Bra Boys

01/06/2017

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

No Cineclube Sport de maio, vimos Bra Boys, dirigido por Sunny Aberton e Macario de Souza e lançado em 2007. O que segue abaixo é um conjunto de anotações de minha lavra, em parte estimuladas pelo filme, em parte pelo debate que se seguiu. Agradeço a todos(as) que participaram pelas estimulantes contribuições e questões.

O tema é um grupo de surfistas conhecidos como Bra Boys, residentes do bairro e locais da praia de Maroubra, em Sydney (Austrália).

Do ponto de vista estético, trata-se inegavelmente de um filme de surfe. Feito por e para surfistas, com cenas de surfe. Reifica determinadas visões sobre o esporte (quase todas positivas, muitas idealizadas), que permeiam um certo senso comum da modalidade. Por exemplo, a ideia de que o mar e o surfe fornecem um escape da sociedade. Em parte, evidentemente, isto é verdade. Mas é retratada como se o surfista, antes, durante e depois de surfar, não falasse ou convivesse com outros surfistas.

Do ponto de vista da circulação, me parece que não foi exibido em circuito no Brasil e na maioria dos países (exceto a Austrália e partes dos EUA), tendo circulado em festivais de documentários e festivais de filmes de surfe (obtendo prêmios em alguns destes).

Classe social e enquadramentos midiáticos

Bra Boys permite discutir a questão de classe social, bem como uma frase que escuto com frequência em âmbito acadêmico: “surfe é esporte de elite”. Na mesma linha, é um bom filme para debater estas perguntas: o que é o surfe? Há possibilidades de respostas universais para esta pergunta? Acredito que não. É preciso investigar as realidades locais. Buscar respostas locais para perguntas universais, como disse Giovanni Levi em texto que li recentemente (agradeço ao também escriba deste blogue, Victor Melo, pela indicação). Em outras palavras, à pergunta geral o que é o surfe?, é possível elaborar outras, específicas, para as quais Bra Boys dá algumas respostas e subsídios: o que é o surfe na Austrália? O que é o surfe para os australianos? O que é o surfe para aqueles garotos de Maroubra? O que é o surfe para os que ficam impedidos de surfar (por servirem nas forças armadas e terem sido transferidos para lugares sem onda; por estarem na prisão ou longe do litoral)?

(Pequena digressão: uma das coisas que mais me impressionaram e impactaram quando pesquisei revistas de surfe californianas publicadas entre os anos 1970 e 1990 foram as cartas de leitores enviadas desde a prisão. Fiquei impressionado por dois motivos: o teor das cartas; e também por, depois de um tempo, perceber que algumas prisões da Califórnia contavam com bibliotecas, que, por sua vez, tinham assinaturas de revistas de surfe – uma das leituras que mais atraíam jovens presos, muitos dos quais por crimes relacionados a drogas.)

Outro assunto a discutir é o enquadramento realizado pela mídia, que tende a tratar como banditismo as atividades desenvolvidas por grupos juvenis de camadas populares. Caminhando na direção oposta, o filme é uma construção realizada pelos próprios jovens: direção, produção, edição etc., exceto a narração, feita pelo ator Russel Crowe. Um dos motivos para fazê-lo, como afirmam logo no início, é estarem cansados de apanhar, sofrer abusos, ser tratados como bandidos ou invisíveis pela mídia, pelo governo e pela polícia (o tratamento da polícia para com esses jovens, guardadas as devidas proporções, parece muito mais civilizado do que o padrão vigente nas quebradas do Rio de Janeiro – o padrão do que é aceitável, é claro, pode mudar bastante de uma sociedade para outra). A cor da pele da maioria também é diferente daquela hegemônica entre os pobres do Rio, mas são, de fatos, jovens de uma área degradada. O alto número de mortos (sempre um indício de problemas) é um dado importante.

 

Território e localismo

Um dos principais assuntos/questões que o filme permite discutir é o vínculo com o território e o localismo. O localismo, em suas diferentes manifestações, é um fenômeno presente em praias de vários países, ainda que pouco apareça nas representações midiáticas do esporte. Pelo que observei até hoje, a postura mais comum é silenciar sobre o tema. E, na maioria das ocasiões em que é tratado, isto se dá sob a forma de crítica: o localismo é classificado como um comportamento atrasado, violento e de ignorantes. Contudo, algum grau de relativismo, contextualização e até glamourização pode ocorrer (às vezes combinado com criminalização e acusações) quando se trata do North Shore da ilha de Oahu, no Havaí. (Para uma interessante – embora a meu ver exageradamente engajada e maniqueísta – análise e crítica da criminalização promovida pela mídia hegemônica a respeito dos locais e do localimo no North Shore, ver o último capítulo de Walker, 2011).

Por outro lado, o bairro é pouquíssimo explorado na trama. Fiquei curioso para saber e entender mais, já que argumenta-se que o vínculo com ele é um dos aspectos que definem o caráter, a identidade e os valores desses jovens (como, por exemplo, a alegada rejeição do racismo e da xenofobia). Bra Boys argumenta que o localismo não necessariamente significa recusa e intolerância com relação ao outro. Quando se trata de uma comunidade “multicultural” como Maroubra, não é a etnia, religião ou país de origem que decidirá quem cabe no grupo: todos podem fazer parte do que é o nós.

Gênero e masculinidades

A partir tanto do comportamento dos personagens e do fato de serem praticamente todos masculinos, quanto da quase ausência de personagens femininas, é possível discutir questões relativas a gênero e masculinidade. Há ainda, o contraponto da avó Ma (possivelmente uma corruptela de “avó”, em inglês). É impressionante a força desta mulher, cuja casa é uma espécie de abrigo seguro (safe heaven, se diria em inglês) para crianças e adolescentes de famílias destrambelhadas e destruídas pela pobreza, desemprego, violência e drogas. Isso inclui os próprios netos de Ma, o trio de irmãos que protagoniza o filme (um deles co-diretor da obra).

Um tema que aparece rapidamente no filme são as diferentes medidas restritivas impostas pelo poder público aos banhistas australianos ao longo do século XX. Segundo Douglas Booth (2001), em seu fascinante livro sobre as culturas de praia australianas, houve momentos em que cercas de arame farpado dividiam as praias, de forma a separar homens de mulheres.

Por sinal, as restrições, perseguições e criminalização do surfe e dos surfistas são um dos muitos assuntos por investigar na história desta prática no país. Em alguns dos poucos trabalhos sobre a modalidade (Cunha, 2000; Fortes, 2011), há indícios de uma série de problemas, controvérsias e até notícias de mortes em vários municípios do litoral catarinense, Arraial do Cabo (RJ) e Recife (PE). Há tanto repressão e conflitos com o Estado quanto com determinados grupos ou setores da sociedade, como pescadores e banhistas. Também no caso da história do skate no Brasil, este é um caminho tão promissor quanto pouco explorado, exceto, até onde sei, por iniciativas pontuais do pesquisador Leonardo Brandão (como este e este artigos).

Bibliografia

BOOTH, Douglas. Australian Beach Cultures: The History of Sun, Sand and Surf. London: Frank Cass, 2001.

CUNHA, Delgado Goulart da. Pescadores e surfistas: uma disputa pelo uso do espaço da Praia Grande. 2000. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2000.

FORTES, Rafael. O surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri/Faperj, 2011.

WALKER, Isaiah Helekunihi. Waves of Resistance: Surfing and History in Twentieth-Century Hawai’i. Honolulu: University of Hawai’i Press, 2011.

 

 

 

 

 

 

 


Futebol e “sacanagem”: ocasionalidades nas trajetórias

21/04/2016

Por Victor Andrade de Melo

Ao ver o título deste post, o(a) leitor(a) pode pensar que se trata de um texto sobre os cartolas do futebol brasileiro, sobre as desigualdades salariais que grassam entre os jogadores ou sobre os problemas relativos à organização da Copa do Mundo de 2014, tais como gastos excessivos na construção de estádios, remoções de comunidades ou dinheiro público desperdiçado em um suposto legado que nunca veio.

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VLT de Cuiabá – o sistema não funciona, a despeito de ser uma das obras mais caras do Estado

VLT de Cuiabá – o sistema não funciona, a despeito de ser uma das obras mais caras do Estado

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Pois bem, quero de pronto acalmar (ou decepcionar) o(a) leitor(a). Aqui não tratarei disso. O uso do termo “sacanagem” remete-nos à transição dos anos 1970/1980, quando comumente era usado como sinônimo ou para fazer referência a algo relativo ao sexo.

Por exemplo, algumas pornochanchadas, gênero que fez muito sucesso no período, eram chamadas de “filmes de sacanagem”. Quando jovem, tinha inveja de alguns amigos que conseguiam burlar os pais e ver algumas dessas películas que passavam uma vez por semana, bem tarde, numa emissora de televisão (se não me engano, na Bandeirantes, num programa chamado “Sala Especial”).

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Nos dias de hoje, esses filmes têm sido exibidos no Canal Brasil. Na verdade, tinham um padrão de exibição corporal que, se comparado ao que na atualidade vemos mesmo na TV aberta, pode parecer algo bem pueril. Na época, contudo, habitavam o sonho erótico da meninada, junto com umas revistas vendidas na banca com uma tarja preta, chamadas, não sei bem o porquê, de “suecas”.

Pois bem, é sobre isso que pretende tratar este post, mais especificamente do primeiro filme brasileiro de sexo explícito, lançado em 1982, “Coisas Eróticas”, dos diretores Raffaele Rossi e Laerte Callichio.

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Cartaz do filme

Cartaz do filme

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Antes, contudo, deixe-me abordar a segunda parte do título do post – “ocasionalidades na trajetória”.

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Um dos temas que mais me interessa é a intensa presença da prática esportiva em nosso cotidiano, os rastros que deixa no dia-a-dia, nos mais diferentes âmbitos. No passado, chamei esse esforço de prospectar tal ocorrência como uma tentativa de “arqueologia social do esporte”. Em muitas situações são ocasionalidades. De toda forma, ajudam a lançar um olhar sobre o tema.

Por exemplo, chama-me a atenção como o futebol foi relevante para os membros de dois grupos culturais importantes dos anos 1970, os Novos Baianos e o Nuvem Cigana. Destaca-se a importância dada ao velho esporte bretão nas entrevistas disponíveis em dois belíssimos recentes documentários dedicados às trajetórias desses movimentos (Filhos de João – O Admirável Mundo Novo Baiano, disponível aqui https://www.youtube.com/watch?v=d57VtNeR9W8; e As Incríveis Artimanhas da Nuvem Cigana, informações aqui https://www.facebook.com/As-Incr%C3%ADveis-Artimanhas-da-Nuvem-Cigana-448283485269672/).

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Capa de LP dos Novos Baianos

Capa de LP dos Novos Baianos

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O velho esporte bretão, curiosamente, aparece na trajetória de um dos responsáveis pelo primeiro filme brasileiro de sexo explícito – Raffaele Rossi

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Tomei conhecimento desse filme pelo incrível e louvável trabalho de Denise Godinho e Hugo Moura, que se dedicaram a recuperar esse capítulo pouco conhecido da história do cinema brasileiro.

– Sobre o livro “Coisas eróticas”, ver  http://blooks.com.br/dica-blooks-coisas-eroticas-de-hugo-moura-e-denise-godinho/

– Sobre o documentário “A primeira vez do cinema brasileiro”, ver https://aprimeiravezdocinemabrasileiro.net/

– O filme “Coisas Eróticas” está largamente disponível na internet

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Capa do livro

Capa do livro

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Os autores recuperaram com esmero todas as fases do projeto – a ideia, o convencimento dos técnicos envolvidos, a seleção e convencimento de atores e atrizes, as filmagens com precários recursos, as dificuldades com a censura, o lançamento (decidido de forma abrupta para dar conta da tristeza que acometia a população em função da desclassificação da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1982), os desdobramentos na própria produção cinematográfica e para os personagens envolvidos.

Raffaele Rossi, que até o lançamento do filme era um polêmico e menos valorizado diretor da Boca do Lixo paulistana, enriqueceu com “Coisas Eróticas”. Sua principal decisão para investir sua fortuna foi criar um…time de futebol de salão!

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Cartaz de O Homem Lobo, filme dirigido do Rossi

Cartaz de O Homem Lobo, filme dirigido do Rossi

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A decisão tinha em conta a paixão do diretor pelo esporte e, obviamente, uma enorme imprevidência, que o levou inclusive a perder tudo o arrecado com o filme em uma década de gastos excessivos. De toda forma, em 1983, criou o Grêmio Recreativo Rossi, com sede no próprio sítio onde passava dias com a família e oferecia festas inesquecíveis.

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Grêmio Recreativo Rossi

Grêmio Recreativo Rossi

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Rossi investiu alto na iniciativa, tanto na construção de instalações adequadas, com o que havia de mais moderno, quanto na formação da equipe, trazendo inclusive três jogadores do Paraguai, na época vice-campeão mundial da modalidade. O primeiro jogo fez crescer no diretor a certeza de que se tratava de um bom investimento – 3 X 2 no poderoso Banespa.

O futuro, contudo, não exponenciaria o esperado. O time faliu junto com seu criador.

– Mais informações sobre o time, ver https://aprimeiravezdocinemabrasileiro.net/ (1h07min. a 1h08min.)

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Dinheiro da “sacanagem” bancando o esporte. Nesse caso da equipe de Rossi, nenhum problema. Sacanagem da braba, no pior sentido do termo, estava na mesma época ocorrendo na articulação entre cartolas do futebol e de escolas de samba, gente do jogo do bicho, setores da ditadura e da polícia, assunto magistralmente tratado por Aloy Jupiara e Chico Otavio em “Os porões da contravenção – Jogo do bicho e ditadura militar: a história da aliança que profissionalizou o crime organizado” (http://www.blogdaeditorarecord.com.br/2015/11/30/os-poroes-da-contravencao-de-aloy-jupiara-e-chico-otavio/). De fato, iria crescer muito o número de sacanagens ao redor do esporte-rei do Brasil.

A comparação é plausível. “Coisas Eróticas” hoje parece coisa de criança, como o pareciam frente a ele aqueles filmes da “Sala Especial” que povoavam nossas imaginações (e movimentavam nossos corpos) infantis.

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Uma aventura juvenil na África do Sul

06/10/2014

Por Rafael Fortes

Uma garota rica que vive na Califórnia parte para a África do Sul para conhecer a terra de sua finada mãe, viajando e surfando. Esta é a trama inicial de A Onda dos Sonhos 2, dirigido por Mike Elliott e lançado em 2011. Neste texto, chamo a atenção para dois aspectos desta obra: o protagonismo feminino e o papel da África do Sul (outros elementos foram explorados no artigo que deu origem a este texto).

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Onda 2 foi lançado nove anos após o original. Embora a trama não seja uma sequência do primeiro – as atrizes principais tampouco são as mesmas -, um dos pontos em comum é ser protagonizado por mulheres surfistas. Trata-se de algo raro na filmografia sobre a modalidade, amplamente dominada por homens nos papéis principais.

Dana torna-se amiga de Pushy, sul-africana cujo sonho é aprender a realizar uma manobra (aéreo 360) e vencer a seletiva para a equipe Roxy, da qual já faz parte Tara, a sul-africana que fecha o trio. Tara é a antagonista de Dana.

Por falar em Roxy, a ampla presença da marca na trama é uma das chaves explicativas para compreender a realização do filme. O nicho feminino vem apresentando taxas de crescimento significativas nos últimos anos, amplicando um mercado consumidor que, décadas atrás, atingia majoritariamente os homens.

No making of, surfistas profissionais (homens e mulheres) afirmam ter a expectativa de que, tal como ocorrera com A Onda dos Sonhos (de 2002), Onda 2 contribua para divulgar o surfe feminino e estimule muitas a garotas a começar a surfar. Segundo este ponto de vista, filmes como Onda 1 e Onda 2 estimulam o crescimento de uma prática social – surfar – profundamente articulada a uma indústria florescente. Neste contexto, cabe ressaltar que a Roxy é a marca criada pela Quiksilver (uma das principais multinacionais do surfe mundial) voltada para o público feminino. Os logotipos abaixo explicitam a relação entre ambas: Roxy, à esquerda; Quiksilver, à direita.

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África do Sul

Onda 2 apresenta a África do Sul como um país de paisagens exuberantes, repleto de belos locais para o turismo, a prática do surfe e o contato com a natureza. Não é acaso o filme ter sido rodado em 2010: os governos sul-africanos vêm investindo no esporte como ferramenta para promover uma imagem positiva do país e incrementar o fluxo turístico. A Copa do Mundo de futebol realizada em 2010 é o principal exemplo desta política – e das consequências para setores da população local (como discuti em texto sobre o documentário Cidade de Lata).

A tarefa é árdua, tendo em vista o período de segregação racial como política de Estado, que recebeu ampla divulgação e condenação ao redor do mundo. Isto incluiu o próprio universo esportivo, com boicotes que vigoraram durante décadas.

Aos investimentos no esporte soma-se uma política de incentivos estatais para a indústria cinematográfica, sobretudo para coproduções que sejam rodadas em solo sul-africano. De acordo com documentos oficiais, os objetivos são o fortalecimento do cinema no país, bem como os benefícios econômicos relativos aos gastos durante o período de produção e à contratação de mão-de-obra local.

As gravações de Onda 2 foram realizadas no país e, como dito, é nele que se passa a trama. A aventura e o desejo da protagonista de conhecer os lugares mencionados no diário de sua mãe, bem como surfar as mesmas ondas, funciona como um pano de fundo que permite a circulação das personagens por diferentes regiões e paisagens.

O gran finale se passa em Jeffrey´s Bay, principal destino de surfe do continente africano e um dos locais mais famosos para a prática do esporte no mundo.

Para saber mais

FORTES, Rafael. Surfe feminino, indústria do surfwear e promoção da África do Sul: uma análise de A Onda dos Sonhos 2. Licere, Belo Horizonte, v. 17, n. 2, p. 283-311, jun. 2014.


Australianos e sul-africanos metem o pé na porta do surfe no Havaí (1974-1977)

01/06/2014

Por Rafael Fortes

Bustin´ Down The Door (As Lendas do Surf) narra/constrói a história de como um punhado de surfistas australianos e sul-africanos transformou a modalidade durante a segunda metade dos anos 1970. Até então, havia dois parâmetros para o ato de surfar:

Entre os havianos, cabia ao surfista seguir a onda, unir-se a ela. Na Califórnia, o objetivo era embelezar a onda, aparentando um certo desdém e realizando poucas manobras: ‘esforçar-se muito na onda era um sinal de indignidade’ (Fisher, 2005, p. 18). Os australianos (e os sul-africanos) pegaram o estilo californiano e desenvolveram cada vez mais a agressividade. Na Austrália, particularmente, o objetivo era dominar, despedaçar, destruir a onda (Booth, 2001, p. 100-1). A existência de visões distintas foi um dos problemas impostos aos que queriam desenvolver o surfe competitivo: ‘competições organizadas requeriam regras formais, mas a codificação não era uma questão fácil, pois os estilos de surfe refletiam variações regionais’ (Booth, 2001, p. 100). A construção de parâmetros unificados de avaliação das manobras nas competições internacionais se deu em meio a conflitos, mas a vertente australiana acabou se impondo. Nos dias atuais, a predominância do padrão agressivo leva à realização constante de manobras impensáveis, raríssimas ou impossíveis de completar nos anos 1980, como as muitas variedades de aéreo. Como ressalta Booth, a evolução se deve a fatores técnicos (como número de quilhas, peso, formato e material das pranchas), esportivos e culturais.

É destes australianos e sul-africanos que o documentário trata.

Pôster do filme (extraído daqui).

Pôster do filme (extraído daqui).

Introdução

Como recurso narrativo, embora enfoque o período 1974-1977, a trama começa e termina no presente. O início mostra campeões do final dos anos 1970 recebendo troféus na festa de fim de ano da ASP (Associação dos Surfistas Profissionais) na Austrália em 2007. E finaliza com diversos entrevistados – tanto os premiados quanto outros, de gerações posteriores – confirmando a relevância do papel desempenhado pelos primeiros para o surfe chegar ao estágio atual.

E o que fizeram esses agentes – além de serem os primeiros vencedores do circuito mundial de surfe – para merecer tal honraria? “Criamos um esporte, uma cultura e uma indústria”, afirma um deles. Foram fundamentais na criação do surfe profissional, porque queriam ser surfistas profissionais.

Narrado por Edward Norton, o filme fala basicamente de Pete Townend (Austrália), Shaun Tomson (África do Sul), Mark Richards (Austrália) e Wayne “Rabbit” Bartholomew (Austrália), que foram os quatro primeiros campeões mundiais de surfe, e de Michael Tomson (África do Sul) e Ian Cairns (Austrália). O documentário considera-os figuras fundamentais nas notáveis mudanças observadas na modalidade naquele período. Boa parte do tempo é preenchido com depoimentos dos seis.

O primeiro inverno havaiano (1974-1975)

Sendo surfistas de destaque em seus países, os seis sonhavam com o Havaí. Nas palavras de Rabbit: “Fizemos o Havaí. Conquistamos o lugar.” Tal postura, de acordo com eles, não significava desrespeito pelos locais. No início do filme, um dos depoentes se refere a Reno Abellira e outros que entravam na água em dias casca-grossa do North Shore como “deuses”.

Shaun Tomson afirma que, no primeiro verão “de verdade” no Havaí, seu objetivo era mostrar-se o melhor, porque era contestado em Durban, sua cidade natal. Praticantes de outros continentes viajavam para as ilhas porque, a partir de 1965, elas sediavam campeonatos. De 1970 em diante, ocorria algo inédito: o pagamento de prêmios em dinheiro para os vencedores.

Foram distribuídos 24 convites para participar dos campeonatos daquela temporada, sendo 22 para havaianos, o que Wayne Bartholomew considera “justo”. Afinal, surfar no North Shore era uma atividade para havaianos. Cabia aos cidadãos das demais nações do mundo mandar cartas pedindo para serem convidados para os campeonatos. Três dos protagonistas foram suplentes do Smirnoff Pro e disputaram uma vaga para a competição.

Naquele ano, os havaianos foram hospitaleiros com os visitantes.

A temporada 1975-1976

É o ponto de virada do surfe em direção ao profissionalismo.

As pranchas eram monoquilhas, mas Shaun Tomson inovou na forma de pegar tubos. Novas pranchas permitiram manobras e performances antes impossíveis, como surfar Pipeline de backside.

Tem início um “novo estilo” que valoriza a adrenalina. “Queríamos ser os mais agressivos, os mais radicais, fazer novas manobras”, diz um depoente. Os haoles inovam ao surfar Off The Wall e afirmam que criaram aquele pico. Fotógrafos passam a acompanhá-los com avidez de uma praia a outra.

“Quebrando a tradição”, aussies e sul-africanos ganham todas as competições do inverno havaiano de 1975. Os membros da nova geração se tornam ídolos da molecada e ocupam as capas de revista e os filmes. Ciosos do que desejavam – viver do esporte -, fizeram marketing e promoveram a si mesmos e ao surfe.

Passada a temporada, Rabbit escreve um artigo (Bustin´ down the door) no qual afirma que ele e os demais não ficariam mais esperando favores para entrar pela porta dos fundos nos campeonatos: haviam arrombado a porta.

Os havaianos ficaram enfurecidos. No inverno seguinte vieram as consequências.

A temporada 1976-1977

Uma delas foi a criação dos black trunks (ou Da Hui), um grupo de locais do North Shore. Entre eles, Eddie Rothman, cujo depoimento no filme é uma pérola, repleto de episódios dos quais não se lembra, sempre rindo. Chegaram a ser presos e ganharam fama pelo localismo casca-grossa.

Além do texto de Rabbit, outros textos publicados em revistas de surfe – como um que criticava a formação do Da Hui – irritaram os havaianos.

Os membros do clube meteram a porrada em Rabbit na primeira ocasião em que o australiano surfou em Sunset naquele ano. Na sequência, ameaçaram queimar a casa em que estava hospedado. O haole fugiu para o meio do mato e depois se escondeu com Ian Cairns num hotel, do qual não podiam sair.

Ambos receberam escolta policial para comparecer ao Pipe Masters (até hoje o importante campeonato de surfe mais importante do mundo). Os protagonistas relatam ter apanhado muito, e mais de uma vez. Um comprou uma escopeta. Outro comprou uma arma e um taco de beisebol.

Em dado momento, ainda isolados no hotel, recebem a visita de Eddie Aikau, lendário surfista e salva-vidas. Eddie os conduz a um julgamento, em que atua como mediador. Mark Richards, um dos protagonistas, é usado no julgamento como o bom australiano, em oposição a Cairns e Bartholomew. No salão de conferências de um famoso resort de Oahu, 150 pessoas participaram do julgamento de dois estrangeiros – com veredito e tudo.

De acordo com os depoimentos, os problemas extrapolavam o universo das praias: havia um clima de violência em Oahu, em meio a intenso consumo e tráfico de drogas. Muitos havaianos tinham a sensação de que haviam perdido tudo para os estrangeiros e ocupantes – a começar pelos EUA. Só lhes sobrara o surfe, e agora haoles estavam querendo tomá-lo. No universo do surfe, houve ameaças de morte até para os jornalistas que escrevessem sobre as brigas, grupos e ameaças.

Outros conflitos

Embora o documentário trate o ocorrido com os australianos e sul-africanos como sui generis, há ao menos duas experiências similares, respectivamente com californianos e brasileiros:

a) no “inverno de 1969-70, quando os havaianos atacaram os ‘surfistas hippies e cabeludos principalmente da Califórnia [sic] que traziam drogas e se sentiam os donos de tudo’.” (Reinaldo Andraus, “Arrepio: só nas ondas”, Fluir 20, mai 1987, p. 48)

b) no inverno de 1986-1987, foi a vez dos brasileiros. Um grupo teve a casa onde passava a temporada cercada e ameaçada de incêndio por havaianos. O sítio ao imóvel “repetiu-se algumas vezes e só foi suspenso com apelos à polícia e ao consulado brasileiro”. (Alberto A. Sodré, “Hawaii: um inverno quente nas ilhas”, Fluir 20, mai 1987, p. 44)

(Para os historiadores que se encantam com a leitura de fontes, fica a dica: estas duas reportagens são maravilhosas!)

Considerações finais

O filme termina com informações sobre a criação da IPS (International Professional Surfers), primeira entidade a organizar um circuito mundial de surfe. Executivos de multinacionais da indústria de surfwear afirmam que aqueles seis foram fundamentais para as empresas crescerem e se tornarem o que passaram a ser: com eles, havia ídolos para estampar os anúncios das marcas nas páginas das revistas e despertar a admiração dos jovens.

Bustin´ Down the Door traz depoimentos riquíssimos. (Fico imaginando o material bruto com o depoimento completo de cada entrevistado…) Também pode ser visto como uma produção audiovisual que cristaliza e reforça um mito fundador bastante presente na subcultura da modalidade (para uma reflexão sobre a relação entre mitos fundadores no surfe e pesquisa científica, ver Dias, 2011).

Para além do conteúdo – foco deste texto -, é um filme bonito, que mescla imagens produzidas para ele com gravações de arquivo. Há muitas imagens granuladas de grande beleza, tanto em cor quanto em P&B.

Informações técnicas

EUA, 2008, 96′

Direção: Jeremy Gosch

Um dos protagonistas, Shaun Tomson, filmou boa parte das imagens registradas no campeonato de 1974-5 em que Mark Richards tomou parte. Tomson é também o produtor executivo e um dos roteiristas.

O filme é “inspirado” por Wayne “Rabbit” Bartholomew.

Entre os depoentes estão lendas do surfe como Ben Aipa, Tom Carroll e Greg Noll.

Na trilha sonora: Leonardo Cohen, The Stooges e David Bowie, entre outros.

Para saber mais

– Sobre o esporte na Austrália, ler os textos de Jorge Knijnik;

– Sobre esporte e cinema, os de Luiz Carlos Sant´Ana;

BOOTH, Douglas. Australian Beach Cultures: The History of Sun, Sand and Surf. London: Frank Cass, 2001.

DIAS, Cleber. Vaca longa: repensando a historiografia brasileira do esporte a partir do surfe na Bahia. Recorde: Revista de História do Esporte, Rio de Janeiro, v. 4, n. 2, p. 1-11, dez. 2011.

FISHER, Kevin. Economies of Loss and Questions of Style in Contemporary Surf Subcultures. Junctures: The Journal for Thematic Dialogue, Dunedin, n. 4, p. 13-20, June 2005.

A primeira citação longa foi extraída de FORTES, Rafael. O surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri/Faperj, 2011, p. 194-5.

Em tempos de redes sociais, cabe registrar a dificuldade de encontrar dados no site atual da ASP (reformulado em 2014). Deve ser ótimo para ver na tela do celular, mas simplesmente sumiu com boa parte das informações antes disponíveis – e, pior, com os meios de encontrá-las! A extensa quantidade e qualidade de dados que havia sobre a entidade e o passado do surfe profissional foi trocada por uma historinha pobre e sem links.


O sonho de Kassim

23/09/2013

Rafael Fortes

Preâmbulo

“Sonho de Kassim – Surfista Israel”. Assim estava escrito no DVD que coloquei para rodar no aparelho. O texto de hoje do blogue era meu e eu estava sem ideia de tema. “Vou aproveitar para ver aquele filme sobre surfe e Israel”, pensei. Seria uma oportunidade de voltar a dois temas que tanto me interessam (na verdade, o que mais me interessa no segundo é aquilo que o país não deixa existir: um outro chamado Palestina).

Botei o filme para rodar e… era sobre um boxeador ugandense radicado nos EUA. “A cavalo dado não se olha os dentes”, diz um ditado popular que minha mãe costumava repetir durante minha infância. Uma das coisas legais deste grupo de pesquisa é a troca de presentes, agrados, lembranças e referências entre os membros. Um colega gentilmente gravou e me deu o DVD – e anotou o nome errado meio certo, meio errado. Vamos ao filme, então.

O Sonho de Kassim

O Sonho de Kassim – Do horror da guerra à glória no boxe (o título inventado no Brasil é praticamente uma sinopse) é um documentário narrando a trajetória de Kassim Ouma, natural de Uganda e boxeador profissional nos Estados Unidos. Kassim The Dream (título original), foi produzido em 2008 e lançado no ano seguinte, sob direção de Kief Davidson. Eis o trailer:

Como é comum no boxe, ele tem um apelido, usado entre o nome e o sobrenome: Kassim “The Dream” Ouma. Não sei se é coincidência, mas o apelido, “O Sonho”, é o mesmo de “um dos maiores jogadores da história” da principal liga norte-americana de basquete (a National Basketball Association, NBA): o nigeriano Hakeem “The Dream” Olajuwon. Ambos africanos que fizeram sucesso no esporte profissional nos EUA.

A história começa a ser contada com o rapto que ele sofre na escola, aos seis anos de idade. Na montagem paralela, a luta em que se tornará detentor do cinturão da Federação Internacional de Boxe (FIB). Kassim desertou quando estava nos EUA para participar de um campeonato mundial militar, como boxeador do exército ugandense.

Filme de boxe, filme biográfico

A história de vida do protagonista é incrível. Sobre o passado, somos informados de que matou e torturou muita gente quando participava de um grupo armado em seu país. “Torturar pessoas era divertido. Porque eu era criança”, explica, para, em seguida, explicar que apenas cumpria ordens e que se arrepende do que fez. Segundo o lutador, o boxe é uma “terapia” que lhe ajuda a lidar com tal passado.

Kassim ficou muitos anos sem ver a mãe, até conseguir levá-la para viver com ele nos EUA (ao final do período de produção do filme, Kassim morava na Flórida com a mãe e seus dois filhos). Segundo relata, seu pai foi assassinado por vingança, devido à deserção do filho.

No presente da narrativa, acompanhamos cenas do período em que o filme é produzido. Não apenas sua rotina de treinos e lutas, mas os dramas pessoais para levar para os EUA seu primeiro filho (que morou em Uganda durante muitos anos) e conseguir visitar o país natal. Após enfrentar muitas dificuldades, Kassim consegue ambos os objetivos.

Particularmente notáveis são as cenas gravadas em Uganda, desde a recepção com festa no aeroporto até a entrevista com o comandante das forças armadas, passando pelo contato com crianças, a visita à avó, o retorno à cidade natal (onde é recebido como ídolo) e a visita ao túmulo do pai, por cuja morte o protagonista se sente responsável.

Comum tanto nas biografias como nas películas de boxe, temos na tela uma trajetória individual de superação. O garoto que teve infância e adolescência trágicas  torna-se ídolo nos EUA e ganha o cinturão da Federação Internacional de Boxe (FIB), uma das principais da modalidade. Depois, perde o título por causa de farras. Depois tenta (e perde) conquistar o título mundial em outra categoria…

Boa parte da narração acontece em primeira pessoa. Quando escrevi que se tratava de um “documentário narrando” a trajetória do boxeador, é um jeito de falar. Outro seria que se trata de uma construção (entre muitas possíveis) de uma trajetória (entre muitas possíveis) do boxeador.

Seja como for, é um filme impressionante – menos pela construção da obra cinematográfica e mais pela trajetória do personagem -, que permite a discussão de temas como imigração, consumo, os imaginários ligados aos EUA (como terra que acolhe imigrantes, terra da liberdade e onde os capazes conseguem vencer etc.), relações internacionais (incluindo as deserções de esportistas e suas implicações) e uso de drogas por atletas (Kassim fuma maconha regularmente).

Leituras recomendadas

Sobre as crianças-soldado, só que na África Ocidental, recomendo o romance Alá e as crianças-soldado, de Ahmadou Kourouma, editado no Brasil numa série bem interessante, Latitude, da Editora Estação Liberdade.

Sobre filmes de boxe, o artigo “Cinema, corpo, boxe: reflexões sobre suas relações e a questão da construção da masculinidade”, de Victor Andrade de Melo e Alexandre Fernandez Vaz. In: MELO, Victor Andrade de; DRUMOND, Maurício (org.). Esporte e cinema: novos olhares. Rio de Janeiro: Apicuri, 2009. p. 95-143.


Peregrinações em bicicleta – um pouco de história, um pouco de cinema

16/07/2012

Por André Schetino

Olá amigos

Escrevo esse post durante as férias. Acabo de chegar a Paraty de bicicleta, vindo de Ouro Preto, ao longo de alguns dias de pedaladas pela Estrada Real. Ainda inspirado pela viagem, resolvi trazer nesse post alguns exemplos de viagens e peregrinações de bicicleta ao longo da história.

A Estrada Real foi o caminho brasileiro percorrido por nosso ouro até Portugal. Hoje transformada em roteiro turístico, o percurso bem difundido por viajantes de bicicleta, contando inclusive com guias específicos para percorrer o caminho sobre duas rodas. O cicloturismo é uma atividade muito popular na Europa, e vem ganhando adeptos no Brasil. Contudo, as viagens e peregrinações em bicicletas são encontradas desde pouco depois de sua invenção, no ano de 1862.

Mas a bicicleta é muito utilizada no Brasil de diversas maneiras. Em uma reportagem sobre a inauguração de Brasília, a Revista Alterosa clicou um ciclista que saiu do Rio Grande d o Sul e foi até a recém inaugurada capital nacional.

Fonte: Revista Alterosa, nº 330, junho de 1960, página 70.

Outro exemplo atual sobre grandes peregrinações em bicicletas foi a Bicicletada Nacional realizada durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável – Rio +20. Ciclistas saíram de diversas cidades do Brasil e se encontraram no Rio de Janeiro para reinvindicar políticas de mobilidade urbana que diminuam a dependência dos automóveis e incentivem o uso da bicicleta como meio de transporte.

Para terminar, um exemplo diferente de mobilidade em bicicletas, desta vez vindo do cinema. Trata-se do belíssimo filme “O Caminho das Nuvens”, do ano de 2003. Wagner Moura interpreta um pai de família cujo sonho é conseguir um emprego com salário de R$1000 para sustentar sua família. Para isso viaja com todos de bicicleta, do sertão nordestino rumo ao Rio de Janeiro. Baseado numa história real, o filme mostra de forma bela – e dura – a vida de um migrante, baseada em sonho, esperança e fé. Pra quem ainda não assistiu ou memso pra quem já conhece o filme, vale acompanhar sob a ótica da bicicleta como elemento da cultura.  Deixo vocês com o trailer do filme.


Cidade de lata

14/11/2011

Por Rafael Fortes

Dura menos de meia hora. 29 minutos e 47 segundos, para ser preciso. Traduzo o título por “Cidade de Lata” e o subtítulo, “O custo irresponsável da Copa do Mundo de 2010”. Tudo que está entre aspas neste texto foi retirado do filme e traduzido por mim.

O roteiro e o conteúdo revelam o que relativamente poucos sabem (e, destes, menos ainda estão dispostos a discutir, divulgar e tentar mudar).

Por exemplo, a repressão a trabalhadores informais de feiras livres sob a alegação de que as ruas precisam ser transformadas em espaços “amigáveis para o turista”. Ou seja, o espaço da rua e da cidade não são para quem vive nela. A preocupação da Prefeitura não é com os cidadãos/moradores – aqueles que a elegeram. A prioridade é a imagem. Você, leitor(a), conhece alguma cidade com dirigentes assim?

Ou a remoção (melhor seria dizer expulsão) de 10 mil pessoas para a cidade de lata, a 35km da Cidade do Cabo, onde viviam. Ao ver as primeiras imagens, pensei: parece um campo de concentração. Pouco depois, um entrevistado diz, acabando com qualquer dúvida: “isto é um campo de concentração”. Vemos a casa de lata de oito metros quadrados em que vive o personagem central. Vemos o banheiro de uso coletivo sem água. Um deles é uma cabine de cerca de um metro quadrado. No meio, um balde – isso mesmo, usa-se um balde para fazer as necessidades.

Ou o seguinte comentário: “saímos de uma opressão para ser oprimidos de novo? Isso não é justo.” Velhas e novas formas de segregação na terra que introduziu o termo apartheid no vocabulário global.

Ou as condições “opressoras” de trabalho e a “exploração” a que foram submetidos os operários das obras do Mundial, como baixos salários e contratos temporários.

*  *  *

Trailer:

Tin Town é o nome do filme. A produção é uma iniciativa da ONG Sport for Solidarity (algo como esporte para a solidariedade). Tive a oportunidade de assisti-lo graças a uma gentileza do diretor, Geoff Arbourne. (Ainda) não está disponível no Brasil.

Aliás, “o Brasil é o próximo.”

E aí?