Negacionismo Olímpico: o último apelo para cancelarem os Jogos Pandêmicos de Tokyo *

18/07/2021

por Neilton Ferreira Junior (1) e Jorge Knijnik (2)

Pierre de Coubertin, militar, aristocrata, historiador francês e idealizador dos Modernos Jogos Olímpicos, sonhava com uma agenda esportiva internacional que traria paz e fraternidade a um mundo imerso em crises econômicas e conflitos.

Apesar de seu otimismo implacável, seu projeto olímpico foi rapidamente permeado pela fome de acumulação capitalista e avanço tecnológico de uma Era de Extremos, tal como descreveu Eric Hobsbawm. Capital e novas tecnologias industriais e de guerra, mas sobretudo imagéticas, estiveram presentes desde as primeiras edições dos Jogos e se tornaram inexoráveis ​​na década de 1930, período em que Coubertin é engolido pela própria criação. Ao assumir a forma espetáculo, isto é, da “reconstrução material da ilusão religiosa”, do domínio da categoria do ver como única forma de acesso ao real, como bem expressou Guy Debord, os Modernos Jogos Olímpicos transformaram-se em uma arma poderosa e exemplarmente perigosa “de dominação dos homens vivos quando a economia já os dominou totalmente (Sociedade do Espetáculo – Guy Debord, 1997, pp. 16-19). Munido de força política e de um arsenal discursivo ancorado ao idealismo liberal, o movimento olímpico internacional atravessou o século 20 sobre as asas de um “compromisso ético e moral” incapaz de reconhecer as realidades socioculturais e econômicas distintas. Seu programa de expansão na África entre os anos 1910 a 1920, por exemplo, não esboçava qualquer oposição ao colonialismo. Pelo contrário, muitas das teses que justificavam a manutenção do regime genocida europeu encontravam guarida no próprio COI, que ignorando contundentes reivindicações anticoloniais dos povos oprimidos reservava-se a discutir não mais que os termos da assim chamada Colonisation Sportive. Projeto que, fiel ao nome, contava com o patrocínio e entusiasmo de colonialistas notórios, conferindo à “raça” uma importância capital.

Jogos Nazistas

Embora hoje em dia tenhamos a tendência de lembrar os Jogos Olímpicos de Berlim de 1936 por meio de imagens de um Adolf Hitler extremamente irritado após a vitória no atletismo do atleta afro-americano Jesse Owens, as narrativas cotidianas do período eram centradas em uma exaltação ao regime nazista. Aparentemente, essa ideologia de cunho ultranacionalista ia muito além dos “ideais internacionalistas” de Coubertin, poderíamos pensar. Porém, a abordagem do COI e do próprio Barão francês ao megaevento nos conta uma outra história, que expressa mais nitidamente o caráter imperativo que os Jogos Olímpicos assumiam já nessa época, em detrimento dos povos sobre os quais estendia a sua tenda. 

Os Jogos nazistas foram saturados pelas imagens da suástica e pela saudação nazista, entre outras imagens cativantes e representações do estado fascista controlado pelo Partido Nacional Socialista. Tudo isso sob a supervisão complacente do Comitê Olímpico Internacional e do então presidente honorário, De Coubertin, que não só reiterou total apoio aos Jogos nazistas, como teceu largos elogios àquela que foi, segundo ele, uma edição exemplar. Contrário às críticas dos jornalistas esportivos franceses, que lamentavam a utilização dos Jogos como pretexto para fins visivelmente nefastos, De Coubertin diria que a ideia Olímpica de fato não foi sacrificada em prol da propaganda nazista, mas, pelo contrário, “o grandioso êxito dos Jogos de Berlim contribuiu de modo magnífico para com o ideal Olímpico”

A torch bearer passes the Brandenburg Gate, Berlin, 1 August 1936

Durante essa edição, dois atletas judeus americanos, Marty Glickman e Sam Stoller, foram removidos por seus técnicos do revezamento 4×100 horas antes da competição. Este foi o destino de vários atletas judeus durante a década de 1930. Ao longo dos três anos que antecederam os Jogos, o Terceiro Reich conduziu perseguições, esterilizações forçadas e prisões de homossexuais, deficientes, judeus e outros “não-arianos”. No plano esportivo, os nazistas instituíram a política denominada somente para arianos, que determinava a expulsão de atletas “não-arianos”, parcialmente judeus e ciganos de todas as associações atléticas alemãs. Figuras renomadas como o boxeador Erich Seelig, o tenista Daniel Prenn e a saltadora Gretel Bergmann, foram expulsos de seus clubes e, posteriormente, impedidos de integrar a delegação olímpica alemã. Os atletas judeus barrados dos clubes esportivos alemães formaram associações judaicas, tais como os grupos denominados Maccabee e Shield, e criaram instalações improvisadas para continuar a treinar. Entretanto, as precárias instalações esportivas judaicas não podiam se comparar às dos grupos alemães, muito bem financiados. Os ciganos, incluindo o grande boxeador Sinti Johann Rukelie Trollmann, também foram excluídos dos esportes alemães

The Olympic torch in the Lustgarten, Berlin, 1 August 1936

Às vésperas dos Jogos, atletas que viviam fora da Alemanha, coletivos comunistas, socialistas e associações trabalhistas e esportivas na Grã-Bretanha, França, Suécia, Tchecoslováquia, Países Baixos e Estados Unidos, tentaram articular a realização de um boicote e uma grande agenda esportiva paralela denominada Contra Olimpíadas. Movimento que não logrou sucesso, uma vez que não pôde contar com o apoio decisivo da Associação de Atletas Amadores dos Estados Unidos, favorável à agenda olímpica.

O boicote a esta edição dos Jogos representaria um golpe importante da comunidade internacional nas intenções nazistas. Contudo, cabe lembrar que a verve racista não era uma exclusividade do estado alemão. A concepção de raça enquanto categoria biológica e cultural de determinação da “superioridade” e “inferioridade” entre seres humanos, tinha status de verdade científica, e orientava boa parte da elite intelectual e política mundial .

Até meados do século 20, a raça seguia sendo um dos principais instrumentos retóricos de justificação de um civilizacionismo colonial europeu que, na prática, servia à política de expropriação, superexploração, segregação e genocídio de povos ameríndios, africanos e orientais

A forma assustadoramente descompromissada com que o programa olímpico circulava por esse terreno era perfeitamente condizente com o que o principal teórico do Olimpismo pensava. Historiador de formação, Coubertin dedicou longas e entusiasmadas considerações ao colonialismo europeu, com especial atenção ao francês

Jogos da Era Jim Crow

Embora o brilhantismo de Owens e de outros atletas afro-americanos nos Jogos nazistas tenha desafiado o ideal ariano de superioridade, Coubertin já havia sustentado duas edições anteriores dos Jogos nos Estados Unidos. Os Jogos de Saint Louis de 1904 e os Jogos de Los Angeles de 1932 foram realizados durante a vigência das Leis Jim Crow, que entre 1877 e 1964 orientaram politicas de segregação de negros e brancos em espaços públicos e um regime de violência impune contra afro-americanos, americanos nativos, latino-americanos e asiáticos, produzindo efeitos devastadores no plano político e cultural

Cabe registrar que Saint Louis tanto era uma das cidades mais segregadas dos Estados Unidos à época, como servia de palco à atrações bizarras, acompanhadas da exposição de africanos enjaulados

Paul Robeson pickets St. Louis theater

A edição Olímpica foi anexada ao Louisiana Purchase Exposition, conhecido em português como Exposição Universal de 1904. Entre os 12 e 13 de agosto daquele ano, fez-se conhecer os assim chamados “Dias Antropológicos”. Programação que no primeiro dia contou com  competições tradicionalmente europeias, incluindo arremesso de peso, salto em altura, salto em distância, dedicando o segundo dia ao que seus organizadores denominaram “exibições mais amigáveis ​​para os selvagens”. Nenhuma das atividades propostas (escalada em tronco, arco e flecha, lutas e lacrosse) diziam respeito aos “convidados” não-brancos, os quais não sabiam que estavam sendo submetidos a um “exame científico” de deflagração de sua “inferioridade racial”, conforme defenderam James Edward Sullivan e William John McGee, co-organizadores do evento infame

Antuerpia: Jogos acima de tudo

Em 1920, o mundo acabava de experimentar uma guerra, e mal saía de uma pandemia, quando o Movimento Olímpico decidiu pela realização dos Jogos de Antuérpia, tendo em Coubertin um dos seus mais irrepreensíveis defensores

Além das críticas que recebia pela baixa receptividade às mulheres e à classe trabalhadora, os Jogos Olímpicos se tornaram alvos de forte resistência pública, sobretudo quanto à destinação de fundos públicos para a realização de um megaevento esportivo em detrimento de necessidades mais urgentes. Esse fato gerou uma antipatia generalizada em relação aos Jogos de Antuérpia e ao Movimento Olímpico. Situação que parece se repetir agora, quando movimentos de oposição aos Jogos reivindicam com razão maior atenção às prioridades impostas por uma pandemia

Munique: “os Jogos devem continuar!”

Em 1972, o então presidente do COI, Avery  Brundage, insistiu para que os Jogos Olímpicos de Munique fossem adiante. “Os Jogos devem continuar!”, exclamou, apesar do assassinato de atletas israelenses perpetrado pelo grupo terrorista Setembro Negro, e da manutenção de reféns na vila oímpica durante longas horas. Após uma interrupção de 34 horas, os atletas voltaram às quadras e campos para “celebrar a vida”.

Este breve relato sugere que a história dos Jogos Olímpicos também é a história de seu “não adiamento”, seu “negacionismo”, sua política imperativa. A agenda e a ideologia olímpica se naturalizaram de tal modo, que a entidade máxima do esporte pode hoje constranger nações inteiras à realização de um megaevento, mesmo que não existam condições humanas e sanitárias para isso. Sublinhado pelas determinações econômicas, essa política imperativa suspende soberanias nacionais, reduzindo-as a estados de exceção que desencadeiam violações do meio ambiente e dos direitos humanos

Mas como é possível à agenda olímpica prevalecer sobre qualquer circunstância – a despeito de suas vítimas? “Por seu próprio modo de manifestação”, conforme nos dizem Jean-Marie Brohm, Marc Perelman e Patrick Vassort, “o esporte tornou-se um dos vetores da globalização em curso, uma espacialização planetária sob o regime de um tempo único reificado”, alimentado pela força universalizante televisão. “O tempo ainda marcado pela historicidade, um tempo complexo, de uma certa fluidez dialética, foi substituído, portanto, pelo tempo do esporte”, esse tempo que divide tudo, que reduz a história ao expediente competitivo, das marcas do espetáculo televisivo. “Atualmente”, concluem, “o esporte não é mais do que um dos componentes de um tempo e de um espaço autonomizados no e pelo capital

Integralmente submetido aos interesses financeiros, os Jogos Olímpicos passam agora à condição de infraestrutura de uma escalada neoliberal de grande teor autoritário.

O Negacionismo de Tóquio

Em fevereiro, uma pesquisa apontou que mais de 80% dos japoneses não querem que os Jogos de Tóquio sejam realizados. Esses números não diminuíram nos últimos meses, e o público japonês continua preocupado com as consequências para seu sistema de saúde se os Jogos levarem a infecções generalizadas.

Petition against Tokyo Olympics submitted to organisers | Sports News |  Onmanorama

Como o sistema de saúde abrangente do Japão é fundamentalmente baseado na detecção precoce e prevenção de doenças, a preocupação do público é compreensível. Eles temem que não haja instalações médicas suficientes para cuidar das pessoas infectadas que ficam gravemente doentes

No final de junho, em uma declaração pública extremamente rara, o imperador japonês Naruhito revelou sua profunda preocupação sobre a disseminação do coronavírus durante os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de Tóquio

Outra voz relevante dentro da sociedade japonesa manifestou seu profundo receio em relação aos Jogos: em uma entrevista com a CNN, Hiroshi Mikitani, CEO da gigante de tecnologia Rakuten, voz relevante dentro do setor empresarial japonês, chamou os jogos de uma “missão suicida“. Em sua entrevista, Mikitani revelou que tentou alertar o governo sobre os riscos do megaevento, dizendo que não havia mais tempo para vacinação em massa da população japonesa. Ele tentou persuadi-los a adiar ou cancelar os Jogos, mas sem sucesso

Por outro lado, o Comitê Olímpico Internacional (COI) insiste em dar continuidade ao evento. O presidente do comitê, Thomas Bach, declarou recentemente que o trabalho de sua organização é consolidar e montar um show esportivo majestoso, não cancelá-lo. Com as mãos amarradas pelos contratos que o país assinou com o COI e temendo um grande desastre econômico, o governo japonês até agora mantem o evento.

A Pandemia ainda não acabou

Infelizmente, a pandemia de COVID-19 continua afetando gravemente várias regiões ao redor do globo. Em muitos países, as taxas de vacinação são baixas, enquanto os níveis de infecção são altos. Mesmo em regiões como a Europa – onde a Eurocopa deu a impressão de que a vida estava se normalizando, o COVID-19 é duradouro, com milhares de adeptos de futebol recentemente ligados a infecções advindas dos estádios de futebol

A Austrália, onde a pandemia parecia estar sob controle, viu nas últimas semanas as suas principais capitais e outras cidades regionais voltarem ao lockdown. Além disso, países como Alemanha e Israel estão enfrentando problemas com a variante Delta do vírus

No entanto, mesmo com todas as enormes e evidentes ameaças à saúde do Japão e da comunidade internacional, os Jogos parecem seguir o seu rumo. Parece que as Olimpíadas inspiram o mundo a entrar em um estado de espírito completamente negacionista, acompanhando aquilo a que o cientista brasileiro, Miguel Nicolelis, tem chamado de “nova onda de negacionismo no mundo, amparada por um vírus informacional com alto potencial de penetração, capaz de atingir inclusive setores progressistas e intelectuais da sociedade”. Um negacionismo de dimensões ‘Olímpicas”.

Apesar de seu potencial para ser um evento ‘super spreader’, disseminando novas cepas durante a competição, e depois pelo mundo, quando os atletas, treinadores e jornalistas estiverem de volta aos seus países, parece que nada pode impedir os #JogosPandemicos.

Olimpismo

O Comitê Olímpico Internacional é o guardião do Movimento Olímpico, que visa promover a filosofia olímpica muito além dos Jogos. Conhecida como Olimpismo, os objetivos desta filosofia de vida são criar um estilo de vida equilibrado, combinando corpo, espírito e mente. Além disso, o Olimpismo visa promover “o valor educacional do bom exemplo e o respeito pelos princípios éticos universais”.

Muitas pesquisas foram realizadas sobre o legado questionável dos megaeventos esportivos, como os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos ou a Copa do Mundo da FIFA. Os pesquisadores demonstraram como esses eventos podem perturbar as comunidades e seus direitos à moradia ou ao acesso à educação pública

Apesar de tais alegações, o COI segue promovendo os valores e legados positivos de seus eventos, do ponto de vista econômico, mas também educacional e social. Esses valores, mais às claras determinações econômicas e implicações financeiras dos Jogos, mantêm a comunidade japonesa e o mundo em cativeiro

Nessa lógica, os Jogos de Tóquio devem ir em frente, custe o que custar. Independentemente da pandemia e do fato de ser difícil e provavelmente impossível criar uma bolha esportiva gigante e perfeita para controlar o vírus; the show must go on, custe o que custar. Este é o mantra do COI ao longo da historia.

Os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de Tóquio parecem ser mais importantes do que os bilhões de vidas humanas em todo o planeta.

Rain check: Japanese woman arrested after SQUIRTING WATER at Olympic flame as anti-Games protests continue (VIDEO)
Mulher ‘ataca a tocha olimpica’ com uma arminha d’agua – parece que foi presa por isso

Último apelo para interromper os jogos

Nós desafiamos essa lógica. Aqui, juntamos nossa voz às centenas de milhares que já solicitaram o fim dos jogos para salvar suas vidas. Parece bastante simples que uma instituição que visa promover e respeitar os princípios éticos universais tente, antes de mais nada, proteger vidas.

Pode parecer ingênuo, mas aqui vamos lançar o último apelo para impedir os “Jogos Pandêmicos  do COI”. Apesar dos determinantes econômicos, cancelar ainda parece ser a melhor opção. Do ponto de vista político, este gesto sinalizaria o apreço há muito perdido do COI pela soberania popular, as recomendações da comunidade científica, a democracia e os valores anteriormente defendidos por seu fundador.

O Japão, por sua vez, entraria para a história como o primeiro país que exemplarmente “disse não” aos princípios econômicos que norteiam o Movimento Olímpico contemporâneo.

O mundo não precisa de outro “legado” como o dos Jogos nazistas – destruição e morte. No momento, a única maneira de manter a fidelidade à Carta Olímpica para celebrar a vida é dizer “não” aos Jogos de Tóquio em 2020.

O cancelamento de Tóquio será então seu verdadeiro legado.

#stopthePandemicGames

Petition · Cancel the Tokyo Olympics to protect our lives · Change.org

* Uma versao reduzida deste texto foi publicada no The Globe Post

(1) Neilton Ferreira Junior é doutorando na Universidade de Sao Paulo

(2) Jorge Knijnik escreveu ‘The World Cup Chronicles: 31 days that Rocked Brazil


Adhemar Ferreira da Silva: representações de um herói olímpico (parte 2)

11/07/2021

Fabio Peres e Victor Melo[i]

Após a vitória 1952, em Helsinque, as notícias veiculadas nos periódicos revelavam, mesmo sem querer, nuances e ambiguidades – pouco visíveis e invisibilizadas – da construção da nossa identidade nacional.

No olhar de muitos cronistas, as representações sobre Adhemar orgulhavam mais por serem ecoadas pelas agências internacionais de notícias, que o descreviam como “um negro alto, de longas pernas” que:

“[…] obteve ainda um grande sucesso de simpatia quando, depois de receber sua medalha de ouro, efetuou espontaneamente uma volta na pista, cumprimentando a multidão, encantada com a maneira pitoresca pelo qual o atleta brasileiro expandiu sua alegria”[ii].

Em outra ocasião, uma agência ressaltou a “modéstia” do atleta: “Limitei-me a fazer o possível”, “não contava fazer nada parecido com isso”[iii], afirmara Adhemar.

Na representação da imprensa do Brasil, os surpreendidos olhos estrangeiros acabavam por confirmar algumas características do caráter brasileiro, pacífico e mestiço, à moda do que tinha sido categorizado por Gilberto Freyre, cujo pensamento na altura já gozava de grande prestígio[iv]. Porém, esses mesmos olhares jogavam luz, de forma não intencional, sobre diferenças na “construção social da cor”.

A célebre cantora e dançarina Josephine Baker, que se encontrava no país para apresentar seu espetáculo, em entrevista intitulada “Quero dar um beijo em Adhemar da Silva”, afirmou que: “uma vitória de um homem de cor é também a minha[v].

Josephine Baker durante sua passagem pelo Brasil na década de 1950 Foto: Theopompo do Amaral/28-08-1952. Fonte: O Globo.

A artista, que gostava “muito de esporte”, amiga de Joe Louis e Sugar Ray Robinson (boxeadores negros americanos)[vi], era ativista dos Direitos Civis e chamava atenção pela sua atitude política, estilo de vida e preferências sociais. Josephine Baker participava de diversas organizações que lutavam contra a discriminação racial. Em sua visita ao Brasil se reuniu com intelectuais, entre eles Edgard Santana (médico, que em parte participava de forma “vacilante” do que foi conhecido como “contra-ideologia racial”), para debater o racismo e articular formas de apoio aos grupos locais[vii].

Para ela, era “muito normal” a admiração que os finlandeses expressaram por Adhemar “porque […] como todos os escandinavos, estão na vanguarda do movimento contra as discriminações raciais”. O que a surpreendeu foi a imprensa brasileira dedicar muitas páginas para um atleta de “cor”. O jornal destacou que a cantora exaltou a consolidação da democracia brasileira:

Mandarei logo 50 exemplares da Última Hora para todos os amigos nos quatro cantos do mundo para mostrar como os jornais de um país democrático dedicam uma justa recompensa a um dos seus grandes filhos. […] A vitória de Adhemar reforça ainda o grande amor que tenho para o Brasil, o país que eu levo no meu coração como o símbolo da democracia das Américas. E quando Adhemar estiver de volta, dar-lhe-ei um grande abraço para agradecer estas emoções que fizeram o dia de hoje o mais feliz dia desde que cheguei no Brasil. Eu sabia que neste país uma coisa maravilhosa via me acontecer. Deus ajuda todos que lutam para um ideal puro [viii].

De maneira ambígua, Adhemar acabava sendo eleito a representante de algo que, de fato, não existia e nunca existiu no Brasil – o mito da harmonia de raças. A valorização de suas conquistas não conseguia mascarar as injustiças de várias ordens que cercavam a população brasileira, inclusive de natureza racial.

Devemos atentar para as nuances que permeavam a vida social brasileira na naquele momento, algo que começara a se gestar na década de 1930, mas que ganhou corpo na década de 1950. No plano cultural, Adhemar e outras celebridades negras ou pardas não eram associados a termos como “negro”, “preto” ou “colored”. Na imprensa e nos meios de comunicação, em geral, essas conotações eram usadas com sentido pejorativo, evidenciando o racismo, ora mais, ora menos, tácito. Adhemar e as demais personalidades eram tratados como “ilustres brasileiros”, sendo suas respectivas “negritudes”, por assim dizer, “visíveis” apenas aos olhos estrangeiros.

De toda forma, o prestígio do país no cenário internacional, de acordo com os periódicos, não era nada trivial. No dia seguinte à vitória, o Correio da Manhã fez questão de registrar que Adhemar não apenas havia sido aclamado como herói pela conquista da medalha, como também por ter realizado um “fato inédito nos anais olímpicos”[ix], bater o recorde mundial por quatro vezes seguidas no mesmo certame. Para o cronista, o feito ajudava a deixar claro o valor do Brasil para o mundo.

O aplauso do público e de outras delegações foi encarado como suposto reconhecimento das qualidades nacionais – a cordialidade, empatia, modéstia:

O Hino Brasileiro foi entoado em coro por todos os torcedores de Adhemar Ferreira da Silva. Em seguida, o titular do segundo lugar nessa prova, o russo Scherbakov, fez questão de demonstrar ao brasileiro sua indizível admiração […] E quando o brasileiro, (…), lançou-se na pista, da qual fez uma volta completa, sob as ovações dos espectadores que o aclamavam e se levantavam à sua passagem; teve-se a impressão de que nem mesmo Zatopek teve tão grande triunfo, em sua vitória na corrida dos 10 mil metros. O público guardará por muito tempo no espirito a imagem do triunfador, detendo-se em meio à corrida para abraçar uma loura admiradora cujo entusiasmo a colocara na linha de frente[x].

José Brígido, do Diário de Notícias, conclamou os leitores a celebrar a conquista da medalha de ouro com “o maior entusiasmo possível, pois fez projetar o nome do nosso país no mais importante certame do mundo e de maneira verdadeiramente sensacional”[xi]. As expectativas de difusão internacional de uma boa imagem do Brasil estavam longe de serem modestas e, mais do que isso, incluíam todos os compatriotas como participes da conquista:

Não resta a menor dúvida que o feito de Adhemar valeu todos os sacrifícios que fizeram os brasileiros para participar deste grande certame, valerá ainda mais porque hoje em todas as páginas, de todos os jornais do mundo, seu nome ao lado do Brasil, estará estampado, todas as difusoras do mundo falarão de sua proeza e o cinema e a televisão reproduzirão as cenas principais de sua prova e tudo isso valerá como grande propaganda da nossa terra e da nossa gente[xii].

O técnico da delegação, Osvaldo Gonçalves, chegou a declarar que, dada a importância do feito para o Brasil, não havia menino que não quisesse se transformar “num Adhemar”[xiii]. Independentemente dos exageros típicos de uma cobertura ufanista, pode-se dizer que o Brasil largamente se irmanou ao redor da vitória de Adhemar:

os aplausos e vivas partem de todos os lados, não só dos desportistas como de todos os funcionários das empresas aéreas e do aeroporto, desde os mais modestos até aos chefes. Era a manifestação de agradecimento de milhões de brasileiros, através de cerca de setenta pessoas, ao maior campeão brasileiro de todos os tempos, autor de uma façanha senão impossível, dificílima de ser igualada por qualquer atleta do mundo[xiv].

Os jornais buscaram sintetizar o orgulho do país construindo laços simbólicos entre o indivíduo e a nação. Adhemar, o “campeão olímpico que assombrou o mundo”, declarou “Venci porque sou brasileiro” [xv]. O herói se punha a serviço da nação.

Última Hora, 11/8/1952, p.7

Quatro anos depois, tais traços da construção da identidade nacional ganharam novas cores e roupagens com a conquista da segunda medalha de ouro. Mas essa história ficará para o próximo post.


[i] Texto publicado originalmente em PERES, Fabio de Faria; MELO, Victor Andrade de. Adhemar Ferreira da Silva: Representations of the Brazilian Olympic Hero. In: Antonio Sotomayor; Cesar R Torres. (Org.). Olimpismo: The Olympic Movement in the Making of Latin America and the Caribbean. Fayetteville: University of Arkansas Press, 2020, p. 95-110.

[ii] Diário de Notícias, 24 jul. 1952, 3ª Seção, p. 3.

[iii] Correio da Manhã, 25 jul. 1952, 2º Caderno, p. 1.

[iv] Para mais informações, ver: GIUCCI, Guillermo; LARRETA, Enrique Rodríguez. Gilberto Freyre, uma biografia cultural: a formação de um intelectual brasileiro (1930-1936). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

[v] Última Hora, 2 ago.1952, 2º Caderno, p. 4.

[vi] Última Hora, 2 ago.1952, 2º Caderno, p. 4.

[vii] Última Hora, 21 jul. 1952, 2º Caderno, p. 12. Sobre contra-ideologia racial, ver FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes (vol 2). São Paulo: Globo, 2008.

[viii] Última Hora, 2 ago.1952, 2º Caderno, p. 4.

[ix] Correio da Manhã, 24 jul. 1952, 2º Caderno, p. 1.

[x] Correio da Manhã, 24 jul. 1952, 2º Caderno, p. 1.

[xi] Diário de Notícias, 24 jul. 1952, 3ª Seção, p. 1.

[xii] Diário de Notícias, 31 jul. 1952, 3ª Seção, p. 3.

[xiii] Correio da Manhã, 25 jul. 1952, 2º Caderno, p. 1.

[xiv] Última Hora, 11 ago. 1952, p. 7.

[xv] Última Hora, 2 ago. 1952, 2º Caderno, p. 3; 11 ago. 1952, p. 7.


“Hemerotecando” a esgrima em São Paulo

05/07/2021

Flávia Cruz/flacruz.santos@gmail.com

Em 1854 já há notícia da existência de uma sala de esgrima em São Paulo. Mas a presença sistemática de tal prática na capital paulista se dá mesmo a partir de 1862, quando começam a chegar na cidade mestres de armas vindos da Europa. Mestres de armas é como são denominados os professores de esgrima.

A despeito da inexistência de ferrovias que ligassem a capital ao litoral, e das dificuldades desse trajeto, que se dava pela serra do mar, a presença de europeus na cidade foi mesmo uma constante, desde seus primórdios. Os mestres de armas que chegavam eram alemães, italianos, franceses.  

Eles ministravam aulas e cursos em suas próprias residências, em instituições de ensino, como o Liceu Alemão, e em associações, como o Clube Ginástico Português. Algumas vezes, além de europeus esses professores eram também militares, como era o caso do capitão do exército prussiano, Theodoro Maximilio de Krans, que dava lições de esgrima.

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Flavinha.1

Jornal da Tarde, 3 de abril de 1879

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A esgrima se desenvolveu na capital paulista atrelada a esses dois elementos: os europeus e os militares. Foi com professores europeus que os paulistanos aprenderam a esgrima, e foi por influência inglesa que eles desejaram aprendê-la. A esgrima compunha a formação de militares, e estes também eram mestres de armas, não apenas nas escolas militares, mas também em cursos para civis.

Os militares possuem, no entanto, uma especificidade em sua relação com a esgrima, que pode ser notada principalmente a partir da primeira década do século 20. Enquanto no meio civil as armas estudadas eram o sabre, a espada e o florete, os militares se dedicavam também à esgrima de baioneta. Baioneta é uma espécie de punhal, que é acoplado ao cano da arma de fogo, geralmente um fuzil. 

As utilidades da esgrima eram apregoadas pelos jornais: eficaz para o desenvolvimento da força física e da coragem, distração agradável e elegante. Prescrita desde forma de tratamento da melancolia a componente da educação das elites, a esgrima era apresentada como uma prática apreciada pelos ingleses.

Inglaterra e França eram países referência para a construção de gostos e hábitos, também na capital paulista. Se uma prática era apreciada nesses países, era sinal de que deveria ser apreciada também pela população paulistana. Senão por toda ela, pelo menos por suas elites. Afinal, esses países eram símbolos de civilidade e de modernidade.

Apesar de chegarem de Londres e também de Buenos Aires, desde o último quartel do século 19, notícias de assaltos de esgrima entre mulheres, e entre mulheres e homens, o mesmo não aconteceu em São Paulo. Não há notícia de sequer um assalto entre mulheres na capital, ou de sua participação em cursos e associações de esgrima até 1920.

É somente em 1879 que começamos a ter notícias de assaltos públicos de esgrima. Em um primeiro momento, eles aconteciam como parte de festividades de instituições que a tinham como objeto de ensino, ou como uma estratégia de propaganda utilizada pelos professores, para demonstrar sua perícia com a esgrima e, assim, conquistar alunos. Posteriormente os assaltos passaram a acontecer também entre os alunos dos cursos existentes na cidade.

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Flavinha.2

O Estado de São Paulo, 13 de julho de 1899

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A partir da década de 1880 um maior número de associações que tem como um de seus objetivos, ou o único objetivo, desenvolver a esgrima são fundadas na cidade: Real Sociedade Clube Ginástico Português, Clube de Esgrima, Congresso Brasileiro, Cercle de Esgrima Franco Brasileiro, Clube Brasileiro de Esgrima e Tiro, Grêmio do Comércio de São Paulo, Academia de Esgrima, Clube Internacional de Ginástica e Esgrima, Grêmio Recreativo Filhos do Trabalho, Clube de Esgrima Kosmos.

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Flavinha.3

A Província de São Paulo, 5 de julho de 1881

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Competições de esgrima só começam a acontecer a partir de 1896. Nesse ano houve a realização de torneio pelo Clube Ginástico Português, e em 1897 pela Escola Normal. Em 1899 há notícia da realização de um torneio internacional de esgrima. Internacional porque seus participantes e as escolas de esgrima participantes, eram de diferentes nacionalidades.

Não havia qualquer organização das associações e escolas de esgrima em instituições que as normatizasse, e organizasse torneios. As competições se davam por iniciativa dos mestres de armas dos cursos.  Apesar de associada à ginástica e à educação física, a esgrima não era tida ainda como um esporte. Sequer estava presente nas colunas esportivas dos jornais. Suas notícias estavam nas colunas de Notícias Diversas ou no Noticiário.

Não se falava ainda em esgrimistas, esse termo não era empregado. Os participantes dos torneios eram os professores e seus alunos de esgrima. Mas apesar disso, sem que os sujeitos desse tempo soubessem ou tivessem consciência, o campo esportivo já estava em gestação na capital paulista. E a esgrima ajudava a compor esse campo.

Tanto é que em 1905 a esgrima já figurava nas colunas esportivas dos jornais, e seus praticantes já eram chamados de esgrimistas. A esgrima participou, assim, do mesmo movimento de institucionalização vivido pelas demais práticas esportivas em São Paulo, a partir da segunda metade do oitocentos.

Com a especificidade de ter se desenvolvido nos momentos iniciais, como objeto de ensino em instituições instrutivas e cursos, como parte da educação formal e não formal, a esgrima passou a figurar, pouco a pouco, no quadro das atividades das associações recreativas e esportivas, e a possuir competições.

As comemorações cívicas também passaram a contar com a esgrima em suas programações. Em 1913, por exemplo, houve assaltos de esgrima nas comemorações pelo aniversário da proclamação da república e pelo dia da bandeira.

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Flavinha.4

O Estado de São Paulo, 20 de novembro de 1913

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No entanto, a esgrima não gozou de grande sucesso na capital paulista. O número de praticantes e de espectadores da esgrima não alcançou números muito alvissareiros. A revista Vida Sportiva, de agosto de 1904, apresenta estatísticas que o comprovam. Das 118 associações esportivas existentes na capital, apenas 4 eram de esgrima, enquanto 8 eram de atletismo, 9 de ginástica e 72 de futebol!

 

* Fontes

Correio Paulistano – 1854, 1855, 1856, 1857, 1858, 1859, 1862, 1863, 1864, 1865, 1866, 1867, 1868, 1869, 1870, 1871, 1872, 1873, 1874, 1875, 1876, 1877, 1878, 1879, 1880, 1881, 1882, 1883, 1884, 1885, 1886, 1887, 1888.

A Província de São Paulo / O Estado de São Paulo – 1875, 1876, 1877, 1878, 1879, 1880, 1881, 1882, 1883, 1884, 1885, 1886, 1887, 1888, 1889, 1890, 1891, 1892, 1893, 1894, 1895, 1896, 1897, 1898, 1899, 1900, 1901, 1902, 1903, 1904, 1905, 1906, 1907, 1908, 1909, 1910, 1911, 1912, 1913, 1914, 1915, 1916.

Jornal da Tarde – 1870, 1871, 1872, 1873, 1874, 1875, 1876, 1877, 1878, 1879.

Vida Sportiva – 1904.

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“Força pela Alegria” ou o lazer sob o jugo totalitário – o caso da Alemanha Nazista

02/07/2021

por Elcio Cornelsen

(cornelsen@ufmg.br)

Introdução

Em regimes totalitários, que procuram controlar todos os âmbitos da vida social, nenhum segmento da cultura permanece incólume a uma intervenção. Sem dúvida, a Alemanha nazista é um exemplo patente de tal processo, inclusive nos âmbitos do esporte e do lazer. Por um lado, o uso propagandista do esporte no contexto dos XI Jogos Olímpicos de Berlim, realizados em agosto de 1936, é uma dessas facetas. Por outro, o lazer, menos estudado se comparado à prática esportiva, também se tornou instrumento de política de indução de adesão da população ao regime. Este estudo, realizado entre março de 2014 e novembro de 2017, teve por objetivo enfocar as organizações do Estado nazista alemão que instrumentalizaram o âmbito do lazer, sobretudo a Deutsche Arbeiterfront (DAF; Frente Alemã de Trabalho) e a Kraft durch Freude (KdF; Força pela Alegria). Para isso, tomou-se por base estudos históricos e documentários sobre o lazer sob o jugo totalitário.

Metodologia

A metodologia empregada no estudo em questão pautou-se, basicamente, por dois procedimentos: em primeiro lugar, foi necessário selecionar e ler obras de cunho teórico que contemplassem o tema da relação entre história, memória, políticas públicas e lazer; em segundo lugar, o estudo orientou-se também por seleção de pesquisas históricas e documentários (Kloft, 2001; Mühlen, 2009) sobre o tema, que demandaram leitura e análise. Para lazer e políticas públicas, tomamos por base os estudos de Linhales (2001), Marcellino (2001; 2008), Gomes (2008), e Isayama (2010). Para história e memória do lazer, nos orientamos pelos estudos de Melo (2011; 2013). Por fim, para a contextualização do lazer no período nazista, adotamos os estudos de Grube e Richter (1982), Giesecke (1983), Kammer e Bartsch (1992), Studt (1995), Wendt (1999), Schneider (2004), Baranowski (2004), e Dillon e Richthofen (2008).

Resultados e Discussão

A criação de uma instância reguladora de políticas de lazer na Alemanha nazista resultou de uma política de intervenção no âmbito do trabalho, como parte de uma política de Gleichschaltung (“Sincronização”), promovida pelo partido nazista no sentido de uniformizar e controlar, sob princípios ideológicos, todas as instituições públicas e sociais até então autônomas (BROSZAT, 1995, p. 62). Segundo o historiador Bernd Jürgen Wendt, a extinção dos sindicatos das inúmeras categorias profissionais e de suas centrais sindicais em 02 de maio de 1933 foi seguida pela criação de uma organização totalitária em 10 de maio de 1933, que deveria abranger todos os trabalhadores e segmentos profissionais: a DAF – Deutsche Arbeitsfront (Frente Alemã de Trabalho) (WENDT, 1999, p. 64).

Por sua vez, diretamente subordinada a essa organização surgiu em novembro de 1933 outra organização destinada, exclusivamente, a instrumentalizar o lazer e o esporte no âmbito trabalhista: a KdF Nationalsozialistische Gemeinschaft Kraft durch Freude (Comunidade Nacional-Socialista Força pela Alegria) (KAMMER; BARTSCH, 1992, p. 104). Entre outras atribuições, destinava-se a promover políticas de higiene e saúde no âmbito das empresas, bem como de construção de restaurantes, espaços de descanso e de centros esportivos mantidos pelas próprias empresas, destinados a seus trabalhadores, além de determinar um aumento das férias anuais remuneradas, de 3 para 12 dias, e de promover uma ampla oferta de programas de lazer culturais e esportivos (WENDT, 1999, p. 65).

De acordo com os historiadores Frank Grube e Gerhard Richter, esse tipo de organização não foi uma invenção do nazismo, mas sim criada a partir das estruturas pré-existentes do movimento sindical na República de Weimar, bem como a partir de um modelo italiano de organização do tempo livre e do lazer: a “Il Dopolavoro” (Após o Trabalho), criada em maio de 1925 por Benito Mussolini (GRUBE; RICHTER, 1982, p. 123). Em seu ápice, a KdF contou com mais de 150.000 funcionários encarregados de organizar o tempo livre e o lazer do trabalhador alemão. Sua estrutura organizacional abrangia cinco instâncias: o “Serviço de Nacionalidade e Pátria” (Amt Volkstum und Heimat), encarregado de organizar a participação de trabalhadores em eventos de caráter popular; o “Serviço de Formação Popular Alemã” (Deutsches Volksbildungswerk), encarregado de promover cursos para adultos; o “Serviço de Esporte” (Sportsamt), que se tornou um fator de concorrência para os clubes tradicionais ao promover, entre os trabalhadores, a prática de determinadas modalidades esportivas; o “Serviço para Viagens, Passeios e Férias” (Amt für Reisen, Wandern und Urlaub), responsável pela ampla oferta de viagens de férias ou mesmo de excursões aos fins de semana; por fim, o âmbito “Beleza do Trabalho” (Schönheit der Arbeit), responsável por melhorias nas instalações dos locais de trabalho (GRUBE; RICHTER, 1982, p. 124-126).

Sem dúvida, a KdF incentivou, sobretudo, o turismo de massa, à época um verdadeiro “luxo” para o trabalhador. De acordo com Ursula Becher, até os anos 1920, devido às crises econômicas enfrentadas pelo país e às limitações salariais, o trabalhador alemão não dispunha de meios próprios ou mesmo de financiamento para empreender viagens de férias. A pouca oferta de lazer limitava-se a atividades nos finais de semana, como, por exemplo, a organização de caminhadas e passeios em parques e em áreas verdes próximas às cidades (BECHER, 1995, p. 126). Segundo a autora, tal organização visava a duas metas: “Para os nacional-socialistas, ela era um excelente meio de propaganda no sentido de combater a resistência dos trabalhadores ao programa ideológico e, respectivamente, de ganhar novos adeptos” (BECHER, 1995, p. 126-127).


Nosso estudo revelou que o programa da KdF previa uma ampla oferta de atividades de lazer: idas a teatros, cinemas, concertos e exposições; formação de grupos de passeios e de práticas desportivas, bem como de danças folclóricas; exibição de filmes nas empresas; promoção de cursos sobre os mais variados temas. Todavia, o carro-chefe de tal intervenção política no âmbito do lazer era, sem dúvida, a promoção de viagens a partir de programas de subsídios, não apenas para regiões da Alemanha, como também para viagens marítimas ao Exterior, principalmente a Portugal e ao Mediterrâneo, contando com uma frota de 12 navios. As estatísticas apresentadas por Grube e Richter impressionam: de 2,3 milhões de pessoas que viajaram de férias, atendidas pela organização em 1934, esse número elevou-se em 1938 para 10,3 milhões. No mesmo período, o número de pessoas que buscaram orientação e subsídio junto à KdF para outras atividades de lazer subiu de 9,1 para mais de 54 milhões (GRUBE; RICHTER, 1982, p. 123).
Mesmo que tais números possam ser questionados, e mesmo que, como salienta Ursula Becher, seja difícil mensurar o nível de adesão em termos ideológicos (BECHER, 1995, p. 129), a popularidade da KdF é inegável, embora ela tenha sido muito mais motivada pela carência de “alegria” (Freude), do que propriamente pela “força” (Kraft), um dos vetores da doutrinação ideológica. Além disso, para o ramo de hotelaria e para a Rede Ferroviária Alemã – a Deutsche Reichsbahn –, o turismo subvencionado pelo Estado significou uma lucratividade garantida.


Os resultados de uma pesquisa de opinião realizada com empregados da Siemens em Berlim, no ano de 1937, demonstram bem que o aparente sucesso da KdF deveu-se justamente pela organização ter ocupado um segmento do mercado até então não explorado nessas proporções. Dos 42.000 entrevistados, 28.000 ainda não tinham passado férias fora de Berlim (GRUBE; RICHTER, 1982, p. 123).

Em primeira linha, pode-se afirmar que o intuito de uma política dessa natureza era organizar o tempo de descanso, relaxamento e lazer (não trabalho) frente ao tempo de produção (trabalho), no sentido de possibilitar aos trabalhadores uma recuperação das forças física e psíquica exigidas por suas funções, através do empreendimento de atividades lúdicas. Esse parece ser, aliás, um fenômeno comum, oriundo da própria industrialização e da formação de centros urbanos, conforme aponta Victor Andrade de Melo: “A estruturação das fábricas e a subsequente necessidade de facilitar a circulação de mercadorias transformaram a cidade no novo lócus privilegiado de vivências sociais, sede das tensões que se estabeleceram na transição entre o novo e o antigo regime” (MELO, 2011, p. 68). E o autor prossegue em sua argumentação: “À necessidade de gestar um novo conjunto de comportamentos considerados adequados para a consolidação do modelo de sociedade em construção, adenda-se a reorganização dos tempos sociais: a artificialização do tempo do trabalho, uma decorrência da industrialização, dá origem a um mais claro delineamento do tempo livre” (MELO, 2011, p. 68-69).

Todavia, nosso estudo nos permitiu constatar também que a promoção de atividades de lazer com vistas à recuperação da força de trabalho não era o único aspecto que levou a cúpula nazista a interferir, através de política de Estado, na organização do tempo livre, não a deixando mais a cargo do indivíduo ou da população. Segundo Ursula Becher, tal intervenção foi motivada pelo ceticismo diante da capacidade do trabalhador organizar, ele mesmo, o seu tempo livre, pois se temia que o tempo livre produzisse ócio, e que dele surgissem “pensamentos, tolos, difamatórios e, por fim, criminosos” (LEY apud BECHER, 1995, p. 128), como o próprio dirigente da Frente Alemã de Trabalho (DAF), Robert Ley, certa vez formulou. Portanto, a organização do tempo livre e do lazer não escapou ao controle “total” do Estado, como Robert Ley afirmou: “Não temos mais pessoas num sentido privado. O tempo, onde cada um podia e era permitido fazer o que quisesse, passou” (LEY apud BECHER, 1995, p. 128).

Cabe, aliás, ressaltar que até mesmo o Volkswagen (literalmente, “veículo do povo”) foi idealizado como parte da política da DAF e da KdF. A produção do KdF-Wagen, como também era chamado, começou no segundo semestre de 1938. No final daquele ano, cerca de 150.000 pessoas já haviam encomendado o carro e estavam esperando ansiosamente pela entrega. Eles deveriam começar a receber seus carros no início de 1940. Entretanto, com a eclosão da guerra em setembro de 1939, a produção foi direcionada para a construção de veículos de combate.

Sendo assim, é patente o grau de intervenção do Estado nazista num âmbito em que, tradicionalmente, haveria uma liberdade maior de escolha por parte do individuo de suas atividades de lazer, frente a suas necessidades e possibilidades. Pois o controle de cada indivíduo em todo o tempo, inclusive no tempo livre e nas férias, era uma meta do nazismo. Portanto, o lazer durante o regime nazista tornou-se mais um campo social abarcado por uma política de cerceamento de liberdade e de doutrinação de valores.

Considerações finais

O presente estudo permitiu-nos constatar que o lazer sofreu a interferência do Estado com fins de propaganda e de estabilização política, do mesmo modo como havia ocorrido no âmbito do esporte, principalmente no contexto dos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. Inegavelmente, o lazer sob o jugo totalitário foi um âmbito que garantiu a adesão de amplos segmentos da sociedade alemã à ideologia nazista. Se, por um lado, a Olimpíada de Berlim serviria – como realmente serviu – de “vitrine”, através da qual a cúpula nazista empreenderia todos os meios para mostrar ao mundo – e, portanto, fabricar – uma bela imagem da “nova” Alemanha (das neue Deutschland), bem diferente daquela vivenciada no dia-a-dia de um Estado totalitário erigido sobre a base de uma ideologia carismática e imperialista defendida por um líder – o Führer –, um único partido populista – o NSDAP, “Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães” –, aparelhos de repressão – SA, SS e Gestapo – e um monopólio de armas, informações e propaganda, por outro, desde que chegaram ao poder em janeiro de 1933, os governantes nazistas implantaram políticas de lazer que fomentassem entre os trabalhadores um sentido de adesão e, ao mesmo tempo, reduzisse a possível resistência entre eles, uma vez que modificações drásticas ocorreram no âmbito trabalhista com a supressão dos sindicatos e a criação de uma instituição centralizadora, a Frente Alemã do Trabalho (Deutsche Arbeiterfront ou DAF), lembrando, mais uma vez, que a ela se vinculava a organização Força pela Alegria (Kraft durch Freude ou KdF), responsável pelos âmbitos do lazer e do turismo no Terceiro Reich.

Referências

BARANOWSKI, Shelley. Strength Through Joy: Consumerism and Mass Tourism in The Third Reich. New York: Cambridge University Press, 2004, p. 1-10. Disponível online: http://catdir.loc.gov/catdir/samples/cam041/2003060603.pdf. Acesso em 18 dez. 2014.

BECHER, Ursula A. J. Kraft durch Freude. In: STUDT, Christoph (org.). Das Dritte Reich: Ein Lesebuch zur deutschen Geschichte 1933-1945. München: Beck, 1995, p. 126-129.

BROSZAT, Martin. Gleichschaltung. In: STUDT, Christoph (org.). Das Dritte Reich: Ein Lesebuch zur deutschen Geschichte 1933-1945. München: Beck, 1995, p. 62-64.

DILLON, Chris; RICHTHOFEN, Esther von. Alltag im Dritten Reich. Erfuhrt: Sutton Verlag, 2008.

GIESECKE, Hermann. Leben nach der Arbeit: Ursprünge und Perspektive der Freizeitpädagogik. München: Juventa-Verlag, 1983.

GOMES, Christianne Lucy. Lazer, trabalho e educação: relações históricas, questões contemporâneas. 2. ed., Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2008. [coleção “Aprender“]

GRUBE, Frank; RICHTER, Gerhard. Alltag im Dritten Reich: So lebten die Deutschen 1933-1945. Hamburg: Hoffmann und Campe, 1982.

ISAYAMA, Hélder Ferreira (org.). Lazer em estudo: currículo e formação profissional. Campinas, SP: Papirus, 2010.

KAMMER, Hilde; BARTSCH, Elisabet. Nationalsozialismus: Begriffeaus der Zeit der Gewaltherrschaft 1933-1945. Reinbek bei Hamburg: Rowohlt, 1992.

LINHALES, Meily Assbú. Jogos da Política, Jogos do Esporte. In: MARCELLINO, Nelson Carvalho (org.). Lazer e Esporte: políticas públicas. Campinas/SP: Autores Associados, 2001, p. 31-56.

MARCELLINO, Nelson Carvalho (org.). Lazer e Esporte: políticas públicas. Campinas/SP: Autores Associados, 2001.

MARCELLINO, Nelson Carvalho (org.). Políticas públicas do lazer. Campinas, SP: Alínea, 2008. [coleção “Estudos do Lazer”]

MELO, Victor Andrade de et al. (org.). Pesquisa histórica e história do esporte. Rio de Janeiro: 7Letras, 2013.

MELO, Victor Andrade de. O lazer (ou a diversão) e os estudos históricos. In: ISAYAMA, Hélder Ferreira; SILVA, Silvio Ricardo da (org.). Estudos do lazer: um panorama. Rio de Janeiro: Apicuri, 2011, p. 65-80.

SCHNEIDER, Claudia. Die NS-Gemeinschaft Kraft durch Freude (2004). Disponível em: http://www.zukunft-braucht-erinnerung.de/die-ns-gemeinschaft-kraft-durch-freude/. Acesso em 21 fev. 2015.

STUDT, Christoph (org.). Das Dritte Reich: Ein Lesebuch zur deutschen Geschichte 1933-1945. München: Beck, 1995.

WENDT, Bernd Jürgen. Das nationalsozialistische Deutschland. Berlin: Landeszentrale für politische Bildung, 1999.


APENAS UMA REFLEXÃO

28/06/2021

Coriolano P. da Rocha Junior

Neste post de hoje vou pedir licença a quem fizer a leitura, para escrever fora de meu tema básico. Hoje, considerei mais justo trazer algumas reflexões sobre este nosso tempo.

Vivemos dias em que as ações regulares cotidianas foram absolutamente modificadas por um novo, por um agente externo que chegou e fez, ou deveria fazer, pessoas, cidades e instituições alterarem seus modos, atitudes e comportamentos.

Este novo, que na verdade, mesmo diferente, acaba repetindo situações já vividas, nos trouxe uma inovadora e necessária medida do estar em sociedade, onde o sujeito diretamente tem de agir, em função de si e do outro, tudo isso, em função de possíveis formas de bem estar, ou ao menos assim deveria ser.

Esta nova realidade nos leva a pensar nas formas de ação do poder público e da pessoa. O ente público é aquele que deveria ter em conta o bem estar coletivo, pensar formas de criar redes protetivas para as pessoas e instituições e mais, ser o agente catalisador das boas falas e condutas. A pessoa, caberia se organizar e agir dentro de procedimentos, que para além de si, levem em conta o outro, assim, toda e qualquer atitude individual deve ser pensada dentro do coletivo. Desse jeito, com estas posturas saberíamos viver esta cena e a ultrapassar, na tentativa de nos fazermos melhores, de termos uma nova sociedade e novas formas de vida individual e coletiva.

Neste cenário, a educação aparece como essencial, pois, é ela que poderia e já deveria ter agido na formação desse sujeito que é capaz de entender isto que nos aparece como um novo modo de viver.

Falo aqui de uma educação que se pense para além da seriação tradicional, que vá mais distante do que a transmissão de saberes estandartizados, muito embora estes sejam absolutamente necessários, uma educação que possa pensar uma vida em sociedade que se faz coletiva e que valoriza o indivíduo naquilo que ele tem de melhor, capacidade de se relacionar, onde a empatia e o bem querer sejam o normal cotidiano.

De forma diferente daquilo que possamos pensar como o ajustado, as cenas diárias de nossa sociedade tem nos mostrado outras realidades, que nos fazem pensar e repensar sobre tudo que foi feito e vivido até agora, mais diretamente na educação.

Num tempo onde o poder público deveria assumir o protagonismo das boas ações de controle, segurança e apoio social, com exceções nas esferas estaduais e municipais, temos visto o governo central agir de forma temerária, num claro desrespeito a toda forma de vida e a coisa pública. Se o governo fala e age de maneira calamitosa, incitando a barbárie, gerando medo, insegurança, mal estar e mesmo caos, por seu lado, o sujeito também tem se mostrado atabalhoado e, claro, reconhecemos que estes, felizmente, não são uma maioria, mas mesmo não a sendo, sua forma de ser e estar no mundo causa perplexidade, pois, demonstra absoluto desprezo ao outro, a vida comum, só havendo espaço para o prazer imediato, para aquilo que toca a si.

Mas, de novo, nos perguntamos e a educação com isso? Se estas ações e comportamentos existem, como a educação tem agido então? Esta pergunta fica para reflexão e é nela que vamos nos ater.

Nestes tempos temos assistido um Brasil sem “ar”, asfixiado. Esta ausência de oxigênio começou quando vimos a democracia ser estrangulada e o país respirar cada vez um ar menos puro, mais poluído de ódio, de mentiras, de acentuada desigualdade, de machismo, de misoginia, de fundamentalismo religioso, de conluio de poderes, ou de arremedo destes e assim, a nação foi se esvaindo.

As mãos da tirania, do imperativo do mal se prenderam ao pescoço da nação e aos poucos foi cada vez mais apertando, sufocando. Estas mãos foram muitas e ganharam força com o ódio de classes, se avolumaram com os preconceitos e ficaram potentes com a mentira operada em função de um mal, mal este que prevê a destruição, que ganha peso na intenção de operar a desigualdade estrutural e para isso é preciso esvaziar de ar os pulmões de quem pode ou poderia gritar.

O silenciamento se opera com os likes, com o cinismo da fala distorcida, com a destruição de desejos e sonhos e a afirmação da crença na incapacidade construtiva de uma terra que ousou, algum dia, ser uma nação entre iguais.

Não basta destruir aquilo que um dia se ousou montar, mas sim, é preciso impedir as bases de uma nova construção e isto se faz destruindo a moral de um povo, sua estima, seu poder de crer e para isto servem as investidas diárias no aparato que atua como força educativa da nação.

Mais que destruir, é necessário impedir que se construa e para tal, a Educação, a Ciência, Educadoras, Educadores e Cientistas precisam ser desmontados de seus apoios, afinal, suas bases se dão junto a quem pode e deve ser operado como força para o mal, um mal que busca, exatamente, aniquilar as forças de um bem que deve trabalhar por algo maior, cidadania.

Para tal, valores precisaram ser invertidos. Saíram livros e leitura e entraram armas e tiros, saíram empatia e solidariedade, entraram individualismo e ganância, saíram cultura da paz e fraternidade, entraram ódio e intolerância, saiu o Estado e entrou o mercado, sustentado por este mesmo Estado, que agora deve só a ele servir.

Tudo isto não foi acaso, não foi erro, mas sim uma construção, projeto e vem se dando desde que as mãos da força machista, cretina, mentirosa e vil dos arremedos de poderes constituídos, apertaram o pescoço da democracia.

Numa época onde as exigências sanitárias que foram postas na sociedade passaram a demandar ações imediatas que dessem respostas efetivas e elas vieram e continuam a vir e da ciência. A ciência e seus personagens cientistas, das mais diferentes áreas rapidamente envidaram os maiores esforços para buscar soluções as diversas crises vividas e criadas. No entanto, temos visto, por mais incrível que possa parecer, uma onda de negação a própria ciência e suas capacidades de resposta e aí, esse negacionismo faz com que pensemos: como se deu a educação científica? Bem, somos obrigados a crer que ela falhou. A educação foi incapaz de trabalhar com a formação de pessoas que saibam lidar e reconhecer os saberes científicos como essenciais e nessa incapacidade, negar, duvidar, olvidar acaba sendo a fuga dos que não sabem e não querem saber e a resposta que nos vem: a educação falhou!

Outra situação que esta crise social gerou foi a acentuação das desigualdades e capacidades de acesso aos bens sociais e materiais mínimos a uma segura sobrevivência e aí, de novo, se viu o descaso e a culpabilização destes que não tem acesso por suas condições, sem falar na necessidade de acúmulo, em detrimento de quem não tem. Tudo isto mostra a ausência de empatia, de um olhar para o outro, como alguém que assim como você próprio, tem valor. O individualismo, o egoísmo, o desprezo ao outro se mostram nas atitudes irresponsáveis do ponto de vista da segurança sanitária, pois, mais vale aquilo que me toca de imediato, do que qualquer coisa que se refira ao outro. E aí, de novo: e a educação? Se ela não foi capaz de construir valores éticos, afetivos e de significação social, que aconteceu: ela falhou, mais uma vez!

Se temos visto um negacionismo científico, uma ausência de amor ao outro, por outro lado, tem sido cada vez mais aguda uma virulência social, onde agressões verbais ou físicas e posturas raivosas contra quem é diferente de você acabam se tornando respostas possíveis, para quem não consegue articular uma capacidade de se relacionar e aí, as chamadas minorias acabam se tornando um alvo direto destas aberrações e aqui, chamamos de minorias, todo aquele grupo social ou pessoa que foge de uma pretensa normatividade, que é incapaz de dar respostas não violentas aos problemas sociais, fazendo de uma falsa força, sua resposta. E a educação, bem, de novo falhou! E de novo falhou por não se fazer capaz de criar uma formação que consiga reconhecer a diferença como algo essencial a vida humana.

Nisso tudo, por isso tudo, nos sentimos na obrigação de repensar aquilo que se deu até agora e da mesma forma, repensar nossa ação maior, a educação.

Uma educação que não foi capaz de atuar numa formação científica, onde saberes e sua construção devem ser vistos como essenciais a vida humana. Uma educação que não pode gerar valores, princípios e o bem maior, amor. Uma educação que não soube afirmar a diferença como essencial e comum. Bem de tudo isso, se deve dizer, não houve educação, ou melhor, sim, houve, mas numa direção contrária aquilo que possamos imaginar como valorável.

E nisso, onde nós professores nos colocamos, onde me coloco. Se educadores somos, se educador sou e a educação falhou, falhamos nós, falhei eu. Este reconhecimento e este sentimento por ele gerado pode nos incapacitar, nos paralisar ou ao contrário, pode nos mobilizar e fazer acreditar que há que se mudar e isto deve ser o sentimento que nos mobiliza, que me mobiliza. Reconhecer limites, identificar erros e acreditar que pode ser diferente e melhor é tarefa essencial do ser docente isto, nos mobiliza. Sigamos, seguirei, buscando ser melhor.


MAIS UM LIVRO DISPONÍVEL – PRIMÓRDIOS DO ESPORTE NO BRASIL – RIO DE JANEIRO

26/06/2021

por Victor Melo

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Primórdios

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Graças ao apoio da Reggo Edições, disponibilizamos para download mais um belo livro: Primórdios do Esporte no Brasil – Rio de Janeiro, escrito por mim e pelo irmão Fabio Peres.

Trata-se de um livro de difusão, “é parte de um projeto que pretende contribuir para o reconhecimento da importância do fenômeno esportivo no Brasil, a partir da difusão dos principais traços dos momentos iniciais de seu percurso em algumas cidades brasileiras. O intuito não é abordar academicamente o assunto, mas sim apresentar ao grande público alguns dos fatos importantes que marcaram a trajetória nacional do esporte”.

Esta obra, além da bela editoração e imagens, traz uma parte do magnífico acervo de Roberto Gesta de Melo.

Os interessados podem baixar o livro em:

primordios_do_esporte_RIO DE JANEIRO

Um abraço, Victor.


Skate, atitude e política

25/06/2021

Por: Leonardo Brandão (@leobrandao77)

Universidade Regional de Blumenau – FURB

IMAGEM: Murilo Romão, do coletivo Flanantes, praticando skate de rua no centro de São Paulo/SP. Fotografia: André Calvão. Clique sobre a imagem para ampliá-la.

NOTA INTRODUTÓRIA:

No dia 21 de junho comemora-se o Dia Mundial do Skate. Neste ano, fui convidado para realizar um depoimento num evento organizado na Unibes Cultural, em São Paulo/SP. O organizador deste evento solicitou um depoimento sobre a relação entre skate, atitude e política. O depoimento que proferi tomou por base este texto que segue abaixo para leitura.

***

A relação entre a prática do skate e a noção de atitude é antiga. Podemos retornar no tempo e nos lembrar dos Z-Boys, grupo de skatistas que, nos Estados Unidos, revolucionou essa atividade durante a década de 1970 ao invadir piscinas em propriedades particulares e praticar skate em suas transições, fato este que está no documentário “Dog Town and Z-Boys”, dirigido por Stacy Peralta e que, inclusive, pode ser conferido no You Tube para quem tiver curiosidade[1].

A atitude na prática do skate se revela de inúmeras maneiras, seja pelo visual (a indumentária), na sua relação com a música (geralmente com o punk-rock, ou o chamado skate-rock e também ao rap) e, sobretudo, nas manobras; isto é, na escolha das manobras e onde realiza-las. Na prática do skate de rua (street), há um elemento incontestável de atitude no flanar pelo urbano, quando os skatistas se apropriam de determinados elementos da cidade, os chamados aparelhos urbanos, tais como escadas, transições, bancos, guias etc.

Na história do Skate, tais atitudes ganham dimensões políticas. No caso do Brasil, é conhecida sua proibição na cidade de São Paulo no ano de 1988, pelo autoritarismo de seu prefeito à época, Jânio Quadros…O skate apenas voltou a legalidade na gestão de Luiza Erundina no início dos anos 90. Todo este episódio da proibição do skate em São Paulo encontra-se muito bem documentado, e isso tanto no Jornal “A Folha de S. Paulo” quanto na revista Yeah!, que tinha como editor-chefe Paulo Anshowinhas e que foi uma das principais mídias de skate da década de 1980 no país. Posteriormente, vale destacar que também tivemos políticas públicas que beneficiaram o skate ao construir espaços específicos para sua prática. Exemplos neste sentido podem ser observados na gestão da ex-prefeita Marta Suplicy, que viabilizou a entrega de inúmeras pistas no Projeto Centros de Bairro[2] ou na gestão do ex-prefeito Fernando Haddad, que além de incentivar a ideia de “cidade para pessoas”, também realizou a construção de pistas de skate, como o Centro de Esportes Radicais, localizado no Bom Retiro ou ainda a Pista de Skate da Chácara do Jóckey.

Mas há uma relação mais complexa que envolve skatistas e a temática do poder. Para além das políticas públicas aqui destacadas, podemos pensar que o poder se relaciona com a atitude do skate de inúmeras maneiras. Recentemente, tivemos a destruição de um pico clássico do skate paulistano, no Vale do Anhangabaú. Inconformados, os skatistas resistiram e conseguiram, através de um movimento urbano que ficou conhecido como “Salve o Vale”, viabilizar parte da reconstrução deste pico, sob supervisão e projeto do arquiteto Rafael Murolo. Este novo pico atualmente é conhecido como o Memorial. Esta história de luta e negociação com o poder público virou um livro, organizado pelo skatista profissional Murilo Romão e que conta toda a saga do skate no Vale do Anhangabaú, desde os primórdios, passando pela destruição e a posterior construção do memorial, que se tornou um aparelho urbano skatável.

Este acontecimento, portanto, nos mostra que o poder não tem apenas uma via, ele pode reprimir, mas também pode ser usado para a construção, para algo positivo. No caso do skate praticado na rua, os skatistas conhecem há muito tempo a temática do poder, que neste caso é quase sempre utilizado na forma disciplinar, sobretudo com guardas e policiais, que não autorizam o uso de determinados espaços urbanos. Mas existem maneiras de contornar esse poder disciplinar e realizar a apropriação da cidade, e o coletivo Flanantes, que vem produzindo uma série de filmes sobre o uso criativo do skate nos espaços públicos é uma prova disso (Todos os vídeos dos Flanantes podem ser conferidos também no Youtube).

Por fim, há também uma outra dimensão do poder, e na minha tese de doutorado, que deu origem ao livro “Para Além do Esporte: Uma História do Skate no Brasil”, que eu intitulei de Poder Esportivo. Esta modalidade do poder visa transformar o skate num esporte de competição, criando regras, categorias, rankings etc. Trata-se de um poder que visa moldar o skate no campo esportivo, sendo, uma de suas maiores conquistas, a entrada do Skate nas Olimpíadas.

Este breve panorama nos faz ver, portanto, que não podemos falar no skate no singular, mas sim no plural. Não existe o skate ou o skatista, mas sim determinadas formas de utilizar o skate, seu uso heterotópico nas ruas ou na forma de competição em espaços delimitados e organizados para tanto; como também não existe o skatista, mas skatistas, com identidades múltiplas, pois enquanto há aquele que se reconhece enquanto um atleta (houve num passado até quem já se intitulou “Atleta de Cristo”), existem outros que preferem interpretar o skate, na expressão do skatista Klaus Bohms, como uma “ferramenta de reinterpretar espaço”, o que associa o skate muito diretamente ao campo artístico.

Para saber mais:

BRANDÃO, Leonardo. Para além do Esporte: uma história do skate no Brasil. Blumeau: Edifurb, 2014.

ROMÃO, Murilo (Org.) Vale TXT. São Paulo: Flanantes, 2020.


[1] https://www.youtube.com/watch?v=7YKPEDayb_U, acesso em 15/06/2021.

[2] https://cemporcentoskate.com.br/fiksperto/marta-suplicy-oficializa-a-entrega-das-44-pistas-de-skate-em-sp/, acesso em 15/06/2021.


EXPOSIÇÃO “ESPORTE MOVIMENTO – TESOUROS DO ESPORTE: HISTÓRIA EM MOVIMENTO” – CATÁLOGO PARA DOWNLOAD

19/06/2021

por Victor Andrade de Melo.

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Esporte.Movimento

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Nos anos de 2015/2016, a exposição “Esporte Movimento – Tesouros do Esporte: História em Movimento” apresentou cerca de 2.000 obras do acervo de Roberto Gesta de Mello, um dos maiores colecionadores de artefatos esportivos do mundo. O público pode apreciar “selos, moedas, troféus, tochas, fotografias, vídeos, medalhas originais e demais objetos relacionados ao esporte”.  Percorreu unidades da Caixa Cultural de São Paulo, Curitiba, Brasília, Fortaleza, Recife, Salvador e Rio de Janeiro

Mais informações sobre a exposição: https://www.facebook.com/ExposicaoEsporteMovimento/

Tive a felicidade de participar dessa exposição auxiliando na curadoria e preparando os textos de catálogo e de parede.

O Catálogo ficou muito bonito e foi distribuído gratuitamente. Para quem tiver interesse, pode fazer abaixo o download.

catalogo.gesta.versao.final.editorada.2.correta

Um abraço, Victor.


Rio Esportivo – livro disponível para download

17/06/2021

por Victor Andrade de Melo.

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Rio.Esportivo.Capa

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O ano era 2015, vivíamos a expectativa da realização dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. A cidade, como poucas vezes antes, respirava ares esportivos, não necessariamente só de forma festiva. Já se faziam sentir os desdobramentos e problemas ocasionados pelo evento, que dava sequência à promoção da Copa do Mundo de 2014 e encerraria uma década de grandes competições.

Nesse cenário, foi lançado Rio Esportivo, uma das muitas ações com as quais tive o prazer de me envolver no período que antecedeu os Jogos Olímpicos. Esse livro ocupa para mim um espaço especial. Há anos, talvez décadas, tinha o desejo de lançar uma obra com essas características – um formato luxuoso, com muitas ilustrações e informações que pudessem chegar ao grande público, extrapolando o mundo acadêmico.

O convite da Casa da Palavra me encheu de felicidade. A ideia era apresentar um panorama das mais diferentes modalidades em sua distribuição pelas regiões do Rio de Janeiro. A produção editorial me deixou encantado. O resultado foi ótimo: o livro circulou bastante, foi bem vendido e já há algum tempo se encontra esgotado (somente há alguns poucos exemplares ainda à venda em algumas livrarias).

A fim de voltar a dar visibilidade à obra, com a gentil autorização da LeYa Brasil (meu enorme agradecimento à Leila Name), a disponibilizo para dowload gratuito.

Logo abaixo, pode-se baixar Rio Esportivo – a capa, o livro inteiro e em destaque o prefácio. Fiz questão de separá-lo para prestar uma homenagem ao amigo querido Gilmar Mascarenhas, que me brindou com seus gentis e generosos comentários, além de suas análises sempre acuradas.

No dia do lançamento, celebrei muito com os amigos. A noite demorou a ter fim em meio a gargalhadas, cervejas e celebrações. Gilmar estava conosco. Saudades, muitas saudades.

Meus agradecimentos aos que tornaram possível a publicação do livro. Espero que antigos e novos leitores o apreciem.

Rio.Esportivo.livro

Rio Esportivo_prefácio-dupla

Rio.Esportivo.capa


A Criação do CND: o futebol a serviço do Estado Novo

13/06/2021

Maurício Drumond

No dia 10 de novembro de 1937, Getúlio Vargas fechou o Congresso e instaurou um novo regime conhecido como Estado Novo, fortalecendo seu poder e passando a investir ainda mais em uma política de centralização e união nacional. No campo esportivo, essa postura levaria a uma maior aproximação do governo com o esporte, que já poderia ser observada na ocasião da III Copa do Mundo, realizada na França em 1938.

Ciente da popularidade do esporte e de sua importância como símbolo nacional, o novo regime concede vultosa subvenção à delegação brasileira para se apresentar no evento – Tomás Mazzoni (1941, p. 16) chega a destacar o “interesse do ministro das Relações Exteriores à delegação que esteve na III Taça do Mundo”. Deve-se somar a isso o fato de que a CBD permanecia como responsável pela representação brasileira no certame, e que Luiz Aranha era seu presidente desde 1936 e sua proximidade pessoal com a alta cúpula do governo, sobretudo com o referido ministro das Relações Exteriores no período do evento, Oswaldo Aranha, seu irmão. A imagem do governo é ainda mais intimamente associada ao escrete brasileiro com a declaração de que Alzira Vargas, filha de Getúlio, receberia o simbólico título de madrinha da seleção nacional.

Alzira Vargas, a madrinha da Seleção Nacional de 1938, e os atletas do escrete brasileiro.

Antes do embarque para a França, a seleção foi recebida pelo Presidente da República, que fez questão de cumprimentar os jogadores, um a um. Pela primeira vez, o Brasil contava com sua força máxima em uma Copa do Mundo. A miscigenação racial da equipe brasileira era vista no Brasil como o verdadeiro retrato de nossa democracia racial, o que servia de forma perfeita aos ideais de ufanismo nacional e harmonia social propagandeados pelo Estado Novo. 

Apesar da derrota para a Itália na semifinal, a destacada apresentação dos jogadores brasileiros na Europa eram vistos como prova do sucesso esportivo e da capacidade física nacional. Até mesmo Getúlio Vargas acompanhou a Copa e se surpreendeu com a reação popular frente à derrota para os italianos, escrevendo em seu diário: “A perda do team brasileiro para o italiano causou uma grande decepção e tristeza no espírito público, como se tratasse de uma desgraça nacional” (Vargas, 1995, v.2, p. 140). De volta ao Brasil, a seleção foi recebida nas ruas como “campeã moral” do campeonato, sob a alegação de que sua derrota teria sido fruto de um pênalti ilegal.  “Queira ou não queira a FIFA, somos campeões do mundo”, estampava o Jornal dos Sports, logo após a conquista do terceiro lugar (JORNAL DOS SPORTS, 20 jun. 1938, p. 1).

O sucesso popular da Copa do Mundo foi mais um sinal para o governo da importância de controlar mais de perto o futebol no Brasil. Menos de três anos mais tarde, Getúlio assinaria o decreto-lei que oficializou a intervenção governamental nos esportes e colocou o grupo de Luiz Aranha de volta ao comando do futebol nacional. No dia 16 de abril de 1941 o Diário Oficial da União trazia em suas páginas o decreto-lei que criava o Conselho Nacional de Desportos (CND), no Ministério da Educação e Saúde, que teria como função “orientar, fiscalizar e incentivar a prática dos desportos em todo o país” (BRASIL, 1941). Em outras palavras, o conselho detinha o controle total dos esportes.

O Decreto-Lei n. 3.199 vai além da criação do CND.  Toda a estrutura da organização desportiva brasileira é alterada. De acordo com o decreto, cada esporte, ou grupo de esportes, poderia se organizar em apenas uma confederação em todo território nacional, sendo essa, necessariamente filiada à entidade internacional de seu ramo desportivo. Cada unidade territorial brasileira – Distrito Federal, estados e territórios – teria apenas uma federação filiada a cada uma das seis confederações esportivas reconhecidas pelo decreto-lei: Confederação Brasileira de Desportos; Confederação Brasileira de Basquetebol; Confederação Brasileira de Pugilismo, Confederação Brasileira de Vela e Motor; Confederação Brasileira de Esgrima; e Confederação Brasileira de Xadrez. Uma nova confederação só poderia ser criada através de decreto presidencial.

Um dos principais jornalistas esportivos do país, Tomás Mazzoni, sob o pseudônimo Olímpicus, que utilizava em suas colunas esportivas, escreveu um livro em homenagem à intervenção no esporte, intitulado “O Esporte a Serviço da Pátria”, cujo prólogo é datado “abril-maio de 1941” (MAZZONI, 1941, p. 18). A obra, de grande teor apologético ao regime estadonovista, defende a oficialização do esporte:

Somente, pois, graças à oficialização e com o espírito de 10 de novembro, dentro da doutrina do Estado Novo, aplicando os princípios do regime atual, é que poderíamos tomar rumos novos! O 10 de novembro esportivo deve ser completo! Exterminar as tais “assembleias”, “judiciários”, “pactos”, “inquéritos”, “caciquismos” – é extinguir a política, o personalismo, o clubismo, é dar rumo certo e vida sã ao esporte! (MAZONI, 1941, p. 20).

A intervenção esporte, aludido por Mazzoni como “o 10 de novembro esportivo”, em referência à data de instauração do Estado Novo, seria assim a adequação do esporte ao ideal do regime vigente.  Assim como outros regimes do período, como a Alemanha nazista, Itália fascista, Espanha franquista e França de Vichy, o Brasil se adequava, segundo o jornalista, a um novo período do esporte mundial. Suas referências a “assembleias”, “pactos”, “caciquismos”, e “clubismo” são alusões nada veladas às disputas internas dos dirigentes brasileiros, no que definira algumas páginas depois como uma forma de dirigir o esporte “com a mentalidade do governante brasileiro de vinte anos atrás, (…) por parte dos políticos do velho regime”, em uma explícita referência à Primeira República, que terminara com o movimento militar que colocou Vargas no poder em 1930 (MAZZONI, 1941, p. 27).

A Confederação Brasileira de Desportos se estabeleceu então como a principal confederação desportiva do país, sendo responsável pela organização do futebol, do tênis, do atletismo, do remo, da natação, dos saltos, do polo aquático, do vôlei, do handebol e de qualquer outra modalidade desportiva que não se enquadrasse em nenhuma das outras confederações. As outras confederações tinham competência administrativa sobre as modalidades descritas em sua nomeação. Isso não significa que o futebol receberia o mesmo tratamento que as outras modalidades desportivas, visto que o próprio decreto-lei afirmava que “o futebol constitui o desporto básico e essencial da Confederação Brasileira de Desportos” (BRASIL, 1941, art. 16, §2º).

O CND detinha controle quase total não apenas sobre os esportes, como também sobre as entidades desportivas. Os estatutos das confederações e das federações a elas filiadas tinham que ser aprovados pelo CND, que poderia propor ao Ministro da Educação a criação ou a supressão de qualquer confederação. No tocante às competições internacionais, o Conselho Nacional de Desportos exercia um controle ainda mais rígido. A participação de qualquer clube ou entidade em uma competição internacional deveria ser previamente autorizada pelo CND. Caso o conselho decidisse pela participação de alguma equipe em um campeonato internacional, esta não poderia abster-se da convocação. Assim, os clubes que cedessem jogadores a esses campeonatos não poderiam pleitear qualquer indenização pela perda temporária de seus atletas, a não ser em caso de jogos amistosos.

Buscava-se controlar o esporte nacional, ainda que mantendo na direção do órgão estatal de controle paredros dirigentes conhecidos da elite desportiva brasileira. Mesmo com a intervenção do governo brasileiro sobre o esporte, pouco muda de forma efetiva em sua organização. No entanto, o Estado agora se equipava com a possibilidade de intervir em clubes e federações caso julgasse necessário, como ocorreu com o Corinthians ainda em 1941. A disputa entre o grupo do então presidente Manuel Correcher e da oposição, liderada por Ricardo R. de Moura e Saverio Nigro, levou o governo paulista a apontar Mário Henrique Almeida como interventor no clube, cargo que ocupou por pouco tempo (MAZZONI, 1950, p. 292).

Manuel Correcher (15) e Mário Henrique Almeida (16)

Na visão dos defensores da intervenção, como Tomás Mazzoni (1941, p. 17), os “políticos e arruaceiros terão, pois, suas azas cortadas”, não podendo mais assim “arrumar panelinhas e (…) se defender com prestígio equívoco”. A oficialização colocava em xeque a antiga ordem esportiva, mas ao mesmo tempo garantia a permanência daqueles que se adequassem aos novos tempos. O futebol estaria, assim, a serviço da pátria.

O sentimento nacional seria mobilizado com maior veemência com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, em 1942. Dentro desse quadro de patriotismo exacerbado pelo envolvimento no conflito, o CND decretou que as associações esportivas – clubes ou outras agremiações – só poderiam ser presididas por brasileiros natos ou naturalizados. O conselho abria exceção apenas a estrangeiros radicados no Brasil há mais de vinte anos, que já tivessem exercido o cargo anteriormente, ou a portugueses que tivessem se destacado nos meios esportivos.  O CND já apontava para a importância cívica das associações esportivas no decreto-lei 3.199.  De acordo com o decreto, as entidades esportivas não poderiam gerar lucro para seus financiadores ou para seus dirigentes, visto que essas entidades exerciam uma função de caráter patriótico.

O esporte era então visto como um dos grandes símbolos da nação. Antes mesmo da declaração oficial de guerra contra o eixo, agentes do Departamento de Ordem Social e Política (DOPS) paulista começaram a pressionar a diretoria de clubes que apresentassem membros de nacionalidade estrangeira, especialmente italianos e alemães. A ação baseava-se no Decreto 383, de 18 de abril de 1938, que vedava a estrangeiros a atividade política no Brasil, incluindo a organização, criação e manutenção de “sociedades, fundações, companhias, clubes e quaisquer estabelecimentos de caráter político”, ou mesmo se associarem a tais agrupamentos (BRASIL, 1938). O próprio Decreto-Lei 3.199, que criou o CND, reforçava a ideia em seu artigo 51, atestando que “As diretorias das entidades desportivas serão compostas de brasileiros natos ou naturalizados; os seus conselhos deverão constituir-se de dois terços de brasileiros natos ou naturalizados pelo menos” (BRASIL, 1941).

A pressão sobre os clubes ligados a colônias estrangeiras aumentou com a publicação do decreto-lei 4.166, de 11 de março de 1942, que avultava a possibilidade do confisco de bens e direitos de cidadãos de nacionalidade alemã, japonesa e italiana, fossem pessoas físicas ou jurídicas. O confisco incluiria uma parte de todos os depósitos bancários e patrimoniais superiores a dois contos de réis (BRASIL, 1942). Para os clubes de futebol, pessoas jurídicas sob o jugo do decreto-lei, havia o risco do confisco de sua sede e de seu estádio, além de boa parte de seus depósitos bancários. Dessa maneira, os paredros dos clubes de colônias decidiram mudar o nome de suas agremiações que fizessem referência direta a um dos países do eixo.

Em São Paulo, o Palestra Itália, que em março de 1942 passou a se chamar apenas Palestra de São Paulo, mudou sua denominação para Sociedade Esportiva Palmeiras ainda em setembro do mesmo ano. Já o Germânia, clube que lançara Arthur Friedenreich no futebol, mas que não aderira ao profissionalismo nos anos 1930, mudou seu nome para Pinheiros, após passar por uma intervenção governamental. Em Belo Horizonte, no mesmo ano, o Palestra Itália passou ser conhecido como Esporte Clube Cruzeiro, adotando o nome de um dos maiores símbolos brasileiros. Em Curitiba, o Savóia – nome da família real italiana – mudou de nome para Esporte Clube Brasil, em uma afirmação hiperbólica do nacionalismo de sua diretoria.

Nos anos seguintes, o CND se estabeleceu como a principal entidade de supervisão e controle do esporte, sobrevivendo ao final do Estado Novo. O conselho detinha controle quase total não apenas sobre os esportes, como também sobre as entidades desportivas. Os estatutos das confederações e das federações a elas filiadas tinham que ser aprovados pelo CND, que poderia propor ao Ministro da Educação a criação ou a supressão de qualquer confederação. No tocante às competições internacionais, o Conselho Nacional de Desportos exercia um controle ainda mais rígido. A participação de qualquer clube ou entidade em uma competição internacional deveria ser previamente autorizada pelo CND, que também era responsável pelas delegações que acompanhavam a seleção brasileira de futebol.

Mesmo após o fim do Estado Novo e o restabelecimento da democracia, o Conselho Nacional de Desportos não sofreu grandes alterações. A entidade ainda detinha a prerrogativa de regular os clubes, federações e competições esportivas nacionais, indicava os chefes de delegações que acompanhavam a seleção brasileira em competições no exterior e pairava sobre toda a organização esportiva nacional, ainda que não exercesse todas suas atribuições de forma regular. Foi apenas com a publicação da Lei Zico – Lei n. 8.672, de 6 de julho de 1993 – que o Conselho Nacional de Desportos foi extinto, tendo durado mais de 50 anos.

Referências:

BRASIL. Decreto-lei n. 383, de 18 de abril de 1938. Diário Oficial da União, 19 abr. 1938, p. 7357.

BRASIL. Decreto-Lei n. 3.199, de 14 de abril de 1941.  Diário Oficial da União, 16 abr. 1941, p. 7453.

BRASIL. Decreto-Lei n. 4.166, de 11 de março de 1942. Diário Oficial da União, 12 mar. 1942, p. 3918.

MAZZONI, Tomás. O esporte a serviço da pátria. São Paulo: [s.n.], 1941.

MAZZONI, Tomás.  História do futebol no Brasil: 1894-19550. São Paulo: Edições Leia, 1950.

VARGAS, Getúlio. Diário.  2V.  São Paulo: Siciliano; Rio de Janeiro: FGV, 1995.