Um encontro entre futebol e surfe na Copa do Mundo de 2010 (África do Sul)

23/11/2020

Por Rafael Fortes

Este texto sintetiza uma parte das discussões presentes em trabalho apresentado no grupo de pesquisa Comunicação e Esporte e publicado nos anais do 42o. Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, organizado pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) em Belém (PA).

Afrika (2011) é um filme dirigido por Thomas Mulcaire e Ricardo de Oliveira e está disponível na íntegra no link abaixo:

O filme contou com patrocínio de empresas e fundos voltados para o fomento às artes.

Rodado ao longo de 2010 em Moçambique e na África do Sul, narra uma viagem de quatro surfistas brasileiros pelos dois países. O primeiro aparece rapidamente, sendo a maior parte do tempo dedicado ao último. Identifiquei onze cenas ou sequências com alguma referência ao futebol. A maioria delas é bastante fugaz: uma bola de futebol ao lado de uma prancha sobre a areia da praia ou um take mostrando uma roda de homens brincando  de altinha. Esta atividade, que consiste em duas ou mais pessoas trocarem passes com uma bola de futebol sem deixá-la tocar o chão, é bastante comum em praias do litoral brasileiro – no Rio de Janeiro e noutros estados -, inclusive naquelas muito frequentadas por surfistas. Cenas semelhantes – e de partidas de golzinho – aparecem esporadicamente em filmes brasileiros dedicados ao surfe, tendo, como participantes, os próprios surfistas do país.

Isto sugere algo que pode parecer óbvio, mas que considero válido mencionar: durante o processo de crescimento, enquanto ainda são crianças e adolescentes, a maioria daqueles que serão atletas futuros de uma modalidade (específica) se dedicam a várias delas, seja do ponto de vista do treinamento e competição, seja do ponto de vista da diversão. Tendo em vista a forte presença do futebol no Brasil, não é de surpreender que muitos surfistas tenham crescido batendo uma bolinha e sigam gostando de fazê-lo.

A principal distinção de Afrika em relação à filmografia de surfe, no que diz respeito à presença futebolística, encontra-se na sequência de aproximadamente três minutos em que os surfistas comparecem ao estádio Soccer City, em Joanesburgo, para assistir à partida entre Brasil e Costa do Marfim pela Copa do Mundo de futebol de homens realizada em 2010. O trecho evidencia a pouca familiaridade dos surfistas com o ambiente do estádio de futebol – no caso, particularmente impressionante por se tratar de uma partida de Copa do Mundo envolvendo a seleção brasileira. O barulho das torcidas – evidentes pelo volume do áudio do próprio filme – é um dos elementos que impressionam os protagonistas do filme.

A vitória da seleção brasileira pelo placar de três a um permitiu-lhes experimentar tanto a comemoração de gols, assistir em uma ocasião à celebração entre aqueles que torciam para a seleção marfinesa. Na mesma sequência, aparecem ainda comemorações, batucadas, gritos e cânticos em português, que prosseguem no pós-jogo pela parte externa do estádio e no interior de um ônibus.

Conforme afirmei no artigo:

As sequências no estádio e as comemorações pós-jogo reproduzem elementos do senso comum a respeito de megaeventos esportivos como a Copa do Mundo – por exemplo, a ideia de que são (exclusivamente) ocasião para congraçamento dos povos.[1] Tal visão se expressa também em um item dos “agradecimentos especiais” nos créditos finais: à “Fifa pela Copa do Mundo de 2010”.

Esporte e cinema vêm sendo estimulados por sucessivos governos da África do Sul pós-apartheid como instrumentos para divulgar uma imagem positiva do país no exterior e para incrementar o afluxo de turistas (Fortes, 2014). A realização das Copas do Mundo de rugby em 1995 e de futebol em 2010, bem como a candidatura da Cidade do Cabo para sediar os Jogos Olímpicos de verão de 2004, integram este conjunto de políticas – também observáveis noutros países dos BRICS (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Este contexto é importante para se compreender a realização de um filme como Afrika e, também, a inserção particular dele na filmografia brasileira de surfe.

Referências bibliográficas

FORTES, Rafael. Entre o surfe feminino, a indústria de surfwear e a promoção da África do Sul: uma análise de A Onda dos Sonhos 2. In: FORTES, Rafael; MELO, Victor Andrade de (org.). Comunicação e esporte: reflexões a partir do cinema. Rio de Janeiro: 7 Letras/Faperj, 2014. p. 49-70.

FORTES, Rafael. O futebol num filme de surfe: Afrika, Copa do Mundo e a filmografia sobre esporte. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 42, 2019, Belém. Disponível em: https://portalintercom.org.br/anais/nacional2019/resumos/R14-0019-1.pdf . Acesso em 23 nov. 2020.

Notas

[1] Ignorando-se, por exemplo, os impactos sociais e coletivos sobre setores mais vulneráveis da população devido às políticas públicas de remoções forçadas, conforme discutido e denunciado no documentário Tin Town.


O Rei Pelé (Carlos Hugo Christensen, 1962): cinema, futebol e racismo

17/11/2020

– Pelé é bonzinho! (Silene, amiga adolescente)

– Pelé é uma criança! (mãe de Silene)

– Mas é preto! Eu sou um sujeito que não bebe cachaça,

porque cachaça é bebida de preto! (pai de Silene)

 

O inusitado diálogo acima é parte do enredo de O Rei Pelé, o primeiro longa sobre nosso futebolista-mor. Hoje, o post é sobre essa película. Na verdade, a lembrança veio após uma nova visita ao filme (disponível no youtube, aliás: https://www.youtube.com/watch?v=J0AmFTZ5TX8&t=491s) e no fato de que esta publicação estava agendada em meio às comemorações dos 80 anos de Edson Arantes do Nascimento, no último dia 23 de outubro e o dia da Consciência Negra, na próxima sexta (20 de novembro). Se as efemérides servem para algo (e servem), talvez valha a pena aproveitarmos essas referências para o breve comentário abaixo.

O último aniversário de Pelé, agora octagenário, suscitou comemorações e debates (Esporte da Globo celebra os 80 anos do Rei Pelé-https://imprensa.globo.com/programas/futebol/textos/esporte-da-globo-celebra-os-80-anos-do-rei-pele/).

Como não podia deixar de ser, dentre outras, a questão do racismo e das posturas do Rei voltaram à tona (Pelé: Racismo e esquecimento marcam os 80 anos do jogador. Disponível em: https://www.geledes.org.br/pele-racismo-e-esquecimento-marcam-os-80-anos-do-jogador/). Trata-se de uma discussão de longa data. Não vou entrar diretamente nessa seara; não agora, mas aproveito para mantê-la em mente, na apreciação da película (para uma pequena amostra do debate: Pelé: “o racismo não mudou, o que mudou foi a imprensa”. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/esporte/2020/03/17/pele-o-racismo-nao-mudou-o-que-mudou-foi-a-imprensa; Paulo C. Caju diz que Pelé também tem culpa por racismo no futebol. Disponível em: http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2014/04/10/paulo-c-caju-diz-que-pele-tambem-tem-culpa-por-racismo-no-futebol.htm).

O longa de Carlos Hugo Christensen, o sétimo de sua carreira, não apresenta uma trajetória muito avantajada; não no que tange a apreciação da crítica (ORICCHIO, 2006; MELO, 2009). Visto agora, quase sessenta anos depois, reveste-se de interesse histórico e reflexivo. Antes de mais nada, porém, cabe destacar que a fita constitui um marco no seio de uma considerável trajetória cinematográfica do nosso astro da bola e das telas (mais da bola; muito mais da bola, é claro). Não obstante, a presença de Pelé no cinema não é nada desprezível. O professor Victor Melo fez um apanhado em 2009: relacionou, na ocasião, 24 títulos (de todas as metragens) nos quais Pelé atua ou é representado (MELLO, 2009). Esse rol está desatualizado. As recentes produções Pelé – o nascimento de uma lenda (EUA/Brasil, Jeff Zimbalist e Michael Zimblist, 2016) e Pelé, a origem (Luiz Felipe Moura, 2019), por exemplo, precisam sem acrescidas ao conjunto. Mas vamos à obra.

O Rei Pelé mistura dramatização e documentário. Poderia ser confundido com uma concepção “moderna” no gênero, posto que evidencia sua condição de construto. Na verdade, porém, a intenção é assinalar verossimilhança. Nesse sentido, a narrativa entremeia temporalidades. Temos um Pelé adulto, já famoso, sendo interpelado ‘casualmente’ pelo produtor e argumentista Fábio Cardoso (ambos interpretam a si mesmos). Essa encenação de conversa informal/entrevista funciona como fio condutor à dramatização de uma biografia do astro-boleiro (para alguns bons detalhes, ver crítica de Gabriel Carneiro. Disponível em: http://www.portalbrasileirodecinema.com.br/christensen/filme-o-rei-pele.php?indice=filmes#).

Simultaneamente, abusa-se do modelo da narrativa heroica. O fado de Pelé está traçado desde a origem: garantido pelo oráculo local, a negra Raimunda, mãe de Santo que prevê que o menino que acabara de nascer iria consagrar-se “rei do mundo”. Seguindo o roteiro épico, temos a resistência ao chamado (Dico, apelido infantil de Edson, resiste à alcunha de Pelé… uma reticência ao destino). Com essa mesma função narrativa, temos a promessa do garoto de deixar de jogar bola (por pressão de sua mãe, Dona Celeste, interpretada pela própria!). Evidentemente a força da sina se impõe. E por aí vai, com a(s) queda(s), soerguimento e consagração. Tudo muito conhecido e, por isso, não insistiremos. O detalhe é que toda essa trajetória já pôde ser concebida (já reunia condições de possibilidade edificante) quando Pelé tinha somente 22 anos! Essa é a sua idade quando da realização do filme. Durante “a produção, o desportista conquista a Copa do Mundo, o Brasileiro, a Libertadores e o Intercontinental pelo Santos”(http://www.portalbrasileirodecinema.com.br/christensen/filme-o-rei-pele.php?indice=filmes#).

No final das contas, a película trata disso: da fulminante ascensão e extensão desse fenômeno (até aquele dado momento; sabemos que muita água, e gols, rolariam dali em diante). A narrativa é balanceada com imagens esportivas reais e com detalhes e passagens familiares e biográficos (mais ou menos romantizados – provavelmente mais) e afirmações do (bom) caráter do personagem/biografado.

Não obstante, o filme é rico. Vale um esquadrinhamento. Por hora ficarei com um único destaque. Retomando um pouco o fio desta meada (nossa conversa no início), chamo a atenção para uma discussão do enredo, a qual envolve a temática do racismo e seu lugar na biografia do jogador/personagem. Isso me saltou aos olhos desde a primeira vez que assisti ao filme, exatamente pela noção de como essa questão foi controversa ao longo da vida pública do astro. Também me chamou a atenção que alguns dos poucos comentários especializados sobre a obra não tenham desenvolvido esse ponto; fato compreensível, dada a limitação do escopo de suas abordagens específicas (estão a tratar de outros temas – ORICCHIO, 2006; MELO, 2009).

No entanto, ele está lá; de modo explícito, narrativamente significativo e curiosamente contraditório. Sintetizemos a situação e o imbróglio. Tudo começa com uma conversa entre o jogador do Santos e Fábio Cardoso, no modelo já descrito. Este último pergunta, na lata:

– Escuta, Pelé, você nunca teve problema racial?

Ao que Pelé retruca: – Não, nunca. Só uma vez. Na época em que eu jogava no Baquinho [time juvenil do Bauru Atlético Clube].

É dessa situação que trata a epígrafe deste post. Com essa “deixa”, somos transportados à dramatização do contexto de um Pelé garoto, um jovem adolescente. Na ocasião, ele contaria com uma amiga, uma menina de idade semelhante, branca. Seu nome é Silene.

A moça tem um indisfarçável crush pelo nosso protagonista. Uma atração infanto-juvenil, que envaidece a personagem de Pelé, mas frente a qual ele parece não dar muita pelota. Essa afeição, porém, é severamente reprimida. O problema: o pai da donzela. Um racista sem papas na língua. Mas é essa crueza que, em uma visão retrospectiva, potencializa a comoção. Já ilustramos sua verve na epígrafe, mas, se necessário, poderíamos acrescentar as expressões “preto sem vergonha” e “negro não é direito”, todas veementemente utilizadas pelo patriarca. Para além desse festival de horrores, parece relevante pontuar duas coisas. O importante papel desse personagem/conflito na narrativa fílmica e a constituição cinematográfica da mesma (ou seja, como ela foi escrita em termos cinematográficos). Irei me restringir a esses dois itens e encerraremos.

Para sumarizar, é importante atentar que, não bastasse o racismo, o pai de Silene é desonesto. Junto com um comparsa, ele oferece 200 cruzeiros (“dinheiro pra burro”) para que o jovem futebolista fizesse corpo mole (por arranjo de apostas, é claro). A sequência dessa primeira provação/tentação do herói é bem marcada. Acontece em uma espécie de Museu itinerante do horror, na cidade de Bauru. O garoto-Pelé é abordado e recebe a proposta indecorosa, primeiro com uma voz em off, seguida de cortes que intercalam closes do menino com a exibição de tenebrosas figuras, do acervo do tal museu. Depois de algum tempo, os personagens corruptores se fazem mostrar, estão posicionados atrás do jovem atleta, sugerindo, incentivando-o ao acordo nefasto.

Em desenho animado, isso corresponderia ao diabinho soprando a má sugestão ao incauto. Uma verdadeira encenação das encruzilhadas e tomadas de decisão, que determinam os rumos de uma vida. Essas figuras malévolas são incorporadas pelo pai da moça e um comparsa (sério candidato a assecla de Mefistófeles). Representam o mau caminho. As más práticas, o mau caráter, o racismo, o horror, explicitamente figurado nas carrancas e representações da morte da esquisita casa de entretenimento em Bauru.

A estória se desenrola, com percalços interessantes, aliás. Mas, a despeito de tudo, a opção é feita com a repulsa ao “dinheiro fácil” e à “traição aos companheiros”.

Esse ponto não é subsidiário. É crucial à trajetória que forja o herói, identifica o mal e constitui a narrativa fílmica. Para não haver dúvidas, é o próprio Pelé (na sua versão adulta, representada pelo próprio), que ‘esclarece’ o sentido ao produtor/argumentista Fábio Cardoso:

– Você comprende, Fábio? Foi bom que os caras tivessem querido me comprar. Aprendi pra toda a vida.

Dá vontade de continuar. Mas, creio que já estourei os limites razoáveis de extensão do post (vou complementar alhures: aviso ou republico aqui, para quem queira conferir).

Em arremate, uma última observação. Para uma única experimentação de racismo (à altura dos 22 anos, na década de 1960), a indicação do Pelé fílmico foi contundente (para cruzamento com declarações do Pelé histórico, voltamos a remeter aos links já citados). Foi responsável, junto com a tentativa corruptora (perpetrada pelo mesmo algoz), pelo delineamento do caráter do jogador/homem/herói. Foi constitutiva, portanto. Todo o esforço deste escrito foi motivado pelo estranhamento de, em um primeiro momento, não ter encontrado o destaque que parece cabível a essa trama, no campo dos escritos sobre cinema e futebol. Se este for o caso (o de uma ausência), espero ter contribuído para sua minimização, com este pequeno quinhão indicativo. Uma boa semana a todos!

Até a próxima!

Obras citadas:

MELO, V. A. Garrincha X Pelé: Futebol, Cinema, Literatura e a Construção da Identidade Nacional. In: MELO, V. A & DRUMOND, M. (orgs.). Esporte e Cinema: novos olhares. Rio de Janeiro, Apicuri, 2009.

ORICCHIO, Luiz Zanin. Fome de bola: cinema e futebol no Brasil. São Paulo, Imprensa Oficial, 2006.

Para outros posts que escrevi sobre filmes com/sobre o Pelé:

Os Trombadinhas (Anselmo Duarte, 1979) – https://historiadoesporte.wordpress.com/?s=os+trombadinhas

Pelé – o nascimento de uma lenda

(EUA/BRA, 2016, Jeff e Michael Zimbalisthttps://historiadoesporte.wordpress.com/2017/12/21/pele-o-nascimento-de-uma-lenda-eua-bra-2016-jeff-zimbalist-e-michael-zimbalist/

Isto é Pelé (Luiz Carlos Barreto/Eduardo Escorel, 1974) – https://historiadoesporte.wordpress.com/?s=futebol+e+cinema+v


O remo na terra do chuvisco

05/11/2020

Por Victor Andrade de Melo

* Este post é parte de um livro que estou escrevendo em parceria com Juliana Carneiro

Em Campos dos Goytacazes, cidade do norte do Rio de Janeiro, houve um dos mais vibrantes movimentos do remo nacional. As regatas se tornaram usuais na primeira década do século XX graças a duas agremiações: o Clube Natação e Regatas Campista e o Sport Club Saldanha da Gama.

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Sede do Sport Club Saldanha da Gama.
Disponível em: http://camposfotos.blogspot.com/2010/11/clube-de-ragatas-saldanha-da-gama.html

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As agremiações náuticas rapidamente caíram no gosto popular e passaram a fazer parte dos principais festejos da cidade. As sociedades de remo também participaram ativamente das celebrações políticas mais importantes. Da mesma maneira, seus eventos se tornaram grandes acontecimentos.

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Embarcação do Clube de Natação e Regatas Campista em Festa de São Salvador.
Careta, 16 ago. 1913, p. 21.

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As atividades das agremiações náuticas não se restringiram ao Rio Paraíba do Sul. Os clubes tomaram parte em provas e eventos realizados em outras cidades, notadamente no Rio de Janeiro, em muitas ocasiões obtendo boas colocações.

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Manoel Bastos, do Saldanha da Gama, e Bernardino dos Santos, do Campista, em banquete comemorativo das regatas da Exposição Nacional.
Revista da Semana, 11 out. 1908, p. 16.

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A atuação mais intensa das agremiações, contudo, foi mesmo em Campos, e não se resumiu às regatas. Os clubes promoveram, por exemplo, uma atividade que se tornara usual na cidade: passeios fluviais. Por vezes, nesses eventos, houve páreos.

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Passeio fluvial do Clube Natação e Regatas Campista.
Careta, 31 jan. 1914, p. 20.

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Mesmo promovendo atividades diversas, e tendo um caráter social notável, os páreos de remo e natação eram o centro da vida dos clubes. Vale destacar que havia, inclusive, regatas femininas, um indício da nova presença pública das mulheres e da conexão de Campos com o que se passava em outras cidades.

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Remadoras do Pataíba do Sul.
Legenda: “Elas são lindas, alegre, jovens, campistas e amam o esporte”.
Sport Ilustrado, 17 ago. 1938, p. 26.

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No final da década de 1910, uma novidade enriqueceu o quadro do esporte náutico em Campos: a criação do Sport Club Rio Branco (a partir de 1922, renomeado Clube de Regatas Rio Branco).

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Remadores de Campos.
Sport Ilustrado, 19 nov. 1942, p. 16.

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Cada vez mais, por ocasião dos eventos náuticos/aquáticos, as margens do rio ficavam tomadas de gente – em algumas ocasiões se estimou ao redor de 10 mil pessoas. Além disso, era usual que os adeptos acompanhassem as provas de embarcações ancoradas no rio: vapores, pequenos barcos, até mesmo canoas. Muitos cronistas destacavam a grande presença feminina, a seu ver algo que conferia um brilho especial aos eventos náuticos.

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Remadores de Campos.
O Jornal, 21 jun. 1936, p. 19.

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O Paraíba do Sul, mais do que nunca, tornara-se um local de festas esportivas que mobilizavam a cidade, celebrando-se a adesão de Campos a parâmetros de modernidade.

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Festa náutica no Paraíba
Fon Fon, 18 abr. 1914, p. 39.

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As notícias do sucesso do remo e da natação em Campos chegaram amiúde ao Rio de Janeiro. Muitos foram os clubes da capital que prestigiaram as regatas da cidade. No Paraíba do Sul, disputaram provas remadores e nadadores importantes como Abrahão Saliture e Orlando Amendola. Eram sempre recebidos com grandes homenagens e intensa programação festiva.

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Remadores de Campos.
Diário de Notícias, 29 out. 1936, p. 12.

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O remo foi tão importante para a cidade que se chegou a construir, na segunda metade da década de 1960, um pavilhão de regatas para acolher o público sempre entusiasmado que prestigiava as provas náuticas. Com grande polêmica, foi destruído em 2012. Campos, foi, de fato, um dos poucos municípios brasileiros a ter tal instalação.

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Vale o registro: no Brasil, poucas cidades que não eram capitais tiveram tamanha efervescência no envolvimento com o remo.

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Periódicos militares em defesa do esporte: os casos da “Revista Marítima Brasileira” e “Revista Militar” no início do século XX

19/10/2020

por Karina Cancella

A prática esportiva nas Forças Armadas brasileiras (FA) foi intensificada na virada do século XIX para o XX sob o entendimento de que seria uma atividade favorável ao desenvolvimento físico do pessoal militar. Desde meados do século XIX, atividades físicas haviam sido introduzidas no cotidiano das FA por meio de medidas normativas que incluíram essas práticas no currículo das escolas de formação militar tanto no Exército Brasileiro (EB) como na Marinha do Brasil (MB). Atividades como aulas de tiro, ginástica, equitação militar e “hipiátrica”, natação e esgrima passaram a fazer parte do currículo dessas instituições de ensino.[1] Percebe-se a aproximação dos militares não somente das atividades ginásticas mas também de práticas que possibilitassem o desenvolvimento de habilidades fundamentais para o exercício militar no período, como tiro, natação, esgrima e equitação. Essas práticas, posteriormente, passariam a ser também realizadas em caráter esportivo.

A defesa pela ampliação dessas atividades para todos os militares era reforçada pelas observações das atenções que Forças Armadas estrangeiras dedicavam aos processos de preparação do corpo dos combatentes, considerando os exercícios físicos como importantes instrumentos para a manutenção da forma e da disciplina das tropas. (SILVA; MELO, 2011)

Essas preocupações com o preparo técnico e físico dos militares brasileiros ganharam maior projeção com o advento da República e seus projetos de modernização para as Forças Armadas. Esses projetos envolviam renovações materiais e também ações ligadas à formação dos militares brasileiros. Os problemas estruturais das instituições eram constantemente destacados em relatórios dos Ministérios da Guerra e da Marinha submetidos ao governo federal naquele período enfatizando as dificuldades de materiais e as defasagens na preparação de soldados e marinheiros. (CANCELLA, 2012)

O relatório do Ministério da Marinha do ano de 1892 defendia, por exemplo, que a má organização das escolas de aprendizes e a falta de navios para as instruções práticas dificultava aos jovens a aprendizagem da “arte do marinheiro e [de] adquirirem as qualidades physicas e moraes indispensáveis ao homem do mar”.[2] Como solução para o problema, defendia-se a reforma das escolas e estabelecimento de viagens de instrução.

Para divulgar essas novas formas de treinamento e os projetos de modernização em pauta naquele momento, Exército e Marinha utilizaram seus principais veículos de comunicação institucional: os periódicos Revista Militar (RM) e Revista Marítima Brasileira (RMB).[3]

O Exército também defendia a necessidade de viagens para a melhor preparação de seus militares. Em edição da Revista Militar do ano de 1900, foram publicadas informações sobre a primeira viagem de instrução do Estado-Maior do Exército em serviço de campanha. O artigo “Uma viagem do Estado-Maior no Chile” apontava como necessidades do EB naquele momento:

1o.) Habituar officiais ao serviço de guerra, collocando-os em situações idênticas as que se apresentam em campanha e fazendo-os applicar sobre o terreno os methodos e soluções dos problemas tácticos, que aprenderam teoricamente; […]

3o.) Nestas expedições o estado-maior experimenta a robustez physica e o preparo intellectual dos officiaes. [4]

Acompanhando as preocupações com os conhecimentos táticos e técnicos da guerra, destacava-se também a busca por métodos para o aprimoramento físico dos militares. As observações sobre como os exércitos estrangeiros realizavam seus processos de preparação e organização eram temas recorrentes nas edições da Revista Militar. Por meio dos estudos da estrutura dessas instituições, projetava-se a renovação das FA brasileiras. Como exemplo, em artigo publicação na Revista Militar em 1901, o Major Engenheiro Dias de Oliveira tratou sobre as ações do Exército Alemão, destacando as principais vantagens deste exército:

o official d’estado-maior não deve somente desenvolver o espírito, completar a instrucção, já pelo útil jogo da guerra, a resolução de themas tácticos, conferencias, já pelos trabalhos d’ inverno ou de viagens d’ estado-maior. É-lhe igualmente necessário desenvolver as qualidades physicas, tonificar e robustecer o organismo, para supportar com vantagem a inclemência da vida em campanha, como convem a um homem de guerra. Por isso o official alemão, alem das grandes manobras do outomno, dedica-se com paixão aos diversos gêneros de exercícios physicos, como a gymnastica, o cyclismo, a equitação, as marchas de guerra e as demais úteis e atraentes diversões creadas pelo sport moderno.[5]

A defesa da utilização de práticas esportivas como instrumentos de preparação para a atividade militar também ganhou destaque na MB. Militares da Marinha do Brasil participaram ativamente do processo de organização de entidades esportivas de remo na sociedade carioca. Os interesses em destacar os benefícios desta prática, no entanto, não se restringiam aos argumentos em torno da saúde e da modernidade, característicos da época. O entusiasmo dos militares em divulgar as atividades pode ser ilustrado com as ideias apresentadas pelo Capitão-Tenente Santos Porto no artigo “O sport náutico no Brazil”, publicado na RMB em 1901. O artigo traz elementos que nos ajudam a compreender os interesses da Marinha em defender maior desenvolvimento do remo, associando esta prática aos seus ideais de “cidadão” para a República brasileira naquele momento inicial do século XX:

[…] Em boa hora, felizmente, sentiu a nossa mocidade que no sport náutico encontraria as melhores e mais salutares distracções e, impulsionada por admirável enthusiasmo começou a fundar ao longo do littoral novos clubs, centros de animação e actividade. […]

Diante dos crescentes dispêndios com a manutenção das forças de mar e terra permanentes, cujo objetivo é garantir a paz, espíritos bem intencionados teem inscripto na sua bandeira, que se deve educar o povo de modo a transformal-o em legiões de soldados na hora, em que possa perigar a integridade da nação.

A situação do Brazil não é, porem, a dos estados europeos. Lutas futuras, si infelizmente tivermos, terão que se liquidar sobre o mar ou ao longo de nossas costas, e para que os futuros voluntários, a nação em armas prompta a defender os seus lares, o possam fazer com segurança e vantagem, é preciso que o povo se eduque sob este ponto de vista, no amor das cousas do mar, seguros os nossos estadistas de que, todo o auxilio prestado é um elemento de trabalho da defesa nacional.

Não basta que <<cada cidadão seja um soldado>> é preciso que <<cada cidadão seja um marinheiro, na mais lata accepção d’essa palavra>>.[6]

Os militares da MB buscavam evidenciar suas perspectivas sobre a necessidade de maior preparação do cidadão, que deveria ser acima de tudo um soldado-cidadão ou, como defendeu o autor, um cidadão marinheiro. A necessidade de formação de indivíduos para a defesa da nação que estivessem habituados ao mar foi o principal argumento utilizado ao longo do artigo para destacar os benefícios que a prática do remo poderia trazer para o país como um todo. Esse argumento fica evidente na afirmação sobre as diferenças entre o Brasil e os países europeus no que se refere à possível ocorrência de conflitos. Ao evidenciar estes aspectos dos esportes náuticos, o artigo não somente buscou aproximar seus militares dessas atividades mas também a juventude em geral. Os argumentos foram elaborados com objetivo de enfatizar a necessidade do “amor das cousas do mar” na tentativa de atrair a juventude para as atividades militares, já que as FA enfrentavam sérios problemas quanto ao número de integrantes, estando seus efetivos sempre abaixo das necessidades expressas nos planejamentos anuais (ALMEIDA, 2010; NASCIMENTO, 2010). Atrair os jovens para suas fileiras era imperativo e inúmeras estratégias foram utilizadas, inclusive por meio da prática esportiva.

A RMB voltou a publicar um artigo sobre a necessidade da juventude brasileira se aproximar das práticas náuticas em 1902. A matéria sem autoria “Campeonato de 1902 – Clube de Natação e Regatas” trazia inúmeros argumentos sobre os grandes benefícios da prática do remo e a satisfação para os oficiais da Marinha ao perceber a ampliação da atividade entre os civis, destacando os clubes de remo como um “celeiro” de homens fortes, preparados para a defesa nacional e habituados ao mar, atendendo aos interesses militares navais. Esses clubes seriam, portanto, “viveiro abundante de moços fortes, habituados ao mar, e aos trabalhos, no dia em que a Pátria ameaçada chame a postos seus filhos para defenderem-na”.[7] O esporte, nessa interpretação, seria um importante instrumento preparatório para as funções militares em batalhas marítimas.

Revista Marítima Brazileira. Campeonato de 1902. 2o. Semestre de 1902, p. 383.

Revista Marítima Brazileira. Campeonato de 1902. 2o. Semestre de 1902, p. 387.

Os projetos de modernização para o EB espelhavam-se nos modelos de organização das Forças estrangeiras, como já destacado. Na edição de 1906 da Revista Militar, o Capitão do Estado-Maior de Artilharia Liberato Bittencourt destacou no artigo “Princípios geraes de organização dos exércitos” os 12 temas que deveriam ser levados em conta nesse processo de modernização. Entre os princípios elencados pelo autor, destaco o de número 10:

 […] Principio de educação physica, intellectual e moral: organisar os exércitos de modo a serem elles grandes escolas de educação physica, intellectual e moral da mocidade […].[8]

O destaque para a função de ser “grandes escolas de educação physica, intellectual e moral da mocidade”, atribuídos ao EB, enfatiza os ideais sobre a necessidade de uma sociedade envolvida com as atividades militares. Essa perspectiva do Capitão acompanhava, em grande parte, as discussões sobre a necessidade de um novo formato para o EB, mais operativo e menos teórico, seguindo os modelos adotados por potências militares como França, Alemanha e Estados Unidos. (CANCELLA, 2012)

A prática esportiva foi defendida entre os militares inicialmente como forma de treinamento do corpo para melhoria do desempenho em suas atividades funcionais. No entanto, ao longo do final do século XIX e início do século XX, essas práticas passaram a ser também indicadas para os jovens civis em publicações de revistas institucionais das FA com objetivo de aproximar a juventude de suas atividades e preparar, por meio do esporte, grupos de “soldados-cidadãos” ou “cidadãos-marinheiros”.

Referências:

ALMEIDA, S. A modernização do material e do pessoal da Marinha nas vésperas da revolta dos marujos de 1910: modelos e contradições. Estudos Históricos, v. 23, n. 45, p. 147-169, jan. – jun. 2010.

CANCELLA, K. A defesa da prática esportiva como elemento de preparação dos militares por meio das publicações institucionais “Revista Marítima Brasileira” e “Revista Militar”. In: Encontro Regional de História da ANPUH-Rio, 2012, São Gonçalo. Anais do XV Encontro Regional de História da ANPUH-Rio. São Gonçalo: ANPUH-Rio, 2012.

NASCIMENTO, F. Militarização e Nação: o serviço militar obrigatório na Argentina e no Brasil em uma perspectiva comparada (1900-1916). Revista Brasileira de História Militar, ano I, n. 1, p. 1-18, abr. 2010.

SILVA, C.; MELO, V. Fabricando o soldado, forjando o cidadão: o doutor Eduardo Augusto Pereira de Abreu, a Guerra do Paraguai e a educação física no Brasil. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 18, n. 2, p. 337-353, jun. 2011.


[1] BRASIL. Decreto n° 2.116, de 01 de março de 1858. Aprova o Regulamento reformando os da Escola de aplicação do Exército e do curso de infantaria e cavalaria da Província de S. Pedro do Rio Grande do Sul, e os estatutos da Escola Militar da Corte. Coleção de Leis do Império de 1858; BRASIL. Decreto n° 2.163, de 01 de maio de 1858. Reorganiza a Academia de Marinha em virtude da autorização concedida no parágrafo 3º. Do artigo 5º. da Lei n. 862 de 30 de julho de 1856. Coleção de Leis do Império de 1858.

[2] BRASIL. Relatório do Ministério da Marinha, 1892, p. 40.

[3] Essas publicações eram utilizadas como instrumento de divulgação de informações e propostas sobre as mais diversas temáticas de interesse das instituições militares, inclusive assuntos esportivos. A RMB é uma publicação oficial da MB, editada desde 1851 com periodicidade trimestral com artigos de autores nacionais e estrangeiros sobre assuntos históricos, técnicos e estratégicos, sendo publicada até os dias atuais. A Revista Militar é a sucessora do primeiro periódico científico oficial do EB, criado em 1882 com o nome de Revista do Exército Brasileiro e circulou entre 1882-1888, sendo interrompida a publicação e reiniciada em 1899 com o título de Revista Militar entre 1899-1908. Em 1911, a publicação foi retomada com o nome de Boletim Mensal do Estado Maior do Exército, circulando até 1923. (CANCELLA, 2012)

[4] Revista Militar, Uma viagem do Estado-Maior no Chile, ano II, 1900, p. 48.

[5] OLIVEIRA, Dias de. O Exercito Alemão. Revista Militar, ano III, 1901, p. 188-189.

[6] PORTO, Santos. O sport náutico no Brazil. Revista Marítima Brazileira. 2º. Semestre de 1901, p. 11.

[7] Revista Marítima Brazileira. Campeonato de 1902. 2o. Semestre de 1902, p. 381-388.

[8] BITTENCOURT, Liberato. Princípios geraes de organização dos exércitos. Revista Militar, ano VIII, p. 341-348.


Hamilton: mais de uma década depois

04/10/2020

por Victor Melo

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Escrevemos tantas coisas que não raramente esquecemos de algo que escrevemos. Hoje, lembrei de um breve artigo que publiquei há mais de 10 anos, em 2008.

O repórter da Folha de São Paulo me ligou e, com a rispidez típica (e por vezes admirável) dos jornalistas, lançou o petardo: “Professor, o que pode significar a vitória de Hamilton?”. O notável automobilista, ainda jovem, tinha grande chance de se tornar campeão do circuito da Fórmula 1. Mesmo não sendo meu tema central de estudo, arrisquei algumas opiniões, ressaltando a importância de um negro sagrar-se vitorioso numa modalidade na qual há poucos negros representados.

O repórter, então, lançou um desafio: “Aceitas escrever um breve artigo sobre isso? Tem que se claro, direto, com número limitado de caracteres. Sim, e somente será publicado se Hamilton for campeão”. Demorei um pouco, mas aceitei, afinal, parecia um esforço interessante de reflexão. Frente à minha resposta positiva, retrucou o repórter, que preparava uma grande matéria sobre o piloto: “E agora, professor, para quem vamos torcer: Massa ou Hamilton?”. O brasileiro Felipe tinha grandes chances de também se sagrar campeão.

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Massa e Hamilton Paulo Whitaker/Reuters Disponível em: https://www.uol.com.br/esporte/f1/ultimas-noticias/2016/09/01/

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Não respondi, nos despedimos e, com a cabeça em polvorosa, me pus a tentar rabiscar algo. Eu e o repórter passamos os dias seguintes dialogando. Ele me deu dicas valorosas de como escrever para um jornal. Fui ajustando, tentando aprender. Ele foi paciente. No domingo, dia da corrida, nos falamos pela manhã, fizemos os ajustes finais e ele retomou a pergunta: para quem torcer Massa ou Hamilton?

Em tom solene, consagrei: como brasileiro, por Massa, como seres humanos, por Hamilton. Rimos da tergiversação e fomos aguardar o resultado que todos hoje sabemos – o britânico se tornou campeão, numa corrida emocionante, deixando para sempre seu nome registrado na história (e meu artigo foi publicado, bem como a grande matéria – Folha de São Paulo, Caderno Esporte, 3 nov. 2008, p. 3, disponível aqui http://cev.org.br/biblioteca/vitoria-ajuda-a-superar-preconceitos/).

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Hamilton campeão
Reuters
Disponível em: http://globoesporte.globo.com/Esportes/Noticias/Formula_1/0,,MUL846415-15011,00-NA+ULTIMA+CURVA+HAMILTON+GANHA+O+TITULO+E+FAZ+HISTORIA+NO+QUINTAL+DE+MASSA.html

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Mais de 10 anos depois, Hamilton está prestes a registrar mais do que nunca seu nome na história. Não só por ser um magnífico piloto, um incrível atleta de um dos esportes mais difíceis e arriscados, mas também por se tornar um líder global por suas posturas políticas, por dar visibilidade a questões que extrapolam em muito e são mais importantes do que o esporte: vidas negras importam.

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Liderados por Hamilton, pilotos se ajoelham em protesto contra o racismo antes do GP da Áustria
Disponível em: https://jovempan.com.br/esportes/outros-esportes/pilotos-se-ajoelham-em-protesto-gp-da-austria.html

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Hamilton está prestes a bater o recorde mundial de vitórias e igualar o de campeonatos da Fórmula 1. E tudo isso sem se deixar calar pelos burocratas do esporte. Perceba-se que isso se dá em um momento em que, no Brasil, critica-se a atleta Carol Solberg apenas por ela expressar o seu ponto de vista. Curiosamente, a mesma medida não foi tomada para aqueles que defenderam o que hoje Carol critica. Pior, a atleta sofreu reprimenda de uma comissão de atletas que supostamente deveria a representar e defender. Poucas vezes se viu tamanha pusilanimidade e peleguismo. Mentira. No Brasil de hoje, lamentavelmente isso é cada vez mais comum.

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Incomum essa postura? Ou sinal do adesionismo, conservadorismo e alienação que lamentavelmente marcam largas esferas do campo esportivo, algo perceptível, por exemplo, nas atitudes da diretoria de um clube de futebol que, beirando o “terraplanismo”, não considerou com profundidade os desdobramentos da crise pandêmica que vivemos, tendo que pedir o adiamento de uma rodada por sua equipe estar largamente infectada.

Hamilton, Carol e muitos atletas que não se deixaram calar entraram e entrarão para a história pela porta da frente. Entenderam que não basta ser magnífico nas lides esportivas, há que se ser magnífico na vida, para a sociedade, para a humanidade. Existem muitos atletas. Alguns são excelentes atletas. Alguns ultrapassam isso. Alguns são mesmo quase heróis. Hamilton é desses. Faz muito bem que nos dias de hoje tenhamos um herói negro e insubmisso. Ajuda a deixar mais claro quem são os canalhas da história.

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Sabe de uma coisa: fiz muito bem, em 2008, ao torcer para Hamilton em nome da humanidade. A humanidade é muito mais importante do que um nacionalismo barato como esse que anda em voga nesse triste Brasil dos dias de hoje.

Abaixo, a versão semifinal do artigo publicado, ainda com outro título e sem revisão final.

NEGROS NO PÓDIO.folha.sao.paulo

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Adhemar Ferreira da Silva: representações de um herói olímpico (parte 1)

27/09/2020

por Fabio Peres e Victor Melo[i]

Adhemar Ferreira da Silva destacou-se no movimento olímpico internacional por se sagrar bicampeão na prova do salto triplo (Helsinque/1952 e Melbourne/1956). Suas conquistas tiveram grande repercussão no cenário brasileiro. Na década de 1950, o Brasil estava há 32 anos sem ganhar uma medalha de ouro olímpica (desde a edição de 1920, quando uma delegação do país participou pela primeira vez do evento[ii]).

Naquele momento, o Brasil tentava se afirmar no cenário esportivo internacional, mas lidava com a “tragédia” da Copa do Mundo de Futebol de 1950, quando a seleção nacional foi derrotada pelo selecionado uruguaio em pleno Maracanã. No olhar do jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues, esse fracasso se converteu em um ethos que anos mais tarde seria ironicamente denominado de “complexo de vira-latas”, um certo “pudor em acreditar em si mesmo” mesclado com o “medo da desilusão”; em outras palavras, um sentimento de “inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”[iii].

Naquela década, politicamente, o país passava por um momento de transição democrática, depois de viver 15 anos sobre a presidência de um mesmo líder (1930-1945), que governou de forma ditatorial durante oito anos (1937-1945) – Getúlio Vargas, que voltou ao cargo pela via eleitoral em 1951. Do ponto de vista econômico, passos mais seguros eram dados no caminho da industrialização, modificando-se a estrutura societária nacional. As cidades cresceram bastante, diversificando-se o perfil de seus habitantes. O fortalecimento dos meios de comunicação contribuiu tanto para expor as crises identitárias pelas quais passava o Brasil quanto para mobilizar mais intensamente os brasileiros ao redor da ideia de nação[iv].

Nesse contexto, deve-se considerar que Adhemar Ferreira da Silva tinha um perfil típico de boa parte da população brasileira. Negro, nascido na maior cidade do Brasil (São Paulo), era membro de uma família de camada popular (filho de um operário com uma cozinheira) que conseguiu melhorar sua condição socioeconômica. Não fora o primeiro grande atleta a receber atenção do país, nem tampouco o primeiro esportista negro a tornar-se reconhecido (o antecedeu, por exemplo, o notável futebolista Leônidas da Silva). Mas foi certamente o que maior fama obteve até então, antecipando a espetacular repercussão que outro personagem teria a partir da década de 1960, o Pelé.

Mas quais foram as representações veiculadas na imprensa do Rio e de São Paulo sobre as conquistas olímpicas de Adhemar? Como elas se cruzavam com as questões nacionais, com os conflitos e desejos de uma nação que passava por rápidas e intensas mudanças e, ao mesmo tempo, mantinha contradições históricas? Como elas nos ajudam a ter um olhar um pouco mais complexo sobre o campo esportivo brasileiro?

Divido em três partes, abordaremos neste e nos próximos posts estas questões e as histórias que enredam as conquistas de 1952 e 1956 de Adhemar.

1952: “Venci Porque Sou Brasileiro”, o encanto de uma comunidade imaginada que “assombrou o mundo”

Pouco tempo antes de embarcar para Helsinque, a fim de disputar os Jogos Olímpicos de 1952, uma parte da imprensa brasileira, ainda que de forma cautelosa, depositava em Adhemar a esperança de conquista da medalha de ouro que o Brasil não ganhava desde 1920. Naquela altura, o atleta já havia igualado o recorde mundial do salto triplo (em 1950) e vencido os campeonatos pan-americano de 1951 e sul-americano de 1952.

O periódico Última Hora chegou a recorrer à opinião de especialistas para avaliar a “representação brasileira” que participaria dos Jogos Olímpicos. Osvaldo Gonçalves, catedrático da cadeira de atletismo na Escola Nacional de Educação Física e treinador da equipe que iria para Helsinque, considerado “um dos maiores técnicos nacionais”, asseverou:

É na realidade a seleção dos maiores valores do atletismo nacional. Todos possuindo performances e técnica a altura da grandeza dos Jogos Olímpicos. Contudo, passar pelas duas eliminatórias contra os expoentes do atletismo mundial, para classificar-se até o 6º lugar na final, não é tarefa fácil ou coisa que se espere que aconteça como proteção da sorte ou por simples “chance” oferecida por erros de fortes concorrentes. Nos jogos Olímpicos participarão os maiores campeões com os mesmos desejos de uma medalha até o 3° lugar. Uma classificação assim tão honrosa, exige do atleta esforço, treinamento, capacidade física e muito apuro de técnica[v].

Tratava-se, de acordo com o técnico, de uma perspectiva realista considerando as marcas e os desempenhos obtidos por cada membro da equipe no decorrer daquele ano[vi]. Alcançar a classificação para a final já era considerado um “grande feito”. De todo modo, Adhemar era cotado pelo treinador como um dos prováveis vencedores. Oswaldo Gonçalves considerava que o brasileiro se encontrava no mesmo patamar que outros atletas já consagrados mundialmente:

Poucas são as provas em que se poderão apontar os possíveis vencedores. Neste caso, já não são mais campeões e sim campeoníssimos. Dos atletas nacionais, Ademar Ferreira, no Triplo Salto, está nessa classificação, juntamente com Jim Fuchs, recordista mundial do Peso com 17m95; com Zatopeck nos 10.000 metros, com 29m02s […].[vii]

A despeito dessa análise, o técnico posteriormente foi mais comedido, sugerindo esperar uma “honrosa colocação”. A prudência era justificável. Não apenas os obstáculos para uma melhor preparação de atletas amadores eram significativos, como o Brasil já havia sofrido a “traumática” perda da Copa do Mundo de Futebol de 1950. O excesso de confiança e a falta de modéstia pareciam ser vistos com desconfiança por determinados atores do campo esportivo, incluindo, jornalistas e treinadores.

Em todo caso, o Última Hora fez questão de reverenciar os competidores brasileiros do atletismo, contrastando com o estilo ponderado do catedrático. O jornal estampou no dia do embarque a manchete em letras garrafais “ESTES ATLETAS DEFENDERÃO O BRASIL”[viii]. Os termos usados na matéria não eram casuais. As ideias de defesa e elogio da nação eram posturas valorizadas no contexto histórico pelo qual o país atravessava (e que ainda persistem como chaves interpretativas da história, em especial, política e econômica brasileiras[ix]).

Destaque para os atletas que representariam o Brasil no atletismo (Última Hora, 7 jul. 1952, p.8.)

Os periódicos, naquele momento, de fato, davam grande repercussão à luta entre os partidários do “nacionalismo” e os do que foram pejorativamente chamados de “entreguistas”. Eram correntes que defendiam modelos conflitantes de desenvolvimento do Brasil, de um lado, com uso de capital e usufruto exclusivamente nacionais com monopólio estatal, de outro, com a participação do capital privado, sobretudo internacional, e exploração das “riquezas” nacionais por grupos estrangeiros[x].

Neste sentido, a discussão sobre o papel que o Estado deveria ocupar na “modernização” do país delineava projetos distintos de nação. O então presidente Getúlio Vargas (1951-1954), vale sublinhar, ganhou as eleições com uma plataforma que propunha a independência e soberania econômica através da nacionalização progressiva da indústria vis-à-vis à superação do modelo agroexportador[xi].

Não surpreende, portanto, a natureza dos discursos dos periódicos acerca da vitória de Adhemar. Quase todos os jornais estamparam fotografias do atleta acompanhadas de textos com tom ufanista. A conquista da medalha de ouro se colocou acima de disputas políticas, com diferentes e mesmo divergentes grupos buscando se vincular ao feito. A busca pela legitimação internacional do país era por todos desejada, ainda que com interesses e apropriações distintas no que tange à construção de narrativas sobre a nação[xii]

De toda forma, as representações sobre a conquista da medalha de ouro de Adhemar Ferreira pareciam se alinhar mais aos discursos que inflavam o valor do nacional em detrimento de possíveis estrangeirismos. A propósito, as instituições esportivas brasileiras – a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), regida desde 1941 pelo Conselho Nacional de Desportos (CND)[xiii], assim como o Comitê Olímpico Brasileiro – eram diretamente ligadas ao Estado, que no momento defendia a “bandeira nacionalista”[xiv] – o que não impedia apropriações diversas.

Propaganda da Esso por ocasião da medalha nos Jogos Olímpicos – Standard Oil

Para a imprensa, Adhemar era um exemplo da abdicação e dedicação que caracterizam os mártires nacionais. Um cronista sugeriu que o atleta “prometera tudo fazer, não pela projeção individual do seu nome, mas, para projetar ainda mais, no cenário esportivo mundial, o nome do Brasil” [xv]. A sua índole e sua devoção à nação adquiriam maior dimensão, em especial, pela origem “pobre e modesta” de seus pais[xvi]. O esportista, a propósito, constantemente enfatizava as dificuldades de ser um esportista amador. De fato, a trajetória de Adhemar reflete em parte as tensões presentes no amadorismo brasileiro, sobretudo, para aqueles oriundos das camadas populares: desde o começo de sua carreira, o atleta teve que conciliar diversas ocupações profissionais com o treinamento e viagens para competições nacionais e internacionais. Uma das situações mais emblemáticas das contradições da condição de amador foi quando, mesmo já tendo ganho sua medalha de ouro em 1952, Adhemar teve seus vencimentos descontados durante 18 dias por ter comparecido aos Jogos Sul-americanos de 1953, sendo, depois, dispensado do cargo que ocupava na Prefeitura de São Paulo pelo então prefeito Jânio Quadros[xvii]. Na época houve protestos contra a medida. Parte inclusive de sua transferência de São Paulo para o Rio de Janeiro se deve justamente por questões laborais e financeiras[xviii].

Todavia, não poucas vezes, fazia questão de destacar sua principal motivação para superá-las – seu compromisso com o país:

Confiava em minhas possibilidades, apesar de reconhecer que encontraria grandes adversários. Mas, além disso, havia o desejo de não decepcionar os meus patrícios. E, pensando no Brasil, somente no Brasil, parti para a caixa de areia onde consegui o maior resultado de toda a minha carreira (grifos nossos)[xix].

O sentimento de pertencimento à nação demarcava, nos seus discursos, o auge de suas experiências: “Quando tocaram o Hino Nacional brasileiro senti que estava vivendo o maior momento de minha vida”[xx]. Sensação semelhante se repetira ao chegar no refeitório da Vila Olímpica, quando atletas de todos os países da América Latina levantaram-se e gritaram “Brasil! Brasil!”, ovacionando Adhemar[xxi].

Dias depois de sua vitória, o olhar estrangeiro, ao dar ênfase a um aspecto invisibilizado (ou visível em outros termos), iria contrastar com o olhar da imprensa brasileira: a “cor” de Adhemar. Mas essa história ficará para o próximo post.


[i] Texto publicado originalmente em PERES, Fabio de Faria; MELO, Victor Andrade de. Adhemar Ferreira da Silva: Representations of the Brazilian Olympic Hero. In: Antonio Sotomayor; Cesar R Torres. (Org.). Olimpismo: The Olympic Movement in the Making of Latin America and the Caribbean. Fayetteville: University of Arkansas Press, 2020, p. 95-110.

[ii] Guilherme Paraense conquistou uma medalha de ouro na prova de tiro (pistola de velocidade ou tiro rápido).

[iii] Manchete Esportiva, 31 mai. 1958, p. 4. Meses antes, o autor já havia se referido a tal sentimento de inferioridade no jornal Última Hora (7 fev. 1958, p. 14). Para mais informações, ver: ANTUNES, Fátima Martin Rodrigues Ferreira. “Com brasileiro, não há quem possa!”. São Paulo: Editora da Unesp, 2004.

[iv] Para mais informações sobre o período histórico, ver: FERREIRA, Jorge, DELGADO, Lucilia de Almeida N. (org.). O Brasil Republicano – O tempo da experiência democrática. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

[v] Última Hora, 21 jun. 1952, Suplemento Esportivo, p. 2.

[vi] A delegação brasileira de atletismo era composta por Wanda dos Santos (80 metros com barreira e salto em distância), Ary Façanha de Sá (salto em distância e 4 x 100), José Teles da Conceição (salto em altura, salto triplo e 4 x 100), Helena Cardoso de Menezes (100 metros e salto em distância), Devse Jurdelína de Castro (200 metros e salto em altura), Wilson Gomes Carneiro (110 e 400 metros com barreira e 4 x 100), Argemiro Roque (400 e 800 metros), Hélcio Buck Silva (salto com vara), Geraldo de Oliveira (salto em distância, triplo e 4 x 100), além de Adhemar Ferreira da Silva.

[vii] Última Hora, 21 jun. 1952, Suplemento Esportivo, p. 2.

[viii] Última Hora, 7 jul. 1952, p. 8.

[ix] Como consequência desse contexto, o Brasil viu surgir uma série de intelectuais que buscariam interpretar e mesmo nomear o “lugar” ocupado pelo país no sistema capitalista, entre os quais, Caio Prado Jr., Florestan Fernandes e Celso Furtado. Para mais informações, ver: SAMPAIO Jr., Plínio de Arruda. Entre a nação e a barbárie: uma leitura de Caio Prado Jr., Florestan Fernandes e Celso Furtado à crítica do capitalismo dependente. Tese (Doutorado em Economia) – Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1997.

[x] Para mais informações sobre o período histórico, ver: FERREIRA, Jorge, DELGADO, Lucilia de Almeida N. (org.). O Brasil Republicano – O tempo da experiência democrática. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

[xi] Dias antes da viagem da delegação de atletismo para a Finlândia, o Última Hora publicou na capa – por ocasião do avanço na extração de petróleo em Candeias (no estado da Bahia) – com grandes letras que ocupavam mais que ¼ da página a fala do presidente: “Ninguém arrebata das minhas mãos a bandeira nacionalista”. O texto era antecedido por uma explicação de importante valor simbólico “Vargas mergulhou a mão no petróleo e a estendeu aos técnicos e trabalhadores”, sendo acompanhado por uma fotografia do próprio presidente com uma das mãos estendida para o alto, na qual se lia a seguinte legenda: “Presidente sob aplauso da multidão: ‘Nada pedimos ao estrangeiro. Dele, nada precisamos’”. Última Hora, 24/6/1952, p.1. Vale destacar que o debate entorno da exploração dos bens nacionais, inclusive, do petróleo já vinha desde a década de 1930, quando Vargas também era presidente. Em outubro de 1953, foi aprovada e sancionada por Vargas que dispôs sobre a Política Nacional do Petróleo e definiu as atribuições do Conselho Nacional do Petróleo, instituiu a Sociedade Anônima Petróleo Brasileiro S. A. (que usaria a sigla Petrobrás). Em síntese, a lei garantia o monopólio estatal na exploração, produção, refino e transporte do petróleo no Brasil.

[xii] A própria realização da Copa do Mundo de Futebol de 1950 era vista pelo governo e demais autoridades brasileiras – naquele momento em posição contrária ao monopólio estatal na exploração dos recursos considerados estratégicos para o país – como forma de projetar a imagem do Brasil no exterior. Maiores informações ver: CABO, Alvaro Vicente. Copa do Mundo de 1950: Brasil X Uruguai — uma análise comparada do discurso da imprensa. In MELO, Victor Andrade (org.). História comparada do esporte. Rio de Janeiro: Shape, 2007, p. 47-60.

[xiii] Brasil. Decreto-lei nº 3.199, April 14,1941, accessed May 23, 2017.,http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/1937-1946/Del3199.htm

[xiv] Em uma cerimônia realizada na Finlândia, o ministro brasileiro das relações exteriores, Jorge Latour, declarou: “Esta noite, nós brasileiros, sentimo-nos particularmente felizes pela vitória de Ademar Ferreira, que atleta modesto e simples, recebeu a consagração espontânea do público que assistiu sua brilhante vitória […]” (Correio da Manhã, 24 jul. 1952, 2º Caderno, p. 1).

[xv] Correio da Manhã, 24 jul. 1952, 2º Caderno, p. 2.

[xvi] Na cidade de São Paulo, chegou-se a organizar uma iniciativa para oferecer uma casa para a família de Adhemar (Diário de Notícias, 24 jul. 1952, 3ª Seção, p. 1.) A doação, porém, ao fim não se concretizou, pois acreditava-se que poderia se configurar como pagamento, o que iria de encontro ao status de amador do atleta.

[xvii] Mundo Esportivo,São Paulo, May 12, 1953, 2; Imprensa Popular, Rio de Janeiro, January 1, 7.

[xviii] Revista do Rádio, Rio de Janeiro, April 14, 1956, 14.

[xix] Última Hora, 11 ago. 1952, p. 7.

[xx] Correio da Manhã, 25 jul. 1952, 2º Caderno, p. 1.

[xxi] Correio da Manhã, 25 jul. 1952, 2º Caderno, p. 1.


Europeus e cariocas nos momentos iniciais do esporte em São Paulo

19/09/2020

Por Flávia da Cruz Santos
flacruz.santos@gmail.com

 

As primeiras experiências esportivas desenvolvidas em São Paulo, não constituíam, ainda, o chamado campo esportivo, mas foram fundamentais para o desenvolvimento deste, anos mais tarde. Tais experiências, no entanto, eram compreendidas explicitamente, desde os seus primórdios, como divertimento. O fim dos esportes era promover alegria e prazer.

Os imigrantes europeus, presentes na cidade desde a sua fundação, tiveram papel central nesse processo de desenvolvimento dos esportes. Eles foram os responsáveis pelas presenças iniciais das duas primeiras práticas esportivas que surgiram em São Paulo, a esgrima e o críquete.

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O Estado de São Paulo, 20 de novembro de 1913

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Os mestres de esgrima, responsáveis pelas pioneiras presenças dessa prática nos jornais paulistanos, eram europeus: alemães, italianos e franceses. Foi com professores europeus que os paulistanos aprenderam a esgrima, e foi por influência inglesa que eles desejaram aprendê-la. A mesma presença determinante dos europeus, pode ser sentida nos momentos iniciais do críquete na cidade. Eles foram praticantes e organizadores da prática, cujas primeiras aparições nos jornais se deram, em língua inglesa, em 1872.

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A Província de São Paulo, 31 de agosto de 1888

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Os europeus, principalmente os ingleses e os franceses, foram decisivos para a chegada e o desenvolvimento dos esportes em São Paulo. Não apenas uma referência ou um modelo a ser seguido, eles foram os fomentadores, aqueles que desenvolveram as pioneiras iniciativas esportivas na capital paulista e que seguiram implementando e fazendo avançar o esporte na cidade.

A tese de que o Rio de Janeiro foi o ponto de onde o esporte se irradiou para o Brasil, se confirma aqui, no caso de São Paulo, apenas parcialmente. As relações comerciais, políticas e culturais entre estas duas cidades vinham de muito tempo, favorecidas pela proximidade geográfica entre elas.

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Correio Paulistano, 27 de maio de 1875

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Era noticiado nos periódicos paulistanos o desenvolvimento esportivo carioca, indicando que o mesmo deveria se dar em São Paulo. O Rio foi uma referência a ser seguida, e também a ser combatida. Combatida não no sentido de ser negada, mas de ser superada. A referência mesmo era a Europa. Com a intenção de se aproximar ao máximo desse continente, é que a corte deveria ser superada. O gosto pelos esportes devia ser maior em São Paulo do que na corte, a performance dos paulistanos também devia ser melhor do que a dos cariocas.

Mas os paulistanos e cariocas foram importantes uns para os outros, no que tange ao desenvolvimento esportivo. Os primeiros adversários dos paulistanos foram os cariocas. As equipes viajavam de uma província para a outra para se enfrentar, o que contribuiu para o desenvolvimento esportivo em ambas as cidades.

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Uma Salvador e seus esportes iniciais

15/09/2020

Coriolano P. da Rocha Junior

Salvador foi capital do Brasil, todavia, no início do séc. XX vivia uma fase de decadência, num cenário em que a Bahia se viu afastada do poder, sem a influência tivera antes. No estado via-se um apelo ao seu passado de “glória” e isso, acontecia pelo fato desta unidade da federação se considerar “injustiçada” no novo cenário nacional, clamando para si a volta de uma época tida como gloriosa.

Para tentar instalar a modernidade, a Bahia, experimentou ações que buscaram reordenar o espaço urbano e os modos de vida dos cidadãos, num conjunto de mudanças socioeconômicas, culturais, estruturais e higienizantes, marcando um novo momento histórico, que buscou tornar a cidade de Salvador um espaço de novas vivências e práticas sociais.

De maneira geral, podemos afirmar que um projeto modernizador se assenta em alguns pontos básicos, que eram: construção e/ou alargamento de novas vias; construção de edifícios de arquitetura imponente e consequente derrubada de antigos prédios; a higienização da cidade; a criação do belo, do apreciável; a instalação de um comércio caro e de padrões europeus.

Foi durante o governo estadual de J.J. Seabra (1912-1916), que Salvador, viveu as ações que tentaram reordenar seu espaço urbano e adequar seus habitantes aos novos comportamentos e posturas da modernidade.

Ao analisar esse período e o quadro da Bahia, Risério (2004, p. 310), assevera que “sua capitalização era fraca, havia a enorme dificuldade de transporte, a carência de energia e, ainda, a hegemonia dos comerciantes, que não se interessavam tanto por investimentos em atividades produtivas”, ou seja, a Bahia destoava dos princípios aventados pela ideia de progresso. Salvador estava presa a uma lógica econômica que se não impedia, certamente limitava as aspirações por um maior crescimento, pelo progresso, não sendo ainda suficientemente “civilizada”, estando, portanto, fora dos padrões propalados pela modernidade carioca.

Nesse quadro, a elite soteropolitana aspirava mudanças e a bem da verdade, o que existia mesmo era uma tentativa de se criar uma cidade moderna e que exultava o progresso.

Leite (1996), ao falar sobre as aspirações modernizantes de Salvador, mostra que se tentava atender “a um interesse comum de certos segmentos elitistas da sociedade local, inconformados com a cidade em que viviam” (p.18). A cidade de Salvador, em sua aventura pela modernidade, teve de conviver com uma clara dificuldade que em muito limitava qualquer aspiração, a fragilidade econômica.

Se em Salvador o pretendido por Seabra e as elites locais na questão de uma nova urbanização não avançou como se esperava, no que é tocante aos hábitos, também parece não ter havido mudança significativa. Salvador sempre se destacou por possuir uma imensa população negra, herança do longo tempo de escravatura no país e que servia de mão de obra nas fazendas e casas grandes de toda a Bahia e de Salvador. No entanto, essa herança envergonhava a cidade, já que para a elite local, os negros, com seus hábitos e modos mais se assemelhavam a bárbaros e eram símbolos de uma cidade que não atingira padrões modernos. Era preciso embranquecer Salvador, acabar ou ao menos jogar para fora da cidade os rituais e práticas dessa população

Essa tentativa civilizadora de se acabar com festas, gestos, sons e práticas corporais dos negros não avançou muito, já que de certa forma, estavam internalizados na cidade, na população.

Assim, identificamos que existiu na cidade um sentimento e uma ansiedade por mudanças que fizessem com que nela se instaurasse o novo, numa tentativa de apagar o passado. Em ambas, a perspectiva foi de construção sem preocupações com manutenção ou preservação do patrimônio ou de qualquer outro vestígio que as ligasse ao passado. Fundamental nessa análise sobre Salvador é perceber o quanto a cultura foi um foco das ações modernizadoras, já que é nela que se apoiaram as perspectivas de mudanças do cotidiano da cidade, para além das paredes dos prédios e das vias públicas. Era preciso construir um novo povo, com uma nova cultura. Nesse caso, se acentuava o sentimento de inferioridade do brasileiro em relação ao europeu, ao francês, já que para a elite era lá que existia a cultura real e moderna.

O que se operou realmente foi uma reafirmação da cultura de elite, em detrimento da cultura popular, como uma forma de manipulação e afirmação dos detentores do controle econômico e político, assim, as reformas urbanas advindas da modernidade, são mesmo a configuração de um cenário que melhor representava esse princípio de dominação. Todavia, não podemos entender que esse mecanismo se deu de forma plena, sem uma contra ação dos rejeitados, que mesmo sob as forças do poder central e sofrendo as agruras de seu deslocamento e as violências contra um modo de cultura, souberam agir. Mesmo estando à margem das benesses da modernidade, essa população continuou a existir culturalmente, com seus hábitos e gostos, muita das vezes incorporando e ressignificando as práticas vividas pelas elites, que muita das vezes assumiu para si as práticas populares.

Foi nesse cenário e sob essas condições, que em Salvador, se iniciaram as “aventuras” da população com o esporte, sendo esse um dos elementos dessa que se mostrava como uma nova era, a modernidade.

Num contexto onde essa cidade passava pela experiência da modernidade, tentando conjugar reformas urbanas, mudanças de comportamento, construção de novos hábitos e gestar uma nova relação do homem com a cidade, com o espaço, com o tempo, com o outro e consigo próprio, o esporte surgiu como uma das novas formas de vivência, como uma prática social representativa da modernidade. Pode-se atribuir isso ao fato do esporte incorporar elementos que simbolizavam as aspirações por mudanças, assumindo papéis que caracterizaram modificações nas formas de agir e de circular do homem na sociedade, articulando em sua prática elementos como: maior exposição do corpo, movimento, risco e desafio, fatores que significavam uma busca pelo prazer e por uma excitação inovadora, sendo também uma forma das cidades se apropriarem de mais um elemento da modernidade.

Dessa forma, compreendemos que a instauração de todo um conjunto de mudanças nas cidades, ao mesmo tempo em que proporcionou e motivou as pessoas à prática esportiva, também foi por este influenciado, ou seja, a noção de que pessoas e cidades deveriam ser ativas, trabalhar por melhorias, valer-se dos avanços científicos, acelerando suas percepções e relações, significou que a modernidade e seu ideário foram encampados, seja pelas obras na nova cidade, seja pelo movimento no novo ser humano. Era preciso engajar-se em todas as mudanças, identificando-se com o novo.

Para ser moderno, era necessário superar a imagem de um homem lento, sedentário, assim como a cidade deveria deixar de ser antiquada, colonial.

Para falar da presença dos esportes em terras soteropolitanas, tomaremos como elementos de análise, os esportes que tiveram, por alguma razão, uma menor circulação e um deles, foi o críquete. 

O críquete foi uma prática esportiva que aportou em terras brasileiras trazida por ingleses (em meados do século XIX) e em Salvador, alguns clubes foram fundados para sua prática, que acontecia normalmente no Campo Grande (LEAL, 2002), embora também haja notícias de jogos na Fonte do Boi[1] e Quinta da Barra (GAMA, 1923), no Campo da Pólvora[2] e no Largo da Madragoa[3].

Em Salvador, como em outras cidades, essa prática teve vida curta, ficando basicamente restrita aos ingleses e poucos brasileiros. Clubes foram fundados, mas logo mudaram suas bases de ação, a exemplo do Club de Cricket Victoria, fundado por brasileiros em maio de 1899, que passou a se chamar Sport Club Victoria, assumindo o futebol como uma prática, e ainda o Club Internacional de Cricket, fundado por ingleses em novembro de 1899.

Além do críquete, outros esportes existiram, só que com menor impacto na composição do cenário esportivo de Salvador. Foram eles: a natação, a patinação e o ciclismo, esportes que traziam como experiência maior, justamente, a noção de velocidade, desafio e superação de limites, aspectos importantes na vivência da modernidade.

Esses são exemplos de atividades corporais que tiveram seu início vinculado à ideia de desafio e superação de limites, explorando os espaços livres das cidades, implicando uma nova relação como ambiente e ainda mais, alguns desses faziam uso de implementos e equipamentos, que demarcavam uma nova tecnologia.

Em Salvador, as atividades de natação, até mesmo pela inexistência de piscinas, aconteciam no mar e quase sempre sob a forma de desafios, por vezes de longas distâncias. Via-se que por vezes, a natação aparecia como uma atração de festas, notadamente as do Rio Vermelho. O porto de Salvador, que constou no projeto de Seabra para melhoramentos da cidade, teve entre seus funcionários, um clube chamado de Sport Club Docas[4] que promoveu “festas de natação” para comemorar as datas de inauguração do novo porto de Salvador. Tal fato demonstra a vinculação entre a prática esportiva e a modernidade, visto que um celebrava o outro.

Assim, em Salvador, competições mais estruturadas de natação estiveram a cargo da Federação de Regatas, que as promovia entre seus sócios, mas também com espaço para não associados. A natação passava por uma fase de implantação, uma novidade que era apresentada e, portanto, ainda demoraria a ser assimilada pela população e só tempos depois ganhou mais status e estrutura, avançando acentuadamente após a construção de piscinas.

Sobre a patinação, em Salvador, é possível perceber que entre 1912 e 1916 esta atividade despertou razoável interesse. Nesse período existiram clubes de patinação (Internacional Club de Patinagem, Sport Club Colombo de Ciclo-Patinação) e eventos foram realizados na cidade, basicamente nas ruas do Bairro do Comércio ou em passeios do Centro Histórico ao Rio Vermelho. Esses eventos, na maioria das vezes, assumiam um caráter competitivo, cujos participantes eram distribuídos por páreos (como no turfe), em função das distâncias a serem percorridas. Em Salvador, na maior parte das vezes, esse esporte foi competitivo e organizado em clubes específicos, mesmo que em lugares improvisados, porém, também existiu como divertimento nas festas dos diversos outros clubes, que não apenas os de patinação.

O ciclismo foi uma atividade esportiva conhecida desde fins do século XIX, uma “novidade” que a cidade aprendia a lidar, assim como a própria modernidade. O ciclismo e a bicicleta, mais que tudo, têm em si a essência da velocidade, do risco e da tecnologia. Em Salvador jornais noticiavam “garagens” e aluguel de bicicletas, sempre importadas, o que nos faz entender, que já era então algo conhecido na cidade, mesmo que pouco vivido, já que importadas, não faziam parte do cotidiano da população.

Em terras baianas, o ciclismo pareceu acontecer sob a mesma estrutura dos clubes de patinação. Era fato comum que houvesse atividades simultâneas das duas práticas, desenvolvidas pelos mesmos clubes nos mesmos espaços e, aqui, falamos do período entre 1912 e 1916. As corridas eram desenvolvidas para velocidade, sendo mais comuns no Comércio e no Centro Histórico ou para resistência, com deslocamentos até o Rio Vermelho e também faziam parte das festividades promovidas pelos clubes.

O Jornal de Notícias[5] divulgou o que dizia ser a primeira corrida de bicicletas da Bahia, realizada no bairro do Canela. Nos jornais, eram comuns notas com as provas a serem disputadas, clubes, participantes e premiação, além do local em si. Dias após as provas, eram noticiados os vencedores e seus tempos. Em Salvador não construiu (mesmo na atualidade) um espaço específico para as provas de ciclismo, mas soteropolitanos assumiram a bicicleta, por mais que a cidade, até hoje, por sua geografia e estrutura urbana, dificulte seu uso.

Por fim, podemos afirmar que Salvador viveu experiências com o esporte, associando-o as novas configurações da cidade, a partir de seu projeto de modernidade. O esporte era considerado uma atividade que simbolizava novos tempos, um novo homem para um novo espaço urbano

REFERÊNCIAS

GAMA, Mario. Como os “sports” se iniciaram e progrediram na Bahia. In: Diário oficial do Estado da Bahia, Edição Especial do Centenário. Salvador: [s.n], 1923.

LEAL, Geraldo da Costa. Perfis urbanos da Bahia: os bondes, a demolição da Sé, o futebol e os gallegos. Salvador: Gráfica Santa Helena, 2002.

LEITE, Rinaldo C. N. E a Bahia civiliza-se… ideais de civilização e cenas de anti-civilidade em um contexto de modernização urbana 1912-1916. 1996. Dissertação (mestrado em História). Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, UFBA, Salvador, 1996.

RISÉRIO, Antonio. Uma história da cidade da Bahia. 2ªed. Rio de Janeiro: Versal, 2004.


[1] Localizado no bairro do Rio Vermelho. Jornal Diário da Bahia, 25/01/1902.

[2] Jornal Diário de Notícias, 24/03/1903 e 12/09/1903.

[3] Jornal Diário da Bahia, 11/01/1902. Localizado na Cidade Baixa, na área do bairro da Ribeira.

[4] Jornal Diário de Notícias, 11/05/1915.

[5] Jornal de Notícias, 23/04/1912.


Associação Atlética Vila Isabel: 70 anos de história. Adeus ou até logo?

10/09/2020

por João Azevedo

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“Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos
Do arvoredo e faz a lua
Nascer mais cedo”

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O bairro de Vila Isabel, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, é famoso pela boemia, um ar brejeiro, “sem vela e sem vintém, que nos faz bem”. As calçadas musicais, são uma marca registrada do bairro. Elas foram inauguradas em 1965, nas comemorações do quarto centenário da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. A canção citada acima, é de autoria de um dos maiores compositores da música popular brasileira. Em parceria com Vadico, Noel Rosa compôs o Feitiço de Vila em 1934 e a gravação saiu pela Odeon (11.175A) em outubro daquele ano.[i] Esta música, faz parte das dezenove partituras espalhadas, entre a praça Maracanã e a praça Barão de Drummond. Iniciando com a marcha Cidade Maravilhosa, de André Filho e separando nove canções para cada lado, ao longo do Boulevard 28 de setembro.

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Fonte: Acervo pessoal do autor

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Na imagem acima, observamos o portão de entrada da Associação Atlética Vila Isabel (AAVI). Localizada no Boulevard 28 de setembro, 60. Quis o destino que a única música do poeta da Vila, exposta nas calçadas musicais, ficasse no muro daquele grêmio. O Vilinha, como foi chamado por anos carinhosamente a AAVI, foi por mais de setenta anos, um espaço de encontro importante para o bairro, para a zona norte e também para cidade do Rio de Janeiro. Entretanto, neste momento o clube já foi completamente fechado e seu interior desconfigurado, sendo lhe destruído toda a estrutura.

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Este post não pretende esmiuçar com rigor, toda a trajetória da Associação Atlética Vila Isabel. Mas sim, fazer um pequeno resgate de acontecimentos esportivos e sociais que envolveram seus sócios, praticantes de atividades esportivas do grêmio e frequentadores do local. Deixa também uma contribuição para que no futuro se possa estuda-lo com mais atenção em um artigo, resenha e até mesmo trabalho acadêmico. Infelizmente, não é só a AAVI que passa por essa situação e que poderá ser objeto de análise neste sentido, de clubes que fecharam as portas em nossa cidade.

Curiosamente, na contramão da trajetória destes clubes, está a escola de samba do bairro. O Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos de Vila Isabel, fundado em 4 de abril de 1946, também é outra joia do bairro. A branco e azul de Vila Isabel, levanta a moral e a identidade local, a cada ensaio no Boulevard e a cada vez que entra na Avenida da Sapucaí. A escola que sofreu anos e anos sem quadra, hoje não passa mais por esse problema. Na época em que não tinha um endereço fixo, chegou a ensaiar e fazer eventos na sede do AAVI.

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Fonte: Acervo pessoal do autor

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A Vila Isabel, também já teve seu clube de football, no início do século passado. O Villa Izabel F.C., mandava seus jogos em um campo que ficava dentro do que hoje se chama, recanto do trovador. Na altura, o espaço tinha sido recentemente desocupado pelo Zoológico da cidade. E por muitos anos, moradores e transeuntes, chamavam e por vezes ainda chamam a localidade, de antigo Zoo. O Parque Recanto do Trovador fica no fim da rua Visconde de Santa Isabel com a esquina da rua Barão de Bom Retiro.

O clube dos Raios de sol, como era apelidado o Villa Izabel Football Club, devido ao escudo, foi fundado em 2 de maio de 1912 e figurou entre os clubes mais proeminente da cidade, durante o fim da década de 1910 até meados dos anos de 1930. A partir de então, entrou em declínio, até fechar as portas e desaparecer de vez do cenário esportivo carioca.

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Vida Sportiva, Anno IV, n. 169, 20 de novembro de 1920. p. 1.

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Alguns anos mais tarde, em 1950, reuniam-se cerca de duzentos moradores locais de Vila Isabel, na residência de Nelton Xavier, a fim de comemorar os feitos obtidos pelas forças armadas brasileiras na Itália e em seguida fundar uma associação atlética com o nome do bairro. Este encontro se deu, no dia 8 de maio, o “dia da vitória”. Data que ficou marcada pelos aliados em 1945 no fim da segunda guerra. Entre os presentes, naturalmente haviam muitos militares. E depois de realizada uma breve oração em memória aos soldados que foram aos campos de batalha na Europa, foi declarada a fundação da Associação Atlética Vila Isabel, pelo então presidente de honra da mesma, General Zenóbio da Costa. Posto isto, foi implementada a diretoria que contou com: Presidente, Tenente Coronel Jaime Graça, 1º vice-presidente, o anfitrião Nelton Xavier e 2º vice-presidente, Tenente Coronel Drumond Franklin e para o cargo de secretário, Major Tomé da Silva.[ii]

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Emblemas disponíveis em: Camisas do Futebol Carioca / Auriel de Almeida – 1º ed- Rio de Janeiro: Máquina, 2014. e https://aavilaisabel.blogspot.com/

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O emblema da Associação Atlética Vila Isabel, faz efetivamente alusão ao antigo clube de futebol do bairro. Entretanto, não há nenhuma evidência de relação direta entre diretores ou sócios do Villa Izabell F. C., com os novos fundadores da Associação Atlética. A questão aí, parece mesmo de resgate de memória local.

Logo nos primeiros anos vida da Associação Atlética, o grêmio se destacou em inúmeras atividades esportivas e socias, tais como os concursos de Miss. O clube sediou por várias vezes, concursos de beleza, que recebiam candidatas de variados clubes da cidade. Como no caso do desfile das “Dez mais” dos clubes cariocas.[iii]  O “Miss Luzes da Cidade’’ em 1957.[iv] E outros eventos. Todavia, o ápice veio com os títulos de Miss Distrito Federal e posteriormente Miss Brasil, da sócia da AAVI, Vera Ribeiro. Vera, faturou o prêmio local, no ginásio da Maracanãzinho em junho de 1959.[v] Dias depois da vitória de Vera Ribeiro, o presidente da Associação Atlética da Vila, proclamou “A Vila não quer abafar ninguém, só quer mostrar que tem meninas também”.[vi] Assim, parafraseando o poeta Noel Rosa, na canção Palpite Infeliz.

Depois de conquistar o troféu de Miss Brasil, também no palco do Maracanãzinho, a candidata brasileira ganhou passagem para o concurso de Miss Universo em Long Beach, nos Estados Unidos da América. No evento internacional, Vera Ribeiro, terminou com o quinto lugar.[vii] Depois dela, outras sócias, viriam a triunfar nos desfiles de beleza, como o caso de Jane Macambira, Miss Guanabara de 1972 e Senhorita do Rio em 1970. A obra de Noel Rosa, continuaria presente nas frases que associavam as coisas do bairro. Na reportagem da revista Manchete de 1972, que publica a vitória de Jane, lê-se, o Feitiço da Vila, em referência a beleza da moça. [viii]

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Manchete, n.733, 7 de maio de 1966. p. 239

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O Vilinha, também organizou muitos eventos ligados a prática do vôlei, além de obter equipes que disputavam o campeonato citadino. Serviu a Federação Metropolitana de Vôlei e teve reconhecimento local por isso, como aponta o Jornal dos Sports em 27 de fevereiro de 1953. A matéria publica que na quadra da AAVI, será disputado um quadrangular, sob aprovação do diretor técnico da federação, Ary de Oliveira.[ix] Este torneio, ficou conhecido como “Copa FMV” e permaneceu sendo disputado na quadra da Associação da Vila Isabel. Na imagem abaixo, vamos observar uma fotografia da equipe juvenil da Associação Atlética Vila Isabel de 1953, em disputado do campeonato carioca da categoria.

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Jornal dos Sports, Anno XXIII, n.7.251, 19 de abril de 1953. p. 13.

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A quadra do clube “aviano’’ (outra alcunha da AAVI), também deu lugar a muitas atividades sociais, tais como bailes de carnaval, jantares dançantes com apresentações de cantores e cantoras de rádio, famosos à época, como Ângela Maria, nos anos de 1950.[x] Chegou a receber em 1980 em um festival, o Rei do Baião.  Luiz Gonzaga se apresentou no mesmo dia que, Emílio Santiago, Dicró, Nelson Cavaquinho e outros da música popular brasileira.[xi]

No futebol de salão, o clube conquistou o tricampeonato da Federação Metropolitana de Futebol de Salão em 1965 [xii] , revelou alguns jogadores para o futebol de campo, como no caso de Carlos Pedro do América Football Club, que havia sido campeão juvenil de futebol de salão pela AAVI em 1959.[xiii] Além de consagrar outros esportistas da cidade, como nas disputas de halterofilismo, chegando a ser naquele espaço conquistado o recorde brasileiro na posição horizontal, por Miguel Fustagno. O atleta alcançou a marca de 150 quilos na posição, superando a si mesmo com a anterior marca de 110 quilos.

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Manchete Esportiva, n.145, 30 de agosto de 1958, p. 13.

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Nos últimos anos, o clube vinha passando por inúmeras dificuldades financeiras, baixo numero de sócios e pouca adesão aos eventos esportivos e sociais realizados em sua sede. A história da Associação Atlética Vila Isabel, conta um pouco a história da nossa cidade. As novas formas de lazer, implementadas pelos prédios com estrutura de clube, shopping center, brinquedos eletrônicos etc. Demonstra também, sobretudo, o esvaziamento das elites locais, do poder de compra dos moradores de zonas mais afastadas da praia e do centro da cidade. Hoje, associar-se a um clube, é uma prática que poucos podem e se importam em fazer. Assim vão se fechando inúmeros clubes da zona norte carioca e de outras regiões menos abastadas. Fica a memória de quem viveu e a reflexão do que está por vir. Será que voltaremos a sentir a necessidade de associativismo local, ou o divertimento será só privilégio de algumas zonas da cidade?

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[i] Omar Jubran, Noel Pela Primeira Vez, 2000.

[ii] Diario de Noticias, Anno XX, n.8460, 23 de maio de 1950. p. 2.

[iii] O Cruzeiro, Ano XXXIII, n.13, 7 de janeiro de 1961. p. 18.

[iv] Manchete, n. 281, 7 de setembro de 1957. p. 18.

[v] Manchete, n. 375, 27 de junho de 1959. p. 8.

[vi] Manchete, n. 377, 11 de julho de 1959. p. 9.

[vii] Manchete, n. 733, 7 de maio de 1966. p. 241.

[viii] Manchete, n. 1.054, 1 de julho de 1972. p. 5.

[ix] Jornal dos Sports, Ano XXIII, n.7.208, 27 de fevereiro de 1953. p. 8.

[x] Revista do Rádio, n.516. p. 44.

[xi] O Pasquim, Ano XII, n.598, 12 a 18 de dezembro de 1980. p. 28.

[xii] Revista do Esporte, n. 368. p. 19.

[xiii] Revista do Esporte, n.239. p. 18.


LITERATURA POLICIAL E FUTEBOL: JOGANDO SEM DEFESA

06/09/2020

Por Edônio Alves

Já tratamos, nesse BLOG, da literatura de ficção científica em que o esporte bretão serve como elemento temático a aguçar a inventividade de quem escreve e a imaginação de quem lê. Faremos o mesmo, agora, com a chamada literatura policial, vertente em que o futebol também se insere como tema profícuo e instigador, na medida em que abrange um âmbito que se presta ser repositório do conluio de malfeitores e corruptos de todos os tipos.

A literatura não poderia ficar infensa a esse lado digamos, marginal, do futebol e é isso que veremos na análise a seguir, que fiz dessa boa estória curta que traz o universo noir do jogo de bola aos pés para dentro das malhas das letras. Tenham uma boa leitura!

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luis humberto

                      Foto: Luis Humberto

Sem defesa – conto de Luiz Galdino

Essa é uma estória com estrutura de conto policial e texto enigmático em que um goleiro veterano e negro tem um filho metido no submundo dos vícios e de repente se vê na iminência de perdê-lo por causa de um “justiçamento” ordenado, ao que parece, pelo escalão superior de certa máfia controladora de negócios escusos. Clima de suspense e mistério, conseguido por uma narrativa seca, direta, sem rodeios (como a figurar o campo discursivo nada dialético do universo mafioso) prepondera neste conto sugestivo que coloca o futebol como mais um dos vários tentáculos por onde se espalha a atuação à margem da lei de grupos poderosos que sobrevivem de atividades ilícitas.

O cerne da narrativa, escrita em grande parte em tom indiciário, incide sobre a figura de Diomar, cuja situação difícil na trama já se prefigura na sua caracterização tipológica como personagem: ele é descrito como goleiro, negro e velho, embora em tempos passados tenha conseguido fama por ter jogado na Seleção. Tais circunstâncias o antagonizam de cara com um novo jogador do seu time, o zagueiro Nena, que, nas palavras do narrador onisciente e funcionalmente neutro na história, para emprestar certo distanciamento e deslocamento espacial dos acontecimentos, “viera do Paraná contratado há cerca de dois, três meses, e realizara algumas poucas partidas como titular”.

Como esse antagonismo é primordial para o desenvolvimento e desfecho do enredo do conto, mostremo-lo na sua funcionalidade diegética:

Diomar limitou-se a uma mirada rápida na direção do novato, enquanto tirava as luvas. Como alguém que mal se iniciava na profissão podia se lamentar tanto? Nem ao menos tratava bem a bola. Batia em cima, quebrava embaixo, cometia penalidades infantis; um terror pra qualquer goleiro. No entanto, ele que havia chegado à seleção, nada tinha de seu, enquanto o garotão possuía carro zero e um apartamento no litoral catarinense. Quando lhe roubaram o carro, chorou como uma criança. Só parou quando o clube adiantou dinheiro para o carro novinho em folha”. Continue lendo »