Bra Boys

01/06/2017

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

No Cineclube Sport de maio, vimos Bra Boys, dirigido por Sunny Aberton e Macario de Souza e lançado em 2007. O que segue abaixo é um conjunto de anotações de minha lavra, em parte estimuladas pelo filme, em parte pelo debate que se seguiu. Agradeço a todos(as) que participaram pelas estimulantes contribuições e questões.

O tema é um grupo de surfistas conhecidos como Bra Boys, residentes do bairro e locais da praia de Maroubra, em Sydney (Austrália).

Do ponto de vista estético, trata-se inegavelmente de um filme de surfe. Feito por e para surfistas, com cenas de surfe. Reifica determinadas visões sobre o esporte (quase todas positivas, muitas idealizadas), que permeiam um certo senso comum da modalidade. Por exemplo, a ideia de que o mar e o surfe fornecem um escape da sociedade. Em parte, evidentemente, isto é verdade. Mas é retratada como se o surfista, antes, durante e depois de surfar, não falasse ou convivesse com outros surfistas.

Do ponto de vista da circulação, me parece que não foi exibido em circuito no Brasil e na maioria dos países (exceto a Austrália e partes dos EUA), tendo circulado em festivais de documentários e festivais de filmes de surfe (obtendo prêmios em alguns destes).

Classe social e enquadramentos midiáticos

Bra Boys permite discutir a questão de classe social, bem como uma frase que escuto com frequência em âmbito acadêmico: “surfe é esporte de elite”. Na mesma linha, é um bom filme para debater estas perguntas: o que é o surfe? Há possibilidades de respostas universais para esta pergunta? Acredito que não. É preciso investigar as realidades locais. Buscar respostas locais para perguntas universais, como disse Giovanni Levi em texto que li recentemente (agradeço ao também escriba deste blogue, Victor Melo, pela indicação). Em outras palavras, à pergunta geral o que é o surfe?, é possível elaborar outras, específicas, para as quais Bra Boys dá algumas respostas e subsídios: o que é o surfe na Austrália? O que é o surfe para os australianos? O que é o surfe para aqueles garotos de Maroubra? O que é o surfe para os que ficam impedidos de surfar (por servirem nas forças armadas e terem sido transferidos para lugares sem onda; por estarem na prisão ou longe do litoral)?

(Pequena digressão: uma das coisas que mais me impressionaram e impactaram quando pesquisei revistas de surfe californianas publicadas entre os anos 1970 e 1990 foram as cartas de leitores enviadas desde a prisão. Fiquei impressionado por dois motivos: o teor das cartas; e também por, depois de um tempo, perceber que algumas prisões da Califórnia contavam com bibliotecas, que, por sua vez, tinham assinaturas de revistas de surfe – uma das leituras que mais atraíam jovens presos, muitos dos quais por crimes relacionados a drogas.)

Outro assunto a discutir é o enquadramento realizado pela mídia, que tende a tratar como banditismo as atividades desenvolvidas por grupos juvenis de camadas populares. Caminhando na direção oposta, o filme é uma construção realizada pelos próprios jovens: direção, produção, edição etc., exceto a narração, feita pelo ator Russel Crowe. Um dos motivos para fazê-lo, como afirmam logo no início, é estarem cansados de apanhar, sofrer abusos, ser tratados como bandidos ou invisíveis pela mídia, pelo governo e pela polícia (o tratamento da polícia para com esses jovens, guardadas as devidas proporções, parece muito mais civilizado do que o padrão vigente nas quebradas do Rio de Janeiro – o padrão do que é aceitável, é claro, pode mudar bastante de uma sociedade para outra). A cor da pele da maioria também é diferente daquela hegemônica entre os pobres do Rio, mas são, de fatos, jovens de uma área degradada. O alto número de mortos (sempre um indício de problemas) é um dado importante.

 

Território e localismo

Um dos principais assuntos/questões que o filme permite discutir é o vínculo com o território e o localismo. O localismo, em suas diferentes manifestações, é um fenômeno presente em praias de vários países, ainda que pouco apareça nas representações midiáticas do esporte. Pelo que observei até hoje, a postura mais comum é silenciar sobre o tema. E, na maioria das ocasiões em que é tratado, isto se dá sob a forma de crítica: o localismo é classificado como um comportamento atrasado, violento e de ignorantes. Contudo, algum grau de relativismo, contextualização e até glamourização pode ocorrer (às vezes combinado com criminalização e acusações) quando se trata do North Shore da ilha de Oahu, no Havaí. (Para uma interessante – embora a meu ver exageradamente engajada e maniqueísta – análise e crítica da criminalização promovida pela mídia hegemônica a respeito dos locais e do localimo no North Shore, ver o último capítulo de Walker, 2011).

Por outro lado, o bairro é pouquíssimo explorado na trama. Fiquei curioso para saber e entender mais, já que argumenta-se que o vínculo com ele é um dos aspectos que definem o caráter, a identidade e os valores desses jovens (como, por exemplo, a alegada rejeição do racismo e da xenofobia). Bra Boys argumenta que o localismo não necessariamente significa recusa e intolerância com relação ao outro. Quando se trata de uma comunidade “multicultural” como Maroubra, não é a etnia, religião ou país de origem que decidirá quem cabe no grupo: todos podem fazer parte do que é o nós.

Gênero e masculinidades

A partir tanto do comportamento dos personagens e do fato de serem praticamente todos masculinos, quanto da quase ausência de personagens femininas, é possível discutir questões relativas a gênero e masculinidade. Há ainda, o contraponto da avó Ma (possivelmente uma corruptela de “avó”, em inglês). É impressionante a força desta mulher, cuja casa é uma espécie de abrigo seguro (safe heaven, se diria em inglês) para crianças e adolescentes de famílias destrambelhadas e destruídas pela pobreza, desemprego, violência e drogas. Isso inclui os próprios netos de Ma, o trio de irmãos que protagoniza o filme (um deles co-diretor da obra).

Um tema que aparece rapidamente no filme são as diferentes medidas restritivas impostas pelo poder público aos banhistas australianos ao longo do século XX. Segundo Douglas Booth (2001), em seu fascinante livro sobre as culturas de praia australianas, houve momentos em que cercas de arame farpado dividiam as praias, de forma a separar homens de mulheres.

Por sinal, as restrições, perseguições e criminalização do surfe e dos surfistas são um dos muitos assuntos por investigar na história desta prática no país. Em alguns dos poucos trabalhos sobre a modalidade (Cunha, 2000; Fortes, 2011), há indícios de uma série de problemas, controvérsias e até notícias de mortes em vários municípios do litoral catarinense, Arraial do Cabo (RJ) e Recife (PE). Há tanto repressão e conflitos com o Estado quanto com determinados grupos ou setores da sociedade, como pescadores e banhistas. Também no caso da história do skate no Brasil, este é um caminho tão promissor quanto pouco explorado, exceto, até onde sei, por iniciativas pontuais do pesquisador Leonardo Brandão (como este e este artigos).

Bibliografia

BOOTH, Douglas. Australian Beach Cultures: The History of Sun, Sand and Surf. London: Frank Cass, 2001.

CUNHA, Delgado Goulart da. Pescadores e surfistas: uma disputa pelo uso do espaço da Praia Grande. 2000. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2000.

FORTES, Rafael. O surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri/Faperj, 2011.

WALKER, Isaiah Helekunihi. Waves of Resistance: Surfing and History in Twentieth-Century Hawai’i. Honolulu: University of Hawai’i Press, 2011.

 

 

 

 

 

 

 

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Mais sobre a cultura do surfe no Sul da Califórnia

29/05/2017

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

Esta postagem completa uma trilogia iniciada por “Pesquisando história do surfe no Sul da Califórnia” e “Os museus de surfe da Califórnia“. Diferentemente do que geralmente faço, foco é mais em imagens que no texto. Todas as fotos são de minha autoria.

*  *  *

A lista de surf shops, marcas, empresas, shapers e oficinas de produção de materiais e equipamentos originários do Sul da Califórnia é enorme. Cito algumas: Clark Foam, Dewey Weber, Gordon & Smith, Hobie, Infinity Surfboards, Mark Diffenderfer, Pat Curren, Rusty, Ventura Surf Shop, (há listas extensas na internet, como esta).

Em entrevista [em inglês] ao projeto Sport in the Cold War (Esporte na Guerra Fria), o historiador Mark Dyreson afirma que os Jogos Olímpicos foram arenas para a divulgação de produtos, hábitos, práticas, modalidades esportivas e valores associados à Califórnia: camisas “havaianas”, calças jeans, filmes de Hollywood, praia, natação, vôlei de praia, mountain bike. Isto se deu em diferentes momentos do século XX, em especial nos anos 1930 e nos anos 1980, quando Los Angeles sediou as Olimpíadas de verão, em 1932 e 1984. Na mesma cidade encontram-se os estúdios hollywoodianos, cujos filmes cumpriram uma dupla função: produtos de exportação, também funcionaram como instrumentos de propaganda de uma série de elementos do que se convencionou chamar de culturas californianas, tanto para consumo interno (para públicos dentro do país e tropas espalhadas pelo planeta) quanto em escala mundial.

Esta postagem está organizada por cidade/localidade, começando pelo Condado de San Diego.

San Diego

Entre os diversos centros culturais, museus e galerias do Balboa Park está o San Diego Hall of Champions. Um dos atrativos é um Hall da Fama homenageando atletas nascidos na cidade e/ou no condado. O skatista Tony Hawk, de Carlsbad (no norte do condado), é um dos homenageados no Hall da Fama.

San Diego é uma das capitais da cerveja e das cervejarias artesanais nos EUA. Algumas têm referências a praia (e se localizam próximas à praia) e/ou ao surfe, como Rip Current. De uma lista de cinco cervejas temáticas de surfe disponível no site da revista Surfer, duas são de cervejarias localizadas no Condado de San Diego (em San Diego e San Marcos). E outra da Surf Brewery de Ventura, outra importante cidade de surfe californiana.

Ao sul de San Diego encontra-se Imperial Beach, a última cidade e uma das últimas praias da Costa Oeste do país. Como de costume, o píer favorece a formação de boas ondas dos dois lados. Além de humanos, Imperial Beach também recebe surfistas caninos, que contam com um apoio de seus donos para dropar nas ondas. Até campeonato de surfe de cachorros eu tive oportunidade de assistir (uma boa onda está em 3’14”). Note-se que a gravação foi disponibilizada num site chamado Dog Sports News, algo como Notícias de Esportes Caninos. Havia um conjunto de barraquinhas com produtos especializados, venda de petiscos e cervejas, brinquedos e brincadeiras para crianças etc. O campeonato contava com palanque, sistema de som, chamada de competidores e distribuição de camisetas antes do início de cada bateria etc.

Ao norte do condado, Oceanside, sede do California Surf Museum, é outra cidade que respira surfe. Tal como Imperial Beach, tem seu píer.

Huntington Beach

Esta pequena cidade considera a si mesma a capital do surfe competitivo na Califórnia. Motivos não faltam, como se pode ver nas fotos e legendas acima. Campeonatos, história, passado, campeões, ídolos, comércio, turismo e outros elementos formam uma notória e especial relação entre surfe, território, cultura e economia. Os lados do píer são um importante pico de surfe, assim como da prática de vôlei de praia – a Califórnia é o principal celeiro de jogadores(as) de vôlei de praia dos EUA. Atravessando a rua a partir do píer, chega-se à Calçada da Fama do Surfe, inaugurada em 1978 (mais informações nas legendas das fotos). Nela há uma estátua de Duke Kahanamoku.

Cerca de Los Angeles: DE Santa Monica a Venice

Embora haja um predomínio do surfe no litoral, o skate também é muito praticado. Em cidades como Santa Monica e Venice, a quantidade de cartazes e placas proibindo o skate é um indicativo de sua relevância e ubiquidade.

Santa Cruz

Santa Cruz é outra surf city importante. Localizada bem mais ao norte, é também conhecida pelas águas geladas. Na colina da qual se desce para pegar onda em Steamer Lane encontra-se a placa acima – o tipo de artefato cultural que enche os olhos de um pesquisador de humanidades. Nele lê-se o seguinte (tradução minha):

– O primeiro surfista na onda [ou seja, a ficar de pé sobre a prancha] tem a preferência

– Reme dando a volta na onda, não pelo meio dela

– Controle sua prancha

– Ajude os outros surfistas

Por Sam Reid

O estabelecimento de regras – e os métodos e iniciativas para tentar garantir que sejam cumpridas e obedecidas – são uma característica importante do surfe, ainda que objeto de muita controvérsia. Na visão de muitos de seus praticantes, devido ao número limitado de ondas (sobretudo de ondas boas e de fácil acesso), é preciso estabelecer critérios de preferência e convivência de forma a reduzir a ocorrência de conflitos.

San Clemente

Abaixo estão outras fotos do Surfing Heritage and Culture Center:

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Este texto já estava pronto quando soube da notícia da morte de John Severson, aos 83 anos.”Nascido e criado em Pasadena e San Clemente” [ambas na Califórnia], em 1960  Severson publicou um impresso para divulgar um filme que produzira. Chamava-se The Surfer, depois virou Surfer. Transformou para sempre esta notável atividade sobre a qual escrevo desde 2004, além de ter inspirado praticamente todos os periódicos congêneres de surfe do mundo. Severson vendeu a revista na primeira metade dos anos 1970, mas sempre se manteve próximo ao surfe, inclusive em sua produção artística. Surfline, Liga Mundial de Surfe e a Surfer publicaram belos necrológios. Outros virão.


Os museus de surfe da Califórnia

06/02/2017

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

Como prometi, hoje trato dos cinco museus de surfe localizados na Califórnia. Neste texto, estou usando a categoria nativa, ou seja, considero museus de surfe as cinco instituições que se classificam como tais. Eles se estendem desde Oceanside, no sul do estado, até Santa Cruz. Seguirei este trajeto sul-norte na ordem de apresentação. Todas as fotos sem crédito de autor foram feitas por mim. Informações específicas sobre itens dos acervos estão nas legendas das fotos.

California Surf Museum (CSM, Oceanside)

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Foi o museu em que estive mais vezes. Fica perto da estação de trem e do píer onde surfam e treinam locais e/ou profissionais – o píer aparece constamentemente em séries do canal Off.

Tem uma excelente coleção de revistas, que ficam numa sala confortável e exclusiva para pesquisadores. A pesquisa neste museu fez parte de uma experiência maior, daquelas que não têm preço nessa vida: durante o ano em que vivi na Califórnia, fui respeitado como pesquisador de história do surfe e da mídia do surfe de uma forma como raramente aconteceu noutros lugares – incluindo o Rio de Janeiro e o Brasil – em mais de dez anos dedicados ao tema.

Comandada pela historiadora Jane Schmauss, a equipe é prestativa e simpática – quando solicitadas por mim, as pessoas sorriam e se interessavam pelo meu trabalho, em vez de rosnarem, como acontece noutros lugares e cidades por aí. Conta com voluntários e trabalhadores assalariados. Segundo me explicou Jane, o museu recebe cerca de 25 mil visitantes anuais. O imóvel onde está há alguns anos pertence à Prefeitura de Oceanside – cuja sede fica próxima -, que o alugado a preço subsidiado. Ali pertinho também está a biblioteca municipal (a visita à biblioteca da cidade é um programa bacana, assim como em várias cidades e bairros californianos).

O forte do acervo, como em três outros museus, são as pranchas. Entre doações, empréstimos, exposição permanente e temporária, é possível ter contato com boa parte da produção de pranchas do sul da Califórnia desde os anos 1950. Há também exemplares mais antigos: paipos havaianos, pranchas para salvamento no mar etc. Mas o foco está nos shapers da própria região – vários dos quais são sócios contribuintes do próprio museu e doaram e/ou emprestaram pranchas de sua lavra. Algumas estão autografadas pelos shapers, outras, pelos que as surfaram. Há doações de Kelly Slater e de outros atletas famosos do esporte profissional e/ou das ondas grandes (nas ocasiões em que estive lá, a exposição temporária era sobre surfe em ondas grandes; preparava-se uma exposição sobre surfe durante a Guerra entre os EUA e o Vietnã). Há também seções dedicadas a outros aspectos, como bodyboard e surfe de peito. Tem uma vitrine muito interessante com jogos e brinquedos que têm o surfe como tema – de Barbie a Banco Imobiliário – e outra com dezenas de parafinas.

Sou suspeito para falar, pois nesse museu fiz parte de minha pesquisa de pós-doutorado. Além disso, tive uma experiência bacana como usuário (e não como pesquisador) em todas as ocasiões em que estive lá. Isso porque está em exibição a prancha de Bethany Hamilton – de quem eu nunca ouvira falar até recentemente. Trata-se de uma havaiana, de uma família de surfistas, que teve um braço arrancado por um tubarão enquanto pegava onda com uma amiga, aos 12 anos de idade. A história está contada em dois filmes (um documentário e um de ficção) e um livro. Bethany tornou-se ícone dos e das adolescentes e tem sua própria linha de produtos de beleza. Além disso, o que mais me impressionou: continuou surfando. E bem: embora não corra o circuito mundial, volta e meia participa de um etapa como convidada. Em 2016, chegou à semifinal da de Fiji – é bom lembrar, Bethany surfa com a desvantagem de não ter um braço para remar, se equilibrar e, dependendo do lado para o qual a onda quebra, adequar a velocidade colocando a mão na parede da onda e/ou segurando a borda da prancha.

Enfim, a experiência definitiva de visitante é ficar sentado num pufe, perto da prancha de Bethany, e esperar para ver alguma criança se aproximar (a Califórnia é cheia de crianças, tanto locais quanto turistas). A cara de surpresa que as crianças fazem é indescritível. Cobrem a boca com a mão, mordem os dedos, andam para trás, correm para chamar a atenção de alguém. Ao que parece, todas conhecem a história de Bethany (e por isso a reação). Fica a dica: se você, leitor(a) um dia for ao CSM, e a prancha de Bethany ainda estiver lá, fique uns minutos na área central, como quem não quer nada, até que chegue uma criança ou grupo de crianças à parte dedicada à surfista. A reação delas valerá a visita.

Surfing Heritage and Culture Center (SHACC, San Clemente)

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Para quem vem do sul, San Clemente é a primeira cidade litorânea do Condado de Orange (vulgo OC). Nesta importante cidade de surfe está o SHACC. A entrada para a exposição, que consiste basicamente de pranchas (ver informações no álbum de fotos), custa US$ 5. Para fazer pesquisa no acervo, que conta com revistas, livros e outros documentos, como cartas, é preciso ser membro da associação, o que custa US$ 50 por ano. A reprodução de materiais (uso de scanner etc.) é paga à parte.

Assim como o congênere de Oceanside, o museu é obra do esforço de um conjunto de surfistas, boa parte deles sócios que doam tempo e/ou dinheiro para a manutenção e desenvolvimento do local. Servem também como espaço para a realização de lançamentos de livros e filmes, homenagens, leilões (nos quais se leiloam pranchas e outros objetos para arrecadar recursos para o próprio museu), jantares de homenagem e/ou de arrecadação de fundos para as próprias entidades e para outros fins. Quando estive lá, fui atendido de forma muito simpática por Barry Haun, que, de bermuda e chinelo, me deu informações, forneceu contatos que poderiam ser úteis à minha pesquisa e, enquanto eu fazia a visita, fez a gentileza de telefonar para uma das pessoas para avisar que eu entraria em contato.

International Surfing Museum (Huntington Beach)

Este é o museu em que fui recebido com menos simpatia. Talvez as condições fossem desfavoráveis: era um domingo, ali pela hora do almoço, e havia dezenas de torcedores ruidosos do San Francisco 49ers tocando o terror assistindo ao jogo num pub em frente. (Tocando o terror nos padrões dos EUA, evidentemente; brincadeira de criança, quando se compara com as torcidas de futebol no Brasil.) O que me pareceu mais interessante do acervo foram itens específicos do surfe na própria cidade, sede de importantes campeonatos ao longo de décadas.

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Santa Cruz Surf Museum (Santa Cruz)

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O Santa Cruz Surf Museum é tão pequeno que não daria para o acervo focar em pranchas – elas não caberiam no local. Contudo, tem seus atrativos. O primeiro deles é ficar dentro de um farol. Segundo, fica num lugar belíssimo, à beira-mar, em cima da ponta onde, logo abaixo, está Steamer Lane, uma das ondas mais famosas da Califórnia. Ou seja, a visita ao museu pode ser combinada com uma sessão nas gélidas águas locais – ou, em casos como o meu, com a assistência. O mesmo estacionamento é usado pelos visitantes do museu e pelos surfistas. Terceiro, tem entrada gratuita. Quarto, o acervo tem algumas fotos interessantes, assim como informações sobre aspectos do surfe local, como… ataques de tubarão.

Além de importante cidade de surfe californiana, conhecida pelas boas ondas e pelo mar frio, Santa Cruz é o lugar de origem de um dos principais fabricantes de roupas térmicas para surfe do mundo: O’Neill.

Santa Barbara Surf Museum (Santa Barbara)

Deste, não sei por que, não consegui encontrar as fotos. Assim como o de Santa Cruz, o forte são as pranchas. Há também muitas capas de discos e cartazes de filmes. De todos, foi o que me pareceu mais amador: na verdade, parece uma iniciativa pessoal de um apaixonado pelo surfe. O inacreditável: no domingo em que estive lá, não vi ninguém no museu. Isso mesmo: desde o momento que cheguei até a hora em que saí, não havia absolutamente ninguém lá dentro. O museu não cobra entrada, e é possível levar um adesivo deixando numa caixinha, em troca, uma doação de US$ 1. A casa onde funciona é meio difícil de achar, pois fica numa daquelas ruas meio estranhas: termina do nada numa linha de trem e recomeça do outro lado, só que você olha e não sabe por onde atravessar (pois há grades e muros). E uma vantagem, sem dúvida, é ficar na linda Santa Barbara.


Esporte, Política e Humor: o Golpe de 16 (parte 1)

27/06/2016

As relações entre esporte e política são múltiplas. O que talvez possa passar despercebido no contexto atual é que o esporte também permeia (sem perder o bom humor) a luta política.

por Fabio Peres

Desde o acirramento da crise política em 2015, incontáveis manifestações relacionaram política e esporte. Faixas – pró e contra o impeachment – foram exibidas em jogos de futebol. Torcidas procuraram se organizar em torno da luta contra o golpe. Proliferaram-se memes fazendo referência ao mundo do esporte. Torcedores invadiram campos e treinos de times de futebol. Camisas da seleção (ou da CBF como alguns discursos procuram sublinhar) [i], não apenas foram utilizadas em manifestações, como também foram personalizadas com dizeres “Fora Dilma” ou “Fora PT”.  Houve até mesmo torcida homenageando juiz.

O clássico fla X flu, aliás, ganhou corpo em diversas análises como metáfora da polarização política. O que chama atenção nesse caso é a força simbólica que a disputa carioca ainda possui no imaginário social. Não se tem conhecimento, pelo menos com a mesma eficiência semântica, de uso de outras contendas para ilustrar tal conjuntura (não se falou no Derby Paulista e muito menos em Barcelona X Real Madrid).

Política e esporte definitivamente estavam imbricados em todas essas ocasiões.

O que pode parecer inusitado é que – apesar da seriedade da crise (ou justamente por conta disso) – também houve uma profusão de referências, cujo traço comum era o humor.

Com o início do processo de impeachment, jornalistas, artistas e coletivos sociais utilizaram de forma bem-humorada as práticas esportivas para explicitar e questionar o momento político que estamos atravessando.

Na Folha de S. Paulo, por exemplo, Gregório Duvivier (na crônica Festa Estranha com Gente Esquisita, 21/12/2015) colocou em xeque – utilizando para isso modalidades esportivas – a representatividade do Congresso Nacional, a premissa de que o poder legislativo reflete a sociedade brasileira:

Se tem alguém que não está presente no Congresso nacional (além dos deputados que, de modo geral, preferem trabalhar de casa) é o povo brasileiro. As mulheres são quase 52% da população. No entanto, você consegue encontrar mais mulheres jogando rúgbi do que na Câmara dos Deputados. O povo brasileiro se declara, em sua maioria, negro ou pardo (53%). O Senado brasileiro tem menos negros que o Senado da Suécia (não é uma expressão, é um fato). Quanto aos jovens, melhor procurar num jogo de bocha. Jovens com até 34 anos são 39% do eleitorado e 10% do Congresso (grifos nossos).

 

A reflexão continua acentuando ironicamente o perfil elitista do Congresso em contraponto ao da população:

Muito se fala sobre a tal festa da democracia. Que festa estranha com gente esquisita. Eu não tô legal. O Congresso brasileiro parece o salão de jogos do Country Club: uma versão mais masculina, mais branca, mais hétero, mais velha e mais empresária do Brasil. Mas por quê? Será que o brasileiro só confia em homem branco hétero velho empresário? Uma rápida pesquisa revela que eleger um deputado custa, em média, R$ 6 milhões. Uma rápida pesquisa revela que quem tem R$ 6 milhões no Brasil é homem branco hétero velho empresário. O Congresso brasileiro não é a cara do Brasil. Ele é a cara da elite do Brasil. Não é o povo brasileiro que é conservador. É o dinheiro brasileiro que é conservador. Pense no lado bom: talvez o Brasil não seja um país intrinsecamente corrupto ou reacionário. Ou talvez seja. Isso a gente ainda não sabe. Pra isso seria preciso uma coisa inédita: democracia. Por enquanto, pra participar da festa, só com pulseirinha VIP de R$ 6 milhões (mas relaxa que tem consumação).

 

No dia 03 de abril, Juca Kfouri, por sua vez, abriu sua crônica com a seguinte questão: “Nestes dias uma questão paira sobre o Brasil: impeachment de Dilma Rousseff é golpe ou não é golpe?” (Folha de S. Paulo, 03/04/2016).  O futebol é usado para responder de maneira cômica a questão (o artigo completo pode ser encontrado aqui). Rico em figuras de linguagem, o texto conclui:

Só não esqueça que a vitória roubada não é legítima, que sem respeito às regras não tem jogo. E que uma expulsão ilegal, nestas alturas do campeonato, pode virar um tremendo quebra­pau no estádio, pode virar tragédia. Se você acha que vale arriscar só para ver o rival derrotado, lamento dizer que não estamos no mesmo time.

 

Com narração do próprio Juca Kfouri, a crônica foi dramatizada em vídeo pelo coletivo[ii] Um à Esquerda:

 

O coletivo voltaria a usar esse mesmo recurso, também com narração de Juca Kfouri, para falar de possíveis perdas dos direitos trabalhistas – naquela época, num eventual governo interino Temer. O vídeo faz uma analogia entre 7 projetos de lei que buscam “flexibilizar” a CLT e os 7 gols que a seleção brasileira tomou contra a Alemanha na Copa do Mundo de 2014.

 

 

O gol de honra do “Brasil” só apareceria em outro vídeo, quando o ministro do STF Teori Zavascki determinou o afastamento de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) do mandato de deputado federal e, consequentemente, da presidência da Casa, em 05/05/2016.

 

 

Mas mesmo antes da infame votação no dia 17 de abril, quando ainda não se tinha certeza se o impeachment passaria na Câmara, o colunista Celso Rocha de Barros da Folha de S. Paulo alertava para os riscos de dá-lo como certo, ainda que bastante provável. De maneira espirituosa, a coluna O Cenário Deivid (04/04/2016) lembrava do insólito gol perdido pelo jogador do Flamengo, na disputa da Taça Guanabara de 2012, contra o Vasco (veja o lance no vídeo abaixo). Embora o “sim” já aparecesse com franca maioria nas análises divulgadas por parte da mídia, recomendava-se um pouco cautela:

Enfim, o gol está aberto para a oposição. Mas gol aberto é hora de lembrar de Deivid, ótimo centroavante que jogou nos maiores times do Brasil e na seleção. Dentro de uma carreira cheia de títulos e artilharias, o gol perdido por Deivid na semifinal da Taça Guanabara de 2012 é só um episódio pitoresco. Mas ninguém esquece: a poucos centímetros da linha do gol, sem goleiro, Deivid chutou na trave. Como seria um momento Deivid da turma que quer derrubar Dilma?

 

 

Fazendo uso de outras referências ao futebol, o colunista chama atenção para o papel cada vez mais decisivo que o chamado baixo clero possuiria na votação na Câmara, o que ainda conferia uma pequeníssima dose de imprevisibilidade à disputa pelos votos (tanto para o “sim” como para “não”, tanto para direita como para a direita) de “partidos que são pouco mais que máquinas de extração de rendas (o PMDB incluso)”:

Um governo Temer continua muito provável […] Mas é bom lembrar que, embora a zaga petista tenha se distraído do jogo olhando aquela grama toda tão apetitosa, o atacante adversário está sob cerrada marcação da natureza. Agora olhem para todos esses cenários com PMDB e PP e me expliquem de novo por que valeu a pena começar a guerra do impeachment.

 

Com humor mais escrachado, artistas criaram o projeto Supletivão, no qual o golpe é explicado através de aulas de disciplinas diversas: lógica, português, história e educação física. Nessa última, o ciclismo (em suas diversas modalidades) é usado para explicitar as intempéries, para não dizer, bizarrices político-jurídicas de uma democracia em risco:

 

 

Após a votação no Senado, aprovando a abertura de processo de impeachment, Gregório Duvivier voltou a fazer analogias entre esporte e política.  Em Faltou combinar com os russos (Folha de S. Paulo, 16/05/2016), o colunista lembra da folclórica conversa entre Garrinha e o técnico Feola, na Copa de 1958, para retratar a ingenuidade, as ambiguidades e mesmo contradições daqueles que apoiaram o impeachment, alguns provavelmente neófitos na participação política (e talvez no futebol):

Reza a lenda que na Copa de 58, o técnico Feola bolou um esquema infalível contra a seleção soviética: Nilton Santos lançaria a bola pela esquerda para Garrincha, que driblaria três russos e cruzaria para Mazzola marcar de cabeça. Garrincha ouviu o professor atentamente: “Tá legal, seu Feola, mas o senhor combinou com os russos?”. “Primeiro a gente tira a Dilma”, dizia o pessoal do impeachment. “Depois a gente derruba o Temer. Aí a gente prende o Cunha. Quando ele cair, a gente cassa o Renan. Daí pronto: eleições gerais.” O plano era infalível. Só esqueceram de combinar com os russos. No poder, o presidente interino (não pronunciarei mais seu nome) já mostrou que não tem a menor intenção de renunciar –apesar de ter assinado as mesmas pedaladas que derrubaram Dilma. Parabéns a todos os que produziram o efeito dominó mais curto do mundo: parou na primeira peça.

 

Já com o governo interino em curso, talvez o cenário se afastasse bastante daquele imaginado pelas pessoas que, 5 dias antes, comemoraram o afastamento da presidente:

Os russos roubaram a bola antes dela chegar ao ataque e fizeram sete gols. O secretario de segurança genocida foi premiado com a Justiça. A Educação ficou com o PFL (me recuso a chamar de Democratas) –partido que foi contra o ProUni, o Fies, os royalties para educação. A Cultura foi pro mesmo lugar que a democracia: debaixo da terra. Ou do PFL. O que é pior. Serra no Exterior –um sujeito que não tem sequer um amigo vai cuidar da diplomacia. Mudaram a CGU –e junto com ela a torneira da Lava Jato. Achei que aqueles que eram contra a corrupção iriam às ruas contra o primeiro presidente brasileiro que já assume com a ficha suja. Não foram. Achei que fossem contra a indicação de ministros citados na Lava Jato. Tampouco foram. O pato da Fiesp acordou rouco. As panelas voltaram à cozinha. Durante o discurso do vampiro embalsamado que nos governa, tudo o que se ouvia era um silêncio ensurdecedor. Cheguei a ouvir: “ao menos esse presidente fala bem o português”. A vontade é enorme de gostar do mordomo interino. Pode roubar, matar, e esconder cadáver, mas pelo menos não erra o plural.

 

O autor de maneira provocativa e irreverente conclui:

Não se esqueçam do Carlos Lacerda, que fez o que pôde pro governo de Jango cair. Quando o golpe chegou, teve os direitos políticos cassados. Tentou reclamar –era tarde demais. “Mas não era isso que você queria?”, poderiam argumentar os militares. O golpe chegou. Vale lembrar de Lacerda. Quem pediu o golpe não estará imune a ele. É o momento de deixar claro que não era isso que vocês queriam. Com esse silêncio todo, fica parecendo que era.

 

Assim como no caso de outros literatos – como Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade e Joaquim Manuel de Macedo (comentados anteriormente aqui no blog) –  jornalistas, artistas e coletivos sociais “deslocaram” os sentidos habituais do esporte para provocar riso, wit  ou ironia (a despeito da distinções conceituais entre cada um deles)[iii].

Sem dúvida, devemos considerar o caráter relativo do humor, mas não é recomendado abrir mão do “contextualismo linguístico” de produção das narrativas.

De todo modo, o esporte parece cumprir com eficácia o requisito de “familiaridade com os códigos e as normas que ditam a (de)codificação da mensagem humorística” (ERMIDA, 2002, p.76).

Ora mais, ora menos irônica, ora mais, ora menos sútil, as práticas esportivas em todos esses casos foram mobilizadas com sensibilidade cômica para refletir sobre a crise (vale ressaltar multiplamente adjetivada; o que evidencia ainda mais a sua gravidade). Mais do que isso, o esporte também é usado para “demarcar campo”, para se posicionar na disputa política.

Em outras palavras, as práticas esportivas parecem, não apenas ser “boas para pensar” o mundo político, mas – como causa ou consequência disso – parecem também ser “boas para agir” – com bom humor – na vida social e política.

Alguns cartunistas parecem concordar com essa ideia. Articulando referências e linguagens múltiplas (fotografia, música, esporte, entre outras), Aroeira por exemplo desenhou o Impávido que Nem Muhammad Ali:

o Impávido que Nem Muhammad Ali (Aroeira, 06/06/2016)

 

A homenagem sugere um eco que de alguma forma repercuti no contexto político atual:

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos

Surpreenderá a todos não por ser exótico

Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto

Quando terá sido o óbvio

(Um índio, Caetano Veloso. A música pode ser escutada aqui)

 

Mas essa história vai ficar para o próximo post.

________________________________________________________

[i] Vale notar que a expressão “camisa da CBF” tem sido utilizada para denotar e sublinhar o tom crítico a tais manifestações.

[ii] Estamos usando a denominação utilizada por Juca Kfouri.

[iii] Maiores informações ver: ERMIDA, Isabel Cristina da Costa Alves. Humor, Linguagem e Narrativa: para uma Análise do Discurso Literário Humorístico. Tese (Doutorado em Ciências da Linguagem). Universidade do Minho, Braga, 2002.


Ali e as estrelas do Dream Team: quando os ídolos viraram crianças

04/06/2016

Por Rafael Fortes

Morreu Muhammad Ali.

Lembrei de uma bela homenagem a ele, Cassius Marcelo Clay, de Jorge Ben Jor (então Ben), ao que parece, em parceria com Toquinho. A canção faz parte do espetacular disco Negro É Lindo (1971). É uma das numerosas pérolas pouco conhecidas de Benjor.

Não sou grande acompanhador de boxe. E, mais importante, não tive idade para ver Ali lutar e acompanhar sua trajetória esportiva e pessoal. Talvez por isso (e por só haver conhecido a música de Benjor há coisa de 10-12 anos) sempre me impressionou a ampla admiração por ele nos EUA, especialmente intensa entre atletas negros (de todas as modalidades). A cena que me fez entender isso – cair a ficha, como se diz – ocorreu numa partida a que eu assistia pela televisão e está capturada no vídeo abaixo.

Durante os Jogos de Atlanta em 1996, Ali recebeu uma medalha do Comitê Olímpico Internacional (COI), pois, segundo consta, muitos anos antes perdera a que conquistara lutando nos Jogos de Roma, em 1960. A princípio, pode parecer estranho que se tenha escolhido o intervalo de um jogo de basquete masculino – e não de um evento de boxe – para realizar a cerimônia. Certamente o basquete – e particularmente os jogos do Dream Team – tinha muito mais visibilidade que o boxe, em se tratando de Olimpíada. Veja o vídeo e o que acontece poucos segundos após Ali receber a medalha:

Em 2’56”, num curto corte de câmera, já se pode ver Karl Malone aplaudindo e se esticando para espiar. Pouco depois, a maioria dos jogadores dos EUA não se contém. Entram na quadra e cercam o ídolo, num gesto/momento que, mesmo visto 20 anos depois, continuo considerando emocionante e de rara beleza. Olajuwon, O’Neal, Pippen, Barkley, Hardaway, Malone, Payton e outros, eles próprios grandes ídolos e homens enormes, reúnem-se como crianças pequenas em torno do seu herói. (Na sequência, os jogadores da Iugoslávia – sim, da Iugoslávia -, capitaneados por Divac, também posam para a foto.)

A Olimpíada de 1996 foi realizada em Atlanta. Conhecida por ser a sede da Coca-Cola e de emissoras de televisão como CNN e TNT, a cidade é a capital da Geórgia, no sul dos EUA, um dos estados que compuseram a Confederação durante a Guerra Civil Americana. Região de cultura e tradição barra-pesada de escravidão e racismo. Naquele time olímpico de basquete, Charles Barkley, por exemplo, nasceu e foi criado no Alabama (outro estado barra-pesada) e, hoje comentarista de TV, volta e meia conta histórias pessoais e/ou faz críticas sobre o racismo quando participa de mesas-redondas, como num excelente debate no programa Open Court durante o Mês da História Negra, em fevereiro deste ano (infelizmente, não consegui achar o vídeo na internet).

Observando a extensa e sentida reação à notícia da morte de Ali, noto a variedade de razões pelas quais as pessoas o admiravam. Surpreso, não mais; de novo impressionado, sem dúvida.


Os donos da NFL

16/11/2015

Por Rafael Fortes

Dois problemas, um conjuntural e outro estrutural, têm preocupado os torcedores do San Diego Chargers, time da National Football League (NFL), entidade que organiza o principal campeonato de futebol americano profissional dos EUA. O conjuntural é a campanha ruim na temporada: duas vitórias e sete derrotas. (Como disse um comentarista outro dia: a boa notícia deste fim de semana é que o Chargers não corria o risco de perder: estava de bye.). A estrutural é a ameaça de extinção. Ou melhor, de mudança para Los Angeles.

Em 13 de setembro, o The San Diego Union-Tribune publicou “Um guia dos 32 donos que vão decidir a jogada em L.A.“. O autor, Kevin Acee, divide os proprietários em categorias, em função de uma possível (às vezes, já declarada) simpatia, antipatia ou neutralidade em relação ao desejo do dono do Chargers, Dean Spanos, de trocar de cidade. Discute ainda quais seriam as preferências de cada um, já que dois outros proprietários querem ir para LA.

O guia é uma fonte muito interessante. Em primeiro lugar, porque identifica os proprietários (ou o presidente, no caso do Green Bay Packers, exemplo único de “uma corporação pública sem fins lucrativos com 363.948 acionistas”) de todos os times com nome e sobrenome, foto, time e ano em que assumiu a posição. Segundo, porque apesar de obedecer a uma estrutura de três curtos parágrafos, cada perfil traz informações sobre a vida de cada um e de como chegou a proprietário de equipe. Alguns comentários:

1) Ao contrário do que o(a) leitor(a) pode pensar à primeira vista, a turma não é composta por milionários. Trata-se de bilionários.

2) Os caminhos para ser dono de um time são relativamente poucos: herança familiar; ser bilionário e investir num time para diversificar os negócios; ser bilionário fanático por esporte (além de aumentar a riqueza, ter o prazer e o poder de administrar um time profissional).

No primeiro caso, há pertencem a famílias consideradas tradicionais do futebol americano. Por exemplo, John Mara, um dos dois donos do New York Giants: “O futebol americano corre no sangue de Mara. Ele pertence à terceira geração de donos da equipe, que seu avô fundou em 1925.” E George McCaskey, do Chicago Bears: “(…) junto com seus irmãos e irmãs, cresceu em torno do Bears. (…) Sua mãe, Virginia Halas McCaskey, filha do proprietário original do time, continua viajando para as reuniões da liga aos 92 anos.”

Há os que são de famílias tradicionais do capitalismo estadunidense. A proprietária do Detroit Lions, time da capital mundial da indústria automobilística, se chama Martha Ford: “Ela vem de uma ilustre família americana, os Firestone, e casou-se com outra, os Ford. A um ano de completar 90, Martha Ford assumiu o Lions em 2015, após a morte de seu marido, William Clay Ford.”

Há os que começaram o próprio negócio ou tiveram uma ideia brilhante e construíram um império – personificando o sonho americano -, como Shahid Khan (Jacksonville Jaguars): ainda jovem, “imigrou do Paquistão, ganhou dinheiro lavando pratos e fez faculdade de engenharia. Uma ideia brilhante – um para-choque de caminhão melhor e mais leve – tornou-se um negócio lucrativo e colocou-o no caminho dos bilhões.”

Há os que são fanáticos por esporte em geral, como o casal Kim e Terry Pegula (Buffalo Bills): “A fortuna de Terry, 64 anos, é estimada em US$ 4 bilhões pela Forbes. Os Pegula, que fizeram a maior parte do seu dinheiro no ramo de fratura hidráulica de gás natural, compraram o Bills em 2014 por US$ 1,4 bilhão, um recorde na NFL. O casal também é dono do Buffalo Sabres (NHL) e do Buffalo Bandits (National Lacrosse League).”

3) A principal motivação do dono do Chargers, claro, é aumentar os lucros. Para 2014, a estimativa de população da região metropolitana de Los Angeles superava os 13 milhões de habitantes, mais de quatro vezes maior que a de San Diego. Contudo, um dos principais motivos citados nas discussões midiáticas sobre a saída do Chargers é o estádio, considerado velho e antiquado – um dos piores da liga, na opinião de vários jornalistas. A leitura dos perfis dos donos mostra que ameaçar mudar de cidade é um método eficaz de pressionar prefeitos para investir recursos públicos na construção ou reforma de estádios. Vários dos recentemente construídos ou reformados receberam dinheiro público – com ou sem ameaça de troca. Alguns exemplos:

a) Detroit Lions: “O estádio do time, inaugurado em 2002, custou US$ 430 milhões. Aproximadamente um terço do financiamento foi feito com recursos públicos, de acordo com a Reuters”.

b) Seattle Seahawks, cujo proprietário é Paul Allen, com fortuna de mais de 17 bilhões de dólares: “Apesar de sua riqueza, [Allen] recebeu ajuda pública – US$ 300 milhões, comparados a sua contrapartida de US$ 130 milhões (mais aditivos) – para um estádio inaugurado em 2002.”

c) Detroit Lions: “O estádio do time, aberto em 2002, custou US$ 430 milhões. Cerca de um terço foi financiado com dinheiro público, de acordo com a Reuters.”

4) A NFL é uma associação de proprietários. O único jeito de entrar é comprando um time – o que acontece com certa frequência, porque os bilionários gostam de esporte e/ou como medida para diversificar investimentos.

Mesmo neste ambiente em que times deixam de existir ou abandonam cidades e torcedores em função das vontades de seus proprietários – uma lógica de afiliação esportiva completamente diferente daquela que existe entre torcedores e clubes de futebol no Brasil, por exemplo -, o esporte é uma ferramenta poderosa para atrair recursos públicos de forma a aumentar a fortuna dos ricos.

Por tudo isto, esta fonte aponta possibilidades interessantes de pesquisa da história do esporte ligada à história econômica. Além disso, traz elementos sugestivos em termos do esporte como um ramo de investimento (ou seja, como um dos setores em que os bilionários colocam seu dinheiro). Imagino que exista uma fila de bilionários esperando a oportunidade de comprar um time da NFL e entrar no seleto rol.

5) As mudanças de cidade, os motivos que levam a elas, as negociações dentro (com os demais donos) e fora (com prefeitos, governadores, emissoras de televisão etc.) das ligas, as exigências e ofertas (quanto a isenção de impostos e a construção ou reforma de estádios, por exemplo) são um rico e, a meu ver, interessante objeto para o historiador.

Além disso, permitem perceber que o mundo do esporte é muito mais diverso do que as competições e estruturas mais valorizadas pela imprensa e pesquisadas nas ciências humanas no Brasil (clubes de futebol, Jogos Olímpicos, Copas do Mundo de futebol masculino) e, quiçá, contribuir para desnaturalizarmos um pouco estas estruturas. Afinal, os modos de formar e organizar competições, ligas, atletas e associações são múltiplos. O que entidades como FIFA, COI e afins tentam é igualar “o esporte” à estrutura que dominam (inclusive através de ameaças de banimento dos desviantes e discordantes). Pesquisas históricas podem ajudar a lançar luz sobre: como os mecanismos e projetos hoje hegemônicos foram construídos e legitimados ao longo do tempo; como se tornaram projetos vencedores; e quais (outros) projetos ficaram pelo caminho (derrotados, abandonados, inviabilizados) ou continuam existindo, embora não sejam hegemônicos e/ou tenham pouca visibilidade.

6) Por fim, cabe registrar que um bom trabalho de história inclui cruzamento de fontes, algo que eu não fiz neste texto. Portanto, posso eventualmente estar embarcando em erros ou exageros cometidos pelo jornalista.


Dois livros de ficção sobre futebol

05/07/2015

No texto anterior, discuti livros biográficos de atletas como fontes. Desta vez, abordo duas obras de ficção que tratam de futebol.

Antes de falar dos livros, porém, gostaria de contextualizar minha posição com relação ao assunto. Há muitos anos, sou um leitor ávido de obras ficcionais sobre o tema, escritas por brasileiros e estrangeiros. Contudo, na grande maioria dos casos, fico com a sensação de que não conseguem captar a magia do esporte. (Aliás, tenho a mesma impressão em relação à maioria dos filmes sobre a modalidade – sobretudo os ficcionais.) Até quando se trata de um dos meus autores preferidos, Nick Hornby, o livro sobre skate (Slam) é, em minha opinião, muito superior ao que trata de futebol (Febre de bola).

*  *  *

13582_gO primeiro título é, se não me falha a memória, o melhor romance sobre futebol que li: O drible, de Sérgio Rodrigues. O grande mérito é que não se trata de um bom livro de ficção sobre futebol, mas sim um bom livro de ficção – e ponto. Estou aplicando, para a obra, o mesmo raciocínio que aplico a boa parte dos trabalhos científicos que leio sobre esporte, principalmente sobre futebol.

É comum autores acadêmicos reclamarem de preconceito contra o tema dentro das ciências humanas. Sem dúvida, tal preconceito existe. Sem dúvida, também, hoje ele é muito mais fraco do que há, digamos, dez ou vinte anos. Persiste em áreas nas quais a pesquisa sobre o tema é recente e incipiente, como a Comunicação; ao passo que, em outras, como Antropologia e Sociologia, as pesquisas sobre esporte contam com grau maior de aceitação e legitimidade.

Contudo, a meu ver, o principal problema para a inserção das produções sobre esporte na Comunicação não reside no tema, e sim na qualidade dos trabalhos. Um exemplo: Marcio Telles ganhou o Prêmio Compós de melhor dissertação de 2014 com o trabalho “A recriação dos tempos mortos do futebol pela televisão : molduras, moldurações e figuras televisivas“. Ela não foi escolhida apesar de abordar o futebol, mas porque era excelente. Ponto. (Na verdade, não a li; mas, a julgar pelos artigos e apresentações relativos a ela que li/assisti, deve ser ótima mesmo.)

Voltando ao livro… A trama tem, digamos, três personagens principais. Um velho jornalista esportivo que vive recluso no interior fluminense, o filho do jornalista (que vive na Zona Sul carioca) e um talentoso jogador de futebol oriundo da mesma cidade do jornalista. Na verdade, são tramas e narrativas que se entremeiam, tratando de futebol, mas também de conflitos familiares barra-pesada, de relações/conflitos de classe social e gênero, da ditadura civil-militar, dos meandros do futebol e da relação dessa modalidade com o mundo dos espíritos. As histórias do personagem que trabalhou por décadas em redações evocaram-me Mario Filho, Nelson Rodrigues e Armando Nogueira, entre outros.

*  *  *

O segundo é No estilo de Jalisco, de Juan Pablo Villalobos, de quem tomei conhecimento recentemente, por dica de um dos escribas deste blogue. A recomendação inicial foi ler o espetacular Se vivêssemos em um lugar normal. Depois parti para o ótimo Fiesta en la madriguera, romance de estreia do autor, também traduzido no Brasil.
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No entanto, No estilo de Jalisco, cuja história se passa num bar, me pareceu bem menos interessante – não por se passar num bar, é óbvio. Um mexicano e um desconhecido (brasileiro) da mesa ao lado conversam, regados a muita bebida, a respeito de futebol e de reminiscências do primeiro sobre a seleção brasileira de 1970. “Conversam” talvez não seja o termo mais adequado, pois, como ocorre com frequência em bares cariocas – a ficção capta a realidade com maestria -, o sujeito manguaçado aluga quem está por perto, contando histórias e insistindo em sustentar de forma errática argumentos que pouco ou nada interessam ao ouvinte (in)voluntário. Para quem não conhece a Zona Sul da cidade: a escassez de espaço coloca as mesas  exageradamente próximas umas das outras, favorecendo as investidas dos ébrios malas solitários em busca desesperada de um interlocutor, como se o mundo fosse acabar caso um coitado não se disponha a ouvi-los. Você almoça, janta, bebe, petisca e/ou faz confidências a (às vezes, bem) menos de um metro de um estranho – ou de vários estranhos, dependendo da lotação e distribuição das mesas ao redor.

Trata-se, segundo li, do primeiro romance escrito diretamente em português pelo autor, que vive no Brasil.

*  *  *El rescate

Uma das atividades de Villalobos é traduzir para o espanhol autores brasileiros de ficção. Curiosidade: fazendo uma pesquisa para este texto, “descobri” que, entre as obras já traduzidas, está… O Drible. Saiu no México pela Anagrama, mesma editora que publica os livros de Villalobos.