Bra Boys

01/06/2017

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

No Cineclube Sport de maio, vimos Bra Boys, dirigido por Sunny Aberton e Macario de Souza e lançado em 2007. O que segue abaixo é um conjunto de anotações de minha lavra, em parte estimuladas pelo filme, em parte pelo debate que se seguiu. Agradeço a todos(as) que participaram pelas estimulantes contribuições e questões.

O tema é um grupo de surfistas conhecidos como Bra Boys, residentes do bairro e locais da praia de Maroubra, em Sydney (Austrália).

Do ponto de vista estético, trata-se inegavelmente de um filme de surfe. Feito por e para surfistas, com cenas de surfe. Reifica determinadas visões sobre o esporte (quase todas positivas, muitas idealizadas), que permeiam um certo senso comum da modalidade. Por exemplo, a ideia de que o mar e o surfe fornecem um escape da sociedade. Em parte, evidentemente, isto é verdade. Mas é retratada como se o surfista, antes, durante e depois de surfar, não falasse ou convivesse com outros surfistas.

Do ponto de vista da circulação, me parece que não foi exibido em circuito no Brasil e na maioria dos países (exceto a Austrália e partes dos EUA), tendo circulado em festivais de documentários e festivais de filmes de surfe (obtendo prêmios em alguns destes).

Classe social e enquadramentos midiáticos

Bra Boys permite discutir a questão de classe social, bem como uma frase que escuto com frequência em âmbito acadêmico: “surfe é esporte de elite”. Na mesma linha, é um bom filme para debater estas perguntas: o que é o surfe? Há possibilidades de respostas universais para esta pergunta? Acredito que não. É preciso investigar as realidades locais. Buscar respostas locais para perguntas universais, como disse Giovanni Levi em texto que li recentemente (agradeço ao também escriba deste blogue, Victor Melo, pela indicação). Em outras palavras, à pergunta geral o que é o surfe?, é possível elaborar outras, específicas, para as quais Bra Boys dá algumas respostas e subsídios: o que é o surfe na Austrália? O que é o surfe para os australianos? O que é o surfe para aqueles garotos de Maroubra? O que é o surfe para os que ficam impedidos de surfar (por servirem nas forças armadas e terem sido transferidos para lugares sem onda; por estarem na prisão ou longe do litoral)?

(Pequena digressão: uma das coisas que mais me impressionaram e impactaram quando pesquisei revistas de surfe californianas publicadas entre os anos 1970 e 1990 foram as cartas de leitores enviadas desde a prisão. Fiquei impressionado por dois motivos: o teor das cartas; e também por, depois de um tempo, perceber que algumas prisões da Califórnia contavam com bibliotecas, que, por sua vez, tinham assinaturas de revistas de surfe – uma das leituras que mais atraíam jovens presos, muitos dos quais por crimes relacionados a drogas.)

Outro assunto a discutir é o enquadramento realizado pela mídia, que tende a tratar como banditismo as atividades desenvolvidas por grupos juvenis de camadas populares. Caminhando na direção oposta, o filme é uma construção realizada pelos próprios jovens: direção, produção, edição etc., exceto a narração, feita pelo ator Russel Crowe. Um dos motivos para fazê-lo, como afirmam logo no início, é estarem cansados de apanhar, sofrer abusos, ser tratados como bandidos ou invisíveis pela mídia, pelo governo e pela polícia (o tratamento da polícia para com esses jovens, guardadas as devidas proporções, parece muito mais civilizado do que o padrão vigente nas quebradas do Rio de Janeiro – o padrão do que é aceitável, é claro, pode mudar bastante de uma sociedade para outra). A cor da pele da maioria também é diferente daquela hegemônica entre os pobres do Rio, mas são, de fatos, jovens de uma área degradada. O alto número de mortos (sempre um indício de problemas) é um dado importante.

 

Território e localismo

Um dos principais assuntos/questões que o filme permite discutir é o vínculo com o território e o localismo. O localismo, em suas diferentes manifestações, é um fenômeno presente em praias de vários países, ainda que pouco apareça nas representações midiáticas do esporte. Pelo que observei até hoje, a postura mais comum é silenciar sobre o tema. E, na maioria das ocasiões em que é tratado, isto se dá sob a forma de crítica: o localismo é classificado como um comportamento atrasado, violento e de ignorantes. Contudo, algum grau de relativismo, contextualização e até glamourização pode ocorrer (às vezes combinado com criminalização e acusações) quando se trata do North Shore da ilha de Oahu, no Havaí. (Para uma interessante – embora a meu ver exageradamente engajada e maniqueísta – análise e crítica da criminalização promovida pela mídia hegemônica a respeito dos locais e do localimo no North Shore, ver o último capítulo de Walker, 2011).

Por outro lado, o bairro é pouquíssimo explorado na trama. Fiquei curioso para saber e entender mais, já que argumenta-se que o vínculo com ele é um dos aspectos que definem o caráter, a identidade e os valores desses jovens (como, por exemplo, a alegada rejeição do racismo e da xenofobia). Bra Boys argumenta que o localismo não necessariamente significa recusa e intolerância com relação ao outro. Quando se trata de uma comunidade “multicultural” como Maroubra, não é a etnia, religião ou país de origem que decidirá quem cabe no grupo: todos podem fazer parte do que é o nós.

Gênero e masculinidades

A partir tanto do comportamento dos personagens e do fato de serem praticamente todos masculinos, quanto da quase ausência de personagens femininas, é possível discutir questões relativas a gênero e masculinidade. Há ainda, o contraponto da avó Ma (possivelmente uma corruptela de “avó”, em inglês). É impressionante a força desta mulher, cuja casa é uma espécie de abrigo seguro (safe heaven, se diria em inglês) para crianças e adolescentes de famílias destrambelhadas e destruídas pela pobreza, desemprego, violência e drogas. Isso inclui os próprios netos de Ma, o trio de irmãos que protagoniza o filme (um deles co-diretor da obra).

Um tema que aparece rapidamente no filme são as diferentes medidas restritivas impostas pelo poder público aos banhistas australianos ao longo do século XX. Segundo Douglas Booth (2001), em seu fascinante livro sobre as culturas de praia australianas, houve momentos em que cercas de arame farpado dividiam as praias, de forma a separar homens de mulheres.

Por sinal, as restrições, perseguições e criminalização do surfe e dos surfistas são um dos muitos assuntos por investigar na história desta prática no país. Em alguns dos poucos trabalhos sobre a modalidade (Cunha, 2000; Fortes, 2011), há indícios de uma série de problemas, controvérsias e até notícias de mortes em vários municípios do litoral catarinense, Arraial do Cabo (RJ) e Recife (PE). Há tanto repressão e conflitos com o Estado quanto com determinados grupos ou setores da sociedade, como pescadores e banhistas. Também no caso da história do skate no Brasil, este é um caminho tão promissor quanto pouco explorado, exceto, até onde sei, por iniciativas pontuais do pesquisador Leonardo Brandão (como este e este artigos).

Bibliografia

BOOTH, Douglas. Australian Beach Cultures: The History of Sun, Sand and Surf. London: Frank Cass, 2001.

CUNHA, Delgado Goulart da. Pescadores e surfistas: uma disputa pelo uso do espaço da Praia Grande. 2000. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2000.

FORTES, Rafael. O surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri/Faperj, 2011.

WALKER, Isaiah Helekunihi. Waves of Resistance: Surfing and History in Twentieth-Century Hawai’i. Honolulu: University of Hawai’i Press, 2011.

 

 

 

 

 

 

 


O racismo e a participação do negro no esporte.

24/04/2017

Por Ricardo Pinto

Em geral, quando tratamos do racismo no esporte reduzimos, substancialmente, o debate a participação, ou não, do negro a uma modalidade esportiva. Vale destacar, ainda nesse contexto, que criamos uma espécie de reducionismo interpretativo ao usarmos a frase “participar de um esporte” vinculado-a a experiência exclusiva da prática em si, deixando de lado ou minimizando, na estrutura esportiva, outras ligações possíveis e, algumas vezes determinantes, ao objeto.

Ou seja, a presença de atletas negros se tornara a peça chave para compreendermos a participação do negro no esporte. Mais do que isso, se havia atleta negro em uma modalidade, grosso modo, não haveria racismo ou, de alguma maneira, os clubes e equipes que tinham a presença destes negros se tornavam símbolos de uma “possível” luta contra o racismo.

A vinculação entre presença de negros e a luta contra o racismo no Brasil é encontrada facilmente nas histórias sobre o futebol brasileiro. Por conta dessa redução grosseira de uma experiência tão complexa, passamos a acreditar que bastávamos encontrar um negro para podermos afirmar que aquele clube ou equipe possuía uma relação direta com a luta dos negros na sociedade.

Compreender esse reducionismo não deve nos levar a uma banalização da importância acerca da presença de negros em alguns clubes. Na verdade, esse fato deve continuar sendo visto como importante passo para a inserção do grupo no círculo dos atletas. Porém, devemos ter cuidado com a ressonância desse discurso, visto que passamos muito tempo acreditando que pensar o atleta era a única forma possível de refletir os grupos sociais e suas inter-locuções com o esporte.

No contexto esportivo, o negro sempre esteve atrelado a história do futebol. Na verdade, assumimos, por conta das escassas pesquisas sobre o século XIX, o futebol como sendo a primeira porta de entrada dos negros, como atletas, no universo esportivo. Claro que estamos tratando do campo esportivo reconhecido, ou seja, das práticas regulamente acomodadas na sociedade que, mesmo que sofressem com críticas, pertenciam na sua prática e simbolismo ao que era adequado. Visto que as experiências dos negros, em geral, eram combatidas, reprimidas e, sobretudo, categoricamente, desprezadas em seus símbolos.

No entanto, Victor Melo, relevante pesquisador do campo esportivo no século XIX, traz em seus novos textos contribuições fundamentais que, mesmo não sendo sua preocupação central, nos ajuda no entendimento sobre a participação do negro no esporte. Melo, em texto recente, nos apresentou fontes importantes nesse contexto.

A começar pela participação dos populares no esporte, Melo deixa claro que em meados do século XIX essa já era uma questão que gerava tensões e debate público, não obstante e/ou por consequência de todas as estratégias de separação e distinção do público envolvido. No entanto, Melo aponta para uma questão ainda mais importante para estudos relacionados aos negros, visto que nos traz a experiência de um jovem negro destaque no turfe em meados do século XIX.

O fato ocorreu em dezembro de 1853, quando Balbino (ou Albino) se destacou em uma prova de turfe. Na verdade, não só uma, foram seis. O pequeno negro, de apenas 13 anos, venceu as seis provas que disputou e acabou, com isso, sendo declarado na imprensa o primeiro jóquei do Prado (Correio Mercantil, 11 dez. 1853, p.1.).

Para além do fato de retirar do futebol a centralidade no processo de entradas dos negros no esporte, Victor Melo nos ajuda a expandir a compreensão a respeito desse fenômeno. Fica claro, a partir destas novas pesquisas, que a despeito de todo o racismo, o negro já estava inserido no esporte bem antes da chegada do futebol e, algumas vezes, com destaque. Ademais, fundamentalmente, seus escritos nos conduz aos indícios, que comprovam a tese, de que já havia o reconhecimento, pelo menos representado por parte da imprensa, de que o esporte, o turfe, nesse caso, já era fonte de possível mobilidade/ascensão social.

Nesse sentido, o caso do futebol, já no século XX, e o seu potencial transformador das “vidas negras” se torna parte de um processo que foi iniciado mais de meio século antes e, não mais, fonte original de todas as transformações. Claro que o futebol continua sendo o esporte que gerou mais resultados nesse sentido, notadamente pela importância que ele assumiu no cenário esportivo, porém, nos parece que o caso do negro no turfe, no século XIX, bem como do negro no futebol, no século XX, estão muito mais vinculados as demandas do mercado do seu tempo, do que de qualquer luta contra o racismo e, principalmente, de qualquer ressignificação do negro na sociedade.

Enfim, as pesquisas acerca da história do negro no esporte ainda tem muito para avançar. No entanto, nos últimos anos, com a descoberta de novas fontes, uma pesquisa mais densa sobre o século XIX, levada a cabo e em destaque pelo Prof. Victor Andrade de Melo, e a estruturação de debates mais amplos e articulados conseguimos dar importantes saltos na compreensão sobre o tema. Com isso, a meu ver, podemos concluir com tranquilidade que: Não podemos mais vincular a luta contra o racismo apontando apenas para a participação de negros em clubes esportivos.

Na verdade, precisamos entender que esse discurso vinculante atende, em larga escala, muito mais a demanda de uma construção romântica sobre o futebol, onde a trajetória do negro nesse esporte passa a representar, também, a sua trajetória em relação a sociedade, do que a efetiva realocação do negro na mesma.

Não houve, em tempo algum, mesmo com atletas negros por todos os cantos e, alguns, com destaque mundial, como é o caso do futebol, uma transformação do país em relação a raça. Precisamos reconhecer que, para o bem e para o mal, O mercado foi, e ainda é, definidor de parte fundamental destas questões.

Bibliografia:

MELO, Victor Andrade de. Amador ou profissional? Um debate primordial no campo esportivo. In: GOMES, Eduardo de Souza, PINHEIRO, Caio Lucas Morais. Olhares para a profissionalização do futebol: análises plurais. Rio de Janeiro: Luminaria Academica, 2015, p. 19-44, 978-85-8473489-4

MELO,___________ Tempo [online]. 2015, vol.21, n.37, pp.208-229.  Epub July 21, 2015. ISSN 1413-7704.  http://dx.doi.org/10.1590/tem-1980-542x2015v213706.


Ali e as estrelas do Dream Team: quando os ídolos viraram crianças

04/06/2016

Por Rafael Fortes

Morreu Muhammad Ali.

Lembrei de uma bela homenagem a ele, Cassius Marcelo Clay, de Jorge Ben Jor (então Ben), ao que parece, em parceria com Toquinho. A canção faz parte do espetacular disco Negro É Lindo (1971). É uma das numerosas pérolas pouco conhecidas de Benjor.

Não sou grande acompanhador de boxe. E, mais importante, não tive idade para ver Ali lutar e acompanhar sua trajetória esportiva e pessoal. Talvez por isso (e por só haver conhecido a música de Benjor há coisa de 10-12 anos) sempre me impressionou a ampla admiração por ele nos EUA, especialmente intensa entre atletas negros (de todas as modalidades). A cena que me fez entender isso – cair a ficha, como se diz – ocorreu numa partida a que eu assistia pela televisão e está capturada no vídeo abaixo.

Durante os Jogos de Atlanta em 1996, Ali recebeu uma medalha do Comitê Olímpico Internacional (COI), pois, segundo consta, muitos anos antes perdera a que conquistara lutando nos Jogos de Roma, em 1960. A princípio, pode parecer estranho que se tenha escolhido o intervalo de um jogo de basquete masculino – e não de um evento de boxe – para realizar a cerimônia. Certamente o basquete – e particularmente os jogos do Dream Team – tinha muito mais visibilidade que o boxe, em se tratando de Olimpíada. Veja o vídeo e o que acontece poucos segundos após Ali receber a medalha:

Em 2’56”, num curto corte de câmera, já se pode ver Karl Malone aplaudindo e se esticando para espiar. Pouco depois, a maioria dos jogadores dos EUA não se contém. Entram na quadra e cercam o ídolo, num gesto/momento que, mesmo visto 20 anos depois, continuo considerando emocionante e de rara beleza. Olajuwon, O’Neal, Pippen, Barkley, Hardaway, Malone, Payton e outros, eles próprios grandes ídolos e homens enormes, reúnem-se como crianças pequenas em torno do seu herói. (Na sequência, os jogadores da Iugoslávia – sim, da Iugoslávia -, capitaneados por Divac, também posam para a foto.)

A Olimpíada de 1996 foi realizada em Atlanta. Conhecida por ser a sede da Coca-Cola e de emissoras de televisão como CNN e TNT, a cidade é a capital da Geórgia, no sul dos EUA, um dos estados que compuseram a Confederação durante a Guerra Civil Americana. Região de cultura e tradição barra-pesada de escravidão e racismo. Naquele time olímpico de basquete, Charles Barkley, por exemplo, nasceu e foi criado no Alabama (outro estado barra-pesada) e, hoje comentarista de TV, volta e meia conta histórias pessoais e/ou faz críticas sobre o racismo quando participa de mesas-redondas, como num excelente debate no programa Open Court durante o Mês da História Negra, em fevereiro deste ano (infelizmente, não consegui achar o vídeo na internet).

Observando a extensa e sentida reação à notícia da morte de Ali, noto a variedade de razões pelas quais as pessoas o admiravam. Surpreso, não mais; de novo impressionado, sem dúvida.


O Negro no Futebol Brasileiro

04/01/2015

por Ricardo Pinto

Depois de longo tempo afastado (motivado por outros trabalhos e questões pessoais) retorno ao Blog para tratar do tema que me acompanha por alguns anos, o negro no futebol brasileiro. Pelo título, referência a obra de Mario Filho (1947), poderia, de cara, dizer que muito dos nossos equívocos e limitações sobre esse assunto foram causados pela leitura apressada e acrítica da obra.

Porém, aviso aos aficionados pelo livro, longe de mim querer retirar a importância do trabalho realizado pelo famoso jornalista. No entanto, com muita tranquilidade, já podemos dizer que avançamos consideravelmente naquilo que podemos chamar de história do negro no futebol, ainda que, nos dias de hoje, o senso comum ainda reproduza ipsis litteris os escritos do autor.

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Futebol (1936, óleo s/tela, 86cm x 56cm), Francisco Rebolo Gonzales (1902-1980) – figura retirada da 4 edição do Livro o Negro no Futebol Brasileiro – MAUAD – 2003

Futebol (1936, óleo s/tela, 86cm x 56cm), Francisco Rebolo Gonzales (1902-1980) – figura retirada da 4 edição do Livro o Negro no Futebol Brasileiro – MAUAD – 2003

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Inicialmente, por acreditar numa história complexa e, sobretudo, sem roteiro, sugiro que sempre se desconfie de uma obra que no seu título aponte para algo tão generalista. Afinal, mesmo com todas as semelhanças, considero temerário e pretencioso assumir o risco de contar, em um livro, a história do negro no futebol e um território tão amplo, tão complexo, tão dinâmico como o Brasil.

Obviamente, acredito, essa não era uma questão para o Mario Filho durante a produção do trabalho. Mas, sem dúvidas, deveria ser uma questão para todos querem entender, com seriedade, a história do negro nesse esporte. Para deixar claro do que estou falando, aponto para duas questões básicas que passam ao largo de muitos que tratam do tema a partir do livro e, fundamentalmente, acreditam que estão conhecendo o negro no futebol e no Brasil a partir dela:

  • A obra em questão, do começo ao fim, está interessada em contar a história, basicamente, do futebol no Rio de Janeiro, com algumas passagens por São Paulo. Mesmo que isso não aponte para nenhum problema em si, associado ao título pode gerar, como gera, em larga escala, a falsa ilusão de que essa história daria conta de explicar as experiências do negro em outras regiões. Ausências como a formação da LIGA DA CANELA PRETA (1910\1912), em Porto Alegre, e a ascensão do Futebol das Camadas Populares em Salvador (1912), são apenas duas de tantas outras experiências que nos ajudam a ter clareza das limitações da obra de Mario Filho.
  • Seguindo uma espécie de roteiro (surgimento, revolta, ascensão, provação e domínio) o livro perde de vista os interesses privados que negros e brancos buscavam dentro do esporte, não somente o futebol. Do mesmo modo, obscurece a forma dinâmica e complexa como ambos os grupos lidaram com os desafios que os novos tempos foram impondo as suas experiências. Bem como, afirma de forma categórica e equivocada que as questões referente ao negro tiveram seus primeiros desdobramentos no Rio de Janeiro nos anos 20.

Enfim, temos muito ainda para aprender sobre a história do Negro no Futebol Brasileiro. Na verdade, para além dos desafios teóricos e técnicos que isso implica, temos ainda o desafio de superarmos nossos regionalismos e paixões clubistas que ainda fixam o debate e afirmam, o que é mais grave, que o mais importante sobre seria: qual time recebeu o primeiro negro no futebol  ou ainda, o mais reducionista, achar que luta pela permanência e igualdade do negro nesse esporte se encerra com a permanência desse grupo nos clubes. Mas, sobre isso, conversamos noutra ocasião.

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NÃO SOU UM MACACO….

01/05/2014

Por Ricardo Pinto dos Santos (Doutor em História)

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Bastou um famoso fazer alguma coisa para chover pessoas fazendo igual. O problema, nesse caso, é que ninguém parou para refletir o que efetivamente estavam fazendo. Sobre o que estou falando? me explico.

Nesta última semana o jogador do Barcelona, Daniel Alves, durante uma partida contra o Villarreal foi, mais uma vez, insultado quando um torcedor da equipe adversária jogou uma banana em sua direção. Dani Alves, como é conhecido na Espanha, em puro reflexo pegou a banana e comeu. Ok. até aí, tudo bem. A resposta do jogador pegou todo mundo de surpresa e, sem a pretensão aparente de levantar nenhuma bandeira, o jogador fez o racismo, mais uma vez emergir como tema central da semana.

Para além da sagacidade do jogador, a atitude demonstrou, de certa forma, que ele deseja abstrair sobre a questão, visto que, como ele mesmo disse, já sofre com isso, naquele país, a pelo menos 10 anos. Depois do ocorrido, no mesmo dia, Neymar, também jogador do Barcelona, postou uma foto em que, junto com o seu filho, com uma banana na mão, diz que #todossomosmacacos.

A partir deste momento, não precisa ser um gênio para adivinhar, milhares de outras pessoas, famosas ou não, começaram a postar fotos em que reproduziam a mesma frase. Ou seja, TODOS SOMOS MACACOS.

Não me recordo ter faltado as minhas aulas de biologia, tampouco as minhas aulas de história da humanidade. Assim, diante das minhas primeiras conclusões, posso afirmar que EU NÃO SOU UM MACACO. Mais do que isso, os africanos não são macacos, os negros não são macacos e, por fim, macaco é macaco. Parece simples, mas, diante de tudo que vem acontecendo, achei pertinente começar pelas questões mais básicas e colocar as coisas, ou melhor, as pessoas e os animais, nos seus devidos lugares.

Compreendo que a sátira, a comédia, o desdém, o desprezo e tantas outras ações e sentimentos, que fazem parte das nossas humanidades, possam ser utilizadas em ações de questionamentos e lutas. Reconheço até que, diante de toda a nossa potencialidade e complexidade, os caminhos por nós escolhidos são tão múltiplos que não caberia aqui tentar explicar ou definir o melhor dentre eles. No entanto, queridos amigos, RACISMO É COISA SÉRIA e, frente a essa certeza, precisamos ajustar algumas coisas.

Não vai ser uma porção MEMES (imagens que se reproduzem de forma viral na internet) que farão as coisas mudarem. Talvez surja um constrangimento aqui ou acolá,  por parte da equipe e de alguns torcedores. Mas, decididamente, não podemos banalizar o debate e encarar essas ações como sendo algo efetivo na luta contra o racismo. Afinal, depois de tantos e tantos anos de racismo já é hora de levarmos essas questões mais a sério e buscarmos ações efetivas contra essa situação que, não só no esporte, atinge o mundo.

Temos que exigir que as Instituições (CBF, FIFA, BARCELONA, VILLARREAL, LIGA EUROPÉIA E ESTADOS) se pronunciem e ajam. Acima de tudo, que o façam de forma séria, contundente, severa. Afinal, a impunidade sempre foi a grande engrenagem de ações como essa. Se consideramos o racismo um mal a ser combatido temos que agir e não vai ser percorrendo o caminho que nos deram, o da submissão, o do deixa disso, que iremos avançar em questões tão sérias e imediatas.

Há um discurso, que ainda prevalece na Europa em geral, de que somos “macacos” e, como consequência, menores nas nossas humanidades. Não podemos confirmar isso. Não podemos responder a tal agressão com campanhas vazias que, claramente, não buscam nenhum objetivo. Gritar aos quatro ventos que todos somos macacos, além de um equívoco formal, confirma a tese colocada pelos europeus e, fundamentalmente, não ajuda as vitimas do racismo.

Mais uma vez, a nossa superficialidade nos coloca um passo a frente diante de um precipício. Caímos todos, quando na verdade era preciso agir de forma mais inteligente e profunda.

Luciano Hulk, ao contrário de nós, mostrou sagacidade e toda a sua veia para os negócios. Um dos primeiros a postar uma foto com uma banana, momentos depois do ocorrido passa a vender em sua marca uma camisa com a frase Todos somos Macacos (R$ 69,00). Nesse caso, para quem o tema nunca foi uma questão é até compreensível que o episódio se torne apenas uma fonte de lucro. Assim é o capitalismo. Do mesmo modo que o rosto do Che figura em tantos utensílios, o mais cruel anti-capitalista acabará virando uma camiseta.

Diante da superficialidade e do esvaziamento do debate, não podemos deixar que nos escape mais uma grande oportunidade de agirmos, efetivamente, contra o racismo. Nos acovardamos, nossas instituições se acovardam e achamos, todos, que basta alguns gritos desesperados, entrarmos com algumas faixas em campo, ou mesmo um desprezo adequado, para as questões serem resolvidas. Não, não basta. É preciso educar, é preciso reagir com firmeza, é preciso punir.

Enfim, NÃO SOU UM MACACO. Mas, tenho certeza que alguns torcedores do Villarreal são uns verdadeiros imbecis.

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Jogos Abertos Femininos (1954-1963): espaço de visibilidade para as mulheres gaúchas

06/04/2014

por Silvana Vilodre Goellner

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Os Jogos Abertos Femininos foram realizados em Porto Alegre entre os anos de 1954 a 1963 com o objetivo de incentivar as mulheres à prática de esportes assim como dar visibilidade aos clubes e agremiações do Estado.   Idealizados pelo jornalista Túlio de Rose e pelo Jornal Folha da Tarde mantinham um caráter festivo  que envolvia  clubes de Porto Alegre e  de diversas cidades do Rio Grande do Sul.

As competições geralmente aconteciam durante o período de uma semana em diferentes locais de Porto Alegre, sobretudo, no clubes e em alguns espaços públicos. A cerimônia de abertura era realizada no estádio da Sociedade de Ginástica Porto Alegre (SOGIPA) que comportava mais de 30 mil espectadores, o que foi  insuficiente para  alojar o público presente na abertura dos Jogos no ano de 1959. Essa cerimônia acontecia seguindo o mesmo roteiro em todas as adições e contava com o tradicional Desfile de Abertura no qual todos os clubes participantes apresentavam suas atletas. Após o desfile  dos clubes e das atletas participantes acontecia o hasteamento das bandeiras  ao som o  Hino Nacional, a proclamação  do  juramento  feita por uma  atleta escolhida pela organização do evento e, por fim,  o desfile em carro aberto da Rainha e das Princesas  dos Jogos.

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Abertura dos Jogos Abertos Femininos de 1957 Fonte: Jornal Folha da Tarde

Abertura dos Jogos Abertos Femininos de 1957
Fonte: Jornal Folha da Tarde

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 A programação apresentava competições em várias modalidades tais como atletismo, arco e flecha, ginástica, ciclismo, esgrima, hipismo, natação, basquete, saltos ornamentais, tênis, lance livre, voleibol, bolão, golfe, remo, regata à vela, pesca, tênis de mesa, bridge, tiro ao alvo, entre outras. Algumas dessas modalidades tais como o tênis, a natação, o atletismo e o voleibol   tinham certo destaque em função de já existirem equipes e competições consolidadas no estado do Rio Grande do Sul.

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Pesca. Jogos Abertos Femininos de 1960 Fonte: Folha da Tarde

Pesca. Jogos Abertos Femininos de 1960
Fonte: Folha da Tarde

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A competição previa a premiação da Atleta Destaque cujo critério principal para a escolha era a participação no maior número de modalidades. Diná Pettenuzzo Santiago, uma participante dos Jogos assim se refere ao evento: “tínhamos a oportunidade de fazer coisas que a gente não fazia, como por exemplo, pescar, jogar pingue-pongue, bocha, atletismo, a gente se metia em tudo, às vezes nem sabíamos muita coisa, mas íamos pelo clube,  primeiro para auxiliar e para clube ter representação e segundo pra tentar ganhar, e quem sabe ser escolhida a atleta dos jogos” (2002, p. 6).

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Diná Pettenuzzo Santiago em entrevista ao Centro de Memória do Esporte (2006) Fonte: Centro de Memória do Esporte

Diná Pettenuzzo Santiago em entrevista ao Centro de Memória do Esporte (2006)
Fonte: Centro de Memória do Esporte

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Em um tempo no qual o esporte não era observado como possibilidade de carreira profissional para as mulheres, os Jogos Abertos Femininos deram visibilidade às praticas corporais e esportivas como um espaço de  sociabilidade das mulheres das elites.  Vale lembrar que para participar da competição  havia a necessidade de pertencer a algum clube e assim representá-lo. Essa participação foi importante para muitas atletas que, em função de seu desempenho e pertencimento clubístico, foram convocadas para participarem de competições nacionais e internacionais representando o Rio Grande do Sul e o Brasil, fundamentalmente, nas modalidades de natação, tênis, voleibol e basquetebol. Ou seja, ainda que para uma pequena elite, promoveram a divulgação do esporte de forma a fazer ver que o esporte também poderia ser uma prática delas.

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Margot Ritter recebendo de Túlio de Rose o troféu  Atleta de Destaque nos Jogos Abertos Femininos  de 1956 Fonte: Centro de Memória do Esporte

Margot Ritter recebendo de Túlio de Rose o troféu
Atleta de Destaque nos Jogos Abertos Femininos de 1956
Fonte: Centro de Memória do Esporte


Desafiando o inimigo: o esporte e as lutas anticoloniais na Guiné

25/05/2013

Por Victor Andrade de Melo

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Da mesma forma que foi utilizado pelas autoridades governamentais tendo em vista os intuitos de manutenção do império português, o esporte também foi mobilizado pelas lideranças das lutas anticoloniais na Guiné Portuguesa (futura Guiné Bissau). Pode-se observar tal dimensão em algumas iniciativas de um dos principais personagens das lutas pela independência, um dos mais importantes intelectuais e líderes africanos do pós-Segunda Grande Guerra: Amílcar Cabral.

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Filho de cabo-verdianos, nascido na Guiné Portuguesa (em 1924), com oito anos Amílcar chegou a Cabo Verde, acompanhando seu pai, Juvenal Cabral, personagem de certa proeminência na história do arquipélago, que retornava à sua terra natal. Desde o tempo em que fora aluno de destaque no importante Liceu Gil Eanes (Mindelo, Ilha de São Vicente), Amílcar esteve envolvido com agremiações esportivas e associações juvenis, nas quais começou a tomar consciência da situação das colônias. Bom jogador de futebol, era apaixonado pelo esporte em geral.

Em 1945, Amílcar se deslocou para Lisboa, para estudar, como bolsista, no Instituto Superior de Agronomia. Por lá esteve envolvido com as atividades da Casa dos Estudantes do Império, do Clube Marítimo Africano, da Casa de África e do Centro de Estudos Africanos, instituições nas quais se formou uma parte importante das lideranças das lutas anticoloniais.

Cabral era presença constante nos eventos esportivos, se destacando nas diversas equipes de futebol que integrou. A sua paixão pelo esporte pode ser vista na caricatura realizada por um colega de turma, José Carlos Sousa Veloso, publicada no livro de final de curso (1945-1946) do Instituto Superior de Agronomia: é retratado de uniforme, meiões e chuteiras; nas mãos tem livros de Engels, Lênin e Dostoievski; seu amor por Cabo Verde é explicitado por suas lágrimas caindo sobre a representação do arquipélago em um globo.

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Desde que regressou à Guiné, em 1952, na condição de engenheiro agrônomo a serviço do Ministério do Ultramar, Amílcar se mobilizou para criar um clube esportivo para os naturais da província, vislumbrando que a agremiação deveria investir na elevação do nível cultural dos associados. Em 1954, funda o Clube Desportivo e Recreativo de Bissau. Nas suas palavras:

Antes de darmos início à luta armada, decidimos criar organizações africanas. Em 1954 começamos por criar organizações recreativas, já que era impossível nessa altura dar-lhes um caráter político. Isso foi importante não por causa da ideia de criar uma associação, mas porque o colonialismo não o permitiu, o que provou às grandes massas de jovens que se tinham entusiasmado por esta ideia, que sob o domínio português os africanos não tinham quaisquer direitos. Isso deu-nos mais coragem para outras ações, para difundir outras ideias e para fazer avançar a luta.

O clube fora concebido como uma estratégia para gestar um espaço para a realização de atividades políticas, em um momento em que estava restrita a possibilidade de reunião. Tinha também a intenção de garantir o que Cabral compreendia ser um direito básico de todos: o acesso a práticas esportivas, recreativas, artísticas. Amílcar, enfim, enxergava a iniciativa como uma alternativa para despertar a consciência da população para sua condição colonial, para conclamá-la a participar mais ativamente de ações de contestação.

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Essa foi, na verdade, uma estratégia política comum na trajetória de Amílcar Cabral: “formar pequenos grupos para discutir diversos assuntos culturais, relacionados com a literatura e poesia, por exemplo, e, ao mesmo tempo, ir destacando os elementos mais conscientes para, numa fase posterior, desenvolver um trabalho mais político e mais arriscado” (TOMÁS, 2008, p. 88).

Ao conclamar a juventude a participar dos movimentos anticoloniais, Cabral explicitava sua visão acerca da importância do esporte como estratégia de aglutinação, que precisa, contudo, depois ser superada com outro tipo de envolvimento:

Nessa grande batalha da justiça contra a injustiça, a juventude guineense e cabo-verdiana tem de desempenhar um papel importante. E é por isso que a nossa juventude se organiza cada vez mais, abandona o campo de futebol ou de basquetebol e todos os divertimentos fáceis, para se preparar  cuidadosamente para, no campo de batalha, empregar todas as suas forças, toda a sua inteligência, pela vitória da causa de nossos povos.

Essa postura era coerente com a sua ideia de que a cultura popular deveria formar a base para a luta anticolonial. Para ele, inclusive, não se tratava de negar, mas sim de reavaliar as bases culturais coloniais, as utilizando para fins de contraposição, de construção de uma nova ordem social.

No caso do futebol, antes mesmo da iniciativa de criação do Desportivo e Recreativo de Bissau, Cabral já se oferecera e atuara como técnico de equipes locais da Guiné. Na verdade, como o grupo inicial de engajados com suas propostas era formado majoritariamente por cabo-verdianos, tratava-se também de uma alternativa para buscar maior proximidade com os guineenses. Abílio Duarte lembra que:

O Cabral destinou-me ao Sporting, que era o clube mais anti-caboverdiano naquela altura. Entretanto, as coisas foram andando…Do meu lado, quebrei a vidraça da cachupa: acabei por estabelecer um relacionamento profundo com os guineenses, sem romper contudo os meus laços com os cabo-verdianos. Havia um casulo em que os cabo-verdianos viviam. Formavam um mundo à parte, só seu.

 Aristides Pereira, futuro primeiro presidente de Cabo Verde (1975-1991), também lembra que, até por não haver possibilidades de falar sobre política, se interessava muito: “pela camada jovem guineense, principalmente desportistas, e procurava incutir-lhes o gosto e a necessidade de aprender para além da instrução primária a que estavam confinados por lei”.

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Foto da seleção de futebol da Província Portuguesa da Guiné. Disponível em: http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com.br/2011/10/guine-6374-p8947-notas-de-leitura-292.html

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O futebol foi, portanto, uma das estratégias perspectivadas para tentar romper as desconfianças históricas que existiam entre cabo-verdianos e guineenses, o que não era de se estranhar já que muitos originários do arquipélago ocuparam postos ligados à administração da Guiné.

Mesmo que supostamente disfarçado o aspecto político, a Polícia de Segurança Pública (PSP) não tardou a desconfiar da iniciativa de criação do Desportivo e Recreativo de Bissau:

o Engenheiro Amílcar Cabral e a sua mulher comportaram-se de maneira a levantar suspeitas de atividades contra a nossa presença nos territórios de África com exaltação de prioridade de direitos dos nativos e, como método de difundir as suas ideias por meios legalizados, o Engenheiro pretendeu e chegou a requerer juntamente com outros nativos, a fundação de uma agremiação desportiva e recreativa de Bissau, não tendo o Governo autorizado.

 Os agentes policiais não estavam equivocados. Hoje se sabe que a experiência do clube foi uma das significativas iniciativas que antecederam e contribuíram para a criação do PAIGC. Segundo o próprio Amílcar:

As tentativas de organizações coletivas situam-se a partir de 1953. Os elementos ditos “assimilados” ou “civilizados” organizam-se a principio nas zonas urbanas. Em 1954 um grupo de nacionalistas da Guiné e de Cabo Verde tinha em vista fundar uma associação desportiva e recreativa, cujo objetivo secreto era o desenvolvimento da luta anticolonial. As autoridades opuseram-se a sua formação com o pretexto de que os estatutos inseriam uma cláusula segundo o qual os “indígenas” podiam ser admitidos como membros. Perante este obstáculo, um grupo de assalariados e comerciantes, funcionários e estudantes criou o MING (Movimento para a Independência da Guiné). Finalmente em setembro de 1956, no meio de uma reunião realizada em Bissau, o MING cede lugar ao PAIGC.

 Mesmo que a ideia do Desportivo e Recreativo de Bissau não tenha avançado, é fato que muitos dos líderes guineenses das lutas anticoloniais na Guiné estiveram envolvidos com as iniciativas de Cabral e/ou com outras agremiações esportivas locais: Bobo Keita, Carlos Correia, Constantino Teixeira e Nino Vieira, entre outros.

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Estádio Sarmento Rodrigues, posteriormente rebatizado para Estádio Lino Correa.

Estádio Sarmento Rodrigues, posteriormente rebatizado para Estádio Lino Correa.

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Para mais informações:

MELO, Victor Andrade de. (Des)mobilização para a luta: o esporte como estratégia nos conflitos da Guiné Portuguesa (décadas de 50 e 60 do século XX). Métis: História e Cultura, v. 10, n. 19, pp. 215-236, jan.-jun. 2011.

Disponível em: http://www.ucs.br/etc/revistas/index.php/metis/article/viewArticle/1746

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