ELEVAR O SPORT SUBURBANO: O FUTEBOL NOS ARRABALDES DE CAMPO GRANDE – RIO DE JANEIRO

19/04/2021

Por Nei Santos Junior

As experiências com o futebol nos vários cantos arrabaldinos não foram poucas. Nos primeiros anos do século XX, os bairros de Bangu, Santa Cruz, Campo Grande e Realengo já contavam com um número expressivo de associações esportivas ligadas ao futebol, ciclismo, boxe, cricket entre outras.

No caso de Campo Grande, a fundação do Campo Grande Athletic Club nos chama atenção. Inicialmente, por ser uma região que transitava entre ações tipicamente rurais e outras de caráter urbano. Num segundo momento, porque, talvez, a própria criação de um clube de futebol permita elucidar essa inter-relação complexa, que há algum tempo emerge em nossas reflexões e que muito nos inquieta, mas que em nenhum momento possa ser compreendida como dicotômica.

Fundado em 16 de maio de 1908, com sede na rua Augusto Vasconcellos, n.62, o então Campo Grande Football Club foi um dos principais clubes da zona suburbana. No bairro, não era o único dedicado ao futebol. Entre outros, havia o Sportivo Campo Grande, Monteiro Football Club, Sport Club Juary e, posteriormente, o Clube dos Alliados. Todavia, acreditamos que nenhuma outra agremiação local tenha alcançado o mesmo destaque, já que o clube esteve nos grounds das ligas mais importantes da cidade.

Na década de 1910, o Campo Grande filiou-se à Liga Suburbana de Football (LIGA, p.7, 1917; UM GRANDE, p.4, 1917). No tempo em que esteve associado, fez-se presente entre os principais clubes da 1° divisão, juntamente com Royal Football Club, Modesto F. Club, Cascadura e o Engenho de Dentro A. Club.

No mesmo período, o clube também participou de vários festivais esportivos, alguns em homenagem aos jornais dedicados à cobertura do futebol e, em outros momentos, festejos que mobilizavam um enfrentamento local. Um exemplo que congrega esses dois pontos, foi o torneio Interclubes Suburbano, dedicado ao jornal A Epoca, que reuniu clubes da Liga Suburbana e Liga Metropolitana, sendo disputado no campo do Cascadura Football Club (UM GRANDE, p.4, 1917).

Em 1920, o Campo Grande passou por uma reconfiguração.  Influenciado por uma maior valorização dos resultados, a agremiação uniu suas forças ao Paladino Football Club, que antes jogava em Piedade. Com a fusão, além da mudança de nome, sendo agora chamado de Campo Grande Athletic Club, ele também migraria para a Liga Metropolitana de Desportos. Ainda que disputasse, inicialmente, a 3°divisão, pode-se supor que tal filiação seja reflexo de um conjunto de interesses, desejos e aspirações da agremiação nos meios futebolísticos cariocas.

Ainda em 1920, a equipe, agora composta por nomes que faziam parte do Paladino, entrou forte para a disputa da 3° divisão. Com ótimos resultados, fez a final com o Bonsucesso Football Club, alcançando, em seu primeiro ano na Liga Metropolitana, o acesso a 2° divisão. No entanto, dias depois da conquista, a morte do então presidente Firmino Gameleira causou certa instabilidade política no clube (FALLECEU, p.8, 1920). Os jornais lamentaram o falecimento do “conhecido e antigo sportman”, considerado uma figura importante do esporte local. Funcionário da prefeitura, o Sr. Firmino também foi um dos fundadores do clube, sendo, aliás, importantíssimo para a aquisição da sede em Campo Grande.

Com essa nova fase, o Campo Grande Athletic Club passou por algumas instabilidades internas. Curiosamente, no primeiro dia do ano de 1921, após a posse da nova diretoria, outra agremiação fora fundada: o Sportivo Campo Grande, com muitos integrantes que figuravam entre os associados do clube atlético. Segundo o Jornal do Brasil:

a novel sociedade recentemente fundada em Campo Grande por um grupo de abnegados e fervorosos admiradores do football, conta já com grande número de adeptos e dispões de todos os elementos necessários a um rápido progresso (SPORTIVO, p.10, 1921).

Mesmo com a presença do Sportivo Campo Grande, o protagonismo local continuou sob as ordens do Campo Grande Athletic Club. Isso porque, a nova agremiação focou, inicialmente, em ações intermediárias, optando por não disputar as competições promovidas pelas principais Ligas da época.  Até meados da década de 1930, é possível identificar ações isoladas, entre amistosos e festivais suburbanos. Tal prática, fora até mesmo cobrado por alguns jornais esportivos da época, sob a justificativa que o Sportivo de Campo Grande teria, “com esforço e boa vontade”, condições de “ser um sério rival do Bangu” (O CAMPO GRANDE, p.4, 1935).

De toda forma, as atividades esportivas seguiam em ritmo acelerado no bairro. Em 1926, o Campo Grande Athletic Club realizou um grande festival esportivo em comemoração ao seu 18° aniversário. Alguns clubes da região foram convidados, entre eles, o Modesto, Fidalgo, Engenho de Dentro, Vasco da Gama e Bangu. A festa, sem a presença do coirmão Sportivo, também seria para inaugurar a sua nova e elogiada arquibancada, considerada um símbolo do progresso da população campograndense (O PRÓXIMO, p.11, 1926).  

Contudo, os anos seguintes foram marcados por uma intensa movimentação política. Em 1927, novas eleições foram convocadas, mas o quadro de diretores permaneceu praticamente o mesmo. Na tentativa de atrair um maior número de sócio, o clube resolveu suspender a joia de admissão, além de facilidades no acesso aos jogos de futebol (CAMPO GRANDE, p.10, 1927).

Ainda assim, o clube permanecia distante da trajetória de bons resultados – na disputa da 2° divisão e no péssimo desempenho na excursão por São Paulo. Curiosamente, nesse período, o clube entra numa espécie de declínio. Um ofício enviado a Liga Metropolitana, publicado pelo Jornal do Brasil, no final de 1929, mostra alguns itens interessantes. No texto, o presidente convoca uma assembleia geral extraordinária, pedindo o comparecimento dos associados, pois nela será tratada a “reorganização do club, o qual acha-se em condições esportivas, administrativas e sociais bastante melindrosas, reportando-se a assembleia em sua organização ou dissolução” (LIGA, p.15, 1929).

Campo Grande Atlético Clube – fundado em 1940

Não sabemos ao certo os desdobramentos da reunião, mas fica claro que após a sua realização as notícias sobre a agremiação tornaram-se escassas. O fato é que, depois de 1930, não encontramos nos jornais mais notícias sobre o Campo Grande Athletic Club. Acreditamos que ainda tenha ficado algum tempo realizando atividades locais, até encerrarem de vez suas ações. Sabe-se, no então, que alguns dos seus principais sócios migraram para outras sociedades esportivas. Alguns ajudaram a desenvolver o Alliados de Campo Grande, outros, juntamente com sócios remanescentes do Sportivo Campo Grande, fundaram, em junho de 1940, o Campo Grande Atlético Clube. Agremiação na qual encontra-se em funcionamento até os dias de hoje.  


Em memória de Moniz Pereira e a memória nos museus de clube

12/04/2021

O ano de 2021 marco o centenário de nascimento de Mário Moniz Pereira. Em Portugal, ele é conhecido como Sr. Atletismo pela sua vida de dedicação à esta modalidade, embora também pudesse ser chamado de Sr. Ecletismo já que desempenhou muitas funções no mundo do exporte: foi atleta e treinador de outras modalidades, tais como, Voleibol, Ginástica, Atletismo ou Tênis de Mesa, preparador físico da equipa de Futebol do Sporting, bem como dirigente desportivo do mesmo clube.

Moniz Pereira é uma figura central na história do exporte português. A sua disciplina, as suas ambições, o método de treino, as vitórias alcançadas e os recordes batidos pelos seus atletas, fazem dele um exemplo de perseverança, de garra e sucesso em vários dos seus campos de ação. Além de seu legado educacional e imaterial, um de seus maiores sucessos foi como treinador de Carlos Lopes, vencedor da maratona nos Jogos Olímpicos de 1984, a primeira medalha de ouro portuguesa nas história das olimpíadas.

Carlos Lopes, vencedor da Maratona nos JO 1984

Após falecer aos 95 anos, foram criadas duas exposições e várias atividades em parceria com outras instituições, como é o caso do Museu Nacional do Desporto, Museu Sporting, Centro Desportivo Nacional do Jamor, Comitê Olímpico de Portugal, Museu do Fado, Faculdade de Motricidade Humana e Federação Portuguesa de Atletismo. O leque de instituições mostra o tamanho de Moniz Pereira e a sua importância para Portugal. Na altura de sua morte, Moniz Pereira era o sócio nº2 do Sporting Clube de Portugal, isto é, era o segundo sócio mais antigo do clube, com 93 anos de ligação ao clube.

Cada instituição ficou responsável de assegurar a sua parte expositiva. O Museu Nacional do Desporto reconstituiu a sala de trabalho de casa do professor Moniz Pereira, o Museu do Fado ficou encarregue de uma mesa-redonda que aborda a veia fadista, compositor, e letrista de Moniz Pereira. O Museu Sporting representou o percurso enquanto sportinguista, atleta, treinador e dirigente.

O Centro de Memórias do museu do Sporting teve um papel fundamental na montagem da exposição, através da recolha de testemunhos de algumas das pessoas que tiveram contato com Moniz Pereira, não apenas a nível esportivo, mas também a nível pessoal e familiar. Depois de definido o formato geral da exposição, ficou decidido que 6 testemunhos de maior relevo recolhidos pelo Centro de Memórias seriam dispostos em 6 televisores. Cada atleta teve “o seu espaço” para falar sobre o professor Moniz Pereira, com direito a uma televisão para se expressar e também com um objeto que remetia ao relacionamento. Os testemunhos escolhidos foram o de Armando Aldegalega, Carlos Lopes, Cristina Coelho, Domingos Castro, Fernando Mamede e Leonor Moniz Pereira.

Os testemunhos criam um ambiente intimista para a exposição, sentida na primeira, pessoa por aqueles que fazem parte desta, e por todos os visitantes. Esta abordagem escolhida pelo Museu do Sporting está assente numa museologia dos “afetos”, tal como Mário Chagas caracteriza a sociomuseologia. Uma museologia com enfoque nas comunidades, que não se preocupa em exclusivo com a preservação de objetos museológicos, mas principalmente com a dignidade humana, reforçando que a cidadania pode e deve ser trabalhada dentro dos museus. Para isso, Mário Chagas acredita que é preciso ter uma museologia onde a sociedade participa em conjunto do processo e não onde o museu conta linearmente algo à sociedade.

Isabel Victor, diretora do Museu do Sporting, refere que a principal função do museu é interagir e servir para nos pôr a pensar, para nos levantar inquietações e questionamentos. Se o museu não cumpre essa função fundamental, então esse museu não serve para a vida, é apenas algo decorativo e formatado.

Essa experiência do Museu do Sporting mostra que ao contrário do que se possa pensar, os museus de clubes podem ser mais do que meras salas de troféus. Tal como o Museu do Futebol em São Paulo parece ser um grande exemplo, existe um cuidado museológico e social que visam garantir boas acessibilidades para pessoas com deficiência, preocupação de inclusão social, preocupação de interação entre os seus próprios serviços – serviço educativo, Centro de Documentação, Centro de Memórias, conservação e restauro, serviço de exposição, inventário e divulgação.

Isto prova que estes museus estão atentos às necessidades não só do clube, mas também da sociedade e podem não só, ser um reflexo do seu símbolo ou da sua causa, mas também das suas gentes e do local em que se inserem. A compreensão do que um museu pode contribuir para um clube pode representar uma importante aposta destas instituições. Num campo, como o exporte, tão cheio de valores sociais, afetivos e onde a identidade dos clubes é algo essencial, uma organização museológica afetiva que tenha em conta os aspectos sociais e identitários é fundamental.

Referência

Este texto teve por base as minhas experiências pessoais e de trabalho com o Museu do Sporting, mas foi fundamental a consulta do Relatório de Estágio do Mestrado em Antropologia – Culturas Visuais do David Felgueira. Neste relatório, o David conta a sua experiência no Centro de Memórias do Museu Sporting Clube de Portugal, focando-se na construção da exposição temporária “A sorte dá muito trabalho sobre o professor Mário Moniz Pereira”. O relatório de estágio está disponível na base de dados da Universidade Nova de Lisboa. As fotos que ilustram esse post foram retiradas do trabalho mencionado.


A surf music dos anos 1960 e a exaltação da Califórnia (1)

05/04/2021

Por Rafael Fortes (rafael.soares@unirio.br)

Nas pesquisas sobre história da mídia esportiva que venho desenvolvendo utilizando revistas de surfe estrangeiras e brasileiras publicadas ao longo das décadas de 1970 e 1980, assim como em outras fontes com as quais tive contato, há recorrentes referências à expressão surf music.

No livro Surfing About Music, o antropólogo Timothy Cooley se refere a surf music no sentido que a expressão ganhou e mantém nos EUA: abrange músicas da primeira metade dos anos 1960, tanto de rock instrumental (a la Dick Dale & His Del-Tones, cuja música Misirlou ganhou renovada popularidade na década de 1990 com o filme Pulp Fiction – Tempo de Violência, de Quentin Tarantino) como cantadas (a la The Beach Boys e Jan and Dean). Esse uso também aparece na obra de outros autores. E, por exemplo, compõe a seleção musical de um “canal” chamado Surf Sounds numa plataforma de música online gratuita que uso, Accuradio. Nos anos 1960, houve iniciativas no Brasil relativas a esta vertente, conforme discorreu Victor Melo aqui neste blogue sobre   o caso de Carlos Imperial.

No Brasil, surf music pode se referir a mais do que isto. Lembro-me de ter gravado em fita cassete, na primeira metade dos anos 1990 – por volta de 1992 ou 1993 –, um “especial de surf music” que foi ao ar numa tarde ou noite de domingo numa ótima rádio que existia à época, a Universidade FM, nos 107,9 MHz. O programa era composto por músicas de bandas como Midnight Oil, Hoodoo Gurus, Australian Crawl e V Spy V Spy, entre outras. Havia uma predominância de bandas australianas – as quatro que citei eram de lá. (Já escrevi sobre o hábito de gravar fitas K7 e sobre essa noção de surf music, rádio e segmentos da juventude). Devo ter ouvido aquela fita centenas de vezes ao longo dos anos.

Golden State, Golden Youth – The California Image in Popular Culture, 1955-1966. Livro de Kirse Granat May publicado em 2002. Imagem da capa extraída do site da editora da obra.

De acordo com o argumento de Kirse Granat May (2002), entre 1955 e 1966 construiu-se na cultura popular dos EUA um imaginário potente e positivo sobre a Califórnia. O estado e seu modo de vida – ou melhor, a representação midiática estereotipada de um estilo de vida da juventude branca de classe média que vivia na faixa litorânea – tornaram-se referência para famílias em todo o país. A expansão da corporação Disney (incluindo a inauguração e o estrondoso sucesso do parque de diversões Disneylândia, em 1955, em Anaheim, no sul do estado), a ascensão do ex-ator hollywoodiano Ronald Reagan a liderança política importante (tomando posse como governador em 1967; posteriormente, foi eleito duas vezes presidente do país em 1980 e 1984) e a disseminação do surfe e de um estilo de vida associado a ele são três entre os muitos elementos deste processo abordados no livro (imagem da capa acima).

Até ler a obra de May, eu ignorava que um dos principais motivos para o sucesso da surf music foi o fato de ser feita na Califórnia, por artistas californianos (ou que para lá se mudaram) e tematizar o estado e seus habitantes. Apesar de conhecer as íntimas ligações da surf music com a Califórnia, não sabia que sua ascensão integrou de um contexto amplo em que muitos outros elementos associados àquele estado fizeram sucesso e tornaram-se moda nos EUA.

A maioria dos surfistas considerava tais representações na música e no cinema estereotipadas, erradas e irrepresentativas da cultura do surfe. Muitos ficaram enfurecidos com elas e, pior, com os efeitos sociais delas: levas e levas de novos turistas, banhistas e surfistas iniciantes que enchiam as praias californianas a cada verão e, em menor escala, nos períodos de recesso escolar, férias e feriados prolongados. Contudo, conforme acontece na maioria dos casos, quando observamos mais de perto o fenômeno, percebemos muitos tons de cinza, e não apenas preto e branco.

Tomemos, por exemplo, um filme como Quanto mais músculos, melhor (Muscle Beach Party, de 1964), parte da onda de filmes de festa na praia produzidos pela companhia cinematográfica AIP (American International Pictures) e malhados como Judas por boa parte dos surfistas e pelas próprias revistas de surfe. A película conta com participação, em várias cenas e sequências, de Dick Dale & His Del-Tones. Ou seja, aquele que ficou conhecido como “pai da surf music” e era venerado por muitos surfistas aparece num filme considerado negativo e estereotipado. (Curiosidade: há também a participação de um jovem cantor chamado Stevie Little Wonder.)

Da mesma forma, um dos que atuam como dublês nas cenas de surfe é Mickey Dora, um dos surfistas mais famosos da Califórnia naquela década. Até aí, nada demais. Ocorre que Dora era um crítico ferrenho da comercialização do esporte e nutria grande raiva pelo aumento do número de pessoas com pranchas na praia que considerava seu quintal, Malibu. Frequentemente lidava com o problema derrubando os surfistas de suas pranchas ou batendo neles. Esta a contradição entre tais atitudes e o trabalho como figurante e/ou dublê em cenas de praia e surfe em filmes comerciais é apontada no verbete sobre Dora na Enclopédia do Surfe de Matt Warshaw.

[Continua…]

Para saber mais

COOLEY, Timothy J. Surfing About Music. Berkeley: University of California Press, 2014.

LADERMAN, Scott. Empire In Waves: A Political History of Surfing. Berkeley: University of California Press, 2014. (Especialmente o capítulo 2)

MAY, Kirse Granat. Golden State, Golden Youth: The California Image in Popular Culture, 1955-1966. Chapel Hill, London: The University of North Carolina Press, 2002.


Chamada 31 Simpósio Nacional de História

01/04/2021

Olá todas e todos
Com alegria informamos que neste ano, mais uma vez, teremos no 31º Encontro Nacional de História, o Simpósio de História do Esporte e das Práticas Corporais (Simpósio 69). Este Simpósio existe continuamente desde 2003 e se caracterizou como um espaço de encontro de pesquisadoras(es) e interessadas(os) no tema, um momento de divulgar, debater e estabelecer redes neste campo de pesquisa, contando sempre com a presença em massa de grandes produções, num ambiente agradável a todas as pessoas. Neste ano, por conta das condições sanitárias vividas, o evento será todo on-line e acontecerá entre 19 e 23 de julho. O simpósio acontecerá nos dias 20, 21, 22 e 23, sempre entre 14h e 18h.

Coordenadores
Coriolano P. da Rocha Junior (UFBA)
André Alexandre Guimarães Couto (CEFET/RJ)

Para o envio de trabalhos ao Simpósio, as condições são estas:

– Exige-se titulação mínima de Graduação.

– Cada inscrito poderá apresentar apenas 1 trabalho em apenas 1 Simpósio Temático.

– O inscrito deverá escolher 5 Simpósios Temáticos, na ordem de sua preferência. Caso não seja aceito no primeiro, a comunicação será submetida à avaliação da opção seguinte e assim por diante.

– Além do resumo expandido (mínimo de 2200 caracteres e máximo de 2.800 com espaço), é importante, mas não obrigatório, enviar o texto completo no ato de inscrição. Isso auxiliará a avaliação do(s) coordenador(es).

– Uma versão revisada do texto completo poderá ser enviada entre os dias 26 de julho a 09 de agosto de 2021.

– Na inscrição, não utilize caixa alta no texto do resumo, apenas na autoria.

– Os apresentadores de trabalho associados da ANPUH deverão estar em dia com a anuidade de 2021.

– O valor da inscrição em ST para associado é de R$60,00.

– O valor da inscrição em ST para não-associado é de R$270,00.

– O valor da inscrição em ST para não-associado professor/a de ensino fundamental e médio é de R$180,00.(necessário comprovante de atuação como professor/a de ensino fundamental e médio)

– O valor da inscrição em ST para não-associado aluno/a de pós-graduação é de R$180,00. (necessário comprovante de atuação como aluno/a de pós-graduação)

– No caso de serem 2 autores (coautoria), cada um deve fazer a inscrição individualmente no sistema. O procedimento é necessário para o sistema gerar duas formas independentes de acesso à Área do Inscrito no site.

– Um Código do Trabalho será gerado ao primeiro autor que realizar a inscrição. Para que isso ocorra, no campo Tipo de Submissão, este primeiro autor deve escolher a opção Coautoria – primeira inscrição do trabalho – e seguir normalmente com sua inscrição. Ao final do processo, um Código do Trabalho será gerado. O segundo autor basta escolher a opção Coautoria – trabalho já inscrito – e informar o Código do Trabalho gerado ao primeiro.

Informações para a elaboração dos resumos:

Título do resumo em CAIXA ALTA e em negrito; fonte Times New Roman, tamanho 12; com nome do autor alinhado à direita e as seguintes informações abaixo: titulação, instituição e e-mail do autor.

Texto do resumo: fonte Times New Roman, tamanho 12, espaçamento simples; máximo de 15 linhas e 3 palavras-chave.


Instruções para a submissão dos trabalhos completos (não obrigatório):

– Os arquivos devem ser em formato .doc (“documento de Word”) e enviados exclusivamente por meio da Área de Inscrito, aqui no site do SNH.

– É possível enviar uma primeira versão do trabalho completo no ato de inscrição e uma versão definitiva para publicação nos anais entre os dias 26 de julho a 09 de agosto de 2021.

Instruções sobre a forma do texto completo:

1. Formato: A4;

2. Fonte: Times New Roman;

3. Tamanho: 12;

4. Espaçamento: 1,5;

5. Número máximo de 15 laudas e mínimo de 10 laudas, incluindo as referências;

6. Margens: superior e inferior 2,5; esquerda e direita 3,0;

7. Alinhamento: justificado;

8. Título em maiúsculo, centralizado e em negrito;

9. Nome do(s) autor(es) alinhado à direita depois de uma linha de espaço do título;

10. Vinculação institucional, logo abaixo do(s) nome(s) do(s) autor(es), também alinhado à direita;

11. Endereço eletrônico logo abaixo da vinculação institucional;

12. Citações com até 3 (três) linhas deverão vir no corpo do texto, sem itálico, com chamada autor-data entre parênteses. As citações com mais de 3 (três) linhas devem vir fora do corpo do texto, tamanho 10, com recuo de 4 cm;

13. Caso o trabalho contenha imagens, estas deverão estar em 300 dpi no formato TIF ou JPEG e colocadas no próprio texto.

14. As indicações bibliográficas no corpo do texto, colocadas entre parênteses, deverão se resumir ao último sobrenome do autor, à data de publicação da obra e à página, quando necessário (BURKE, 2005, p. 20). Se o nome do autor estiver citado no corpo do texto, indicam-se, entre parênteses, apenas a data e a página. Notas de rodapé, apenas em caráter de explicação;

15. As referências bibliográficas finais devem seguir as recomendações da ABNT.


Pelé (David Tryhorn e Bem Nicholas, 2021): novo filme revisita temas polêmicos

30/03/2021

Entrevistador (em off)   – O que você sabia (…) na época?

Pelé   – Se eu dissesse que eu não sabia (…) eu estaria mentindo. Muitas coisas a gente ficava sabendo. Muitas coisas nós não tínhamos certeza (…).

Entrevistador  – Qual foi a sua relação com os governos?

Pelé – Eu sempre tive as portas abertas, todo mundo sabe disso. Até na época que era muito ruim.

(…)

Paulo Cézar Lima  – Eu amo o Pelé! Mas não posso deixar de criticá-lo. Eu achava que ele tinha um comportamento do negro sim senhor, submisso (…) que não contesta, que não critica (…) eu mantenho até hoje.

Neste triste feriadão pandêmico, venho tecer algumas poucas considerações sobre a mais nova película sobre Pelé. A obra, lançada há pouco mais de um mês pela Netflix, é uma grata contribuição ao conjunto de produções cinematográficas já realizadas sobre o atleta do século (para uma lista do nada desprezível rol de filmes com ou sobre Pelé, ver referência citada no meu último post: O Rei Pelé – Carlos Hugo Christensen, 1962:cinema, futebol e racismo: https://historiadoesporte.wordpress.com/2020/11/17/o-rei-pele-carlos-hugo-christensen-1962-cinema-futebol-e-racismo/).

O documentário é de responsabilidade dos cineastas David Tryhorn e Bem Nicholas. Ambos apresentam uma filmografia bastante reduzida, mas com uma pegada no tema do esporte. Dirigiram ou produziram fitas sobre ídolos do atletismo e do tênis (Ver perfis e obras em: https://www.imdb.com/name/nm8510460/?ref_=tt_ov_dr). Com seu último trabalho, Pelé (2021), abriram uma nova vereda em uma tradição da narrativa fílmica sobre o “Rei do futebol”.

A crítica vem demarcando, de modo quase consensual, o diferencial mais evidente da abordagem dos diretores britânicos, a saber, o enfrentamento (mesmo que deliberadamente contido e balanceado) de delicadas questões extra-campo na biografia de Pelé. Fundamentalmente no que se refere aos posicionamentos (ou falta de) do futebolista frente ao Regime Militar e seus máximos dirigentes. Conforme Diogo Magri sumariza, a “produção (…) fez o jogador falar, pela primeira vez de forma tão longa sobre ditadura, tortura e o uso do futebol  – e dele próprio –  como propaganda do regime militar” (Pelé encara seus dilemas com a ditadura na Netflix: https://brasil.elpais.com/esportes/2021-02-23/pele-encara-seus-dilemas-com-a-ditadura-na-netflix.html).

Esse é o tema-base. Mas a película não se resume a isso. Tem muito futebol, Copa do Mundo, disputas em torno da empreitada de 1970. Sobre as sempre acionadas discussões a respeito da Copa do México e a troca de comando às vésperas da competição (substituição de João Saldanha por Mário Zagalo), também são acrescidas imagens e colocações variadas. João Saldanha é retratado, ao meu ver de modo tendencioso, como um opositor do futebol “brasileiro”. Brito, Rivelino, Juca Kfouri, e até Delfim Netto são chamados à fala (a pronunciarem-se sobre suas memórias e avaliações sobre 1970). Este último senhor, aliás, além de assumir seu papel na assinatura do AI-5 (nenhuma novidade) chama a atenção por sua sinceridade, desprovida de qualquer prurido. Perguntado se estava ciente do uso do Ato Institucional como instrumento para a tortura, a resposta é imediata: “seguramente que sim”. Sobre o acompanhamento da Copa de 70 por Emílio Médici, acrescenta:

– Aquilo se transformou, para o presidente, pessoa física, uma coisa importante.

Entrevistador: Por quê?

– Porque se o povo fica contente, o governo fica contente [rindo].

A discussão segue por vários caminhos e personagens. Esta é uma pequena amostra. Reforço que o eixo narrativo está montado numa tentativa (interessante) de cruzar o homem, o jogador excepcional e sua lida com os muitos percalços de um país. Em uma narrativa centrada principalmente no intervalo entre 1958 e 1974, temos que dez desses anos estão indelevelmente atravessados pelo Regime Ditatorial. (Re)colocar Pelé no meio desse redemoinho é do que se trata. Para tanto são convocados depoimentos de época e contemporâneos (com alguma diversidade de posicionamentos). Mostra-se o relacionamento amistoso do Rei (digamos assim) para com as autoridades e chama-se o próprio, para uma conversa/balanço.  

O comentarista PC Vasconcelos sintetizou bem a dialética da fita. Uma discussão (inevitável, mas por muitas vezes malabaristicamente driblada) entre o dentro e o fora de campo (o famoso dentro das 4 linhas e o offside, em uma provavelmente cansada metáfora boleira). A fala de Vasconcelos vem em off, após as imagens que mostram a recepção a Pelé, no Palácio da Alvorada, confraternizando com Garrastazu Médici. O futebolista havia sido convidado para uma recepção pública, três dias após a marcação de seu milésimo gol. PC comenta:

Para muita gente vai se olhar menos para o que fez dentro do campo e mais para o que fez fora. E fora é caracterizado por uma ausência de posicionamento político. Nesse momento da história isso vai pesar muito contra ele.

Neste ponto ficarei por aqui. Para os arrazoados contextualizadores (alguns contemporizadores), prós e contras, remeto ao próprio documentário. Eu recomendo. Particularmente, eu sempre achei que se deve dar a Cezar o que é de Cézar. Pelé é eterno pelo que fez como jogador, como virtuose da bola (com todas as relevantes e profundas implicações advindas da assunção de um negro pobre, nas décadas de 50 a 70, num país pouco desenvolvido e racista como o Brasil). Não obstante, não se pode viver da glória, do reconhecimento e da imagem pública, sem uma cobrança pública. O que os grandes ídolos fazem têm repercussão para além de seus campos específicos de atuação. Ônus e bônus de cada atitude serão, necessaria e independentemente da vontade de cada um, postos na balança pública. O filme de Tryhorn e Bem Nicholas ajuda nesse sentido. E o faz de modo suave e razoavelmente equilibrado.

Mais duas ou três coisas rápidas. Alguns destaques que omiti e uma palavra sobre a construção fílmica.

Há duas cenas que não gostaria de deixar passar, mesmo que ligeiramente. A primeira é por puro deleite. Por volta do minuto 26, Pelé participa de um almoço, em uma casa em Santos, com a velha turma do famoso escrete. Dorval, Pepe, Edu e companhia. É como um churrasco de velhos e bons amigos, que dividiram a juventude e as aventuras de uma parte da vida que não volta mais. Quem já jogou bola, participou de torneios de rua, quadra, colégio, faculdade (que pareciam… e eram assumidos como a coisa mais importante do mundo) certamente vai se reconhecer nas brincadeiras, nas troças, nas histórias de décadas passadas, contadas com a vivacidade de uma memória afetiva. A diferença é que aqueles octagenários fizeram parte de um dos maiores times da história, duas vezes campeão da Libertadores e do mundo e tiveram como líder a quem carinhosamente chamam de “negão”, o maior jogador de todos os tempos (se isso não estava claro até agora, essa é a minha opinião). Entre uma e outra provocação, Pelé não é poupado. Basta ele começar a cantarolar uma música de sua autoria para ouvir prontamente:

– Em questão de cantar, ele tá melhorando!! [aí a gargalhada se torna irrefreável, inclusive para a assistência].

Pelé reconhece a riqueza do momento.

– Vocês são demais! Olha o sol que vocês trouxeram. Um dia maravilhoso! [uma sequência maravilhosa!].

Um segundo e último núcleo de observações se refere à forma como a história é contada filmicamente. Trata-se de um documentário bem tradicional, mas destacaria a qualidade de algumas das imagens de época e o recurso à montagem paralela que, já nas primeiras cenas, estabelece a proposição narrativa (com a alternação de planos do indivíduo, do jogador em atividade e de imagens de época, com ênfase em cenas da repressão ditatorial).

Somos, portanto, apresentados à película a partir de um contraponto entre o homem/indivíduo, um senhor de 80 anos, que chega de andador, devagar e o atleta magnífico, a personalidade pública e o jovem jogador, cuja história de uma conquista do mundo vai passar a ser contada. É como um convite a um balanço/retrospectiva (o título seco, “Pelé”, parece se coadunar com esses primeiros planos que preparam o desenrolar da trajetória a ser apresentada).

Uma cena inicial chama (muito) a atenção. Pelé surge dirigindo-se ao centro de uma ampla sala vazia, ocupada apenas por uma cadeira. Ao acomodar-se, com certa dificuldade, desvencilha-se do andador, com um empurrão ainda enérgico. É um estorvo que não condiz com o que nos vai ser mostrado. Deve ir para fora do enquadramento (para fora do campo de visão). Tal como ao final da Copa de 70 (e conforme depoimento de Rivelino, nessa película), parece que podemos ouvir um berro:

-Eu não morri! Eu não morri! Eu não morri! [assim mesmo, três vezes, como nos conta Riva].

Pelé é eterno.

Algumas referências:

Para dar uma olhada no Trailer, segue o link (mas o bom mesmo é ver na íntegra, no NETFLIX): https://youtu.be/GS0dFi63Nzg.

E listo um pequeno apanhado de publicações da crítica, em diferentes matizes:

A seleção que ‘presenteou’ a ditadura com uma taça. Disponível em: https://brasil.elpais.com/esportes/2020-06-07/a-selecao-que-presenteou-a-ditadura-com-uma-taca.html.

BARBOSA, Nathan Pereira. Pelé”, da Netflix: entre a tradição biográfica e o necessário desconforto político. Ludopédio, São Paulo, v. 140, n. 54, 2021.

CASÉ, Rafael. O inesgotável Pelé (contém spoilers). Ludopédio, São Paulo, v. 141, n. 34, 2021. Disponível em: https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/o-inesgotavel-pele/.

Documentário sobre Pelé retoma o debate em torno da postura do ídolo diante do arbítrio…. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/cultura/documentario-sobre-pele-retoma-o-debate-em-torno-da-postura-do-idolo-diante-do-arbitrio/

Documentário ‘Pelé’, da Netflix, peca pela falta de profundidade. Disponível em: https://liberal.com.br/colunas-e-blogs/estudio-52-documentario-pele-da-netflix-peca-pela-falta-de-profundidade/.

Michael Jordan e Pelé evitaram o ativismo, mas foram enormes agentes políticos. Disponível em:https://brasil.elpais.com/esportes/2020-10-23/michael-jordan-e-pele-evitaram-o-ativismo-mas-foram-enormes-agentes-politicos.html.

Pelé encara seus dilemas com a ditadura na Netflix. Disponível em:https://brasil.elpais.com/esportes/2021-02-23/pele-encara-seus-dilemas-com-a-ditadura-na-netflix.html


Para outros posts sobre filmes de/com Pelé, que escrevi neste blog, ver:

Os Trombadinhas (Anselmo Duarte, 1979): https://historiadoesporte.wordpress.com/?s=os+trombadinhas;

 Pelé – o nascimento de uma lenda (EUA/BRA, 2016, Jeff e Michael Zimbalist): https://historiadoesporte.wordpress.com/2017/12/21/pele-o-nascimento-de-uma-lenda-eua-bra-2016-jeff-zimbalist-e-michael-zimbalist/.

Isto é Pelé (Luiz Carlos Barreto/Eduardo Escorel, 1974): https://historiadoesporte.wordpress.com/?s=futebol+e+cinema+v.

O Rei Pelé (Carlos Hugo Christensen, 1962):cinema, futebol e racismo: https://historiadoesporte.wordpress.com/2020/11/17/o-rei-pele-carlos-hugo-christensen-1962-cinema-futebol-e-racismo/.


Um clube de ciclismo no bairro de Realengo

20/03/2021

Por Victor Andrade de Melo

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Este post é parte de um artigo que escrevi com o camarada Nei Jorge Santos Júnior e acabou de ser publicado na revista Antíteses (v. 13, n. 26, jul./dez. 2020). Quem curtir e desejar acessar o texto completo, pode encontrá-lo aqui: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/antiteses/article/view/40025

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Nos anos 1920, foram criados dois clubes de ciclismo pioneiros no subúrbio, o Ciclo Suburbano Clube (de Madureira) e o Velo Esportivo de Ramos. Na década de 1930, várias sociedades semelhantes foram fundadas nos bairros da região. Segundo Melo e Santos Junior (2020): “Juntamente com o futebol, o esporte do pedal parece ter sido, naquele momento, por suas características, o que mais percorreu a cidade de ponta a ponta, criando uma certa capilaridade e estímulo para a prática” (p. 13).

Para entender a criação do Realengo Pedal, deve-se ter em conta as mudanças que houve no bairro. De um lado, se fortaleceu uma sociedade civil que em definitivo assumiu a liderança das reivindicações locais, semelhante ao que ocorria em outras regiões do subúrbio. De outro lado, não se reduziu a importância das unidades do Exército. Os militares de mais alta patente seguiam integrando a elite local.

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Vista Aérea de Realengo/ Escola de Aeronáutica Militar, 1939.
Acervo: Museu Aeroespacial.
Disponível em: < http://brasilianafotografica.bn.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/7352&gt;.

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Nesse cenário, houve uma dinamização da vida social. Deve-se fazer uma referência à abertura, em 1938, do Cine Theatro Realengo, uma grande sala que acolhia mais de 1000 pessoas. Por seu estilo arquitetônico, pelas fitas exibidas, pela movimentação causada ao seu redor, foi mais um dos indicadores da circulação de ideias de modernidade no bairro.

O ciclismo era um esporte que mobilizava noções interessantes à elite local. Desde o século XIX, era encarado como sinal de civilização e progresso, exponenciando símbolos que se forjaram ao redor do uso das bicicletas: velocidade, mobilidade, liberdade.

Melo e Santos Junior (2020) sugerem que, naqueles anos 1930, a bicicleta “ainda era um produto caro, mas já bem mais barato do que fora no século XIX, quando era totalmente importada. Na primeira metade do XX, já era montada no Brasil e a indústria nacional produzia algumas peças” (p. 14). De toda maneira, mesmo que começando a se popularizar, o ciclismo ainda se tratava de uma modalidade majoritariamente praticada por gente de estratos médios ou altos, o que seria também um fator de diferenciação num bairro em que o popular futebol se espraiava.

Um primeiro indício da prática do ciclismo no bairro foi identificado em 1930, o anúncio de uma competição promovida pelo Cycle Carioca Club de Realengo. A notícia dá a crer que era um evento muito bem organizado. Todavia, não conseguimos mais informações sobre ele, bem como sobre a sociedade promotora.

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Estação de Realengo, 1903.
Revista da Semana, 15 nov. 1903.
Disponível em: <http://www.estacoesferroviarias.com.br/efcb_rj_mangaratiba/fotos/realengo9061.jpg&gt;.

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Ainda se pode ver sua participação em algumas provas, como uma promovida pelo Velo Esportivo de Ramos, em 1931, mas a agremiação parece mesmo ter sido de curta duração. De toda forma, deixou latente a ideia de que, em Realengo, havia interessados no ciclismo.

Esse interesse ficou claro alguns anos depois, em dezembro de 1937, quando uma sociedade carnavalesca, Caprichosos de Realengo, realizou o “Dia Esportivo de Realengo”. Atraíram muitos interessados as provas organizadas pela Liga Carioca de Ciclismo e Motociclismo por meio de seu diretor Oswaldo Moreira Guimarães, funcionário civil da Escola Militar, “um dos grandes animadores do esporte do pedal nos subúrbios”, promotor de muitas competições importantes do ciclismo carioca.

Um cronista celebrou o evento como uma ocasião para estimular a prática e revelar valores da região, uma “oportunidade para mostrarem a sua fibra”. Em 1938, fundou-se o Realengo Pedal Clube, com sede na Estrada Real de Santa Cruz. Logo estava filiado à Liga Carioca e participando das provas pela entidade promovidas. Em maio, obteve inclusive bons resultados em competição realizada no Campo de São Cristóvão.

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Dirigível no campo de tiro de Realengo, 1894.
Acervo: Musée de L’Air Le Bourget.
Disponível em: < http://historia-de-realengo.blogspot.com/2009/11/historias-perdidas-no-tempo-pioneiros.html&gt;.

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No mesmo ano, a agremiação promoveu pela primeira vez o Circuito Ciclístico de Realengo, em homenagem e contando com apoio do comércio da região. Essa foi uma ocorrência comum em muitos bairros do subúrbio, o incentivo do setor a ações que contribuíssem para o desenvolvimento local, para o forjar de uma ideia de que na área também se estruturavam iniciativas que expressavam adesão a ideais de civilização e progresso.

Um dos ciclistas da agremiação, João Athayde, logo se destacou nas competições, tornando-se mais famoso quando se tornou detentor de um dos primeiros recordes aferidos da modalidade no Brasil. Sua ascensão foi meteórica. Meses antes disputara uma prova para iniciantes dos subúrbios, num momento em que o Realengo Pedal começou a se destacar por inscrever grande número de competidores.

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Equipe do Realengo Pedal Clube.
Esporte Ilustrado, 28 dez. 1938, p. 28.

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Quem eram esses ciclistas mais usuais? Já citamos o vencedor João Carneiro Athayde, funcionário do Ministério da Agricultura. Abel Lopes Garcia foi um costumeiro competidor, chegando a obter bons resultados em muitas pelejas; nada conseguimos saber sua vinculação laboral, somente que era morador de Realengo. O mesmo pode-se dizer de Acyr Gevarzoni, Alceu de Oliveira Souza, José Ribeiro da Silva (atleta negro que depois se transferiu para o Ciclo Suburbano) e Francisco Gomes Bezerra.

A falta de outras referências que não as esportivas nos dá a noção de que se tratava de “gente comum”, isso é, trabalhadores de estrato médio que se dedicavam ao esporte em seu tempo disponível. A propósito, também não localizamos muitas informações sobre a diretoria da agremiação. O único mais conhecido era José Reny de Araujo, antigo ciclista, dirigente e organizador de provas.

No ano de fundação, o clube participou da principal prova do ciclismo fluminense à ocasião, o Circuito do Rio de Janeiro, já na sua sexta edição. Entre os 13 clubes que tomaram parte na peleja, foi um dos cinco que mais inscreveu atletas, entre os quais o vencedor, o citado João Athayde.

Nessa edição, se explicitou uma disputa que vinha se delineando nos anos anteriores em função do espraiamento do ciclismo pela cidade:

Há um detalhe interessante que o público desconhece e que se torna necessário esclarecer. Existe uma rivalidade esportiva entre os ciclistas da cidade e os suburbanos, e nunca houve uma oportunidade para um confronto de forças como o que agora se oferece.

Percebe-se no discurso a oposição entre a “cidade” e o “subúrbio”, como se esse não fizesse parte do primeiro. Deve-se considerar que o jornal A Noite, promotor da competição, estimulava essa rivalidade para chamar a atenção do público, mas, na verdade, ela vinha mesmo se acentuando em função dos bons resultados obtidos por ciclistas do Ciclo Suburbano (MELO, SANTOS JUNIOR, 2020). Um cronista chegou a comentar que “sabido (…) é que os subúrbios têm sido um verdadeiro celeiro de bons corredores”.

Na ocasião do VI Circuito do Rio de Janeiro, outro ciclista do subúrbio se destacou, um dos que se tornaria dos mais vitoriosos de seu tempo, Lavoura (Antonio Teixeira da Fonseca), da União Ciclística de Campo Grande. Essas conquistas eram muito valorizadas pelas lideranças suburbanas, mobilizadas como indicador dos avanços civilizacionais da região.

Em 1940, ainda estava ativo o Realengo Pedal Clube. Participou de competições, em algumas obtendo bons resultados, e promoveu sua prova anual, parte do calendário ciclístico da Liga. Marcou presença até mesmo na atividade de encerramento da temporada. No ano seguinte, contudo, já não encontramos mais notícias sobre a agremiação.

Não conseguimos saber os motivos para seu fim. Identificamos que alguns ciclistas se transferiram para a União Ciclística de Campo Grande, entre os quais João Athayde, que seguiu obtendo bons resultados. De toda forma, ainda que breve, foi marcante a trajetória do Realengo Pedal Clube, expressão das mudanças e particularidades daquele bairro da zona suburbana.

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* Referência

MELO, Victor Andrade de; SANTOS JUNIOR, Nei Jorge. Faces da modernidade: a experiência do Ciclo Suburbano Clube (Madureira/Rio de Janeiro – décadas de 1920-1960). Revista Tempo e Argumento, 12(30), e0202, 2020. https://doi.org/10.5965/2175180312302020e0202


Cultura, lazer e esportes nos sertões do Brasil

08/03/2021

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Em vários aspectos, a vida social do Brasil é assimétrica e desigual. Pesquisas sobre a cultura ou a história do país tendem apenas a refletir esse estado de coisas, concentrando-se nas regiões mais populosas ou economicamente desenvolvidas. Em estudos sobre a cultura, o lazer ou os esportes, tais disparidades parecem ainda mais acentuadas. Apesar de algumas evoluções nos últimos anos, quando pesquisas sobre esses assuntos foram realizadas no Norte, no Nordeste ou no Centro-Oeste do país, regra geral, a bibliografia brasileira a esses respeitos ainda se encontra bastante confinada aos estreitos limites geográficos das regiões Sul e Sudeste – sobretudo do Sudeste. Entre um feixe difuso de razões, enquadramentos teóricos específicos podem ser apontados como uma das causas de tal situação.

Outra característica das pesquisas sobre a cultura é a usual segregação de diferentes abordagens disciplinares. Historiadores e antropólogos, por exemplo, têm sido bastante dinâmicos na realização de pesquisas sobre o lazer e os esportes no Brasil. No entanto, ambos os grupos permanecem consideravelmente afastados uns dos outros. Os encontros, embora existam, ainda são raros e os diálogos pouco frequentes, o que é uma tremenda perda de oportunidades heurísticas para todos os interessados no estudo desses assuntos. Existem vários achados de antropólogos que podem ser assimilados, com muito proveito, por historiadores, bem como o contrário. Não por acaso, é mais ou menos antiga e frutífera a relação entre História e Antropologia.

Uma terceira característica de pesquisas sobre esses assuntos é a relativa desarticulação temática, que agora parecem constituir campos de estudo quase totalmente impenetráveis. Em oposição a essa tendência, deveríamos admitir que existem problemas que podem ser melhor compreendidos quando encarados de maneira mais ampla e geral. A organização da cultura, do lazer e do esporte é um deles. Em última instância, a adequada compreensão de cada um desses objetos só pode acontecer contextualizando-os à luz uns dos outros. Nenhum deles é uma variável independente, sem conexões de causalidade com outros aspectos da vida social, ou mesmo com outras esferas deste universo semântico. O aumento do tempo livre desempenhou um papel tão importante sobre as formas de fruição e consumo de arte e cultura, quanto os novos formatos de arte e cultura influenciaram na modulação do lazer.

Esta forma de abordagem, mais integradora e multidisciplinar, fazia parte do horizonte teórico das primeiras pesquisas sistemáticas sobre o lazer e os esportes, em meados das décadas de 1970. Com o tempo, porém, essa agenda se perdeu em favor de uma crescente especialização. Estudiosos do esporte, do turismo, do teatro ou do cinema, foram se distinguindo cada vez mais uns dos outros, até formarem comunidades acadêmicas autônomas; espécie de guetos universitários com suas próprias associações, congressos e periódicos. Por vezes, pode-se até mesmo notar certa hostilidade e preconceito recíproco entre alguns desses especialistas.

Além de eventualmente concorrerem entre si no mercado acadêmico de distribuição de recursos e prestígio, diferentes especialistas nesses assuntos podem também alimentar visões epistêmicas e conceituais divergentes a respeito de seus respectivos objetos de pesquisa, por mais semelhantes que sejam na prática. Estudiosos da cultura, por exemplo, podem encarar com desdém a ideia de tratar o assunto como mais uma forma contemporânea de entretenimento, tal como geralmente o fazem os estudiosos do lazer. A alegação usual é de que uma abordagem assim banalizaria a grandeza espiritual das artes, reduzindo-a a um passatempo qualquer. Assim, edifica-se um muro e confina-se um enorme universo aos limites puramente estéticos das artes ou dos pontos de vista dos artistas e produtores culturais, sem muitas considerações pelo público que consome espetáculos e obras de arte como uma forma de diversão. Estudiosos do esporte podem também enfatizar particularidades desse fenômeno com relação a outras formas culturais de lazer, alimentando o típico narcisismo disciplinar das pequenas diferenças.

Em outros termos, Pablo Alabarces, decano da antropologia latino-americana dos esportes, manifestou preocupações semelhantes com a crescente especialização nesse campo de estudos. Segundo avaliação dele, realizada há mais de 10 anos, mas que parecem ditas hoje, antropólogos do esporte pareciam afastar-se cada vez mais dos antropólogos, em geral, criando fóruns especializados, o que apesar de permitir certo aprofundamento nesta temática específica, também encerraria o risco de afastar importantes questões antropológicas mais amplas do horizonte desses especialistas. Historiadores do esporte e estudiosos do lazer também têm chamado atenção para a importância desses campos de pesquisa não perderem de vista questões sociais mais amplas. Talvez seja de fato a hora de animar ou reanimar tentativas para olhares mais abrangentes. A compreensão de práticas, atividades ou modalidades isoladas pode ganhar novos horizontes quando vistas de uma perspectiva integrada.

Contra o pano de fundo constituído por esses três elementos gerais, recentemente, convidei um grupo de estudiosos do lazer e dos esportes para apresentarem seus trabalhos conjuntamente. O resultado está reunido no livro Depois da Avenida Central: cultura, lazer e esportes nos sertões do Brasil (faça o download na íntegra abaixo).

O livro reúne oito estudos que analisam múltiplas dimensões da cultura, do lazer e dos esportes em diferentes regiões do Brasil: as recreações populares de um bairro operário do subúrbio do Rio de Janeiro, os esportes e outras diversões em diferentes cidades do Acre, o mercado do entretenimento em uma cidade do interior de Minas Gerais, a dinâmica histórica do futebol no interior da Bahia, a articulação de identidades através da participação em uma torcida organizada de um clube de futebol profissional do Ceará, bem como partidas e campeonatos de futebol amador em São Paulo, em Manaus e na região da bacia do rio São Francisco – nas cidades de Juazeiro e Petrolina, na divisa entre Bahia e Pernambuco.

Alternando abordagens históricas e antropológicas, os capítulos, em conjunto, oferecem uma visão panorâmica sobre a diversidade de circunstâncias que podem envolver o modo como se organizaram e se organizam a cultura, o lazer e os esportes no Brasil. Em comum, o interesse em ampliar a visão sobre estes fenômenos, não apenas alargando o escopo geográfico e oferecendo estudos sobre regiões ainda relativamente pouco explorados pela bibliografia especializada nesses assuntos, mas também e talvez sobretudo, desafiando certos lugares comuns que marcam parte da reflexão sobre a cultura, o lazer e os esportes no Brasil. Ao contrário de certas prescrições usuais ao imaginário nacional sobre a vida no “interior” do país, isto é, sobre a vida fora das capitais ou das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, os estudos aqui reunidos revelam que os sertões, que são muitos e estão em todos os lugares, não são, nem nunca foram, desprovidos de lazer e de cultura. De certo modo, e esta é uma tese implícita ou explícita que o leitor encontrará no livro, o Brasil é um grande sertão, que começa precisamente onde termina a Avenida Central.


Ah! A Copa no Brasil!

01/03/2021

Resenha de The World Cup Chronicles: 31 Days That Rocked Brazil [i]

(Por Jorge Knijnik, Balgowlah Heights, Australia, Fair Play Publishing, 2018, 164 pp. (paperback), ISBN: 978-0-6481333-1-5)

por Tiago Fernandes Maranhão [ii]

Jorge Knijnik escreveu uma compilação interessante de crônicas analíticas sobre a Copa do Mundo de 2014 sediada no Brasil. A capa de The World Cup Chronicles mostra uma jovem negra controlando uma bola de futebol no ombro e tendo uma favela brasileira ao fundo. Prepara o público leitor para as contradições enfrentadas pelo país-sede daquele megaevento esportivo. O livro tem 28 crônicas e é dividido em três partes, oferecendo uma perspectiva histórica importante sobre as confluências de ‘imaginar, viver’ e compreender o ‘legado’ da Copa do Mundo de 2014. As crônicas de Knijnik percorrem um território familiar, mas trazem intencionalmente o que os estudiosos da história e das ciências sociais apontam como aspectos interdisciplinares de segregação, preconceito e participação cidadã. O livro é particularmente bom em cruzar os aspectos políticos da abordagem branqueadora e elitista do mais famoso campeonato internacional masculino quadrienal com a exclusão social e racial que permeia a sociedade brasileira.

O interesse provocador na análise das crônicas é notável. Não só na forma, mas também no conteúdo, reafirmando a qualidade indiscutível do livro. Knijnik faz um trabalho admirável ao analisar o quadro geral. O compromisso do autor com a coragem de não ser monótono não perde de vista nossas preocupações diárias com os grupos sub-representados, vulneráveis ​​e marginalizados. Um bom exemplo é a forma como Knijnik nos aproxima do caminho da realidade sem negar suas muitas contradições e complexidades. Por isso, a palavra trilha é apropriada, pois nos lembra dos perigos e incertezas ao analisar os fatos sociais. The World Cup Chronicles vislumbram um megaevento que segue esse caminho mais amplo de polêmicas que costuma ser uma realidade no esporte, analisando os aspectos que transformaram figuras como Pelé e Ronaldo ‘de orgulho nacional em anti-heróis’ (p. 28); bem como o tratamento conflituoso e oposto em favor da superestrela do futebol Marta, ou canalizado contra a presidente Dilma em uma sociedade ainda machista (p. 113; p. 142).

Outro ponto positivo deste livro é a análise de Knijnik – que permeia a primeira e a segunda partes do livro – de como o governo brasileiro vendeu a ideia de que os grandes eventos, especificamente a Copa do Mundo, seriam uma forma de reafirmar o desenvolvimento nacional e mostrar à comunidade internacional que O Brasil estava preparado para ser a próxima superpotência mundial. The World Cup Chronicles mostram que a proposta megalomaníaca de construir ou reformar 12 estádios de futebol para a Copa do Mundo de 2014 foi justificada pelo interesse da FIFA, de políticos brasileiros e de empreiteiros que buscavam lucrar com a corrupção de projetos de construção caros. Knijnik descreve como os interesses políticos e financeiros ditaram os termos diante das reivindicações da população brasileira por melhores condições de vida e justiça social. Os manifestantes se tornaram, nas palavras de Knijnik, ‘uma consciência coletiva’ inundando as ruas brasileiras como uma demonstração pública de desaprovação aos bilhões de dólares gastos em um torneio que forçou milhares de ‘brasileiros vulneráveis ​​a se mudarem de suas casas em nome dessa festa gigantesca’. p. 72)

Apesar do desastroso 7 x 1 na semifinal da competição, Knijnik destaca que houve “consequências muito piores” que os brasileiros tiveram de enfrentar após a Copa (p. 61). O Brasil está agora em uma situação econômica pior, experimentando o caos político e ainda está pagando pelos ‘elefantes brancos’ que o país construiu, como resultado do desperdício de dinheiro público e da ineficiência dos projetos de infraestrutura (p. 138). Knijnik fornece na terceira parte de seu livro um manancial de informações sobre como o Brasil convive com ‘o legado’ da Copa de 2014, ainda investigando a corrupção que favoreceu quem soube manipular o futebol como paixão nacional e capitalizar os laços sentimentais que uniam  a população brasileira a sua seleção. O grande destaque que The World Cup Chronicles traz é a reação popular contra a ilusão de que grandes eventos esportivos tentam vender e contra a manipulação do mito do ‘país do futebol’.

Knijnik nos guia pelas trilhas da complexa realidade social brasileira e sua intrincada relação com o futebol. A riqueza temática e a distribuição dos temas abordados no livro acompanham o prazer de comunicar o conhecimento. É evidente a preocupação do autor em aprofundar as mudanças e permanências da relação política e social que os brasileiros historicamente têm com o futebol. The World Cup Chronicles mostram a complexidade efetiva de um evento esportivo histórico e suas múltiplas possibilidades investigativas. A relação completamente entrelaçada entre o mundo dos negócios esportivos, a política, cultura e relações de poder – políticas ou simbólicas – está no cerne da narrativa de The World Cup Chronicles. As trilhas traçadas no livro explicam claramente a complexidade das lutas, das disputas e da vida lúdica dos torcedores durante a Copa, coexistindo com a morte de certos mitos fundadores do futebol brasileiro. A narrativa de Knijnik também traz, para um público mais amplo, o submundo frequentemente negligenciado da vida cotidiana brasileira, nos lembrando que os tempos históricos não são separados.

A extensa variedade de temas propostos por The World Cup Chronicles pode servir de ponto de partida para quem deseja desenvolver outras análises sobre os aspectos políticos, sociais e culturais do futebol no Brasil. Acessível, pesquisado e perspicaz, The World Cup Chronicles: 31 Days That Rocked Brazil mostra claramente a existência de diferentes formas de pensar e sentir sobre a Copa do Mundo de 2014, que negam a visão romântica de uma sociedade brasileira homogênea na forma de viver o evento. As Crônicas da Copa finalmente dão voz, com equilíbrio, à multiplicidade de visões e formas pelas quais esporte, política e cidadania se cruzam em um período de turbulência no Brasil. Apesar de olhar para o presente da Copa do Mundo de 2014, Knijnik mostra, de forma elegante, as dificuldades e conexões do passado político e social do futebol.


[i] Este texto foi publicado originalmente por Tiago Fernandes Maranhão (2021) no The International Journal of the History of Sport, DOI: 10.1080/09523367.2020.1867988

[ii] Tougaloo College, Jackson, MS maranhaotj@hotmail.com


Os esportes em Salvador e seus espaços

08/02/2021

Coriolano P. da Rocha Junior

 Cada modalidade requer, a partir de seu ordenamento legal, um conjunto de exigências em relação ao espaço e suas características, que são constituídas em função das especificidades da prática de cada esporte. Isto também deve ser pensado em associação aos usos pensados para a atividade esportiva em si e ao que se quer do local das ações, em associação as dinâmicas mais gerais de políticas urbanas, ou seja, pensar o espaço esportivo implica também pensar a cidade.

Pensar a prática esportiva implica ter de levar em conta a questão dos espaços para a vivência destas atividades, seus usos, sua localização na cidade, seus modos de construção. Enfim, ao analisar o esporte e sua história, somos levados a também tentar entender a questão de seus locais específicos de vivência.

 A Bahia e mais especificamente Salvador viu a experiência esportiva se instalar a partir de fins do século XIX, quando a cidade assistiu aos primórdios das vivências com os esportes acontecerem. A partir do início do século XX estas ações ganharam mais robustez e se alargaram, com a cidade vendo mais modalidades ocuparem a cena urbana.

Neste sentido, a partir dessa dinamização da prática dos esportes na cidade, podemos pensar que também se viu espaços específicos surgirem, para facilitar as vivências das pessoas interessadas, todavia, tal fato não se deu, ao menos, de forma estruturada, com ações públicas e associadas ao que se pensava para a capital baiana em seu ordenamento urbano.

 Já vimos também que em Salvador as iniciais experiências esportivas acontecerem e ganharam volume num tempo em que a cidade vivia, mais uma vez, seu desejo de buscar ares modernos, de operar reformas urbanas, em seus espaços públicos e também em seus costumes, onde os olhares se voltavam, como modelo, para países e cidades que já haviam orquestrado essas reformas e tinham nestas, pensado os esportes e aí, há de se imaginar que Salvador poderia fazer do mesmo jeito, mas não, a cidade não se pensou esportivamente, mesmo que estes já estivessem se dando na cena urbana da cidade.

 Quando olhamos para os primórdios esportivos da cidade encontramos essas realidades, que eram: a ausência de espaços públicos próprios a cada modalidade; a construção de espaços esportivos privados e o uso efetivos de locais da cidade, adaptados, para as vivências e isto, falando aqui das cenas com o críquete, o turfe, o remo, o futebol, a patinação, o tênis, o atletismo e o ciclismo. Cada uma destas modalidades experimentou uma relação diversa com os espaços de prática e seus usos na cidade.

 Ao longo de sua instituição, em Salvador, cada uma destas modalidades viveu situações diferentes em relação ao espaços e seus usos, indo dos comuns da cidade, adaptados, ao uso de locais privados para suas vivências. Também em relação aos locais de prática e a relação com a cidade e sua população houve diferença, onde nuns casos era aceito e até bem visto, noutros, era caso de polícia, sempre em função de quem estivesse ocupando a cena pública, se sua elite ou a seu estrato mais pobre.

Ao olharmos cada modalidade em específico, vamos encontrar as seguintes situações.

O críquete sempre foi jogado em praças da cidade, locais já existentes, de uso público, sem que houvesse uma condição específica para a modalidade. Rocha Junior e Santos (2015) nos mostram que os jogos ocorriam majoritariamente no Campo Grande, mas também com notícias de jogos na Fonte do Boi[1], na Quinta da Barra, no Campo da Pólvora[2] e no Largo da Madragoa[3].

O turfe conviveu com dois locais, ambos construídos de forma especial para sua prática e privados. A cidade viu a existência de dois hipódromos, que foram: o da Boa Viagem e o do Rio Vermelho.

Em Rocha Junior e Santos (2015) encontramos dados que falam da abertura de hipódromos na cidade. O primeiro foi o da Baia Viagem. Sobre este, o jornal A Locomotiva[4] dava notícias da abertura de um palco específico para a prática na cidade, na data de 30 de dezembro de 1888: “a inauguração do Hipódromo S. Salvador, que teve lugar no dia 30 passado, foi um verdadeiro acontecimento notável para os anais desta grande capital” e “terminamos dando os nossos parabéns ao público e ao empresário do Hipódromo”.

Adiante, Salvador viu surgir um outro espaço para o turfe, sendo este também privado, desta vez instalado no bairro do Rio Vermelho. O jornal Diário do Povo[5] apresentava assim a ideia da criação desse espaço: “No próximo domingo realizar-se-á a inauguração deste prado situado no aprazível arrabalde do Rio Vermelho” e “Leiam os nossos leitores os programas de corridas e não faltem a inauguração do Derby Clube”.

Sobre estes espaços, vale dizer que se localizavam distantes um do outro e que viveram, ao longo dos tempos, dificuldades de manutenção, por problemas de ordem financeira. Estes hipódromos chegaram a funcionar conjuntamente e também se alternaram como locais próprios do turfe. Nos dois casos, vale dizer, que na época de seu funcionamento, as duas localidades eram distantes da parte central da cidade e contaram com dificuldades de transporte.

Outra modalidade que alcançou sucesso e mesmo assim não viu um espaço próprio ser pensado para sua existência foi o remo, muito embora, seu local de disputa pudesse ser considerado apropriado ao esporte, foi sim, uma adaptação de um cenário natural da cidade.

De seu início até hoje, o remo foi e segue acontecendo na Enseada dos Tainheiros. Este local era, quando do início das atividades com o remo, um espaço de veraneio da cidade, também distante da região central, tendo as regatas usado um pedaço de mar, belo, aprazível, de águas calmas, que potencializavam o esporte, porém, nunca contou com uma efetiva intervenção, pública ou privada, de forma a qualificar como local ideal de prática do remo e também para a plateia.

Atividades como patinação e ciclismo nunca puderam contar com algo parecido com espaços específicos, tendo então seus praticantes de usar apenas as ruas e praças da cidade, qualquer que fosse a intenção da vivência, mesmo que dependesse de equipamentos, caros, notadamente na fase inicial do século XX. Locais como o Politeama, o Passeio Público e o bairro do Comércio eram relatados como os preferidos para estas atividades esportivas.

O tênis foi uma atividade esportiva que em Salvador se notabilizou por ser exercida somente em espaços fechados, inclusive residências e notadamente em clubes, sendo um criado com esse perfil. A modalidade, desde seu início se notabilizou como um esporte das elites econômicas e assim, foi vivida como um experiência de distinção.

Em algumas residências de famílias nobres da cidade foram construídas quadras, para que seus membros e convidadas e convidados pudessem viver o esporte. Além disso, no Rio Vermelho, junto a área onde existiu o Hipódromo se teve o esporte. Com mais notoriedade vimos exitir o Clube Baiano de Tênis, que se notabilizou como um espaço específico, mas privado, para o jogo do tênis, mais uma vez caracterizando que na cidade, os esportes aconteceram, mas sem que pudessem contar com a construção de espaços diretos.

Semelhante ao tênis foi a condição do atletismo, atividade que aconteceu de forma tímida em espaços públicos e que viu a construção de um clube próprio para sua prática, privado, que foi o Yankee Foot-ball Club, que inclusive chegou a criar uma pista. Vale dizer que o atletismo, além de tudo, teve sua prática associada a conceitos de saúde, sendo tratado como uma modalidade essencial ao desenvolvimento corporal de quem o executasse.

Por fim, falamos do futebol, uma modalidade que por suas características permite o uso de espaços variados. A prática em Salvador aconteceu em várias praças e ruas, seja isto de forma organizada ou livre, pode mesmo se dizer que a cidade foi “ocupada” pela experiência futebolística. Quando falamos da esfera competitiva, basicamente três espaços foram os usados, que foram: Campo da Pólvora, que na verdade era uma praça aberta da cidade; o Campo do Rio Vermelho, montado onde já existia o Hipódromo, privado e adaptado especificamente para o futebol e por fim, o Campo da Graça, também privado e que foi pensado especificamente para atender a modalidade e suas competições.

Com tudo isto, podemos analisar que o esporte em Salvador se constituiu sem a existência de espaços específicos, públicos, para qualquer modalidade, tendo sempre se aproveitado de lugares públicos ou naturais, adaptados as modalidades ou então, espaços privados foram construídos. Tal cena na cidade perdurou e mesmo perdura, sem que ainda hoje existam muitos espaços públicos espalhados pela cidade, se notabilizando aqueles que são para uso exclusivo da esfera competitiva, sem acesso popular.

Esta condição, no tempo, muito contribuiu para com que o esporte não alargasse suas vivências na cidade, mesmo estas tendo se iniciado em tempos já longínquos, já que poucos investimentos, ao longo dos anos foram executados, de forma a permitir o acesso da população, as práticas, em espaços próprios, sem depender do elemento competitivo ou de clubes ou outras ações privadas.


[1] Localizada no bairro do Rio Vermelho. Diário da Bahia, Salvador, 25 de janeiro de 1902, p. 1.

[2] Diário de Notícias, Salvador, 24 de março de 1903, p. 3 e 12 de setembro de 1903, p. 3.

[3] Diário da Bahia, Salvador, 11 de janeiro de 1902, p. 1. Localizado na Cidade Baixa, na área do bairro da Ribeira.

[4] A Locomotiva, Salvador, 15 de janeiro de 1889, p. 41.

[5] Diário do Povo, Salvador, 21 de maio de 1889, p. 1.

Referência:

ROCHA JUNIOR, Coriolano P. e SANTOS, Henrique Sena dos. Primórdios do esporte no Brasil: Salvador. Manaus: Reggo, 2016.


JOSÉ LINS DO REGO, O MODERNISMO E SUA PAIXÃO PELO FUTEBOL

01/02/2021

Por Edônio Alves Nascimento*

Discípulo do sociólogo Gilberto Freyre (em termos ideológicos e estéticos), José Lins do Rego, na condição de um escritor tipicamente modernista (e moderno) tem como característica de sua obra – entre tantos outros traços de sua escrita magnífica e panorâmica – dar continuidade ao trabalho do escritor pernambucano no tratamento exploratório do futebol brasileiro em literatura; algo não muito explorado pela fortuna crítica que se debruçou sobre as facetas múltiplas de sua obra e algo de que vou tratar aqui.

Tem, portanto, esse texto, a pretensão dupla de informar ao leitor (em poucas pinceladas, reconheço; dado as restrições de espaço) sobre a paixão pessoal que esse grande escritor paraibano tinha pelo futebol e como o tema desse esporte se incrustou em sua literatura a ponto de revelar um traço estilístico peculiar da sua escrita vasta e multifacetada.

Considerado por boa parte da crítica literária brasileira como um “estilista” original (algo discutível do ponto de vista da crítica estética), José Lins do Rego tomou contato com o movimento modernista de 1922, através de conversas com Graciliano Ramos, Jorge de Lima e Raquel de Queirós, quando morou em Maceió. A princípio reticente quanto ao Modernismo, por influência do amigo Gilberto Freyre, que pregava um “regionalismo tradicionalista”, o escritor acaba por fim se incorporando ao grupo que consolidaria o chamado Romance do Nordeste, dando uma feição mais social e política à abordagem regional da sua literatura.

Romancista de uma obra ampla e orgânica quanto à interligação temática e propositiva de sua cosmovisão de trabalho, distribuída e conscientemente organizada em cada obra individual, perfazendo no todo um conjunto representativo das questões que elegeu como núcleo de suas preocupações com os problemas brasileiros – o ethos social regionalista em destaque –, o próprio autor destacou como desejaria que a sua obra ficcional fosse dividida. O ciclo da cana-de-açúcar, com Menino de engenho (1932); Doidinho (1933); Bangüê (1934); Fogo morto (1943) e Usina (1936). O ciclo do cangaço, misticismo e seca, com Pedra Bonita (1938) e Cangaceiros (1953). As obras independentes: a) com ligações nos dois ciclos, O moleque Ricardo (1935), Pureza (1937) e Riacho doce (1939), e, b) desligadas dos ciclos: Água-mãe (1941) e Eurídice (1947).

A este conjunto de natureza romanesca, junte-se esse outro, que segundo o poeta alagoano, Ledo Ivo, “comprovam que o grande romancista brasileiro não possuía apenas uma admirável natureza criadora”, mas também dispunha de “uma natureza ensaística” com a qual é possível aquilatar, pela vasta abrangência de suas intervenções como homem de letras, o interesse do autor pelos problemas da expressão literária, bem como suas preocupações com os destinos do homem e da sociedade: Gordos e magros (1942); Poesia e vida (1945); Homem, seres e coisas (1952); A casa e o homem (1954) e as publicações póstumas, O vulcão e a fonte (1958), e Dias idos e vividos (1981), organizado pelo poeta e crítico Ivan Junqueira. Conjunto este que entremostra menos o homem de reclusão criadora com a qual consagrou definitivamente o seu nome na história da grande ficção brasileira e mais o homem de jornal, na acepção publicista do termo, função através da qual partilhava diretamente com o público leitor as suas ideias e conjecturas sobre as coisas do mundo, através do ensaio e da crônica.

Pois é no gênero crônica, principalmente, que a paixão de José Lins do Rego pelo futebol comparece mais fortemente em sua obra.

Considerando este ponto, por exemplo, temos o testemunho do  historiador social Bernardo Buarque de Hollanda – que se debruçou sobre as crônicas esportivas publicadas por Zé Lins no Jornal dos Sports entre 1945 e 1957 (um total de 1.571 textos) na sua coluna Esporte e Vida –, de que a incorporação do futebol ao projeto de construção de um Brasil moderno a partir da década de 1930, plataforma comum a todos os intelectuais modernistas, também “pode ser identificada de maneira exponencial nos romances, ensaios e, principalmente, nas crônicas esportivas desse escritor em cuja obra – diferentemente do caso dos outros autores do modernismo – o tema do futebol se apresenta de maneira sistemática e cristalina”.[1]

Vejamos, portanto, um pouco da sua indefectível paixão pelo jogo de bola aos pés (anote-se que Zé Lins do Rego foi também um típico torcedor de arquibancada fanático e arrebatado pelo seu Flamengo carioca) comparecendo estilisticamente dentro de sua literatura cronística e de jornal.

O Flamengo, como todos os clubes desta cidade, é um elemento de preparação do espírito nacional. E mais do que qualquer um vive, por todos os recantos do Brasil, nos entusiasmos de seus adeptos que são uma verdadeira legião.

Se há um clube nacional, este será o Flamengo, criação do mais legítimo espírito de brasilidade. Flamengo são brasileiros de toda as cores, de todas as classes, de todas as posições. Flamengo é o Sr. Eurico Gaspar Dutra, é o Sr. Nereu Ramos, é o Sr. Juraci Magalhães, é o meu rapaz do jornal, é o meu apanhador de bolas no tênis, é o Grande Otelo, é o pintor Portinari, é o Brasil de todos os partidos.

E se o Flamengo tiver o seu estádio gigante é porque merece muito mais (REGO, 2002, p. 65).[3]

Destaque-se antes, contudo, que como cronista esportivo, ofício que exerceu por 12 anos, ocupando as páginas de importantes veículos de imprensa do Rio de Janeiro, Zé Lins pôde intervir no debate público sobre um Brasil genuíno para os brasileiros em que o futebol fosse visto como um elemento de sua cultura e onde o povo em geral melhor se via representado.

A esse debate ele acrescentou, por exemplo, a meu ver, três questões que a representação ficcional brasileira sobre o tema viria mais tarde incorporar como um dos seus aspectos mais ricos e constantes: a importância do legado étnico negro para a matização nacional do jogo de futebol, a incorporação da música na forma brasileira de jogá-lo e uma original reelaboração – só possível graças à maneira como o futebol foi institucionalizado no Brasil – da ideia de nação brasileira, criando uma proposição peculiaríssima de nossa formulação identitária. Exemplo:

Os rapazes que venceram em Montevidéu eram um retrato de uma democracia social, onde Paulinho, filho de família importante, se uniu ao negro Leônidas, ao mulato Oscarino, ao branco Martins. Tudo feito à boa moda brasileira, na mais simpática improvisação. Lendo este livro sobre futebol, eu acredito no Brasil, nas qualidades eugênicas dos nossos mestiços, na energia e na inteligência dos homens que a terra brasileira forjou com sangues diversos, dando-lhes uma originalidade que será um dia o espanto do mundo (REGO, 2002, p. 63).[2]

Continuando suas ideias por este caminho, amiúde, Zé Lins do Rego se abastece de argumentos para explicitar, mediada pela lógica da miscigenação e do propugnado convívio democrático entre as três raças da nossa formação social – a sua ideia da necessária simbiose, no plano da nossa construção identitária, entre a identidade nacional e a identidade clubística, por exemplo:

O Flamengo merece muito mais”:

O Flamengo, como todos os clubes desta cidade, é um elemento de preparação do espírito nacional. E mais do que qualquer um vive, por todos os recantos do Brasil, nos entusiasmos de seus adeptos que são uma verdadeira legião.

Se há um clube nacional, este será o Flamengo, criação do mais legítimo espírito de brasilidade. Flamengo são brasileiros de toda as cores, de todas as classes, de todas as posições. Flamengo é o Sr. Eurico Gaspar Dutra, é o Sr. Nereu Ramos, é o Sr. Juraci Magalhães, é o meu rapaz do jornal, é o meu apanhador de bolas no tênis, é o Grande Otelo, é o pintor Portinari, é o Brasil de todos os partidos.

E se o Flamengo tiver o seu estádio gigante é porque merece muito mais (REGO, 2002, p. 65).[i]


[i] Idem; Ibidem.

Observo, para informar e arrematar, que essa operação narrativa de José Lins do Rego tinha um sentido muito claro, que era o de fundir na ideia de pátria, nação, o seu Clube de Regatas do Flamengo, que, para o escritor paraibano, era o clube que detinha todas as potencialidades de irmanar indivíduos os mais diversos, heterogêneos e dispersos, num verdadeiro congraçamento nacional, conferindo-lhes, pelo sentimento comum de pertencimento a ambos (à pátria e à nação), não obstante o afastamento geográfico ao longo de diferentes regiões territoriais do país, um senso de suprema e verdadeira brasilidade.

Tal profissão de fé de Zé Lins, digamos assim, se espraiava ao longo de toda a sua escrita de cronista esportivo por intermédio de recursos retóricos sofisticadíssimos – a nosso ver –, que vão desde a refinada ironia com o que aproveitava para tirar uma “onda” subliminar com os clubes rivais do Flamengo – caso do Vasco da Gama, que é tema de uma crônica sua, “Lá o Vasco é como se fosse o Flamengo”, por ocasião de uma excursão que o time fizera à Europa em 1947, oportunidade entrevista pelo escritor para contrapor, na sua lógica interpretativa sobre a nossa brasilidade futebolística acima referida, as representações da pátria brasileira com o elemento estrangeiro, dentro de uma peculiar escala de valor que apontava o nacional (naquela ocasião, representado pelo Vasco); o mais nacional (o seu Flamengo – ver a crônica, “O Brasil era o Flamengo”) e, ambos, acima do europeu em qualidade e supremacia. Vejam-se os dois textos-exemplos:

Lá o Vasco é como se fosse o Flamengo

Continua o Vasco a honrar com brilho o futebol brasileiro. Em duas partidas ganhas, pela bravura e pela classe de sua equipe, mostrou o tricampeão do Municipal que é, de fato, uma verdadeira seleção de valores. E assim Flávio Costa acrescenta às suas glórias de técnico mais as vitórias que vem obtendo em campos de Portugal. A jornada do Vasco há de terminar como começou. Todos nós, aqui do Brasil, estamos ao lado de nossos aparelhos de rádio para torcer pelos rapazes do Almirante. Lá o Vasco é como se fosse, para mim, o Flamengo (REGO, 2002, p. 82).[4]

         O Brasil era o Flamengo

Chego da Suécia convencido de que o futebol é hoje produto tão valioso quanto o café, para as nossas exportações. Vi o nome do Brasil aclamado em cidades longínquas do norte, vi em Paris aplausos a brasileiros com o mais vivo entusiasmo. Disse-me o meu querido Ouro Preto: “Só Santos Dumont foi tão falado pela imprensa desta terra, sempre distante a tudo que não é europeu, como os rapazes do Flamengo”. Este fato, os milhares de franceses que permaneceram no estádio, mesmo com o término da partida, aplaudindo os nossos rapazes, queriam demonstrar uma quente admiração por essa turma de atletas que tinha feito uma exibição primorosa. E a nossa bandeira tremulava no mastro do estádio, naquela noite esplêndida de primavera. O futebol Brasileiro deu aos mil brasileiros que ali estavam a sensação de que éramos os primeiros do mundo. Para mim, mais ainda, porque ali estava o meu Flamengo de todos os tempos (REGO, 2002, p. 129). [5]

Pois bem! Como disse lá em cima, tem esse texto o propósito de mostrar aos leitores um pouco da paixão pessoal que o escritor paraibano José Lins do Rego tinha pelo futebol e como esse tema compareceu em sua literatura a ponto de revelar um traço estilístico personalíssimo da sua obra: a fina ironia como recurso retórico moderno aplicado aos seu discurso estético sobre o assunto e a pegada também moderna com que inscreveu definitivamente, tanto no seio do mundo literário brasileiro quanto no universo da arquibancada futebolística propriamente dita, a noção de nação para juntar, num mesmo amálgama humano, os apaixonados como ele que torcem por um determinado clube de futebol e que sentem, nesse gesto de arrebatamento ufanístico, todos os influxos da pátria/nação a pulsar-lhes nas veias. Espero que essa pequena amostra tenha cumprido o seu papel.

*Jornalista, poeta e professor do curso de Jornalismo da UFPB.


1 HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. O descobrimento do futebol: modernismo, regionalismo e paixão esportiva em José Lins do Rego. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 2004.

[2] REGO, José Lins do. Flamengo é puro amor: 111 crônicas escolhidas. Seleção, introdução, atualização ortográfica e notas de Marcos de Castro. Rio de Janeiro: José Olympio, 2002.

[3] Idem; Ibidem.

[4] Idem; Ibidem.

[5] Idem; Ibidem.