Histórias do esporte e das práticas corporais em Rubem Fonseca (parte 2)

26/04/2020
Por Fabio Peres

Em A grande arte (1983), romance de Rubem Fonseca, o protagonista-narrador Mandrake nos conta que:

[…] lembrava do primeiro dia: uma noite, ia passando pela avenida Ataulfo de Paiva e vi as janelas iluminadas de uma academia de ginástica. Desde os tempos de Eva Cavalcanti Meier eu ficara fascinado pelas mulheres que faziam ginástica. Mas essa era outra história. Na academia várias mulheres corriam em fila, ao som de música que não se ouvia da calçada. A frente, de malha preta, uma mulher alta e magra, de pernas longas e fortes, o pescoço meio curvado, movimentava-se sem esforço. Esperei a aula acabar e ela sair. Abordei-a na rua. “Estava vendo você fazer ginástica. Parecia um cavalo num quadro de Ucello”, eu disse. “Eu sei quem é Ucello”, ela disse, “da Uffizi”. Não era o da Uffizi era o do Louvre, o negro do centro, com as patas levantadas, mordendo os freios, o focinho torcido para a esquerda. Ela não falava com estranhos, mas meu rosto inspirava confiança a todas as mulheres do mundo. Além disso, era a primeira vez que alguém lhe dizia que ela parecia um cavalo (grifos nossos).

Em um post anterior, defendi que talvez poderíamos usar o adjetivo esportivo para qualificar a literatura de Rubem Fonseca, escritor recém falecido no último dia 15.

O argumento – na época de publicação do post – era que, não apenas o fenômeno esportivo esteve frequentemente presente desde os seus primeiros escritos, como também as diferentes narrativas para representar as práticas esportivas e corporais  eram impregnadas de temporalidades e espacialidades que lhe conferiam uma, por assim dizer, consciência histórica.

A Batalha de San Romano (c. 1435 a 1440). Paolo Uccello. Museu do Louvre (Paris, França). Obra mencionada em A Grande Arte (FONSECA, 1983), na qual a ginástica realizada por uma personagem é comparada ao cavalo negro representda no centro do quadro.

Ao defender a possibilidade de tratar a literatura de Fonseca como objeto ou fonte histórica, a provocação era uma forma de perturbar os limites e as fronteiras do campo da História do Esporte; uma maneira de nos ajudar a entrever histórias justapostas e entrecruzadas à prática esportiva: histórias “do corpo, de gênero, da cidade, de classe, da discriminação racial, da homofobia”, entre tantas outras, que a obra fonsequina é capaz de revelar.

Se as histórias são mais ou menos conservadoras ou críticas, lineares ou complexas, ambíguas ou unívocas, sem nuances, é algo que a História do Esporte ainda precisa melhor investigar. Constitui um duplo e intrincado desafio de reconstruir o universo do autor, historicamente situado, e o “mundo” que o texto procura expressar.

Como forma de homenagear o “realismo feroz” de sua obra, como definiu Antonio Candido (1989, p.210), e sua literatura esportiva, reproduzo a seguir o conto O desempenho, publicado em 1969 no livro Lúcia McCartney, no qual uma luta de Vale-tudo é narrada em primeira pessoa.

Clique na imagem para acessar O desempenho (1969).

Sem dúvida, a “vida pregressa como boxeador, jogador de basquete, atleta aquático (chegou a nadar três vezes por semana do Morro da Viúva à Praça 15)” de Rubem Fonseca – como relata seu amigo, jornalista, também escritor, Sergio Augusto (2020) – ajuda a entender a presença e a estética atribuída a tais práticas em suas obras. Mas essa história ficará para um próximo post.

__________________________________________________________

AUGUSTO, Sérgio. Zé Rubem. Estado de S. Paulo. Especial, H8, 25 de abril de 2020.

CANDIDO, Antonio. A educação pela noite & outros ensaios. Rio de Janeiro: Ática, 1989.


Em defesa de arquibancadas mais plurais: rememorando a Coligay

17/02/2020

Luiza Aguiar dos Anjos (IFMG – Campus Formiga)

No dia 27 de março de 1977, o Grêmio fez sua estreia na 57ª edição do Campeonato Gaúcho de Futebol. O clube iniciava sua caminhada no torneio com a esperança de acabar com um longo período sem títulos, assim como interromper a série de conquistas estaduais do rival Internacional, que vinha de uma sequência de oito taças consecutivas, sagrando-se campeão anualmente desde 1969. Para agravar o incômodo gremista com o sucesso do principal adversário, a equipe colorada não se impunha apenas em seara local, tendo sido bicampeã nacional ao conquistar a Copa Brasil de 1975 e de 1976.

Ao longo da competição, os dois maiores times do estado fizeram o que se esperava deles: superaram os demais e decidiriam entre si quem seria o campeão estadual daquele ano.

O jogo derradeiro foi disputado no Estádio Olímpico. Em casa, em frente à sua torcida, era que o Grêmio buscaria encerrar aquele infeliz jejum de títulos.

O teor dramático da partida começou quando, aos 22 minutos de jogo, foi marcado um pênalti a favor do Grêmio. O atacante Tarciso, batedor oficial do time e com boa média de acertos, mandou uma bomba à esquerda do goleiro colorado, mantendo o empate sem gols. Mas não tardou para o placar ser inaugurado. Em um embate de ânimos cada vez mais exaltados, aos 42 minutos, ainda no primeiro tempo de jogo, o atacante André Catimba fez a festa dxs[1] gremistas. O momento tornou-se ainda mais memorável com a comemoração. O jogador tentou um salto mortal, mas interrompeu o movimento no meio do caminho, ao sentir uma distensão muscular, caindo de forma completamente desajeitada. Com a aproximação do fim da partida, a torcida tricolor não conteve a comemoração, pulando das arquibancadas e ocupando o campo. Trinta minutos passados da invasão, sem condições de retomar o jogo, o árbitro declarou seu encerramento. Após oito anos, o Grêmio voltava a levantar a taça de campeão estadual.

Em meio ao furor dessa conquista, na edição do dia seguinte à partida, o jornal Zero Hora – periódico mais popular do Rio Grande do Sul – reservou uma página inteira para tratar da história da constituição de uma nova torcida gremista que, desde o início do Campeonato Gaúcho, chamava a atenção dxs frequentadorxs do Estádio Olímpico: a Coligay.

Recorte da reportagem da Zero Hora sobre a Coligay (26/09/1977)

Como o nome indica, essa torcida era formada predominantemente por homens homossexuais, o que já parece ser motivo de surpresa e curiosidade no contexto futebolístico brasileiro, no qual a heterossexualidade, mais do que tomada como norma, é enfatizada como valor. Contudo, tal agrupamento fez-se notório não (apenas) porque explicitava a homossexualidade de seus integrantes em sua retórica, mas, sobretudo, porque fazia de tal identidade sexual o norteador de sua performance estética nas arquibancadas: trajavam longas batas com as cores do Grêmio, cada uma delas com uma letra na frente que formava o nome do clube, complementadas por “rebolados frenéticos e gritinhos um tanto histéricos” (TORCIDA…, 1977, p.42).

Coligay fazendo sua festa no estádio Olímpico

A Coligay surgiu da iniciativa do empresário gremista Volmar Santos. Ele teve a ideia, liderou a mobilização e realizou as articulações financeiras e logísticas necessárias para efetivar sua formação. Volmar era proprietário da boate gay Coliseu e foram seus frequentadores quem ele convidou para fundar a torcida. A boate acabou servindo como sede. Xs componentes iam ao Coliseu no sábado, viravam a madrugada, e, na manhã seguinte, ali mesmo, pegavam seus apetrechos ali armazenados, se organizavam e seguiam para o estádio em que o Grêmio fosse jogar.

Num primeiro momento, o gremismo da torcida foi questionado, mas sua animação e assiduidade fizeram com que conquistassem o reconhecimento dx torcedorxs, jogadores e dirigentes. Prova disso é que a Coligay se manteve em atividade nos estádios até os primeiros anos da década de 1980.

Existindo durante os violentos tempos de ditadura militar, se esquivaram da repressão governamental ao não se envolver com a militância política e por possuir entre seus integrantes ou apoiadores “gente importante”, segundo o líder Volmar (FONSECA, 1977). Também não buscaram compor uma militância homossexual mais ampla ou organizada – o que também poderia fazer deles alvos do policiamento. Baseavam sua atuação na festa. O que não é pouco.

É inegável que o estádio de futebol privilegia um tipo bastante específico de masculinidade, associada, sobretudo, à virilidade e à agressividade, traços também enfatizados na cultura gaúcha. A reafirmação desses valores perpassa com frequência pela definição e representação dos homossexuais como a antítese desse modelo de masculinidade, o que os legitimou como alvos históricos da violência verbal e, por vezes, física de torcedorxs de futebol. A Coligay acaba por desarticular a expectativa de desencaixe e inadequação de homens homossexuais ao espaço futebolístico, sem que ela tenha se mostrado uma torcida “igual às outras”. Ela compactuou com códigos do futebol, se dispondo ao confronto físico e verbal, empunhando bandeiras e apoiando intensamente a sua equipe. Por outro lado, impôs seus requebros, suas vestimentas espalhafatosas, seu linguajar debochado e provocativo.

Nos últimos anos, a participação de sujeitos LGBT+s nos esportes, e mais especificamente no futebol, tem se tornado um tópico de análise e discussão. Torcidas, jogadorxs, clubes e federações, que durante décadas ignoraram a existência de tais sujeitos – e mesmo contribuíram com sua invisibilidade – têm sido convocados a responder e agir sobre alguns dos processos que xs mantém à margem, com destaque para as manifestações homofóbicas, mas não apenas. A mídia tem contribuído com isso ao tratar esses temas de forma mais frequente e crítica.

Nesse processo, a Coligay tem sido relembrada, após algumas décadas de esquecimento (ou ocultação). Sem supor uma idealização dessa torcida, acredito que ela nos ajuda a perceber que outras experiências de torcer, mais plurais, são possíveis.

 

Referências

FONSECA, Divino. Para o que der e vier. Placar, n.370, p.48-50, 27 mai. 1977.

TORCIDA: Coligay: história e pedágio da vitória. Zero Hora, Porto Alegre, p.42, 26 set. 1977.

 

Para saber mais:

Esse texto foi elaborado a partir da minha Tese de Doutorado, abaixo identificada. Nesse ano, publicarei um livro baseado nessa pesquisa, com acréscimos e adaptações. A obra, lançada pela Editora Dolores, será intitulada “Plumas, arquibancadas e paetês: uma história da Coligay”.

ANJOS, Luiza Aguiar dos. De “São bichas, mas são nossas” à “Diversidade da alegria”: uma história da torcida Coligay. 2018. 388f. Tese (Doutorado em Ciências do Movimento Humano) – Faculdade de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2018.

[1] Utilizo o “x” com o intuito de adotar uma linguagem não-binária. A escolha visa descaracterizar a ideia de que as palavras são masculinas ou femininas, assim como a utilização do masculino como referência. Ao usar o “x” busco contemplar igualmente homens, mulheres e aqueles e aquelas que fogem da norma binária. Especificamente nos momentos em que for tratar de agrupamentos que possuem exclusivamente pessoas identificadas como homens mantenho o uso do masculino.


“Um arco-íris multicultural de sotaques e cores de pele”: a diversão no Campeonato Mundial de Surfe Amador de 1988

19/01/2020

Por Rafael Fortes (rafael.soares@unirio.br)

O Campeonato Mundial de Surfe Amador realizado em 1988 em Porto Rico é frequentemente apontado por jornalistas, surfistas e memorialistas como um marco na trajetória brasileira no âmbito competitivo internacional. Isto porque o brasileiro Fabio Gouveia sagrou-se campeão da categoria Open, a de maior destaque (o mundial amador é uma competição por equipes e este aspecto costumava receber pouco destaque na imprensa brasileira, mas esta é outra história). Um título inédito, tanto entre os campeonatos da primeira era (1964 até 1972, sendo o de 68 também em Porto Rico) quanto aqueles realizados a partir de 1978, organizados pela International Surfing Association (ISA), fundada em 1976.

Enquanto nas revistas de surfe brasileiras a cobertura enfatizou a vitória do atleta conterrâneo, em publicações internacionais a ênfase foi – como era de se esperar – distinta (ainda que Surfing tenha mencionado mais de uma vez o título do brasileiro, inclusive dedicando a ele uma coluna de um terço de página assinada por Sam George). Neste texto, trato de uma reportagem específica, assinada por Mitch Varnes em Surfing, publicação com sede em San Clemente (Califórnia) e circulação nos EUA e em diversos países, inclusive o Brasil. A edição de 1988 do Campeonato Mundial de Surfe Amador recebeu um grande destaque. A matéria de Varnes ocupou nove páginas. Entre os possíveis motivos, penso na condição de Porto Rico (até certo ponto parte dos Estados Unidos), a proximidade (menor gasto com passagens) e a grandiosidade do evento, que contou com patrocínio de diversas empresas dos EUA.

No geral, as matérias com cobertura dos campeonatos de fato destacavam mais a disputa por equipes (fruto do total de pontos obtidos nas categorias disputadas por indivíduos). Isto também ocorreu com a reportagem em questão. Interessa-me, aqui, destacar a grandiosidade e o caráter festivo atribuídos ao evento. A começar pelo título: “O Maior Espetáculo da Terra”. A reportagem destacou que o campeonato foi realizado em três locais do “Havaí do Atlântico”, ocupou duas semanas do mês de fevereiro e atraiu um público porto-riquenho grande e entusiasmado. Vinte e seis países foram representados por quase 400 surfistas – dois recordes. Entre eles “inscrições supreendentes vieram de países como Israel, Itália, Noruega e Alemanha Ocidental”. Houve numerosos elogios aos esforços e competência dos porto-riquenhos na organização – um contraste nítido com as críticas ao campeonato de 1984, na Califórnia.

A ampla maioria dos participantes não tinha possibilidades de título (algo muito frequente em competições esportivas, mas raramente abordado na cobertura midiática), então importou-se mais em jogar sinuca e se divertir no “Ala Mar, um popular point noturno frequentado por competidores menos preocupados ou por aqueles já eliminados. Dançando noite afora no clima tropical, as multidões de surfistas formavam um arco-íris multicultural de sotaques e cores de pele”.

As festas parecem ter sido ótimas. Uma foto mostra jovens à noite num bar/casa noturna, com a legenda: “a equipe venezuelana experimenta um pouco da hospitalidade local”. Vários na imagem seguram latas de Budweiser, cerveja patrocinadora do campeonato. Os competidores ficaram hospedados numa base militar desativada dos EUA – em uma das noites, os Ramones fizeram um show exclusivo para os participantes.

Já o chefe da delegação dos Estados Unidos estabeleceu um toque de recolher para seus subordinados. Por ocasião do “show de talentos especial” das delegações, “a ausência” dos atletas daquele país foi “mais notável”. Para completar, o chefe da delegação apresentou uma reclamação formal à organização, argumentando, segundo a reportagem, que tal evento noturno “mantinha seus surfistas acordados até muito tarde, comprometendo desnecessariamente a seriedade da competição”. Em contraste, na referida noite,

“O resto do mundo se divertiu à beça. Sob a luz das estrelas e o conjunto de bandeiras nacionais esvoaçantes, os japoneses lutaram sumô; (…) os anfitriões porto-riquenhos e os visitantes taitianos compararam provocativos flamencos com vigorosas hulas. Foi uma noite rara e especial, e somente uma corajosa iniciativa de Bill McMillen, da Flórida, que subiu ao palco com sua solitária gaita e tocou algumas canções de blue-grass, salvou o tristemente desinteressado time dos Estados Unidos de um distanciamento cultural total.”

Após estes e outros parágrafos sobre o espírito de alegria e congraçamento que estes encontros de jovens proporcionam, a matéria se encerra citando o caso do representante da Noruega, praticante solitário nas águas geladas de seu país, mas “talvez o surfista mais satisfeito de todo o evento” por nele ter encontrado camaradagem e, durante “duas semanas loucas e ensolaradas (…), uma família” na comunidade do surfe.

Para saber mais

FORTES, Rafael. A cobertura do Campeonato Mundial Amador em Surfing (1978-1990). Contracampo, Niterói, v. 36, n. 2, p. 179-199, ago.-nov. 2017. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.22409/contracampo.v36i2.955>. (A version in English is available.)

Sobre o esporte em Porto Rico, ver os trabalhos do pesquisador Antonio Sotomayor, em especial o livro The Sovereign Colony: Olympic Sport, National Identity, and International Politics in Puerto Rico. Lincoln: University of Nebraska Press, 2016.


“Pintou o verão!”: surfe, skate e juventude na revista Pop (1972-1979)

23/09/2019

Por Leonardo Brandão (brandaoleonardo@uol.com.br)

No Brasil, durante a década de 1970, os esportes praticados à maneira californiana, principalmente o surfe e o skate, encontraram na revista Geração Pop – chamada somente como Pop a partir de sua edição de número 32 – um dos seus principais meios de comunicação. Colorida e publicada com periodicidade mensal pela editora Abril entre novembro de 1972 e agosto de 1979, essa revista chegou a contar com 82 edições em seus quase sete anos de existência e atingir um considerável público leitor para a época, pois, de acordo com a declaração de sua editora, ela “vendia pelo menos 100 mil exemplares mensais” (MIRA, 2000, p. 154).

A Pop não foi uma revista específica sobre esporte, mas sim uma publicação que aliava a divulgação da música Pop (sobretudo o rock) com diversos temas considerados por ela como de interesse juvenil. Focada em rapazes e moças entre 14 e 20 anos, ela utilizava-se de inúmeras gírias existentes na época para elaborar um clima de maior proximidade com seus leitores e, com isso, gerar certa intimidade no momento da leitura.

A revista Pop teve uma influência muito grande em determinados segmentos juvenis; pois por viverem numa época onde não havia Internet e, segundo entrevistas, num “clima de ditadura”, eles acabavam por ter pouco material disponível em termos de informação cultural. Além disso, foi através da Pop que muitos jovens, durante a metade da década de 1970, conheceram algumas das tendências esportivas da juventude norte-americana, como o surfe, o skate, o bodyboard, entre outros (BRANDÃO, 2014).

Segundo a historiadora Denise Bernuzzi de Sant’Anna, embora a revista Pop tivesse na música sua ancoragem central, ela também passou a “atrair milhares de jovens da classe média e aproximá-los do mercado especializado na venda de novos acessórios e roupas para as atividades esportivas em expansão” (2005, p. 8). Na década de 1970, dentre essas “atividades esportivas em expansão”, encontravam-se de forma reticente nas páginas da revista Pop os esportes praticados à maneira californiana, sobretudo o surfe e o skate. De acordo com o pesquisador Luís Fernando Borges, o propósito dessa revista foi justamente o de buscar um contato com o público jovem, e para isso ela veiculava as últimas novidades surgidas no acelerado mundo da cultura juvenil, recheando suas páginas de artistas como “Elton John, Secos & Molhados, os últimos campeonatos de surf e skate” (2003, p. 07).

Podemos observar um bom exemplo neste sentido ao analisarmos a capa da edição de novembro de 1977 da revista Pop, a qual comemorava, em letras garrafais, que “PINTOU O VERÃO!”, estampando um jogo de imagens fotográficas que, composta tal como um mosaico, objetivava tanto traçar um painel do que se encontrava em seu interior  quanto capturar os olhares de quem passasse por uma banca de revistas: garotas de biquíni, jovens surfistas “entubando” uma onda, astros do rock descontraídos e sem camisa, manobras “de arrepiar” de skatistas em grandes tubos de concreto.

Figura 1: Revista Pop, editora Abril, nº 61, 1977.

A revista Pop se valia dos corpos magros e bronzeados como espetáculo aos olhos e desejos dos leitores. Como nos lembrou o historiador Georges Vigarello (2006, p. 171), trata-se de uma época em que já é possível percebermos um maior ritmo dado às expressões e aos movimentos, com sorrisos mais expansivos e corpos mais desnudos, aspectos esses acentuados pelos espaços de férias, praias e divertimentos. Nesta mesma direção, Sant’Anna (2010, p. 190) sugere que essas manifestações reforçavam “a voga da alegria juvenil”, exaltando a “libertação” do corpo.

O pesquisador ou a pesquisadora que se interessa pela história dos esportes praticados à maneira californiana, sobretudo a história do surfe e a do skate, encontrará nessa revista uma série de elementos convidativos à reflexão. Pelo fato de Pop ter sido a primeira publicação impressa no Brasil dedicada exclusivamente à juventude e pela quantidade considerável de edições publicadas durante a década de 1970, ela é, sem dúvida, uma fonte imprescindível para a compreensão dos esportes californianos e da condição juvenil na história recente.

Referências Bibliográficas

BRANDÃO, Leonardo. Para além do esporte: uma história do skate no Brasil. Blumenau: Edifurb, 2014.

BORGES, Luís Fernando Rabello. Mídia impressa brasileira e cultura juvenil: relações temporais entre presente, passado e futuro nas páginas da revista Pop. In: Anais do XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. Minas Gerais, 2003, p. 1 – 14.

MIRA, Maria Celeste. O leitor e a banca de revistas: a segmentação da cultura no século XX. São Paulo: Olho d’Água/Fapesp, 2000.

SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. Uma história da construção do direito à felicidade no Brasil. In: FREIRE FILHO, João (org.). Ser feliz hoje: reflexões sobre o imperativo da felicidade. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010, p. 181 – 193.

SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. Representações sociais da liberdade e do controle de si. In Revista Histórica, São Paulo, v. 5, 2005, p. 1 – 17.

VIGARELLO, Georges. História da beleza: o corpo e a arte de se embelezar, do Renascimento aos dias de hoje. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.


Alfândega, noitadas e mercadorias de presente: uma breve passagem de surfistas sul-africanos pelo Rio de Janeiro

19/08/2019

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

A África do Sul tinha papel importante no cenário internacional do surfe na segunda metade dos anos 1970, tanto pela qualidade das ondas de seu território quanto pela participação de surfistas, dirigentes, juízes, empresários e/ou profissionais de mídia, entre outros, oriundos daquele país. Isto se dava concomitantemente ao crescente isolamento internacional do país, que incluía boicotes como forma de pressão contra os sucessivos governos devido à política de segregação racial conhecida como apartheid. Nos últimos anos, tenho me dedicado tanto a investigar o lugar peculiar do surfe em meio ao boicote esportivo internacional, como também às representações do Brasil e do Rio de Janeiro em revistas internacionais.

Um dos indícios de uma cultura e economia do surfe fortes em um determinado país nos anos 1970 e 1980 é a existência de publicações especializadas, sobretudo revistas. Criada em 1976 na cidade de Durban e ainda em circulação, Zigzag é a mais longeva e provavelmente a mais importante revista de surfe da África do Sul. A edição de junho-agosto (a periodicidade era então trimestral) de 1979 trouxe matéria a respeito de uma viagem realizada por três surfistas às Américas. Os sul-africanos – um deles, autor do texto – viajaram para Brasil, Peru e Canadá. Eis dois trechos:

“(…) passar pela alfândega no Rio de Janeiro (…) Medo de possivelmente passar horas tentando convencer um funcionário olhudo de que só tenho mercadorias para os pobres ratos de surfe brasileiros. Para minha surpresa, sou liberado após dar ao cavalheiro um exemplar de ZigZag – ele ficou amarradão. A animação de Rico ao ver um funcionário da alfândega de fato sorrindo foi contagiante. Os dias que se seguiram são selvagens com noites loucas e gente amigável vivendo apenas o agora. Rico e sua bela mulher Bia quase me convencem a ficar para o Carnaval, mas o chamado da minha próxima parada é grande demais. 1980 será meu ano de carnaval! (…)

Em verdadeiro estilo sul-americano, um voo de seis horas leva 12 para chegar a Lima após o piloto decidir que precisa de algumas horas de pausa para um lanche e faz uma escala imprevista em São Paulo.” (LARMONT, Mike. The Snow Boogie. Zigzag, jun.-ago. 1979. Tradução minha. Abaixo, a primeira página do texto.)

Gostaria de abordar brevemente quatro pontos no trecho citado. Primeiro, as referências à passagem pelo controle alfandegário na entrada em território brasileiro, ocorrida no aeroporto internacional do Galeão, no Rio de Janeiro. Larmont afirma que estava receoso quanto ao trato que receberia por parte dos funcionários responsáveis pela revista de bagagens e a como classificariam os objetos que trazia – segundo ele, agrados para presentear surfistas brasileiros. Relata ainda ter sido um exemplar da própria Zigzag o argumento final que permitiu o desenrolo (como se diria na linguagem corrente das quebradas cariocas) com o trabalhador da alfândega. Seria este um servidor público da Receita Federal? Acredito que sim, embora não seja possível afirmar ao certo. Seria ele um adepto do surfe ou, ao menos, um interessado na modalidade? Também é difícil dizer, mas parece que o exemplar da publicação despertou interesse no servidor, talvez por gosto pessoal, talvez por configurar um item raro a ser dado de presente a uma pessoa querida. Haveria, além dos números de Zigzag, outros itens/mercadorias trazidos como presente na bagagem? A partir do próprio texto não é possível responder.

Segundo, a recepção por parte de Rico de Souza, surfista com grande circulação e contatos internacionais no período. Acredito que as relações de amizade, acolhimento e/ou reciprocidade estabelecidas entre adeptos de diferentes países foram importantes, tanto para reduzir os altos custos envolvidos nas viagens (ficar na casa de conhecidos eliminava os custos de hospedagem e, em alguma medida, de traslados e alimentação), ajudando a viabilizá-las, quanto por facilitarem o acesso a informações (como condições do mar em diferentes praias) e os trâmites do dia-a-dia (facilita muito a vida do viajante, especialmente o monoglota, estar acompanhado de alguém com conhecimento de hábitos e idioma locais). Esta questão, que tem aparecido em diferentes fontes em minhas pesquisas, ainda não foi explorada pelos estudos históricos sobre o surfe – ao menos aqueles publicados em inglês, espanhol ou português.

Terceiro, algumas das menções ao Brasil e aos brasileiros. O autor destaca a beleza de uma mulher (a anfitriã), usa a palavra selvagem para adjetivar as noitadas (o termo também aparece com frequência nas caracterizações da África do Sul feitas por estrangeiros – brasileiros, inclusive) acompanhadas de “gente amigável” que vivia apenas o presente. As intensas atividades de lazer e o estímulo dos anfitriões quase levam o viajante mudar os planos e esticar a estada para incluir o período do Carnaval.

Por fim, a decisão do piloto de realizar uma escala imprevista durante o voo Rio de Janeiro-Lima é classificada como parte de um “verdadeiro estilo sul-americano” – a ver se tal categorização aparecerá em outras edições quando se menciona o Brasil e demais países do continente. Os sul-africanos seguiram viagem rumo a terras peruanas e, posteriormente, da América do Norte, onde os meses iniciais do ano correspondem ao inverno. No Canadá, como se pode notar nas fotos que ilustram a página, os sul-africanos praticaram esqui e snowboard. Era muito comum, na época, que os adeptos de uma modalidade dedicassem parte relevante do seu tempo a outras. No caso do surfe, aqueles com acesso a áreas com neve (como alguns estadunidenses e franceses, por exemplo), costumavam praticar esportes de inverno durante férias, feriados e períodos com pouca oferta de boas ondas. Esse intercâmbio de modalidades é um aspecto ainda pouco explorado nas pesquisas sobre a história do esporte que situam seu recorte na segunda metade do século XX – talvez nos levando a acreditar numa excessiva especialização que não correspondia à experiência concreta do adepto comum, e quiçá tampouco de vários atletas de ponta no âmbito competitivo mais comercial/profissional.

Para saber mais

Conferir os trabalhos do historiador Glen Thompson, incluindo sua tese de doutorado Surfing, Gender and Politics: Identity and Society in the History of South African Surfing Culture in the Twentieth-Century, defendida em 2015 na Stellenbosch University. Agradeço a ele por me facilitar a consulta de seu acervo pessoal de revistas sul-africanas, entre as quais a edição mencionada neste texto.

Uma coleção de capas escaneadas de Zigzag está disponível no site de Al Hunt.

A pesquisa que deu origem a este post tem apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), por meio do edital Jovem Cientista do Nosso Estado (2017).


A invenção do skate vertical

22/04/2019

Por Leonardo Brandão

Como surgiu o skate vertical? Esse que é praticado em rampas no formato de “U”? Uma explicação relevante acerca de seu surgimento pode ser conferida no vídeo-documentário Dogtown and Z-Boys, dirigido por Stacy Peralta e lançado no ano de 2001. Esse filme traz imagens raras sobre o início da prática do skate nos EUA, enfatizando uma equipe de skatistas norte-americana conhecida como Z-Boys, exibindo suas primeiras manobras e espaços percorridos.

A equipe Z-Boys, abreviatura de Zephyr (uma loja montada para surfe e skate), era composta de doze pessoas, surfistas na sua origem, mas que acabaram fazendo do skate sua prática principal. Com exceção de um, Chris Cahill, todos os demais foram localizados pelo produtor do documentário, o norte-americano Stacy Peralta, o qual também fazia parte dessa equipe de skatistas. A única mulher do grupo era a skatista Peggy Oky. Compunham o restante da equipe os skatistas Shogo Kubo, Bob Biniak, Nathan Pratt, Jim Muir, Allen Sarlo, Tony Alva, Paul Constantineau, Jay Adams e Wentzle Ruml.

Stacy Peralta, ex-skatista profissional e atual diretor de documentários, conseguiu reencontrar praticamente todos esses skatistas da década de 1970, os quais tomaram caminhos díspares na vida, e desde o final da referida época não tinham mais se encontrado. Hoje eles são empresários, a maioria casada e alguns ainda praticam o skate regularmente. Através de entrevistas, conversas e depoimentos, Stacy Peralta foi estruturando seu documentário, fazendo da atual memória desses skatistas o fio condutor de sua história.

A explicação sobre o surgimento do skate vertical aparece na parte final deste documentário. Sabemos que, dentre as modalidades existentes atualmente na prática do skate, a de maior popularidade junto ao grande público é o skate vertical. Constantemente exibido pelos canais televisivos, muitas vezes em campeonatos “Ao Vivo”, como os transmitidos pelo programa Esporte Espetacular da Rede Globo, o skate vertical se caracteriza por ser uma modalidade onde o skate é praticado em grandes rampas de madeira ou cimento, com aproximadamente quatro metros de altura e denominadas “half-pipe” (“meio tubo” em português) ou em pistas com rampas no formato de uma bacia “bowl”. Nessas rampas, que podem ser representadas pela letra “U”, os skatistas executam inúmeras manobras, mas as que normalmente mais chamam a atenção são os saltos, chamados de aéreos, onde tanto o skate quanto o corpo do skatista permanecem no ar por alguns segundos até retornarem novamente o contato com a rampa.

De acordo como o vídeo-documentário Dogtown and Z-Boys, o surgimento do skate vertical foi possível após a conjugação de dois fatores: de um lado, houve a apropriação dos movimentos do surfe na prática do skate, e, de outro, ocorreu uma grande seca no Estado da Califórnia em meados de 1970.

Segundo relatam os depoentes desse filme, “a prefeitura não permitia molhar o jardim e nem se podia servir água em restaurante, então, o que aconteceu, foi que todas as piscinas abundantes no sul da Califórnia estavam secando”. Por isso: “a seca da Califórnia atuou como parteira da revolução do skate, enquanto centenas de piscinas de Los Angeles foram deixadas vazias e sem uso”.

O aspecto pitoresco dessa história encontra-se na arquitetura das piscinas californianas, pois elas não se assemelham com as encontradas no Brasil. Aqui as piscinas são quadradas, retangulares, com as paredes retas, as quais formam um ângulo de 90º graus com o solo. Na Califórnia, as piscinas exibidas no filme possuíam um formato oval, redondo. As paredes dessas piscinas continham transições, que lembravam as ondas do mar, com ondulações simétricas e perfeitas. Foi essa “rampa” nas paredes das piscinas californianas, somada à habilidade e à técnica dos skatistas de Dogtown, sobretudo os da equipe Z-Boys, que forneceram às piscinas vazias uma outra utilidade nunca antes pensada: elas viraram as primeiras pistas de skate vertical.

De acordo com o filme, foram esses skatistas que, ao praticarem skate em piscinas vazias revolucionaram essa atividade, apontando para horizontes nunca antes imaginados, e tornando possível, anos depois, a montagem de rampas verticais (half-pipes) que passariam a imitar as paredes inclinadas das piscinas californianas. Segundo os membros da equipe Zephyr, eles foram os primeiros a andarem em piscinas vazias, e nem imaginavam o que era possível fazer. Em seus relatos, eles dizem:

A primeira meta no primeiro dia foi passar acima da lâmpada (que fica na parede inclinada da piscina). Depois começamos com arcos duplos (andar com dois skatistas de uma só vez), chegando ao ladrilho da piscina dos dois lados. A meta era chegar à beirada, bater a roda na beirada.

Tony Alva, considerado um dos mais habilidosos skatistas da equipe, lembra o fato de que só foi possível realizarem tal feito por terem sido, antes de skatistas, surfistas. Pois os mesmos movimentos que faziam com suas pranchas na onda do mar, eram os necessários para subirem com seus skates nas paredes curvas das piscinas. Segundo seu relato: “era completamente fora dos padrões, mental e fisicamente. Mas, por sermos surfistas sabíamos os movimentos necessários, só não sabíamos se eram possíveis”. Ainda de acordo com Alva, o pioneirismo da equipe Z-Boys foi algo marcante na exploração desse novo terreno. Para ele, “definitivamente fomos os primeiros a andar numa piscina”, e finaliza lembrando: “é preciso entender que o que fazíamos nunca havia sido feito, aquilo simplesmente não existia”.

Figura 1: Uso do skate nas ondulações de uma piscina na Califórnia no início da década de 1970. Fonte: Imagem do filme Dogtown and Z-boys.

O que os Z-boys chamavam de andar “com o eixo baixo”, ou seja, com o corpo mais abaixado, tal como faziam nas ondas, forneceu a eles a possibilidade de executarem manobras diferenciadas e em lugares até então inusitados, como nas ondulações das piscinas. Eles, enquanto surfistas, transportaram seus movimentos para o skate. Não se trata de skatistas que se espelharam em surfistas, mas de surfistas que se fizeram skatistas.

Na invenção cultural de utilizar piscinas vazias como lugares possíveis de se praticar skate, houve tanto uma representação quanto uma apropriação. Representação porque a piscina passou a ser vista não como um tanque de água para banhos e mergulhos, mas sim como um lugar de exercícios físicos e acrobáticos para o skate. Mudaram-se, pois, os sentidos, as representações. Deste modo, a invenção do skate vertical se deu por meio de práticas de reutilização, efetivando as representações como apropriações. A piscina foi, mais do que pensada de uma forma diferente do usual, experimentada em sua concretude. Os skatistas não só a significaram de um modo diferente, mas também a utilizaram com outras finalidades.

Para saber mais:

Dogtown and Z-Boys. Ficha Técnica: Título Original: Dogtown and Z-Boys. Gênero: Documentário. Tempo de Duração: 87 minutos. Ano de Lançamento (EUA): 2001. Site Oficial: http://www.dogtownmovie.com. Estúdio: Agi Orsi Productions / Vans Off the Wall. Distribuição: Sony Pictures Classics / Imagem Filmes. Direção: Stacy Peralta. Roteiro: Stacy Peralta e Craig Stecyk. Produção: Agi Orsi. Música: Paul Crowder e Terry Wilson. Fotografia: Peter Pilafian. Desenho de Produção: Craig Stecyk. Edição: Paul Crowder.

Referências

BRANDÃO, Leonardo. Para além do esporte: uma história do skate no Brasil. Blumenau: Edifurb, 2014.

BRANDÃO, Leonardo. Prazeres sobre pranchas: o lúdico e o corpo nos esportes californianos. In: Recorde: Revista de História do Esporte. Vol. 2, n. 2, dezembro de 2009, p. 1 – 29.


Rugby, de Manuel Soriano

17/03/2019

Por Rafael Fortes

Rugby é o título de uma novela do escritor argentino Manuel Soriano (para saber mais sobre o autor, ver esta entrevista); depois de ter lido o livro, mas antes de escrever esse texto, esbarrei com uma referência a um outro texto de Soriano no episódio 4 do Podcast Stadium), publicada em 2010. Não conhecia o livro, com o qual esbarrei num sebo de Buenos Aires. Embora abordar questões de forma, estrutura e narrativa literárias a respeito do esporte seja terreno de outros autores deste blogue – André Couto, Edônio Alves, Elcio Cornelsen e Victor Melo -, me aventuro a mais um texto a respeito de uma obra ficcional.

A trama é narrada em primeira pessoa por Mocho, 22 anos, advogado (tal qual o autor) que joga rugby numa equipe amadora, formada em sua maioria por ex-alunos de uma escola tradicional da Grande Buenos Aires. A trama oferece dezenas de oportunidades para discutir-se as relações entre o esporte e a sociedade, notadamente no que diz respeito aos diferentes grupos sociais. Abaixo cito algumas.

a) Racismo e preconceito

Há uma conversa em que vários dos envolvidos associam uma excursão à África do Sul para jogar rubgy à possibilidade de “comer uma negra”, e também ao risco de contrair HIV – mas, claro, afirma um deles, os sul-africanos é que são racistas. Nas conversas do terceiro tempo, há também piadas relacionadas a judeus e coreanos.

À parte a questão esportiva, há muitos outros trechos notáveis, inclusive combinando racismo com preconceito de classe, como o ato de se confundir com “bolivianos” membros de povos autóctones das províncias de Salta e Jujuy (eu mesmo já cometi esse erro na primeira vez que estive na Argentina, ao comprar uma bata na Feirinha de San Telmo).

b) O jovem de classe média-alta revoltado

“Se ouve mais cumbia em Barrio Parque e Recoleta que na própria favela”. “Há uma idade, digamos os quinze ou dezesseis, em que é uma coisa bem vista renegar sua classe. É parte da rebeldia adolescente.” “Os de San Isidro se tornam torcedores do Tigre. Brabões de torcida desde criancinha. Os de Belgrano, de Excursionistas ou Defensores (melhor Excursionistas, porque são chamados “os favelados”)” (p. 54).

“Mas tudo isso é passageiro. É coisa da adolescência. A rebeldia se desvanece facilmente porque na realidade nunca existiu. Com os anos aparece um trabalho e sua gravata, as madeixas, voltam os esses e as palavras em inglês, aparecem as namoradas, as aulas de tênis e as saladinha de rúcula. Tudo isso se sucede com total naturalidade. Fiquem tranquilos, pais: não se desesperem. Seus filhos vão se parecer com vocês. Os melões do sistema se acomodam sozinhos.” (p. 55)

Aqui, a escolha de times que raramente disputam a primeira divisão do campeonato argentino é uma das maneiras de ser – ou, ao menos, de parecer – diferente. Tommy, um amigo yuppie de Mocho que decide torcer pelo Huracán no futebol para ser diferentão entre os amigos, diz: “Todos nós aspirantes a milionários temos uma [excentricidade].” E fazer aula de tênis é um dos indícios de conformidade com a normalidade.

c) Esporte na escola

Mocho estudou na Christian School (o nome é assim mesmo, em inglês), um “colégio inglês e misto” localizado entre os bairros de classe alta de Palermo e Nuñez. Nele,

“o esporte é muito importante, mais do que a História e as Matemáticas. Para os homens há duas opções: o rugby ou o vôlei. Esta decisão parece insignificante mas determina a vida social de cada aluno. O vôlei é para os maricas, aqueles que gostam de poesia, os que têm medo das pancadas. O rugby é para os que não são maricas, os que não têm medo das bordoadas. Com as mulheres acontece mais ou menos o mesmo, mas com o hóquei: elas são as lindas, as de sainha curta e pernas bronzeadas, e as do vôlei são as feias, as gordas e as de óculos” (p. 21).

Tais afirmações não estão lá para reforçar tal estado de coisas, mas para expor as vísceras de uma sociedade extremamente preconceituosa, a partir de dentro. Mocho não se identifica com tais valores, embora em alguma medida compartilhe deles e se beneficie do meio social em que foi criado e circula. Há muito sarcasmo e ironia ao longo de toda a narrativa.

O colégio é administrado pelos filhos dos fundadores, que têm o rugby em alta estima: “Se a equipe ganha (…) até te deixam faltar na manhã seguinte”. “Não é casualidade que o futebol não seja uma opção. Os donos têm medo que tire gente do rugby. Um ano fizeram um teste e saiu meio time. Todos nós gostamos do futebol”. Há uma estratificação de jogadores/alunos na escola entre os da equipe principal e os do segundo time. Uniformes distintos, ônibus com ou sem ar-condicionado para deslocamento até os campos de jogo etc.

d) O círculo de contatos e o esporte na vida adulta como mecanismos que auxiliam a perpetuação de privilégios

Uma rede de relações é estabelecida entre companheiros e ex-companheiros de time, extensiva a amigos próximos e familiares. O Christian Old Boys Rugby & Hockey Club, pelo qual Mocho joga no presente da trama, é um clube fundado para ser frequentado exclusivamente por ex-alunos e ex-alunas da Christian School. Após alguns anos, passa a aceitar sócios que não sejam ex-aluno, porque precisa de gente para completar os times e porque está mal financeiramente. E aí aparecem figuras completamente estranhas ao convívio social dos ex-alunos, como o gerente de um camelódromo em Avellaneda, “que sempre anda com peça” (ou seja, armado “com um 38 carregado debaixo do assento”).

Eis a caracterização do lugar do clube na liga:

“O clube compete na terceira divisão da União de Rugby de Buenos Aires. O ascenso está sempre próximo, mas nunca se concretiza. Nesta categoria de rugby é mais digno que glamouroso. Nunca rola de jogar em San Isidro ou em Pilar, nem há modelos nos olhando nas arquibancadas. O mais comum é visitar lugares como Florencio Varela, Ciudad Evita, Lanús ou Ituzaingó; lugares com nome de estação de trem, campos sem grama, de terra dura e sangue nos joelhos, banhos de água fria (…)”

Na narrativa sobre o passado construída aos 22 anos de idade pelo protagonista, ficam claras as relações sociais proporcionadas pelo ambiente escolar e pelo time, que incluem as famílias dos colegas. O rugby funciona dentro desta teia de relações: no fim das contas, o protagonista consegue um estágio num escritório de direito porque o entrevistador também foi rugbier a vida inteira.

e) Atribuição de apelidos, iniciação sexual e trotes

Aqueles que de alguma forma desviam de certas normas e convenções recebem tratamento específico e um apelido: Cristãozinho, o colega com deficiência que é “incluído” na turma, à custa de piadas sobre o tamanho de seu membro e outras zoações; “China” [Chino], o colega de time cujo apelido não é considerado uma ofensa, “desde que o cara não seja chinês de verdade”.

A iniciação sexual de vários membros do time da escola com uma mesma prostituta, durante uma viagem à província de Tucumán, sob os auspícios do técnico: “muitos vão a este tour como garotos e voltarão como homens”.

As noções normativas de masculinidade e heterossexualidade que se cruzam com o caráter de classe. A “estreia” sexual dos filhos homens da classe alta com as mulheres trabalhadoras domésticas. No time adulto, os “trotes” com os novatos, como uma ocasião em que um deles é deitado no no chão e obrigado a beber cerveja que escorre pelo peito, barriga e genitais de um colega de time; depois, companheiros de equipe lhe enfiam um desodorante pelo ânus.

f) Crimes contra o patrimônio como principal forma de violência

Um árbitro que, dirigindo seu automóvel rumo a uma partida de fim de semana, erra uma saída na autopista e vai parar na entrada de uma “favela fudidíssima”, sofre um sequestro-relâmpago.

Mocho e seu amigo Ariel, também colega de equipe, vivem no mesmo bairro de classe média alta, “cheio de embaixadas e mansões, mas […] muito próximo da Favela 31”. Ao contrário do narrador, Ariel já foi assaltado várias vezes. Conta uma delas: “Me cercaram três negros de merda na praça e roubaram meu iPod e o celular”. (A trama se passa em 2007). Nem todos, contudo, são assim. Os “cartoneros” (o nome vem das caixas de papelão que recolhem e vendem para atravessadores do mercado de reciclagem), designação daqueles que catam lixo, “são bons negros. Exemplares. Ensinam o ofício a seus filhos. Estão mostrando a eles seu futuro. Antes trabalhavam com carros puxados por cavalos, mas a sensibilidade da Sociedade Protetora dos Animais acabou com isso. É um esforço desumano para um cavalo, argumentaram. Agora as pessoas puxam seus próprios carros” (p. 11). A esses bons negros se contrapõem os maus: os viciados em crack. “Esses negros são os piores. Um negro desesperado é um negro perigoso” (p. 12).

Há a participação de famílias de bem em passeatas e manifestações “por mais segurança”. Na prática, demandam mais policiamento e punições mais duras para condenados por crimes dos quais se veem como vítimas – mas não para todos os crimes, cometidos por quaisquer pessoas, como fica claro ao longo da própria trama.

g) A atribuição de valores a uma modalidade esportiva (e a suposição de que são exclusivos dela)

– A associação das pessoas às posições em que jogam, incluindo elaborações pseudo-psicológicas e sociais a respeito de por que cada um joga em tal posição, e o que isso significa a respeito do perfil e do caráter do indivíduo. (O leitor atento e afeito a outros esportes perceberá que esta lógica e os próprios atributos não são exclusivos do rugby, mas, pelo contrário, comuns a muitas modalidades esportivas. Mas, para ter tal percepção, é preciso conhecer a historiografia disponível sobre outras modalidades.). Tais explicações, por um lado, emulam/reproduzem um certo senso comum do rugby, funcionando como uma rica chave de leitura para interpretação do pesquisador. Por outro, trazem uma visão própria do narrador, às vezes ácida e repleta de críticas a este mesmo senso comum.

– Marcas no corpo: a situação “miserável” da coluna cervical causada pelos impactos do jogo; a orelha deformada como símbolo de coragem e de dedicação ao esporte.

– A (suposta) coragem necessária para praticar o jogo: “Muito cedo em minha vida me dei conta de que era um covarde”. Isto não impede Mocho de ter uma extensa carreira no esporte, mas o expõe a situações em que sua masculinidade e companheirismo são postos à prova. Em dado momento, adversários o perseguem por todo o campo gritando: “Cagão! Cagão!”

“Simplesmente não gostava do contato. De qualquer forma, o rugby é um esporte muito mais tático e estratégico do que se pensa.  É possível ser bom usando a cabeça, entendendo o jogo, e deixando para os gordos e os brutos a parte das pancadas”.

– Além da coragem, há noção de sacrifício, explicitada pelas discussões com o preparador físico. “Não me dou muito bem com ele. É jovem mas tem alma e cabeça de milico. Ele diz que eu não jogo para o time, que jogo para mim, que não gosto de me sacrificar. Claro que não. Quem gosta de se sacrificar? Se eu gostasse, já não seria sacrifício.”

“Hernán Perdomo é o nome do preparador físico. Foi um jogador bem bom de Primeira, mas destruiu um joelho e teve que largar antes da hora. É daí que deve vir o ressentimento. Daí e de não poder ter feito carreira militar. Duchas frias de madrugada, o indivíduo não é nada, o time é tudo, saltos de rã, obediência devida. Esse seria seu paraíso. A disciplina e a convicção são essenciais para a vida militar e para o rugby. Não há êxito sem disciplina e não há disciplina dem a mais cega obediência. É “raro” que os alemães não tenham gostado deste esporte” (p. 49-50).

– Inclusão de biotipos e corpos marginalizados: “o rugby é especialmente amável com os gordos”

– A chatice dos treinamentos e de certas partes do jogo: “O único que me cansa é treinar o scrum, sem dúvida uma das coisas mais estúpidas do esporte mundial, junto com o arremesso de martelo. (…) Se o scrum é absurdo durante um jogo, muito mais embaraçante é treiná-lo”. Há frases maravilhosas para aqueles que, como eu, já treinaram, mesmo odiando fazê-lo: “Há algo de curativo nisto de correr como um imbecil ao redor de um campo.”

– A marcada diferença, ao menos no discurso do narrador, entre o olhar para o juiz no rugby em relação ao do futebol. O árbitro é convidado e participa da confraternização pós-jogo (terceiro tempo).

– O consumo abusivo de álcool. “No rugby pega mal não beber, é como ser viado ou vegetariano”. No episódio principal narrado, os jogadores começaram a beber já no vestiário, após uma “derrota humilhante” que não “murchou o clima de euforia” com a festa que viria a seguir.

– A violência e as agressões como parte do jogo e da intimidação psicológica do adversário. Nunca joguei rugby, mas já competi em vôlei, basquete, futebol, futsal, futebol soçaite e tênis e em todas estas há mecanismos semelhantes. No surfe, que pesquiso há anos, tais práticas também acontecem em competições.

– Aturar o discurso motivador do capitão na roda de jogadores antes de entrar em campo. O capitão em questão gostava de discursar sobre a família e os valores cristãos, mas era um bandido capaz de cometer “todas as infrações possíveis”, inclusive pedofilia. (Um típico cidadão de bem ou humano direito…). Mocho considera esse discurso motivador dos capitães um dos maiores sofrimentos de sua “carreira rugbística”. Contudo, o contraste é brutal em relação ao capitão até o ano anterior, “um grande jogador e uma ótima pessoa”, que foi jogar “em um clube da segunda divisão da Itália. A prática, contudo, se estende a outras modalidades. E o caso específico da hipocrisia do capitão não é exclusivo do rugby, nem do esporte: trata-se de algo presente em toda a sociedade.

– As relações com os técnicos.

“Espécie rara, os técnicos de rugby. Nunca conheci gente com tanta vocação para o que fazem; estão convencidos de que se pode construir um mundo melhor à base de tackles, rucks e malls. Tive de tudo: bons, maus, autoritários, estudiosos, socialistas, compreensivos, moralistas, dogmáticos, gritões e silenciosos. Mas todos compartilham essa convicção de que o rugby te faz uma pessoa melhor, o rugby formador de sujeitos, escola de vida, como se joga se vive. Até tive um no colégio que falava conosco em inglês” (p. 70-1).

Um deles “parecia saído de um desses filmes ianques em que um técnico obstinado torna um grupo de inúteis campeões do mundo”.

– Outras referências a outros esportes. O uso de quadras de tênis pelo narrador-jogador como unidade de medida para informar ao leitor o tamanho do salão do clube onde os jogadores almoçam antes das partidas. Embora alguns pesquisadores brasileiros reproduzam o senso comum de que “tênis é um esporte de elite” (já ouvi isso várias vezes), na Argentina ele é um dos esportes mais populares, tal qual em países como Estados Unidos e França. Há referências a outras modalidades: um jogador muito inteligente “é como Juan Román Riquelme” e “pode pensar como um enxadrista”.

h) Confraternizações e festas em torno do esporte

O acontecimento fundamental da trama é o terceiro tempo de uma partida de rugby que acontece na véspera da semifinal histórica à qual a seleção argentina da modalidade havia se classificado, na Copa do Mundo de 2007, contra a África do Sul. Há uma extensa narrativa dos procedimentos.

O almoço de equipe antes da partida, “um compromisso inadiável”. Nas conversas à mesa, o assunto inevitável da partida da seleção. Uns dizem acreditar ser possível vencer os favoritos sul-africanos. Outro dispara: “- Fico de saco cheio das propagandas dos Pumas [seleção argentina de rugby]. […] Prefiro que perdam para não seguir suportanto essa tortura.” Fiquei pensando nas propagandas envolvendo jogadores, seleção e técnico brasileiros antes e durante as copas do mundo de futebol.

A preparação para o terceiro tempo:

“Esse dia estávamos nos preparando para uma festa. Estava tudo pronto: engradados de cerveja, iluminação e som, litros de fernet [bebida popular na Argentina, geralmente tomada junto com coca-cola] e até uma máquina de fumaça. Não preparávamos festa em todos os terceiros tempos, mas o sucesso dos Pumas nos tinha contagiado e essa era uma ocasião especial. Havíamos combinado com as MINITAS do hóquei. Elas jogavam fora, mas viriam assim que terminasse sua partida. Nunca há muitas mulheres em nossos terceiros tempos: namoradas, algumas amigas e pare de contar.”

O narrador explica também o que é o terceiro tempo:

“O terceiro tempo é o orgulho do rugby. É o momento em que os membros das duas equipes, que haviam se matado de lutar dentro do campo, se unem para compartilhar um espaço de diversão e camaradagem. É o momento de ser cavalheiros, de distinguir-se do futebol, de fazer brincadeiras com os rivais e o árbitro, de ser um pouquinho ingleses”.

 

 


Com a foice e o martelo dentro de campo

20/01/2019

por Fabio Peres

Bandiera rossa la trionferà / Evviva il comunismo e la libertà!”.

A tradicional música comunista entoada pela torcida da Associazone Sportiva Livorno Calcio poderia muito bem ressoar em estádios brasileiros sem causar estranhamento; pelo menos, na cidade de Santo André, em São Paulo.

Desde 2015, o município conta com um clube em homenagem às mulheres e homens que lutaram na Guerrilha do Araguaia contra a ditadura militar, iniciada com o golpe de 1964: a Associação Esportiva Araguaia. Para conhecer um pouco mais sobre a agremiação, entrevistamos, entre os dias 8 e 16/1/2019,  Renato Ramos, um dos fundadores e treinador do clube.

Fabio Peres: Renato, conte um pouco sobre você, sua história, e como ela se envolve com a Associação Esportiva Araguaia (AEA).

Renato Ramos: Bom meu nome é Renato Ramos, tenho 33 anos, sou nascido e criado em Santo André, região do Grande ABC Paulista. Assim como todo jovem brasileiro tive o sonho de ser um atleta de futebol profissional, joguei nas categorias de base dos 12 aos 17, foi um período bastante importante para minha formação como cidadão, como ser social membro da sociedade, enfim um período bastante positivo e de bastante aprendizado. Cursei administração de empresas, me formei em futebol pela Faculdade Carlos Drummond de Andrade, e atualmente curso pós graduação em psicologia aplicada às organizações. Sou um dos fundadores da Associação Esportiva Araguaia em 2015, atualmente ocupo a Vice-Presidência e sou treinador das categorias de base da equipe.

Fabio Peres: E como surgiu a ideia de fundar a AEA?

Renato Ramos: A ideia de fundação do Araguaia surgiu em 2007 num debate do grupo de esportes do PCdoB (Partido Comunista do Brasil) em Santo André na época. Por diversos motivos a ideia ficou engavetada até colocarmos em prática no ano de 2015.

Fabio Peres: Então, diferente de outras associações esportivas, a AEA possui uma vinculação, uma identidade, histórica e política, bastante clara e delineada. Como essa vinculação se reflete no cotidiano do clube?

Renato Ramos: Olha mesmo no momento que atravessamos com o crescimento do fascismo, da direita brasileira, temos crescido a todo momento, e quando eu digo em crescimento é dentro do trabalho esportivo principalmente através do futebol. Como observo o crescimento, por exemplo da torcida, atraindo cada vez mais militantes da esquerda, comunistas, pessoas ligadas aos movimentos sociais, partidos, enfim todos que constroem o nosso campo. O time é uma homenagem a Guerrilha do Araguaia, aos homens e mulheres que lutaram ela retomada da democracia no Brasil, sempre fazemos questão de deixar isso claro. Nosso mascote, inclusive, é o Osvaldão, em homenagem a um dos líderes da Guerrilha do Araguaia, esportista e comunista.

Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, é o mascote da AEA. Foi a forma encontrada pela agremiação de homenagear e manter viva a memória do guerrilheiro, membro do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e campeão de boxe pelo Vasco, assassinado em 1974 na Guerrilha do Araguaia. Um pouco da história de Osvaldão pode ser vista em filme resgatado em Praga, disponibilizado pela Fundação Maurício Grabois.

Fabio Peres: Mas, AEA possui torcida?

Renato Ramos: Sim, nossa equipe tem um grande apoio principalmente dos setores mais à esquerda da nossa sociedade pela identificação óbvia com a história da fundação do clube e nossas posições enquanto diretoria.

Fabio Peres: E, qual é, na sua opinião, a motivação principal que os torcedores possuem para se torcer pela AEA? Conte  um pouco como é a relação com eles.

Renato Ramos: A principal motivação é a representatividade que temos em campo, no nosso dia a dia com a esquerda, com os movimentos sociais e pautas progressistas e populares da nossa sociedade. A relação com a torcida é próxima, tanto com os que a distância nos apoiam como os que apoiam no dia a dia dos jogos no campo, inclusive no final do ano [de 2018] foi fundada a Tuga – Torcida Uniformizada Guerrilha do Araguaia.

Tuga, Torcida Uniformizada Guerrilha do Araguaia, em um dos jogos da Associação Esportiva Araguaia

 

Fabio Peres: E como as pessoas e a torcida acompanham o clube? Como é a divulgação da AEA? 

Renato Ramos: Nossa principal estratégia é através das novas redes: nosso canal no youtube (a TV Araguaia), grupos de atletas, pais de whatsapp, instagram, flickr  e, principalmente, o Facebook.

Fabio Peres: Mas, voltando a questão da representatividade e da motivação dos torcedores, o que é feito para manter viva essa identidade do clube?

A candidata à vice-presidência Manuela D’Ávila (PCdoB) com a camisa da Associação Esportiva Araguaia (19/09/2018)

Renato Ramos: Sempre valorizar as nossas origens, nossa identidade visual e nossa história. Afinal conhecer o passado é premissa básica para não se repetir os erros históricos no futuro (por mais que isso esteja ocorrendo). Mas, fazemos nosso papel de vanguarda, de ser uma entidade que combate a xenofobia, a homofobia, o racismo, o machismo.

Fabio Peres: Mas, o fato da AEA carregar essas bandeiras tem alguma implicação na forma de trabalhar? Em outras  palavras, o fato de possuir essas bandeiras o diferencia em relação a outros clubes no que tange, por exemplo, ao treinamento, performance, à maneira de lidar com os atletas etc.?

Renato Ramos: Na verdade, não. Nossa forma de trabalho é exclusivamente voltada ao futebol, pensando em fazer o melhor trabalho com as condições que temos, sempre buscando bons resultados e uma boa formação dos garotos como atletas e bons cidadãos.

Fabio Peres: Quais são as principais expectativas e metas que a AEA possui?

Renato Ramos: Bom, não escondemos de ninguém que nossos sonhos e metas são crescer dentro do cenário do futebol. Como alcançar esses objetivos e metas ainda depende de algumas circunstâncias que estamos trabalhando para estruturar. E no momento certo estaremos colocando num debate mais amplo ao conjunto das forças da esquerda e dos esportivas que estão cada vez mais apoiando nosso projeto.

Fabio Peres: Quais campeonatos e em quais categorias que a AEA já participou? Quais foram as principais conquistas?

Renato Ramos: O Araguaia participa desde sua fundação das competições municipais de Santo André organizadas pela liga local. Já disputamos a taça cidade de São Paulo, competição organizada pela prefeitura de São Paulo, Copa Zico, Copa Kagiva e outras. Em 2019 esperamos participar das competições da associação paulista de futebol. Nossas principais conquistas no principal foram a Copa amizade 2016 e da base a Copa Andrezinho 2018 na categoria sub-16.

Equipe sub-16 na conquista da Copa Andrezinho 2018

 

Fabio Peres: E os desafios? Quais os principais desafios que um clube como AEA possui? Esses desafios (ou quais deles) são decorrentes da vinculação histórica e política da AEA?

Renato Ramos: Sinceramente não enfrentamos até hoje nenhuma resistência. Pois, trabalhamos sério, atendemos a população, no nosso caso a juventude que busca uma oportunidade dentro do futebol. Já realizamos amistoso por exemplo com o Santos no CT Rei Pelé. Levar a foice e o martelo do futebol num dos maiores templos do futebol brasileiro é prova de trabalho sério, de futebol de verdade e de jovens sonhadores e determinados.

Fabio Peres: E como a AEA se mantém? Quais são as principais formas de financiamento?

Renato Ramos: Nos mantemos da fundação até o momento com venda de materiais: camisas, adesivos, e doações. Para 2019 conseguimos aprovar pela primeira vez um projeto pela lei de incentivo do governo federal, e estamos na luta para concretizar a captação para ter um 2019 mais tranquilo e com melhor estrutura.

Renato Ramos

Fabio Peres: Há mais alguma coisa que você  gostaria de adicionar?

Renato Ramos: Gostaria de agradecer pela oportunidade de falar um pouco do nosso projeto, e pedir para que todos sigam nossas redes, participe do nosso dia a dia e vamos juntos buscar gerar oportunidades aos nossos jovens através do esporte, no nosso caso, o futebol.

Fabio Peres: Nós que agradecemos: não só pela entrevista, mas também por manter o esporte tão vivo, plural e interessante. Obrigado!    


Sea Club Overall Skate Show: tecnologia e espetáculo no Projeto SP (1988)

18/11/2018

Por Leonardo Brandão

A prática do skate vertical (realizada em grandes rampas no formato de “U”) passou, durante a segunda metade da década de 1980, por um grande desenvolvimento no país. Um marco desse período foi o “Sea Club Overall Skate Show”, um grande campeonato ocorrido no dia 09 de abril de 1988 na cidade de São Paulo, dentro de uma casa de show chamada “Projeto SP”. Esse evento, que chegou a ser exibido no programa “Esporte Espetacular” da Rede Globo, foi produzido numa parceria entre a empresa Sea Club e uma revista especializada em skate, chamada Overall.

Esse evento foi, segundo o editor dessa revista, algo tão bem organizado que até mesmo o obrigou a mudar o tempo verbal de seus editoriais, os quais sempre projetavam o skate como um esporte do futuro e/ou em crescimento. Agora, segundo ele, o skate já era um esporte do presente, um jovem tornado adulto. No editorial reproduzido abaixo, a presença do termo “atleta” como sinônimo de “skatista” demonstra bem a pretendida transição:

Dessa vez é no presente!

O tempo verbal empregado na construção das frases da maioria dos editoriais da Overall, ao longo desses mais de dois anos de trabalho, foi o futuro. Hoje, a realidade nos permite mudar o tempo dos verbos […]. Esta edição especial da Overall, com 84 páginas, sela definitivamente o início da fase adulta deste esporte no Brasil. O SEA CLUB OVERALL SKATE SHOW foi a prova final. O campeão mundial de skate vertical, e outro que está entre os dez melhores skatistas do mundo, desceram do Olimpo e vieram conferir e aplaudir o estágio de desenvolvimento que o esporte atingiu no Brasil. Não só eles, mas toda a imprensa nacional (mais a revista norte-americana Transworld) voltaram objetivas e máquinas de escrever para o maior evento de skate que o Brasil já teve (Revista Overall, n. 9, 1988, p. 08).

A presença de dois dos maiores ídolos do skate estadunidense, Tony Hawk e Lance Mountain, ambos pela primeira vez no país, ajudou a atrair a presença da grande imprensa e atiçar o júbilo público. Oferecido como espetáculo para as massas, o skate reinventava-se para além de seus nichos, seduzindo uma plateia ávida por movimentos arriscados, pirotecnias do corpo e da ação.

Para além do campeonato em si, é preciso notarmos que essa condução do skate vertical em direção ao esporte e, neste caso, ao espetáculo, ocorreu articulada ao que os sociólogos Norbert Elias e Eric Dunning chamaram de “o aparecimento do profissionalismo no desporto”, isto é, de um grupo de pessoas que, ao se tornarem profissionais em determinadas práticas, acabam por desenvolver “um nível de perfeição que dificilmente poderá ser alcançado por pessoas que se dedicam às atividades desportivas no seu tempo de lazer e apenas por prazer” (1992, p. 99). O fato é que os skatistas profissionais passaram a criar um conjunto de técnicas corporais diferenciadas e muito mais especializadas que os demais skatistas amadores ou somente praticantes de fim de semana; e isso acabou por conferir a esse grupo restrito as condições necessárias para protagonizarem um verdadeiro “espetáculo” para os admiradores dessa atividade.

Outro aspecto que merece destaque foi a comercialização do vídeo deste campeonato, tido como a “fita VHS do mais radical show de skate já visto no Brasil”. A presença do público (nove mil pessoas), dos dois skatistas convidados dos Estados Unidos e dos “24 melhores skatistas verticais do Brasil” eram os ingredientes oferecidos. O show de imagens, sem dúvida, transformava o skate – e, por conseguinte, o corpo desses skatistas – num espetáculo televisivo; uma vez que, como afirmou o sociólogo Pierre Bourdieu, “a constituição progressiva de um campo relativamente autônomo reservado a profissionais é acompanhada de uma despossessão dos leigos, pouco a pouco, reduzidos ao papel de espectadores” (BOURDIEU, 1990, p. 217).

Assim, a exibição das manobras de skate evidenciava um uso dessa atividade que implicava tecnologia e espetáculo – que uma vez adquiridos, poderiam ser vistos repetidas e repetidas vezes através da união do videocassete com a televisão. A transformação das competições em experiências midiáticas passou a refabricar a emoção do espectador, isto é, a criar novas formas e maneiras de vê-las. Diferentemente dos 9 mil espectadores que estavam presentes no Sea Club Overall Skate Show, e que por isso podiam ver a exibição in loco dos skatistas apenas do ângulo que estavam posicionados na plateia, a experiência do vídeo (filmado por diversas câmeras, sob vários ângulos e depois editado) ampliava as possibilidades de quem os comprasse de poder admirar melhor a performance de cada competidor, visualizando as muitas manobras efetuadas nos dois lados das rampas (“U”).

Figura 1: Capa do VHS “Sea Club Overall Skate Show”

Fonte: Revista Overall, n.9, 1988, p. 81.

A grandiosidade deste campeonato chamou à atenção da revista Veja, que publicou uma reportagem sobre ele, destacando o fato dos 24 participantes inscritos competirem com patrocínios; citando, como exemplo, o skatista Reginaldo dos Santos Neto, apelidado de “Pankeka” e patrocinado pela fábrica de skates H-Prol. Segundo a Veja, Pankeka recebia um salário de 50.000 cruzados por mês, além de equipamentos para os treinos e apoio também nas demais competições que participava.

Interessante notarmos que, embora a Veja se valesse desse campeonato para noticiar o skate em sua página dedicada aos “esportes”, a competição em si fora algo pouco abordado pela mesma. A revista não se preocupou em publicar os resultados (o ranking) e nem deu destaque aos melhores competidores. O interesse da reportagem era outro, anunciado claramente na seguinte manchete: “O skate entra na era do profissionalismo” (Revista Veja, 20/04/1988, p. 67).

Esse campeonato incentivou o aparecimento de outros eventos do mesmo porte no universo do skate vertical, todos elaborados para atrair um grande público, com estrutura de organização, cobertura midiática e ampla divulgação. No ano seguinte, por exemplo, um evento da mesma magnitude voltou a ocorrer, mas desta vez na cidade do Rio de Janeiro. Era a Copa Itaú de Skate, patrocinada pelo banco Itaú e realizada numa grande estrutura montada na praia de Ipanema. Era, enfim, a consolidação do profissionalismo no skate, dos grandes campeonatos e da elevação dessa prática realizada em grandes rampas ao patamar de um esporte espetacular.

Para saber mais:

BRANDÃO, Leonardo. A década de 1980 e o desenvolvimento do skate vertical. In: Recorde, Rio de Janeiro, v. 10, n. 2, p. 1 – 28, jul/dez de 2017.

Referências

BOURDIEU, Pierre. Coisas ditas. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1990.

ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa: DIFEL, 1992.


Aventuras juvenis, ficção e a cultura do surfe

11/11/2018

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

The Grommets: The Secret of Turtle Cave é um livro ficcional ilustrado voltado para o público infanto-juvenil. Foi escrito por Mark-Robert Bluemel e publicado de forma independente/amadora em 2007. Teve uma sequência em 2014, com o título The Grommets: Big Island Justice. O autor é um advogado e surfista que vive em San Diego (Califórnia, EUA). Trata-se da estreia do autor no universo ficcional. Embora eu tenha classificado a produção como independente/amadora (em função de características do projeto gráfico, erros de revisão etc.), o exemplar que li integra a segunda edição, o que sugere que a primeira foi vendida até se esgotar.

A obra conta uma história envolvendo três adolescentes: Buzz (o narrador), Oz e Jimbo. A história não menciona uma cidade ou ano em que se situe, mas uma série de elementos sugerem o Sul da Califórnia e o início dos anos 1990 como espaço e tempo da trama. No caso do litoral Sul da Califórnia: a diferença de temperatura do mar entre o verão e o inverno; a existência de encostas com pedras e cavernas no litoral; a descrição das origens étnico-raciais dos adolescentes (algo muito relevante na sociedade estadunidense como um todo, não apenas no estado em questão): um descendente de peruanos, outro de “nórdicos”; o fundo de areia sobre o qual quebram as ondas; a casa “amarela com telhado em estilo espanhol” em que o protagonista Buzz vive com os pais (p. 13); o crowd de surfistas no mar; a ideia de recorrer aos livros disponíveis na biblioteca pública local quando precisam buscar informações sobre um assunto (a presença de cavernas no litoral).

Quanto à época em que se passa a trama, ainda não existiam telefones celulares: boa parte dos contatos entre as pessoas se dão com ligações entre telefones fixos. Frequentemente, com interferências indesejadas (para os adolescentes) por parte dos pais, que atendem as ligações e controlam o acesso aos aparelhos, quase sempre localizados na sala das residências. Tampouco há computadores para uso pessoal nas casas, nem menção à existência de internet. Mas há um aparelho de TV que, acoplado a um videocassete, permite aos adolescentes “assistir ao boletim das ondas e vídeos de surfe” (p. 49).

Dois deles residem próximo ao litoral (levam 10 minutos de bicicleta, enquanto o terceiro leva 45) e um deles pretende passar o verão auxiliando o pai em tarefas em troca de pagamento de forma a juntar dinheiro para comprar uma prancha nova. A vitrine da surf shop local é uma referência importante de consumo e de desejo para os adolescentes, que sonham em especial com as pranchas novas expostas. No quarto do protagonista, que narra o livro em primeira pessoa, há “nas paredes pôsteres de revistas de surfe” (p. 13).

Lendo a obra, especialmente as passagens relativas a sensações experimentadas ao surfar, lembrei-me de artigos em que o historiador Douglas Booth argumenta que a história do esporte dedica escasso tempo e atenção a essa questão (como este). Em The Grommets há descrição de várias sensações envolvidas no ato de surfar: ao descer ondas, realizar manobras, furar ondas. Refiro-me não apenas a uma descrição dos movimentos corpóreos realizados, mas daquilo que o surfista sente: prazer, alegria, êxtase, hesitação, medo. Ou cansaço: ao voltar para casa de bicicleta, com a prancha debaixo do braço, após horas de esforço físico surfando. Logo no início, o narrador afirma: “você realmente tem que amar o esporte para acordar de madrugada e pular na água gelada” (p. 1).

Na tentativa de transmitir ao leitor tais sensações, o autor lança mão de expressões comuns no universo do surfe: a comparação com uma “boneca de pano dentro de uma máquina de lavar” para emular as sensações que um surfista tem ao levar um caldo violento; a afirmação de que o tempo parece parar quando se está dentro do tubo; a sensação de voar ao descer a onda e ao realizar certas manobras (mesmo sem dar aéreos, manobra restrita ao repertório de poucos surfistas amadores naquela época). Ainda nesse âmbito, há características que remetem à experiência pessoal vivenciada no esporte. Por exemplo, a noção de que há dias bons e dias ruins. Nos primeiros, têm-se a sensação de que tudo dá certo e a confiança adquirida ajuda a acertar ainda mais. Nos últimos, acontece o contrário, e a perda de confiança em geral estimula a piora de desempenho.

Há também descrições/explicações mais técnicas: movimentos e manobras e de como muitos destes têm nomes específicos (dentro de um vocabulário corrente da modalidade, como acontece com outras práticas corporais); da formação das ondas. Algumas passagens misturam uma descrição de características do esporte com um tom de advertência em relação a possíveis riscos, como no caso das correntes/correntezas (um potencial risco à vida de nadadores e surfistas que não as percebam e nadem na direção contrária). As recomendações e conselhos sobre o que fazer e que não fazer, noções de certo e errado e afins, na maioria das vezes, aparecem em falas do pai de Buzz. Mas, às vezes, nas do protagonista, como quando diz que um surfista nunca deve rabear outro (p. 17). Em três ou quatro momentos, recomenda-se que surfistas novatos devem evitar os dias em que o mar está muito forte, com ondas grandes. Isso os faz evitar riscos desnecessários para si próprios e para os demais surfistas. Em The Grommets é possível encontrar recomendações como não mentir para os país, não desapontá-los etc., o que me parece ser comum neste tipo de literatura. No caso, os riscos e problemas decorrentes da desobediência às vezes têm a ver diretamente com o surfe – como Buzz desrespeitar a proibição de pegar onda próximo a pedras e falésias.

A narrativa se desenvolve praticamente toda em torno de um verão. As férias escolares, o sol e o calor permitem ao protagonista aproveitar o tempo livre com uma série de atividades com seus melhores amigos – e, imagino, ao autor elaborar uma narrativa que também seja uma leitura atraente para adolescentes (de férias ou não, californianos ou não). Segundo May (2002), desde meados dos anos 1950, houve na sociedade estadunidense – sobretudo na indústria cultural, mas não só – um intenso processo de construção da Califórnia como o destino de sonho nos Estados Unidos. Tal imagem de lugar onde se deseja viver e/ou passar as férias permanece muito forte no imaginário do país. Particularmente o Sul daquele estado – cidades como San Diego – é um dos lugares mais procurados no turismo interno do país. Trata-se de uma obra divertida e leve. Talvez possa também ser usado como livro livro paradidático, pois conta com passagens e elementos que podem ser facilmente apropriados para aulas de matérias como Biologia, Geografia, Física e História. No caso da última, por exemplo, há referências ao enriquecimento de contrabandistas (traficantes) durante o período da Lei Seca. O que me interessa aqui, na linha de outros textos que venho escrevendo neste blogue, é traçar alguns apontamentos que permitam observar essa obra e esse tipo de obra – obras literárias para o público infanto-juvenil – como uma fonte histórica para a história do esporte.

O foco da trama são peripécias na exploração de uma caverna. Secundariamente, a relação de amizade que os três estabelecem com Nana, a idosa que vive à beira-mar e que é salva por eles de se afogar. Nana fazia exercícios matinais de natação e teve cãimbras em ambas as pernas. O episódio diz respeito a um aspecto comum do universo do surfe, mas pouco presente em suas representações artísticas e midiáticas: tanto a presença física dos surfistas no mar ajuda a perceber situações de afogamento (às vezes difíceis de enxergar desde a praia) como o fato de usarem pranchas facilita o salvamento (a prancha é um objeto flutuante ao qual a pessoa que está se afogando pode se agarrar, evitando colocar em risco a vida de quem tenta resgatá-la).

O enredo não tem propriamente vilões, apenas um antagonista com escassa presença. Também é surfista, mas, na situação em que é apresentado, usa uma camisa de um time de futebol americano. Tampouco há conflitos entre surfistas de diferentes grupos (geracionais, longboarders x shortboarders, exímios x iniciantes, etc.).

O surfe ocupa papel central na vida do trio de adolescentes (e não só porque estão de férias) e o consumo midiático é parte importante do processo. Buzz fica excitadíssimo quando recebe pelo correio, a cada mês, a edição da revista Surfer’s World, da qual tem uma assinatura. A principal punição recebida dos pais quando faz algo errado é ficar impedido de surfar por uma certa quantidade de dias (em se tratando de algo grave, geralmente é combinada com proibição de ver TV, falar no telefone e encontrar os amigos). O protagonista adora passar tempo com amigos no próprio quarto, lendo “revistas de surfe” e assistindo vídeos sobre surfe.

Quando não há ondas, uma das atividades favoritas de Buzz, Oz e Jimmy é andar de skate. Eles consideram que o skate permite emular os movimentos corporais e manobras do surfe – e, em alguma medida, as sensações proporcionadas. “Temos alguns amigos que amam o skate e só surfam ocasionalmente, por brincadeira. Somos exatamente o contrário. Meus amigos e eu preferimos surfar todo dia!” (p. 53) A comparação ressalta a diferença quando se cai: no skate, geralmente o corpo atinge o asfalto. Por isso, “é sempre necessário para qualquer um usar equipamentos de segurança e um capacete quando você anda no cimento”. Natação (no mar), skate (shortboard e longboard), mergulho, pesca submarina, remo, andar de bicicleta e escalar cordas também são mencionados na trama, embora quase sempre como exercícios, atividades de lazer ou parte da rotina, mas não propriamente como esportes.

Perto do fim da trama, evidentemente, a aproximação do fim das férias de verão – e do retorno das aulas escolares – apavora os adolescentes. No entanto, como esperado, há um final feliz – surfisticamente falando, inclusive. Graças a uma recompensa recebida, realizam o desejo de comprar uma prancha nova e uma nova roupa de neoprene – mas os pais os obrigam a depositar a maior parte do valor numa poupança com o objetivo de juntarem dinheiro para pagar a universidade. Coisas de um país que não conta com ensino superior público e integralmente financiado pelo estado, como (ainda) é o caso do Brasil.

Referências bibliográficas

BOOTH, Douglas. História, cultura e surfe: explorando relações historiográficas. Recorde, Rio de Janeiro, v. 8, n. 1, p. 1-24, jan./jun. 2015. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/Recorde/article/view/2307/1951 .

MAY, Kirse Granat. Golden State, Golden Youth: The California Image in Popular Culture, 1955-1966. Chapel Hill, London: The University of North Carolina Press, 2002.

Para saber mais

  • Um exemplo de livro infanto-juvenil brasileiro abordando temática dos esportes radicais: Nas ondas do surf, de Edith Modesto. Apesar do título, a trama é sobre bodyboard, e não surfe.
  • Victor Melo tem publicado artigos e livros abordando livros de ficção como objeto e fonte histórica. Ver, por exemplo, este artigo a respeito de Os Maias.
  • Douglas Booth tem publicado artigos com diversas provocações a respeito da necessidade de o historiador lançar mão de sensações, sentimentos, emoções e afetos na escrita da história do esporte.