Um divertimento útil e agradável

13/01/2019

Por Flávia da Cruz Santos
flacruz.santos@gmail.com

 

Atividades culturais que começavam a compor o novo cenário da capital paulista, mais diverso e dinâmico a partir da segunda metade do século 19, e que cumpriam o papel de serem um agradável passatempo, e ainda possuírem sempre um fim útil, eram os esportes. Os paulistanos tentavam incorporar tais práticas aos seus costumes, tendo os ingleses como referência e como protagonistas nesse processo:

É talvez o povo inglês aquele que melhor tem compreendido o grande princípio do poeta latino – miscere utile dulci.

(…)

Por isso ele compreendeu a necessidade de certos jogos, que fornecendo-lhe agradável passatempo, e dando-lhe azo para as suas singulares apostas, fossem ao mesmo tempo exercícios poderosos que lhe dessem grande agilidade e destreza, robustecendo os músculos, dando-lhes grande força e vigor, e fortalecendo eficazmente a saúde.

A ginástica, a esgrima, a equitação, a natação, o críquete e outros exercícios não somente são objeto de distração, como ainda, recomendados pela higiene, fazem parte integrante da educação esmerada na Inglaterra.

(…)

Paulo também a seu turno começa a compreender as vantagens e belezas de tais divertimentos.

Um Jóquei Clube acaba de organizar-se e dentro em pouco os paulistas poderão gozar de um divertimento útil e agradável.

Agora um grupo de distintos cavalheiros ingleses fundou uma associação tendo por fim introduzir nesta capital o jogo do críquete tão popular em Inglaterra e que na corte tanta aceitação tem encontrado.

(…)

A arena preparada para tal fim deve naqueles dias atrair a concorrência do público que por certo não será indiferente àquele novo divertimento que alguns estimáveis cidadãos ingleses intentam introduzir no nosso país, e cujos resultados podem vir a ser de todo o ponto profícuos à educação física tão descuidada entre nós até o presente.[1]

Os esportes ao mesmo tempo em que eram agradável passatempo, eram também exercícios poderosos que desenvolviam grande agilidade e destreza, robustecendo os músculos, dando-lhes grande força e vigor, e fortalecendo eficazmente a saúde. Cumpriam uma função até então negligenciada pelos paulistanos, a educação física. Função necessária à nova lógica do trabalho assalariado que estava por ser inaugurada, pois ela demandava corpos prontos para o trabalho.

Portanto, já em seu momento inaugural na cidade, os esportes foram identificados como uma estratégia de educação dos corpos, como uma forma de obter os corpos desejados e necessários à nova ordenação social que se construía. A escassez de estudos sobre os momentos iniciais do esporte na capital paulista, no entanto, nos impede de melhor compreendê-lo. Os recortes temporais dos trabalhos que dedicam-se a estudar os esportes tem, geralmente, como marco inicial a virada do século XIX para o XX.

As primeiras presenças do esporte nos jornais paulistanos, são da segunda metade do século 19. O que não quer dizer, que seja somente aí que eles tenham surgido no cenário paulistano. É possível que eles tenham sido vividos antes disso, mas que não tenham ganhado as páginas dos periódicos. Nos jornais, no entanto, os primeiros esportes praticados na capital paulista, a aparecerem foram: o tiro ao alvo, a corrida a pé, as corridas de cavalos, o críquete, a esgrima, a ginástica, a luta, a natação, a patinação, a equitação e as regatas.

Em 1868, são encontradas as primeiras presenças do tiro ao alvo e das regatas. Foi constituído um clube de tiro na capital, e as regatas aconteciam no porto de Santos, para onde se dirigia grande quantidade de paulistanos, transportada pelos horários especiais do trem, criados “afim de conduzir aqueles que desejarem tomar parte neste gênero de recreio.”

A chegada do trem facilitou também o acesso dos paulistanos a um outro esporte, as corridas de cavalo realizadas em hipódromos. Se os amantes de tal divertimento precisavam, em 1874, ir à capital do império para nele tomar parte, fazendo obrigatoriamente parte do trajeto, quando não todo ele, em mulas, em 1876 eles já eram transportados de trem, em uma curta viagem dentro de sua própria província, para o Hipódromo da Mooca, que fora inaugurado em 22 de outubro desse mesmo ano:

Mudaram-se porém os tempos e as corridas da Mooca são o divertimento mais apreciado dos paulistas.

Com ansiedade é esperado pela população o dia marcado para as corridas, e chegado ele, desde cedo, enche-se a estação da Luz de passageiros dirigindo-se à Mooca.

Depois de dar e apanhar alguns murros, com o fim de comprar um bilhete, encaixa-se um pobre homem no vagão, onde vai muito apertado, quando, não tem de ir em pé e ceder o seu lugar, a alguma senhora.

Durante o trajeto, que felizmente é curto, versa a conversação sobre a corrida, os corredores, e as apostas.[2]

As corridas de cavalo eram apresentadas como uma forma de melhorar a raça cavalar: “Se os clubes de corrida fossem simplesmente um passatempo, eu os julgaria próprios para ocupar os ociosos: são porém a força organizada para, pela seleção natural, melhorar o cavalo, esse o primeiro e mais efetivo auxiliar do homem, na luta pela vida.”[3]

No entanto, quem ganharia com o melhoramento dos cavalos eram as elites, que os tinham como valioso patrimônio e utilizavam esse argumento, do melhoramento dos cavalos, para legitimar o investimento de dinheiro público e a realização das apostas, que em atividades outras, como os jogos, eram mal vistas e até mesmo proibidas.

O críquete foi introduzido em São Paulo pelos ingleses, que em 1875 fundaram o São Paulo Críquete Clube: “Agora um grupo de distintos cavalheiros ingleses fundou uma associação tendo por fim introduzir nesta capital o jogo do críquete tão popular em Inglaterra e que na corte tanta aceitação tem encontrado.” A presença na cidade, do meio de transporte mais moderno da época, que ainda não levava diretamente à corte, mas facilitava parte do trajeto, possibilitou nessa ocasião que viessem “da corte 13 membros do Anglo-brazilian Cricket Club, 11 dos quais nela tomarão parte, medindo-se com 11 dos mais destros do clube de S. Paulo.”[4]

Em 1878 surgiram as corridas a pé. Elas eram realizadas no mesmo espetáculo e no mesmo lugar, em que aconteciam as corridas de cavalos e as touradas. As corridas a pé eram o “lindo e novo divertimento”, a “grande novidade”[5]. O mesmo, no entanto, foi dito da patinação, quando de sua chegada à cidade, em 1877, e das atrações que constantemente eram incluídas nos seus espetáculos.

O esporte era não apenas agradável, como os demais divertimentos. Além de provocar alegria e prazer ele era útil, pois educava e conformava os corpos, seja dos homens ou dos cavalos, no caso do turfe. Nesse ponto, o esporte se aproximava do teatro, que também era considerado agradável e útil. O teatro, porém, educava e moldava o caráter, os comportamentos.

[1] Correio Paulistano, 26 de maio de 1875, p. 2.

[2] Correio Paulistano, 16 de maio de 1878, p. 1.

[3] Correio Paulistano, 18 de maio de 1884, p. 2.

[4] Correio Paulistano, 26 de maio de 1875, p. 2.

[5] Correio Paulistano, 15 de novembro de 1878, p. 3.

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Sobre o tênis e sua prática em Salvador: dos primeiros momentos a fundação do Clube Baiano de Tênis

07/01/2019

Por: Coriolano P. da Rocha Junior*[1]

   Em Salvador, a prática do tênis se deu de modo muito irregular nas primeiras décadas do século XX. A princípio, denominado de lawm tênis, a sua ocorrência se dava de forma tímida, sobretudo, em quadras no interior de residências de famílias abastadas da cidade. Segundo Mário Gama (1923, p. 320):

Foi ele introduzido entre nós, também pelos ingleses, que construíram um court[2] de grama, na Plataforma. A família Benn também possuía um, nesse gênero, em sua residência, ao Canela. Mas, incontestavelmente, onde se formaram os nossos melhores tenismen[3] de agora, foi no court da residência da Exma, Viuva Lydua Costa Pinto, à Vitória. Foi desse court que saíram os nossos hous (sic) e valorosos jogadores, como Mario Pereira, Macedo de Aguiar e tantos outros, tendo também (perdoem-me se o assignato), o court construído em nossa residência à Graça, sido outro fator do desenvolvimento do Tênis na Bahia.

  Sobre a introdução do tênis em Salvador, reconhecemos que esta se deu, principalmente, pela presença de muitos ingleses que residiam na cidade. Ao mesmo tempo, sabe-se que não foram apenas os ingleses os pioneiros da modalidade na cidade, mas também jovens que, ao retornarem da Europa, a trabalho ou estudo, traziam consigo bolas e manuais de práticas esportivas. Na revista Semana Sportiva há uma referência que evidencia a presença de baianos no desenvolvimento inicial do tênis:

Em 1901 e nos anos consecutivos, ao chegarem da Europa, alguns rapazes foram inquestionavelmente, o fator principal, o elemento preponderante na introdução e progresso do desporto em geral. Na Bahia já havia um court de tênis na residência da família Espinheira Costa Pinto. Construído em cimento, as suas linhas de out-side aproximavam-se de um lado, das cercas de pitangueiras; do outro de um bambuzal indiano, espesso e no fundo, de uma jabuticabeira, que era o regalo de quantos a vissem florida ou o tronco enfeitado de frutas roxas[4].

    De toda sorte, de uma forma de outra, não se pode negar que o tênis em Salvador teve uma forte influência europeia, pelos ingleses ou pelos baianos residentes na Europa. Ao que parece, as primeiras partidas de tênis estimularam os jogadores a institucionalizarem a sua prática com a criação de um campeonato regulado pela Liga Baiana de Esportes Terrestres. De acordo com Mário Gama (1923, p. 320), “a antiga Liga fez disputar um campeonato de tênis, em que tomaram parte o S. Salvador, o Vitória e o Internacional de Críquete, vencendo os representantes do primeiro”. A revista Semana Sportiva foi mais especifica ao detalhar como ocorreram as primeiras competições da modalidade:

Com o número crescente de adeptos do jogo aristocrático formaram-se diversos torneiros íntimos com e sem handicap[5], até que em 1905 a Liga Baiana de Desportos Terrestres, procurando desenvolver a sua prática, determinou a abertura de inscrições para os clubes que lhe fossem filiados, estabelecendo o primeiro Campeonato da Cidade.

Para tanto, construiu um court com as medições regulamentares, com o lastro de cinzas e betumado e as linhas marcadas a tinta branca na então moradia do Sr. Ed. Schalaepfer onde deveriam realizar-se as competições oficiais.[6].

   Apenas a partir da segunda metade da década de 1910, especificamente em 1916, que referências sobre a prática do tênis ressurgem. Um motivo principal foi a fundação do Clube Baiano de Tênis. Assim, como os outros clubes da elite soteropolitana, a agremiação alvinegra teve um início bastante modesto. A primeira sede do clube não passava de uma barraca de lona. Ficava em um terreno na Ladeira da Graça que, pertencendo à senhora Adelaide Tarquínio, foi cedido por um período de três anos. Nesse mesmo local, foram iniciadas as construções das quadras de tênis, “onde foram gastos aproximadamente 4:000$000”[7]. Um depoimento de Mário Gama, um dos primeiros sócios, revela detalhes do entusiasmo em construir as estruturas do clube.

A construção do primeiro court começava. Nós, os que havíamos aderido à ideia da fundação de um grêmio para cultivar tão lindo esporte íamos aos domingos e nos dias úteis em que o tempo nos sobrava ao terreno cedido pela Exma. Viúva Tarquínio, a fim de ajudar ao Edgar Luz que estava superintendendo os primeiros trabalhos de nivelamento[8].

   A empolgação parece ter contagiado outros jovens da cidade. Ao final da construção do court, a “natural afluência de pedidos para associados obrigou o clube a aumentar o limite de trinta para cem sócios”[9]. Com a construção das quadras, já não era possível a agremiação ter como sede uma pequena barraca. Na verdade, a construção de um prédio no mesmo terreno já havia sido planejada. Para isso os diretores do Bahiano, “em assembleia geral de 23 de janeiro de 1916 resolveram aumentar as mensalidades de 5$000 para 10$000.” Além disso, contraíram um empréstimo de 8:000$000.

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Imagem 1: Club Bahiano de Tênis (imagem de um postal).

  A nova sede seria “um pequeno pavilhão que, com o máximo de simplicidade, satisfizesse aos requisitos de conforto e higiene”. Fica evidente que o principal ideal que norteava a fundação do clube era a necessidade de retomar, na cidade, o cultivo de uma atividade considerara elitizada.

   Podemos imaginar que o interesse de reavivar o tênis na cidade tem relação com a vontade de estabelecer uma prática de distinção social, uma vez que o futebol na cidade já havia se popularizado e já não era monopolizado pelos grupos abastados. O envolvimento com a modalidade era muito custoso, até mesmo pelas despesas com a importação de equipamentos como raquetes e bolas. Deste modo, o aristocrático esporte acabou se tornando em uma possibilidade de lazer em que não haveria a presença de populares.

   O esforço de fazer do Baiano de Tênis a liderança do renascimento do tênis na Bahia se revela em memórias que destacam um interesse em ter um espaço bem estruturado, com a construção de várias quadras, inclusive de materiais diferenciados:

Quando teve de ser construído o primeiro court do Baiano, o nosso consócio engenheiro Edgar Luz que dirigia as obras, quis romper com a praxe até então aqui em voga, das quadras de cimento. E, com grande competência, fez o nosso court de uma liga de barro, tal como ora se usa em todos os países tropicais. Os resultados foram magníficos e logo foi a segunda quadra e, em seguida, a terceira, até que, agora, conta o nosso grêmio tem 4 courts, todos eles excelentes, mesmo na estação chuvosa, quando muito pouco tempo depois de um grande aguaceiro, eles por serem inteiramente permeáveis, tornam-se perfeitamente praticáveis. Nessas quadras o tênis tem se desenvolvido assombrosamente[10].

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Imagem 2: Jogadores do Clube Baiano perfilados (Semana Sportiva, Salvador, 02 de julho de 1924, p. 50).

   Obviamente que com o desenvolvimento estrutural do tênis em Salvador, ocorreu um aumento significativo de referências sobre a prática do esporte na cidade. De acordo com os registros de Mário Gama (1923, p. 320):

Com a fundação, em 1916, do Clube Baiano de Tênis, nas suas quatro “quadras” o jogo tomou incremento admirável e ali se formaram e aperfeiçoaram muitos jogadores, sob os ensinamentos – é justo registrar – do grande tennismen F. Mc. Even, que, como diretor, dedicava-se extremamente, no preparo e afinamento dos seus consócios. O Bahiano de Tênis conta, dentre as suas melhores páginas, a visita do grande campeão dos Estados Unidos, Sr. Johnston, que jogou várias vezes em seus courts. Mantendo torneios anuais de duplas e simples, são campeões das quadras do alvi-negro F. Sá Macedo de Aguiar (duplas) e Mário Pereira (simples). Com a recente visita do Fluminense, A Bahia pôde mostrar bem que, em tênis, o seu adiantamento é patente, pois que, os representantes tricolores, Srs. Heberto Filgueiras e G. Prechel foram batidos, em simples, pelos nossos conterrâneos Mario Pereira e Macedo de Aguiar, que se houveram brilhantemente. Nos courts do Bahiano e Tênis está em disputa um torneio amistoso de duplas tendo-se feito representar os Clubes, Francês da Bahia, Rio Vermelho, Vitória, Associação Atlética e Baiano de Tênis.

   Como um dos principais sócios do Baiano de Tênis, Mário Gama não raramente fez questão de circunstanciar o desenvolvimento do esporte no clube marcado pelo um intercâmbio com tenistas de outros estados e países. É possível interpretar como um indício que o desenvolvimento do tênis no alvinegro não ocorreu de forma meramente espontânea. Pelo contrário, houve um constante esforço de estruturação, inclusive no tocante ao aprimoramento das técnicas e estilos de jogo. Além disso, percebe-se um esforço em apresentar os tenistas locais como não inferiores aos de outras localidades.

   Desta forma vimos as primeiras experiências de instalação da prática do tênis em Salvador e sua relação com um determinado clube e modo de ver a cidade e as relações sociais.

 

[1] Parte deste texto foi publicado em parceria com Henrique Sena dos Santos, na obra Primórdios do esporte no Brasil: Salvador (2015).

[2] Corresponde a quadra de tênis.

[3] Homem praticante e/ou interessado no tênis.

[4] Semana Sportiva, Salvador, 21 de julho de 1923, p. 24.

[5] Termo inglês que significa vantagem ou desvantagem, ou o ato de dar vantagem ou desvantagem. Pode também significar obstáculo, ou incapacidade.

[6] Semana Sportiva, Salvador, 02 de julho de 1924, p. 54.

[7] Semana Sportiva, Salvador, 21 de julho de 1923, p. 26.

[8] Semana Sportiva, Salvador, 02 de julho de 1924, p. 54.

[9] Semana Sportiva, Salvador, 21 de julho de 1923, p. 26.

[10] Semana Sportiva, Salvador, 02 de julho de 1924, p. 59.


O Fla-Flu é um “Ai, Jesus”!

02/01/2019

O FLA-FLU É UM “AI, JESUS”!

 Por Edônio Alves

 Tal como acontece no futebol, espaço de criação, no esporte, onde existem jogadores geniais convivendo com outros boleiros não tão afeitos ao domínio do bom jogo individual; do bom exercício da criação de jogadas de efeito com a bola aos pés; da fabricação de magia e encantamento ao toque da bola manejada com o talento e com  inspiração – enfim: com o jogo bem feito -, há, no mundo da literatura que tematiza esse esporte, os escritores mal resolvidos com a palavra; os escribas pernas de pau, os escrevinhadores que não logram sequer sacudir a torcida (os seus leitores) com a marca de uma jogada bem executada; um lance de nível e de permanência, mesmo que para tal tenham se servido da sorte ou do bom augúrio das musas, vá lá!

 Nesse sentido, o conto de futebol analisado a seguir é uma daquelas narrativas em que o seu autor-jogador-escritor tenteou, tentou, tentou, mas ao invés de produzir um lance digno de nota, digno de louvor, conseguiu, no máximo, um cruzamento de bola para a área adversária de tal monta que ninguém (nenhum dos seus companheiros de time) pôde aproveitar para marcar o gol. E nesses casos, já se sabe, alma nenhuma– nem os próprios companheiros, o treinador do time, a torcida, enfim; nem o próprio leitor-torcedor – o perdoa na análise rigorosa que faz do lance. Vejamos, na prática, um caso desses, na leitura que faço do conto Uma vez Flamengo, do escritor Dias da Costa.

 ***

Esse é um daqueles contos de futebol que não trás nenhuma novidade técnico-literária e tampouco investe de forma segura em nenhum dos seus aspectos temáticos mais fascinantes como, por exemplo, os paradoxos de complementaridade e de fundação do jogo da bola. Aqui, novamente é tematizada uma situação que se não for devidamente elaborada de forma que dela se possa extrair um bom rendimento estético, o seu mero registro ficcional pode se tornar inócuo, senão perigosamente clicherizado, como é o caso em questão, de um sujeito que em meio a um fluxo poderoso de emoções díspares, morre em plena arquibancada do Maracanã, vitimado por um ataque cardíaco. Ou seja: o clássico quadro estrutural da reversibilidade semântica do futebol por onde se pode ver que da mais funda alegria pode-se extrair a mais profunda tristeza.

Não que esta narrativa de Dias da Costa não se sustente do ponto de vista estético. O autor até que consegue uma boa empatia do leitor para com os acessos emocionais do seu personagem Luiz, um típico torcedor do Flamengo que depois de muito tempo sem ir a campo, retorna ao Maracanã para ver uma final de campeonato num dia típico de FLA-FLU.

Um tanto baqueado pela idade, condição existencial que, diga-se de passagem, o personagem só vem ter acesso por conta de sua condição de torcedor, Luiz outra vez se vê experimentando o que mais gosta de fazer: assistir ao seu Mengo jogar e disso extrair grande parte do significado da sua vida. Aqui, o futebol é tratado, através de um narrador em terceira pessoa, por um dos seus aspectos sociológicos mais controversos. Como pura evasão, por assim dizer, como “fuga do real, representação imaginária”, o que, nas palavras do historiador Hilário Franco Júnior, inevitavelmente o liga ao mundo das artes, do cinema, do teatro, da literatura; por esse traço do campo artístico não se diferenciando dele de forma alguma.

Luiz sentiu-se feliz. Naquele momento não estava se lembrando de uma porção de coisas chatas que enchiam a sua semana. Esquecia a luta com o agiota para arrancar mais aquele dinheiro que estava gastando ali, aquele agiota miserável que cobrava dez por cento de juros por semana; esquecia que só tinha aquela roupa de brim que trazia no corpo; esquecia a furunculosa da filha, o gênio ruim da mulher, a conta da padaria, os conselhos do médico do Sindicato, as safadezas do patrão, as discussões bestas na oficina sobre a bomba atômica, o preço dos gêneros, a vida apertada de todo dia”.

Contudo, o problema geral dessa narrativa não é apenas essa visão alienante do futebol que ela deixa, nas entrelinhas, transparecer, numa outra clicherização de fundo temático.  A ponto de seu personagem principal não atentar para a recomendação do “médico do Sindicato” e sustentar, por criação do narrador, nesse evento particular, o móvel da sua razão de ser e da própria história. Para o bem e para o mal, há mais que se observar nesta história curta em que Dias da Costa se aventurou glosar ficcionalmente o tema do futebol.

Pelo lado bom, ressalvemos alguns procedimentos narrativos de mínimo efeito estético da forma a se espraiar sobre o conteúdo. O primeiro deles é o narrador fazer coincidir a concepção do tempo da narrativa com o tempo interior vivido pelo personagem. E mais ainda: a passagem do tempo ser medida por índices intrínsecos ao mundo do futebol, o que faz gerar outra coincidência digna de nota, o mundo existencialmente significativo interior do personagem ser aferido pelos dados do mundo exterior do bolapé, como diriam os escritores dos tempos primevos do futebol. Exemplos:

Que é isso, Luiz, estás ficando velho? Vê lá se tu és torcedor de cadeira. Então estás esquecendo o teu passado? Tu que já andastes por todos os campos da cidade, acompanhando o teu Flamengo… Tu queres agora comprar cadeira no cambista, ficar no bem-bom, longe da torcida boa, dos bofetões, das bandeiras rubro-negras saracoteando, das cabrochas, da girafa – é a maior – das barracas, da charanga, das piadas boas… Tu estás ficando velho, Luiz? Tu que ias pra tudo quanto era campo. Pra Madureira, pra Bariri, pro Alçapão de São Cristóvão que caiu naquele dia, pro Fluminense, pra General Severiano, então, agora queres ir pra cadeira azul? Estás borocochô, Luiz?”

Ou:

Isso era antigamente. Gostava daquilo tudo. Mesmo agora, imaginando, achava ainda bonito, sem saber bem por quê. Gostava de ver aquela gente toda, barulhenta, alegre, com trajes multicolores, se agitando pelos degraus largos de cimento da arquibancada, no meio daquela paisagem majestosa e calma, enquanto ele ficava lá embaixo, na geral, junto da cerca, junto do campo verde, perto do seu Flamengo, correndo no campo, suando a camisa. Coisa de antigamente.”

Ora, esses dois trechos aí demonstram muito bem a eficácia estética da estratégia do narrador em dramatizar a transição de um tempo feliz vivido pelo seu personagem para um tempo que, no seu peito, se vai apertando, apertando, apertando…até que:

Voltou ao presente, estava de novo na fila pra comprar a entrada. Não havia pressa. Àquela hora nem o jogo dos juvenis começara. Tinha tempo. É verdade que estava chegando gente pra ‘xuxu’. Mas o Maracanã era grande – o maior do mundo! Tinha lugar pra todos. Pena é que não estivesse acabado, tão feio por fora, que não dava idéia do que era por dentro. Não deviam deixar estragar aquela beleza…”

Esse ir e vir do tempo na cabeça do personagem, sempre pontuado por índices externos afeitos ao universo do futebol (por exemplo: a datação da história sendo feita pelos nomes dos jogadores daquele Fla-Flu, ou pela visão do Maracanã ainda em construção para abrigar jogos da Copa de 50 no Brasil), é um recurso narrativo bastante feliz para um tema que tem no seu aspecto mítico um apelo bastante forte para captar a atenção afetiva do leitor.

Esperou que os quadros se arrumassem e ficou contente de ver o Flamengo completo. Não faltava ninguém. Ari embaixo dos paus, Joubert e Pavão na zaga, os médios mais na frente, Jadir, Dequinha, e Jordan, e mais espalhados, no centro, Joel, Moacir, Henrique, Dida e Zagalo. Olhou para o outro gol e viu Castilho no arco, o homem da ‘leiteria’, Cacá e Pinheiro – arrumados como Joubert e Pavão do outro lado. Aquilo era bonito, sim, era de deixar a gente maluco, esquecer tudo. Já uma vez ele tinha dito: ‘Para mim três coisas no mundo são sagradas – minha mãe, a memória do doutor Getúlio e o Flamengo”.

Pois bem! Das três coisas sagradas para o personagem-torcedor, o Flamengo de Dida, Dequinha e Pavão, assim como a memória do doutor Getúlio, são realidades perfeitamente datadas que situam efetiva e afetivamente o leitor num tempo por volta do final da década de quarenta, início dos cinqüenta, época muito cara na memória histórico-afetiva-cultural brasileira. E quem não se envolve com uma narrativa que de maneira relativamente bem realizada não desenvolve esse apelo?

Para encerrar, desçamos ao lado, digamos, não muito bem resolvido da narrativa. Esse mesmo passar do tempo tomado na sua função diegética, isto é, na sua tarefa de fazer avançar as ações da história de modo que culminem com o seu desfecho, é aqui exposto de modo bastante lugar-comum, prejudicando o efeito de sentido do conto, tornando-o de final surpreendentemente previsível, o que, para a tecitura de uma estória curta, é absolutamente injustificável. A não ser que haja uma razão de verossimilhança interna plenamente sustentável, o que não é o caso deste causo.

Por fim, usei a expressão “surpreendentemente previsível” para classificar o desfecho final deste conto de Dias da Costa, para intencionalmente indicar outra da suas maiores falhas: o tomar um paradoxo fundante do futebol (a sua fascinante característica de juntar opostos, ou sociologicamente falando, a sua constante estrutural de unir alegria e tristeza, local e universal, individual e coletivo, por exemplo) para “resolvê-lo” literariamente de forma ortodoxa e não paradoxal também, como simetricamente exigiria, a meu ver, essa dimensão antropológica do tema. Pode-se antever literalmente isso pela leitura do segmento textual imediatamente anterior ao seu desfecho:

Um grande clamor elevou-se nos ares nesse instante. Os morteiros explodiram na tarde clara, mulheres gritaram histéricas, a charanga toucou alto, e o estádio se agitou sacudido num pandemônio. E os locutores anunciaram nos seus microfones o gol do FLAMENGO

Ressalvando que mulheres não só gritam histéricas, mas também de alegria incontida, assim como esse outro clichê linguístico do “grande clamor elevar-se nos ares nesse instante”, não preciso lembrar, pelo que foi dito no início desta resenha crítica, de que instante está-se tratando aqui para encerrar o conto. Previsibilidade plena. E assim como para o bom jogador no futebol, o que se deve exigir do bom escritor de estórias curtas é um bom grau de imprevisibilidade no trato com a palavra-bola.


O Futebol na Trégua de Natal de 1914

24/12/2018

Há 104 anos, o primeiro 25 de dezembro da Primeira Guerra Mundial ficou marcado como a Trégua de Natal. O evento é um dos mais rememorados momentos da “Guerra para Acabar com Todas as Guerras”, de forma geral motivado pelo sentimento antibelicista e pelo idealismo romântico de paz e civilidade em um dos mais dramáticos e brutais conflitos da história.

Apesar de ser um dos mais simbólicos momentos da guerra, a Trégua de Natal não foi movimento oficial estabelecido pelos Estados beligerantes e não foi estabelecida em todos os campos de batalha. Estatísticas oficiais declaram que o dia de natal de 1914 contabilizou a morte de quase cem soldados ingleses nas trincheiras da França e de Flandres. Ainda que esse número seja significativamente mais baixo do que em outros períodos da guerra, ele demonstra que batalhas foram travadas em alguns setores e que a trégua não foi uma regra seguida em toda a frente ocidental.

Na maior parte do front, os relatos de tréguas são variados, tanto de ingleses como de alemães. Herbert Smart, atacante do Aston Villa que servia no exército britânico, descreveu assim o evento:

No Dia de Natal, fui [até os alemães] e troquei alguns cigarros por charutos. O alemão que conheci tinha trabalhado como garçom em um bar de Londres e podia falar um pouco de nossa língua. Ele disse que eles não querem lutar. É engraçado que um alemão aperte sua mão como se estivesse tentando esmagar seus dedos, e que alguns dias depois esteja tentando te apagar. Não sei bem o que pensar, mas acho que eles estão preparando um grande esquema. Mas nossos rapazes estão preparados.

Herbert SmartFonte: http://wartimeheritage.com/storyarchive1/story_christmas_truce.htm

Dentre os relatos da trégua, ganharam destaque na imprensa eventuais jogos de futebol realizados entre tropas britânicas e alemães na terra de ninguém (região entre as trincheiras inimigas). Tais relatos capturaram a imaginação popular e são frequentemente retratados em menções jornalísticas e especializadas – como sites de história com fins educacionais – e geralmente reproduzem o evento como jogos organizados entre times das diferentes tropas, quase que um amistoso internacional em meio aos escombros da batalha.

O discurso construído ao redor do esporte, exaltando sua suposta capacidade de unir os indivíduos se estabelece aqui como um de seus mais extremados exemplos. Não é acidente que o caso seja lembrado na homepage do movimento internacional Football for peace, para definir sua visão: “Sabemos que o futebol pode realizar feitos incríveis. Lembra-se do natal de 1914, onde muitos soldados britânicos e alemães baixaram suas armas e se conectaram como companheiros humanos em um jogo de futebol armado na terra de ninguém? (…) Nossa visão é que cada país no mundo use a diplomacia do futebol para criar sociedades mais pacíficas e tolerantes”.

Mas até que ponto essa imagem pode ser confirmada através das fontes disponíveis sobre o evento? Em primeiro lugar, podemos descartar as imagens normalmente exibidas em artigos sobre o evento como fontes iconográficas. Jogos de futebol eram um passatempo popular entre tropas afastadas do front, e em geral essas imagens são fruto de momentos de lazer entre oficiais e outros soldados, como nas imagens abaixo.

Fontes: https://www.worldhistory.biz/photos-and-videos-world-war-i/4398-1.html; https://www.iwm.org.uk/collections/item/object/205234299.

Informações sobre jogos de futebol na Trégua de Natal são em sua maior parte provenientes de cartas enviadas por soldados no front para suas famílias nos dias subsequentes. Muitos desses relatos foram publicados em jornais do período e ganharam grande popularidade. O futebol, já visto em 1914 como um elemento de amizade e congregação, virava um símbolo de esperança na guerra que colocava em campos opostos jovens que estariam tentando se matar nos dias seguintes.

No entanto, devemos ter o cuidado ao tratar esses relatos como representações inequívocas do passado. É difícil determinar a veracidade de todos esses relatos. Estariam eles descrevendo o que vivenciaram durante a trégua, ou apenas reproduzindo os rumores e histórias que ecoavam pelas trincheiras? Um dos maiores exemplos foi o relato publicado no jornal The Times no dia 1 de janeiro de 1915, no qual um soldado anônimo relatou que “o regimento disputou um jogo de futebol contra os alemães, que os derrotaram por 3-2”. O mesmo placar foi mencionado por fontes alemães. O tentente Johannes Niemann, do 133° Regimento de Infantaria da Saxônia, escreveu:

Nosso regimento e os Seaforth Highlanders escoceses estavam fraternizando ao longo do front. Peguei meus binóculos olhei com cuidado sobre o parapeito [da trincheira] e vi a incrível imagem de nossos soldados trocando cigarros, schnapps e chocolates com o inimigo. Depois, um soldado escocês apareceu com uma bola de futebol. Os escoceses marcaram seus gols com seus quepes estranhos e fizemos o mesmo com os nossos. Não era fácil jogar no campo congelado. Grande parte dos passes foram muito errados, mas todos jogaram com grande entusiasmo.

Nós alemães nos divertimos muito quando uma rajada de vento revelou que os escoceses não usavam roupa por baixo de seus kilts. Mas depois de uma hora de jogo, nosso Oficial em Comando enviou uma ordem de que deveríamos parar. O jogo terminou com o placar de três gols contra dois a favor dos Fritz contra os Tommy.

Fonte: http://www.telusplanet.net/public/prescotj/data/other/letterstrenches.html

Apesar de se referirem ao mesmo placar, os relatos são de regiões muito distantes no front, impossibilitando a referência ao mesmo jogo. Nada impede que dois jogos com o mesmo resultado tenham sido disputados nos diversos pontos de confraternização ao longo da frente ocidental, mas isso não pode ser encarado como uma certeza. Em outra carta, de acordo como a BBC, um soldado teria relatado: “mandamos um ciclista encontrar uma bola de futebol. Em seu retorno jogamos uma partida contra eles, ganhando facilmente por 4-1”.

Mais do que jogos organizados, de “nós” contra “eles”, há também relatos de jogos mais espontâneos, com dezenas de soldados chutando a bola, sem gols ou times definidos. Esse é um dos poucos casos mencionados por mais de uma fonte provenientes do mesmo local. Frank Naden, em uma entrevista ao jornal Evening Mail, de Newcastle, no dia 31 de dezembro de 1914, afirmou:

No dia de natal um dos alemães saiu das trincheiras com as mãos para cima. Nossos rapazes imediatamente levantaram as suas e nos encontramos no meio, e pelo resto do dia confraternizamos, trocando comida, cigarros e presentes. (…) Os escoceses tocaram suas gaitas de fole e tivemos uma rara festa, que incluiu futebol, no qual os alemães participaram.

Fonte: http://www.christmastruce.co.uk/christmas-truce-football-match/

Em 1983, em entrevista para um canal de televisão na Inglaterra, Ernie Williams, que fizera parte do mesmo batalhão de Naden (6° Cheshires), reafirmou o relato do companheiro em suas memórias, mas com maiores detalhes. Segundo Williams,

a bola apareceu de algum lugar, não sei de onde, mas veio do lado deles – a bola não veio do nosso lado. Eles fizeram uns gols e um rapaz foi para o gol e então começou um bate-bola generalizado. Acho que havia umas duzentas pessoas jogando. Chutei a bola uma vez. Eu jogava bem na época, com 19 anos. Todos pareciam estar se divertindo. (…) Não tinha juiz nem placar, nenhuma disputa. Era somente uma brincadeira – nada como o futebol que assistimos na televisão.

Fonte: http://www.christmastruce.co.uk/christmas-truce-football-match/

É provável que a maior parte dos encontros futebolísticos da trégua de natal tenha seguido esse modelo. Levando-se em consideração que em diversos pontos a terra de ninguém estava devastada pelos meses de confronto anteriores, com corpos em decomposição, a organização desses confrontos não era algo tão simples. Um simples jogo sem times e sem regras seria algo muito mais prático para o encontro. Além disso, a possível repreensão de oficiais de comando também podem ter frustrado iniciativas mais organizadas. Frank Naden, na entrevista ao Evening Mail, também menciona que “no dia seguinte recebemos uma ordem de que toda comunicação e interação amigável com o inimigo deveria terminar”. E documentos oficiais comprovam que no dia 2 de janeiro de 1915 foi emitida a ordem de que “tréguas informais com o inimigo deveriam terminar e qualquer oficial  ou [oficial não comissionado] que inicie uma seria julgado pela Corte Marcial”.

Há pouca dúvida que jogos de futebol ocorreram nessa imprevisível trégua de natal. No entanto, ainda nos resta questionar a forma com que os jogos ocorreram. Segundo as evidências disponíveis, não é possível afirmar que jogos com placar contado e duas equipes de diferentes nacionalidades se enfrentando tenham de fato sido organizados na terra de ninguém, ainda que alguns relatos possam ser elencados. Devido às condições do momento e à informalidade das tréguas ao longo das trincheiras, jogos desorganizados, sem equipes definidas, com soldados chutando a bola de um lado para o outro, parecem ter sido mais prováveis. No entanto, além da forma que tais disputas adquiriram, é interessante observar  o fato desses confrontos terem se tornado um dos elementos mais simbólicos dessa trégua, ganhando predominância sobre outros símbolos mais próximos ao natal, como a troca de presentes (cigarros e bebidas, principalmente). O futebol, nos mais diversos contextos, é visto como símbolo de confraternização e união. Ainda que nem sempre seja esse o caso.

 

 


O futebol e seus simulacros no reino da ludicidade – Subbuteo

18/12/2018

Elcio Loureiro Cornelsen
(cornelsen@letras.ufmg.br )

Em sua obra clássica Homo Ludens, Johan Huizinga define o lúdico como sendo algo que integra a própria natureza humana. Assim, o ser humano seria, basicamente, caracterizado por três propriedades: a do raciocínio (o Homo Sapiens), a da engenhosidade prática (o Homo Faber), e a da ludicidade (o Homo Ludens).

O jogo em geral, pois, seria a concretização da ludicidade na sociedade. Podemos encontrar, por exemplo, jogos que simulam outros jogos, ou seja, são seus simulacros. Pensemos, por exemplo, no futebol. Como uma das modalidades esportivas mais difundidas no planeta, ao longo do século XX, o futebol inspirou uma série de jogos enquanto simulacros, os quais continham especificidades materiais e regras próprias.

São vários os jogos originados do futebol. Recentemente, Eduardo de Souza Gomes postou no espaço deste Blog o artigo intitulado “Pebolim, Totó, Fla-Flu ou Pacau? um breve histórico do campo esportivo no Brasil”. Encontramos nele inspiração para escrever sobre outro simulacro do futebol – o Subbuteo.

É provável que esse nome não diga muito, mas quando nos reportamos ao seu nome no Brasil, pessoas com mais de 40 anos, certamente, dele se lembrarão: “Pelebol”.

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Pois é, o Subbuteo é uma modalidade de futebol de mesa, que foi muito difundido no Brasil, nos anos 1970 sob o título de “Pelebol”, comerciado pelo fabricante de brinquedos Estrela, com a imagem e o prestígio do “Rei do Futebol”. Trata-se de um jogo inventado na terra da Rainha, mais precisamente em Liverpool, em 1925, por William Lane Keeling. Insatisfeito com outros jogos simulacros de futebol que já havia à época, Keeling decidiu improvisar o seu próprio jogo: recortou papelão no formato de pequenos jogadores de futebol e os fixou a uma base de borracha. Originalmente, a bola era de cortiça e as traves, de arame. Keeling desenhou o campo de jogo em uma toalha de linho.

Primeiramente, Subbuteo foi comercializado com outro nome: “Newfooty”. Todavia, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial e a crise econômica dela advinda, a produção foi interrompida, sendo retomada em 1947. A partir de então, os jogadores em miniatura passaram a ser confeccionados de material plástico, assim como as traves, e foram patenteados por Peter Adolph. Ornitólogo de profissão, amante dos pássaros, Peter Adolph rebatizou o “Newfooty” com o nome “Subbuteo” (haja imaginação!), baseando-se no nome científico de um falcão em latim – falco subbuteo –, e fundou a firma Subbuteo Sports Games. Em 1967, o empreendimento foi vendido a Waddingtons, então maior fabricante de brinquedos da Inglaterra. Três décadas depois, em 1995, a Waddingtons foi vendida à empresa de brinquedos norte-americana Hasbro.

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Subbuteo é jogado em um campo de flanela, de 80×120 cm.
Imagem: http://kickerium.de/2017/02/23/subbuteo-wie-fussball-nur-mit-hand/

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Basicamente, o Subbuteo conta com dois jogadores. Em geral, o jogo é composto por duas traves de plástico, um campo de futebol de 80×120 cm, de flanela, em que se defrontarão duas equipes compostas por 11 jogadores em miniatura cada uma: 01 goleiro e 10 jogadores de linha. Enquanto o goleiro, em posição de salto para defesa, tem menos mobilidade e é preso por uma haste, ficando restrito à meta e sendo acionado por trás da trave, os jogadores de linha, com cerca de 2 cm de altura, possuem uma base circular que, além de os manter na posição vertical, dando-lhes sustentação, permite que estes deslizem pelo campo ao serem impulsionados pelo dedo médio ou indicador do jogador ao ser pressionado sobre a flanela. Interessante é que o diâmetro da bola de jogo, também de plástico, possui a medida dos jogadores, ou seja, 2 cm. Esta pode ser simplesmente conduzida ou chutada, dependendo da direção e da força com que o jogador de linha é acionado.

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Miniaturas de jogadores representando a Seleção Brasileira
Imagem: https://www.yesterdaystoys.co.uk/Subbuteo-Heavyweight-Team-Ref-50-Brazil-3_A1LZ23.aspx

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Além disso, jogar Subbuteo requer certa tática e estratégia, pois todos os jogadores de linha são móveis e só podem ser movimentados e posicionados através de acionamento com os dedos durante a execução das jogadas. Esse é um dos aspectos que, se comparado com outras modalidades, fazem com que se considere o Subbuteo um simulacro mais próximo de uma partida de futebol. Embora muito menos praticado no Brasil em nossos dias, o Subbuteo ainda desfruta de popularidade em outras partes do mundo, onde existem ligas e se realizam campeonatos locais em mais de 50 países, bem como competições continentais e até mesmo mundiais.

Como um autêntico simulacro, as regras do Subbuteo correspondem, em sua maioria, às regras do futebol. A seguir, apresentaremos apenas as principais.

– Posse de bola

O jogador que tiver a posse de bola é, momentaneamente, o atacante, e o adversário, o defensor. Apenas o atacante pode tocar a bola ao acionar o jogador de linha com o dedo. Este perde a posse de bola quando erra a bola ao acionar o jogador ou quando a bola toca um jogador da equipe adversária. A bola só pode ser movimentada, no máximo, três vezes com o mesmo jogador de linha, sendo que o terceiro lance deve ser um passe para outro jogador de linha, ou mesmo um chute a gol.

– Movimentação de defesa

A cada toque de bola do atacante o defensor pode movimentar um de seus jogadores de linha, acionando-o com o dedo pressionado ao tecido do campo. A meta do defensor é dificultar a jogada de ataque adversário, à medida que consegue interpor um jogador de defesa entre o jogador atacante e a bola, ou mesmo bloquear um passe para outro jogador. Entretanto, durante a movimentação sem bola, o defensor não pode tocar nem a bola e nem outro jogador de linha, do próprio time ou do time adversário. Se isso ocorrer, o atacante pode exigir que a jogada volte e que os jogadores e a bola assumam a posição anterior ao lance em que o defensor cometeu a irregularidade. Aliás, se o defensor atingir a bola em movimento, haverá um tiro livre em favor do atacante.

– Jogadores fora de ação

Jogadores de linha que saem do campo ou que batem nas bordas de proteção da mesa, tão logo a bola seja colocada em movimento, são posicionados manualmente na parte externa do campo de jogo. Caso o jogador ainda se encontre na mesa, ele será posicionado no ponto mais próximo da linha de fundo; se tiver saído da mesa, será posicionado próximo à linha divisória. Jogadores deitados, tão logo a bola role, são posicionados corretamente onde estiverem. Não é permitido que se jogue com jogadores deitados.

– Chute a gol

Um chute a gol é válido somente quando a bola se encontrar no campo de ataque, além da chamada linha de tiro, linha intermediária entre o meio de campo e a área.

– Tiro de meta

O tiro de meta deve ser executado com o acionamento de um jogador de linha, sendo que a bola deve ser posta em jogo do mesmo lado por onde saíra pela linha de fundo. No tiro de meta, nenhum jogador adversário pode estar dentro da área.

– Arremesso lateral

Um jogador de linha é posicionado manualmente na lateral, exatamente no local por onde a bola saiu, e esta é posta em jogo através do acionamento do jogador com o dedo pressionado ao campo de jogo.

– Falta

Caso o jogador que esteja sendo acionado toque um jogador do time adversário sem tocar primeiro na bola, o lance é considerado faltoso e é marcado um tiro livre indireto. Se o lance ocorrer dentro da área, é marcada a penalidade máxima.

– Penalidade máxima

O goleiro deve permanecer sobre a linha do gol, enquanto os demais jogadores são posicionados fora da área.

– Reposicionamento dos jogadores em campo

Atacante e defensor podem reposicionar seus jogadores manualmente quando ocorrer tiro de meta ou após ser assinalado um gol. Nos demais lances, só será permitida a movimentação de jogadores através do acionamento do jogador com o dedo pressionado ao campo de jogo.

– Impedimento

Um jogador é considerado em posição de impedimento, quando estiver posicionado no campo de ataque e, no momento do passe, estiver mais próximo da linha de fundo do que dois jogadores defensores, incluindo o goleiro. Todavia, caso o jogador em posição de impedimento não receba a bola, a jogada de ataque pode prosseguir normalmente com outro jogador.

– Duração da partida

Uma partida de Subbuteo dura dois tempos de 15 minutos cada.

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Miniaturas de jogadores representando a Seleção Brasileira
Imagem: https://www.yesterdaystoys.co.uk/Subbuteo-Heavyweight-Team-Ref-156-West-Germany_AYY67.aspx

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De acordo com o site alemão Kickerium, o Subbuteo chegou ao país em 1961, ano em que foi fundado por Günter Czarkowski o “TSL Dortmund 61”, clube que ainda existe em nossos dias. Inclusive, o país conta com uma liga, a DSTFB – Deutscher Sport-Tischfußball-Bund (Liga Esportiva Alemã de Futebol de Mesa), filiada a uma organização internacional, a FISTF – Federation International of Sportstable Football. Segundo o site da FISTF, a Alemanha sediou o torneio mundial em 2006, na cidade de Dortmund, que contou com 250 competidores, representantes de 23 países, sendo que a Itália sagrou-se campeã nas categorias individual e por equipes. A edição de 2010 também teve por sede a Alemanha, realizada em Rain am Lech, que também contou com 250 competidores, representantes de 16 países, e cujo vencedor foi a equipe da Espanha. Além disso, entre outras competições, o país já havia sediado também o Campeonato Europeu em 1995, em Wuppertal, e a Copa Europa de Clubes Campões em 2001, na cidade de Kamen.

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Miniaturas de jogadores representando o F. C. Bayern de Munique
Imagem: http://www.customflicks.co.uk/order.htm

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Enquanto em países como a Alemanha, a Itália e a Inglaterra o Subbuteo se mantém popular e é praticado em competições oficiais, no Brasil, infelizmente, o jogo se tornou objeto de colecionador. Não é por acaso que, falar de “Pelebol” é, ao mesmo tempo, um ato nostálgico de recordação de infância nos idos dos anos 1970 e 1980.

Referências

HUIZINGA, Johan. Homo Ludens. 6. ed., São Paulo: Perspectiva, 2010. [filosofia; 4]

Site Botões para sempre: http://botoesparasempre.blogspot.com/2015/10/pelebol-da-estrela-os-incriveis-anos-70.html

Site CustomFlicks: http://www.customflicks.co.uk/

Site Deutscher Tischfussball-Bund: https://dtfb.de/

Site Federation International of Sportstable Football: https://fistf.com/organisation_europe/germany/

Site Kickerium; artigo “Subbuteo: wie Fußball nur mit Hand“: http://kickerium.de/2017/02/23/subbuteo-wie-fussball-nur-mit-hand/

Site Ludopedia: https://www.ludopedia.com.br/jogo/subbuteo

Site YesterdayToys: https://www.yesterdaystoys.co.uk/

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Pebolim, Totó, Fla-Flu ou Pacau? um breve histórico do campo esportivo no Brasil

11/12/2018

Por Eduardo de Souza Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

Pebolim, Totó, Fla-Flu ou Pacau? As variações culturais existentes em cada região deixam dúvidas acerca do nome correto a ser utilizado quando nos referimos ao “Table Soccer” em terras brasileiras, modalidade de futebol de mesa muito difundida por todo o mundo desde o século XX (não confundir com o futebol de botão, outra modalidade esportiva que também é conhecida no Brasil como futebol de mesa).

Oficialmente, o nome utilizado no Brasil para designar esse esporte é o “pebolim”,[1] o que não impede que em determinadas localidades seus praticantes, profissionais ou não, o chamem de “Totó” (no Rio de Janeiro e parte do Nordeste), Fla-Flu (no Rio Grande do Sul) ou até mesmo Pacau (em Santa Catarina). Além disso, em diferentes países, a nomenclatura também se modifica: Matraquilhos em Portugal; Futbolín na Espanha; Metegol na Argentina; Foosball nos EUA; Baby-foot na França e Tischfussball na Alemanha.

Como forma de facilitar o entendimento, e sem desconsiderar as variações regionais existentes, utilizarei o nome “pebolim” na sequência do texto, por entender ser essa a nomenclatura oficial utilizada pela federação que gere o esporte no país. Entretanto, vale a pena pensarmos:  quando e onde essa prática, tão popular em bares, clubes e escolas de todo o mundo, surgiu e se difundiu?

As origens do pebolim são confusas e indefinidas. Ainda carecendo de maiores pesquisas sérias, muitas são as versões apontadas como referências acerca dos “primórdios do pebolim no mundo”. As versões mais “badaladas” sobre o início da modalidade, são as que apontam a Espanha como palco inicial. Todavia, os alemães também reivindicam o pioneirismo no desenvolvimento desse esporte.

Os espanhóis defendem, segundo André Martins Gonçalves (2017), a hipótese de que o pebolim teria sido inventado no calor do momento da Guerra Civil Espanhola, quando

Alexandre de Fisterra, o responsável, teria criado o jogo para que crianças feridas, impossibilitadas de jogar futebol assim como ele, pudessem praticar uma variação do esporte. Segundo essa versão, o galego teria patenteado a invenção em 1937, mas perdeu os papéis da patente (GONÇALVES, 2017).

Na Alemanha, a hipótese defendida é a de que, já em 1930, o esporte era praticado no país. Divergências de versões a parte, o que se sabe concretamente é que apenas em 2002 foi criada uma federação internacional para gerir a modalidade: a International Table Soccer Federation (ITSF). Desde então, é essa a entidade representativa do pebolim em todo o mundo, sendo a organizadora das Copas do Mundo e demais campeonatos mundiais.

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Partida da Copa do Mundo de Pebolim 2011, realizada em Nantes – França. https://esporte.ig.com.br/maisesportes/eua-e-austria-conquistam-a-copa-do-mundo-de-pebolim/n1237934732922.html

No Brasil, a modalidade chegou nos anos 1950, período marcado pelo nacional-desenvolvimentismo e pelo aumento das trocas culturais no país, notadamente no que se diz respeito a consolidação de um mercado. A chegada de distintas manifestações fez com que esse esporte se popularizasse em bares, clubes e escolas, porém ainda com base nas mesas não profissionais. Mas qual a diferença entre as mesas profissionais e as não profissionais?

As mesas profissionais se diferenciam pelo material do boneco, pela precisão na realização de chutes e passes, tal como na formação dos “jogadores”. Enquanto nas mesas não profissionais, popularmente chamadas no Brasil de “mesas canoas”, a formação dos bonecos de linha é, normalmente, a 3-4-3, na mesa profissional se utiliza a formação 2-5-3, valorizando assim o número de bonecos no meio de campo do jogo. Vários são também os modelos de mesas profissionais, sendo a americana “Tornado” e a alemã “Leonhart” dois dentre os mais conhecidos.

Somente em 2007 que o Brasil passou a ter uma federação que busca difundir o esporte com mesas profissionais, a FEBRAPE – Federação Brasileira de Pebolim, inicialmente conhecida como Associação Brasileira de Pebolim. Com sede em São Vicente, região litorânea do estado de São Paulo, desde sua criação a entidade já conseguiu enviar equipes brasileiras para 6 mundiais e 3 Copas do Mundo, principais competições de pebolim que ocorrem pelo mundo. O presidente da federação desde sua fundação, Clayton Fonseca, destaca que buscou no exterior referências para desenvolver o esporte no país: “Trouxemos tudo o que aprendemos para o Brasil e começamos a organizar torneios oficiais a fim de apontar nossos melhores jogadores para representar lá fora”.[2]

Atualmente um dos principais desafios da FEBRAPE é conglomerar jogadores que estejam interessados a jogar o pebolim. Ainda sendo um esporte com um campo incipiente e poucos financiamentos, muitos entendem que esse é um cenário não muito favorável para adentrarem na modalidade profissionalmente, preferindo apenas os jogos amadores nas “mesas de bar”. Portanto, mais do que organizar torneios nacionais e/ou estaduais, aos quais são utilizados para se desenvolver os rankings e formar a equipe nacional que disputa os campeonatos mundiais, a federação tem se preocupado em organizar um grupo de pessoas que esteja, antes de tudo, interessada em simplesmente jogar pebolim:

O Papel e os objetivos da Febrape são atrair jogadores de todo o Brasil, descobrir novos talentos, unir e preparar jogadores que demonstrem potencial e que queiram levar o esporte a sério para competir na Copa do Mundo e nos Mundiais realizados nos EUA e na Europa. […] Estar cada vez mais visível a todos utilizando os meios possíveis para a atração tanto de jogadores já existentes quanto de novos adeptos.

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Delegações brasileiras que disputaram as Copas do Mundo de 2015 e 2011, respectivamente. http://www.febrape.com.br/home

Portanto, esse desafio de ampliar o número de adeptos da modalidade, tem sido o principal foco dos amantes desse esporte pelo país. A partir de redes sociais (como facebook e, principalmente, grupos de whatsapp), a FEBRAPE estabelece um canal de comunicação com todos os interessados em disputar campeonatos profissionais ou, simplesmente, jogarem o pebolim de forma despretensiosa. Esse movimento tem estimulado a formação de grupos em distintos estados, para além das realidades paulista e capixaba, que são, até o momento, as mais avançadas nacionalmente.

Como por exemplo, podemos citar o caso do Rio de Janeiro. Nos últimos anos, vários campeonatos estão sendo realizados a nível estadual na localidade, contando com a participação de competidores de diferentes municípios. Inicialmente organizados por Marcio Belmonte ainda com a “mesa canoa”, ultimamente os competidores do estado estão se aperfeiçoando e disputando suas competições em mesas profissionais, após o contato inicial de dois de seus maiores nomes locais, Luciano Santos e Misael Silva, com as mesas desenvolvidas pela FEBRAPE em São Paulo. Uma das edições dos torneios cariocas, inclusive, ocorreu no âmbito do evento Arnold Classic Brasil 2014, competição de fisiculturismo organizada em homenagem ao astro global Arnold Schwarzenegger, tendo ele presenciado e chancelado o referido certame.

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Torneio de Pebolim/Totó no âmbito do Arnold Classic Brasil 2014, ocorrido no Rio de Janeiro e que contou com a ilustre presença de Arnold Schwarzenegger. http://totorio.com.br/

A partir do incentivo dos atletas Luciano e Misael, já anteriormente citados, em 2018 foi realizado o 1º Torneio Intermunicipal de Totó do Rio de Janeiro, contando com participantes de variados municípios fluminenses (Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo, São João de Meriti, Nova Iguaçu, Nilópolis, Nova Friburgo e Guapimirim) e realizado em duas edições (setembro e novembro de 2018), nas categorias individual iniciante, individual livre e duplas.

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Respectivamente, da esquerda para direita: Torneio organizado na sede da FEBRAPE em outubro/2018 e Torneio Intermunicipal do Rio de Janeiro organizado em novembro/2018 em São João de Meriti. Fotos: Misael Silva

Percebe-se, com o avanço de mesas profissionais pelos estados de São Paulo, Espírito Santo, Rio de Janeiro e outros, um avanço qualitativo no desenvolvimento desportivo dos atletas que disputam a modalidade pelo Brasil. Esse movimento tem incentivado, também, a busca pela criação de federações estaduais que possam, ligadas à FEBRAPE, melhor difundir e organizar campeonatos que conglomerem novos atletas em cada região do país. Clayton Fonseca destaca que a falta de patrocínio, muitas das vezes impede a federação de

viajar o Brasil e levar o aprendizado e crescimento da prática do pebolim como esporte para todos os cantos, como gostaríamos, e de fazer divulgação em mídia para atrair mais adeptos. […] Até hoje, todos os competidores que tiveram a oportunidade de disputar grandes torneios foram com recursos próprios. Devido a isso, não conseguimos enviar nossos melhores jogadores, apenas os que tinham recursos suficientes para arcar com as despesas por si próprios.

Buscar desenvolver o hábito de se jogar o pebolim, tal como fortalecer as competições profissionais em diferentes estados pelo país, é um dos caminhos centrais para o estabelecimento dessa modalidade em terras tupiniquins, consolidando assim jogadores que possam não só disputar os campeonatos mundiais com regularidade, mas também os Jogos Olímpicos, em uma eventual inclusão futura da modalidade nesse certame, fator que já vem sendo cogitado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI).

[1] Ver em www.febrape.com.br

[2] Entrevista concedida para o Blog Jornalismo Esportivo da ECA-USP, publicada em 5 de dezembro de 2017.

Referências

GONÇALVES, André Martins. O Esporte que precisa ser tratado como um. In: Blog Jornalismo Esportivo da ECA-USP. 5 de dezembro de 2017. Acesso em 10/12/2018. http://www.usp.br/cje/esportivo/index.php/2017/12/05/o-esporte-que-precisa-ser-tratado-como-um/.

. Site da ITSF: https://www.tablesoccer.org/

. Site da FEBRAPE: http://www.febrape.com.br

. Site Totó Rio: http://totorio.com.br/

. Entrevista com Clayton Fonseca:

http://www.usp.br/cje/esportivo/index.php/2017/12/05/o-esporte-que-precisa-ser-tratado-como-um/

. Capixabas enchem os olhos com “totó” em olimpíada: “Um orgulho imenso”:

https://www.gazetaonline.com.br/esportes/mais_esportes/2017/11/capixabas-enchem-os-olhos-com-toto-em-olimpiada–um-orgulho-imenso-1014106061.html

. EUA e Áustria conquistam a Copa do Mundo de pebolim:

https://esporte.ig.com.br/maisesportes/eua-e-austria-conquistam-a-copa-do-mundo-de-pebolim/n1237934732922.html


Uma partida para lá de quente na Argentina

03/12/2018

André Alexandre Guimarães Couto

Olá, leitores(as):

Neste final de novembro e início de dezembro boa parte das atenções da imprensa e do meio futebolístico estavam voltadas para a final da Taça Libertadores da América 2018 entre Boca Juniors e River Plate. Pela primeira vez, no principal torneio de futebol da América do Sul, os maiores rivais da Argentina se encontram na final. Não por acaso a violência foi uma das protagonistas do segundo jogo da final, quando o ônibus do Boca fora atingido por parte da torcida rival a caminho do Monumental de Nunez.

Todavia, quem acha que vamos explorar este episódio da história recente e contemporânea da história do futebol, se enganou.

O clássico a qual nos referimos no título deste breve post é o jogo entre All Boys e Atlanta, no Estádio Islas Malvinas (não por acaso o nome da cancha faz referência a um território que é contestado até hoje pelos argentinos juntos aos ingleses).

Tratava-se de um jogo da Primeira B Metropolitana, equivalente para nós com a Série C ou 3ª Terceira Divisão Brasileira. Numa tarde de 21/11/2018 os dois times se enfrentaram em um estádio com ocupação quase lotada (21.500 pessoas) pela 11ª rodada (jogo adiado anteriormente). O jogo resultou no placar de 3 x 2 para o Atlanta, sendo que o visitante abrira 3 x 0 até os últimos minutos da partida, quando o time da casa conseguira diminuir com 2 gols.

Jogo divertido em um estádio pouco confortável, mas agradável de ser ver. Na imagem 1, podemos observar uma visão parcial da cancha:

Imagem 1: Estádio Islas Malvinas. Autor: André Couto

Como podemos observar, e que ocorre em muitos estádios da Argentina, a torcida organizada localiza-se em uma parte oposta dos demais torcedores do mesmo time. Do lado de cá, ingressos mais caros, muitos idosos e mulheres participavam do jogo. De lá, muitos jovens e homens.

Com o placar adverso, a torcida logo no final do jogo, partia para uma briga generalizada com a polícia local, conforme podemos observar em um jornal popular de Buenos Aires.

Imagem 2: Cobertura do jogo pelo jornal Clarín. Autor: André Couto.

Parte da violência se explica na Argentina pelos problemas sociais e econômicos a que o o país passa há muitas décadas. A economia voltou a apresentar índices bem impopulares com o o atual governo Macri, um liberal eleito sob a égide de sua origem empresarial e futebolista (fora presidente do Boca Juniors, entre 1995 e 2007).

Há poucos dias atrás, inclusive, em outro jogo, porém pela quarta divisão argentina, uma granada fora encontrada no estádio, durante a disputa entre Ituizangó e Deportivo Merlo, conforme podemos reproduzir em matéria do site abaixo:

https://trivela.com.br/a-policia-encontrou-uma-granada-sob-as-arquibancadas-visitantes-antes-de-um-classico-na-argentina/

Outra questão importante é compreender que parte das rivalidades entre os clubes argentinos se explicam pela proximidade e pela rivalidade entre os bairros. Um dos maiores rivais do All Boys (time do bairro de classe média de Buenos Aires chamado Monte Castro) é o Chacaritas Juniors (de bairro próximo), que por sua vez, rivaliza também com o Atlanta (do bairro judeu Villa Crespo). Disputas futebolísticas que avançam pelos territórios urbanos de Buenos Aires (logo abaixo, verificamos o mapa da cidade, dividida por bairros), não apenas pela proximidade entre os bairros mas pela capacidade de ignorar a autoridade policial, o que tem muito a ver com a história de enfrentamento dos movimentos sociais e políticos neste país.

Em apenas 6 dias na cidade, presenciei pelo menos duas grandes manifestações corporativas pelas ruas da capital: uma de enfermeiras e profissionais da saúde, outra de professores, ambas com a perda de direitos trabalhistas, sem falar que no final da semana ocorreria mais uma grande paralisação de aeroviários.

Outro fato importante nos deixa intrigado: a bandeira da Palestina na torcida do All Boys tem a ver com uma identidade com a cultura deste povo ou com a rivalidade do bairro judeu do Atlanta? Para tanto, nos faltam dados confiáveis e empíricos para chegarmos a qualquer conclusão plausível. Todavia, o detalhe é destacado pela imprensa local.

Imagem 3: Mapa de bairros da cidade de Buenos Aires. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Bairros_de_Buenos_Aires#/media/File:Mapa-CABA-Barrios-Nombres.svg

Obviamente, o objetivo do post não foi fazer nenhuma análise sobre a violência argentina, mas apenas pensar em algumas questões importantes: 1) a de nunca abrirmos mão de uma conjuntura contemporânea onde o fenômeno esportivo está inserido; 2) a de refletirmos sobre a história da sociedade que pesquisamos (a argentina, por exemplo, que não deixa a memória sobre a ditadura militar se esvair ou se tornar uma possibilidade política como aqui no Brasil, por exemplo); 3) a de entendermos as lógicas urbanas que permeiam não apenas o espraiamento do esporte (como numa cidade que tem uma quantidade gigantesca de estádios de futebol como Buenos Aires) e nas consequentes rivalidades e aproximações que daí podem derivar.

Finalmente, convido a pensarmos mais nos clubes menores dos países latino americanos, e suas respectivas idiossincracias a  fim de entendermos mais das pessoas do que de personagens curiosos, mais da História real do que de uma História mítica.

Imagem 4: Entrada do Estádio Las Malvinas. Autor: André Couto.