos para o remo definitivamente se consolidar. De toda forma, parece possível afirmar que, naqueles meados de século, o esporte já era apreciado pela população, articulando-se com as mudanças pelas quais passava a sociedade da Corte e com alguns importantes temas da nação. O campo esportivo já tinha, ainda que embrionariamente, seus elementos constituintes delineados.

[1] Diário do Rio de Janeiro, 20/10/1851, p. 2.

[2] Correio Mercantil, 27/10/1851, p. 3.

[3] Para mais informações, ver: MELO, op. cit., 2013b; MELO, op. cit., 2013c; e PERES, MELO, op. cit.

[4] Correio Mercantil, 27/10/1851, p. 3.

[5] O evento, aliás, terminou com um grande baile, oferecido em um barco, que só terminou à meia-noite.

[6] Correio Mercantil, 28/10/1851, p. 1.

[7] MELO, op. cit., 2001.

[8] Correio Mercantil, 31/10/1851, p. 1.

[9] Correio Mercantil, 31/10/1851, p. 3.

[10] Marmota na Corte, 31/10/1851, p. 1.

[11] Correio Mercantil, 3/11/1851, p. 1.

[12] Periódico dos Pobres, 4/11/1851, p. 1.

[13] Correio Mercantil, 3/11/1851, p. 1.

[14] Tratava-se da mesma casa onde seu pai, Pedro I, acompanhara as corridas de cavalos de 1825.

[15] Litografia (300 x 480 mm) de A. L. Guimarães, impressa na oficina de Heaton e Rensburg. Acervo da Biblioteca Nacional (FERREZ, Gilberto. A muito leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Castro Maya, 1965).

[16] Uma descrição mais detalhada e menos apaixonada das regatas pode ser vista em: Diário do Rio de Janeiro, 3/11/1851, p. 1.

* Para mais informações, ver:

MELO, Victor Andrade de. Antes do club: as primeiras experiências esportivas na capital do império (1825-1851). Projeto História, São Paulo, v. 49, p. 1 – 40, 2014.

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UM SPORT DE REPRESENTAÇÕES: o futebol suburbano e a grande imprensa carioca

28/05/2018

Por Nei Jorge dos Santos Junior

Os primeiros momentos do futebol no Rio de Janeiro foram marcados por uma série de interesses e representações que relacionavam o velho esporte bretão à formação de um novo modelo de cidadão. Mesmo pautado pelos valores do cavalheirismo, do fair­play, e do amadorismo, elementos indispensáveis para uma sociedade em que adotava o modelo europeu como parâmetro cultural para a recém ­instaurada República brasileira, a prática foi difundida pelos mais distintos bairros da cidade, desencadeando conflitos ao redor da imagem de distinção social desejada pelos sportsmen e pela grande imprensa da época.

Foto.Sport.1915

Fonte: Sports, ano 01, n.2, 1915, p.21.

Nesse cenário, aumentava-se o número negros, operários e indivíduos das camadas populares, que incomodava àqueles que revestiam a modalidade, pelo menos discursivamente, de um caráter “civilizacional” superior. Esses novos personagens, tanto a torcida quanto os jogadores, adotavam certos comportamentos que, no olhar dos setores sociais mais privilegiados economicamente, eram considerados lamentáveis. Essa mudança de sentidos reforçava um fator ideológico, já que as páginas dos principais periódicos da cidade deixavam de celebrar a sofisticação e a fidalguia para declarar a desmoralização e o repúdio pela prática nos centros mais pobres da cidade. Buscava-­se, portanto, no comportamento desses sujeitos, ações que diferenciassem das propostas idealizadas pelos sportsmen, reproduzindo, efetivamente, um conjunto de reações extraídos das agremiações da Zona Sul. Vejamos o que publicou o Correio da Manhã em 14 de julho de 1919, sob o título: “O encontro Bangu x S. Christovão não terminou…”

A Infelizmente o nosso football ainda não está de todo civilizado.
inda ontem no campo do Bangu A. C., por ocasião do encontro dos teams locais com os do S. Cristóvão, registraram-se factos que são tão indignos, que mais mereciam ser lamentados numa secção policial.
Faltando 22 minutos para terminar o encontro Patrich perdendo a pelota para Hugo agride este jogador no que é repelido.
Estabeleceu-se o tumulto, que teve como consequência a invasão do campo, novas agressões, pauladas, revólveres e navalhas em cena e… suspensão do jogo!
Não sabemos ainda quais os culpados de tamanha falta de educação: se os desordeiros da Favela ou se os agressores do Morro Pinto.
Francamente, srs. Sportmen. Isto nunca foi football! Acabemos com estas cenas lamentáveis, antes que a polícia prepare um lugar seguro para serem trancafiados os desordeiros que se querem impingir como sportmen! (Correio da Manhã, 14 de julho de 1919, p. 06).

Ao descrever que “infelizmente o nosso football ainda não está de todo civilizado”, o cronista parecia esquecer que o excesso desses conflitos não era uma exclusividade dos clubes sediados nas regiões mais pobres da cidade. Vendo nos seguidores dessas agremiações os principais responsáveis pela desmoralização do futebol, ele lamentava a “perniciosa” mistura social, uma perda irreparável, causada pela índole natural dos novos admiradores do jogo (PEREIRA, 2000).

Em seu estudo sobre o cotidiano das camadas populares, Chalhoub (2001) nos ajuda entender porque o registro dos conflitos entre sócios e torcedores dessas agremiações era tradicionalmente abordado sob o estigma de “desordeiros da Favella” ou de “agressores do Morro”. A pobreza, na perspectiva dos teóricos da patologia social, produziria a ausência de normas ou a falta de padrões de comportamento. Dessa forma, embora alguns torcedores reivindicassem contra “as acusações injustas” que atingiam “um povo laborioso e, sobretudo, honesto como é o Bangu”, eles eram vistos como os principais suspeitos de quaisquer desordens que viessem a acontecer em seus jogos (PEREIRA, 2000). Por isso, a cada partida marcada, a própria polícia se apressava em reforçar o patrulhamento local, na tentativa de conter os ânimos dos torcedores dessas agremiações. A liga Metropolitana, por sua vez, mandava frequentemente ofícios aos clubes da zona suburbana, pedindo que tentassem evitar o contato dos jogadores com seus torcedores, buscando proteger os visitantes da propagada fúria local.

De fato, a estigmatização fica ainda mais clara quando comparada aos conflitos causados por clubes da elite carioca. Por exemplo, um tumulto na partida realizada entre América e Botafogo, em 1914, foi apresentado como mero fruto do amor dedicado ao clube. Por vezes, até mesmo os incidentes ocorridos nos campos das equipes mais tradicionais, com a total participação dos seus sócios, eram atribuídos aos torcedores “impertinentes e mal-educados” do subúrbio (PEREIRA, 2000).

De fato, percebemos que os jornais foram agências centrais na construção de representações sociais sobre as agremiações do subúrbio da cidade. Como lembra Moscovici (2004), a representação social desponta no momento em que existe ameaça para a identidade coletiva, quando o conjunto de conhecimentos submerge as regras que a sociedade se outorgou. Foi nesse cenário que o discurso produzido por esses jornais perpassava pela objetividade e subjetividade. A grande imprensa, por exemplo, procurava estabelecer restrições às agremiações da zona suburbana. Uma das iniciativas foi a institui­ção de regulamentos que destacavam a violência e o desserviço prestado ao futebol. Tratava­-se de uma noção particular de subúrbio, enraizado por estigmas fortemente marcados pela estratificação socioespacial da cidade. A partir dessa descontextualização e recontextualização, o jornal traduzia sua visão de mundo, impregnado por estigmas que desqualificavam não só torcedores e jogadores, como também o território em que eles ocupavam e habitavam.