A formação em Educação Física na Bahia

05/03/2018

Coriolano P. da Rocha Junior

No Brasil a formação acadêmica civil em nível superior da Educação Física (EF) iniciou-se em 1939, quando foi criada a Escola Nacional de Educação Física e Desportos (ENEFD)[1], vinculada a Universidade do Brasil (UB)[2]. Sua base legal foi o Decreto Lei 1.212 de 17 de abril de 1939. Pelo decreto, a ENEFD teria como funções: formar profissionais de EF; imprimir unidade teórico-prática no ensino; difundir conhecimentos da área e realizar pesquisa, além de capacitar quadros de todo o país, para que estes, ao retornarem aos seus estados de origem dinamizassem a área pelo Brasil e contribuíssem na criação de outros cursos.

Ao pensarmos a Bahia identificamos o Estado tardou a ter um Curso Superior de Educação Física. Embora tivesse ao longo dos tempos ocorrido várias tentativas, foi mesmo só em 1973 que se criou o primeiro. No caso, o da Universidade Católica de Salvador (UCSAL), em 1973, reconhecido em 23 de junho de 1977.

Sendo assim, causa estranhamento o fato de ter sido numa instituição privada, com apoio do poder público, que tenha acontecido a instalação de um Curso Superior de Educação Física na Bahia, ao contrário do que era corrente em outros lugares, onde eram nas Universidades Federais que se montavam os cursos.

Na Bahia, várias foram às tentativas para a criação de uma escola de EF e muitas, senão todas, movidas pelos próprios e poucos professores licenciados pela ENEFD. Todavia, por motivos diversos, nenhuma das investidas deu resultado e até o início da década de 1970 a Bahia continuava sem ter seu curso, ficando para trás em relação a vários estados brasileiros, inclusive alguns do nordeste.

A organização de cursos de formação de professores pelo Brasil, em sua fase inicial, seguia o mesmo padrão da ENEFD, tanto em sua organização curricular como nos métodos adotados, foi provavelmente o meio mais eficaz de moldar a EF brasileira. Na Bahia não foi diferente. É importante ressaltar que os idealizadores e articuladores do primeiro curso de EF eram quase todos graduados na ENEFD.

Esses professores, somados a outros, criaram a Associação dos Professores de Educação Física da Bahia (APEFB)[3]. Tal entidade ao longo de seu funcionamento transformou o objetivo da criação de um curso em seu interesse maior, pra tanto, constituiu uma comissão executiva. Esta comissão tinha o papel de visitar autoridades, entidades e órgãos da imprensa, visando sensibilizá-los para a criação da escola de EF.

A iniciativa da comissão ganhou repercussão nos jornais baianos, que procuravam tratar o assunto, dando destaque ao valor da criação de um curso de EF na Bahia. De certa maneira, a publicação de matérias sobre o assunto acabou sendo uma forma de pressão. Eis alguns exemplos:

  • Escola de Educação Física é importante meta para a Bahia (A Tarde, 10 de agosto de 1971)[4];
  • Comissão executiva para a Escola de Educação Física (A Tarde, 14 de agosto de 1971)[5];
  • Professores movimentam-se pela Escola de Educação Física. (A Tarde, 20 de agosto de 1971)[6];
  • Educação para o esporte (A Tarde, 24 de agosto de 1971)[7];
  • Funcionamento da Escola de Educação Física não demora (A Tarde, 26 de agosto de 1971)[8];
  • Escola de Educação Física em funcionamento é a meta (A Tarde, 17 de setembro de 1971)[9];
  • Educação Física é valor excepcional de um povo. (A Tarde, 28 de setembro de 1971)[10].

Ainda com a ideia firme de montar um Curso de Educação Física na Bahia, alguns professores, dentre outras iniciativas, procuraram uma forma de sensibilizar o então governador do Estado, Antônio Carlos Magalhães, quando de uma visita sua ao Colégio Estadual da Bahia (Central).

Os professores incluíram numa programação festiva do colégio uma demonstração de ginástica, com aproximadamente 500 alunos, ocupando, praticamente todo o espaço físico das instalações desportivas e áreas adjacentes. Após a demonstração, a comissão executiva da APEFB e mais três alunos da escola foram solicitar ao governador a instalação de uma escola de EF.

O Governador deu a seguinte resposta: “escola superior isolada na Capital eu não crio, instalamos Universidades no interior”. A comissão não recuou e fez-lhe uma contraproposta, que foi a de firmar convênio com a Universidade Católica do Salvador, para principalmente fazer uso das instalações da Vila Olímpica (propriedade do Estado). A isso, o Governador de pronto respondeu: “topo”.

Com a perspectiva da criação de um curso de EF numa instituição privada, a UCSAL, o Estado da Bahia aplicou somas de recursos públicos, tanto em instalações (Vila Olímpica), quanto em material, para viabilizar a materialização daquele que se tornou o primeiro curso na Bahia. Assim, essa posição do Governador atendeu a uma dificuldade apontada pela UCSAL (quando em outro momento se tentou a instalação), ausência de espaços, dando margem à criação do curso.

Em relação a esse fato, o jornal A Tarde, em 29 de junho de 1972[11] apresentou a seguinte matéria: “Educação Física tem Escola na Bahia”

Na oportunidade, o Governador Dr. Antônio Carlos Magalhães manifestou a disposição do seu governo em prestigiar a juventude universitária em particular, e a toda mocidade da Bahia, em geral, adiantando que, com este convênio, a juventude terá condições de realizar suas atividades, trazendo assim benefícios não só para o Governo, como para a UCSAL e para toda a comunidade baiana.

A partir de então, com a afirmação do convênio entre UCSAL e o estado da Bahia, o grupo de professores viveu meses de expectativa para a aprovação do curso no Conselho Universitário e sua criação efetiva e ainda, a realização do vestibular. Foi só em 27 de dezembro de 1972, após reunião do Conselho Universitário, que o curso de EF da UCSAL foi aprovado, com o início de seu funcionamento previsto para 1973.

Vemos então que a meta maior, instalação de um curso de EF foi alcançada e isso, a partir de um convênio entre uma Universidade já existente, que faria uso de sua estrutura acadêmica e o Estado, que entraria basicamente com instalações e equipamentos na esfera esportiva. A fase seguinte seria a viabilização do funcionamento do curso.

Cabe salientar que a efervescência para a criação e subseqüente materialização do primeiro curso de EF na Bahia (1973), se deu numa época em o país vivia um contexto político no qual os ventos democráticos estavam reprimidos.

Assim, a perspectiva de formação estava pautada por esse contexto e mesmo, pelas possibilidades teóricas da área, que claramente se diferem do entendimento que hoje podemos ter. E foi assim, nesse contexto e nessas condições que o curso se iniciou.

A estrutura curricular do curso de EF da UCSAL possuía 36 disciplinas. Era perceptível a separação entre as disciplinas para homens e para mulheres, mais notadamente nos 5º e 6º semestres, mas ambos os gêneros eram obrigados a cumprir 36 disciplinas para a conclusão do curso. Das 36 disciplinas do currículo da UCSAL na sua fundação, 05 organizavam seus conteúdos à luz das Ciências Humanas, 06 tratavam do conhecimento pedagógico, 08 se pensavam com base nas Ciências Biológicas e 17 eram de cunho técnico-desportivo.

Sendo assim, a Bahia tardiamente instalou um Curso Superior em Educação Física e ainda, também de forma diferente de outras localidades, isto se deu numa instituição particular. Foi só em 1988 que a Universidade Federal da Bahia criou o seu curso. Certamente, este cenário e estas peculiaridades deram e dão a Bahia, um tom diferente na formação e atuação na área da Educação Física.

 

[1] A partir da reforma universitária de 1968, a ENEFD deixa de ser escola padrão e se torna a ainda hoje existente Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

[2] Na atualidade é a Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

[3] Esta entidade trabalhava na organização da Educação Física e esportes na Bahia, numa tentativa de organizar e sistematizar a área e suas atividades no estado.

[4] A Tarde, 10 de agosto de 1971, p. 9.

[5] A Tarde, 14 de agosto de 1971, p.10.

[6] A Tarde, 20 de agosto de 1971, p. 12.

[7] A Tarde, 24 de agosto de 1971, p.4.

[8] A Tarde, 26 de agosto de 1971, p.7.

[9] A Tarde, 17 de setembro de 1971, p.12.

[10] A Tarde, 28 de setembro de 1971, p.12.

[11] A Tarde, 29 de junho de 1972, p.13.

Este texto tempo por base o artigo – PRIMEIRO CURSO DE EDUCAÇÃO FÍSICA NA BAHIA – TRAJETÓRIAS E PERSONAGENS – de autoria de Coriolano Rocha Junior, Roberto Gondim Pires e Felipe Marta, publicado na Revista Brasileira de Ciências do Esporte,  v. 36, n. 1, p. 205-223, jan./mar. 2014

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MACHADO DE ASSIS E O FUTEBOL

25/02/2018

Por Edônio Alves

Até onde sei – e confesso que sei um pouco, uma vez que estudei o tema para uma tese de doutorado -, o grande escritor brasieliro Machado de Assis nunca escreveu tendo como tema, seja de longe ou de perto, o futebol.

Até porque, no ano de sua morte (1908), no fim da primeira década do século 20, o jogo de futebol estava apenas ganhando fôlego no Rio de Janeiro para se espalhar como um rastilho de pólvora incotornável, só na década seguinte, a década de 20, pelo Brasil afora.

Foi a partir dos anos 20 do século 20, portanto, que o jogo de futebol se consolidou no Rio de Janeiro já como um esporte popular e avassalador no gosto do desportista carioca, posteriormente se espalhando pelo Brasil e iniciando uma trajetória de influência na cultura nacioanal a que os escritores tiveram que dar atenção, embora que inicialmente apenas o envolvendo numa polêmica renhida entre os que o defendiam e os que o atacavam enquanto uma novidade estrangeira que, então, forçava instalação na nosssa terra.

Para se ter uma ideia, nos primeiro anos da década de 1910 apenas o jornalista e escritor João do Rio deu atenção, nos seus escritos, ao futebol, tomando-o como ocupação novidadeira da elite carioca que o importara da Europa e o adotara como forma de esporte, lazer e festejo social.

Na ficção, por exemplo, o tema sequer existia por essa época.

Não é de se estranhar, portanto, que um escritor sisudo – embora sarcasticamente irônico com as ditas coisas sérias do mundo, (à maneira de um Voltaire), como era nosso Machado de Asisis -, fosse perder tempo com um tema tão sem importância e banal, estigma que até hoje parece cercar a matéria, a ponto de um dos seus maiores cultores nas nossa letras, o dramaturgo, jornalista e escritor, Nelson Rodrigues, o ter resumido assim ao redimensionar  essa circunstância que ainda hoje cerca o assunto: “Das coisas menos importantes da vida, o futebol é a mais importante”, asseverou certa vez.  

Pois bem!

Não escreveu sobre futebol, o nosso Machado de Assis, mas criou (ou mais apropriadamente, tomou de empréstimo também dos ingleses tal qual fizemos com o esporte bretão) um tipo de narrador que deu uma inflexão geral (sapecou um grande drible) no campo da literatura brasileira, algo que  até hoje causa espanto e certa novidade na maneira de se narrar ou contar histórias com finalidade estética ou artística.

Trata-se do chamado “defundo autor”, aquele que já bateu as botas e partiu dessa para a melhor, podendo, assim, “viver e contar também melhor” as coisas da vida e da morte, já que não lhe resta mais compromisso algum com nada ou com ninguém, contingência que só a “indesejada das gentes” pôde lhe conceder de benefício final e definitivo, espécie de lincença poética radical e libertadora.

Então! Como se costuma afirmar nos meios acadêmicos de literatura – e algumas teorias da narrativa parecem confirmar -, a condição de morto sempre confere a um narrador-protagonista que opere a partir de uma primeira pessoa atuante ou testemunhal, uma espécie de salvo-conduto ou imunidade para que possa intervir como queira na vida dos entes com os quais conviveu e que, por este recurso técnico de verossimilhança, ainda conviverá para todos os efeitos do bem e do mal.

Este, pois, é precisamente o caso em questão do narrador Mindinho, o do conto de futebol que analisaremos nesse pequeno ensaio para o Blog, ou seja: aquele que não só conta, mas até autonomeia a própria história.

Talvez daí, dessa circunstância de olhar para o mundo dos vivos por cima do nariz (afinal, ele já está morto mesmo!), é que esse tipo de personagem-narrador ou narrador-personagem, como queiram, se comporte perante a existência dos que ficaram quando de sua partida desta para a melhor com uma arrogância que diria judicante, nas suas histórias exemplares.

É uma dessas histórias, portanto,  que o leitor vai acompanhar a seguir, a qual deixo como minha homenagem à relação de Machado de Assis com o futebol, algo que sei que não houve, mas que também sei que houve, conforme todos perceberão, na análise do conto em tela.

Desçamos ao texto, pois:

 ***

Mindinho

      Conto de José Cruz Medeiros

Narrativa em que, à maneira de um narrador machadiano, aquele que escreve com a pena da galhofa e da melancolia, nos é contada a curiosa história da vingança de um jogador de futebol já falecido sobre o seu companheiro de clube ainda vivo. E tudo isso por causa de uma “desfeita moral” que o narrador habilmente faz transformar-se numa espécie de traição em que o jogo da bola entra como elemento de conteúdo e significação.  Noutras palavras: o ponto culminante de uma trama onde tudo pode ser resumido no emblemático aforisma: sorte no amor, azar no jogo. Ou vice-versa. Principalmente, vice-versa, como o leitor verá ao ler essa literalmente fantástica estória curta de futebol.

Escrito numa prosa elegante e deliciosamente corrente; fluida até, no seu intuito narrativo, este conto de José Cruz Medeiros, pra início de conversa, inscreve-se entre aqueles dos melhores do gênero, a exemplo de “O jogo encoberto”, de Aécio Consolin, já analisado aqui e que também trata de uma traição entre companheiros de time e de jogo de bola.

Desta vez, com efeito – mas, com efeito mesmo, o artifício literário para tratar do tema é bem mais sofisticado, uma vez que o narrador-protagonista só age na trama a partir da sua condição de morto, coisa que solertemente vai logo avisando ao leitor: “A turma prefere o domingo, que é o dia da vitória. Eu não; comigo é na quarta-feira. É quando me levanto contente, satisfeito da vida. Tudo muito claro, os passarinhos vêm comer as migalhas de pão que eu atiro no quintal… Ou será ilusão? Porque foi, justamente, numa tarde de quarta-feira, belíssima, que eu morri”.

Uma outra de suas característica marcantes, também, é o passar a considerar as coisas humanas a partir dali, da saída do mundo dos vivos, através de um prisma em que se acentuam drasticamente o seu lado risível, melancólico, profundamente cômico no seu paradoxo fundante. Como se a pobre condição humana dos vivos não fosse além de um ajuntamento de fatos aleatórios, circunstâncias imperativas e disposições alógicas, sem finalidade última ou sentido algum. Aquilo que na sentença lapidar do poeta se resumiria assim: “Uma agitação feroz e sem finalidade”, a própria vida.

Então, porque já fixada a sua condição de morto na narrativa, lá vai agora o nosso Mindinho contar episódios do seu enterro, oportunidade que aproveita para ir perfilando para o leitor um amontoado de pareceres seus sobre eventos comezinhos que agora e antes esclarecem um pouco da sua trajetória de vivente e agora de defunto. “Mas eu estava ‘pesado” mesmo, nessa minha dolorosa trajetória: uma das cordas escorregou e o caixão, embicando perigosamente para baixo, foi jogado violentamente contra o raso da cova, e assim fiquei à espera dos vermes. Algumas pessoas assustaram-se, outras acharam graça, e eu, em tudo isso, percebi que meu enterro, que sempre esperei ser cristão e ameno, virou palhaçada pura”.

Note-se aí o tom sarcástico e irônico com que o narrador vai encaminhando as coisas da vida, aparentemente sempre balizadas por algum sistema moral ou ético, para um patamar de relatividade que, lá na frente, no momento crucial da sua narrativa, vai justificar teoricamente a sua atitude de vingança frente ao amigo. Essa travessia é feita por um trecho exemplar em termos de procedimentos formais de textualidade. Um momento em que, depois de ter sido largado definitivamente no cemitério, deixa patente o personagem-narrador, ao nível de um sintagma textual de sugestão, essa sua possibilidade de vingança:

Sentia falta de um companheiro, de uma palavra amiga. Os que ali permaneciam eram estranhos. Os coveiros de enxada às costas, deixavam o serviço, e eu me via só e triste, imerso numa profunda desolação. Queria ver os meus, falar-lhes, mas o certo é que uma força poderosa tolhia-me os movimentos. Luzes estranhas davam conta de que me encontrava no limiar de uma nova existência, sem nada compreender desse mundo fantástico e irreal, feito do impossível e do imponderável”.

Pois esse mundo fantástico e irreal, feito do impossível e do imponderável, tanto pode ser, no caso, o além mundo do personagem; o nosso mundo real mesmo, que todos nós sabemos dotado de toda essa imponderabilidade e fantasia, ou o mundo textual da literatura onde tudo é possível e justificável, desde que as instâncias sejam inscritas sob a plausibilidade da sua coerência narrativa interna. Assim é que o narrador vai esclarecendo melhor as coisas: “Esse isolamento deveria ser motivado por mim mesmo. Certamente. Eu não seria coisa muito boa, vista que uma chusma de diabinhos andava sempre a me cercar”.

Em seguida, a confirmar certa epigonia de retórica machadiana, mas uma louvável epigonia do tipo, o narrador faz surgir na história um personagem esclarecedor da sua nova condição existencial, mas funcionalmente irônico: “Quem tentou me esclarecer um pouco foi um velho de nome Camargo, falecido em 1868. Dizia-se filósofo. Outro dia me encontrou aqui e foi perguntado:

“- Rapaz, que tristeza é essa?

  – (…) Como se chama?

  – (…) Mindinho! – exclamei com ênfase.

  – (…) E o que fazia, antes de vir pra cá?

  – (…) Futebol – respondi com certo desalento. O senhor sabe, sou o Mindinho – insisti.”

A ironia em questão, a se depreender das considerações que seguem, por parte do filósofo de cova e de caixão, o senhor Camargo, decorre do fato do escritor José Cruz Medeiros servir-se justamente dele, um sábio, para firmar, na sua história, a repercussão no âmbito literário, da representação social do futebol como uma ocupação menor, um ofício que por privilegiar os pés e não a cabeça na sua execução, opõe também o trabalho intelectual ao manual, com todas as significações socais depreciativas daí decorrentes.

Não sou contra o futebol”, diz ele. “Nem contra qualquer exercício físico, à exceção do boxe, que é digno do tempo das cavernas. Ou dos circos romanos. Mas o amigo deve convir que o futebol deixa o cérebro assim (com o indicador e o polegar configurou uma bola, pequeníssima…) e o pé deste tamanho! (e abriu os braços para mostrar um pé de metro e meio)”.

Cite-se também aqui a resposta do personagem-narrador, por ser absolutamente necessária ao caso em questão.

“- O senhor fala assim porque naturalmente nunca ouviu falar da célebre dupla Mindinho-Piúca, os ‘backs’ mais famosos do continente, declarei, imprimindo, agora, um tom irônico às minhas palavras. Piúca é o meu companheiro de vitória, o meu grande amigo. Criamos um sistema de defesa que é um assombro. Verdadeiramente. O senhor não se lembra do notável embate com os argentinos, em 1950? Que dia!

Aplanado o terreno situacional, em que o leitor já sabe quem conta a história, a partir de que circunstância, sobre que tipo de atividade humana, e desta, sobre que aspecto vai tratar a narrativa, o narrador, ajudado por seu colega filósofo, descobre que pode pensar e agir de novo como qualquer homem vivo, apesar de morto. A partir daqui, inicia-se o final da sua história. Descobre que dia é hoje na sua vida de defunto, e esse dia é dia de Vasco e Flamengo, o seu time de coração e de ofício profissional. E descobre também que pode voltar a encontrar os seus:

Vi então que podia me locomover à vontade. Comecei a flutuar como um tapete mágico, ao sabor do meu desejo. Como uma criança que principia a andar. Dentro de breves instantes, eis-me a rever as paisagens de minha predileção: Laranjeiras, Cosme Velho, a Barra da Tijuca, de onde guardo as recordações de uma excelente pequena”.

E eis também que de repente Mindinho se vê diante dos seus entes mais queridos, momento-chave de sua história:

E fui entrando, de mansinho. Atravessei a porta como um raio-X, e vi-me na sala. Nada se modificara. Tudo era silêncio. Minha filha de oito anos tinha ido até à casa da vizinha e o menino, de dois, brincava pelo chão com uma bola. E minha mulher? Foi quando lhe ouvi o riso, gostoso e cristalino. A sua voz era a mesma: doce como o melado de Campos. Não, não posso dizer o que presenciei então…”

Em seguida a esta visão perturbadora para os seus olhos de jogador-defunto, ou melhor, de defunto jogador, para melhor entendermos o que se sucede, o nosso Mindinho presenteia seus ouvintes-leitores com uma das mais criativas e inusitadas jogadas já perpetradas no campo de jogo das narrativas de estória curta. Uma vingança espetacular pra cima do seu colega de time e de zaga, a qual só o tema do futebol poderia possibilitar. Pra entender tudo, vá o leitor a esse excelente texto de José Cruz Medeiros que, através das palavras de Mindinho, termina deliciosamente assim:

Você lembra dessa lavagem do Flamengo? A gente não esquece. Todo mundo botou a culpa no Piúca, uma desmoralização completa. Que continue a viver com minha mulher. E dizia-se meu amigo, o miserável! Mas está frito: Lea não dá pelota para quem não for cartaz… E, se der, agora já não tem importância”.

O AUTOR DO CONTO:

José Cruz Medeiros nasceu no dia 19 de setembro do ano de 1909, em Curitiba, Paraná, e morreu em 9 de setembro de 1982. Estreou como contista com o livro, Bicho carpinteiro, em 1959, e a partir daí desenvolveu uma boa carreira de escritor de histórias curtas e ensaísta. Foi membro da União Brasileira de Escritores-UBE e responsável, durante muito tempo, pelo “Boletim Bibliográfico Brasileiro”, revista mensal que prestou importantes serviços ao pensamento da literatura brasileira. Tem publicado ainda, fechando a sua obra, os livros de contos, Pinheiros (1956); Uns contos por aí (1969) e A hora nona (1981). Seu conto, “Cavalo Miranda”, foi incluído na antologia “Contos Brasileiros de Bichos”, publicada em 1970 e organizada por Cyro de Matos e Hélio Pólvora. Já o conto de futebol, Mindinho, que segue, venceu o Concurso de Conto Desportivo do Rio de Janeiro, em 1958, integrando a comissão julgadora Paulo Mendes Campos, Antonio Olinto e Henrique Pongetti. Esta narrativa aí analisada está publicada na coletânea, Contos brasileiros de futebol, organizada em 2005 por Cyro de Matos, sob os auspícios da Editora LGE, de Brasília.


Muito além de Neymar: o Catar e o investimento no Paris Saint-Germain como forma de projeção internacional

19/02/2018

 

Por Maurício Drumond

Na quarta-feira passada, o mundo do futebol parou para assistir o primeiro duelo entre duas das maiores potências do futebol mundial: Real Madrid x Paris Saint-Germain. Na imprensa, muito se falou (e ainda se fala) da disputa implícita entre Cristiano Ronaldo e Neymar, dois dos maiores postulantes ao prêmio de melhor jogador de futebol do ano da FIFA. A vitória por 3 a 1 do Real Madrid, com dois gols de Cristiano Ronaldo, e a não destacada atuação de Neymar teriam supostamente dado a vantagem ao jogador português nessa disputa. Mas o segundo jogo, agora em Paris, ainda poderia mudar esse quadro.

Esse tem sido o principal destaque dado ao jogo na grande mídia, mas não é o ponto que me interessa nesse artigo. Outra disputa implícita no confronto da semana passada me parece ser mais interessante. A disputa entre dois modelos de representação nacional através de clubes de futebol. De um lado o modelo representado pelo Real Madrid Club de Fútbol, onde o sucesso esportivo de uma equipe é por vezes mobilizado em prol do prestígio nacional. Do outro, um novo modelo de projeção nacional baseada no esporte, capitaneado pelo Catar através do clube Paris Saint-Germain.

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Peça publicitária do jogo das oitavas-de-final da Liga dos Campeões da UEFA, ressaltando a disputa entre Cristiano Ronaldo e Neymar.

O primeiro modelo, que pode ser visto como “tradicional” dentro dos estudos do esporte, é em geral atribuído ao papel desempenhado por uma seleção nacional ao representar seu país, mas em determinados casos pode ser identificado com um clube específico, no caso o Real Madrid, com alto desempenho internacional e forte apelo nacional. Muitos estudos já se dedicaram a esse modelo de projeção nacional através do esporte, sendo por vezes associado ao estudo de identidades nacionais de nacionalidades não soberanas, como no caso de Barcelona e a identidade catalã ou do Athletic Club (de Bilbao) e a identidade basca.

Já o segundo modelo, que pode ser visto como “novo” e, por isso, objeto de ainda poucos estudos, merece maior atenção. No Brasil, a presença do Catar nos esportes foi mais profundamente notada no momento da negociação de Neymar com o Paris Saint-Germain, envolvendo valores até então nunca vistos no futebol. No entanto, a atuação do pequeno país do Oriente Médio vai muito além e se iniciou muito antes do contrato com o craque brasileiro. É mais especificamente sobre essa atuação do Catar no mundo do futebol internacional e sua proposta de reconhecimento e prestígio através do clube francês que esse texto se aventura.

Catar e o Futebol Internacional

O Catar é um país soberano do Oriente Médio, situado na costa oriental da Península Arábica. O país é governado por uma monarquia absoluta hereditária, liderada pela família Al Tahani. Sua população é estimada em cerca de 2,6 milhões de habitantes, dos quais apenas cerca de 12% são de nacionalidade catari (pouco mais de 300 mil). Sua economia, como era de se esperar em um país da região, é altamente dependente da produção de petróleo e gás natural. E o envolvimento do país com o esporte está diretamente ligado à sua intenção em diversificar sua economia, tendo em vista a finitude de seus ainda vastos campos petrolíferos. Mas como veremos adiante, essa ligação vai além disso.

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Mapa da península Arábica. Fonte: Google Maps.

O envolvimento do Catar com o esporte internacional não é recente e nem se limita ao futebol. Antigo protetorado britânico que ganhou sua independência somente em 1971, o país fundou seu Comitê Olímpico em 1979 e enviou atletas para os Jogos Olímpicos pela primeira vez em 1984, em Los Angeles. Em 1988, foi sede da Copa da Ásia de futebol masculino e em 1995 da Copa do Mundo FIFA Sub-20. No entanto, em 2004 o país decide começar a investir de forma mais pesada em esportes. A partir de eventos esporádicos, pode ser visto um aumento expressivo e continuado de realização de grandes eventos esportivos internacionais, culminando na futura realização da Copa do Mundo FIFA de futebol masculino de 2022.

Apesar de sua pequena população de nacionais, o país já conquistou quatro medalhas de bronze nos Jogos Olímpicos de verão, mais do que seu influente e proporcionalmente populoso vizinho, a Arábia Saudita. Dos quatro, apenas as duas medalhas obtidas em Londres 2012 (no tiro e no salto em altura, masculinos) foram conquistadas por nacionais catari. As outras duas foram resultado da política de nacionalização de atletas, que afeta diversos esportes do país, como o próprio futebol. Entre os jogadores mais convocados pelo técnico uruguaio Daniel Carreño para os jogos pela eliminatória da Copa do Mundo de 2018, pode-se encontrar mais de um time formado por estrangeiros naturalizados, como brasileiros Rodrigo Tabata e Luiz Junior (Ceará). A estratégia não é nova, e jogadores mais famosos como Emerson Sheik e Araújo já defenderam a seleção catari, mas a proximidade da Copa de 2022 no país, na qual o Catar já está classificado por ser país sede, intensifica ainda mais o processo. O mesmo ocorreu no handebol, onde o país sediou a Copa do Mundo do esporte em 2015 e montou uma equipe com grandes jogadores naturais de outros países, terminando na segunda colocação do evento.

A política de naturalização de atletas tem alcance limitado, especialmente no futebol, onde a FIFA impôs a regra de que no caso de um atleta já ter jogado pela seleção profissional de um país, não pode atuar por outro, a não ser em casos muito específicos como o de Kosovo (ver post).

Além de buscar o sucesso de suas equipes nacionais, o governo do Catar também busca associar a imagem de seu país com times de sucesso internacional como o Barcelona e o Paris Saint-Germain (PSG). As relações do Catar com esses clubes se deram principalmente através da agência Qatar Sports Investments (QSI), um ramo de investimentos no esporte da Qatar Investment Authority, um fundo soberano do país. Em 2011, a QSI firmou um acordo de patrocínio de camisa com o Barcelona FC, que deu fim à tradição do clube catalão de não utilizar patrocínios comerciais em suas camisas (o clube utilizava o logo da Unicef desde 2006), através da empresa Qatar Foundation, que em 2013 foi substituída pela Qatar Airways, até meados de 2017.

 

Catar e o PSG

Já com o PSG, a ligação foi ainda mais profunda. Em 2011 a QSI comprou o clube e colocou seu CEO, Nasser Ghanim Al-Khelaïfi, como presidente do clube. Al-Khelaïfi é um ex-atleta de tênis, próximo ao xeque Tamim bin Hamad Al-Thani, Emir do Catar. Além de presidente da Federação de Tênis do Catar e diretor da Confederação de Tênis da Ásia, além de ser ex-diretor da rede Al Jazeera. A gestão de Al-Khelaïfi tinha como maior propósito alçar o PSG para a elite do futebol europeu, e para isso foram realizadas diversas contratações de grande peso para a equipe, como as de Neymar (€222 milhões) e Mbappé (€180 milhões), ambas em 2017, entre muitas outras, totalizando mais de 1 bilhão de euros desde 2011. E isso apenas em contratações.

Mas por que o Catar, através da QSI, investiu tanto no futebol, ainda por cima em um clube francês, radicado em Paris? Certamente que não foi apenas para promover o turismo no país. Da mesma forma que o Brasil não gastou R$ 1,4 bilhão no estádio Mané Garrincha, em Brasília, R$ 583 milhões na Arena Pantanal, em Cuiabá, ou R$ 400 milhões na Arena Amazônia, em Manaus, simplesmente para atrair mais turistas para as cidades após a Copa de 2014. Então, quais seriam as possíveis razões que teriam influenciado o Catar a investir tanto no PSG?

Uma das chaves para se compreender o alto investimento catari nos esportes, e mais especificamente no PSG, é a necessidade de diferenciação do país em relação a seus vizinhos do Oriente Médio. O esporte é um dos meios pelos quais o país busca ganhar reconhecimento internacional, seja através da organização de grandes eventos, como a Copa do Mundo de 2022, seja com o patrocínio estampado nas camisas do Barcelona, ou com grandes e chamativas contratações de sua própria equipe na França, o PSG. Ações de branding como essas proporcionam acesso de sua imagem a um mercado mundial de espectadores/consumidores, demonstrando poder econômico, político e cultural.

No caso do Catar, significa ter seu país conhecido não apenas como mais um país boiando no petróleo do Golfo Pérsico, mas como um país cosmopolita, em modernização, mais próximo dos valores culturais ocidentais (ainda que apenas na aparência), elementos profundamente identificados com o esporte. Além do esporte, outros símbolos do Catar que atuam nessa mesma direção são a Qatar Airways, uma das empresas aéreas de maior crescimento nos últimos anos, e a rede Al Jazeera, que desde 2006 passou a ser também transmitida e publicada em inglês, aumentando o seu alcance e dando à rede uma imagem de rede internacional, como uma alternativa à grande mídia ocidental. A rede conta desde 2003 com um canal de esportes, que foi renomeada como beIN Sports em 2012. A transmissão dos principais eventos esportivos, especialmente de futebol, contribuíram muito para essa nova imagem.

James M. Dorsey, chega a afirmar que “o soft power é chave na estratégia de defesa e segurança do Catar”, uma vez que devido à sua diminuta população, o país nunca terá força militar para se defender militarmente, independentemente do equipamento bélico que comprar ou do número de estrangeiros que recrutar para suas Forças Armadas. Ele complementa afirmando que “o esporte é central para uma estratégia de soft power delineada para inserir e popularizar o Catar na Comunidade Internacional, de forma a garantir que o mundo venha em seu auxílio em tempos de necessidade, como no caso da força liderada pelos EUA que expulsaram tropas de ocupação iraquiana do Kuwait em 1990” (link para o artigo de Dorsey).

A projeção internacional gerada por sua participação no futebol seria assim um dos meios utilizados pelo Catar nessa iniciativa de construir soft power. Mas nem tudo são flores. O Catar ainda enfrenta diversas denúncias que vão de encontro à imagem de nação moderna e pacífica que o país procura transmitir, como acusações de financiamento de grupos extremistas islâmicos, de compra de votos para sua escolha como sede da Copa do Mundo de 2022 e de violação de direitos humanos devido a condições extremamente precárias de trabalhadores imigrantes não qualificados – de que trabalhariam em regimes análogos à escravidão. Localmente, o país ainda enfrenta a oposição de vizinhos importantes, uma vez que Arábia Saudita, Egito, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Líbia, Iêmen e Maldivas romperam relações diplomáticas com o governo de Doha e ligações de transporte com o país por um suposto apoio que este estaria dando a grupos extremistas islâmicos. Nesse cenário, o esporte funcionaria como um símbolo de modernidade, estabilidade e paz.

O sucesso do PSG seria assim um dos eixos da política internacional catari de projeção internacional. Neymar seria um importante garoto propaganda, mas a proposta vai além disso. Envolve a criação de uma marca internacional de sucesso. Mas para concluir seu grande objetivo, ainda falta um importante passo para o PSG, a conquista da Liga dos Campeões da UEFA. E para isso o duelo de volta contra o Real Madrid será fundamental. Estaremos acompanhando.

 

Para saber mais:

Dorsey, James. Qatar’s sports-focused public diplomacy backfires. The Turbulent World of Middle East Soccer [online], 03 fev. 2014.

REICHE, Danyel. Investing in sporting success as a domestic and foreign policy tool: the case of Qatar. International Journal of Sport Policy and Politics, 2014.


“Nem no Playstation é tão rápido assim” – o 7 a 1 e a cobertura da mídia alemã

11/02/2018

Elcio Loureiro Cornelsen
(cornelsen@letras.ufmg.br )

No dia 27 de março de 2018, a seleção brasileira de futebol voltará a enfrentar a seleção da Alemanha, em jogo amistoso a ser realizado no Estádio Olímpico de Berlim, como parte da preparação para a Copa da Rússia. Passados pouco mais de três anos e meio desde aquele fatídico 08 de julho de 2014, quando a seleção de Felipão foi derrotada pelo vexatório placar de 7 a 1 pelos comandados de Jürgen Löw em pleno Estádio do Mineirão, pelas semifinais da Copa, as duas seleções voltarão a se enfrentar.

Ainda em nossos dias, aquela partida suscita comentários e indagações. Hoje, dado o distanciamento temporal, pergunta-se sobre a memória do Mineiratzen – Mineiraço, em alemão – e qual seria seu significado para alemães e brasileiros. No caso brasileiro, questiona-se se aquela derrota histórica e superlativa representaria um trauma ou uma vergonha para o torcedor brasileiro. As opiniões são controversas, alguns falam em trauma, chegam a comparar a derrota de 2014 com o Marcanaço de 1950; outros consideram que o sentimento predominante seria o de vergonha, uma vez que o trauma pressuporia uma derrota inesperada de uma equipe franca favorita, uma verdadeira “queda” após a construção de uma expectativa de pleno favoritismo.

Todavia, o que efetivamente ocorreu não foi isso: a seleção brasileira de 2014 não entrou em campo como favorita, o desempenho nas partidas anteriores à da semifinal não a credenciava como tal. Seria, pois, um jogo difícil contra uma seleção que demonstrava, acima de tudo, conjunto. O placar elástico, entretanto, em termos simbólicos, deixaria suas marcas. Aqueles que defendem a noção de trauma para aquela maiúscula derrota afirmam que não se consegue esquecê-la, e nem mesmo os detalhes de sua vivência, seja nas arquibancadas do Mineirão, seja diante de aparelhos de TV nos lares ou mesmo de telões nos bares.

Não obstante, parece-nos haver um elemento distintivo entre o Maracanaço e o Mineiraço: o suposto trauma cedeu lugar ao riso, por assim dizer, um riso terapêutico, algo que não ocorreu em 1950. O mito da derrota de 1950, designada por Nelson Rodrigues de “nossa Hiroshima”, bem ao seu estilo hiperbólico, não integrou em seu discurso o riso que podia atenuá-la. Tal narrativa cristalizou-se por repetir, continuamente, um clima de derrota atestado por um Maracanã em silêncio.

Por sua vez, logo após o 7 a 1, piadas circularam na Internet, e outras tantas circularam de boca em boca nos dias que seguiram. Uma delas era assim narrada: “No dia seguinte, o pessoal da limpeza do Estádio do Mineirão, após uma boa faxina nos vestiários, encontrou mais dois gols da Alemanha”.

Nesse sentido, concordamos com Marcelino Rodrigues da Silva que, num lúcido e breve ensaio publicado naquele contexto, estabelece uma distinção quanto ao mito da derrota de 1950 e o que ocorreu em 2014:

Mas a Copa, afinal, é apenas futebol. O tempo do jogo já passou e a vida voltou ao normal. O tsunami humorístico que se seguiu à derrota brasileira teve o condão de lavar nossa alma e nos deixar livres de qualquer trauma, de qualquer peso na consciência ou na memória. Não restou nada parecido com o que foi (ou imaginamos ter sido) a derrota de 1950. […][i]

O olhar humorado e mesmo irônico para aquela histórica partida também se fez presente na cobertura da mídia na Alemanha. À época, pouco noticiou-se sobre isso na imprensa brasileira. O maior exemplo provém do site da Focus, uma das principais revistas alemãs. Um misto de perplexidade e alegria pela vitória do selecionado alemão fica patente numa matéria, intitulada “Für die Ewigkeit: Der Super-Sieg im Minutenprotokoll” (“Para a eternidade: A vitória magnífica assinalada minuto a minuto”),[ii] e publicada simultaneamente à partida na página online da revista Focus, composta por frases minuto a minuto. Já no momento do segundo gol, marcado pelo centroavante Miroslav Klose, o articulista aponta para o impacto causado na seleção brasileira: “Recorde de gols, a Alemanha amplia, o Brasil chocado”.[iii] O terceiro gol também é acompanhado de um comentário similar: “Estão passados, os brasileiros”.[iv] E o quarto tento, assinalado aos 26 minutos do primeiro tempo, faz com que o articulista não mais se contenha e decrete a classificação antecipada de sua seleção: “Gol da Alemanha, 4 a 0, marcado por Toni Kroos! Khedira e Müller contra-atacam a seleção brasileira, numa jogada fulminante. Final! Ah, isso nem parece verdade. O que é que eles estão fazendo? Solto, Kross manda a bola na rede. Aqui, os torcedores em amarelo e azul choram coletivamente”.[v] E o quinto gol marcado aos 29 minutos faz com que o articulista perca o controle e anuncie efusivamente: “Gol da Alemanha, 5 a 0, marcado por Sami Khedira! Façam as coisas aqui sozinhos. Não tem mais sentido. Cinco a zero. Cinco. Uma cópia do quarto gol, só que desta vez Özil e Khedira tabelam soltos. Khedira é quem, desta vez, manda a bola para as redes. Cinco a zero”.[vi]

Diante dessa sequência de gols, o articulista não mais se contém e dispara uma série de frases que espelham com precisão o calor da emoção diante do inusitado. Há uma pausa temporal entre o 29º minuto, quando Khedira assinalou o quinto gol, e o próximo apontamento, feito no 36º minuto, estabelecendo um longo “silêncio” que significa muito: “Pois é, devagar estamos retomando aqui. Quatro gols em seis minutos, o sistema aqui cai de joelhos. Quando Höwedes marcará mais um?”[vii] Por si só, esse momento é hilário: um minuto a minuto que não se sustentou, dada a emoção e perplexidade  com que o articulista teve de lidar, caindo de joelhos. A ironia também se revela na referência a Benedikt Höwedes, lateral da seleção e um dos jogadores tecnicamente menos hábeis. E aos 40 minutos, um lampejo de misericórdia perpassa a narrativa: “Juizinho, vê se encerra o jogo agora. Os brasileiros só nos dão pena. E os torcedores vêm abaixo coletivamente, no estádio e na praia de Copacabana. Mas muitos ainda incentivam sua equipe”.[viii] Até o final do primeiro tempo marca para o articulista o fim do jogo, dada a vitória parcial avassaladora: “Intervalo, e até dá impressão que é o final da partida”.[ix] Ao iniciar seus comentários no intervalo, uma dura crítica aos jogadores brasileiros: “Nem no Playstation é tão rápido assim. Em algum lugar deve haver uma falha na lógica, um erro na placa mãe. Ou então este não é um jogo de semifinal de Copa. Os caras com as camisas do Brasil são imitações, impostores”.[x]

Em 2014,  foi escrito um capítulo triste da história do futebol brasileiro. Os mitos do “jogo bonito”, do “futebol arte”, da “pátria em chuteiras” não mais se sustentam como tal. Em Moscou, um novo capítulo dessa história será escrito. Inegavelmente, um desafio para o técnico Tite e seus comandados: o de recuperar o prestígio da seleção brasileira construído por décadas. Superar a vergonha ou o trauma parece estar no horizonte da Copa da Rússia. Antes, o amistoso de março será não só um desafio, o reencontro das duas seleções, desta vez em terreno germânico, como também um momento de despertar fantasmas da derrota. No caso alemão, o discurso que se cristalizou desde aquele 08 de julho de 2014 foi pautado por um tom heroico com relação ao desempenho da seleção, como também de uma mescla de respeito, ironia e certo humor ao olhar o desempenho limitado da seleção brasileira. Espera-se que esse novo capítulo da história a ser escrito nos próximos meses represente uma retomada de curso na trajetória do futebol pentacampeão.

Notas

[i] SILVA, Marcelino Rodrigues da. O que foi feito do país do futebol? In: SILVA, Marcelino Rodrigues da. Quem desloca tem preferência: ensaios sobre futebol, jornalismo e literatura. Belo Horizonte: Relicário, 2014, p. 285-288, aqui p. 288.

[ii] FÜR DIE EWIGKEIT: Der Super-Sieg im Minutenprotokoll. Focus, 09 jul. 2014. Disponível em: http://www.focus.de/sport/fussball/wm-2014/deutsches-team/wm2014-halbfinale-live-d_id_3976186.html. Acesso em: 11 dez. 2014.

[iii] No original: “Torrekord, Deutschland obenauf, Brasilien geschockt.” Ibidem.

[iv] No original: “Sie sind fertig, die Brasilianer.” Ibidem.

[v] No original: “TOR für Deutschland, 0:4 durch Toni Kroos! Khedira und Müller kontern Brasilien auseinander, dass es nur so qualmt. Finale! Ach, komm, das ist doch nicht wahr. Was machen die den da? Kross schiebt locker ein. Hier heulen kollektiv die Fans in Gelb und Blau.” Ibidem.

[vi] No original: “TOR für Deutschland, 0:5 durch Sami Khedira! Macht doch euer Zeug hier alleine. Hat doch keinen Zweck mehr. Fünf zu null. Fünf. Eine Kopie des vierten Tors, nur diesmal schieben sich Özil und Khedira den Ball locker zu. Khedira ist diesmal derjenige, der ihn über die Linie drückt. Fünfnull.” Ibidem.

[vii] No original: “So, langsam kommen wir hier hinterher. Vier Toren in sechs Minuten, da geht hier das System in die Knie. Wann macht Höwedes noch eins?” Ibidem.

[viii] No original: “Schiri, mach doch einfach Schluss jetzt. Die Brasilianer tun einem nur leid. Und die Fans brechen kollektiv zusammen, im Stadion und an der Copacabana. Viele feuern ihre Mannschaft aber weiterhin unentwegt an.” Ibidem. No original: “Schiri, mach doch einfach Schluss jetzt. Die Brasilianer tun einem nur leid. Und die Fans brechen kollektiv zusammen, im Stadion und an der Copacabana. Viele feuern ihre Mannschaft aber weiterhin unentwegt an.” Ibidem.

[ix] No original: “Halbzeit, und es fühlt sich wie der Schlusspfiff an.” Ibidem.

[x] No original: “Das geht sonst nicht mal auf der Playstation so schnell. Irgendwo muss ein Loch in der Logik sein, ein Fehler in der Matrix. Oder das ist gar kein WM-Halbfinale. Die Typen da in Brasilien-Trickots sind Attrapen, Hochstapler.” Ibidem.

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O futebol feminino no Brasil e na América do Sul: um breve olhar

06/02/2018

Eduardo de Souza Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

Em janeiro passado, se deu início mais uma edição da Copa Libertadores da América de futebol masculino. Enquanto a competição masculina atrai mais uma vez os holofotes da modalidade na América do Sul, buscarei neste pequeno texto abordar um pouco da versão feminina da competição organizada pela Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), assim como estabelecer um panorama da modalidade no continente como um todo. Destaco, desde já, que a análise foi aqui realizada de forma superficial, buscando mais questões quantitativas do que qualitativas, de forma que possa suscitar a curiosidade do leitor e, quem sabe, fazer com que estudos mais específicos surjam a partir de então.

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Chapecoense-BRA x Nacional-URU, em jogo válido pela segunda fase da Copa Libertadores da América 2018 (31/01/2018). Fonte: http://www.gazetapress.com/pauta/54797/copa_libertadores_da_america_2018__chapecoense_x_nacional__uru_

Em 1960, a Conmebol começou a organizar, de maneira oficial, competições de clubes no cenário sul-americano, tendo como marco a criação da Copa Libertadores da América de futebol masculino. Atualmente, essa continua sendo a principal competição organizada pela entidade no continente. Além dessa, nos dias atuais também ocorrem a Copa Sul-Americana e a Recopa Sul-Americana. Entre as competições intercontinentais, destacamos a Copa do Mundo de Clubes FIFA (disputada pelo campeão da Copa Libertadores) e a Copa Suruga Bank (confronto realizado entre o campeão da Copa Sul-Americana e o vencedor da Copa da Liga Japonesa).

Além dessas, outras competições organizadas pela entidade já não existem mais, porém também são entendidas como competições oficiais. São essas: Supercopa da Libertadores (1988-1997), Copa Conmebol (1992-1999), Copa Mercosul (1998-2001), Copa Merconorte (1998-2001), Copa Master da Supercopa (1992-1995), Copa Master da Conmebol (1996), Copa Ouro (1993-1996), Copa Ibero-americana (1994) e Copa Interamericana (1968-1998). No âmbito intercontinental, podemos citar a Recopa Intercontinental (1968-1969) e a Copa Intercontinental (1960-2004), tendo essa última antecedido a atual Copa do Mundo de Clubes FIFA. No ano passado, segundo informação divulgada no site da Conmebol, a FIFA sinalizou pelo reconhecimento dessa competição enquanto um título mundial oficial, tendo essa decisão sido tomada a partir de uma solicitação da própria entidade sul-americana.

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Proposta da Conmebol de reconhecimento dos títulos da Copa Intercontinental como mundiais. Fonte: https://twitter.com/agdws/status/923846229922123776/photo/1

Além disso, algumas competições, mesmo não tendo sido organizadas pela Conmebol, foram chanceladas pela entidade. Um exemplo é o Campeonato Sul-Americano de Clubes campeões, organizado em 1948 pela equipe chilena Colo Colo e vencido pelo brasileiro Vasco da Gama. Mesmo durante muito tempo não tendo sido reconhecido oficialmente como competição continental, esse título passou a ter a chancela da Conmebol em 1997, quando a pedido do C. R. Vasco da Gama, a entidade permitiu que a equipe disputasse a Supercopa da Libertadores daquele ano. Como essa competição só era disputada por equipes vencedores da Copa Libertadores (e até então o Vasco nunca havia ganho a competição, fato que alcançaria em 1998), a participação do Vasco como campeão do torneio em 1948 demonstra o reconhecimento da entidade para essa disputa como sendo o primeiro grande campeonato sul-americano de clubes e o percussor da Copa Libertadores, que se iniciaria doze anos depois.

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Equipe do Vasco da Gama campeã do Sul-Americano de Clubes em 1948. Fonte: Centro de Memória C. R. Vasco da Gama

Mesmo com todo esse desenvolvimento e número de competições no masculino, o futebol feminino, entretanto, historicamente sempre se manteve em uma posição de desigualdade. Essa situação é muito explicada pela posição patriarcal e machista da sociedade em que estamos inseridos que, dentre outras esferas, também exerceu seus reflexos no âmbito do futebol. Assim, mesmo com avanços, o futebol feminino sempre esteve muitos passos atrás do masculino. Se compararmos com outras modalidades esportivas, no que diz respeito a posição da prática entre homens e mulheres, veremos que o futebol exacerba ainda mais tal discrepância no contexto sul-americano, muito devido a espetacularização e o mercado alcançados no masculino.

Mesmo com esse cenário, o avanço do futebol feminino no continente, ainda que com passos lentos, tem ocorrido. No senso comum, poucos conhecem e/ou acompanham as competições da modalidade, principalmente se comparado com o futebol masculino. Todavia, no que se refere a formação de um campo, tal cenário teve sensíveis modificações nas últimas décadas.

Se ainda não podemos falar, nem de perto, que o futebol feminino alcançou um posto similar ao do futebol masculino, que é um objeto a parte, pelo menos conseguiu desenvolver competições e estabelecer um status antes não imaginado. No Brasil, por exemplo, o avanço do futebol feminino se deu, com maior força, a partir dos anos 1990, tendo desde então consolidado um selecionado nacional que se destaca ano após ano entre os mais fortes do mundo.

Mesmo sem nunca ter ganho uma Copa do Mundo, o selecionado brasileiro feminino já foi vice-campeão mundial em 2007; medalha de prata nos Jogos Olímpicos de verão em Atenas 2004 e Pequim 2008; além de seis vezes campeão da Copa América. Jogadoras como Cristiane, Formiga e Marta, entre outras, ganharam muito destaque nos últimos anos, tendo essa última sido eleita pela FIFA a melhor jogadora do mundo por cinco vezes seguidas entre 2006 e 2010.

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A brasileira Marta foi eleita por cinco vezes consecutivas a melhor jogadora de futebol do mundo pela FIFA (2006/07/08/09/10) Fonte: http://www.huffpostbrasil.com/2015/12/10/o-passo-a-passo-de-marta-para-superar-pele-como-maior-artilheira_a_21687431/

No continente sul-americano como um todo, o avanço de competições entre seleções femininas de futebol também é notável, tendo o Campeonato Sul-Americano de Futebol Feminino (organizado pela Conmebol e também conhecido como “Copa América feminina”) tido sete edições desde 1991, com seis vitórias do Brasil e uma da Argentina, em 2006, onde as brasileiras foram vice-campeãs. A oitava edição da competição ocorrerá nesse ano de 2018, no Chile.

No âmbito maior, a Copa do Mundo (com sete edições desde 1991) e os Jogos Olímpicos de verão (com seis edições desde Atlanta 1996) continuam sendo, globalmente, as principais competições do futebol feminino. Os melhores resultados de selecionados sul-americanos nessas competições foram também alcançados pela seleção brasileira, que como já explicitado, foi vice-campeã mundial em 2007 e olímpica em 2004 e 2008. Fora do cenário sul-americano, mas ainda na América, é inegável o domínio dos Estados Unidos no futebol feminino, tendo sua seleção já ganho quatro medalhas de ouro olímpicas e três Copas do Mundo, dividindo com seleções como Alemanha, Noruega e Japão, o posto de seleções nacionais mais vitoriosas na história do futebol feminino.

No âmbito dos clubes, o abismo para o futebol masculino ainda continua grande e se faz maior até do que os eventos de seleções (pelo menos no que se diz respeito ao público que acompanha e aos patrocínios). No Brasil, a realização de competições como a Copa do Brasil (de 2007 a 2016) e o Campeonato Brasileiro (a partir de 2013), fizeram com que a formação de equipes femininas no país aumentasse no interior dos clubes. Porém, com a suspensão da Copa do Brasil feminina em 2017 pela CBF, novamente a falta de incentivo se tornou evidente na organização da modalidade no país, dificultando o mantimento e investimento em atletas por parte das equipes

A Copa Libertadores da América de futebol feminina teve seu início em 2009. Desde então, os clubes brasileiros são os recordistas de conquistas, o que evidencia ainda mais a necessidade de se investir nas atletas que representam as equipes do país. Entre os nove campeões, sete são clubes brasileiros: Santos (2009 e 2010), São José (2011, 2013 e 2014), Ferroviária (2015) e Audax, em parceria com o Corinthians (2017). Completam a lista o chileno Colo Colo (campeão em 2012) e o paraguaio Sportivo Limpeño (vencedor em 2016).

É de destaque que, sem os holofotes do futebol masculino, equipes de menor expressão na modalidade entre os homens, alcançaram notáveis resultados com as mulheres. São os casos de São José e Ferroviário, equipes brasileiras de pouca expressão no futebol masculino, mas campeãs da América entre as mulheres (o Audax, apesar de pouca expressão no masculino, foi campeão da América em 2017 no feminino com uma equipe formada em parceria com o Corinthians). Além da parceria entre Audax e Corinthians, que juntaram “grandes e pequenos”, a grande exceção à regra é o Santos, bicampeão da Libertadores entre as mulheres, tendo também ganho três vezes a competição na história entre os homens.

A vitória da Libertadores de 2017 foi exaltada com grande entusiasmo pelas diretorias de Corinthians e Audax. A parceria entre os clubes para formar a equipe vencedora demonstra como o futebol feminino ainda carece de patrocínios e outras formas de investimentos, tendo sido a junção de dois clubes a solução encontrada para unirem forças e alcançarem grandes conquistas. No caso do São José, tricampeão da Libertadores e campeão mundial em 2014, quando clicamos no link “elenco” no site do clube, automaticamente é aberta uma nova página com todos os atletas do futebol masculino, sem nenhuma menção feita em relação as atletas do time feminino, mesmo tendo sido com essas as principais conquistas da história do clube, já que no futebol masculino seus títulos são inexpressivos.

Se são, entre outros motivos, títulos como o da Libertadores que caracterizam um clube como sendo ou não grande, a não elevação das equipes femininas campeãs da América ao mesmo patamar alcançado pelos times masculinos, nos demonstra o quanto ainda é marginal a posição do futebol praticado por mulheres. Todavia, o que poderia ser um motivo de desânimo, tem se tornado uma causa de luta para as meninas que ainda sonham em fazer do futebol uma forma de profissão e levar a vida. Se é a Copa Libertadores da América um campeonato que, como já fica explicito em seu nome, simboliza as lutas pela libertação do continente americano, a presença de uma competição feminina de futebol dentro desse cenário, se faz também mais que necessária e importante para continuarmos avançando com a quebra dos padrões patriarcais estabelecidos e com o fim das desigualdades de gêneros existentes dentro da sociedade.

 

 

 


Televisão, Futsal e Regionalismo: A Copa Rio Sul

29/01/2018

André Couto

Olá, leitores (as):

Neste meu primeiro post de 2018, gostaria de apresentar para quem ainda não conhece a Copa Rio Sul de Futsal (antiga Copa TV Rio Sul de Futsal).

Já temos ao longo da história do esporte vários exemplos de como os meios de comunicação interagiram com o campo esportivo, não apenas na cobertura e publicização dos eventos e práticas esportivas, mas na criação de alguns destes fatos.

A própria Corrida Internacional de São Silvestre, já tratada aqui neste blog, foi idealizada pelo jornal A Gazeta de Cásper Líbero. No Rio, por exemplo, vários eventos esportivos foram patrocinados e “inventados” por jornais como o Correio da Manhã e o Jornal dos Sports (neste caso, vale a pena citar os Jogos da Primavera).

Carrossel Copa Rio Sul Futsal 300 (Foto: Editoria de arte)

A imagem acima é o brasão comemorativo dos 25 anos do torneio, lançado em 2017. Fonte: http://globoesporte.globo.com/rj/sul-do-rio-costa-verde/copa-rio-sul-de-futsal/noticia/2017/03/copa-rio-sul-de-futsal-comeca-neste-sabado-veja-quem-entra-em-quadra.html.

No caso de nosso objeto, o torneio de futsal fora idealizado para integrar as cidades que compõem a região sul e costa verde do Estado do Rio de Janeiro.

Mesorregião do Sul Fluminense
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Mesorregi%C3%A3o_do_Sul_Fluminense

Além da Mesorregião do Sul Fluminense delimitada no mapa acima (compondo os municípios de  Angra dos Reis, Barra do Piraí, Barra Mansa, Itatiaia, Paraty, Pinheiral, Piraí, Porto Real, Quatis, Resende, Rio Claro, Rio das Flores, Valença e Volta Redonda), há uma visão mais estendida de região acrescentando as microrregiões de Vassouras (Engenheiro Paulo de Frontin, Mendes, Miguel Pereira, Paracambi, Paty do Alferes e Vassouras) e Três Rios (Areal, Comendador Levy Gasparian, Paraíba do Sul, Sapucaia e Três Rios). Esta aglutinação de municípios leva em conta o aspecto cultural e histórico da região (parte dela era produtora de café no século XIX) e a gestão administrativa do estado fluminense, por exemplo.

A TV Rio Sul, então, criaria em 1993 a primeira edição do torneio de Futsal que ao longo dos anos foi ganhando mais evidência não apenas pela emissora (afiliada na região da Rede Globo de Televisão), mas também porque fora publicizado pelos jornais e revistas dos diversos municípios envolvidos. Há que se destacar que o proprietário da TV Rio Sul, Arnaldo César Coelho, principal comentarista de arbitragem nas principais transmissões de futebol de campo da Rede Globo, é considerado o idealizador da competição. Arnaldo, ligado ao esporte na sua vida pessoal (em campo como ex-árbitro e na televisão) investira em um “produto” que poderia trazer lucro para sua empresa e popularizar o futsal na região.

O torneio, que é disputado por atletas representando os municípios e não os clubes, passou a criar rivalidade interregional, inclusive com brigas entre torcidas organizadas.

Sobre a violência no torneio, inclusive entre integrantes da comissão técnica e atletas, veja a matéria de um jogo entre Vassouras e Rio Claro, realizado em 2017:

http://g1.globo.com/rj/sul-do-rio-costa-verde/rjtv-1edicao/videos/v/copa-rio-sul-de-futsal-envolvidos-em-confusao-no-jogo-rio-claro-x-vassouras-sao-punidos/5870208/

Desta forma, mas não apenas por este motivo, a competição possibilitou ampliar o sentimento local de pertencimento, mesmo oriundo de uma prática desportiva pouco incentivada na programação das emissoras de televisão e da imprensa esportiva. A prática do futsal, que tem espaços privilegiados nas escolas e praças públicas das cidades brasileiras, não tem um impacto mais ampliado nas arquibancadas dos jogos e na cultura esportiva e de lazer se compararmos com o futebol de campo, principalmente em relação à identidade clubística.

Outro fator relevante é que a competição não envolve diretamente a Federação de Futsal do Rio de Janeiro. Pelo menos, não localizamos no site desta instituição, nenhuma menção à Copa Rio Sul, o que chama bastante a atenção, tendo em vista a evidência midiática do torneio.

Não temos como analisar profundamente o impacto do torneio na economia local, assim como o grau preciso de adesão dos moradores/torcedores locais. Todavia, o torneio se tornou também um caminho bem lucrativo para a TV Rio Sul captar patrocínios para sua grade comercial.

No documento que apresenta o plano comercial do evento de 2018, há um informe de que cerca de mais de 4.000 torcedores estarão mobilizados e serão criados cerca de 12,6 milhões de impactos individuais (a partir das entradas e vinhetas nos intervalos de vários programas nacionais da emissora). Todavia, o que chama mais a atenção é o valor total do plano: R$ 138.000,00 (divididos em veiculação de televisão, propriedade de arena – produção e promoção e cross mídia). Ver mais detalhes da proposta comercial no documento disponível em: http://www.comercialonline.tv.br/Imagens/Oportunidades/Oportunidades_298_pdf_20171214170101.pdf.

Sobre o torneio há uma previsão de que o mesmo mobilize as cidades entre 3 de março e 2 de junho, com previsão de 20 equipes divididos em 4 grupos e jogos em turno e returno. A partir daí, 8 se classificam para a fase de quartas de final e segue até a final, televisionada ao vivo pela TV Rio Sul.

Aliás, sobre a mobilização da emissora na cobertura do evento, veja o vídeo abaixo sobre a final de 2016, disputada entre Mendes e Piraí:

http://g1.globo.com/rj/sul-do-rio-costa-verde/rjtv-2edicao/videos/v/transmissao-da-final-da-copa-rio-sul-de-futsal-envolve-toda-a-equipe-da-tv-rio-sul/5040682/

Assim como em vários dos eventos esportivos que impactam nossa sociedade, não encontrei nenhum trabalho acadêmico que discutisse este torneio, mesmo de forma periférica. Algumas das muitas perguntas possíveis são relevantes: qual a participação financeira das prefeituras locais na formação e manutenção destas equipes? Qual é o grau de mobilização dos munícipes nos jogos? De onde vêm e quem são estes “torcedores organizados”? O que fazem os atletas depois da realização do torneio?

Bem, fica a dica de como podemos conhecer um pouco mais da vida e a história social no estado do Rio de Janeiro, ao compreender a prática esportiva e cultural em que as pessoas estão e são envolvidas, sejam nas quadras, nas discussões em praças públicas ou ainda pela tela da televisão.

Abaixo, apenas para título de curiosidade, segue a lista dos campeões desde o ano de 1993. Em destaque, a cidade de Barra Mansa que conquistou 11 títulos.

Ano Campeão
1993 Barra do Piraí
1994 Volta Redonda
1995 Barra do Piraí
1996 Areal
1997 Barra Mansa
1998 Barra Mansa
1999 Barra Mansa
2000 Barra Mansa
2001 Barra Mansa
2002 Barra Mansa
2003 Barra Mansa
2004 Barra Mansa
2005 Volta Redonda
2006 Barra Mansa
2007 Barra Mansa
2008 Vassouras
2009 Vassouras
2010 Vassouras
2011 Vassouras
2012 Valença
2013 Piraí
2014 Mendes
2015 Três Rios
2016 Mendes
2017 Barra Mansa

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Copa_Rio_Sul_de_Futsal.

Algumas histórias e imagens da competição podem ser vistas no vídeo abaixo:

Logo a seguir, outro vídeo sobre a final de 2017.


A juventude sônica de Spike Jonze

15/01/2018

Por Leonardo Brandão (brandaoleonardo@uol.com.br)

É com muita alegria que escrevo este primeiro texto para “História(s) do Sport”, blog que já acompanhava há um tempo e que fui convidado para escrever sobre as relações entre história, juventude e esportes radicais. Neste texto inaugural, quero retomar a conversa iniciada pelo Rafael Fortes neste blog, em texto publicado no dia 27/11/2017 e que teve o seguinte título: “Videoclipe como fonte histórica”. Nele, Fortes abordava algumas possibilidades para se compreender o videoclipe, na esteira dos estudos sobre cinema, música e imagens, como mais uma possibilidade de fonte para a história dos esportes, do lazer e dos divertimentos com o corpo.

Pensemos que o videoclipe é algo que envolve a produção, necessariamente, de música com imagens em movimento. De fato, existe uma relação muito rica entre os chamados “esportes radicais” (ou “esportes californianos”) com a música, em especial, com o rock e seus matizes. E essa relação não começou hoje, ela tem uma – ou várias – história(s). Parte dessas histórias podemos observar em determinados videoclipes de bandas que fizeram uso dessas práticas. Esses videoclipes, ainda subutilizados para a pesquisa histórica, podem nos servir como um farto material de análise e reflexão.

Aqui, não pretendo realizar uma análise, mas apenas algumas considerações sobre um videoclipe lançado no ano de 1992. Trata-se do videoclipe da canção “100%”, da banda norte-americana “Sonic Youth”. Além disso, irei trazer algumas informações sobre seu diretor, chamado Spike Jonze. Minha intenção é apenas chamar à atenção para esse videoclipe, para a obra de Spike Jonze e suas relações com o skate. Num futuro breve, talvez isso possa motivar análises e discussões mais consistentes. Primeiramente, entretanto, vamos assistir ao videoclipe:

Sonic Youth foi uma banda formada no ano de 1981 na cidade de Nova York. A proposta musical da banda girou em torno do chamado “rock alternativo”, trazendo elementos do pós-punk e do noise. Um dos seus integrantes marcantes foi sua baixista, Kim Gordon. Ela, filha de um professor de sociologia, formou-se em Artes Plásticas na UCLA (Universidade de Los Angeles). Gordon roubava as cenas nas apresentações da banda, se declarava feminista e surfava nas horas vagas. A música do clipe acima, “100%”, foi lançada no ano de 1992, sendo o primeiro single do álbum “Dirty” (o sétimo do conjunto). Essa música foi escrita em homenagem a Joe Cole, um amigo dos membros da banda, que acabou morto por um homem armado em 1991.

“100%” é uma canção que fala de uma garota que se apaixona por um rapaz sem grana, mas que “mexia com as garotas” e que acabou assassinado. O fato dele não ter grana não era um problema.  Num certo momento de êxtase, a canção diz: “All I know is you got no money but that’s got nothing to do with a good time” (“tudo o que sei é que você não tem dinheiro, mas isso não tem nada a ver com um tempo bom”). E, neste momento do vídeo, um skatista olha para a sua carteira vazia, sem dinheiro, mas com um sorriso nos lábios, e continua a andar de skate pela cidade.

Mas o que vemos sobre skate neste videoclipe? Simplesmente boas manobras pela cidade. Mas isso – apenas – já não nos diz muito sobre o que era essa atividade juvenil no início da década de 1990? O skate neste período, sobretudo o skate de rua, pode ter sido predominantemente praticado por diversão, sem grandes pretensões mercadológicas, sem muitos ídolos milionários. Em uma palavra: sem muita grana envolvida. Jason Lee, o principal skatista que aparece nesse vídeo (ao lado de Guy Mariano), era tão somente um talentoso skatista de rua (e não o célebre Jason Lee que conhecemos hoje, famoso por ter sido o protagonista do seriado “My name is Earl”, e indicado como melhor ator para o Globo de Ouro nos anos de 2006 e 2007).

O videoclipe apresenta duas tomadas, uma com a banda tocando a música num show dentro de uma casa, com jovens bebendo e esparramados pelos sofás, e outra nas ruas, onde os skatistas aparecem fazendo manobras pela cidade. Esse clipe foi dirigido por Spike Jonze, que na época era tão somente um jovem que gostava de filmar seus amigos praticando skate (e praticava junto também).

Spike Jonze começou a se interessar por esportes alternativos quando jovem, aos 15 anos, e se interessou primeiramente pela BMX. Ele foi o fundador da revista Dirt, uma publicação direcionada para o mundo das bicicletas. Mas, logo em seguida, veio a paixão pelo skate e sua profissionalização enquanto diretor de videoclipes de bandas musicais.

Após “100%”, Spike dirigiu, em 1994, o videoclipe da música “Sabotage” dos Beastie Boys; e depois muitos outros, de bandas como: Fatboy Slim, Weezer, Chemical Brothers, R.E.M, Björk etc. Dirigiu também muitos filmes de skate, como “Goldfish” (1994), “Las Nueve Vidas De Paco” (1995), “Mouse” (1996), “”Chocolate Tour”” (1999), “Yeah Right!” (2003) e “Fully Flared” (2007), considerado seu melhor trabalho com o skate. Dos videoclipes para o cinema foi um caminho rápido. A primeira experiência veio em 1999, com o longa “Como ser John Malkovich”. Neste mesmo ano ele se casou com Sofia Coppola (filha de Francis Ford Coppola), com quem veio a se divorciar em 2009, no mesmo ano em que dirigiu o longa “Onde vivem os monstros”, uma adaptação de um livro do ilustrador Maurice Sendak, de 1963. Seu sucesso mais recente foi “Her”, de 2014, que conquistou cinco indicações ao Oscar.

Mas retornando ao videoclipe de “100%”. O que nos vem à mente quando o assistimos? O skate está lá, ele é um elemento central, mas sem pretensões, apenas skate de rua, improvisos, escadas, corrimãos. Do ponto de vista técnico, aparecem manobras desafiadoras para a época, como os truques em corrimão, escadarias e, certamente, o salto que finaliza o vídeo, executado por Jason Lee, um pulo seguido de uma virada de 180 graus de costas no ar, realizado com estilo e leveza (o nome da manobra em inglês é “backside ollie 180”).

Recuperando algumas ideias lançadas pelo Rafael Fortes no texto “Videoclipe como fonte histórica”, podemos atinar para os seguintes elementos: “Ano/época/contexto/lugar” de produção deste videoclipe, o que nos ajuda a pensar o início da década de 1990. Para uma análise de fato deste videoclipe, quantos elementos não seriam necessários? A noção de Tribos Urbanas, a ideia da cidade apropriada para diversão (qual cidade aparece no vídeo? Los Angeles?), o skate como arte corporal (como contracultura? Como subcultura? Como esporte?) e, além disso: Esse videoclipe dialoga com outras produções dessa mesma época? Creio que sim, e o mais emblemático talvez seja o filme Kids, produzido no ano de 1994 e dirigido por Larry Clark.

Falaremos sobre Kids em um outro momento. Por enquanto, ficamos com a inquietação: como melhor aproveitar esse rico universo dos videoclipes para a pesquisa em história dos esportes, em especial, para a história dos esportes californianos? Não somente o skate, mas o surfe, a BMX e tantos outros. Essa é uma ideia ainda inicial, em desenvolvimento, mas não podemos fechar os olhos para o seu grande potencial.