Vida ao ar livre no Rio de Janeiro

25/12/2017

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

No Rio de Janeiro, desde os fins do século 18 realizavam-se passeios pelas montanhas e outros recantos naturais. Atividades desse tipo acabaram consagrando alguns lugares da cidade como instâncias privilegiadas para o descanso e o recreio em meio à natureza, como é o caso do Corcovado, da Tijuca ou da Urca. Esses hábitos se disseminaram ao longo da primeira metade do século 19. Meu livro Epopeias em dias de prazer apresenta mais detalhes sobre o assunto, entre os anos de 1779 e 1838, num período em que tais costumes estavam ainda em formação. Depois disso, algumas evidências sugerem uma ligeira popularização desses hábitos.

rio de janeiro e seus arredores (do corcovado) - sem data - martinet

Fonte: Alfred Martinet, Rio de Janeiro e seus arredores (do Corcovado)
n. 1, Gravura, 54 x 82,5 cm. Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro (s/d). 

Por volta dos anos 1870, associações civis tão distintas como grupos carnavalescos, bandas de música, sociedades beneficentes ou clubes sociais diversos promoviam passeios para Santa Tereza, para a Tijuca, para o Corcovado, para o Jardim Zoológico, para o Jardim Botânico ou para o que era identificado na época como “arrabaldes”, isto é, bairros rurais dentro ainda do perímetro da cidade, mas fora já do seu centro urbano, como eram Vila Isabel, Engenho da Rainha, Andaraí ou Jacarepaguá. Nesse momento, já se registrava também grupos ou clubes especialmente dedicados à organização de passeios na natureza, como o Grupo Excursionista dos Canecas. Basicamente, atividades desses grupos eram constituídos por excursões ao som das fanfarras, destinadas à folgança e ao esquecimento de todas as cousas que causavam tormentos, como dizia a propaganda de um desses passeios, promovido pelo Congresso Ginástico Português em 1879, publicada no Jornal do Commercio.

Jornal do Commercio, 1891, n. 32, p. 4

Propaganda de passeio campestre do “Club Gymnastico Portuguez”. Fonte: Jornal do Commercio, 1891, n. 32, p. 4.

Em outra dessas ocasiões, dessa vez em 1890 e sob a iniciativa da Euterpe Comercial Tenentes do Diabo (que ao menos desde 1876 realizava atividades desse tipo), um relato vinculado no jornal Gazeta de Notícias deixa ver o ambiente que cercava um passeio desse tipo na época: alegria e expansividade já nos bondes especiais que levavam o extenso grupo, com quase 200 pessoas, para um dia de muita comida, música e contemplação de paisagens no Corcovado, tidas por belas e encantadoras.

Jornal do Commercio, 1890, n. 238, p. 3

Propaganda de passeio campestre da “Euterpe Comercial Tenentes do Diabo”. Fonte: Jornal do Commercio, 1890, n. 238, p. 3.

Em princípios da década de 1890, a frequência aos domingos na região do Silvestre, nas imediações do Corcovado, poderia ser classificada já como “muito notável”, conforme registrou uma notícia do jornal O Paiz. De fato, além de setores mais elitizados, grupos de extratos médios ou mesmo de camadas populares também poderiam frequentar e frequentaram o local como parte de suas atividades de lazer. Em 1895, o Clube União Comercial, espécie de “sindicato” dos trabalhadores do comércio, realizou um passeio campestre para o Silvestre, como parte das comemorações pelo quinto aniversário da medida que determinou o fechamento do comércio do Rio de Janeiro aos domingos.

Jornal do Commercio, 1895, n. 333, p. 6

Propaganda de passeio campestre do “Club União Commercial”. Fonte: Jornal do Commercio, 1895, n. 333, p. 6.

Pouco antes, a notícia de um acidente fatal na Cascata Grande da Tijuca revelava a presença de “três raparigas da vida alegre”, que foram até o local de trem, para descansar e “em ruidosa patuscada”, conforme informara o jornal O Tempo. Involuntariamente, a notícia permite perceber a heterogeneidade social que já marcava os espaços usualmente utilizados para atividades de lazer na natureza naquela época.

Atentos às oportunidades comerciais que a demanda por diversões ao ar livre já representava naquele período, empresários tentavam claramente se aproveitar da ocasião. O presidente da Companhia Ferro Carril Carioca, por exemplo, empenhava-se, às vezes pessoalmente, em tratar “de maneira atenciosa e delicada” determinados grupos e instituições durante seus passeios, frequentemente disponibilizando bondes especialmente destinados a tais atividades. Ao longo da década de 1890, propagandas do Jardim Zoológico, publicadas no Jornal do Brasil, destacavam as vantagens e virtudes do lugar para os interessados em passear na natureza. Segundo uma dessas propagandas: “A temperatura elevada destes últimos dias convida a um passeio campestre, onde se possa respirar ar puro à sombra de frondosos arvoredos. Para isso, nenhum local melhor se presta do que o aprazível jardim de Vila Isabel, na qual também não faltam divertimentos para todos os gostos e classes sociais”.

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Excursão do Clube Excursionista Light, s/d (c. 1957). Fonte: http://celight.org.br/ocel.php

Até hoje, o Rio de Janeiro é apontado como uma cidade onde atividades ao ar livre são bastante  desenvolvidas. De fato, entre vários indicadores nesse sentido, conta-se ali ao menos cinco clubes de montanhismo ativos e sob diversos aspectos muito bem estruturados, além de muitos praticantes deste esporte que optam por não manter vínculos associativos com nenhuma instituição do tipo.

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Parte do post é um fragmento resumido do artigo “Conhecendo o Rio de Janeiro a pé: ‘excursionismo’, ‘pedestrianismo’ e ‘montanhismo’ entre os séculos XIX e XX”, com a co-autoria de Tauan Nunes Maia, que será publicado brevemente na Revista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (http://wpro.rio.rj.gov.br/revistaagcrj/)

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Pelé – o nascimento de uma lenda (EUA/BRA, 2016, Jeff Zimbalist e Michael Zimbalist)

21/12/2017

CARTAZ PELÉ - O NASCIMENTO DE UMA LENDA (2016)

 

Senhoras e senhores: segurem seus chapéus. Ainda temos dez minutos no segundo tempo. Vamos sambar!

(narrador em voice over, durante jogo entre o time infantil do King e o Shoeless ones, equipe capitaneada por Dico/Pelé).

 

Entenderam o trecho acima? Nem eu…

Hoje vamos falar do mais novo empreendimento cinematográfico (longa) envolvendo a mítica figura de Pelé. Já comentamos, aqui mesmo, pelo menos uma das aventuras ou desventuras fílmicas do nosso grande atleta (ver post Os Trombadinhas, 1979 – https://historiadoesporte.wordpress.com/2011/12/05/os-trombadinhas-1979/). Mas a lista de produções envolvendo o “maior atleta do século” é bem razoável. O professor Victor Melo relacionou 24 filmes nos quais Pelé atua ou é representado (MELO, V. & DRUMOND, M. (orgs). Esporte e Cinema: novos olhares, RJ, Apicuri, 2009, p. 230).

Atentemos, no entanto, ao “nascimento de uma lenda”. Essa película deveria ter estreado em julho, com a Copa do Brasil, em 2014, mas assim como parte considerável das obras de cal e pedra também não cumpriu o calendário inicial. O filme abarca o período que vai da infância de Pelé até a conquista da Copa de 1958, na Suécia, a primeira vitória do selecionado nessa competição. Na oportunidade, Pelé contava com apenas 17 anos.

Pois bem, o filme não foi bem recebido pela crítica (ver http://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2016/05/pele-o-nascimento-de-uma-lenda-bate-um-bolao-so-nas-cenas-de-futebol.html; https://observatoriodocinema.bol.uol.com.br/criticas/2017/10/critica-pele-o-nascimento-de-uma-lenda; https://omelete.uol.com.br/filmes/criticas/pele-birth-of-a-legend/?key=138225. Consultadas em 21 de dezembro de 2017).  De modo justo. Eu também não gostei. Não como filme, como material para se pensar é um prato cheio…

O trecho em epígrafe indica o tom estereotipado (caricaturizado mesmo) da obra. Mas o conjunto é pior. Se quiséssemos sintetizar poderíamos resumir a tese do filme como uma luta pela afirmação da “ginga” do futebol brasileiro (tendo Pelé como sua apoteose) contra a forma europeia de se praticar o esporte. Essa “ginga”, aliás, não definiria somente o futebol nacional, mas o “espírito brasileiro”. Há um ilustrativo diálogo fictício (a obra é pródiga em encenar situações que nunca aconteceram e de estabelecer diálogos ou desdobramentos inverossímeis) entre Waldemar de Brito e o jovem Pelé. A conversa se passa em uma estação de trem, em Santos, na qual o aspirante espera o trem para voltar para Bauru, descontente por sua incapacidade de satisfazer as condições solicitadas pelo treinador do clube. Pelo inusitado do enredo, vale a transcrição:

Waldemar de Brito – Os portugueses chegaram no Brasil com os escravos africanos. Mas a determinação dos africanos era forte. E muitos fugiram para o mato. Para se protegerem, os escravos africanos apelaram para a ginga. A base da capoeira, a arte marcial de guerra. Quando a escravidão foi abolida, saíram do mato e descobriram que a capoeira foi posta na ilegalidade. Eles viram o futebol como a maneira ideal de praticar a ginga sem serem presos. Era a forma mais atualizada de ginga. E em pouco tempo a ginga evoluiu, se adaptou, até não ser somente nossa [da população afro-descendente brasileira, presumo]. Era o ritmo dentro de todos os brasileiros. Mas, na Copa de 1950, muitos acharam que nosso estilo era o culpado pela derrota e passaram a repudiar tudo que era ligado a nossa herança africana. Assim como seu treinador tem tentado tirar a ginga do seu jeito de jogar, nós temos tentado tirar de nós mesmos, do nosso povo, desde então.

Mas a ginga é muito forte em você, Dico [apelido de Edson Arantes, quando criança]. Então, nos mostre o que acontece quando você tem a coragem de aceitar quem você realmente é ou você pode pegar esse trem e nunca saberá.

Todo o filme está baseado nessa caracterização, reforçada em vários trechos. Essa cinebiografia (epopeia, fantasia) de Pelé equivale a uma narrativa da assunção e ascensão dessa tal “ginga” por parte dos negros e de toda população brasileira, protagonizada pelo herói de ébano. Dá pano pra muita manga…

Aliás, as mangas, esse nosso produto tropical abundante, têm um papel importante. É com elas que o pai de Pelé, Dondinho (segundo o filme), treinava suas habilidades de controle: “as verdes para chutar, as maduras para as embaixadinhas”. Essa técnica revolucionária teria sido passada para o filho o qual, depois, em campo, ganha cenas alternadas para evidenciar o link entre essa estratégia tropical e o domínio da bola nos gramados. Lembra as dezenas de filmes de Kung Fu e seus treinamentos mirabolantes (Olá senhor Miyagi ! Karate Kid, 1984, John Avildsen).

É um filme curioso. Há ainda a construção de uma animosidade entre Mazola (José Joel Altafini) e Pelé. Veja, segundo o enredo, esses dois grandes jogadores que conquistaram a primeira Copa do Mundo para o Brasil se conheciam desde criança. A mãe de Pelé (numa construção fílmica) trabalhava para a família de Mazola e este, quando pequeno, zombava do filho da empregada (Dico, o futuro Pelé), vindo encontrar-se com ele no escrete de 1958.

O Mazola do filme é um contraponto a Pelé. O primeiro quer ser estrangeiro, jogar como estrangeiro e Pelé representaria a autenticidade nacional (receosa de afirmação, mas irrebatível quando assumida). O conjunto de representações, simplificações e visões bem vale uma apreciação mais detida (para um outro momento). Para finalizar estas considerações iniciais, apenas indicaria algumas referências cinematográficas que saltam aos olhos na edificação narrativa em questão.

Primeiramente, alguém já aludiu que a tal da ginga se assemelha ao fenômeno da “força” nos filmes de Star Wars (“a ideia de dizer que a ginga é uma espécie de força Jedi originada da capoeira é demais pra cabeça de qualquer um. GOMES, Fábio S. Disponível em: https://omelete.uol.com.br/filmes/criticas/pele-birth-of-a-legend/?key=138225. Consultado em 21 de dezembro de 2017). A afirmação do personagem de Waldemar de Brito destacando que “a ginga é muito forte” em Dico parece uma caricatura hollywoodiana para um pretenso e nacional Luke Skywalker de chuteiras.

A tese da “ginga”, evidentemente tem raízes na caracterização Freiriana de nosso futebol flamboyant, mas, filmicamente, não há como não pensar no título Ginga – alma do futebol brasileiro (Brasil, Hank Levine, Marcel Machado e Tocha Alves, 2004; para mais informações ver SANT’ANA, L. C. “Ginga: alma nacional, expressão universal – representações e aspirações de nacionalidade e pertencimento”. In MELO, V. A. & DRUMOND, M. 2009, op. cit.). A tese é quase a mesma, embora a qualidade das obras seja distinta (o filme Besouro, Brasil, 2009, de João Tikhomiroff, que apresenta similaridades com a obra em questão, também é imageticamente citado).

A oposição Pelé  X  Mazola faz lembrar quase imediatamente àquela entre Mozart e Saliere, no filme de Milos Forman, Amadeus (1984), para ficarmos com uma referência apenas.

A performance de Pelé (toda vez que se permite incorporara a “ginga”), aliás, está mais para a plástica dos games de futebol, também expressa, por exemplo, na peça de propaganda da Nike, intitulada “O último jogo”(Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=59t31RqeY88. Acessado em 21 de dezembro de 2017). Está muito mais para malabarismo com bola do que para futebol.

Enfim, uma película curiosa, disso não se pode duvidar.

Um belo fim de ano para todos nós é o que este comentarista e este blog desejam a todos.


A Ginástica Rítmica em Salvador

11/12/2017

Maria Elisa Gomes Lemos

Em Salvador, as experiências esportivas se desenvolveram em diferentes tempos, sob variadas influências e com contextos diversos. As práticas iniciais tiveram nos clubes e nas entidades reguladoras, um aparato organizacional, que colaborou com uma maior estruturação de algumas modalidades.

Nesse caso, o das modalidades primeiras, falamos de um começo que se deu entre fins do século XIX e início do XX. Todavia, também em outros tempos, até bem recentes, a cidade viu surgir e se estabelecer uma prática, que de certo modo, é também mais “nova” em outros espaços e aqui, falamos da Ginástica Rítmica.

Sabemos que a ginástica, como atividade geral, tem seu termo associado a uma ação educativa, de formação do corpo, praticada em diferentes ciclos históricos da humanidade e, portanto, dessa forma, assumindo feições e sentidos variados.

No caso, a Ginástica Rítmica, prática que em sua estrutura oficial e competitiva é ainda exclusivamente feminina, tem suas bases em outras atividades da ginástica, ou seja, importa dizer que ela não foi inventada e sim, se compôs com fundamentos de outras ações das ginásticas que já eram conhecidas.

A Ginástica Rítmica se caracteriza por associar em sua execução, movimentos corporais de rara beleza, de grande exigência física, tendo sempre um fundo musical e o uso de implementos e equipamentos diversos.

A Ginástica Rítmica incorpora em seus movimentos elementos de ordem natural e ao mesmo tempo os sistematizados e sua prática expressa tanto à singeleza de expressões e representações, quanto à dureza das determinações extrínsecas ao praticante e ainda, faz uso de implementos em suas atividades.

Mais que tudo, nos importa aqui falar sobre a Ginástica Rítmica em Salvador.

Se para outros esportes o clube foi fundamental, na Ginástica Rítmica, a escola foi e ainda é um espaço que colaborou com sua estruturação e desenvolvimento e aqui,  a Escola Normal da Bahia, mais tarde denominado de Instituto Central de Educação Isaías Alves – ICEIA, teve papel central.

Neste espaço vimos se constituir a trajetória de um novo esporte na cidade do Salvador, a Ginástica Rítmica, com Dulce Suzart.

A Professora Dulce é egressa do curso para professores da Escola Nacional de Educação Física, no Rio de Janeiro (1951-1953). Em seu trabalho, ela deu prosseguimento às atividades de Ginástica Feminina, como era denominada em 1954, em substituição a professora de Dança Odete Franco.

Em Salvador, outras ações colaboraram para a organização da Ginástica Rítmica e uma foi a implantação de Escolinhas de Iniciação Esportiva no nosso estado, onde esta modalidade esteve contemplada, com destaque, a década de 1970.

O Serviço Social da Indústria – SESI foi a instituição que efetivamente iniciou nesta década, propostas concretas para um programa de iniciação esportiva, mais precisamente em 1973, com a realização do Curso de Iniciação Esportiva promovido pelo Departamento Nacional em parceria com o Departamento Regional – Bahia. Este curso teve como docentes, professores da Escola Nacional de Educação Física e Desportos e a partir dele, foram selecionados professores que passaram a atura com os esportes, nas escolinhas, inclusive a de Ginástica Rítmica.

Nessa mesma época, Salvador viu surgir o primeiro de Educação Física, que foi o da Universidade Católica do Salvador – UCSAL. Tal curso colaborou com a formação de profissionais especializados, que passaram a atuar com a modalidade e em alguns casos, após terem sido praticantes.

Assim, em Salvador, as práticas de Ginástica Rítmica, que se iniciaram no espaço do hoje ICEIA, tiveram continuidade e expansão junto ao SESI, já contando com a ação docente de profissionais que passaram pelo próprio curso do SESI, mas que também tiveram formação pela UCSAL.

Nesta linha de intervenção sobre a prática da Ginástica Rítmica, contando com pessoas que além de trabalharem com a modalidade, também foram atletas, o exporte teve em Salvador um cenário de desenvolvimento e aceitação, se estendendo até os tempos atuais e atraindo interesse de praticantes e de docentes, que continuam a lidar com as experiências de tal exporte.

Assim, vimos que Salvador, nesse caso, conviveu com um outro tipo de construção esportiva. Se inicialmente os clubes foram essenciais, neste caso, os espaços escolares assumiram centralidade.

 

 


Algún día tenía que ser: 30 de junio de 1954

04/12/2017

Gastón Laborido (gaston_laborido1@hotmail.com)

(Ponencia presentada en Jornadas Uruguay y los Mundiales desde el sur, en la Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación (FHCE), UdelaR. Junio 2014.

Introducción

El 30 de junio de 2014, se cumplirán 60 años de un partido que marcó profundamente el historial de la selección uruguaya en competiciones mundialistas: por primera vez dejó de ser invicto en 30 años. El periodista y director del semanario Fútbol Actualidad, Antonio García Pintos, en la edición del 6 de julio de 1954 sostenía:

Estamos tristes, sí; para qué negarlo. Nosotros, con los muchachos, en el vestuario, hemos llorado juntos. Mucho se tendrá que escribir de este Quinto Campeonato Mundial en que, por primera vez, hemos dejado de ser invictos. Muchos han sido los errores cometidos y muchas las culpas a repartir y, entre ellas, un buen lote para la gente de la prensa. Pero eso tendrá que ser escrito en otra hora y en otro lugar. (…)[2].

Creemos que hoy es necesario retomar aquel encuentro deportivo, sobre todo, porque las derrotas también constituyen elementos de resignificación deportiva.  En la década del 50 encontramos dos acontecimientos que marcaron la competencia de la selección uruguaya en el plano internacional, por un lado, la primera derrota de la selección frente a Hungría en 1954. El segundo acontecimiento, ocurrió en 1958, cuando por primera vez en su historia, el fútbol uruguayo quedó eliminado de un torneo mundial.

Uruguay llegó al mundial de Suiza 1954 con una enorme fama tras haber conquistado el certamen cuatro años antes frente a Brasil. Para este mundial, Uruguay aún mantenía muchos jugadores del 50 en su alineación; pero esta competición marcó el ocaso de la generación de Maracaná, sobre todo desgastada por el correr de los años. A pesar de la fama celeste, para la prensa internacional la selección de Hungría era el equipo favorito a consagrarse campeón, sobre todo porque cautivaba por el elevado nivel técnico de sus jugadores y había conseguido resultados exitosos en los años previos al mundial: hacía cuatro años que no perdía, había infligido la primera derrota en Wembley a Inglaterra (6-3) y habían sido vencedores de los Juegos Olímpicos de Helsinki en 1952. Luego del sorteo de las llaves de semifinales, el azar determinó que deberían enfrentarse Uruguay – Hungría por un lado, y por otro, Alemania – Austria.

Con la intención de poner al fútbol como objeto de estudio en la agenda académica, la presente ponencia plantea una mirada histórica sobre el fútbol de Uruguay en el contexto de los mundiales, más específicamente, el de 1954. A tales efectos, el texto se centrará en un análisis de las repercusiones del la primera derrota oficial de Uruguay a través de la prensa montevideana, poniendo énfasis en las expectativas y comentarios luego del resultado. Los periódicos utilizados serán: “El Día”, “El Diario”, “Fútbol Actualidad”, “Justicia”, y “La Tribuna Popular”.

El trabajo está organizado en cinco partes. La primera apunta básicamente a plantear los antecedentes y los caminos recorridos hacia semifinales por las selecciones de Uruguay y Hungría. La segunda parte, recorre diversas notas publicadas en la prensa, en las cuales se planteaban las expectativas previas al encuentro, catalogado como “el match del siglo”. La tercera, pone énfasis en la potencialidad de la selección de Hungría y en aquellos aspectos ideológicos y políticos que creemos relevantes para entender por que la prensa entendía que se trataba de un sensacional encuentro. La cuarta parte, se centra en la mirada que los diarios hacían sobre la selección uruguaya y las expectativas que generaba la selección en los periodistas de cara al partido semifinal. La última parte tiene que ver con la manera en que la prensa comentó el resultado del partido. En este apartado retomamos aquellos motivos que se expusieron para explicar la primera derrota de la selección uruguaya en manos de Hungría en un torneo mundial.

1) De goleadas en goleadas: caminos hacia semifinales.

En el campeonato de Suiza 1954 participaron 16 selecciones, agrupadas en 4 series de 4 equipos cada una. El sistema de disputa tenía una lógica particular, ya que cada selección jugaba sólo dos partidos en la fase de grupos.

La selección uruguaya compartió el grupo III con Austria y debieron enfrentarse a Checoslovaquia y Escocia. Uruguay no necesitó clasificarse al mundial ya que era el campeón defensor, por haber ganado la Copa Mundial de 1950. Los celestes llegaron a Suiza precedidos de una enorme fama. Sus magníficos antecedentes generaban expectativas en los uruguayos: cuatro años antes había sido el impacto en la historia de los campeonatos mundiales al vencer a Brasil y los recuerdos de la final todavía estaban latentes; ostentaba el honor de ser el primer equipo campeón mundial en 1930, bicampeones olímpicos en 1924 y 1928; y nunca antes había perdido en un campeonato del mundo, contaba con un invicto de 21 partidos.

En el mundial de 1954, los celestes dirigidos por Juan López al igual que en 1950, se despacharon con una buena actuación en la fase de grupos. En su primer encuentro, vencieron 2 a 0 a Checoslovaquia (goles de Míguez y Schiaffino). En la segunda fecha, derrotaron a Escocia con un categórico 7 a 0 (goles convertidos por Borges -3-, Míguez -2- y Abbadie -2- ). Los periódicos de la época coinciden en que el equipo se caracterizaba por tener fuerza, habilidad y elevada moral.

En los cuartos de final, continuó el buen éxito de Uruguay y derrotó a Inglaterra por 4 a 2 (goles de Borges, Varela, Schiaffino y Ambrois). Sin embargo, fue una “victoria pírrica”, pues en ese partido se lesionó el capitán Obdulio Varela al festejar su gol. Con este historial llegaba Uruguay a las semifinales.

 En relación al rival que enfrentamos, la prensa internacional consideraba que se trataba de un equipo sensacional, dotado de todas las virtudes y elevado nivel técnico en su juego. Los húngaros eran conocidos como los “magiares mágicos”, nombre que asocia al grupo étnico de Europa del Este que se instaló en la actual Hungría y al estilo de juego que desplegaban. Contaba con la selección más poderosa de su historia y hasta ahora no la han podido superar. Hungría llegó al mundial con los siguientes antecedentes: hacía cuatro años que no perdía un partido oficial (en 32 partidos); había infligido la primera derrota tras vapulear en Wembley a Inglaterra por 6 a 3 y en la revancha disputada en Budapest le volvió a vencer con un marcador humillante de 7-1; y en 1952 se habían consagrado vencedores de los Juegos Olímpicos de Helsinki.

Hungría compartió el grupo II con Turquía y no tuvo rivales que le opusieran resistencia. Debutaron con una victoria arrolladora de 9 a 0 sobre Corea del Sur, y en la segunda fecha se despacharon sobre Alemania Federal con un 8-3 (Alemania había puesto en cancha varios suplentes para preservar a los titulares). Luego del partido contra los alemanes, los húngaros sintieron la baja de su gran capitán, Ferenk Psukas, a raíz de una falta desmedida de un rival.

Hungría pasó de fase tras haber conseguido dos victorias consecutivas, y en los cuartos de final logró imponerse sobre Brasil 4-2. Fue un encuentro plagado de incidentes, con golpes de puño, botellazos y cortes entre los jugadores de ambos planteles en los vestuarios una vez finalizado el partido (encuentro recordado como “la batalla de Berna”).

De esa manera llegaron ambos seleccionados a semifinales. La organización del campeonato establecía, que los cruces en esta instancia se darían a conocer luego de un sorteo, que fue realizado en la ciudad de Berna, el domingo 27 de junio de 1954. Se agrupó en parejas a los equipos de Hungría y Alemania por un lado, y por otro Austria y Uruguay. Depositaron en recipientes separados tarjetas con los nombres de los equipos, la primera en salir fue la de Austria y la segunda Alemania. El resultado del sorteo causó impacto, El Diario señaló:

Esto quería decir que Hungría y el Uruguay, que son los equipos más destacados que continúan en el campeonato deben enfrentarse en semifinales[3].

Conocidos los cruces en semifinales, todo hacía suponer que Uruguay y Hungría sería un sensacional encuentro. El periódico comunista Justicia opinó:

El resultado de dicho sorteo, ha puesto frente a frente a los dos más grandes equipos del Campeonato: Uruguay y Hungría, que disputarán sin lugar a dudas lo que podría llamarse el “partido del Siglo”[4].

2) “El match del siglo”

El cronograma del campeonato, indicaba que el miércoles 30 de junio se debía disputar el primer encuentro de semifinales. Dentro de las expectativas de los uruguayos, existía la firme convicción que sería un gran encuentro deportivo. Durante los días previos, en nuestra prensa se publicaron una serie de notas que especulaban con el nivel del espectáculo de la siguiente forma:

La Tribuna Popular:

Uruguay versus Hungría quiere decir en estos momentos algo más que una final; el choque máximo en el fútbol del Mundo, y tal vez de la historia del balompié en sus últimos años. Los rivales, varios años invictos con campañas espectaculares e incomparables en Europa y otros continentes; los celestes, cuatro veces campeones en el Mundo entero, y con una reciente hazaña frente a los ingleses que todos admiraban hasta que llegó la noticia del partido con Hungría[5].

Este periódico manejaba también la idea de final anticipada: “Uruguay-Hungría es el partido del choque sensacional y, tal como sucedería para el partido Hungría-Brasil, la mayoría opina que Hungría ya está clasificada para la final. ¡Dichosos suizos que habrán podido asistir a tres finales en una sola competición![6].

Mientras tanto, el periódico Justicia señalaba en sus páginas que se jugaría el encuentro más sensacional de los últimos años en una instancia decisiva por la conquista del título mundial. Agregaban que dicho encuentro debió ser la final lógica del torneo:

Llegó el momento ansiado por el pueblo deportivo uruguayo y por la afición del mundo entero. Esta tarde, en épico match semifinal del Certamen Mundial, se cotejarán las selecciones de Uruguay y de Hungría. Ambas han probado ser la expresión cumbre del fútbol mundial: por su técnica, por su temple, por su admirable capacidad combativa. Los celestes y los húngaros han barrido a cuanto adversario les salió al paso. Pero fue en los cuartos de finales cuando dieron fe de todo su potencial técnico y moral[7].

Para El Diario la novedad del partido estaba en los aspectos tácticos y técnicos de los jugadores de ambas selecciones:

el match Uruguay – Hungría viene, después del triunfo de los húngaros en la tarde de ayer, a plantear la cuestión de las tácticas mucho más abiertamente, puesto que los uruguayos, vencedores del equipo de Inglaterra, vienen a estar en igualdad de valor con los húngaros, que han vencido al equipo considerado como uno de los mejores de la América del Sur y del torneo[8].

Tanto para El Diario, como para La Tribuna Popular, el partido también adquiría la dimensión de final anticipada y estaba enmarcado como un duelo entre representantes de América y Europa,

Pero esta vez, puede decirse que la verdadera final se va a jugar en Lausana. Los equipos preeminentes de América y de Europa van a decidir la supremacía del fútbol mundial. El match Uruguay – Hungría será para los latinoamericanos en general, el definitivo, el del prestigio y ya como un solo hombre se aprestan a ir en coalición para animar a los uruguayos. El match del miércoles en Lausana, será, pues, el match de América Latina – Europa[9].

El día previo al partido, un cronista de El Diario que firmaba bajo el seudónimo Don Lee reafirmaba la idea anterior y esperaba con enorme expectativa el inicio del partido:

Mañana se realizará en Lausana el match de todas las épocas en la historia del fútbol mundial al enfrentarse por la semifinal de la Copa de oro, el Uruguay con su título de Campeón del Mundo y Hungría, la sensación futbolística del momento. Aquél asumiendo la representación del continente sudamericano y éste la representación del viejo continente. Estarán así frente a frente los campeones del mundo y los grandes favoritos de la opinión mundial, y que han venido haciendo sensación en los últimos años, antes lo cuales los abanderados del fútbol sudamericano se verán seguramente expuestos a darlo de sí todo a fin de salir con bien de la difícil lucha[10].

3) La mirada sobre el rival.

Ahora bien, cabe preguntarnos cuales eran aquellos motivos que generaban la opinión en la prensa que un enfrentamiento entre Hungría y Uruguay, supondría un gran encuentro. Aquí es importante ver como la prensa construye la imagen de cada equipo. Empecemos por el rival. Al excelente historial de los húngaros que resumimos en el apartado anterior, y a al gran nivel de sus estrellas como Puskas, Czibor, Kocsis, Hidegkuti, Bozsik, Grosics; debemos agregarle aquellos aspectos tácticos y técnicos colectivos del equipo. Veamos que decía la prensa.

Antes de que comenzara el campeonato, Justicia realizó una breve presentación de los equipos que disputarían el mundial. El 2 de junio en una nota titulada “Algunas características del equipo magyar que va al Mundial de Suiza”, planteaban: “Hungría probablemente será el único país que concurrirá al campeonato mundial de fútbol a disputarse en Suiza, con un team ya maduro e incambiado durante varios años”. A los beneficios de poseer un equipo formado por varios años, se señalaba que tanto uruguayos como húngaros tenían confianza en sus fuerzas[11], en tanto: “el excelente equipo “magyar” es de presumir que procurará, como siempre, jugar sus cartas de victoria en el ritmo vertiginoso, preciso, audaz y avasallante de su juego ofensivo, así como en la combatividad de su defensa, bien demostrada ante Brasil (…)”.

Sobre el excelente nivel de juego de los húngaros, La Tribuna Popular opinaba: “el seleccionado magyar reafirmó ser un buen team, que juega con disciplina y no cede un palmo ni en el ataque ni en la defensa[12]. Completamos la idea sobre la capacidad del fútbol húngaro con una nota de El Día:

debe ser lo mejor de Europa. Las evidentes diferencias existen entre su ataque y su defensa. Indiscutiblemente, la gran fuerza de la selección “magyar” radica en aquel. Compuesto de hombres hábiles y de un gran entendimiento, como también con gran preparación física, asume – ese sistema- la gran responsabilidad por las actuaciones del equipo y por los éxitos del mismo (…)[13].

Mientras tanto, El Diario presentó una crónica en la cual se planteaban algunas habilidades tácticas de Hungría y las características del equipo. Se concebía a Hungría como “un equipo que acciona con idéntico afán y velocidad durante los noventa minutos de juego, que lucha con firmeza, que plantea sus jugadas con gran esmero, pero movilizándose permanentemente en forma intensa, haciendo correr la pelota con excepcional rapidez de un hombre a otro[14].

A su vez, desde El Día y Futbol Actualidad, se expusieron algunos argumentos para explicar porque era tan eficaz la técnica de los húngaros. Basaron sus explicaciones en las relaciones entre deporte y política. Recordemos que Hungría estaba bajo influencia del régimen socialista, y la década del 50 a nivel internacional estaba muy marcada por la Guerra Fría. Sobre la excelencia del equipo húngaro, el periódico El Día, en un extenso párrafo cargado con un tinte opositor al régimen socialista señalaba:

Ajustados a procedimientos propios de un país que ha alejado de los aspectos fundamentales de la práctica del deporte por el deporte mismo aprovechándolo especialmente como forma de conseguir resonancia con derivaciones políticas, se ha podido advertir una influencia directa del estado que manda y decide en la voluntad de los individuos, sometiéndoles a una práctica ajena en absoluto a la que se estila en los países democráticos, donde la espontaneidad del deportista es básica para el desarrollo de su actividad. Los húngaros están sometidos por impero de obligaciones que se les crean, a un régimen ceñido, estricto y que trastoca lo esencial del deporte, que es competir, por el impero o sea la exigencia de ganar. Dentro de tal concepto el derecho individual está vedado. Impera, entonces, el sometimiento a la práctica del deporte, que quienes son escogidos la realizan con prescindencia total de toda otra actividad, hasta alcanzar un grado de especialización derivado del adiestramiento continuado y preferente a que son sometidos[15].

En el categórico párrafo anterior, la mirada se centra en argumentar el buen nivel húngaro por la presión política del régimen soviético[16]. En relación a ello, y con una mirada similar, en el semanario Fútbol Actualidad, Antonio García Pintos afirmaba: “los “magyares” juegan por método; sus jugadas son académicas y estudiadas. No cuentan, entre ellos, los valores individuales[17]. Con esta frase está afirmando que la ideología del régimen infiere en el deporte, ya que jugar por método supone un juego planificado (recordemos que la planificación caracteriza al régimen soviético, por ejemplo, los planes quinquenales).

La postura de Antonio García Pintos se reiteró en otra nota, aseveraba que Uruguay debía defender a Sudamérica en el partido semifinal, y cargó de emotividad e ideología al encuentro tras plantear:

(…) La copa Rimet la sacaremos de Europa los uruguayos, únicamente por que somos uruguayos. Porque aquí hay una evidente aspiración, casi adulona podríamos decir: la de que salgan campeones estos defensores de la roja casaca del país de atrás de la cortina de hierro[18].

A pesar de su elevado nivel, Hungría no contaría con la totalidad de su plantel para el encuentro con Uruguay. Su capitán, F. Puskas, como hemos dicho, estaba lesionado. También fueron excluidos los hermanos Toth, remplazados por Budai y Palotas. La selección húngara alistó al siguiente equipo: Grocsics; Buzansky, Lantos; Bozsik, Lorant, Zakarias; Budai, Kocsis, Palotas, Hidegkuti y Czibor.

4) Confianza en la selección uruguaya.

Luego de una lectura analítica de los diarios, notamos en nuestra prensa una postura respetuosa sobre el rival. Estamos en una época en donde se dejaba de lado entrar a un campo de juego sin tener nociones concretas sobre el rival y se iniciaba una etapa en la cual comienza a analizarse al contrincante, sobre todo porque se empieza a tomar en cuenta las dimensiones tácticas y técnicas del deporte[19]. Vencer a un equipo de fútbol, implicaba superarlo en el tanteador, para ello, la planificación de la estrategia a desarrollar es muy importante.

En junio de 1954, existía confianza en el fútbol que podía llegar a desplegar los uruguayos, sobre todo porque se reivindicaba las victorias consagradas en 1924, 1928, 1930 y 1950. Rubén Lapido Vignoli, enviado especial de La Tribuna Popular afirmaba

 “sabemos muy bien que cuando la casaca celeste entra a una cancha, en una contienda mundialista, es para no perder…”.

Había mucha confianza en los delanteros uruguayos y en su defensa de acero, que para muchos, lo hacía el único equipo capaz de realizar la hazaña de derrotar a Hungría. Se calificaba a los jugadores celestes como “ardorosos, testarudos, jamás derrotados ni desalentados…”.

A su vez, existían elementos resignificativos de los títulos mundiales conquistados años antes. En varias notas se reiteraba la siguiente idea: Uruguay en caso de consagrarse campeón del mundial de 1954, sería campeón del mundo por quinta vez. Esto tiene que ver, con que los títulos de 1924 y 1928 en los juegos olímpicos, eran considerados como títulos mundiales.

Una vez conocido el rival, durante los tres días previos al partido, los periodistas comenzaron a analizar al contrincante y surgieron algunas ideas concretas de cómo vencer a Hungría. En primer lugar, sin desconocer el poderío de los “magyares mágicos”, se planteaba que había que trabajar a partir del buen nivel del rival,

(…) pensamos que esa regularidad de acción húngara puede ser lo que sirva a Uruguay para hacer valer su mejor técnica y aptitudes naturales y psicológicas de sus players. Ante todo, sabremos aguantar “el primer envión” del adversario, que para Brasil fue demoledor tanto en las cifras como en los nervios. Y posteriormente, una vez que nuestros cracks hayan adaptado el juego húngaro, deberán surgir las ventajas apenas se produzca el choque de valores personales[20].

En segundo lugar, otra de las claves para superar al adversario estaría en las propias características de la defensa uruguaya:

el grado de potencialidad de nuestra defensa ha resultado eficacísimo hasta el momento, pero no por ello habría que excederse en confianza y consideramos que no estaría de más tomar algunas medidas de carácter táctico antes de que nuestro conjunto baje al campo de “Pontaise” en Lausana[21].

En tercer lugar, el buen juego celeste jugaría su rol decisivo. Oscar Bugallo, de Fútbol Actualidad tituló una nota el día antes al partido de la siguiente manera: “Jueguen bien, celestes, y seremos campeones”. Incluso se planteaba la duda que sucedería si Uruguay lograba superar en la técnica y táctica como producto de su buen juego a los húngaros; ya que hasta el momento nadie los había exigido. Algunos entendían que en comparación, Uruguay tenía mejores individualidades calificadas como “estrellas”, como Andrade, Schiaffino, Borges, Santamaría, Ambrois…. En esta línea, muchos consideraban que Uruguay era el único equipo que era capaz de batir a los húngaros. La idea que manejaba la prensa, era que de los tres adversarios que pudieron tocarle a Hungría para la semifinal, le tocó el más peligroso de todos.

Sin embargo, surgieron algunos inconvenientes a raíz de lesiones de piezas claves para los celestes. Esto imposibilitó a Uruguay presentar en el campo de juego a su mejor escuadra. La dimensión analítica de las técnicas y tácticas cobra importancia y se plantearon en la época diversas opiniones sobre como conformar al equipo para vencer a Hungría. Uruguay no podría contar con Obdulio Varela, lesionado ante Inglaterra. Tampoco podían ser de la partida Oscar M. Míguez ni Julio César Abbadie.

El comentarista Don Lee de “El Diario”, luego de haber visto a los futbolistas húngaros, reconoció que Uruguay tendría un encuentro de enromes dificultades. Para superarlas, y ante la ausencia de Obdulio Varela propuso:

(…) que Juan Alberto Schiaffino juegue de insider o de eje delantero, debería actuar lo suficientemente atrasado como para configurar un elemento más de contención para los intentos de los húngaros. Esto ya figura dentro de las características propias del mencionado jugador, muy sacrificado en ese sentido[22].

El rol de Juan Alberto Schiaffino dentro del campo de juego, podía operar como un arma para lograr el triunfo que para la época era algo maravilloso y factible. Además, se entendía que Schiaffino podía desplegar una doble misión de defensa y ataque. A esta idea, se le agregaba la posibilidad de que estuviesen por delante de Schiaffino cuatro hombres de ataque, pues se depositaba confianza en el buen juego y los pases profundos y bien dirigidos hacia los delanteros. Detrás de los delanteros y de Schiaffino estarían los tres medios y William Martínez.

Se depositaba las esperanzas en Schiaffino. Se esperaba de él, apoyo a la defensa y al ataque. Junto a Schiaffino, podría apoyar el juego Javier Ambrois. De ese modo, los delanteros quedarían abiertos y adelantados esperando con el campo a su frente; para intentar penetrar con velocidad a la defensa húngara.

La profundización de estos aspectos tácticos dentro del campo de juego, según la prensa:

podría muy bien proporcionarle a nuestro equipo las aperturas necesarias, para que con goles se llegue a concretar lo que es hoy aspiración de todos nosotros, y por cierto también de ustedes, la inmediata clasificación para una nueva instancia final, que de por sí sola estaría ya diciendo de que nuestro fútbol, hoy como ayer y como siempre, no ha perdido nada –pese a sus habituales “apagones”- de las ponderables virtudes que por años y años lo hicieran invencible mundialmente[23].

Capítulo aparte merece la situación de Oscar Míguez. El “cotorra” tampoco pudo ser de la partida. Ahora bien, cabe preguntarnos qué sucedió ya que no estaba lesionado y fue excluido del equipo. El Día publicó una nota bajo el título “No parece atinado el presunto remplazo de Oscar M. Míguez”. De todos modos, antes del partido no se dio a conocer muchos datos sobre la exclusión de Míguez, e incluso hoy sigue siendo un enigma. Esto se convertirá en un factor para explicar la derrota de Uruguay y lo veremos en el próximo apartado.

Finalmente Uruguay salió al campo de juego de la siguiente manera: Máspoli; Santamaría y W. Martínez; Rodriguez Andrade, Carballo, Cruz; Souto, Ambrois, Schiaffino, Hohberg y Borges.

5) Hungría 4 – Uruguay 2: las repercusiones en la prensa

Cuando se hicieron las 18 horas de aquella recordada tarde lluviosa del 30 de junio, el árbitro galés Benjamín Griffith dio comienzo al “match del siglo” en el Estadio de “La Pontaise” de Lausana. El marco era espectacular, unas 45.000 personas en el estadio.

Brevemente diremos que el partido estuvo a la altura de las expectativas, todos coinciden en que fue un sensacional encuentro. El primer tiempo finalizó 1 a 0 a favor de los húngaros, con gol de Czibor. Hidegkuti aumentó diferencias a los 3 minutos del complemento. Pero dos goles de Juan Eduardo Hohberg a los 75 y 86 le dieron dramatismo al encuentro. En tiempo complementario, Hungría sacó diferencias gracias al potente juego aéreo de Kocsis y con dos goles (a los 112 y 116) eliminó toda esperanza de los uruguayos de llegar a la final y por primera vez caía vencido en un campeonato mundial tras 21 partidos invictos, pero dejando una muy buena impresión. Veamos las repercusiones del partido en los titulares de los diarios locales:

Derrota con Honor. El once uruguayo en Jornada Adversa, luchó con denudo” (30 de junio, El Diario).

Perdiendo ante un formidable equipo, los celestes salieron aun más engrandecidos” (1 de julio, La Tribuna Popular).

Cayó Uruguay, tras una lucha titánica” (1 de julio, La Tribuna Popular).

Un match histórico e inolvidable” (1 de julio, Justicia).

Los húngaros se fueron con la Victoria y los uruguayos se llevaron la gloria” (1 de julio, El Día).

Indudablemente fue el mejor encuentro del Campeonato” (1 de julio, El Día).

Los celestes vencidos tras memorable demostración” (1 de julio, El Día).

Significado excesivo tiene la cifra 4-2” (1 de julio, El Día).

Fue una derrota que enaltece al perdedor” (1 de julio, El Día).

También ayer los maestros uruguayos dictaron su lección” (1 de julio, El Diario).

El espectáculo tuvo el brillo esperado” (1 de julio, El Diario).

“Match histórico y maravilloso”, se afirma sin dudas” (2 de julio, El Diario).

Algún día tenía que ser y ello ocurrió un 30 de junio” (6 de julio, Fútbol Actualidad).

Así caen los campeones!” (6 de julio, Fútbol Actualidad).

Perdimos… ¡Y fuimos inmensos! Cada vez que toque perder, ¡que sea así!” (6 de julio, Fútbol Actualidad).

 

Luego de la lectura de los titulares anteriores, percibimos que queda una idea contundente acerca de lo implicó la primera derrota de los uruguayos: Uruguay perdió pero fue una derrota honrosa y digna de destacar. Esto idea fue adquiriendo fuerza y es lo que queda de aquel recordado partido. Pues bien, ¿Qué sucedió el 30 de junio que hoy se sigue resignificando aquella derrota?

Algunos recuerden el aspecto estético del encuentro, consideran que el “match” fue todo belleza, y a pesar de la derrota,

los uruguayos han demostrado que saben perder con gran elegancia y faltó muy poco incluso, para que la formación uruguaya, confirmando una vez más que se vuelve un adversario temible cuando “las cosas van en serio”. Saliese vencedora de esta semifinal que los diarios de aquí han calificado de “atómica”.”[24]

Otros plantean que el partido pasó a ser inolvidable por la emoción del mismo, sobre todo producto de la rebeldía uruguaya. Justicia señaló que ningún equipo era capaz de mantener en alto la moral de acero y a pesar de estar perdiendo; incluso logró acorralar al rival en su campo hasta empatar el partido, allí se volvió a confiar la victoria. En consecuencia, planteaban que “los muchachos celestes que supieron caer como caen solamente los campeones, los que realmente son grandes en la noble lid del deporte[25]. Este argumento, se reiteraba también en El Diario, cuando el corresponsal en Berna afirmaba que quizás nunca se había visto un partido tan maravilloso, puesto que los uruguayos lograron remontar el resultado.

Sin dudas, el partido sigue siendo recordado por convertirse en modelo de encuentro cargado de vicisitudes y de caballerosidad de los futbolistas, ya que los hechos violentos eran reiterativos en la época y este encuentro no tuvo nada de eso:

Se hablará durante mucho tiempo de él. Quizá siempre que se quiera poner como ejemplo, como modelo, un partido en el que ha habido de todo: jugadas insuperables, duración del match, corrección de los jugadores, caballerosidad deportiva y amor propio en el que la emulación nunca dejó pasar a la violencia[26].

Ahora bien, durante los días posteriores surgió la necesidad de construir un relato interpretativo sobre la derrota. Para explicar una derrota en fútbol, tenemos tres posibles líneas explicativas: la primera, se basa en la superioridad técnica y táctica del rival, es la más usada y aceptada; la segunda, tiene que ver con la falla de algún aspecto, ya sea por ausencia o una mala jornada de los futbolistas; y la tercera, tiene que ver con factores externos que se transforman en adversos, ya sea por condiciones climáticas, errores arbitrarios, etc.

El semanario Fútbol Actualidad publicó una serie de extensas notas interpretando el resultado del partido. ¿Por qué perdió Uruguay? Para sus periodistas, la derrota se explica por fallas en el plantel: primeramente, ausencia de Oscar Míguez (excluido por los dirigentes) y jugadores lesionados. Segundo, la mala tarde de Roque Gastón Máspoli. Tercero, cansancio del equipo.

En primer lugar, el plantel sufrió bajas sensibles tras el partido contra Inglaterra, fue duro y difícil. Aquella tarde, Uruguay triunfó, pero queda la sensación que fue una “victoria pírrica”, ya que se lesionaron Abbadie y Obdulio Varela. A esa situación, se le agrega la exclusión del “cotorra” Míguez para el partido semifinal.

Esa situación es explicada mediante la injerencia de los dirigentes Tróccoli y Viappiana, que al parecer estaban indignados con el jugador por motivos que no quedan muy claros. Antonio García Pintos señala que el desempeño de Míguez no fue el mejor durante el torneo, pero siempre fue considerado un elemento valioso. Los motivos expuestos por el dirigente Viappiana radicaban en que

… no sólo había jugado mal, sino que además, en la práctica realizada esa mañana, se había comportado grotescamente… sin voluntad. Como si no tuviera ganas de jugar[27].

Para García Pintos, la exclusión de Míguez fue consecuencia de una sanción y no por motivos técnicos:

Lo que sabemos, el enojo contra él, nacía de lo que se entendía su falta de fibra y su comportamiento, desganado, en una práctica sin importancia, realizada 30 horas después de haberse jugado un partido tremendo!!…[28].

Se considera que la falta de Míguez fue un hándicap para el rival, y se pagó caro en el partido porque Hohberg no tenía quien le enviara la pelota.

En relación al desempeño del portero Máspoli, el director de Fútbol Actualidad señaló que el jugador fue responsable de la derrota, ya que estuvo flojo y pudo haber evitado al menos dos goles. De todos modos, se exime a Máspoli las culpas y solamente se lo responsabiliza. Orlando Bugallo, periodista del mismo semanario escribió duramente sobre Máspoli:

le pido perdón a Máspoli por decir esto. A él le estoy agradecido por el glorioso regalo que me hizo en el 50 y por los de tantos internacionales; repito que no es crítica severa, por eso que le debo y porque sé que su deseo en ese encuentro fue el de realizar la mejor performance de su campaña… pero si él hubiera jugado bien ¡hay que ver la confianza que hubiera infundido ello a sus compañeros! nosotros ganamos el campeonato… ¡Sin golero no se puede jugar! ¡Y yo sé que él piensa como yo![29].

El tercer factor empleado, tiene que ver los aspectos físicos del equipo. Se entiende que Uruguay perdió por falta de preparación física. En cambio, Hungría tenía un estado físico increíble y los uruguayos no pudieron hacer frente a ello.

La conjugación de los tres factores, fueron empleados para explicar el resultado, e incluso algunos plantearon que trajo aparejado la limitación del buen juego que se había hecho hasta el momento. A partir de esta instancia, estamos en una etapa de procesualización del acontecimiento, esto supone, que con el correr de los días se fue procesando el resultado y todo lo que ello implicaba.

Finalmente, Antonio García Pintos definió el resultado como un fracaso y planteó que desde allí, surgió la necesidad de revisar todo el fútbol uruguayo:

-para Uruguay es desastre perder, cuando debe ganar; abdicar el título de mejor del mundo, cuando se le puede retener con justicia-, debe llevarnos una revisión total de nuestro fútbol. De arriba abajo. Y, en esta revisión de valores, debemos entrar nosotros, los críticos, que también respiramos en el ambiente viciado de errores, de complacencias y de politiquerías…[30].

Consideraciones finales.

Luego de realizar la recorrida por la prensa local durante los días previos y posteriores a la primera derrota de la selección uruguaya en un campeonato mundial, ¿Qué opinión quedó en los uruguayos?

El mundial de 1954 marca un antes y un después. En primer lugar, porque el partido significó la primera derrota celeste. Pero la derrota se inmortalizó y pasó a ser recordada por su trámite vibrante y cambiante; caracterizado por la belleza y el buen fútbol. Esta idea será la que se retomará desde el 30 de junio de 1954, cada vez que toque perder, se pretende que sea de esa forma; con un equipo dando lo mejor de si dentro del campo de juego, luchando hasta el final, luciendo buen fútbol, demostrando caballerosidad y asumiendo la derrota. Por otro lado, en consecuencia de lo anterior, el partido cumplió las expectativas y realmente fue “el match del siglo”. Uruguay estuvo a punto de vencer al rival estelar del momento que estaba en su mejor época. Después de la revolución húngara de 1956, el equipo “magyar” se disgregó y nunca volvió a tener la misma fuerza.

En segundo lugar, queda la idea del fin de un ciclo exitoso para los uruguayos. Desde que se comenzó a procesar la derrota, muchos periodistas entendieron que era necesario cambiar en varias dimensiones al fútbol uruguayo. Esta idea será retomada una y otra vez en cada uno de los sucesivos fracasos del fútbol uruguayo. Fue tal el impacto de los títulos conquistados por la selección uruguaya en la primera mitad del siglo XX, que no salir campeón pasó a ser fracaso.

Finalmente, en 1954 pesaba y mucho la idea de que se perdió la semifinal porque hubo fallas en la conformación del equipo por la ausencia de futbolistas como Oscar Míguez, Obdulio Varela y Julio Cesar Abbadie y por la mala tarde del arquero Máspoli. La prensa nacional a lo largo de la segunda mitad del siglo XX recurrirá a relatos interpretativos para explicar derrotas deportivas que en general versan en torno a la ausencia de piezas claves en los planteles; o por la mala actuación de alguna figura relevante.

 

Fuentes

  • El Día, Montevideo, junio-julio de 1954.
  • El Diario, Montevideo, junio-julio de 1954.
  • Fútbol Actualidad, Montevideo, junio-julio de 1954.
  • Justicia, Montevideo, junio-julio de 1954.
  • La Tribuna Popular, Montevideo, junio-julio de 1954.

[1] Ponencia presentada en Jornadas Uruguay y los Mundiales desde el sur, en la Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación (FHCE), UdelaR. Junio 2014.

[2] “Así caen los campeones”. “Fútbol Actualidad”, Montevideo, 06 de julio de 1954, p. 12.

[3] “Detalles respecto al sorteo”. “El Diario”, Montevideo, 28 de junio de 1954, p. 8.

[4] “Fueron sorteadas las semifinales”.  “Justicia”, Montevideo, 28 de junio de 1954, p. 3.

[5] “Ante los invencibles, la celeste no puede caer…”. “La Tribuna Popular”, Montevideo, 28 de junio de 1954, p. 1.

[6] “Uruguay, único que puede batir a los húngaros”. “La Tribuna Popular”, Montevideo, 30 de junio de 1954, p. 13.

[7] “Uruguay se juega hoy su carta decisiva”. “Justicia”, Montevideo, 30 de junio de 1954, p. 3.

[8] “El match de Latinoamérica contra Europa se llama al cotejo Uruguay V. Hungría”. “El Diario”, Montevideo, 28 de junio de 1954, p. 8.

[9] Ibídem. P. 8.

[10] “Europa frente a América”. “El Diario”, Montevideo, 29 de junio de 1954, p. 6.

[11] Contrario a esta idea, algunos entendían que la continuidad del mismo plantel solamente era un elemento relevante, dejando de lado los aspectos técnicos. Desde Fútbol Actualidad, Luis Schiappapietra opinaba “en los húngaros no hay secreto ni milagro alguno. Lo que da gran valor a su juego son los 4 años juntos”.

[12] Ante los invencibles, la celeste no puede caer… P. 1.

[13] “Radiografía deportiva de los Magyares. Lo que surge de una comparación con los uruguayos”. “El Día”, Montevideo, 30 de junio de 1954, p. 12.

[14] “Uruguay no deberá ceder ni un palmo ante este enemigo. Disposiciones tácticas necesarias”. “El Diario”, Montevideo, 29 de junio de 1954, p. 6.

[15] “Los celestes saben de duras jornadas”. “El Día”, Montevideo, 30 de junio de 1954, p. 12.

[16] Esta idea también la percibimos en una nota publicada por Antonio García Pintos, quien fuera el enviado especial a Suiza por Futbol Actualidad. El periodista estuvo presente en el encuentro por fase de grupos entre Hungría y Corea del Sur. La delegación uruguaya asistió a mirar el encuentro y García Pintos destaca el siguiente episodio en un apartado de la nota titulado “Ordenes de Moscú”: “Estaba siete a cero. Los del “young boys” –los suizos,- estaban entregados… Pero había pasado como diez minutos y no había más goles. Los húngaros habían errado dos o tres shots… Y de pronto, por los parlantes se oyó una voz, diciendo más o menos: Puf Ahic Auff Ein… Bunter, Bunter…

Y, casi en seguida, Puskas agarró la pelota y como desesperado, corrió veinte metros, dribló a un contrario y tiró violentamente alto, marcando el octavo gol.

Y me dijo William: – Viste… vino la orden de Moscú…”. “Los muchachos mirando a los húngaros”. “Fútbol Actualidad”, Montevideo, 17 de junio de 1954, p. 3.

[17]La Verdadera Historia de la Derrota”. “Fútbol Actualidad”, Montevideo, 6 de julio de 1954, p. 3.

[18]Tenemos que defender a Sudamérica”. “Fútbol Actualidad”, Montevideo, 29 de junio de 1954, p. 6.

[19] Hubo un episodio que se dio a conocer después del partido Hungría y Uruguay. En una entrevista que le realizó A. García Pintos a C. Kabocsai (uno de los técnicos de Hungría), confesó que no se sorprendieron de la lucha impuesta por los uruguayos ya que siguieron atentamente todo lo que hacía Uruguay y que en cada encuentro de los celestes habían tres observadores húngaros. Pero además, un periodista, Georges Imrei, afirmó que también filmaron con repetidas proyecciones las acciones de los jugadores uruguayos, a efectos de analizar sus características. En: “filmaron los movimientos de cada jugador celeste!”. “Fútbol Actualidad”, Montevideo, 6 de julio de 1954, p. 2 y 6.

[20] Ante los invencibles, la celeste no puede caer… P. 1.

[21] “Uruguay no deberá ceder ni un palmo ante este enemigo…., p. 6.

[22] Ibídem. P. 8.

[23] Ibídem. P. 8.

[24]Perdiendo ante un formidable equipo, los celestes salieron aún más engrandecidos”. “La Tribuna Popular”, Montevideo, 1 de julio de 1954, p. 12.

[25]Un match histórico e inolvidable”. “Justicia”, Montevideo, 1 de julio de 1954, p. 5.

[26]”Match histórico y maravilloso” se afirma sin dudas”. “El Diario”, Montevideo, 2 de julio de 1954, p. 7.

[27]La Verdadera Historia de la Derrota”. “Fútbol Actualidad”, Montevideo, 6 de julio de 1954, p. 3.

[28] Ibídem, p. 3.

[29]De haber jugado bien, seríamos campeones”. “Fútbol Actualidad”, Montevideo, 6 de julio de 1954, p. 3.

[30]  La verdadera historia de la derrota… P. 22


Videoclipe como fonte histórica

27/11/2017

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

A ideia deste texto surgiu meses atrás, num papo com o colega Leonardo Brandão, professor de História na FURB, em Blumenau (SC). Ele pesquisa história do skate no Brasil há muitos anos – e em 2018 junta-se à equipe do blogue. É muito legal que os esportes radicais – ou californianos, como ele denomina – sejam o foco principal de outro pesquisador por aqui.

Faço neste texto alguns apontamentos sobre o potencial do videoclipe como fonte histórica.

Dark Necessities – o clipe e a Califórnia

Eis o clipe de Dark Necessities, do Red Hot Chili Peppers:

O clipe é gravado na Califórnia, estrelado por gente que lá vive (a banda e as skatistas) e dirigido pela atriz hollywoodiana Olivia Wilde – que, segundo o verbete da Wikipedia, “vive e trabalha em Venice e Los Angeles“. Venice é um distrito de Los Angeles com forte presença de artistas, esportistas, hippies etc., sendo, junto com a vizinha Santa Monica, importantes em termos de lançar modas e estilos; e lugares onde o skate tem uma enorme presença e relevância. Abundam no vídeo as referências às subculturas locais.

A Califórnia e, particularmente, a região metropolitana de Los Angeles são temas constantes nas músicas da banda, desde o uso de heroína sob viadutos em áreas degradadas do Centro (Under the Bridge) a brincadeiras com as representações do estado em relação a outros (Dani California). Para além de gostar de um punhado de canções, a banda tem para mim um significado especial, pois foi muito importante na formação, no amadurecimento e na manutenção de outra que me é muito cara, o Pearl Jam.

Voltando ao clipe… Estão lá as palmeiras; as avenidas e ruas; a imensa quantidade de asfalto (uma das características do Sul da Califórnia, onde está Los Angeles); a prática de skate por diversos cantos da cidade – facilitada, em alguma medida, pelas quantidades expressivas de superfície cobertas por asfalto, concreto e cimento; os amplos corredores de supermercado; os estúdios de tatuagem.

Ao mesmo tempo em que é o estado mais populoso e rico dos EUA e sede de boa parte das empresas ligadas a internet e tecnologia (provedores de acesso, Intel, Google, Facebook, indústria pornográfica, desenvolvedores de websites e empresas que os hospedam estão lá; mais fácil é listar as gigantes que não estão: Amazon e Microsoft, ambas no outro extremo da Costa Oeste, na região metropolitana de Seattle), o Sul da Califórnai também representa, nos Estados Unidos, ao menos desde meados do século XX, o paraíso sonhado para se viver, se passar férias ou se mudar após a aposentadoria. Muita gente que para lá viaja acaba decidindo ficar. Se mal compararmos com o caso brasileiro, os estereótipos em torno da Califórnia e algumas de suas características unem boa parte do que, no senso comum brasileiro, se associa ao Rio de Janeiro, ao litoral do Nordeste e a São Paulo.

Os corpos

Estão lá os corpos. Movimentam-se cantando, dançando e brincando (banda) ou rodando no carrinho pela cidade (elas skatistas). Mas não se trata apenas de andar de skate: ali está incorporado um certo estilo associado ao Sul da Califórnia e a grupos que lá vivem, especialmente jovens. Mais: há um recorte de estilo dentro do próprio skate: são longboarders, o que implica a construção de representação de formas de andar de skate distintas de outras. Diferença que se estabelece não apenas pelo tamanho do skate, mas também por como se anda, em que lugares da cidade, o que se faz sobre ele, que tipos de manobras e ações são enfatizadas. Os corpos e seus movimentos são centrais neste produto audiovisual.

Eles – ou melhor, a pele – estão à mostra. Carregam e exibem muitas, muitas tatuagens. Tatuagens que fazem parte de diversos estilos de vida, culturas e subculturas, grupos/segmentos californianos: skatistas, surfistas, artistas, hippies, junkies, latinos, negros e/ou muitos outros.

Os corpos ostentam piercings, pulseiras, brincos, cabelos longos. Estão lá os bonés de aba reta, as camisas de flanela, os shorts, shortinhos, calças e bermudas.

Os corpos da banda exibem marcas da idade: rugas.

Os corpos delas, das skatistas, contém também ralados, machucados, roxos, cicatrizes, cascas de ferida, remendos com esparadrapo.

Estão lá quatro garotas fazendo o que querem com seus corpos. Um texto da jornalista Jéssica Oliveira considerou essa a principal característica do vídeo: estar sintonizado com os tempos atuais e com os progressos na luta das mulheres para se libertar de padrões impostos pelos homens, pela sociedade e/ou pelo machismo. Trata-se de uma leitura muito interessante do videoclipe.

Uma das skatistas faz uma tatuagem no interior da boca. O clipe representa tal escolha como não apenas um feito individual, mas parte de um ritual coletivo. Afinal, quando falamos da cultura em torno de um esporte – e particularmente nos casos em que este evolve para um estilo de vida -, não se trata apenas de praticá-lo, mas de compartilhar uma série de vivências com o grupo do qual se faz parte (por isso alguns autores preferem usar o conceito de tribo ou tribo urbana para se referir aos skatistas). E a vivência em grupos, em especial durante a adolescência, significa se submeter a um conjunto de normas, em busca de ser aceito. Portanto, a meu ver o ato de fazer tal tatuagem pode ser compreendido de diversas formas, desde o prisma da escolha e liberdade individual até a inserção num contexto coletivo mais amplo, com as expectativas, demandas e desejos de participação, integração, reconhecimento e, também, submissão.

Ao mesmo tempo em que tem traços característicos de muitos outros clipes do RHCP – como a própria banda aparecer tocando/cantando/dançando -, é uma ode às mulheres e, a meu ver, também à Califórnia e ao skate.

Videoclipe como fonte histórica

Propor o videoclipe como fonte história significa levar em consideração elementos dos produtos baseados em imagens em movimento (cinema, televisão etc.): os formatos e gêneros; montagem, sonorização, edição, fotografia etc.; ângulos de câmera, enquadramento, duração dos planos, ritmo e tipo de cortes etc. Não analisei tais elementos na seção acima, mas deixo alguns apontamentos: a) o uso de câmeras em movimento para gravar as cenas de skate; b) o close e os enquadramentos para mostrar os corpos femininos (tatuagens, cicatrizes etc., bastante distintos das lógicas de erotização que geralmente cercam a filmagem destes corpos); c) os cortes dados pela música: num padrão até 0’43”, noutro a partir daí, quando entra o baixo tocado por Flea (a partir daí é que as skatistas entram em ação).

A noção de videoclipe como fonte história não se descola, é claro, da música como fonte histórica – outra fonte pouco explorada na história do esporte. No caso das canções, cabe analisar a letra (coisa que tampouco fiz com o clipe acima – entre outros motivos, porque a letra não é explicitamente sobre mulheres, skate ou Califórnia). Penso, por exemplo, na representação de hábitos e atividades de lazer num domingo “típico” do Rio em Eu quero ver gol, do Rappa ou Jesualda, de Jorge Ben Jor (canções que falam de esporte, de hábitos culturais, das clivagens de classe social, de zonas geográficas e de asfalto x morro; ambas permitem discutir gênero). Ou nos três primeiros discos do Rappa e do Planet Hemp como fontes ricas para se analisar representações do Rio de Janeiro nos anos 1990 – infelizmente, boa parte delas, tão verazes e atuais naquela época como hoje (Tumulto, Miséria S.A., Tribunal de rua, Mão na cabeça, Todo camburão tem um pouco de navio negreiro, Legalize já, Hey Joe e Zerovinteum). Não se trataria, evidentemente, de analisar apenas as letras. Pode-se abordar também: as melodias; a forma de cantar; as sirenes de polícia e muitos outros efeitos sonoros; diálogo com gêneros e formas musicais (no caso, influências do dub, do reggae, do hardcore, de Jorge Ben Jor; os samplers de outros artistas e recursos eletrônicos; ritmo; instrumentos e formas de tocá-los.

Ou seja, é possível ter em conta, na análise, forma, conteúdo, aspectos técnicos da música, da letra e das imagens que aparecem no videoclipe; a trama do videoclipe, o contar ou não de uma história, os estilos/gêneros cinematográficos ou televisivos a que remete: ficção, documentário, colagem, desenho animado, experimentações gráficas ou visuais. Feito para consumo massificado ou conceitual, para disputar prêmios em festivais? Ou ambos?

Do ponto de vista cronológico e temporal, penso ser possível estabelecer pelo menos três referências: 1) o ano/época/contexto/lugar em que a música foi produzida; 2) o ano/época/contexto/lugar em que o videoclipe foi produzido (geralmente muito próximo ou idêntico ao da música, mas nem sempre); 3) o ano/época/contexto/lugar em que se passa a trama, ou aos quais ela remete.

Finalizo com dois exemplos. No primeiro, que nada tem a ver com esporte, mas também é do Chili Peppers, a trama homenageia/remete a diferentes bandas, artistas e épocas/décadas (cabelos, maquiagens, roupas, modo dos músicos se portarem no palco, instrumentos tocados, equipamentos de som etc.). A música é Dani California, à qual já me referi antes. Tal com em “Dark Necessities”, as imagens não buscam representar a letra.

Segundo, É Brasil, Representa (Brazilian Storm), de Gabriel O Pensador, Apollo Nove e Alex Freitas Gomes. Lançados este ano, o clipe e a música são uma ode ao surfe brasileiro: destacam uma série de nomes, datas e acontecimentos do passado, ao mesmo tempo em que celebram a presença significativa de brasileiros (em quantidade e em termos de resultados) nos anos recentes no Circuito Mundial profissional masculino, incluindo os títulos conquistados por Gabriel Medina (2014) e Adriano de Souza (2015).

Embora com objetivos, estilos e diálogos bem distintos, ambos representam o passado (mais o primeiro que o segundo) e o presente a partir do presente.

Para saber mais

  • Sobre o uso de fontes ligadas à arte e à mídia para a pesquisa histórica: MELO, Victor A.; DRUMOND, Mauricio; FORTES, Rafael; MALAIA, João. Pesquisa histórica e história do esporte. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2013.
  • Textos deste blogue que contendo a palavra clipe.

Machado de Assis, João do Rio, Olavo Bilac e os novos padrões corporais no Rio de Janeiro da transição dos séculos XIX e XX

17/11/2017

Por Victor Andrade de Melo

Março de 1871 (no tempo da ficção, já que a obra foi escrita nos anos finais do século XIX). Bentinho e Capitu uma vez mais deixam sua casa na Glória para jantar na residência de Escobar e Sancha, na Praia do Flamengo. Em certo momento da noite, na janela a ouvir o barulho do mar em ressaca (como os olhos de Capitu, conforme sugeria o protagonista), perdido em pensamentos, Bentinho percebe o amigo se aproximar:

– O mar amanhã está de desafiar a gente, disse-me a voz de Escobar, ao pé de mim.
– Você entra no mar amanhã?
– Tenho entrado com mares maiores, muito maiores. Você não imagina o que é um bom mar em hora bravia. É preciso nadar bem, como eu, e ter estes pulmões disse ele batendo no peito, e estes braços; apalpa.

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Banhistas na Praia do Flamengo/década de 1910

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Bentinho assume que, a princípio, em Sancha lembrou quando apalpou o braço de Escobar. Todavia, logo uma sensação constrangedora lhe acometeu: “achei-os mais grossos e fortes que os meus, e tive-lhes inveja; acresce que sabiam nadar”. No retorno à Glória, inebriado pelo forte ruído do oceano, Bentinho se dá conta do incômodo que lhe causava a figura de Escobar, materializado numa fotografia que possuía em casa.

Entre tantas leituras possíveis, podemos ver em Dom Casmurro um embate entre modelos de masculinidade. Machado de Assis, na composição de seu personagem “másculo”, o destaca, entre outras características, pela compleição muscular e pelo hábito de praticar um esporte. O comerciante e empreendedor Escobar enfrenta mares bravios com seus bons pulmões e braços fortes. Morre não por covardia, mas sim por ousadia. Bentinho, ao contrário, toma ciência de sua fraqueza e inveja o amigo: sabe-se débil em muitos sentidos.

Podemos também considerar que se trata de uma dramatização de um embate entre o homem da tradição bacharelesca, que só se dedica às coisas da “mente” e do “espírito”, e o novo burguês, que expressa com seu corpo os comportamentos e posturas que marcam uma personalidade disposta a aceitar desafios. Enfrentar o oceano com seus próprios braços é um sinal definidor do perfil desse homem.

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Remadores na Praia do Flamengo/Década de 1920

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O que bem capta Machado de Assis são as mudanças de perfil e de padrão de exposição corporal na cena fluminense das últimas décadas do século XIX, tão bem definidas por João do Rio alguns anos mais tarde. No início do século XX, ele sugeriu que “Fazer esporte há 20 anos ainda era para o Rio uma extravagância. As mães punham as mãos na cabeça, quando um dos meninos arranjava um altere. Estava perdido. Rapaz sem um pincenez, sem discutir literatura dos outros, sem cursar as academias – era um homem estragado”. A contrário disso, na virada de centúrias, segundo seu olhar,

Rapazes discutiam “muque” em toda parte. Pela cidade, jovens, outrora raquíticos e balofos, ostentavam largos peitorais e a cinta fina e a perna nervosa e a musculatura herculeana dos braços. Era o delírio do rowing, era a paixão dos esportes. Os dias de regatas tornavam-se acontecimentos urbanos.

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Regata na Enseada de Botafogo/1ª década do século XX

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Não que o esporte fosse uma novidade na cidade. Desde a primeira metade do século XIX, diversas modalidades já vinham se estruturando, em conjunto com outras práticas corporais (ginástica, dança, patinação), expressões da valorização crescente de uma vida pública, materializada, inclusive, pela conformação progressiva de um mercado ao redor dos entretenimentos.

Naquela transição de séculos, contudo, no quadro de um Rio de Janeiro em mudanças, no qual se percebe ainda maior adesão ao ideário e imaginário da modernidade, bem como fortalecimento das relações com parâmetros simbólicos do continente europeu, as atividades físicas deixaram de ser uma exceção, venceram resistências culturais e, incorporando preocupações com a saúde e higiene, tornaram-se valorizadas por um significativo estrato da população, consideradas mesmo como um modelo de um novo padrão de vida que deveria se desejar para que o país pudesse progredir.

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Remadores do Clube Boqueirão do Passeio

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Os homens, como bem observa Luiz Edmundo, “já começam a mostrar corpos rijos e bem desenhados de músculos, muito orgulhosos de suas linhas, exibindo-se em calções, mas dos longos, dos que vão abaixo da linha do joelho” (1957, p. 840). Os remadores se tornam um exemplo.

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Remadores do Vasco da Gama

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O remo era representado como o esporte do “exercício physico”, termo-chave sempre usado pelos que defendiam e propagavam os benefícios dessa prática. Era encarado como o esporte da saúde; do desafio, contra o outro e contra o mar, que educa o músculo e a moral. Seria supostamente uma prática adequada para forjar uma juventude altiva, forte e com “liberdade de espírito” suficiente para conduzir a nação ao progresso necessário.

Olavo Bilac, ardoroso defensor do progresso e da modernização do país, celebrava:

Essa geração, que está se educando no mar, face a face com o perigo, criando a energia muscular e energia moral, já é mais bela, mais forte, mais nobre do que a minha. Os adolescentes de hoje já não são como os de ontem, magros e tristes, macambúzios e histéricos, criados entre o rigor do carrancismo paterno e a brutalidade dos mestres boçais, entre sustos e palmadas, sem exercício físico e sem liberdade de espírito (…) os meninos de hoje já são bravos como homens.

Assim, sempre que se falava dos atletas de remo, procurava-se destacar suas formas físicas, sua vigorosidade, sua “saúde”. O remador campeão brasileiro de 1903 era apresentado física e moralmente como uma figura próxima da perfeição: “Arthur Amendoa, é de estatura mediana, moreno, bela estatura, bela complexão de atleta, bastante musculoso, dotado de muito bom gênio e no trato é cortes; excelente companheiro e amigo leal”. As fotos de remadores exibem para o grande público a nova formação corporal que melhor expressava o que se esperava dos novos tempos.

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Remadores do Clube de Regatas Gragoatá

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Para mais informações

MELO, Victor Andrade de Melo. Cidade sportiva. Rio de Janeiro: Relume Dumará/Faperj, 2001.

MELO, Victor Andrade de Melo. Corpos, bicicletas e automóveis: outros esportes na transição dos séculos XIX e XX. In: PRIORE, Mary del, MELO, Victor Andrade de (org.). História do esporte no Brasil: do Império aos dias atuais. São Paulo: Editora Unesp, 2009. p. 70-106.

MELO, Victor Andrade de Melo. O corpo esportivo nas searas tupiniquins – um panorama histórico. In: PRIORE, Mary del, AMANTINO, Marcia. (orgs.). História do corpo no Brasil. São Paulo: Editora da Unesp, 2011. p. 123-145.

MELO, Victor Andrade de Melo. Novas performances masculinas: o esporte, a ginástica, a educação física (século XIX). In: PRIORE, Mary del, AMANTINO, Marcia (orgs.). História dos homens no Brasil. São Paulo: Editora da Unesp, 2013. p. 119-152.

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O VI Sul-Americano de futebol no âmbito dos Jogos do Centenário de 1922 no Rio de Janeiro: entre os discursos da “nação brasileira” e a diplomacia internacional

13/11/2017

Eduardo de Souza Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

 Em 1922, o Brasil festejava o centenário de sua independência. Essa data foi marcada por uma série de comemorações e exaltações da “nação brasileira”, em eventos diplomáticos com a presença de representantes de diferentes países do mundo.

Entre esses eventos, podemos citar as “Exposições Internacionais”. Pensadas na Europa do século XIX como forma de demonstrar o desenvolvimento industrial e a inserção de alguns países desse continente, essa modalidade de evento foi entendida como ideal para os festejos de comemoração do Brasil em 1922. Tendo em vista a intenção de idealizar o Brasil como uma “nação moderna”, tal como outras do “velho mundo”, foram nesse ano iniciadas as Exposições Internacionais na então capital Rio de Janeiro. O centenário da independência do país, concretizou um cenário propício para tais eventos, tendo tido em solo brasileiro a presença de diplomatas e representantes de diferentes nações.

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Exposição Internacional de 1922 – Av. Rio Branco, Rio de Janeiro/RJ. Fonte:http://historiasemonumentos.blogspot.com.br/2014/11/exposicao-internacional-do-centenario.html

Não devemos esquecer que, além das comemorações do centenário, 1922 ficou marcado por diversos outros acontecimentos relevantes no país. Podemos destacar, apenas como forma de exemplificação, o avanço do movimento tenentista, a Revolta dos 18 do Forte, a Semana de Arte Moderna e a fundação do Partido Comunista. Tendo esses e outros acontecimentos como pano de fundo, os debates que tratavam sobre a temática das ideias de “nação” brasileira, se fortaleceram.

Um grande exemplo desses debates sobre os caminhos a serem seguidos no país foi a criação e fortalecimento, entre 1921 e 1922, da “Reação Republicana”, que foi um movimento contrário ao poder político oligárquico dominante no Brasil naquele momento. Esse, contava com a participação de políticos e parte da elite de estados (Bahia, Distrito Federal, Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul) que buscavam quebrar a política dos governadores então estabelecida pelas oligarquias de São Paulo e Minas Gerais (vejam bem, destacamos aqui uma disputa de poder e, não necessariamente, uma busca por mudanças sociais mais amplas por esses outros estados e/ou oligarquias que participavam do movimento).

Para alcançar tal objetivo, os estados que compunham a Reação Republicana lançaram como oposição, nas eleições presidenciais de 1922, a candidatura do então senador fluminense Nilo Peçanha. Peçanha, que já havia presidido o país entre 1909 e 1910, concorreu com o mineiro Artur Bernardes pelo cargo de sucessor de Epitácio Pessoa na presidência. Inserido nas alianças ligadas à Política dos Governadores, Artur Bernardes foi eleito, porém não calou as formas de contestações políticas criadas pela Reação Republicana, tendo como exemplo o já citado movimento tenentista, que seguiu com força no decorrer da década de 1920.

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Charge publicada na revista O Malho, 25/02/1922 Fonte: http://act14-anjovida.blogspot.com.br/2014/08/

Neste breve post, buscaremos compreender um pouco da presença do esporte nesse cenário diplomático de construção da ideia de nação brasileira proposta em 1922, assim como em boa parte da década de 1920. Tendo em vista que a construção e realização dos “Jogos Olímpicos Latino-Americanos de 1922” já foi abordado com maiores detalhes em post anterior (muito bem) escrito por Karina Cancella, buscaremos de forma mais específica entender o papel do VI Sul-Americano de seleções de futebol nesse processo, por se tratar de uma competição ocorrida no âmbito dos Jogos do Centenário e que teve grande relevância e repercussão no período retratado.

O que aqui chamamos de Jogos Olímpicos Latino-Americanos de 1922, foram um conjunto de competições esportivas realizadas no cenário de comemorações do centenário da independência do Brasil, contando com a disputa das seguintes modalidades: natação, polo aquático, basquete, tênis, atletismo, esgrima, tiro, remo, boxe e hipismo. Junto a esses eventos, ocorreu o VI Sul-Americano de Seleções de futebol, organizado pela Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL).

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Parada militar do centenário. Fonte: TORRES, César. Jogos Olímpicos Latino-Americanos – Rio de Janeiro 1922. Manaus: CBAt, 2012, p. 32.

Em 1919, o Brasil sediou os campeonatos sul-americanos das seguintes modalidades: futebol, natação e polo aquático. Para realizar, em 1922, um evento que pudesse conglomerar outras modalidades em âmbito continental, se fez necessário uma série de obras públicas na cidade do Rio de Janeiro. Depois da realização de uma série de debates, assim como atrasos ocorridos que, por pouco, não levaram a realização dos jogos do centenário da capital para São Paulo, chegou-se a uma definição de como seria organizadas as obras para o evento no Rio de Janeiro. Como salienta Maurício Drumond,

[…] coube ao Fluminense Football Club, presidido por Arnaldo Guinle, membro de uma das mais ricas e influentes famílias cariocas, a oportunidade de sediar os jogos, realizando assim grandes obras em seu estádio. Para executar as obras no stadium do Fluminense foi chamado o arquiteto Hypolito Pujol Jr., que também era responsável pelo pavilhão de São Paulo na Exposição do Centenário – um dos maiores especialistas brasileiros em concreto armado, tecnologia moderna a ser utilizada no centro esportivo. Apresentando assim a modernidade a ser vista nos pavilhões da Exposição, o estádio do Fluminense seria então o principal palco dos Jogos do Centenário, abrigando o campeonato sul-americano de futebol, assim como competições de tênis, boxe, polo aquático, esgrima, atletismo e tiro. Outras localidades, como o estádio do Clube de Regatas do Flamengo, a Vila Militar e o Jockey Club, entre outros, também receberam parte das provas (DRUMOND, 2012, p. 21-22).

Na América do Sul, a primeira competição continental de futebol entendida como oficial (ou seja, que possuem a chancela da Conmebol) entre seleções foi realizada em 1916, na Argentina. O Brasil a venceu pela primeira vez em 1919, ano em que também foi o país sede da competição. Em 1922, ocorreu a sexta edição do evento, sendo a segunda em que o Brasil o organizaria.

Para conseguir montar uma equipe que melhor representasse a “nação brasileira”, foi criado o primeiro Campeonato Brasileiro de seleções estaduais, em 1922. Esse campeonato, vencido pelo estado de São Paulo, tinha como principal objetivo conglomerar os “craques” do futebol nacional em vista a formação do selecionado que disputaria o Sul-Americano de seleções (maiores informações sobre a criação do Campeonato Brasileiro de seleções estaduais, ver o post de João Malaia).

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Selecionados de São Paulo (parte superior da imagem) e do Rio Grande do Sul (parte inferior), que se enfrentaram no Campeonato Brasileiro de seleções estaduais de 1922, com vitória paulista por 4×2. Fonte: http://cacellain.com.br/blog/?p=78752

A preparação para o VI Sul-Americano foi marcada por tensões entre as duas maiores federações de futebol do Brasil, do Distrito Federal e de São Paulo. Como se tornou marcante nos primórdios do futebol brasileiro, as disputas entre paulistas e cariocas pelo poder desse esporte se explicitava como algo que sobressaia aos campos dos jogos. A criação do citado Campeonato Brasileiro de futebol teria sido uma forma de tentar conciliar os estados que disputavam o poder do esporte (Distrito Federal e São Paulo), assim como idealizar um selecionado que pudesse ser entendido como mais “nacional”, ou seja, sendo composto por atletas de outras localidades também. Todavia, como infere João Malaia, vários fatores impossibilitaram esse caminho, fazendo com que a seleção continuasse a ser dominada por carioca e paulistas:

Falar em seleção brasileira com a ideia de que dela fizessem parte jogadores que efetivamente representassem o Brasil foi uma tarefa difícil, uma vez que os estatutos da CBD excluíam os analfabetos, que de acordo com o Censo de 1920, eram 65% da população brasileira. Junto a esse dado, vale ressaltar que, a despeito da organização do campeonato de seleções estaduais, a seleção de 1922 contou apenas com jogadores de São Paulo e da cidade do Rio de Janeiro, como era de costume. Da equipe que disputou a final do torneio contra o Paraguai, sete jogadores eram de equipes paulistas e quatro eram de equipes cariocas (MALAIA, 2012, p. 68).

Mesmo com todas as tensões iniciais, o Brasil acabou se tornando campeão do Sul-Americano de futebol em 1922, sendo essa sua segunda conquista na história da competição (a primeira foi em 1919, quando também havia sediado o torneio). Porém, a campanha realizada foi marcada por altos e baixos, tendo o selecionado empatado os três primeiros jogos (1×1 com o Chile; 1×1 Paraguai; e 0x0 Uruguai) e ganho os dois últimos (2×0 Argentina e 3×0 Paraguai, sendo esse último um jogo desempate).

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Premiação do Brasil campeão do Sul-Americano de 1922, no Estádio das Laranjeiras. Fonte: http://www.conmebol.com/pt-br/ano-1922-sul-americano-no-brasil-palco-de-honra-do-estadio-das-laranjeiras-do-clube-fluminense

O percurso até a vitória foi analisado com olhares diversos por parte dos jornais cariocas e de outras localidades do país. Sem obviamente buscarmos criar generalizações em proporções nacionais, tendo em vista que analisamos apenas jornais do Rio de Janeiro, foi possível apurar até o momento com a pesquisa que a linha de alguns importantes periódicos cariocas no período, como O Imparcial e Correio da Manhã, entendia que o futebol e as demais práticas esportivas ofereciam bons caminhos para idealizarem um novo Brasil “moderno” e que se diferenciasse das oligarquias dominantes ainda presentes no poder do país (nesse caso, em relação a parte da imprensa que se colocava contrária ao governo vigente).

Percebemos, pela análise das fontes, uma tentativa da imprensa em interligar a exaltação do Brasil enquanto nação com o os resultados e jogos praticados pelo selecionado nacional. Com isso, qualquer ação que fosse contraria aos “interesses da pátria”, era criticada, tal como aquelas que se demonstravam deselegantes com o evento que o país organizava.

Como exemplo, podemos citar as críticas da imprensa sobre os erros de árbitros estrangeiros ocorridos durante o Sul-Americano de 1922. Um árbitro chileno, por exemplo, que fora chamado de Ladrón de Guevara pelos jornalistas de O Imparcial, desistiu de arbitrar partidas da competição, provavelmente após ser acusado de erros (O Imparcial, Rio de Janeiro, 20 de setembro de 1922).

Todavia, quando os erros teriam ocorrido por um árbitro brasileiro, parte da imprensa relativizou as supostas irregularidades. Na partida entre Paraguai e Uruguai, esses últimos alegaram terem sido prejudicados pela arbitragem do brasileiro Carlos Santos (O Imparcial, Rio de Janeiro, 14 de outubro de 1922), que teria supostamente beneficiado os paraguaios para que assim o Brasil continuasse com chances de ser campeão sul-americano (se os uruguaios vencessem, seriam os campeões). Nas páginas de Correio da Manhã, podemos perceber como o erro foi visto por parte da imprensa:

O Sr. Carlos Santos errou e com seus erros alterou o score da partida. Não queremos entrar em análise das suas intenções, por isso que, não temos o direito de discuti-las. Sempre respeitamos a honestidade dos países estrangeiros, e não há de ser, desta vez, que vamos pôr em dúvida a de um juiz brasileiro.

[…]  os uruguaios que tantas provas de correção tem dado em campo e fora dele, não deviam jamais ter pretendido abandonar o campo, mesmo que tivessem razão (Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1922, p. 5.).

Confirmados os erros acima, o fato é que a delegação uruguaia se sentiu prejudicada a tal ponto que abdicou do direito de continuar disputando o Sul-Americano, atitude essa que foi extremamente criticada por parte da imprensa, como podemos ver na citação anterior, onde questionam o posicionamento do selecionado de optar por sair do campo de jogo, e também ao explicitarem ser essa (o abandono do torneio) uma ação “interpestiva e indelicada […] retirando-se de uma competição entre amigos de uma forma tão violenta” (Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 16 de outubro de 1922). Percebe-se também com a citação acima, que a análise não se dava na tentativa de negar os erros, mas de entender que não deveria haver dúvidas da idoneidade e honestidade do árbitro brasileiro, sendo esse um olhar diferente em relação ao que se via na imprensa sobre os árbitros estrangeiros que supostamente teriam também cometido erros.

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Equipe base do Brasil campeão sul-americano de 1922. Fonte: https://baudofutebolce.wordpress.com/2011/05/31/1788/

Essas críticas explícitas nos periódicos demonstram como a defesa da nação se fazia como prioritária por parte dos jornais em questão, deixando claro que o evento não só tinha a intenção de festejar o centenário da independência do país, mas também demonstrar no cenário internacional os valores da “nação brasileira”.

A tensão gerada pela saída do Uruguai do torneio teria acalorado as relações entre os países e estimulado o aumento de críticas por parte daqueles que já eram contrários ao futebol e demais práticas esportivas como forma de se pensar a nação diplomaticamente. Malaia reforça que esse ocorrido poderia ter abalado as relações entre os dois países:

Além desse escândalo, alguns parlamentares passaram a condenar as competições internacionais de futebol, pois estas estariam acirrando rivalidades que extrapolavam o campo e estavam dificultando relações com figuras proeminentes dos países sul-americanos. Brasil e Uruguai disputavam uma cadeira permanente na Liga das Nações e devido aos atritos com a seleção uruguaia, alguns parlamentares brasileiros viram a competição e o acirramento das rusgas entre os dois países como um revés na política internacional do país. (MALAIA, 2012, p. 69-70).

Concluímos essa breve reflexão, destacando que o VI Sul-Americano de futebol, em 1922, foi mais uma entre as várias possibilidades de se construir uma representação da nação brasileira perante outros países no sistema-mundo. Assim, com a tentativa de se fazer “moderna” como as nações europeias, inferimos que as construções da nação brasileira, feitas de diferentes maneiras por políticos e veículos de imprensa, tinham como principal característica o distanciamento em relação aos outros países vizinhos da América Latina. Mesmo quando se tinha um discurso de aproximação diplomática, se fazia questão de destacar a diferenciação brasileira em relação aos outros países da região (como, por exemplo, no caso dos árbitros, onde o brasileiro que erra é entendido como honesto, mas os demais não). Esse debate se faz importante por ser tratar de uma discussão até hoje ainda não bem definida, sobre o Brasil se entender ou não como uma nação latino-americana.

REFERÊNCIAS

DRUMOND, Maurício. Os jogos esportivos do centenário: o ponto de vista da política. In: MALAIA, João Manuel; MELO, Victor (orgs.). 1922: celebrações esportivas do centenário. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012, p. 15-36.

GOMES, Eduardo de Souza. A Reação Republicana e a imprensa carioca no VI Sul-Americano de futebol em 1922: uma análise nas páginas de O Imparcial e Correio da Manhã. ÂNCORA – Revista Latino-Americana de Jornalismo, João Pessoa, v. 4, 2017, p. 147-171.

MALAIA, João Manuel. A imprensa e o sul-americano de futebol de 1922: a “defesa das cores nacionais” ou o “campeonato internacional das futilidades”?. Revista Estudos Políticos, Rio de Janeiro, n. 5, 2012, p. 60-76.