Revista Recorde: novo número no ar (v. 11, n. 2, jul.-dez. 2018)

17/11/2018

Informamos que acaba de ser publicada uma nova edição de Recorde: Revista de História do Esporte.

A edição está disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/Recorde/index

Recorde: Revista de História do Esporte
v. 11, n. 2 (2018)
Sumário
https://revistas.ufrj.br/index.php/Recorde/issue/view/1149

Artigos
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EL PADRE DE LA MEDICINA DEPORTIVA ARGENTINA O ACERCA DE CÓMO FABRICAR
CAMPEONES, DÉCADAS DEL ’20 Y ’30, SIGLO XX
Pablo Ariel Scharagrodsky
A “RELIGIÃO LEIGA DA CLASSE OPERÁRIA” E OS SENTIDOS DA CIDADE:
URBANIZAÇÃO, TRABALHO E FUTEBOL NA CIDADE DE SANTOS (1892 – 1920)
André Luiz Rodrigues Carreira
FUTEBOL E MERCADO EM BELO HORIZONTE: O PROFISSIONALISMO E A CONSTRUÇÃO DO
MINEIRÃO (1933-1965)
Sarah Teixeira Soutto Mayor,    Georgino Jorge de Souza Neto
O MESTRE ARTUR EMÍDIO DE OLIVEIRA E A DEFESA DA CAPOEIRAGEM ENQUANTO
“LUTA NACIONAL”
Roberto Augusto A. Pereira
SURFE, “CONTRACULTURA” E LUCROS: AS ESTRATÉGIAS DA IMPRENSA
ESPECIALIZADA NA FRANÇA
Christophe Guibert
“DESAFIO É COISA PARA MACHO”: VIRILIDADE E DESIGUALDADE DE GÊNERO NO
TURISMO DE AVENTURA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
Diego Santos Vieira de Jesus
AS ESTATÍSTICAS DE FUTEBOL COMO FONTE DE PESQUISA: O CASO DO “CIRCUITO
CLUBÍSTICO” BELO-HORIZONTINO
Marcus Vinícius Costa Lage
CONSTRUINDO CAMINHOS DE POSSIBILIDADE EM VITÓRIA DA CONQUISTA-BA: O MESTRE
SARARÁ E A MEMÓRIA DA CAPOEIRA ENTRE OS ANOS DE 1960 E 1970
Jonatan dos Santos Silva,       Paula Barreto Silva,    Felipe Eduardo Ferreira
Marta

Entrevistas
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ENTREVISTA CON CARLES SANTACANA
Euclides de Freitas Couto

Resenhas
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HANDEBOL EM PAUTA: RESENHA DO FILME “FOREVER THE MOMENT”
Guilherme Moreira Caetano Pinto,        José Roberto Herrera Cantorani, Claudia
Tania Picinin,  Jessyca Moraes, Bruno Pedroso

Sobre a Nossa Capa
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VOLUME 11, NÚMERO 2

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Recorde: Revista de História do Esporte
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Aventuras juvenis, ficção e a cultura do surfe

11/11/2018

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

The Grommets: The Secret of Turtle Cave é um livro ficcional ilustrado voltado para o público infanto-juvenil. Foi escrito por Mark-Robert Bluemel e publicado de forma independente/amadora em 2007. Teve uma sequência em 2014, com o título The Grommets: Big Island Justice. O autor é um advogado e surfista que vive em San Diego (Califórnia, EUA). Trata-se da estreia do autor no universo ficcional. Embora eu tenha classificado a produção como independente/amadora (em função de características do projeto gráfico, erros de revisão etc.), o exemplar que li integra a segunda edição, o que sugere que a primeira foi vendida até se esgotar.

A obra conta uma história envolvendo três adolescentes: Buzz (o narrador), Oz e Jimbo. A história não menciona uma cidade ou ano em que se situe, mas uma série de elementos sugerem o Sul da Califórnia e o início dos anos 1990 como espaço e tempo da trama. No caso do litoral Sul da Califórnia: a diferença de temperatura do mar entre o verão e o inverno; a existência de encostas com pedras e cavernas no litoral; a descrição das origens étnico-raciais dos adolescentes (algo muito relevante na sociedade estadunidense como um todo, não apenas no estado em questão): um descendente de peruanos, outro de “nórdicos”; o fundo de areia sobre o qual quebram as ondas; a casa “amarela com telhado em estilo espanhol” em que o protagonista Buzz vive com os pais (p. 13); o crowd de surfistas no mar; a ideia de recorrer aos livros disponíveis na biblioteca pública local quando precisam buscar informações sobre um assunto (a presença de cavernas no litoral).

Quanto à época em que se passa a trama, ainda não existiam telefones celulares: boa parte dos contatos entre as pessoas se dão com ligações entre telefones fixos. Frequentemente, com interferências indesejadas (para os adolescentes) por parte dos pais, que atendem as ligações e controlam o acesso aos aparelhos, quase sempre localizados na sala das residências. Tampouco há computadores para uso pessoal nas casas, nem menção à existência de internet. Mas há um aparelho de TV que, acoplado a um videocassete, permite aos adolescentes “assistir ao boletim das ondas e vídeos de surfe” (p. 49).

Dois deles residem próximo ao litoral (levam 10 minutos de bicicleta, enquanto o terceiro leva 45) e um deles pretende passar o verão auxiliando o pai em tarefas em troca de pagamento de forma a juntar dinheiro para comprar uma prancha nova. A vitrine da surf shop local é uma referência importante de consumo e de desejo para os adolescentes, que sonham em especial com as pranchas novas expostas. No quarto do protagonista, que narra o livro em primeira pessoa, há “nas paredes pôsteres de revistas de surfe” (p. 13).

Lendo a obra, especialmente as passagens relativas a sensações experimentadas ao surfar, lembrei-me de artigos em que o historiador Douglas Booth argumenta que a história do esporte dedica escasso tempo e atenção a essa questão (como este). Em The Grommets há descrição de várias sensações envolvidas no ato de surfar: ao descer ondas, realizar manobras, furar ondas. Refiro-me não apenas a uma descrição dos movimentos corpóreos realizados, mas daquilo que o surfista sente: prazer, alegria, êxtase, hesitação, medo. Ou cansaço: ao voltar para casa de bicicleta, com a prancha debaixo do braço, após horas de esforço físico surfando. Logo no início, o narrador afirma: “você realmente tem que amar o esporte para acordar de madrugada e pular na água gelada” (p. 1).

Na tentativa de transmitir ao leitor tais sensações, o autor lança mão de expressões comuns no universo do surfe: a comparação com uma “boneca de pano dentro de uma máquina de lavar” para emular as sensações que um surfista tem ao levar um caldo violento; a afirmação de que o tempo parece parar quando se está dentro do tubo; a sensação de voar ao descer a onda e ao realizar certas manobras (mesmo sem dar aéreos, manobra restrita ao repertório de poucos surfistas amadores naquela época). Ainda nesse âmbito, há características que remetem à experiência pessoal vivenciada no esporte. Por exemplo, a noção de que há dias bons e dias ruins. Nos primeiros, têm-se a sensação de que tudo dá certo e a confiança adquirida ajuda a acertar ainda mais. Nos últimos, acontece o contrário, e a perda de confiança em geral estimula a piora de desempenho.

Há também descrições/explicações mais técnicas: movimentos e manobras e de como muitos destes têm nomes específicos (dentro de um vocabulário corrente da modalidade, como acontece com outras práticas corporais); da formação das ondas. Algumas passagens misturam uma descrição de características do esporte com um tom de advertência em relação a possíveis riscos, como no caso das correntes/correntezas (um potencial risco à vida de nadadores e surfistas que não as percebam e nadem na direção contrária). As recomendações e conselhos sobre o que fazer e que não fazer, noções de certo e errado e afins, na maioria das vezes, aparecem em falas do pai de Buzz. Mas, às vezes, nas do protagonista, como quando diz que um surfista nunca deve rabear outro (p. 17). Em três ou quatro momentos, recomenda-se que surfistas novatos devem evitar os dias em que o mar está muito forte, com ondas grandes. Isso os faz evitar riscos desnecessários para si próprios e para os demais surfistas. Em The Grommets é possível encontrar recomendações como não mentir para os país, não desapontá-los etc., o que me parece ser comum neste tipo de literatura. No caso, os riscos e problemas decorrentes da desobediência às vezes têm a ver diretamente com o surfe – como Buzz desrespeitar a proibição de pegar onda próximo a pedras e falésias.

A narrativa se desenvolve praticamente toda em torno de um verão. As férias escolares, o sol e o calor permitem ao protagonista aproveitar o tempo livre com uma série de atividades com seus melhores amigos – e, imagino, ao autor elaborar uma narrativa que também seja uma leitura atraente para adolescentes (de férias ou não, californianos ou não). Segundo May (2002), desde meados dos anos 1950, houve na sociedade estadunidense – sobretudo na indústria cultural, mas não só – um intenso processo de construção da Califórnia como o destino de sonho nos Estados Unidos. Tal imagem de lugar onde se deseja viver e/ou passar as férias permanece muito forte no imaginário do país. Particularmente o Sul daquele estado – cidades como San Diego – é um dos lugares mais procurados no turismo interno do país. Trata-se de uma obra divertida e leve. Talvez possa também ser usado como livro livro paradidático, pois conta com passagens e elementos que podem ser facilmente apropriados para aulas de matérias como Biologia, Geografia, Física e História. No caso da última, por exemplo, há referências ao enriquecimento de contrabandistas (traficantes) durante o período da Lei Seca. O que me interessa aqui, na linha de outros textos que venho escrevendo neste blogue, é traçar alguns apontamentos que permitam observar essa obra e esse tipo de obra – obras literárias para o público infanto-juvenil – como uma fonte histórica para a história do esporte.

O foco da trama são peripécias na exploração de uma caverna. Secundariamente, a relação de amizade que os três estabelecem com Nana, a idosa que vive à beira-mar e que é salva por eles de se afogar. Nana fazia exercícios matinais de natação e teve cãimbras em ambas as pernas. O episódio diz respeito a um aspecto comum do universo do surfe, mas pouco presente em suas representações artísticas e midiáticas: tanto a presença física dos surfistas no mar ajuda a perceber situações de afogamento (às vezes difíceis de enxergar desde a praia) como o fato de usarem pranchas facilita o salvamento (a prancha é um objeto flutuante ao qual a pessoa que está se afogando pode se agarrar, evitando colocar em risco a vida de quem tenta resgatá-la).

O enredo não tem propriamente vilões, apenas um antagonista com escassa presença. Também é surfista, mas, na situação em que é apresentado, usa uma camisa de um time de futebol americano. Tampouco há conflitos entre surfistas de diferentes grupos (geracionais, longboarders x shortboarders, exímios x iniciantes, etc.).

O surfe ocupa papel central na vida do trio de adolescentes (e não só porque estão de férias) e o consumo midiático é parte importante do processo. Buzz fica excitadíssimo quando recebe pelo correio, a cada mês, a edição da revista Surfer’s World, da qual tem uma assinatura. A principal punição recebida dos pais quando faz algo errado é ficar impedido de surfar por uma certa quantidade de dias (em se tratando de algo grave, geralmente é combinada com proibição de ver TV, falar no telefone e encontrar os amigos). O protagonista adora passar tempo com amigos no próprio quarto, lendo “revistas de surfe” e assistindo vídeos sobre surfe.

Quando não há ondas, uma das atividades favoritas de Buzz, Oz e Jimmy é andar de skate. Eles consideram que o skate permite emular os movimentos corporais e manobras do surfe – e, em alguma medida, as sensações proporcionadas. “Temos alguns amigos que amam o skate e só surfam ocasionalmente, por brincadeira. Somos exatamente o contrário. Meus amigos e eu preferimos surfar todo dia!” (p. 53) A comparação ressalta a diferença quando se cai: no skate, geralmente o corpo atinge o asfalto. Por isso, “é sempre necessário para qualquer um usar equipamentos de segurança e um capacete quando você anda no cimento”. Natação (no mar), skate (shortboard e longboard), mergulho, pesca submarina, remo, andar de bicicleta e escalar cordas também são mencionados na trama, embora quase sempre como exercícios, atividades de lazer ou parte da rotina, mas não propriamente como esportes.

Perto do fim da trama, evidentemente, a aproximação do fim das férias de verão – e do retorno das aulas escolares – apavora os adolescentes. No entanto, como esperado, há um final feliz – surfisticamente falando, inclusive. Graças a uma recompensa recebida, realizam o desejo de comprar uma prancha nova e uma nova roupa de neoprene – mas os pais os obrigam a depositar a maior parte do valor numa poupança com o objetivo de juntarem dinheiro para pagar a universidade. Coisas de um país que não conta com ensino superior público e integralmente financiado pelo estado, como (ainda) é o caso do Brasil.

Referências bibliográficas

BOOTH, Douglas. História, cultura e surfe: explorando relações historiográficas. Recorde, Rio de Janeiro, v. 8, n. 1, p. 1-24, jan./jun. 2015. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/Recorde/article/view/2307/1951 .

MAY, Kirse Granat. Golden State, Golden Youth: The California Image in Popular Culture, 1955-1966. Chapel Hill, London: The University of North Carolina Press, 2002.

Para saber mais

  • Um exemplo de livro infanto-juvenil brasileiro abordando temática dos esportes radicais: Nas ondas do surf, de Edith Modesto. Apesar do título, a trama é sobre bodyboard, e não surfe.
  • Victor Melo tem publicado artigos e livros abordando livros de ficção como objeto e fonte histórica. Ver, por exemplo, este artigo a respeito de Os Maias.
  • Douglas Booth tem publicado artigos com diversas provocações a respeito da necessidade de o historiador lançar mão de sensações, sentimentos, emoções e afetos na escrita da história do esporte.

Dois Fluminenses em Niterói

02/11/2018

por Victor Andrade de Melo

Todo mundo conhece o Fluminense Futebol Clube, uma das primeiras agremiações do Rio de Janeiro a se dedicar ao velho esporte bretão. A cidade de Niterói, curiosamente, tem dois “Fluminenses” ainda vivos!

Esse post é parte do livro que estou escrevendo sobre o esporte na Cidade Sorriso. Compartilho um pedacinho dessas descobertas.

Vejamos a imagem abaixo.

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Remadores do Sport Club Fluminense, 1923
Disponível em: <https://www.facebook.com/OlharNictheroy/&gt;

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O Sport Club Fluminense foi fundado, em 1916, na Ponta D´Areia, na Avenida Visconde do Rio Branco (Rua da Praia).  Promovia suas regatas na parte do litoral conhecida como Praia Grande (de onde, inclusive, veio o primeiro nome que Niterói teve, em 1819: Vila Real da Praia Grande). Isso é, tratava-se de uma região que ficava à esquerda da atual estação das barcas (olhando do mar para o continente). O clube se encontrava perto do antigo Mercado de Peixe São Pedro, que avançava pelo mar.

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Antigo Mercado de São Pedro
Disponível em: <http://www.mercadodepeixesaopedro.com.br/index.php?page=historia&gt;

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Durante anos, aquela zona ficou conhecida como Praia do Esporte, em função das atividades da agremiação náutica (mas que também se dedicou ao futebol). No mapa abaixo, fica mais claro onde o clube se localizava.

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Em laranja, a região do Sport Club. Em azul, a Praia Grande. Em amarelo, a estação das barcas. Em vermelho, o que hoje é a UFF (construída num aterro; a oficina da Cantareira ainda está lá). Em lilás, a praça em frente ao campus, onde atualmente se encontra o restaurante Tio Coto, A Mineira e a Igreja de São Domingos, que está lá desde o século XIX. Seguindo um pouquinho em direção ao Forte de Gragoatá, marcado em rosa, o Clube de Regatas Gragoatá, criado em 1895.

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Difícil conceber essa paisagem nos dias de hoje em função de tantos aterros, mas os rastros da história são lindos. Vejamos a imagem abaixo, com as mesmas legendas acima.

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O Gragoatá e sua sede são mais conhecidos, mas o que pouca gente lembra é que a sede do Sport Club Fluminense continua de pé. Hoje é o Fluminense Natação e Regatas. Vejamos as imagens abaixo:

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Não confundir esse clube com Fluminense Atlético Clube, também fundado na década de 1910, conhecido como Fluminensinho de Niterói, localizado na Rua Xavier de Brito.

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Fachada do Fluminense Atlético Clube

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Em tempo, os clubes centenários de Niterói que se mantem vivo são:

Grupo de Regatas Gragoatá
Clube de Regatas de Icaraí (está mal das pernas, mas ainda está de pé)
Rio Cricket Associação Atlética (antigo Rio Cricket and Athletic Association)
Rio Yacht Clube (antigo Rio Sailling)
Iate Clube Brasileiro
Fluminense Natação e Regatas (antes Sport Club Fluminense)
Fluminense Atlético Clube (fundo como Rio Branco Futebol Clube)
Fonseca Atlético Clube
Canto do Rio Futebol Clube

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Como se pode ver, foi intensa a vida esportiva da Cidade Sorriso.

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AS NOITES DANÇANTES DE BANGU

28/10/2018

Nei Jorge dos Santos Junior

A noite de sábado do dia 27 de janeiro de 1923 foi marcada por comemorações no bairro operário de Bangu[1]. O baile a fantasia das Sociedades Dançantes Prazer das Morenas e Flor da Lyra movimentaram a região, nos quais membros e simpatizantes das “queridas sociedades” tiveram muitos momentos de diversão até alta madrugada[2]. Pelo lado do Prazer das Morenas, adjetivos como “sucesso”, “grandiosa” e “brilhante” definiram o evento em homenagem às Sociedades Dançantes Suburbanas, destacando, principalmente, a comissão de festas do clube, composta pelas senhoritas Herondina Freire, Adelina Gama, Alice Teixeira, Erresedina Parada, Nair Oliveira e as irmãs Noêmia Guimarães e Benedicta Guimarães[3].

Além da organização, formada sempre por mulheres, indicando um protagonismo feminino no preparo dos bailados, que recebera, aliás, aplausos e elogios das diversas colunas de entretenimento que ali cobriam a festa, outras questões também chamaram a atenção dos jornais[4]. A primeira delas, o entusiasmo dos convidados, “abrilhantados” pela “Caravana Musical”, dirigida pelo Maestro Tenente Gentil Pereira Gonçalves, que não deu trégua aos frequentadores, transformando o baile a fantasia, na opinião de alguns cronistas, o melhor festejo realizado até o momento pela “estimada sociedade”[5]. Certamente, o bairro há de se orgulhar do brilhantismo que compõe a comissão de festas, “constituindo uma das notas mais vibrantes das pugnas carnavalescas da aprazível localidade”, sinalizou o entusiasmado redator do periódico O Imparcial[6].

Nos intervalos das contradanças, houve um leilão de prendas, doadas pelo Sr. José Costa, mais conhecido no bairro como “José Pião”[7]. O segundo ponto, está no especial “lunch” aos representantes da imprensa, além de brindes e uma contradança especial oferecida pelas “gentis morenas” da comissão[8], o qual revela certa ambiguidade na relação imprensa e agremiações populares, que será tratada com maior profundidade mais adiante.

jb-flor-da-lyra

Entre os membros da Flor da Lyra a paixão parecia ainda maior, destacaram os periódicos[9]. A festa teve início às 20h, na “lindíssima” sede do marco 6, em Bangu. Rapidamente o baile lotou, não só com a “enorme presença das principais famílias da localidade como de toda circunvizinhança”[10]. Afinal, a festa foi “abrilhantada” pela orquestra do maestro Gastão Bomfim, “que não deu uma folga sequer nas contradanças até alta madrugada”[11].

O baile seguia “extraordinário”[12]. Para o cronista do Jornal do Brasil, “os inúmeros pares mal conseguiam se movimentar no vasto salão, lindamente engalanado e iluminado por centenas de lâmpadas multicores”[13]. Compartilhando da mesma opinião, o cronista do jornal O Imparcial vai além, para ele “é de lamentar-se o salão não ser cinco ou seis vezes maior, devido a entusiasmada animação que despertam os bailes da Flor da Lyra”[14].  Por fim, como uma espécie de “mimosidade”[15], os cronistas foram agraciados com uma bela valsa, lavrada pelo aplaudido maestro Gentil Gonçalves.

Àquela altura, já eram muitas as pequenas sociedades voltadas para o lazer nos subúrbios da cidade. Para além das homenagens expostas acima, tratava-se de mais um dos muitos bailes ofertados mensalmente pelos diversos clubes da região, os quais mereciam a cobertura dos principais órgãos da imprensa carioca, entre eles, O Imparcial, a Gazeta de Notícias, O Paiz e o Jornal do Brasil.

jb-prazer-das-morenas

Além de revelar o espaço cada vez mais privilegiado que os veículos dedicavam aos festejos suburbanos, as “brilhantes festas”, parafraseando o termo utilizado por vários autores que cobriam os bailes, são importantes indicadores para compreendermos o universo de entretenimento nos arrabaldes da cidade. Ali, festejavam homens e mulheres coletivamente, em sociedades espalhadas por diferentes bairros, produzindo uma infinidade de práticas, linguagens e costumes. Através delas, podemos desvendar teias de sociabilidade expressivas nas disputas por legitimidade e na atribuição de significados, analisando as tensões latentes sob os sentidos e representações de diversão à moda suburbana.

Não por acaso que o número de festas em Bangu já se mostrava um relevante hábito social consolidado. Afinal, como sustenta Pereira, fala-se dos bailes suburbanos, capazes de desertar o entusiasmo dos moradores se transformando em elemento fundamental da experiência de seus pares[16]. Contudo, é importante chamar a atenção que essa relação não deixou de ter seus matizes, tampouco esvaziado de contradições. Na verdade, como já tratado em outros textos no blogue, é justamente sobre essa relação tênue e dúbia que merece atenção, não somente referente às oscilações da grande imprensa e suas representações sobre o comportamento suburbano, notadamente pelos discursos de subtração dos bárbaros folguedos tradicionais, como também a demarcação de grupos mais apropriados e bem colocados incorporados a um desenho hierárquico do conjunto das manifestações populares.

[1] Jornal do Brasil, 27 de janeiro de 1923, Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923; O Paiz, 27 de janeiro de 1923; Gazeta de Notícias, 29 de janeiro de 1923.
[2] Jornal do Brasil, 27 de janeiro de 1923, Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923; O Paiz, 30 de janeiro de 1923; Gazeta de Notícias, 29 de janeiro de 1923.
[3] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923 e Gazeta de Notícias, 29 de janeiro de 1923.
[4] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923.
[5] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923.
[6] O Imparcial, 30 de janeiro de 1923.
[7] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923.
[8] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923.
[9] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923; O Paiz, 30 de janeiro de 1923.
[10] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923.
[11] Ibid.
[12] O Imparcial, 30 de janeiro de 1923.
[13] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923.
[14] Ibid.
[15] Ibid.
[16] PEREIRA, L. A. M. O Prazer das Morenas: bailes ritmos e identidades no Rio de Janeiro da Primeira República. In: MARZANO, A. e MELO, V. Vida Divertida: histórias do lazer no Rio de Janeiro (1830-1930). Rio de Janeiro: Apicuri, 2010, p.276.

“Taça Flamengo”: primeira competição esportiva periódica entre militares da Marinha do Brasil e do Exército Brasileiro

22/10/2018

por Karina Cancella

Nas primeiras décadas do século XX, militares da Marinha do Brasil (MB) e do Exército Brasileiro (EB) iniciaram o processo de institucionalização da prática esportiva com a criação da Liga de Sports da Marinha (LSM) e a Liga Militar de Football (LMF), ambas no ano de 1915. Inicialmente, as duas ligas organizavam competições apenas entre seus quartéis, batalhões e navios, promoviam treinamentos e mediavam a participação de seus militares em competições organizadas por instituições civis na condição de convidados. Eventos esportivos envolvendo as duas forças ainda não eram um ponto de interesse nos primeiros anos de atividade das ligas.

A primeira competição planejada exclusivamente para envolver militares da MB e do EB foi patrocinada pelo Clube de Regatas Flamengo. No mês de junho de 1917, a LSM e a LMF receberam a doação de uma taça que iniciou a disputa de uma competição específica entre Marinha e Exército que se prolongou até a década de 1920. Na sessão da Diretoria de 27 de junho de 1916, registrou-se “officio de 19 do corrente, recebido a 24, do Clube de Regatas Flamengo (C.R. Flamengo), declarando oferecer uma taça para ser disputada annualmente entre Exercito e Marinha, e pedindo o comparecimento de um representante da Liga no dia 21, para fixar as fases da disputa”.[1]

A disputa da chamada “Taça Flamengo” é a primeira competição organizada pelas LSM e LMF, em parceria com o C.R. Flamengo, onde há referência direta à cobrança de ingressos para espectadores:

Com relação ao jogo contra o Exercito, em disputa da taça offerecida pelo C.R. Flamengo, com consta a acta da sessão de 27 de junho do anno passado, o Director Secretario communica que fixou com o 1o Secretario da Liga Militar de Football, ao referendum das respectivas directorias, as seguintes bases para a disputa deste anno: 1o. Os teams serão de praças; 2o. O arbitro será indicado pelo Club do Flamengo e aceito por ambas as Ligas; 3o. Si o jogo terminar em empate o desempate será feito em outro dia segundo o modo que se combinará; 4o. A renda liquida dos portões será dividida assim: 50% do Club offertante; 25% a cada uma das Ligas; 5o. Os secretários das duas Ligas ficaram com poderes plenos das duas Directorias para combinarem os detalhes de encontro e as fixarem com o C.R. Flamengo. Foram unanimente approvadas estas bases. Resolveo-se mais com relação ao mesmo assumpto: convocar o Conselho Director para o dia 22, as 4 ½ pm, com o fim de solicitar autorisação de organisar um scratch team para jogar contra o Exercito, visto que de tal não cogitar os Estatutos; e, apos a autorisação referida, convidar o Cap. Tenente Soares de Pinna para organisar o scratch team, e dar os mais passos necessários com relação ao caso.[2]

A primeira disputa da Taça Flamengo foi realizada em 29 de abril de 1917 e seu resultado divulgado na sessão da Diretoria da LSM de 02 de maio do mesmo ano.

Venceo o team da Liga de Sports da Marinha, que bateo o do Exercito por 4×1. No torneio de cabo de guerra, que se fez no mesmo dia entre teams de Exercito e Marinha, tomaram parte, pela Marinha, Batalhão Naval, Bahia, Benjamin Constant e Flotilha de Submersíveis. Nas eliminatórias da Marinha venceo o C. Bahia, que jogou a final contra o team do 2o. Reg. de Infantaria, vencedor nas finaes, alias, eliminatórias do Exercito. Foram na mesma occasião executados exercício de gymnastica sueca, pela C. Minas Geraes e um de esgryma de bayoneta, pelo Batalhão Naval. Compareceram a festa os Srs. Presidente da Republica, Ministro da Marinha e varias pessoas de posição official convidadas. Todas as demais pessoas pagaram entrada.[3]

Este evento gerou uma discussão intensa entre Exército e Marinha na organização da segunda edição, no ano de 1918. Nas sessões de Diretoria da LSM dos dias 12 de março, 22 de março e 25 de março de 1918 registraram-se os debates sobre a disputa. Em 12 de março, foi recebida autorização para a realização da Taça Flamengo, contra o Exército, nos mesmos termos da competição do ano anterior, a ser realizado no campo do Flamengo. Na ata de 22 de março, foi registrado que a Diretoria, em comunicação telefônica com o Capitão Castelo Branco, 1o. Secretario da Liga Militar de Football, soubera que a LMF tinha a intenção de não enviar seu time para o campo do Flamengo no dia combinado para realizar a disputa da Taça. As justificativas eram as más condições do campo e que a LMF não conseguiu reunir um bom time para a competição. Havia, por parte da liga do EB, a pretensão de adiar o jogo e publicar notícias nos jornais informando o cancelamento da partida. A Diretoria da LSM, na mesma comunicação, disse ao representante da LMF que seria melhor não noticiar nos jornais, por achar que seria o caso de uma comunicação direta entre as Ligas e porque o jogo deveria sim ser realizado, já que as combinações e convites oficiais já haviam sido feitos, inclusive ao Presidente da República. No entanto, mesmo sendo solicitada a não comunicação na imprensa sobre o cancelamento do jogo, em 21 de março de 1918, na página 9 do jornal “O Imparcial”, foi divulgada uma nota da LMF informando que não seria mais realizada a disputa da Taça Flamengo daquele ano.[4]

Após discussão com os diretores da LSM presentes na reunião, ficou aprovada a manutenção da realização do jogo e não aceitar o adiamento proposto pela LMF, mandando o time a campo na data combinada. O Diretor-Presidente da LSM ainda informou que iria tomar providências para desfazer os convites oficiais realizados e que, em comunicação com o C.R. Flamengo, foi confirmada a disponibilidade do campo para a realização do evento no dia 24. Em 25 de março, registrou-se que os diretores da LSM e seu time compareceram no dia anterior ao campo do Flamengo para o torneio agendado. O time da Liga Militar de Football não compareceu e foi registrado um atestado pelo C.R. Flamengo sobre o fato. Resolveram, então, enviar ofício para a liga do EB informando que a LSM enviou seu time no dia 24 para o torneio acompanhado de uma fatura de sua parte das despesas contraídas em comum pelas duas Ligas para a realização da disputa da Taça Flamengo.[5]

Nas atas seguintes não há retorno de debate sobre a competição não realizada, mas os episódios relatados demonstram certa animosidade entre as duas Ligas Militares no processo de organização da disputa de 1918. No entanto, um aspecto interessante foi a manutenção do evento, mesmo sabendo da intenção de não comparecimento declarada pela Liga do EB, em vista dos custos já contraídos para a preparação da competição. Além disso, mesmo com a não realização, a cobrança, ao menos em tese, da parcela que seria de obrigação do Exército pode ser compreendida como uma forma de penalidade financeira pelo não cumprimento de um compromisso esportivo (CANCELLA, 2014).

A Taça Flamengo foi disputada, segundo os registros localizados, até 1924. No ano de 1919, no entanto, não há registro de realização da competição por conta da ocorrência da Primeira Grande Guerra. A LSM paralisou a organização de atividades esportivas durante o período de mobilização e atuação da Divisão Naval de Operações de Guerra (DNOG).[6]

Em junho de 1919, a LSM retomou suas atividades com a organização de uma “festa sportiva militar” em homenagem à tripulação da DNOG que regressava ao Brasil. A proposta era a realização do evento no C.R. Flamengo e o programa envolvia “jogo de bola”; corrida da serpente; jogo de dado; cabo de guerra para marinheiros, navais e reserva; corrida de obstáculos; esgrima de baioneta; ginástica sueca; match de futebol entre marinheiros e navais e a execução do hino nacional.[7]

A revista Careta publicou, nas edições de 14 de junho, 21 de junho e 28 de junho de 1919, fotografias de diferentes aspectos da recepção da Divisão Naval. Uma das imagens retratava os militares que a integraram, fazendo referência na legenda ao Capitão-Tenente Lemos Basto, que se afastou da diretoria da LSM pela convocação para esta comissão; imagens das crianças das escolas municipais que estiveram presentes no evento; fotografias da festa sportiva promovida pela LSM aos marinheiros que regressaram da guerra com as partidas de futebol realizadas entre os marinheiros nacionais e o Batalhão Naval e os diferentes grupos presentes na festa a bordo do Encouraçado Minas Gerais.[8]

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Fotografias publicadas na Revista Careta retratando as competições esportivas realizadas no festival em homenagem ao retorno da Divisão Naval de Guerra. Fonte: Revista Careta 21 de junho de 1919, p. 23.

 

A revista Careta também divulgou aspectos das competições da Taça Flamengo nos anos de 1920 e 1921.

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Fotografias publicadas na revista Careta da Festa Esportiva Militar realizada entre Exército e Marinha no campo do Clube de Regatas Flamengo – Taça Flamengo 1920. Fonte: Revista Careta 30 de outubro de 1920, p. 20.

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Fotografias publicadas na revista Careta da Festa Esportiva Militar realizada entre Exército e Marinha no campo do Clube de Regatas Flamengo – Taça Flamengo 1921. Fonte: Revista Careta 15 de outubro de 1921, p. 22.

 

A Taça Flamengo também fez parte do programa de competições dos Jogos do Centenário, realizados no Rio de Janeiro em 1922.[9] A imagem abaixo faz parte do acervo do Museu de Desporto do Exército e apresenta uma imagem do estádio durante a realização da disputa.

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A Taça Flamengo inaugurou esse sistema de competições esportivas periódicas entre membros das Forças Armadas brasileiras. Ao longo do século XX, inúmeras outras competições foram organizadas entre Marinha e Exército e, a partir de sua criação, também Força Aérea Brasileira. Os eventos envolviam times de quartéis, batalhões, navios e escolas de formação. Ano a ano, um intenso calendário de competições foi se construindo e se estende até os nossos dias, sendo atualmente gerenciado pelas Comissões Desportivas de Marinha, Exército e Aeronáutica (CDM, CDE e CDA) e pela Comissão Desportiva Militar do Brasil (CDMB).

 

Referências:

CANCELLA, Karina. O esporte e as Forças Armadas na Primeira República: das atividades gymnasticas às participações em eventos esportivos internacionais. Rio de Janeiro: BibliEx, 2014.

 

Notas:

[1] “Sessão da Diretoria de 27 de junho de 1916”. Livro Histórico Departamento de Esportes da Marinha – Volume I – Anexo I.

[2] “Sessão da Diretoria de 19 de janeiro de 1917”. Livro Histórico Departamento de Esportes da Marinha – Volume I – Anexo I.

[3] “Sessão da Diretoria de 02 de maio de 1917”. Livro Histórico Departamento de Esportes da Marinha – Volume I – Anexo I.

[4] O Imparcial 21 de março de 1918, p. 9.

[5] “Sessão da Diretoria de 12 de março de 1918”, “Sessão da Diretoria de 22 de março de 1918”, “Sessão da Diretoria de 25 de março de 1918”. Livro Histórico Departamento de Esportes da Marinha – Volume I – Anexo I.

[6] “Sessão da Diretoria de 23 de abril de 1918”, “Sessão da Diretoria de 25 de fevereiro de 1919”. Livro Histórico Departamento de Esportes da Marinha – Volume I – Anexo I.

[7] “Sessão da Diretoria de 02 de junho de 1919”. Livro Histórico Departamento de Esportes da Marinha – Volume I – Anexo I.

[8] Revista Careta 14 de junho de 1919, p. 16; Revista Careta 21 de junho de 1919, p. 23; Revista Careta 28 de junho de 1919, p. 16.

[9] Para saber mais sobre esse evento, veja o post “E o Rio de Janeiro já foi quase ‘olímpico’”. Link: https://historiadoesporte.wordpress.com/2016/08/15/e-o-rio-de-janeiro-ja-foi-quase-olimpico/


Autogol – Tragédias pessoais entre a ficção e a realidade

15/10/2018

O tema do presente post é uma obra literária inspirada em fatos reais que tem como cenário a eliminação da seleção colombiana de futebol do mundial realizado nos Estados Unidos e o assassinato em Medellín, do zagueiro Andrés Escobar Saldarriaga,  poucos dias após o retorno ao seu país.

Autogol é um romance do colombiano Ricardo Silva Romero, importante escritor, poeta e jornalista que atualmente possui colunas nos jornais El Tiempo colombiano e El País espanhol. Trata-se de uma narrativa densa onde futebol, política, cultura e sociedade na Colômbia são abordados a partir do drama pessoal de dois personagens, um fictício, o locutor esportivo Pepe Calderón Tovar que teria perdido a voz, todas as suas economias, seu emprego com a eliminação da seleção colombiana ainda na primeira fase e o zagueiro Escobar, capitão do Atlético de Medellín que ficou marcado por fazer um gol contra na segunda partida contra os Estados Unidos durante a Copa de 1994 e acabou sendo executado na saída de uma boate poucos dias depois de regressar para sua cidade natal.

Na primeira parte do romance ou o primeiro tempo como estabelece o autor, a narrativa é feita com diversas referências futebolísticas a partir da experiência profissional e da memória esportiva do personagem central, o narrador “El Gordo” Pepe que além de ser uma figura carismática era um apaixonado por futebol com grande conhecimento memorialístico e referência na locução esportiva do país.

Pepe estava acompanhando a seleção colombiana que tinha feito uma ótima campanha nas eliminatórias, tendo inclusive goleado a seleção argentina em Buenos Aires por 5×0, e descreve a passagem de um clima de euforia e festa para tristeza e indignação entre jornalistas, jogadores, dirigentes esportivos, apostadores, traficantes, torcedores que estavam nas partidas, hotéis, centros de imprensa e treinamento junto com a equipe dirgida por Francisco Maturana. Uma equipe cheia de estrelas como Carlos Valderrama, Faustino Asprilla, Fredy Rincón que teria chegado ao torneio como uma das favoritas, mas acabou decepcionando seus compatriotas.

O autor consegue contrapor muito bem a paixão pelo futebol com as críticas ao que seria o lado sujo do futebol: apostas, juízes comprados, vaidade entre os jogadores, exploração de atletas por empresários são alguns temas que aparecem bastante ao longo do romance como realidades veladas a partir do discurso de Pepe. Observem o trecho a seguir:

“ Colombia no era un equipo a esas alturas de la vida. Todo estaba en contra de nosotros como en una tragedia hecha por griegos. Se movían, que se supieran quatro mil milliones de pesos em apuestas. Y el equipo había entregado línea por línea, desde la notícia de las amenazas de muerte. Pero y si de pruento en un descuido del destino, el Pibe Valderrama le metía uno de esos pases a Freddy Rincón? Y si como había sucedido tantas veces, los jugadores habían superado la resaca de la noche pasada justo a tiempo de jugar la mejor partida de sus vidas?

Así es el fútbol. Yo no me lo inventé. Se puede conocer todo lo que pasa en los camerinos, que tal marcador de punta no sabe leer, ni escribir, que el puntero derecho le pelaba las naranjas a la hijita de Pablo Escoobar, que el técnico metió el volante peruano porque es el dueño de la mitad de su pase, que la nariz del goleador naufragaba en cocaína el sábado anterior al partida, bla, bla, bla, pero a la hora del partido como a la hora de uma obra de teatro no se anda pensando que eses tipos solo son actores que pagan cuentas en las tras escena, la realidad nos deja en paz, creemos ciegamente como en el cine, que lo que vemos es lo que está pasando”( ROMERO,pg 103)

Pepe apesar da inquestionável paixão pelo futebol simbolizada por coleções de autógrafos de jogadores, imortalizada na lembrança da escalação e dos resultados de diversas seleções da História, com uma vida inteira dedicada ao jornalismo esportivo no rádio e na televisão sofre uma decepção enorme com a eliminação precoce da seleção colombiana envolta em diversos boatos de ameaças dos cartéis de drogas a alguns jogadores, interesses de casas de apostas, brigas entre atletas e a culminância psicológica seria justamente o gol contra de um atleta que a princípio teria um comportamento como cidadão exemplar, Andrés Escobar.

“El Gordo” está revoltado com sua situação. Além de ser obeso e ter problemas de saúde, tinha sido abandonado pela esposa dois anos antes, é demitido da emissora GDL, acusado de assédio a uma camareira no hotel dos Estados Unidos, e está na miséria pois apostou suas economias na passagem da seleção colombiana para a segunda fase. Seu ódio acaba sendo canalizado para o gol contra. Sua fúria é muda mas serve de combustível para planejar um assassinato.

O segundo tempo do romance é passado na Colômbia. Enquanto na primeira parte o futebol era o eixo central do enredo, a narrativa neste ponto passa a focar em questões sociopolíticas e características culturais do país.

Pepe retorna para Bogotá onde encontra com os filhos antes de pegar um carro e sem avisar ninguém viaja para Medellín para executar seu plano. No retorno para o país junto com a delegação tinha conseguido marcar um encontro com Andrés Escobar em um bar em Medellín. A própria descrição da viagem de Bogotá para a capital da Antioquia e as memórias de Pepe que são narradas muitas vezes com diversos flashbacks são muito interessantes para compreendermos um pouco mais sobre esse país fascinante que tive a oportunidade de visitar três vezes.

Desde a influência dos cartéis de drogas tanto no futebol, quanto na política e na sociedade com a referência direta à corrupção dos políticos e a eleição do presidente Ernesto Samper em 1994 que teria recebido dinheiro do Cartel de Cali para sua campanha até a descrição das paisagens dessa importante região do país, de hábitos culinários e de vestimenta a segunda parte é um grande mergulho na História contemporânea colombiana a partir de dois dramas pessoais impostos pelo futebol o de Pepe e o de Escobar.

O encontro fictício se dá no dia 02 de julho de 1994 em que Andrés Escobar realmente foi assassinado em uma discoteca na periferia de Medellín por Humberto Muñoz  Castro que estava com um grupo de amigos e era guarda-costas e motorista de um cartel de drogas. Até hoje existem diversas teorias sobre a execução do zagueiro que já estava vendido para o Milan da Itália. A principal delas é de que sua morte teria sido encomendada por apostadores que perderam muito dinheiro com a eliminação da seleção colombiana assim como o personagem Pepe Calderón Tovar. Uma briga com torcedores bêbados também é uma hipótese apresentando, entretanto de qualquer forma a trágica morte de Escobar está associada a uma falha em uma partida de futebol, a um simples gol contra, a uma decisão errada em um milésimo de segundo.

Nesse sentido, o romance Autogol para mim é brilhante por se utilizar de uma tragédia real que abalou o futebol mundial para criar uma ótima ficção com um drama pessoal de um personagem apaixonado por futebol que assim como o zagueiro sofre  consequências trágicas na sua vida em função da paixão por esse esporte. E ainda tem uma empolgante prorrogação no relato dramático de “El Gordo Dom Pepe”.

ROMERO, Silva Ricardo. AUTOGOL. Madrid: La Navaja Suiza Editores, 2018.

PS: O livro foi lançado primeiro em 2009 pela Editora AlfaguaraFOTO AUTOGOL Continue lendo »


O Roubo da Taça (BRA, 2016, Caíto Ortiz)

09/10/2018

IMAGEM - O Roubo da Taça (Caito Ortiz, 2016)

                         

Giulite Coutinho  – Quem será que fez isso? Nós não temos inimigo.

Secretária           – Presidente, tem a Argentina, a Alemanha, Paulo Rossi…

 

Diante de uma enorme ressaca eleitoral, achei por bem encarar uma comédia que há tempos estava me aguardando, na minha interminável lista de filmes que, de alguma maneira, abordam o futebol. A bem da verdade, O Roubo da Taça (Brasil, Caíto Ortiz, 2016) não estava bem cotado no meu ranking de expectativas. Achava, por puro pré-conceito, que dessa fita não sairia nada de interessante. Me enganei. O filme é bem construído, bem filmado, divertido e conta com algumas performances impressionantes. Principalmente de Paulo Tiefenthaler, que toma conta da trama como o vendedor de seguros que tem a ideia de assaltar a CBF. Mas comecemos pelo início.

O Roubo da taça é uma ficção que fala de um evento real e inusitado. A subtração da Taça Jules Rimet, em dezembro de 1983. Acredito que quase todos saibam do que se trata. De qualquer modo, esse troféu foi conquistado pelo Brasil por ter sido o primeiro país a sagrar-se tricampeão mundial. Desde a Copa inaugural, de 1930, o trato era esse. Enquanto ninguém conseguia a façanha, a Jules Rimet excursionava mundo afora, permanecendo quatro anos sob poder da nação campeã do momento. Aliás, a película tem duas ou três entradas informativas, que vão situando esses e outros dados sobre a trajetória da seleção canarinho. Tudo sob a voz em off de Taís Araujo. A atriz é parte narradora e também personagem, interpretando a sedutora Dolores, mulher de Peralta (Paulo Tiefentaler). O personagem de Borracha, um ex-policial e comparsa de Peralta, é vivido por Danilo Grangheia. O ótimo ator Milhen Cortaz (aquele do “Pica das galáxias”, na já antológica passagem de Tropa de Elite 2) interpreta o policial Cortez.

Pois bem, o enredo é baseado no episódio concreto do roubo da taça. Uma comédia de erros que realmente parece feita para o cinema. O maior troféu de nosso futebol ficava na sala da presidência da CBF, na época ocupada por Giulite Coutinho (vivido por Stepan Nercessian). Permanecia atrás de um vidro a prova de balas. Até aí beleza. A entidade tinha até um cofre forte. Não obstante, deixavam a original exposta e a cópia segura, trancada. Foi motivo de piada.

A guarda do prédio, por sua vez, ficava a cargo de um único vigia, que foi facilmente dominado. Mas e o vidro a prova de balas? Não ofereceu resistência (sacanagem, ninguém atirou nele) ao desmantelamento do entorno com instrumentos corriqueiros. E a taça se foi.

Narrativamente, o filme apresenta dois eixos básicos. Um deles sobre os dilemas de Peralta, com seu pouco apreço ao trabalho, vício na jogatina e conflitos com sua fogosa esposa. O outro, secundário, usa o descaso a toda prova com nossa relíquia futebolística para sugerir traços da personalidade nacional. Se não tomamos conta nem daquilo que mais nos diverte, orgulha e nos destaca mundialmente, que dirá do resto… Como exclama o Giulite Coutinho do filme:

– Puta que pariu! Como é que a gente ganhou três Copas?!

Em uma introdução ao clima da época, a voz em off de Taís Araujo explica:

Em 82 a crise tava braba. A esperança que a gente tinha era o futebol, de novo. Falcão, Sócrates, Zico, aquele bonitão do Éder… O time dos sonhos de todo brasileiro, até hoje. Bom, depois todo mundo sabe o que aconteceu (…). Aí voltamos pro buraco. General, inflação, desemprego.

Este último trecho dá até um desânimo. Porque a saudade daquele futebol realmente continua; a inflação tá até quietinha, mas o resto parece reprise. Das piores…

Em duas outras sequências temos lances relativos à difícil negociação da muamba. Afinal, como se desfazer de um item tão ilustre, cujas fotos e notícias estavam em todas as mídias da época? O único que aceitou fazer a arriscada transação foi um comerciante/atravessador argentino. Outra piada feita. E, mais incrível, verdadeira. Na chamada vida real o receptador era mesmo portenho! Acabou preso, como os demais. Novamente a voz de Tais Araujo (ilustrada com sequências de jogos do Brasil com nossos hermanos) é quem comenta:

Tantos anos de luta, de sangue, de cotovelada, de dedo no olho. Mais de cem anos de Brasil e Argentina e a gente ia vender o nosso maior patrimônio sabe pra quem? Que beleza, hem?

Sem mais no momento, uma boa semana e que sobrevivamos ao segundo turno. Abraços!

 

Referências:

BAZARELLO, Pablo. Crítica. O Roubo da Taça. Disponível em:  https://cinepop.com.br/critica-o-roubo-da-taca-126675. Consultado em 08 de outubro de 2018.

BONSANTI, Bruno. O Roubo da Jules Rimet: uma história inacreditavelmente real que virou uma boa comédia. Disponível em: https://trivela.com.br/o-roubo-da-jules-rimet-uma-historia-inacreditavelmente-real-que-virou-uma-boa-comedia/. Consultado em 08 de outubro de 2018.

FERNANDEZ, Alexandre Agabiti. Crítica – ‘O Roubo da Taça’ revela vida inteligente no humor nacional. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/09/1811161-o-roubo-da-taca-revela-vida-inteligente-no-humor-nacional.shtml. Consultado em 08 de outubro de 2018.

Matéria. Trinta anos depois, relembre roubo da Taça Jules Rimet no Brasil. Disponível em: https://www.terra.com.br/esportes/futebol/copa-2014/trinta-anos-depois-relembre-roubo-da-taca-jules-rimet-no-brasil,2014adac27d03410VgnVCM3000009af154d0RCRD.html. Consultado em 08 de outubro de 2018.