O remo em Salvador

29/11/2011

Por Coriolano P. da Rocha Junior

Embora Salvador seja uma cidade litorânea, o desenvolvimento do remo na cidade não foi “natural”, foi sim uma construção cultural. Em seu início o remo simbolizava novos hábitos e comportamentos, uma maneira diferente de olhar e lidar com o corpo, uma verdadeira forma de ser ou ao menos parecer moderno. Na prática do remo, o homem se expõe ao contato com a natureza, enfrenta desafios e busca a superação de seus limites. Além disso, em seus primeiros momentos, o remo incorporava novos significados de vivência no urbano, de convivência com pessoas, de relação com a velocidade, com tecnologias e, ainda, de aventuras, ações de vigor e de exposição do corpo. Muito por conta desses fatores, o remo era o esporte de maior apelo no início do século, atraindo um público diversificado e de variados estratos da população.

Em Salvador foram quatro os clubes que fizeram acontecer as regatas: Esporte Clube Vitória (1899); Clube de Natação e Regatas São Salvador (1902); Clube de Regatas Itapagipe (1902) e Sport Club Santa Cruz (1904), tornando-as uma atividade de importância e valor para a cidade, com suas provas sempre acontecendo na Enseada dos Tainheiros, garantindo a esse espaço um lugar na memória sentimental baiana.

O desenvolvimento do remo também contribuiu para o aprofundamento da estruturação do esporte como um todo. Foi a partir do remo que a organização esportiva em Salvador foi mais bem delineada, se percebendo a preocupação não apenas com o esporte, mas também com a cidade e sua constituição e, ainda, com a convivência social, ou seja, o remo foi uma prática esportiva que teve implicação com a própria dimensão de “recriação” da cidade.

Era comum acontecer na cidade duas grandes regatas, uma a cada semestre, sempre sob a organização de um clube ou da Federação de Regatas. O remo e suas provas sempre foram notícia nos jornais baianos, suas competições eram sempre mostradas como uma autêntica demonstração de civilidade e de seus moradores, ora com vivas, ora com críticas ao seu desprestígio.

Os jornais locais anunciavam as regatas desde a sua organização, mostrando quais seriam seus páreos, os clubes que participariam de cada um e, ainda, comentavam os cuidados gerais na organização do evento, para que tudo corresse bem e que todo o público pudesse dele aproveitar da melhor maneira. Para tanto, além da prática esportiva em si, as regatas também envolviam a participação de bandas e sinfônicas, que tinham a tarefa de entreter o público. Cada clube colocava a disposição de seus sócios e convidados um barco que tinha o papel de levar essas pessoas enseada adentro, para que de lá assistissem as regatas com maior conforto. Além disso, as areias e calçadas eram tomadas por quem queria assistir a competição ou somente desfilar pelas ruas.

Em Salvador, ao mesmo tempo em que observamos os jornais estampando matérias alusivas ao remo e as suas regatas, verificamos também matérias que apontam críticas referentes à sua estrutura, a exemplo do que traz o jornal A Tarde[1] “mais uma vez recomendamos aos que forem por mar assistir a regata de domingo vindouro, não ancorarem suas embarcações no meio da raia, nem cortarem-na na hora do pareo”.

O mesmo jornal A Tarde[2] trazia na edição de 19 de dezembro de 1912 uma interessante matéria. Nela, o jornal questionava e lamentava a não participação dos baianos no Campeonato Brasil de remo, realizado no Rio de Janeiro, ao mesmo tempo em que criticava dirigentes esportivos e políticos baianos pelo fato. Na sequencia, ressaltava que se tivesse havido participação baiana, teria o Brasil visto o valor de seus jovens.

Com tudo isso, podemos considerar que o remo teve grande potência como prática esportiva. Clubes e entidades reguladoras foram fundados, as regatas se transformaram em eventos significativos e de valor muito maior que o esportivo, tornando-se mesmo um marco das novas relações sociais. Todavia, em Salvador, essa prática decaiu em importância, significado e atração popular, fato que segue até hoje.


[1] Jornal A Tarde, 24 de outubro de 1912.

[2] Jornal A Tarde, 19 de dezembro de 1912.


O ciclismo em Salvador

15/08/2011

Por: Coriolano P. da Rocha Junior

          Neste blog tenho falado dos esportes em Salvador e no post anterior, comentei sobre a patinação. No post de hoje, trato de outro esporte, o ciclismo, que na cidade do Salvador teve sua existência inicial vinculada à patinação.

          Por mais que atualmente possamos associar o uso da bicicleta ao cotidiano e ao imaginário popular, sabemos que ainda existem dificuldades, seja para o ciclismo como uma prática esportiva, seja para o uso da bicicleta como meio de transporte e de lazer. E se em Salvador, ainda hoje existe a dificuldade de se incorporar a bicicleta aos hábitos comuns do dia a dia (as ciclovias da cidade são limitadas e o trânsito difícil), vejamos como era isso tempos atrás.

          Em Salvador, desde fins do século XIX, os jornais noticiavam “garagens” e aluguel de bicicletas, sempre importadas, o que nos faz entender, que já era então algo conhecido na cidade, mesmo que pouco vivido, pois, importadas, não faziam parte do cotidiano da população por conta de seus elevados preços.

          Em terras baianas, o ciclismo pareceu acontecer sob a mesma estrutura dos clubes de patinação. Era fato comum que houvesse atividades simultâneas das duas práticas, desenvolvidas pelos mesmos clubes nos mesmos espaços. As corridas eram desenvolvidas para velocidade, sendo mais comuns no Comércio e no Centro Histórico ou para resistência, com deslocamentos até o Rio Vermelho e também faziam parte das festividades promovidas pelos clubes.

          A imagem adiante demonstra a aproximação entre a patinação e o ciclismo em Salvador. Observa-se que a espaço de prática parece ser o mesmo (as ruas do bairro do Comércio) e as vestimentas são quase idênticas. Os ciclistas aparentam uma imagem de segurança e força ante os desafios que virão, estando cercados por grande número de pessoas, que demonstra o quanto a prática e o equipamento eram atraentes para o público. Por outro lado, o pequeno número de praticantes é simbólico, significando o quanto a bicicleta ainda era algo distante da população, sendo uma prática com menor número de adeptos.

Ciclistas a espera da largada: Revista Renascença, ano I, n.VI, Novembro 1916

          Em 23/04/1912, o Jornal de Notícias divulgou o que dizia ser a primeira corrida de bicicletas da Bahia, realizada no bairro do Canela. Nos jornais, eram comuns notas apresentando as provas a serem disputadas, com os clubes, os participantes e a premiação, além do local das competições. Dias após as provas, eram noticiados os vencedores e seus tempos.

          Nesse período inicial da prática do ciclismo, sem dúvida, podemos associá-lo as novas concepções da vida moderna. A modernidade experimentada em Salvador, nesse período, tentou transformar a cidade num espaço de maior urbanização, civilizado e os esportes, dentre eles o ciclismo, representavam esses novos sentidos da modernidade, ousadia, desafio, superação, destemor e vivacidade.

          Se olharmos para o passar dos anos, podemos afirmar que a população de Salvador, por mais que sua geografia e estrutura urbana ainda dificultem o uso da bicicleta, tentou incorporar as pedaladas como uma atividade comum. Já na esfera competitiva, a cidade, até hoje não construiu um espaço específico para as provas de ciclismo e mesmo de forma adaptada, é bastante difícil de ver o ciclismo em terras soteropolitanas atualmente. Esperemos então que a cidade, sem suas novas propostas de modificação urbana, atente-se para as bicicletas, construindo espaços que permitam a população vivenciar essa atividade em todas as suas dimensões, com segurança e conforto.



A patinação nas terras de Salvador

02/05/2011

Por Coriolano P. da Rocha Junior

            Neste blog tenho me ocupado de tratar a história do esporte na Bahia e para tanto, venho trabalhando com a constituição deste fenômeno social nas terras baianas e também suas formas de representação. Para o post de hoje, reservei uma atividade, que na atualidade, não tem grande repercussão, sendo pouco vista nas ruas, praças e parques da cidade de Salvador, a patinação.

            A patinação, prática que hoje é associada a variadas atividades esportivas (artística, de velocidade, no gelo e sobre rodas), sem contar outros esportes que fazem uso dos patins, como o hóquei, também é uma atividade que objetiva a diversão e não é de hoje que se conhece a patinação no Brasil e em Salvador, cidade onde esta prática já viveu momentos de maior intensidade.

            Em Salvador, entre anos como 1912 e1916, apatinação despertou razoável interesse. Nesse período existiram clubes de patinação (Internacional Club de Patinagem, Sport Club Colombo de Ciclo-Patinação) e diversos eventos foram realizados na cidade, basicamente nas ruas do Bairro do Comércio ou em passeios, do Centro Histórico ao Rio Vermelho. Esses eventos, na maioria das vezes, assumiam um caráter competitivo, cujos participantes eram distribuídos por páreos (como no turfe), em função das distâncias a serem percorridas.

            Nesses mesmos anos, Salvador experimentava uma fase de modernização, onde se tentava implementar um projeto que visava remodelar a cidade em sua estrutura urbana, com a construção de novas avenidas, monumentos, edifícios e ao mesmo tempo, outras tantas edificações eram destruídas. Assim, Salvador tentava modernizar-se a partir de uma nova lógica de cidade e, além disso, também se pensava em mudar os hábitos de seus moradores, fazendo com que também eles experimentassem práticas que eram consideradas civilizadas, modernas e dentre estas, estavam às práticas corporais. Assim, a patinação, por ser uma atividade que trazia incorporada em si, aspectos como a velocidade, o desafio e a superação de limites, era então, considerada perfeitamente ajustada aos esperados novos comportamentos dos cidadãos soteropolitanos.

            Nesse período, em Salvador, a patinação, na maior parte das vezes teve caráter competitivo e foi organizada por clubes específicos, mesmo que em lugares improvisados, tendo também existido como um divertimento nas festas de diversos outros clubes que já existiam na cidade e não apenas nos de patinação, além de ser uma atividade em festas realizadas pelos bairros de Salvador.

            Esta imagem[1], de patinadores a espera da largada, bem demonstra a forma com que a prática dessa atividade era encarada. Vê-se que os praticantes, no instante da largada, se postam para a foto com uma postura “desafiadora”, de frente, com um olhar e uma feição típicas de uma aparente segurança frente aos desafios que virão adiante. As roupas (comuns a todos), também são uma mostra do quanto era necessário parecer elegante, mesmo para os praticantes, por mais que as roupas não fossem aquilo que atualmente podemos considerar mais ajustadas ao esporte. Como se percebe pelos trilhos no chão, a pista, não era exatamente a mais adequada à patinação, tornando-se assim, mais um desafio aos participantes e é justamente esse sentido de desafio, de enfrentamento do que é diferente, do sentido de velocidade, que associam a patinação ao ideário da modernidade.

            Desta forma, podemos ver que na cidade de Salvador diversas atividades já tiveram seus momentos de auge e foram significativas, ligando-se a construção da cidade. Se a patinação foi uma dessas, outras também existiram e sobre essas, falaremos em outros posts.


[1] Foto extraída da Revista Renascença, ano I, n.VI, Novembro 1916.


Mente sã em um corpo são – Por que não?

25/04/2011

por Vivian Fonseca

A película húngara Sangue nas Águas (2006), debatida na última sessão do Cineclube Sport, foi a inspiração inicial que dá origem hoje a esse post. A produção da diretora Krisztina Goda, aborda a revolução ocorrida em Budapeste em 1956 contra a dominação soviética, tendo como um de seus panos de fundo o time nacional de pólo aquático e sua ida para as Olimpíadas de Melbourne do mesmo ano. Uma das questões levantadas pelo filme e amplamente debatida no encontro de abril do Cineclube foi como o esporte e seus resultados são ressignificados e utilizados em bandeiras políticas. No caso retratado, a vitória húngara na semifinal das Olimpíadas sobre o time soviético representava a possibilidade de superioridade, mesmo que no campo esportivo, de uma nação que era violentamente humilhada e obrigada a fazer parte da URSS. A personagem principal Karcsi, capitão do time húngaro, se engaja na Revolução e, com a ilusão de que ela teria terminado e os russos teriam regressado definitivamente para casa, volta para a equipe com a responsabilidade de representar, pela primeira vez, a Hungria livre – mostrando para o mundo, a partir de vitórias no esporte, a potencialidade de seu povo. Apesar de seu engajamento político, Karcsi é muitas vezes desacreditado pela sua condição de atleta que, no senso comum e não apenas na película, é visto como o modelo de alienação, à medida que dedica seu tempo a trabalhar músculos o que, nessa concepção, o impossibilitaria de elaborar reflexões sofisticadas e ter ações engajadas politicamente.

            Inspirada por essas questões fiquei a pensar sobre meu objeto de pesquisa: capoeira e capoeiristas. Por mais que muitos questionem a ideia da capoeira como esporte e, portanto, de seus praticantes como atletas, não se pode negar que se trata de uma atividade física institucionalizada e que, muitos grupos, destacam a veia esportiva de suas vertentes. Para além de debates sobre a definição da prática, meus capoeiras, como diversos estudos sobre outras modalidades também apontam, colocam em xeque essa visão do atleta ou, de maneira mais geral, da pessoa que tem no corpo seu grau maior de expressão, como alienado e descolado de discussões socialmente relevantes. Cada vez mais organizados e articulados, os capoeiristas têm demandado respostas do governo para seus problemas, mobilizando, ainda, direitos garantidos pela Constituição brasileira.

Como um dos frutos dessa estruturação política, além do registro da capoeira como patrimônio cultural imaterial brasileiro, pode-se citar a pressão para a realização dos Encontros Pró-Capoeira do Programa Nacional de Salvaguarda e Incentivo à Capoeira, organizados pelo Ministério da Cultura, IPHAN e Fundação Cultural Palmares. Nessas reuniões, os mestres apresentaram e organizaram, em conjunto com gestores públicos, propostas para a formulação de uma política pública para o setor. Outro exemplo é a articulação política resultante da oposição que setores da capoeira baiana têm travado com a organização do evento acima. Dela resultou o Manifesto da Bahia e o I Seminário Baiano de Proposições de Políticas Públicas para a Capoeira, ocorrido no final de 2010. Exemplos de engajamento político de capoeiras ao longo da história brasileira não faltam e mostram que, mais do que puramente estimuladores de músculos, atletas e praticantes profissionais de atividades físicas refletem sim sobre questões políticas de relevância nacional. Mais uma vez, é preciso convidar os pseudointelectuais de plantão a repensarem suas categorias de análise do mundo.


O Esporte Clube Bahia

11/01/2011

Por Coriolano P. da Rocha Junior

No dia 1º de janeiro de 2011, o Esporte Clube Bahia, clube da cidade de Salvador comemorou seu aniversário de fundação e já são 80 anos de história.

Fundado em 1931, o Esporte Clube Bahia é considerado como o clube de maior torcida no estado da Bahia, aquele que provoca várias e intensas emoções em seus torcedores, nas mais diversas cidades da Bahia e mesmo do país, já que os baianos estão espalhados por todo o Brasil.

A fundação do clube se deu pela união dos jogadores de futebol de dois outros clubes da Bahia, a Associação Atlética da Bahia e o Club Bahiano de Tênis, que abriram mão de participar dos campeonatos locais de futebol. Desta forma, é que estes homens baianos se associaram e instituíram as bases deste que se tornaria um grande clube, apresentando-o ao baiano e a todo brasileiro numa data que se caracteriza por ser de festa e emoção, o 1º de Janeiro.

O Bahia ao longo de sua trajetória passou pelas mais diferentes fases e viveu realidades que fizeram seus torcedores vibrarem com as vitórias e chorarem com as derrotas e isto, nos campos e fora deles. O Bahia orgulha-se de possuir muitos títulos estaduais e também alguns títulos nacionais, de já ter tido jogadores de excelência vestindo suas cores, mas também pode lamentar o fato de ter vivido as dores dos insucessos nos campos de futebol e de ter enfrentado conflitos internos referentes à sua política, mas em todos estes tempos, sua torcida sempre expressou seu amor pelo Clube, tanto para celebrar as vitórias, quanto para criticar as suas mazelas.

As cores do Esporte Clube Bahia são as mesmas da bandeira do estado, fato que além do próprio nome o associa diretamente a Bahia, colocando o clube como uma marca e símbolo deste estado do nordeste brasileiro. Dentre seus símbolos, destaca-se a mascote que aparece na figura de um homem assemelhado ao super herói Super Homem, vestido com as mesmas cores da Bahia e do Bahia, ou seja, imagine-se um clube que assim como o herói, é praticamente invencível, com poderes especiais, ou pelo menos assim deseja sua torcida.

Quero destacar o fato de que na história do esporte baiano foram fundados uma quantidade imensa de clubes, majoritariamente de futebol. Destes, uns duraram quase nada, outros tiveram tempo médio de vida e poucos persistiram. Dentre estes que ficaram pelo caminho vemos o Sport Club Bahia. Assim anunciava o Jornal Diário de Notícias de 30/06/1913:

“No dia 1º do cadente, foi fundado nesta capital, esta sociedade sportiva, que se dedicará a regatas e ao foot-ball, além de outros divertimentos”.

Com 18 anos de diferença entre as suas datas de fundação, não há evidências de algum vínculo este clube e o atual Esporte Clube Bahia, mesmo tendo os dois o mesmo nome. Interessa apenas apontar que em outros tempos, já houve nestas terras uma equipe com a mesma denominação (guardada a diferença da escrita).

Quero saudar o Esporte Clube Bahia e seus torcedores pelo aniversário e também trazer alguns dados da história do esporte no estado da Bahia. Uma história que tem sido escrita em vínculo com a história do esporte no país, mas que guarda suas peculiaridades e particularidades, tendo em si as marcas da cultura baiana, representando os traços desta terra.


No tempo dos vagabundos

18/10/2010

Por Henrique Sena*

Na Bahia, em todas as cidades, encontramos um campinho de várzea.  Seja na capital ou em cidades longínquas lá está o campo onde se reúnem trabalhadores logo nas primeiras horas da manhã para um baba (para quem não sabe é a nossa pelada) antes do trabalho ou as crianças para um “bobinho” no final do expediente escolar. Nas cidades pequenas de beira de estrada faz parte da sua paisagem um campinho e uma igreja. Nos arriscamos a dizer que sem um campinho ou a igreja, uma cidade está incompleta. Já nas cidades litorâneas os campos ficam às margens das praias onde muitas vezes as laterais são as próprias ondas e as calçadas. Nestes campos, os jogadores dependem do fluxo da maré para jogarem.

 

Quando não são os campos, são as próprias ruas que fazem a alegria da garotada. Principalmente para os mais jovens que, muitas vezes como eu mesmo já fui, eram impedidos de jogar pelos mais velhos. Assim, outra opção não menos divertida era gol a gol, brincadeira em que as balizas eram os portões das casas e principalmente o golzinho. Este era um jogo em que a rua era o campo e as laterais eram os passeios das casas. As traves geralmente eram os paralelepípedos que já estavam desprendidos dos passeios ou pedrinhas empilhadas. Quando um carro passava, interrompíamos o jogo torcendo para que o veículo não destruísse as pedras e desmanchasse a trave. Quando isso acontecia, tínhamos o trabalho de chamar o amigo que mediu as traves para dar novamente três ou quatro passos e montar o gol mais uma vez.

 

Ainda existiam diversas variantes do jogo de bola que não se limitavam aos campinhos ou as ruas: tínhamos o “salãozinho” que podia ser realizado na garagem da casa, o bobinho em qualquer espaço e a disputa de pênaltis que, dependendo do lugar, o gol poderia ser dois coqueiros paralelos, o portão de uma casa e por aí vai…

 

Todos esses espaços e variações do futebol apontam para como este esporte, entre os brasileiros, teve uma capacidade se reinventar constantemente se apropriando dos espaços disponíveis. A peculiaridade do futebol dotado de regras simples e de um potencial extraordinário de adaptação de materiais fez do jogo de bola a prática esportiva mais popular do país se constituindo em um forte elemento da nossa identidade.

 

Porém, houve um tempo que não era assim. E foi justamente no período em que o futebol chegava no Brasil. Como já foi amplamente falado e discutido, o jogo bretão chegava a terras brasileiras como mais um elemento da chamada modernidade. E uma das características da construção dessa modernidade foi o processo sistemático de repressão das chamadas culturas populares, a saber a capoeira, os candomblés, os charivaris e serestas de todo o tipo e outras tantas manifestações. As práticas legítimas de grupos historicamente constituídos por negros (as), brancos (as), escravos, libertos, trabalhadores livres na transição do século XIX para XX passariam a ser perseguidas nas ruas, largos e praças, seus principais lugares de manifestação, e substituídas pelos footings, soirées, chás dançantes, os esportes e o futebol.

 

Para a sua consolidação, as práticas culturais advindas da modernidade europeia, no entanto, encontrariam fortes entraves exatamente naquelas culturas que se tentavam extinguir. E mais, no processo de resistência cultural, os populares se apropriariam do moderno futebol na tentativa de manter as ruas e logradouros públicos como um espaço legítimo o que revelava a capacidade dos populares em reinventarem a sua cultura.

 

Em Salvador, a partir de 1906, cinco anos após a chegada do futebol e um ano depois da formação do primeiro campeonato, surgem notas e mais notas nos jornais criticando o jogo de bola praticado não pelos os endinheirados sportmens mas pelos denominados vadios, vagabundos e capadócios. No chamado foot-ball de garotos, foot-ball de vadios ou foot-ball de vagabundos eram garotos e adultos que com os seus babas em ruas, vielas, largos e becos arruinavam os sentidos civilizatórios e modernos do sport:

Foot-ball de garotos

Continua desenfreado e insuportável o foot-ball dos garotos, que absolutamente não atendem a circunstâncias de ocasião nem de lugar, com o que prejudicam enormemente as vidraças das casas, as plantas dos jardins públicos e a tranquilidade dos transeuntes. É uma vergonha uma verdadeira miséria. (Diário de Notícias, Salvador, 07 de novembro de 1906)

 

Nesta mesma nota encontramos a insatisfação de um cavalheiro que foi à redação do jornal se queixar do “prejuízo que lhe têm causado os terríveis vadios que um dia destes lhe deram forte pancada com uma lata e hoje o iam atirando ao chão com formidável trompaço.” Em muitas outras notas aparecem relatos de garotos chutando um pano velho, uma bola de meias e até bexigas de bois. Em 26 de novembro de 1915, o jornal A Tarde publicava que “uma malta de vadios, se reuniam diariamente no campo do Barbalho para jogar um desenfreado foot-ball, com bolas de pano velho. Nas ruas os materiais utilizados para uma partida eram os mais diferentes possíveis. Além disso, os babas não tinham hora nem lugar para acontecer. Em 1912 um leitor do jornal Diário de Notícias residente no Bairro da Lapinha vinha pedir que se chamasse a atenção dos poderes competentes:

(…) para um grupo de desocupados, jogadores de foot-ball ali, onde constantemente arrebentam vidraças e atropelam os transeuntes. É por demais estreito o local onde abusivamente se utilizam para este prejudicial divertimento existindo até uma postura municipal que proíbe tais jogos em lugares não determinados pela intendência já não falando também no abusivo brinquedo das arraias que danificam a toda hora os telhados das propriedades ali (Diário de Notícias, Salvador, 26 de abril de 2012)

 

Já na nota “A doença do sport”, os moradores à rua do Bengala, segundo o jornal A Tarde, sentiam-se incomodados com a persistência de alguns indivíduos, que para patentear seu amor ao esporte, “ficam, todos os dias, a jogar desde as primeiras horas da noite, no ‘campo’ impróprio de uma rua estreita, que assim fica quase intransitável. As famílias ali residentes esquivam-se de sair à noite com medo do desordenado ‘team’”( A Tarde, Salvador, 7 de novembro de 1914)

 

Ao longo das duas primeiras décadas do século XX, são muitas as notas criticando esta prática. Afinal, era inaceitável o uso de uma prática civilizada por “capadócios que, sem a mínima noção do que seja o belo e útil jogo do foot-ball vivem por aí a quebrar vidraças das casas e das igrejas.” ( Diário de Notícias, Salvador, 19 de julho de 1906)

 

São muitas as notícias sobre os vagabundos soteropolitanos e não cabe neste post comentar a maioria delas. Uma coisa, porém, deve ficar registrada. Nos momentos de tensão e de forte repressão aos populares imaginamos uma cultura popular bravamente resistindo com seus atabaques, berimbaus, rodas de samba e capoeira. Isso não deixa de ser verdade, mas é um lugar comum. Também importa-nos saber como se dava este diálogo entre práticas que chegavam para reformar e regenerar e os populares que se utilizavam destas para resistir. E hoje, quando os babas, rachões e peladas por este Brasil afora se tornaram expoentes máximos de uma nacionalidade brasileira é uma boa ideia relembrar vagabundos e vadios que antes de se pensar ou inventar uma nação para o Brasil através do jogo de bola já atribuíam sentidos próprios para o futebol em suas vidas…

 

*Henrique Sena é graduado e mestrando em História pela Universidade Estadual de Feira de Santana e Membro do Laboratório de História do Esporte e do Lazer. Convidado desta semana para escrever no Blog sobre História do Esporte na Bahia


“Para jogar a verdadeira capoeira” – próxima parada: Salvador

12/10/2010

Por Vivian Fonseca

Qualquer freqüentador de rodas de capoeiragem já ouviu em algum momento músicas e histórias que nos mandam para a Bahia. A Salvador de várias épocas aparece mobilizada a qualquer momento em rodas nos recantos mais escondidos do Brasil e também nos países mais inusitados:  Japão, Israel, Finlândia, Turquia, Nova Zelândia etc.

O grande aumento no número de praticantes no Brasil e no exterior trouxe um novo movimento para a capoeira. Dos anos 1970 para cá, milhares de mestres e professores passaram a ensinar e a fixar academias no exterior e mestres e capoeiristas mais experientes passam a ser convidados a darem workshops, palestras e a participarem de batizados, festas, jogos e outras cerimônias. Além de mestres e figuras de destaque, alunos de todos os níveis, interessados em aprimorar sua destreza e conhecimento no jogo, viajam em busca de capoeiragem. O destino principal de alunos estrangeiros é, sem sombra de dúvida, o Brasil. E mais especificamente, não só estes, como também brasileiros, em busca de “uma capoeira de qualidade ou de raiz”, viajam para Salvador e, em segundo lugar, Rio de Janeiro. Entendidos como locais onde podem vivenciar as verdadeiras capoeiras, esses espaços, com destaque para a capital baiana, transformaram-se em espécies de Meca, cidades para as quais qualquer capoeirista minimamente comprometido com a prática, deve ir ao menos uma vez durante a vida.

No imaginário de capoeiristas essas duas cidades resumem o que foi e é a capoeira. Essa vontade de viajar para Rio e Salvador pode ser entendida se levarmos em conta a busca por autenticidade na escolha de roteiros turísticos.  O que não deixa de ser uma demonstração moderna de busca pelo sagrado. A força simbólica que os mestres atuantes em Salvador reúnem, faz com que suas leituras da história da capoeira para essas cidades usufruam de legitimidade dentre os praticantes. Ainda, a possibilidade de se vincularem aos grandes mestres baianos do passado. Os Mestres Bimba e Pastinha, os mais conhecidos ao redor de todo o mundo, criaram e desenvolveram suas Academias de capoeira em Salvador, colocando a capoeira baiana no foco dos holofotes. Bimba e Pastinha, ao se firmarem, mesmo depois de mortos, como os grandes símbolos de uma capoeira autêntica e também como mártires, fizeram de Salvador local de peregrinação. Capoeiristas do mundo inteiro, em busca de espaços vistos como importantes na trajetória desses Mestres, viajam e visitam, na grande parte dos casos, os mesmos roteiros.

Diferentemente do que acontece com grande parte dos destinos, para esse tipo de viagem não existem guias, folhetos nem propagandas veiculadas na mídia de massa. Os lugares de viagens são escolhidos porque existe uma expectativa em relação a eles, que inclui viver intensamente o que nos faz fantasiar, no caso a capoeira. Expectativa esta que é construída e mantida por práticas não-turísticas, como o cinema, a televisão, revistas, vídeos etc. Na prática em questão, essa curiosidade é mais intensamente estimulada através de músicas cantadas em rodas de capoeira, histórias contadas sobre mestres cultuados e acontecimentos marcantes em sua história. Essa possibilidade de viver intensamente a capoeira faz com que turistas-capoeiristas enxerguem tradição, autenticidade e verdade em qualquer menção feita à capoeira em terras soteropolitanas. Os turistas viajam pela possibilidade de praticar uma boa capoeira intensamente e, para eles, em Salvador isso seria possível de maneira mais completa pela imersão cultural que a viagem possibilitava. Os turistas vão imbuídos de um desejo por manifestações autênticas e tradicionais, o que faz com que eles vejam o que esperam ver. Rodas comuns transformam-se em grandes eventos que demonstram fortemente a autenticidade do lugar. O olhar é construído através de signos, e o turismo pressupõe uma coleção deles. Podemos entender essa relação tendo em mente o exemplo de Paris, cidade conhecida como a capital do romance e dos casais apaixonados. Ao ver nesta cidade um casal se beijando, lembramos imediatamente da informação de que Paris relaciona-se com paixão e amor, logo, um beijo, que poderia ser visto em qualquer outra cidade do mundo, funciona para fortalecer a imagem de que Paris é a cidade do amor. Como se um casal se beijando fosse uma característica específica da capital francesa. Da mesma maneira acontece com Salvador. Ao ver uma roda, ou outros símbolos relacionados à capoeira, esses turistas-praticantes ratificam suas expectativas construídas antes mesmo da viagem.  De qualquer maneira, independente dessas concepções acerca de Salvador manterem ou não relação clara e direta com o real, essas representações veiculadas em histórias, músicas e papos encontram terreno fértil, fazendo esse nicho turístico cada vez mais forte entre capoeiristas dos mais diversos locais.

 

 

 


Os espaços esportivos na cidade da Bahia

27/07/2010

Por. Coriolano P. da Rocha Junior

          Em tempos de preparação do Brasil para os mega eventos esportivos que estão por vir (Copa do Mundo – 2014 e Jogos Olímpicos – 2016), discute-se muito sobre as instalações esportivas e a infraestrutura urbana das cidades que sediarão estes eventos, na intenção de identificar e analisar se estas cidades possuem ou não estrutura e espaços esportivos condizentes com o que é exigido pelos órgãos responsáveis pela gestão internacional destas competições (FIFA e COI). Também há toda uma discussão acerca de como se darão as obras, de como será o financiamento, sobre o porte destas e o pós evento, o chamado legado para as cidades.

          Falando especificamente de Salvador, uma das cidades brasileiras que servirão de sede para a Copa do Mundo, vemos que na atualidade esta tem um parque esportivo bastante limitado, quase inexistente e, portanto, sem condições de atender a qualquer tipo de exigência e mais, sem poder atender a sua população, obrigando a construção de novas instalações esportivas e também de amplas reformas e construções na cidade, para poder prover Salvador das condições estruturais urbanas que são exigidas em tal evento.

          Todo este debate acerca das instalações esportivas e sobre a própria cidade tem ocupado os noticiários, não apenas os esportivos e tem mobilizado a população, os poderes públicos e a iniciativa privada. Todavia, celeumas acerca das necessidades ou não de obras que ofereçam a Salvador e sua população espaços para o esporte não são exclusivas da atualidade, já as tivemos em outros tempos e são sempre discussões atreladas ao debate que se dá ao redor de uma ideia de modernização da cidade.

            Exemplo disto se vê em Leite, Rocha Junior e Santos (2010, p.4), quando estes tratam das experiências esportivas e a inserção da modernidade em Salvador. Estes autores nos dizem que

tornou-se voz corrente na imprensa da época [fins do séc XIX e início do séc. XX] as reclamações com relação à falta de lugares dedicados ao diversos tipos de lazer e divertimento que pudessem ser considerados tipicamente modernos e civilizados.

           Aqui podemos observar que já desde muito tempo Salvador carecia de espaços esportivos específicos que atendessem sua população. De maneira ainda mais acentuada, os mesmos autores afirmam que

 No que tange às práticas esportivas, por exemplo, em nenhum momento do processo de melhoramento urbano foram pensados espaços que lhes fossem dedicadas. De um modo geral, as práticas esportivas, na cidade, desenvolviam-se em espaços públicos, sobretudo praças, que não foram criadas com essa função (2010, p. 4).

            Com tudo isto, observamos que assim como agora, já de muito tempo que em Salvador se argumenta a necessidade de espaços para que sua população praticasse esportes. Se atualmente o debate se move a partir das exigências para um evento esportivo, em outras épocas o debate se associava a necessidade da cidade se civilizar. De novo Leite, Rocha Junior e Santos (2010, p.4) nos falam que na cidade se comentava da

 pertinência da construção de um parque que seria destinado a tais diversões, a partir da proposta apresentada por dois engenheiros ao poder local. O espaço seria organizado e explorado pela iniciativa particular por um prazo determinado.  

          Sobre este fato, publicou-se no jornal Diário de Notícias (10/10/1906), a proposta de construção de um espaço esportivo que se denominou Coliseu Baiano (tal espaço não chegou a ser construído), espaço este que teria

 Uma vasta área gramada para o foot-ball;

Uma pista cimentada, circular ou oval, nas condições technicas, para o cyclismo;

Uma pista apropriada para a lawn-tennis, para senhoras e cavalheiros;

Uma concha coberta para jogo da péla;

Uma pista circular para patinação;

Uma grande piscina para natação;

Um palco coberto e recintos apropriados ao ar livre para conferencias, musica instrumental e vocal, exhibições theatraes, cinematographos, etc.;

Uma linha de tiro ao alvo; e promoverão quaesquer outras diversões ou exhibições, que forem consenitdas pelo Conselho Municipal.

             Como visto os debates existentes no cenário soteropolitano acerca das necessidades ou não de construção de parques esportivos não se restringem só a tempos de preparação para uma Copa do Mundo, antes disso, debatia-se a necessidade da cidade se modernizar e para tanto, deveria contar com espaços que permitissem a população condições de uma prática corporal, como uma prática moderna e civilizadora, todavia, em ambas as situações fica a discussão maior de como se daria ou se dará esta construção e mais, de que forma estes espaços poderiam ou poderão efetivamente servir a população de Salvador.

 Referências.

LEITE, Rinaldo Cesar Nascimento; ROCHA JUNIOR, Coriolano P. da e SANTOS, Henrique Sena dos. Esporte, Cidade e Modernidade: Salvador. Salvador: 2010, mimeo.


Os clubes na cidade de Salvador

03/05/2010

Por: Coriolano P. da Rocha Junior

          Nos posts sobre a história do esporte em Salvador, temos visto que este surge diretamente associado à idéia de modernidade, sendo uma de suas formas de apresentação. Como consequência direta do surgimento da prática esportiva entre os soteropolitanos, os clubes esportivos, entidades associativas que congregam pessoas interessadas no esporte, seja em sua prática ou qualquer outra forma de significação, vão aparecer e de forma crescente na cidade entre fins do século XIX e início do século XX, da mesma forma que em outras partes do país e do mundo.

          Com isto, no processo de introdução e fixação do esporte na capital da Bahia, falar da criação dos clubes é algo necessário, já que este fato expressa a forma com que se deu a “caminhada” do esporte em Salvador, já que os clubes além de reunirem interessados na sua prática, também serviam para melhor organizar e divulgar as experiências esportivas e assim, também as vivências da modernidade.

          Burke (2002) diz que “Foi o mundo anglófono que criou o modelo da associação voluntária, que foi amplamente adotado em outros lugares.” Ou seja, assim como o esporte e sua prática, também os clubes foram uma forma de organização difundida mundo afora pelos ingleses. Assim, também em Salvador os primeiros clubes foram constituídos sob esta influência, tendo como esporte base o críquete, modalidade que havia chegado às terras baianas pelas mãos dos homens vindos da Inglaterra.

foram os membros da colonia ingleza na Bahia que fizeram a introducção de um jogo, cuja disputa, para elles, tinha já o cunho de Sport, – pois sendo a sua Pátria o berço do Sport moderno – tinham a noção exacta da significação do vocabulo. Esse jogo, foi o cricket, de origem genuinamente ingleza […]. Esse cricket de então, era disputado no local hoje denominado Praça Duque de Caxias (GAMA, 1923, p. 319).

           Em Salvador o primeiro clube é criado em maio de 1899 e é inicialmente chamado de Club de Cricket Victoria, denotando a influência inglesa. Em 1901 este mesmo clube passa a se chamar Sport Club Victoria, começando a praticar o futebol no ano seguinte. Sobre as origens do Vitória (RISÉRIO, 2004, p. 506) diz que foi

“graças ao lugar onde foi fundado (uma mansão no corredor da Vitória, com leões de pedra na entrada) e ao bairro onde comprou a sua sede, em 1905, o Vitória ganhou seu nome e o seu epíteto, Leão da Barra.”

           Outros tantos clubes foram criados na cidade de Salvador, clubes estes que podiam ainda ser clubes de elite ou também clubes de origem popular ou ainda com base em colônias estrangeiras. Nesta lista, vemos clubes como o Club Internacional de Cricket (novembro de 1899); Club de Natação e Regatas São Salvador (1902); Club de Regatas Itapagipe (1902); Sport Club Bahiano (1903); Sport Club São Paulo-Bahia (1903); Sport Club Santos Dumond (1904); Fluminense Foot-Ball Club; Sport Club Ypiranga (1906); Botafogo Sport Club (1914). Junto a estes, outro tanto de clubes foi fundado e destes, alguns tiveram vida curta e outros duraram tempo maior, mas da mesma forma foram extintos e poucos são os que existem até hoje, com alguns tendo sido criado em tempos mais recentes.

          Ao analisarmos estes dados sobre a presença dos clubes em Salvador, o que se destaca é que na atualidade vive-se um momento de declínio, com a existência de poucos clubes destes tantos existentes em princípios do século XX, representando o  mesmo que é dito por Burke (2002). Exceção se faz ao Esporte Clube Vitória (1899), que em 13 de maio comemorará seus 111 anos de fundação, mantendo-se até hoje como um clube esportivo.

          Numa breve análise sobre a constituição dos clubes em Salvador, percebe-se que num primeiro momento, o da fase de “iniciação” do esporte na cidade, foram criados vários clubes, que em sua maioria representavam a elite, por vezes a elite estrangeira. Só mais adiante, com a constituição de um campo específico para o esporte em Salvador é que começamos a perceber a criação de clubes que também representavam a população de mais baixa renda, ampliando assim as possibilidades de prática sistematizada do esporte entre as pessoas das terras de Salvador, todavia, os clubes em Salvador acabam por experimentar um decréscimo de suas atividades e iniciativas com o avançar dos tempos, assim como em outros lugares do Brasil e do mundo afora.

Referências:

BURKE, Peter. A história social dos clubes. Folha de São Paulo. São Paulo, 24 fev. 2002. Disponível em:<http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2402200203.htm&gt; Acesso em: 02 maio 2010.

GAMA, M. Como os “sports” se iniciaram e progrediram na Bahia. In: Diário oficial do Estado da Bahia, Edição Especial do Centenário. Salvador: s.e, 1923.

RISÉRIO, Antonio. Uma história da cidade da Bahia. 2ªed. RJ: Versal, 2004.


Modernidade e esporte em Salvador

08/02/2010

Por: Coriolano P. da Rocha Junior

          Na Bahia as ações iniciais de remodelação urbana e de reconfiguração dos comportamentos de seus habitantes, exigências da modernidade, aconteceram mais fortemente no primeiro governo estadual de J.J. Seabra (1912-1916).

          Neste período os moradores de Salvador conviviam com carências em vários setores da vida pública, com a cidade presa a uma lógica econômica que se não impedia, limitava um maior crescimento e um “progresso”, vivendo fora dos padrões propalados pela modernidade. Por isso, a elite soteropolitana exigia mudanças, num apelo por algo que fizesse a cidade diferente, livre dos vícios “envelhecidos” e livre da “miséria”.

          O que existiu em Salvador foi à tentativa de instalação de um projeto de modernidade, tal como ocorrera no Rio de Janeiro, um projeto que atuaria na reforma urbana da cidade, mas que também mudaria os hábitos e modos de vida da população, alterando assim o cenário da cidade e o cotidiano de seus moradores. Salvador buscava modernizar-se, por sentir-se presa ao seu passado colonial, uma cidade que ainda se via como “atrasada”. Para tal, Salvador teve de conviver com dificuldades que em muito limitavam qualquer aspiração, já que não possuía recursos em seus cofres para tocar o projeto, fazendo isto com que a reforma urbana fosse numa menor escala do que se esperava, frustrando suas elites.

          Em Salvador a perspectiva foi de construção sem preocupações com manutenção ou preservação do patrimônio ou de qualquer outro vestígio que as ligasse ao passado. Neste ponto, vemos um dos conflitos deste ideal de modernidade, já que para a construção destas novas cidades, muito do que existia fora colocado abaixo, provocando resistências. Se ruas, avenidas, praças e edifícios foram construídos, outros espaços tradicionais foram derrubados e mais, se uma nova cultura afrancesada era incorporada pela elite, práticas culturais populares foram relegadas, negadas. Todavia, esta ação modernizadora que por vezes mais parecia à ação de um rolo compressor, não fez apagar as marcas já fincadas em solo baiano, marcas estas que estavam colocadas na população que resistira a este processo ou ao menos tentara isto, marcas que ficaram nas limitações deste civilizar-se das cidades, muito por conta das próprias limitações do projeto político. Desta forma, se por um lado crescia uma cidade com aspectos modernos, ricos, por outro não deixava de existir uma pobre, popular.

          Fundamental é perceber o quanto a cultura foi um foco das ações da modernidade, já que é nela que se apoiam as perspectivas de mudanças do cotidiano das cidades, para além das paredes dos prédios e das vias públicas. Era preciso construir-se um novo povo, com uma nova cultura. Neste caso, se acentuava o sentimento de inferioridade do brasileiro em relação ao europeu, ao francês, já que para a elite era lá que existia a alta e moderna cultura. O que se opera realmente é uma reafirmação da cultura de elite, em detrimento da cultura popular, como uma forma de manipulação e afirmação do poder desta elite e as reformas urbanas advindas da modernidade são mesmo a configuração de um cenário que melhor representava este princípio de dominação. Todavia, não podemos entender que este mecanismo se deu de forma plena, sem uma contra ação dos rejeitados, que mesmo sob as forças do poder central e sofrendo as agruras de seu deslocamento e as violências contra um modo de cultura, souberam agir. Mesmo estando à margem das benesses da modernidade, essa população continuou a existir culturalmente, com seus hábitos e gostos, muita das vezes incorporando e ressignificando as práticas vividas pelas elites e também esta muita das vezes assume para si as práticas populares.

          Podemos compreender que a modernidade vivida em Salvador tentou exatamente descentrar seu povo, levando-o a incorporar o que se via como de mais “civilizado” para a época, exatamente a cultura europeia. Queria-se com isso alterar as identidades locais, construídas nas bases de um país que até então lidara com influências diversas, mesclando-as num contexto associado às especificidades de cada cidade, o que se queria era sobrepujar uma pela outra. Todavia, a modernidade “implantada” acabou sendo reconstruída numa leitura peculiar, acontecendo a partir das formas com que se efetivaram e de sua assimilação ou não pela população.

          É neste cenário e sob estas condições que em Salvador se iniciaram as “aventuras” da população com o esporte, já que este era um dos elementos desta que se mostrava como uma nova era, a modernidade, mas isto já foi visto em outros posts.