Histórias do esporte em Rubem Fonseca (parte 1)

17/04/2017

por Fabio Peres

Cruel, realista, desconcertante, brutal, mórbido. Entre tantos termos utilizados para descrever a literatura de Rubem Fonseca, talvez possamos também adicionar o adjetivo esportivo. Afinal, basta uma breve leitura de sua obra para perceber que não são poucos os contos e romances em que o esporte e as atividades físicas, em geral, ocupam lugar – ora mais, ora menos – privilegiado.

Desde a publicação de Os Prisioneiros (1963), primeira coletânea de contos do autor, o objeto está lá, por assim dizer, em suas variadas formas; às vezes de maneira mais clara ou quase desapercebido de modo sútil. Como aponta a escritora Maria Alice Barroso, Rubem já se destacava no conto Fevereiro ou março (1963)  pela incorporação de “um excelente tipo à galeria de personagens da literatura brasileira: o atleta vagabundo, frequentador das academias de boxe, portador de uma ética toda sua” (apud AUGUSTO, 2009, posfácio)[i].

Capa da edição de 1963 de Os Prisioneiros

O personagem-narrador inicia a história descrevendo como a condessa Bernstroa, mulher casada com a qual teve um caso, explicava a manutenção de suas formas corporais:

Era uma velha, mas podia dizer que era uma mulher nova e dizia. Dizia: põe a mão aqui no meu peito e vê como é duro. E o peito era duro, mais duro que os das meninas que eu conhecia. Vê minha perna, dizia ela, como é dura. Era uma perna redonda e forte, com dois costureiros salientes e sólidos. Um verdadeiro mistério. Me explica esse mistério, perguntava eu, bêbado e agressivo. Esgrima, explicava a condessa, fiz parte da equipe olímpica austríaca de esgrima — mas eu sabia que ela mentia.

O personagem continua desfiando a história explicando como foi seu dia, um sábado de carnaval, marcado por certa imprevisibilidade e também, não por acaso, por certa angústia:

Era de manhã, no primeiro dia de carnaval. Ouvi dizer que certas pessoas vivem de acordo com um plano, sabem tudo o que vai acontecer com elas durante os dias, os meses, os anos. […] Eu — eu vaguei pela rua, olhando as mulheres. De manhã não tem muita coisa para ver. Parei numa esquina, comprei uma pera, comi e comecei a ficar inquieto. Fui para a academia.

A descrição dos exercícios na academia é acompanhada por uma série de sentidos, pensamentos, práticas e gestos:

[…] comecei com um supino de noventa quilos, três vezes oito. O olho vai saltar, disse Fausto, parando de se olhar no espelho grande da parede e me espiando enquanto somava os pesos da barra. Vou fazer quatro séries pro peito, de cavalo, e cinco para o braço, disse eu, série de massa, menino, pra homem, vou inchar. E comecei a castigar o corpo, com dois minutos de intervalo entre uma série e outra para o coração deixar de bater forte; e eu poder me olhar no espelho e ver o progresso. E inchei: quarenta e dois de braço, medidos na fita métrica.

A academia, por sua vez, é lugar de encontros, de construção (e também de desconstrução) de vínculos e laços sociais. Os amigos, frequentadores de academia -ao que tudo indica de um bairro da Zona Sul carioca –, organizam a “diversão” para aquele carnaval:  “porrada pra todo lado”. A ideia era simples. Se fantasiar de mulher e então:

O povo cerca a gente pensando que somos bichas, nós estrilamos com voz fina, quando eles quiserem tascar, a gente, e mais vocês, se for preciso, põe a maldade pra jambrar e fazemos um carnaval de porrada pra todo lado. Vamos acabar com tudo que é bloco de crioulo, no pau, mesmo, pra valer. Você topa?

Após alguns desdobramentos (e outras referências aos sentidos e usos do corpo), o narrador se auto descreve para o marido da condessa, adquirindo assim características de um novo “tipo” inserido em um meio social com senso moral e ético próprios, como chamou atenção Maria Alice Barroso:

na academia eu faço ginástica de graça e ajudo o João, que é o dono, que ainda me dá um dinheirinho por conta; vendo sangue pro banco de sangue, não muito para não atrapalhar a ginástica, mas sangue é bem-pago e o dia em que deixar de fazer ginástica vou vender mais e talvez viver só disso, ou principalmente disso. Nessa hora o conde ficou muito interessado e quis saber quantos gramas eu tirava, se eu não ficava tonto, qual era o meu tipo de sangue e outras coisas. Depois o conde disse que tinha uma proposta muito interessante para me fazer e que se eu aceitasse eu nunca mais precisaria vender sangue, a não ser que eu já estivesse viciado nisso, o que ele compreendia, pois respeitava todos os vícios. Não quis ouvir a proposta do conde, não deixei que ele a fizesse; afinal eu tinha dormido com a condessa, ficava feio me passar para o outro lado. Disse para ele, nada que o senhor tenha para me dar me interessa. Tenho a impressão que ele ficou magoado com o que eu disse […] Por isso, continuei, não vou ajudar o senhor a fazer nenhum mal à condessa, não conte comigo para isso. Mas como?, exclamou ele, […], mas eu só quero o bem dela, eu quero ajudá-la, ela precisa de mim, e também do senhor, deixe-me explicar tudo, parece que uma grande confusão está ocorrendo, deixe-me explicar, por favor. Não deixei. Fui-me embora. Não quis explicações. Afinal, elas de nada serviriam.

No mesmo livro (Os prisioneiros de 1963) novamente a ginástica, a “malhação”, bem como as competições de “físico”, típicas de academia, seriam mencionadas no conto Os inimigos; para alguns críticos da época o melhor da coletânea. Além disso, o conto que dá nome ao livro curiosamente se inicia por uma conversa entre uma psicanalista e um cliente sobre a inconveniência e mesmo inadequação de usar roupa “esportiva” no Centro da cidade, lugar por excelência de trabalho.

O panorama, por assim dizer, esportivo da literatura de Rubem Fonseca, de fato, é vasto e instigante. Por exemplo, o ambiente e os frequentadores de academia voltariam a fazer parte da obra do autor em 1965 no conto A Força Humana (do livro A Coleira do cão). Na realidade, trata-se em certo sentido de uma continuação de Fevereiro ou março. Já em 1969, o antigo Vale-Tudo seria objeto central do conto O Desempenho no famoso livro Lúcia McCartney.

Em 1979, breves referências ao futebol e ao balé apareceriam em O cobrador (no livro homônimo). Na mesma obra menções à ginástica retornariam em Mandrake (além do xadrez) e, em 1992, em o Romance Negro. Por outro lado, uma competição inusitada no Pantanal está em AA (abreviação do “esporte” de mesmo nome) em 1998 no livro a Confraria dos Espadas. Também em 1992, há uma menção à rua do Jogo da Bola – uma prática de diversão que esteve presente na cidade do Rio de Janeiro no século XVIII e XIX[ii] – em A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro.

Em 2001, exercícios aeróbicos, de alongamento e de musculação são citados em Copromancia, na obra Secreções, excreções e desatinos. Corrida na praia aparece em Caderninhos de nomes no ano seguinte em Pequenas criaturas. Em Laurinha surge mais uma vez uma referência ao futebol no livro Ela e outras mulheres de 2006. E a relação de Lima Barreto com o futebol é citada no romance O seminarista de 2009.

Mas essas e outras histórias ficarão para os próximos posts. Em todo caso, mais do que uma mera provocação, denominar a literatura de Rubem Fonseca de esportiva pode ser uma forma de perturbar os limites e as fronteiras do campo da História do Esporte; uma maneira talvez que nos ajude a entrecruzar várias histórias: do corpo, de gênero, da cidade, de classe, da discriminação racial, da homofobia, das diferentes modalidades e práticas esportivas, das emoções, da estética, da literatura, entre muitas outras histórias.

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[i] AUGUSTO, Sergio. Estreia consagradora. In: FONSECA, Rubem. Os prisioneiros. Rio de Janeiro: Agir, 2009.

[ii] Maiores informações ver MELO, Victor Andrade de. MUDANÇAS NOS PADRÕES DE SOCIABILIDADE E DIVERSÃO: O jogo da bola no Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). História,  Franca ,  v. 35,  e105,    2016 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742016000100514&lng=en&nrm=iso>. access on  17  Apr.  2017.  Epub Dec 19, 2016.  http://dx.doi.org/10.1590/1980-436920160000000105.


Kapuscinski e “A Guerra do Futebol”

27/10/2016

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

soccer-warConheci o trabalho do jornalista polonês Ryszard Kapuscinski uns anos atrás lendo O imperador, livro que me foi indicado por um amigo de faculdade de jornalismo (obrigado, Baiano!). A narrativa trata das vivências do repórter em meio à corte do imperador Selassiê, da Etiópia. O conteúdo parece de ficção, mas não é. Contudo, não acreditei, como não o fiz ao ler a obra objeto deste texto, que tudo que ele narrava era verdade absoluta – na verdade, isto pouco importa, ao menos para mim, quando se trata de fruir a narrativa deste autor.

Anos depois, esbarrei com The Soccer War (existe tradução publicada no Brasil: A Guerra do Futebol) na estante de livros usados à venda na biblioteca pública do bairro em que morava em San Diego. Custou o inacreditável preço de um dólar e furou a fila: comecei a ler. Não sabia do que se tratava, apenas de três coisas: que era um livro de Kapuscinski; que provavelmente seria bom; e que, com esse  título, abordaria o futebol.

The Soccer War é uma coletânea de histórias relativas a viagens do jornalista a trabalho, como correspondente da Agência de Imprensa Polonesa, entre as décadas de 1950 e 1970, na África, na Ásia e na América Latina. São relatos encharcados de suor, tiros, humanidade e desumanidade. Tem guerra entre palestinos e israelenses no Monte Hérmon e  atrocidades de parte a parte entre gregos e turcos no Chipre; há uma bela descrição dos povos nômades somalianos e etíopes, entre muitos outros relatos sobre áreas do globo em geral ignoradas pelo mercado mundial de notícias.

A guerra do futebol (capítulo)

O título da obra é retirado de um dos textos, que aborda um confronto armado entre El Salvador e Honduras que “durou cem horas. Suas vítimas: 6.000 mortos, mais de 12.000 feridos. Cinquenta mil pessoas perderam suas casas e terras. Muitas vilas foram destruídas” (p. 182; este e os demais trechos foram traduzidos por mim). Segundo o autor, o confronto teve como estopim as partidas entre as seleções dos países pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 1970 (tema já brevemente comentado neste blogue).

“A primeira partida foi realizada no domingo, 8 de junho de 1969, na capital hondurenha, Tegucigalpa.

Ninguém ao redor do mundo prestou qualquer atenção.

A equipe salvadorenha chegou em Tegucigalpa no sábado e passou a noite sem dormir (…). O time não podia dormir porque foi alvo de guerra psicológica travada pelos torcedores hondurenhos. Uma multidão cercou o hotel. A turba atirava pedras nas janelas e batucava em placas de latão e latas de lixo. Eles soltavam seguidos fogos de artifício. Eles buzinavam nos carros estacionados na frente do hotel. Os torcedores apitavam, gritavam e cantavam músicas hostis. Isso durou toda a noite. A ideia era que um time tenso, sonolento e exausto estaria inclinado à derrota. Na América Latina, estas são práticas comuns” (p. 157).

Adiante, após dar exemplos hilários de denúncias pintadas em muros, prossegue ele:

“Os latinos são obcecados com espiões, conspirações de inteligência e complôs. Na guerra, todo mundo é um quinta-coluna. Eu não estava numa situação confortável: a propaganda oficial de ambos os lados culpava os comunistas por cada desgraça, e eu era o único correspondente na região oriundo de um país socialista. (…)

Fui até o correio e convidei o operador de telex para tomar uma cerveja. Ele estava aterrorizado porque, embora tivesse pai hondurenho, sua mãe era cidadã de El Salvador. Ele tinha nacionalidade mista e, portanto, figurava entre os suspeitos. (…) Durante toda a manhã, a polícia estivera tangendo salvadorenhos para acampamentos provisórios, a maioria deles montados em estádios. Por toda a América Latina, os estádios têm um duplo papel: em tempo de paz, são arenas esportivas; na guerra, viram campos de concentração” (p. 166).

Por fim,

“a guerra terminou num impasse. (…) Ambos os governos estão satisfeitos: por vários dias Honduras e El Salvador ocuparam as primeiras páginas da imprensa mundial e foram objeto de interesse e preocupação. A única chance que pequenos países do Terceiro Mundo têm de despertar vivo interesse internacional é quando decidem derramar sangue. Isto é uma triste verdade, mas é assim.

O jogo decisivo da melhor de três foi realizado em campo neutro, no México (El Salvador venceu, 3×2). Os torcedores hondurenhos foram colocados de um lado do estádio, os salvadorenhos do outro, e no meio sentaram-se 5.000 policiais mexicanos armados com grossos cacetetes” (p. 184).

O esporte e o lazer noutros capítulos

Os espaços de lazer e o esporte aparecem, em menor escala, em alguns outros textos. Logo no seguinte, “Victoriano Gomez na TV”, a chapa continua quente. O tema é a transmissão ao vivo, pela televisão, da execução de um guerrilheiro de 24 anos que lutava contra a concentração latifundiária:

“Victoriano Gomez morreu em 8 de fevereiro na pequena cidade de San Miguel, El Salvador. Ele foi morto a tiros sob o sol da tarde, no estádio de futebol. Havia gente sentada na arquibancada do estádio desde a manhã. Furgões de rádio e televisão chegaram. Os cinegrafistas armaram seus equipamentos. Alguns fotógrafos se posicionaram no campo de jogo verdejante, agrupados em volta de uma das balizas. Parecia que uma partida estava prestes a começar.

(…) as pessoas (…) compravam sorvetes e bebidas geladas. As crianças faziam a maior parte do barulho. Quem não achava lugar na arquibancada, subia numa árvore para ver.

Um caminhão do Exército adentrou o campo. Primeiro, saíram os soldados que estariam no pelotão de fuzilamento. (…) [Victoriano Gomez] olhou para as arquibancadas, e disse bem alto (…): ‘Sou inocente, meus amigos’.

O estádio ficou em silêncio de novo, embora assovios de reprimenda pudessem ser ouvidos desde os lugares de honra onde os dignitários locais estavam sentados.

As câmeras foram ligadas: a transmissão ia começar. Por todo El Salvador, o povo estava assistindo à execução (…) na televisão.

Victoriano estava de pé próximo à pista de atletismo, encarando a arquibancada. Mas os cinegrafistas gritaram para ele ir para o meio do estádio, de forma que eles tivessem mais luz e uma cena melhor. Ele compreendeu e caminhou de volta até o centro do campo (…). Agora apenas uma pequena figura podia ser vista da arquibancada, e isso era bom. A morte perde sua literalidade naquela distância: deixa de ser morte e torna-se o espetáculo da morte. Contudo, os cinegrafistas fizeram um close-up de Victoriano; o rosto dele preenchia a tela; as pessoas assistindo pela televisão viam mais do que o público reunido no estádio.

Após a salva de tiros do pelotão, Victoriano caiu e as câmeras mostraram os soldados cercando seu corpo para contar as perfurações. (…)

Estava tudo terminado. A arquibancada começou a se esvaziar. A transmissão terminou. (…) Sua [de Victoriano] mãe ficou um pouco mais, sem se mexer, cercada por um grupo de pessoas que olhavam para ela em silêncio” (p. 185-6).

Lendo tal narrativa, penso nos pesquisadores e professores da área de Comunicação (existem também em outras áreas das Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas) que continuam tratando espetáculo e entretenimento como elementos estranhos ao esporte (ou, pior ainda, à “essência” do esporte) e que apenas recentemente adentraram o campo esportivo. Um pouco de leitura de história do esporte talvez caísse bem…

Em “Lumumba”, sobre o líder congolês, descreve o ambiente do Alex, “meu bar preferido na África”. Um trecho:

“Isto é uma segunda casa. (…) Casa é restrição e o bar é liberdade. Um informante branco não irá a um bar, porque uma pessoa branca iria se sobressair. Portanto, você pode falar de tudo. O bar está sempre repleto de palavras. O bar delibera, argumenta e pontifica. O bar topa qualquer assunto (…). Reputações (…) nascem aqui. (…) Se você encanta o bar, terá uma carreira de sucesso; se o bar escarnece de você, você pode voltar direto para a selva. (…) Alguém gesticula, uma mulher nina um bebê, risadas explodem em outra mesa. Fofoca, febre e muita gente. Aqui eles estão negociando o preço para passarem uma noite juntos, ali eles estão delineando um programa revolucionário, na mesa ao lado alguém está recomendando um bom feiticeiro, e acolá alguém está dizendo que vai ter greve. Um bar como este é tudo que você pode desejar: um clube, uma casa de penhores, um calçadão, uma varanda lateral de igreja, um teatro e uma escola (…).

Você tem que levar em consideração os bares e Lumumba compreendia isto perfeitamente. Ele também aparece para uma cerveja.” (p. 52-3)

Em “Algeria Hides Its Face” (“A Argélia esconde seu rosto”), ao narrar as atividades de Ben Bella na véspera do golpe que sofreu na Argélia: “Na sexta-feira, 18 de junho, poucas horas antes do coup, Ben Bella discursou numa manifestação em Orã. (…) Depois, foi a uma partida de futebol – ele nunca perdia um jogo (…)” (p. 113).

Segundo Kapuscinski, “Ben Bella tinha (…) uma personalidade fascinante. O futebol era sua paixão. Ele adorava assistir e também jogar. Com frequência, entre uma reunião e outra, ele dirigia até um campo de futebol e ficava chutando uma bola. Nesses jogos improvisados, a companhia mais próxima de Ben Bella era outro entusiasmado jogador de futebol, o ministro do exterior e um dos organizadores do complô contra o próprio Ben Bella: Abdel Azis Buteflika” (p. 96).

Fiquei pensando no argumento que vem sendo desenvolvido por pesquisadores de história da África como Victor Andrade de Melo e Marcelo Bittencourt (2012, 2013) de que diversos líderes revolucionários das lutas de independência contra Portugal tinham intenso envolvimento com o esporte, particularmente com o futebol.

O texto também faz uma extensa análise de problemas que cercam os governos de países recém-independentes, as realizações de Bella, o lugar de destaque ao qual a Argélia foi alçada no cenário internacional, particularmente no que diz respeito às lutas de esquerda e anti-imperialistas. A análise política é entremeada com episódios cotidianos e histórias saborosas, algumas delas envolvendo o esporte.

A narrativa e a trajetória do autor

A prosa de Kapuscinski tem características interessantes, misturando o formato de reportagem com o de diário, relato de viajante, obra de ficção. O jornalista era daqueles que gostavam de se jogar no olho do furacão: guerras, revoluções, guerras civis: falou em confusão, em dramas humanos e em lugares e situações de que a maioria dos repórteres quer distância, lá ia ele.

Outro aspecto interessante são suas convicções políticas, assim como o fato de ser polonês e trabalhar para uma agência de notícias de um país do bloco comunista. Por um lado, a narrativa tem momentos de um certo preconceito de europeu viajando ao Terceiro Mundo, além de momentos de incompreensão face ao que vê. Em “A Dispute over a Judge Ends in the Fall of a Government” (algo como “Uma contenda sobre um juiz vai dar na queda de um governo”):

“Há vários meses o Estado parara de funcionar. O gabinete não se reunira; o país estava paralisado.

Aqui podemos ver perfeitamente os mecanismos da política na África: o Daomé é um país pobre e subdesenvolvido. Tirar o Daomé da pobreza exigirá um esforço enorme, união de forças e educação. Mas ninguém sequer está trabalhando” (p. 123).

A isto se somam situações difíceis que se criam devido à aparência física de branco europeu, semelhante às dos opressores/colonizadores. Em “The Offensive” (“A Ofensiva”):

“Pensei em ir lá e explicar: sou da Polônia. Aos dezesseis anos de idade, entrei para uma organização de jovens. Nas faixas daquela organização estavam escritos slogans sobre a fraternidade das raças e o esforço comum contra o colonialismo. Organizei manifestações de solidariedade aos povos da Coreia, do Vietnã e da Argélia, com gente de todo o mundo. (…) Sempre considerei os colonialistas os piores vermes que existem” (p. 63).

Há vários episódios de risco, como tentativas de desenrolo ao levar dura de policiais, militares, guerrilheiros e/ou bandos armados de difícil classificação; há também uma impressionante narração do que se sente ao levar uma picada de escorpião no meio da noite.

Por outro, trata-se de alguém simpático às reivindicações populares e às causas da esquerda; e oriundo de um país periférico no próprio cenário europeu, e que não colonizou territórios nos demais continentes. O assunto vem à tona, por exemplo, num papo com alguns membros do conselho de anciãos de uma vila em Gana, em que a ajuda de Kofi, um amigo e intérprete, foi fundamental para explicar a eles que a Polônia, da qual nunca haviam ouvido falar, não tinha colônias e que “nem todos os brancos são colonialistas”. O papo desemboca numa discussão sobre colonialismo e pós-colonialismo. Prossegue Kofi, a respeito de sua terra natal: “Por cem anos eles nos ensinaram de que o branco é alguém maior, super, extra. Eles tinham seus clubes, suas piscinas, seus bairros, suas putas, seus carros e sua língua balbuciante. Nós sabíamos que a Inglaterra era o único país do mundo, que Deus era inglês, que apenas os ingleses viajavam pelo mundo. Sabíamos justamente o quanto eles desejavam que soubéssemos. Agora é difícil mudar” (p. 231).

Há muitas reflexões sobre a guerra, abordando temas como as perdas humanas; ou as transformações introduzidas por novas máquinas de matar:

“Agora os tempos mudaram, e a face da guerra mudou. Os homens foram retirados do campo de visão no terreno de batalha. Vemos equipamentos. Vemos tanques, artilharia automática, foguetes e aeronaves. Oficiais apertam botões num bunker, observam os saltos de uma linha verde numa tela, manipulam um joystick e apertam outro botão. Um bum, um silvo, e em algum lugar, à distância, um tanque se desintegra, nalgum trecho do céu um avião se despedaça” (p. 203-4).

Livro com bônus

inside-travelerComo às vezes acontece com livros usados, este veio com três itens:

1) Um cartão postal de uma companhia aérea dos EUA, estampando um modelo 767.

2) Uma resenha recortada (e cortada; ver imagem à esquerda), ao que parece, de uma revista chamada Inside Traveler, repleta de elogios ao que define como “uma coletânea de artigos das viagens de Kapuscinski como correspondente da Agência de Imprensa Polonesa (…), parte relato de viagem, parte reflexão filosófica sombria, parte narrativa de aventura no fio da navalha”.

3) E um recorte de jornal (à direita), evidenciando que a morte do escritor, como diria Jorge Benjor, deu no New York Times. No obituário, fiquei sabendo que ele chegou a escrever para a revista do próprio jornal. Termina mais ou menos assim:obituario-nyt0003

“‘Existe, admito, um certo egoísmo no que escrevo’, disse ele certa vez, ‘sempre reclamando do calor ou da fome ou da dor que sinto. Mas é terrivelmente importante ter o que escrevo autenticado por ter sido vivido. Você pode chamar isso, suponho, de reportagem pessoal, porque o autor está sempre presente. Eu às vezes chamo de literatura a pé.”

Observando os itens, me parece que, antes de vir parar no Rio de Janeiro, o exemplar pertenceu a alguém interessado em literatura de viagens/viajantes.

Referências bibliográficas

KAPUSCINSKI, Ryszard. The Soccer War. New York: Alfred A. Knopf, 1991.

MELO, Victor Andrade de; BITTENCOURT, Marcelo. Sob suspeita: o controle dos clubes esportivos
no contexto colonial português. Revista Tempo, Niterói, v. 17, n. 33, p. 191-215, dez. 2012.

______. O esporte na política colonial portuguesa: o Boletim Geral do Ultramar. Revista Tempo,
Niterói, v. 17, n. 34, p. 69-80, jan.-jun. 2013.

Para quem tiver curiosidade, diversos livros de Kapuscinski estão traduzidos no Brasil.

[Adendo em 27/4/2017: recomendo também esta entrevista (em inglês) a respeito da documentação sobre a Guerra do Futebol nos arquivos da CIA, nos EUA.]


Esporte, Política e Humor: o Golpe de 16 (parte 1)

27/06/2016

As relações entre esporte e política são múltiplas. O que talvez possa passar despercebido no contexto atual é que o esporte também permeia (sem perder o bom humor) a luta política.

por Fabio Peres

Desde o acirramento da crise política em 2015, incontáveis manifestações relacionaram política e esporte. Faixas – pró e contra o impeachment – foram exibidas em jogos de futebol. Torcidas procuraram se organizar em torno da luta contra o golpe. Proliferaram-se memes fazendo referência ao mundo do esporte. Torcedores invadiram campos e treinos de times de futebol. Camisas da seleção (ou da CBF como alguns discursos procuram sublinhar) [i], não apenas foram utilizadas em manifestações, como também foram personalizadas com dizeres “Fora Dilma” ou “Fora PT”.  Houve até mesmo torcida homenageando juiz.

O clássico fla X flu, aliás, ganhou corpo em diversas análises como metáfora da polarização política. O que chama atenção nesse caso é a força simbólica que a disputa carioca ainda possui no imaginário social. Não se tem conhecimento, pelo menos com a mesma eficiência semântica, de uso de outras contendas para ilustrar tal conjuntura (não se falou no Derby Paulista e muito menos em Barcelona X Real Madrid).

Política e esporte definitivamente estavam imbricados em todas essas ocasiões.

O que pode parecer inusitado é que – apesar da seriedade da crise (ou justamente por conta disso) – também houve uma profusão de referências, cujo traço comum era o humor.

Com o início do processo de impeachment, jornalistas, artistas e coletivos sociais utilizaram de forma bem-humorada as práticas esportivas para explicitar e questionar o momento político que estamos atravessando.

Na Folha de S. Paulo, por exemplo, Gregório Duvivier (na crônica Festa Estranha com Gente Esquisita, 21/12/2015) colocou em xeque – utilizando para isso modalidades esportivas – a representatividade do Congresso Nacional, a premissa de que o poder legislativo reflete a sociedade brasileira:

Se tem alguém que não está presente no Congresso nacional (além dos deputados que, de modo geral, preferem trabalhar de casa) é o povo brasileiro. As mulheres são quase 52% da população. No entanto, você consegue encontrar mais mulheres jogando rúgbi do que na Câmara dos Deputados. O povo brasileiro se declara, em sua maioria, negro ou pardo (53%). O Senado brasileiro tem menos negros que o Senado da Suécia (não é uma expressão, é um fato). Quanto aos jovens, melhor procurar num jogo de bocha. Jovens com até 34 anos são 39% do eleitorado e 10% do Congresso (grifos nossos).

 

A reflexão continua acentuando ironicamente o perfil elitista do Congresso em contraponto ao da população:

Muito se fala sobre a tal festa da democracia. Que festa estranha com gente esquisita. Eu não tô legal. O Congresso brasileiro parece o salão de jogos do Country Club: uma versão mais masculina, mais branca, mais hétero, mais velha e mais empresária do Brasil. Mas por quê? Será que o brasileiro só confia em homem branco hétero velho empresário? Uma rápida pesquisa revela que eleger um deputado custa, em média, R$ 6 milhões. Uma rápida pesquisa revela que quem tem R$ 6 milhões no Brasil é homem branco hétero velho empresário. O Congresso brasileiro não é a cara do Brasil. Ele é a cara da elite do Brasil. Não é o povo brasileiro que é conservador. É o dinheiro brasileiro que é conservador. Pense no lado bom: talvez o Brasil não seja um país intrinsecamente corrupto ou reacionário. Ou talvez seja. Isso a gente ainda não sabe. Pra isso seria preciso uma coisa inédita: democracia. Por enquanto, pra participar da festa, só com pulseirinha VIP de R$ 6 milhões (mas relaxa que tem consumação).

 

No dia 03 de abril, Juca Kfouri, por sua vez, abriu sua crônica com a seguinte questão: “Nestes dias uma questão paira sobre o Brasil: impeachment de Dilma Rousseff é golpe ou não é golpe?” (Folha de S. Paulo, 03/04/2016).  O futebol é usado para responder de maneira cômica a questão (o artigo completo pode ser encontrado aqui). Rico em figuras de linguagem, o texto conclui:

Só não esqueça que a vitória roubada não é legítima, que sem respeito às regras não tem jogo. E que uma expulsão ilegal, nestas alturas do campeonato, pode virar um tremendo quebra­pau no estádio, pode virar tragédia. Se você acha que vale arriscar só para ver o rival derrotado, lamento dizer que não estamos no mesmo time.

 

Com narração do próprio Juca Kfouri, a crônica foi dramatizada em vídeo pelo coletivo[ii] Um à Esquerda:

 

O coletivo voltaria a usar esse mesmo recurso, também com narração de Juca Kfouri, para falar de possíveis perdas dos direitos trabalhistas – naquela época, num eventual governo interino Temer. O vídeo faz uma analogia entre 7 projetos de lei que buscam “flexibilizar” a CLT e os 7 gols que a seleção brasileira tomou contra a Alemanha na Copa do Mundo de 2014.

 

 

O gol de honra do “Brasil” só apareceria em outro vídeo, quando o ministro do STF Teori Zavascki determinou o afastamento de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) do mandato de deputado federal e, consequentemente, da presidência da Casa, em 05/05/2016.

 

 

Mas mesmo antes da infame votação no dia 17 de abril, quando ainda não se tinha certeza se o impeachment passaria na Câmara, o colunista Celso Rocha de Barros da Folha de S. Paulo alertava para os riscos de dá-lo como certo, ainda que bastante provável. De maneira espirituosa, a coluna O Cenário Deivid (04/04/2016) lembrava do insólito gol perdido pelo jogador do Flamengo, na disputa da Taça Guanabara de 2012, contra o Vasco (veja o lance no vídeo abaixo). Embora o “sim” já aparecesse com franca maioria nas análises divulgadas por parte da mídia, recomendava-se um pouco cautela:

Enfim, o gol está aberto para a oposição. Mas gol aberto é hora de lembrar de Deivid, ótimo centroavante que jogou nos maiores times do Brasil e na seleção. Dentro de uma carreira cheia de títulos e artilharias, o gol perdido por Deivid na semifinal da Taça Guanabara de 2012 é só um episódio pitoresco. Mas ninguém esquece: a poucos centímetros da linha do gol, sem goleiro, Deivid chutou na trave. Como seria um momento Deivid da turma que quer derrubar Dilma?

 

 

Fazendo uso de outras referências ao futebol, o colunista chama atenção para o papel cada vez mais decisivo que o chamado baixo clero possuiria na votação na Câmara, o que ainda conferia uma pequeníssima dose de imprevisibilidade à disputa pelos votos (tanto para o “sim” como para “não”, tanto para direita como para a direita) de “partidos que são pouco mais que máquinas de extração de rendas (o PMDB incluso)”:

Um governo Temer continua muito provável […] Mas é bom lembrar que, embora a zaga petista tenha se distraído do jogo olhando aquela grama toda tão apetitosa, o atacante adversário está sob cerrada marcação da natureza. Agora olhem para todos esses cenários com PMDB e PP e me expliquem de novo por que valeu a pena começar a guerra do impeachment.

 

Com humor mais escrachado, artistas criaram o projeto Supletivão, no qual o golpe é explicado através de aulas de disciplinas diversas: lógica, português, história e educação física. Nessa última, o ciclismo (em suas diversas modalidades) é usado para explicitar as intempéries, para não dizer, bizarrices político-jurídicas de uma democracia em risco:

 

 

Após a votação no Senado, aprovando a abertura de processo de impeachment, Gregório Duvivier voltou a fazer analogias entre esporte e política.  Em Faltou combinar com os russos (Folha de S. Paulo, 16/05/2016), o colunista lembra da folclórica conversa entre Garrinha e o técnico Feola, na Copa de 1958, para retratar a ingenuidade, as ambiguidades e mesmo contradições daqueles que apoiaram o impeachment, alguns provavelmente neófitos na participação política (e talvez no futebol):

Reza a lenda que na Copa de 58, o técnico Feola bolou um esquema infalível contra a seleção soviética: Nilton Santos lançaria a bola pela esquerda para Garrincha, que driblaria três russos e cruzaria para Mazzola marcar de cabeça. Garrincha ouviu o professor atentamente: “Tá legal, seu Feola, mas o senhor combinou com os russos?”. “Primeiro a gente tira a Dilma”, dizia o pessoal do impeachment. “Depois a gente derruba o Temer. Aí a gente prende o Cunha. Quando ele cair, a gente cassa o Renan. Daí pronto: eleições gerais.” O plano era infalível. Só esqueceram de combinar com os russos. No poder, o presidente interino (não pronunciarei mais seu nome) já mostrou que não tem a menor intenção de renunciar –apesar de ter assinado as mesmas pedaladas que derrubaram Dilma. Parabéns a todos os que produziram o efeito dominó mais curto do mundo: parou na primeira peça.

 

Já com o governo interino em curso, talvez o cenário se afastasse bastante daquele imaginado pelas pessoas que, 5 dias antes, comemoraram o afastamento da presidente:

Os russos roubaram a bola antes dela chegar ao ataque e fizeram sete gols. O secretario de segurança genocida foi premiado com a Justiça. A Educação ficou com o PFL (me recuso a chamar de Democratas) –partido que foi contra o ProUni, o Fies, os royalties para educação. A Cultura foi pro mesmo lugar que a democracia: debaixo da terra. Ou do PFL. O que é pior. Serra no Exterior –um sujeito que não tem sequer um amigo vai cuidar da diplomacia. Mudaram a CGU –e junto com ela a torneira da Lava Jato. Achei que aqueles que eram contra a corrupção iriam às ruas contra o primeiro presidente brasileiro que já assume com a ficha suja. Não foram. Achei que fossem contra a indicação de ministros citados na Lava Jato. Tampouco foram. O pato da Fiesp acordou rouco. As panelas voltaram à cozinha. Durante o discurso do vampiro embalsamado que nos governa, tudo o que se ouvia era um silêncio ensurdecedor. Cheguei a ouvir: “ao menos esse presidente fala bem o português”. A vontade é enorme de gostar do mordomo interino. Pode roubar, matar, e esconder cadáver, mas pelo menos não erra o plural.

 

O autor de maneira provocativa e irreverente conclui:

Não se esqueçam do Carlos Lacerda, que fez o que pôde pro governo de Jango cair. Quando o golpe chegou, teve os direitos políticos cassados. Tentou reclamar –era tarde demais. “Mas não era isso que você queria?”, poderiam argumentar os militares. O golpe chegou. Vale lembrar de Lacerda. Quem pediu o golpe não estará imune a ele. É o momento de deixar claro que não era isso que vocês queriam. Com esse silêncio todo, fica parecendo que era.

 

Assim como no caso de outros literatos – como Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade e Joaquim Manuel de Macedo (comentados anteriormente aqui no blog) –  jornalistas, artistas e coletivos sociais “deslocaram” os sentidos habituais do esporte para provocar riso, wit  ou ironia (a despeito da distinções conceituais entre cada um deles)[iii].

Sem dúvida, devemos considerar o caráter relativo do humor, mas não é recomendado abrir mão do “contextualismo linguístico” de produção das narrativas.

De todo modo, o esporte parece cumprir com eficácia o requisito de “familiaridade com os códigos e as normas que ditam a (de)codificação da mensagem humorística” (ERMIDA, 2002, p.76).

Ora mais, ora menos irônica, ora mais, ora menos sútil, as práticas esportivas em todos esses casos foram mobilizadas com sensibilidade cômica para refletir sobre a crise (vale ressaltar multiplamente adjetivada; o que evidencia ainda mais a sua gravidade). Mais do que isso, o esporte também é usado para “demarcar campo”, para se posicionar na disputa política.

Em outras palavras, as práticas esportivas parecem, não apenas ser “boas para pensar” o mundo político, mas – como causa ou consequência disso – parecem também ser “boas para agir” – com bom humor – na vida social e política.

Alguns cartunistas parecem concordar com essa ideia. Articulando referências e linguagens múltiplas (fotografia, música, esporte, entre outras), Aroeira por exemplo desenhou o Impávido que Nem Muhammad Ali:

o Impávido que Nem Muhammad Ali (Aroeira, 06/06/2016)

 

A homenagem sugere um eco que de alguma forma repercuti no contexto político atual:

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos

Surpreenderá a todos não por ser exótico

Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto

Quando terá sido o óbvio

(Um índio, Caetano Veloso. A música pode ser escutada aqui)

 

Mas essa história vai ficar para o próximo post.

________________________________________________________

[i] Vale notar que a expressão “camisa da CBF” tem sido utilizada para denotar e sublinhar o tom crítico a tais manifestações.

[ii] Estamos usando a denominação utilizada por Juca Kfouri.

[iii] Maiores informações ver: ERMIDA, Isabel Cristina da Costa Alves. Humor, Linguagem e Narrativa: para uma Análise do Discurso Literário Humorístico. Tese (Doutorado em Ciências da Linguagem). Universidade do Minho, Braga, 2002.


Esporte, Política e humor: as eleições no Rio de Janeiro do século XIX

20/09/2015

As eleições sempre despertaram a atenção de importantes literatos e intelectuais. O que parece inusitado é o uso irônico do esporte para apontar os limites da cidadania e da participação política nos pleitos do século XIX.

por Fabio Peres[i]

Há quase dois anos, publiquei um post no qual comentava a presença de determinadas práticas corporais na obra de dois literatos. Naquela ocasião, um dos argumentos era que, mesmo distantes por um pouco mais de um século, Carlos Drummod de Andrade e Joaquim Manuel de Macedo estabeleceram analogias entre aspectos da performance atlética e os cenários políticos em que estavam inseridos[ii].  Os usos dessas práticas, por assim dizer, “fora de lugar” (na política, no caso) funcionavam como recurso de humor; que pelo contraste ou incongruência jogava uma nova luz sobre a vida social.

No século XIX, na verdade, esse tipo de “apropriação” do esporte ou de outras práticas corporais era mais comum do que a princípio poderíamos imaginar.

Em 1894, por exemplo, Machado de Assis demonstrava certa preocupação com as eleições à presidência do estado do Rio de Janeiro[iii]. A abstenção, no olhar do cronista, era talvez o maior inimigo do pleito. No entanto, não bastaria apenas a exortação para convencer o eleitorado a comparecer às urnas, a se interessar pelo direito de eleger seus representantes. Seria necessário um estímulo a fim de reverter a indiferença. A ideia era simples: dar às eleições um aspecto acentuadamente esportivo (Gazeta de Notícias, 15 de julho de 1894, p.1).

A reforma eleitoral proposta por Machado – sem dúvida com tom irônico – partira de um comentário publicado no Jornal do Comércio sobre a “população esportiva” no munícipio. O literato reagiu com surpresa e autocrítica burlesca:

A princípio não pude raciocinar. A certeza de que dois terços da nossa população é esportiva, deixou-me assombrado e estúpido. Voltando a mim, fiquei humilhado. Pois quê! dois terços da população é esportiva, e eu não sou esportivo! Mas que sou então neste mundo? (op. cit.)

 

Não era a primeira vez que Machado expressava tal preocupação. Na verdade, a inquietação do autor/personagem sobre a participação eleitoral, que “não se deixa persuadir com palavras nem raciocínios”, era um assunto recorrente. Ainda que o escritor apontasse distintas causas e soluções ao longo do tempo para tal “moléstia”[iv], o estilo jocoso estava sempre presente. Em 1892, por exemplo, chamava atenção:

Toda esta semana foi empregada em comentar a eleição de domingo. É sabido que o eleitorado ficou em casa. Uma pequena minoria é que se deu ao trabalho de enfiar as calças, pegar do título e da cédula e caminhar para as urnas. Muitas seções não viram mesários, nem eleitores, outras, esperando cem, duzentos, trezentos eleitores, contentaram-se com sete, dez, até quinze. Uma delas, uma escola pública, fez melhor, tirou a urna que a autoridade lhe mandara, e pôs este letreiro na porta: “A urna da 8ª seção está na padaria dos Srs. Alves Lopes & Teixeira, à rua de S. Salvador n…”. Alguns eleitores ainda foram à padaria; acharam a urna, mas não viram mesários. Melhor que isso sucedeu na eleição anterior, em que a urna da mesma escola nem chegou a ser transferida à padaria, foi simplesmente posta na rua, com o papel, tinta e penas. Como pequeno sintoma de anarquia, é valioso GN, 07/08/1892, p.1).

 

Já em 1894, as cores esportivas da reforma consistiam basicamente em trazer a emoção das competições para a disputa eleitoral. Para isso, parâmetros esportivos (em especial, do turfe) deveriam ser adicionados ao pleito a fim de atrair a população, o que incluiria dar alcunhas aos candidatos (assim como no caso dos cavalos), além de institucionalizar as apostas no certame eleitoral:

Em vez de esperar que o desejo de escolher representantes leve o eleitor às urnas, devemos suprir a ausência ou a frouxidão desse impulso pela atração das próprias urnas eleitorais. A lei deve ordenar que os candidatos sejam objeto de apostas, ou com os próprios nomes, ou (para ajudar a inércia dos espíritos) com outros nomes convencionais, um por pessoa, e curto. Não entro no modo prático da ideia; cabe ao legislador, achá-lo e decretá-lo. A abstenção ficará vencida […] (GN, 15/07/1894, p.1).

Em certo sentido, parte da crítica de Machado se dirige à própria população e aos cidadãos que se envolvem com os eventos esportivos, mas que se interessam pouco com as eleições (uma hipótese que merece ser melhor investigada). Contudo, tal crítica é matizada por uma conjuntura que afastava o eleitor das urnas. A participação política, não apenas era minada por um conjunto de instituições sociais frágeis (que deveriam favorecer e zelar por ela), como a própria concepção dominante de cidadania na época, ajudava a institucionalizar a exclusão e a reprodução de relações desiguais de poder.

De fato, a “esportividade” das eleições naquele cenário poderia ter vários desdobramentos para combater as abstenções. Um deles relacionado à própria ambiência política, que era marcada por violência, corrupção, intimidação, desorganização etc. Não por acaso, o literato chama a atenção para certos constrangimentos que cercavam a participação eleitoral: “Não sei quem seja aqui César nem Pompeu. Contento-me em que não haja morte de homem, nem outra arma além da cédula” (GN, 15/07/1894, p.1). De certa maneira, a reforma eleitoral poderia ajudar na construção de uma paisagem política em que “O vencido perde o lugar, mas não perde as costelas” (op. cit.).

Outro benefício seria o aumento de naturalizações, impulsionado pelo clima competitivo das eleições: “A lei deve até facilitar a operação [de se naturalizar], ordenando que o simples talão da aposta sirva de título de nacionalidade” (p.1). Mas caso a reforma eleitoral, por si só, não tivesse êxito em combater a abstenção, as mulheres não poderiam deixar de ter acesso ao sufrágio:

Se a ideia não der o que espero, recorramos então ao exemplo da Nova Zelândia, onde por uma lei recente as mulheres são eleitoras. […] Elevemos a mulher ao eleitorado; é mais discreta que o homem, mais zelosa, mais desinteressada. Em vez de a conservarmos nessa injusta minoridade, convidemo-la a colaborar com o homem na oficina da política. Que perigo pode vir daí? Que as mulheres, uma vez empossadas das urnas, conquistem as câmaras e elejam-se entre si, com exclusão dos homens? Melhor. Elas farão leis brandas e amáveis. As discussões serão pacíficas. Certos usos de mau gosto desaparecerão dos debates (op. cit.).

Ainda que a ironia torne um pouco mais complexa a interpretação sobre as questões de gênero,  devemos ter em vista a preocupação central do autor: fazer com que toda a população participe mais da vida política, ou melhor, que a “população inteira fique esportiva” (op. cit.).

A despeito disso e embora a proposta não passasse de uma brincadeira – uma forma espirituosa de abordar os dilemas de uma cidadania ainda incerta na república recém-formada – a narrativa permite entrever, já naquele momento, a forte presença social do fenômeno esportivo na cidade.

De fato, no final do século XIX uma série de práticas esportivas faziam parte da paisagem fluminense. Não se tratava apenas do turfe – modalidade citada na crônica -, mas também das corridas à pé, de bicicletas, dos jogos de pelota, entre outras, como lutas, tiro, regatas e natação (várias delas, vale destacar, também objeto dos escritos de Machado). Como previra Machado, “o contágio far-nos-ia a todos esportivos” –  talvez não exatamente com a conotação política desejada pelo literato.

Em todo caso, as práticas corporais (o futebol para Drummond, a ginástica para Manuel de Macedo e o tufe para Machado de Assis) eram “boas para pensar” a sociedade política. Isso, sem deixar de articular várias vertentes do humor – como a ironia, espirituosidade, a sátira etc. – à crítica da conjuntura de cada época.

Talvez não seja fortuito que mais de uma década antes da crônica de Machado tivesse sido publicado, em 1881, um anúncio sobre as Grandes Corridas Eleitorais no Prado do Munícipio Neutro, a primeira eleição direta após a reforma eleitoral implementada naquele ano (a conhecida e polêmica Lei Saraiva[v]). A estrutura e a lógica do campo esportivo não apenas tinham comicamente invadido o pleito, como eram usadas – para empregar um termo utilizado por Machado – como “armas” contra o sistema político:

Grandes Corridas Eleitorais no Prado do Munícipio Neutro (Gazeta da Tarde, 31/10/1881, ed. 254, p.4)

 

Mas essa história vai ficar para o próximo post.

 

[i] Esse post é fruto das conversas e pesquisas realizadas no âmbito do projeto “O corpo da nação: educando o físico, disciplinando o espírito, forjando o país: as práticas corporais institucionalizadas na sociedade da Corte (1831-1889)”, que conta com o apoio da FAPERJ e do CNPq e é coordenado por Victor Andrade de Melo.

[ii] No caso de Carlos Drummond de Andrade, o inverso também é verdadeiro: o uso do cenário político para falar dos atributos esportivos dos atletas. A crônica de Drummond (“Imagens da Vitória. Seleção de Ouro”, publicada em 20/06/1962 no Correio da Manhã, p.6) não apenas abordava o contexto político, mas talvez mais do que isso celebrava a seleção bicampeã do mundo. Contudo, o sentido crítico, ainda que possa ser considerado mais tênue, não deixa de existir na crônica.

[iii] Gazeta de Notícias, 15 de julho de 1894, n.195 (coluna A Semana), p.1. Também disponível em: http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=28393

[iv] Na crônica de 7 de agosto de 1894, por exemplo, Machado aponta a inércia (e não a indiferença, a abtenção e a descrença) para a pouca participação na eleição: “Variam os comentários. Uns querem ver nisto indiferença pública, outros descrença, outros abstenção. No que todos estão de acordo, é que é um mal, e grande mal. Não digo que não; mas há um abismo entre mim e os comentadores; é que eles dizem o mal, sem acrescentar o remédio, e eu trago um remédio, que há de curar o doente. Tudo está em acertar com a causa da moléstia”. (Gazeta de Notícias, 07 de agosto de 1892, n.219, p.1 (coluna A Semana)). Também disponível em: http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=28393

[v] Decreto nº 3.029, de 9 de janeiro de 1881.


Dois livros de ficção sobre futebol

05/07/2015

No texto anterior, discuti livros biográficos de atletas como fontes. Desta vez, abordo duas obras de ficção que tratam de futebol.

Antes de falar dos livros, porém, gostaria de contextualizar minha posição com relação ao assunto. Há muitos anos, sou um leitor ávido de obras ficcionais sobre o tema, escritas por brasileiros e estrangeiros. Contudo, na grande maioria dos casos, fico com a sensação de que não conseguem captar a magia do esporte. (Aliás, tenho a mesma impressão em relação à maioria dos filmes sobre a modalidade – sobretudo os ficcionais.) Até quando se trata de um dos meus autores preferidos, Nick Hornby, o livro sobre skate (Slam) é, em minha opinião, muito superior ao que trata de futebol (Febre de bola).

*  *  *

13582_gO primeiro título é, se não me falha a memória, o melhor romance sobre futebol que li: O drible, de Sérgio Rodrigues. O grande mérito é que não se trata de um bom livro de ficção sobre futebol, mas sim um bom livro de ficção – e ponto. Estou aplicando, para a obra, o mesmo raciocínio que aplico a boa parte dos trabalhos científicos que leio sobre esporte, principalmente sobre futebol.

É comum autores acadêmicos reclamarem de preconceito contra o tema dentro das ciências humanas. Sem dúvida, tal preconceito existe. Sem dúvida, também, hoje ele é muito mais fraco do que há, digamos, dez ou vinte anos. Persiste em áreas nas quais a pesquisa sobre o tema é recente e incipiente, como a Comunicação; ao passo que, em outras, como Antropologia e Sociologia, as pesquisas sobre esporte contam com grau maior de aceitação e legitimidade.

Contudo, a meu ver, o principal problema para a inserção das produções sobre esporte na Comunicação não reside no tema, e sim na qualidade dos trabalhos. Um exemplo: Marcio Telles ganhou o Prêmio Compós de melhor dissertação de 2014 com o trabalho “A recriação dos tempos mortos do futebol pela televisão : molduras, moldurações e figuras televisivas“. Ela não foi escolhida apesar de abordar o futebol, mas porque era excelente. Ponto. (Na verdade, não a li; mas, a julgar pelos artigos e apresentações relativos a ela que li/assisti, deve ser ótima mesmo.)

Voltando ao livro… A trama tem, digamos, três personagens principais. Um velho jornalista esportivo que vive recluso no interior fluminense, o filho do jornalista (que vive na Zona Sul carioca) e um talentoso jogador de futebol oriundo da mesma cidade do jornalista. Na verdade, são tramas e narrativas que se entremeiam, tratando de futebol, mas também de conflitos familiares barra-pesada, de relações/conflitos de classe social e gênero, da ditadura civil-militar, dos meandros do futebol e da relação dessa modalidade com o mundo dos espíritos. As histórias do personagem que trabalhou por décadas em redações evocaram-me Mario Filho, Nelson Rodrigues e Armando Nogueira, entre outros.

*  *  *

O segundo é No estilo de Jalisco, de Juan Pablo Villalobos, de quem tomei conhecimento recentemente, por dica de um dos escribas deste blogue. A recomendação inicial foi ler o espetacular Se vivêssemos em um lugar normal. Depois parti para o ótimo Fiesta en la madriguera, romance de estreia do autor, também traduzido no Brasil.
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No entanto, No estilo de Jalisco, cuja história se passa num bar, me pareceu bem menos interessante – não por se passar num bar, é óbvio. Um mexicano e um desconhecido (brasileiro) da mesa ao lado conversam, regados a muita bebida, a respeito de futebol e de reminiscências do primeiro sobre a seleção brasileira de 1970. “Conversam” talvez não seja o termo mais adequado, pois, como ocorre com frequência em bares cariocas – a ficção capta a realidade com maestria -, o sujeito manguaçado aluga quem está por perto, contando histórias e insistindo em sustentar de forma errática argumentos que pouco ou nada interessam ao ouvinte (in)voluntário. Para quem não conhece a Zona Sul da cidade: a escassez de espaço coloca as mesas  exageradamente próximas umas das outras, favorecendo as investidas dos ébrios malas solitários em busca desesperada de um interlocutor, como se o mundo fosse acabar caso um coitado não se disponha a ouvi-los. Você almoça, janta, bebe, petisca e/ou faz confidências a (às vezes, bem) menos de um metro de um estranho – ou de vários estranhos, dependendo da lotação e distribuição das mesas ao redor.

Trata-se, segundo li, do primeiro romance escrito diretamente em português pelo autor, que vive no Brasil.

*  *  *El rescate

Uma das atividades de Villalobos é traduzir para o espanhol autores brasileiros de ficção. Curiosidade: fazendo uma pesquisa para este texto, “descobri” que, entre as obras já traduzidas, está… O Drible. Saiu no México pela Anagrama, mesma editora que publica os livros de Villalobos.


Apontamentos metodológicos: biografias de atletas como fontes

23/02/2015

Por Rafael Fortes

As biografias de atletas de ponta são, creio, o principal filão editorial envolvendo o esporte. No segundo semestre do ano passado, li livros sobre Kelly Slater, Rafael Nadal e Roger Federer. Em comum, o fato de serem esportistas que admiro e estarem em atividade (e entre os melhores) em modalidades de que gosto e com as quais tenho razoável envolvimento: pesquiso e escrevo sobre surfe desde 2005 e, nos últimos três anos ou quatro, tenho visto e jogado tênis.

Neste texto, discuto alguns aspectos destas obras desde um olhar da história do esporte.

Quatro pontos para pensar

1) Trata-se de biografias publicadas há poucos anos sobre atletas relativamente jovens (independentemente da idade, jovens, capazes e motivados o suficiente para, ao final de 2014, estarem entre os três melhores na principal liga profissional de suas respectivas modalidades), em atividade e com títulos a conquistar. Ou seja, por um lado, se assemelham às biografias em geral; por outro, abordam conquistas, resultados e acontecimentos de uma carreira ainda em andamento.

2) O tênis e o surfe são comumente classificados como modalidades individuais. Uma análise histórica biografias poderia ajudar a compreender e problematizar a dicotomia esportes individuais x esportes coletivos, que vigora no senso comum do campo esportivo e costuma ser reproduzida acriticamente por nós, pesquisadores, que a tomamos como algo dado. Por exemplo: considerando que as biografias são obras sobre um indivíduo, que elementos são mobilizados para construir, descrever, explicar, narrar etc. sua trajetória (noção por si só rica, em termos de análise), bem como seus resultados, realizações etc.? É possível identificar traços comuns às biografias de atletas de modalidades individuais? E às de atletas de modalidades coletivas? Indo além: é possível perceber semelhanças e diferenças entre as características comuns, considerando tal dicotomia?

3) Quanto à autoria: quem é o autor da obra? O próprio atleta? O jornalista? Ambos? Parece-me haver três principais tipos, do ponto de vista formal:

a) Autobiografias em sentido estrito: o atleta escreve o texto (ou, ao menos, é assim que o livro é publicado: atribuindo o texto ao esportista)Nadal.

b) Autobiografias com um (co)autor (geralmente um jornalista). É o caso dos livros de Nadal e Slater: o “com” ou um “e” seguido do nome do jornalista está estampado na capa. Fico com a sensação de que, nestes casos, o autor é o jornalista e coube ao atleta dar os depoimentos e ajudá-lo com outras informações. Contudo, como as obras não apresentam autorreflexividade, é impossível saber ao certo que papeis foram desempenhados por cada um.

c) Biografias escritas por um jornalista. Neste caso, há a divisão entre “autorizadas” e “não-autorizadas”. As categorias são discutíveis (como, em parte, ficou evidente o debate travado em certos veículos de comunicação brasileiros há cerca de um ano e meio, a partir do grupo Procure Saber), mas há outros aspectos que podem ser analisados: os objetivos de quem escreve, os interesses da obra para a coletividade, a forma e o conteúdo.

O livro de Chris Bowers sobre Roger Federer abre espaço para pensar tais questões, pois é uma biografia não-autorizada. Diferentemente das outras duas, não contou com depoimentos do atleta, nem de familiares e pessoas próximas (pessoal e profissionalmente). Além disso, trata-se da segunda obra do autor sobre o tenista – inclusive mencionando que vários trechos de capítulos são reproduções da anterior.

FedererTalvez por isso pareceu-me o livro menos rico, e que mais se assemelha à cobertura jornalística tradicional sobre o esporte (relato de resultados, competições etc.). Uma hipótese é que, além de ter menos informações privilegiadas sobre o biografado, justamente por não ser autorizado, o autor tenha tido mais cuidado, de forma a evitar problemas (como um processo judicial). Já as biografias de Slater e Nadal são versões contadas/ditadas/oficiais, que provavelmente também passaram pelo crivo de  empresário, assessor de imprensa etc.

4) Outra questão diz respeito à tradução e à qualidade do texto. Nos casos das obras de/sobre Nadal e Slater, o texto final em português tem sérios problemas (como alguns dos que apontei ao tratar de outro livro). Além disso, há numerosos erros na tradução de termos específicos – como o nome de golpes e manobras. Creio que se trata de um problema crônico do mercado brasileiro, em que raras editoras investem o suficiente na qualidade da tradução e revisão, mesmo quando se trata de obras que se sabe que vão vender bastante.

Apontamentos finais

– As biografias sob a forma de livro são um importante elemento da construção de representações sobre o esporte, embora não tão poderosas quanto o jornalismo periódico e as transmissões ao vivo por televisão e rádio.

– Os livros biográficos são uma fonte pouco explorada na história do esporte no Brasil. As fontes principais continuam sendo jornais e revistas, além de crônicas, obras de literatos etc.

– Uma análise de tais obras poderia ser enriquecida pela discussão existente na História a respeito da viabilidade/possibilidade da biografia como trabalho científico. Aliás, vale a pena acompanhar este debate, por proporcionar reflexões teórico-metodológicas interessantes.

– Trata-se de fonte que permite alargar o subcampo da História do Esporte. A análise destas obras possibilita abordar novas questões, bem como lançar novas questões para temas já abordados: esportes individuais; construção de representações coletivas; identidade nacional; ídolos; popularidade de atletas e de modalidades; comercialização; produção e reprodução do próprio campo esportivo (formação dos biografados e sua trajetória até se tornarem estrelas); produção e reprodução de estereótipos sobre o esporte, tanto por proporcionar olhares peculiares sobre o âmbito profissional (que podem ser muito diferentes da visão glamourizada veiculada pelos meios de comunicação), quanto porque perdedores e aqueles que se afastam das competições (por variados motivos) raramente são objeto de cobertura midiática, quanto mais de biografia em livro.

– Pode-se também refletir sobre o caráter estético da fonte – algo que deveria acontecer em qualquer trabalho histórico, mas que raramente é feito quando se trata de fontes vinculadas ao jornalismo.

Slater– O autor também deve ser levado em consideração ao se discutir as obras. Neste texto, me referi genericamente aos autores não-atletas como “jornalistas”. Contudo, a atuação profissional deles pode ser bastante extensa, e nem sempre o jornalismo é a atividade principal. Jason Borte, coautor de Pipe Dreams, foi surfista profissional, editor de revistas de surfe, é mestre em educação e atua como professor tanto em uma escolinha de surfe quanto no ensino fundamental.

Referências bibliográficas

Biografias citadas

BOWERS, Chris. Roger Federer: Spirit of a Champion. London: John Blake, 2009.

NADAL, Rafael; CARLIN, John. Rafa: minha história. Rio de Janeiro: Sextante, 2011.

SLATER, Kelly; BORTE, Jason. A biografia de Kelly Slater: pipe dreams. São Paulo: Gaia, 2004.

Para saber mais sobre metodologia e história do esporte

MELO, Victor Andrade de. Esporte, lazer e artes plásticas: diálogos. Rio de Janeiro: Apicuri/Faperj, 2009.

MELO, Victor Andrade de; DRUMOND, Mauricio; FORTES, Rafael; SANTOS, João M. C. M. Pesquisa histórica e história do esporte. Rio de Janeiro: 7Letras/Faperj, 2013.


São Cristóvão x Alemanha

18/01/2015

por Alvaro do Cabo

O mundo da ficção futebolística é pouco conhecido e debatido pelos pesquisadores e amantes do esporte mais popular em nosso país.

Apesar de adorar literatura, sou mais um admirador do que especialista, não tenho tido muito tempo para me dedicar a leituras de romances, contos e poesias ultimamente. Neste blog temos a ilustre presença de um desbravador literário oriundo das terras paraibanas, o gigante Edônio.

Sem querer me aventurar na seara analítica do príncipe de João Pessoa, gostaria neste post de compartilhar uma indicação literária e uma divagação reflexiva.

Gozando de merecidas férias com a família, me dediquei a leitura de uma antologia de contos de ficção futebolística organizado pelos pesquisadores da área de Letras do Washington College Shawn Stein e Nícolas Campistí “Por amor a la Pelota: once cracks de la ficcíon futeboléra”.

Primeiramente gostaria de destacar a iniciativa de valorizar a literatura sobre futebol na América Latina escolhendo o idioma espanhol e o gênero de contos. Os autores selecionaram 11 contos que representam os 10 países associados da CONMEBOL, além do tradicional futebol mexicano buscando estabelecer uma conexão identitária e geopolítica através de narrativas em que a paixão pelo futebol é o grande fio condutor.

Relatos de torcedores, disputas amadoras e colegiais, a mercantilização do futebol, e até mesmo um homicídio em pleno gramado em uma partida de veteranos são alguns dos temas presentes entre os autores escolhidos.

Ademais, cada escritor respondeu a um interessante questionário que aborda desde a importância do futebol na sua juventude até a possível relação do esporte com a política, os míticos estilos de jogo o significado da realização da Copa do Mundo de 2014 para o continente.

Curiosamente, o acionamento da memória da Copa ficou presente na minha mente justamente no conto brasileiro de Sergio Sant’ana “a boca do túnel” que foi publicado pela primeira vez em 1982 e confesso que desconhecia sua existência.

O excepcional texto tem como protagonista o veterano técnico da modesta equipe carioca do São Cristóvão, que relata os acontecimentos de uma partida realizada no Maracanã contra uma grande equipe de qualidade técnica muito superior.

Paralelamente aos lances do jogo, o treinador em sua inigualável solidão existencial na boca do túnel divaga sobre a vida e as possibilidades táticas, estéticas e metafísicas do jogo de bola.

A qualidade literária é fascinante e as referências à craques como Pelé, Garrincha, Afonsinho, Sócrates, Reinaldo, Zico, etc, criam um contexto nostálgico do futebol brasileiro que se acentua com a construção mítica do próprio São Cristóvão.

Temas acadêmicos recorrentes como o futebol-espetáculo, a paixão e a ideia de comunidade clubística, a relação entre política e esporte e até a atualmente superada discussão do futebol como ópio do povo aparecem ao longo do texto.

E, no resultado final, qualquer semelhança é mera coincidência. O São Cristóvão apanhou de 7 a 1. O jovem ponta Evilásio marcou o gol de honra da equipe alvinegra. O treinador foi demitido, porém era modesto e sensível. Os moradores do tradicional bairro continuaram sua bucólica rotina: bares abertos, estudantes namorando, o comércio fervilhando em uma paisagem cinza e modorrenta.

A equipe de Figueira de Melo talvez ainda seja conhecida hoje devido ao slogan “aqui nasceu o fenômeno” em referência a breve passagem nos juniores de Ronaldo Nazário ou pelo mais tradicional bar temático de futebol de São Paulo que leva seu nome. O solitário título carioca de 1926 está perdido nas brumas da memória das antigas gerações ou nos livros de estatísticas futebolísticas.

A vida continua, mas como recuperar a honra depois de um 7 a 1. Se para o modesto São Cristóvão é muito difícil, imagina para a soberba seleção da C.B.F.

– REFERÊNCIA

STEIN, Shawn e CAMPISI, Nícolas (orgs). Por amor a la pelota:once cracks de la ficcíon futbolera. Santiago,  Editorial Cuarto Próprio: 2014.

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