O AVANÇO DO SKATE FEMININO*

23/05/2022

Leonardo Brandão

Historiador e Professor Universitário

@leobrandao77

“Não se nasce mulher; torna-se mulher”. Esta frase pertence a escritora Simone de Beauvoir (1908 – 1986), a qual, através do livro intitulado “O Segundo Sexo”, lançado em 1949, contribuiu para questionar os lugares de sujeito que a sociedade patriarcal reservava para as mulheres, uma vez que a posição das mulheres na sociedade era (ainda é?) determinada por fatores culturais e sociais. A reflexão de Beauvoir exerceu forte influência no movimento feminista e, desde então, muitas conquistas foram obtidas.

Embora, nos últimos anos, estejamos vivendo no país uma espécie de retrocesso civilizatório, ainda assim, quando observamos o skate feminino, há motivos de sobra para nos orgulharmos. Rayssa Leal, Gabriela Mazetto, Yndiara Asp, Virgina Fortes, Pipa Souza, Priscila Morais, Esther Solano, Giovana Dias, Vitória Mendonça, Atali Mendes, Kemily Suiara, Pamela Rosa, Marina Gabriela, Vitória Bortolo, Karen Feitosa, Agatha Pinheiro, entre muitas outras, estão ora elevando o nível das manobras nas competições, ora manobrando em pistas e/ou filmando pelas ruas. Num Brasil que insiste em caminhar para trás, essa maior presença das mulheres no skate é um sinal de progresso.

E o que falar da História do Skate Feminino? Embora saibamos que, desde o início elas sempre estiveram sobre o carrinho, os estudos sobre este tema ainda são escassos. No Brasil, quem ajudou a preencher um pouco dessa lacuna foi a pesquisadora Márcia Luiza Figueira, estudiosa que produziu a primeira tese de doutorado específico sobre skate feminino, intitulado “Skate para meninas: modos de se fazer ver em um esporte em construção”, defendida em 2008 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Num capítulo publicado no livro “Skate & Skatistas: questões contemporâneas”, Márcia Figueira evidenciou algumas conquistas do skate feminino a partir da virada do milênio. Ela lembra que um passo importante no aumento de sua visibilidade foi dado pela revista CemporcentoSKATE em 2001, quando foi inaugurado o encarte 100%SkateGirl, no qual a skatista Giuliana Ricomini estreou a seção “ponto de vista”. No ano seguinte, em 2002, na segunda edição desse encarte, seu editorial explicava:

“Há muito que as meninas ambicionavam um espaço só seu na revista. Pediram, clamaram, reclamaram (e mais uma infinidade de outros verbos). Sobretudo elas ANDARAM de skate. Por isso CONSEGUIRAM […] insistiram em andar de skate, em acertar manobras, em correr campeonatos, em evoluir”.

As meninas (eu prefiro o termo mulheres) foram conquistando seus espaços nos veículos de mídia especializado. No ano de 2004, a extinta revista Tribo também passou a dedicar uma seção para elas, intitulado Lilith. Neste mesmo ano, segundo os estudos de Marcia Figueira, Alexandre Vianna, que na época presidia a Confederação Brasileira de Skate (CBSk), afirmou ser “legal ver as meninas se unindo na construção de um espaço e de uma identidade dentro do skate nacional”.

Um marco importante nessa batalha por visibilidade ocorreu em julho de 2006, época da simbólica publicação da centésima edição da revista CemporcentoSKATE. Nela, pela primeira vez, uma skatista aparecia na capa dessa revista. Tratava-se da skatista Eliana Sosco, com uma manobra (noseslide) descendo um corrimão de escadaria, fotografada por Renato Custódio.

Daí em diante muitas outras conquistas ocorreram, como a capa da Ligiane Xuxinha na edição de setembro de 2011 ou o sucesso internacional da skatista Letícia Bufoni, por exemplo. Mesmo no universo acadêmico, surgiram mais mulheres pesquisando a prática do skate. Em 2014, Allana Joyce Scopel defendeu na UFMG a dissertação de Mestrado “A apropriação do Parque da Juventude pelos Skatistas”; e em 2016, na FURG, Juliana Cotting Teixeira defendeu a dissertação “Cenas Urbanas: skatistas, ocupação da cidade e produção de subjetividades”.

Além disso, muitas crews de skate feminino surgiram, como as Pantaneiras Skate Girls na cidade de Campo Grande/MS (encabeçado pela skatista Edduarda Grego) ou as Batateiras, em São Paulo, que surgiram com o intuito de incentivar e fomentar o skate feminino. As Batateiras, inclusive, figuraram no documentário Skate Le Monde, produzido para a televisão francesa TV5 Monde[1].

A história do skate feminino é rica e merece muito mais investigação e registro. As primeiras praticantes, a luta por visibilidade, o preconceito, a corporalidade, questões de gênero, etnia e tantos outros enfoques são possíveis. O trabalho de Marcia Figueira foi pioneiro ao desbravar o assunto, mas outros estudos podem ser feitos. E aí, você skatista que está fazendo ou pretende fazer uma faculdade? Que tal este tema para um Trabalho de Conclusão de Curso? Pois, afinal, vamos combinar que o universo do skate ficou muito mais interessante com a presença das mulheres!

* Este post é uma versão levemente modificada do texto “Sim, elas podem!”, publicado na edição impressa da revista CemporcentoSKATE, edição n. 220, de out/nov de 2021.

[1] O episódio pode ser visto em: https://www.tv5unis.ca/videos/skate-le-monde/saisons/1/episodes/9

 


Corridas de toros en Montevideo durante la dominación portuguesa (1823)

09/05/2022

por Gastón Laborido (gaston_laborido1@hotmail.com)

Sociedad y animales en el siglo XIX: espectáculos sangrientos

Durante el siglo XIX, Montevideo tuvo diversas actividades recreativas y algunas de ellas incluían el empleo de animales. Las prácticas de entretenimiento de una sociedad permiten la comprensión de la dinámica social de una población y puede ser muy útil para la comprensión histórica de la estructura socio-cultural de una época.

En el caso montevideano, eran espectáculos muy recurrentes que aglomeraban a muchas personas. Varios de ellos se caracterizaban por el castigo físico tanto con hombres como con animales. De alguna manera era el reflejo de una sociedad marcada por el espectáculo de la sangre y la muerte, que estaban en todos lados. El historiador José Pedro Barrán (2021) describió la sensibilidad del 1800 a 1860  como la “cultura bárbara” y enfatizó en la cuestión del castigo del cuerpo. En este sentido, afirma que “el castigo también incluyó el cuerpo de los animales, sirviendo con frecuencia el hecho mismo de espectáculo y diversión pública” (Barrán, J. P.; 2021, p. 79).

Parte de la diversión de la época colonial, se daba a partir de actividades como las corridas de toros. La primera plaza de toros de Montevideo se construyó en el año 1776. Los españoles eran muy aficionados a los toros y se quiso utilizar ese divertimiento en beneficio de la compostura de las calles que carecían completamente de empedrado. Este citado escenario, construido totalmente en madera y de forma octogonal, subsistió hasta 1780. En 1789 se levantó otro recinto en la Plaza Matriz que duró hasta 1790. Más tarde en un circo levantado en la calle mercado se llegaron a celebrar hasta 122 espectáculos.

Pasaron algunos años sin que volviera a repetirse esa clase de espectáculos, pero en la primera mitad del siglo XIX aparecieron dos plazas de toros: una de ellas en la Plaza Matriz en 1823 (en aquel momento centro de la ciudad), durante la dominación portuguesa. La otra, construida luego de la independencia del territorio Oriental en 1835 en la zona del Cordón. 

La dominación portuguesa y las festividades

Hacia agosto de 1816 comenzaron a cristalizarse los deseos portugueses de instalarse en Montevideo, cuando Carlos Frederico Lecor comandó la invasión con un ejército de unos 5.000 hombres, logrando ingresar a Montevideo en enero de 1817. Luego de tres años de lucha contra el ejército artiguista, los portugueses lograron controlar el territorio Oriental con Lecor a la cabeza. El proceso revolucionario iniciado en 1811 y comandado por José Gervasio Artigas, culminó en 1820 con la derrota del proyecto artiguista. Ya sin recursos y sin hombres, Artigas se retiró al Paraguay en setiembre de 1820 y desapareció de la vida política de la región.

En julio de 1821 se convocó a un Congreso en Montevideo, que votó la incorporación de la provincia al Reino Unido de Portugal, Brasil y Algarve, con el nombre de Provincia Cisplatina. Esta opción fue apoyada por personas de gran peso económico y político, es decir, aquellas que ocupaban importantes cargos en el gobierno, la administración, la justicia, el ejército y las fuerzas militares. “Formaban parte del Club del Barón, nombrado así por el título de Barón de la Laguna concedido a Lecor en 1818, y habían recibido en ese tiempo títulos y distinciones, estancias, ganados y privilegios mercantiles” (Frega, A.; 2016, p. 55-56).  

Durante la dominación portuguesa se reanudaron los espectáculos taurinos en Montevideo en el año 1823. En este caso se celebró la proclamación de la Constitución Portuguesa aprobada en Oporto el 23 de setiembre de 1822. Si bien Brasil proclamó su independencia el 7 de setiembre de 1822, la guarnición portuguesa de Montevideo continuó siendo fiel a Portugal y recién entregó la ciudad a los brasileños en febrero de 1824, comandados por el mismo Lecor.

Tres días duraron los festejos, para los cuales se construyó un tablado en el centro de la Plaza y algunos palcos a los lados para los espectadores de más distinción. (De María, I., 1957, p. 42).

Los toros entraron en el programa de las fiestas públicas de 1823 y la propia Plaza Matriz fue acondicionada a tales efectos. Esta plaza ubicada entre las actuales calles Sarandí, Ituzaingó, Juan Carlos Gómez y Rincón, sirvió de ámbito físico, instalándose las autoridades en el piso superior del Cabildo y Reales Cárceles a fin de presenciar apropiadamente la acción.

Por de contado, la plaza estaba llena de espectadores. Las azoteas, los tejados y los balcones cubiertos de gente. Los del Cabildo los ocupaba el Gobernador, jefes de alta graduación, los cabildantes y otras personas distinguidas. (De María, I., 1957, p. 43).

Los festejos incluían diversas actividades, tal como narra el escritor, historiador, periodista, político y pedagogo uruguayo, Isidoro de María (1815-1906), quien en sus crónicas recogidas en Montevideo Antiguo nos pinta parte de esa realidad:

Hubo comparsas que danzaron en el tablado. Recordamos una en traje de indios, con plumas rosadas ceñidas a la cintura y la cabeza, adheridas a un cinto de galón plateado. Otra de coraza, otra de viejos, con especie de miriñaque formado de arcos de barrica, y otra de oficiales dirigida por el renombrado actor Casacuberta. (De María, I., 1957, p. 42-43).

El tercer día fue el momento de los toros. Desde la noche anterior se arregló la plaza para lidiarlos. Todos los preparativos se hicieron bajo la dirección de Balbín y Vallejo, antiguo y respetable vecino de Montevideo.  

En la realización de estas fiestas públicas se percibe una herencia portuguesa de las festividades reales promovidas en el Brasil colonial. En este sentido, el historiador Victor Andrade de Melo (2013) analizó esas actividades en el caso de Río de Janeiro, tratándose de las más comunes y de mayor popularidad durante el período 1763-1822. Para el caso de Brasil, las festividades taurinas coloniales eran

Organizadas para celebrar datas importantes da Coroa portuguesa, evidenciavam a centralidade do monarca, tendo por intuito acirrar os vínculos de fidelidade com a metrópole. Tratava-se claramente de uma estratégia de controle, de exercício da soberania, a partir de uma exposição simbólica do poder monárquico, que incorporava e unifi cava o religioso e o político. (Melo; 2013, p. 366).

En el caso de las festividades por la Constitución Portuguesa había una clara intención de reivindicar a Portugal, mientras que Brasil ya había comenzado su vida independiente en setiembre de 1822.

El espectáculo taurino de 1823 presentaba estas características:

Se formó de tablazón un gran cuadro en la plaza. En el costado del sud se construyó el toril. Los toros eran embolados. A la voz popular de salga el toro, le daban salida y empezaba la cuadrilla la fiesta. Se componía únicamente de banderilleros y capeadores. No había picador, ni espada. Cada tumbo que llevaban los capeadores era una algazara. (De María, I., 1957, p. 43).

Para hacer la diversión más entretenida, se colocaba un muñeco en medio de la plaza, para que el toro lo embistiese. Dentro de una pipa vacía, se metía un hombre y el toro lo llevaba rodando a topadas con el viviente dentro. A la voz de ¡a la uña!; ¡a la uña! dada por los portugueses, cargaban todos sobre el toro y lo despachaban.

Como para fin de fiesta, un criollo, de apellido Trujillo, apareció en el circuito cabalgando en otro, con sus grandes espuelas redomonas, resistiendo los corcovos del alazán, como jinete famoso. (De María, I., 1957, p. 43).

Después de las festividades de 1823 y por tratarse de años convulsionados en el tramo final de las guerras de independencia, hubo que esperar hasta 1835, cuando comenzó la vida institucional del Estado Oriental del Uruguay, para volver a presenciar corridas de toros. Fueron de gran difusión antes y después de la independencia. 

Posiblemente esta interrupción está relacionada a la resistencia que presentaron los orientales a la anexión del territorio como parte de Portugal. Una manifestación de ello fue el intento de revolución que protagonizó en 1823 la asociación secreta de patriotas denominada “Los Caballeros Orientales”. Muchos debieron exiliarse en Buenos Aires, desde donde prosiguieron los trabajos revolucionarios que lograron concretar en 1825.

Referencias:

  • ALONSO, Rosa; SALA, Lucía; DE LA TORRE, Nelson y RODRÍGUEZ, Julio Carlos (1970). La oligarquía oriental en la Cisplatina. Montevideo: Ediciones Pueblos Unidos.
  • BARRÁN, José Pedro (2021). Historia de la sensibilidad en el Uruguay. Montevideo: Banda Oriental.
  • BARRIOS PINTOS, Aníbal (1971). Montevideo. Los barrios (I). Montevideo: Nuestra Tierra. 
  • BRACCO, Diego (2006). Apuntes para la historia de la tauromaquia en Uruguay. En: Revista de Estudios taurinos; v. 1 (n° 22), Murcia (pp. 203-247). 
  • BUZZETTI, José y GUTIÉRREZ CORTINAS, Eduardo (1965). Historia del deporte en el Uruguay (1830-1900). Montevideo: Ed. De los autores.
  • DE MARÍA, Isidoro (1957). Montevideo Antiguo. Tomo I. Montevideo: Biblioteca Artigas.
  • FREGA, Ana (2016). La vida política. En: G. Caetano (Dir.) y A. Frega (Coord.), Uruguay. Revolución, Independencia y construcción del Estado (pp. 31-85). Montevideo: Planeta.
  • GOMENSORO, Arnaldo (2015). Historia del Deporte, la Recreación y la Educación Física en Uruguay. Crónicas y relatos. Montevideo: IUACJ.
  • MELO, Victor Andrade de (2013). As touradas nas festividades reais do Rio de Janeiro colonial. En: Horizontes Antropológicos; v. 19 (n° 40), Porto Alegre (pp. 365-392). 

A solidão do corredor de longa distância (RU, Tony Richardson, 1962)

26/04/2022

Colin Smith (interpretado por Tom Courtenay):
Correr sempre foi algo importante em nossa família. Especialmente correr da polícia. (…). Tudo o que sei é que se deve correr. Correr sem saber porque pelos campos e bosques. E ser o vencedor não é a meta. Mesmo que torcedores malucos estejam vibrando como idiotas. Assim é a solidão de um corredor de longa distância.

A película que trago para esta breve apresentação de hoje não é sobre futebol (como de costume). Venho variando a modalidade e acho que vou continuar assim. Não obstante, até podemos encontrar o jogo bretão nesse magnífico filme de Tony Richardson: A Solidão do Corredor de longa distância (The loneliness of the long distance runner). Trata-se de uma primeira disputa desportiva do protagonista, o jovem Colin Smith (vivido por Tom Courtenay), com seus companheiros de reformatório. Smith rouba a bola de seu desafeto, Stacy (Philip Martin), demonstrando velocidade e chamando a atenção do diretor do Ruxton Towers (Michael Redgrave). A referência ao futebol fica por aí. A não ser, talvez, pela importante advertência que o mesmo diretor faz repetidamente ao seus internos: “Se vocês jogarem conosco, nós vamos jogar com vocês” (If you play ball with us, we play ball with you”). Pra quem não topa jogar (colaborar) é pão e água por três dias. Em Ruxton Towers a regra é clara.

Mas, como nosso jovem foi parar nessa instituição? Isso nós só ficamos sabendo ao longo da fita, a qual se inicia exatamente com o áudio transcrito em epígrafe e o qual sintetiza belamente a proposta da obra. No entanto, ofereçamos uma mini-sinopse, para localização.

Colin Smith é um rapaz pobre, de família complicada na cidade de Nottingham. Seu pai está muito doente (vindo a falecer rapidamente) e a mãe já tem outro pretendente e interesses. Para se distrair, Colin tem o amigo Mike (James Bolam) e uma quase-namorada, Audrey (Topsy Jane). Também sem muita consequência ou reflexão, cometem alguns delitos. “Empréstimo” de carro e, posteriormente, invasão e furto. É por este último motivo que Colin, descoberto, acaba parando no Reformatório. Ao se destacar como corredor, passa a se posicionar melhor na hierarquia e na graça do Diretor. Este último aposta todas as suas fichas no garoto. Sua obsessão é vencer a Cross Conty (uma corrida de 7,5 km), em um torneio que pela primeira vez vai colocar a Ruxton Towers frente a uma Public School inglesa, a Ranley. Esse é o enredo básico.

Esta, porém, não é uma película trivial. É parte importante do chamado novo cinema inglês. Foi baseada em um conto de autoria de Allan Sillitoe, que o publica em 1959. É ele próprio, inclusive, que assina o roteiro do filme. Sillitoe nasceu na mesma Nottingham, na qual se passa a história do nosso corredor. Era filho de um curtidor de peles analfabeto e desempregado durante muitos dos anos da depressão de 1930. “Fez parte do grupo dos ‘angry young men’ dos anos 50”. Escreveu seu primeiro romance, “Saturday night, Sunday morning” (1958), que também virou filme, novamente marcando a nouvelle vague inglesa (Ver: https://www.pipoca3d.com.br/2020/04/o-que-foi-nouvelle-vague-inglesa.html).

A repercussão da obra de Silltoe é considerável. O Iron Maiden produziu uma música homônima a nossa película (https://www.letras.mus.br/iron-maiden/79653/traducao.html). O Economista João Paulo Velloso escreveu um livro, recente, sobre os descaminhos do desenvolvimento nacional e, adivinhem, também o nomeou da mesma forma (https://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/livros/livros/livro_asolidaodocorredor.pdf; para mais dezenas de referências, ver https://stringfixer.com/pt/The_Loneliness_of_the_Long-Distance_Runner).

Diretor (Tom Richardson) e atores (Michael Redgreve e, principalmente, Tom Cortenay) apresentam trajetórias importantes no cinema bretão e internacional.  Richardson assinou mais de 40 filmes e foi agraciado com vários prêmios internacionais (https://www.imdb.com/name/nm0724798/?ref_=nmawd_awd_nm). Caberia aqui, portanto, algumas palavras sobre as características da filmagem, produção e afiliação (talvez em outro escrito), mas vou ficar apenas com dois comentários.

A solidão do corredor de longa distância é sugestiva, de cara. Não seria preciso nem ver o filme para intuí-la. Trata-se de um exercício solitário, árduo, longo, exaustivo, no qual a tentação/possibilidade de se parar, de se dar um basta, pode aparecer a cada momento do trajeto. Simultaneamente (talvez estranhamente), as demonstrações de contentamento, satisfação, apego ou de liberdade parecem fazer parte de um rol de lugares-comuns na descrição da atividade por atletas e amadores. Paralelamente, as correlações metafóricas para com a existência de cada um de nós são por demais evidentes. O filme, porém, vai além. De uma dupla forma.

Primeiro, circunstancia uma situação. A difícil rotina de uma parcela da classe trabalhadora (ou sem trabalho) na Inglaterra do fim dos anos 50 e início dos 60 (um contraponto importante e uma presença fílmica fundamental para a trajetória do cinema como expressão cultural). Essa localização no tempo e no espaço (e pelo que se pode inferir, na trajetória do autor do texto/roteiro) confere estofo humano e histórico à trama.

Em segundo lugar (não menos relevante), essa obra, que teria tudo para se inserir no que se pode chamar de filme esportivo ou filme de esporte, é quase um anti-filme esportivo (pelo menos no sentido em que destoa de boa parte dos filmes que tematizam o esporte). Não trata de vencedores; mas também não é uma narrativa da derrota (de como lidar com a derrota). É uma história da conquista (efetivamente solitária e irremediavelmente individual) de uma escolha e de uma decisão potente na qual cruzar ou não a linha de chegada em primeiro lugar se torna uma coisa efetivamente menor do que a maneira como você vai percorrer a longa jornada. Não tenho dúvida que o desfecho narrativo desaponte uma parte da audiência, mas é nele que reside o diferencial e o atrativo da película. Existe um jogo poético entre o modo como a corrida (a competição) acaba e como a vida continua no reformatório, ilustrado pela última sequência fílmica. E existe, é claro, um jogo político entre o mesmo desfecho e a sinalização anterior de Smith, ainda no começo do filme (por volta do minuto 31):

Deixarei eles pensarem que me domesticaram. Mas nunca conseguirão, os desgraçados!

Do remo à vela, de operário a burguês, de subúrbio a zona sul

17/04/2022

Por Victor Melo (victor.a.melo@uol.com.br)

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Salve, povo querido

No meu post de hoje, apresento um extrato da conclusão de meu último livro, “Quando a Lagoa era subúrbio: os clubes náuticos, a produção do espaço e o processo de gentrificação”, disponível em

https://historiadoesporte.wordpress.com/2022/02/23/quando-a-lagoa-era-suburbio-os-clubes-nauticos-a-producao-do-espaco-e-o-processo-de-gentrificacao-novo-titulo/

Um abraço grande, Victor.

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Nos anos finais da década de 1930, a nova estruturação do remo fluminense e as mudanças do perfil societário da Lagoa colocaram em xeque a existência da Federação Náutica. Em 1937, Lage e Piraquê anunciaram o desejo de se filiar à Liga Carioca. Ao final, ambos se ligaram à Federação Aquática, deixando, do Distrito da Gávea, somente o Jardinense na antiga entidade que, de toda forma, ainda tentou se manter ativa mobilizando outros associados. A essa altura, a União já estava extinta.

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Garagem do Piraquê. A sede se encontrava em terreno cedido pela prefeitura e era considerada bem instalada, ainda que modesta. Diário da Noite, 26 fev. 1937, p. 6.

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Vale considerar que o Lage deixara de possuir o barracão que mantinha na Lagoa por o proprietário do terreno não querer renovar o contrato de aluguel, interessado que estava no movimento de especulação imobiliária que havia na região. Na verdade, vários clubes foram atingidos nesse processo, no decorrer do tempo perdendo seu lugar para a guarda de material e embarcações.

A despeito disso, sob novo formato e com diferentes protagonistas, paulatinamente as iniciativas de remo se concentraram na Lagoa, não sem resistências, notadamente advindas dos clubes do Centro e de Niterói. De fato, boa parte das agremiações que não conseguiram se instalar na Gávea, no decorrer do tempo, deixaram de participar das regatas, tais como o Natação e Regatas, o Boqueirão do Passeio e o Internacional (sediados na Praia de Santa Luzia), bem como o Icaraí e o Gragoatá (da, na época, capital do Estado do Rio de Janeiro).

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Raia olímpica montada na Lagoa. O Globo Sportivo, 18 jan. 1940, p. 6

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Na Lagoa, é bem verdade, problemas estruturais interferiram no cotidiano dos clubes e na realização de eventos, tais como a mortandade de peixes e o assoreamento, ocorrências que feriam mesmo os desejos da prefeitura e do mercado imobiliário de valorizar e mudar o perfil da região. A propósito, as obras constantes promovidas pelo poder público, em diversos momentos, também criaram empecilhos para o pleno funcionamento das iniciativas náuticas.

Havia ainda a limitação de não haver um pavilhão como o que existiu por quase três décadas em Botafogo. Nesse aspecto, a construção do Estádio de Remo, realizada entre 1953 e 1954, aproximadamente onde antes fora a Praia do Pinto, mesmo sendo uma obra cercada de polêmicas e problemas, foi mais um contundente sinal de que para a Lagoa deslocara-se a prática da modalidade na cidade do Rio de Janeiro, da mesma forma que o foi a chegada de antigos e prestigiosos clubes no bairro – caso do Flamengo e depois do Botafogo e Vasco.

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Regata com público lotando o Estádio de Remo. Manchete Esportiva, 28 jul. 1956, p. 28.

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Houve, portanto, um duplo processo de gentrificação: do esporte e do bairro. Vale a pena lembrar que, a partir de meados da década de 1930, foram fechando suas portas as fábricas sediadas na Gávea. Em 1937, quando se definiu o zoneamento do Rio de Janeiro, excluiu-se a Zona Sul como área industrial. Nesse processo, a prática do remo na Lagoa foi adquirindo um novo sentido, não mais elogiada por ser expressão dos cuidados com os operários, mas sim de um estilo de vida burguês.

A Lagoa passara por muitas mudanças. Ainda que continuasse sendo por algum tempo uma região de baixa densidade populacional, já havia sinais do que seria seu futuro como área nobre da cidade. Logo deixaria de ser encarada como um subúrbio e seria considerada parte de uma Zona Sul valorizada.

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Treino de remo do Flamengo. A Noite, 30 mar. 1939, p. 7.

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No que tange à trajetória das agremiações náuticas pioneiras do Distrito da Gávea, o Piraquê e o Caiçaras se mantêm em funcionamento até os dias atuais, aquele com mais dificuldades, mas sempre permanecendo na Lagoa e Jardim Botânico. O Lagoense se extinguiu em meados dos anos 1930 e o Jardinense em 1939, por decisão dos associados remanescentes em assembleia. O Lage ainda seguiu ativo até a década de 1950, até ser despejado de sua sede na Praia de Botafogo (n. 440) e não ter mais como se manter. Nos seus anos finais, praticamente só acolhia bailes.

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Público acompanhando regata nas margens da Lagoa. O Globo Sportivo, 25 mar. 1939, p. 11.

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Perceba-se como as trajetórias dos clubes náuticos da Lagoa são boas expressões do processo de urbanização do Rio. A União, a princípio, reunia as agremiações do “subúrbio” da Gávea, um espaço que foi se integrando à cidade e passando por mudanças. Uma divergência de uma de suas filiadas deu origem à Liga Náutica, depois Federação Náutica, que atraiu sociedades de outros bairros. Como reação, a União se aproximou ainda mais da Federação Brasileira, majoritariamente formada por setores médios e altos, promotora de regatas na Baía de Guanabara. Com isso, associações prestigiosas também conheceram as águas lacustres da Zona Sul num momento em que a Enseada de Botafogo apresentava problemas para a manutenção dos treinos e organização dos eventos.

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Guarnição do Flamengo a caminho de páreo. O Globo Sportivo, 18 jan. 1940, p. 6.

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Os conflitos, portanto, acabaram por chamar ainda mais a atenção para o potencial náutico da Lagoa. No decorrer do tempo, algumas agremiações ligadas à Federação Brasileira se transfeririam para a Gávea, num momento em que as antigas sociedades náuticas locais enfrentavam dificuldades pari passu com o fim das fábricas que lhes deram apoio. Não surpreende saber que somente o Piraquê manteve as portas abertas, exatamente aquele clube que menos era dependente da experiência fabril, o primeiro a romper com a União.

Entre o público que acompanhava as regatas da Lagoa, a princípio, havia mesmo muita gente, de alguma forma, ligada às empresas fabris, moradores do Distrito da Gávea que possuíam várias opções de lazer, entre os quais os esportes náuticos. A composição societária das agremiações lagoenses era diversa, mas muitos dirigentes, remadores e associados eram funcionários das fábricas. Não me parece equivocado dizer que se tratava de um remo operário num bairro operário.

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Largada de páreo realizado na Lagoa. O Cruzeiro, 30 set. 1939, p. 27.

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Com as mudanças no perfil do Distrito, os clubes deixaram de ser liderados por operários, não sem que houvesse tensões e conflitos. Mais gente de estratos médio e alto começou a protagonizar os caminhos das antigas sociedades náuticas. Surgiu ainda uma agremiação que era plena expressão do processo de gentrificação da Lagoa, o Caiçaras, responsável por dinamizar outra modalidade na região, a vela.

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Regata promovida pelo Caiçaras. O Cruzeiro, 17 jul. 1937, p. 16.

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O processo de gentrificação, contudo, teve que lidar com o surgimento das favelas. Durante algum tempo, até que essas comunidades fossem brutalmente removidas, conviveram resquícios do passado e expectativas de futuro, algo que deixou alguns registros, como a imagem a seguir.

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Na imagem se vê a convivência entre novos clubes (nesse caso, o Monte Líbano), as novas construções habitacionais e os barracos e favelas. O Mundo Ilustrado, 3 set. 1960, p. 7.

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Essa convivência também se registrou no que se refere às iniciativas náuticas. O Caiçaras conviveu durante anos com a favela da Ilha das Dragas, cuja remoção foi marcada por forte resistência.

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À frente, o Clube dos Caiçaras; à direita e à frente, a Favela da Ilha das Dragas. Entre as duas, o Jardim de Alá. Disponível em: http://saudadesdoriodoluizd.blogspot.com/2017/12/ilha-das-dragas.html

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Seria uma questão de tempo para que o processo de “saneamento social” fosse completo. A matéria de um jornal explicita uma das justificativas utilizadas para a remoção da comunidade da Ilha das Dragas: “A miséria dos favelados causa má impressão aos estrangeiros que frequentam o Clube Caiçaras”. O cronista foi direto ao ponto:

A miséria refletida no amontoado de barracões que se estende por toda ilha é a principal razão porque a diretoria do clube vem forçando o despejo dos favelados. Dizem que o espetáculo é deprimente e que dá má impressão.

Obviamente, havia a questão do saneamento, mas vejamos o que se anunciou em outro periódico: “Os clubes próximos, Caiçaras, Pira-quê e Paissandu, não têm canalização de rede sanitária. Toda matéria é desembocada na Lagoa. Isto é um verdadeiro atentado contra aquele bairro”. Essas críticas, por certo, não tinham a repercussão das condenações que havia às favelas.

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Páreo realizado na Lagoa tendo ao fundo uma das favelas que havia na região. Manchete Esportiva, 28 jul. 1956, p. 9.

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Enfim, o antigo bairro operário, depois marcado pela existência de favelas, se tornou uma região de moradia de gente privilegiada economicamente, um cartão postal de uma cidade que adora exultar suas belezas naturais e a integração harmoniosa dessa com uma cultura exuberante, sempre, contudo, escondendo suas mazelas embaixo do tapete. O que procuramos argumentar é que os clubes náuticos foram indícios e agentes desse processo de transformação.

Inegavelmente, foram produtos e produtores do espaço.

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“Travaram um grande rolo, a pau”: carreiras, jogo do osso e a Porto Alegre que deveria se civilizar

11/04/2022

por Cleber Eduardo Karls (cleber_hist@yahoo.com.br)

E um jogo brabo, pois não é? Pois há gente que se amarra o dia inteiro nessa cachaça, e parada a parada envida tudo: os bolivianos, os arreios, o cavalo, o poncho, as esporas. O facão nem a pistola, isso, sim, nenhum aficionado joga.

(João Simões Lopes Neto – Jogo do Osso)

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João Simões Lopes Neto, possivelmente o maior literato regionalista do Rio Grande do Sul, inicia o seu conto Jogo do Osso (1912) enfatizando: “eu já vi jogar-se uma mulher num tira de taba (sic). Foi uma parada que custou vida… mas foi jogada!” Mesmo considerando-se a licença poética do autor, não é impensável que jogatinas como essa relatada pelo pelotense tenham, realmente, acontecido nos mais distintos rincões do sul do Brasil entre os oitocentos e o início do século passado. No conto de Lopes Neto um pouco do gaúcho rural, arredio, violento, criado no lombo do cavalo é exposto. Personagens literários, mas que em Porto Alegre se materializavam e faziam parte do cotidiano da cidade, dividindo espaço com refinados comerciantes ingleses ou letrados alemães.

https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/video/jogos-farroupilhas-veja-as-regras-do-jogo-do-osso-4434717.ghtml

A Porto Alegre do final do século XIX e início do XX era uma cidade de contrastes, um tanto dicotômica. Por um lado, a capital mais meridional do Brasil era um exemplo de modernidade e integração com seus vizinhos platinos. Local de amplo desenvolvimento comercial e cultural. De acordo com os viajantes do Velho Mundo que pelo sul do Brasil aportavam, este destaque era especialmente promovido pela grande quantidade de imigrantes europeus que na capital do Rio Grande do Sul fixavam moradia e desenvolviam suas atividades.

O francês Saint-Hilaire, que esteve no Brasil em parte do primeiro quartel do século XIX, anotou que “aqui (Porto Alegre) lembramos o sul da Europa e tudo quanto ele tem de mais encantador”. Outro ponto destacado é a capacidade associativista, lembrada pelo germânico Reinhold Hensel, que desembarcou no sul do Brasil em 1865 e relatou que os clubes de Porto Alegre reúnem “todos aqueles que tem a educação como exigência e ao mesmo tempo sentem necessidade de entretenimento e sociabilidade”.

Se Porto Alegre era reconhecida como um modelo de desenvolvimento e civilização, levando-se em consideração os aspectos eurocêntricos que balizavam esses conceitos, outras características relacionadas às origens históricas do local apontavam traços de “atraso”, “selvageria”, retratados por viajantes e pela própria imprensa. Esses atributos deveriam ser eliminados, substituídos. Dois exemplos de atividades que são marcantes nessa jornada em busca da “civilização” são as carreiras e o jogo do osso, também conhecido como tava. De uma forma bem simplificada, as “carreiras” eram corridas de cavalo, geralmente realizadas em cancha reta, sem regras muito definidas ou elaboradas. Já a tava é jogada com uma peça homônima. É um osso retirado do calcanhar do boi cujo nome é astrágalo. Basicamente, é um jogo de arremesso, onde a pontuação varia de acordo com a posição da tava após o lançamento.

A exemplo de muitas vozes que buscavam contribuir para que a capital do Rio Grande do Sul se modernizasse, a imprensa da época se posicionava militando por novos hábitos, preferencialmente europeus. A Gazeta de Porto Alegre, em 15 de maio de 1880, destacava que “as carreiras entre nós são em geral por sistema muito primitivo, isto é, corredores em manga de camisa, com o lenço amarrado na cabeça e em cavalos não encilhados”. Era necessária a modernização, a adequação da prática tão comum entre os sul-rio-grandenses ao modo europeu. Conciliar a habilidade do cavaleiro gaúcho, que foi comparado a um centauro, às técnicas e aos cavalos europeus puro sangue seria um fator fundamental para o sucesso do hipismo em Porto Alegre, esse sim, um hábito civilizado. Seguindo a sua campanha, o periódico se colocava destacando que “a civilização tem suas exigências; os usos do século passado não servem para o nosso século; uma populosa cidade, como a nossa, deve possuir um clube de corridas, em que o estrangeiro possa reconhecer o sistema usual em todos os países”.

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Já com relação ao jogo do osso, os registros indicam uma forte perseguição a prática. Em 31 de maio de 1895 a Gazeta da Tarde relatou uma busca numa “tavolagem” no Café e Bilhar situado a Praça da Alfândega. Ainda o artigo denunciou outros locais de jogatina na Rua do Rosário e Ladeira, onde, de acordo com o jornal, “o jogo continua com grande perigo para a tranquilidade doméstica de muita família”. A opinião do periódico fica clara quando ele destaca que “as consequências desse vício são terríveis” ou, ainda, quando aponta que o jogo é o “inimigo da sociedade”.

Relatos de confusões por conta de impasses no jogo do osso não eram raros. O Le Petit Journal de 28 de junho de 1905 relatou que “em uma cancha do jogo da tava (osso) dentro de um cercado, no Arraial da Baroneza, alguns indivíduos que ali se achavam e por questão de paradas, travaram um grande rolo, a pau”. O mesmo jornal, mas agora em 14 de outubro do mesmo ano, destacou que “no pátio existente ao lado da Igreja das Dores, vários vagabundos costumavam jogar o osso, cartas, etc”. O periódico ainda apontou que a polícia compareceu ao local mas conseguiu prender apenas um dos indivíduos envolvidos.

Como fica claro, essas práticas, apesar de comuns, eram marginalizadas e colocadas em um status de inferioridade perante uma Porto Alegre que estava se desenvolvendo. Diversões tradicionais do Rio Grande do Sul como as carreiras e o jogo do osso estavam perdendo espaço para outras atividades estrangeiras, vistas como civilizadas/civilizadoras. É o caso do turfe, das regatas e do ciclismo, por exemplo, que representavam o avanço, a tecnologia e colocavam a capital dos gaúchos em consonância com as grandes metrópoles mundiais.

Cabe destacar que essas práticas não desapareceram por completo. Ainda é comum no interior do Rio Grande do Sul a realização das tão afamadas carreiras, assim como de partidas do jogo do osso. É importante ressaltar que esse último, assim como outros divertimentos tidos como tradicionais como o truco cego, truco de amostra, a bocha campeira, entre outros, foram regulamentados pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) como forma de “preservar e divulgar os hábitos, os costumes, as tradições e o folclore rio-grandense”. Ganharam status de “Esportes Tradicionalistas do Estado do Rio Grande do Sul” e possuem competição de caráter nacional. No entanto, uma série de normas enquadraram os contemporâneos participantes. De acordo com o regulamento do MTG, está proibida a premiação em bebida alcoólica, apostas diretas envolvendo dinheiro ou outros quaisquer valores. Até mesmo esses jogos foram afetados pela moralizante modernidade…

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Medicina, ginástica e saúde no Rio de Janeiro do século XIX

28/03/2022

Fabio Peres e Victor Melo*

Em posts anteriores1, 2, 3, contamos um pouco sobre a história do processo de legitimação, institucionalização e difusão do saber médico a respeito das práticas corporais, em especial a ginástica, no Rio de Janeiro do século XIX.

Uma das premissas principais dessa história é que a relação entre exercícios corporais e saúde não era a princípio tão óbvia e muito menos incontestada. Tratou-se de uma construção que se deu de forma lenta, paulatina e muitas vezes pouca harmônica entre agentes, instituições, práticas e saberes que configuravam o campo médico-científico nos oitocentos. Uma relação que se consolidou no decorrer daquele século, apesar de inúmeras controvérsias. Não apenas a comunidade médica teve que “lutar” pela legitimação de suas práticas e saberes junto ao Estado e à sociedade, como também teve que lidar internamente com a regulação dos conflitos e dilemas dessa mesma comunidade pari passu em que o campo científico também mudava.

Os primeiros indícios desse processo se deram nos anos 1830, conforme apresentado nos posts anteriores. Porém, ainda na década de 1830, é possível identificar algumas modificações no trato do tema nos periódicos médicos científicos.

Novos objetos, abordagens e legitimidades

Mesmo que ainda persistissem alguns traços identificados no Semanário de Saúde Pública (1831-1833), a abordagem sobre a ginástica ganhou maior especificidade. Diferente do caráter mais geral e informativo, começou-se a publicar estudos mais detalhados, ao mesmo tempo em que a autoridade e a legitimidade médica se expandiram para outras esferas.

Embora se perceba a permanência de textos com características ensaísticas – um padrão narrativo no qual há, em geral, uma mistura entre opiniões, reconstrução histórica, julgamentos morais e projetos políticos -, alguns artigos já apresentavam feições, consideradas hoje, por assim dizer mais científicas, cuja audiência principal seria a própria comunidade médica[1]. Tais escritos abordaram de maneira mais detalhada os benefícios da ginástica, sejam eles biológicos ou sociais.

O processo de institucionalização da ginástica passou a progressivamente contar com importantes fundamentos e alicerces das ciências médicas. Isso, todavia, não significou que no interior do campo médico havia consenso absoluto. Valerá prospectar os debates publicados na Revista Médica Fluminense (1835-1841) e na Revista Médica Brasileira (1841-1843), ambas editadas pela antiga SMRJ, já transformada em Academia Imperial de Medicina[2], bem como em outros periódicos médicos da ocasião.

Importa assinalar que naquele momento começaram a circular, em alguns jornais da Corte, algumas matérias sobre a ginástica, nas quais há referências a sua importância para a saúde. Um exemplo é o artigo “Da Ginástica”, publicado em duas ocasiões: no Diário do Rio de Janeiro[3] e no Museu Universal[4]. Além do destaque ao estabelecimento de ensino dirigido por Francisco Amoros[5], na França, o texto salienta que, em 1780, o médico Tissot escreveu a obra Ginástica Medica, em que estabeleceu regras e métodos para os exercícios corporais. De acordo com o artigo, a prática contribuiria para educar homens vigorosos, revertendo a má dirigida educação física da primeira infância, que formaria “arlequins” e “afeminados”.

Em abril de 1836, a Revista Médica Fluminense publica um pequeno trecho da obra Essai general d’education physique, morale et intellectuelle, escrito por Jullien de Paris[6].  O autor, ao defender a necessidade de o médico conhecer o homem físico e moral, sugere que a ginástica é uma estratégia eficiente para manter o equilíbrio do corpo humano.

Mesmo não sendo médico, a preocupação do autor francês com as relações entre saúde e educação acabava por reiterar a importância da medicina no que tange à instrução da infância e da juventude. Na Revista Médica Fluminense já houvera antes uma aproximação entre a ginástica e a formação de crianças e da “mocidade”. Nesse caso, todavia, se tratava de uma obra reconhecida no campo educacional, aprovada e adotada pelo Conselho Real de Instrução Pública francês. O periódico, nesse sentido, procura endossar a autoridade do saber médico a partir do reconhecimento da legitimidade que outras áreas lhe conferem.

Alguns anos depois, em 1839, um artigo sobre pneumonia tuberculosa, de autoria de Mr. Fourcault, é publicado na Revista Médica Fluminense[7]. Ao tratar da influência do clima e dos lugares nas afecções ligadas à doença, o autor destaca o problema da falta de exercícios (passeios, corridas, ginástica, dança e esgrima):

É sobretudo na segunda infância, e ao tocar a época da puberdade, que se deve prevenir a incubação lenta e graduada das moléstias tuberculosas; desditosos os meninos débeis e linfáticos, cuja inteligência prematura se cultiva à custa das forças físicas! Os estudos porfiados, a falta de exercício ao ar livre, alteram sua constituição, e os dispõe às mais graves afecções. Os passeios frequentes, as carreiras, a ginástica, a esgrima, a dança etc., são pois indispensáveis na tenra idade para manter o equilíbrio de uma importante função (p. 112).

A ginástica – entendida como um conjunto específico de técnicas corporais ou como sinônimo de qualquer exercício – passaria, no decorrer do século XIX, a ser citada em diversos estudos associados ao tratamento de moléstias de diferentes naturezas: enxaqueca[8], anemia[9], tísica[10],[11], paralisia[12], ortopedia[13], alienação mental[14], doenças crônicas do coração[15] etc.

Ainda em 1839, um médico publicaria um artigo sobre os benefícios da ginástica em terras brasileiras. Mas essa história ficará para um próximo post.


* Parte do texto foi publicado originalmente em: PERES, Fabio de Faria e MELO, Victor Andrade de. O trato da gymnastica nas revistas médicas do Rio de Janeiro na primeira metade do século 19. História da Educação [online]. 2015, v. 19, n. 46, pp. 167-185. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/2236-3459/46494&gt;. ISSN 2236-3459.

[1] A linguagem, o formato, a análise de dados, a citação de referências e pesquisas acadêmicas no corpo do texto, entre outros, são aspectos que os diferem do gênero ensaio.

[2] Brasil. Decreto de 8 de Maio de 1835. Converte a Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro em Academia, com o titulo de Academia Imperial de Medicina do Rio de Janeiro; e dá-lhe estatutos. Na ocasião, a Academia passou a receber recursos do Tesouro público.

[3] Diário do Rio de Janeiro, 09/03/1838, p. 1.

[4] Museu Universal, ed. 43, 28/04/1838, p. 341.

[5] Além de diretor do Ginásio Normal de Paris, Francisco Amoros (Valência, 1770 – Paris, 1848) é considerado um dos precursores da Educação Física moderna e um dos difusores do ensino da ginástica na França. Para mais informações, ver Sirvent (2005) e Arnal (2009).

[6] Revista Médica Fluminense, ed. 1, vol. II, abril de 1836, p. 237-243.

[7] Revista Médica Fluminense, ed. 3, junho de 1839, p. 103-112.

[8] Arquivo Médico Brasileiro, dezembro de 1846, p. 89.

[9] Arquivo Médico Brasileiro, janeiro de 1848, p. 73-77.

[10] Arquivo Médico Brasileiro, abril de 1847, p. 175.

[11] O Progresso Médico, 1877, p. 449-457.

[12] Annaes Brasilienses de Medicina, abril de 1852, p. 172-177.

[13] Annaes Brasilienses de Medicina, outubro de 1853, p. 13-16.

[14] Annaes de Medicina Brasiliense, julho de 1848, p. 12-16

[15] O Brasil Médico, setembro de 1888, p. 266-269.


O tênis na Bahia e o Clube Bahiano de Tênis

14/03/2022

Coriolano P. da Rocha Junior

A cidade do Salvador viveu experiências com tênis em tempos anteriores, mas foi em 1916 que se viu o Clube Baiano de Tênis. Da mesma forma que outros clubes da elite soteropolitana, este também teve um início modesto, com sua primeira sede não indo além de uma barraca de lona, num terreno na Ladeira da Graça, de propriedade privada, cedido por um período de três anos. Foi nesse local que se iniciaram as construções das quadras de tênis, fato que gerou empolgação nos jovens da cidade e que provocou a adesão de novas pessoas associadas em a agremiação1. Assim, a qualificação da sede passou a ser uma exigência, provocando ações de suas direções, com movimentações financeiras que viabilizassem esse desejo.

Nas memórias de alguns sócios do Baiano de Tênis, publicadas na Semana Sportiva, fica evidente que o principal ideal que norteava a fundação do clube era a necessidade de retomar, na cidade, o cultivo de uma atividade considerara elitizada:

O Baiano de Tênis foi sempre, é e há de ser essencialmente um clube de Tênis. Fundado para incrementar entre nós a prática do tênis, o nosso clube tinha, pois, como fim especial, cuidar de tão lindo esporte.

No Clube Germania notava-se, então, regular frequência, aos domingos. Era esse todo o movimento do tênis na Bahia que já tivera dias áureos. O primeiro serviço do Baiano de Tênis foi, pois, dar vida nova ao tênis, porquanto, da sua formação até os nossos dias, o seu desenvolvimento tem sido crescente2.

O interesse de reativar o tênis na cidade se associava ao ideal de estabelecer ou firmar uma prática de distinção social, pois, neste momento, o futebol já se mostrava popular, alastrado pela cidade. O tênis, como esporte, era muito caro, muito por conta das despesas com a importação de equipamentos como raquetes e bolas. Por essas coisas, o esporte foi tido como uma prática em que apenas abastados participariam, longe dos populares.

Em seu esforço por estabelecer o tênis como uma prática nobre na cidade se mostra também no desejo de ter um espaço bem estruturado, com a construção de várias quadras, inclusive de materiais diferenciados:

Quando teve de ser construído o primeiro court do Baiano, o nosso consócio engenheiro Edgar Luz que dirigia as obras, quis romper com a praxe até então aqui em voga, das quadras de cimento. E, com grande competência, fez o nosso court de uma liga de barro, tal como ora se usa em todos os países tropicais. Os resultados foram magníficos e logo foi a segunda quadra e, em seguida, a terceira, até que, agora, conta o nosso grêmio tem 4 courts, todos eles excelentes, mesmo na estação chuvosa, quando muito pouco tempo depois de um grande aguaceiro, eles por serem inteiramente permeáveis, tornam-se perfeitamente praticáveis. Nessas quadras o tênis tem se desenvolvido assombrosamente3.

A partir da fundação do Clube, o tênis experimentou um certo desenvolvimento em Salvador. De acordo com os registros de Mário Gama (1923, p. 320):

Com a fundação, em 1916, do Clube Baiano de Tênis, nas suas quatro “quadras” o jogo tomou incremento admirável e ali se formaram e aperfeiçoaram muitos jogadores, sob os ensinamentos – é justo registrar – do grande tennismen F. Mc. Even, que, como diretor, dedicava-se extremamente, no preparo e afinamento dos seus consócios. O Bahiano de Tênis conta, dentre as suas melhores páginas, a visita do grande campeão dos Estados Unidos, Sr. Johnston, que jogou várias vezes em seus courts. Mantendo torneios anuais de duplas e simples, são campeões das quadras do alvi-negro F. Sá Macedo de Aguiar (duplas) e Mário Pereira (simples). Com a recente visita do Fluminense, A Bahia pôde mostrar bem que, em tênis, o seu adiantamento é patente, pois que, os representantes tricolores, Srs. Heberto Filgueiras e G. Prechel foram batidos, em simples, pelos nossos conterrâneos Mario Pereira e Macedo de Aguiar, que se houveram brilhantemente. Nos courts do Bahiano e Tênis está em disputa um torneio amistoso de duplas tendo-se feito representar os Clubes, Francês da Bahia, Rio Vermelho, Vitória, Associação Atlética e Baiano de Tênis.

Como um dos principais sócios do Baiano de Tênis, Mário Gama4 não raramente fez questão de circunstanciar o desenvolvimento do esporte no clube marcado pelo um intercâmbio com tenistas de outros estados e países. É possível interpretar como um indício que o desenvolvimento do tênis no alvinegro não ocorreu de forma meramente espontânea. Pelo contrário, houve um constante esforço de estruturação, inclusive no tocante ao aprimoramento das técnicas e estilos de jogo. Além disso, percebe-se um esforço em apresentar os tenistas locais como não inferiores aos de outras localidades. Com o crescimento do número de interessados, o Clube criou campeonatos internos entre os sócios. Os jogos de duplas e simples eram elogiados pela imprensa local, que fazia referência sobre o tênis nas dependências do Bahiano, como esta abaixo:

Dentro em pouco, nós muito confiamos, o tênis gozará na Bahia da brilhante situação em que se acham o futebol, o turfe e o remo. O Baiano de Tênis que é o pioneiro querido desse esporte, vem se empenhando vivamente por que assim aconteça. Ainda há pouco terminou o campeonato de doublés5, com o maior sucesso, e o de singlescomeçou domingo, despertando o mesmo interesse e revestido da mesma animação. O elemento de que mais depende a vitória do tênis, é o feminino, a tomar parte em suas provas elegantes e distintas, ou cercando os courts, enchendo o ambiente da suavidade, do seu perfume, do encanto da sua graça. Este já aderiu francamente e domingo lá estava, em numerosa representação7.

Se vê na matéria o cuidado em não apenas noticias o torneio, mas sim, estimular a sequência e propagação da modalidade na cidade, em outros clubes, buscando também a presença feminina como jogadoras e torcedoras. Em várias ocasiões, a Semana Sportiva manifesta o desejo de ver outros clubes praticando o tênis ou mesmo a realização de um campeonato interclubes:

Não há esporte tão elegante, tão distinto como o tênis não há. Infelizmente na Bahia, não o cultivam assiduamente como seria de desejar. Aqui há somente um clube que se dedica à sua prática, devendo-lhe o nome que honrosamente mantém. É o Clube Baiano de Tênis, o grêmio aristocrático da Avenida da Graça, em cujo courts se realizam, regularmente, campeonatos de singles e doublés. Porque o não imitam os outros clubes? Porque se não organizam turmas femininas? A vida do alvinegro na prática do esporte do tênis como em todos os outros está repleta de fases brilhantíssimas. Os seus courts são uma escola modelar, onde se formaram Mario Pereira, Macedo de Aguiar, Octávio Machado e outros muitos. Temos fé em que o trabalho desse grêmio pela identificação do tênis e nosso meio há de vingar8.

No texto transparece a preocupação de não apenas fortalecer o campo esportivo soteropolitano, mas sim, dotá-lo de uma magnificência e civilidade. Tal ponto fica transparente em artigo publicado pelo semanário, que busca caracterizar o valor social e cultural do tênis:

A Semana Sportiva registra, sempre, com o maior prazer as vitórias do esporte baiano. Semanário que inscreve no seu programa de vida a propaganda de todos os esportes, o futebol como a regata, e o turfe, e os esportes atléticos em geral, não saberia, ainda agora, esconder a sua impressão de franco júbilo para o êxito com que vem sendo praticado na Bahia, o tênis. Esporte de superior elegância e requintada distinção, esporte por excelência aristocrático, nenhum se lhe compara nesse ponto. Os jogos de tênis são de fato, uma das melhores e mais recomendáveis diversões da sociedade. Daí, a alegria com que noticiamos, aqui o seu pleno triunfo na Bahia. Prova disso, e prova iniludível, incontestável é a do sucesso do campeonato interno do Baiano de Tênis, há poucos dias terminado. As duplas de reconhecido valor, demonstrado em encontros anteriores, juntaram-se, para a disputa desse torneio interessantíssimo, duplas novas, que agora se iniciam no esporte elegante, e atestaram todas magníficas disposições de se tornarem tem breve tempo, à altura dos seus valorosos contendores. Quer isto dizer que o tênis, mais do que um simples ensaio, e, já uma esplêndida realidade. Não só pelo interesse com que no Baiano, e já agora na Associação Atlética, vem sendo praticado, mas, também, e principalmente, pelo entusiasmo dos torcedores, que, em verdadeira multidão acorrem aos courts, estimulando os jogadores com seus aplausos ruidosos.

Pois bem: o Baiano, que todo o ano realiza campeonatos internos com real sucesso, não registrara ainda tão grande concorrência de duplas como as que se inscreveram no torneio deste ano, agora findo, com a vitória da double Mario Pereira – Jayme Villas Boas. A Semana Sportiva sente, portanto, vivo prazer em registrar o fato auspicioso. Que os tenistas do Baiano da Associação Atlética do Rio Vermelho, do Clube Francês, que concorreram ao torneio de 1923, não esmoreçam, e se esforçarem sempre mais pela prática do tênis na Bahia. E que a Liga Baiana reconhecendo a necessidade de que não morra o esporte belíssimo, cada vez mais se afirme triunfante saiba, como é do seu dever prestigiar em toda linha o Bahiano de Tênis, a quem se deve mais este notável serviço aos esportes na Bahia9.

Se vê o desejo de exaltar o valor do esporte, em função do perfil social dos seus praticantes: sujeitos endinheirados e abastados, numa tentativa de estabelecer certa hierarquia entre as práticas esportivas.

O noticiário local buscava publicar publicar textos técnicos, no afã de auxiliar que lia a se iniciar na prática, com dicas, exemplos de jogadas, movimentações em quadra e indicações sobre o comportamento do jogador, como nesta matéria do A Semana Sportiva:

A primeira e mais importante condição que deve saber um jogador para disputar uma partida é a maneira de perdê-la. O jogador que se preza de sua dignidade deve saber perder de forma tal, que ninguém perceba o pesar que lhe pode perturbar o espírito. Nada é tão pouco digno do verdadeiro sportman como o de manifestar com um mau humor o sentimento da sua derrota. O sportman deve perder com o sorriso nos lábios, assim como deve proceder com modéstia, com generosidade e sem pretender molestar o seu adversário, quando ganhar; O objeto que tem em vista todo jogador ao disputar uma partida é, inegavelmente, ganhá-la, mas deve fazê-lo de modo nobre, digno e esportivo. Uma vitória conseguida de outra forma se converte em verdadeira derrota. No tênis, o jogo é tudo, e em uma partida, uma derrota honrosa tem mais valor esportivo que uma vitória conseguida pouco nobremente. O tênis é um esporte que se deve praticar pelo que ele é, e não pelos benefícios que dele possam sobrevir ao jogador. O tênis deve jogar-se com quem se põe em contato, e pelo prazer que seu jogo pode proporcionar ao público, que o honra presenciando-o. Muitos jogadores de tênis supõem que nada devem ao público e que, pelo contrário, este é quem devem ficar-lhes agradecido. Há outro fator que também contribui para um bom jogo de tênis. É o espírito competitivo que consiste no desejo de demonstrar a si mesmo de que é capaz de enfrentar lealmente o seu adversário10 .

Se via a preocupação de incutir a ideia de que a prática do tênis envolve um comportamento disciplinado, educado e civilizado, buscando um sentido aristocrático para o tênis, que contava, inclusive, com um cuidado com a atuação de quem atuasse como árbitro da modalidade, função que também deveria abraçar a linha civilizadora do esporte. Assim, a Semana Sportiva orientava:

Uma circunstância que não deve escapar a um comitê organizador de um campeonato importante é a de escolher os juízes e os linesmen11 antes de começar a partida. Estes elementos devem já estar escolhidos antes que os jogadores entrem na quadra para o jogo. Um bom linesman serve de grande auxílio numa partida de tênis. O linesman deve emitir seu juízo no momento em que a bola toca o solo. Se a bola cai fora das linhas, deve dizer – out – imediatamente, com voz clara e decisiva. Se a bola, porém, é boa, deve então permanecer discretamente calado. O juiz deve anunciar o score12 depois de cada ponto, em voz suficientemente alta para que seja ouvido por toda a assistência. Suas decisões devem ser ditas com voz suficientemente alta para que seja ouvida pelos jogadores13.

Nessa mesma linha, ganha destaque o reconhecimento da importância da prática da modalidade pelo gênero feminino. Para os jornais, em especial para a Semana Sportiva, o envolvimento das mulheres no tênis não se tratava apenas de uma questão de embelezamento dos courts, mas sim de contributo para a saúde das jovens:

O Tênis é um dos esportes mais queridos do belo sexo, que o pratica mesmo sem o menor prejuízo para a sua organização. Fala-se com insistência que dentro em pouco ele ocupará papel saliente em nossa vida esportiva. Tomara que assim seja14.

Em outra passagem o semanário é mais claro:

As formosas e promissoras jovens brasileiras, devem, pois, ao nosso modo de ver, lutar, com a mais absoluta das precisões, para que, dentro em breve, rivalizem, em simpatias, com o cultivamento do tênis, os demais esportes que já são comuns no Brasil. Os nossos votos e os nossos esforços não se farão recusar, cuja eficácia consiste nos atrativos que o jogo de tênis oferece, assim como, nos encantos que vulgarmente residem no belo sexo, tudo, portanto lhe sendo útil. Estamos certo que, futuramente as baianas fundarão um clube de tênis e a sua prioridade nesse particular servirá de exemplo as suas rivais dos outros estados do país, continuando a Bahia com a grande ventura de ser mãe, mais uma vez, das coisas auspiciosas e fecundas para a nossa raça15

Se um sentido civilizador se atribuia as atividades esportivas, as mulheres não deveriam ficar de fora desse processo. Como se acreditava à época, mulheres fortes é que fazem uma raça forte. Dito de outro modo, o chamado sexo frágil, com a prática de esportes fortaleceria o seu organismo. Contudo, não era qualquer prática que traria benefícios para as mulheres, modalidades como o boxe ou o futebol eram vistas como nocivas, que poderiam masculinizar corpo feminino e aí, o Tênis ganhava atenção especial, sendo tido como ideal a mulher.

No afã de fazer o esporte ganhar a cidade, para além do Baiano, a imprensa buscou também fazer com que a principal entidade esportiva de Salvador, a Liga Baiana de Desportos Terrestres (LBDT) abraçasse a modalidade e isso se deu, quando a Liga criou um campeonato de tênis envolvendo os clubes filiados à instituição. No dia posterior ao encerramento das inscrições, a Semana Sportiva publicou um efusivo editorial comentando o feito:

Encerraram-se ontem, na secretaria da Liga Baiana, as inscrições para o campeonato de tênis a inaugurar-se este ano. Compreende-se facilmente quanta satisfação nos vai neste registro. Ela é tão intensa como justa. Quem consultar as coleções da Semana Sportiva, há de encontrar em grande parte, na maior parte, mesmo, dos seus números os traços de um vivo empenho porque na Bahia se intensificasse a prática desse esporte. Em artigos, entrevistas, sueltos e comentários, de muito tempo vimos batendo pela vitória de ideia tão magnífica. Ninguém nos excedeu, então, no ardor desse desejo, assim tantas vezes evidenciado. Foi por isso que recebemos com o justo alvoroço de justíssima alegria as palavras a propósito proferidas pelo ilustre Sr. Presidente da Liga Baiana, em excelente entrevista – programa aos nossos confrades do “O Imparcial”. Bem que a Bahia Sportiva já estava reclamando como necessidade inadiável a brilhante realização positivada. Esporte amado e praticado tão somente por um clube, o Bahiano de Tênis, que o instituiu, único nesses últimos tempos, para a prática dos seus associados, em campeonatos internos, o tênis teve ali quem verdadeiramente o compreendesse, atingindo surpreendente perfeição. Formaram-se com assiduidade o capricho, campeões cujos valores se não estimavam devidamente, porque ainda se lhes não oferecerá ensejo de provar que o eram de verdade. Deve-se a esta fase memorável no esporte baiano o toque de rebate para a vida que agora vai ter o tênis nesta capital. Já o praticam em courts próprios e com players valorosos, a Associação Atlética, o Rio Vermelho de Tênis e o Clube Francês. Todos esses se inscreveram também para a temporada que, em breve, se inaugurará sob os melhores auspícios. Tudo está a indicar que o tênis viverá longa e brilhantemente na Bahia. Assim não lhe faltem nunca a direção de espíritos superiores e a dedicação de quantos o amam e desejam vê-lo vitorioso16.

O texto mostra que o Semana Sportivabuscou tomar para si os louros pela criação de um certame de tênis na capital baiana e ainda, reforçar a ideia de que ele era o primeiro a defender o progresso de uma cultura esportiva na cidade. Por outro lado, o semanário não deixa de compartilhar tal conquista com o Bahiano de Tênis. Por fim, ao que parece o texto deixa implícito que tanto a esforço do Bahiano de Tênis quanto da revista surtiram efeito quando se percebe o envolvimento de outros clubes com a prática do tênis, a exemplo do Rio Vermelho, Associação Atlética e o Clube Francês.

Podemos considerar que a centralidade da introdução e, sobretudo, desenvolvimento do tênis em Salvador nas primeiras décadas do século XX é reivindicada pelas elites. Do ponto de vista discursivo, buscavam apresentá-la como uma experiência única e exclusiva das camadas altas.

Dito de outro modo, representada como uma prática distintiva seriam as camadas abastadas as únicas responsáveis por desenvolver a modalidade na cidade, já que possuíam um comportamento refinado, educado e elegante exigido pelo jogo.

Notas:

1. Semana Sportiva, Salvador, 21 de julho de 1923, p. 26.

 2.Semana Sportiva, Salvador, 02 de julho de 1924, p. 58.

3. Semana Sportiva, Salvador, 02 de julho de 1924, p. 59.

4. Homem que atuou largamente no esporte baiano, como atleta, dirigente e que também deixou vários escritos sobre o assunto.
5. Significa os jogos em duplas.
6. Jogos individuais.
7. Semana Sportiva, Salvador, 25 de agosto de 1923, p. 9.

8.  Semana Sportiva, Salvador, 21 de julho de 1923, p. 8.

9.  Semana Sportiva, Salvador, 11 de agosto de 1923, p. 7.

10. Semana Sportiva, Salvador, 15 de setembro de 1923, p. 13.

 11. Equivalente a árbitros de linha.

12. O termo se refere à pontuação do jogo.

 13. Semana Sportiva, Salvador, 15 de setembro de 1923, p. 12.

 14. Semana Sportiva, Salvador, 21 de outubro de 1922, p. 13.

 15. Semana Sportiva, Salvador, 12 de maio de 1923, p. 11.

16.  Semana Sportiva, Salvador, 19 de abril de 1924, p. 3.


LITERATURA TEM COR, CHEIRO E SENTIDO: o futebol como matéria

07/03/2022

Por Edônio Alves

Temos contribuído, nesse blog, com análises de obras literárias (aqui, no recorte do gênero conto de ficção) que tematizam o jogo de futebol nos seus mais diferentes aspectos, propósitos e ângulos de abordagem.

A ideia é dar ao internauta-leitor um panorama representativo do quanto a literatura brasileira já tomou esse jogo como tema, em suas diferentes realizações estéticas autorais. Segue aí, dentro desse escopo de visão crítica da questão – ao mesmo tempo historiográfica e analítica- mais uma análise de um conto extraordinário do escritor Lourenço Cazzaré, que toma o futebol como texto e pretexto para discutir o sempre complexo imbróglio sociológico (com o approach racial) da inserção do negro em nossa constituição como povo, como sociedade e como nação. Uma verdadeira jogada de mestre da literatura. Leiamos!

Meia encarnada dura de sangue

      Lourenço Cazarré

Bem escrita, densa até, na sua plasticidade expressiva, o que talvez tenha pesado na sua transformação, pela Rede Globo de Televisão, num dos episódios de teledramaturgia exibidos para todo o País em 2001, esta narrativa traz como tema central a custosa e difícil inserção para esta etnia do elemento negro da nossa formação social no início da profissionalização do futebol no Brasil. E, paralelamente, mostra a bravura e o talento de um dos seus representantes mais singulares no ambiente de geografia humana em que se passa a história: o Rio Grande do Sul de ethos viril e personagens fundadores.

O entrecho da narrativa é simples, mas bem construído para dar conta do seu objetivo. Trata-se do velho recurso da estória dentro da estória em que um narrador serve-se de outro mais experiente – no texto, o seu avô; portanto a experiência aqui está no sentido benjaminiano – de quem se acostumou a ouvir “mitos, lendas, lérias e leréias” (Ivan Ângelo, p. 42) e, através dele, repassá-las adiante de modo que reste como efeito geral o argumento da história com H maiúsculo nas entrelinhas da estória com E minúsculo, mas de significado imenso.

“Pois este meu avô ­- disse o poeta – dava um dedo por um pouco de prosa. Parece que estou a vê-lo, pequeno, não media mais de um metro e meio, sentado em frente à sua casa – ali no Corredor das Tropas, rua que descia da igrejinha velha de Nossa Senhora da Luz -, cuia de chimarrão na mão esquerda, chaleira tisnada na direita, catando entre os passantes apressados do fim de tarde alguém que quisesse jogar fora um pouco de conversa”.

Assim, destarte, é apresentado ao leitor, o narrador da história que ele (ainda o narrador) vai “ouvir” do poeta, que, por sua vez, ouve deste outro (o seu avô) e conta a mais este outro, enfim; o narrador em terceira pessoa que finalmente nos conta tudo.

Tudo que diz respeito a tudo porque esse velho narrador (o avô da história) costumava narrar sobre tudo: “Tinha uma história para cada assunto, muitas pra vários assuntos: creio que o amor e a morte eram seus temas preferidos, e também as catástrofes inexplicáveis desencadeadas por forças desconhecidas, e honra, dignidade, hombridade, lealdade e amizade, os valores que, dizia ele, estavam desaparecendo de nossa cidade, e de resto, do mundo”.

Mas, então…, numa dessas tardes, por volta da década de trinta, diz ainda o narrador, falavam de futebol. E é aí que entra a figura de um certo personagem da história, um tal crioulo, “uma espécie de primeiro profissional da cidade”, que é apresentado ao público leitor com todos seus atributos pessoais e circunstâncias contra e a favor, principalmente contra; mais contra do que a favor, ressalte-se a bem julgar.

“Pois o crioulo jogava pelo Grêmio Esportivo Brasil, o time dos negros e mulatos. (…) Aos dezenove-vinte anos, era o maior driblador e fazedor de golos da época. Nem alto nem baixo, era magro como a peste e leve como a brisa e dançarino como as borboletas. E frio. Jogava de olhos abertos, cabeça erguida. Calculista, ele não só queria fazer o golo, gostava de ver o goleiro esmurrar a grama. Jogava rindo. (…) Ele ria daquele jeito só pra enfurecer os adversários, pra fazê-los perder a cabeça e começarem a querer matá-lo.” 

Entretanto, para tecer os elementos contrastivos da história e realçar a bravura e valor desse personagem no contexto em questão, o narrador literalmente adverte que só era assim dentro do campo, o mulato; implacável. “(…) Fora era outra coisa. Um rapaz gentil, tímido, de fala mansa, silencioso, cerimonioso. Saía do campo de cabeça baixa, como que pedindo desculpas por jogar tanta bola”.

Em seguida é arrematado o seu esboço socioeconômico e cultural com a descrição da sua condição de vida, a profissão que exercia e o que vai ligá-lo aquele contexto pré-profissional do mundo do futebol. Se o homem é ele e a sua circunstância, como nos afiança o filósofo espanhol Ortega Y Gasset*, a passagem, no texto, tem a função de revelar, do ponto de vista da sua eficácia narrativa, o detalhe específico sobre o qual vai recair toda a carga dramática do conto. É-nos é informado, por exemplo, que o tal crioulo trabalhava num matadouro.

“Era tão hábil com a faca quanto com a bola, dizia o meu avô. O negócio dele era a desossa. Desmanchava um boi em questão de minutos. E não deixava um só fiapo de carne nos ossos. Com a mesma precisão com que escapava dos coices do adversário, recuando o corpo apenas os milímetros necessários, ele destrinchava os animais”, afirma o narrador para, contudo, observar peremptório: “Aos domingos, brilhava nos campos”.

A partir de agora, dado o encaminhamento acima antevisto, as atenções da narrativa concentram-se, no seu essencial, nas ações e reações da inserção do personagem principal no universo da magia hipnótica da bola tocada de pé em pé*. (Ivan, p. 39). Por isso é que é explicada, como dupla justificativa para fazer um contraponto do trânsito de tal figura negra para o espaço social dos brancos, a razão puramente intrínseca ao futebol da questão do talento do negro para este esporte. “Depois de perder quatro dos cinco jogos, de enfiada, os dirigentes do Esporte Clube Pelotas começaram a se perguntar se não estariam fazendo uma grande asneira em não aceitar jogadores negros ou mulatos”.

Em nível de representação literária, todavia, um estratagema narrativo é aqui utilizado para dar a conhecer ao leitor o julgamento do tempo sobre essa questão. Assim, o narrador avô, contemporâneo dos fatos narrados, é requisitado ao texto para proferir seu paracer: “E meu avô dizia: está certo que esses negros são uns mandriões, e conheci não mais de sete que gostavam de trabalhar, mas o certo é que nas safadezas, coisas como serenatas e jogos de bola, eles são bons”.

Está aí com todas as letras da estória, o dilema colocado para os negros que há época desejavam tomar parte num esporte controlado pelos brancos, para o qual tinham talento e desenvoltura, mas cuja inserção, numa sociedade profundamente marcada pela divisão racial no trabalho (resquício do escravismo recente), poderia significar uma realização de efeitos duplos e contrários entre si: a possibilidade relativa da ascensão pessoal do indivíduo no plano econômico, mas à custa da adesão a valores não seus, no mundo social de então. O que, em termos muito claros, para criar um trocadilho de efeito, significava a traição aos seus companheiros de raça e de classe social.

Pois é isso que vai sustentar o melhor deste conto de Lourenço Cazarré. Isto é: a dramatização literária da dubiedade dessa situação onde o que deveria ser valorizado no negro (sua aptidão artística para a música e para a atividade lúdica: os jogos de bola, por exemplo) só o é na medida em que isso continua a servir ao branco como fator de distinção e hegemonia de classe (a superioridade também no futebol), e não como vetor de integração da heterogeneidade social em formação. Daí as qualidades dos negros serem tratadas, em termos de sua representação ideológica no âmbito da narrativa, de “safadezas, coisa como serenatas e jogos de bola”.

Todo o efeito de sentido da narrativa, portanto, se concentrará agora nessa situação do personagem. A cooptação e assédio que passa a sofrer para jogar no time dos brancos: “Um dos diretores do Pelotas, da família Almeida Guimarães, um cara que tinha tantos contos de réis quanto milhos numa espiga disse mais: que cederia ao tal crioulo uma casa velha que tinha lá pros lados da Cerquinha. Se aceitasse, podia morar lá de graça, enquanto servisse ao time”.

Não é necessário dizer – embora o narrador diga de forma elegante e comovente – o quanto perturbou o tal crioulo essa proposta. Para encurtar aqui a agonia do personagem, revele-se que, por fim, ele a aceitou, embora seja lembrado o leitor que ele tenha demorado muito pra aceitar. 

(…) Por uma mulher, decidiu-se.

(…) Disse que sim ao terceiro emissário.

(…) Faltava apenas uma semana pro jogo.

Com essas intervenções cirúrgicas, pontuais, o narrador resume a motivação, o tempo de maturação e a circunstância da decisão que vai ensejar o ápice dramático da história do seu personagem que não teve mais paz. E que, talvez justamente por causa disso, entra numa outra e maior agonia. “O jogo seria no domingo”, lembra outra vez, cirurgicamente, o narrador.

E lembra também que o acidente deu-se no final da manhã de sábado, após o expediente. Uma lágrima teria causado o acidente…! Uma lágrima que lhe sujou o olho.  “O mulato estava desossando uma carcaça no chão, como gostava de fazer, sobre a laje ensangüentada. Usava não só as mãos, mas também os pés descalços, pra firmar a ossamenta. Então a faca escapou e ele não sentiu nada além de uma pequena ardência, quase uma cócega, na parte de dentro do pé esquerdo”.

O que se segue são trechos da mais comovente bravura já incorporados ao rol de cenas similares em toda a literatura brasileira e não apenas na que tem como tema especificamente o futebol, o jogo dos pés.

“A faca correra ao longo de todo o seu pé, do dedão ao calcanhar, abrindo um talho fundo, de vinte centímetros de comprimento.”

“No primeiro instante ele até achou que tinha sido pouca coisa. Então o sangue começou a manar, denso, grosso, vermelho”.

Deixe-se o resto dessas páginas para o leitor folhear de tanto que elas trazem de lição de valentia e registre-se que o nosso crioulo foi assim mesmo para o jogo defender o time dos brancos. Situação que não o poupou de duros constrangimentos, perda da sua paz interior, como já se disse, mas que enfrentou com talento e brio de macho porque “meu tio dizia que no seu tempo, sim, aquilo era um esporte pra homens, porque os juízes só maçavam falta se o agredido sangrasse, e só expulsavam o agressor quando o outro ficava estirado sobre o barro, desmaiado”.

Contudo, a violência moral era a que mais o atingia “por causa dos risinhos e das piadas e das ofensas pesadas dos colegas de matadouro, mulatos e negros como ele”. Esse era o desprezo que lhe interessava, que lhe dizia respeito, adverte o narrador para logo lembrar que o jogo seria no domingo.

Pois lá vai o nosso personagem negro defender o Esporte Clube Pelotas, “o time dos almofadinas da Avenida” enfiando “a camiseta azul e amarela que se acostumara, desde menino, a repudiar”. Entrou em campo escondendo aquele profundo talho que varava seu pé de ponta a ponta, a que dera um jeito costurando-o com uma tripa seca de boi e escondendo tudo sobre o meião de jogo.

Sabe-se como é, né? Queria ter uma casa e uma vida como qualquer outro. Assinala o narrador que ele até “sonhou, com misto de orgulho e desvanecimento de proprietário, que passava as trancas nas portas e se deitava ao lado da mulher, e que adormecia, como um homem comum”.

Retomemos a narrativa dentro da narrativa para mostrar a habilidade do escritor Lourenço Cazarré, no campo do texto, acompanhando com similitude a habilidade do seu personagem, no campo do jogo, e concluamos tudo ao louvar, com esse último trecho citado – que, frize-se, não encerra a  história -, mais esse belo tento da literatura brasileira que faz do futebol um bom motivo para por em discussão os problemas e desafios que, na sua busca de identidade e caracterização, tem enfrentado o homem brasileiro ao curso de seu tempo.

“Que mais posso lhe dizer, meu amigo? Perguntava o meu avô nesse ponto da narrativa. Pouca coisa, respondia. Só que o mulato fez uma festa. Marcou três. E olha que os caras bateram nele! Saiu com os olhos escondidos debaixo de inchações e com um talho no supercílio. Apanhou muito dos seus antigos companheiros, mas em momento algum pediu pra sair, como fazem esses frescos hoje em dia. Foi até o apito final esbanjando categoria. Parecia um toureiro se esquivando daqueles animais furiosos. E dava chapéu neles, bola pelo meio das pernas então era mato. E os caras chutavam não a bola, ele, e ele só dava de banda, e a chuteira passava. Três gols, sabe o que é isso?

Foi o último a deixar os vestiários porque não queria que vissem a meia empapada de sangue. Naqueles tempos eles próprios tinham que arranjar quem lavasse o fardamento. Saiu, sem que ninguém, além do engraxate, tivesse descoberto o seu segredo”. 

PARA SABER MAIS:

Lourenço Cazarré, o autor da história acima, nasceu em Pelotas (RS) em 29 de julho de 1953. Desde 1981, ano em que saiu seu primeiro livro, Agosto, sexta-feira, treze, este escritor e jornalista gaúcho já teve mais de duas dezenas de obras publicadas. Grande contista brasileiro, conquistou o Prêmio Açorianos de Literatura, na categoria Contos, em 2002, com Ilhados. Esteve presente por duas vezes na Bienal Nestlé de Literatura, em 1982 e 1984; no Prêmio Jabuti, em 1999 e em mais de uma dezena de outros concursos. Sua novela, O mistério da obra-prima, foi traduzida para o espanhol e editada pela Fondo de Cultura Económica, do México. Entre sua obra infanto-juvenuil destacam-se os livros, Clube dos leitores e histórias tristes, A cidade dos ratos: uma ópera-roque, Quem matou o mestre de matemática? e Nadando contra a morte, que levou o Prêmio Jabuti de 1999. O conto, O homem vestido de negro, foi publicada na coletânea, 11 Histórias de futebol, integrante da Coleção Prosa Presente, da Editora Nova Alexandria, de São Paulo, que saiu em 2006.


A FIFA e o COI na guerra na Ucrânia: possíveis papéis e notas de repúdio

28/02/2022

por Maurício Drumond

“Se você fica neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor

(Desmond Tutu)

Em meio à escalada beligerante da guerra na Ucrânia na última semana, cresce a pressão pelo posicionamento e por ações dos mais variados atores do sistema internacional. É dentro desse contexto que podemos ver as primeiras medidas adotadas pelos dois principais agentes do campo esportivo no planeta, o Comitê Olímpico Internacional (COI) e a Federação Internacional de Futebol (FIFA). O COI tomou a dianteira neste processo ao publicar em 24 de fevereiro, no dia seguinte ao início da invasão russa ao território ucraniano, sua primeira posição condenando a incursão militar. Na nota de repúdio divulgado em seu sítio eletrônico intitulada “O COI condena veementemente a violação da trégua olímpica” (link), a entidade manifesta sua oposição à ação do governo de Vladimir Putin ressaltando a resolução 76/13 aprovada de forma unânime pela Assembleia Geral da ONU no dia 2 de dezembro de 2021. A resolução “Construindo um mundo pacífico e melhor através do esporte e do ideal olímpico” resgata a simbólica ligação dos Jogos Olímpicos Modernos com os jogos da antiguidade, invocando a “tradição grega da ekecheiria (Trégua Olímpica), reivindicando uma trégua durante os Jogos Olímpicos a fim de encorajar um ambiente pacífico e garantir passagem segura (…), mobilizando assim a juventude do mundo para a causa da paz” (link). O documento então declara que os países membros devem se esforçar pela manutenção da paz durante o período que se iniciaria sete dias antes dos Jogos de Inverno de Pequim, iniciados em 7 de fevereiro, e acabaria 7 dias após os Jogos Paralímpicos, agendados para terminar em 13 de março.

Em sua primeira declaração, o COI apenas condena a ação militar russa dentro desse período de Trégua Olímpica. No dia seguinte, 25 de fevereiro, a entidade vai muito pouco além do posicionamento contrário à guerra e faz um pedido para que as federações esportivas internacionais realoquem ou cancelem os eventos esportivos planejados para a Rússia ou Belarus, e que não permitam a exibição da bandeira ou do hino desses países em suas competições (link).

Essas ações vão ao encontro de ações prévias do COI sobre a Rússia, que em 2019 foi condenada pela Agência Mundial Antidoping (WADA) a não ter seus símbolos exibidos em competições internacionais. As ações, de efetividade muito limitada e duvidosa, já vinha sendo posta em prática, o que diminui ainda mais o impacto da nota de repúdio do COI, que clama por sanções que em larga medida já estavam sendo impostas ao país beligerante. A FIFA seguiu postura semelhante ao COI em nota divulgada ontem, dia 27 (link). Nela, a entidade máxima do futebol mundial diz agir “em linha com o Comitê Olímpico Internacional (COI)” e determina as seguintes medidas:

  • Nenhuma competição deverá ser realizada em território russo, e os jogos onde o país tiver mando de campo deverão ser realizados em território neutro, sem público;
  • A associação representando a Rússia deverá participar das competições com o nome “Federação de Futebol da Rússia (RFU)” e não como “Rússia”;
  • A bandeira e o hino da Rússia não poderão ser realizados em jogos de times da Federação Russa.

As medidas da FIFA, tímidas como as medidas do COI esbarram, no entanto, na postura mais rígida de federações associadas como a da sueca, polonesa e tcheca, que declararam que não realizarão os jogos pelas eliminatórias da Copa do Mundo contra a seleção russa. Frente às declarações destas federações, a nota emitida pela FIFA diz apenas que a entidade “tomou nota das posições expressas nas mídias sociais” por essas federações e que “já dialogou com todas essas associações de futebol”. A nota diz ainda que “[a] FIFA permanecerá em contato próximo para buscar soluções adequadas e aceitáveis ​​em conjunto”, sem nenhuma posição mais definida.

Ainda é preciso acompanhar o desenrolar das ações nos próximos dias. As entidades internacionais ainda buscam se ancorar na velha máxima de que “esporte e política não se misturam”, repetida há décadas por dirigentes esportivos e mais recentemente por alguns nomes da grande mídia, a fim de não se envolverem profundamente, ou adotarem apenas medidas cosméticas, como as do momento. No entanto, a pressão de outros agentes esportivos, como as federações nacionais no caso da FIFA, pode levar ao maior envolvimento dessas entidades. Os jogos da repescagem europeia para a Copa do Mundo estão agendados para o final de março. A tabela prevê jogos da Rússia contra as federações que já declararam que não enfrentarão a seleção. Além disso, a capacidade de participação da Ucrânia também deverá ser colocada em questão. Se ações mais duras virão, o tempo ainda dirá. Mas a pressão se faz presente. Um possível endurecimento sobre a Rússia será mais resultado dessa pressão do que uma ação espontânea dos dirigentes das maiores entidades esportivas do planeta. Vamos acompanhar.


“Quando a Lagoa era subúrbio: os clubes náuticos, a produção do espaço e o processo de gentrificação”: novo título

23/02/2022

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capa.livro.lagoa

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“Quando a Lagoa era subúrbio: os clubes náuticos, a produção do espaço e o processo de gentrificação” é o quarto título da coleção “História do Esporte: olhares e experiências”. Dessa vez, nos debruçamos sobre um dos bairros do Rio de Janeiro que mais passou por mudanças: a Lagoa.

O antigo bairro operário, depois marcado pela existência de favelas, se tornou uma região de moradia de gente privilegiada economicamente, um cartão postal de uma cidade que adora exultar suas belezas naturais e cultura exuberante, sempre, contudo, escondendo suas mazelas e a enorme desigualdade que marca sua história.

Neste livro, procuramos argumentar que alguns clubes náuticos que surgiram na Lagoa nas décadas iniciais do século XX são indícios e agentes desse processo de transformação. Inegavelmente, foram produtos e produtores do espaço.

O livro pode ser acessado gratuitamente aqui:

Clubes.Nautico.Lagoa.EBOOK

Para acessar os outros três títulos da coleção:

“Um bairro, um esporte, uma agremiação: o Tijuca Tênis Clube (1915-1931)”: novo título