O ceará, a abolição e o racismo no futebol.

16/04/2018

Os estudos sobre o futebol, notadamente aqueles que frequentam o imaginário sobre a história desse esporte, ficaram fixados, durante muito tempo, nas experiências vivenciadas no Rio de Janeiro e São Paulo. No entanto, saindo desse eixo, temos um grande número de vivências socioesportivas que poderiam nos ajudar a compreender melhor o fenômeno, não fossem menosprezados.

Diante disso, resolvi “percorrer” o Brasil e tentar validar, ou não, as minhas apreensões sobre o racismo no esporte, em particular no futebol, já realizadas em meus estudos sobre cariocas e paulistas. Nesses novos trajetos, andei por terras gaúchas e baianas. Por lá, constatei divergências e semelhanças que me fizeram expandir a minha compreensão sobre o racismo no futebol.i

Continuando minhas andanças, no post de hoje, resolvi visitar as lindas terras cearenses. Partirei da sua história de emancipação dos escravos, em 25 de março de1884ii, portanto, a primeira do Brasil, e da chegada e desenvolvimento do futebol naquelas terras (1903/04). Nesse contexto de análise, tentarei demonstrar o quanto a luta pela abolição da escravatura não reverberou na luta contra o racismo na sociedade, em particular no futebol. Assim, mais uma vez, farei um esforço para demonstrar a fragilidade dos discursos, também atuais, daqueles que dizem lutar pelo fim do racismo, apenas por questões pontuais marcadas em sua trajetória.

De forma apressada, em geral, associamos aqueles que lutaram contra escravidão há um perfil socialmente mais igualitário e que, por essa aproximação, o racismo subsequente experimentado pela população negra se tornaria incoerência a priori, devido a natureza e o vínculo entre as questões. O que percebemos, nesse caso, é que a parte dos setores envolvidos no processo de emancipação, especialmente a classe média, foram as mesmas que criaram ou aceitaram as distinções existentes no campo esportivo em relação a presença e a desqualificação dos negros no esporte. Vejamos:

A década de 1880 foi um marco no processo de emancipação dos escravos no Ceará. Houve, nesse período, uma organização dos clubes emancipacionistas e, ao mesmo tempo, um avanço nas campanhas da imprensa sobre o tema. Por um curto período, 1881 e 1882, a opção por uma abolição gradual era a mais defendida. Porém, em 1883, houve um recrudescimento no esforço de uma abolição mais rápida.

Entre aqueles que defendiam um processo rápido e aqueles que optavam pela forma gradual, havia um consenso: a inevitabilidade do fim da escravidão. Mesmo a igreja católica que, durante o século XIX defendera e legitimara a permanência do sistema, “mudou” de lado nesse período. Em geral, todos passaram a defender o fim da escravidão.

Nesse momento ainda não tínhamos o futebol no ceará. Porém, esse período foi crucial para a realocação do negro na sociedade cearense. O escravo passaria a homem livre e, teoricamente, passaria a poder frequentar os espaços de sociabilidade do homem branco. É, nesse sentido, que entra o futebol e o racismo experimentado nesse esporte.

Considerando a luta e o resultado pela emancipação dos escravos, antecipada e, sobretudo, vitoriosa em terras cearenses, antes mesmo das principais capitais brasileiras (RJ – SP), poderíamos supor que, de um modo geral, a posição do negro pós-escravidão tenha sido menos segregadora ou desqualificadora das outras capitais. Ledo engano, caro leitor.

O fim da escravidão não gerou cidadania. O fim da escravidão não gerou reconhecimento, acolhimento e, principalmente, acomodação da comunidade negra. Afinal, suas experiências, símbolos e práticas continuaram fora das representações de modelos sociais. Usando o futebol como objeto de análise para o caso, podemos confirmar essa tese.

Assim como noutros cantos do país, o futebol cearense também possui um “mito fundador”. Ainda que, como noutros locais, sobre controvérsias, José Silveira foi o personagem eleito para forjar o mito. Filho de portugueses, aos 22 anos, retornava da Europa (alguns dizem que ele retornava do Rio de Janeiro) com uma bola na sua bagagem. Independente do ponto de origem da sua viagem, foi, mais uma vez, um jovem da elite local que recebeu os méritos pela inserção do futebol local. A história se repete. Mais do que isso, mesmo que as fontes apontem para uma popularização rápida do futebol e, principalmente, colocava essa informação como algo positivo, o modelo a ser seguido permanecia sendo o dos jovens da elite local. Ou seja, o mais do mesmo se confirma, também, no ceará. O futebol da periferia, como noutras capitais estudadas, era apresentado como rude e seus praticantes eram mau educados e grosseiros, como aponta o jornal A Gazeta de Notícias, do dia 11 de agosto de 1927, Ano I, N° 1:

“Durante o dia de domingo, e geralmente às tardes, reúnem-se imnúmeros meninos desoccupados e iniciam o seu inacabável foot-ball. (…) A match acompanha commumente os palavrórios dos mal educados jogadores”.

“O barulho, as palavras indecentes e o fervor tanto dos praticantes como dos espectadores são concebidos como inconvenientes: assobios, gritos e palavras obscenas(das maiores)somos obrigados a ouvir”.

Assim como aconteceu noutras capitais, os clubes populares do ceará, especialmente aqueles que possuíam negros, foram forçados a criarem uma liga e campeonatos próprios. Ainda que o processo de mercantilização do futebol, a partir dos anos 40, tenha gerado uma acomodação de atletas de outras classes sociais e etnias, as distinções, nesses moldes, permaneceram posteriormente.

O futebol da várzea, nesse processo, se confirmava como sendo um caso de polícia, visto que a sua prática, desregulada e desmedida, fragilizava o imaginário de civilização ascendente para elite local. Ou seja, o futebol na capital Cearense, assim como no Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Salvador, seguiu o caminho da exclusão, da estruturação segmentada e, fundamentalmente, da legitimação da elite como modelo dos modus operandi.

Enfim, os mesmos “homens” que se organizaram, lutaram e aboliram a escravidão, em tempo recorde, mantiveram os homens de cor excluídos do que reconheciam como modelos sociais. Ainda que houvesse, em geral, a participação de negros e populares nas práticas esportivas, especialmente como apostadores e espectadores, a posição do grupo seguia como periférica na escala de valor simbólico e real.

A história seguiu, o futebol se desenvolveu e, doravante, acomodou os homens de cor. No entanto, a tese de que clubes lutaram contra o racismo segue mostrando suas fragilidades, ainda que, pontualmente, suas ações tenham gerados algum tipo de conflito e movimentação no campo esportivo. Nesse sentido, entendo que se quisermos, efetivamente, entender e combater o racismo no esporte, precisamos ter clareza dos limites dessas histórias que preencheram nosso imaginário e, mais do que isso, devemos fazer muito além de levar faixas para o centro do campo e acreditar que isso basta para encerrar uma luta de séculos.

i Ver em: SANTOS, Ricardo Pinto dos. Futebol Fora do Eixo: uma história comparada entre o futebol de Porto Alegre e Salvador – 1889-1912. Tese (Doutorado em História Comparada) Instituto de História, Programa de Pós-Graduação em História Comparada, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014).

iiAlguns historiadores consideram que a emancipação no ceará ocorreu em 01 de janeiro de 1883, durante a entrega das cartas de alforrias a 116 escravos, na vila do Acarape, atual município de redenção.

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Eusébio – História de uma Lenda

09/04/2018

eusebio

Eusébio da Silva Ferreira é uma figura mítica do Futebol Português e esse seu estatuto é refletido no filme “Eusébio – História de uma Lenda”, do diretor Felipe Ascensão, lançado no ano passado. O documentário conta a vida do jogador de forma cronológica, desde a sua origem em Moçambique, a viagem para Portugal e o sucesso alcançado na carreira. O fio condutor da narrativa gira em torno dos depoimentos do próprio personagem, um dos grandes méritos do filme.

Desde o início, Eusébio declara o seu amor por sua terra natal, pela sua terra de acolhimento e pelo Benfica. Seria fácil enquadrar o filme em relação ao seu papel na história do país ou na história do clube, mas o filme se mantém fiel ao propósito de mostrar o lado humano de Eusébio, dando voz ao homem, suas emoções e a forma como ele encarou cada um dos momentos marcantes da sua trajetória. No meio de tantos marcos, que poderiam ser considerados históricos, sobressai o prazer que Eusébio tinha em jogar Futebol.

O sentimento pelo jogo e a admiração pela capacidade de Eusébio fica evidente nos depoimentos dados. Companheiros de Benfica, contemporâneos de seleção, adversários ou jogadores mais novos que só o viram em filmes de arquivo mostram um tremendo respeito pelo que Eusébio apresentou dentro de campo e pelo que ele representou para o futebol do país.

Outro mérito do filme é valorizar o lado estético dos seus feitos futebolísticos. Usando poucas legendas com informações sobre datas, jogos e estatísticas, o filme usa muitas imagens de arquivo nas quais apresenta as proezas de Eusébio. Desse modo, não apenas ilustra com imagens aquilo que vem sendo narrado nos depoimentos dados, como oferece aos espectadores uma visão que prioriza o lado estético do futebol, e não uma abordagem de almanaques.

Por fim, parece-me que noção de lenda é extremamente apropriada. Saindo na esfera cinematográfica, essa imagem é confirmada pela transladação de Eusébio ao Panteão Nacional e pelo respeito de todos por Eusébio. Hoje, pode-se considerar Portugal um país importante no contexto do Futebol, mas mesmo tendo vencido 5 bolas de ouro e batido praticamente todos os recordes da seleção nacional, o estatuto de Eusébio em quase momento algum é questionado em oposição a Cristiano Ronaldo. O talento do madeirense é inegável, da mesma forma que a posição de Eusébio é intocável na história.


A Copa de 2022 não será na Austrália

01/04/2018

Resenha do livro Whatever it Takes: the inside story of the FIFA way [A], de Bonita Mersiades (2018, Powderhouse Press).

                                                                                                                       Por Jorge Knijnik

WHATEVER IT TAKES

 

Titulo estranho o deste post. Alias, porque estou falando do futuro em um blog de Historia(s), onde a gente normalmente fala de coisas passadas? Como não diria Lulu Santos, desta historia, todos sabem o fim. A Copa de 2022 será realizada nas pirâmides pós-modernas do Qatar (se algo mudar depois que eu publicar este post voces serao os primeiros a saber!).  Os mais inteirados também sabem que a candidatura da Austrália para sediar o evento foi um enorme fiasco: o ‘time’ da candidatura australiana captou aproximadamente R$ 130 milhões em dinheiro publico para ao final, receber apenas um (isso mesmo, um!) misero voto na eleição em que o Comitê Executivo da FIFA escolheu o Qatar para sediar a copa.

Mas meu texto não é sobre o final do jogo e sim sobre todos os seus meandros que foram detalhados no recente e tão aguardado livro, Whatever it takes (Custe o que custar). A autora? Bonita Mersiades[i], que em seu relato narra com minucias o que aconteceu durante este jogo pesado da escolha da sede da Copa da FIFA de 2022. Afinal, ninguém melhor para trazer esta historia a luz do dia do que aquela que viveu dentro do jogo, e manteve sua dignidade. Mersiades conheceu todos os personagens VIPs (e os VVIPs, ‘very VIPS’) que frequentam os castelos, iates e palácios onde são decididos os destinos do ‘people’s game’; no seu livro, ela traz para seus leitores e leitoras toda a historia desta disputa, toda a mesquinharia e ganancia travestidas de luxo e riqueza que envolvem os processos internos da FIFA.

Mas, quem é Mersiades? Filha de refugiados do Leste Europeu, ela cresceu na Austrália rodeada por futebol e imersa nas diversas comunidades étnicas que sempre tiveram o jogo como uma das suas maiores expressões culturais. Foi neste caldeirão cultural que ela não apenas aprendeu a amar o jogo, mas se dedicou a ele, como voluntaria em clubes locais (acordando bem cedinho aos finais de semana para demarcar campos, organizar a cantina, vender uniformes e gerenciar os clubes comunitários) e depois profissionalmente. Foi dirigente de equipes da liga nacional e passou a trabalhar na Federação de Futebol Australiana (FFA), como coordenadora da seleção masculina (os Socceroos). Ainda na FFA, Mersiades assumiu o posto de diretora de negócios públicos e corporativos. Foi nesta condição que ela começou a trabalhar com a candidatura australiana a Copa do Mundo. Foi deste cargo que ela viu e vivenciou de perto e por dentro o ‘mundo FIFA’; foi com toda esta experiência que ela virou uma das informantes centrais a fornecerem evidencias para que os escândalos da FIFA viessem à tona (e levassem a prisão do ex-presidente da CBF entre tantos outros). Reunindo todas as suas anotações detalhadas deste período que Mersiades, apos sete anos, concluiu seu livro.

Um livro prefaciado por ninguém menos que Andrew Jennings, o repórter investigativo escocês que sempre foi a mosca na sopa da FIFA e a pedra no sapato do Comitê Olímpico Internacional. O jornalista que, na CPI do futebol liderada por Romario no parlamento brasileiro, declarou que a corrupção na FIFA começou no Brasil, com Joao Havelange nos anos 1970. Homem que, indignado com as concessões que o governo brasileiro fez a FIFA para sediar a Copa de 2014, perguntou aos parlamentares na CPI “que tipo de orgulho um país tem ao deixar que gângsteres entrem e ditem as regras?”.

Em seu prefacio, Jennings escreve que Mersiades é a “única com coragem de contar a verdade” sobre uma historia que não é nada bonita. Com um prefacio destes, a leitora já imagina que lá vem bomba…

O relato de Mersiades é realmente bombástico. Tanto no conteúdo quanto na forma. As descrições dos ambientes cinco-estrelas (ou mais) que ela é obrigada a frequentar são precisas sem serem maçantes; os diálogos, de uma fidelidade incrível; as observações, argutas. A voz narrativa de Mersiades fornece uma velocidade lancinante às historias. O leitor sente como se estivesse viajando com ela entre Sydney, Cairns, Abu Dabi, Zurich, London, Toquio, Joanesburgo, Munique, Frankfurt, de volta pra Sydney, um pulinho em Canberra… ufa! Haja milhagem! Cansa só de pensar… Mas é precisamente esta velocidade que  faz a trama dela parecer um filme de suspense, ou uma serie do Netflix, estilo Narcos ou House of Cards (qualquer coincidência com a FIFA é mera semelhança[ii]…). A narradora é onipresente, e é por meio da sua voz interior, da sua leitura dos eventos e jornais da época, ou da descrição dos diálogos e telefonemas dos quais ela participa, que conseguimos sentir por dentro todos os dilemas éticos e as violências simbólicas que ocorrem no processo de escolha das sedes da Copa.

Tudo começou em 2004. Ou talvez um pouquinho antes, quando Mersiades e um grupo de jornalistas esportivos, preocupados com a situação decadente em que se encontrava o futebol no país, se reuniu para convencer Frank Lowy a assumir a presidência da FFA que seria criada para substituir a antiga National Soccer League. Lowy, que estava afastado do futebol, aceitou o encargo, ficando na presidência da FFA entre 2003 e 2015, quando passou o bastão da presidência para seu filho.

Frank Lowy é um multibilionário australiano, um dos cinco homens mais ricos da Austrália e provavelmente na lista dos top 300 mais ricos do mundo. Nascido na então Tchecoslováquia, passando por guetos na Hungria, a familia de Lowy se refugiou na Austrália depois da guerra. Antes de chegar ao país, entretanto, Frank Lowy ainda foi preso pelas autoridades britânicas em Cyprus, se uniu a Haganah na Palestina e lutou na Guerra Árabe-Israelense em 1948. Cinco anos depois, ele foi à Austrália, onde, com seu espirito empreendedor, fundou uma cadeia de shopping centers que se espalhou pela Oceania, Europa e Estados Unidos, construindo assim sua riqueza formidável.

Lowy não gosta muito do frio. Quando o inverno chega ao hemisfério sul, ele vai de férias para o  hemisfério norte, onde possui varias propriedades. Foi assim que, durante os Jogos Olímpicos de 2004, ele ancorou o Ilona IV, seu iate de luxo no Porto de Piraeus, em Atenas (um dos maiores portos do Mediterrâneo) e começou a oferecer convescotes chiquérrimos para a cúpula da FIFA que lá se encontrava para o torneio olímpico de futebol. Desde então, ele passou a ser convidado de honra nos magníficos jantares oferecidos pelo qatari Bin Hamman[iii], então presidente da Confederação Asiática de Futebol (AFC) e membro do Comitê Executivo da FIFA (as 24 pessoas que escolhem as sedes da Copa). Outros convidados do circuito Abu Dhabi-Kuala Lampur incluíam Jack Warner[iv], presidente da CONCAFAF e também membro do Comitê Executivo da FIFA, e a própria realeza, Sepp Blatter, presidente da FIFA entre 1998 e 2015. Outras autoridades futebolísticas assim como figuras obscuras deste mundo, como o consultor suíço-húngaro Peter Hargitay[v], também frequentavam assiduamente as festas do presidente da AFC.

Foi nesta época que Frank Lowy decidiu que ele traria a Copa para a Austrália, “custe o que custar”.

 

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[Kevin Rudd (entao 1o ministro da Australia), Blatter and Lowy]

Foi assim que Mersiades se envolveu com a candidatura australiana. Tendo um cargo alto na direção da FFA, e a pedido de Ben Buckley, o diretor-executivo (CEO) da Federação, seu amigo e chefe imediato, Mersiades, mesmo sem estar particularmente excitada com esta candidatura, que para ela era um bola fora, foi a cada dia mais deixando o seu trabalho cotidiano e mergulhando na candidatura australiana, chegando a trabalhar 90 horas por semana neste projeto. Afinal, Lowy tinha que coroar a sua carreira de dirigente esportivo sediando o megaevento, “custe o que custar”. Este seria seu legado final[vi].

O livro tem 39 capítulos, todos bem dinâmicos, mas poderia ser dividido em duas grandes partes. A primeira delas, entre 2008 e 2009, detalha os dias que Mersiades trabalhou na candidatura. A intensidade desta parte é tremenda. São reuniões e eventos pelo mundo afora com gente de todos os naipes. Mersiades tem que discutir e preparar orçamentos para o governo federal, que havia se comprometido a apoiar a candidatura da FFA. Lowy considerava que ele já contribuía o suficiente com o futebol e abria todas as portas com a sua presença e liderança; ele não queria tirar dinheiro do próprio bolso, e convenceu os governantes a bancarem a empreitada.  Ela não concorda com o uso de dinheiro publico, ainda mais com o pagamento de consultores externos que aparentemente não fazem nada, além de mostrar que para ganhar a Copa, mais do que o conteúdo das propostas, são necessárias as aparências de luxo e riqueza nos eventos, nos hotéis, presentes e carros para os membros do Comitê Executivo da FIFA. Afinal, conforme os consultores, a sede da Copa é decidida por “questões intangíveis”. Nesta metade do livro o leitor claramente percebe a tensão crescente entre Mersiades, que, ao questionar cada passo a ser dado e o uso muitas vezes obscuro do dinheiro publico, entra em atrito com os consultores que exigem cada vez mais luxo – afinal, eles vivem de vender (ou traficar?) influencia. Ben Buckley, o CEO, que sabe de todas as jogadas, tenta fazer o meio de campo entre estes personagens do submundo do futebol e Mersiades – a quem considera “a pessoa mais integra com quem jamais trabalhou”.

Mas o livro também possui momentos de puro humor. Como quando a FFA trouxe um grupo de jornalistas internacionais para conhecerem melhor a Austrália, a  infraestrutura e as propostas para a Copa. Com Mersiades na liderança, o grupo realiza um tour que termina na capital federal (Canberra) com um encontro com funcionários de diversos escalões do Ministério de Relações Exteriores. Ao final da reunião, com a palavra aberta, uma das diplomatas presentes se levanta e fala, sem nenhuma ponta de vergonha:

“Vocês precisam entender que aqui na Austrália a gente não gosta muito de ‘soccer’ (sic), nosso negocio é AFL. Este é o nosso esporte nacional. ‘Soccer’ não é muito popular e sempre foi associado com violência étnica no passado”.

Silencio absoluto. O constrangimento é geral. Mersiades se pergunta como esta moça passou nos testes para entrar na carreira diplomática.

Outro momento bem humorado aconteceu em dezembro de 2009, na cidade do Cabo (África do Sul). O mundo do futebol se concentrava lá, entre diversos eventos: o sorteio dos grupos da Copa de 2010, o Congresso da FIFA, o Congresso do Comitê Executivo da FIFA, reuniões de Confederações e a exposição internacional de futebol. Nesta ultima, cada Federação candidata a sediar as futuras Copas (de 2018 ou de 2022) iria lançar oficialmente a sua candidatura perante a imprensa mundial. Em um salão para 2.500 pessoas, a organização rigorosa da FIFA só iria credenciar nove pessoas de cada país-candidato. Mersiades não sabia o que fazer para enfiar os diplomatas australianos presentes, a sua equipe técnica, Lowy e demais pessoas da sua delegação.  Enquanto os outros países trouxeram os seus ‘embaixadores’ (jogadores como Luís Figo, David Beckham, Ruud Gullit[vii]) para apoiarem suas apresentações, a Austrália tinha trazido um grupo de crianças que ganharam um sorteio para participarem do evento como embaixadores da candidatura da Austrália. Vestidas com camisetas da campanha australiana (‘Come Play!’, ‘Venha Jogar!’) as crianças acabaram virando a atração da recepção inicial. Assim, não tinha como elas serem barradas na porta do evento principal. Tampouco o pessoal da embaixada e Lowy seriam barrados. Ao final, usando o ‘jeitinho australiano’, ela conseguiu entrar com mais de vinte pessoas no salão.

A apresentação australiana foi um arraso. Com as crianças sorrindo, segurando balões e atraindo mais a atenção que os jogadores internacionais – de quem ate conseguiram autógrafos – a Austrália mostrou seu filme estrelado por Nicole Kidman. Arrasaram. A imprensa mundial, surpresa, reportou nos quatro cantos do mundo como o projeto australiano era competitivo e figurava entre os principais contendores, sendo melhor inclusive que o da Inglaterra.

Dezembro de 2009 foi o auge da candidatura. Mersiades, que estava no comando de toda aquela empreitada, foi elogiadíssima por todos pelo bom gosto e competência da apresentação australiana. Seu chefe Ben Buckley lhe pagou um bônus máximo de final de ano por conta de seu desempenho positivo.

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O baque veio depois do recesso de final de ano. Atenção, aqui não vai nenhum spoiler, afinal, Mersiades conta isso logo no segundo paragrafo da introdução. No inicio de Janeiro de 2010, ao retornar a sede da FFA, Buckley a chama a sua sala. O CEO inventa umas desculpas esfarrapadas, e ela é demitida. A arrogância, o machismo e as negociatas dos consultores haviam vencido. Mersiades estava fora não apenas da equipe da candidatura, mas da própria FFA. Os consultores talvez estivessem certos em um ponto: eles intuíam que alguém tão integra acabaria por entregar os esquemas todos. Como de fato aconteceu, ao longo destes sete anos, inclusive na comissão Garcia.

Aqui entramos na segunda parte do livro . As viagens não são mais tão frequentes, mas o suspense permanece alto!  Mersiades continua recebendo informações de contatos em todo o mundo sobre a disputa pela sede da Copa.  Eu confesso que tive que me segurar para não trapacear e ir direto ao ultimo capitulo para saber das respostas a tantas questoes levantadas nesta parte: Por que a FFA aceitou trabalhar com estes consultores indicados pelos alemães? Os russos tinham um acordo com a Austrália? Quem deu o único voto aos australianos? Qual o papel de sua realeza Beckenbauer em tudo isso? Como o Qatar conseguiu bater a candidatura dos Estados Unidos? Lowy foi enrolado pelos consultores e por todos os seus amigos do futebol? Como foi gasto todo aquele dinheiro publico? Por que mantiveram os consultores e demitiram alguém que era, segundo a opinião geral, a “alma e o coração da candidatura” do país? Como a candidatura da Austrália conseguiu em um ano decair daquela empolgação mostrada na Cidade do Cabo para receber apenas um voto ao final? Quem deixou de lado Nicole Kidman e produziu aquele filme ‘clichê do clichê’ que foi apresentado aos senhores do Comitê Executivo da FIFA antes da votação final?

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Mas eu controlei minha ansiedade e, comportadamente, li capitulo por capitulo. Soube dos espiões que invadiram o site, o e-mail e o telefone de Mersiades. Tomei consciência das calunias e também de um telefonema ameaçador feito por um daqueles jornalistas ‘muy amigo’ o qual, junto com ela, havia trazido Lowy para a presidência da FFA no inicio do século. Apesar das chantagens, Mersiades não revela o nome da pessoa. Li o depoimento ‘confidencial’ que ela deu a Mike Garcia e como isso serviu para demoniza-la ainda mais. Fiquei sensibilizado quando, em um momento da mais pura psicanalise, ela descobre a verdade por trás de diferentes planilhas orçamentarias da FFA. A sensação de leveza que esta clareza trouxe, depois de tanta obscuridade, é maravilhosa, segundo a autora.

Meio que insone cheguei ao capitulo final, intitulado ‘Do lado certo da historia’. Estar do lado certo desta confusão toda, digo, da história, é algo que Mersiades reivindica com muita autoridade desde o início do livro.

As duas passagens a seguir evidenciam a coerência da autora e demonstram de que lado da historia ela está.

A primeira, com a qual eu particularmente me identifico, aconteceu em Londres, em abril de 2009, em um dos seus primeiros encontros com o consultor Hargitay. Como alguém que vende e vive de aparências, Hargitay queria impressiona-las e a levou para jantar em um camarote exclusivo (o Armani Lounge) no Stamford Bridge, o estádio do Chelsea, onde o time da casa enfrentaria o Everton pela English Premier League. Apesar de cansada de todas as viagens, ela estava excitada por assistir seu primeiro jogo dn EPL. Após a janta, eles se sentam nos seus lugares VIP,  com a melhor vista do campo. Mersiades esta ao lado do CEO do Chelsea, e Hargitay faz questão de notar isso: “Você viu Bonita, tudo o que consegui para você? Lugar VIP ao lado do homem! Ninguém mais faria isso por vocês! Não é maravilhoso?” Ela responde com um sorriso amarelo e pensa que gostaria muito mais de estar ao lado do povão nas arquibancadas[viii].

A segunda passagem, na verdade é a dedicatória do livro, a qual de forma poética, mostra os motivos pelos quais ela continuou nesta luta e finalizou o seu manuscrito após sete anos. Mersiades dedica o livro para

Todas as pessoas reais do futebol, em qualquer lugar do mundo; para aqueles que amam o jogo e que acreditam em jogo limpo em tudo o que fazem.

Este é um verdadeiro legado.

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NOTAS

[A] Em uma tradução livre, o titulo do livro ficaria “Custe o que custar: por dentro do jeitinho FIFA” .

[i] TRANSPARENCIA: Possuo uma relação profissional com Bonita Mersiades, que é a diretora-executiva da Fair Play Publishing, editora que publicou meu mais recente livro ‘The World Cup Chronicles: 31 days that rocked Brazil’.

[ii] Vale lembrar que, dentre as acusações aos membros da FIFA feitas pela justiça norte-americana estão:  conspiração para cometer fraude, fraude eletrônica, lavagem de dinheiro e obstrução de justiça. Eles se referem a FIFA como uma ‘enterprise’, um negocio que foi enquadrado na legislação RICO a qual geralmente é aplicada a Máfia e outras organizações criminosas.

[iii] Banido do futebol por toda a vida em 2012 por pagamentos ilegais feitos a União Caribenha de Futebol durante a sua campanha para a presidência da FIFA em 2011.

[iv] Depois do banimento de Bin Hammam em 2011, Jack demitiu-se de todos os seus cargos no futebol. Foi indiciado em 2015 pela justiça americana e ate hoje luta para não ser extraditado de Trinidad Tobago. Seus dois filhos estão em prisão domiciliar nos Estados Unidos desde 2011.

[v] Um dos três consultores europeus que trabalharam na candidatura Australiana para a Copa; vieram recomendados pela Federação Alemã e possuem estreitos laços com Franz Beckenbauer.

[vi] Alias, me perdoem a digressão, mas neste livro eu aprendi um significado novo para a palavra ‘legado’ – sempre ouvimos falar do legado cultural, politico, social, esportivo dos eventos. Mas Mersiades, ao ver no orçamento da candidatura alguns itens destinados a legado, rapidamente percebe que neste contexto, ‘legado’ significa ‘dinheiro da mala’.

[vii] Os ‘embaixadores’ recebem entre U$ 50.000 (no caso dos baratos como o camaronês Roger Milla) ate mais de um milhão de dólares, no caso dos top como Pelé , para apertarem mãos e deixarem sua imagem ser usada para apoiar uma candidatura ou outra. Mersiades recebeu varias propostas de embaixadores mas, apesar da insistência dos consultores, recusou a todas.

[viii] Será que ela iria curtir estar aqui junto com a galera do Mengao, saudando o Gilmar Mascarenhas, o Otavio Tavares e toda a torcida botafoguense?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[i] Em uma tradução adaptada, o  titulo do livro ficaria “A qualquer preço: o jeitinho FIFA contado de dentro”


Proezas Ginásticas no Rio de Janeiro do século XIX: aproximações de uma história corporal da história da cidade

18/03/2018

Por: Fabio Peres e Victor Melo[i]

Em posts anteriores tentamos argumentar que a ginástica – em suas diferentes conotações, formas e tipos – fazia parte da paisagem do Rio de Janeiro do século XIX.  

Mas algo que parece ser central, que constitui ainda um desafio pouco explorado no campo da História do Esporte no Brasil, é corpo per se  tomado como domínio ou objeto de investigação histórica.  

De forma provocativa, podemos dizer que, via de regra, a história das práticas corporais são pouco ou quase nada, com as devidas exceções, corporal.  

No nosso caso, por exemplo, devemos discutir melhor a possibilidade do papel das exibições de ginástica na gestação de um (talvez novo?) ethos corporal na cidade.

A ausência de tipos variados de fontes, sem dúvida, é um obstáculo. Mas será que não haveria formas de se aproximar, mesmo que de maneira ainda incipiente, das representações do corpo?

No decorrer do século XIX, circos que destacavam proezas ginásticas como uma atração se tornaram comuns e muito apreciados na cidade. Mesmo que essa “ginástica-espetáculo” não tivesse grande número de praticantes, sempre cativou um público ávido por novidades; ao que parece de distintos estratos sociais. Temos defendido, inclusive, que antes dos exercícios oferecidos em escolas e agremiações, ela ajudou a gestar uma sensibilidade pública para com a prática.

A especificidade desses espetáculos é que seu poder de sedução estava atrelado diretamente ao próprio corpo, o que incomodava alguns intelectuais, que desejavam anexar à ginástica uma base moral e sanitária.

Devemos lembrar que “a crítica aos exageros do desenvolvimento muscular por ele mesmo e ao funambulismo é ponto passível em todos os educadores que pensaram a educação física escolar nesse momento de transição da sociedade brasileira” (HEROLD JUNIOR, 2005, p. 247).

Para o público, todavia, essa não era uma preocupação. Mesmo quando cresceram as contestações, continuou sendo observável a influência circense nos mais distintos âmbitos.

Se a ginástica era uma das atrações de muitos espetáculos, que tipos de exercícios eram realizados?

Vejamos, por exemplo, a apresentação de Mr. Vally no “Pomposo espetáculo ginástico e dramático, para ser representado perante S. M. o Imperador, o Senhor D. Pedro II, a Augusta Família Imperial”, no Teatro Constitucional Fluminense, em abril de 1838. O “mestre de ginástica de Londres e de Paris” (O Despertador, 27/2/1839, p. 3) prometia executar “na coluna giratória, e nas duas colunas, os mais lindos e delicados exercícios ginásticos, forças, e posições acadêmicas” (O Despertador, 19/4/1838, p. 3).

cap.1.figura 5. O Despertador, 27.2.1839, p. 3.

O Despertador, 27/2/1839, p. 3.

Algumas dessas proezas se tornariam comuns não só nas exibições artísticas como também no cotidiano das sociedades ginásticas e clubes.

Era o caso de números como “A flor da ginástica”, a “Escada perigosa” e o “Salto do Niágara”, “de cujo desempenho deixa o espectador extasiado” (Correio Mercantil, 18/1/1863, p. 4). Em muitas outras ocasiões, os exercícios foram fartamente descritos, um belo retrato de como se organizava a ginástica naquela ocasião).

Vally tornou-se também modelo da Academia Imperial de Belas Artes, em função da sua compleição corporal e por executar as “mais elegantes Estátuas, tiradas da mitologia e da história antiga” (Ver Diário do Rio de Janeiro, 4/4/1839, p. 2.). Vale o registro de como um novo padrão de corpo começava a circular e ser apreciado na cidade, antecipando um movimento que se tornará mais perceptível no quartel final do século XIX e começo do XX (MELO, 2011).

Nos circos melhor constituídos, a ginástica dividia espaço com as atividades equestres e dramáticas, ainda que seja difícil precisar exatamente os limites de cada termo.

Em março de 1840, por exemplo, promoveu um espetáculo João Bernabó, que trabalhara com Chiarini e tinha parcerias constantes com E. G. Mead. Suas apresentações ocorreram em um curro de propriedade de Manoel Luiz Alves de Carvalho, situado no Campo de São Cristóvão, onde também seriam organizadas corridas de touros. A imagem do anúncio, uma parada de mão realizada em um cavalo em movimento, nos permite ver o quanto os exercícios equestres e ginásticos se mesclavam.

cap.1.Imagem6

Diário do Rio de Janeiro, 16/5/1840, p. 3.

Outros detalhes conseguimos saber na atuação da Companhia do francês Fouraux, que se apresentou, em 1852, no mesmo Circo Olympico. Na programação das funções de fevereiro, num rol de 11 atividades divididas em duas partes, cinco referem-se a exercícios de equilíbrios, entre os quais “a luta ginástica, e vários saltos perigosos por cima de seis cavalos, executada por todos os artistas da companhia”, e “exercícios ginásticos e salto dos duplos toneis” (Correio Mercantil, 12/2/1852, p. 4).

Uma informação merece ser destacada no que tange à atuação dessa companhia: “O Sr. Fouraux tem a honra de prevenir o público que dá lições de equitação” (ibid.). Na realidade, vários foram os profissionais que trabalharam nos dois âmbitos, no espetáculo e no ensino, importante indício de que houve um trânsito de informações e referências.

Vejamos outro exemplo. Ao comentar a performance de Neal e Rogers, do Circo Grande Oceano, um cronista lembra que muitos amadores buscavam os ginásios para se exercitarem, e que as atividades acrobáticas eram as mais difíceis e apreciadas. Informa que os dois artistas dirigiam uma escola de ginástica própria, além de encantarem por sua exibição:

Uma vez são as provas de uma força hercúlea o que admira a todos, outra a flexibilidade dos seus corpo, como se fossem de borracha, os graciosos movimentos, as transformações incríveis, as posições incompreensíveis (Correio Mercantil, 24/6/1862, p. 4),

Nas exibições ginásticas utilizavam-se implementos diversos: camas elásticas, cordas, pórticos, barras e trapézios, material que também seria adotado em escolas e clubes. Força, equilíbrio, flexibilidade, agilidade eram valências físicas mobilizadas. Coragem e ousadia eram valores destacados. O risco era a dimensão mais comumente exaltada, tida como importante fator de atração de “um público que sabe reconhecer o quanto custa um trabalho cheio de perigos, pela incerteza que há nesta arte”.

cap.1.Imagem2

Correio Mercantil, 22/1/1860, p. 4

Vejamos essa longa descrição de um cronista sobre as sensações causadas pelo espetáculo de dois ginastas no Politeama Fluminense:

Todos os corações como que deixam de palpitar; o sangue gela-se nas veias; o sistema nervoso sofre violentas impressões e das mãos frias do espectador dessora uma transpiração gélida e incomoda. Só volta o coração a sua regular oscilação de pêndulo da vida, e o calor se espalha pelo corpo, quando os dois artistas terminaram aquele perigosíssimo exercício. Então as mãos aplaudem freneticamente e o entusiasmo transborda em todos os peitos (Gazeta da Tarde, 30/7/1881, p. 2).

Essas impressões mobilizaram a cidade de tal maneira que chegaram a ser desencadeadas iniciativas de controle por parte das autoridades:

O Sr. Desembargador chefe de polícia expediu circular aos subdelegados determinando que obriguem os empresários de circos ginásticos a usar redes e outros aparelhos de salvação, próprios para guardarem a vida dos artistas que se arriscam em tais trabalhos (O Globo, 1/9/1877, p. 2).

De fato, eventualmente vemos pelos jornais algum incidente, em número bem menor do que fazia crer as propagandas dos circos, que exageravam para atrair o público. Vejamos a notícia de um acidente: “No espetáculo da tarde de ontem no circo Grande Oceano, teve lugar um deplorável acontecimento. O Sr. Julius Buislay teve a infelicidade de cair de um dos trapézios da altura de 30 pés, ficando com o braço direito fraturado em duas partes” (A Atualidade, 13/7/1863, p. 3). Essas ocasiões, de alguma forma, ajudavam a reforçar a ideia de que aquela atividade era mesmo perigosa. Curiosamente, uma das companhias em que mais incidentes foram registrados foi a do Teatro-Circo, que se apresentava como a “nec plus ultra da ginástica”, isso é, “a que não pode ser ultrapassada”. De fato, suas apresentações eram marcadas por números muito arriscados, chamando muito a atenção do público.

Desafiar e superar as condições naturais eram claramente dimensões mobilizadas nos espetáculos, intencionalidades que vão marcar, seja qual for o teor do discurso, a prática da ginástica na Corte. Isso por vezes era mais sutil, por outras era explícito. Vejamos como se anuncia a apresentação de Jeronymo Lauriano da Costa, que sem os braços executava várias proezas somente com os pés: “Prodígio e aborto da natureza” (Correio Mercantil, 5/2/1860, p. 4).

Uma vez mais o circo refletia um dos dramas da modernidade. Era possível superar os limites divinos por um processo de produção racional de conhecimento. Doenças podiam ser superadas pela medicina. Pontes superavam obstáculos naturais. As técnicas permitiam aos homens “flutuar”. A ginástica dos circos transitava por padrões de racionalidade tanto quanto a dos médicos. A diferença era a especificidade do diálogo.

As proezas ganhavam diferentes definições, tais como: “Grandes volteios aéreos, e saltos por cima das tiras, executados pela Sra. Varin”; “Diferentes exercícios de equilíbrio e força, pelo Sr. Francisco”; “Trabalho grotesco de elevações, passando por cima de diferentes objetos e pipas, executados pelo Sr. Joanny Fouraux” (Correio Mercantil, 11/3/1852, p. 4). Da mesma forma, muitas eram as denominações utilizadas: salto ginástico, salto aéreo, elevações ginásticas, volteios ginásticos.

Um exercício muito conhecido era assim descrito: “As argolas volantes, ou os suplícios romanos, trabalho de forças e grande dificuldade, executado pelo Sr. Francisco” (Correio Mercantil, 16/5/1852, p. 4). Voos e saltos eram muito valorizados. Por exemplo, a “Grande luta ginástica e acadêmica” tratava-se da execução de “saltos mortais em diferentes sentidos, por cima de muitos cavalos” (Correio Mercantil, 24/6/1852, p. 4.)

Em muitas ocasiões relacionavam-se as cenas a feitos “históricos” (como “O grego heroico em combate com o mouro rebelde”), “primitivos” (como “o selvagem do norte no exercício da caça) ou “exóticos” (como “a carreira rápida do volteador chinês” e “a carreira veloz da sílfide”). Todas essas atrações integraram a programação do Circo Olympico de 27 de maio de 1860 (Correio Mercantil, 27/5/1860, p. 4).

No decorrer do século XIX vários sentidos se cruzavam ao redor da palavra “gymnastica”, bem como diversos termos tocavam em dimensões que se relacionavam com a prática, tais como “exercício”, “athleta”, “lucta”. Não surpreende, assim, que alguns circos tenham abrigado atividades correlatas.

Por exemplo, em dezembro de 1856, o Circo da Guarda Velha anuncia a realização de “Grande luta de assalto” (Correio Mercantil, 19/12/1856, p. 4), da qual participariam “jovens atletas desta capital”. Tratava-se de uma eliminatória: ao fim do dia sairia o campeão. Os promotores, Duffaud e Hyppolite, não somente convidavam a tomar parte “os amadores destas partidas de ginástica”, como anunciam que “dão lições particulares da luta Chausson, ou de pés e pugilato, ou de socos, etc”.

Enfim, como já apontamos em outras ocasiões, parecia mesmo onipresente no Rio do século XIX, inclusive corporalmente, nossa estimada ginástica.

_________________________________________________________________________________________

[i] Parte deste texto foi publicado originalmente em MELO, Victor Andrade de; PERES, Fabio de Faria. A gymnastica no tempo do Império. Rio de Janeiro: 7Letras/Faperj, 2014. (Coleção Visão de Campo)


ANPUH – Bahia 2018 – Chamada

15/03/2018

Olá pessoal
Com alegria informamos, que mais uma vez (desde 2010) foi aprovado o Simpósio de História do Esporte e das Práticas Corporais no IX Encontro Estadual de História-Bahia.
Este ano o evento será realizado na cidade de Santo Antônio de Jesus, nas dependências da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Campus V, entre os dias 04 a 07 de Setembro de 2018.
Com isso, convidamos a todos e todas para participarem do evento e do simpósio, enviando seus trabalhos. Abaixo apresentamos as principais informações:

Instruções gerais para inscrições

1. O sistema de Inscrição é feito por meio eletrônico, tanto para o envio de dados quanto para o pagamento. Todos os itens destas instruções gerais devem ser lidos cuidadosamente para evitar eventuais irregularidades nas inscrições;

2. Para se inscrever, o interessado deve identificar-se em uma das modalidades abaixo, durante o período indicado no cronograma:

  • Coordenação de Simpósio Temático.
  • Coordenação de Minicurso/Oficina.
  • Coordenação de Simpósio Temático e Coordenação de Minicurso/Oficina.
  • Apresentação de trabalho em Simpósio Temático.
  • Ouvinte/Participante em Minicurso/Oficina.

Atenção: Caso o participante deseje propor um simpósio temático e também um minicurso/oficina, ele deve escolher, no preenchimento da ficha inscrição on-line, a opção correspondente a essas duas modalidades.

3. Em todas as etapas / modalidades acima, as categorias e os respectivos valores de inscrição são os da tabela abaixo:

Associado da ANPUH Não associado
Professor da educação básica…….. R$ 50,00 Professor da educação básica……… R$ 150,00
Estudante de Pós-graduação……… R$ 50,00 Estudante de graduação……………. R$ 50,00
Demais associados…………………. R$ 100,00 Estudante de Pós-graduação………. R$ 200,00
Demais participantes……………….. R$ 300,00
Participação em Minicurso/Oficina….. R$25,00

4 . Solicitamos atenção no preenchimento correto de todos os campos da ficha de inscrição, em especial nos campos “Nome” e “Título do Trabalho”, se for o caso, para evitar posteriores problemas quanto à emissão dos certificados. O preenchimento correto do campo “e-mail” também é de fundamental importância para o estabelecimento do vínculo de informações. Após o cadastro, será enviado um e-mail de confirmação contendo os dados de acesso à área do inscrito (login e senha), onde é possível imprimir novamente o boleto de inscrição, caso seja necessário;

5. Os colegas que desejarem associar-se à ANPUH deverão fazê-lo antes de se inscreverem no evento, acessando a página: http://www.anpuh.org/filiacao.

6. Uma vez paga a inscrição como não associado não será possível reverter o valor para associado;

7. Os associados da ANPUH deverão estar quites com as anuidades para fins de usufruto do valor de inscrição exclusivo às modalidades de Sócios;

8. O pagamento da inscrição deverá ser realizado até a data de vencimento registrada nos boletos bancários. Após esta data, a inscrição será cancelada automaticamente pelo sistema;

9. O inscrito poderá acompanhar a confirmação de pagamento do boleto através da área do inscrito;

10. Não haverá devolução do valor referente às inscrições. No caso de propostas de Simpósios Temáticos, Minicursos ou Oficinas que não sejam aprovadas ou efetivadas, os proponentes poderão usar sua inscrição na modalidade de apresentador de trabalho ou ouvinte.
Para a apresentação de trabalho nos Simpósios Temáticos, o proponente deverá ser, no mínimo, graduando, respeitando-se o disposto no item 15.

  • Cada participante poderá apresentar apenas 01 (um) trabalho em apenas 01 (um) simpósio temático, seja na condição de autor ou de coautor, com limite de 01 (uma) coautoria no mesmo trabalho.
  • Todos os autores ou coautores devem estar inscritos no evento e se fazer presente no momento da apresentação a fim de que recebam o certificado.
  • O inscrito deverá escolher 03 (três) Simpósios Temáticos conforme a ordem hierárquica de sua preferência. Caso não seja aceito no primeiro, será realocado na opção seguinte. A avaliação, aceitação e eliminação de trabalhos dentro do simpósio temático são realizadas pelos coordenadores de cada simpósio.
  • O número mínimo de participantes em cada simpósio temático é 12. Caso esse número não seja atingido, o simpósio será cancelado e os inscritos serão realocados na 2ª ou 3ª opção.
  • Caso o trabalho não seja aceito em nenhuma das rodadas de avaliação, o inscrito será automaticamente considerado como ouvinte, sem devolução do valor pago na inscrição.
  • O número máximo de participantes em cada simpósio é de 24 e a preferência é dada ao candidato que se inscreveu primeiro.
  • Verifique os prazos de inscrição, envio do trabalho completo e aceitação.

15. A aceitação do trabalho de graduandos está condicionada à inscrição do orientador no evento.

16. Para a publicação do trabalho nos Anais do Evento, os autores terão que obrigatoriamente submeter o texto completo até a data limite estipulada no Cronograma do Evento e apresentar a comunicação na data e horário indicado pela Comissão Organizadora.

Prazos:

Inscrição de trabalhos nos Simpósios Temáticos .. 05 de Março a 30 de Março.

Divulgação dos Trabalhos Aprovados e Cartas de Aceite .. 31 de Maio.

Envio dos Trabalhos Completos para Publicação nos Anais .. 23 de Julho.
NORMAS GERAIS PARA PROPOSIÇÃO DE TRABALHOS

Atenção: Observe atentamente todas as instruções abaixo antes de submeter seu trabalho:

Além das instruções gerais para inscrições no evento disponíveis no link http://www.encontro2018.bahia.anpuh.org/inscricoes, os itens abaixo devem ser lidos cuidadosamente para evitar irregularidades quanto à submissão de trabalhos para apresentação nos Simpósios Temáticos.

1. As propostas de comunicação deverão ser compostas, obrigatoriamente, de título e resumo, que deverão ser digitados nos campos apropriados da página de inscrições do IX Encontro Estadual de História, e de um texto completo que deverá ser anexado no local indicado até o dia 23 de Julho de 2018.

2. O título do resumo deverá conter no máximo 200 caracteres (com espaços) e o corpo do texto deverá conter no máximo 2800 caracteres (com espaços).

3. O texto completo deverá ser apresentado no seguinte formato:

– Arquivo em formato de texto (.doc ou .rtf) de no máximo 3 Mb.

– Mínimo de 06 (seis) e máximo de 10 (dez) páginas.

– Fonte Times New Roman 12, espaço entre linhas 1,5.

– Citações com mais de três linhas em destaque, com fonte 11, espaço simples.

– Margens superior e esquerda: 3,0 cm; inferior e direita: 2,0 cm.

– As notas devem ser colocadas no final do texto.

– As referências deverão seguir o formato da ABNT NBR 6023.

4. Solicitamos atenção ao preenchimento correto de todos os campos da ficha de inscrição, em especial “Nome” e “Título do Trabalho”, para evitar posteriores problemas quanto à emissão dos certificados. O preenchimento correto do campo “e-mail” também é de fundamental importância para o estabelecimento do vínculo de informações com a comissão organizadora.

5. Para a apresentação de trabalho nos Simpósios Temáticos, o proponente deverá ser, no mínimo, graduado. Estudantes de graduação poderão inscrever trabalhos desde que seus orientadores estejam inscritos no evento.

6. A inscrição para apresentação de trabalho deverá ser feita nas seguintes modalidades:

– Submissão Individual (o trabalho não possui coautores)

– Coautoria – coautores não cadastrados (primeira inscrição do trabalho)

– Coautoria – coautores já cadastrados (trabalho já inscrito por outro coautor)

7. Verifiquem atentamente o cronograma do evento e acompanhem a aceitação do trabalho proposto através da “área do inscrito”.

Coordenadores:
Henrique Sena dos Santos (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia),

Coriolano Pereira da Rocha Junior (UFBA)


Esporte em São Paulo

12/03/2018

Por Flávia da Cruz Santos (flacruz.santos@gmail.com)

Cidade atualmente instigante, sobre a qual abundam estudos que tratam de sua contemporaneidade, São Paulo tem seu passado mal conhecido quando o tema são os divertimentos em geral e os divertimentos esportivos, mais especificamente. Uma das maiores potencias esportivas nacionais, a capital paulista tem os primórdios de seus esportes quase desconhecidos.

Soa estranha tal afirmação, que pode ser facilmente contestada com o argumento de que existem sim estudos, não muitos, sobre os esportes na capital paulista na transição dos séculos 19 e 20, momento tido com inicial na configuração do campo esportivo brasileiro. Algumas questões, no entanto, são: os indícios que nos ajudariam a compreender tal fenômeno não estariam presentes na cidade desde momentos anteriores? Não valeria a pena estudá-los? Porque toma-se como certa a ideia de que não há esporte em São Paulo antes dessa data?

Parte da resposta a essas questões, reside no fato de que a industrialização, tida como sinônimo de modernidade, é considerada condição para a configuração do campo esportivo (tema abordado no post anterior, por Rafael Fortes). Como antes da virada do século, a industrialização em São Paulo era insipiente, não se fala, ou pouco se fala, em esporte antes desse momento.

Mais do que uma cidade de industrialização insipiente, a fama da São Paulo oitocentista não é nada boa, e tão pouco demostra qualquer continuidade com o que sabemos da cidade que nos é contemporânea. Ao contrário, nos faz pensar que se trata mesmo de outra cidade:

Daqui a cinco minutos podemos estar à vista da cidade. Há de vê-la desenhando no céu suas torres escuras e seus casebres tão pretos de noite como de dia, iluminada, mas sombria como uma eça de enterro.

(…)

Demais, essa terra é devassa como uma cidade, insípida como uma vila, e pobre como uma aldeia. Se não estás reduzido a dar-te ao pagode, a suicidar-te de spleen[1], ou alumiar-te o rolo, não entres lá. É a monotonia do tédio. Até as calçadas![2]

Muitos são aqueles que viveram a São Paulo daquele tempo, ou que ao menos lá estiveram, e que nos deixaram relatos sombrios como este, de Álvares de Azevedo, importante nome da dramaturgia paulistana. Exemplos muito conhecidos e usados na historiografia são os relatos de viajantes como os alemães Spix, Martius e Rugendas, os franceses Alcide D’Orbigny e Saint-Hilaire, e o inglês Jonh Mawe. Informados por certos valores e sentimentos, eles possuíam compreensão nada positiva da cidade. Compreensão essa que se disseminou pelos estudos que focalizam tal contexto.

Essa São Paulo não convida o historiador do esporte a investigá-la, não é nem um pouco atraente ou condizente com o que se espera de uma cidade em que há esporte. E aqui outra questão: não deveríamos desconfiar dessa versão, desconfiar que a atual, e já há algum tempo, fervilhante cidade possa ter sido forjada, de repente, em um curto espaço de tempo?

Soma-se a essa compreensão de São Paulo e ao pressuposto da industrialização, o fato de que é em 1875 que surgem agremiações esportivas na cidade, como o Jockey Club e o São Paulo Críquete Clube, e que no ano seguinte foi inaugurado o primeiro hipódromo paulistano. Daí para frente as novidades esportivas não param.

Antes disso, no entanto, numa São Paulo que ainda construía as condições para sua industrialização, os divertimentos esportivos já estavam presentes. Em 1864 já se jogava críquete numa chácara no Campo Redondo[3]. No ano da chegada das ferrovias, 1868, por exemplo, foi constituído um clube de tiro, sobre o qual pouco se sabe. Ele destinava-se à prática do tiro com pistola ao alvo, que era tido como “um novo e útil exercício”[4]. As regatas também já faziam parte do cotidiano da cidade a essa altura, ainda que desenvolvidas no porto de Santos, para onde grande quantidade de paulistanos se dirigia.

Não haveria, então, elementos mais importantes do que a industrialização para o desenvolvimento dos esportes na capital paulista? Não seria tal capital mais dinâmica do que se costuma apregoar? Convido o/a leitor/a, nesse primeiro momento, a me ajudar a pensar na pertinência dessas questões.

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[1] Spleen foi termo difundido por Charles Baudelaire, e significa um estado de desencanto e melancolia, que resulta em apatia e indiferença e pode levar à transgressão e perversão. Caracteriza o ser romântico (ANFORA, pp. 13-15).

[2] AZEVEDO, Álvares de.  Macário. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988. Disponível em: <http://www.aliteratura.kit.net&gt;. Acesso em: 11 dez. 2014, grifo no original.

[3] Correio Paulistano, 6 de setembro de 1864, p. 2.

[4] Correio Paulistano, 1 de abril de 1868, p. 1.

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Esporte e industrialização

08/03/2018

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

Esta semana, discutimos no Laboratório Sport o capítulo “Industrialization and Sport”, de Wray Vamplew, professor emérito de Estudos do Esporte na University of Stirling. O texto integra o volume The Oxford Handbook of Sports History, organizado por Robert Edelman (University of California, San Diego) e Wayne Wilson (LA84 Foundation) e publicado em 2017. Trata-se de um ensaio que realiza um balanço bibliográfico da produção acadêmica em inglês sobre os temas mencionados no título, com ênfase nos EUA e na Grã-Bretanha.

Como destacou Luiz Carlos Sant’ana, o texto relativiza algumas relações que costumam ser tomadas como dadas nos estudos (históricos) do esporte. Por exemplo, as imbricações entre: a) esporte moderno e industrialização; b) disseminação do esporte e o espraiamento do império britânico no mundo. O fato de o autor ser um historiador econômico lhe permite lançar um olhar muito interessante e ainda pouco presente na maioria dos trabalhos de história do esporte – que, no Brasil, tem muito mais influência das histórias cultural e social (mais da primeira do que da segunda), conforme ressaltou Victor Melo.

A julgar por este capítulo, seria muito bom que o volume fosse logo traduzido e publicado no Brasil.

De minha parte, o que motivou estas breves notas foi considerar que o ensaio de Vamplew traz ao menos cinco contribuições para questionar/problematizar certos discursos e pressupostos sobre o esporte que persistem em alguns trabalhos sobre o tema na área de Comunicação – mas não só nela. O olhar de historiador econômico lhe dá elementos (e dados/conhecimento) para trabalhar por fora de categorias que são tomadas como dadas/estruturais quando, como alguns na Comunicação, se observa o plano das representações midiáticas como algo autônomo ou descolado em relação à vida concreta dos indivíduos, grupos, classes sociais e sociedades.

Eis as cinco contribuições:

1) As diferenças que existem entre um time, clube e/ou empresa esportiva e uma empresa comum.

2) A relação simbiótica de natureza diversificada – inclusive comercial – entre mídia e esporte desde, pelo menos, o finzinho do século XVIII (o texto fala de uma revista especializada publicada desde 1792!). Naquele momento, isto se restringia aos impressos (não custa lembrar: rádio, televisão e outros são invenções posteriores).

3) A fabricação de equipamentos para algumas modalidades atingiu graus de industrialização e comercialização em massa já no século XIX.

4) Dos pontos de vista comercial, econômico e profissional, há diferenças entre o modelo de organização em torno de clubes (Grã-Bretanha) e de franquias com proprietários (Estados Unidos).

5) Houve atletas recebendo para competir e obtendo recursos oriundos de fontes diversas antes mesmo da industrialização. A dicotomia amadorismo versus profissionalismo, muito presente nas primeiras décadas do século XX, dá conta de apenas uma parte das múltiplas e complexas relações entre esporte, mercado de entretenimento, lucro, trabalho e circulação de dinheiro.