MAIS UM LIVRO DISPONÍVEL – PRIMÓRDIOS DO ESPORTE NO BRASIL – RIO DE JANEIRO

26/06/2021

por Victor Melo

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Primórdios

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Graças ao apoio da Reggo Edições, disponibilizamos para download mais um belo livro: Primórdios do Esporte no Brasil – Rio de Janeiro, escrito por mim e pelo irmão Fabio Peres.

Trata-se de um livro de difusão, “é parte de um projeto que pretende contribuir para o reconhecimento da importância do fenômeno esportivo no Brasil, a partir da difusão dos principais traços dos momentos iniciais de seu percurso em algumas cidades brasileiras. O intuito não é abordar academicamente o assunto, mas sim apresentar ao grande público alguns dos fatos importantes que marcaram a trajetória nacional do esporte”.

Esta obra, além da bela editoração e imagens, traz uma parte do magnífico acervo de Roberto Gesta de Melo.

Os interessados podem baixar o livro em:

primordios_do_esporte_RIO DE JANEIRO

Um abraço, Victor.


Skate, atitude e política

25/06/2021

Por: Leonardo Brandão (@leobrandao77)

Universidade Regional de Blumenau – FURB

IMAGEM: Murilo Romão, do coletivo Flanantes, praticando skate de rua no centro de São Paulo/SP. Fotografia: André Calvão. Clique sobre a imagem para ampliá-la.

NOTA INTRODUTÓRIA:

No dia 21 de junho comemora-se o Dia Mundial do Skate. Neste ano, fui convidado para realizar um depoimento num evento organizado na Unibes Cultural, em São Paulo/SP. O organizador deste evento solicitou um depoimento sobre a relação entre skate, atitude e política. O depoimento que proferi tomou por base este texto que segue abaixo para leitura.

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A relação entre a prática do skate e a noção de atitude é antiga. Podemos retornar no tempo e nos lembrar dos Z-Boys, grupo de skatistas que, nos Estados Unidos, revolucionou essa atividade durante a década de 1970 ao invadir piscinas em propriedades particulares e praticar skate em suas transições, fato este que está no documentário “Dog Town and Z-Boys”, dirigido por Stacy Peralta e que, inclusive, pode ser conferido no You Tube para quem tiver curiosidade[1].

A atitude na prática do skate se revela de inúmeras maneiras, seja pelo visual (a indumentária), na sua relação com a música (geralmente com o punk-rock, ou o chamado skate-rock e também ao rap) e, sobretudo, nas manobras; isto é, na escolha das manobras e onde realiza-las. Na prática do skate de rua (street), há um elemento incontestável de atitude no flanar pelo urbano, quando os skatistas se apropriam de determinados elementos da cidade, os chamados aparelhos urbanos, tais como escadas, transições, bancos, guias etc.

Na história do Skate, tais atitudes ganham dimensões políticas. No caso do Brasil, é conhecida sua proibição na cidade de São Paulo no ano de 1988, pelo autoritarismo de seu prefeito à época, Jânio Quadros…O skate apenas voltou a legalidade na gestão de Luiza Erundina no início dos anos 90. Todo este episódio da proibição do skate em São Paulo encontra-se muito bem documentado, e isso tanto no Jornal “A Folha de S. Paulo” quanto na revista Yeah!, que tinha como editor-chefe Paulo Anshowinhas e que foi uma das principais mídias de skate da década de 1980 no país. Posteriormente, vale destacar que também tivemos políticas públicas que beneficiaram o skate ao construir espaços específicos para sua prática. Exemplos neste sentido podem ser observados na gestão da ex-prefeita Marta Suplicy, que viabilizou a entrega de inúmeras pistas no Projeto Centros de Bairro[2] ou na gestão do ex-prefeito Fernando Haddad, que além de incentivar a ideia de “cidade para pessoas”, também realizou a construção de pistas de skate, como o Centro de Esportes Radicais, localizado no Bom Retiro ou ainda a Pista de Skate da Chácara do Jóckey.

Mas há uma relação mais complexa que envolve skatistas e a temática do poder. Para além das políticas públicas aqui destacadas, podemos pensar que o poder se relaciona com a atitude do skate de inúmeras maneiras. Recentemente, tivemos a destruição de um pico clássico do skate paulistano, no Vale do Anhangabaú. Inconformados, os skatistas resistiram e conseguiram, através de um movimento urbano que ficou conhecido como “Salve o Vale”, viabilizar parte da reconstrução deste pico, sob supervisão e projeto do arquiteto Rafael Murolo. Este novo pico atualmente é conhecido como o Memorial. Esta história de luta e negociação com o poder público virou um livro, organizado pelo skatista profissional Murilo Romão e que conta toda a saga do skate no Vale do Anhangabaú, desde os primórdios, passando pela destruição e a posterior construção do memorial, que se tornou um aparelho urbano skatável.

Este acontecimento, portanto, nos mostra que o poder não tem apenas uma via, ele pode reprimir, mas também pode ser usado para a construção, para algo positivo. No caso do skate praticado na rua, os skatistas conhecem há muito tempo a temática do poder, que neste caso é quase sempre utilizado na forma disciplinar, sobretudo com guardas e policiais, que não autorizam o uso de determinados espaços urbanos. Mas existem maneiras de contornar esse poder disciplinar e realizar a apropriação da cidade, e o coletivo Flanantes, que vem produzindo uma série de filmes sobre o uso criativo do skate nos espaços públicos é uma prova disso (Todos os vídeos dos Flanantes podem ser conferidos também no Youtube).

Por fim, há também uma outra dimensão do poder, e na minha tese de doutorado, que deu origem ao livro “Para Além do Esporte: Uma História do Skate no Brasil”, que eu intitulei de Poder Esportivo. Esta modalidade do poder visa transformar o skate num esporte de competição, criando regras, categorias, rankings etc. Trata-se de um poder que visa moldar o skate no campo esportivo, sendo, uma de suas maiores conquistas, a entrada do Skate nas Olimpíadas.

Este breve panorama nos faz ver, portanto, que não podemos falar no skate no singular, mas sim no plural. Não existe o skate ou o skatista, mas sim determinadas formas de utilizar o skate, seu uso heterotópico nas ruas ou na forma de competição em espaços delimitados e organizados para tanto; como também não existe o skatista, mas skatistas, com identidades múltiplas, pois enquanto há aquele que se reconhece enquanto um atleta (houve num passado até quem já se intitulou “Atleta de Cristo”), existem outros que preferem interpretar o skate, na expressão do skatista Klaus Bohms, como uma “ferramenta de reinterpretar espaço”, o que associa o skate muito diretamente ao campo artístico.

Para saber mais:

BRANDÃO, Leonardo. Para além do Esporte: uma história do skate no Brasil. Blumeau: Edifurb, 2014.

ROMÃO, Murilo (Org.) Vale TXT. São Paulo: Flanantes, 2020.


[1] https://www.youtube.com/watch?v=7YKPEDayb_U, acesso em 15/06/2021.

[2] https://cemporcentoskate.com.br/fiksperto/marta-suplicy-oficializa-a-entrega-das-44-pistas-de-skate-em-sp/, acesso em 15/06/2021.


EXPOSIÇÃO “ESPORTE MOVIMENTO – TESOUROS DO ESPORTE: HISTÓRIA EM MOVIMENTO” – CATÁLOGO PARA DOWNLOAD

19/06/2021

por Victor Andrade de Melo.

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Esporte.Movimento

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Nos anos de 2015/2016, a exposição “Esporte Movimento – Tesouros do Esporte: História em Movimento” apresentou cerca de 2.000 obras do acervo de Roberto Gesta de Mello, um dos maiores colecionadores de artefatos esportivos do mundo. O público pode apreciar “selos, moedas, troféus, tochas, fotografias, vídeos, medalhas originais e demais objetos relacionados ao esporte”.  Percorreu unidades da Caixa Cultural de São Paulo, Curitiba, Brasília, Fortaleza, Recife, Salvador e Rio de Janeiro

Mais informações sobre a exposição: https://www.facebook.com/ExposicaoEsporteMovimento/

Tive a felicidade de participar dessa exposição auxiliando na curadoria e preparando os textos de catálogo e de parede.

O Catálogo ficou muito bonito e foi distribuído gratuitamente. Para quem tiver interesse, pode fazer abaixo o download.

catalogo.gesta.versao.final.editorada.2.correta

Um abraço, Victor.


Rio Esportivo – livro disponível para download

17/06/2021

por Victor Andrade de Melo.

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Rio.Esportivo.Capa

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O ano era 2015, vivíamos a expectativa da realização dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. A cidade, como poucas vezes antes, respirava ares esportivos, não necessariamente só de forma festiva. Já se faziam sentir os desdobramentos e problemas ocasionados pelo evento, que dava sequência à promoção da Copa do Mundo de 2014 e encerraria uma década de grandes competições.

Nesse cenário, foi lançado Rio Esportivo, uma das muitas ações com as quais tive o prazer de me envolver no período que antecedeu os Jogos Olímpicos. Esse livro ocupa para mim um espaço especial. Há anos, talvez décadas, tinha o desejo de lançar uma obra com essas características – um formato luxuoso, com muitas ilustrações e informações que pudessem chegar ao grande público, extrapolando o mundo acadêmico.

O convite da Casa da Palavra me encheu de felicidade. A ideia era apresentar um panorama das mais diferentes modalidades em sua distribuição pelas regiões do Rio de Janeiro. A produção editorial me deixou encantado. O resultado foi ótimo: o livro circulou bastante, foi bem vendido e já há algum tempo se encontra esgotado (somente há alguns poucos exemplares ainda à venda em algumas livrarias).

A fim de voltar a dar visibilidade à obra, com a gentil autorização da LeYa Brasil (meu enorme agradecimento à Leila Name), a disponibilizo para dowload gratuito.

Logo abaixo, pode-se baixar Rio Esportivo – a capa, o livro inteiro e em destaque o prefácio. Fiz questão de separá-lo para prestar uma homenagem ao amigo querido Gilmar Mascarenhas, que me brindou com seus gentis e generosos comentários, além de suas análises sempre acuradas.

No dia do lançamento, celebrei muito com os amigos. A noite demorou a ter fim em meio a gargalhadas, cervejas e celebrações. Gilmar estava conosco. Saudades, muitas saudades.

Meus agradecimentos aos que tornaram possível a publicação do livro. Espero que antigos e novos leitores o apreciem.

Rio.Esportivo.livro

Rio Esportivo_prefácio-dupla

Rio.Esportivo.capa


A Criação do CND: o futebol a serviço do Estado Novo

13/06/2021

Maurício Drumond

No dia 10 de novembro de 1937, Getúlio Vargas fechou o Congresso e instaurou um novo regime conhecido como Estado Novo, fortalecendo seu poder e passando a investir ainda mais em uma política de centralização e união nacional. No campo esportivo, essa postura levaria a uma maior aproximação do governo com o esporte, que já poderia ser observada na ocasião da III Copa do Mundo, realizada na França em 1938.

Ciente da popularidade do esporte e de sua importância como símbolo nacional, o novo regime concede vultosa subvenção à delegação brasileira para se apresentar no evento – Tomás Mazzoni (1941, p. 16) chega a destacar o “interesse do ministro das Relações Exteriores à delegação que esteve na III Taça do Mundo”. Deve-se somar a isso o fato de que a CBD permanecia como responsável pela representação brasileira no certame, e que Luiz Aranha era seu presidente desde 1936 e sua proximidade pessoal com a alta cúpula do governo, sobretudo com o referido ministro das Relações Exteriores no período do evento, Oswaldo Aranha, seu irmão. A imagem do governo é ainda mais intimamente associada ao escrete brasileiro com a declaração de que Alzira Vargas, filha de Getúlio, receberia o simbólico título de madrinha da seleção nacional.

Alzira Vargas, a madrinha da Seleção Nacional de 1938, e os atletas do escrete brasileiro.

Antes do embarque para a França, a seleção foi recebida pelo Presidente da República, que fez questão de cumprimentar os jogadores, um a um. Pela primeira vez, o Brasil contava com sua força máxima em uma Copa do Mundo. A miscigenação racial da equipe brasileira era vista no Brasil como o verdadeiro retrato de nossa democracia racial, o que servia de forma perfeita aos ideais de ufanismo nacional e harmonia social propagandeados pelo Estado Novo. 

Apesar da derrota para a Itália na semifinal, a destacada apresentação dos jogadores brasileiros na Europa eram vistos como prova do sucesso esportivo e da capacidade física nacional. Até mesmo Getúlio Vargas acompanhou a Copa e se surpreendeu com a reação popular frente à derrota para os italianos, escrevendo em seu diário: “A perda do team brasileiro para o italiano causou uma grande decepção e tristeza no espírito público, como se tratasse de uma desgraça nacional” (Vargas, 1995, v.2, p. 140). De volta ao Brasil, a seleção foi recebida nas ruas como “campeã moral” do campeonato, sob a alegação de que sua derrota teria sido fruto de um pênalti ilegal.  “Queira ou não queira a FIFA, somos campeões do mundo”, estampava o Jornal dos Sports, logo após a conquista do terceiro lugar (JORNAL DOS SPORTS, 20 jun. 1938, p. 1).

O sucesso popular da Copa do Mundo foi mais um sinal para o governo da importância de controlar mais de perto o futebol no Brasil. Menos de três anos mais tarde, Getúlio assinaria o decreto-lei que oficializou a intervenção governamental nos esportes e colocou o grupo de Luiz Aranha de volta ao comando do futebol nacional. No dia 16 de abril de 1941 o Diário Oficial da União trazia em suas páginas o decreto-lei que criava o Conselho Nacional de Desportos (CND), no Ministério da Educação e Saúde, que teria como função “orientar, fiscalizar e incentivar a prática dos desportos em todo o país” (BRASIL, 1941). Em outras palavras, o conselho detinha o controle total dos esportes.

O Decreto-Lei n. 3.199 vai além da criação do CND.  Toda a estrutura da organização desportiva brasileira é alterada. De acordo com o decreto, cada esporte, ou grupo de esportes, poderia se organizar em apenas uma confederação em todo território nacional, sendo essa, necessariamente filiada à entidade internacional de seu ramo desportivo. Cada unidade territorial brasileira – Distrito Federal, estados e territórios – teria apenas uma federação filiada a cada uma das seis confederações esportivas reconhecidas pelo decreto-lei: Confederação Brasileira de Desportos; Confederação Brasileira de Basquetebol; Confederação Brasileira de Pugilismo, Confederação Brasileira de Vela e Motor; Confederação Brasileira de Esgrima; e Confederação Brasileira de Xadrez. Uma nova confederação só poderia ser criada através de decreto presidencial.

Um dos principais jornalistas esportivos do país, Tomás Mazzoni, sob o pseudônimo Olímpicus, que utilizava em suas colunas esportivas, escreveu um livro em homenagem à intervenção no esporte, intitulado “O Esporte a Serviço da Pátria”, cujo prólogo é datado “abril-maio de 1941” (MAZZONI, 1941, p. 18). A obra, de grande teor apologético ao regime estadonovista, defende a oficialização do esporte:

Somente, pois, graças à oficialização e com o espírito de 10 de novembro, dentro da doutrina do Estado Novo, aplicando os princípios do regime atual, é que poderíamos tomar rumos novos! O 10 de novembro esportivo deve ser completo! Exterminar as tais “assembleias”, “judiciários”, “pactos”, “inquéritos”, “caciquismos” – é extinguir a política, o personalismo, o clubismo, é dar rumo certo e vida sã ao esporte! (MAZONI, 1941, p. 20).

A intervenção esporte, aludido por Mazzoni como “o 10 de novembro esportivo”, em referência à data de instauração do Estado Novo, seria assim a adequação do esporte ao ideal do regime vigente.  Assim como outros regimes do período, como a Alemanha nazista, Itália fascista, Espanha franquista e França de Vichy, o Brasil se adequava, segundo o jornalista, a um novo período do esporte mundial. Suas referências a “assembleias”, “pactos”, “caciquismos”, e “clubismo” são alusões nada veladas às disputas internas dos dirigentes brasileiros, no que definira algumas páginas depois como uma forma de dirigir o esporte “com a mentalidade do governante brasileiro de vinte anos atrás, (…) por parte dos políticos do velho regime”, em uma explícita referência à Primeira República, que terminara com o movimento militar que colocou Vargas no poder em 1930 (MAZZONI, 1941, p. 27).

A Confederação Brasileira de Desportos se estabeleceu então como a principal confederação desportiva do país, sendo responsável pela organização do futebol, do tênis, do atletismo, do remo, da natação, dos saltos, do polo aquático, do vôlei, do handebol e de qualquer outra modalidade desportiva que não se enquadrasse em nenhuma das outras confederações. As outras confederações tinham competência administrativa sobre as modalidades descritas em sua nomeação. Isso não significa que o futebol receberia o mesmo tratamento que as outras modalidades desportivas, visto que o próprio decreto-lei afirmava que “o futebol constitui o desporto básico e essencial da Confederação Brasileira de Desportos” (BRASIL, 1941, art. 16, §2º).

O CND detinha controle quase total não apenas sobre os esportes, como também sobre as entidades desportivas. Os estatutos das confederações e das federações a elas filiadas tinham que ser aprovados pelo CND, que poderia propor ao Ministro da Educação a criação ou a supressão de qualquer confederação. No tocante às competições internacionais, o Conselho Nacional de Desportos exercia um controle ainda mais rígido. A participação de qualquer clube ou entidade em uma competição internacional deveria ser previamente autorizada pelo CND. Caso o conselho decidisse pela participação de alguma equipe em um campeonato internacional, esta não poderia abster-se da convocação. Assim, os clubes que cedessem jogadores a esses campeonatos não poderiam pleitear qualquer indenização pela perda temporária de seus atletas, a não ser em caso de jogos amistosos.

Buscava-se controlar o esporte nacional, ainda que mantendo na direção do órgão estatal de controle paredros dirigentes conhecidos da elite desportiva brasileira. Mesmo com a intervenção do governo brasileiro sobre o esporte, pouco muda de forma efetiva em sua organização. No entanto, o Estado agora se equipava com a possibilidade de intervir em clubes e federações caso julgasse necessário, como ocorreu com o Corinthians ainda em 1941. A disputa entre o grupo do então presidente Manuel Correcher e da oposição, liderada por Ricardo R. de Moura e Saverio Nigro, levou o governo paulista a apontar Mário Henrique Almeida como interventor no clube, cargo que ocupou por pouco tempo (MAZZONI, 1950, p. 292).

Manuel Correcher (15) e Mário Henrique Almeida (16)

Na visão dos defensores da intervenção, como Tomás Mazzoni (1941, p. 17), os “políticos e arruaceiros terão, pois, suas azas cortadas”, não podendo mais assim “arrumar panelinhas e (…) se defender com prestígio equívoco”. A oficialização colocava em xeque a antiga ordem esportiva, mas ao mesmo tempo garantia a permanência daqueles que se adequassem aos novos tempos. O futebol estaria, assim, a serviço da pátria.

O sentimento nacional seria mobilizado com maior veemência com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, em 1942. Dentro desse quadro de patriotismo exacerbado pelo envolvimento no conflito, o CND decretou que as associações esportivas – clubes ou outras agremiações – só poderiam ser presididas por brasileiros natos ou naturalizados. O conselho abria exceção apenas a estrangeiros radicados no Brasil há mais de vinte anos, que já tivessem exercido o cargo anteriormente, ou a portugueses que tivessem se destacado nos meios esportivos.  O CND já apontava para a importância cívica das associações esportivas no decreto-lei 3.199.  De acordo com o decreto, as entidades esportivas não poderiam gerar lucro para seus financiadores ou para seus dirigentes, visto que essas entidades exerciam uma função de caráter patriótico.

O esporte era então visto como um dos grandes símbolos da nação. Antes mesmo da declaração oficial de guerra contra o eixo, agentes do Departamento de Ordem Social e Política (DOPS) paulista começaram a pressionar a diretoria de clubes que apresentassem membros de nacionalidade estrangeira, especialmente italianos e alemães. A ação baseava-se no Decreto 383, de 18 de abril de 1938, que vedava a estrangeiros a atividade política no Brasil, incluindo a organização, criação e manutenção de “sociedades, fundações, companhias, clubes e quaisquer estabelecimentos de caráter político”, ou mesmo se associarem a tais agrupamentos (BRASIL, 1938). O próprio Decreto-Lei 3.199, que criou o CND, reforçava a ideia em seu artigo 51, atestando que “As diretorias das entidades desportivas serão compostas de brasileiros natos ou naturalizados; os seus conselhos deverão constituir-se de dois terços de brasileiros natos ou naturalizados pelo menos” (BRASIL, 1941).

A pressão sobre os clubes ligados a colônias estrangeiras aumentou com a publicação do decreto-lei 4.166, de 11 de março de 1942, que avultava a possibilidade do confisco de bens e direitos de cidadãos de nacionalidade alemã, japonesa e italiana, fossem pessoas físicas ou jurídicas. O confisco incluiria uma parte de todos os depósitos bancários e patrimoniais superiores a dois contos de réis (BRASIL, 1942). Para os clubes de futebol, pessoas jurídicas sob o jugo do decreto-lei, havia o risco do confisco de sua sede e de seu estádio, além de boa parte de seus depósitos bancários. Dessa maneira, os paredros dos clubes de colônias decidiram mudar o nome de suas agremiações que fizessem referência direta a um dos países do eixo.

Em São Paulo, o Palestra Itália, que em março de 1942 passou a se chamar apenas Palestra de São Paulo, mudou sua denominação para Sociedade Esportiva Palmeiras ainda em setembro do mesmo ano. Já o Germânia, clube que lançara Arthur Friedenreich no futebol, mas que não aderira ao profissionalismo nos anos 1930, mudou seu nome para Pinheiros, após passar por uma intervenção governamental. Em Belo Horizonte, no mesmo ano, o Palestra Itália passou ser conhecido como Esporte Clube Cruzeiro, adotando o nome de um dos maiores símbolos brasileiros. Em Curitiba, o Savóia – nome da família real italiana – mudou de nome para Esporte Clube Brasil, em uma afirmação hiperbólica do nacionalismo de sua diretoria.

Nos anos seguintes, o CND se estabeleceu como a principal entidade de supervisão e controle do esporte, sobrevivendo ao final do Estado Novo. O conselho detinha controle quase total não apenas sobre os esportes, como também sobre as entidades desportivas. Os estatutos das confederações e das federações a elas filiadas tinham que ser aprovados pelo CND, que poderia propor ao Ministro da Educação a criação ou a supressão de qualquer confederação. No tocante às competições internacionais, o Conselho Nacional de Desportos exercia um controle ainda mais rígido. A participação de qualquer clube ou entidade em uma competição internacional deveria ser previamente autorizada pelo CND, que também era responsável pelas delegações que acompanhavam a seleção brasileira de futebol.

Mesmo após o fim do Estado Novo e o restabelecimento da democracia, o Conselho Nacional de Desportos não sofreu grandes alterações. A entidade ainda detinha a prerrogativa de regular os clubes, federações e competições esportivas nacionais, indicava os chefes de delegações que acompanhavam a seleção brasileira em competições no exterior e pairava sobre toda a organização esportiva nacional, ainda que não exercesse todas suas atribuições de forma regular. Foi apenas com a publicação da Lei Zico – Lei n. 8.672, de 6 de julho de 1993 – que o Conselho Nacional de Desportos foi extinto, tendo durado mais de 50 anos.

Referências:

BRASIL. Decreto-lei n. 383, de 18 de abril de 1938. Diário Oficial da União, 19 abr. 1938, p. 7357.

BRASIL. Decreto-Lei n. 3.199, de 14 de abril de 1941.  Diário Oficial da União, 16 abr. 1941, p. 7453.

BRASIL. Decreto-Lei n. 4.166, de 11 de março de 1942. Diário Oficial da União, 12 mar. 1942, p. 3918.

MAZZONI, Tomás. O esporte a serviço da pátria. São Paulo: [s.n.], 1941.

MAZZONI, Tomás.  História do futebol no Brasil: 1894-19550. São Paulo: Edições Leia, 1950.

VARGAS, Getúlio. Diário.  2V.  São Paulo: Siciliano; Rio de Janeiro: FGV, 1995.


Processo seletivo 2021 de mestrado e doutorado em Estudos do Lazer – PPGIEL/UFMG

03/06/2021

Estão abertas até 26 de junho as inscrições para os processos seletivos de mestrado e doutorado do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer da Universidade Federal de Minas Gerais.

Informações aqui: http://www.eeffto.ufmg.br/eeffto/noticias/4502


Os grandes clubes do futebol colombiano: um pequeno almanaque

02/06/2021

Eduardo Gomes

Nos últimos tempos, muito tenho sido perguntado sobre algumas curiosidades acerca do futebol colombiano, tema que pesquiso dentro de uma perspectiva histórica há mais de uma década. Uma das perguntas que mais realizam é: quais são os maiores clubes de futebol na Colômbia? Aqueles que são considerados “grandes”?

Desde já destaco que a definição daquilo que vamos entender como grandes ou não, pode variar bastante de acordo com os critérios adotados. Vários são os fatores e argumentos que consolidam um determinado padrão de grandeza para um determinado clube. Conquistas, torcida, grandes jogadores, ídolos marcantes, tradição histórica, consistência em competições importantes, entre outros, são alguns desses parâmetros que podem ser utilizados para uma possível reflexão.

Na Argentina, por exemplo, costumou-se chamar de “os cinco grandes” as equipes do Boca Juniors, River Plate, Independiente, Racing e San Lorenzo. Mas a seleção de apenas cinco equipes como “grandes”, desconsidera outras gigantes agremiações do país, como os outros clubes campeões da Copa Libertadores da América, que são Estudiantes (que venceu a competição por quatro vezes!), Vélez Sarsfield e Argentinos Juniors. Newell’s Old Boys, Rosário Central e Huracán são outras equipes que, historicamente, reivindicam um lugar entre os “grandes” na terra de los porteños.

No Brasil, a nomenclatura de “clube grande” passou a ser definida, historicamente, para 12 equipes: quatro do Rio de Janeiro (Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco da Gama), quatro de São Paulo (Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo), dois de Minas Gerais (Atlético Mineiro e Cruzeiro) e dois do Rio Grande do Sul (Grêmio e Internacional). Mas ao mesmo tempo, outras equipes passaram a demandar um lugar simbólico e de direito entre os “grandes” do país, como o Atlético Paranaense (que nas últimas duas décadas alcançou conquistas importantes a nível nacional e internacional, fora o fortalecimento de sua marca extracampo), Bahia (fundador do Clube dos 13 e primeiro campeão nacional em 1959), Coritiba, Sport, entre outros.

Como vemos, os critérios e reivindicações para o alcance dessa alcunha de “clube grande”, além de muito diverso, varia de local para local. Daí, retornamos à nossa pergunta inicial: quais seriam as equipes que podemos chamar de grandes na Colômbia? Tendo como parâmetro os critérios “títulos”, “tradição histórica”, “torcida”, “ídolos” e “consistência”, entendo que podemos falar em oito grandes equipes colombianas: Millonarios e Independiente Santa Fe, da capital Bogotá; Atlético Nacional e Independiente Medellín, de Medellín; América e Deportivo Cali, de Cali; Atlético Junior, de Barranquilla; e Once Caldas, de Manizales, são as equipes que irei abaixo explicitar com mais detalhes.

Destaco, novamente, que a escolha dessas equipes não exclui a possibilidade de outros clubes também serem considerados “grandes”, em outras análises e por outros critérios. Todavia, me deterei a essas equipes para abaixo, em ordem alfabética e tendo como foco uma perspectiva mais factual e menos acadêmica, explicitar um pouco sobre a história de cada um dos referidos clubes.

. América de Cali

Base da equipe do América nos anos 1980. Foto:
https://trivela.com.br/america-do-sul/o-america-de-cali-de-1982-87-a-ostentacao-entre-glorias-dramas-e-polemicas/

O América, mais conhecido como América de Cali, é um clube fundado em 13 de fevereiro de 1927. Uma das maiores equipes do futebol da Colômbia, ganhou destaque principalmente na década de 1980, quando foi pentacampeão nacional seguida (1982-1986) e por três vezes, também seguidas, vice-campeão da Copa Libertadores da América (1985 a 1987, tendo tido um quarto vice da competição em 1995). No total, o clube de Cali conquistou o campeonato colombiano em quinze oportunidades, sendo o último em 2020. Empatado com o Millonarios, é o segundo clube com mais conquistas na história do campeonato nacional. Também foi por sete vezes vice-campeão colombiano.

Além disso, conquistou um título internacional, que foi a Copa Merconorte em 1999. Briga pelo posto de segunda maior torcida do país com o Millonarios de Bogotá, de acordo com a maior parte das pesquisas sobre o tema.

O auge da equipe nos anos 1980, se relacionou diretamente com um contexto que foi marcante naquela ocasião no futebol colombiano: a relação com o narcotráfico. Em outra oportunidade, na série de artigos que escrevi sobre “Futebol e narcotráfico na Colômbia”, problematizei as influências do Cartel de Cali no futebol do América. Mais diretamente, a participação dos irmãos Rodríguez Orejuela, Miguel e Gilberto, que investiram de diferentes maneiras, direta ou indiretamente, no futebol do clube em seu período mais vitorioso da história. Miguel, inclusive, foi um importante dirigente da agremiação.

É válido destacar, todavia, que a equipe do América permaneceu com grande centralidade no futebol do país mesmo depois das influências dos narcotraficantes. Dos seus quinze títulos nacionais, nove foram conquistados a partir de 1990, quando o investimento dos narcotraficantes já era menor e/ou inexistente. A equipe ainda passou por um difícil processo na última década, quando caiu para a segunda divisão do Campeonato Colombiano e por lá ficou entre 2011 e 2016, quando foi campeão da divisão inferior e retornou para a elite do futebol no país. Voltou a ser campeão nacional por duas oportunidades seguidas em 2019 e 2020, tendo disputado a fase de grupos da Copa Libertadores da América em 2021.

. Atlético Junior

Heleno de Freiras, capa da Revista Cronica, de Barranquilla, em 29 de abril de 1950. Foto:
https://ludopedio.com.br/arquibancada/o-el-dorado-do-futebol-colombiano-1948-1954/

O Atlético Junior, também conhecido como Junior Barranquilla, é o clube de maior sucesso da região do caribe colombiano. Até hoje, já foi por nove vezes campeão do Campeonato Colombiano, tendo sido vice-campeão em outras dez ocasiões. É o quarto maior campeão da principal competição nacional (empatado com Deportivo Cali e Santa Fe).  Também venceu a Copa Colômbia em duas ocasiões (2015 e 2017), assim como a Superliga da Colômbia (em 2019 e 2020). Em competições internacionais, apesar de até hoje não possuir títulos oficiais, já foi semifinalista da Copa Libertadores da América na edição de 1994, quando perdeu para o Vélez Sarsfield, da Argentina, que acabaria sendo o campeão naquela ocasião.

O clube foi fundado em 7 de agosto de 1924 e ficou famoso logo nos primórdios do Campeonato Colombiano, no período El Dorado (1948-1954), por ter sido nesse contexto que contou com grandes nomes do futebol brasileiro. Dentre eles, destaca-se a figura de Heleno de Freitas, ídolo do Botafogo, da seleção brasileira e que na ocasião jogava pelo Vasco. O período do El Dorado do futebol colombiano foi recentemente por mim problematizado em texto publicado no Ludopédio.Outros nomes do futebol brasileiro, como Mané Garrincha, também atuaram pelo Junior posteriormente, o que explicita a boa entrada de atletas brasileiros no clube de Barranquilla.

Na década atual, o Junior tem sido um dos clubes colombianos de maior sucesso a nível nacional e continental, tendo disputado edições seguidas de competições sul-americanas, seja a Copa Libertadores da América e/ou a Copa Sul-Americana.

. Atlético Nacional

Final da Recopa Sul-Americana de 2017 no Atanasio Girardot, Medellín. Segundo jogo entre Nacional x Chape após o desastre aéreo de 2016. Foto:
https://www.gazetaesportiva.com/times/chapecoense/irmaos-chapecoense-e-atl-nacional-finalmente-se-enfrentam-pela-recopa/

Clube de futebol com maior torcida do país, e também o mais vitorioso da Colômbia, o Atlético Nacional, sem dúvidas, já se consolidou como um dos grandes de toda a América do Sul. Fundado em 7 de março de 1947 com o nome de Atlético Municipal, a equipe já alcançou feitos grandes, como o bicampeonato da Copa Libertadores da América (1989 e 2016), da Copa Interamericana (1989 e 2016) e da Copa Merconorte (1998 e 2000), além da conquista da Recopa Sul-Americana de 2017, que fecha seu currículo atual de títulos internacionais.

Nacionalmente, é o maior campeão colombiano da história com dezesseis conquistas, além de ter levantado também o caneco da Copa Colômbia por quatro oportunidades e da Superliga da Colômbia em outras duas ocasiões. Um verdadeiro gigante e papa títulos, que já alcançou também destaque sendo vice-campeão da Libertadores em 1995, da Copa Sul-Americana em 2002, 2004 e 2016, do antigo Mundial de Clubes em 1989, além do Campeonato Colombiano em outras onze ocasiões.

Porém mesmo sendo esse gigante no quesito conquistas, um dos maiores feitos e momentos da história do Atlético Nacional, ocorreu na verdade fora de campo. Em dezembro de 2016, a equipe decidia a Copa Sul-Americana com a Chapecoense, equipe brasileira que chegava em sua primeira final continental da história. Com o desastre aéreo que gerou a queda do avião da Chape e a morte de 71 pessoas, dentre essas a maior parte da delegação do clube brasileiro, os torcedores do Nacional (assim como de toda a Colômbia) realizaram um grande movimento de acolhimento à agremiação brasileira, tal como a todas as vítimas naquela ocasião.

Essa ação estreitou os laços entre o Brasil e a Colômbia, principalmente a partir das torcidas do Nacional e da Chapecoense, que se tornaram clubes irmãos desde então. Mesmo favorito para o confronto (o Nacional tinha sido campeão da Libertadores naquele ano e viria a vencer a Recopa, contra a própria Chapecoense, em 2017), o time colombiano foi gigante ao abrir mão da disputa em detrimento do time brasileiro, que honrosamente e merecidamente se tornou o campeão da Copa Sul-Americana naquela ocasião. E o posicionamento do Atlético Nacional, maior que qualquer título, valeu também o prêmio de Fair Play do ano concedido pela FIFA naquela ocasião, dentre outras honrarias. Um momento histórico e emocionante!

Histórico também foi a conquista da Copa Libertadores da América em 1989, quando o clube venceu seu primeiro título internacional. Muito dessa conquista é questionada até hoje, pelo possível envolvimento econômico do narcotráfico na formação daquela equipe, notadamente sob liderança de Pablo Escobar. Esse tema já foi por mim debatido em outro texto da série “Futebol e narcotráfico na Colômbia”.

. Deportivo Cali

O Deportivo Cali divide com o América a posição de grande clube na cidade de Cali, tendo sido fundado 23 de novembro de 1912. É a mais antiga de todas as equipes aqui retratadas, tendo atualmente 108 anos de existência. Foi campeão colombiano em nove oportunidades, sendo a última em 2015, o que deixa a equipe hoje com o quarto lugar de conquistas da competição (empatada com Junior e Santa Fe). Além disso, foi vice-campeão da principal competição nacional em outras quatorze edições. É também campeão da Copa Colômbia (2010) e da Superliga da Colômbia (2014).

Em nível internacional, apesar de não possuir conquistas oficiais, o Deportivo Cali já alcançou considerável destaque, tendo sido por duas vezes vice-campeão da Copa Libertadores da América. Em 1978 perdeu a decisão para o argentino Boca Juniors, enquanto em 1999 foi vice decidindo com o Palmeiras. Foi, na ocasião da decisão com o Boca, o primeiro clube colombiano a chegar em uma final da Copa Libertadores. Também foi vice da extinta Copa Merconorte, em 1998, quando perdeu para o Atlético Nacional em uma final colombiana.

Historicamente o Deportivo Cali ficou marcado pela constância, já que venceu campeonatos nacionais em quase todas as décadas desde os anos 1960. A exceção foi a década de 1980, que curiosamente foi o período de auge do seu maior rival América, na época marcada pela presença do narcotráfico. É válido destacar que, antes de investirem no futebol do América, os irmãos Rodríguez Orejuela tentaram adentrar no Deportivo, mas foram barrados, principalmente, por Álex Gorayeb, como também retratei em texto anteriormente citado.

Atualmente a equipe se mantém entre as principais do país, disputando os grandes campeonatos e buscando retornar as conquistas para, assim, disputar com mais regularidade as competições internacionais. Nos últimos anos, tem sido presença marcante na Copa Sul-Americana, mas não disputa uma edição da Copa Libertadores da América desde 2016.

. Independiente Medellín

Fundado em 14 de novembro de 1913, o Independiente Medellín, também conhecido somente como “Medellín” no âmbito local, é a segunda agremiação mais antiga das oito aqui pesquisadas, com 107 anos. Maior rival do Atlético Nacional na cidade de Medellín, já conseguiu até hoje vencer o campeonato nacional em seis ocasiões, sendo a última no ano de 2016. É o sétimo clube colombiano com mais conquistas do campeonato nacional. Em outras dez oportunidades, ficou com o vice-campeonato. Foi campeão da Copa Colômbia em duas ocasiões, 1981 e, mais recentemente, 2019.

Internacionalmente, até hoje, a equipe do Independiente de Medellín não conseguiu nenhuma conquista oficial. Todavia, já conglomera algumas boas participações em Copas Libertadores da América e Sul-Americana. Na libertadores, por exemplo, foi semifinalista em 2003, tendo sido eliminado para o Santos naquela ocasião.

A equipe ficou marcada, no período do investimento do narcotráfico no futebol, por ser o clube que assumidamente torcia Pablo Escobar, chefe maior do cartel de Medellín. Além disso, foi após um confronto entre América de Cali e Independiente Medellín, em 1989, que o árbitro Álvaro Ortega foi assassinado, fato que problematizei em outra ocasião anteriormente.

Pelo bom desempenho e constância em competições nacionais nos últimos anos, o Independiente Medellín tem sido presença marcante nos torneios internacionais da América do Sul na atualidade, tendo nos últimos cinco anos participado da Copa Libertadores da América em três ocasiões (2017, 2019 e 2020) e da Copa Sul-Americana em outras três (2016, 2017 e 2018).

. Independiente Santa Fe

O Independiente Santa Fe é, junto com o Millonarios, um dos representantes de Bogotá, capital do país, nessa lista dos maiores clubes colombianos. A equipe, que foi fundada em 10 de agosto de 1938, foi a primeira agremiação a se sagrar campeã colombiana, na edição de estreia do campeonato nacional organizado pela Dimayor, em 1948.

Naquela ocasião fez frente com outras grandes equipes e, principalmente, com o grande esquadrão montado por seu rival Millonarios, que se consolidaria como o maior campeão do período El Dorado (1948-1954), quando nos primórdios do futebol no país vários craques estrangeiros foram atuar na Colômbia.

Além da conquista nacional no campeonato pioneiro, o Santa Fe foi também campeão em outras oito oportunidades do Campeonato Colombiano, somando no total nove títulos. Empatado com Junior e Deportivo Cali, ocupa o quarto lugar no ranking de maiores campeões da competição. Ficou com o vice-campeonato em outras seis oportunidades. Nacionalmente, venceu também duas edições da Copa Colômbia (1989 e 2009) e três da Superliga da Colômbia (2013, 2015 e 2017). Internacionalmente, já conseguiu alcançar a semifinal da Copa Libertadores da América em duas oportunidades (1961 e 2013).

Foi campeão da Copa Sul-Americana em 2015 e da Copa Suruga Bank em 2016, além de vice da Recopa Sul-Americana em 2016 (final contra o River Plate), da Copa Merconorte em 1999 (final colombiana contra o América de Cali) e da Copa Conmebol em 1996 (final contra o Lanús).

Atualmente a equipe se mantém consistente nas competições nacionais, tendo sempre chegado a decisões e/ou alcançados títulos (a última conquista do Campeonato Colombiano foi em 2016), o que a credencia para disputar as diferentes competições internacionais, como a Copa Libertadores da América, onde marcou presença na fase de grupos da atual edição de 2021.

. Millonarios

O Millonarios, de Bogotá, é para muitos o primeiro grande clube do futebol colombiano, já que nos primórdios do campeonato, na fase do El Dorado, marcou época com uma equipe recheada de grandes craques, como Di Stéfano, Pedernera e Néstor Rossi, o que fez com que conquistasse quatro dos seis primeiros campeonatos disputados naquela ocasião (1949, 1951, 1952 e 1953).

No total, a equipe já venceu quinze campeonatos colombianos, sendo o segundo maior campeão junto do América de Cali. Também foi vice-campeão da competição em outras nove oportunidades. Venceu a Copa Colômbia em três ocasiões (1953, 1963 e 2011) e a Superliga da Colômbia uma vez (2018).

No cenário internacional, foi campeão da Copa Merconorte em 2001, sendo até hoje essa a única conquista internacional do clube oficialmente. Em compensação, coleciona diversas participações na Copa Libertadores da América e demais competições sul-americanas. Na principal competição de clubes do continente, foi semifinalista em 1960, 1973 e 1974. Também foi vice-campeão da Copa Merconorte em 2000, perdendo a final para o rival Atlético Nacional. Em competições não oficiais, é muito valorizado dentro do clube o título da “Pequena Copa do Mundo” em 1953, competição de caráter intercontinental realizada na Venezuela e que possuía gigantesca relevância naquele cenário, assim como outros torneios que envolviam clubes de diferentes países, como a Copa Rio, o Torneio de Paris, o Troféu Triangular de Caracas, entre outros. Também foram campeões da Pequena Copa do Mundo, clubes como Real Madrid, Barcelona, Corinthians e São Paulo.

O auge do Millonarios foi, exatamente, no período El Dorado, que pode ser melhor compreendido a partir do texto que escrevi recentemente no Ludopédio. A equipe comandada por Pedernera e Di Stéfano, liderou o período da liga pirata colombiana na fase em questão. Foi em uma partida do Millonarios contra o Real Madrid em 1952, vencida pelos colombianos por 4×2 em pleno Santiago Bernabeu e com dois gols do craque argentino, que os madrilenhos se interessaram pela contratação do atleta. Iniciou-se ali uma disputa entre Real Madrid e Barcelona pela aquisição dos direitos do jogador. A priori, Di Stéfano jogaria um período em cada clube. Porém, no fim, e muito pelas influências do então ditador Franco no poder (muito ligado ao Real Madrid e contrário à Catalunha, onde o Barcelona exercia papel de resistência ao seu governo), o jogador fez carreira apenas no clube da capital espanhola. O resto, é história!

Depois de passar longos anos sem conquistas do campeonato nacional, de 1988 a 2012, o Millonarios voltou aos trilhos na atual década. Muitos torcedores questionaram, inclusive, alguns de seus títulos, como os de 1987 e 1988, devido a influência possível do narcotráfico na injeção de dinheiro na equipe, tema que também problematizei em outra ocasião. Desde então, a equipe venceu dois campeonatos colombianos (um em 2012 e outro em 2017) e tem marcado presença frequente nas competições internacionais.

. Once Caldas

Comemoração do Once Caldas, campeão da Libertadores de 2004. Foto:
https://trivela.com.br/america-do-sul/libertadores/once-caldas-campeao-libertadores-2004/

Última equipe aqui retratada, mas não menos importante, o Once Caldas é o único clube colombiano que conseguiu a façanha de ser campeão da Copa Libertadores da América, além do Atlético Nacional. Em 2004, a equipe eliminou a partir das oitavas, os favoritos Barcelona de Guayaquil, Santos e São Paulo, para assim chegar na decisão e ser campeão batendo o gigante e então atual campeão, Boca Juniors. Se tratou de uma conquista inédita e inesperada, porém muito valorizada e festejada.

Além do título da Copa Libertadores da América, internacionalmente a equipe foi vice-campeã da Recopa Sul-Americana e da Copa Intercontinental (antigo Mundial de Clubes), ambos em 2004, perdendo as decisões respectivamente para Boca Juniors e Porto. A decisão do mundial foi, inclusive, a última antes da competição passar a ser organizada definitivamente pela FIFA a partir de 2005 (antes, a federação havia organizado apenas uma edição esporádica, em 2000 no Brasil).

No âmbito nacional, o Once Caldas possui quatro títulos do Campeonato Colombiano, alcançado nos anos de 1950, 2003, 2009 e 2010. Foi também vice-campeão em 1998 e 2011, assim como vice da Copa Colômbia em duas ocasiões: 2008 e 2018. É o oitavo clube com mais conquistas na história do Campeonato Colombiano.

Uma curiosidade é que o título de 1950 foi conquistado por outra agremiação, na verdade: o Deportes Caldas, fundado em 16 de abril de 1947, foi o terceiro campeão da história da competição, ainda no período El Dorado. Naquela ocasião, a cidade de Manizales possuía dois clubes que a representava desde o surgimento da liga profissional da Dimayor, em 1948. Além do Deportes Caldas, o Once Deportivo também era da região de Caldas, departamento onde ambas as agremiações estavam inseridas. Os dois clubes também foram descontinuados nos anos 1950. Todavia, no final dessa década, ocorreu um movimento que idealizou o retorno do clube Deportes Caldas. Considerando a trajetória das duas agremiações de Manizales, ocorreu ali uma fusão: Deportes Caldas e Once Deportivo viraram, a partir de 16 de janeiro de 1961, o Once Caldas, que passou a representar a cidade desde então como sua principal equipe. O resultado alcançado pelo Deporte Caldas, campeão em 1950, passou também a ser reconhecido como título oficial do Once Caldas.

Atualmente o Once Caldas não vive seu melhor momento no que se refere a conquista de títulos, estando desde 2011 sem ganhar um troféu. Esporadicamente, ainda sim consegue vagas para a disputa de competições internacionais, como a Libertadores de 2015 e a Sul-Americana de 2019, últimas edições em que esteve presente, buscando assim alcançar novamente os feitos dos dias de glória de 2004.

Portanto, busquei aqui sintetizar com uma espécie de “pequeno almanaque”, um pouco da história dos principais clubes de futebol da Colômbia. Todas as oito equipes (se considerarmos o Deportes Caldas, no caso do Once Caldas), estiveram presentes na liga fundadora do futebol colombiano, em sua primeira edição da competição em 1948. Todavia, nada impede que essa lista dos “grandes”, pelos critérios já apresentados no início deste texto, possa ser aumentada ou modificada, já que outras relevantes equipes que alcançaram saltos expressivos nas últimas décadas duas décadas, como por exemplo Deportes Tolima, La Equidad, Cúcuta, Deportivo Pasto, entre outras, podem vir a reivindicar um espaço nesse seleto grupo.


A Vida Sportiva de Nictheroy (séc. XIX-1919)

01/06/2021

Por Victor Andrade de Melo

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Previsto originalmente para 2019, a fim de comemorar o bicentenário do surgimento da Vila Real da Praia Grande (1819), localidade que, em 1834, seria elevada à condição de cidade, capital da Província do Rio de Janeiro e ganharia o nome atual, em 2020 foi lançado o livro “A Vida Sportiva de Nichteroy”, uma edição da Niterói Livros/Fundação de Arte de Niterói.

O intuito do livro é apresentar, ao grande público, os resultados de uma investigação sobre as pioneiras experiências com o esporte estruturadas na antiga capital fluminense – também chamada de Cidade Sorriso, por sua hospitalidade, e Cidade Invicta, por sua importante participação na Revolta da Armada.

A crise pandêmica impediu que pudéssemos lançar e dar maior visibilidade ao livro. Assim sendo, estou disponibilizando a versão em pdf para que os interessados possam o acessar.

Logo abaixo, pode-se baixar o livro. Mais abaixo, a apresentação da obra.

Meus agradecimentos aos que tornaram possível a publicação desse livro.

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* Apresentação do livro

É bem possível que muita gente de Niterói, e mesmo de outras cidades, conheça ou ao menos tenha ouvido falar do Grupo de Regatas Gragoatá e do Clube de Regatas Icaraí. Mas quantos sabem que o Barreto teve uma notável agremiação de remo, o Clube de Regatas Fluminense? Os mais antigos, a propósito, vão lembrar das agremiações de futebol desse bairro, o Byron e o Barreto Futebol Clube, times que disputaram ferrenhas partidas. Mas quem saberia que a primeira sociedade esportiva da região foi dedicada ao atletismo, o Clube Atlético Brasileiro?

É possível que alguns saibam da importância do Rio Cricket para a cidade e para o desenvolvimento do futebol em nosso Estado, mas saberia alguém que ali nas suas redondezas esteve instalado um clube de rinhas de galo? E que Niterói teve uma agremiação dedicada às corridas de pombo? E que muitas arenas de touradas se espalharam pelo Centro, Barreto e São Francisco?

Saberia você, estimado(a) leitor(a), que antes dos notáveis resultados obtidos pelos atletas de iatismo, que tornaram Niterói a cidade com maior número de medalhas olímpicas do País nesta modalidade, alguns remadores já tinham deixado suas marcas vitoriosas, notadamente aqueles que ganharam o primeiro campeonato melhor organizado desse esporte, disputado em 1898? Que a embarcação vitoriosa nessa contenda, a Alpha, existe até os dias de hoje, preservada no Grupo de Regatas Gragoatá? Que a antiga capital fluminense tem quase uma dezena de clubes esportivos centenários?

Essas são algumas informações que queremos apresentar neste livro, um dos produtos do projeto “A vida sportiva de Nictheroy”, que tem por intuito investigar, no século XIX e nas décadas iniciais do século XX, as experiências com o esporte estruturadas na antiga capital fluminense – também chamada de Cidade Sorriso, por sua hospitalidade, e Cidade Invicta, por sua importante participação na Revolta da Armada.

Esse recorte temporal tem em conta discutir as pioneiras iniciativas esportivas, entabuladas de forma articulada com a estruturação de um mercado de entretenimentos na cidade. 1919 é o ano utilizado como referência final por uma questão simbólica: marcar os 100 anos da elevação da antiga Bandas D’ Além à condição de Vila Real da Praia Grande.

O projeto tem duas faces. Uma delas é de natureza acadêmica, a comunicação dos resultados assumindo a perspectiva de uma pesquisa histórica stricto sensu, isso é, desenvolvida à luz dos conhecimentos da disciplina História. Os produtos que espero lançar são artigos a serem publicados em periódicos científicos, como é o caso de dois

já aprovados: “Forjando a capital: as experiências dos primeiros clubes de turfe e remo de Niterói (décadas de 1870 – 1880)” (aceito pela revista Tempo, do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense) e “O espetáculo que educa o corpo: clubes atléticos na cidade de Niterói dos anos 1880” (aprovado pela Cadernos de História da Educação, da Associação Sul-Rio-Grandense de Pesquisadores em História da Educação).

A outra face é de divulgação científica. O intuito é entabular iniciativas no sentido de apresentar para um público ampliado os mais notáveis fatos do esporte, buscando dar uma contribuição à construção da memória de Niterói. Além deste livro, pretende-se organizar uma exposição, bem como produzir material audiovisual. Tenho em conta que a mobilização e a preservação da memória têm mesmo uma função política, na linha do que sugere Costa (2014) ao discutir a importância que pode ter lançar um olhar sobre o centro histórico da cidade: “Ao provocar a reflexão dos cidadãos quanto a seu espaço de vida, de rotina, e resgatar a memória social e a autoestima, acaba-se de alguma forma favorecendo a reapropriação do espaço urbano e de seu tecido mais antigo. Além disso, promovem-se a investigação dos bens patrimoniais e sua repercussão no imaginário local, contribuindo para a criação de imagens, identidades e espaços de existência e felicidade para a cidade e seus cidadãos” (p. 11).

Em comum nas duas faces do projeto há um pressuposto: o estudo do papel desempenhado pelo esporte na história de Niterói é tema de interesse em função de a cidade ter passado por importantes processos de urbanização e de assunção de uma condição de capitalidade. Os fatos, personagens, conquistas, fracassos, realizações esportivas foram usualmente mobilizados no sentido de forjar uma identidade local, não poucas vezes representados como indicadores do valor dos habitantes e do sucesso de determinados projetos políticos.

Tendo em conta que se trata de um livro de difusão destinado a um público amplo, foram adotadas características que fogem das de um trabalho científico stricto sensu. Não foram utilizadas notas de rodapé. As referências no corpo do texto somente foram inseridas no caso de citações literais; a bibliografia indica o vasto material consultado.

A ideia é apresentar uma informação direta, à moda de um inventário (ainda que com alguma tinta de análise/interpretação), sustentada em evidências coletadas em jornais e livros, apresentada com o suporte de ilustrações e mapas.

A trajetória do esporte em Niterói não é tema desconhecido. Ele foi tratado ocasionalmente nas obras de importantes historiadores e memorialistas da cidade, tais como Emmanuel de Macedo Soares, José Mattoso Maia Forte, Carlos Wehrs e Everardo Backheuser. Foi também abordado no que tange a experiências específicas na magnífica produção de Vitor Iorio e Patrícia Iorio (“Rio Cricket e Associação Atlética: mais de um século de paixão pelo esporte”), Maria Cristina de Azevedo Mitidieri (“100 anos do Rio Yacht Club: um olhar museológico sobre a construção de um patrimônio”), Emmanuel de Soares Macedo (“Cem anos de regatas: álbum comemorativo do centenário do Clube de Regatas Icaraí”) e Brian Higgin, Claudia Swan, Cristina Mitidieri e Patrícia Ferreira (“100 anos do Rio Yacht Club Sailing”). Além disso, de forma mais genérica, foi descortinado no verbete de Mário Cantarino Filho (“Clubes Esportivos e Recreativos em Niterói”) e no livro organizado por Alfredo Gomes de Faria Junior e Eduardo Vilela (“Atlas histórico e geográfico do esporte e lazer de Niterói”). Vale citar ainda o trabalho de Orlindo Gomes de Farias no resgate de informações sobre o futebol, disponibilizadas na rede social “Retratos do Futebol Fluminense”.

A propósito, muitas imagens neste livro utilizadas foram encontradas em redes sociais dedicadas à história de Niterói: Centro de Memória Fluminense/UFF (no qual trabalhei também no esplêndido acervo), Olhar Nictheroy, História de Niterói, Nikity das Antigas.

Este livro, contudo, tem alguns diferenciais: a) trata com mais profundidade os primeiros momentos do esporte na cidade; b) aborda as mais distintas experiências de modalidades e clubes, inclusive alguns fatos pouco conhecidos ou práticas não stricto sensu consideradas esportivas, mas que com o fenômeno dialogaram; c) se insere num conjunto mais ambicioso de ações. Ao dizer isso, obviamente, não acho que esta obra substitua as outras. Muito pelo contrário, procura a elas se somar, reconhecendo seu valor e sua importância.

A propósito, devo de pronto assumir que, até mesmo pelas próprias características do livro, são superficiais algumas abordagens no trato de certos temas. Parte desses limites espero serem sanados na produção de caráter acadêmico. Devo, de toda forma, de antemão, pedir desculpas por qualquer imprecisão. Espero que se tenha em conta que sou um recém-convertido a Niterói.

Carioca convicto, daqueles que se derramam de amor por sua cidade, estudioso do Rio de Janeiro há mais de 20 anos, sempre leal, jamais fui fiel a minha terra. Já declamei e registrei minha paixão por duas outras localidades que também investiguei e bem conheço, Lisboa – a capital de Portugal, e Mindelo – a capital da Ilha de São Vicente, Cabo Verde. Agora, faço o mesmo com Niterói.

Curiosamente, sempre estive perto dessa cidade e nunca a tinha olhado com mais cuidado, mesmo que nos meus estudos frequentemente surgisse algo a respeito dela, como se a chamar a atenção do pesquisador obtuso que não consegue ver o óbvio. Uma série de coincidências acabou por me mostrar o óbvio: a beleza e a trajetória incomum da terra de Arariboia.

Ao olhar com maior acuidade para esse lado da Baía de Guanabara, passei também a encarar distintamente a história do Rio de Janeiro, a entendendo como parte de uma experiência compartilhada, uma “experiência guanabarina”, a experiência de duas cidades-irmãs que jamais vão se separar porque celebram diferenças e similitudes, especificidades sim – claras e óbvias – mas também um passado em comum.

O processo de investigação que conduziu a este livro me deixou ainda mais encantado por Niterói, de tal maneira que o produzido é tanto a manifestação de uma nova paixão por uma cidade quanto do desejo de contribuir, de alguma forma, para que não se esqueça o passado dessa terra, dessa gente, desse povo. Desejo muito que cada niteroiense se veja um pouco nessa obra, e que os de fora sintam mesmo alguma inveja e curiosidade sobre a Cidade Sorriso.

Devo agradecer aos que mais ajudaram a tornar realidade este livro. Juliana Carneiro é uma nova amiga de décadas. Com ela divido a aventura de uma tese de doutorado e o risco de pensar num mundo melhor. Ela me abriu as portas da cidade e foi estímulo constante. André Diniz foi entusiasta desde o primeiro momento, compreendendo essa iniciativa como parte de seus compromissos com a cultura. Sua generosidade a todo momento enterneceu meu coração. Sílvia Borges foi companheira fundamental para viabilizar com carinho esta obra. José Antônio, do Centro de Memória Fluminense/Universidade Federal Fluminense, foi parceiro atento e entusiasta. A O Fluminense e à Biblioteca Nacional agradeço pela cessão das imagens, bem como a Leonardo Bertolossi pela pesquisa de imagens. Aos antigos pesquisadores de Niterói, da história da cidade e da história do esporte, devo muito pelas lições que me permitiram trilhar um caminho mais seguro. À Fundação de Arte e à Prefeitura de Niterói, agradeço pelo apoio para execução do projeto. Espero que faça jus ao que merece a cidade. Nenhum deles é, obviamente, responsável pelos deslizes e equívocos que podem ter essa obra.

A você, leitor(a), agradeço desde já a companhia. Sentir-me-ei pleno se você, ao ler este livro, tiver ao menos 50% do prazer que tive ao escrevê-lo.

VICTOR MELO

Niterói/Rio


Simpósio Nacional de História

27/05/2021

Programação Simpósio de História do Esporte e das Práticas Corporais (69)

31º. Simpósio Nacional de História – ANPUH 2021

Simpósio 69: História do Esporte e das Práticas Corporais

Coordenação:

Prof. Dr. Coriolano Pereira da Rocha Junior (UFBA)

Prof. Dr. André Alexandre Guimarães Couto (CEFET/RJ)

Orientações gerais:

  • As mesas estão compostas por aproximaçáo temática.
  • As sessões acontecerão entre 14h e 16h e entre 16h e 18h.
  • Cada fala terá 15min e 1h de debate por sessão.
  • A última sessão fica guardada para avaliação e organização do simpósio para 2023.

Programação

20/07 – SESSÃO 1: 14h/16h

Sistema de Informações do Arquivo Nacional: potencialidades da pesquisa sobre o esporte e a ditadura civil-militar brasileira (1964-1985)

Rafael Fortes Soares, João Manuel Casquinha Malaia Santos

Recorde: Revista de História do Esporte – um panorama de suas publicações (2008-2020)

Leonardo do Couto Gomes

Sociologia e História do Esporte: novos diálogos possíveis?

Euclides de Freitas Couto

Mídia Impressa e Esporte: Notas Históricas

Caio Cesar Serpa Madeira

20/07- SESSÃO 2: 16h/18h

Esporte, propaganda política e consenso social nas comemorações do Sesquicentenário da Independência do Brasil (1972): síntese e desdobramento de uma pesquisa

Bruno Duarte Rei

Sugestões metodológicas para o estudo de processos civilizadores a partir das práticas de lazer: uma análise psicogenética em Monte Alegre – PR

Ana Flávia Braun Vieira

Entre tangos e batuques: as danças nos clubes sociais da cidade do Salvador entre os anos de 1912 e 1935

Viviane Rocha Viana

21/07- SESSÃO 1: 14h/16h

O jogo das ressignificações: uma outra história do futebol em Porto Alegre (1903-1909)

Gérson Wasen Fraga

Masculinidades varzeanas: virilidade e idade na organização do futebol amador em Belo Horizonte (anos 1950 a 1980)

Raphael Rajão Ribeiro

O futebol e suas relações com o narcotráfico na Colômbia: uma análise introdutória

Eduardo de Souza Gomes

Qual a cor do seu grito? Copa das Confederações, Jornada de Junho de 2013 e os movimentos sociais na cidade de Fortaleza

Thiago Oliveira Braga

21/07- SESSÃO 2: 16h/18h

Urbanização, trabalho e futebol na cidade de Santos (1892 – 1920)

André Luiz Rodrigues Carreira

Filmes de esporte (futebol) como um gênero cinematográfico: uma proposta de pesquisa

Luiz Carlos Ribeiro de Sant’ana

O futuro das torcidas: das charangas à guinada antifascista na Ultras Resistência Coral

Caio Lucas Morais Pinheiro

Da fidalguia à commodity: uma história econômica do futebol mundial evidenciada no surgimento do “padrão-FIFA” (fins do século XX e início do XXI)

Raul de Paiva Oliveira Castro

22/07- SESSÃO 1: 14h/16h

O Polo Aquático Brasileiro nos Jogos Olímpicos de 1920

João Paulo Maciel de Azevedo

Polo Master – Um espaço “aquático” de memória, sociabilidade e lazer

Alvaro Vicente Graça Truppel Pereira do Cabo

Pugilistas italianos e identidade nacional no jornal imigrante Il Pasquino Coloniale (décadas de 1920 e 1930)

Igor Cavalcante Doi

A Formação do Jiu-Jitsu Brasileiro em Salvador e no Rio de Janeiro: um estudo histórico comparado

Luan Alves Machado

22/07- SESSÃO 2: 16h/18h

As Práticas Corporais no Cotidiano de uma Escola Americana no Sertão: ritos e rituais

Rúbia Mara de Sousa Lapa Cunha

Ofício dos Mestres e Pandemia na percepção dos Capoeiras: narrativas e estratégias na Roda

Zuleika Stefânia Sabino Roque

GINÁSTICA EM ACADEMIA: a práxis em Salvador entre 1975 a 1988

Amanda Azevedo Flores

A natação em Juazeiro da Bahia: registros históricos nas décadas de 1970 – 1990

Joelzio dos Santos Oliveira / Christiane Garcia Macedo

23/07- SESSÃO 1: 14h/16h

Alcyr Ferraro: materializador da formação em educação física na Bahia

Roberto Gondim Pires

Jogos Escolares na Bahia entre as décadas 1950 e 1980: Um olhar sobre a História

Natanael Vaz Sampaio Junior

História da formação de professores de Educação Física da Bahia na década de 1970

Maria Elisa Gomes Lemos

Os primórdios da formação de professores de educação física no Pará (1930-1940)

Carmen Lilia da Cunha Faro

23/07- SESSÃO 2: 16h/18h – AVALIAÇÃO FINAL E DEFINIÇÃO DA COORDENAÇÃO 2021/2023


Qual? Como? Onde? A nova forma de assistir esportes em plataformas digitais

24/05/2021

André Alexandre Guimarães Couto

Olá, leitoras(es):

Neste breve post vamos tratar da nova onda de transmissões que inunda as redes sociais e canais de comunicação no Brasil e no mundo.

Obviamente, trata-se de um fenômeno de base tecnológica que abrange não apenas a transmissão de esportes mas também e, principalmente, qualquer material de entretenimento como filmes, séries, novelas, músicas, games e tantas outras possibilidades. O streaming tornou-se uma nova realidade para este universo de acesso rápido a material de lazer, esportes, cultura e informação, criando relação menos convencional entre expectador e os meios de comunicação. Cabe refletir, todavia, que parte significativa da população não tem acesso à internet, situação do nosso país, por exemplo. De acordo com o Comitê Gestor da Internet, em 2019, 47 milhões de pessoas ficaram excluídos do acesso digital, representando cerca de 26% da população brasileira.

Em relação às transmissões de esportes, mega empresas têm investido cada vez mais no aperfeiçoamento e desenvolvimento tecnológico de suas respectivas plataformas de transmissão. Um exemplo disso é a parceria entre a milionária NFL (Liga de Futebol Norte Americano) e a Amazon Prime Video por 11 temporadas, negócio envolvendo cerca de 1 bilhão de dólares por ano. Resultado: exclusividade nos jogos transmitidos às quintas feiras por 11 anos e modificando diretamente o valor de mercado nestes horários televisivos naquele país.

Uma das primeiras empresas bem sucedidas neste mercado é a inglesa DAZN Group, que pertence à Access Industries e que possibilitou ao acesso de um plataforma exclusiva de esportes. No momento, ela tem o foco para competições nos continentes europeu e asiático e é considerada a “Netflix dos Esportes”. Não por acaso, a Access Industries tem investimentos vinculados à Deezer e a Warner Music Group (plataforma e mega empresa na área de música, respectivamente).

Nem as redes sociais ficaram de fora desta nova onda: o Facebook conseguiu um público de 4,2 milhões de expectadores em parceria com a TNT Sports (Ex-Esporte Interativo) na transmissão da final da Champions League em 2020, disputada entre Paris Saint German (PSG) e o Bayer Munique. Tal público chamou a atenção de outras plataformas e emissoras de televisão como o SBT para as futuras transmissões deste importante torneio europeu de clubes.

Esta discussão passa também pela capacidade dos clubes conseguirem também vender os seus respectivos serviços de transmissão, seja em parcerias com plataformas poderosas já existentes, seja pela criação das suas próprias, caminhos que parecem não ter mais volta.

Há uma forte tendência de ampliação dos serviços dos canais de TV dos clubes brasileiros para vender os seus jogos diretamente aos seus torcedores, em especial no momento em que o público presente nos estádios e ambientes esportivos está proibido no país por causa da pandemia de COVID-19 e da incapacidade do Estado brasileiro em lidar com este grave problema de saúde pública.

Em relação às entidades esportivas, um dos grandes exemplos é a criação pela CONMEBOL de um canal exclusivo (no caso brasileiro, acessível pelos clientes das empresas Claro e Sky), para que o público expectador pague um determinado valor para acesso ilimitado aos jogos organizados por esta instituição (Copa Libertadores da América, Sul-Americana e Recopa, por exemplos). Esta Confederação percebeu que a criação desta plataforma seria uma forma lucrativa de vender as suas competições, apesar dos choques de interesses com os canais pagos que já transmitiam ou transmitem parte destas competições.

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Figura 2: Propaganda da Claro sobre os produtos da CONMEBOL. Disponível em: <https://esportes.r7.com/prisma/cosme-rimoli/operadoras-assumem-de-vez-a-libertadores-apesar-da-lei-do-acesso-27092020&gt;.

Já a CBF iniciou tratativas de ampliar a divulgação de uma série de competições organizadas por esta entidade em uma plataforma digital. Para tanto, firmou contrato com a empresa My Cujoo (em breve seu nome mudará para Eleven Sports) e já transmite, via internet, os torneios brasileiros femininos (Séries A1 e A2) e das categoria de base (Campeonato Brasileiro Sub17 e Copa do Brasil Sub20, por exemplos).

A transmissão desta plataforma geralmente tenta dar um ar de jovialidade e descontração, com muitas piadas e tentativas de criação de intimidade com o expectador, estratégias cada vez mais utilizadas pelos canais tradicionais de televisão (pagos ou abertos). A princípio, trata-se de uma modus operandi para facilitar a comunicação com um público mais jovem (já acostumado com plataformas de outros temas, como de vídeos, músicas e séries) e vinculado ao torcedor (aquele que busca mais informações sobre os seus respectivos clubes, como as categorias de base e a equipe feminina, que ainda têm pouca visibilidade nos canais convencionais).

Interessante é perceber que além das competições da CBF, uma quantidade muito grande de outras federações e ligas também são transmitidas por esta plataforma. É possível ver ao vivo, por exemplo, um jogo da segunda divisão da Suíça, por exemplo. Criada pelos portugueses João e Pedro Presa, a empresa surgiu como startup e já tem 72 funcionários em todo o mundo, responsáveis pelas transmissões na plataforma.

De acordo com o site da empresa, “(…) Estamos fazendo isso mediante o desenvolvimento de uma tecnologia revolucionária de streaming e oferecendo-a aos menores custos possíveis para os setores menos desenvolvidos do esporte: ligas secundárias, futebol feminino, futebol juvenil, futsal, futebol amador.” A visibilidade desta nova frente de cobertura de ligas e campeonatos pouco ou nada vistos até então, possibilita, de acordo com a proposta de empresa, outro objetivo valioso: “(…) Contribuímos para o desenvolvimento do esporte melhorando a experiência dos jogadores, a quem damos a chance de se mostrarem aos torcedores, receberem mais apoio e possivelmente incrementarem o seu valor.” Ou seja, uma chance dos atletas de serem acompanhados pelos torcedores, ou possivelmente, por outros clubes interessados e até mesmo em possíveis patrocinadores.

Transmissões de futebol ao vivo: assista online | MyCujoo
Figura 3: Plataforma My Cujoo. Disponível em: <https://mycujoo.tv/pt-br/&gt;.

A atuação da My Cujoo no mercado de transmissões traz algumas questões importantes para a nossa reflexão, em especial na relação entre esportes e comunicação: 1) a nova onda de streaming no mundo esportivo abrirá espaços para novos empreendimentos de startups com estes mesmos objetivos? 2) A longa trajetória de monopolização da cobertura esportiva no Brasil mudará apenas de formato ou o streaming abrirá espaços para novas formas de consumo para o público expectador? 3) Como fica a relação das emissoras de televisão e seus respectivos patrocinadores nas transmissões esportivas? 4) É possível termos estudos de recepção para estas novas plataformas de transmissão? 5) Ou ainda, as narrações e comentários por streaming estabelecem um novo padrão discursivo?

Questões bem difíceis para respondermos para além da especulação, mas que já nos traz a ideia de que assistir esportes tornou-se também uma tarefa diferente da dependência exclusiva da programação das emissoras de televisão. De toda forma, ainda estamos longe de concluirmos que o uso de plataformas via streaming se tornou uma via ampla e democrática ao acesso às transmissões esportivas.

Referências:

CASTRO, Luiz Felipe. Transmissões esportivas sofrem concorrência de serviços de streaming. Disponível em:<Leihttps://veja.abril.com.br/esporte/transmissoes-esportivas-sofrem-concorrencia-de-servicos-de-streaming/>.

URUPÁ, Marcos. Brasil tem 47 milhões de pessoas sem acesso à Internet. Disponível em: <https://teletime.com.br/26/05/2020/brasil-tem-47-milhoes-de-pessoas-sem-acesso-a internet/#:~:text=Apesar%20da%20redu%C3%A7%C3%A3o%20em%20rela%C3%A7%C3%A3o,nesta%20quarta%2Dfeira%2C%2028.>.