A primavera (do futebol) Australiano; ou lá vem a segunda divisão?

27/03/2017

Por Jorge Knijnik

Para MaguiLeo e a Rua Javari

Ao final de 2010 e começo de 2011 uma onda revolucionaria varreu diversos países árabes do Oriente Médio e do Norte da África. A ‘Primavera Árabe’, ou a ‘Primavera da Democracia’, teve inicio na Tunísia em 17 de dezembro de 2010 e rapidamente se alastrou para diversos países da região, tais como o Egito, Líbia, Síria, Argélia, Iraque, Sudão, entre outros. Centenas de manifestações, marchas e protestos, alguns pacíficos outros mais violentos, varreram as ruas destes países: apesar de agendas variadas e de terem obtido resultados bem diferentes, estes movimentos traziam o mesmo mote: Ash-sha`b yurid isqat an-nizam, palavras árabes para o slogan ‘o povo quer derrubar o regime’.

 

ultras egito

Há poucas semanas uma rebelião começou a ser gestada no futebol australiano; apesar do curto espaço de tempo, esta revolta já vem inclusive chamando a atenção internacional. Em alusão ao movimento árabe do inicio da década, e demonstrando plena consciência do que se passa no futebol neste canto do mundo, alguns dirigentes da FIFA rapidamente qualificaram esta insurreição incipiente como a ‘primavera do futebol Australiano’.

¿Pero que passo? Quais as razões que levaram um movimento de clubes de futebol a ser comparado, mesmo que metaforicamente, a verdadeiras revoluções que tentaram mudar estruturas de poder arcaicas, mas profundamente arraigadas em algumas sociedades?

A resposta pode ser encontrada na historia recente do futebol na Austrália e no preconceito ainda existente contra comunidades estrangeiras e seu esporte predileto; mas também deve ser compreendida nos termos da crescente comodificação do futebol no mundo e neste país também

A Austrália é um país relativamente novo, formado por dezenas de grupos socioculturais e étnicos diferentes, que chegaram ( e ainda chegam) por aqui em diversos períodos destes duzentos e poucos anos. Obviamente, muitos imigrantes chegaram de mãos abanando, fugindo de guerras e perseguições; mas trouxeram algo muito importante dentro de si: as suas culturas, sendo que muitos destas tinham algo em comum: o futebol. Assim, pouco a pouco, diversos clubes étnicos (o clube português, clube sírio, italiano, grego, judaico, macedônio, sérvio, croata, entre tantos outros) foram se formando. Muitas vezes certas comunidades que vieram em massa para a Austrália, conseguiam fundar mais de um clube em cidades diferentes ou ate mesmo em uma mesma cidade, como é o caso dos gregos e dos italianos.

Nestes clubes, uma tradição em comum: o futebol, atividade competitiva onde cada  comunidade se esforçava para fazer o seu melhor, brilhar e ganhar. Como abordei ligeiramente no meu post sobre “Aborígenes, futebol e racismo na Austrália”, certos clubes contratavam jogadores de outras comunidades para reforçarem seus elencos.

A modalidade foi crescendo e em 1974 a seleção Australiana de futebol (os Socceroos) conquistaram pela primeira vez uma vaga nas finais da Copa do Mundo. O ímpeto desta participação gerou um frenesi na comunidade futebolística e levou a criação na National Soccer League (NSL – Liga Nacional de Futebol) em 1977.  Aqui é importante que o leitor fique  atento as diferenças entre o ‘soccer’ e o ‘football’, pois estas são importantes para se entender a ‘primavera do futebol australiano’ que mencionei inicialmente.

A NSL (soccer) funcionou durante quase três décadas, gerida inicialmente pela Australian Soccer Federation que posteriormente virou a Soccer Australia. Sua primeira divisão era formada por 14 clubes, e dezenas de outros nas divisões inferiores; estes clubes, majoritariamente constituídos por comunidades étnicas, formaram diversas gerações de futebolistas australianos, inclusive aquela que os saudosistas denominam da ‘Geração de Ouro’ que não apenas levou os Socceroos as finais de uma Copa novamente, depois de mais de 30 anos de espera, mas também conquistou a primeira vitória da seleção Australiana em Copas do Mundo, ao bater o Japão na Alemanha por 2 x 1. Entretanto, estes mesmos clubes e a própria liga sempre foram vitimas de muito escrutínio e preconceito, em virtude de algumas rivalidades étnicas (sérvios e croatas, por exemplo) extrapolarem os campos e terminarem em  violentos confrontos físicos.

 

australia_soccer

Estes incidentes, somados a uma crescente migração de jogadores australianos para a Europa e as  dificuldades em se conseguir patrocínio para uma modalidade que nunca foi a primeira nos corações poliesportivos australianos (bom lembrar que aqui há dois tipos de rúgbi, o cricket, o netball, o AFL…)  trouxeram crescentes  problemas administrativos e financeiros para a National Soccer League. Em 2003, o governo federal encomendou uma auditoria independente do soccer australiano. Conhecido como ‘relatório Crawford’, as recomendações desta auditoria atingiram em cheio o coração da modalidade. O relatório concluía que a NSL não era mais economicamente viável e aconselhava a criação de uma nova entidade baseada em um modelo rentável; assim, a temporada 2003-2004 foi a ultima do soccer na Australia. Em 2004, nascia a Federação de Futebol Australiano (FFA) e a Liga australiana de futebol profissional, a A-League.

Muitos comentam que, por trás das cortinas,  a destruição da NSL também teve motivações étnicas. O fato é que a FFA, que teve como seu primeiro presidente ‘imposto’ o mega-bilionario Frank Lowy (dono da Westfield, uma imensa cadeia de shopping centers), criou um modelo de competição extremamente comercializado, na qual os times não eram mais baseados nas diversas comunidades futebolísticas espalhadas pelo pais. A nova A-League, que se iniciou na temporada de 2005-2006 inicialmente com oito times, foi composta por clubes franqueados, pertencentes a grupos milionários, os quais compravam da FFA a licença para participar da competição. Baseados em regiões metropolitanas (Brisbane, Sydney, Melbourne, Perth, Adelaide, Newcastle, Central Coast), o proposito era de que as rivalidades étnicas da época do soccer fossem substituídas pelas disputas regionais que o novo football traria, atraindo assim novos fãs.

Entre avanços e retrocessos, com clubes falindo e novas franquias abrindo, atraindo ‘ex-jogadores em atividade’ como o italiano Alessandro Del Piero, e tendo subido seu numero de participantes para 10 clubes, a A-League sobreviveu e já se encontra hoje em sua 11ª edição. Apesar de ser uma liga de clubes, ela é controlada pela FFA, que inclusive indica o diretor-chefe desta liga.

Os clubes étnicos não se desfizeram; ao contrario, continuaram existindo sob o controle da FFA e das federações estaduais, as quais muitas vezes encaminharam medidas polemicas, tais como proibir quaisquer referencia a símbolos ‘étnicos’ nos uniformes destes clubes. Os diversos clubes comunitários disputam competições sob o guarda chuva da ‘National Premier League’ (NPL), que conta com três divisões. Exatamente aqui que começamos a entender a dimensão da ‘primavera do futebol australiano’.

As centenas de clubes de futebol (de totalmente amadores ate times semiprofissionais) disputam a NPL em seus estados, e os campeões estaduais da 1ª divisão da NPL competem em um torneio em nível nacional, um mata-mata de poucos dias, em uma sede, ao final da temporada. Entretanto, aos vencedores desta competição nacional cabe … continuar disputando esta divisão. Não há sistema de promoção tampouco de rebaixamento para a liga profissional (A-League); o ultimo colocado da A-League pode continuar sossegado que na próxima temporada continuara jogando na mesma divisão.

Exatamente aqui que começa a primavera futebolística. A FFA, a qual desde sua criação esteve sob rígido controle da familia Lowy (em 2015 o patriarca Lowy passou o bastão da presidência da entidade para seu filho Steve, em uma eleição de cartas absolutamente marcadas) vem  há alguns anos sobrevivendo a varias crises. Durante a temporada da A-League de 2015-2016, as torcidas organizadas realizaram boicotes a jogos em virtude de banimentos injustos de torcedores dos estádios, obrigando os dirigentes da FFA a se reunirem com os torcedores e acordarem um compromisso de revisão das punições – o que alias ainda não foi cumprido. Ainda em 2015, os Socceroos realizaram boicotes as atividades de mídia e propaganda da FFA para pressionar por um melhor acordo para os jogadores da seleção, enquanto as jogadoras da seleção feminina (as Matildas) fizeram uma greve por melhores condições de trabalho e na ultima hora não participaram de um torneio agendado nos Estados Unidos.

Mais recentemente, desde meados de 2016, a FFA vem sendo intensamente pressionada pela FIFA a realizar de imediato mudanças para democratizar as estruturas do futebol australiano. Entre estas mudanças, estão a ampliação do colégio eleitoral da FFA – o qual  é o menor e mais fechado dentre todas as federações filiadas a FIFA; a FIFA, juntamente com a Confederação de Futebol Asiática (AFC) exige que a FFA amplie o numero de equipes participantes da A-League (que atualmente esta em 10) bem como implemente um sistema de acesso e descenso. Como se não bastasse, os clubes da A-League, também insatisfeitos com a FFA, querem mudanças e exigem mais poder decisório nos colegiados da entidade.

Entretanto, a ‘primavera do futebol’ vem dos clubes de base. Cansados de esperar por mudanças e apoio da FFA para melhoria das suas estruturas; fartos de serem alijados das decisões centrais do futebol na Austrália apesar de prepararem e fornecerem a maior parte do ‘pé-de-obra’ para os times profissionais sem ganharem quase nada por isso; estes clubes, sentindo o momento delicadíssimo que a FFA atravessa, resolveram se unir, e no inicio de março de 2017 criaram a Associação dos clubes de Futebol Australiano. Na agenda desta Associação, demandas semelhantes as da FIFA; mais poder decisório para o setor dos clubes e por um sistema de acesso e rebaixamento; enfim, o velho soccer contra-ataca e quer fazer parte de verdade do novo football. .

Na pauta Associação e de outros importantes setores do futebol, também está a ampliação da A-League. Fala-se muito da necessidade da inclusão de entre dois a quatro novos times na competição, a curto prazo. A FFA, como sempre, patina e quer mais tempo para a viabilização de um torneio maior. Por outro lado, a midia pressiona pela ampliação, e semanalmente noticia o surgimento de novos contendores para estas vagas, novos clubes a serem criados com o subsidio de milionarios da Australia ou da Asia. De olho neste movimento, os maiores clubes da Associação pleiteam que os clubes ja existentes, com historia  e com mais base regional sejam escolhidos para fazer parte da A-League, e não um clube sem historia mas apenas om dinheiro suficiente para comprar uma licenca junto a FFA.

Esta Associação, que conta com quase 100 clubes de todo o pais, já promoveu sua primeira reunião em Melbourne e tem mantido contato constante com a FIFA, que monitora a situação da FFA bem de perto. Há poucas semanas, Lowy Jr (presidente) e o diretor executivo da FFA foram ate a Suíça, visitar o quartel-general da FIFA. Em seu encontro com o presidente da entidade maior do futebol mundial, eles tentaram negociar um acordo que lhes desse um tempinho para respirar… Mas não foram bem sucedidos. A FIFA  continua insistindo que a democratização das estruturas da FFA aconteça ainda neste mês.

A primeira vista, a comparação de um movimento clubistico de futebol com toda a agitação politica que gerou a ‘Primavera Árabe’ parece exagerada. Afinal, é ‘apenas’ um jogo. Entretanto, se considerarmos que futebol sempre foi um veiculo de integração – ou discriminação – social na Austrália; que, por outro lado, a ‘Primavera Árabe’ foi também gestada em arquibancadas de futebol, onde torcedores organizados continuam se manifestando contra regimes autoritários, talvez possamos, em um exercício de imaginação politica, perceber os paralelos entre ambos movimentos que vieram da base da sociedade. Mais ainda, talvez percebamos que o futebol, apesar da sua crescente comercialização e muitas vezes do seu distanciamento do ‘povo’, continua sendo um elemento social importante para a contestação do autoritarismo e para a organização politica de diversos segmentos sociais.

 

 


A primavera (do futebol) Australiano; ou lá vem a segunda divisão?

26/03/2017

por Jorge Knijnik

Para MaguiLeo e a Rua Javari

Ao final de 2010 e começo de 2011 uma onda revolucionaria varreu diversos países árabes do Oriente Médio e do Norte da África. A ‘Primavera Árabe’, ou a ‘Primavera da Democracia’, teve inicio na Tunísia em 17 de dezembro de 2010 e rapidamente se alastrou para diversos países, tais como o Egito, Líbia, Síria, Argélia, Iraque, Sudão, entre outros. Centenas de manifestações, marchas e protestos, alguns pacíficos outros mais violentos, varreram as ruas destes países: apesar de agendas variadas e de terem obtido resultados bem diferentes, estes movimentos traziam o mesmo mote: ‘Ash-sha`b yurid isqat an-nizam, palavras árabes para o slogan ‘o povo quer derrubar o regime’.

Há poucas semanas uma rebelião começou a ser gestada no futebol australiano; apesar do curto espaço de tempo, esta revolta já vem inclusive chamando a atenção internacional. Em alusão ao movimento árabe do inicio da década, e demonstrando plena consciência do que se passa no futebol neste canto do mundo, alguns dirigentes da FIFA rapidamente qualificaram esta insurreição incipiente como a ‘primavera do futebol Australiano’.

¿Pero que passo? Quais as razões que levaram um movimento de clubes de futebol a ser comparado, mesmo que metaforicamente, a verdadeiras revoluções que tentaram mudar estruturas de poder arcaicas, mas profundamente arraigadas em algumas sociedades?

A resposta pode ser encontrada na historia recente do futebol na Austrália e no preconceito ainda existente contra comunidades estrangeiras e seu esporte predileto; mas também deve ser compreendida nos termos da crescente comodificação do futebol no mundo e neste país também.

 

ultras egito

A Austrália é um país relativamente novo, formado por dezenas de grupos socioculturais e étnicos diferentes, que chegaram (e ainda chegam) por aqui em diversos períodos destes duzentos e poucos anos de historia (sem contar, claro, os 50.000 anos anteriores quando as populações aborígines por aqui viviam). Obviamente, muitos imigrantes chegaram de mãos abanando, fugindo de guerras e perseguições; mas trouxeram algo muito importante dentro de si: as suas culturas, sendo que muitos destas tinham algo em comum: o futebol. Assim, pouco a pouco, diversos clubes étnicos (o clube português, clube sírio, italiano, grego, judaico, macedônio, sérvio, croata, entre tantos outros) foram se formando. Muitas vezes certas comunidades que vieram em massa para a Austrália, conseguiam fundar mais de um clube em cidades diferentes ou ate mesmo em uma mesma cidade, como é o caso dos gregos e dos italianos, por exemplo.

Nestes clubes, uma tradição em comum: o futebol, atividade competitiva onde cada  comunidade se esforçava para fazer o seu melhor, brilhar e ganhar. Como abordei ligeiramente no meu post sobre Aborígenes, futebol e racismo na Austrália, certos clubes contratavam jogadores de outras comunidades para reforçarem seus elencos.

A modalidade foi crescendo e em 1974 a seleção Australiana de futebol (os Socceroos) conquistou pela primeira vez uma vaga nas finais da Copa do Mundo. O ímpeto desta participação gerou um frenesi na comunidade futebolística e levou a criação na National Soccer League (NSL – Liga Nacional de Futebol) em 1977.  Aqui é importante que o leitor fique atento as diferenças entre o ‘soccer’ e o ‘football’, pois estas são importantes para se entender a ‘primavera do futebol australiano’ que mencionei inicialmente.

A NSL (soccer) funcionou durante quase três décadas, gerida inicialmente pela Australian Soccer Federation que posteriormente virou a Soccer Australia. Sua primeira divisão era formada por 14 clubes, e dezenas de outros nas divisões inferiores; estes clubes, majoritariamente constituídos por comunidades étnicas, formaram diversas gerações de futebolistas australianos, inclusive aquela que os saudosistas denominam da ‘Geração de Ouro’ que não apenas levou os Socceroos as finais de uma Copa novamente, depois de mais de 30 anos de espera, mas também conquistou a primeira vitória da seleção Australiana em Copas do Mundo, ao bater o Japão na Alemanha por 2 x 1. Entretanto, estes mesmos clubes e a própria liga sempre foram vitimas de muito escrutínio e preconceito, em virtude de algumas rivalidades étnicas (sérvios e croatas, por exemplo) extrapolarem os campos e terminarem em socos, pontapés e pancadaria gerais.

australia_soccer

Estes incidentes, somados a uma crescente migração de jogadores australianos para a Europa e as dificuldades em se conseguir patrocínio para uma modalidade que nunca foi a primeira nos corações poliesportivos australianos (bom lembrar que aqui há dois tipos de rúgbi, o cricket, o netball, o AFL…) trouxeram crescentes problemas administrativos e financeiros para a National Soccer League. Em 2003, o governo federal encomendou uma auditoria independente do soccer australiano. Conhecido como ‘relatório Crawford’, as recomendações desta auditoria terminaram por nocautear este soccer. O relatório concluía que a NSL não era mais economicamente viável e aconselhava a criação de uma nova entidade baseada em um modelo rentável; assim, a temporada 2003-2004 foi a ultima do soccer na Australia. Em 2004, nascia a Federação de Futebol Australiano (FFA) e a Liga Australiana de futebol profissional, a A-League.

Muitos comentam que, por trás das cortinas, a destruição da NSL também teve motivações étnicas. O fato é que a FFA, que teve como seu primeiro presidente ‘imposto’ o mega-bilionario Frank Lowy (dono da Westfield, uma imensa cadeia de shopping centers), criou um modelo de competição extremamente comercializado, na qual os times não eram mais baseados nas diversas comunidades futebolísticas espalhadas pelo pais. A nova A-League, que se iniciou na temporada de 2005-2006 inicialmente com oito times, foi composta por clubes franqueados, pertencentes a grupos milionários, verdadeiras corporações as quais compravam da FFA a licença para participar da competição. Baseados em regiões metropolitanas (Brisbane, Sydney, Melbourne, Perth, Adelaide, Newcastle, Central Coast, entre outras), o proposito era de que as rivalidades étnicas da época do soccer fossem substituídas pelas disputas regionais que o novo football traria, atraindo assim novos fãs.  Claramente, a nova competição era uma empreitada comercial, distante dos clubes e de suas comunidades. Novas torcidas deveriam ser criadas, sob a égide corporativa.

Entre avanços e retrocessos, com clubes falindo e novas franquias abrindo, atraindo ‘ex-jogadores em atividade’ como Alessandro Del Piero, e tendo subido seu numero de participantes para 10 clubes, a A-League sobreviveu e já se encontra hoje em sua 11ª edição. Apesar de ser uma liga de clubes, ela é controlada pela FFA, que inclusive indica o diretor desta liga.

Os clubes étnicos não se desfizeram; ao contrario, continuaram existindo sob o controle da FFA e das federações estaduais, as quais muitas vezes encaminharam medidas polemicas, tais como proibir quaisquer referencia a símbolos ‘étnicos’ nos uniformes destes clubes. Os diversos clubes comunitários disputam competições sob o guarda chuva da ‘National Premier League’ (NPL), que conta com três divisões. Exatamente aqui que começamos a entender a dimensão da ‘primavera do futebol australiano’.

As centenas de clubes de futebol (de totalmente amadores ate times semiprofissionais) disputam a NPL em seus estados, e os campeões estaduais da 1ª divisão da NPL se reúnem em uma sede única ao final da temporada para, em poucos dias, em um sistema de ‘mata-mata’, decidirem o titulo de campeões nacionais. Entretanto, aos vencedores desta competição nacional cabe … continuar disputando esta divisão. Não há sistema de promoção tampouco de rebaixamento para a liga profissional (A-League); o ultimo colocado da A-League pode continuar sossegado que na próxima temporada continuara jogando na mesma divisão.

Exatamente aqui que começa a primavera futebolística. A FFA, a qual desde sua criação esteve sob rígido controle da familia Lowy (em 2015 o patriarca Lowy passou o bastão da presidência da entidade para seu filho Steve, em uma eleição de cartas absolutamente marcadas) vem  há alguns anos sobrevivendo a varias crises. Durante a temporada da A-League de 2015-2016, as torcidas organizadas realizaram boicotes a jogos em virtude de banimentos injustos de torcedores dos estádios, obrigando os dirigentes da FFA a se reunirem com eles e acordarem um compromisso de revisão das punições – o que alias ainda não foi realizado. Ainda em 2015, os Socceroos realizaram boicotes as atividades de mídia e propaganda da FFA para pressionar por um melhor acordo para os jogadores da seleção, enquanto as jogadoras da seleção feminina (as Matildas) promoveram uma greve em busca de melhores condições de trabalho, forçando a FFA a cancelar, na ultima hora, a participação do time em um torneio já agendado contra a seleção norte-americana nos Estados Unidos.

Mais recentemente, desde meados de 2016, a FFA vem sendo muito pressionada pela FIFA a realizar mudanças imediatas para democratizar as estruturas do futebol australiano. Entre estas mudanças, está a ampliação do colégio eleitoral da FFA – o qual atualmente é o menor e mais fechado dentre todas as federações filiadas a FIFA; a FIFA, juntamente com a Confederação de Futebol Asiática (AFC) também exige que a FFA amplie o numero de equipes participantes da A-League (que atualmente esta em 10) bem como implemente um sistema de acesso e descenso. Como se não bastasse, os clubes da A-League, também insatisfeitos com a FFA, querem mudanças e exigem mais poder decisório nos colegiados da entidade.

Entretanto, a ‘primavera do futebol’ vem dos clubes de base. Cansados de esperar por mudanças e apoio da FFA para melhoria das suas estruturas; fartos de serem alijados das decisões centrais do futebol na Austrália apesar de prepararem e fornecerem a maior parte do ‘pé-de-obra’ para os times profissionais sem ganharem quase nada por isso; estes clubes, sentindo o momento delicadíssimo que a FFA atravessa, resolveram se unir, e no inicio de março de 2017 criaram a Associação dos clubes de Futebol Australiano. Na agenda desta Associação, demandas por mais poder decisório, por um sistema de acesso e rebaixamento, enfim, aquilo que a FIFA e a AFC também querem.

Os clubes também exigem uma maior participação nos critérios que irão decidir a ampliação dos times participantes da A-League. A própria ampliação, que vem sendo muito discutida nas mídias, é um assunto bem polemico. A FFA, como de  costume, pretende adiar este debate, colocando que necessita de mais tempo para viabilizar economicamente uma competição com 12 ou 14 equipes; por outro lado, a cada semana surge uma noticia de uma nova entidade a ser criada para participar de uma A-League expandida. Geralmente, estes pretendentes possuem parcerias com milionários locais ou mesmo asiáticos. Por outro lado, os maiores clubes tradicionais, rejeitam esta visão e querem que critérios como historia e inserção comunitária sejam levados em conta para a provisão de novas licenças da A-League. É o velho soccer brigando com o novo football…

A Associação, que conta com quase 100 clubes de todo o pais (desde clubes completamente amadores a outros semiprofissionais em termos futebolísticos), já promoveu sua primeira reunião em Melbourne e tem mantido contato constante com a FIFA, que monitora a situação da FFA bem de perto. Há poucas semanas, tanto Lowy Jr (presidente) quanto o diretor executivo da FFA foram ate a Suíça, visitar o quartel-general da FIFA. Em seu encontro com o presidente da entidade maior do futebol mundial, eles tentaram negociar um acordo que lhes desse um tempinho para respirar… Mas não foram bem sucedidos. A FIFA continua insistindo que a democratização das estruturas da FFA aconteça ainda neste mês.

A primeira vista, a comparação de um movimento clubistico de futebol com toda a agitação politica que gerou a ‘Primavera Árabe’ parece exagerada. Afinal, é ‘apenas’ um jogo. Entretanto, se considerarmos que futebol sempre foi um veiculo de integração – ou discriminação – social na Austrália; que, por outro lado, a ‘Primavera Árabe’ foi também gestada em arquibancadas de futebol, onde torcedores organizados continuam se manifestando contra regimes autoritários, talvez possamos, em um exercício de imaginação politica, perceber os paralelos entre ambos movimentos que vieram da base da sociedade. Mais ainda, talvez percebamos que o futebol, apesar da sua crescente comercialização e muitas vezes do seu distanciamento do ‘povo’, continua sendo um elemento social importante para a contestação do autoritarismo e para a organização politica de diversos segmentos sociais.

 


Mais um Brasil x Uruguai na reta final das Eliminatórias FIFA

20/03/2017

André Alexandre Guimarães Couto

 

Olá, caros (as) leitores:

No post de hoje gostaria de lembrar o último jogo de Brasil x Uruguai que proporcionou a classificação da seleção brasileira para uma Copa do Mundo de Futebol, tendo em vista que a História pode se repetir na próxima quinta-feira.

Tratava-se das Eliminatórias de 1993 para a Copa dos Estados Unidos que ocorreria no ano seguinte. Apesar de o nosso selecionado ter reagido no segundo turno da tabela de classificação, vindo de vitórias contra Equador, Bolívia e Venezuela, o embate final seria contra a seleção do Uruguai que precisava vencer, pois tinha o saldo de gols pior que o do Brasil.

Lembramos que na ocasião, o sistema de classificação era dividido em dois grupos, o do Brasil (com 5 seleções) e que levaria dois selecionados para a Copa e o outro, com 4 seleções, mas que classificaria diretamente uma e levaria uma segunda para a repescagem (na ocasião, a Colômbia se classificaria em primeiro e a Argentina, em segundo). Lembramos ainda que o Chile estava cumprindo uma suspensão de 5 anos de punição pelos episódios ocorridos no Maracanã contra o Brasil em 1989. [1]

Porém, mais do que o destaque do fantasma uruguaio em nosso caminho, no mesmo palco do Estádio Maracanã da final de 1950, a imprensa brasileira ressaltava a convocação de Romário para aquele jogo. [2]

Ausente desde 1992 por declarar publicamente que não queria sair do continente europeu para atuar como reserva na seleção (já que jogava no Barcelona), o jogador fora esquecido pela comissão técnica comandada por Carlos Alberto Parreira e Zagallo. Este episódio fora na ocasião de um amistoso contra a Alemanha, em Porto Alegre. Além da rigidez tática que iria acompanhar o trabalho de Parreira em sua carreira como treinador, a disciplina individual e comportamental seria uma das características de Jorge Lobo Zagallo, Coordenador Técnico daquela equipe.

Em 7 de setembro de 1993, o Jornal dos Sports informava em letras garrafais “Parreira se curva a Romário”, fazendo referência a uma declaração do técnico da seleção sobre a possibilidade do atacante ser convocado para o último jogo.[3]

Apesar de informar que Parreira teria se encantado pelo último jogo de Romário no Barcelona, quando fizera três gols contra o Real Sociedad pelo Campeonato Espanhol, havia uma evidente preocupação em relação às contusões do ataque titular, formado por Bebeto e Müller. Inclusive, no penúltimo jogo, contra a Venezuela, os ataques titulares foram Valdeir e Evair.

https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=video&cd=2&cad=rja&uact=8&ved=0ahUKEwj4g43UnObSAhUEgZAKHZbtACAQtwIIHTAB&url=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3DjXxplAxn4sQ&usg=AFQjCNHSdsmuO89B7C2yVz3moi9ziNMvSQ

Gols do jogo entre Barcelona X Real Sociedad

Os jornais do Rio de Janeiro e seus vários cronistas e repórteres apresentavam uma campanha positiva mas discreta a favor do atacante do Barcelona (logo após as vitórias seguidas da seleção), e enfatizavam a impaciência da torcida brasileira no jogo contra a Venezuela no Mineirão. De fato, apesar da vitória por 4 x 0, a torcida mineira chegara a vaiar a equipe brasileira, muito em decorrência da “frustração” pois o Brasil tinha batido o time da Bolívia por 6 x 0 em Recife e esperava-se um resultado ainda mais avassalador contra os venezuelanos.

https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=video&cd=2&cad=rja&uact=8&ved=0ahUKEwjJ_6ibnebSAhWDiZAKHbahBowQtwIIHTAB&url=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3DVVL_nvefWPg&usg=AFQjCNFuGuwZmwXNxkJKY9_sCididdijNA

Gols do jogo entre Brasil x Venezuela

A Folha de São Paulo, na edição de 1º/08/1993 informava que Parreira precisava vencer a Venezuela para manter seu cargo, revelando que a imprensa de paulista era muito mais ácida e crítica com o treinador do que a imprensa carioca.[4] De modo geral, tanto no Rio, como em São Paulo, com ou sem Romário, a crítica era mais dura em relação ao esquema tático defendido por Parreira, baseado em defender-se primeiro e atacar depois. Esta forma de jogar, aliado ao ótimo desempenho de Romário em terras espanholas tornou-o um forte candidato a herói da classificação.

Se no jogo desta semana, em Montevidéu, não temos um apelo por um “salvador” (já que nos parece que o técnico Tite alcançou esta pecha pela imprensa nacional), no campo da política, temos mais algumas características bem peculiares de nosso país: no ano de 1993, a população brasileira votara em um plebiscito a favor da continuidade do sistema presidencialista de governo, muito menos pela popularidade de Itamar Franco (que substituíra o presidente que sofrera o impeachment, Fernando Collor de Mello) mas, muito mais pela desconfiança de um parlamento pouco inspirador para as mudanças que o Brasil necessitara seja no âmbito social como no da modernização da economia nacional. Sobre este último ponto, lembramos que no ano de 1993, o governo Itamar Franco dedicara parte de seu tempo a controlar o processo inflacionário. Para tanto, apesar do Plano Real ter sido criado no ano seguinte, já em 1993 a moeda tornava-se o cruzeiro real, substituindo o cruzeiro, sem falar no discurso em torno do “corte de despesas”.[5]

Mas, nos chama a atenção o papel das grandes empreiteiras no ambiente político brasileiro. De acordo com o jornal, “(…) A construção civil, por exemplo, pretende contribuir com parte das dívidas que os governos têm com as empreiteiras – as doações serão feitas à medida que elas forem recebendo dos cofres públicos.” [6] E mais: “Outros empresários ameaçam não contribuir nas campanhas se não for criada uma lei que autorize as doações”.[7] Ou seja, o financiamento eleitoral era um dos pontos de destaque no cenário político/eleitoral brasileiro naquele momento.

E, já que tocamos no assunto eleitoral, em 1993 a pesquisa do DataFolha apontava algumas preferências na corrida presidencial de 1994: Lula/PT aparecia em primeiro com 22%, seguido de Paulo Maluf/PPR (15%), Leonel Brizola/PDT (14%), José Sarney/PMDB (9%), Quércia/PMDB (6%), Tasso Gereissati/PSDB (5%) e Antonio Carlos Magalhães/PFL (4%). [8]

A população desconfiada com o cenário político se dividia entre as principais lideranças políticas daquele momento e que já tinham passado pela experiência eleitoral de 1989, sejam da esquerda, sejam de uma direita, por sua vez, mais dispersa e indefinida, como no caso do PMDB (mais uma coincidência?).

Voltando ao assunto de Brasil x Uruguai, com coincidências ou não, naquela ocasião, a seleção nacional vencera bem a chamada “Celeste Olímpica”, pelo placar de 2 x 0 com dois gols de Romário. Apesar do grande destaque (e merecido) pela imprensa à atuação do atacante do Barcelona, vários outros jogadores tiveram belíssimos desempenhos, em todos os setores, como podemos observar nos lances registrados no vídeo abaixo:

https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=video&cd=2&cad=rja&uact=8&ved=0ahUKEwirgfOaiubSAhVCIZAKHa5fCbcQtwIIIjAB&url=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3DItLIJzqV0f8&usg=AFQjCNHGLOn2YARRShpiFI-vE7Bsda50Sw&bvm=bv.150120842,d.Y2I

Gols de Brasil x Uruguai em 1993.

Desta forma, a seleção brasileira alcançaria mais uma Copa do Mundo da qual se sagraria campeã no ano seguinte.

Vinte e quatro anos depois, nos perguntamos: e agora, para onde o Brasil irá?

Pergunta difícil…

Referências:

[1] Sobre este episódio, ler o artigo de BALDINI Jr., Wilson. Há 25 anos, um Brasil e Chile que não terminou no Maracanã. Disponível em: <http://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,ha-25-anos-um-brasil-e-chile-que-nao-terminou-no-maracana,1519937&gt;.

[2] Ler o post “Por que não nos esquecemos de 1950?”.

[3] Parreira se curva a Romário. Jornal dos Sports. 7/09/1993. P. 5.

[4] Parreira depende de Vitória. Folha de São Paulo. 1º/08/1993. P.1.

[5] Brasil estréia hoje nova moeda e salário. Folha de São Paulo. 1º/08/1993. P.1-5.

[6] 12 ministros já fazem campanha. Folha de São Paulo. 1º/08/1993. P. 1

[7] Ibidem.

[8] Presidencialismo vence, Lula e Maluf lideram corrida para 1994. Folha de São Paulo. 22/04/1993. P. 1.

 

 

 

 

 

 

 

 


JOGO EM CRISE – FUTEBOL, LITERATURA E POLÍTICA

13/03/2017

Por Edônio Alves

O Brasil enfrenta um momento difícil em sua vida política.

Um momento de impasses, retrocessos e esgarçamento do seu tecido social causados por um revés institucional na sua tenra democracia e no seu imberbe desenvolvimento econômico que o fez sair da condição de país subdesenvolvido para o patamar de país em desenvolvimento, no concerto das nações.

Tudo parecia caminhar bem com a trilha desse caminho percorrido pelo Brasil até que um “golpe parlamentar” por dentro da democracia – que tirou do poder uma presidenta democraticamente eleita pelo voto de mais 54 milhões de seus cidadãos – fez o País mergulhar outra vez em águas turvas, reavivando comportamentos autoritários, policialescos e  colocando a convivência social outra vez no quadro temerário do confronto entre poderes, instituições e relações sociais.

Um quadro até certo ponto parecido com a experiência de uma ditadura clássica embora que, dessa vez, paradoxalmente, a coisa acontecendo por trás de uma máscara que induz estar-se diante de uma nação em que impera o estado democrático de direito.

Uma face nova e perigosa, enfim, se insinuando por trás de um rosto que parecia agradável e familiar.

Justamente por isso, por causa deste contexto incerto em que vivemos atualmente no Brasil, é que resolvi trazer, para o leitor desse nosso BLOG, uma pequena história envolvendo futebol, literatura e convivência social em momentos de crise.

Na história, que analiso para expor suas entrelinhas ao leitor, o cenário de fundo é a ditadura política, implantada no Brasil pelo golpe militar de 1964, quando a nossa sociedade ficou sem respirar, dado o sufocamento de sua estrutura de funcionamento.

Ali, o futebol cumpriu um papel importante ao se tornar – para o bem ou para o mal – uma espécie de válvula de escape da convivência e do diálogo social. Ora amparado; ora condenado pelo governo de plantão na medida em que servia ou não aos propósitos do poder usurpador.

A ideia é nos servirmos aqui da literatura e do futebol, nas suas relações intrínsecas e extrínsecas, para percebermos similaridades e situações de ontem, de outrora e de hoje, na vasta experiência por que tem passado a vida brasileira.

Vamos ao texto.

 ***

 Família, futebol e regatas  –  conto escrito por Ricardo Soares

Árduas discussões à mesa de almoço dos domingos, opondo um genro a um sogro, são o motivo para que o filho de um e neto do outro conte as suas lembranças acerca da Copa do Mundo de 1970, e também de um Brasil governado por uma ditadura militar que se instalara no País apenas seis anos antes da conquista do seu terceiro título mundial de futebol.

Transformado pelo signo linguístico numa figura só, o narrador autodiegético dessa história, aproveita-se da condição privilegiada de membro de uma família de origem portuguesa típica de São Paulo, e, do alto de sua lente de observação de adolescente entre adultos, tece considerações pessoais sobre a relação entre política, futebol e cotidiano, o que acaba por desvendar certos aspectos ainda hoje não tão bem resolvidos da formação social brasileira.

A história é simplória e nada há que destacar em termos de literatura senão a sua oportuna e não disfarçada denúncia de um período da vida brasileira em que a convivência social tornara-se tensa e monocórdica porque movida pelo medo. O seu pano de fundo, pois, é uma conjuntura político-social em que o diálogo entre as pessoas pautava-se mais pelo modo imperativo dos verbos do que pelo tom pluralizante e qualificador dos substantivos quando bem acompanhado dos adjetivos.

Talvez por isso é que o futebol (jogo assentado no diálogo coletivo que produz) entre na narrativa como um tema que se situa ambiguamente entre o interdito e o desejado. Como um veículo apropriado para opor e para juntar simultaneamente os lados díspares de uma realidade forçadamente monodimensional, aspecto que sobressai já no início da história, através da observação atenta do narrador:

“Da ponta da mesa levantando a taça de vinho tinto e contemplando o vasto cozido português meu avô sentenciava:

– Futebol e política não se discute. Muito menos à mesa”, diz, para em seguida completar em arremate de síntese:

“Naquele momento por um prazer quase sádico tudo o que meu velho avô português queria era justamente criar uma acachapante discussão à mesa provocando o genro com quem tinha menos afinidades e maiores diferenças”.

Não as afinidades, mas sobretudo as diferenças (sociais, econômicas, étnicas, de visão de mundo, valores etc) entre as pessoas é que serão postas à mesa, na agenda de reflexões que esta narrativa de ficção pode oferecer retroativamente ao leitor de hoje, já bem mais acostumado a lidar com elas como requisito fundamental para a convivência social no regime democrático, em contrapartida ao leitor de ontem, do tempo em que calar a boca era a atitude mais “recomendável” para sustentar o diálogo social, paradoxalmente baseado no silêncio.

“Eu digo isso e repito, eu digo!!! Não se discute à mesa e muito menos à minha mesa onde se preserva a educação e os bons modos, atributos que o senhor infelizmente não tem”.

Como foi já sugerido, o futebol parece ser o único elo que, nesta conjuntura pesada e amordaçante, tem o poder de ligar os vínculos pessoais (familiares ou não) mesmo que da forma explosiva que o ambiente sugere. Este detalhe não escapa ao narrador que, situado desconfortavelmente entre as figuras discrepantes do avô e do pai, funciona como um pêndulo para o qual converge a situação particular, historicamente colocada, da relação inescapável que o jogo das massas mantinha então com a política no Brasil. É desta posição, portanto, que o narrador acorre para completar:

“(…) Fato é que para o meu avô naquela altura do campeonato ter modos queria dizer torcer para o Santos Futebol Clube. (…) Ter modos naquele momento para o meu avô queria dizer gostar de algumas coisas que os militares vinham fazendo mas também que não se devia esquecer o legado e a herança da vassourinha de Jânio Quadros, apesar da renúncia em 1961”.

Dito isto, a partir daqui as oposições que informavam a realidade daqueles tempos de chumbo ficam inexoravelmente claras, na encenação figurativa dos dois personagens antagônicos: “Meu avô era Jânio e meu pai era Lott. Meu avô era Médici e meu pai era JK. Meu avô era Santos e meu pai era Corinthians. Meu avô era branco e meu pai era negro”.

O Brasil de então (e de resto, o próprio contexto mundial) parecia ser reduzidamente composto de apenas duas partes, dois lados, duas faces que sempre se opunham, porque aqueles eram tempos que não permitiam meio termo: ou se sonhava ou se encarava o pesadelo.

“Quando saíam essas brigas todos em volta da mesa ficavam calados, constrangidos, mortificados. As discussões destroçavam qualquer possibilidade de harmonia dominical e invariavelmente estragavam a sobremesa porque para arrematar meu avô sempre implicava com o jeito que meu pai sugava o café e se aborrecia com o cigarro barato que ele acendia logo em seguida”.

Esse, pois, era o clima com o qual o contista Ricardo Soares pretende, nesse texto ficcional, figurar um momento difícil da nação em que as pedras rolavam enquanto a bola corria. “Estava para começar a Copa do Mundo de 1970 no México. Para ser sincero eu não me lembro se naquela época tinha slow-motion, câmera lenta, replay ou qualquer dessas coisas. Do que lembro bem eram das discussões acaloradas entre meu pai e meu avô”.

Claro que essas discussões inicialmente tinham como mote o âmbito futebolístico, mas o que se quer lembrar aqui, neste conto, através do jogo de futebol – para além do ambiente de euforia criado no país com a perspectiva real da conquista do nosso terceiro título mundial -, é que a realidade de uma ditadura, pelas fissuras e rompimentos que provoca (até a fadiga completa da ambiência de convívio entre as pessoas), tem sempre como corolário duramente palpável o esgarçamento do tecido social. E, neste caso, nem o jogo mais querido dos brasileiros resolveria a parada. Senão, que até alimentava o contexto:

“- Essa Copa de 1970, esse time vai nos dar muitas alegrias – dizia o avô.

“- Eu não tenho tanta certeza assim. E de mais a mais se a gente levar os militares vão se aproveitar disso, vão usar a taça Jules Rimet para esconder todas as safadezas que vêm fazendo – respondia o pai”.

À parte a versão lugar-comum desse tipo de crítica ao aproveitamento político por parte do stablishment de plantão em relação às coisas do esporte, o diálogo acima, cujo teor nessa direção perpassa toda a narrativa assegurando a ela o seu vigor denunciativo, é bem paradigmático da maneira como, àquela época, o conteúdo dialético da natureza do futebol preenchia, no espaço privado das famílias, as lacunas deixadas pela a ausência  da discussão política no espaço público. Espaço público esse que sequer existia ou então era reduzido a sua minimalidade funcional.

“- Seu Gomes, não sabe o que está dizendo… tem muita gente aí sofrendo, apanhando, sendo morta porque não concorda com o governo.

“- Que sendo morta o quê!!! Isso é intriga de comunista. Este país é uma maravilha e está crescendo… veja aí você mesmo. Este país é uma benção. E ainda vamos ganhar esta Copa do Mundo.”

Bom, depois do clima de relativa tensão criado pelo narrador para informar o matiz plúmbeo do conteúdo político daqueles tempos, que, como já foi lembrado, perpassava inteiramente a conjuntura futebolística da realização de uma Copa do Mundo, seu acontecimento máximo, que os dois personagens aproveitavam para passar em revista certas divergências (a questão do general Médici querer escalar o time brasileiro, a substituição de João Saldanha – um comunista declarado – por Zagallo, “um bunda-mole”, na opinião do pai do narrador, etc), chega-se, enfim, a um momento de relativo relaxamento na trama. Afinal, o Brasil foi mesmo Tricampeão do Mundo em 1970. A despeito da oposição de uns e para o delírio de outros.

Do ponto de vista meramente formal, como de resto toda a narrativa, o seu final é cediço, previsível no seu encaminhamento de desfecho, e, portanto, dedutivamente lógico, o que não lhe tira certo tom irônico de arremate.

“Sim, senhoras e senhores. Ganhamos lindamente a Copa de 70 no México. Carlos Alberto fez o quarto gol contra a Itália, todos nós beijamos simbolicamente a taça Jules Rimet e éramos 90 milhões em ação. Um domingo depois da conquista da Copa toda a família foi fazer piquenique e passar o dia às margens da represa Billings, em São Bernardo do Campo. Meu avô – com a ajuda do meu pai e de um tio – tirou um velho barquinho de cima da perua Rural Willys. Entramos no barco e fomos fazer regatas como dizia o meu avô. Na volta trouxemos algumas tilápias. Saborosas mas repletas de espinhas. Como aqueles tempos. Comemos as tilápias fritas melando as mãos e lambendo os beiços. Não pensamos mais em futebol naquele domingo”.

SAIBA QUEM É O AUTOR.

Ricardo Soares nasceu em São Pauo, capital. É escritor, jornalista, roteirista e diretor de TV. Já dirigiu documentários para a TV Cultura, programas para a SESC TV e edita a revista Raiz, sobre cultura brasileira. É também conselheiro editorial e colunista da revista Rolling Stone e um dos criadores do programa Metrópolis da TV Cultura do qual fui o primeiro apresentador. Foi repórter do Caderno B do Jornal do Brasil e tomou parte da equipe fundadora do Caderno 2 do Estadão em 1986. No mesmo jornal foi cronista de 1993 a 1998. Desse ano até 2001 foi cronista do Jornal da Tarde. Dirigiu as redações das revistas TRIP e da extinta HV. De 1998 a 2005 dirigiu, escreveu e apresenteou “Literatura” e “Mundo da Literatura”, programas sobre o universo literário que continuam a ser reprisados pelo SESC TV. É co-autor das peças “Olho da Rua” e “Quatro Estações”. Tem vários livros publicados como Cinevertigem e os infanto-juvenis Valentão, o Brasil é feito por nós?; Dia de submarino e Falta de ar. O conto de futebol, Família, futebol e regatas, consta da coletânea 11 Histórias de futebol, da Editora Nova Alexandria, de São Paulo, que saiu em 2006.


Dorando Pietri e a Maratona do Parque Antártica (1910)

05/03/2017

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Em 1925, a Federação Internacional de Atletismo consagrou a distância de 42.195 metros como medida oficial das corridas de maratona. Antes disso, corridas a pé que recebiam o mesmo nome, tinham distâncias bastante variadas. Provas de 10, 12, 15, 17, 20, 30, 40 ou 60 quilômetros, poderiam ser igualmente chamadas, sem nenhum problema ou conflito aparente, de corridas de maratonas.

A distância de 42.195 metros coincide com o percurso da maratona da Olimpíada de Londres, em 1908, planejado nesses termos para atender veleidades do rei Eduardo VII, que desejava assistir à largada da corrida do castelo de Windsor. Por essas prosaicas razões, a competição em Londres entrou para o panteão de símbolos do atletismo.

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Maratona da Olimpíada de Londres, 1908.

A maratona de Londres, contudo, marcaria ainda os anais da história do esporte por outra razão. Naquela competição, o corredor a cruzar a linha de chegada em primeiro lugar acabou desclassificado. O italiano Dorando Pietri, ao entrar exausto e desorientado no estádio onde terminaria a competição, desmaiou e foi assistido por árbitros, que quase o carregaram até a linha de chegada. O irlandês Johny Hayes, que cruzou a linha de chegada em segundo lugar, competindo pelos Estados Unidos, protestou e o italiano acabou desclassificado. Hayes foi declarado então vencedor.

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Chegada de Dorando Pietri, na Maratona da Olimpíada de Londres, 1908

A decisão não encerraria a celeuma, porém. Meses depois, realizou-se em Nova York uma revanche entre Pietri e Hayes. A competição, que consistiu em 260 voltas numa pista construída no Madison Square Garden, foi acompanhada por mais de 10.000 pessoas, ciosas por saber quem era o corredor, afinal. Os dois seguiram praticamente juntos durante todo o percurso, com pequena vantagem para o italiano, que cruzou a linha de chegada menos de 80 jardas e 45 segundos à frente de seu concorrente. Pietri foi carregado em triunfo por seus compatriotas, que já o haviam apoiado intensamente durante toda a competição. O apoio da comunidade italiana, contudo, não impediu que Pietri fosse também vivamente vaiado pelo restante do público, por suspeitas não confirmadas de que, nos últimos metros da corrida, teria aberto os braços para impedir a passagem do adversário. Em maio do ano seguinte uma nova disputa entre os dois foi realizada, com nova vitória de Dorando Pietri, que se consagrou, em definitivo, como um dos melhores corredores de resistência de seu tempo.

 

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Hayes (esq.) e Pietri (dir.), desfilam lado a lado em carro aberto

Pietri já era conhecido no pequeno círculo dos entusiastas das corridas a pé desde antes da olimpíada de Londres. Algumas dessas corridas que tiveram a participação de Pietri chegaram a ser brevemente noticiadas por jornais brasileiros. Depois da competição em Londres, porém, sua reputação ganhou novas dimensões. Pietri tornou-se uma espécie de estrela internacional do esporte. Como parte das vantagens de seu novo sucesso, Pietri viajava por diferentes países participando de competições de corrida com prêmios em dinheiro, o que ele provavelmente já fazia antes, talvez com menor frequência e com pagamentos menos generosos. Um dos lugares onde Pietri estivera com esses propósitos e na esteira do sucesso da Olimpíada de Londres foi o Brasil.

 

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Dorando Pietri lidera Maratona da Olimpíada de Londres, 1908

Em julho de 1910, em meio ao que parecia ser uma excursão pela América do Sul, Pietri desembarcou no porto de Santos, vindo de Montevidéu, depois de ter participado de uma corrida em comemoração ao centenário da proclamação da república na Argentina, que reuniu mais de 50.000 pessoas em Buenos Aires. Seu destino era a cidade de São Paulo, onde Pietri participaria de uma corrida no Parque Antártica. Antes, teve tempo de participar e vencer uma “maratona” de 17 quilômetros no campo do Velo Club, em Santos, com o tempo de 57 minutos e meio – 15 minutos mais rápido que o segundo colocado.

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Dorando Pietri, com a Gold Cup, conferida pela Maratona da Olimpíada de Londres, 1908

A corrida na qual tomaria parte em São Paulo, amplamente divulgada pela imprensa local, logo gerou grandes expectativas, como era usual em ocasiões como essa. Além da corrida com Dorando Pietri, que oferecia prêmio em dinheiro de 2.000 francos, o evento contaria ainda com outras duas atrações: uma corrida de resistência de 20 quilômetros, em 60 voltas ao redor de um campo de futebol, envolvendo 25 corredores, de 10 diferentes clubes de São Paulo, além de uma exibição de força protagonizada por um tal Ettore Tibério, apresentado como um “Hércules”, “campeão mundial” e “célebre gladiador italiano”; vencedor de diversos campeonatos de luta  na Europa. O anúncio de exibição de força de Tibério prometia o levantamento de um automóvel com 6 pessoas, pesando 1.700 quilos, além de uma luta contra um touro. As letras garrafais dos cartazes que anunciavam o evento prometiam mesmo que Tibério subjugaria a muque um touro bravo.

Mais de 10.000 pessoas dirigiram-se ao Parque Antártica. O jornal Correio Paulistano registrou com cores vivas o modo como transcorreu aquele domingo: “o dia esteve magnífico, e desde cedo começaram a afluir ao parque numerosos automóveis, carros particulares e de praça, charretes e outros veículos, conduzindo senhoras e cavalheiros. Os bondes, partindo da praça Antônio Prado e do Largo do São Bento, chegavam ao Parque Antarctica apinhados de gente até pelos estribos. Muito antes, pois, de começar a maratona, já o parque se achava cheio de pessoas, notadamente as arquibancadas, que repletas de famílias, apresentavam festivo aspecto”.

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Público se amontoa para assistir Maratona da Olimpíada de Londres, 1908

De fato, os bondes que se dirigiam ao Parque Antártica naquele domingo trafegavam inteiramente lotados, transportando “enorme massa de povo”, conforme destacou outro jornal paulista. Mais tarde, o excesso de passageiros, dependurados nos estribos, seria apontado como uma das causas de um acidente que deixou ao menos quatro pessoas gravemente feridas, quando passageiros saltaram de um bonde em movimento, depois de verem surgir uma misteriosa e inexplicável fagulha. Nem contratempos desse tipo, contudo, foram capazes de arrefecer o entusiasmo com as corridas e exibições de força que se anunciaram.

Precisamente às duas horas e quarenta e cinco minutos da tarde, teve início a primeira maratona do dia, entre corredores de clubes de São Paulo. Urbino Taccola, do Club Esperia, completou todas as voltas ao redor do campo em 1 hora e 29 minutos, sagrando-se vencedor. A corrida parece ter despertado algum interesse, mas era apenas o início de uma prometida tarde de diversões. Na sequência, Ettore Tibério iniciou suas demonstrações de força, levantando com os braços uma espécie de barra de ferro de 60 quilos, antes de a torcer sobre os ombros. Depois, do alto de um estrado, sustentou o peso de um automóvel com 5 pessoas, e não 6, conforme anunciaram os cartazes do evento. A diferença deve ter decepcionado alguns espectadores, mas sem ainda prejudicar o espetáculo, que prosseguiu normalmente. Tibério iniciou então a luta com o touro, no que deveria ser o ponto alto de sua apresentação. O touro, entretanto, mais uma vez diferente do que prometiam os anúncios, “não era mais que um bezerrão”, “manso como um cordeiro”, como registraram languidamente os jornais do dia seguinte. Após alguns breves e poucos momentos de luta, Tibério não o derrubou propriamente, senão apenas conseguiu fazê-lo ajoelhar. O público, a essa altura já bastante desapontado, manifestou logo a sua impressão por meio da vaia.

Restava ainda a corrida de Dorando Pietri, que enfrentaria um tal Monte Neves, apresentado como “o campeão argentino”. Dez minutos após a partida, Pietri já estava três voltas à frente de seu adversário. Na quinta volta, de um total previsto de 60, Monte Neves abandonou a pista. A decepção foi geral e o público explodiu em fúria, vaiando longamente o “campeão argentino”, que não satisfeito, reagiu, fazendo gestos obscenos para a plateia. Conforme dissera um cronista anônimo do jornal Correio Paulistano, em palavras insubstituíveis, “o público não aceitou tal atitude com a mesma disposição com que se aceita a dádiva de uma boa fruta”. Com todos os ânimos exaltados, Monte Neves foi preso por ofensas à moral, com base no artigo 282 do código penal da época.

Na delegacia, Montes Nunes revelou ao 4º subdelegado de Santa Ifigênia tudo o que estava por trás da maratona do Parque Antártica. Ettore Tibério, que promovia o espetáculo, o contratara para demarcar raias da corrida, fixar bandeiras no campo e executar outros serviços. Por um valor adicional, Tibério lhe sugeriu também competir contra Dorando Pietri, sustentando que era campeão de corridas na Argentina – o que era obviamente mentira. Montes Nunes dissera ainda que foi o próprio Ettore Tibério, em pessoa, quem lhe pregou ao peito a fatídica bandeira argentina com que participou da corrida.

Montes Nunes acabou condenado a 3 meses e 15 dias de prisão – não sabemos ao certo se por ofensas à moral ou qualquer outro motivo. Nada sabemos também sobre o destino de Ettore Tibério. Infelizmente, não sabemos também se Dorando Pietri foi implicado no assunto, embora não pareça ter sido o caso, pois mesmo depois de tudo revelado, a imprensa paulista seguiu destacando suas capacidades atléticas, sem vinculá-lo, em nenhuma medida, a toda trama farsesca da maratona do Parque Antártica. Em novembro de 1910, Pietri já participava de corridas em Roma.

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* Todas as imagens disponíveis em http://mentalfloss.com/article/31449/scenes-1908-london-olympic-marathon.


ANPUH 2017 – Simpósio Temático História do Esporte e das Práticas Corporais

01/03/2017

Olá Pessoal
Chamando atenção para os prazos de inscrição:
Prazos: 09/01/2017 a 06/03/2017: prazo para inscrição de apresentação de trabalhos nos Simpósios Temáticos: prazo para inscrição de apresentação de trabalhos nos Simpósios Temáticos.
Vamos fazer força para cumprir as datas.

Prezados e prezadas
Com satisfação chamamos todos e todas a participarem do XXIX Simpósio Nacional de História. O evento acontecerá em Brasília, de 24 a 28 de julho de 2107, na UNB
Para tanto, convidamos que apresentem suas propostas de trabalhos ao nosso Simpósio Temático História do Esporte e das Práticas Corporais (simpósio 52), dentro das condições e prazos estabelecidos pela organização geral, que são demonstradas abaixo:

Instruções gerais para inscrições

  1. O sistema de Inscrição é feito exclusivamente por meio eletrônico, tanto para o envio de dados quanto para a geração de boletos bancários. Solicita-se leitura atenta de todos os itens destas instruções, para evitar eventuais problemas nas inscrições;
  2. As inscrições podem ser feitas numa das modalidades abaixo:
    • SÓCIO APRESENTADOR DE TRABALHO EM SIMPÓSIO TEMÁTICO;
    • NÃO-SÓCIO APRESENTADOR DE TRABALHO EM SIMPÓSIO TEMÁTICO;
  3. Os valores de inscrição para cada modalidade são os da tabela abaixo:
  4. Solicitamos atenção ao preenchimento correto de todos os campos da ficha de inscrição, em especial nos campos “Nome” e “Título do Trabalho”, se for o caso, para evitar posteriores problemas quanto à emissão dos certificados. O preenchimento correto do campo “e-mail” também é de fundamental importância para futuro contato com os inscritos. Feito o cadastro, o interessado receberá e-mail de confirmação, contendo os dados de acesso à área do inscrito (login e senha), onde é possível imprimir novamente o boleto de inscrição, caso seja necessário;
  5. Os colegas que desejarem associar-se à ANPUH deverão fazê-lo antes de se inscreverem no Simpósio Nacional, dirigindo-se a sua Seção Regional. Clique aqui para conhecer as Seções Regionais da ANPUH e seus contatos.
  6. A Anpuh não aceitará novos associados após o dia 27 de abril de 2017 (os formulários de filiação serão reabertos no dia 07 de março). Assim, uma vez paga a inscrição na condição de não associado, não será possível reverter para a opção de sócio.
  7. Os associados da ANPUH deverão estar quites com as anuidades para terem direito ao valor de inscrição estipulado para esta categoria;
  8. O pagamento da inscrição deverá ser realizado até a data de vencimento registrada nos boletos bancários. Após esta data, a inscrição será cancelada;
  9. Informações sobre a confirmação de pagamento do boleto poderão ser obtidas na área do inscrito;
  10. Não haverá devolução do valor referente às inscrições. No caso de propostas não aceitas pela comissão científica ou inviabilizadas por qualquer razão, o proponente poderá usar o valor já pago para inscrever-se em outra modalidade.
  11. A inscrição em Minicurso é específica. Para tanto, o interessado deverá inscrever-se no campo Minicurso, da Ficha de Inscrição, adicionando-se o valor desta modalidade ao boleto bancário. A inscrição em Minicurso não isenta o interessado de pagar os valores de inscrição em outras modalidades de participação. Ao fazer sua inscrição para minicurso, o interessado deve escolher 3 (três) opções dentre as listadas na página do evento, classificadas em 1ª, 2ª e 3ª opções. Caso o minicurso escolhido em 1ª opção já esteja completo ou seja cancelado por não atingir o número mínimo exigido de participantes (20), o inscrito será realocado no minicurso escolhido em 2ª opção, e assim sucessivamente. O número máximo de vagas em cada minicurso é de 30, mas ele poderá ser ampliado, a critério da Comissão Organizadora, em acordo com os professores responsáveis. Nesses casos, será respeitada a ordem de inscrição. Quem já estiver inscrito como proponente de Simpósio Temático, apresentador de trabalho ou ouvinte pode fazer a inscrição em minicurso entrando na “Área do inscrito”, com seu login e senha, e selecionar “Inscrição em minicurso”. Essa opção dá acesso a formulário para a escolha das 3 opções de minicursos que, uma vez realizada, gera novo boleto para pagamento;
  12. Para os interessados em propor Simpósio Temático + Minicurso, basta realizar a inscrição em qualquer uma destas modalidades e, com seus dados de acesso em mãos, voltar ao site do Simpósio, entrar na área de inscrito, localizar a(s) opção(ções) desejada(s) e adicioná-la(s) à inscrição original. O valor extra é acrescido ao boleto bancário. Para os proponentes de Simpósio Temático + Minicurso o valor cobrado é de R$ 100,00. Nesses casos, não haverá cobrança para inscrição na condição de apresentador de trabalho. No caso de proponente de Minicurso que queira inscrever trabalho em Simpósio Temático, há necessidade de pagar as duas taxas (R$ 100,00 + R$ 60,00).
  13. Para apresentar trabalho nos Simpósios Temáticos o proponente deverá ser no mínimo graduado.
  14. Cada inscrito poderá apresentar apenas 1 (um) trabalho em apenas 1 (um) simpósio temático. O inscrito deverá escolher 3 (três) Simpósios Temáticos, conforme a ordem hierárquica de sua preferência. Caso não seja aceito no primeiro, será realocado na opção seguinte. Avaliação, aceitação e eliminação de trabalhos dentro do simpósio temático são realizadas pelos coordenadores de cada simpósio. Caso o simpósio temático seja cancelado por não atingir o número mínimo de participantes (20), os inscritos neste simpósio serão realocados na 2ª ou 3ª opções. Caso o trabalho não seja aceito em nenhuma das rodadas de avaliação, o inscrito será automaticamente considerado como ouvinte, sem devolu ção do valor pago na inscrição. O número máximo de participantes em cada simpósio é de 34, selecionados a partir de critérios acadêmicos. Solicita-se consultar o cronograma do evento para os prazos de inscrição, envio do trabalho completo e aceitação.
  15. Prazos: 09/01/2017 a 06/03/2017: prazo para inscrição de apresentação de trabalhos nos Simpósios Temáticos: prazo para inscrição de apresentação de trabalhos nos Simpósios Temáticos.
  16. Mais detalhes em: http://www.snh2017.anpuh.org/site/capa
  17. Apresentador de Trabalho em Simpósio Temático (Detalhes abaixo)

    São oferecidas 34 vagas por Simpósio Temático.

    • Os STs serão os espaços para a apresentação e discussão de pesquisas concluídas ou em estágio avançado de realização sobre um mesmo tema.
    • Para a apresentação de trabalho nos Simpósios Temáticos, exige-se titulação mínima de Graduação.
    • Os apresentadores de trabalho associados deverão estar em dia com a anuidade de 2017
    • Cada inscrito poderá apresentar apenas 1 (um) trabalho em apenas 1 (um) Simpósio Temático. O inscrito deverá escolher 3 (três) Simpósios Temáticos na ordem de sua preferência. Caso não seja aceito no primeiro, será realocado na opção seguinte.
    • A avaliação, o aceite e a eliminação de trabalhos são da responsabilidade do(s) Coordenador(es) de cada Simpósio Temático.
    • Além do resumo expandido (mínimo de 2200 caracteres e máximo de 2.800), é importante, mas não obrigatório, enviar o texto completo* no ato de inscrição. Isso auxiliará a avaliação de seu coordenador(a).
    • O certificado de apresentação de trabalho será emitido somente aos presentes em 75% das atividades do Simpósio.
    • Caso o Simpósio Temático seja cancelado, em razão de não atingir o número mínimo de vinte participantes, os inscritos serão realocados nas opções seguintes de sua escolha.
    • Não haverá devolução do valor de inscrição. Caso o trabalho não seja aceito, o inscrito poderá usar o valor pago na inscrição como Ouvinte.
    • No formulário de inscrição, clicada a opção “apresentador de trabalho” três caixas podem ser visualizadas – uma para a inclusão do título do trabalho, outra para inclusão do resumo expandido e mais uma para inclusão do texto completo. Pode ser utilizada qualquer fonte, pois o sistema a padronizará (não utilize caixa alta no texto do resumo, apenas na autoria).

    * uma versão revisada do texto completo poderá ser enviada entre os dias 1 e 15 de agosto de 2017.


    Instruções para trabalhos em coautoria

    Para que possamos localizar os diversos autores de um mesmo trabalho, um Código do Trabalho será gerado ao primeiro coautor que realizar sua inscrição.

    Para que isso ocorra no campo Tipo de Submissão, este primeiro coautor deve escolher a opção Coautoria – primeira inscrição do trabalho – e seguir normalmente com sua inscrição. Ao final do processo, um Código do Trabalho será gerado.

    Aos demais coautores, basta escolherem a opção Coautoria – trabalho já inscrito – e informarem o Código do Trabalho gerado ao primeiro coautor.


    Instruções aos inscritos em Simpósios Temáticos para publicar os textos integrais nos anais eletrônicos

    Os inscritos que apresentarem trabalho em Simpósios Temáticos terão seus textos publicados nos anais eletrônicos e devem seguir estas instruções:
    Enviar o arquivo do texto a ser apresentado através do campo discriminado para este fim em sua ficha de inscrição. A ficha permanecerá acessível na área do inscrito.
    Quitar a anuidade de 2017.
    O envio do texto implica a cessão dos direitos autorais.
    Quanto ao texto, observar o seguinte:
    1. Apenas serão aceitos arquivos enviados através da área do inscrito;

    2. O texto deve conter de 8 a 15 páginas.

    3. Os arquivos deverão ser salvos na extensão “doc” ou “rtf”, digitados em programa editor de texto no padrão do Microsoft Office Word.

    4. Fonte Times New Roman 12 e espaçamento 1,5, justificado;

    5. Margens: superior 3cm, inferior 2cm, esquerda 3cm e direita 2cm;

    6. A autoria (nome completo) deverá vir abaixo do título, à direita, em caixa alta. Em nota de rodapé (asterisco) deve ser colocada a Instituição de origem, Titulação e Agência financiadora, quando for o caso;

    7. Os textos não deverão conter tabulação, colunas ou separação de sílabas hifenizadas;

    8. O tamanho máximo de arquivo aceito é de 3MB. Caso seu trabalho contenha imagens estas deverão ser escaneadas em 300 dpi no formato TIF ou JPG, dimensionadas no formato de aproximadamente 5×5 cm e gravadas no próprio documento;

    9. As tabelas devem ser digitadas seguindo a formatação padrão do programa editor de texto;

    10. As citações de até três linhas devem constar entre aspas, no corpo do texto, com o mesmo tipo e tamanho de fonte do texto normal. As referências devem indicar entre parênteses nome do autor em letras maiúsculas, ano de publicação e páginas (SILVA, 1993:11-14);

    11. As citações a partir de quatro linhas devem ser em Times New Roman 10, itálico, com recuo esquerdo de 4 cm. As referências devem constar no corpo do texto, entre parênteses, como no exemplo acima;

    12. O uso de notas de rodapé deve ter apenas o caráter explicativo/complementar. Devem ser numeradas em algarismos arábicos seqüenciais (Ex.: 1, 2, 3, etc.) na fonte Times New Roman 10 e espaçamento simples;

    13. As referências bibliográficas deverão ser colocadas no final do texto e de acordo com as regras da ABNT, dispostas em ordem alfabética por autor.

    14. As páginas devem ser numeradas (margem superior direita), com exceção da primeira.

Atenciosamente
Coriolano P. da Rocha Junior (UFBA) / Euclides de Freitas Couto (UFSJ)
Coordenadores


Meninos de kichute (Luca Amberg, 2014)

27/02/2017

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Sessão nostalgia em pleno carnaval 2017. Bom, nostalgia para a geração, como a minha, que debateu ardorosamente a preferência entre o kichute, o conga e o bamba. Não sabe do que se trata? Novinho(a)! Segue a ilustração abaixo, para ajudar a garotada.

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Particularmente, nunca tive um kichute. Pra jogar bola gostava do conga (o bamba era pra passeio). Durava uns quatro meses de uso intensivo. Assim como os meninos do filme de Luca Amberg, boa parte da minha existência infanto juvenil foi passada em campinhos. Essa talvez seja uma força do livro de Márcio Américo, que virou o filme em questão. A esse respeito o diretor da película esclarece:

Acho que é uma autobiografia generalizada. O Márcio Américo escreveu um livro que lembra aqueles clássicos da literatura, que o tema retrata uma geração e seus costumes que marcaram uma época. Meninos de Kichute fala da infância de milhões de brasileiros oriundos da ‘geração kichute’, que iniciou em 1970, ano do tri, quando o kichute foi lançado, e se estendeu até os anos 90” (…). O título me atraiu de imediato (…) a cada capítulo  me identificava cada vez mais com a minha infância em Lages, porque os sonhos dos meninos de Londrina, eram os mesmos: queríamos ser jogador de futebol” (Site oficial do filme. Disponível em: http://ambergfilmes.com.br/. Consultado em 26 de fevereiro de 2017).

A citação foi um pouco longa, mas resume bem a proposta da obra. Meninos de kichute consegue estabelecer um painel facilmente reconhecível pelos contemporâneos. Ao mesmo tempo, ao tratar de crianças, bola, traquinagens, conflitos geracionais, colégio, expõe o caráter universal dessas primeiras experiências, realizações, possibilidades e decepções.

A narrativa se dá em torno do infante Beto. Esse garoto, filho de uma família pobre e com um pai rigoroso, tem duas habilidades que o destacam: sua perícia no “bafo” e sua recente destreza como goleiro. Enquanto jogava na linha não fez sucesso, mas acabou achando sua posição como guarda meta. Essa primeira descoberta infantil confere força ao personagem e à história:

Antes eu não era ninguém no campinho. Agora sou o primeiro a ser escolhido (Beto).

Toda pequena-grande odisseia de Beto (e da fita) se concentra na tentativa de dar corpo a esse ser que surge na brincadeira, dentro dos limites de um retângulo de areia. Isso vai demandar criatividade, tenacidade, ajuda e persistência. Como tudo o que vale a pena. Beto quer ser goleiro, quando crescer.

“E agora? Caga na mão e joga fora!”, como dizia esse adágio quase poético, retratado pelos garotos do filme. Ou seja, se você tá com uma folguinha entre um bloco e outro, ou cansado de seu retiro anti-momesco, por qualquer motivo, Meninos de kichute está disponível pra quem tem o Canal Brasil (ou pra quem se dispõe à arte de baixar filmes pela internet). Bom carnaval pra geral!