A surf music dos anos 1960 e a exaltação da Califórnia (1)

05/04/2021

Por Rafael Fortes (rafael.soares@unirio.br)

Nas pesquisas sobre história da mídia esportiva que venho desenvolvendo utilizando revistas de surfe estrangeiras e brasileiras publicadas ao longo das décadas de 1970 e 1980, assim como em outras fontes com as quais tive contato, há recorrentes referências à expressão surf music.

No livro Surfing About Music, o antropólogo Timothy Cooley se refere a surf music no sentido que a expressão ganhou e mantém nos EUA: abrange músicas da primeira metade dos anos 1960, tanto de rock instrumental (a la Dick Dale & His Del-Tones, cuja música Misirlou ganhou renovada popularidade na década de 1990 com o filme Pulp Fiction – Tempo de Violência, de Quentin Tarantino) como cantadas (a la The Beach Boys e Jan and Dean). Esse uso também aparece na obra de outros autores. E, por exemplo, compõe a seleção musical de um “canal” chamado Surf Sounds numa plataforma de música online gratuita que uso, Accuradio. Nos anos 1960, houve iniciativas no Brasil relativas a esta vertente, conforme discorreu Victor Melo aqui neste blogue sobre   o caso de Carlos Imperial.

No Brasil, surf music pode se referir a mais do que isto. Lembro-me de ter gravado em fita cassete, na primeira metade dos anos 1990 – por volta de 1992 ou 1993 –, um “especial de surf music” que foi ao ar numa tarde ou noite de domingo numa ótima rádio que existia à época, a Universidade FM, nos 107,9 MHz. O programa era composto por músicas de bandas como Midnight Oil, Hoodoo Gurus, Australian Crawl e V Spy V Spy, entre outras. Havia uma predominância de bandas australianas – as quatro que citei eram de lá. (Já escrevi sobre o hábito de gravar fitas K7 e sobre essa noção de surf music, rádio e segmentos da juventude). Devo ter ouvido aquela fita centenas de vezes ao longo dos anos.

Golden State, Golden Youth – The California Image in Popular Culture, 1955-1966. Livro de Kirse Granat May publicado em 2002. Imagem da capa extraída do site da editora da obra.

De acordo com o argumento de Kirse Granat May (2002), entre 1955 e 1966 construiu-se na cultura popular dos EUA um imaginário potente e positivo sobre a Califórnia. O estado e seu modo de vida – ou melhor, a representação midiática estereotipada de um estilo de vida da juventude branca de classe média que vivia na faixa litorânea – tornaram-se referência para famílias em todo o país. A expansão da corporação Disney (incluindo a inauguração e o estrondoso sucesso do parque de diversões Disneylândia, em 1955, em Anaheim, no sul do estado), a ascensão do ex-ator hollywoodiano Ronald Reagan a liderança política importante (tomando posse como governador em 1967; posteriormente, foi eleito duas vezes presidente do país em 1980 e 1984) e a disseminação do surfe e de um estilo de vida associado a ele são três entre os muitos elementos deste processo abordados no livro (imagem da capa acima).

Até ler a obra de May, eu ignorava que um dos principais motivos para o sucesso da surf music foi o fato de ser feita na Califórnia, por artistas californianos (ou que para lá se mudaram) e tematizar o estado e seus habitantes. Apesar de conhecer as íntimas ligações da surf music com a Califórnia, não sabia que sua ascensão integrou de um contexto amplo em que muitos outros elementos associados àquele estado fizeram sucesso e tornaram-se moda nos EUA.

A maioria dos surfistas considerava tais representações na música e no cinema estereotipadas, erradas e irrepresentativas da cultura do surfe. Muitos ficaram enfurecidos com elas e, pior, com os efeitos sociais delas: levas e levas de novos turistas, banhistas e surfistas iniciantes que enchiam as praias californianas a cada verão e, em menor escala, nos períodos de recesso escolar, férias e feriados prolongados. Contudo, conforme acontece na maioria dos casos, quando observamos mais de perto o fenômeno, percebemos muitos tons de cinza, e não apenas preto e branco.

Tomemos, por exemplo, um filme como Quanto mais músculos, melhor (Muscle Beach Party, de 1964), parte da onda de filmes de festa na praia produzidos pela companhia cinematográfica AIP (American International Pictures) e malhados como Judas por boa parte dos surfistas e pelas próprias revistas de surfe. A película conta com participação, em várias cenas e sequências, de Dick Dale & His Del-Tones. Ou seja, aquele que ficou conhecido como “pai da surf music” e era venerado por muitos surfistas aparece num filme considerado negativo e estereotipado. (Curiosidade: há também a participação de um jovem cantor chamado Stevie Little Wonder.)

Da mesma forma, um dos que atuam como dublês nas cenas de surfe é Mickey Dora, um dos surfistas mais famosos da Califórnia naquela década. Até aí, nada demais. Ocorre que Dora era um crítico ferrenho da comercialização do esporte e nutria grande raiva pelo aumento do número de pessoas com pranchas na praia que considerava seu quintal, Malibu. Frequentemente lidava com o problema derrubando os surfistas de suas pranchas ou batendo neles. Esta a contradição entre tais atitudes e o trabalho como figurante e/ou dublê em cenas de praia e surfe em filmes comerciais é apontada no verbete sobre Dora na Enclopédia do Surfe de Matt Warshaw.

[Continua…]

Para saber mais

COOLEY, Timothy J. Surfing About Music. Berkeley: University of California Press, 2014.

LADERMAN, Scott. Empire In Waves: A Political History of Surfing. Berkeley: University of California Press, 2014. (Especialmente o capítulo 2)

MAY, Kirse Granat. Golden State, Golden Youth: The California Image in Popular Culture, 1955-1966. Chapel Hill, London: The University of North Carolina Press, 2002.


Um encontro entre futebol e surfe na Copa do Mundo de 2010 (África do Sul)

23/11/2020

Por Rafael Fortes

Este texto sintetiza uma parte das discussões presentes em trabalho apresentado no grupo de pesquisa Comunicação e Esporte e publicado nos anais do 42o. Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, organizado pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) em Belém (PA).

Afrika (2011) é um filme dirigido por Thomas Mulcaire e Ricardo de Oliveira e está disponível na íntegra no link abaixo:

O filme contou com patrocínio de empresas e fundos voltados para o fomento às artes.

Rodado ao longo de 2010 em Moçambique e na África do Sul, narra uma viagem de quatro surfistas brasileiros pelos dois países. O primeiro aparece rapidamente, sendo a maior parte do tempo dedicado ao último. Identifiquei onze cenas ou sequências com alguma referência ao futebol. A maioria delas é bastante fugaz: uma bola de futebol ao lado de uma prancha sobre a areia da praia ou um take mostrando uma roda de homens brincando  de altinha. Esta atividade, que consiste em duas ou mais pessoas trocarem passes com uma bola de futebol sem deixá-la tocar o chão, é bastante comum em praias do litoral brasileiro – no Rio de Janeiro e noutros estados -, inclusive naquelas muito frequentadas por surfistas. Cenas semelhantes – e de partidas de golzinho – aparecem esporadicamente em filmes brasileiros dedicados ao surfe, tendo, como participantes, os próprios surfistas do país.

Isto sugere algo que pode parecer óbvio, mas que considero válido mencionar: durante o processo de crescimento, enquanto ainda são crianças e adolescentes, a maioria daqueles que serão atletas futuros de uma modalidade (específica) se dedicam a várias delas, seja do ponto de vista do treinamento e competição, seja do ponto de vista da diversão. Tendo em vista a forte presença do futebol no Brasil, não é de surpreender que muitos surfistas tenham crescido batendo uma bolinha e sigam gostando de fazê-lo.

A principal distinção de Afrika em relação à filmografia de surfe, no que diz respeito à presença futebolística, encontra-se na sequência de aproximadamente três minutos em que os surfistas comparecem ao estádio Soccer City, em Joanesburgo, para assistir à partida entre Brasil e Costa do Marfim pela Copa do Mundo de futebol de homens realizada em 2010. O trecho evidencia a pouca familiaridade dos surfistas com o ambiente do estádio de futebol – no caso, particularmente impressionante por se tratar de uma partida de Copa do Mundo envolvendo a seleção brasileira. O barulho das torcidas – evidentes pelo volume do áudio do próprio filme – é um dos elementos que impressionam os protagonistas do filme.

A vitória da seleção brasileira pelo placar de três a um permitiu-lhes experimentar tanto a comemoração de gols, assistir em uma ocasião à celebração entre aqueles que torciam para a seleção marfinesa. Na mesma sequência, aparecem ainda comemorações, batucadas, gritos e cânticos em português, que prosseguem no pós-jogo pela parte externa do estádio e no interior de um ônibus.

Conforme afirmei no artigo:

As sequências no estádio e as comemorações pós-jogo reproduzem elementos do senso comum a respeito de megaeventos esportivos como a Copa do Mundo – por exemplo, a ideia de que são (exclusivamente) ocasião para congraçamento dos povos.[1] Tal visão se expressa também em um item dos “agradecimentos especiais” nos créditos finais: à “Fifa pela Copa do Mundo de 2010”.

Esporte e cinema vêm sendo estimulados por sucessivos governos da África do Sul pós-apartheid como instrumentos para divulgar uma imagem positiva do país no exterior e para incrementar o afluxo de turistas (Fortes, 2014). A realização das Copas do Mundo de rugby em 1995 e de futebol em 2010, bem como a candidatura da Cidade do Cabo para sediar os Jogos Olímpicos de verão de 2004, integram este conjunto de políticas – também observáveis noutros países dos BRICS (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Este contexto é importante para se compreender a realização de um filme como Afrika e, também, a inserção particular dele na filmografia brasileira de surfe.

Referências bibliográficas

FORTES, Rafael. Entre o surfe feminino, a indústria de surfwear e a promoção da África do Sul: uma análise de A Onda dos Sonhos 2. In: FORTES, Rafael; MELO, Victor Andrade de (org.). Comunicação e esporte: reflexões a partir do cinema. Rio de Janeiro: 7 Letras/Faperj, 2014. p. 49-70.

FORTES, Rafael. O futebol num filme de surfe: Afrika, Copa do Mundo e a filmografia sobre esporte. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 42, 2019, Belém. Disponível em: https://portalintercom.org.br/anais/nacional2019/resumos/R14-0019-1.pdf . Acesso em 23 nov. 2020.

Notas

[1] Ignorando-se, por exemplo, os impactos sociais e coletivos sobre setores mais vulneráveis da população devido às políticas públicas de remoções forçadas, conforme discutido e denunciado no documentário Tin Town.


O skate vai ao cinema

23/02/2020

Por: Leonardo Brandão (brandaoleonardo@uol.com.br)

            Muitos ficaram surpresos com o resultado do Oscar 2020 quando viram o anúncio, no dia 09 de fevereiro, da vitória do curta-metragem documental Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl) – Aprendendo a andar de skate em uma zona de guerra (se você é uma menina) – dirigido pela norte-americana Carol Dysinger e com produção de Elena Andreicheva. Este filme, de 39 minutos, retrata um grupo de garotas integrantes do Skateistan, um projeto social (sem fins lucrativos) fundado em 2007 por dois skatistas australianos, Oliver Percovich e Sharna Nolan, os quais tinham como objetivo introduzir o skate como um elemento de ludicidade para crianças e jovens afegãs de bairros pobres e que tiveram suas vidas marcadas pela violência. Esse documentário foi descrito por Orlando von Einsiedel (vencedor do Oscar em 2017 com Os Capacetes Brancos) como um “bonito retrato de esperança, sonhos e superação de medos”.

Figura 1: Cartaz do filme “Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl)”, o qual traz também a informação que o mesmo havia vencido o prêmio de melhor curta-documentário no festival Tribeca no ano de 2019.

Mas não é de hoje, todavia, que existe uma relação muito forte entre cinema e skate. Neste post, iremos categorizar os tipos de filme que o envolvem, diferenciando documentários de filmes feitos por empresas de skate, assim como sua aparição em filmes de grande produção (muitas vezes breve) de seu uso em filmes independentes e realizados com baixo orçamento. Para tanto, elencamos quatro categorias que nos ajudarão a diferenciar esses diversos modos como o skate vem aparecendo nos cinemas e nas telas.

1 – Documentários sobre skate: Além do supracitado Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl), que ganhou a estatueta do Oscar, a prática do skate, e em especial determinados skatistas, vem sendo há tempos retratados em documentários. Um bastante relevante neste quesito é Dogtown and Z-Boys (2001/EUA), dirigido por Stacy Peralta, o qual venceu na categoria melhor diretor no Festival de Sundance em 2001 com esse documentário. O filme retrata a equipe de skatistas Z-Boys, em especial, o modo como eles influenciaram o desenvolvimento dessa atividade durante a década de 1970, e isso tanto no tocante ao estilo corporal (advindo do surfe) quanto na utilização de espaços inusitados para sua prática, como as piscinas vazias (as quais foram posteriormente reproduzidas com rampas de madeira no formato de um grande “U”, dando origem ao skate vertical). Além deles, também podemos citar aqui o reflexivo e trágico Stoked: the rise and fall of Gator (EUA, 2002, dirigido por Helen Stickler) que narra a vida do skatista norte-americano Mark “Gator” Rogowski, um grande expoente do skate vertical durante a década de 1980, mas que, num ato insensato, acabou preso e condenado por 31 anos pelo assassinato da amiga de sua namorada. Numa temática semelhante à de Stoked, o filme documentário Rising Son: The Legend of Skateboarder Christian Hosoi (EUA, 2006, dirigido por Cesario Montaño), buscou reproduzir a complicada trajetória do skatista Christian Hosoi (que junto com Tony Hawk, foi o skatista mais popular da década de 1980). Hosoi, de astro internacional desta prática, chegou a ser preso – por acusação de tráfico de drogas – e ficou durante quatro anos numa prisão federal dos EUA, chamada San Bernardino Central Detention Center.

No Brasil, destacamos o documentário Vidas sobre Rodas (2010), do cineasta paulistano Daniel Baccaro, produzido sob patrocínio de grandes empresas, como Guaraná Antarctica e Banco Bradesco. Exibido em circuitos de cinema alternativos, esse filme baseia-se na trajetória de quatro skatistas (Sandro Dias “Mineirinho”, Lincoln Ueda, Cristiano Mateus e Bob Burnquist) e por meio da biografia desses personagens, também narra aspectos da história do desenvolvimento do skate brasileiro. Na contracapa do DVD deste documentário, encontramos a seguinte descrição: “O filme irá contar a história do skate brasileiro nesses últimos 20 anos, um período marcado pela transição da marginalidade para a chamada fase pop, quando o skate nacional conquista seu espaço na grande mídia e com ele o respeito da sociedade como um todo”.

Figura 2: Cartaz do documentário brasileiro “Vida sobre Rodas” dirigido por Daniel Baccaro e lançado em 2010.

2 – Super produções: Existem muitos filmes de “grande produção” que fizeram uso do skate. Um dos principais exemplos neste sentido é Back to the future (De volta para o futuro), de 1985, do diretor Robert Zemeckis. Na trama, o skate aparece sob os pés do protagonista, interpretado por Michael J. Fox. Na continuação da franquia, com “De volta para o futuro II”, de 1989, a cena com o skate flutuante mexeu com a imaginação de toda uma geração (ver cena retirada do Youtube logo abaixo). Ainda neste mesmo campo de exemplos, podemos citar o longa-metragem Espetacular Homem-Aranha, dirigido por Marc Webb e que estreou no Brasil no ano de 2012. Esse filme retratou a saga do icônico herói dos quadrinhos como sendo ele, antes de tudo, um skatista (nas cenas de skate, o ator Andrew Garfield sedia lugar ao dublê, skatista e também praticante de parkour, Willian Spencer). O Homem-Aranha skatista foi visto por inúmeros espectadores ao redor do mundo e arrecadou uma grande bilheteria.

3 – Filmes independentes: Numa perspectiva menos comercial, existem os filmes de baixo orçamento e feitos por diretores que envolvem a prática do skate com o debate de questões sociais. Um dos mais premiados dessa categoria foi Paranoid Park (2007, EUA, dirigido por Gus Vant Sant), longa que gira em torno de um skatista de 16 anos – interpretado por Gabe Nevins – que acaba matando, acidentalmente, um segurança nas proximidades de uma pista de skate onde pratica. Nesta mesma linha, temos os filmes do diretor Larry Clark. No ano de 1995, Clark dirigiu Kids, filme que se tornou um marco em sua carreira e causou furor ao exibir nos cinemas o cotidiano junkie de um grupo de skatistas de Nova York (alguns dos protagonistas do filme eram, de fato, skatistas bastante atuantes nesta cidade, como Harold Hunter). Embalado por manobras de skate, uso de drogas e recheado de cenas de sexo adolescente, Kids acabou por denunciar a facilidade com que o vírus HIV estava sendo transmitido por uma geração que vivia o presente sem as clássicas perspectivas profissionais de futuro. Outro filme com direção de Larry Clark chama-se “Roqueiros” (Wassup Rockers, EUA, 2005), o qual aborda os problemas causados por um grupo de skatistas – ouvintes de punk rock – de um bairro pobre de Los Angeles que decidem, aleatoriamente, praticar skate numa das áreas mais nobres do condado de Los Angeles, Berverly Hills. Neste filme, além de debater a problemática da apropriação dos espaços urbanos e a repressão policial, Larry Clark também problematiza o contato entre jovens de diferentes classes sociais.

4 – Filmes produzidos por empresas de skate: A emergência desse gênero de filmes, com foco prioritário na execução de manobras de skate, teve início no ano de 1984 com o lançamento de “The Bones Brigade Video Show”, pela empresa Powell Peralta, a qual foi fundada no ano de 1978 por George Powell e Stacy Peralta. Essa marca veio a produzir, nos anos subsequentes, os filmes: Future Primitive (1985), The Search for Animal Chin (1987), Public Domain (1988), Ban This (1989) e Propaganda (1990). Tais filmes, assim como muitos outros que foram produzidos por diferentes companhias de skate, apresentam como objetivo principal exibir a técnica corporal dos skatistas membros de suas equipes, e isso tanto com filmagens realizadas nas ruas quanto em pistas. Por intermédio de tais filmes, nomes (antes desconhecidos) foram divulgados, pequenas marcas tornaram-se famosas e manobras (antes consideradas impossíveis) foram imortalizadas. Nos Estados Unidos, além da já citada Powell Peralta, muitas outras empresas produziram filmes com manobras de skate que se tornaram bastante cultuados. Dentre esses, destaca-se Video Days, produzido pela empresa Blind Skateboards e dirigido por Spike Jonze no ano de 1991. Entre os talentosos skatistas que aparecem neste filme, como Guy Mariano e Marc Gonzales, um deles, chamado Jason Lee, acabou se tornando um comediante festejado em seriados de televisão da NBC, onde fez fama com o engraçado e inusitado My Name is Earl.

Para finalizar esse post, ficamos com a parte do skatista Jason Lee em Video Days, de 1991. Essa parte foi retirada do Youtube e apresenta como trilha sonora as músicas “Real World” da banda Hüsker Dü e a canção “The Knife Song” do Milk.

PARA SABER MAIS

BRANDÃO, Leonardo. Trajetórias do skate no cinema: dos filmes de grande produção ao documentário Dogtown and Z-Boys. In: FORTES, Rafael; MELO, Victor Andrade de. (orgs). Comunicação e Esporte: reflexões a partir do cinema. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014, p. 71 – 86.


O surfe e a diplomacia cultural dos EUA

11/06/2018

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

The Endless Summer (no Brasil, Alegria de Verão), dirigido e produzido por Bruce Brown, é, provavelmente, o filme de surfe mais famoso já feito. A película narra a trajetória de surfistas dos EUA que viajam ao redor do mundo em busca de ondas desconhecidas e do verão sem fim do título. Segundo o historiador Scott Laderman (2014), “gravado em 1963, The Endless Summer percorreu o circuito tradicional dos filmes de surfe em centros culturais públicos e auditórios de escolas secundárias na Califórnia, Havaí, Austrália e África do Sul ao longo dos dois anos subsequentes” (p. 48). Laderman e outros pesquisadores da história do surfe afirmam que o documentário foi fundamental para disseminar a ideia de viajar como um valor positivo dentro da subcultura do surfe. O autor afirma ainda que o filme foi “um dos documentários de maior sucesso em todos os tempos” e que “seu impacto cultural foi profundo”, tendo sido decisivo para dar visibilidade ao surfe ao redor do mundo (p. 49).

Contudo, este texto não é uma resenha de Alegria de Verão ou do livro de Laderman (o que já fiz). Meu objetivo é apresentar a descrição e análise de Lazerman a respeito do seguinte: “(…) de formas que ainda não foram exploradas pelos pesquisadores, The Endless Summer também ilustra como, durante o auge da Guerra Fria, os Estados Unidos vieram a enxergar o surfe como uma arma ideológica em sua cruzada anticomunista, pois, em maio de 1967, anunciou-se que o documentário apareceria, sob patrocínio do Departamento de Estado, no bienal Festival de Cinema de Moscou” (p. 49).

De acordo com o autor, algumas características da trama motivaram a escolha. A elas se aliava a liberdade de viajar demonstrada pelos protagonistas – “diferentemente da maioria daqueles vivendo no bloco soviético” -, o que serviria para evidenciar a superioridade do capitalismo. Havia ainda as tentativas simpáticas de contato face-a-face com populações locais de diferentes continentes, “pintando um retrato dos Estados Unidos como uma potência benevolente e simpática” (p. 50). O filme acabaria sendo cortado do festival por iniciativa de uma entidade representativa dos estúdios de Hollywood (MPAA – Motion Picture Association of America). Após a organização decidir que um único documentário dos EUA seria exibido, a entidade escolheu o documentário indicado pelo estúdio Columbia Pictures, que o produzira, em detrimento do filme independente de Bruce Brown.

Mas “aqueles que estavam a cargo da diplomacia cultural americana deram outra chance ao surfe algum tempo depois. O ano era 1970, o local era o Japão, e o cenário era a primeira exposição universal realizada na Ásia: a Exposição Universal do Japão, ou Expo’70, em Osaka” (p. 51). Documentos oficiais do governo dos EUA consultados pelo autor atestam que a participação na exposição converteu-se em mais um campo de disputas com a União Soviética. A organização ficou a cargo da United States Information Agency (USIA). A exposição do Pavilhão dos EUA foi dividida em sete temas – um deles, “esportes”. “Foi lá, no interior da exibição de esportes, que, até onde tenho conhecimento, o surfe tornou-se, pela primeira vez, assunto oficial da diplomacia cultural dos EUA” (p. 52).

Segundo Laderman, “os organizadores deram ao surfe papel de destaque na exibição” de esportes (p. 53). Havia uma instalação com 13 pranchas produzidas por shapers dos EUA (Dewey Weber, Rick Stoner e Bob White), reprodução de imagens cinematográficas de surfe feitas por Bruce Brown e fotografias de surfistas no Havaí. Segundo Laderman, o surfe moderno fora introduzido no Japão após a Segunda Grande Guerra, a partir da presença de militares estadunidenses. Ressalto que isto não ocorreu apenas no arquipélago japonês. Tal foi o caso, por exemplo, da Andaluzia, na Espanha (Esparza, 2015).

Naquele momento (1970), o surfe já era bastante conhecido no Japão e tinha praticantes em diversas partes do litoral. Tamio Katori, um surfista japonês, visitou mais de uma vez a exposição e “escreveu para as autoridades dos EUA perguntando se ele poderia adquirir as pranchas para seu clube de surfe após o término da exposição” (p. 54). Segundo ele, as pranchas poderiam contribuir para a “amizade entre ambos os países”. Eis como termina o episódio: “Três das 13 pranchas haviam sido emprestadas por Bob White e tinham que ser devolvidas ao shaper de Virginia Beach, mas as outras dez tinham sido adquiridas pela USIA. Para os Estados Unidos, atender à solicitação de Katori seria uma maneira eficiente de descartar objetos volumosos e, ao mesmo tempo, contribuir para a globalização daquele que era, agora, o mais americano dos passatempos prazerosos, além de estimular a amizade transpacífica. Não havia o que pensar. As pranchas foram vendidas” (p. 55).

Laderman destaca dois aspectos neste episódio. Primeiro, as ligações cada vez mais comuns entre o surfe e o “poder norte-americano global” (p. 55), como ficaria evidenciado na circulação de surfistas estadunidenses ao redor do globo, na presença de surfistas militares (ou militares surfistas) em praias de dezenas de países (aproveitando a existência de bases militares, especialmente as numerosas unidades da Marinha no Oceano Pacífico), na circulação de produtos de mídia (surf music, cinema, revistas) e no estabelecimento do inglês como língua-padrão da modalidade. Segundo, a exposição de 70 “ilumina o quanto o surfe, tal qual o Havaí, haviam se tornado naturalizados como, de alguma forma, americanos” (p. 55).

Acrescento um terceiro: a questão da nacionalidade, da identidade nacional e das distintas apropriações (culturais e de outras naturezas) do surfe ao redor do mundo são um tema bastante atual. Em março último, foram divulgados os critérios para classificação dos 40 atletas que disputarão, pela primeira vez, medalhas olímpicas na modalidade. Este ano, os atletas que disputam a divisão principal do Circuito Mundial passaram a competir com bandeiras dos países desenhadas no ombro de seus uniformes (acentuando-se a construção, no âmbito da principal liga de surfe profissional, da associação entre competição individual e nacionalidade) – e pelo menos dois deles (Kanoa Igarashi e Tatiana Weston-Webb) trocaram de nacionalidade, de olho em maiores probabilidades de se qualificarem para competir em Tóquio. Ambos criados e residentes em território estadunidense (ele, na Califórnia; ela, no Havaí) e filhos de pais estrangeiros. Ele passou a competir pelo Japão; ela, pelo Brasil. Com isso, ambos evitam participar da dificílima briga por vaga entre americanos e havaianos.

Bibliografia

ESPARZA, Daniel. Hacia una historia del surf en Andalucía: génesis y consolidación del surf en Cádiz y Málaga. Materiales para la Historia del Deporte, n. 13, p. 47-62, 2015. Disponível em: <http://upo.es/revistas/index.php/materiales_historia_deporte/article/view/1327/1210>. Acesso em 10 jul. 2015.

FORTES, Rafael. Surfe, política e relações internacionais. [Resenha de Empire in Waves]. Topoi, v. 18, n. 35, p. 453-456, abr.-ago. 2017. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/topoi/v18n35/2237-101X-topoi-18-35-00453.pdf . Acesso em 10/6/2018.

LADERMAN, Scott. Empire In Waves: A Political History of Surfing. Berkeley: University of California Press, 2014.


A juventude sônica de Spike Jonze

15/01/2018

Por Leonardo Brandão (brandaoleonardo@uol.com.br)

É com muita alegria que escrevo este primeiro texto para “História(s) do Sport”, blog que já acompanhava há um tempo e que fui convidado para escrever sobre as relações entre história, juventude e esportes radicais. Neste texto inaugural, quero retomar a conversa iniciada pelo Rafael Fortes neste blog, em texto publicado no dia 27/11/2017 e que teve o seguinte título: “Videoclipe como fonte histórica”. Nele, Fortes abordava algumas possibilidades para se compreender o videoclipe, na esteira dos estudos sobre cinema, música e imagens, como mais uma possibilidade de fonte para a história dos esportes, do lazer e dos divertimentos com o corpo.

Pensemos que o videoclipe é algo que envolve a produção, necessariamente, de música com imagens em movimento. De fato, existe uma relação muito rica entre os chamados “esportes radicais” (ou “esportes californianos”) com a música, em especial, com o rock e seus matizes. E essa relação não começou hoje, ela tem uma – ou várias – história(s). Parte dessas histórias podemos observar em determinados videoclipes de bandas que fizeram uso dessas práticas. Esses videoclipes, ainda subutilizados para a pesquisa histórica, podem nos servir como um farto material de análise e reflexão.

Aqui, não pretendo realizar uma análise, mas apenas algumas considerações sobre um videoclipe lançado no ano de 1992. Trata-se do videoclipe da canção “100%”, da banda norte-americana “Sonic Youth”. Além disso, irei trazer algumas informações sobre seu diretor, chamado Spike Jonze. Minha intenção é apenas chamar à atenção para esse videoclipe, para a obra de Spike Jonze e suas relações com o skate. Num futuro breve, talvez isso possa motivar análises e discussões mais consistentes. Primeiramente, entretanto, vamos assistir ao videoclipe:

Sonic Youth foi uma banda formada no ano de 1981 na cidade de Nova York. A proposta musical da banda girou em torno do chamado “rock alternativo”, trazendo elementos do pós-punk e do noise. Um dos seus integrantes marcantes foi sua baixista, Kim Gordon. Ela, filha de um professor de sociologia, formou-se em Artes Plásticas na UCLA (Universidade de Los Angeles). Gordon roubava as cenas nas apresentações da banda, se declarava feminista e surfava nas horas vagas. A música do clipe acima, “100%”, foi lançada no ano de 1992, sendo o primeiro single do álbum “Dirty” (o sétimo do conjunto). Essa música foi escrita em homenagem a Joe Cole, um amigo dos membros da banda, que acabou morto por um homem armado em 1991.

“100%” é uma canção que fala de uma garota que se apaixona por um rapaz sem grana, mas que “mexia com as garotas” e que acabou assassinado. O fato dele não ter grana não era um problema.  Num certo momento de êxtase, a canção diz: “All I know is you got no money but that’s got nothing to do with a good time” (“tudo o que sei é que você não tem dinheiro, mas isso não tem nada a ver com um tempo bom”). E, neste momento do vídeo, um skatista olha para a sua carteira vazia, sem dinheiro, mas com um sorriso nos lábios, e continua a andar de skate pela cidade.

Mas o que vemos sobre skate neste videoclipe? Simplesmente boas manobras pela cidade. Mas isso – apenas – já não nos diz muito sobre o que era essa atividade juvenil no início da década de 1990? O skate neste período, sobretudo o skate de rua, pode ter sido predominantemente praticado por diversão, sem grandes pretensões mercadológicas, sem muitos ídolos milionários. Em uma palavra: sem muita grana envolvida. Jason Lee, o principal skatista que aparece nesse vídeo (ao lado de Guy Mariano), era tão somente um talentoso skatista de rua (e não o célebre Jason Lee que conhecemos hoje, famoso por ter sido o protagonista do seriado “My name is Earl”, e indicado como melhor ator para o Globo de Ouro nos anos de 2006 e 2007).

O videoclipe apresenta duas tomadas, uma com a banda tocando a música num show dentro de uma casa, com jovens bebendo e esparramados pelos sofás, e outra nas ruas, onde os skatistas aparecem fazendo manobras pela cidade. Esse clipe foi dirigido por Spike Jonze, que na época era tão somente um jovem que gostava de filmar seus amigos praticando skate (e praticava junto também).

Spike Jonze começou a se interessar por esportes alternativos quando jovem, aos 15 anos, e se interessou primeiramente pela BMX. Ele foi o fundador da revista Dirt, uma publicação direcionada para o mundo das bicicletas. Mas, logo em seguida, veio a paixão pelo skate e sua profissionalização enquanto diretor de videoclipes de bandas musicais.

Após “100%”, Spike dirigiu, em 1994, o videoclipe da música “Sabotage” dos Beastie Boys; e depois muitos outros, de bandas como: Fatboy Slim, Weezer, Chemical Brothers, R.E.M, Björk etc. Dirigiu também muitos filmes de skate, como “Goldfish” (1994), “Las Nueve Vidas De Paco” (1995), “Mouse” (1996), “”Chocolate Tour”” (1999), “Yeah Right!” (2003) e “Fully Flared” (2007), considerado seu melhor trabalho com o skate. Dos videoclipes para o cinema foi um caminho rápido. A primeira experiência veio em 1999, com o longa “Como ser John Malkovich”. Neste mesmo ano ele se casou com Sofia Coppola (filha de Francis Ford Coppola), com quem veio a se divorciar em 2009, no mesmo ano em que dirigiu o longa “Onde vivem os monstros”, uma adaptação de um livro do ilustrador Maurice Sendak, de 1963. Seu sucesso mais recente foi “Her”, de 2014, que conquistou cinco indicações ao Oscar.

Mas retornando ao videoclipe de “100%”. O que nos vem à mente quando o assistimos? O skate está lá, ele é um elemento central, mas sem pretensões, apenas skate de rua, improvisos, escadas, corrimãos. Do ponto de vista técnico, aparecem manobras desafiadoras para a época, como os truques em corrimão, escadarias e, certamente, o salto que finaliza o vídeo, executado por Jason Lee, um pulo seguido de uma virada de 180 graus de costas no ar, realizado com estilo e leveza (o nome da manobra em inglês é “backside ollie 180”).

Recuperando algumas ideias lançadas pelo Rafael Fortes no texto “Videoclipe como fonte histórica”, podemos atinar para os seguintes elementos: “Ano/época/contexto/lugar” de produção deste videoclipe, o que nos ajuda a pensar o início da década de 1990. Para uma análise de fato deste videoclipe, quantos elementos não seriam necessários? A noção de Tribos Urbanas, a ideia da cidade apropriada para diversão (qual cidade aparece no vídeo? Los Angeles?), o skate como arte corporal (como contracultura? Como subcultura? Como esporte?) e, além disso: Esse videoclipe dialoga com outras produções dessa mesma época? Creio que sim, e o mais emblemático talvez seja o filme Kids, produzido no ano de 1994 e dirigido por Larry Clark.

Falaremos sobre Kids em um outro momento. Por enquanto, ficamos com a inquietação: como melhor aproveitar esse rico universo dos videoclipes para a pesquisa em história dos esportes, em especial, para a história dos esportes californianos? Não somente o skate, mas o surfe, a BMX e tantos outros. Essa é uma ideia ainda inicial, em desenvolvimento, mas não podemos fechar os olhos para o seu grande potencial.


Bra Boys

01/06/2017

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

No Cineclube Sport de maio, vimos Bra Boys, dirigido por Sunny Aberton e Macario de Souza e lançado em 2007. O que segue abaixo é um conjunto de anotações de minha lavra, em parte estimuladas pelo filme, em parte pelo debate que se seguiu. Agradeço a todos(as) que participaram pelas estimulantes contribuições e questões.

O tema é um grupo de surfistas conhecidos como Bra Boys, residentes do bairro e locais da praia de Maroubra, em Sydney (Austrália).

Do ponto de vista estético, trata-se inegavelmente de um filme de surfe. Feito por e para surfistas, com cenas de surfe. Reifica determinadas visões sobre o esporte (quase todas positivas, muitas idealizadas), que permeiam um certo senso comum da modalidade. Por exemplo, a ideia de que o mar e o surfe fornecem um escape da sociedade. Em parte, evidentemente, isto é verdade. Mas é retratada como se o surfista, antes, durante e depois de surfar, não falasse ou convivesse com outros surfistas.

Do ponto de vista da circulação, me parece que não foi exibido em circuito no Brasil e na maioria dos países (exceto a Austrália e partes dos EUA), tendo circulado em festivais de documentários e festivais de filmes de surfe (obtendo prêmios em alguns destes).

Classe social e enquadramentos midiáticos

Bra Boys permite discutir a questão de classe social, bem como uma frase que escuto com frequência em âmbito acadêmico: “surfe é esporte de elite”. Na mesma linha, é um bom filme para debater estas perguntas: o que é o surfe? Há possibilidades de respostas universais para esta pergunta? Acredito que não. É preciso investigar as realidades locais. Buscar respostas locais para perguntas universais, como disse Giovanni Levi em texto que li recentemente (agradeço ao também escriba deste blogue, Victor Melo, pela indicação). Em outras palavras, à pergunta geral o que é o surfe?, é possível elaborar outras, específicas, para as quais Bra Boys dá algumas respostas e subsídios: o que é o surfe na Austrália? O que é o surfe para os australianos? O que é o surfe para aqueles garotos de Maroubra? O que é o surfe para os que ficam impedidos de surfar (por servirem nas forças armadas e terem sido transferidos para lugares sem onda; por estarem na prisão ou longe do litoral)?

(Pequena digressão: uma das coisas que mais me impressionaram e impactaram quando pesquisei revistas de surfe californianas publicadas entre os anos 1970 e 1990 foram as cartas de leitores enviadas desde a prisão. Fiquei impressionado por dois motivos: o teor das cartas; e também por, depois de um tempo, perceber que algumas prisões da Califórnia contavam com bibliotecas, que, por sua vez, tinham assinaturas de revistas de surfe – uma das leituras que mais atraíam jovens presos, muitos dos quais por crimes relacionados a drogas.)

Outro assunto a discutir é o enquadramento realizado pela mídia, que tende a tratar como banditismo as atividades desenvolvidas por grupos juvenis de camadas populares. Caminhando na direção oposta, o filme é uma construção realizada pelos próprios jovens: direção, produção, edição etc., exceto a narração, feita pelo ator Russel Crowe. Um dos motivos para fazê-lo, como afirmam logo no início, é estarem cansados de apanhar, sofrer abusos, ser tratados como bandidos ou invisíveis pela mídia, pelo governo e pela polícia (o tratamento da polícia para com esses jovens, guardadas as devidas proporções, parece muito mais civilizado do que o padrão vigente nas quebradas do Rio de Janeiro – o padrão do que é aceitável, é claro, pode mudar bastante de uma sociedade para outra). A cor da pele da maioria também é diferente daquela hegemônica entre os pobres do Rio, mas são, de fatos, jovens de uma área degradada. O alto número de mortos (sempre um indício de problemas) é um dado importante.

 

Território e localismo

Um dos principais assuntos/questões que o filme permite discutir é o vínculo com o território e o localismo. O localismo, em suas diferentes manifestações, é um fenômeno presente em praias de vários países, ainda que pouco apareça nas representações midiáticas do esporte. Pelo que observei até hoje, a postura mais comum é silenciar sobre o tema. E, na maioria das ocasiões em que é tratado, isto se dá sob a forma de crítica: o localismo é classificado como um comportamento atrasado, violento e de ignorantes. Contudo, algum grau de relativismo, contextualização e até glamourização pode ocorrer (às vezes combinado com criminalização e acusações) quando se trata do North Shore da ilha de Oahu, no Havaí. (Para uma interessante – embora a meu ver exageradamente engajada e maniqueísta – análise e crítica da criminalização promovida pela mídia hegemônica a respeito dos locais e do localimo no North Shore, ver o último capítulo de Walker, 2011).

Por outro lado, o bairro é pouquíssimo explorado na trama. Fiquei curioso para saber e entender mais, já que argumenta-se que o vínculo com ele é um dos aspectos que definem o caráter, a identidade e os valores desses jovens (como, por exemplo, a alegada rejeição do racismo e da xenofobia). Bra Boys argumenta que o localismo não necessariamente significa recusa e intolerância com relação ao outro. Quando se trata de uma comunidade “multicultural” como Maroubra, não é a etnia, religião ou país de origem que decidirá quem cabe no grupo: todos podem fazer parte do que é o nós.

Gênero e masculinidades

A partir tanto do comportamento dos personagens e do fato de serem praticamente todos masculinos, quanto da quase ausência de personagens femininas, é possível discutir questões relativas a gênero e masculinidade. Há ainda, o contraponto da avó Ma (possivelmente uma corruptela de “avó”, em inglês). É impressionante a força desta mulher, cuja casa é uma espécie de abrigo seguro (safe heaven, se diria em inglês) para crianças e adolescentes de famílias destrambelhadas e destruídas pela pobreza, desemprego, violência e drogas. Isso inclui os próprios netos de Ma, o trio de irmãos que protagoniza o filme (um deles co-diretor da obra).

Um tema que aparece rapidamente no filme são as diferentes medidas restritivas impostas pelo poder público aos banhistas australianos ao longo do século XX. Segundo Douglas Booth (2001), em seu fascinante livro sobre as culturas de praia australianas, houve momentos em que cercas de arame farpado dividiam as praias, de forma a separar homens de mulheres.

Por sinal, as restrições, perseguições e criminalização do surfe e dos surfistas são um dos muitos assuntos por investigar na história desta prática no país. Em alguns dos poucos trabalhos sobre a modalidade (Cunha, 2000; Fortes, 2011), há indícios de uma série de problemas, controvérsias e até notícias de mortes em vários municípios do litoral catarinense, Arraial do Cabo (RJ) e Recife (PE). Há tanto repressão e conflitos com o Estado quanto com determinados grupos ou setores da sociedade, como pescadores e banhistas. Também no caso da história do skate no Brasil, este é um caminho tão promissor quanto pouco explorado, exceto, até onde sei, por iniciativas pontuais do pesquisador Leonardo Brandão (como este e este artigos).

Bibliografia

BOOTH, Douglas. Australian Beach Cultures: The History of Sun, Sand and Surf. London: Frank Cass, 2001.

CUNHA, Delgado Goulart da. Pescadores e surfistas: uma disputa pelo uso do espaço da Praia Grande. 2000. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2000.

FORTES, Rafael. O surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri/Faperj, 2011.

WALKER, Isaiah Helekunihi. Waves of Resistance: Surfing and History in Twentieth-Century Hawai’i. Honolulu: University of Hawai’i Press, 2011.

 

 

 

 

 

 

 


Futebol e “sacanagem”: ocasionalidades nas trajetórias

21/04/2016

Por Victor Andrade de Melo

Ao ver o título deste post, o(a) leitor(a) pode pensar que se trata de um texto sobre os cartolas do futebol brasileiro, sobre as desigualdades salariais que grassam entre os jogadores ou sobre os problemas relativos à organização da Copa do Mundo de 2014, tais como gastos excessivos na construção de estádios, remoções de comunidades ou dinheiro público desperdiçado em um suposto legado que nunca veio.

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VLT de Cuiabá – o sistema não funciona, a despeito de ser uma das obras mais caras do Estado

VLT de Cuiabá – o sistema não funciona, a despeito de ser uma das obras mais caras do Estado

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Pois bem, quero de pronto acalmar (ou decepcionar) o(a) leitor(a). Aqui não tratarei disso. O uso do termo “sacanagem” remete-nos à transição dos anos 1970/1980, quando comumente era usado como sinônimo ou para fazer referência a algo relativo ao sexo.

Por exemplo, algumas pornochanchadas, gênero que fez muito sucesso no período, eram chamadas de “filmes de sacanagem”. Quando jovem, tinha inveja de alguns amigos que conseguiam burlar os pais e ver algumas dessas películas que passavam uma vez por semana, bem tarde, numa emissora de televisão (se não me engano, na Bandeirantes, num programa chamado “Sala Especial”).

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Nos dias de hoje, esses filmes têm sido exibidos no Canal Brasil. Na verdade, tinham um padrão de exibição corporal que, se comparado ao que na atualidade vemos mesmo na TV aberta, pode parecer algo bem pueril. Na época, contudo, habitavam o sonho erótico da meninada, junto com umas revistas vendidas na banca com uma tarja preta, chamadas, não sei bem o porquê, de “suecas”.

Pois bem, é sobre isso que pretende tratar este post, mais especificamente do primeiro filme brasileiro de sexo explícito, lançado em 1982, “Coisas Eróticas”, dos diretores Raffaele Rossi e Laerte Callichio.

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Cartaz do filme

Cartaz do filme

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Antes, contudo, deixe-me abordar a segunda parte do título do post – “ocasionalidades na trajetória”.

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Um dos temas que mais me interessa é a intensa presença da prática esportiva em nosso cotidiano, os rastros que deixa no dia-a-dia, nos mais diferentes âmbitos. No passado, chamei esse esforço de prospectar tal ocorrência como uma tentativa de “arqueologia social do esporte”. Em muitas situações são ocasionalidades. De toda forma, ajudam a lançar um olhar sobre o tema.

Por exemplo, chama-me a atenção como o futebol foi relevante para os membros de dois grupos culturais importantes dos anos 1970, os Novos Baianos e o Nuvem Cigana. Destaca-se a importância dada ao velho esporte bretão nas entrevistas disponíveis em dois belíssimos recentes documentários dedicados às trajetórias desses movimentos (Filhos de João – O Admirável Mundo Novo Baiano, disponível aqui https://www.youtube.com/watch?v=d57VtNeR9W8; e As Incríveis Artimanhas da Nuvem Cigana, informações aqui https://www.facebook.com/As-Incr%C3%ADveis-Artimanhas-da-Nuvem-Cigana-448283485269672/).

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Capa de LP dos Novos Baianos

Capa de LP dos Novos Baianos

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O velho esporte bretão, curiosamente, aparece na trajetória de um dos responsáveis pelo primeiro filme brasileiro de sexo explícito – Raffaele Rossi

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Tomei conhecimento desse filme pelo incrível e louvável trabalho de Denise Godinho e Hugo Moura, que se dedicaram a recuperar esse capítulo pouco conhecido da história do cinema brasileiro.

– Sobre o livro “Coisas eróticas”, ver  http://blooks.com.br/dica-blooks-coisas-eroticas-de-hugo-moura-e-denise-godinho/

– Sobre o documentário “A primeira vez do cinema brasileiro”, ver https://aprimeiravezdocinemabrasileiro.net/

– O filme “Coisas Eróticas” está largamente disponível na internet

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Capa do livro

Capa do livro

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Os autores recuperaram com esmero todas as fases do projeto – a ideia, o convencimento dos técnicos envolvidos, a seleção e convencimento de atores e atrizes, as filmagens com precários recursos, as dificuldades com a censura, o lançamento (decidido de forma abrupta para dar conta da tristeza que acometia a população em função da desclassificação da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1982), os desdobramentos na própria produção cinematográfica e para os personagens envolvidos.

Raffaele Rossi, que até o lançamento do filme era um polêmico e menos valorizado diretor da Boca do Lixo paulistana, enriqueceu com “Coisas Eróticas”. Sua principal decisão para investir sua fortuna foi criar um…time de futebol de salão!

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Cartaz de O Homem Lobo, filme dirigido do Rossi

Cartaz de O Homem Lobo, filme dirigido do Rossi

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A decisão tinha em conta a paixão do diretor pelo esporte e, obviamente, uma enorme imprevidência, que o levou inclusive a perder tudo o arrecado com o filme em uma década de gastos excessivos. De toda forma, em 1983, criou o Grêmio Recreativo Rossi, com sede no próprio sítio onde passava dias com a família e oferecia festas inesquecíveis.

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Grêmio Recreativo Rossi

Grêmio Recreativo Rossi

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Rossi investiu alto na iniciativa, tanto na construção de instalações adequadas, com o que havia de mais moderno, quanto na formação da equipe, trazendo inclusive três jogadores do Paraguai, na época vice-campeão mundial da modalidade. O primeiro jogo fez crescer no diretor a certeza de que se tratava de um bom investimento – 3 X 2 no poderoso Banespa.

O futuro, contudo, não exponenciaria o esperado. O time faliu junto com seu criador.

– Mais informações sobre o time, ver https://aprimeiravezdocinemabrasileiro.net/ (1h07min. a 1h08min.)

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Dinheiro da “sacanagem” bancando o esporte. Nesse caso da equipe de Rossi, nenhum problema. Sacanagem da braba, no pior sentido do termo, estava na mesma época ocorrendo na articulação entre cartolas do futebol e de escolas de samba, gente do jogo do bicho, setores da ditadura e da polícia, assunto magistralmente tratado por Aloy Jupiara e Chico Otavio em “Os porões da contravenção – Jogo do bicho e ditadura militar: a história da aliança que profissionalizou o crime organizado” (http://www.blogdaeditorarecord.com.br/2015/11/30/os-poroes-da-contravencao-de-aloy-jupiara-e-chico-otavio/). De fato, iria crescer muito o número de sacanagens ao redor do esporte-rei do Brasil.

A comparação é plausível. “Coisas Eróticas” hoje parece coisa de criança, como o pareciam frente a ele aqueles filmes da “Sala Especial” que povoavam nossas imaginações (e movimentavam nossos corpos) infantis.

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Uma aventura juvenil na África do Sul

06/10/2014

Por Rafael Fortes

Uma garota rica que vive na Califórnia parte para a África do Sul para conhecer a terra de sua finada mãe, viajando e surfando. Esta é a trama inicial de A Onda dos Sonhos 2, dirigido por Mike Elliott e lançado em 2011. Neste texto, chamo a atenção para dois aspectos desta obra: o protagonismo feminino e o papel da África do Sul (outros elementos foram explorados no artigo que deu origem a este texto).

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Onda 2 foi lançado nove anos após o original. Embora a trama não seja uma sequência do primeiro – as atrizes principais tampouco são as mesmas -, um dos pontos em comum é ser protagonizado por mulheres surfistas. Trata-se de algo raro na filmografia sobre a modalidade, amplamente dominada por homens nos papéis principais.

Dana torna-se amiga de Pushy, sul-africana cujo sonho é aprender a realizar uma manobra (aéreo 360) e vencer a seletiva para a equipe Roxy, da qual já faz parte Tara, a sul-africana que fecha o trio. Tara é a antagonista de Dana.

Por falar em Roxy, a ampla presença da marca na trama é uma das chaves explicativas para compreender a realização do filme. O nicho feminino vem apresentando taxas de crescimento significativas nos últimos anos, amplicando um mercado consumidor que, décadas atrás, atingia majoritariamente os homens.

No making of, surfistas profissionais (homens e mulheres) afirmam ter a expectativa de que, tal como ocorrera com A Onda dos Sonhos (de 2002), Onda 2 contribua para divulgar o surfe feminino e estimule muitas a garotas a começar a surfar. Segundo este ponto de vista, filmes como Onda 1 e Onda 2 estimulam o crescimento de uma prática social – surfar – profundamente articulada a uma indústria florescente. Neste contexto, cabe ressaltar que a Roxy é a marca criada pela Quiksilver (uma das principais multinacionais do surfe mundial) voltada para o público feminino. Os logotipos abaixo explicitam a relação entre ambas: Roxy, à esquerda; Quiksilver, à direita.

roxy_logo quiksilver

 

África do Sul

Onda 2 apresenta a África do Sul como um país de paisagens exuberantes, repleto de belos locais para o turismo, a prática do surfe e o contato com a natureza. Não é acaso o filme ter sido rodado em 2010: os governos sul-africanos vêm investindo no esporte como ferramenta para promover uma imagem positiva do país e incrementar o fluxo turístico. A Copa do Mundo de futebol realizada em 2010 é o principal exemplo desta política – e das consequências para setores da população local (como discuti em texto sobre o documentário Cidade de Lata).

A tarefa é árdua, tendo em vista o período de segregação racial como política de Estado, que recebeu ampla divulgação e condenação ao redor do mundo. Isto incluiu o próprio universo esportivo, com boicotes que vigoraram durante décadas.

Aos investimentos no esporte soma-se uma política de incentivos estatais para a indústria cinematográfica, sobretudo para coproduções que sejam rodadas em solo sul-africano. De acordo com documentos oficiais, os objetivos são o fortalecimento do cinema no país, bem como os benefícios econômicos relativos aos gastos durante o período de produção e à contratação de mão-de-obra local.

As gravações de Onda 2 foram realizadas no país e, como dito, é nele que se passa a trama. A aventura e o desejo da protagonista de conhecer os lugares mencionados no diário de sua mãe, bem como surfar as mesmas ondas, funciona como um pano de fundo que permite a circulação das personagens por diferentes regiões e paisagens.

O gran finale se passa em Jeffrey´s Bay, principal destino de surfe do continente africano e um dos locais mais famosos para a prática do esporte no mundo.

Para saber mais

FORTES, Rafael. Surfe feminino, indústria do surfwear e promoção da África do Sul: uma análise de A Onda dos Sonhos 2. Licere, Belo Horizonte, v. 17, n. 2, p. 283-311, jun. 2014.


Australianos e sul-africanos metem o pé na porta do surfe no Havaí (1974-1977)

01/06/2014

Por Rafael Fortes

Bustin´ Down The Door (As Lendas do Surf) narra/constrói a história de como um punhado de surfistas australianos e sul-africanos transformou a modalidade durante a segunda metade dos anos 1970. Até então, havia dois parâmetros para o ato de surfar:

Entre os havianos, cabia ao surfista seguir a onda, unir-se a ela. Na Califórnia, o objetivo era embelezar a onda, aparentando um certo desdém e realizando poucas manobras: ‘esforçar-se muito na onda era um sinal de indignidade’ (Fisher, 2005, p. 18). Os australianos (e os sul-africanos) pegaram o estilo californiano e desenvolveram cada vez mais a agressividade. Na Austrália, particularmente, o objetivo era dominar, despedaçar, destruir a onda (Booth, 2001, p. 100-1). A existência de visões distintas foi um dos problemas impostos aos que queriam desenvolver o surfe competitivo: ‘competições organizadas requeriam regras formais, mas a codificação não era uma questão fácil, pois os estilos de surfe refletiam variações regionais’ (Booth, 2001, p. 100). A construção de parâmetros unificados de avaliação das manobras nas competições internacionais se deu em meio a conflitos, mas a vertente australiana acabou se impondo. Nos dias atuais, a predominância do padrão agressivo leva à realização constante de manobras impensáveis, raríssimas ou impossíveis de completar nos anos 1980, como as muitas variedades de aéreo. Como ressalta Booth, a evolução se deve a fatores técnicos (como número de quilhas, peso, formato e material das pranchas), esportivos e culturais.

É destes australianos e sul-africanos que o documentário trata.

Pôster do filme (extraído daqui).

Pôster do filme (extraído daqui).

Introdução

Como recurso narrativo, embora enfoque o período 1974-1977, a trama começa e termina no presente. O início mostra campeões do final dos anos 1970 recebendo troféus na festa de fim de ano da ASP (Associação dos Surfistas Profissionais) na Austrália em 2007. E finaliza com diversos entrevistados – tanto os premiados quanto outros, de gerações posteriores – confirmando a relevância do papel desempenhado pelos primeiros para o surfe chegar ao estágio atual.

E o que fizeram esses agentes – além de serem os primeiros vencedores do circuito mundial de surfe – para merecer tal honraria? “Criamos um esporte, uma cultura e uma indústria”, afirma um deles. Foram fundamentais na criação do surfe profissional, porque queriam ser surfistas profissionais.

Narrado por Edward Norton, o filme fala basicamente de Pete Townend (Austrália), Shaun Tomson (África do Sul), Mark Richards (Austrália) e Wayne “Rabbit” Bartholomew (Austrália), que foram os quatro primeiros campeões mundiais de surfe, e de Michael Tomson (África do Sul) e Ian Cairns (Austrália). O documentário considera-os figuras fundamentais nas notáveis mudanças observadas na modalidade naquele período. Boa parte do tempo é preenchido com depoimentos dos seis.

O primeiro inverno havaiano (1974-1975)

Sendo surfistas de destaque em seus países, os seis sonhavam com o Havaí. Nas palavras de Rabbit: “Fizemos o Havaí. Conquistamos o lugar.” Tal postura, de acordo com eles, não significava desrespeito pelos locais. No início do filme, um dos depoentes se refere a Reno Abellira e outros que entravam na água em dias casca-grossa do North Shore como “deuses”.

Shaun Tomson afirma que, no primeiro verão “de verdade” no Havaí, seu objetivo era mostrar-se o melhor, porque era contestado em Durban, sua cidade natal. Praticantes de outros continentes viajavam para as ilhas porque, a partir de 1965, elas sediavam campeonatos. De 1970 em diante, ocorria algo inédito: o pagamento de prêmios em dinheiro para os vencedores.

Foram distribuídos 24 convites para participar dos campeonatos daquela temporada, sendo 22 para havaianos, o que Wayne Bartholomew considera “justo”. Afinal, surfar no North Shore era uma atividade para havaianos. Cabia aos cidadãos das demais nações do mundo mandar cartas pedindo para serem convidados para os campeonatos. Três dos protagonistas foram suplentes do Smirnoff Pro e disputaram uma vaga para a competição.

Naquele ano, os havaianos foram hospitaleiros com os visitantes.

A temporada 1975-1976

É o ponto de virada do surfe em direção ao profissionalismo.

As pranchas eram monoquilhas, mas Shaun Tomson inovou na forma de pegar tubos. Novas pranchas permitiram manobras e performances antes impossíveis, como surfar Pipeline de backside.

Tem início um “novo estilo” que valoriza a adrenalina. “Queríamos ser os mais agressivos, os mais radicais, fazer novas manobras”, diz um depoente. Os haoles inovam ao surfar Off The Wall e afirmam que criaram aquele pico. Fotógrafos passam a acompanhá-los com avidez de uma praia a outra.

“Quebrando a tradição”, aussies e sul-africanos ganham todas as competições do inverno havaiano de 1975. Os membros da nova geração se tornam ídolos da molecada e ocupam as capas de revista e os filmes. Ciosos do que desejavam – viver do esporte -, fizeram marketing e promoveram a si mesmos e ao surfe.

Passada a temporada, Rabbit escreve um artigo (Bustin´ down the door) no qual afirma que ele e os demais não ficariam mais esperando favores para entrar pela porta dos fundos nos campeonatos: haviam arrombado a porta.

Os havaianos ficaram enfurecidos. No inverno seguinte vieram as consequências.

A temporada 1976-1977

Uma delas foi a criação dos black trunks (ou Da Hui), um grupo de locais do North Shore. Entre eles, Eddie Rothman, cujo depoimento no filme é uma pérola, repleto de episódios dos quais não se lembra, sempre rindo. Chegaram a ser presos e ganharam fama pelo localismo casca-grossa.

Além do texto de Rabbit, outros textos publicados em revistas de surfe – como um que criticava a formação do Da Hui – irritaram os havaianos.

Os membros do clube meteram a porrada em Rabbit na primeira ocasião em que o australiano surfou em Sunset naquele ano. Na sequência, ameaçaram queimar a casa em que estava hospedado. O haole fugiu para o meio do mato e depois se escondeu com Ian Cairns num hotel, do qual não podiam sair.

Ambos receberam escolta policial para comparecer ao Pipe Masters (até hoje o importante campeonato de surfe mais importante do mundo). Os protagonistas relatam ter apanhado muito, e mais de uma vez. Um comprou uma escopeta. Outro comprou uma arma e um taco de beisebol.

Em dado momento, ainda isolados no hotel, recebem a visita de Eddie Aikau, lendário surfista e salva-vidas. Eddie os conduz a um julgamento, em que atua como mediador. Mark Richards, um dos protagonistas, é usado no julgamento como o bom australiano, em oposição a Cairns e Bartholomew. No salão de conferências de um famoso resort de Oahu, 150 pessoas participaram do julgamento de dois estrangeiros – com veredito e tudo.

De acordo com os depoimentos, os problemas extrapolavam o universo das praias: havia um clima de violência em Oahu, em meio a intenso consumo e tráfico de drogas. Muitos havaianos tinham a sensação de que haviam perdido tudo para os estrangeiros e ocupantes – a começar pelos EUA. Só lhes sobrara o surfe, e agora haoles estavam querendo tomá-lo. No universo do surfe, houve ameaças de morte até para os jornalistas que escrevessem sobre as brigas, grupos e ameaças.

Outros conflitos

Embora o documentário trate o ocorrido com os australianos e sul-africanos como sui generis, há ao menos duas experiências similares, respectivamente com californianos e brasileiros:

a) no “inverno de 1969-70, quando os havaianos atacaram os ‘surfistas hippies e cabeludos principalmente da Califórnia [sic] que traziam drogas e se sentiam os donos de tudo’.” (Reinaldo Andraus, “Arrepio: só nas ondas”, Fluir 20, mai 1987, p. 48)

b) no inverno de 1986-1987, foi a vez dos brasileiros. Um grupo teve a casa onde passava a temporada cercada e ameaçada de incêndio por havaianos. O sítio ao imóvel “repetiu-se algumas vezes e só foi suspenso com apelos à polícia e ao consulado brasileiro”. (Alberto A. Sodré, “Hawaii: um inverno quente nas ilhas”, Fluir 20, mai 1987, p. 44)

(Para os historiadores que se encantam com a leitura de fontes, fica a dica: estas duas reportagens são maravilhosas!)

Considerações finais

O filme termina com informações sobre a criação da IPS (International Professional Surfers), primeira entidade a organizar um circuito mundial de surfe. Executivos de multinacionais da indústria de surfwear afirmam que aqueles seis foram fundamentais para as empresas crescerem e se tornarem o que passaram a ser: com eles, havia ídolos para estampar os anúncios das marcas nas páginas das revistas e despertar a admiração dos jovens.

Bustin´ Down the Door traz depoimentos riquíssimos. (Fico imaginando o material bruto com o depoimento completo de cada entrevistado…) Também pode ser visto como uma produção audiovisual que cristaliza e reforça um mito fundador bastante presente na subcultura da modalidade (para uma reflexão sobre a relação entre mitos fundadores no surfe e pesquisa científica, ver Dias, 2011).

Para além do conteúdo – foco deste texto -, é um filme bonito, que mescla imagens produzidas para ele com gravações de arquivo. Há muitas imagens granuladas de grande beleza, tanto em cor quanto em P&B.

Informações técnicas

EUA, 2008, 96′

Direção: Jeremy Gosch

Um dos protagonistas, Shaun Tomson, filmou boa parte das imagens registradas no campeonato de 1974-5 em que Mark Richards tomou parte. Tomson é também o produtor executivo e um dos roteiristas.

O filme é “inspirado” por Wayne “Rabbit” Bartholomew.

Entre os depoentes estão lendas do surfe como Ben Aipa, Tom Carroll e Greg Noll.

Na trilha sonora: Leonardo Cohen, The Stooges e David Bowie, entre outros.

Para saber mais

– Sobre o esporte na Austrália, ler os textos de Jorge Knijnik;

– Sobre esporte e cinema, os de Luiz Carlos Sant´Ana;

BOOTH, Douglas. Australian Beach Cultures: The History of Sun, Sand and Surf. London: Frank Cass, 2001.

DIAS, Cleber. Vaca longa: repensando a historiografia brasileira do esporte a partir do surfe na Bahia. Recorde: Revista de História do Esporte, Rio de Janeiro, v. 4, n. 2, p. 1-11, dez. 2011.

FISHER, Kevin. Economies of Loss and Questions of Style in Contemporary Surf Subcultures. Junctures: The Journal for Thematic Dialogue, Dunedin, n. 4, p. 13-20, June 2005.

A primeira citação longa foi extraída de FORTES, Rafael. O surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri/Faperj, 2011, p. 194-5.

Em tempos de redes sociais, cabe registrar a dificuldade de encontrar dados no site atual da ASP (reformulado em 2014). Deve ser ótimo para ver na tela do celular, mas simplesmente sumiu com boa parte das informações antes disponíveis – e, pior, com os meios de encontrá-las! A extensa quantidade e qualidade de dados que havia sobre a entidade e o passado do surfe profissional foi trocada por uma historinha pobre e sem links.


O sonho de Kassim

23/09/2013

Rafael Fortes

Preâmbulo

“Sonho de Kassim – Surfista Israel”. Assim estava escrito no DVD que coloquei para rodar no aparelho. O texto de hoje do blogue era meu e eu estava sem ideia de tema. “Vou aproveitar para ver aquele filme sobre surfe e Israel”, pensei. Seria uma oportunidade de voltar a dois temas que tanto me interessam (na verdade, o que mais me interessa no segundo é aquilo que o país não deixa existir: um outro chamado Palestina).

Botei o filme para rodar e… era sobre um boxeador ugandense radicado nos EUA. “A cavalo dado não se olha os dentes”, diz um ditado popular que minha mãe costumava repetir durante minha infância. Uma das coisas legais deste grupo de pesquisa é a troca de presentes, agrados, lembranças e referências entre os membros. Um colega gentilmente gravou e me deu o DVD – e anotou o nome errado meio certo, meio errado. Vamos ao filme, então.

O Sonho de Kassim

O Sonho de Kassim – Do horror da guerra à glória no boxe (o título inventado no Brasil é praticamente uma sinopse) é um documentário narrando a trajetória de Kassim Ouma, natural de Uganda e boxeador profissional nos Estados Unidos. Kassim The Dream (título original), foi produzido em 2008 e lançado no ano seguinte, sob direção de Kief Davidson. Eis o trailer:

Como é comum no boxe, ele tem um apelido, usado entre o nome e o sobrenome: Kassim “The Dream” Ouma. Não sei se é coincidência, mas o apelido, “O Sonho”, é o mesmo de “um dos maiores jogadores da história” da principal liga norte-americana de basquete (a National Basketball Association, NBA): o nigeriano Hakeem “The Dream” Olajuwon. Ambos africanos que fizeram sucesso no esporte profissional nos EUA.

A história começa a ser contada com o rapto que ele sofre na escola, aos seis anos de idade. Na montagem paralela, a luta em que se tornará detentor do cinturão da Federação Internacional de Boxe (FIB). Kassim desertou quando estava nos EUA para participar de um campeonato mundial militar, como boxeador do exército ugandense.

Filme de boxe, filme biográfico

A história de vida do protagonista é incrível. Sobre o passado, somos informados de que matou e torturou muita gente quando participava de um grupo armado em seu país. “Torturar pessoas era divertido. Porque eu era criança”, explica, para, em seguida, explicar que apenas cumpria ordens e que se arrepende do que fez. Segundo o lutador, o boxe é uma “terapia” que lhe ajuda a lidar com tal passado.

Kassim ficou muitos anos sem ver a mãe, até conseguir levá-la para viver com ele nos EUA (ao final do período de produção do filme, Kassim morava na Flórida com a mãe e seus dois filhos). Segundo relata, seu pai foi assassinado por vingança, devido à deserção do filho.

No presente da narrativa, acompanhamos cenas do período em que o filme é produzido. Não apenas sua rotina de treinos e lutas, mas os dramas pessoais para levar para os EUA seu primeiro filho (que morou em Uganda durante muitos anos) e conseguir visitar o país natal. Após enfrentar muitas dificuldades, Kassim consegue ambos os objetivos.

Particularmente notáveis são as cenas gravadas em Uganda, desde a recepção com festa no aeroporto até a entrevista com o comandante das forças armadas, passando pelo contato com crianças, a visita à avó, o retorno à cidade natal (onde é recebido como ídolo) e a visita ao túmulo do pai, por cuja morte o protagonista se sente responsável.

Comum tanto nas biografias como nas películas de boxe, temos na tela uma trajetória individual de superação. O garoto que teve infância e adolescência trágicas  torna-se ídolo nos EUA e ganha o cinturão da Federação Internacional de Boxe (FIB), uma das principais da modalidade. Depois, perde o título por causa de farras. Depois tenta (e perde) conquistar o título mundial em outra categoria…

Boa parte da narração acontece em primeira pessoa. Quando escrevi que se tratava de um “documentário narrando” a trajetória do boxeador, é um jeito de falar. Outro seria que se trata de uma construção (entre muitas possíveis) de uma trajetória (entre muitas possíveis) do boxeador.

Seja como for, é um filme impressionante – menos pela construção da obra cinematográfica e mais pela trajetória do personagem -, que permite a discussão de temas como imigração, consumo, os imaginários ligados aos EUA (como terra que acolhe imigrantes, terra da liberdade e onde os capazes conseguem vencer etc.), relações internacionais (incluindo as deserções de esportistas e suas implicações) e uso de drogas por atletas (Kassim fuma maconha regularmente).

Leituras recomendadas

Sobre as crianças-soldado, só que na África Ocidental, recomendo o romance Alá e as crianças-soldado, de Ahmadou Kourouma, editado no Brasil numa série bem interessante, Latitude, da Editora Estação Liberdade.

Sobre filmes de boxe, o artigo “Cinema, corpo, boxe: reflexões sobre suas relações e a questão da construção da masculinidade”, de Victor Andrade de Melo e Alexandre Fernandez Vaz. In: MELO, Victor Andrade de; DRUMOND, Maurício (org.). Esporte e cinema: novos olhares. Rio de Janeiro: Apicuri, 2009. p. 95-143.