JOGO EM CRISE – FUTEBOL, LITERATURA E POLÍTICA

13/03/2017

Por Edônio Alves

O Brasil enfrenta um momento difícil em sua vida política.

Um momento de impasses, retrocessos e esgarçamento do seu tecido social causados por um revés institucional na sua tenra democracia e no seu imberbe desenvolvimento econômico que o fez sair da condição de país subdesenvolvido para o patamar de país em desenvolvimento, no concerto das nações.

Tudo parecia caminhar bem com a trilha desse caminho percorrido pelo Brasil até que um “golpe parlamentar” por dentro da democracia – que tirou do poder uma presidenta democraticamente eleita pelo voto de mais 54 milhões de seus cidadãos – fez o País mergulhar outra vez em águas turvas, reavivando comportamentos autoritários, policialescos e  colocando a convivência social outra vez no quadro temerário do confronto entre poderes, instituições e relações sociais.

Um quadro até certo ponto parecido com a experiência de uma ditadura clássica embora que, dessa vez, paradoxalmente, a coisa acontecendo por trás de uma máscara que induz estar-se diante de uma nação em que impera o estado democrático de direito.

Uma face nova e perigosa, enfim, se insinuando por trás de um rosto que parecia agradável e familiar.

Justamente por isso, por causa deste contexto incerto em que vivemos atualmente no Brasil, é que resolvi trazer, para o leitor desse nosso BLOG, uma pequena história envolvendo futebol, literatura e convivência social em momentos de crise.

Na história, que analiso para expor suas entrelinhas ao leitor, o cenário de fundo é a ditadura política, implantada no Brasil pelo golpe militar de 1964, quando a nossa sociedade ficou sem respirar, dado o sufocamento de sua estrutura de funcionamento.

Ali, o futebol cumpriu um papel importante ao se tornar – para o bem ou para o mal – uma espécie de válvula de escape da convivência e do diálogo social. Ora amparado; ora condenado pelo governo de plantão na medida em que servia ou não aos propósitos do poder usurpador.

A ideia é nos servirmos aqui da literatura e do futebol, nas suas relações intrínsecas e extrínsecas, para percebermos similaridades e situações de ontem, de outrora e de hoje, na vasta experiência por que tem passado a vida brasileira.

Vamos ao texto.

 ***

 Família, futebol e regatas  –  conto escrito por Ricardo Soares

Árduas discussões à mesa de almoço dos domingos, opondo um genro a um sogro, são o motivo para que o filho de um e neto do outro conte as suas lembranças acerca da Copa do Mundo de 1970, e também de um Brasil governado por uma ditadura militar que se instalara no País apenas seis anos antes da conquista do seu terceiro título mundial de futebol.

Transformado pelo signo linguístico numa figura só, o narrador autodiegético dessa história, aproveita-se da condição privilegiada de membro de uma família de origem portuguesa típica de São Paulo, e, do alto de sua lente de observação de adolescente entre adultos, tece considerações pessoais sobre a relação entre política, futebol e cotidiano, o que acaba por desvendar certos aspectos ainda hoje não tão bem resolvidos da formação social brasileira.

A história é simplória e nada há que destacar em termos de literatura senão a sua oportuna e não disfarçada denúncia de um período da vida brasileira em que a convivência social tornara-se tensa e monocórdica porque movida pelo medo. O seu pano de fundo, pois, é uma conjuntura político-social em que o diálogo entre as pessoas pautava-se mais pelo modo imperativo dos verbos do que pelo tom pluralizante e qualificador dos substantivos quando bem acompanhado dos adjetivos.

Talvez por isso é que o futebol (jogo assentado no diálogo coletivo que produz) entre na narrativa como um tema que se situa ambiguamente entre o interdito e o desejado. Como um veículo apropriado para opor e para juntar simultaneamente os lados díspares de uma realidade forçadamente monodimensional, aspecto que sobressai já no início da história, através da observação atenta do narrador:

“Da ponta da mesa levantando a taça de vinho tinto e contemplando o vasto cozido português meu avô sentenciava:

– Futebol e política não se discute. Muito menos à mesa”, diz, para em seguida completar em arremate de síntese:

“Naquele momento por um prazer quase sádico tudo o que meu velho avô português queria era justamente criar uma acachapante discussão à mesa provocando o genro com quem tinha menos afinidades e maiores diferenças”.

Não as afinidades, mas sobretudo as diferenças (sociais, econômicas, étnicas, de visão de mundo, valores etc) entre as pessoas é que serão postas à mesa, na agenda de reflexões que esta narrativa de ficção pode oferecer retroativamente ao leitor de hoje, já bem mais acostumado a lidar com elas como requisito fundamental para a convivência social no regime democrático, em contrapartida ao leitor de ontem, do tempo em que calar a boca era a atitude mais “recomendável” para sustentar o diálogo social, paradoxalmente baseado no silêncio.

“Eu digo isso e repito, eu digo!!! Não se discute à mesa e muito menos à minha mesa onde se preserva a educação e os bons modos, atributos que o senhor infelizmente não tem”.

Como foi já sugerido, o futebol parece ser o único elo que, nesta conjuntura pesada e amordaçante, tem o poder de ligar os vínculos pessoais (familiares ou não) mesmo que da forma explosiva que o ambiente sugere. Este detalhe não escapa ao narrador que, situado desconfortavelmente entre as figuras discrepantes do avô e do pai, funciona como um pêndulo para o qual converge a situação particular, historicamente colocada, da relação inescapável que o jogo das massas mantinha então com a política no Brasil. É desta posição, portanto, que o narrador acorre para completar:

“(…) Fato é que para o meu avô naquela altura do campeonato ter modos queria dizer torcer para o Santos Futebol Clube. (…) Ter modos naquele momento para o meu avô queria dizer gostar de algumas coisas que os militares vinham fazendo mas também que não se devia esquecer o legado e a herança da vassourinha de Jânio Quadros, apesar da renúncia em 1961”.

Dito isto, a partir daqui as oposições que informavam a realidade daqueles tempos de chumbo ficam inexoravelmente claras, na encenação figurativa dos dois personagens antagônicos: “Meu avô era Jânio e meu pai era Lott. Meu avô era Médici e meu pai era JK. Meu avô era Santos e meu pai era Corinthians. Meu avô era branco e meu pai era negro”.

O Brasil de então (e de resto, o próprio contexto mundial) parecia ser reduzidamente composto de apenas duas partes, dois lados, duas faces que sempre se opunham, porque aqueles eram tempos que não permitiam meio termo: ou se sonhava ou se encarava o pesadelo.

“Quando saíam essas brigas todos em volta da mesa ficavam calados, constrangidos, mortificados. As discussões destroçavam qualquer possibilidade de harmonia dominical e invariavelmente estragavam a sobremesa porque para arrematar meu avô sempre implicava com o jeito que meu pai sugava o café e se aborrecia com o cigarro barato que ele acendia logo em seguida”.

Esse, pois, era o clima com o qual o contista Ricardo Soares pretende, nesse texto ficcional, figurar um momento difícil da nação em que as pedras rolavam enquanto a bola corria. “Estava para começar a Copa do Mundo de 1970 no México. Para ser sincero eu não me lembro se naquela época tinha slow-motion, câmera lenta, replay ou qualquer dessas coisas. Do que lembro bem eram das discussões acaloradas entre meu pai e meu avô”.

Claro que essas discussões inicialmente tinham como mote o âmbito futebolístico, mas o que se quer lembrar aqui, neste conto, através do jogo de futebol – para além do ambiente de euforia criado no país com a perspectiva real da conquista do nosso terceiro título mundial -, é que a realidade de uma ditadura, pelas fissuras e rompimentos que provoca (até a fadiga completa da ambiência de convívio entre as pessoas), tem sempre como corolário duramente palpável o esgarçamento do tecido social. E, neste caso, nem o jogo mais querido dos brasileiros resolveria a parada. Senão, que até alimentava o contexto:

“- Essa Copa de 1970, esse time vai nos dar muitas alegrias – dizia o avô.

“- Eu não tenho tanta certeza assim. E de mais a mais se a gente levar os militares vão se aproveitar disso, vão usar a taça Jules Rimet para esconder todas as safadezas que vêm fazendo – respondia o pai”.

À parte a versão lugar-comum desse tipo de crítica ao aproveitamento político por parte do stablishment de plantão em relação às coisas do esporte, o diálogo acima, cujo teor nessa direção perpassa toda a narrativa assegurando a ela o seu vigor denunciativo, é bem paradigmático da maneira como, àquela época, o conteúdo dialético da natureza do futebol preenchia, no espaço privado das famílias, as lacunas deixadas pela a ausência  da discussão política no espaço público. Espaço público esse que sequer existia ou então era reduzido a sua minimalidade funcional.

“- Seu Gomes, não sabe o que está dizendo… tem muita gente aí sofrendo, apanhando, sendo morta porque não concorda com o governo.

“- Que sendo morta o quê!!! Isso é intriga de comunista. Este país é uma maravilha e está crescendo… veja aí você mesmo. Este país é uma benção. E ainda vamos ganhar esta Copa do Mundo.”

Bom, depois do clima de relativa tensão criado pelo narrador para informar o matiz plúmbeo do conteúdo político daqueles tempos, que, como já foi lembrado, perpassava inteiramente a conjuntura futebolística da realização de uma Copa do Mundo, seu acontecimento máximo, que os dois personagens aproveitavam para passar em revista certas divergências (a questão do general Médici querer escalar o time brasileiro, a substituição de João Saldanha – um comunista declarado – por Zagallo, “um bunda-mole”, na opinião do pai do narrador, etc), chega-se, enfim, a um momento de relativo relaxamento na trama. Afinal, o Brasil foi mesmo Tricampeão do Mundo em 1970. A despeito da oposição de uns e para o delírio de outros.

Do ponto de vista meramente formal, como de resto toda a narrativa, o seu final é cediço, previsível no seu encaminhamento de desfecho, e, portanto, dedutivamente lógico, o que não lhe tira certo tom irônico de arremate.

“Sim, senhoras e senhores. Ganhamos lindamente a Copa de 70 no México. Carlos Alberto fez o quarto gol contra a Itália, todos nós beijamos simbolicamente a taça Jules Rimet e éramos 90 milhões em ação. Um domingo depois da conquista da Copa toda a família foi fazer piquenique e passar o dia às margens da represa Billings, em São Bernardo do Campo. Meu avô – com a ajuda do meu pai e de um tio – tirou um velho barquinho de cima da perua Rural Willys. Entramos no barco e fomos fazer regatas como dizia o meu avô. Na volta trouxemos algumas tilápias. Saborosas mas repletas de espinhas. Como aqueles tempos. Comemos as tilápias fritas melando as mãos e lambendo os beiços. Não pensamos mais em futebol naquele domingo”.

SAIBA QUEM É O AUTOR.

Ricardo Soares nasceu em São Pauo, capital. É escritor, jornalista, roteirista e diretor de TV. Já dirigiu documentários para a TV Cultura, programas para a SESC TV e edita a revista Raiz, sobre cultura brasileira. É também conselheiro editorial e colunista da revista Rolling Stone e um dos criadores do programa Metrópolis da TV Cultura do qual fui o primeiro apresentador. Foi repórter do Caderno B do Jornal do Brasil e tomou parte da equipe fundadora do Caderno 2 do Estadão em 1986. No mesmo jornal foi cronista de 1993 a 1998. Desse ano até 2001 foi cronista do Jornal da Tarde. Dirigiu as redações das revistas TRIP e da extinta HV. De 1998 a 2005 dirigiu, escreveu e apresenteou “Literatura” e “Mundo da Literatura”, programas sobre o universo literário que continuam a ser reprisados pelo SESC TV. É co-autor das peças “Olho da Rua” e “Quatro Estações”. Tem vários livros publicados como Cinevertigem e os infanto-juvenis Valentão, o Brasil é feito por nós?; Dia de submarino e Falta de ar. O conto de futebol, Família, futebol e regatas, consta da coletânea 11 Histórias de futebol, da Editora Nova Alexandria, de São Paulo, que saiu em 2006.


Dorando Pietri e a Maratona do Parque Antártica (1910)

05/03/2017

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Em 1925, a Federação Internacional de Atletismo consagrou a distância de 42.195 metros como medida oficial das corridas de maratona. Antes disso, corridas a pé que recebiam o mesmo nome, tinham distâncias bastante variadas. Provas de 10, 12, 15, 17, 20, 30, 40 ou 60 quilômetros, poderiam ser igualmente chamadas, sem nenhum problema ou conflito aparente, de corridas de maratonas.

A distância de 42.195 metros coincide com o percurso da maratona da Olimpíada de Londres, em 1908, planejado nesses termos para atender veleidades do rei Eduardo VII, que desejava assistir à largada da corrida do castelo de Windsor. Por essas prosaicas razões, a competição em Londres entrou para o panteão de símbolos do atletismo.

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Maratona da Olimpíada de Londres, 1908.

A maratona de Londres, contudo, marcaria ainda os anais da história do esporte por outra razão. Naquela competição, o corredor a cruzar a linha de chegada em primeiro lugar acabou desclassificado. O italiano Dorando Pietri, ao entrar exausto e desorientado no estádio onde terminaria a competição, desmaiou e foi assistido por árbitros, que quase o carregaram até a linha de chegada. O irlandês Johny Hayes, que cruzou a linha de chegada em segundo lugar, competindo pelos Estados Unidos, protestou e o italiano acabou desclassificado. Hayes foi declarado então vencedor.

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Chegada de Dorando Pietri, na Maratona da Olimpíada de Londres, 1908

A decisão não encerraria a celeuma, porém. Meses depois, realizou-se em Nova York uma revanche entre Pietri e Hayes. A competição, que consistiu em 260 voltas numa pista construída no Madison Square Garden, foi acompanhada por mais de 10.000 pessoas, ciosas por saber quem era o corredor, afinal. Os dois seguiram praticamente juntos durante todo o percurso, com pequena vantagem para o italiano, que cruzou a linha de chegada menos de 80 jardas e 45 segundos à frente de seu concorrente. Pietri foi carregado em triunfo por seus compatriotas, que já o haviam apoiado intensamente durante toda a competição. O apoio da comunidade italiana, contudo, não impediu que Pietri fosse também vivamente vaiado pelo restante do público, por suspeitas não confirmadas de que, nos últimos metros da corrida, teria aberto os braços para impedir a passagem do adversário. Em maio do ano seguinte uma nova disputa entre os dois foi realizada, com nova vitória de Dorando Pietri, que se consagrou, em definitivo, como um dos melhores corredores de resistência de seu tempo.

 

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Hayes (esq.) e Pietri (dir.), desfilam lado a lado em carro aberto

Pietri já era conhecido no pequeno círculo dos entusiastas das corridas a pé desde antes da olimpíada de Londres. Algumas dessas corridas que tiveram a participação de Pietri chegaram a ser brevemente noticiadas por jornais brasileiros. Depois da competição em Londres, porém, sua reputação ganhou novas dimensões. Pietri tornou-se uma espécie de estrela internacional do esporte. Como parte das vantagens de seu novo sucesso, Pietri viajava por diferentes países participando de competições de corrida com prêmios em dinheiro, o que ele provavelmente já fazia antes, talvez com menor frequência e com pagamentos menos generosos. Um dos lugares onde Pietri estivera com esses propósitos e na esteira do sucesso da Olimpíada de Londres foi o Brasil.

 

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Dorando Pietri lidera Maratona da Olimpíada de Londres, 1908

Em julho de 1910, em meio ao que parecia ser uma excursão pela América do Sul, Pietri desembarcou no porto de Santos, vindo de Montevidéu, depois de ter participado de uma corrida em comemoração ao centenário da proclamação da república na Argentina, que reuniu mais de 50.000 pessoas em Buenos Aires. Seu destino era a cidade de São Paulo, onde Pietri participaria de uma corrida no Parque Antártica. Antes, teve tempo de participar e vencer uma “maratona” de 17 quilômetros no campo do Velo Club, em Santos, com o tempo de 57 minutos e meio – 15 minutos mais rápido que o segundo colocado.

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Dorando Pietri, com a Gold Cup, conferida pela Maratona da Olimpíada de Londres, 1908

A corrida na qual tomaria parte em São Paulo, amplamente divulgada pela imprensa local, logo gerou grandes expectativas, como era usual em ocasiões como essa. Além da corrida com Dorando Pietri, que oferecia prêmio em dinheiro de 2.000 francos, o evento contaria ainda com outras duas atrações: uma corrida de resistência de 20 quilômetros, em 60 voltas ao redor de um campo de futebol, envolvendo 25 corredores, de 10 diferentes clubes de São Paulo, além de uma exibição de força protagonizada por um tal Ettore Tibério, apresentado como um “Hércules”, “campeão mundial” e “célebre gladiador italiano”; vencedor de diversos campeonatos de luta  na Europa. O anúncio de exibição de força de Tibério prometia o levantamento de um automóvel com 6 pessoas, pesando 1.700 quilos, além de uma luta contra um touro. As letras garrafais dos cartazes que anunciavam o evento prometiam mesmo que Tibério subjugaria a muque um touro bravo.

Mais de 10.000 pessoas dirigiram-se ao Parque Antártica. O jornal Correio Paulistano registrou com cores vivas o modo como transcorreu aquele domingo: “o dia esteve magnífico, e desde cedo começaram a afluir ao parque numerosos automóveis, carros particulares e de praça, charretes e outros veículos, conduzindo senhoras e cavalheiros. Os bondes, partindo da praça Antônio Prado e do Largo do São Bento, chegavam ao Parque Antarctica apinhados de gente até pelos estribos. Muito antes, pois, de começar a maratona, já o parque se achava cheio de pessoas, notadamente as arquibancadas, que repletas de famílias, apresentavam festivo aspecto”.

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Público se amontoa para assistir Maratona da Olimpíada de Londres, 1908

De fato, os bondes que se dirigiam ao Parque Antártica naquele domingo trafegavam inteiramente lotados, transportando “enorme massa de povo”, conforme destacou outro jornal paulista. Mais tarde, o excesso de passageiros, dependurados nos estribos, seria apontado como uma das causas de um acidente que deixou ao menos quatro pessoas gravemente feridas, quando passageiros saltaram de um bonde em movimento, depois de verem surgir uma misteriosa e inexplicável fagulha. Nem contratempos desse tipo, contudo, foram capazes de arrefecer o entusiasmo com as corridas e exibições de força que se anunciaram.

Precisamente às duas horas e quarenta e cinco minutos da tarde, teve início a primeira maratona do dia, entre corredores de clubes de São Paulo. Urbino Taccola, do Club Esperia, completou todas as voltas ao redor do campo em 1 hora e 29 minutos, sagrando-se vencedor. A corrida parece ter despertado algum interesse, mas era apenas o início de uma prometida tarde de diversões. Na sequência, Ettore Tibério iniciou suas demonstrações de força, levantando com os braços uma espécie de barra de ferro de 60 quilos, antes de a torcer sobre os ombros. Depois, do alto de um estrado, sustentou o peso de um automóvel com 5 pessoas, e não 6, conforme anunciaram os cartazes do evento. A diferença deve ter decepcionado alguns espectadores, mas sem ainda prejudicar o espetáculo, que prosseguiu normalmente. Tibério iniciou então a luta com o touro, no que deveria ser o ponto alto de sua apresentação. O touro, entretanto, mais uma vez diferente do que prometiam os anúncios, “não era mais que um bezerrão”, “manso como um cordeiro”, como registraram languidamente os jornais do dia seguinte. Após alguns breves e poucos momentos de luta, Tibério não o derrubou propriamente, senão apenas conseguiu fazê-lo ajoelhar. O público, a essa altura já bastante desapontado, manifestou logo a sua impressão por meio da vaia.

Restava ainda a corrida de Dorando Pietri, que enfrentaria um tal Monte Neves, apresentado como “o campeão argentino”. Dez minutos após a partida, Pietri já estava três voltas à frente de seu adversário. Na quinta volta, de um total previsto de 60, Monte Neves abandonou a pista. A decepção foi geral e o público explodiu em fúria, vaiando longamente o “campeão argentino”, que não satisfeito, reagiu, fazendo gestos obscenos para a plateia. Conforme dissera um cronista anônimo do jornal Correio Paulistano, em palavras insubstituíveis, “o público não aceitou tal atitude com a mesma disposição com que se aceita a dádiva de uma boa fruta”. Com todos os ânimos exaltados, Monte Neves foi preso por ofensas à moral, com base no artigo 282 do código penal da época.

Na delegacia, Montes Nunes revelou ao 4º subdelegado de Santa Ifigênia tudo o que estava por trás da maratona do Parque Antártica. Ettore Tibério, que promovia o espetáculo, o contratara para demarcar raias da corrida, fixar bandeiras no campo e executar outros serviços. Por um valor adicional, Tibério lhe sugeriu também competir contra Dorando Pietri, sustentando que era campeão de corridas na Argentina – o que era obviamente mentira. Montes Nunes dissera ainda que foi o próprio Ettore Tibério, em pessoa, quem lhe pregou ao peito a fatídica bandeira argentina com que participou da corrida.

Montes Nunes acabou condenado a 3 meses e 15 dias de prisão – não sabemos ao certo se por ofensas à moral ou qualquer outro motivo. Nada sabemos também sobre o destino de Ettore Tibério. Infelizmente, não sabemos também se Dorando Pietri foi implicado no assunto, embora não pareça ter sido o caso, pois mesmo depois de tudo revelado, a imprensa paulista seguiu destacando suas capacidades atléticas, sem vinculá-lo, em nenhuma medida, a toda trama farsesca da maratona do Parque Antártica. Em novembro de 1910, Pietri já participava de corridas em Roma.

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* Todas as imagens disponíveis em http://mentalfloss.com/article/31449/scenes-1908-london-olympic-marathon.


ANPUH 2017 – Simpósio Temático História do Esporte e das Práticas Corporais

01/03/2017

Olá Pessoal
Chamando atenção para os prazos de inscrição:
Prazos: 09/01/2017 a 06/03/2017: prazo para inscrição de apresentação de trabalhos nos Simpósios Temáticos: prazo para inscrição de apresentação de trabalhos nos Simpósios Temáticos.
Vamos fazer força para cumprir as datas.

Prezados e prezadas
Com satisfação chamamos todos e todas a participarem do XXIX Simpósio Nacional de História. O evento acontecerá em Brasília, de 24 a 28 de julho de 2107, na UNB
Para tanto, convidamos que apresentem suas propostas de trabalhos ao nosso Simpósio Temático História do Esporte e das Práticas Corporais (simpósio 52), dentro das condições e prazos estabelecidos pela organização geral, que são demonstradas abaixo:

Instruções gerais para inscrições

  1. O sistema de Inscrição é feito exclusivamente por meio eletrônico, tanto para o envio de dados quanto para a geração de boletos bancários. Solicita-se leitura atenta de todos os itens destas instruções, para evitar eventuais problemas nas inscrições;
  2. As inscrições podem ser feitas numa das modalidades abaixo:
    • SÓCIO APRESENTADOR DE TRABALHO EM SIMPÓSIO TEMÁTICO;
    • NÃO-SÓCIO APRESENTADOR DE TRABALHO EM SIMPÓSIO TEMÁTICO;
  3. Os valores de inscrição para cada modalidade são os da tabela abaixo:
  4. Solicitamos atenção ao preenchimento correto de todos os campos da ficha de inscrição, em especial nos campos “Nome” e “Título do Trabalho”, se for o caso, para evitar posteriores problemas quanto à emissão dos certificados. O preenchimento correto do campo “e-mail” também é de fundamental importância para futuro contato com os inscritos. Feito o cadastro, o interessado receberá e-mail de confirmação, contendo os dados de acesso à área do inscrito (login e senha), onde é possível imprimir novamente o boleto de inscrição, caso seja necessário;
  5. Os colegas que desejarem associar-se à ANPUH deverão fazê-lo antes de se inscreverem no Simpósio Nacional, dirigindo-se a sua Seção Regional. Clique aqui para conhecer as Seções Regionais da ANPUH e seus contatos.
  6. A Anpuh não aceitará novos associados após o dia 27 de abril de 2017 (os formulários de filiação serão reabertos no dia 07 de março). Assim, uma vez paga a inscrição na condição de não associado, não será possível reverter para a opção de sócio.
  7. Os associados da ANPUH deverão estar quites com as anuidades para terem direito ao valor de inscrição estipulado para esta categoria;
  8. O pagamento da inscrição deverá ser realizado até a data de vencimento registrada nos boletos bancários. Após esta data, a inscrição será cancelada;
  9. Informações sobre a confirmação de pagamento do boleto poderão ser obtidas na área do inscrito;
  10. Não haverá devolução do valor referente às inscrições. No caso de propostas não aceitas pela comissão científica ou inviabilizadas por qualquer razão, o proponente poderá usar o valor já pago para inscrever-se em outra modalidade.
  11. A inscrição em Minicurso é específica. Para tanto, o interessado deverá inscrever-se no campo Minicurso, da Ficha de Inscrição, adicionando-se o valor desta modalidade ao boleto bancário. A inscrição em Minicurso não isenta o interessado de pagar os valores de inscrição em outras modalidades de participação. Ao fazer sua inscrição para minicurso, o interessado deve escolher 3 (três) opções dentre as listadas na página do evento, classificadas em 1ª, 2ª e 3ª opções. Caso o minicurso escolhido em 1ª opção já esteja completo ou seja cancelado por não atingir o número mínimo exigido de participantes (20), o inscrito será realocado no minicurso escolhido em 2ª opção, e assim sucessivamente. O número máximo de vagas em cada minicurso é de 30, mas ele poderá ser ampliado, a critério da Comissão Organizadora, em acordo com os professores responsáveis. Nesses casos, será respeitada a ordem de inscrição. Quem já estiver inscrito como proponente de Simpósio Temático, apresentador de trabalho ou ouvinte pode fazer a inscrição em minicurso entrando na “Área do inscrito”, com seu login e senha, e selecionar “Inscrição em minicurso”. Essa opção dá acesso a formulário para a escolha das 3 opções de minicursos que, uma vez realizada, gera novo boleto para pagamento;
  12. Para os interessados em propor Simpósio Temático + Minicurso, basta realizar a inscrição em qualquer uma destas modalidades e, com seus dados de acesso em mãos, voltar ao site do Simpósio, entrar na área de inscrito, localizar a(s) opção(ções) desejada(s) e adicioná-la(s) à inscrição original. O valor extra é acrescido ao boleto bancário. Para os proponentes de Simpósio Temático + Minicurso o valor cobrado é de R$ 100,00. Nesses casos, não haverá cobrança para inscrição na condição de apresentador de trabalho. No caso de proponente de Minicurso que queira inscrever trabalho em Simpósio Temático, há necessidade de pagar as duas taxas (R$ 100,00 + R$ 60,00).
  13. Para apresentar trabalho nos Simpósios Temáticos o proponente deverá ser no mínimo graduado.
  14. Cada inscrito poderá apresentar apenas 1 (um) trabalho em apenas 1 (um) simpósio temático. O inscrito deverá escolher 3 (três) Simpósios Temáticos, conforme a ordem hierárquica de sua preferência. Caso não seja aceito no primeiro, será realocado na opção seguinte. Avaliação, aceitação e eliminação de trabalhos dentro do simpósio temático são realizadas pelos coordenadores de cada simpósio. Caso o simpósio temático seja cancelado por não atingir o número mínimo de participantes (20), os inscritos neste simpósio serão realocados na 2ª ou 3ª opções. Caso o trabalho não seja aceito em nenhuma das rodadas de avaliação, o inscrito será automaticamente considerado como ouvinte, sem devolu ção do valor pago na inscrição. O número máximo de participantes em cada simpósio é de 34, selecionados a partir de critérios acadêmicos. Solicita-se consultar o cronograma do evento para os prazos de inscrição, envio do trabalho completo e aceitação.
  15. Prazos: 09/01/2017 a 06/03/2017: prazo para inscrição de apresentação de trabalhos nos Simpósios Temáticos: prazo para inscrição de apresentação de trabalhos nos Simpósios Temáticos.
  16. Mais detalhes em: http://www.snh2017.anpuh.org/site/capa
  17. Apresentador de Trabalho em Simpósio Temático (Detalhes abaixo)

    São oferecidas 34 vagas por Simpósio Temático.

    • Os STs serão os espaços para a apresentação e discussão de pesquisas concluídas ou em estágio avançado de realização sobre um mesmo tema.
    • Para a apresentação de trabalho nos Simpósios Temáticos, exige-se titulação mínima de Graduação.
    • Os apresentadores de trabalho associados deverão estar em dia com a anuidade de 2017
    • Cada inscrito poderá apresentar apenas 1 (um) trabalho em apenas 1 (um) Simpósio Temático. O inscrito deverá escolher 3 (três) Simpósios Temáticos na ordem de sua preferência. Caso não seja aceito no primeiro, será realocado na opção seguinte.
    • A avaliação, o aceite e a eliminação de trabalhos são da responsabilidade do(s) Coordenador(es) de cada Simpósio Temático.
    • Além do resumo expandido (mínimo de 2200 caracteres e máximo de 2.800), é importante, mas não obrigatório, enviar o texto completo* no ato de inscrição. Isso auxiliará a avaliação de seu coordenador(a).
    • O certificado de apresentação de trabalho será emitido somente aos presentes em 75% das atividades do Simpósio.
    • Caso o Simpósio Temático seja cancelado, em razão de não atingir o número mínimo de vinte participantes, os inscritos serão realocados nas opções seguintes de sua escolha.
    • Não haverá devolução do valor de inscrição. Caso o trabalho não seja aceito, o inscrito poderá usar o valor pago na inscrição como Ouvinte.
    • No formulário de inscrição, clicada a opção “apresentador de trabalho” três caixas podem ser visualizadas – uma para a inclusão do título do trabalho, outra para inclusão do resumo expandido e mais uma para inclusão do texto completo. Pode ser utilizada qualquer fonte, pois o sistema a padronizará (não utilize caixa alta no texto do resumo, apenas na autoria).

    * uma versão revisada do texto completo poderá ser enviada entre os dias 1 e 15 de agosto de 2017.


    Instruções para trabalhos em coautoria

    Para que possamos localizar os diversos autores de um mesmo trabalho, um Código do Trabalho será gerado ao primeiro coautor que realizar sua inscrição.

    Para que isso ocorra no campo Tipo de Submissão, este primeiro coautor deve escolher a opção Coautoria – primeira inscrição do trabalho – e seguir normalmente com sua inscrição. Ao final do processo, um Código do Trabalho será gerado.

    Aos demais coautores, basta escolherem a opção Coautoria – trabalho já inscrito – e informarem o Código do Trabalho gerado ao primeiro coautor.


    Instruções aos inscritos em Simpósios Temáticos para publicar os textos integrais nos anais eletrônicos

    Os inscritos que apresentarem trabalho em Simpósios Temáticos terão seus textos publicados nos anais eletrônicos e devem seguir estas instruções:
    Enviar o arquivo do texto a ser apresentado através do campo discriminado para este fim em sua ficha de inscrição. A ficha permanecerá acessível na área do inscrito.
    Quitar a anuidade de 2017.
    O envio do texto implica a cessão dos direitos autorais.
    Quanto ao texto, observar o seguinte:
    1. Apenas serão aceitos arquivos enviados através da área do inscrito;

    2. O texto deve conter de 8 a 15 páginas.

    3. Os arquivos deverão ser salvos na extensão “doc” ou “rtf”, digitados em programa editor de texto no padrão do Microsoft Office Word.

    4. Fonte Times New Roman 12 e espaçamento 1,5, justificado;

    5. Margens: superior 3cm, inferior 2cm, esquerda 3cm e direita 2cm;

    6. A autoria (nome completo) deverá vir abaixo do título, à direita, em caixa alta. Em nota de rodapé (asterisco) deve ser colocada a Instituição de origem, Titulação e Agência financiadora, quando for o caso;

    7. Os textos não deverão conter tabulação, colunas ou separação de sílabas hifenizadas;

    8. O tamanho máximo de arquivo aceito é de 3MB. Caso seu trabalho contenha imagens estas deverão ser escaneadas em 300 dpi no formato TIF ou JPG, dimensionadas no formato de aproximadamente 5×5 cm e gravadas no próprio documento;

    9. As tabelas devem ser digitadas seguindo a formatação padrão do programa editor de texto;

    10. As citações de até três linhas devem constar entre aspas, no corpo do texto, com o mesmo tipo e tamanho de fonte do texto normal. As referências devem indicar entre parênteses nome do autor em letras maiúsculas, ano de publicação e páginas (SILVA, 1993:11-14);

    11. As citações a partir de quatro linhas devem ser em Times New Roman 10, itálico, com recuo esquerdo de 4 cm. As referências devem constar no corpo do texto, entre parênteses, como no exemplo acima;

    12. O uso de notas de rodapé deve ter apenas o caráter explicativo/complementar. Devem ser numeradas em algarismos arábicos seqüenciais (Ex.: 1, 2, 3, etc.) na fonte Times New Roman 10 e espaçamento simples;

    13. As referências bibliográficas deverão ser colocadas no final do texto e de acordo com as regras da ABNT, dispostas em ordem alfabética por autor.

    14. As páginas devem ser numeradas (margem superior direita), com exceção da primeira.

Atenciosamente
Coriolano P. da Rocha Junior (UFBA) / Euclides de Freitas Couto (UFSJ)
Coordenadores


Meninos de kichute (Luca Amberg, 2014)

27/02/2017

meninos_do_kichute_direcao_de_luca_amberg_2010_brasil_1

Sessão nostalgia em pleno carnaval 2017. Bom, nostalgia para a geração, como a minha, que debateu ardorosamente a preferência entre o kichute, o conga e o bamba. Não sabe do que se trata? Novinho(a)! Segue a ilustração abaixo, para ajudar a garotada.

minha-epoca-era-assim

Particularmente, nunca tive um kichute. Pra jogar bola gostava do conga (o bamba era pra passeio). Durava uns quatro meses de uso intensivo. Assim como os meninos do filme de Luca Amberg, boa parte da minha existência infanto juvenil foi passada em campinhos. Essa talvez seja uma força do livro de Márcio Américo, que virou o filme em questão. A esse respeito o diretor da película esclarece:

Acho que é uma autobiografia generalizada. O Márcio Américo escreveu um livro que lembra aqueles clássicos da literatura, que o tema retrata uma geração e seus costumes que marcaram uma época. Meninos de Kichute fala da infância de milhões de brasileiros oriundos da ‘geração kichute’, que iniciou em 1970, ano do tri, quando o kichute foi lançado, e se estendeu até os anos 90” (…). O título me atraiu de imediato (…) a cada capítulo  me identificava cada vez mais com a minha infância em Lages, porque os sonhos dos meninos de Londrina, eram os mesmos: queríamos ser jogador de futebol” (Site oficial do filme. Disponível em: http://ambergfilmes.com.br/. Consultado em 26 de fevereiro de 2017).

A citação foi um pouco longa, mas resume bem a proposta da obra. Meninos de kichute consegue estabelecer um painel facilmente reconhecível pelos contemporâneos. Ao mesmo tempo, ao tratar de crianças, bola, traquinagens, conflitos geracionais, colégio, expõe o caráter universal dessas primeiras experiências, realizações, possibilidades e decepções.

A narrativa se dá em torno do infante Beto. Esse garoto, filho de uma família pobre e com um pai rigoroso, tem duas habilidades que o destacam: sua perícia no “bafo” e sua recente destreza como goleiro. Enquanto jogava na linha não fez sucesso, mas acabou achando sua posição como guarda meta. Essa primeira descoberta infantil confere força ao personagem e à história:

Antes eu não era ninguém no campinho. Agora sou o primeiro a ser escolhido (Beto).

Toda pequena-grande odisseia de Beto (e da fita) se concentra na tentativa de dar corpo a esse ser que surge na brincadeira, dentro dos limites de um retângulo de areia. Isso vai demandar criatividade, tenacidade, ajuda e persistência. Como tudo o que vale a pena. Beto quer ser goleiro, quando crescer.

“E agora? Caga na mão e joga fora!”, como dizia esse adágio quase poético, retratado pelos garotos do filme. Ou seja, se você tá com uma folguinha entre um bloco e outro, ou cansado de seu retiro anti-momesco, por qualquer motivo, Meninos de kichute está disponível pra quem tem o Canal Brasil (ou pra quem se dispõe à arte de baixar filmes pela internet). Bom carnaval pra geral!


Mais sobre cricket em Salvador

20/02/2017

Coriolano P. da Rocha Junior

Neste blog, mais uma vez falamos sobre o cricket em Salvador, desta vez, com mais dados e imagens sobre o tema.

A prática aportou em terras brasileiras pelas mãos dos ingleses. Essa atividade se desenvolveu por algum tempo, todavia, sem efetivamente se estruturar na cidade, restringindo-se a uma pequena parcela da população.

O esporte chegou a Salvador em meados do século XIX. Normalmente os jogos ocorriam no Campo Grande (LEAL, 2002), embora também haja notícias de partidas na Fonte do Boi[1] e Quinta da Barra (GAMA, 1923), no Campo da Pólvora[2] e no Largo da Madragoa[3].

cricket-brasil

Imagem 1: Jogo de cricket no Campo Grande. Ilustração de J. J. Wild.

Fonte: http://www.salvador-antiga.com/campo-grande/cricket.htm

Vejamos alguns exemplos: “no dia 1 de janeiro terá lugar no Campo Grande um grande jogo de críquete entre alguns sócios do Bahia Críquete Clube – uma partida de estrangeiros. Terá início ao meio dia em ponto”[4]. Também sobre o uso do Campo Grande como sede dos jogos, vemos esta chamada: “Sociedade Brazilian Críquete Clube. Pedindo licença para fazer jogos de bolas no Campo Grande…”[5].

Gama (1923, p.319) afirma que em Salvador foram:

membros da colonia inglesa, que fizeram a introdução de um jogo, cuja disputa, para eles, tinha já o cunho de esporte, – pois sendo a sua Pátria o berço do esporte moderno – tinham a noção exacta da significação do vocábulo. Esse jogo, foi o críquete, de origem genuinamente inglesa […]. Esse críquete de então, era disputado no local hoje denominado Praça Duque de Caxias.

Um clube inicialmente fundado para o críquete, logo depois assumiu o futebol, o Clube de Críquete Vitória, criado por brasileiros em maio de 1899, que passou a se chamar Esporte Clube Vitória. Ainda houve o Clube Internacional de Críquete, fundado por ingleses, em novembro de 1899, além dos já citados Sociedade Brazilian Críquete Clube e Bahia Críquete Clube[6].

Em Salvador, o críquete, teve trajetória, de curta duração, iniciada como uma atividade dos ingleses, contando com participação de brasileiros. Assim, logo a prática da modalidade se manteve limitada aos membros da colônia britânica, até se tornar pouco significativa; enquanto isso, em solo baiano, outras práticas ganhavam o interesse da população.

Sobre esse “esquecimento” do esporte, A Tarde[7] apresentou uma matéria em que questionava as razões do seu possível abandono em Salvador: “não sabemos porque motivo ficou inteiramente abandonado pelos nossos sportmen, o interessante e nobre jogo inglês, o críquete. A Bahia, teve nesse jogo, a muitos annos, sua primeira manifestação esportiva”.

O jornal, na mesma matéria, valorizava sua importância inicial e as formas com que foi jogado, tanto pelos ingleses quanto pelos baianos, ressaltando os valores civilizadores do esporte e o quanto sua prática contribuia para a formação de novos hábitos, por meio de um espaço onde os “nobres” homens da Inglaterra tinham a chance de praticar um esporte que simbolizava os ares de sua terra e os brasileiros podiam vivenciar um esporte que era digno de um mundo moderno, como também Salvador deveria se tornar.

Um possível elemento da curta duração da prática e do pouco interesse da população pelo críquete pode ter sido o fato dos clubes terem sido constituídos originalmente por ingleses e só depois brasileiros – neste caso, com a mesma organização dos de estrangeiros. Assim, o esporte teve uma limitada circulação pelas cidades, dificultando sua apropriação por parte dos diferentes estratos da população.

No período da instalação dos clubes de críquete, a cidade ainda mantinha um aspecto colonial e, assim, também os hábitos e gostos não estavam ajustados a uma prática moderna. De toda forma, os clubes de criquete foram importantes, pois foi a partir deles que se estruturam outros que ampliaram as experiências esportivas.

[1] Localizada no bairro do Rio Vermelho. Diário da Bahia, Salvador, 25 de janeiro de 1902, p.

[2] Diário de Notícias, Salvador, 24 de março de 1903, p. 3 e 12 de setembro de 1903, p. 3.

[3] Diário da Bahia, Salvador, 11 de janeiro de 1902, p. 1. Localizado na Cidade Baixa, na área do bairro da Ribeira.

[4] Jornal da Bahia, Salvador, 31 de dezembro de 1874, p. 2.

[5] Correio da Bahia, Salvador, 25 de janeiro de 1873, p. 2.

[6] Diário de Notícias, Salvador, 2 de setembro de 1876, p. 2.

[7]A Tarde, Salvador, 08 de novembro de 1912, p. 2.


Origen de las actividades físicas, recreativas y deportivas en Montevideo

13/02/2017

por Gastón Laborido (gaston_laborido1@hotmail.com)

Época colonial

Luego de la llegada de los europeos a territorio americano, en el año 1494 portugueses y castellanos se dividieron el mundo conocido. En consecuencia, el territorio que actualmente corresponde a la República Oriental del Uruguay, quedó bajo dominio de Castilla. A inicios del siglo XVI, comenzaron a llegar navegantes españoles y portugueses al Río de la Plata, en búsqueda del canal interoceánico que conectara el Atlántico con el Pacífico. Los historiadores consideran que uno de los primeros en llegar a estas tierras del Río de la Plata fueron los portugueses con Américo Vespucio (1501-1502). El primer español en llegar fue Juan Díaz de Solís. Como los españoles no encontraron metales preciosos, llamaron al territorio de la Banda Oriental “tierras sin ningún provecho”.

Luego de la introducción del ganado en la Banda Oriental, por parte del gobernador de Asunción Hernandarias (Hernando Arias de Saavedra), el territorio pasó a tener otra importancia para los españoles: banda vaquería, por sus “minas de carne y cuero”.

Las primeras poblaciones estables de la Banda Oriental, fueron en Santo Domingo de Soriano, pero una de las más importantes fue Colonia del Sacramento, ubicada en el actual departamento de Colonia, fundada en 1680. Los portugueses siempre habían aspirado a ocupar estos territorios debido a sus riquezas naturales, argumentaba que les correspondería esas tierras porque la frontera debería ser natural, es decir, el Río de la Plata.

En respuesta a tal acontecimiento, los españoles fundan Montevideo. El gobernador de Buenos Aires, Bruno Mauricio de Zabala, tuvo noticias de que los portugueses intentaban ocupar la bahía de Montevideo y envió un grupo armado para desalojarlos. De esta manera, desde fines de 1723 a 1730 comenzó el proceso fundacional de la ciudad de San Felipe y Santiago de Montevideo.

Desde el punto de vista de las actividades físicas y recreativas, en el Montevideo colonial solo existieron juegos o diversión pública. Por ejemplo, en el año que nació José Gervasio Artigas (1764), se realizaron corridas de Toros en la plaza Mayor (hoy plaza Zabala).

También se realizaban carreras de sortijas, carreras de embolsados, de antorchas, de velocidad dentro de alguna efeméride religiosa y como expresión colectiva: la cinchada. En el centro de la Ciudadela había canchas de bolos y un frontón, como expresión de un antiguo juego español.

Por otra parte, desde la fundación de Montevideo, los españoles residentes concurrían en el verano a las costas a bañarse. Luego del proceso independentista (1825-1830), los baños se institucionalizaron y pasaron a llamarse “Baños de los Padres”, existiendo, por un lado, zonas de baño exclusivo para mujeres y por otro lado para hombres.

Consolidación del Estado Oriental del Uruguay   

Entre 1825 y 1830 se generaron acontecimientos que dieron como resultado la formación del Estado Oriental independiente. Los sucesos transcurren desde la formación de un Gobierno Provisorio en Florida y que tendrá como episodio relevante la Convención Preliminar de Paz, celebrada en 1828 entre delegados del Imperio del Brasil, de las Provincias Unidas y de Inglaterra, bajo la mediación del Lord John Ponsonby. Los resultados de esta Convención fueron ratificados el 4 de octubre de 1828.

Uno de los puntos de la Convención Preliminar de Paz, estableció que se debía instalar un Gobierno Provisorio y una Asamblea Legislativa Constituyente que tendría como tarea elaborar la primera Constitución del Uruguay, jurada el 18 de julio de 1830. Así, se inició el Estado Oriental del Uruguay como libre e independiente.

La situación del naciente Estado Oriental era crítica, luego de varios años de revolución y lucha por la independencia (1810-1830). Presentaba un atraso económico caracterizado por la monoproducción ganadera con un sistema de explotación arcaica. A esto, le sucedió la Guerra Grande (1839-1852), que involucró las tendencias políticas del Uruguay y la Confederación Argentina (blancos y colorados: federales y unitarios), el Imperio del Brasil y las potencias industriales en expansión como Inglaterra y Francia. Luego de la Guerra Grande, es que se roturaron tierras. En cuanto al sistema de propiedad, en el medio rural predominó, hasta el día de hoy, el latifundio. En consecuencia, surge un antagonismo entre el campo y la ciudad como núcleos opuestos.

En cuanto a las actividades físicas y recreativas, siguieron vinculadas a juegos y diversión pública que se realizaban desde la época colonial. Aquellas actividades que estaban motivadas por fiestas religiosas, luego de la independencia serán motivadas por las efemérides patrias. A modo de ejemplo, en los festejos por la Jura de la Constitución en 1830 y en los aniversarios de esa fecha, se realizaban corridas de sortijas en calles y plazas, además de carrera de embolsados, levantamiento de pesas, palo enjabonado, carrera de sortijas a pie, carrera de antorchas y de velocidad de mucha resonancia popular. En cuanto a las fiestas religiosas que se siguieron practicando, se vinculaban a San Juan y San Pedro, con hogueras en las calles.

Por otro lado, tuvo importante difusión las corridas de toros, que comenzaron antes de la Independencia, con varias “plazas” en la Ciudad Vieja. Luego pasaron al Cordón y finalmente se construyó la llamada “Plaza de Toros de la Unión” en 1855. Como señala A. Gomensoro, congregaban gran cantidad de público, también realizaban otros espectáculos (peleas de box, carreras a pie, desfile de bandas, orquestas y bailes, etc.), hasta que el Gobierno las prohibió en 1890 por la muerte de un torero en plena faena.

También tuvo mucha importancia las carreras de caballos, que fueron aumentando en importancia a lo largo del siglo XIX.

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Plaza de Toros de la Unión (Foto 597b FMH.CMDF.IMM.UY) Tomada de: http://municipiod.montevideo.gub.uy/node/1562

Plaza de Toros de la Unión (Foto 597b FMH.CMDF.IMM.UY) Tomada de: http://municipiod.montevideo.gub.uy/node/1562

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Plaza de Toros de la Unión (Foto 597b FMH.CMDF.IMM.UY) Tomada de: http://municipiod.montevideo.gub.uy/node/1562

Plaza de Toros de la Unión (Foto 597b FMH.CMDF.IMM.UY) Tomada de: http://municipiod.montevideo.gub.uy/node/1562

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En los primeros años de vida independiente, la población del país era escasa, los historiadores estiman que en 1830 había 74.000 habitantes, de los cuales 14.000 estaban en Montevideo. Uno de los acontecimientos más importantes que se suceden a partir de 1830, lo constituye la afluencia creciente de emigrantes europeos como vascofranceses o españoles, los italianos (genoveses), canarios, gallegos, ingleses, suizos, que llegaron a 42.000 entre 1836 y 1842.

La llegada de inmigrantes europeos entre 1830 y 1840, implicó crecimiento del tráfico marítimo en el Puerto de Montevideo; por otra parte, el comercio exterior se acentúa. El aporte de los inmigrantes europeos fue fundamental para el desarrollo económico del país y para el desarrollo del deporte en el Uruguay, aunque aquellas primeras manifestaciones se caracterizaban por su vaguedad e imprecisión.

Las primeras manifestaciones deportivas en el Uruguay

El deporte en los primeros años de vida independiente del Uruguay, tiene que ver con dos circunstancias claves: por un lado, se redujo al interior de las colonias de extranjeros residentes en Montevideo; por otro lado, contribuyó en su difusión en algunas localidades del interior el ferrocarril, en tanto fue llegando y se radicaron empresas de estos forasteros. Los historiadores señalan que este proceso consistió esencialmente en la fundación de clubes deportivos.

Las colectividades extranjeras fueron muy importantes en Uruguay, ya que trajeron sus deportes tradiciones, conservando su modalidad deportiva sin mezclarse entre ellos y sin participación de los criollos.

Los italianos jugaban a las bochas, esgrima y el pallone. El pallone era un juego o deporte romano, era como un juego de pelota ante un frontón y después fue en un campo abierto. Se practicó con equipos de 4 jugadores portando un bate (similar al cricket).

Los vascos jugaban a la pelota de mano. Algunos consideran que los partidos de pelota vasca, fueron una de las primeras manifestaciones deportivas en el país y en América, que movilizó a mucha gente. En el Uruguay, la primera modalidad de juego de pelota fue sin pared, hacia 1830; más tarde adoptó la pala y cesta.

Los franceses introdujeron la gimnasia, los suizos el tiro federal, los ingleses el cricket, rugby y fútbol.

Por otra parte, la presencia de extranjeros determinó también la enseñanza de deportes. Los italianos y franceses practicaban y competían en esgrima y gimnasia. En consecuencia, aparecieron los “maestros de gimnasia, tiro y esgrima”.

El primer club deportivo: Victoria Cricket Club

Entre 1830 y 1855 se produce el comienzo del desarrollo deportivo en el Uruguay. Lo más importante en este período, fue la fundación del primer club: el Victoria Cricket Club, fundando por los ingleses, que llevaban el espíritu del deporte, en octubre de 1842. La institución tuvo entre sus concurrentes asociados a la zona de su creación, Pueblo Victoria (próximo al Paso Molino), próximo al saladero del inglés Samuel Lafone, quien fue uno de los impulsores del club. El nombre fue en honor a la reina de Inglaterra, aunque algunas versiones plantean que se debe a la localidad donde realizaban la actividad.

Los concurrentes realizaban todos los jueves los “Días de Sport” a través de prácticas y partidos de Cricket, deporte más popular en Inglaterra en esa época. Allí estuvo el primer campo de deportes del Uruguay, por esto es que se considera que fueron los ingleses quienes introdujeron el deporte en el Uruguay. Mientras tanto, en Argentina, comienza un proceso similar al Uruguay, caracterizado por la fundación inglesa de clubes a lo largo del siglo XIX.

El club tuvo una breve historia, ya que desapareció como consecuencia del sitio a Montevideo establecido por las fuerzas del Partido Blanco (con apoyo argentino) encabezadas por el Brigadier Oribe y que se prolongó durante toda la Guerra Grande, hasta 1851. Esto implicó, que los ingleses no pudieran salir más de los muros de la ciudad.

Referencias:

BUZZETI, José y GUTIÉRREZ CORTINAS, Eduardo (1965). Historia del deporte en el Uruguay (1830-1900). Montevideo: Ed. De los autores.

GOMENSORO, Arnaldo (2015). Historia del Deporte, la Recreación y la Educación Física en Uruguay. Crónicas y relatos. Montevideo: IUACJ.

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Os museus de surfe da Califórnia

06/02/2017

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

Como prometi, hoje trato dos cinco museus de surfe localizados na Califórnia. Neste texto, estou usando a categoria nativa, ou seja, considero museus de surfe as cinco instituições que se classificam como tais. Eles se estendem desde Oceanside, no sul do estado, até Santa Cruz. Seguirei este trajeto sul-norte na ordem de apresentação. Todas as fotos sem crédito de autor foram feitas por mim. Informações específicas sobre itens dos acervos estão nas legendas das fotos.

California Surf Museum (CSM, Oceanside)

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Foi o museu em que estive mais vezes. Fica perto da estação de trem e do píer onde surfam e treinam locais e/ou profissionais – o píer aparece constamentemente em séries do canal Off.

Tem uma excelente coleção de revistas, que ficam numa sala confortável e exclusiva para pesquisadores. A pesquisa neste museu fez parte de uma experiência maior, daquelas que não têm preço nessa vida: durante o ano em que vivi na Califórnia, fui respeitado como pesquisador de história do surfe e da mídia do surfe de uma forma como raramente aconteceu noutros lugares – incluindo o Rio de Janeiro e o Brasil – em mais de dez anos dedicados ao tema.

Comandada pela historiadora Jane Schmauss, a equipe é prestativa e simpática – quando solicitadas por mim, as pessoas sorriam e se interessavam pelo meu trabalho, em vez de rosnarem, como acontece noutros lugares e cidades por aí. Conta com voluntários e trabalhadores assalariados. Segundo me explicou Jane, o museu recebe cerca de 25 mil visitantes anuais. O imóvel onde está há alguns anos pertence à Prefeitura de Oceanside – cuja sede fica próxima -, que o alugado a preço subsidiado. Ali pertinho também está a biblioteca municipal (a visita à biblioteca da cidade é um programa bacana, assim como em várias cidades e bairros californianos).

O forte do acervo, como em três outros museus, são as pranchas. Entre doações, empréstimos, exposição permanente e temporária, é possível ter contato com boa parte da produção de pranchas do sul da Califórnia desde os anos 1950. Há também exemplares mais antigos: paipos havaianos, pranchas para salvamento no mar etc. Mas o foco está nos shapers da própria região – vários dos quais são sócios contribuintes do próprio museu e doaram e/ou emprestaram pranchas de sua lavra. Algumas estão autografadas pelos shapers, outras, pelos que as surfaram. Há doações de Kelly Slater e de outros atletas famosos do esporte profissional e/ou das ondas grandes (nas ocasiões em que estive lá, a exposição temporária era sobre surfe em ondas grandes; preparava-se uma exposição sobre surfe durante a Guerra entre os EUA e o Vietnã). Há também seções dedicadas a outros aspectos, como bodyboard e surfe de peito. Tem uma vitrine muito interessante com jogos e brinquedos que têm o surfe como tema – de Barbie a Banco Imobiliário – e outra com dezenas de parafinas.

Sou suspeito para falar, pois nesse museu fiz parte de minha pesquisa de pós-doutorado. Além disso, tive uma experiência bacana como usuário (e não como pesquisador) em todas as ocasiões em que estive lá. Isso porque está em exibição a prancha de Bethany Hamilton – de quem eu nunca ouvira falar até recentemente. Trata-se de uma havaiana, de uma família de surfistas, que teve um braço arrancado por um tubarão enquanto pegava onda com uma amiga, aos 12 anos de idade. A história está contada em dois filmes (um documentário e um de ficção) e um livro. Bethany tornou-se ícone dos e das adolescentes e tem sua própria linha de produtos de beleza. Além disso, o que mais me impressionou: continuou surfando. E bem: embora não corra o circuito mundial, volta e meia participa de um etapa como convidada. Em 2016, chegou à semifinal da de Fiji – é bom lembrar, Bethany surfa com a desvantagem de não ter um braço para remar, se equilibrar e, dependendo do lado para o qual a onda quebra, adequar a velocidade colocando a mão na parede da onda e/ou segurando a borda da prancha.

Enfim, a experiência definitiva de visitante é ficar sentado num pufe, perto da prancha de Bethany, e esperar para ver alguma criança se aproximar (a Califórnia é cheia de crianças, tanto locais quanto turistas). A cara de surpresa que as crianças fazem é indescritível. Cobrem a boca com a mão, mordem os dedos, andam para trás, correm para chamar a atenção de alguém. Ao que parece, todas conhecem a história de Bethany (e por isso a reação). Fica a dica: se você, leitor(a) um dia for ao CSM, e a prancha de Bethany ainda estiver lá, fique uns minutos na área central, como quem não quer nada, até que chegue uma criança ou grupo de crianças à parte dedicada à surfista. A reação delas valerá a visita.

Surfing Heritage and Culture Center (SHACC, San Clemente)

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Para quem vem do sul, San Clemente é a primeira cidade litorânea do Condado de Orange (vulgo OC). Nesta importante cidade de surfe está o SHACC. A entrada para a exposição, que consiste basicamente de pranchas (ver informações no álbum de fotos), custa US$ 5. Para fazer pesquisa no acervo, que conta com revistas, livros e outros documentos, como cartas, é preciso ser membro da associação, o que custa US$ 50 por ano. A reprodução de materiais (uso de scanner etc.) é paga à parte.

Assim como o congênere de Oceanside, o museu é obra do esforço de um conjunto de surfistas, boa parte deles sócios que doam tempo e/ou dinheiro para a manutenção e desenvolvimento do local. Servem também como espaço para a realização de lançamentos de livros e filmes, homenagens, leilões (nos quais se leiloam pranchas e outros objetos para arrecadar recursos para o próprio museu), jantares de homenagem e/ou de arrecadação de fundos para as próprias entidades e para outros fins. Quando estive lá, fui atendido de forma muito simpática por Barry Haun, que, de bermuda e chinelo, me deu informações, forneceu contatos que poderiam ser úteis à minha pesquisa e, enquanto eu fazia a visita, fez a gentileza de telefonar para uma das pessoas para avisar que eu entraria em contato.

International Surfing Museum (Huntington Beach)

Este é o museu em que fui recebido com menos simpatia. Talvez as condições fossem desfavoráveis: era um domingo, ali pela hora do almoço, e havia dezenas de torcedores ruidosos do San Francisco 49ers tocando o terror assistindo ao jogo num pub em frente. (Tocando o terror nos padrões dos EUA, evidentemente; brincadeira de criança, quando se compara com as torcidas de futebol no Brasil.) O que me pareceu mais interessante do acervo foram itens específicos do surfe na própria cidade, sede de importantes campeonatos ao longo de décadas.

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Santa Cruz Surf Museum (Santa Cruz)

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O Santa Cruz Surf Museum é tão pequeno que não daria para o acervo focar em pranchas – elas não caberiam no local. Contudo, tem seus atrativos. O primeiro deles é ficar dentro de um farol. Segundo, fica num lugar belíssimo, à beira-mar, em cima da ponta onde, logo abaixo, está Steamer Lane, uma das ondas mais famosas da Califórnia. Ou seja, a visita ao museu pode ser combinada com uma sessão nas gélidas águas locais – ou, em casos como o meu, com a assistência. O mesmo estacionamento é usado pelos visitantes do museu e pelos surfistas. Terceiro, tem entrada gratuita. Quarto, o acervo tem algumas fotos interessantes, assim como informações sobre aspectos do surfe local, como… ataques de tubarão.

Além de importante cidade de surfe californiana, conhecida pelas boas ondas e pelo mar frio, Santa Cruz é o lugar de origem de um dos principais fabricantes de roupas térmicas para surfe do mundo: O’Neill.

Santa Barbara Surf Museum (Santa Barbara)

Deste, não sei por que, não consegui encontrar as fotos. Assim como o de Santa Cruz, o forte são as pranchas. Há também muitas capas de discos e cartazes de filmes. De todos, foi o que me pareceu mais amador: na verdade, parece uma iniciativa pessoal de um apaixonado pelo surfe. O inacreditável: no domingo em que estive lá, não vi ninguém no museu. Isso mesmo: desde o momento que cheguei até a hora em que saí, não havia absolutamente ninguém lá dentro. O museu não cobra entrada, e é possível levar um adesivo deixando numa caixinha, em troca, uma doação de US$ 1. A casa onde funciona é meio difícil de achar, pois fica numa daquelas ruas meio estranhas: termina do nada numa linha de trem e recomeça do outro lado, só que você olha e não sabe por onde atravessar (pois há grades e muros). E uma vantagem, sem dúvida, é ficar na linda Santa Barbara.