Sea Club Overall Skate Show: tecnologia e espetáculo no Projeto SP (1988)

18/11/2018

Por Leonardo Brandão

A prática do skate vertical (realizada em grandes rampas no formato de “U”) passou, durante a segunda metade da década de 1980, por um grande desenvolvimento no país. Um marco desse período foi o “Sea Club Overall Skate Show”, um grande campeonato ocorrido no dia 09 de abril de 1988 na cidade de São Paulo, dentro de uma casa de show chamada “Projeto SP”. Esse evento, que chegou a ser exibido no programa “Esporte Espetacular” da Rede Globo, foi produzido numa parceria entre a empresa Sea Club e uma revista especializada em skate, chamada Overall.

Esse evento foi, segundo o editor dessa revista, algo tão bem organizado que até mesmo o obrigou a mudar o tempo verbal de seus editoriais, os quais sempre projetavam o skate como um esporte do futuro e/ou em crescimento. Agora, segundo ele, o skate já era um esporte do presente, um jovem tornado adulto. No editorial reproduzido abaixo, a presença do termo “atleta” como sinônimo de “skatista” demonstra bem a pretendida transição:

Dessa vez é no presente!

O tempo verbal empregado na construção das frases da maioria dos editoriais da Overall, ao longo desses mais de dois anos de trabalho, foi o futuro. Hoje, a realidade nos permite mudar o tempo dos verbos […]. Esta edição especial da Overall, com 84 páginas, sela definitivamente o início da fase adulta deste esporte no Brasil. O SEA CLUB OVERALL SKATE SHOW foi a prova final. O campeão mundial de skate vertical, e outro que está entre os dez melhores skatistas do mundo, desceram do Olimpo e vieram conferir e aplaudir o estágio de desenvolvimento que o esporte atingiu no Brasil. Não só eles, mas toda a imprensa nacional (mais a revista norte-americana Transworld) voltaram objetivas e máquinas de escrever para o maior evento de skate que o Brasil já teve (Revista Overall, n. 9, 1988, p. 08).

A presença de dois dos maiores ídolos do skate estadunidense, Tony Hawk e Lance Mountain, ambos pela primeira vez no país, ajudou a atrair a presença da grande imprensa e atiçar o júbilo público. Oferecido como espetáculo para as massas, o skate reinventava-se para além de seus nichos, seduzindo uma plateia ávida por movimentos arriscados, pirotecnias do corpo e da ação.

Para além do campeonato em si, é preciso notarmos que essa condução do skate vertical em direção ao esporte e, neste caso, ao espetáculo, ocorreu articulada ao que os sociólogos Norbert Elias e Eric Dunning chamaram de “o aparecimento do profissionalismo no desporto”, isto é, de um grupo de pessoas que, ao se tornarem profissionais em determinadas práticas, acabam por desenvolver “um nível de perfeição que dificilmente poderá ser alcançado por pessoas que se dedicam às atividades desportivas no seu tempo de lazer e apenas por prazer” (1992, p. 99). O fato é que os skatistas profissionais passaram a criar um conjunto de técnicas corporais diferenciadas e muito mais especializadas que os demais skatistas amadores ou somente praticantes de fim de semana; e isso acabou por conferir a esse grupo restrito as condições necessárias para protagonizarem um verdadeiro “espetáculo” para os admiradores dessa atividade.

Outro aspecto que merece destaque foi a comercialização do vídeo deste campeonato, tido como a “fita VHS do mais radical show de skate já visto no Brasil”. A presença do público (nove mil pessoas), dos dois skatistas convidados dos Estados Unidos e dos “24 melhores skatistas verticais do Brasil” eram os ingredientes oferecidos. O show de imagens, sem dúvida, transformava o skate – e, por conseguinte, o corpo desses skatistas – num espetáculo televisivo; uma vez que, como afirmou o sociólogo Pierre Bourdieu, “a constituição progressiva de um campo relativamente autônomo reservado a profissionais é acompanhada de uma despossessão dos leigos, pouco a pouco, reduzidos ao papel de espectadores” (BOURDIEU, 1990, p. 217).

Assim, a exibição das manobras de skate evidenciava um uso dessa atividade que implicava tecnologia e espetáculo – que uma vez adquiridos, poderiam ser vistos repetidas e repetidas vezes através da união do videocassete com a televisão. A transformação das competições em experiências midiáticas passou a refabricar a emoção do espectador, isto é, a criar novas formas e maneiras de vê-las. Diferentemente dos 9 mil espectadores que estavam presentes no Sea Club Overall Skate Show, e que por isso podiam ver a exibição in loco dos skatistas apenas do ângulo que estavam posicionados na plateia, a experiência do vídeo (filmado por diversas câmeras, sob vários ângulos e depois editado) ampliava as possibilidades de quem os comprasse de poder admirar melhor a performance de cada competidor, visualizando as muitas manobras efetuadas nos dois lados das rampas (“U”).

Figura 1: Capa do VHS “Sea Club Overall Skate Show”

Fonte: Revista Overall, n.9, 1988, p. 81.

A grandiosidade deste campeonato chamou à atenção da revista Veja, que publicou uma reportagem sobre ele, destacando o fato dos 24 participantes inscritos competirem com patrocínios; citando, como exemplo, o skatista Reginaldo dos Santos Neto, apelidado de “Pankeka” e patrocinado pela fábrica de skates H-Prol. Segundo a Veja, Pankeka recebia um salário de 50.000 cruzados por mês, além de equipamentos para os treinos e apoio também nas demais competições que participava.

Interessante notarmos que, embora a Veja se valesse desse campeonato para noticiar o skate em sua página dedicada aos “esportes”, a competição em si fora algo pouco abordado pela mesma. A revista não se preocupou em publicar os resultados (o ranking) e nem deu destaque aos melhores competidores. O interesse da reportagem era outro, anunciado claramente na seguinte manchete: “O skate entra na era do profissionalismo” (Revista Veja, 20/04/1988, p. 67).

Esse campeonato incentivou o aparecimento de outros eventos do mesmo porte no universo do skate vertical, todos elaborados para atrair um grande público, com estrutura de organização, cobertura midiática e ampla divulgação. No ano seguinte, por exemplo, um evento da mesma magnitude voltou a ocorrer, mas desta vez na cidade do Rio de Janeiro. Era a Copa Itaú de Skate, patrocinada pelo banco Itaú e realizada numa grande estrutura montada na praia de Ipanema. Era, enfim, a consolidação do profissionalismo no skate, dos grandes campeonatos e da elevação dessa prática realizada em grandes rampas ao patamar de um esporte espetacular.

Para saber mais:

BRANDÃO, Leonardo. A década de 1980 e o desenvolvimento do skate vertical. In: Recorde, Rio de Janeiro, v. 10, n. 2, p. 1 – 28, jul/dez de 2017.

Referências

BOURDIEU, Pierre. Coisas ditas. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1990.

ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa: DIFEL, 1992.


Esporte e industrialização

08/03/2018

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

Esta semana, discutimos no Laboratório Sport o capítulo “Industrialization and Sport”, de Wray Vamplew, professor emérito de Estudos do Esporte na University of Stirling. O texto integra o volume The Oxford Handbook of Sports History, organizado por Robert Edelman (University of California, San Diego) e Wayne Wilson (LA84 Foundation) e publicado em 2017. Trata-se de um ensaio que realiza um balanço bibliográfico da produção acadêmica em inglês sobre os temas mencionados no título, com ênfase nos EUA e na Grã-Bretanha.

Como destacou Luiz Carlos Sant’ana, o texto relativiza algumas relações que costumam ser tomadas como dadas nos estudos (históricos) do esporte. Por exemplo, as imbricações entre: a) esporte moderno e industrialização; b) disseminação do esporte e o espraiamento do império britânico no mundo. O fato de o autor ser um historiador econômico lhe permite lançar um olhar muito interessante e ainda pouco presente na maioria dos trabalhos de história do esporte – que, no Brasil, tem muito mais influência das histórias cultural e social (mais da primeira do que da segunda), conforme ressaltou Victor Melo.

A julgar por este capítulo, seria muito bom que o volume fosse logo traduzido e publicado no Brasil.

De minha parte, o que motivou estas breves notas foi considerar que o ensaio de Vamplew traz ao menos cinco contribuições para questionar/problematizar certos discursos e pressupostos sobre o esporte que persistem em alguns trabalhos sobre o tema na área de Comunicação – mas não só nela. O olhar de historiador econômico lhe dá elementos (e dados/conhecimento) para trabalhar por fora de categorias que são tomadas como dadas/estruturais quando, como alguns na Comunicação, se observa o plano das representações midiáticas como algo autônomo ou descolado em relação à vida concreta dos indivíduos, grupos, classes sociais e sociedades.

Eis as cinco contribuições:

1) As diferenças que existem entre um time, clube e/ou empresa esportiva e uma empresa comum.

2) A relação simbiótica de natureza diversificada – inclusive comercial – entre mídia e esporte desde, pelo menos, o finzinho do século XVIII (o texto fala de uma revista especializada publicada desde 1792!). Naquele momento, isto se restringia aos impressos (não custa lembrar: rádio, televisão e outros são invenções posteriores).

3) A fabricação de equipamentos para algumas modalidades atingiu graus de industrialização e comercialização em massa já no século XIX.

4) Dos pontos de vista comercial, econômico e profissional, há diferenças entre o modelo de organização em torno de clubes (Grã-Bretanha) e de franquias com proprietários (Estados Unidos).

5) Houve atletas recebendo para competir e obtendo recursos oriundos de fontes diversas antes mesmo da industrialização. A dicotomia amadorismo versus profissionalismo, muito presente nas primeiras décadas do século XX, dá conta de apenas uma parte das múltiplas e complexas relações entre esporte, mercado de entretenimento, lucro, trabalho e circulação de dinheiro.


Australianos e sul-africanos metem o pé na porta do surfe no Havaí (1974-1977)

01/06/2014

Por Rafael Fortes

Bustin´ Down The Door (As Lendas do Surf) narra/constrói a história de como um punhado de surfistas australianos e sul-africanos transformou a modalidade durante a segunda metade dos anos 1970. Até então, havia dois parâmetros para o ato de surfar:

Entre os havianos, cabia ao surfista seguir a onda, unir-se a ela. Na Califórnia, o objetivo era embelezar a onda, aparentando um certo desdém e realizando poucas manobras: ‘esforçar-se muito na onda era um sinal de indignidade’ (Fisher, 2005, p. 18). Os australianos (e os sul-africanos) pegaram o estilo californiano e desenvolveram cada vez mais a agressividade. Na Austrália, particularmente, o objetivo era dominar, despedaçar, destruir a onda (Booth, 2001, p. 100-1). A existência de visões distintas foi um dos problemas impostos aos que queriam desenvolver o surfe competitivo: ‘competições organizadas requeriam regras formais, mas a codificação não era uma questão fácil, pois os estilos de surfe refletiam variações regionais’ (Booth, 2001, p. 100). A construção de parâmetros unificados de avaliação das manobras nas competições internacionais se deu em meio a conflitos, mas a vertente australiana acabou se impondo. Nos dias atuais, a predominância do padrão agressivo leva à realização constante de manobras impensáveis, raríssimas ou impossíveis de completar nos anos 1980, como as muitas variedades de aéreo. Como ressalta Booth, a evolução se deve a fatores técnicos (como número de quilhas, peso, formato e material das pranchas), esportivos e culturais.

É destes australianos e sul-africanos que o documentário trata.

Pôster do filme (extraído daqui).

Pôster do filme (extraído daqui).

Introdução

Como recurso narrativo, embora enfoque o período 1974-1977, a trama começa e termina no presente. O início mostra campeões do final dos anos 1970 recebendo troféus na festa de fim de ano da ASP (Associação dos Surfistas Profissionais) na Austrália em 2007. E finaliza com diversos entrevistados – tanto os premiados quanto outros, de gerações posteriores – confirmando a relevância do papel desempenhado pelos primeiros para o surfe chegar ao estágio atual.

E o que fizeram esses agentes – além de serem os primeiros vencedores do circuito mundial de surfe – para merecer tal honraria? “Criamos um esporte, uma cultura e uma indústria”, afirma um deles. Foram fundamentais na criação do surfe profissional, porque queriam ser surfistas profissionais.

Narrado por Edward Norton, o filme fala basicamente de Pete Townend (Austrália), Shaun Tomson (África do Sul), Mark Richards (Austrália) e Wayne “Rabbit” Bartholomew (Austrália), que foram os quatro primeiros campeões mundiais de surfe, e de Michael Tomson (África do Sul) e Ian Cairns (Austrália). O documentário considera-os figuras fundamentais nas notáveis mudanças observadas na modalidade naquele período. Boa parte do tempo é preenchido com depoimentos dos seis.

O primeiro inverno havaiano (1974-1975)

Sendo surfistas de destaque em seus países, os seis sonhavam com o Havaí. Nas palavras de Rabbit: “Fizemos o Havaí. Conquistamos o lugar.” Tal postura, de acordo com eles, não significava desrespeito pelos locais. No início do filme, um dos depoentes se refere a Reno Abellira e outros que entravam na água em dias casca-grossa do North Shore como “deuses”.

Shaun Tomson afirma que, no primeiro verão “de verdade” no Havaí, seu objetivo era mostrar-se o melhor, porque era contestado em Durban, sua cidade natal. Praticantes de outros continentes viajavam para as ilhas porque, a partir de 1965, elas sediavam campeonatos. De 1970 em diante, ocorria algo inédito: o pagamento de prêmios em dinheiro para os vencedores.

Foram distribuídos 24 convites para participar dos campeonatos daquela temporada, sendo 22 para havaianos, o que Wayne Bartholomew considera “justo”. Afinal, surfar no North Shore era uma atividade para havaianos. Cabia aos cidadãos das demais nações do mundo mandar cartas pedindo para serem convidados para os campeonatos. Três dos protagonistas foram suplentes do Smirnoff Pro e disputaram uma vaga para a competição.

Naquele ano, os havaianos foram hospitaleiros com os visitantes.

A temporada 1975-1976

É o ponto de virada do surfe em direção ao profissionalismo.

As pranchas eram monoquilhas, mas Shaun Tomson inovou na forma de pegar tubos. Novas pranchas permitiram manobras e performances antes impossíveis, como surfar Pipeline de backside.

Tem início um “novo estilo” que valoriza a adrenalina. “Queríamos ser os mais agressivos, os mais radicais, fazer novas manobras”, diz um depoente. Os haoles inovam ao surfar Off The Wall e afirmam que criaram aquele pico. Fotógrafos passam a acompanhá-los com avidez de uma praia a outra.

“Quebrando a tradição”, aussies e sul-africanos ganham todas as competições do inverno havaiano de 1975. Os membros da nova geração se tornam ídolos da molecada e ocupam as capas de revista e os filmes. Ciosos do que desejavam – viver do esporte -, fizeram marketing e promoveram a si mesmos e ao surfe.

Passada a temporada, Rabbit escreve um artigo (Bustin´ down the door) no qual afirma que ele e os demais não ficariam mais esperando favores para entrar pela porta dos fundos nos campeonatos: haviam arrombado a porta.

Os havaianos ficaram enfurecidos. No inverno seguinte vieram as consequências.

A temporada 1976-1977

Uma delas foi a criação dos black trunks (ou Da Hui), um grupo de locais do North Shore. Entre eles, Eddie Rothman, cujo depoimento no filme é uma pérola, repleto de episódios dos quais não se lembra, sempre rindo. Chegaram a ser presos e ganharam fama pelo localismo casca-grossa.

Além do texto de Rabbit, outros textos publicados em revistas de surfe – como um que criticava a formação do Da Hui – irritaram os havaianos.

Os membros do clube meteram a porrada em Rabbit na primeira ocasião em que o australiano surfou em Sunset naquele ano. Na sequência, ameaçaram queimar a casa em que estava hospedado. O haole fugiu para o meio do mato e depois se escondeu com Ian Cairns num hotel, do qual não podiam sair.

Ambos receberam escolta policial para comparecer ao Pipe Masters (até hoje o importante campeonato de surfe mais importante do mundo). Os protagonistas relatam ter apanhado muito, e mais de uma vez. Um comprou uma escopeta. Outro comprou uma arma e um taco de beisebol.

Em dado momento, ainda isolados no hotel, recebem a visita de Eddie Aikau, lendário surfista e salva-vidas. Eddie os conduz a um julgamento, em que atua como mediador. Mark Richards, um dos protagonistas, é usado no julgamento como o bom australiano, em oposição a Cairns e Bartholomew. No salão de conferências de um famoso resort de Oahu, 150 pessoas participaram do julgamento de dois estrangeiros – com veredito e tudo.

De acordo com os depoimentos, os problemas extrapolavam o universo das praias: havia um clima de violência em Oahu, em meio a intenso consumo e tráfico de drogas. Muitos havaianos tinham a sensação de que haviam perdido tudo para os estrangeiros e ocupantes – a começar pelos EUA. Só lhes sobrara o surfe, e agora haoles estavam querendo tomá-lo. No universo do surfe, houve ameaças de morte até para os jornalistas que escrevessem sobre as brigas, grupos e ameaças.

Outros conflitos

Embora o documentário trate o ocorrido com os australianos e sul-africanos como sui generis, há ao menos duas experiências similares, respectivamente com californianos e brasileiros:

a) no “inverno de 1969-70, quando os havaianos atacaram os ‘surfistas hippies e cabeludos principalmente da Califórnia [sic] que traziam drogas e se sentiam os donos de tudo’.” (Reinaldo Andraus, “Arrepio: só nas ondas”, Fluir 20, mai 1987, p. 48)

b) no inverno de 1986-1987, foi a vez dos brasileiros. Um grupo teve a casa onde passava a temporada cercada e ameaçada de incêndio por havaianos. O sítio ao imóvel “repetiu-se algumas vezes e só foi suspenso com apelos à polícia e ao consulado brasileiro”. (Alberto A. Sodré, “Hawaii: um inverno quente nas ilhas”, Fluir 20, mai 1987, p. 44)

(Para os historiadores que se encantam com a leitura de fontes, fica a dica: estas duas reportagens são maravilhosas!)

Considerações finais

O filme termina com informações sobre a criação da IPS (International Professional Surfers), primeira entidade a organizar um circuito mundial de surfe. Executivos de multinacionais da indústria de surfwear afirmam que aqueles seis foram fundamentais para as empresas crescerem e se tornarem o que passaram a ser: com eles, havia ídolos para estampar os anúncios das marcas nas páginas das revistas e despertar a admiração dos jovens.

Bustin´ Down the Door traz depoimentos riquíssimos. (Fico imaginando o material bruto com o depoimento completo de cada entrevistado…) Também pode ser visto como uma produção audiovisual que cristaliza e reforça um mito fundador bastante presente na subcultura da modalidade (para uma reflexão sobre a relação entre mitos fundadores no surfe e pesquisa científica, ver Dias, 2011).

Para além do conteúdo – foco deste texto -, é um filme bonito, que mescla imagens produzidas para ele com gravações de arquivo. Há muitas imagens granuladas de grande beleza, tanto em cor quanto em P&B.

Informações técnicas

EUA, 2008, 96′

Direção: Jeremy Gosch

Um dos protagonistas, Shaun Tomson, filmou boa parte das imagens registradas no campeonato de 1974-5 em que Mark Richards tomou parte. Tomson é também o produtor executivo e um dos roteiristas.

O filme é “inspirado” por Wayne “Rabbit” Bartholomew.

Entre os depoentes estão lendas do surfe como Ben Aipa, Tom Carroll e Greg Noll.

Na trilha sonora: Leonardo Cohen, The Stooges e David Bowie, entre outros.

Para saber mais

– Sobre o esporte na Austrália, ler os textos de Jorge Knijnik;

– Sobre esporte e cinema, os de Luiz Carlos Sant´Ana;

BOOTH, Douglas. Australian Beach Cultures: The History of Sun, Sand and Surf. London: Frank Cass, 2001.

DIAS, Cleber. Vaca longa: repensando a historiografia brasileira do esporte a partir do surfe na Bahia. Recorde: Revista de História do Esporte, Rio de Janeiro, v. 4, n. 2, p. 1-11, dez. 2011.

FISHER, Kevin. Economies of Loss and Questions of Style in Contemporary Surf Subcultures. Junctures: The Journal for Thematic Dialogue, Dunedin, n. 4, p. 13-20, June 2005.

A primeira citação longa foi extraída de FORTES, Rafael. O surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri/Faperj, 2011, p. 194-5.

Em tempos de redes sociais, cabe registrar a dificuldade de encontrar dados no site atual da ASP (reformulado em 2014). Deve ser ótimo para ver na tela do celular, mas simplesmente sumiu com boa parte das informações antes disponíveis – e, pior, com os meios de encontrá-las! A extensa quantidade e qualidade de dados que havia sobre a entidade e o passado do surfe profissional foi trocada por uma historinha pobre e sem links.