Esporte, Política e Humor: o Golpe de 16 (parte 1)

27/06/2016

As relações entre esporte e política são múltiplas. O que talvez possa passar despercebido no contexto atual é que o esporte também permeia (sem perder o bom humor) a luta política.

por Fabio Peres

Desde o acirramento da crise política em 2015, incontáveis manifestações relacionaram política e esporte. Faixas – pró e contra o impeachment – foram exibidas em jogos de futebol. Torcidas procuraram se organizar em torno da luta contra o golpe. Proliferaram-se memes fazendo referência ao mundo do esporte. Torcedores invadiram campos e treinos de times de futebol. Camisas da seleção (ou da CBF como alguns discursos procuram sublinhar) [i], não apenas foram utilizadas em manifestações, como também foram personalizadas com dizeres “Fora Dilma” ou “Fora PT”.  Houve até mesmo torcida homenageando juiz.

O clássico fla X flu, aliás, ganhou corpo em diversas análises como metáfora da polarização política. O que chama atenção nesse caso é a força simbólica que a disputa carioca ainda possui no imaginário social. Não se tem conhecimento, pelo menos com a mesma eficiência semântica, de uso de outras contendas para ilustrar tal conjuntura (não se falou no Derby Paulista e muito menos em Barcelona X Real Madrid).

Política e esporte definitivamente estavam imbricados em todas essas ocasiões.

O que pode parecer inusitado é que – apesar da seriedade da crise (ou justamente por conta disso) – também houve uma profusão de referências, cujo traço comum era o humor.

Com o início do processo de impeachment, jornalistas, artistas e coletivos sociais utilizaram de forma bem-humorada as práticas esportivas para explicitar e questionar o momento político que estamos atravessando.

Na Folha de S. Paulo, por exemplo, Gregório Duvivier (na crônica Festa Estranha com Gente Esquisita, 21/12/2015) colocou em xeque – utilizando para isso modalidades esportivas – a representatividade do Congresso Nacional, a premissa de que o poder legislativo reflete a sociedade brasileira:

Se tem alguém que não está presente no Congresso nacional (além dos deputados que, de modo geral, preferem trabalhar de casa) é o povo brasileiro. As mulheres são quase 52% da população. No entanto, você consegue encontrar mais mulheres jogando rúgbi do que na Câmara dos Deputados. O povo brasileiro se declara, em sua maioria, negro ou pardo (53%). O Senado brasileiro tem menos negros que o Senado da Suécia (não é uma expressão, é um fato). Quanto aos jovens, melhor procurar num jogo de bocha. Jovens com até 34 anos são 39% do eleitorado e 10% do Congresso (grifos nossos).

 

A reflexão continua acentuando ironicamente o perfil elitista do Congresso em contraponto ao da população:

Muito se fala sobre a tal festa da democracia. Que festa estranha com gente esquisita. Eu não tô legal. O Congresso brasileiro parece o salão de jogos do Country Club: uma versão mais masculina, mais branca, mais hétero, mais velha e mais empresária do Brasil. Mas por quê? Será que o brasileiro só confia em homem branco hétero velho empresário? Uma rápida pesquisa revela que eleger um deputado custa, em média, R$ 6 milhões. Uma rápida pesquisa revela que quem tem R$ 6 milhões no Brasil é homem branco hétero velho empresário. O Congresso brasileiro não é a cara do Brasil. Ele é a cara da elite do Brasil. Não é o povo brasileiro que é conservador. É o dinheiro brasileiro que é conservador. Pense no lado bom: talvez o Brasil não seja um país intrinsecamente corrupto ou reacionário. Ou talvez seja. Isso a gente ainda não sabe. Pra isso seria preciso uma coisa inédita: democracia. Por enquanto, pra participar da festa, só com pulseirinha VIP de R$ 6 milhões (mas relaxa que tem consumação).

 

No dia 03 de abril, Juca Kfouri, por sua vez, abriu sua crônica com a seguinte questão: “Nestes dias uma questão paira sobre o Brasil: impeachment de Dilma Rousseff é golpe ou não é golpe?” (Folha de S. Paulo, 03/04/2016).  O futebol é usado para responder de maneira cômica a questão (o artigo completo pode ser encontrado aqui). Rico em figuras de linguagem, o texto conclui:

Só não esqueça que a vitória roubada não é legítima, que sem respeito às regras não tem jogo. E que uma expulsão ilegal, nestas alturas do campeonato, pode virar um tremendo quebra­pau no estádio, pode virar tragédia. Se você acha que vale arriscar só para ver o rival derrotado, lamento dizer que não estamos no mesmo time.

 

Com narração do próprio Juca Kfouri, a crônica foi dramatizada em vídeo pelo coletivo[ii] Um à Esquerda:

 

O coletivo voltaria a usar esse mesmo recurso, também com narração de Juca Kfouri, para falar de possíveis perdas dos direitos trabalhistas – naquela época, num eventual governo interino Temer. O vídeo faz uma analogia entre 7 projetos de lei que buscam “flexibilizar” a CLT e os 7 gols que a seleção brasileira tomou contra a Alemanha na Copa do Mundo de 2014.

 

 

O gol de honra do “Brasil” só apareceria em outro vídeo, quando o ministro do STF Teori Zavascki determinou o afastamento de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) do mandato de deputado federal e, consequentemente, da presidência da Casa, em 05/05/2016.

 

 

Mas mesmo antes da infame votação no dia 17 de abril, quando ainda não se tinha certeza se o impeachment passaria na Câmara, o colunista Celso Rocha de Barros da Folha de S. Paulo alertava para os riscos de dá-lo como certo, ainda que bastante provável. De maneira espirituosa, a coluna O Cenário Deivid (04/04/2016) lembrava do insólito gol perdido pelo jogador do Flamengo, na disputa da Taça Guanabara de 2012, contra o Vasco (veja o lance no vídeo abaixo). Embora o “sim” já aparecesse com franca maioria nas análises divulgadas por parte da mídia, recomendava-se um pouco cautela:

Enfim, o gol está aberto para a oposição. Mas gol aberto é hora de lembrar de Deivid, ótimo centroavante que jogou nos maiores times do Brasil e na seleção. Dentro de uma carreira cheia de títulos e artilharias, o gol perdido por Deivid na semifinal da Taça Guanabara de 2012 é só um episódio pitoresco. Mas ninguém esquece: a poucos centímetros da linha do gol, sem goleiro, Deivid chutou na trave. Como seria um momento Deivid da turma que quer derrubar Dilma?

 

 

Fazendo uso de outras referências ao futebol, o colunista chama atenção para o papel cada vez mais decisivo que o chamado baixo clero possuiria na votação na Câmara, o que ainda conferia uma pequeníssima dose de imprevisibilidade à disputa pelos votos (tanto para o “sim” como para “não”, tanto para direita como para a direita) de “partidos que são pouco mais que máquinas de extração de rendas (o PMDB incluso)”:

Um governo Temer continua muito provável […] Mas é bom lembrar que, embora a zaga petista tenha se distraído do jogo olhando aquela grama toda tão apetitosa, o atacante adversário está sob cerrada marcação da natureza. Agora olhem para todos esses cenários com PMDB e PP e me expliquem de novo por que valeu a pena começar a guerra do impeachment.

 

Com humor mais escrachado, artistas criaram o projeto Supletivão, no qual o golpe é explicado através de aulas de disciplinas diversas: lógica, português, história e educação física. Nessa última, o ciclismo (em suas diversas modalidades) é usado para explicitar as intempéries, para não dizer, bizarrices político-jurídicas de uma democracia em risco:

 

 

Após a votação no Senado, aprovando a abertura de processo de impeachment, Gregório Duvivier voltou a fazer analogias entre esporte e política.  Em Faltou combinar com os russos (Folha de S. Paulo, 16/05/2016), o colunista lembra da folclórica conversa entre Garrinha e o técnico Feola, na Copa de 1958, para retratar a ingenuidade, as ambiguidades e mesmo contradições daqueles que apoiaram o impeachment, alguns provavelmente neófitos na participação política (e talvez no futebol):

Reza a lenda que na Copa de 58, o técnico Feola bolou um esquema infalível contra a seleção soviética: Nilton Santos lançaria a bola pela esquerda para Garrincha, que driblaria três russos e cruzaria para Mazzola marcar de cabeça. Garrincha ouviu o professor atentamente: “Tá legal, seu Feola, mas o senhor combinou com os russos?”. “Primeiro a gente tira a Dilma”, dizia o pessoal do impeachment. “Depois a gente derruba o Temer. Aí a gente prende o Cunha. Quando ele cair, a gente cassa o Renan. Daí pronto: eleições gerais.” O plano era infalível. Só esqueceram de combinar com os russos. No poder, o presidente interino (não pronunciarei mais seu nome) já mostrou que não tem a menor intenção de renunciar –apesar de ter assinado as mesmas pedaladas que derrubaram Dilma. Parabéns a todos os que produziram o efeito dominó mais curto do mundo: parou na primeira peça.

 

Já com o governo interino em curso, talvez o cenário se afastasse bastante daquele imaginado pelas pessoas que, 5 dias antes, comemoraram o afastamento da presidente:

Os russos roubaram a bola antes dela chegar ao ataque e fizeram sete gols. O secretario de segurança genocida foi premiado com a Justiça. A Educação ficou com o PFL (me recuso a chamar de Democratas) –partido que foi contra o ProUni, o Fies, os royalties para educação. A Cultura foi pro mesmo lugar que a democracia: debaixo da terra. Ou do PFL. O que é pior. Serra no Exterior –um sujeito que não tem sequer um amigo vai cuidar da diplomacia. Mudaram a CGU –e junto com ela a torneira da Lava Jato. Achei que aqueles que eram contra a corrupção iriam às ruas contra o primeiro presidente brasileiro que já assume com a ficha suja. Não foram. Achei que fossem contra a indicação de ministros citados na Lava Jato. Tampouco foram. O pato da Fiesp acordou rouco. As panelas voltaram à cozinha. Durante o discurso do vampiro embalsamado que nos governa, tudo o que se ouvia era um silêncio ensurdecedor. Cheguei a ouvir: “ao menos esse presidente fala bem o português”. A vontade é enorme de gostar do mordomo interino. Pode roubar, matar, e esconder cadáver, mas pelo menos não erra o plural.

 

O autor de maneira provocativa e irreverente conclui:

Não se esqueçam do Carlos Lacerda, que fez o que pôde pro governo de Jango cair. Quando o golpe chegou, teve os direitos políticos cassados. Tentou reclamar –era tarde demais. “Mas não era isso que você queria?”, poderiam argumentar os militares. O golpe chegou. Vale lembrar de Lacerda. Quem pediu o golpe não estará imune a ele. É o momento de deixar claro que não era isso que vocês queriam. Com esse silêncio todo, fica parecendo que era.

 

Assim como no caso de outros literatos – como Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade e Joaquim Manuel de Macedo (comentados anteriormente aqui no blog) –  jornalistas, artistas e coletivos sociais “deslocaram” os sentidos habituais do esporte para provocar riso, wit  ou ironia (a despeito da distinções conceituais entre cada um deles)[iii].

Sem dúvida, devemos considerar o caráter relativo do humor, mas não é recomendado abrir mão do “contextualismo linguístico” de produção das narrativas.

De todo modo, o esporte parece cumprir com eficácia o requisito de “familiaridade com os códigos e as normas que ditam a (de)codificação da mensagem humorística” (ERMIDA, 2002, p.76).

Ora mais, ora menos irônica, ora mais, ora menos sútil, as práticas esportivas em todos esses casos foram mobilizadas com sensibilidade cômica para refletir sobre a crise (vale ressaltar multiplamente adjetivada; o que evidencia ainda mais a sua gravidade). Mais do que isso, o esporte também é usado para “demarcar campo”, para se posicionar na disputa política.

Em outras palavras, as práticas esportivas parecem, não apenas ser “boas para pensar” o mundo político, mas – como causa ou consequência disso – parecem também ser “boas para agir” – com bom humor – na vida social e política.

Alguns cartunistas parecem concordar com essa ideia. Articulando referências e linguagens múltiplas (fotografia, música, esporte, entre outras), Aroeira por exemplo desenhou o Impávido que Nem Muhammad Ali:

o Impávido que Nem Muhammad Ali (Aroeira, 06/06/2016)

 

A homenagem sugere um eco que de alguma forma repercuti no contexto político atual:

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos

Surpreenderá a todos não por ser exótico

Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto

Quando terá sido o óbvio

(Um índio, Caetano Veloso. A música pode ser escutada aqui)

 

Mas essa história vai ficar para o próximo post.

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[i] Vale notar que a expressão “camisa da CBF” tem sido utilizada para denotar e sublinhar o tom crítico a tais manifestações.

[ii] Estamos usando a denominação utilizada por Juca Kfouri.

[iii] Maiores informações ver: ERMIDA, Isabel Cristina da Costa Alves. Humor, Linguagem e Narrativa: para uma Análise do Discurso Literário Humorístico. Tese (Doutorado em Ciências da Linguagem). Universidade do Minho, Braga, 2002.


Esporte, Política e humor: as eleições no Rio de Janeiro do século XIX

20/09/2015

As eleições sempre despertaram a atenção de importantes literatos e intelectuais. O que parece inusitado é o uso irônico do esporte para apontar os limites da cidadania e da participação política nos pleitos do século XIX.

por Fabio Peres[i]

Há quase dois anos, publiquei um post no qual comentava a presença de determinadas práticas corporais na obra de dois literatos. Naquela ocasião, um dos argumentos era que, mesmo distantes por um pouco mais de um século, Carlos Drummod de Andrade e Joaquim Manuel de Macedo estabeleceram analogias entre aspectos da performance atlética e os cenários políticos em que estavam inseridos[ii].  Os usos dessas práticas, por assim dizer, “fora de lugar” (na política, no caso) funcionavam como recurso de humor; que pelo contraste ou incongruência jogava uma nova luz sobre a vida social.

No século XIX, na verdade, esse tipo de “apropriação” do esporte ou de outras práticas corporais era mais comum do que a princípio poderíamos imaginar.

Em 1894, por exemplo, Machado de Assis demonstrava certa preocupação com as eleições à presidência do estado do Rio de Janeiro[iii]. A abstenção, no olhar do cronista, era talvez o maior inimigo do pleito. No entanto, não bastaria apenas a exortação para convencer o eleitorado a comparecer às urnas, a se interessar pelo direito de eleger seus representantes. Seria necessário um estímulo a fim de reverter a indiferença. A ideia era simples: dar às eleições um aspecto acentuadamente esportivo (Gazeta de Notícias, 15 de julho de 1894, p.1).

A reforma eleitoral proposta por Machado – sem dúvida com tom irônico – partira de um comentário publicado no Jornal do Comércio sobre a “população esportiva” no munícipio. O literato reagiu com surpresa e autocrítica burlesca:

A princípio não pude raciocinar. A certeza de que dois terços da nossa população é esportiva, deixou-me assombrado e estúpido. Voltando a mim, fiquei humilhado. Pois quê! dois terços da população é esportiva, e eu não sou esportivo! Mas que sou então neste mundo? (op. cit.)

 

Não era a primeira vez que Machado expressava tal preocupação. Na verdade, a inquietação do autor/personagem sobre a participação eleitoral, que “não se deixa persuadir com palavras nem raciocínios”, era um assunto recorrente. Ainda que o escritor apontasse distintas causas e soluções ao longo do tempo para tal “moléstia”[iv], o estilo jocoso estava sempre presente. Em 1892, por exemplo, chamava atenção:

Toda esta semana foi empregada em comentar a eleição de domingo. É sabido que o eleitorado ficou em casa. Uma pequena minoria é que se deu ao trabalho de enfiar as calças, pegar do título e da cédula e caminhar para as urnas. Muitas seções não viram mesários, nem eleitores, outras, esperando cem, duzentos, trezentos eleitores, contentaram-se com sete, dez, até quinze. Uma delas, uma escola pública, fez melhor, tirou a urna que a autoridade lhe mandara, e pôs este letreiro na porta: “A urna da 8ª seção está na padaria dos Srs. Alves Lopes & Teixeira, à rua de S. Salvador n…”. Alguns eleitores ainda foram à padaria; acharam a urna, mas não viram mesários. Melhor que isso sucedeu na eleição anterior, em que a urna da mesma escola nem chegou a ser transferida à padaria, foi simplesmente posta na rua, com o papel, tinta e penas. Como pequeno sintoma de anarquia, é valioso GN, 07/08/1892, p.1).

 

Já em 1894, as cores esportivas da reforma consistiam basicamente em trazer a emoção das competições para a disputa eleitoral. Para isso, parâmetros esportivos (em especial, do turfe) deveriam ser adicionados ao pleito a fim de atrair a população, o que incluiria dar alcunhas aos candidatos (assim como no caso dos cavalos), além de institucionalizar as apostas no certame eleitoral:

Em vez de esperar que o desejo de escolher representantes leve o eleitor às urnas, devemos suprir a ausência ou a frouxidão desse impulso pela atração das próprias urnas eleitorais. A lei deve ordenar que os candidatos sejam objeto de apostas, ou com os próprios nomes, ou (para ajudar a inércia dos espíritos) com outros nomes convencionais, um por pessoa, e curto. Não entro no modo prático da ideia; cabe ao legislador, achá-lo e decretá-lo. A abstenção ficará vencida […] (GN, 15/07/1894, p.1).

Em certo sentido, parte da crítica de Machado se dirige à própria população e aos cidadãos que se envolvem com os eventos esportivos, mas que se interessam pouco com as eleições (uma hipótese que merece ser melhor investigada). Contudo, tal crítica é matizada por uma conjuntura que afastava o eleitor das urnas. A participação política, não apenas era minada por um conjunto de instituições sociais frágeis (que deveriam favorecer e zelar por ela), como a própria concepção dominante de cidadania na época, ajudava a institucionalizar a exclusão e a reprodução de relações desiguais de poder.

De fato, a “esportividade” das eleições naquele cenário poderia ter vários desdobramentos para combater as abstenções. Um deles relacionado à própria ambiência política, que era marcada por violência, corrupção, intimidação, desorganização etc. Não por acaso, o literato chama a atenção para certos constrangimentos que cercavam a participação eleitoral: “Não sei quem seja aqui César nem Pompeu. Contento-me em que não haja morte de homem, nem outra arma além da cédula” (GN, 15/07/1894, p.1). De certa maneira, a reforma eleitoral poderia ajudar na construção de uma paisagem política em que “O vencido perde o lugar, mas não perde as costelas” (op. cit.).

Outro benefício seria o aumento de naturalizações, impulsionado pelo clima competitivo das eleições: “A lei deve até facilitar a operação [de se naturalizar], ordenando que o simples talão da aposta sirva de título de nacionalidade” (p.1). Mas caso a reforma eleitoral, por si só, não tivesse êxito em combater a abstenção, as mulheres não poderiam deixar de ter acesso ao sufrágio:

Se a ideia não der o que espero, recorramos então ao exemplo da Nova Zelândia, onde por uma lei recente as mulheres são eleitoras. […] Elevemos a mulher ao eleitorado; é mais discreta que o homem, mais zelosa, mais desinteressada. Em vez de a conservarmos nessa injusta minoridade, convidemo-la a colaborar com o homem na oficina da política. Que perigo pode vir daí? Que as mulheres, uma vez empossadas das urnas, conquistem as câmaras e elejam-se entre si, com exclusão dos homens? Melhor. Elas farão leis brandas e amáveis. As discussões serão pacíficas. Certos usos de mau gosto desaparecerão dos debates (op. cit.).

Ainda que a ironia torne um pouco mais complexa a interpretação sobre as questões de gênero,  devemos ter em vista a preocupação central do autor: fazer com que toda a população participe mais da vida política, ou melhor, que a “população inteira fique esportiva” (op. cit.).

A despeito disso e embora a proposta não passasse de uma brincadeira – uma forma espirituosa de abordar os dilemas de uma cidadania ainda incerta na república recém-formada – a narrativa permite entrever, já naquele momento, a forte presença social do fenômeno esportivo na cidade.

De fato, no final do século XIX uma série de práticas esportivas faziam parte da paisagem fluminense. Não se tratava apenas do turfe – modalidade citada na crônica -, mas também das corridas à pé, de bicicletas, dos jogos de pelota, entre outras, como lutas, tiro, regatas e natação (várias delas, vale destacar, também objeto dos escritos de Machado). Como previra Machado, “o contágio far-nos-ia a todos esportivos” –  talvez não exatamente com a conotação política desejada pelo literato.

Em todo caso, as práticas corporais (o futebol para Drummond, a ginástica para Manuel de Macedo e o tufe para Machado de Assis) eram “boas para pensar” a sociedade política. Isso, sem deixar de articular várias vertentes do humor – como a ironia, espirituosidade, a sátira etc. – à crítica da conjuntura de cada época.

Talvez não seja fortuito que mais de uma década antes da crônica de Machado tivesse sido publicado, em 1881, um anúncio sobre as Grandes Corridas Eleitorais no Prado do Munícipio Neutro, a primeira eleição direta após a reforma eleitoral implementada naquele ano (a conhecida e polêmica Lei Saraiva[v]). A estrutura e a lógica do campo esportivo não apenas tinham comicamente invadido o pleito, como eram usadas – para empregar um termo utilizado por Machado – como “armas” contra o sistema político:

Grandes Corridas Eleitorais no Prado do Munícipio Neutro (Gazeta da Tarde, 31/10/1881, ed. 254, p.4)

 

Mas essa história vai ficar para o próximo post.

 

[i] Esse post é fruto das conversas e pesquisas realizadas no âmbito do projeto “O corpo da nação: educando o físico, disciplinando o espírito, forjando o país: as práticas corporais institucionalizadas na sociedade da Corte (1831-1889)”, que conta com o apoio da FAPERJ e do CNPq e é coordenado por Victor Andrade de Melo.

[ii] No caso de Carlos Drummond de Andrade, o inverso também é verdadeiro: o uso do cenário político para falar dos atributos esportivos dos atletas. A crônica de Drummond (“Imagens da Vitória. Seleção de Ouro”, publicada em 20/06/1962 no Correio da Manhã, p.6) não apenas abordava o contexto político, mas talvez mais do que isso celebrava a seleção bicampeã do mundo. Contudo, o sentido crítico, ainda que possa ser considerado mais tênue, não deixa de existir na crônica.

[iii] Gazeta de Notícias, 15 de julho de 1894, n.195 (coluna A Semana), p.1. Também disponível em: http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=28393

[iv] Na crônica de 7 de agosto de 1894, por exemplo, Machado aponta a inércia (e não a indiferença, a abtenção e a descrença) para a pouca participação na eleição: “Variam os comentários. Uns querem ver nisto indiferença pública, outros descrença, outros abstenção. No que todos estão de acordo, é que é um mal, e grande mal. Não digo que não; mas há um abismo entre mim e os comentadores; é que eles dizem o mal, sem acrescentar o remédio, e eu trago um remédio, que há de curar o doente. Tudo está em acertar com a causa da moléstia”. (Gazeta de Notícias, 07 de agosto de 1892, n.219, p.1 (coluna A Semana)). Também disponível em: http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=28393

[v] Decreto nº 3.029, de 9 de janeiro de 1881.


Para matar o tempo: uma “academie” voltada para os divertimentos no Rio de Janeiro do século XIX

29/12/2014

por Fabio Peres[i]

A história é curiosa. Nos meses finais de 1857 foi encontrado durante um passeio ao Corcovado o estatuto de uma nova associação inaugurada na Corte: a Academie pour tuer le temps (em tradução livre, Academia para matar o tempo).

Tudo levava a crer que no local da descoberta foi realizada uma sessão magna, uma ocasião solene e festiva de criação da “nobilíssima” academia (nomeada, vale destacar, com o adjetivo “nacional”). Não era para menos, o “curioso manuscrito” se encontrava em meio a garrafas quebradas e escritos variados, entre romances e programas ministeriais, dentro de um chapéu da mais fina qualidade.

O narrador da história, que assina como Dr. Soledade na seção Comunicado do Correio Mercantil (23/11/1857, p.2), descreve na integra os estatutos da inusitada associação fundada na capital do Império. Ficamos sabendo, logo no primeiro artigo, que o “utilíssimo e agradabilíssimo” propósito da Academie é “passar a vida suave e naturalmente”.

Os artigos seguintes não são menos reveladores do ethos que animava a instituição.

Além do número de “ilustres” sócios ser ilimitado (art. 2º), não havia presidente nem secretários, a sua “mesa é a mesa dos banquetes, do jogo, das irmandades, da costureira, e a mesa-redonda” (art. 3º). Seus membros eram de todo tipo; honorários, efetivos, transitórios, aspirantes e jubilados (art. 5º) que – pela “honra e glória da academia” – nunca perderiam “festa alguma, como sejam paradas, fogos de artifício, presepes, romarias e festas pontifical, ficando sempre à porta da igreja para não ouvirem sermão” (art. 17º).

As sessões magnas deveriam ser constituídas por discursos que versassem somente sobre “dançarinas, moda, passeios, cantoras, bailes, visitas, jantares, tratamentos oficiais, genealogias, brasões, equipagens, caçadas, jogos de prendas, charadas, pescarias, preços de fazendas e força muscular” (art. 15º). Todos os sócios, aliás, deveriam “tomar um ar de importância catedrática em todas essas questões” (art. 20º)

As reuniões ordinárias, por sua vez, demonstram uma relação particular com a cidade, podendo ser realizadas em “todas as partidas e bailes, nas galerias das câmaras e do júri, na rua do Ouvidor, da Quitanda  e botequins, nos teatros, nos circos, no Jardim Botânico, no Passeio Público, nas festas de grandes cantarolas, no cais Pharoux, nas barcas de vapor, em S. Domingos, no Catete, Paquetá, Penha, no hipódromo, nas praias onde houver regata, nos fogos de artifício, nas boticas velhas, nos armarinhos novos e no templo da Petalógica[ii]” (art.4º).

Notável entusiasmo era compensado com a proibição aos sócios e sócias de se levantarem antes das 10 horas da manhã e deitarem antes das 2 horas da madrugada, sendo reconhecidos com o título de benemérito aqueles que “fizerem duas sestas por dia e comerem dois jantares” (art. 16º).

Havia, por outro lado, uma preocupação com a formação intelectual dos sócios. Com o objetivo de que “não degenerem pela ignorância” era recomendada a leitura “exclusiva de certos livros e jornais” (art. 9º), mas eram expressamente proibidas outras obras como a bíblia sagrada, as de Bossuet, as dos santos padres, entre outras.

Por certo, a história toda não passava de burla. Contudo, a narrativa apresenta indícios de ser bem mais séria do que parece. A ironia atroz por trás de uma suposta Academie na sede do Império aponta para os intrincados dilemas de uma nação, cujos caminhos, na visão do autor, eram incertos e tortuosos.

O próprio nome da instituição em francês – Academie pour tuer le temps – não é fortuito. O Dr. Soledade, ao que parece fazendo um trocadilho (com aves, marionetes e o prefixo franc-), levanta a hipótese da associação ser “obra de alguns francolins ou francatripas[iii], notáveis pelo seu aspecto fisionómico, trajo e evoluções singularíssimas”.

O deboche aos estrangeirismos em terras nacionais pode ser observado na premiação aos sócios, prevista no artigo 10, que empregarem em seus discursos palavras estrangeiras: “O francês servirá para tudo que não for maquinas e caminhos de ferro; o espanhol para provérbios e exagerações e o italiano exclusivamente para a música. Em matérias sentimentais e gastronômicas é permitida a língua da Torre de Babel” (23/11/1857, p.2).

No caso da política, haveria certas restrições, embora também fosse estimulado o uso de vocábulos estranhos ao português: “Os sócios que se ocuparem de política pessoal, única permitida por ser a mais geral, usarão de termos ingleses, porque o francês, o alemão, o russo, o italiano, lazarônico, o turco, o árabe, o indostânico, o tártaro, o chim e o paraguaio têm seus inconvenientes na atualidade” (art. 11º, grifos do autor).

Já na literatura encorajava-se a leitura de romances modernos, sobretudo, do novelista francês Paul de Kock (1793-1871)[iv], de poemas épicos e didáticos, dos folhetins, de todas as comédias do teatro francês (principalmente as que ridicularizavam os maridos), entre outros (art. 9º). Aliás, os estrangeiros gozariam das mesmas regalias que os sócios brasileiros.

Vejamos que na semana anterior o Dr. Soledade já alertara seu sobrinho sobre algumas de suas preocupações[v]:

O que convém já e já é combater ideias com ideias, é preparar os ânimos para uma reorganização social pelo exemplo e pelos meios de uma educação que faça do menino um cidadão em vez de um brilhante papagaio. Estimaria hoje muito mais se tivessem-me ensinado bem a minha língua do que o fizeram obrigando-me a perder tempo em traduzir outras e a ficar uma espécie de Babel, como outros muitos que por aí andam recolhendo palavras e compondo a mais ridícula algaravia que se conhece. […] Tudo está falsificado entre nós, e tudo vai se falsificando (Correio Mercantil, 16/11/1857, p.1-2, grifos nossos).

 

Tais inquietudes não se limitavam à formação intelectual, mas também à própria corporeidade que, entre outras coisas, perdia os elementos de uma suposta identidade – ou melhor, “natureza” – nacional (informada, sem dúvida, por um viés de gênero):

A beleza americana, a gentil morena, a filha do sol, a virgem que tem seu rosto e porte os atrativos da idade das flores, empasta as faces de arrebiques, faz do seu rosto um rosto de mármore à força do pó de arroz e outros místicos, para que se não conheça quando enrubesce ou empalidece! Para que servem essas faces caiadas que à luz do gás, no teatro lírico, se parecem com cara de gesso?!  O que denota isto senão que a mulher, a melhor coisa entre nós, já não é aquela boa mãe de família, mas uma cômica arrebicada, e suas filhas bonecas da rua do Ouvidor, que só servem para estadear por cima do horrível balão os tecidos da moda, dessa soberana vertiginosa de todos os espíritos fúteis? A arte dos tempos corrompidos não repara os estragos da natureza (Correio Mercantil, 16/11/1857, p. 2, grifos nossos).

Sobre os homens sua análise não é menos lancinante:

Tu não vês todos os rapazes do meu tempo, e aqueles que achei no mundo varões formados, funcionários públicos, como estão com o cabelo tão pretinho? Quanto nitrato de parta e quantas dores de cabeça não andam por aí! Com que fim escondem eles as cãs honrosas, a coroa respeitosa da velhice, para se confundirem com rapazes, que deles com razão tanto escarnecem? Talvez tenham razão. Quem não passou da juventude não é digno de ostentar os sinais da venerada velhice; é um perfeito e ridículo anacronismo ver a idade do conselho privada da experiência; mas há de ser muito dura essa vida contrafeita, esse pelejar contínuo contra a ordem natural contra as modificações fisiológicas da idade […] (Correio Mercantil, 16/11/1857, p. 2, grifos nossos).

As transformações pelas quais passavam a sociedade brasileira e, em especial, a fluminense eram vistas com desconfiança; evidências de um declínio moral e político articuladas a certos modismos, luxos e frivolidades:

Todo os fatos do sibaritismo, todas as reduções do epicurismo, representadas no pote de banha todo dourado, na latinha de conservas, na caixa de papelão, no almanak das modas, nas águas cheirosas, nos arrebiques da rua do Ouvidor, têm um grande atrativo para nós; a modista e o cabelereiro andam de sege e fazem fortunas colossais!… Tudo que não é trabalho intelectual prospera: o pensamento ainda não se legalizou na tarifa social, ainda vive como em contrabando. Onde está o espírito militar da nossa mocidade? Onde está o espírito público da outra juventude? O seu entusiasmo é para as cômicas e cantoras […]  (Correio Mercantil, 16/11/1857, p. 2, grifos nossos).

E alerta:

Escuta: Temos na nossa terra um grupo de que se quer arrogar o privilégio dos Brâmanes e constituir-se uma carta particular e sagrada! Olha que este grupo está estragando o teu país com uma espécie de oligarquia sem se lembrar que o Brasil é um dos países mais felizes do mundo, porque ainda não conhece o que é nobreza e clero […].

À luz desses comentários, a leitura dos estatutos da excêntrica Academie ganha novos contornos e um colorido especial. Contrastes e incongruências das sociedades política, intelectual, artística e econômica –  responsáveis em parte pelo futuro da nação – são objeto de sátira e ironia, muitas vezes de forma espirituosa, porém mordaz. Por exemplo, sobre a composição dos sócios – em contraste (nem tanto assim) à outra academia, que também se fundou na Corte – o Dr. Soledade comenta:

Pelas notas que encontrei à margem e por um discurso apenso aos tais estatutos, vim ao conhecimento de que esta sociedade está em guerra com outra intitulada Il dolce far niente, o que me não maravilha, pois é sempre motivo de rivalidades a concorrência ao mesmo fim. A primeira academia é composta de quase todos os candidatos à diplomacia; de bancarroteiros que quebraram para mais se consolidarem, homens que fizeram ponto na bolsa alheia; de alguns tesoureiros demitidos, processados e absolvidos; de antigos protetores da agricultura africana; de testamenteiros fidelíssimos: de cantores desafinados por darem notas falsas; de agentes de subscrições filantrópicas; de postulantes a empregos, e de alguns fumistas que evaporam 24 charutos por dia. […] A outra academia, que parece pender mais para as ideias transmontanas, é composta de gente jubilada e provecta; tem uma boa parte do nosso corpo diplomático; tem até ministros de estado, generais formados e reformados, todos os deputados e senadores que sairão Cíceros e Demostenes num parlamento de mudos; tem altos conselheiros e todos os nossos grandes estadistas que publicarão obras no ano de 2857!! Pelos estatutos verá claramente os seus fins e o quanto a nossa pátria e o futuro têm que esperar dela. O nosso governo deveria olhar seriamente para uma associação que tanto auxilia no fiat voluntas tua (Correio Mercantil, 23/11/1857, p. 2, grifos do autor).

 

Nota-se, aliás, que a associação concorrente Il Dolce Far Niente, segundo o autor, foi fundada por uma “comissão composta por dois cônegos, dois frades e alguns empregados em comissões literárias, um dos quais é membro do Instituto Histórico”.

Ninguém fica de fora: Estado, mercado, artistas, jornalistas, intelectuais e mesmo clubes são objetos de uma crítica ferrenha.  A composição social da Academie é inclusive regulamentada nos artigos 6º e 7º de acordo com as características hierárquicas valorizadas pela associação, entre as quais figura a participação nos divertimentos oferecidos na sociedade fluminense:

Art. 6º. Só poderão ser membros honorários os empregados aposentados com menos de 40 anos de idade e em prefeita saúde; membros efetivos todos os consumidores de heranças ou pensionistas de viúvas abastadas; membros transitórios todos os fazendeiros que vêm passar o inverno na corte, os deputados de voto certo, os provincianos requerentes e em expectativa, os que esperam solução de grandes empresas, os candidatos às mitras, os diplomatas com licença, e todos os requerem graças por serviços impessoais ou esperam pagamento do tesouro. Art. 7º. Os membros jubilados deverão provar que têm mais 12:000$000 de renda anual em apólices, ações bancais ou aluguéis de prédios e que estes são cobrados por seus procuradores; deverão jurar perpétuo celibato e a obrigação de viajar de tempo e tempo pelas hospedarias do velho mundo. Além destes requisitos deverão ser sócios de todos os clubes e círculos, assinantes de todos os teatros, cassinos, hipódromos, regatas, noites fluminenses e de todos os beliquetes (grifos do autor).

De modo geral, todas as críticas têm um eixo central: a preocupação com os rumos e as incongruências de uma nação recém-independente. Na verdade, o autor não parece ser contra os divertimentos em si, mas contra um tipo social que se estava conformando na sociedade imperial, que insistia – para utilizar os termos de Schwarz (2001, p.74)[vi] – em “adorar, citar, macaquear, saquear, adaptar ou devorar estas maneiras e modas todas, de modo que refletissem, na sua falha, a espécie de torcicolo cultural em que nos reconhecemos”.  Em todo caso, a vida social carioca na metade do século XIX parecia ser bastante divertida, embora muito mais séria do que se imaginava.

 

[i] Esse post é fruto das conversas e pesquisas realizadas no âmbito do projeto “O corpo da nação: educando o físico, disciplinando o espírito, forjando o país: as práticas corporais institucionalizadas na sociedade da Corte (1831-1889)”, que conta com o apoio da FAPERJ e do CNPq e é coordenado por Victor Andrade de Melo.

[ii] Informações sobre a Sociedade Petalógica, que supostamente o autor faz referência, podem ser encontradas no post de Mires Batista Bender (29/08/2014), disponível em: http://sapereaudelivros.blogspot.com.br/2014/08/voce-sabe-sociedade-petalogica.html) e na crônica de 11/09/1864 de Machado de Assis da série Ao Acaso (Crônicas da Semana), disponível em  http://machado.mec.gov.br/images/stories/html/cronica/macr04.htm. De acordo com Machado “A sociedade Petalógica, como é sabido, teve nascimento na antiga casa do finado e sempre chorado Paula Brito. Quando a sociedade nasceu já estava feita; não se mudou nada ao que havia, porque os membros de então eram aqueles que já se reuniam diariamente na casa do finado editor e jornalista. Cuidavam muitos que; por ser petalógica, a sociedade nada podia empreender ­que fosse sério; mas enganaram-se; a Petalógica tinha sempre dois semblantes; um jovial, para as práticas íntimas e familiares; outro sisudo, para os casos que demandassem gravidade. Todos a vimos, pois, sempre à frente das manifestações públicas nos dias santos, da história brasileira. Ainda neste ano a velha associação (honni soit qui mal y pense!) mostrou-se animada do mesmo entusiasmo de todos os anos”.

[iii] Maiores informações ver Diccionario da língua brasileira. (Pinto, 1832) e Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa (2009).

[iv] Maiores informações ver NADAF, Y. O romance-folhetim francês no Brasil: um percurso histórico. Letras, Santa Maria, v. 19, n. 2, p. 119–138, jul./dez. 2009. Disponível em: http://cascavel.ufsm.br/revistas/ojs-2.2.2/index.php/letras/article/view/12014/7428 ; PAES, Alessandra Pantoja. Das imagens de si ao mundo das edições: Paul de Kock, romancista popular, 2013. Dissertação (Mestrado em Letras), UFPA. Disponível em http://www.circulacaodosimpressos.iel.unicamp.br/arquivos/dissertacao_alessandra_paes.pdf

[v] Vale destacar que o gênero literário utilizado pelo autor (i.e. carta pessoal, que denomina como ementário) desempenha um papel central nos propósitos dos textos.

[vi] SCHWARZ, Roberto. As ideias fora do lugar. In: ____. Cultura e Política. São Paulo: Paz e Terra, 2001, p.59-83.


Identidades, nacionalismos y fútbol en América Latina: táctica y estrategia de una tradición dentro de una novedad

11/05/2014

“La patria es la selección”

Albert Camus

Na companhia de mais três pesquisadores colombianos (Efraín Serna, Guillermo Montoya y Alejandro Villanueva), nós publicamos pela editorial Kinesis o livro: “Naciones en campo: fútbol, identidades y nacionalismos en América Latina” que contem contribuições de académicos de nove nações da região latino-americana: México, Costa Rica, Equador, Venezuela, Argentina, Uruguai, Chile, Brasil y Colômbia. Como um presente para os leitores desde blog, eu compartilho uma versão da introdução da obra de minha autoria. 

La nación imaginada en clave de gol. La cultura sintetizada en 90 minutos y en ese “tercer tiempo” que es la reposición que ata el pitazo final de un juego con el primer minuto del próximo. Metáfora y metonimia y quizá también hipérbole y pleonasmo. El fútbol no sólo encarnó con relativo éxito la modernidad de los grandes relatos; para este caso el del mito fundacional de la patria, sino que se convirtió en su propia criptonita: no existe nada más volátil, efímero, fugaz, que la narrativa futbolera (Carrión, 2006; Quitián 2009). Un club se reinventa –en las redacciones de los periódicos, en los muros de Facebook, en las conversaciones de bar – fecha tras fecha de la liga local.

Capa do livro: "Naciones en campo: fútbol, identidades y nacionalismos en América Latina"

Capa do livro: “Naciones en campo: fútbol, identidades y nacionalismos en América Latina”

Pero ¿Es posible que él resuma la nación? El periodismo escrito –desde el ecuador del siglo XIX- fue el primero en coquetearle a esta idea, desde que se dio cuenta de su susceptibilidad para ser narrado. Claro que esa cualidad aplicaba para casi todos los deportes; sólo que ninguno se difundió tan rápido y se hizo tan popular como el soccer que partió aguas con el rugby que no proscribió el uso de las manos. Otro detalle incidió en su asimilación con villas, pueblos y naciones: era práctica colectiva, implicaba la conformación de equipos. La sumatoria de personalidades que conformaban una entidad superior denominada club y más adelante, también, selección nacional.

Esa creación de un súper-yo deportivus –el club- excedía en mucho la mimesis que suponía el boxeo o el ciclismo, por citar dos deportes clásicos y populares del siglo de oro de los deportes que va desde la mitad de la centuria del 19 a la del 20. Por los cuadriláteros la nación apenas se asoma: la historia se puede acabar por vía del nocaut y está condenada al olvido con el declive o el retiro del pugilista. Igual pasa con el ciclismo: difícil es construir un relato grupal a partir de valores individuales. Una etapa, clásica o vuelta depende, para su inmortalidad, del oxígeno nemotécnico de una leyenda a prueba de amnesia(1). Casos ha habido (Pambelé y los “escarabajos” encabezados por Lucho Herrera en Colombia), pero son contadas excepciones que validan la regla (Quitián, 2010).

Quizás ayude a entender mejor el porqué de su capacidad para fungir como sucedáneo de la patria, el que consideremos su naturaleza original: el fútbol, como todos los deportes, es expresión estamental. En otras palabras, surgió como producto de una identidad gremial, de una clase social, de un “habitus” singular de una franja poblacional específica. Su cuna es eugenésica, noble y cortesana. De rebote su asunción, su práctica, es factor de distinción. Jugarlo implicaba marcar una diferencia entre el caballero y el plebeyo. Entre el sportmen y el burgués. Entre el gentleman y el villano. Entre el que se jactaba de cultivar su cuerpo y quienes estaban obligados a cultivar la tierra. Junto a Pierre Bourdieu (2004), Marcel Mauss explica con mayor lucidez este escenario de variedad cultural, en su ensayo sobre las técnicas corporales (1979).

Al contener valores de clase, al ser piel que circunscribe un corpus cosmogónico que –para sus inicios- oponía el fair play feudal al librecambismo de la burguesía y la hidalguía de la Corte al paganismo rural, el football asume también un carácter civilizador que ya no solamente pretende diferenciar las gentes de la metrópoli, sino también los pueblos obligados a jurar lealtad bajo la divisa de la Union Jack. Ese proceso, detallado por Norbert Elias (1996), que atribuye al deporte la aparición del parlamento y que sofistica la idea de Clausewitz (2008) de considerar la guerra como “la política por otros medios” y la transforma en “el deporte es la política (o la guerra) por otras vías” (Elias, 1996: 49), tiene como co-relatos la introducción del sport (el deporte) en los territorios que después se erigirían como repúblicas modernas en representación de antiguos pueblos.

Este proceso ha sido ampliamente detallado por periodistas, historiadores y otros cientistas sociales que recrean cómo los discursos higienistas, civilizatorios y de mejora de la raza –del fin del diecinueve y la primera mitad del veinte- vinieron empaquetados en las narrativas del deporte. Ya el sport no solamente contenía el genoma cultural de una clase social que debía alcanzar el sueño de Emerson de que todo “británico fuese un potencial embajador de la Corona”, sino que era el elemento sine qua non imaginado para esa otra gran invención: la civilización Occidental. Por supuesto que esta retórica responde a una ideología de época, régimen y clase; no obstante sus expresiones discursivas (y prácticas), sus desarrollos y alcances fueron desiguales y hasta contradictorios según sea el lugar donde pretendió implementarse con variados niveles de violencia real y simbólica.

Así las cosas, el sport (después se españolizó como deporte y se brasilerizó esporte) entrañaba no sólo una magnífica metáfora de la sociedad del epílogo del siglo XIX: por un lado de la fraternidad estamental de sires y lores; por otro de la distribución de tareas y la asunción de responsabilidades (propias de la transición de la factoría a la industria); así como de la abnegación por el trabajo de la ética protestante y –en general- de la concepción funcional (orgánica) de la sociedad que recompensaba el trabajo en equipo.  Pero al mismo tiempo, respondía a una estrategia de gobierno imperial y de política de Estado: expresaba un ideal civilizatorio escenificado en las personas que disponían de tiempo suficiente para cultivar destrezas mentales y corporales, las que superaban los límites del espíritu forzando las fronteras físicas, pregonando siempre una actitud nobiliaria: la del juego limpio, con la que se despreciaba tanto el triunfo como la derrota en pro del respeto al estatus quo del reglamento que equivalía a la armonía del orden social.

Símil de sociedad y táctica biopolítica. Pero también corpus identitario y según los estudiosos del tema de su difusión en Argentina y Brasil, elemento narrativo de las propias naciones ¿Cómo fue posible ello? ¿Cómo la nación puede relatarse al ritmo de la gambeta, la pared y el gol? Para el caso reciente, conviene darle el crédito a la argentina Beatriz Sarló (1988, 1998) quien se preguntó por el peso político del fútbol en las representaciones colectivas de sus compatriotas. Trabajando esa línea, Pablo Alabarces (2008) concluyó que ante la ausencia de discursos políticos envolventes de lo nacional (o ante su agotamiento), es el fútbol quien mejor sustituyó los mensajes de unidad nacional. Claro que una y otro fueron claros al señalar que el fútbol (y la selección) no son la patria, entre otras porque los estados de ánimo que sus triunfos y derrotas generan, impiden la estabilidad narrativa que supone todo mito fundacional (Alabarces, 1998).

Ya Eduardo Archetti había anticipado esa perspectiva en su ensayo “Fútbol y ethos” (1984), maximizando las posibilidades de análisis con su obra sobre las masculinidades a partir del examen idiosincrático del polo, el fútbol y el tango (1999). Su tesis, que aplicaría de manera más o menos homogénea para toda América Latina (siendo México, con su inquebrantable leyenda de virilidad, la mayor excepción), es que en contravía de los relatos que prescriben lo que significaba ser macho, definido en el libro “El gaucho Martín Fierro” de José Hernández (1983), era el fútbol la única área libre dónde para ser hombre se debía ser niño (pibe). Todo por una razón elemental: para vencer a los ingleses había que engañarlos, burlarlos, confundirlos; no confrontarlos cuerpo a cuerpo porque así ellos ganaban (1995).

Roberto Da Matta y una generación de antropólogos- sociólogos brasileros: Simoni Lahud Guedes, Arno Vogel, Marcos Alves de Souza, Bernardo Buarque de Hollanda, Ronaldo Helal palpitaron con similar sensibilidad intelectual: sofisticaron la idea del estilo nacional de juego (identidad lúdica), describiendo a profundidad la personalidad arquetípica del malandro (a malandragem) en tensión con el otario (el engañado/ el europeo por extensión) que refuerzan el estereotipo social de la “malicia indígena” (desde Bolivia, hasta México) y de la “viveza criolla” o la picardía del potrero para la región del Rio de la Plata. En “Universo do futebol” (1982), se habla del “jeitinho carioca”, entendido como un ethos, una cosmogonía, una forma de ser que asume el fútbol en consonancia con el desparpajo propio del carnaval: con la frescura de la playa y la temperatura del trópico. Eso genera el “jogo bonito” que es también baile (samba) y engaño (capoeira) y se complementa con el mito mestizo de brasileridad expresado en textos como “O negro no futebol brasilero” de Mario Filho y “Casa- Grande & Senzala” de Gilberto Freyre .

Descubrimos así una veta analítica que no sospechábamos cuando nos iniciamos como aficionados del fútbol (y aquí habría que incluir también las adscripciones clubísticas que genera el balompié, que es otro factor de constituciones identitarias parciales y totales): la de sus posibilidades de narrarnos como comunidad imaginada, como nación, en los términos de Benedict Anderson (2007). Otro que lo había advertido era Eduardo Galeano (1995), ciudadano de ese pequeño-gran país que es el Uruguay que puede ser –sin temor a equivocarnos- el verdadero país del fútbol, a juzgar por su pequeña demografía (son casi tres millones de personas) y su rica historia de triunfos en el deporte de los guayos. Imposible –dice Galeano- no definirse en términos de “la celeste” en la República Oriental que fue casa de la primera Copa Mundo de la Fifa.

Para ilustrar la singularidad a este respecto- en la región, conviene leer los textos (además de los ya citados de Argentina y Brasil) de Fernando Carrión en Ecuador (2006), Aldo Panfichi en Perú (1994), Sergio Villena en Costa Rica (2003), Samuel Martínez en México (2010) y los “Cuadernos de nación: belleza, fútbol y religiosidad popular” en Colombia (2001), especialmente el artículo “La nación bajo un uniforme” de Andrés Dávila Ladrón de Guevara y Catalina Londoño (2001). Está por aparecer, nos consta que así es, una producción considerable y respetable en Venezuela, Chile y Uruguay. Los textos que aparecen en este libro, de Alessandro D’amico, Rodrigo Soto & Carlos Vergara y Cristián Maneiro son una prueba de lo que está por venir. 

Para el caso de Colombia existen dos desafíos: examinar con el escrúpulo que ya tuvieron nuestros pares del cono sur sudamericano, las narrativas de nación desde la arena del fútbol, teniendo como fuente primaria la prensa general y la especializada. Es cierto que aquí el balompié profesional fue de los más tardíos en profesionalizarse en la región(2) y que, quizá por ello, la reseña descriptiva y los textos que lo trataban con análisis en páginas editoriales, de variedades o de cuando se crearon las secciones de deportes es magra hasta empezada la segunda mitad del siglo pasado. Recordemos: enseguida de “El bogotazo” se inaugura a las volandas el torneo nacional. Un reto subsidiario de este primer punto es establecer con mayor rigurosidad la relación entre el magnicidio de Jorge Eliecer Gaitán, que recrudeció la guerra civil conocida como “La Violencia” (1946- 1966) y  el debut de la liga que, como todos los cronistas coinciden, aconteció con gran suceso tal como lo evidencia el nombre con el que fue bautizada esa época de esplendor futbolístico: “El Dorado” (1949- 1954).

Paradójico que ante la magnificencia de un fútbol incipiente en historia y desarrollo, pero pletórico en estrellas extranjeras (principalmente argentinos, uruguayos, paraguayos y brasileros) (3), el país se debatiera en una lucha bipartidista, de sectarismos políticos que desangró un porcentaje importante de la población nacional e impidió que el proceso de unidad nacional se consolidara (Quitián, 2011). Importante es sopesar hasta qué punto el fútbol fue un elemento pacificador –desde la perspectiva elisiana- según se presenta en el original estudio de Alberto Mayor Mora para el caso del Valle del Cauca y Antioquia (1985).

El segundo desafío es comprender cómo se pudo gestar el encantamiento oral de un pueblo campesino, que creyó el relato de una sola nación a partir del prodigio de la radio y del libreto narrativo del ciclismo, el boxeo y el fútbol. Para 1938 (fecha de la primera participación internacional en fútbol) (4) la mayor parte de la población residía en el campo, tenía vocación agropecuaria y llegaba al 80% de analfabetismo. El país no llegaba a los 10 millones de personas y tenía baja movilidad en términos de desplazamientos internos (los viajes al exterior eran una rareza por la baja oferta y el alto costo) (5) e integración. El mundo era la vereda, el pueblo o máxime la región.

Ante ese panorama, la radio jugó un papel central no sólo como vehículo de comunicación interna, sino como factor de integración de regiones y provincias con el centro del país. Pero no sólo para comunicar lo que acontecía en Bogotá en términos informativos, sino para transmitir los valores que las élites querían socializar, imponer y desarrollar en su propósito de hacer del país una nación con características modernas. Sopesar hasta qué punto esta triada de deportes: el ciclismo, el box y el fútbol consiguió confeccionar la fantasía de la nación y persuadir su historia en la masa de oyentes, mediante el relato épico de los héroes deportivos, es la tarea que se anticipa en la agenda programática propuesta en el presente artículo.

Hasta donde las figuras deportivas, los blasones, divisas, himnos y relatos del deporte sustituyeron con eficacia (como ocurrió parcialmente en Argentina) el discurso de “lo nacional”. Qué tanto la política y la historia oficial aprendida en la escuela cedió o se complementó con la transmisión vía ondas hertzianas de los deportes, particularmente del fútbol, en la que se daba cuenta de la representación de atletas que encarnaban al país en competencias entre naciones, disputadas en el extranjero.

Si aceptamos que lo nacional es un consenso negociado, en tensión entre lo tradicional y lo novedoso y que la mitología que lo soporta incluye un relato fundacional y la presencia de figuras legendarias que enfrentaron con valentía, coraje e ingenio adversarios que impedían la existencia propia, tenemos un ámbito en el que el deporte tiene serios chances de obrar como sustituto narrativo. Una forma de abordar analíticamente este aspecto es parafraseando a la ya mentada Simoni Lahud Guedes (1977); ella nos habla de “a instituição zero” (institución cero) que es la versatilidad del fútbol (y por extensión del deporte) para fungir como estructura comodín de ideologías de disímil característica. Basta ver cómo el gobierno del presidente Juan Manuel Santos lo ha instrumentalizado discursivamente en los diálogos de paz en la Habana y como su contraparte, los negociadores de la guerrilla de las Farc, han aprovechado la aparente neutralidad del fútbol para proponer un duelo simbólico en Cuba y Santa Marta (6). Con ello podríamos concluir que el fútbol sirve para todo, incluso para refundar naciones…

Como corolario de esos desafíos está uno más contemporáneo y es el de la observación profunda de la relación del fútbol con la massmedia; tópico al que todavía le debemos tiempo: su escrutinio como industria cultural. Pero viene más a cuento de este libro, su vínculo último con la publicidad. Sobre todo por la inevitable sospecha que sentimos de estar ante dos estupendos canales de comunicación. Fútbol y publicidad (7) aseguran eficacia del mensaje, garantizan ganancia del negocio (Quitián, 2013a) y tienen la coincidencia de ser potentes cajas de resonancia de lo nacional.

¿Ante la desaparición de figuras políticas que renueven la identidad nacional será la publicidad quien asuma las narrativas de nación? Ya la magnanimidad Bolívar parece perder brillo y los apellidos Valderrama y Falcao dan la sensación de ser más aglutinantes. Ni qué decir de comparar el orgullo por la batalla de Boyacá frente al 1 x 1 con Alemania en “Italia 90” o el 5 x 0 a los argentinos del 5 de septiembre de 1993 ¿Seguirá siendo el fútbol un emplasto de la patria? Por lo menos si es importante para el 95% de los colombianos, como lo certifica la última encuesta nacional del centro Nacional de Consultoría (2014). Todavía no está dicha la última palabra y el Mundial de Brasil 2014 promete ser un laboratorio social (por las seguras protestas que habrá y porque trae de nuevo a la palestra la visión neomarxista de que es el “opio del pueblo”) que propicie nuevos escenarios ciudadanos y estimule más discusiones sobre el particular.

Como hecho social total que es, no hay duda que con la Copa reeditaremos esa sensación de asistir a una guerra simbólica e internacional de repúblicas, donde estarán en juego cosas importantes como el orgullo y el prestigio nacional y otras más banales y triviales –a decir de Catherine Palmer (1998)- como el demostrar fervor por la selección y dar a conocer al mundo cosas propias de nuestra idiosincrasia. Las naciones entran en campo y con ello las historias de nuestra patria están expuestas a reescritura.

Notas

  1. Interesante observar como en nuestro país la Vuelta a Colombia fue la artífice de la integración real de localidades de la región central- andina (entre ellas: Bogotá, Ibagué, Tunja, Manizales, Pereira, Armenia, Medellín, Cúcuta y Bucaramanga) y de esta zona con sectores interandinos (especialmente Cali y Neiva) y con la costa caribe (Santa Marta, Barranquilla y Cartagena). La programación de etapas entre estos municipios impulsó la red de carreteras, modernizó la transmisión radial y permitió pensar en términos de nación, por encima de región.
  1. En Argentina el primer torneo profesional data de 1931, en Uruguay en 1932 y en Chile en 1933. Brasil, dada la extensión nacional de su territorio tuvo un proceso desigual, pero el paso del amateurismo al profesionalismo se empezó a gestar con los torneos inter-estaduales entre Rio de Janeiro y Sao Paulo, promediando la década del 30.
  1. La colombiana, antes que la italiana, inglesa, española y británica, fue la primera liga en la que las nóminas titulares estaba integradas en su totalidad por extranjeros. Los nacionales eran suplentes. Ver Guillermo Ruiz Bonilla (2008).
  2. El 15 de febrero de 1938, en Panamá, en el marco de los IV Juegos Centroamericanos y del Caribe.
  1. De hecho Colombia sigue siendo un país de poco tráfico de nacionales al exterior. Hasta 1990, según una encuesta de la Federación Nacional de Comerciantes (Fenalco) el 80% de los colombianos no había salido ni pensaba viajar fuera del país. Probablemente esa situación esté cambiando en virtud de la mayor oferta de aerolíneas (baja de tarifas) y el crecimiento de la clase media en el país.
  1. Originalmente la oferta, aupada por el gobierno, surgió de labios de Carlos “El Pibe” Valderrama y de Mauricio “Chicho” Serna que le propusieron a los representantes de las Farc que “cambiaran los tiros de fusil por tiros al arco de una cancha de fútbol”. Iván Márquez (jefe de los negociadores de la guerrilla) contrapropuso un duelo de ida y vuelta en La Habana y la cancha de ‘Pescaito’ (Santa Marta) dónde surgió el Pibe como futbolista.
  2. El matrimonio afortunado del fútbol con la publicidad ilustra muy bien el carácter del primero en su expresión de alta competencia. Para algunos investigadores (Simoni Guedes, Ronaldo Helal, Victor Melo, etc., etc.) el fútbol es tan singular que ya no puede ser considerado un deporte: es más un espectáculo televisivo, un show multimedial que –por ello mismo- no obliga a sus atletas a los sacrificios, abnegación y confinamientos de otros deportes. Recuerden como varias vedettes del balón (Romario, Asprilla, Cuauthemoc) pasaban la noche en discotecas y al día siguiente eran figuras de sus equipos.

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O INÍCIO DO CAMPEONATO BRASILEIRO DE FUTEBOL E A DITADURA: APONTAMENTOS INICIAIS

06/05/2014

Por Maurício Drumond

 

O mês de abril, terminado há pouco, foi marcado por três elementos de grande significação para o imaginário popular: os 50 anos da realização do golpe militar que instaurou um regime ditatorial no Brasil, o início do campeonato brasileiro de futebol de 2014 e o lançamento do álbum de figurinhas da Copa do Mundo. Três coisas que podem nos dar a impressão, à primeira vista, de não terem nada em comum. No entanto, um olhar mais atento e historicamente informado pode nos mostrar o contrário.

A ditadura militar desempenhou um papel fundamental no início do campeonato brasileiro de futebol. A ideia de um campeonato nacional de futebol sempre esteve presente no imaginário dos organizadores do esporte. Assim como ocorria nas maiores ligas do mundo, uma competição que abrangesse todo o país era o meio mais legítimo de se estabelecer uma entidade nacional para gerir o esporte.

No entanto, as dimensões continentais de nosso país e as precárias condições de transporte entre suas diferentes regiões tornavam a realização dessa ideia em um trabalho hercúleo, para não dizer utópico. A primeira investida nesse sentido foi a organização de um campeonato nacional de seleções estaduais. Nesse torneio, cada estado apresentaria uma equipe formada pelos melhores jogadores que atuassem em seus clubes disputando um campeonato que se pretendia nacional. O primeiro torneio nesse molde ocorreu em 1922 (João Malaia discorreu sobre esse evento em um post desse blog), e prosseguiu de forma errática ao longo dos anos, caindo em desuso ao final da década de 1950.

A primeira competição de clubes de pretensões nacionais foi a Taça Brasil de Futebol. Criada em 1959, em meio à euforia com o título mundial conquistado em 1958 e com a aparente prosperidade do nacional desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek, a Taça Brasil reunia os campeões estaduais que se enfrentavam em sistema de eliminatórias, com seu campeão recebendo a vaga brasileira na Copa Libertadores da América, iniciada em 1960. O campeonato contava apenas com o campeão de cada unidade da federação e o campeão e vice-campeão do ano anterior, sendo que esses clubes, juntamente com os representantes da cidade do Rio de Janeiro (Distrito Federal) e São Paulo entrariam apenas na fase final da competição.

Jornal de 1959 estampando a conquista do Bahia da 1ª Taça Brasil

Jornal de 1959 estampando a conquista do Bahia da 1ª Taça Brasil

A Taça Brasil teve sua última edição em 1968, quando problemas em sua organização fizeram com que o campeonato perdesse o prazo final e a recompensa de indicar um clube para a Libertadores de 1969 (o Brasil não teve representante na Libertadores daquele ano). Sem a recompensa da vaga para a Libertadores, os times de São Paulo, Santos (campeão paulista de 1967) e Palmeiras (campeão da Taça Brasil de 67) se recusaram a participar. O Botafogo, campeão da Guanabara, se tornou assim o campeão da última Taça Brasil disputada. Sem maior credibilidade e com a concorrência da ampliação do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, a competição não foi mais realizada.

Equipe do Botafogo, campeã da Taça Brasil de 1968.

Equipe do Botafogo, campeã da Taça Brasil de 1968.

O Torneio Roberto Gomes Pedrosa, conhecido como Robertão, ou Taça de Prata (a partir da edição de 1968, a primeira sob controle da CBD), foi resultado da ampliação do torneio Rio-São Paulo, com o convite a equipes de outros estados. Em 1967, Internacional e Grêmio (RS), Atlético e Cruzeiro (MG) e Ferroviário (PR) foram convidados a se juntarem às equipes de São Paulo e da Guanabara. No ano seguinte, com o fracasso da Taça Brasil, a CBD adotou a competição, que passou a ser a responsável por indicar as equipes brasileiras na Libertadores nos anos 1969 e 1970.

Ao final de 1970, o tricampeonato mundial do Brasil e o apoio do regime militar levaram a CBD a preparam um novo campeonato, o Campeonato Brasileiro. Dave-se mais um passo para a tão sonhada integração nacional. Com os anos, o número de equipes e de unidades da federação participantes foi aumentando.  Os 20 clubes pertencentes a 8 estados, da edição de 1971, transformaram-se em 26 equipes de 13 estados, no ano seguinte, e chegaram à expressiva marca de 42 times de 21 estados em 1975 (tendo em consideração que o estado da Guanabara acabara de se fundir com o estado do Rio de Janeiro). Nacionalizava-se geograficamente o campeonato nacional, com participantes de todos os cantos do país.

De 1974 a 1979, é possível perceber o visível aumento gradual do número de participantes na competição: 40 (1974), 42 (1975), 54 (1976), 62 (1977), 74 (1978) e 94 (1979). É isso mesmo, com incríveis 94 participantes na série especial, o campeonato brasileiro de 1979 havia se tornado um gigante inchado, devido especialmente a fins políticos. As eleições parlamentares de 1974, em meio ao processo de abertura política iniciado por Geisel, o MDB obteve uma valiosa vitória nas urnas, dobrando sua representação na Câmara dos Deputados e conquistando 16 das 22 cadeiras do senado em disputa. Surge assim a expressão “Onde a ARENA vai mal, mais um time no nacional”. O fracasso da edição fez com que a década de 1980 tivesse campeonatos com um número mais equilibrado de participantes, por volta de 44, até 1986.

O Campeonato Brasileiro foi assim, na década de 1970, um importante elemento de negociação política nacional. Vale ressaltar que o CND, a CBD e as federações estaduais eram comandadas por militares ligados à ARENA e ao regime ditatorial – vale lembrar aqui o excelente título de artigo de Joel Rufino dos Santos: “Na Confederação Brasileira de Desportos (CBD) até o papagaio bate continência”, publicada na revista Encontros com a Civilização Brasileira, n. 5, 1978. Em tempos de Campeonato Brasileiro e de papos sobre a ditadura, esse tema pode ser ainda mais explorado. Esse foi só um primeiro passo.

 

 

 


NÃO SOU UM MACACO….

01/05/2014

Por Ricardo Pinto dos Santos (Doutor em História)

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Bastou um famoso fazer alguma coisa para chover pessoas fazendo igual. O problema, nesse caso, é que ninguém parou para refletir o que efetivamente estavam fazendo. Sobre o que estou falando? me explico.

Nesta última semana o jogador do Barcelona, Daniel Alves, durante uma partida contra o Villarreal foi, mais uma vez, insultado quando um torcedor da equipe adversária jogou uma banana em sua direção. Dani Alves, como é conhecido na Espanha, em puro reflexo pegou a banana e comeu. Ok. até aí, tudo bem. A resposta do jogador pegou todo mundo de surpresa e, sem a pretensão aparente de levantar nenhuma bandeira, o jogador fez o racismo, mais uma vez emergir como tema central da semana.

Para além da sagacidade do jogador, a atitude demonstrou, de certa forma, que ele deseja abstrair sobre a questão, visto que, como ele mesmo disse, já sofre com isso, naquele país, a pelo menos 10 anos. Depois do ocorrido, no mesmo dia, Neymar, também jogador do Barcelona, postou uma foto em que, junto com o seu filho, com uma banana na mão, diz que #todossomosmacacos.

A partir deste momento, não precisa ser um gênio para adivinhar, milhares de outras pessoas, famosas ou não, começaram a postar fotos em que reproduziam a mesma frase. Ou seja, TODOS SOMOS MACACOS.

Não me recordo ter faltado as minhas aulas de biologia, tampouco as minhas aulas de história da humanidade. Assim, diante das minhas primeiras conclusões, posso afirmar que EU NÃO SOU UM MACACO. Mais do que isso, os africanos não são macacos, os negros não são macacos e, por fim, macaco é macaco. Parece simples, mas, diante de tudo que vem acontecendo, achei pertinente começar pelas questões mais básicas e colocar as coisas, ou melhor, as pessoas e os animais, nos seus devidos lugares.

Compreendo que a sátira, a comédia, o desdém, o desprezo e tantas outras ações e sentimentos, que fazem parte das nossas humanidades, possam ser utilizadas em ações de questionamentos e lutas. Reconheço até que, diante de toda a nossa potencialidade e complexidade, os caminhos por nós escolhidos são tão múltiplos que não caberia aqui tentar explicar ou definir o melhor dentre eles. No entanto, queridos amigos, RACISMO É COISA SÉRIA e, frente a essa certeza, precisamos ajustar algumas coisas.

Não vai ser uma porção MEMES (imagens que se reproduzem de forma viral na internet) que farão as coisas mudarem. Talvez surja um constrangimento aqui ou acolá,  por parte da equipe e de alguns torcedores. Mas, decididamente, não podemos banalizar o debate e encarar essas ações como sendo algo efetivo na luta contra o racismo. Afinal, depois de tantos e tantos anos de racismo já é hora de levarmos essas questões mais a sério e buscarmos ações efetivas contra essa situação que, não só no esporte, atinge o mundo.

Temos que exigir que as Instituições (CBF, FIFA, BARCELONA, VILLARREAL, LIGA EUROPÉIA E ESTADOS) se pronunciem e ajam. Acima de tudo, que o façam de forma séria, contundente, severa. Afinal, a impunidade sempre foi a grande engrenagem de ações como essa. Se consideramos o racismo um mal a ser combatido temos que agir e não vai ser percorrendo o caminho que nos deram, o da submissão, o do deixa disso, que iremos avançar em questões tão sérias e imediatas.

Há um discurso, que ainda prevalece na Europa em geral, de que somos “macacos” e, como consequência, menores nas nossas humanidades. Não podemos confirmar isso. Não podemos responder a tal agressão com campanhas vazias que, claramente, não buscam nenhum objetivo. Gritar aos quatro ventos que todos somos macacos, além de um equívoco formal, confirma a tese colocada pelos europeus e, fundamentalmente, não ajuda as vitimas do racismo.

Mais uma vez, a nossa superficialidade nos coloca um passo a frente diante de um precipício. Caímos todos, quando na verdade era preciso agir de forma mais inteligente e profunda.

Luciano Hulk, ao contrário de nós, mostrou sagacidade e toda a sua veia para os negócios. Um dos primeiros a postar uma foto com uma banana, momentos depois do ocorrido passa a vender em sua marca uma camisa com a frase Todos somos Macacos (R$ 69,00). Nesse caso, para quem o tema nunca foi uma questão é até compreensível que o episódio se torne apenas uma fonte de lucro. Assim é o capitalismo. Do mesmo modo que o rosto do Che figura em tantos utensílios, o mais cruel anti-capitalista acabará virando uma camiseta.

Diante da superficialidade e do esvaziamento do debate, não podemos deixar que nos escape mais uma grande oportunidade de agirmos, efetivamente, contra o racismo. Nos acovardamos, nossas instituições se acovardam e achamos, todos, que basta alguns gritos desesperados, entrarmos com algumas faixas em campo, ou mesmo um desprezo adequado, para as questões serem resolvidas. Não, não basta. É preciso educar, é preciso reagir com firmeza, é preciso punir.

Enfim, NÃO SOU UM MACACO. Mas, tenho certeza que alguns torcedores do Villarreal são uns verdadeiros imbecis.

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Política, literatura e atributos atléticos: comparações e analogias no século XIX

25/08/2013

por Fabio Peres[i]

Logo após a conquista da Copa de 62, Carlos Drummond de Andrade propôs em tom de graça e entusiasmo que a seleção brasileira deveria ocupar todos os postos ministeriais. Afinal, a vitória não significava pouca coisa. O bicampeonato “lavou os corações“, “uniu os desafetos” e “tornou possível a solução imediata dos problemas que nos afligem“. A crônica, publicada em 20 de junho de 1962, no Correio da Manhã (p.6), destacava com certa ironia as vicissitudes da conjuntura política da época:

“Este bi veio na hora H. Os políticos procuram um rumo para a nação e não o encontram, ou querem encontrá-lo fora do lugar. A mudança do Gabinete, que devia ser caso de rotina, assumiu ares de problema grave, e ninguém sabe como compor a nova equipe dirigente. Ninguém? É exagero. Modestamente vos proponho a equipe ideal, que não é nem pode ser outra senão a equipe detentora da Taça Jules Rimet […]”.

O escrete que compunha a então Seleção de Ouro possuía, de acordo com Drummond, as qualidades necessárias, tanto pessoais como técnicas, para o desempenho das funções do Gabinete e de cada pasta ministerial:

“Naturalmente o primeiro-ministro há de ser o Mauro, capitão do escrete. Bem o merece. É zagueiro, isto é, jogador de defesa e não do ataque, e isso convém a um primeiro-ministro, que se requer cauteloso, resistente, preocupado em proteger nossa vasta retaguarda […] Um velhinho sabido como Nilton Santos fica certo na Justiça, para distribuí-la ou negá-la como de mister, impor respeito e conduzir o jogo político à base de vivências, usando se preciso, seus traiçoeiros disparos. Na Fazenda, pede-se Gilmar, tão econômico no deixar passar gols; defendeu a meta como o Tesouro […]” (20/06/1962, p.6).

E por aí vai Drummond escalando o time de ministros. Didi, hábil em estabelecer com estilo e elegância nossa “independência no meio campo das nações“, para o cargo de  chanceler. Zagalo, pela sua polivalência, poderia estar em várias pastas (Agricultura, Indústria e Comércio, Minas e Energias ou Viação). Garrincha teria o privilégio de escolher aquela que fosse de seu agrado (afinal, “todo Ministério é pouco para este em sua simplicidade arguta“). Vavá e Amarildo sorteariam entre si a da Guerra. E os outros jogadores, bem como a comissão técnica, não seriam esquecidos, havendo lugar para todos. No caso de Pelé, “até ministro sem pasta honraria o Gabinete” (a crônica pode ser lida na integra no final do post).

Mas o que tudo isso tem a ver com a ginástica e a política praticadas no século XIX?

Nos últimos posts, argumentamos que o espraiamento da ginástica na sociedade da Corte se deu de forma multifacetada, através de um conjunto variado de atores, ideias e instituições (e não de maneira linear e unívoca como as teses, em geral, têm defendido). Não por acaso, chegamos a destacar em outra ocasião (Melo & Peres, 2013) que o termo no singular não seria nem mesmo o mais apropriado: existiam ginásticas, com diferentes técnicas e funções, que se manifestavam no Segundo Reinado.

Como diversas fontes têm sugerido, a presença de tais práticas na vida social carioca era maior do que se poderia supor. Talvez alguns dos indícios mais significativos dessa presença sejam aqueles justamente em que a ginástica figura em situações e espaços sociais que não são comumente identificados nas pesquisas tradicionais como “o” foco de origem de sua “difusão” ou “imposição”. Além das escolas, das instituições médicas, das instituições de defesa e, de modo geral, do Estado, a ginástica também estava nos teatros, nos circos e, por incrível que possa parecer, na literatura do século XIX.

Por certo, muito longe de gozar da mesma popularidade do futebol na época da crônica de Drummond, as referências literárias à ginástica podem ser encaradas como um sinal, entre outros, de sua vulgarização; que se dava, é bom lembrar, de modo desigual e heterogêneo entre os estratos sociais da cidade.

Em 1855, Joaquim Manuel de Macedo estabeleceu – assim como faria Drummond aproximadamente um século depois[ii] – relações entre atributos políticos e atléticos[iii] em suas obras. Também em tom zombeteiro sobre a troca de ministros e o oportunismo político, o escritor destacava em “A carteira de meu tio” que o estadista deveria aprender a arte da ginástica[iv].

O romance, que foi publicado em forma de folhetim na Marmota Fluminense, é narrado sob a perspectiva do sobrinho (do tio em questão), que decide, depois de passar alguns anos na Europa, ingressar na vida pública brasileira e se tornar político. Com traços que beiram o realismo, a obra – também caracterizada como uma crônica romanceada – traz à tona de maneira bastante bem-humorada o confronto entre, de um lado, as abstrações das leis (presentes na Constituição de 24, chamada no romance como defunta) e, de outro, a realidade e o cotidiano da pátria em meados do século XIX. Nesse cenário, em que há mistura de história e ficção, a sátira e a ironia são utilizadas como crítica à sociedade política imperial[v].

O trecho descrito na Marmota Fluminense (08/05/1855) começa quando o protagonista querendo se esquivar de uma visita indesejada, pula por uma janela, entrando em casa, sem que o visitante perceba: “de um salto puz-me dentro, e fui pé ante-pé recolher-me ao meu quarto“.  E cinicamente dispara contra as intempéries políticas do Império:

“Não tenho vergonha da acção, que pratiquei: não são somente ladrões e os namorados, que entram pelas janellas em vez de entrar pelas portas; os grandes políticos da escola do eu, que como se sabe, é predominante na actualidade, as vezes, e sempre que necessário aos seus interesses, pulam também pelas janellas para dentro do ministério, e até mesmo se sujeitam, a fim de chegar ao poleiro, a espremer-se tanto, que chegam a fazer caminho por qualquer buraquinho de rato” (p.1, grifos do autor).

Complementa o protagonista, fazendo referência à ginástica enquanto ponte tragicômica entre a análise pragmática da política e o sentido figurado e alegórico da prática corporal:

“É por isso que eu sustento que a gymnastica é uma arte indispensável aos estadistas: a politica toda se reduz a saber atacar e retirar, saltar e correr, agarrar e comer, tudo muito opportunamente […] só quem já foi ministro duas ou trez vezes pelo menos, e aproveitou-se do ministério para arranjar a vida, é que póde deitar-se todas as noites em colxões macios. Eu heide chegar lá; porque bons mestres me tem dado exemplos admiráveis, e aberto uma estrada, em que não se acha estrepe, nem atoleiro ” (08/05/1855, p.1-2, grifos nossos).

O romance de Joaquim Manuel de Macedo é apenas um exemplo da presença da ginástica na literatura do século XIX. Muitas referências podem ser encontradas nos periódicos do Segundo Reinado. Várias delas utilizaram o termo “ginástica” em sentido figurado[vi]. Tal polissemia, a nosso ver, estava associada a um compartilhamento, mesmo que mínimo, do que significava ginástica e dos papéis e valores atribuídos a ela, possibilitando assim usos por metáfora, metonímia, extensão de sentido etc. Mas isso fica para outra ocasião.

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EM TEMPO 1: este post é dedicado ao seu Oswaldo (in memoriam); amante e profundo conhecedor de futebol, samba, política e, sobretudo, da vida.

EM TEMPO 2: em sua homenagem, reproduzo a seguir a crônica “Imagens da Vitória. Seleção de Ouro” de Carlos Drummond de Andrade, publicada em 20/06/1962 no Correio da Manhã (p.6).


[i] Esse post é fruto das conversas e pesquisas realizadas no âmbito do projeto “O corpo da nação: educando o físico, disciplinando o espírito, forjando o país: as práticas corporais institucionalizadas na sociedade da Corte (1831-1889)”, que conta com o apoio da FAPERJ e do CNPq e é coordenado por Victor Andrade de Melo.

[ii] Vale destacar que desde 1931, pelo menos, o tema futebol esteve presente de forma intermitente nos escritos de Carlos Drummond de Andrade. Com a conquista da Copa de 58, ele já havia aventado a possibilidade do presidente convidar determinados jogadores para pastas ministeriais. Maiores informações ver ANDRADE, Carlos Drummond. Quando é dia de Futebol.  Rio de Janeiro: Record, 2002.

[iii] Estamos utilizando o termo “atlético”, considerando que a ideia de desempenho atlético não se restringe exclusivamente a requisitos corporais ou físicos tomados em sentido stricto.

[iv] Joaquim Manoel de Macedo também fez menção à ginástica na obra Memórias da Rua do Ouvidor (1878), publicada originalmente em folhetins semanais no Jornal do Comércio.

[v] Maiores informações ver QUEIROZ, J. M. A carteira de meu tio: ficção e história em Joaquim Manuel de Macedo. Revista Brasileira de História e Ciências Sociais, v. 2, p. 1-10, 2010.

[vi] Não era raro, por exemplo, o uso da noção “ginástica política”, geralmente utilizada como categoria de acusação, isto é, em sentido pejorativo.

 


Desafiando o inimigo: o esporte e as lutas anticoloniais na Guiné

25/05/2013

Por Victor Andrade de Melo

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Da mesma forma que foi utilizado pelas autoridades governamentais tendo em vista os intuitos de manutenção do império português, o esporte também foi mobilizado pelas lideranças das lutas anticoloniais na Guiné Portuguesa (futura Guiné Bissau). Pode-se observar tal dimensão em algumas iniciativas de um dos principais personagens das lutas pela independência, um dos mais importantes intelectuais e líderes africanos do pós-Segunda Grande Guerra: Amílcar Cabral.

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Filho de cabo-verdianos, nascido na Guiné Portuguesa (em 1924), com oito anos Amílcar chegou a Cabo Verde, acompanhando seu pai, Juvenal Cabral, personagem de certa proeminência na história do arquipélago, que retornava à sua terra natal. Desde o tempo em que fora aluno de destaque no importante Liceu Gil Eanes (Mindelo, Ilha de São Vicente), Amílcar esteve envolvido com agremiações esportivas e associações juvenis, nas quais começou a tomar consciência da situação das colônias. Bom jogador de futebol, era apaixonado pelo esporte em geral.

Em 1945, Amílcar se deslocou para Lisboa, para estudar, como bolsista, no Instituto Superior de Agronomia. Por lá esteve envolvido com as atividades da Casa dos Estudantes do Império, do Clube Marítimo Africano, da Casa de África e do Centro de Estudos Africanos, instituições nas quais se formou uma parte importante das lideranças das lutas anticoloniais.

Cabral era presença constante nos eventos esportivos, se destacando nas diversas equipes de futebol que integrou. A sua paixão pelo esporte pode ser vista na caricatura realizada por um colega de turma, José Carlos Sousa Veloso, publicada no livro de final de curso (1945-1946) do Instituto Superior de Agronomia: é retratado de uniforme, meiões e chuteiras; nas mãos tem livros de Engels, Lênin e Dostoievski; seu amor por Cabo Verde é explicitado por suas lágrimas caindo sobre a representação do arquipélago em um globo.

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Desde que regressou à Guiné, em 1952, na condição de engenheiro agrônomo a serviço do Ministério do Ultramar, Amílcar se mobilizou para criar um clube esportivo para os naturais da província, vislumbrando que a agremiação deveria investir na elevação do nível cultural dos associados. Em 1954, funda o Clube Desportivo e Recreativo de Bissau. Nas suas palavras:

Antes de darmos início à luta armada, decidimos criar organizações africanas. Em 1954 começamos por criar organizações recreativas, já que era impossível nessa altura dar-lhes um caráter político. Isso foi importante não por causa da ideia de criar uma associação, mas porque o colonialismo não o permitiu, o que provou às grandes massas de jovens que se tinham entusiasmado por esta ideia, que sob o domínio português os africanos não tinham quaisquer direitos. Isso deu-nos mais coragem para outras ações, para difundir outras ideias e para fazer avançar a luta.

O clube fora concebido como uma estratégia para gestar um espaço para a realização de atividades políticas, em um momento em que estava restrita a possibilidade de reunião. Tinha também a intenção de garantir o que Cabral compreendia ser um direito básico de todos: o acesso a práticas esportivas, recreativas, artísticas. Amílcar, enfim, enxergava a iniciativa como uma alternativa para despertar a consciência da população para sua condição colonial, para conclamá-la a participar mais ativamente de ações de contestação.

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Essa foi, na verdade, uma estratégia política comum na trajetória de Amílcar Cabral: “formar pequenos grupos para discutir diversos assuntos culturais, relacionados com a literatura e poesia, por exemplo, e, ao mesmo tempo, ir destacando os elementos mais conscientes para, numa fase posterior, desenvolver um trabalho mais político e mais arriscado” (TOMÁS, 2008, p. 88).

Ao conclamar a juventude a participar dos movimentos anticoloniais, Cabral explicitava sua visão acerca da importância do esporte como estratégia de aglutinação, que precisa, contudo, depois ser superada com outro tipo de envolvimento:

Nessa grande batalha da justiça contra a injustiça, a juventude guineense e cabo-verdiana tem de desempenhar um papel importante. E é por isso que a nossa juventude se organiza cada vez mais, abandona o campo de futebol ou de basquetebol e todos os divertimentos fáceis, para se preparar  cuidadosamente para, no campo de batalha, empregar todas as suas forças, toda a sua inteligência, pela vitória da causa de nossos povos.

Essa postura era coerente com a sua ideia de que a cultura popular deveria formar a base para a luta anticolonial. Para ele, inclusive, não se tratava de negar, mas sim de reavaliar as bases culturais coloniais, as utilizando para fins de contraposição, de construção de uma nova ordem social.

No caso do futebol, antes mesmo da iniciativa de criação do Desportivo e Recreativo de Bissau, Cabral já se oferecera e atuara como técnico de equipes locais da Guiné. Na verdade, como o grupo inicial de engajados com suas propostas era formado majoritariamente por cabo-verdianos, tratava-se também de uma alternativa para buscar maior proximidade com os guineenses. Abílio Duarte lembra que:

O Cabral destinou-me ao Sporting, que era o clube mais anti-caboverdiano naquela altura. Entretanto, as coisas foram andando…Do meu lado, quebrei a vidraça da cachupa: acabei por estabelecer um relacionamento profundo com os guineenses, sem romper contudo os meus laços com os cabo-verdianos. Havia um casulo em que os cabo-verdianos viviam. Formavam um mundo à parte, só seu.

 Aristides Pereira, futuro primeiro presidente de Cabo Verde (1975-1991), também lembra que, até por não haver possibilidades de falar sobre política, se interessava muito: “pela camada jovem guineense, principalmente desportistas, e procurava incutir-lhes o gosto e a necessidade de aprender para além da instrução primária a que estavam confinados por lei”.

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Foto da seleção de futebol da Província Portuguesa da Guiné. Disponível em: http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com.br/2011/10/guine-6374-p8947-notas-de-leitura-292.html

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O futebol foi, portanto, uma das estratégias perspectivadas para tentar romper as desconfianças históricas que existiam entre cabo-verdianos e guineenses, o que não era de se estranhar já que muitos originários do arquipélago ocuparam postos ligados à administração da Guiné.

Mesmo que supostamente disfarçado o aspecto político, a Polícia de Segurança Pública (PSP) não tardou a desconfiar da iniciativa de criação do Desportivo e Recreativo de Bissau:

o Engenheiro Amílcar Cabral e a sua mulher comportaram-se de maneira a levantar suspeitas de atividades contra a nossa presença nos territórios de África com exaltação de prioridade de direitos dos nativos e, como método de difundir as suas ideias por meios legalizados, o Engenheiro pretendeu e chegou a requerer juntamente com outros nativos, a fundação de uma agremiação desportiva e recreativa de Bissau, não tendo o Governo autorizado.

 Os agentes policiais não estavam equivocados. Hoje se sabe que a experiência do clube foi uma das significativas iniciativas que antecederam e contribuíram para a criação do PAIGC. Segundo o próprio Amílcar:

As tentativas de organizações coletivas situam-se a partir de 1953. Os elementos ditos “assimilados” ou “civilizados” organizam-se a principio nas zonas urbanas. Em 1954 um grupo de nacionalistas da Guiné e de Cabo Verde tinha em vista fundar uma associação desportiva e recreativa, cujo objetivo secreto era o desenvolvimento da luta anticolonial. As autoridades opuseram-se a sua formação com o pretexto de que os estatutos inseriam uma cláusula segundo o qual os “indígenas” podiam ser admitidos como membros. Perante este obstáculo, um grupo de assalariados e comerciantes, funcionários e estudantes criou o MING (Movimento para a Independência da Guiné). Finalmente em setembro de 1956, no meio de uma reunião realizada em Bissau, o MING cede lugar ao PAIGC.

 Mesmo que a ideia do Desportivo e Recreativo de Bissau não tenha avançado, é fato que muitos dos líderes guineenses das lutas anticoloniais na Guiné estiveram envolvidos com as iniciativas de Cabral e/ou com outras agremiações esportivas locais: Bobo Keita, Carlos Correia, Constantino Teixeira e Nino Vieira, entre outros.

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Estádio Sarmento Rodrigues, posteriormente rebatizado para Estádio Lino Correa.

Estádio Sarmento Rodrigues, posteriormente rebatizado para Estádio Lino Correa.

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Para mais informações:

MELO, Victor Andrade de. (Des)mobilização para a luta: o esporte como estratégia nos conflitos da Guiné Portuguesa (décadas de 50 e 60 do século XX). Métis: História e Cultura, v. 10, n. 19, pp. 215-236, jan.-jun. 2011.

Disponível em: http://www.ucs.br/etc/revistas/index.php/metis/article/viewArticle/1746

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Futebol na Rússia e na União Soviética no século XX – o caso do clube Spartak Moscou

01/01/2012

Por Jorge Knijnik*

Nélson Rodrigues dizia que “toda unanimidade é burra”. Mas eu creio que algo praticamente unânime entre os frequentadores deste blog é o prazer da leitura. Segurar um livro que na verdade nos “segura” e faz com que “viajemos” com ele para todos os lugares é uma experiência absolutamente divina, uma das melhores coisas da vida.

Foi isso o que ocorreu comigo há alguns meses. Eu li com uma curiosidade, uma intensidade e uma emoção incríveis as quase 350 páginas do livro Spartak Moscow: A History of the People’s Team in the Worker’s State (Spartak Moscou – Uma historia do time do povo no Estado dos Trabalhadores), escrito por Robert Edelman e publicado em 2009 pela Cornell University Press. É sobre este livro, cheio de história(s) do esporte e do futebol que eu gostaria de comentar.

Na verdade, se eu fosse um “videomaker” e fosse filmar o livro de Robert Edelman, eu poderia fazê-lo usando três ângulos diferentes, usando formatos tão diversos que acabaria fazendo três filmes absolutamente distintos.

Usando este livro como roteiro, eu poderia filmar um documentário histórico muito bem detalhado, mostrando a historia do clube Spartak e as relações entre futebol e as gigantescas mudanças histórico-sociais que abalaram a Rússia (e a União Soviética) durante o século XX.

Entretanto, eu poderia usar o mesmo livro para produzir um filme sobre esportes, contando a história de um dos mais famosos times russos, o Spartak – o filme mostraria suas vitórias e derrotas, seus títulos, suas táticas inovadoras. Neste filme, eu colocaria depoimentos dos jogadores, técnicos e dirigentes do Spartak, e também mostraria as emoções de sua enorme legião de fãs, mostrando assim a paixão que todos tinham (e têm) pelo futebol do Spartak.

Agora, o mesmo livro ainda me possibilitaria produzir um eletrizante filme policial, no qual o espectador ficaria sem folego durante duas horas, e sempre se perguntando: “E agora? O que vai rolar?”, pois este filme falaria dos bastidores de um estado-policial, no qual o maior rival do Spartak (o Dínamo Moscou) era o clube apoiado pela policia secreta, era o time do órgão do Estado que a qualquer momento podia mandar os seus rivais esportivos direto para a cadeia e para os gélidos campos de concentração soviéticos.

Porem, como eu sou apenas um leitor sortudo (e não um péssimo “moviemaker”) eu encontrei todos estes aspectos reunidos neste maravilhoso livro: Spartak Moscou, a historia do time do povo é um livro repleto de detalhes e com inúmeras fontes, as quais fazem a alegria de qualquer um interessado na historia social do esporte.  O autor, sempre que possível, apresenta os dados históricos e simultaneamente questiona a versão oficial, chamando atenção para o fato de que o livro conta com fontes que são humanas! “Memórias falham. As pessoas contam histórias para si mesmas e acabam acreditando nelas” (p. 38). Essa frase, em conjunto com os esforços que o autor coloca para encontrar fontes as mais variadas possíveis, faz com que este livro seja um recurso extremamente valioso para o leitor com interesse na história social dos clubes europeus de futebol, sobretudo russos.

O livro começa na pré-história do futebol russo, na transição entre os séculos XIX e XX. Edelman mostra como as mudanças que ocorriam na sociedade russa, que passava por uma grande e acelerada urbanização, estavam causando uma “fluidez” nas identidades pessoais e sociais. Neste quadro, o autor demonstra como o futebol foi um agente essencial na construção de novos laços sociais entre os homens jovens que migravam para as cidades russas. O esporte era um dos espaços privilegiados para a construção de novas masculinidades, diferentes e diametralmente opostas àquela masculinidade tradicional do camponês russo, que era a norma vigente na Rússia ate então. Edelman afirma que “o futebol forneceu aos diversos tipos de Moscovitas, ricos e pobres, um jeito novo e diferente de mostrarem em um espaço publico sua masculinidade, sua forca física e virilidade” (p. 40). 

Tanto o futebol russo como o soviético sempre foram espaços dominados por homens, e Edelman argumenta que a questão das identidades sociais foi central na historia do Spartak. Jovens trabalhadores, que não tinham acesso aos campos esportivos das elites, jogavam futebol em qualquer espaço que encontrassem, sobretudo nas ruas (parece a América do Sul!). Estes jogos eram chamados de “futebol marginal” (dikki) e foram essenciais para a “pré-história do Spartak” (p. 16). Ao apresentar as raízes daquilo que se tornaria o Spartak, Edelman chama a atenção para o fato de que “o ímpeto para a criação do time não veio de cima, mas sim das ruas de Krasnaia Presnia” (p. 50). A autonomia e a espontaneidade encontradas naqueles jovens trabalhadores que jogavam nas ruas, e que se tornaram os fundadores do Spartak, são hoje consideradas a verdadeira “ideologia Spartakiana”. Essas raízes do Spartak influenciaram a identidade e a masculinidade destes jovens fundadores do time. Mais tarde, durante o século XX, a enorme legião de fãs do Spartak era formada por trabalhadores (o povo) que incorporaram uma masculinidade agressiva, indisciplinada e rebelde, diferente e oposta a masculinidade rígida, militarizada e disciplinada demonstrada pelos bem-comportados torcedores do Dínamo Moscou.

Krasnaia Presnia (Presnia é o bairro onde o clube nasceu e Krasnaia significa a cor vermelha, adjetivo apenso ao nome do bairro para simbolizar a revolução de 1917) foi o time que veio a se tornar o Spartak. Ele se localizava em uma região de trabalhadores braçais, lotada de fabricas, cortiços e favelas – e também cheia de grupos de bandidos que faziam daquela uma área perigosa e violenta. Foi na região de Presnia que os irmãos Starostin  cresceram. Aleksandr, Pavel, Anatoly and Nikolai Starostin possuíam uma condição social levemente melhor que seus vizinhos. Eles se educaram e cresceram ao mesmo tempo nas arriscadas ruas de Presnia – onde o futebol acabava por fornecer uma segura rede social de proteção  para os jovens meninos contra “um mundo de bebidas, drogas, apostas ilegais, sexo facil e assassinatos” (p. 29) – e em escolas comerciais que seus pais podiam pagar. Foi em uma destas escolas que Nikolai, o mais velho dos Starostin, foi introduzido ao futebol.

Conhecer a família Starostin é essencial para entender tanto o desenvolvimento do Spartak quanto do próprio futebol russo – mas também para entender como Edelman transforma o seu livro em uma apaixonante historia futebolística. Edelman conta as historias dos irmãos Starostin, que jogaram juntos no Spartak e viraram ídolos do futebol soviético. O autor mostra como Nikolai, o primogênito e líder dos irmãos Starostin não era somente um jogador e o capitão do time, mas também era um empresário de visão extraordinária, que colocou o Spartak no topo do futebol russo, e o trouxe para este futebol o reconhecimento internacional.

É neste momento do livro que “os três formatos de filme” que eu falei no início, começam a se reunir em uma coisa só. Sem se afastar um milímetro das suas rigorosas e detalhadas fontes históricas, Edelman relata as glórias do Spartak Moscou – cuja torcida gritava bei militsia (“peguem os policiais!”) quando eles jogavam contra o Dínamo Moscou, um clássico que parava a cidade, literalmente. O autor mostra as evoluções táticas do time, seus altos e baixos, seus jogos incríveis… E mostra tudo isso de um modo no qual fica claro que ser torcedor do Spartak durante o stalinismo era uma maneira de dizer “não” a polícia secreta, ao passo que torcer para o Spartak na época pós-stalinista era um jeito de dizer “sim” para as desejadas mudanças sociais. Ao mesmo tempo, Edelman conta a excitante historia dos irmãos Starostin, que conseguiram prosperar dentro do futebol russo, atraindo muita inveja no interior de um estado-policial no qual milhares eram assassinados ou enviados para campos de trabalhos forcados, em meio a uma atmosfera de intriga politica e terror. A cada página a curiosidade do leitor vai crescendo, afinal a grande duvida é saber se os irmãos Starostin serão mandados para os campos de prisioneiros, e afinal o que poderá acontecer com o Spartak sem eles.

Edelman continua contando a história dos Starostin e do Spartak, usando todas as fontes disponíveis. O leitor não consegue se desgrudar do livro, que conta com fotos incríveis do futebol no início do século XX, além de três apêndices com os resultados do Spartak e o “hall da fama” do autor, e mais 22 páginas com notas detalhadas para cada capítulo, e um index final muito claro.

É importante mencionar que o trabalho de Edelman foi premiado, em 2009, como o melhor livro da Associação Norte-Americana de Historia do Esporte. Independentemente do tipo de “moviemaker” que você seja, com certeza se beneficiara muito com esta leitura. Spasibo, Edelman, por nos contar historias tão excepcionais em um livro tão delicioso!  

http://www.cornellpress.cornell.edu/book/?GCOI=80140100191990

http://www.spartak.com/en/main/

* Esta crônica “baixou” na minha cabeça em uma ensolarada manha de domingo em Sydney, quando dirigia meu carro escutando e dançando com Lobão e sua indefectível ‘Radio Bla’. De modo que dedico esta resenha a todos e todas que “não conseguem controlar”, sobretudo aos meus queridos amigos Antenor Nicanor,  Marcelo Massa e Marcos Waca – sabem lá porque!


Cidade de lata

14/11/2011

Por Rafael Fortes

Dura menos de meia hora. 29 minutos e 47 segundos, para ser preciso. Traduzo o título por “Cidade de Lata” e o subtítulo, “O custo irresponsável da Copa do Mundo de 2010”. Tudo que está entre aspas neste texto foi retirado do filme e traduzido por mim.

O roteiro e o conteúdo revelam o que relativamente poucos sabem (e, destes, menos ainda estão dispostos a discutir, divulgar e tentar mudar).

Por exemplo, a repressão a trabalhadores informais de feiras livres sob a alegação de que as ruas precisam ser transformadas em espaços “amigáveis para o turista”. Ou seja, o espaço da rua e da cidade não são para quem vive nela. A preocupação da Prefeitura não é com os cidadãos/moradores – aqueles que a elegeram. A prioridade é a imagem. Você, leitor(a), conhece alguma cidade com dirigentes assim?

Ou a remoção (melhor seria dizer expulsão) de 10 mil pessoas para a cidade de lata, a 35km da Cidade do Cabo, onde viviam. Ao ver as primeiras imagens, pensei: parece um campo de concentração. Pouco depois, um entrevistado diz, acabando com qualquer dúvida: “isto é um campo de concentração”. Vemos a casa de lata de oito metros quadrados em que vive o personagem central. Vemos o banheiro de uso coletivo sem água. Um deles é uma cabine de cerca de um metro quadrado. No meio, um balde – isso mesmo, usa-se um balde para fazer as necessidades.

Ou o seguinte comentário: “saímos de uma opressão para ser oprimidos de novo? Isso não é justo.” Velhas e novas formas de segregação na terra que introduziu o termo apartheid no vocabulário global.

Ou as condições “opressoras” de trabalho e a “exploração” a que foram submetidos os operários das obras do Mundial, como baixos salários e contratos temporários.

*  *  *

Trailer:

Tin Town é o nome do filme. A produção é uma iniciativa da ONG Sport for Solidarity (algo como esporte para a solidariedade). Tive a oportunidade de assisti-lo graças a uma gentileza do diretor, Geoff Arbourne. (Ainda) não está disponível no Brasil.

Aliás, “o Brasil é o próximo.”

E aí?