Machado de Assis, João do Rio, Olavo Bilac e os novos padrões corporais no Rio de Janeiro da transição dos séculos XIX e XX

17/11/2017

Por Victor Andrade de Melo

Março de 1871 (no tempo da ficção, já que a obra foi escrita nos anos finais do século XIX). Bentinho e Capitu uma vez mais deixam sua casa na Glória para jantar na residência de Escobar e Sancha, na Praia do Flamengo. Em certo momento da noite, na janela a ouvir o barulho do mar em ressaca (como os olhos de Capitu, conforme sugeria o protagonista), perdido em pensamentos, Bentinho percebe o amigo se aproximar:

– O mar amanhã está de desafiar a gente, disse-me a voz de Escobar, ao pé de mim.
– Você entra no mar amanhã?
– Tenho entrado com mares maiores, muito maiores. Você não imagina o que é um bom mar em hora bravia. É preciso nadar bem, como eu, e ter estes pulmões disse ele batendo no peito, e estes braços; apalpa.

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Banhistas na Praia do Flamengo/década de 1910

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Bentinho assume que, a princípio, em Sancha lembrou quando apalpou o braço de Escobar. Todavia, logo uma sensação constrangedora lhe acometeu: “achei-os mais grossos e fortes que os meus, e tive-lhes inveja; acresce que sabiam nadar”. No retorno à Glória, inebriado pelo forte ruído do oceano, Bentinho se dá conta do incômodo que lhe causava a figura de Escobar, materializado numa fotografia que possuía em casa.

Entre tantas leituras possíveis, podemos ver em Dom Casmurro um embate entre modelos de masculinidade. Machado de Assis, na composição de seu personagem “másculo”, o destaca, entre outras características, pela compleição muscular e pelo hábito de praticar um esporte. O comerciante e empreendedor Escobar enfrenta mares bravios com seus bons pulmões e braços fortes. Morre não por covardia, mas sim por ousadia. Bentinho, ao contrário, toma ciência de sua fraqueza e inveja o amigo: sabe-se débil em muitos sentidos.

Podemos também considerar que se trata de uma dramatização de um embate entre o homem da tradição bacharelesca, que só se dedica às coisas da “mente” e do “espírito”, e o novo burguês, que expressa com seu corpo os comportamentos e posturas que marcam uma personalidade disposta a aceitar desafios. Enfrentar o oceano com seus próprios braços é um sinal definidor do perfil desse homem.

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Remadores na Praia do Flamengo/Década de 1920

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O que bem capta Machado de Assis são as mudanças de perfil e de padrão de exposição corporal na cena fluminense das últimas décadas do século XIX, tão bem definidas por João do Rio alguns anos mais tarde. No início do século XX, ele sugeriu que “Fazer esporte há 20 anos ainda era para o Rio uma extravagância. As mães punham as mãos na cabeça, quando um dos meninos arranjava um altere. Estava perdido. Rapaz sem um pincenez, sem discutir literatura dos outros, sem cursar as academias – era um homem estragado”. A contrário disso, na virada de centúrias, segundo seu olhar,

Rapazes discutiam “muque” em toda parte. Pela cidade, jovens, outrora raquíticos e balofos, ostentavam largos peitorais e a cinta fina e a perna nervosa e a musculatura herculeana dos braços. Era o delírio do rowing, era a paixão dos esportes. Os dias de regatas tornavam-se acontecimentos urbanos.

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Regata na Enseada de Botafogo/1ª década do século XX

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Não que o esporte fosse uma novidade na cidade. Desde a primeira metade do século XIX, diversas modalidades já vinham se estruturando, em conjunto com outras práticas corporais (ginástica, dança, patinação), expressões da valorização crescente de uma vida pública, materializada, inclusive, pela conformação progressiva de um mercado ao redor dos entretenimentos.

Naquela transição de séculos, contudo, no quadro de um Rio de Janeiro em mudanças, no qual se percebe ainda maior adesão ao ideário e imaginário da modernidade, bem como fortalecimento das relações com parâmetros simbólicos do continente europeu, as atividades físicas deixaram de ser uma exceção, venceram resistências culturais e, incorporando preocupações com a saúde e higiene, tornaram-se valorizadas por um significativo estrato da população, consideradas mesmo como um modelo de um novo padrão de vida que deveria se desejar para que o país pudesse progredir.

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Remadores do Clube Boqueirão do Passeio

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Os homens, como bem observa Luiz Edmundo, “já começam a mostrar corpos rijos e bem desenhados de músculos, muito orgulhosos de suas linhas, exibindo-se em calções, mas dos longos, dos que vão abaixo da linha do joelho” (1957, p. 840). Os remadores se tornam um exemplo.

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Remadores do Vasco da Gama

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O remo era representado como o esporte do “exercício physico”, termo-chave sempre usado pelos que defendiam e propagavam os benefícios dessa prática. Era encarado como o esporte da saúde; do desafio, contra o outro e contra o mar, que educa o músculo e a moral. Seria supostamente uma prática adequada para forjar uma juventude altiva, forte e com “liberdade de espírito” suficiente para conduzir a nação ao progresso necessário.

Olavo Bilac, ardoroso defensor do progresso e da modernização do país, celebrava:

Essa geração, que está se educando no mar, face a face com o perigo, criando a energia muscular e energia moral, já é mais bela, mais forte, mais nobre do que a minha. Os adolescentes de hoje já não são como os de ontem, magros e tristes, macambúzios e histéricos, criados entre o rigor do carrancismo paterno e a brutalidade dos mestres boçais, entre sustos e palmadas, sem exercício físico e sem liberdade de espírito (…) os meninos de hoje já são bravos como homens.

Assim, sempre que se falava dos atletas de remo, procurava-se destacar suas formas físicas, sua vigorosidade, sua “saúde”. O remador campeão brasileiro de 1903 era apresentado física e moralmente como uma figura próxima da perfeição: “Arthur Amendoa, é de estatura mediana, moreno, bela estatura, bela complexão de atleta, bastante musculoso, dotado de muito bom gênio e no trato é cortes; excelente companheiro e amigo leal”. As fotos de remadores exibem para o grande público a nova formação corporal que melhor expressava o que se esperava dos novos tempos.

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Remadores do Clube de Regatas Gragoatá

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Para mais informações

MELO, Victor Andrade de Melo. Cidade sportiva. Rio de Janeiro: Relume Dumará/Faperj, 2001.

MELO, Victor Andrade de Melo. Corpos, bicicletas e automóveis: outros esportes na transição dos séculos XIX e XX. In: PRIORE, Mary del, MELO, Victor Andrade de (org.). História do esporte no Brasil: do Império aos dias atuais. São Paulo: Editora Unesp, 2009. p. 70-106.

MELO, Victor Andrade de Melo. O corpo esportivo nas searas tupiniquins – um panorama histórico. In: PRIORE, Mary del, AMANTINO, Marcia. (orgs.). História do corpo no Brasil. São Paulo: Editora da Unesp, 2011. p. 123-145.

MELO, Victor Andrade de Melo. Novas performances masculinas: o esporte, a ginástica, a educação física (século XIX). In: PRIORE, Mary del, AMANTINO, Marcia (orgs.). História dos homens no Brasil. São Paulo: Editora da Unesp, 2013. p. 119-152.

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Histórias do esporte em Rubem Fonseca (parte 1)

17/04/2017

por Fabio Peres

Cruel, realista, desconcertante, brutal, mórbido. Entre tantos termos utilizados para descrever a literatura de Rubem Fonseca, talvez possamos também adicionar o adjetivo esportivo. Afinal, basta uma breve leitura de sua obra para perceber que não são poucos os contos e romances em que o esporte e as atividades físicas, em geral, ocupam lugar – ora mais, ora menos – privilegiado.

Desde a publicação de Os Prisioneiros (1963), primeira coletânea de contos do autor, o objeto está lá, por assim dizer, em suas variadas formas; às vezes de maneira mais clara ou quase desapercebido de modo sútil. Como aponta a escritora Maria Alice Barroso, Rubem já se destacava no conto Fevereiro ou março (1963)  pela incorporação de “um excelente tipo à galeria de personagens da literatura brasileira: o atleta vagabundo, frequentador das academias de boxe, portador de uma ética toda sua” (apud AUGUSTO, 2009, posfácio)[i].

Capa da edição de 1963 de Os Prisioneiros

O personagem-narrador inicia a história descrevendo como a condessa Bernstroa, mulher casada com a qual teve um caso, explicava a manutenção de suas formas corporais:

Era uma velha, mas podia dizer que era uma mulher nova e dizia. Dizia: põe a mão aqui no meu peito e vê como é duro. E o peito era duro, mais duro que os das meninas que eu conhecia. Vê minha perna, dizia ela, como é dura. Era uma perna redonda e forte, com dois costureiros salientes e sólidos. Um verdadeiro mistério. Me explica esse mistério, perguntava eu, bêbado e agressivo. Esgrima, explicava a condessa, fiz parte da equipe olímpica austríaca de esgrima — mas eu sabia que ela mentia.

O personagem continua desfiando a história explicando como foi seu dia, um sábado de carnaval, marcado por certa imprevisibilidade e também, não por acaso, por certa angústia:

Era de manhã, no primeiro dia de carnaval. Ouvi dizer que certas pessoas vivem de acordo com um plano, sabem tudo o que vai acontecer com elas durante os dias, os meses, os anos. […] Eu — eu vaguei pela rua, olhando as mulheres. De manhã não tem muita coisa para ver. Parei numa esquina, comprei uma pera, comi e comecei a ficar inquieto. Fui para a academia.

A descrição dos exercícios na academia é acompanhada por uma série de sentidos, pensamentos, práticas e gestos:

[…] comecei com um supino de noventa quilos, três vezes oito. O olho vai saltar, disse Fausto, parando de se olhar no espelho grande da parede e me espiando enquanto somava os pesos da barra. Vou fazer quatro séries pro peito, de cavalo, e cinco para o braço, disse eu, série de massa, menino, pra homem, vou inchar. E comecei a castigar o corpo, com dois minutos de intervalo entre uma série e outra para o coração deixar de bater forte; e eu poder me olhar no espelho e ver o progresso. E inchei: quarenta e dois de braço, medidos na fita métrica.

A academia, por sua vez, é lugar de encontros, de construção (e também de desconstrução) de vínculos e laços sociais. Os amigos, frequentadores de academia -ao que tudo indica de um bairro da Zona Sul carioca –, organizam a “diversão” para aquele carnaval:  “porrada pra todo lado”. A ideia era simples. Se fantasiar de mulher e então:

O povo cerca a gente pensando que somos bichas, nós estrilamos com voz fina, quando eles quiserem tascar, a gente, e mais vocês, se for preciso, põe a maldade pra jambrar e fazemos um carnaval de porrada pra todo lado. Vamos acabar com tudo que é bloco de crioulo, no pau, mesmo, pra valer. Você topa?

Após alguns desdobramentos (e outras referências aos sentidos e usos do corpo), o narrador se auto descreve para o marido da condessa, adquirindo assim características de um novo “tipo” inserido em um meio social com senso moral e ético próprios, como chamou atenção Maria Alice Barroso:

na academia eu faço ginástica de graça e ajudo o João, que é o dono, que ainda me dá um dinheirinho por conta; vendo sangue pro banco de sangue, não muito para não atrapalhar a ginástica, mas sangue é bem-pago e o dia em que deixar de fazer ginástica vou vender mais e talvez viver só disso, ou principalmente disso. Nessa hora o conde ficou muito interessado e quis saber quantos gramas eu tirava, se eu não ficava tonto, qual era o meu tipo de sangue e outras coisas. Depois o conde disse que tinha uma proposta muito interessante para me fazer e que se eu aceitasse eu nunca mais precisaria vender sangue, a não ser que eu já estivesse viciado nisso, o que ele compreendia, pois respeitava todos os vícios. Não quis ouvir a proposta do conde, não deixei que ele a fizesse; afinal eu tinha dormido com a condessa, ficava feio me passar para o outro lado. Disse para ele, nada que o senhor tenha para me dar me interessa. Tenho a impressão que ele ficou magoado com o que eu disse […] Por isso, continuei, não vou ajudar o senhor a fazer nenhum mal à condessa, não conte comigo para isso. Mas como?, exclamou ele, […], mas eu só quero o bem dela, eu quero ajudá-la, ela precisa de mim, e também do senhor, deixe-me explicar tudo, parece que uma grande confusão está ocorrendo, deixe-me explicar, por favor. Não deixei. Fui-me embora. Não quis explicações. Afinal, elas de nada serviriam.

No mesmo livro (Os prisioneiros de 1963) novamente a ginástica, a “malhação”, bem como as competições de “físico”, típicas de academia, seriam mencionadas no conto Os inimigos; para alguns críticos da época o melhor da coletânea. Além disso, o conto que dá nome ao livro curiosamente se inicia por uma conversa entre uma psicanalista e um cliente sobre a inconveniência e mesmo inadequação de usar roupa “esportiva” no Centro da cidade, lugar por excelência de trabalho.

O panorama, por assim dizer, esportivo da literatura de Rubem Fonseca, de fato, é vasto e instigante. Por exemplo, o ambiente e os frequentadores de academia voltariam a fazer parte da obra do autor em 1965 no conto A Força Humana (do livro A Coleira do cão). Na realidade, trata-se em certo sentido de uma continuação de Fevereiro ou março. Já em 1969, o antigo Vale-Tudo seria objeto central do conto O Desempenho no famoso livro Lúcia McCartney.

Em 1979, breves referências ao futebol e ao balé apareceriam em O cobrador (no livro homônimo). Na mesma obra menções à ginástica retornariam em Mandrake (além do xadrez) e, em 1992, em o Romance Negro. Por outro lado, uma competição inusitada no Pantanal está em AA (abreviação do “esporte” de mesmo nome) em 1998 no livro a Confraria dos Espadas. Também em 1992, há uma menção à rua do Jogo da Bola – uma prática de diversão que esteve presente na cidade do Rio de Janeiro no século XVIII e XIX[ii] – em A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro.

Em 2001, exercícios aeróbicos, de alongamento e de musculação são citados em Copromancia, na obra Secreções, excreções e desatinos. Corrida na praia aparece em Caderninhos de nomes no ano seguinte em Pequenas criaturas. Em Laurinha surge mais uma vez uma referência ao futebol no livro Ela e outras mulheres de 2006. E a relação de Lima Barreto com o futebol é citada no romance O seminarista de 2009.

Mas essas e outras histórias ficarão para os próximos posts. Em todo caso, mais do que uma mera provocação, denominar a literatura de Rubem Fonseca de esportiva pode ser uma forma de perturbar os limites e as fronteiras do campo da História do Esporte; uma maneira talvez que nos ajude a entrecruzar várias histórias: do corpo, de gênero, da cidade, de classe, da discriminação racial, da homofobia, das diferentes modalidades e práticas esportivas, das emoções, da estética, da literatura, entre muitas outras histórias.

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[i] AUGUSTO, Sergio. Estreia consagradora. In: FONSECA, Rubem. Os prisioneiros. Rio de Janeiro: Agir, 2009.

[ii] Maiores informações ver MELO, Victor Andrade de. MUDANÇAS NOS PADRÕES DE SOCIABILIDADE E DIVERSÃO: O jogo da bola no Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). História,  Franca ,  v. 35,  e105,    2016 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742016000100514&lng=en&nrm=iso>. access on  17  Apr.  2017.  Epub Dec 19, 2016.  http://dx.doi.org/10.1590/1980-436920160000000105.


Futebol e “sacanagem”: ocasionalidades nas trajetórias

21/04/2016

Por Victor Andrade de Melo

Ao ver o título deste post, o(a) leitor(a) pode pensar que se trata de um texto sobre os cartolas do futebol brasileiro, sobre as desigualdades salariais que grassam entre os jogadores ou sobre os problemas relativos à organização da Copa do Mundo de 2014, tais como gastos excessivos na construção de estádios, remoções de comunidades ou dinheiro público desperdiçado em um suposto legado que nunca veio.

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VLT de Cuiabá – o sistema não funciona, a despeito de ser uma das obras mais caras do Estado

VLT de Cuiabá – o sistema não funciona, a despeito de ser uma das obras mais caras do Estado

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Pois bem, quero de pronto acalmar (ou decepcionar) o(a) leitor(a). Aqui não tratarei disso. O uso do termo “sacanagem” remete-nos à transição dos anos 1970/1980, quando comumente era usado como sinônimo ou para fazer referência a algo relativo ao sexo.

Por exemplo, algumas pornochanchadas, gênero que fez muito sucesso no período, eram chamadas de “filmes de sacanagem”. Quando jovem, tinha inveja de alguns amigos que conseguiam burlar os pais e ver algumas dessas películas que passavam uma vez por semana, bem tarde, numa emissora de televisão (se não me engano, na Bandeirantes, num programa chamado “Sala Especial”).

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Nos dias de hoje, esses filmes têm sido exibidos no Canal Brasil. Na verdade, tinham um padrão de exibição corporal que, se comparado ao que na atualidade vemos mesmo na TV aberta, pode parecer algo bem pueril. Na época, contudo, habitavam o sonho erótico da meninada, junto com umas revistas vendidas na banca com uma tarja preta, chamadas, não sei bem o porquê, de “suecas”.

Pois bem, é sobre isso que pretende tratar este post, mais especificamente do primeiro filme brasileiro de sexo explícito, lançado em 1982, “Coisas Eróticas”, dos diretores Raffaele Rossi e Laerte Callichio.

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Cartaz do filme

Cartaz do filme

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Antes, contudo, deixe-me abordar a segunda parte do título do post – “ocasionalidades na trajetória”.

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Um dos temas que mais me interessa é a intensa presença da prática esportiva em nosso cotidiano, os rastros que deixa no dia-a-dia, nos mais diferentes âmbitos. No passado, chamei esse esforço de prospectar tal ocorrência como uma tentativa de “arqueologia social do esporte”. Em muitas situações são ocasionalidades. De toda forma, ajudam a lançar um olhar sobre o tema.

Por exemplo, chama-me a atenção como o futebol foi relevante para os membros de dois grupos culturais importantes dos anos 1970, os Novos Baianos e o Nuvem Cigana. Destaca-se a importância dada ao velho esporte bretão nas entrevistas disponíveis em dois belíssimos recentes documentários dedicados às trajetórias desses movimentos (Filhos de João – O Admirável Mundo Novo Baiano, disponível aqui https://www.youtube.com/watch?v=d57VtNeR9W8; e As Incríveis Artimanhas da Nuvem Cigana, informações aqui https://www.facebook.com/As-Incr%C3%ADveis-Artimanhas-da-Nuvem-Cigana-448283485269672/).

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Capa de LP dos Novos Baianos

Capa de LP dos Novos Baianos

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O velho esporte bretão, curiosamente, aparece na trajetória de um dos responsáveis pelo primeiro filme brasileiro de sexo explícito – Raffaele Rossi

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Tomei conhecimento desse filme pelo incrível e louvável trabalho de Denise Godinho e Hugo Moura, que se dedicaram a recuperar esse capítulo pouco conhecido da história do cinema brasileiro.

– Sobre o livro “Coisas eróticas”, ver  http://blooks.com.br/dica-blooks-coisas-eroticas-de-hugo-moura-e-denise-godinho/

– Sobre o documentário “A primeira vez do cinema brasileiro”, ver https://aprimeiravezdocinemabrasileiro.net/

– O filme “Coisas Eróticas” está largamente disponível na internet

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Capa do livro

Capa do livro

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Os autores recuperaram com esmero todas as fases do projeto – a ideia, o convencimento dos técnicos envolvidos, a seleção e convencimento de atores e atrizes, as filmagens com precários recursos, as dificuldades com a censura, o lançamento (decidido de forma abrupta para dar conta da tristeza que acometia a população em função da desclassificação da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1982), os desdobramentos na própria produção cinematográfica e para os personagens envolvidos.

Raffaele Rossi, que até o lançamento do filme era um polêmico e menos valorizado diretor da Boca do Lixo paulistana, enriqueceu com “Coisas Eróticas”. Sua principal decisão para investir sua fortuna foi criar um…time de futebol de salão!

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Cartaz de O Homem Lobo, filme dirigido do Rossi

Cartaz de O Homem Lobo, filme dirigido do Rossi

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A decisão tinha em conta a paixão do diretor pelo esporte e, obviamente, uma enorme imprevidência, que o levou inclusive a perder tudo o arrecado com o filme em uma década de gastos excessivos. De toda forma, em 1983, criou o Grêmio Recreativo Rossi, com sede no próprio sítio onde passava dias com a família e oferecia festas inesquecíveis.

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Grêmio Recreativo Rossi

Grêmio Recreativo Rossi

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Rossi investiu alto na iniciativa, tanto na construção de instalações adequadas, com o que havia de mais moderno, quanto na formação da equipe, trazendo inclusive três jogadores do Paraguai, na época vice-campeão mundial da modalidade. O primeiro jogo fez crescer no diretor a certeza de que se tratava de um bom investimento – 3 X 2 no poderoso Banespa.

O futuro, contudo, não exponenciaria o esperado. O time faliu junto com seu criador.

– Mais informações sobre o time, ver https://aprimeiravezdocinemabrasileiro.net/ (1h07min. a 1h08min.)

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Dinheiro da “sacanagem” bancando o esporte. Nesse caso da equipe de Rossi, nenhum problema. Sacanagem da braba, no pior sentido do termo, estava na mesma época ocorrendo na articulação entre cartolas do futebol e de escolas de samba, gente do jogo do bicho, setores da ditadura e da polícia, assunto magistralmente tratado por Aloy Jupiara e Chico Otavio em “Os porões da contravenção – Jogo do bicho e ditadura militar: a história da aliança que profissionalizou o crime organizado” (http://www.blogdaeditorarecord.com.br/2015/11/30/os-poroes-da-contravencao-de-aloy-jupiara-e-chico-otavio/). De fato, iria crescer muito o número de sacanagens ao redor do esporte-rei do Brasil.

A comparação é plausível. “Coisas Eróticas” hoje parece coisa de criança, como o pareciam frente a ele aqueles filmes da “Sala Especial” que povoavam nossas imaginações (e movimentavam nossos corpos) infantis.

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Educação Física, Higiene e Saúde Pública na Corte – Parte 2

10/05/2015

por Fabio Peres[i]

Em um post anterior destacamos como alguns relatórios da Junta Central de Hygiene Pública no final do século XIX deixavam entrever, não apenas o estabelecimento da relação entre educação física, exercícios corporais, saúde pública e higiene, como também sua institucionalização: isto é, enquanto saber médico materializado nas ações do Estado.

Contudo, como foi mencionado, essa relação não era gratuita, nem óbvia e muito menos incontestada. Tratava-se de uma construção que se deu de forma lenta, paulatina e muitas vezes pouca harmônica entre atores, práticas e ideias que configuravam o saber médico-científico do século XIX.

Na verdade, médicos da Corte já debatiam sobre a importância de tal associação desde, pelo menos, a década 1830. Periódicos médicos como o Semanário de Saúde Pública (1831-1833), Revista Médica Fluminense (1835-1841), a Revista Médica Brasileira (1841-1843), entre outros, revelam como a educação física se tornou pouco a pouco um domínio defendido pelos esculápios (Melo, Peres, 2014)[ii].

Em uma das sessões da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (19/06/1830), cuja a ata foi publicada no Semanário de Saúde Pública em 1831 (09/04), houve apresentação do relatório da Comissão de Salubridade Geral, no qual a educação física era mencionada.

Vale destacar que tal comissão era responsável por apresentar sugestões para melhoramentos da higiene pública que a SMRJ defenderia junto ao Estado, que naquele mesmo ano reconhecera a entidade como colaboradora no aperfeiçoamento das questões ligadas à saúde.

1831.04.09.Semanario.de.Saude.Publica.ed.p77

No relatório que foi aprovado pela Sociedade, dois pontos reforçam a ideia de que a educação física e, em particular, a ginástica, começavam a se institucionalizar no saber médico da cidade.

Por um lado, havia uma maior preocupação com a educação física das crianças.  A proposta era que, dada a existência de diversas obras sobre o tema publicadas em francês e inglês, a SMRJ deveria lançar uma contribuição própria que reunisse o que sobre o assunto “parecesse melhor”. O objetivo principal era a circulação, “em língua vulgar” (p. 77), de informações que fossem úteis a “todos os pais de família”.

Por outro, ao listar uma série de tópicos que deveriam ser considerados pelo poder público, tendo em vista a questão da salubridade, o relatório fez menção à ginástica, considerada pela Comissão como uma prática ligada à saúde e aos divertimentos públicos, cuja importância deveria ser reconhecida pelo governo:

Ainda nos restaria muito a dizer sobre a construção viciosa das nossas casas, o estreitamento das ruas, […] a falta de passeios, de plantações de árvores nas praças, […] a falta de exercícios ginásticos, em que muito ganharia o povo, e o Governo, que deve interessar-se em vê-lo alegre e divertido […] (1831, p. 79).

Chama atenção a chave pela qual são lidas tais referências à educação física e à ginástica. A Comissão defendia a interdependência entre higiene privada e higiene pública como um dos eixos norteadores da elaboração do documento, revelando as relações entre indivíduo e sociedade que permeavam a concepção de saúde naquela ocasião.

Poucos anos depois a educação física e a ginástica voltariam a ser temas debatidos pelos médicos, quando a SMRJ é procurada por um não-médico para dar um parecer sobre um tratado de sua autoria . A intenção do autor era abrir um estabelecimento que oferecesse aulas de ginástica, obtendo antes o respaldo da Sociedade Médica da Corte. Mas essa história fica para um próximo post.

[i] Esse post é fruto das conversas e pesquisas realizadas no âmbito do projeto “O corpo da nação: educando o físico, disciplinando o espírito, forjando o país: as práticas corporais institucionalizadas na sociedade da Corte (1831-1889)”, que conta com o apoio da FAPERJ e do CNPq e é coordenado por Victor Andrade de Melo.

[ii] Maiores informações ver MELO, V. A.; PERES, F.F. A gymnastica no tempo do Império. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014.


Mulheres nas águas (Rio de Janeiro, século XIX)

28/09/2014

Por Victor Andrade de Melo

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Não sendo exatamente um especialista nas questões de gênero (como o é minha querida amiga e irmã Silvana Goellner, com a qual temos a honra e o prazer de contar na equipe desse blog), sempre procurei, no âmbito de minhas investigações sobre o esporte no Rio de Janeiro do século XIX, registrar a participação feminina. Tratava-se de uma constatação explícita: a presença de mulheres nas iniciativas esportivas era anterior do que a princípio pensávamos, claro indício de uma posição protagonista, dentro dos limites do tempo (tratei um pouco do tema aqui, num artigo publicado na Revista Brasileira de História).

Os novos estudos que tenho procedido sobre as práticas corporais no Rio de Janeiro do século XIX, alguns deles em conjunto com o amigo e irmão Fábio Peres (que também integra a equipe desse blog), têm mostrado que o envolvimento das mulheres brasileiras com o esporte é ainda mais anterior. No post de hoje, tratarei brevemente da participação feminina nas iniciativas ligadas à natação. Será mesmo uma abordagem bem breve, dado que há muitos outros indícios que aqui não serão abordados por uma questão de espaço.

Para o memorialista Luiz Edmundo (1957), assim se trajavam as mulheres para os banhos de mar em determinado momento:

“calças muito largas de baeta tão áspera que mesmo molhada não lhe pode cingir o corpo. Do mesmo tecido, um blusão com gola larguíssima, à marinheira, obrigada a laço, um laço amplo que serve de enfeite e, ao mesmo tempo, de tapume a uma possível manifestação de qualquer linha capaz de sugerir o feitio vago de um seio. As calças vão até tocar o tornozelo quando não caem num babado largo, cobrindo o peito do pé. Toda a roupa é sempre azul-marinho e encadarçada de branco. Sapatos de lona e corda, amarrados no pé e na perna, à romana. Na cabeça, vastas toucas de oleado, com franzido à Maria Antonieta, ou exagerados chapelões de aba larga, tornando disformes as cabeças, por uma época em que os cabelos são uma longa, escura e pesada massa”.

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Nas duas últimas décadas do século, contudo, os jornais já veiculam algumas mudanças. Pelos números de A Estação, periódico que tinha a moda como assunto principal, podemos acompanhar as sugestões para as mulheres que procuravam os banhos de mar e a natação. Em 1879, apresentou-se o seguinte modelo: “A blusa e a calça são abotoadas, uma à outra, no cinto sofrivelmente largo, pregado de modo a correr com facilidade. Este modelo, de baetilha branca, é apertado por uma faixa, e enfeitado de bordado à ponto de marca”.

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Quase um ano depois, na coluna Crônica da Moda, Antonina Aubé observa a possibilidade de uso de uma vestimenta menos rigorosa para as que praticavam a modalidade: “As senhoras que aprenderem a nadar ou conhecerem a natação, a farão mais curta e com mais roda, para que não pareça repuxada, o que é extremamente feio e incômodo”.

A longa matéria descreve todos os detalhes da vestimenta, ainda bastante rigorosa se compararmos aos parâmetros atuais. Todavia, há que se destacar que a abordagem enfatiza mais a elegância e o conforto do que o pudor, embora essa seja uma dimensão que não deve ser negligenciada.

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No decorrer do século, sempre às vésperas do verão, o tema voltava à baila, com abordagem semelhante a essa já comentada. Além das vestimentas, comentavam-se comportamentos adequados e cuidados com a saúde e beleza a serem observados. Sempre se faziam ressalvas às distensões aceitáveis para as “nadadoras”.

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Já mais para o fim do século, a colunista Paula Cândida, é ainda mais enfática no que tange à participação feminina. Ao observar que as mulheres já tomam parte ativa em jogos e diversões públicas (“As senhoras idosas ficam admiradas diante dos jogos aos quais tomam parte as suas descendentes”), entre os quais duas novidades, o tênis e o ciclismo (rechaçado pela cronista por ser deselegante e sem função), Cândida sugere que a natação se encontraria entre os mais graciosos gêneros de diversão. Para ela, “a natação é indispensável para todas as senhoras e devia fazer parte da educação”.

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A ideia de que mulheres podiam praticar a natação não foi rapidamente aceita pela sociedade fluminense. Contribuíram para uma maior aceitabilidade não somente as ações de médicos e pedagogos, mas também a própria conformação de um mercado de entretenimentos e a circulação de notícias de nadadoras que se destacavam por proezas no exterior realizadas, especialmente recordes batidos por Miss Agnes Beckwith, chamada de “a primeira nadadora do mundo”. Logo também surgem notícias de mulheres nadando na cidade, especialmente na Praia do Boqueirão do Passeio.

Entre tantas, vale registrar o nome de duas pioneiras: Adélia Cardoso Silva, “uma elegante moça de 20 anos” que, em 1882, realizou com “admirável coragem a travessia da praia do Boqueirão à Ilha de Villegagnon”; e Ignez Victoria de S. e Souza, vencedora do páreo feminino de uma competição de natação organizada pelo Grêmio Filhos de Thetis, em 1886.

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Ginástica alemã na África colonial

14/04/2014

Sílvio Marcus de Souza Correa
Institut d’études avancées de Paris

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A ginástica fez parte dos fundamentos da cultura física na Alemanha desde o último quartel do século XIX. Em 1884, quando o imperialismo alemão entrou na “Partilha da África”, a ginástica se tornou uma prática esportiva recomendada aos corpos expostos aos rigores mesológicos do continente africano. As sociedades de ginástica (Turnvereine) tiveram um papel fundamental na organização da vida social e desportiva das comunidades alemãs, especialmente aquelas de Swakopmund, Windhoek, Lüderitzbucht e Keetmanshoop, na então colônia alemã do sudoeste africano (atual Namíbia).

Juntamente com as caçadas e as corridas de cavalo, a ginástica foi a base do incipiente campo esportivo na África colonial. A ginástica serviu ainda como forma de treinamento, pois o conflito armado fazia parte da ordem colonial. Para a prática da ginástica, havia treinos semanais e torneios anuais. Para a prática da ginástica, uma série de materiais era importada da Europa, especialmente da Alemanha. Autoridades locais, comerciantes, funcionários da administração colonial, oficiais da marinha ou da tropa militar, familiares e demais amadores do esporte formavam um público cativo em competições e torneios e, por conseguinte, eram também protagonistas do incipiente campo esportivo do sudoeste africano.

Apesar do apartidarismo político e religioso de seus estatutos, as sociedades de ginástica foram espaços sociais onde se propagaram algumas ideologias. Na colônia alemã do sudoeste africano, por exemplo, as sociedades de ginástica participaram não apenas para a formação do campo esportivo, mas também para a manutenção e propagação do germanismo e para a estruturação de um calendário esportivo nos quais os torneios eram também momentos de celebração do colonialismo.

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As sociedades de ginástica do sudoeste africano

As primeiras sociedades de ginástica do sudoeste africano foram fundadas em Swakopmund (1898) e Windhoek (1899). Segundo matéria do jornal Windhoeker Anzeiger, de 14 de fevereiro de 1900, entre os objetivos das sociedades de ginástica estava a prática de exercício para a força física e mental e a “preservação de um saudável sentimento patriótico”. Outras sociedades de ginástica foram fundadas durante a guerra colonial (1904-1908) como a sociedade de ginástica de Keetmanshoop e a de Lüderitzbucht, fundadas respectivamente em 20 de abril e 26 de novembro de 1907.

EmKaribib e Usakos também surgiram sociedades de ginástica. Até na Cidade do Cabo foifundada uma sociedade de ginástica em meados de 1911 com 30 membros ativos. Os treinos eram realizados na escola alemã (Deutsche Schule), na Queen Victoria Street.

As sociedades de ginástica tinham um estatuto próprio. Mas a orientação era comum e seguia, de modo geral, a matriz alemã. Segundo o estatuto da sociedade de ginástica de Keetmanshoop, o seu duplo objetivo era o aperfeiçoamento físico e espiritual e a preservação do germanismo. Para isso, fazia-se necessário o treinamento regular e os torneios em vida associativa.

Em contexto colonial, a prática da ginástica era uma forma de distinção entre os adventícios e os nativos. Mas ela também servia para marcar diferenças no interior da comunidade germânica na colônia alemã do sudoeste africano. Dito de outra forma, as sociedades de ginástica eram instituições de controle social.

Conforme o estatuto dasociedade de ginástica “Gut Heil” estava proibida a candidatura de qualquer cidadãocom menos de 17 anos, conscientemente contrário ao germanismo e/ou que fosse casadocom mulher de cor. Uma vez preenchidos os critérios para a candidatura, essa deveriaser formalizada por escrito. Em reunião mensal da sociedade, elegia-se em votaçãosecreta os novos membros. Para um nome ser aprovado era preciso a concordância damaioria dos associados presentes na reunião. Já um associado inadimplente ou queperdesse o seu direito de cidadania ou fosse condenado por algum crime poderia serexcluído da sociedade de ginástica.

Em suma, os valores implícitos ao germanismo e ao colonialismo alemão parecem incontornáveis à compreensão sociológica e histórica da emergência das sociedades de ginástica na então colônia do sudoeste africano.

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Referências

CORREA, S. M. S. As corridas de cavalos na colônia alemã do sudoeste africano (1884-1914). Cadernos de Estudos Africanos, p. 02-18, 2013.

CORREA, S. M. S. Caça e preservação da vida selvagem na África colonial. Esboços Revista do PPGH/UFSC, v. 18, p. 164-183, 2012.

CORREA, S. M. S. Colonialismo, germanismo e ginástica no sudoeste africano. Recorde: Revista de História do Esporte, v. 5, p. 134-156, 2012.

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Jogos Abertos Femininos (1954-1963): espaço de visibilidade para as mulheres gaúchas

06/04/2014

por Silvana Vilodre Goellner

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Os Jogos Abertos Femininos foram realizados em Porto Alegre entre os anos de 1954 a 1963 com o objetivo de incentivar as mulheres à prática de esportes assim como dar visibilidade aos clubes e agremiações do Estado.   Idealizados pelo jornalista Túlio de Rose e pelo Jornal Folha da Tarde mantinham um caráter festivo  que envolvia  clubes de Porto Alegre e  de diversas cidades do Rio Grande do Sul.

As competições geralmente aconteciam durante o período de uma semana em diferentes locais de Porto Alegre, sobretudo, no clubes e em alguns espaços públicos. A cerimônia de abertura era realizada no estádio da Sociedade de Ginástica Porto Alegre (SOGIPA) que comportava mais de 30 mil espectadores, o que foi  insuficiente para  alojar o público presente na abertura dos Jogos no ano de 1959. Essa cerimônia acontecia seguindo o mesmo roteiro em todas as adições e contava com o tradicional Desfile de Abertura no qual todos os clubes participantes apresentavam suas atletas. Após o desfile  dos clubes e das atletas participantes acontecia o hasteamento das bandeiras  ao som o  Hino Nacional, a proclamação  do  juramento  feita por uma  atleta escolhida pela organização do evento e, por fim,  o desfile em carro aberto da Rainha e das Princesas  dos Jogos.

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Abertura dos Jogos Abertos Femininos de 1957 Fonte: Jornal Folha da Tarde

Abertura dos Jogos Abertos Femininos de 1957
Fonte: Jornal Folha da Tarde

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 A programação apresentava competições em várias modalidades tais como atletismo, arco e flecha, ginástica, ciclismo, esgrima, hipismo, natação, basquete, saltos ornamentais, tênis, lance livre, voleibol, bolão, golfe, remo, regata à vela, pesca, tênis de mesa, bridge, tiro ao alvo, entre outras. Algumas dessas modalidades tais como o tênis, a natação, o atletismo e o voleibol   tinham certo destaque em função de já existirem equipes e competições consolidadas no estado do Rio Grande do Sul.

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Pesca. Jogos Abertos Femininos de 1960 Fonte: Folha da Tarde

Pesca. Jogos Abertos Femininos de 1960
Fonte: Folha da Tarde

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A competição previa a premiação da Atleta Destaque cujo critério principal para a escolha era a participação no maior número de modalidades. Diná Pettenuzzo Santiago, uma participante dos Jogos assim se refere ao evento: “tínhamos a oportunidade de fazer coisas que a gente não fazia, como por exemplo, pescar, jogar pingue-pongue, bocha, atletismo, a gente se metia em tudo, às vezes nem sabíamos muita coisa, mas íamos pelo clube,  primeiro para auxiliar e para clube ter representação e segundo pra tentar ganhar, e quem sabe ser escolhida a atleta dos jogos” (2002, p. 6).

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Diná Pettenuzzo Santiago em entrevista ao Centro de Memória do Esporte (2006) Fonte: Centro de Memória do Esporte

Diná Pettenuzzo Santiago em entrevista ao Centro de Memória do Esporte (2006)
Fonte: Centro de Memória do Esporte

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Em um tempo no qual o esporte não era observado como possibilidade de carreira profissional para as mulheres, os Jogos Abertos Femininos deram visibilidade às praticas corporais e esportivas como um espaço de  sociabilidade das mulheres das elites.  Vale lembrar que para participar da competição  havia a necessidade de pertencer a algum clube e assim representá-lo. Essa participação foi importante para muitas atletas que, em função de seu desempenho e pertencimento clubístico, foram convocadas para participarem de competições nacionais e internacionais representando o Rio Grande do Sul e o Brasil, fundamentalmente, nas modalidades de natação, tênis, voleibol e basquetebol. Ou seja, ainda que para uma pequena elite, promoveram a divulgação do esporte de forma a fazer ver que o esporte também poderia ser uma prática delas.

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Margot Ritter recebendo de Túlio de Rose o troféu  Atleta de Destaque nos Jogos Abertos Femininos  de 1956 Fonte: Centro de Memória do Esporte

Margot Ritter recebendo de Túlio de Rose o troféu
Atleta de Destaque nos Jogos Abertos Femininos de 1956
Fonte: Centro de Memória do Esporte