Esporte, Política e Humor: o Golpe de 16 (parte 1)

27/06/2016

As relações entre esporte e política são múltiplas. O que talvez possa passar despercebido no contexto atual é que o esporte também permeia (sem perder o bom humor) a luta política.

por Fabio Peres

Desde o acirramento da crise política em 2015, incontáveis manifestações relacionaram política e esporte. Faixas – pró e contra o impeachment – foram exibidas em jogos de futebol. Torcidas procuraram se organizar em torno da luta contra o golpe. Proliferaram-se memes fazendo referência ao mundo do esporte. Torcedores invadiram campos e treinos de times de futebol. Camisas da seleção (ou da CBF como alguns discursos procuram sublinhar) [i], não apenas foram utilizadas em manifestações, como também foram personalizadas com dizeres “Fora Dilma” ou “Fora PT”.  Houve até mesmo torcida homenageando juiz.

O clássico fla X flu, aliás, ganhou corpo em diversas análises como metáfora da polarização política. O que chama atenção nesse caso é a força simbólica que a disputa carioca ainda possui no imaginário social. Não se tem conhecimento, pelo menos com a mesma eficiência semântica, de uso de outras contendas para ilustrar tal conjuntura (não se falou no Derby Paulista e muito menos em Barcelona X Real Madrid).

Política e esporte definitivamente estavam imbricados em todas essas ocasiões.

O que pode parecer inusitado é que – apesar da seriedade da crise (ou justamente por conta disso) – também houve uma profusão de referências, cujo traço comum era o humor.

Com o início do processo de impeachment, jornalistas, artistas e coletivos sociais utilizaram de forma bem-humorada as práticas esportivas para explicitar e questionar o momento político que estamos atravessando.

Na Folha de S. Paulo, por exemplo, Gregório Duvivier (na crônica Festa Estranha com Gente Esquisita, 21/12/2015) colocou em xeque – utilizando para isso modalidades esportivas – a representatividade do Congresso Nacional, a premissa de que o poder legislativo reflete a sociedade brasileira:

Se tem alguém que não está presente no Congresso nacional (além dos deputados que, de modo geral, preferem trabalhar de casa) é o povo brasileiro. As mulheres são quase 52% da população. No entanto, você consegue encontrar mais mulheres jogando rúgbi do que na Câmara dos Deputados. O povo brasileiro se declara, em sua maioria, negro ou pardo (53%). O Senado brasileiro tem menos negros que o Senado da Suécia (não é uma expressão, é um fato). Quanto aos jovens, melhor procurar num jogo de bocha. Jovens com até 34 anos são 39% do eleitorado e 10% do Congresso (grifos nossos).

 

A reflexão continua acentuando ironicamente o perfil elitista do Congresso em contraponto ao da população:

Muito se fala sobre a tal festa da democracia. Que festa estranha com gente esquisita. Eu não tô legal. O Congresso brasileiro parece o salão de jogos do Country Club: uma versão mais masculina, mais branca, mais hétero, mais velha e mais empresária do Brasil. Mas por quê? Será que o brasileiro só confia em homem branco hétero velho empresário? Uma rápida pesquisa revela que eleger um deputado custa, em média, R$ 6 milhões. Uma rápida pesquisa revela que quem tem R$ 6 milhões no Brasil é homem branco hétero velho empresário. O Congresso brasileiro não é a cara do Brasil. Ele é a cara da elite do Brasil. Não é o povo brasileiro que é conservador. É o dinheiro brasileiro que é conservador. Pense no lado bom: talvez o Brasil não seja um país intrinsecamente corrupto ou reacionário. Ou talvez seja. Isso a gente ainda não sabe. Pra isso seria preciso uma coisa inédita: democracia. Por enquanto, pra participar da festa, só com pulseirinha VIP de R$ 6 milhões (mas relaxa que tem consumação).

 

No dia 03 de abril, Juca Kfouri, por sua vez, abriu sua crônica com a seguinte questão: “Nestes dias uma questão paira sobre o Brasil: impeachment de Dilma Rousseff é golpe ou não é golpe?” (Folha de S. Paulo, 03/04/2016).  O futebol é usado para responder de maneira cômica a questão (o artigo completo pode ser encontrado aqui). Rico em figuras de linguagem, o texto conclui:

Só não esqueça que a vitória roubada não é legítima, que sem respeito às regras não tem jogo. E que uma expulsão ilegal, nestas alturas do campeonato, pode virar um tremendo quebra­pau no estádio, pode virar tragédia. Se você acha que vale arriscar só para ver o rival derrotado, lamento dizer que não estamos no mesmo time.

 

Com narração do próprio Juca Kfouri, a crônica foi dramatizada em vídeo pelo coletivo[ii] Um à Esquerda:

 

O coletivo voltaria a usar esse mesmo recurso, também com narração de Juca Kfouri, para falar de possíveis perdas dos direitos trabalhistas – naquela época, num eventual governo interino Temer. O vídeo faz uma analogia entre 7 projetos de lei que buscam “flexibilizar” a CLT e os 7 gols que a seleção brasileira tomou contra a Alemanha na Copa do Mundo de 2014.

 

 

O gol de honra do “Brasil” só apareceria em outro vídeo, quando o ministro do STF Teori Zavascki determinou o afastamento de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) do mandato de deputado federal e, consequentemente, da presidência da Casa, em 05/05/2016.

 

 

Mas mesmo antes da infame votação no dia 17 de abril, quando ainda não se tinha certeza se o impeachment passaria na Câmara, o colunista Celso Rocha de Barros da Folha de S. Paulo alertava para os riscos de dá-lo como certo, ainda que bastante provável. De maneira espirituosa, a coluna O Cenário Deivid (04/04/2016) lembrava do insólito gol perdido pelo jogador do Flamengo, na disputa da Taça Guanabara de 2012, contra o Vasco (veja o lance no vídeo abaixo). Embora o “sim” já aparecesse com franca maioria nas análises divulgadas por parte da mídia, recomendava-se um pouco cautela:

Enfim, o gol está aberto para a oposição. Mas gol aberto é hora de lembrar de Deivid, ótimo centroavante que jogou nos maiores times do Brasil e na seleção. Dentro de uma carreira cheia de títulos e artilharias, o gol perdido por Deivid na semifinal da Taça Guanabara de 2012 é só um episódio pitoresco. Mas ninguém esquece: a poucos centímetros da linha do gol, sem goleiro, Deivid chutou na trave. Como seria um momento Deivid da turma que quer derrubar Dilma?

 

 

Fazendo uso de outras referências ao futebol, o colunista chama atenção para o papel cada vez mais decisivo que o chamado baixo clero possuiria na votação na Câmara, o que ainda conferia uma pequeníssima dose de imprevisibilidade à disputa pelos votos (tanto para o “sim” como para “não”, tanto para direita como para a direita) de “partidos que são pouco mais que máquinas de extração de rendas (o PMDB incluso)”:

Um governo Temer continua muito provável […] Mas é bom lembrar que, embora a zaga petista tenha se distraído do jogo olhando aquela grama toda tão apetitosa, o atacante adversário está sob cerrada marcação da natureza. Agora olhem para todos esses cenários com PMDB e PP e me expliquem de novo por que valeu a pena começar a guerra do impeachment.

 

Com humor mais escrachado, artistas criaram o projeto Supletivão, no qual o golpe é explicado através de aulas de disciplinas diversas: lógica, português, história e educação física. Nessa última, o ciclismo (em suas diversas modalidades) é usado para explicitar as intempéries, para não dizer, bizarrices político-jurídicas de uma democracia em risco:

 

 

Após a votação no Senado, aprovando a abertura de processo de impeachment, Gregório Duvivier voltou a fazer analogias entre esporte e política.  Em Faltou combinar com os russos (Folha de S. Paulo, 16/05/2016), o colunista lembra da folclórica conversa entre Garrinha e o técnico Feola, na Copa de 1958, para retratar a ingenuidade, as ambiguidades e mesmo contradições daqueles que apoiaram o impeachment, alguns provavelmente neófitos na participação política (e talvez no futebol):

Reza a lenda que na Copa de 58, o técnico Feola bolou um esquema infalível contra a seleção soviética: Nilton Santos lançaria a bola pela esquerda para Garrincha, que driblaria três russos e cruzaria para Mazzola marcar de cabeça. Garrincha ouviu o professor atentamente: “Tá legal, seu Feola, mas o senhor combinou com os russos?”. “Primeiro a gente tira a Dilma”, dizia o pessoal do impeachment. “Depois a gente derruba o Temer. Aí a gente prende o Cunha. Quando ele cair, a gente cassa o Renan. Daí pronto: eleições gerais.” O plano era infalível. Só esqueceram de combinar com os russos. No poder, o presidente interino (não pronunciarei mais seu nome) já mostrou que não tem a menor intenção de renunciar –apesar de ter assinado as mesmas pedaladas que derrubaram Dilma. Parabéns a todos os que produziram o efeito dominó mais curto do mundo: parou na primeira peça.

 

Já com o governo interino em curso, talvez o cenário se afastasse bastante daquele imaginado pelas pessoas que, 5 dias antes, comemoraram o afastamento da presidente:

Os russos roubaram a bola antes dela chegar ao ataque e fizeram sete gols. O secretario de segurança genocida foi premiado com a Justiça. A Educação ficou com o PFL (me recuso a chamar de Democratas) –partido que foi contra o ProUni, o Fies, os royalties para educação. A Cultura foi pro mesmo lugar que a democracia: debaixo da terra. Ou do PFL. O que é pior. Serra no Exterior –um sujeito que não tem sequer um amigo vai cuidar da diplomacia. Mudaram a CGU –e junto com ela a torneira da Lava Jato. Achei que aqueles que eram contra a corrupção iriam às ruas contra o primeiro presidente brasileiro que já assume com a ficha suja. Não foram. Achei que fossem contra a indicação de ministros citados na Lava Jato. Tampouco foram. O pato da Fiesp acordou rouco. As panelas voltaram à cozinha. Durante o discurso do vampiro embalsamado que nos governa, tudo o que se ouvia era um silêncio ensurdecedor. Cheguei a ouvir: “ao menos esse presidente fala bem o português”. A vontade é enorme de gostar do mordomo interino. Pode roubar, matar, e esconder cadáver, mas pelo menos não erra o plural.

 

O autor de maneira provocativa e irreverente conclui:

Não se esqueçam do Carlos Lacerda, que fez o que pôde pro governo de Jango cair. Quando o golpe chegou, teve os direitos políticos cassados. Tentou reclamar –era tarde demais. “Mas não era isso que você queria?”, poderiam argumentar os militares. O golpe chegou. Vale lembrar de Lacerda. Quem pediu o golpe não estará imune a ele. É o momento de deixar claro que não era isso que vocês queriam. Com esse silêncio todo, fica parecendo que era.

 

Assim como no caso de outros literatos – como Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade e Joaquim Manuel de Macedo (comentados anteriormente aqui no blog) –  jornalistas, artistas e coletivos sociais “deslocaram” os sentidos habituais do esporte para provocar riso, wit  ou ironia (a despeito da distinções conceituais entre cada um deles)[iii].

Sem dúvida, devemos considerar o caráter relativo do humor, mas não é recomendado abrir mão do “contextualismo linguístico” de produção das narrativas.

De todo modo, o esporte parece cumprir com eficácia o requisito de “familiaridade com os códigos e as normas que ditam a (de)codificação da mensagem humorística” (ERMIDA, 2002, p.76).

Ora mais, ora menos irônica, ora mais, ora menos sútil, as práticas esportivas em todos esses casos foram mobilizadas com sensibilidade cômica para refletir sobre a crise (vale ressaltar multiplamente adjetivada; o que evidencia ainda mais a sua gravidade). Mais do que isso, o esporte também é usado para “demarcar campo”, para se posicionar na disputa política.

Em outras palavras, as práticas esportivas parecem, não apenas ser “boas para pensar” o mundo político, mas – como causa ou consequência disso – parecem também ser “boas para agir” – com bom humor – na vida social e política.

Alguns cartunistas parecem concordar com essa ideia. Articulando referências e linguagens múltiplas (fotografia, música, esporte, entre outras), Aroeira por exemplo desenhou o Impávido que Nem Muhammad Ali:

o Impávido que Nem Muhammad Ali (Aroeira, 06/06/2016)

 

A homenagem sugere um eco que de alguma forma repercuti no contexto político atual:

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos

Surpreenderá a todos não por ser exótico

Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto

Quando terá sido o óbvio

(Um índio, Caetano Veloso. A música pode ser escutada aqui)

 

Mas essa história vai ficar para o próximo post.

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[i] Vale notar que a expressão “camisa da CBF” tem sido utilizada para denotar e sublinhar o tom crítico a tais manifestações.

[ii] Estamos usando a denominação utilizada por Juca Kfouri.

[iii] Maiores informações ver: ERMIDA, Isabel Cristina da Costa Alves. Humor, Linguagem e Narrativa: para uma Análise do Discurso Literário Humorístico. Tese (Doutorado em Ciências da Linguagem). Universidade do Minho, Braga, 2002.

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Carlos Imperial e…. o surfe!

02/11/2015

Por Victor Andrade de Melo

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A ideia desse post surgiu quando li o belíssimo e divertido “Dez, nota dez! Eu sou Carlos Imperial”, uma biografia desse incrível e polêmico personagem da cena cultural nacional recente, escrita (muito bem escrita) por Denilson Monteiro. Já conhecia o envolvimento de Imperial com o samba – cuja faceta mais notável era sua participação na apuração do concurso anual de escolas do Rio de Janeiro, bem como sua relação com o futebol – por causa de sua ligação com o Botafogo. O livro, todavia, trouxe algumas surpresas.

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Com o Botafogo, para além de sua constante participação como torcedor apaixonado, uma relação mais forte com a diretoria começou no final dos anos 1970, quando o clube passava por muitas dificuldades – estava há anos sem títulos e perdera sua sede de General Severiano por problemas financeiros.

Uma de suas ideias, colocada em prática em um Botafogo X Vasco de 1980, foi fazer entrar no gramado, antes do time, um grupo de beldades vestidas com a camisa da equipe, a quem denominou de “foguetes”. Sua inspiração era as torcidas de esportes norte-americanos, a seu ver uma maneira de animar um pouco mais o monótono futebol naciona, ainda mais a equipe alvinegra. Nem precisa dizer: o ba-fa-fá foi intenso, mais uma polêmica na sua longa trajetória de polêmicas.

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“Foguetes” em campo (Placar, 18 jul. 1980)

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Assim se referiu à iniciativa Marcelo Rezende e Milton Costa Carvalho, na Placar de 18 de julho de 1980, em uma matéria crítica intitulada “Fora Borer”, presidente do Botafogo na ocasião:

“Um grupo de bem fornidas starlets encarregadas de motivar a torcida botafoguense em dias de jogo. Uma missão espinhosa nestes tempos difíceis, em que pesem os inegáveis atributos físicos de todas elas. Uma coisa, porém, até os jogadores reconhecem: ruim com Imperial, muito pior sem ele”.

Nessa ocasião, Imperial era vice-presidente de futebol. Na verdade, nos informa Denilson Monteiro, já tivera uma experiência anterior como dirigente esportivo, no mesmo ano de 1980, como vice-presidente de futebol do Olaria. Seu plano: tornar o clube da Zona da Leopoldina no “Boca Juniors brasileiro”, afinal, até a camisa era similar! Ao assumir o cargo, declarou: “Se o Elton John pode ser dono de time na Inglaterra, por que eu não posso ser um modesto diretor de futebol?”. Por lá também promoveu atividades com suas “lebres” (referência ao séquito de mulheres que constantemente o cercava)

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Crítica da Placar (1 fev. 1980) à atuação de Imperial

Crítica da Placar (1 fev. 1980) à atuação de Imperial

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O primeiro técnico que contratou para concretizar seu plano foi um delegado que dava passos mais seguros em sua carreira de treinador: Antônio Lopes. Imperial era presença constante na arquibancada, sempre acompanhado de suas “lebres” e confraternizando com os torcedores. A propósito, um dos seus principais assessores foi exatamente Russão, o célebre chefe de torcida do fogão.

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Russão carregando nos ombros o jogador Marinho, 1988. Disponível no sítio Gritos e Bochichos: https://asfaltoemato.wordpress.com/2012/02/28/russao-botafogo-na-veia/

Russão carregando nos ombros o jogador Marinho, 1988.
Disponível no sítio Gritos e Bochichos:
https://asfaltoemato.wordpress.com/2012/02/28/russao-botafogo-na-veia/

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O mais surpreendente do livro, no que tange ao esporte, é a informação de que Imperial foi um dos pioneiros da surf music nacional! De fato, estava sempre sintonizado com o cenário internacional, tendo sido um dos mais importantes dinamizadores dos primórdios do rock no Rio e no Brasil, um dos primeiros a trazer, por exemplo, Beatles para o país.

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Carlos Imperial com Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Cauby Peixoto, 1958. Acervo de Denilson Monteiro e Aloísio T. de Carvalho. Disponível em: http://epoca.globo.com/vida/noticia/2015/05/documentario-conta-vida-desregrada-de-carlos-imperial.html

Carlos Imperial com Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Cauby Peixoto, 1958.
Acervo de Denilson Monteiro e Aloísio T. de Carvalho.
Disponível em: http://epoca.globo.com/vida/noticia/2015/05/documentario-conta-vida-desregrada-de-carlos-imperial.html

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Pois bem, em 1964, inspirado nos filmes norte-americanos de praia, Imperial compôs “Onda do Jacaré” e “Vou deslizar”, gravadas por Roberto Rei em compacto da RCA, o primeiro álbum desse artista que teria muito sucesso no decorrer da década. Essas canções estão disponíveis no canal da Tropicália Discos: https://www.youtube.com/watch?v=duJYUa4UTUo (estão em sequência, primeiro se ouve “Onda do jacaré” e depois “Vou deslizar”).

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Capa do Compacto de Roberto Rei, com músicas de Imperial. Disponível em: http://brazilian-record-labels.blogspot.com.br/2012_10_01_archive.html

Capa do Compacto de Roberto Rei, com músicas de Imperial.
Disponível em: http://brazilian-record-labels.blogspot.com.br/2012_10_01_archive.html

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Curiosamente, para o carnaval do ano seguinte, Cauby Peixoto gravou uma música com nome semelhante, “A onda do jacaré”, mas com letra distinta, da autoria de Oldemar Magalhães (disponível aqui: https://www.youtube.com/watch?v=uPbrxMiug-I).

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Carlos Imperial, de fato, não foi o único a perceber o fenômeno dos filmes de praia. Sérgio Murilo também lançou, no mesmo ano e 1964, pela RCA, um compacto com a música “Festa do surf” (disponível aqui http://www.kboing.com.br/sergio-murilo/1-6018461/), depois inserida no álbum SM 1964. Os mais velhos e com mais memória vão lembrar dessa outra canção de Sérgio Murilo, “Broto legal” (https://www.youtube.com/watch?v=LsVj59nuOAc).

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Em 1968, os Versáteis lançaram, pela Artistas Unidos, a instrumental “Mexican surf” (disponível em https://www.youtube.com/watch?v=0_C0qiC_gi8 , a partir de 2 minutos e 50 segundos). Mas no âmbito do rock instrumental, merece mesmo destaque uma das grandes bandas do Brasil, The Jordans, que em 1964 gravou, pela Copacabana, “Surfin’ with The Jordans”, álbum com 12 faixas (disponível em http://www.last.fm/pt/music/The+Jordans/Surfin’+With+The+Jordans). É possível dizer que esse foi mesmo o grupo pioneiro mais identificado com a surf music. Em 2002, Os Jordans se reuniram de novo e lançaram um álbum chamado Geração Surf, disponível aqui: http://freedbcd.net/misc/4a0ee518/

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Sabemos que, na década de 1960, o esporte das pranchas já dava seus primeiros passos na cidade (junto com os camaradas Cléber Dias e Rafael Fortes, escrevi um artigo sobre o tema, disponível em http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/3669), mas, de fato, a consolidação de um mercado ao redor do surfe parece ter mesmo se delineado claramente nos anos 1980 (ver a bela tese de doutorado do amigo Rafael Fortes, disponível em https://rafaelfortes.files.wordpress.com/2006/12/o-surfe-nas-ondas-da-midia-um-estudo-de-fluir-nos-anos-1980-versao-sem-imagens.pdf). De toda forma, esse conjunto de ocorrências da surf music nos anos 1960 chama-nos a atenção para o fato de que o impacto do surfe no Brasil tenha sido, anteriormente, mais intenso do que temos suposto.

Tema para investigação!

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Ginástica e carnaval

13/02/2015

por Victor Andrade de Melo

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No nosso cronograma anual, coube-me escrever o post da segunda de carnaval. Grande injustiça para com um carnavalesco fervoroso!! Como escrever algo decente já inebriado pelas festividades momescas? Como produzir algo pensando nos dias mais felizes do ano que finalmente chegaram depois de insuportáveis mais de 300 dias sem carnaval?

Farei então um post híbrido, meio informação, meio festa! A parte da informação versará sobre os bailes de carnaval em uma sociedade ginástica do século XIX. A festa será celebrada por flashs dos blocos cariocas que mais gosto.

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Vários clubes e sociedades ginásticas promoveram bailes de carnaval no Rio de Janeiro do século XIX. Por exemplo, a Sociedade Francesa, que era bastante festiva e cujos eventos tinham grande repercussão nos jornais fluminenses, promovia festas carnavalescas muito elogiadas. Foi inclusive uma das responsáveis por introduzir na cidade os bailes de máscaras, durante décadas muito apreciados.

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Nenhuma sociedade ginástica ganhou tanto renome no carnaval quanto o Congresso Ginástico Português. Seu formato mais popular e a animação de suas festas marcou época! A agremiação chegou a promover eventos conjuntos com outros grupos de carnaval, como os Fenianos. Como se anunciou em certa ocasião:

Mais uma vez a rapaziada congressista, eterna amiga e aliada do soberano-Zé-povinho, resolveu franquear os confortáveis e luxuosos salões de seu palácio a todos os sexos, idades e condições que constituem o sempre respeitável publico ordeiro e folgazão, para com ele fraternizar nos dois esplêndidos bailes à fantasia (Gazeta de Notícias, 16/2/1879).

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Em todos os carnavais, os eventos do Congresso marcavam lugar na agenda dos foliões. Eram considerados entre os mais animados das festas momescas. João Coelho, em 1885, dedicou um folhetim exclusivamente a um baile à fantasia do clube. O cronista era só elogios: à organização da atividade, à ornamentação do edifício, à qualidade da música e da comida, ao clima agradável e aos modos dos presentes. Curiosamente, apresentações de ginástica integravam a programação dessas festividades, algo improvável nos dias de hoje.

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De fato, com o decorrer do tempo, o clube conseguiu construir uma marca, distinguindo-se do Clube Ginástico: “O Congresso não tem retórica, tem músculos e vive pela elasticidade e fortaleza deles. Há uma coisa que paira mais baixo do que a filosofia, e tem aspirações muito mais modestas – a caridade”. Para o cronista, a agremiação não ficava de braços cruzados esperando privilégios, entabulava iniciativas que uniam o “útil ao agradável”. Por reconhecer os benefícios de sua ação, enviava “um agradecimento sincero de brasileiro patriota ao Congresso Ginástico Português”.

 Curiosamente, a sua vinculação com o carnaval fazia parte do delineamento desse perfil.

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São Cristóvão x Alemanha

18/01/2015

por Alvaro do Cabo

O mundo da ficção futebolística é pouco conhecido e debatido pelos pesquisadores e amantes do esporte mais popular em nosso país.

Apesar de adorar literatura, sou mais um admirador do que especialista, não tenho tido muito tempo para me dedicar a leituras de romances, contos e poesias ultimamente. Neste blog temos a ilustre presença de um desbravador literário oriundo das terras paraibanas, o gigante Edônio.

Sem querer me aventurar na seara analítica do príncipe de João Pessoa, gostaria neste post de compartilhar uma indicação literária e uma divagação reflexiva.

Gozando de merecidas férias com a família, me dediquei a leitura de uma antologia de contos de ficção futebolística organizado pelos pesquisadores da área de Letras do Washington College Shawn Stein e Nícolas Campistí “Por amor a la Pelota: once cracks de la ficcíon futeboléra”.

Primeiramente gostaria de destacar a iniciativa de valorizar a literatura sobre futebol na América Latina escolhendo o idioma espanhol e o gênero de contos. Os autores selecionaram 11 contos que representam os 10 países associados da CONMEBOL, além do tradicional futebol mexicano buscando estabelecer uma conexão identitária e geopolítica através de narrativas em que a paixão pelo futebol é o grande fio condutor.

Relatos de torcedores, disputas amadoras e colegiais, a mercantilização do futebol, e até mesmo um homicídio em pleno gramado em uma partida de veteranos são alguns dos temas presentes entre os autores escolhidos.

Ademais, cada escritor respondeu a um interessante questionário que aborda desde a importância do futebol na sua juventude até a possível relação do esporte com a política, os míticos estilos de jogo o significado da realização da Copa do Mundo de 2014 para o continente.

Curiosamente, o acionamento da memória da Copa ficou presente na minha mente justamente no conto brasileiro de Sergio Sant’ana “a boca do túnel” que foi publicado pela primeira vez em 1982 e confesso que desconhecia sua existência.

O excepcional texto tem como protagonista o veterano técnico da modesta equipe carioca do São Cristóvão, que relata os acontecimentos de uma partida realizada no Maracanã contra uma grande equipe de qualidade técnica muito superior.

Paralelamente aos lances do jogo, o treinador em sua inigualável solidão existencial na boca do túnel divaga sobre a vida e as possibilidades táticas, estéticas e metafísicas do jogo de bola.

A qualidade literária é fascinante e as referências à craques como Pelé, Garrincha, Afonsinho, Sócrates, Reinaldo, Zico, etc, criam um contexto nostálgico do futebol brasileiro que se acentua com a construção mítica do próprio São Cristóvão.

Temas acadêmicos recorrentes como o futebol-espetáculo, a paixão e a ideia de comunidade clubística, a relação entre política e esporte e até a atualmente superada discussão do futebol como ópio do povo aparecem ao longo do texto.

E, no resultado final, qualquer semelhança é mera coincidência. O São Cristóvão apanhou de 7 a 1. O jovem ponta Evilásio marcou o gol de honra da equipe alvinegra. O treinador foi demitido, porém era modesto e sensível. Os moradores do tradicional bairro continuaram sua bucólica rotina: bares abertos, estudantes namorando, o comércio fervilhando em uma paisagem cinza e modorrenta.

A equipe de Figueira de Melo talvez ainda seja conhecida hoje devido ao slogan “aqui nasceu o fenômeno” em referência a breve passagem nos juniores de Ronaldo Nazário ou pelo mais tradicional bar temático de futebol de São Paulo que leva seu nome. O solitário título carioca de 1926 está perdido nas brumas da memória das antigas gerações ou nos livros de estatísticas futebolísticas.

A vida continua, mas como recuperar a honra depois de um 7 a 1. Se para o modesto São Cristóvão é muito difícil, imagina para a soberba seleção da C.B.F.

– REFERÊNCIA

STEIN, Shawn e CAMPISI, Nícolas (orgs). Por amor a la pelota:once cracks de la ficcíon futbolera. Santiago,  Editorial Cuarto Próprio: 2014.

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Futebol e linguagem: o gol como exclamação!

14/07/2013

Por Edônio Alves

Dentro do nosso propósito permanente de relacionar, no espaço desse blog, o futebol com a literatura, voltemos, pois, ao assunto.
Conforme uma sugestiva proposição do historiador Hilário Franco Júnior, o futebol pode ser entendido como uma integral metáfora de várias instâncias do viver humano. Isso porque, em sua abordagem do jogo, ele o compreende como um fenômeno cultural que em última instância se exerce como linguagem; uma linguagem que a nosso ver é irredutível (tem sua autonomia própria) e é imanente (produz efeitos no interior de si mesma), mas também dotada de um potencial de narratividade que força, por isso mesmo, uma aplicação transcendente do seu universo temático.
Explica-se: graças ao fato de nutrir-se de códigos verbais (o vocabulário utilizado por jogadores, torcedores e imprensa para falar do jogo) e também não-verbais (a sua linguagem corporal; como numa dança), o fenômeno do futebol poder ser pensado, segundo ainda Franco Júnior, “como ao mesmo tempo [uma linguagem] natural (correr, fugir, enganar, chutar e pegar fazem parte da história evolutiva da espécie); e artificial – [um conjunto de] regras para organizar a representação moderna desses atos primordiais”.
Neste sentido, ainda na sua compreensão do futebol como sendo uma específica linguagem de fundo gestual, Franco Júnior faz uma sugestiva relação entre este jogo e a linguagem verbal tipicamente humana. Diz ele, nessa direção, que o futebol se constitui numa linguagem porque possui morfologia, semântica e sintaxe próprias, apresentando, no entanto, uma particularidade que lhe é essencial: cada falante é coletivo (o time) e seu discurso construído com material dos vários indivíduos (jogadores) que fazem parte de tal comunidade linguística e que, submetidos à gramática do jogo, desenvolvem roteiro predefinido (tática), porém adaptável às intervenções do interlocutor (o time adversário). Tudo isso – acrescenta o historiador – sob o olhar de muitíssimos outros indivíduos (torcedores), que vêem naquela troca de mensagens, na interatividade daqueles discursos, um sentido que os sensibiliza.
Numa curiosíssima e pertinente teorização comparativa, Hilário Franco Júnior segue traçando as sugestivas relações entre o futebol e a linguagem verbal humana, instrumentalmente transformada numa língua. E já que a unidade básica de todas as línguas é o fonema, conforme sabemos, esta constatação linguística aplica-se perfeitamente ao futebol, segundo ele. “Já comentamos as unidades menores de forma isolada (passe, drible, chute). Lembremos agora de passagem, que a combinação daqueles gestos compõe frases futebolísticas. Uma troca de passes, mesmo na zona defensiva, apenas esperando melhor posicionamento dos jogadores de frente, constitui uma frase ou sentença, ainda que não faça de imediato o discurso avançar. Na classificação funcional das frases, seria uma interrogação”, diz, para concluir mais à frente, que o chute a gol, com a respectiva marcação do tento, nada mais é, no domínio do futebol, do que uma sentença de exclamação, aquela cuja função é exprimir os sentimentos do falante (e de toda a sua comunidade).

“Gol é enunciação emocional”, arremata o historiador.

Pois bem! Leiamos, agora, como uma sugestiva exemplificação prática das teorias expostas pelo nosso Franco Júnior, esse conto de futebol do escritor Salim Miguel, que nasceu em Kfarsouroun, Líbano, em 30 de janeiro de 1924, mas há muito tempo reside em Florianópolis, Santa Catarina. A narrativa intitula-se O gol e é exposta pelo narrador de modo a figurar, através da sua linguagem-motivo, a própria jogada-tema. Vejamos:

O gol

Salim Miguel

Texto de cunho pitoresco que narra, no provável tempo da própria jogada, o momento crucial do futebol: um gol. Narrativa curtíssima, portanto, e sem muitas implicações de caráter estético a não ser o válido intuito de contar ficcionalmente os quinze minutos de glória de um personagem até então desconhecido, mas que entra em campo e faz o que se espera (ou talvez o que não se espera) dele, o filho do seu Zé.

A destacar apenas o tratamento dado pelo escritor Salim Miguel aos narradores do rádio que, assim como os ficcionistas de plantão, têm o poder de tornar mito, lenda, epopeia…, o simples ato de se jogar bola com os pés e com isso enfatizar o poder do elemento lúdico na constituição das culturas humanas. Para isso, a narrativa é conduzida num bate-bola entre o seu narrador propriamente dito e o narrador radiofônico, que dá a ela o tom pitoresco requerido para o causo. Confiramos isso, num trecho único que literalmente encerra o verdadeiro mitema em que se torna o chute-gol do filho do seu Zé:

“Pela potência do chute certeiro, ficou sendo conhecido (expressão utilizada pelo locutor e logo incorporada) como ‘coice de mula’, pouco importando que a rede estivesse podre”.

Pronto, alcançado aqui o melhor tento desta estória curta sobre futebol: o tornar permanente sob a guarda da palavra estética um feito dispersivo e de caráter efêmero que é uma jogada-gol.

O AUTOR:
Salim Miguel é romancista, contista, poeta, ensaísta crítico e jornalista. Integrou o movimento modernista catarinense Grupo Sul, nas décadas de 1940 e 1950. Entre os seus romances, destacam-se NUR na escuridão em quinta edição pela Record, e A voz submersa – este último, reeditado em 2007 pela mesma editora. O livro mais recente desse autor é o volume O sabor da fome, coletânea de contos que promove a união dos seus dois extremos estilísticos: uma prosa mais solene, rígida, e uma escrita ágil, que reproduz a fala coloquial dos seus personagens. Dessa segunda fase é, com efeito, esse seu conto de futebol, O gol, que está incluso na coletânea, Contos brasileiros de futebol, organizada em 2005 por Cyro de Matos, sob os auspícios da Editora LGE, de Brasília.

VER TAMBÉM:
FRANCO JUNIOR, Hilário. A dança dos deuses: futebol, sociedade, cultura. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.


No último minuto – futebol e invenção

19/03/2013

Por Edônio Alves

A nossa proposta de estudar (ou discutir) a arte da literatura quando vinculada à arte do futebol – propósito da minha gratificante participação neste blog – tem considerado vários aspectos técnicos destes dois campos de expressão humanos. Desde a relação mais direta entre a bola e a palavra por meio da perspectiva lúdica em que tanto o jogador de futebol como o escritor se irmanam na maneira de criar ou produzir beleza até as formas diferenciadas com que cada um deles maneja o material de que dispõe para tocar a sua arte – a instauração da realidade ficcional por parte de um e a peripécia fugidia inventada pelo contato do corpo com a bola por parte do outro – tudo, mas tudo mesmo, nesse campo, se estabelece como que realizado pelo poder radiante da invenção. Ou da inventividade, por assim dizer. É isso que vamos conferir, precisamente, nesse conto de futebol do escritor carioca, Sergio Sant’ anna, um verdadeiro craque na arte da invenção literária. Sant’ anna talvez seja o nosso “Neymar” da literatura brasileira contemporânea, tão amplo é o seu repertório de jogadas geniais com a palavra ficcional. Um daqueles craques para quem a palavra – assim como a bola, tornada tema literário – se entrega sem receio e sem reservas como a pedir que lhe chutem em direção à meta, ao gol, ou mesmo ao agrado de uma firula ou de um drible desconcertante dado na cara do adversário. A bola a qui é a palavra e o jogador aqui é o nosso Sérgio Sant’ anna que a domina como poucos, no campo da literatura. É só conferir o que eu estou dizendo lendo o texto abaixo, uma análise comentada, feita por mim,  de um dos seus contos futeblísticos mais geniais.

x.x.x

No último minuto

Sérgio Sant´anna

Este é um texto ficcional muito inventivo que revela o domínio das formas de narrar em ficção e que se debruça sobre aspectos relevantes do futebol quando entendido como metáfora lingüística da vida em alguns dos seus aspectos essenciais. O elemento do imponderável, presente tanto na vida quanto no jogo; a força das circunstâncias na definição de situações que parecem revelar certa autonomia dos objetos sobre os seres; a impotência destes diante de fatos consumados que informam a existência; a sensação de um tempo decisivo na configuração de estados sem volta na permanente mudança dos entes e das coisas são, enfim, alguns desses aspectos colocados em pauta por esta história.

Mais uma vez a linguagem televisiva é requisitada como elemento formal e o que sobressai nessa narrativa, por conseguinte, é a capacidade que a televisão tem de potencializar os efeitos dos fatos decorridos sobre a consciência e o psiquismo dos que deles participam. Seja diretamente, ampliando a repercussão desses efeitos no íntimo dos seus protagonistas; seja indiretamente, reapresentando para nós espectadores (e, agora, leitores) dimensões múltiplas desses fatos em função da sua recorrente e sistemática repetição através das imagens que os configuram – passam e repassam – nesses tempos de modernidade.

O caso aqui é o de um goleiro que conta a história de um lance imprevisto que o envolveu numa partida de final de campeonato e que, justamente por ser previsível o seu desenrolar, torna imprevisíveis e duros os impactos do seu desfecho no âmbito humano desse jogador de futebol. A história nada mais é do que o reviver, por parte do goleiro personagem e narrador, o drama em que tomou parte e que, dadas as circunstâncias do seu momento decisivo, tenta, por este recurso narrativo, compreendê-lo no que ele tem de mais incompreensível e de imponderável.

“Canal 5”.

Começa assim a narrativa.

“É uma rebatida de defesa deles. A bola vem alta e cai pro Breno, nosso médio-apoiador. Ele a mata no peito, põe no chão e aí perde o domínio da pelota. Mas ninguém vai se lembrar disso: que a primeira falha foi do Breno. A bola fica, então, para o meia-armador deles: o Luiz Henrique. É o momento do desespero, o último minuto”.

Esse trecho, explique-se – como, ademais, todos os que vão ser transcritos aqui – é a descrição, pelo narrador, do lance capital que protagonizou e a que ele assiste depois pelas câmeras de TV de um dos canais que o transmitiram. Note-se o recurso da descrição imagética da TV como a conferir objetividade plena a algo que, no interior do personagem-narrador, é vivido de forma intensamente subjetiva.

“(…) É um chute rasteiro, um centro chocho… E eu grito: ‘deixa’. Eu fechei o ângulo direitinho e caio na bola. Eu sinto a bola nos meus braços e no peito. E sei que a torcida vai gritar e aplaudir, desabafando o nervosismo, naquele último ataque do jogo. Eu tenho a bola segura com firmeza no meu peito e, de repente, sinto aquele vazio no corpo. Eu estou agarrando o ar. A bola escapando e penetrando bem de mansinho no gol. A bola não chega nem alcançar a rede; ela fica paradinha ali…, depois da linha fatal.”

Como a não acreditar no que acontecera, tudo é literalmente repassado pelo narrador outra vez, agora através de um utilíssimo recurso da televisão.

“EM CÂMARA LENTA”.

“(…) O ponta esquerda deles, o Canhotinho, está tão longe da bola que parece impossível que consiga alcançá-la. (…) O passe foi tão longo [refere-se ao passe que o adversário Luiz Henrique fizera a esmo: ‘É um desses lançamentos de araques na afobação de fim de jogo, só pra ver o que acontece’] que mesmo em vídeo-tape, já sabendo do jogo, a gente custa a se convencer que ele chegará a tempo de tocar na bola. Então me vem agora, essa sensação absurda de que ainda pode acontecer tudo diferente, e corrigir minha falha”

Para conseguir um efeito cumulativo do seu drama – efeito que vai se ampliando à medida que a história avança –, o narrador conclui assim, a descrição do que via pelo canal 5: “E agarrei a bola, ela está segura nos meus braços e no meu peito. Nós vamos ser campeões. Eles param o tape só para mostrar isso: como eu estou tranqüilo com a bola. Neste instante, nós ainda somos campeões do Brasil”.

Os trechos seguintes da narrativa fazem a ligação entre a sua dimensão puramente intrínseca ao futebol e a repercussão humana, já, do ocorrido. Daí ser funcionalmente interessante, o narrador mudar a sua perspectiva de visão através da mudança do canal de TV.

“CANAL 3”.

“São vinte e dois minutos do primeiro tempo. Minha mulher senta ao meu lado e diz pra eu desligar a televisão e me esquecer daquilo tudo. ‘Amanhã é outro dia’, Ela diz. Amanhã é outro dia, eu penso. Eu vou sair na rua e ver o meu retrato em todos os jornais dependurados nas bancas: eu me preparando para defender aquele chute; eu com a bola nas mãos; eu com a bola perdida e já entrando no gol. Eu, o culpado da derrota. Eu, frangueiro, se não falarem pior: que eu estava vendido.”

“Quando vai começar o segundo tempo, minha mulher aperta a minha mão e fica me olhando assim meio de lado. Eu digo para ela ir dormir, não quero a piedade de ninguém”.

“O tempo passando, minuto por minuto. Eu ouço aquele barulho todo da torcida e é incrível como a alegria pode se transformar em tristeza tão de repente. Eu penso, também, como a vida se decide às vezes num centímetro de espaço ou numa fração de segundos. E me volta aquela loucura, a sensação de poder modificar um destino já cumprido, fazer tudo diferente. Ir naquela bola de outro jeito, espalmá-la para corner, mesmo sem necessidade”.

Novamente o recurso da câmara lenta e do vídeo-tape para intensificar ainda mais a sensação do drama vivido e, diante do incompreensível, tentar compreendê-lo ao divisá-lo sob os mais diferentes ângulos:

“Tape parado: Eu estou com a bola segura e escondida nos braços e sob o corpo”.

“Tape rodando lentamente: a gente percebe, a princípio, apenas que a bola se deformou: ela parece um ovo, com a ponta aparecendo entre os meus braços. É como se a bola inchasse e por isso se despregando do meu corpo e escorrendo mansamente pela grama. Até parar, caprichosamente, um pouco depois da linha fatal”

“POR DETRÁS DO GOL: No meio daquele inferno todo, eu me viro para trás e estou de cabeça baixa diante dos fotógrafos e cinegrafistas. Eu tenho vontade que o mundo desapareça ao meu redor. O mundo não desaparece. Eu cubro o rosto com as mãos e é assim que aquela câmera me focaliza. Eu cubro o rosto com as mãos aqui sentado diante do televisor, que me mostra cobrindo o rosto com as mãos lá dentro do gramado”.

Aqui fica concluída a mixagem dos três planos que envolvem a ocorrência vivida pelo personagem-narrador: o do jogo em si, quando o goleiro constata desolado o gol improvável que tomou; o do homem em jogo, quando ele sente o impacto do fato sobre os seus ombros e reage impotente, literalmente indefeso, e do jogo espetáculo, quando sua dor subjetiva é mostrada objetivamente pelas impiedosas objetivas das câmeras de TV.

Daí que o narrador, para ressaltar todos esses elementos envolvidos num jogo de futebol moderno, e para compor uma mimese adequada a sua transfiguração pela palavra literária, tenha inteligentemente escolhido o suporte da linguagem da televisão e com ela fixado a maneira pela qual, através da lógica do espetáculo, um momento que é de experiência individual, torna-se de vivência coletiva.

E para expandir ainda mais o âmbito de repercussão da sua falha de goleiro, e com isso expor mais precisamente a dimensão da sua dor interior, o narrador encerra a sua história a partir de mais um ângulo de observação em que a imagem cede lugar ao som, como a evidenciar, para o caso narrado, a eficácia da natureza tátil do veículo televisão, conforme preconizava deste meio de comunicação, o pensador Marshal McLuhan.*

O recurso de tirar partido do efeito cumulativo é o mesmo com as repetições da cena capital levadas ao paroxismo.

“CANAL 8 – Eles abriram os microfones e a gente escuta nitidamente os gritos da nossa torcida: ‘É campeão, é campeão’. Um grito que ecoará durante a noite inteira na cidade. Só que a torcida adversária que irá comemorar. ‘É campeão, é campeão’, o grito apenas mudando de um lado para o outro das arquibancadas”.

(…)

“EM CÂMERA LENTA – (…) Eles voltam à câmara uma porção de vezes. Aquela bola que sai de dentro do gol e volta aos meus braços e daí ao Canhotinho e dele de volta ao Luiz Henrique. Aquela bola que sai de novo dos pés de Luiz Henrique e rola para a ponta esquerda e até a linha de fundo, onde o Canhotinho bate nela todo torto e de esquerda e daí aos meus braços e depois para dentro do gol”.

“Eles repassam uma porção de vezes a jogada. (…) Como se fosse repetir-se para sempre, igual a um pesadelo”.

De temática simples, um evento relativamente comum em jogos de futebol (o lance em que o goleiro é traído pela bola, deixando passar um gol que todos – inclusive ele – asseguravam defendido: o chamado “gol frango”), o grande lance desse conto de Sérgio Sant´anna é a forma de narrá-lo. Um caso típico em que a forma ilumina o conteúdo. Conteúdo esse, o leitor pôde notar, tecido aqui por uma fabulação que é ela mesma rica em significados extras, e que por conseqüência disso salta da categoria de um mero evento de jogo para a dimensão de um daqueles pequenos dramas humanos que, mais do que as câmaras de TV, só as lentes da boa literatura sabem captar.

QUEM É O AUTOR:

Sérgio Sant’Anna nasceu no Rio de Janeiro, em 30 de outubro de 1941. É contista, romancista e poeta. Sua obra é notória pelo caráter experimental, abordando temas urbanos de várias formas diferentes, algumas bastante transgressivas e inovadoras. Embora já tenha publicado poesia, peças de teatro, novelas e romances, Sant’anna se considera primeiramente um contista. Seu romance mais célebre é As Confissões de Ralfo, publicado em 1975. O livro é a história de um escritor que decide escrever uma “autobiografia imaginária”, narrando vários fatos extraordinários numa sucessão inverossímil. Além de O sobrevivente (1969), publicou Notas de Manfredo Rangel, repórter – A respeito de Kramer (1973), Simulacros (1977), O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (1982), Amazona (1986), Senhorita Simpson (1989), Breve história do espírito (1991), O monstro (1994) e Contos e novelas reunidos (1997). Ganhou por duas vezes o prêmio Jabuti e também, por duas vezes, foi agraciado com o prêmio Status de Literatura. A narrativa, acima, No último minuto foi publicada, no livro, Contos brasileiros de futebol, editado em 2005, por Cyro de Matos, sob os auspícios da Editora LGE, de Brasília, e 22 contistas em campo, reunião de textos organizada por Flávio Moreira da Costa e publicada pela Ediouro, do Rio de Janeiro, em 2006.


O futebol de salão na literatura

18/11/2012

Por Edônio Alves

Em homenagem ao heptacameponato mundial de futebol de salão conquistado ontem, na Tailândia, pela Seleção Brasileira da modalidade, trago a este blog, dentro daquela nossa proposta de relacionar sempre o futebol com a arte da literatura, a análise de um conto de ficção em que este esporte figura como tema central. Dententor de uma hegemonia inquestionável no futebol de salão do planeta, o Brasil – como se não bastasse ter ganho sete vezes a taça mundial -, ostenta ainda o privilégio de possuir o maior jogador de futebol da modalidade, o nosso Falcão, que acaba de disputar a sua última Copa do Mundo pela seleção canarinho. A narrativa que segue, analisada em seus detalhes literários e estéticos – e porque não dizer técnico e táticos – trata da figura do goleiro no futsal, um personagem do futebol sempre rico em caracteres humanos e esportivos. Boa leitura!

Homem vestido de negro

Lourenço Cazarré

 Como já antecipamos acima, esta narrativa tem como objeto o futebol de salão e como tema o talento e a figura de um goleiro virtuose na sua função debaixo das traves. É narrada em primeira pessoa para um interlocutor virtual inominado a quem outro goleiro confessa sua admiração pelo mestre que certa vez enfrentou sem sucesso. Desta feita, a figura do goleiro é heroicizada utilizando-se para isso um recurso narrativo adequado: o solilóquio – tipo de diálogo sempre útil por meio do qual uma personagem pode expressar para outra, com a verossimilhança da sinceridade testemunhada, as suas impressões sobre as coisas e os seres deste mundo.

Isso pode ser visto já no início do conto quando a história principia com a resposta a uma pergunta virtualmente feita pelo interlocutor do narrador que, a partir daí, toma a palavra numa conversa em primeira pessoa: “A melhor partida? Sei lá! Foram tantas”.

E a prosa continua, em ritmo de papo informal com o relato que segue, em seus momentos principais:

“Ah, tem uma! Aquela foi inesquecível: jogamos contra uns caras que trabalhavam num matadouro. Uma noite infernal.

Foi assim”.

Com esse gancho dêitico, o narrador continua o relato esmerando-se em apresentar as circunstâncias de tempo e de espaço em que a tal partida se desenrolara, numa tarde-noite de muito calor em certo dia, no ginásio da cidade. Os pormenores da atmosfera pesada do clima e sua influência sobre a fisiologia humana são realçados ao máximo como pretexto funcional para que se apresente ao leitor as características daquela variante do jogo de futebol, o futebol de salão, ou futsal, como a modalidade é hoje mais conhecida:

“Ah, sim, claro, estou falando aqui é de futebol de salão e não desse negócio sem graça que é o futebol de campo. Estou falando de um jogo que é disputado numa quadra de cimento liso por caras que correm feito loucos, que trombam e caem a todo instante porque o campo é pequeno e a velocidade deles é tremenda. Caem e levantam no mesmo instante. Não tem aquela moleza do futebol de campo, com o sujeito se rebolando na grama só para engabelar o juiz”.

E a comparação entre os dois tipos de futebol não pára por aí. Prossegue com o intuito claro de supervalorizar o futsal em oposição ao congênere dos gramados – como, aliás, costumam fazer muitos dos amantes do jogo de futebol em geral – que, com efeito, quaisquer que sejam suas condições de prática, se na rua ou nos estádios, nas praias ou nas quadras fechadas, é o mesmo, no geral, para os goleiros. É aqui, pois, que o narrador introduz habilmente, sugestivamente, sorrateiramente, na conversa, o tema da sua história:

“De repente, o Magro me bateu no ombro e disse:

– Eu é que não queria estar na tua pele: vestir camiseta de goleiro com este baita calor!”

Pronto, está dada a deixa para a figura do goleiro entrar na narrativa como seu tema principal. E mais: com toda a sua carga de personagem um tanto marginal, mescla de herói e anti-herói, um tanto síntese ambígua e polissêmica (por isso, um tanto polêmica) de salvador e de vilão em meio à plataforma estrutural e comunicativa do jogo de futebol. E para demonstrar a sua capacidade criativa, no que tange à construção de estórias curtas de cunho ficcional tematizando o jogo da bola, o escritor Lourenço Cazarré aproveita-se da estrutura do conto – sempre curto, otimizado ao máximo em seus recursos expressivos – e com apenas dois diálogos sintetiza o universo funcional sempre controverso do goleiro; tanto no contexto do jogo como no da trama, simultaneamente:

“- Jogar no gol é moleza – continuou o magro. – Goleiro fica o tempo todo parado.

– Parado não quer dizer descansado – retruquei”.

E arremata (ele, o narrador) com essa: “Não se podia dar muita conversa ao magro. Ele vivia sempre tentando arranjar uma discussão”.

Segue agora, depois de um papo de vestiário entre os colegas de time, o momento em que o Magro, companheiro de clube, coloca em cena o personagem central do conto:

“- O pior para nós é o goleiro deles…”

Após o esclarecimento de quem se tratava, o narrador é taxativo:

“- Claro – eu disse. – Não vai dá pra nós. Ninguém mete gol nele”.

A narrativa, então, muda de tom, vazada agora num viés mais intimista, quase confessional. É o momento em que o relato torna-se memorialístico, com as reminiscências infantis do personagem-narrador moldando com uma espécie de ternura apaixonada um retrato pouco comum da figura dos goleiros em narrativas de futebol:

“Quando eu era pequeno, nas noites de sábado, meu pai me levava para assistir às partidas do campeonato de futebol de salão da cidade. No início eu não prestava muita atenção nos jogos porque, a todo instante, meus olhos se voltavam para os homens debaixo das traves. Eu era fascinado pelos goleiros. Torcia por eles, vibrava quando um deles, qualquer um, fazia uma defesa. Achava meio estúpido aquilo de correr atrás da bola. O legal era ficar debaixo do gol, esperando o ataque”, registra com saudade.

Uma digressão que não retarda o texto, mas, muito ao contrário, serve para adiantar o ponto nodal da trama, a configuração prosoprográfica do seu personagem nuclear, é utilizada para além disso, para encenar uma representação social muito comumente colada às emblemáticas e fascinantes figuras dos goleiros de futebol:

“Dentre os goleiros, o meu preferido era o Catofe. Não só porque ele era o melhor, e ele era de longe o melhor, mas principalmente porque era o mais elegante. Sempre impecável. Alto, magro, só se vestia de negro: tênis, meias, luvas, calção e camiseta. Até as joelheiras eram negras! Estava sempre bem penteado: o cabelo loiro besuntado de brilhantina, repartido no lado por uma risca perfeita”.

A digressão então se encerra com uma chave retórica típica: “Está bem, volto ao jogo que lhe contava”.

E a história caminha para o seu final com o narrador explicando, antes, como fora a partida: o entrosamento antigo do seu time que de nada servira, embora tenham jogado uma barbaridade; as qualidades do seu principal jogador, o Boca, que chutava muito bem etc., e uma conjectura que lhe viera à cabeça sobre a filosofia pragmática do esporte.

“No futebol de salão, ganha quem erra menos. O sujeito não pode chegar um milésimo de segundo atrasado. Todo erro é fatal. É jogo de paciência, de espera. Pra ganhar é preciso acertar quando o adversário erra. É como na vida, o sujeito só sobe quando o outro falseia a passada”.

Em momento algum, portanto, o grande goleiro falseou a passada porque o time do narrador desta história não venceu aquele jogo.

“E por que isso?, se pergunta, a certa altura.

“Ora, por causa daquele goleiro, o goleiro do time do matadouro de porcos, o alemão velho, o que chamavam Catofe”, responde a si mesmo, para logo em seguida confessar ao seu interlocutor oculto:

“Quando terminou a partida, saí correndo do meu gol, comovido. Atravessei a quadra, abracei o Catofe pelos joelhos e levantei ele. Ele ficou meio espantado com aquilo porque há muito tempo não tinha mais fãs. Mas, depois, passou a mão pelos meus cabelos e disse:

– Valeu Guri!”

Isso porque o narrador registra que ele pegou todas. Que guarnecia o gol inteiro, porque sempre, com uma perna ou um braço, ele mudava a trajetória da bola, viesse ela de onde viesse. Enfim, que o goleiro fechou o gol.

Essa, todavia – esse “Valeu guri”-, é a expressão-chave da história, o seu fecho de ouro, porque logo mais à frente, o narrador conclui, emocionado:

“Como lhe disse, daquela época para cá, joguei centenas de partidas. Esqueço todas, nem contos os gols. Mas aquele zero a zero com os caras do matadouro não consigo esquecer. Até hoje eu ainda me lembro da leveza do corpo magro dele. Vejo o espanto nos olhos dele. Sinto o peso da mão dele, enluvada, na minha cabeça. Escuto a sua voz rouca me dizendo:

– Valeu, guri”.

PARA SABER MAIS:

Lourenço Cazarré, o autor da história acima, nasceu em Pelotas (RS) em 29 de julho de 1953. Desde 1981, ano em que saiu seu primeiro livro, Agosto, sexta-feira, treze, este escritor e jornalista gaúcho já teve mais de duas dezenas de obras publicadas. Grande contista brasileiro, conquistou o Prêmio Açorianos de Literatura, na categoria Contos, em 2002, com Ilhados. Esteve presente por duas vezes na Bienal Nestlé de Literatura, em 1982 e 1984; no Prêmio Jabuti, em 1999 e em mais de uma dezena de outros concursos. Sua novela, O mistério da obra-prima, foi traduzida para o espanhol e editada pela Fondo de Cultura Económica, do México. Entre sua obra infanto-juvenuil destacam-se os livros, Clube dos leitores e histórias tristes, A cidade dos ratos: uma ópera-roque, Quem matou o mestre de matemática? e Nadando contra a morte, que levou o Prêmio Jabuti de 1999. O conto, O homemvestido de negro, foi publicada na coletânea, 11 Histórias de futebol, integrante da Coleção Prosa Presente, da Editora Nova Alexandria, de São Paulo, que saiu em 2006.