Francisco Pontes, o “Manolete” do Brasil

28/07/2019

por Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

Em recente visita a um importante centro de prática e estudos sobre as touradas no mundo, a cidade de Córdoba, região da Andaluzia, na Espanha, pude sentir de perto toda a fascinação que os espanhóis possuem pela prática, assim como toda a sua significação histórica e identitária. Os toureiros, assim como os touros, são admirados e elevados a celebridades carregadas de virtudes. Nesse contexto, se destaca um personagem no cenário local, Manuel Laureano Rodríguez Sánchez, mais conhecido como Manolete, nascido em Córdoba em 1917 e falecido em Linares, também na Espanha, em 1947, com apenas 30 anos de idade após um golpe fatal de um touro Miura.

Sua morte comoveu país inteiro, sendo que, na época, o próprio ditador Franco ordenou três dias de “luto nacional”, durante os quais hinos fúnebres eram ouvidos no rádio. Em 2007 foi realizado um filme sobre a sua vida, “Manolete – Sangue e Paixão”. Tanto no Museu Taurino de Córdoba, quanto pelas ruas estreitas da cidade histórica, são inúmeras as referências a este, que pode ser considerado o mais celebrado toureiro de todos os tempos.

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Busto de Manolete – Museu Taurino de Córdoba

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No entanto, não foi somente no velho continente que esta admiração pelos astros da tauromaquia pôde ser notada. Guardadas as devidas proporções e o cuidado com as anacronias, o Brasil também teve o seu astro dos redondéis, o português Francisco Pontes, um dos mais notáveis toureiros a atuar no Brasil. Seu destaque se deu em grande parte do território brasileiro onde comandava um circo de touros itinerante. No Rio de Janeiro, se tornara um dos grandes responsáveis pela popularização da tauromaquia no século XIX, por sua notável performance nas arenas, por sua capacidade de organizar espetáculos de qualidade e por seu constante envolvimento com a filantropia. Pontes era considerado o maior artista tauromáquico a visitar o Brasil.

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Francisco Pontes
O Toureiro, 1877

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Em Porto Alegre, Pontes tornou-se, também, renomado. Na temporada de 1881, chegou a receber de presente uma valsa, “Primavera”, composta por João Fernandes de Souza Lima, a ele oferecida como prova de simpatia e admiração pelos seus méritos artísticos.

O toureiro sempre procurava retribuir o carinho do público. Por exemplo, nas corridas de 11 de agosto de 1889, tanto os bilhetes de sol como os de sombra foram acompanhados de seu retrato, que poderia ser retirado pela pessoa que os comprar antes de entrar para a corrida. Explicitamente desejava agradecer o público e a imprensa da capital sulina, pela maneira generosa que o acolhera, revelada nos abundantes aplausos prodigalizados à sua companhia e na valiosa proteção que lhe foi dispensada.

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Arena de touradas, Porto Alegre, 1909 (ver fundo da imagem)
Disponível em: https://lealevalerosa.blogspot.com/2010/05/circo-de-touros-em-porto-alegre.html

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Ainda que em algumas ocasiões houvesse ressalvas à atuação da companhia de touros, em geral os toureiros, além de Pontes, receberam grande destaque, ressaltando-se sua destreza e coragem. Lourenço Delgado, por exemplo, tornou-se um ídolo por sua capacidade de realizar técnicas muito distintas e arrojadas. Geminiano de Carvalho ganhou fama por ser um “artista ginástico”. Isso tinha relação com o fato de que tinha força para suspender um touro, bem como porque aceitava desafios de luta romana, realizados em plena arena.

Nas corridas de Porto Alegre houve mulheres lidando com os touros. Em 1889, atuaram Petrona Nogueira, Maria Soares e, com muito destaque, a espanhola Maria Dolores, considerada “valente e corajosa heroína”. Ela chegou a enfrentar um touro com “aspas nuas”, além de encarar o quase onipresente Tigre Rochedo, afamado touro.

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Arena de touradas, Porto Alegre, 1901 (ver fundo da imagem)
Disponível em: https://lealevalerosa.blogspot.com/2010/05/circo-de-touros-em-porto-alegre.html

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Já na temporada de 1875, se apresentara Julia Rachel, casada com o afamado toureiro Miguel Tranzado, anunciada como a única neste difícil trabalho em toda a América do Sul. Suas proezas eram anunciadas com grande alarde, o mesmo que ocorreu com outra pioneira, que atuara nas corridas de 1881: Zulmira da Conceição.

Como era usual em outras cidades, também em Porto Alegre foram organizadas touradas com fins beneficentes, uma iniciativa que ajudava a aumentar o reconhecimento social para com a prática. No caso das corridas que promoveu Pontes, era também uma forma de expressar sua vinculação a certas causas políticas, como as abolicionistas, por exemplo.

No Rio de Janeiro, o toureiro se envolveu profundamente com a luta contra a escravidão. Na capital gaúcha, uma das ocasiões em que isso se manifestou foi em uma sessão dedicada à Sociedade Floresta Aurora, uma ativa agremiação de negros.

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Em tudo o que pudemos verificar nas touradas do século XIX no Brasil, nenhum outro “artista” tauromaquico logrou tanto sucesso quanto Francisco Pontes. Manolete na Espanha ou Pontes no hemisfério sul, o fato é que este desafio entre o homem e o animal, entre a força e a habilidade, aflorava sentimentos extremos por onde fora praticado. Na capital do império ou na Província de São Pedro, o toureiro conquistou o seu público, sua fama e está marcado na História. Afinal, o Brasil também tem o seu Manolete.

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Para mais informações:

* Tradição e modernidade: as touradas na Porto Alegre do século XIX
Cleber Eduardo Karls, Victor Andrade Melo
História Unisinos, v. 18, n. 2 (2014)
http://revistas.unisinos.br/index.php/historia/article/view/htu.2014.182.11


Esportes nos sertões das Gerais

08/07/2019

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Recentemente veio à luz o livro Histórias do lazer nas Gerais, organizado por mim e pela professora Maria Cristina Rosa, colega na Universidade Federal de Minas Gerais, publicado pela editora da mesma universidade. O livro traz onze capítulos sobre a história do lazer em Minas Gerais em diversos períodos, do século 18 aos meados do século 20, escritos por diferentes autores e tratando de diferentes aspectos, desde diversões cotidianas como a frequência a bares e botecos, até o teatro, a dança cênica, as festas religiosas ou o turismo em estações termais, em distintas cidades de Minas Gerais. 

Mais alguns detalhes sobre o livro podem ser vistos em matéria publicada no Boletim da UFMG (veja aqui).

Os esportes, como uma das formas mais disseminadas de ocupação do tempo livre desde os princípios do século 20, estão também presentes no livro. Reproduzo abaixo trecho do capítulo dedicado aos esportes no interior de Minas Gerais, escritos por mim; por Euclides de Freitas Couto, professor da Universidade Federal de São João del Rei; por Carlos Fernando da Cunha Junior, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora; por Luciano Pereira da Silva, da Universidade Federal de Minas Gerais; e por Georgino Jorge de Souza Neto, da Universidade Estadual de Montes Claros. 

“O debate historiográfico sobre o lazer relaciona-se de diferentes formas com questões relativas ao progresso e a modernidade. Desde as primeiras pesquisas que estimularam a inauguração de um campo de estudos especializados sobre o assunto, destaca-se uma originalidade ou ruptura fundamental no modo contemporâneo de organizar-se o tempo livre. Além de evidências documentais de fato disponíveis nesse sentido, a assimilação de um quadro teórico particular, concorreu decisivamente para a consolidação deste modo de olhar, logo elevado à condição de paradigma dominante nos estudos do lazer em geral, mas também na sua historiografia, em particular. Mais especificamente, a teoria da modernização serviu, e em larga medida serve ainda, como grade interpretativa através da qual apreendem-se transformações históricas no âmbito do lazer. De acordo com as linhas gerais desta interpretação, a organização social do tempo na modernidade representaria uma mudança radical e mais ou menos abrupta com as suas formas pré-modernas ou pré-industriais.

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Alunos do Ginásio Diocesano de Uberaba praticando esportes. Fonte: ARQUIVO PÚBLICO DE UBERABA. Uberaba: 100 anos de olhares e memórias (primeiro século, 1856-1956). Uberaba: Arquivo Público de Uberaba / NF Editora, 2009.

Coerentemente, são estes os termos por meio dos quais vêm sendo geralmente estudado o desenvolvimento histórico do lazer no Brasil. Para reforça-los, quase a despeito de quaisquer influências teóricas, em inúmeras ocasiões, práticas lúdicas diversas serviram, de fato, como índice de progresso dos costumes e evolução dos comportamentos. O teatro, o cinema, o circo, o baile, a soirée, a retreta, o piquenique, o espetáculo de música ou o passeio na praça ajardinada, foram objetos de uma retórica, quase sempre das elites, que os percebia como prova inequívoca de modernidade. Tudo isso afetou várias diversões públicas e privadas, mas parece ter sido especialmente verdadeiro para os esportes, que foram vistos e representados em toda parte como símbolo acabado de modernidade. Seus novos usos e concepções do corpo, sua codificação gestual peculiar, seu vestuário e mecanismos de comercialização, a excitabilidade emocional das competições, a sociabilidade pública e o espetáculo em si, foram alguns dos elementos que ajudaram a acentuar a percepção de que os esportes dramatizavam o advento de padrões de comportamentos sociais inovadores.

Nos sertões do Brasil, isto é, em cidades do interior, às vezes mais, às vezes menos afastadas dos centros urbanos onde tais transformações se desenrolavam de maneiras supostamente mais intensas, os efeitos de processos ou de ambições modernizadoras parecem ter sido especialmente dramáticos. Nesses lugares, historicamente marcados pelo estigma do atraso e do subdesenvolvimento, frequentemente surgiu uma quase obsessão entre certos grupos com qualquer novidade que pudesse comprovar, ou ao menos representar, a emergência de costumes reiteradamente tidos por “mais modernos” e em conformidade ao que se supunha ser o padrão de outros “centros mais avançados”. As novidades enquadradas neste prisma iam desde o telégrafo até a luz elétrica, passando pela linha férrea, pelos cinemas, mas também pelos esportes, que logo integraram esse corolário. Na verdade, processos modernizadores inauguraram mesmo novas formas de se refletir sobre performances corporais no espaço público. No curso desse processo, o corpo assumiu certo protagonismo nas interações sociais, apresentando-se como instrumento privilegiado para lutas simbólicas, que, literalmente, “incorporaram” a ética e a estética dos novos tempos. Com efeito, a introdução de práticas esportivas parecia ser condição indispensável para o estabelecimento de um novo homem, sintonizado com uma moral.

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Estádio do Athletic Club, Campeonato Municipal de São João del-Rei, 1919. Fonte: Projeto Nas vertentes do futebol. Universidade Federal de São João del-Rei.

Sobre essa temática, a historiografia brasileira produziu nas últimas décadas um volumoso e consistente corpus bibliográfico, que tem desvelado várias nuances do processo de disseminação de práticas esportivas nas grandes cidades brasileiras. No entanto, dada a dimensão continental do Brasil, que comporta uma infinidade de trilhas históricas a serem percorridas, investigar a introdução dos esportes nos sertões se apresenta como empreitada imprescindível. O estudo que ora se apresenta pretende oferecer uma contribuição nesse sentido. Desenvolvido no marco de um projeto que articula investigações de quatro universidades de Minas Gerais (além de outras duas da Bahia), envolvendo pesquisas nos acervos de diferentes instituições, concentramo-nos aqui na descrição e análise do desenvolvimento histórico inicial dos esportes em quatro distintas regiões: a Zona da Mata, o Campo das Vertentes, o Norte de Minas e o Triângulo Mineiro. Cada uma dessas regiões envolve circunstâncias bastante representativas sobre a história do desenvolvimento dos esportes em Minas Gerais, sem esgotar, todavia, toda a sua diversidade, ainda carente de mais pesquisas. Além disso, por diferentes motivos, acabamos por privilegiar também cidades específicas, em geral, as maiores e mais populosas de cada uma dessas regiões, que por isso mesmo desempenharam importante papel social, econômico, cultural e político sobre um espectro geográfico mais amplo. Dessa forma, São João del Rei, Juiz de Fora, Montes Claros e Uberaba ganham aqui visível destaque.

Todavia, ênfases sobre essas cidades não necessariamente implicam em prejuízo a quaisquer outras. Ao contrário, uma das características que se destacam na vida social nos sertões das Minas Gerais em princípios do século 20, quando registra-se o início ou a intensificação das suas práticas esportivas, é um fluxo inter-regional por vezes surpreendente entre diferentes cidades. Alimentos, manufaturas, populações, mas também culturas, incluindo aí os esportes, compunham os elos dessas cadeias complexas e multidirecionais nos sertões das Gerais. Assim, a ênfase sobre apenas algumas cidades, geralmente as maiores ou economicamente mais influentes, onde a documentação frequentemente é mais abundante e também melhor preservada que suas congêneres de menores proporções, deixam entrever acontecimentos desenrolados para além de seus limites mais imediatos, revelando uma trama que em muito as extrapolam. Nesse caso, a inauguração de clubes ou a realização de eventos esportivos em Queluz, Barbacena, Bocaiúva, Araxá, Araguari, Uberlândia, Lavras, Formiga, Ubá, Corinto, Leopoldina, Cataguazes, Curvelo, entre muitas outras cidades, exibem um mundo esportivo vibrante já, embora às vezes modesto, se comparado ao que acontecia em outras cidades ou regiões, mas nem por isso historicamente menos relevante. Não por menos, até anos avançados do século 20, Minas Gerais foi o estado mais populoso do Brasil, com uma economia ao menos razoavelmente desenvolvida para os padrões da época, com uma elite política nacionalmente influente”.


O FUTEBOL NOS JOGOS BOLIVARIANOS DE 1938: PRIMÓRDIOS DA SELEÇÃO COLOMBIANA

14/05/2019

Eduardo de Souza Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

A seleção colombiana de futebol masculino tem recebido destaque da mídia internacional nos últimos anos. Com boas campanhas nas últimas duas Copas do Mundo, tal como jogadores de renome mundial (como James Rodríguez e Falcão Garcia), os colombianos vivenciam nessa década um dos melhores momentos enquanto torcedores do selecionado nacional.

 

Antes do cenário atual, a geração mais vitoriosa da seleção colombiana foi a dos anos 1990, com nomes como Valderrama, Higuita, Rincón, Andrés Escobar, Asprilla, Aristizabal, entre outros. Boa parte desses atletas começaram a se destacar ainda na década de 1980 (quando pela primeira vez um clube do país venceu a Libertadores da América, com o Atlético Nacional em 1989), tendo a Colômbia engatado pela primeira vez a disputa de três Copas do Mundo seguidas (1990, 1994 e 1998), além de uma emblemática goleada contra a Argentina em 1993 por 5×0, em pleno Monumental de Nuñez. Esse ciclo foi encerrado com o título da Copa América em 2001, jogando em casa, sendo essa a única conquista do país em competições oficiais de futebol masculino até hoje.

 

Mas, antes do auge vivenciado na atualidade e nos anos 1990, se faz possível perguntar: quando se iniciou o percurso da seleção colombiana de futebol masculino? Nesse post de hoje, abordarei algumas questões relacionadas a essa temática, notadamente acerca da presença do futebol nos Jogos Bolivarianos de 1938, que foi uma das primeiras competições oficiais onde a Colômbia enviou uma equipe de futebol.

Historicamente, o país só veio a formar um selecionado nacional que fosse entendido como “oficial” no início de 1938. Sua primeira partida ocorreu em fevereiro desse mesmo ano, no âmbito dos Jogos Centro-Americanos e do Caribe, um dos eventos que serviram como modelo para a construção dos primeiros Jogos Bolivarianos, inaugurados em agosto na cidade de Bogotá.

No Sul-Americano de seleções (atual Copa América), a Colômbia só viria a fazer sua estreia em 1945, sendo a penúltima das dez seleções atualmente filiadas à Conmebol a iniciarem sua participação na competição continental mais importante da América do Sul (a última, foi a seleção da Venezuela, que estreou no Sul-Americano apenas em 1967, oito anos antes da mudança de nome da competição, que desde então passou a ser conhecida como Copa América).

Esse cenário só explicita o quanto o futebol do país na década de 1930 se encontrava em um contexto ainda incipiente no âmbito internacional, tendo essa situação se modificado paulatinamente apenas após seu processo de profissionalização, iniciado em 1948.

A partir de 1936, além da Conmebol, o país passou a ser filiado também à FIFA. Isso possibilitou a idealização e consequente formação de uma equipe. A estreia do selecionado de futebol colombiano se deu em 10 de fevereiro de 1938, em uma derrota por 3×1 para o México, no âmbito dos já citados Jogos Centro-americanos e do Caribe. Mesmo com a derrota, essa partida marcou o início da trajetória do país no futebol de seleções.

No âmbito dos Jogos Bolivarianos de 1938 em Bogotá, e tendo como fontes alguns periódicos do período, é válido ressaltar que já no final de julho desse mesmo ano, se faz possível encontrar algumas referências à competição de futebol que viria a ocorrer no âmbito desse evento, sendo destacado inclusive o sorteio que formou posteriormente os confrontos do certame:

Com a assistência de todos os capitães das equipes de futebol que participarão dos Jogos Bolivarianos, se celebrará na segunda-feira às três da tarde uma importante reunião, durante a qual se farão os sorteios para a ordem dos eventos em questão.

A essa reunião assistirão, ademais, o árbitro mexicano contratado pelo governo nacional, senhor Esteban Tejada, o presidente da Liga de Fútbol de Cundinamarca e o presidente do Comitê Olímpico Nacional.

Este sorteio tem grande importância, pois dele sairá o programa definitivo dos encontros de futebol com a ordem em que haverão de participar as diversas equipes (El Espectador, 30 de julho de 1938, p. 6, tradução nossa.).

A partida que inaugurou o evento de futebol no âmbito dos jogos, foi um jogo entre Colômbia e Peru. Tendo os dois países passado por um conflito bélico entre 1932-34, por disputas de fronteira, mas que desde a Olimpíada de 1936 em Berlim haviam sinalizado uma reaproximação diplomática, tal jogo inicial se explicitou como emblemático para inaugurar o evento. A grande recepção recebida pela delegação peruana, deu o tom diplomático que a partida se inseriu. Todavia, algumas confusões marcaram a realização do jogo até que o mesmo ocorresse.

Marcado inicialmente para ocorrer em 08 de agosto de 1938, a partida inaugural do torneio de futebol movimentou opiniões na imprensa e na sociedade como um todo. Em El Espectador, foi destacado que “todos os amantes do futebol bogotano estão hoje pendentes do encontro entre Colombia x Peru, que terá lugar […] no campo da Ciudad Unviersitaria, e com o qual se iniciará o torneio desse esporte nos Jogos Bolivarianos.” (El Espectador, 02 de agosto de 1938, p. 5, tradução nossa.).

As apostas para a partida eram que o Peru saísse vencedor. Até mesmo entre os dirigentes colombianos, era apontado o Peru não só como favorito desse jogo, mas de todo o torneio de futebol, por ser a seleção mais antiga e desenvolvida dentre todas as que participariam do evento. Todavia, o que é importante notar, para além dos comentários acerca dos possíveis placares, são os discursos diplomáticos, presentes nas falas de alguns dos dirigentes mais importantes na organização dos Jogos Bolivarianos. O Coronel Leopoldo Piedrahita, organizador dos jogos, e Alfredo Gómez Vanegas, subdiretor de todo o evento, abordaram a partida desta maneira, respectivamente:

Coronel Leopoldo Piedrahita, diretor dos Jogos Bolivarianos:

Vamos ver jogar um bom futebol. Serão adversários nobres, e a satisfação do triunfo se repartirá entre vencedores e vencidos. Como colombiano e como diretor geral dos Jogos Bolivarianos, tenho plena segurança de que nossos compatriotas aclamarão constantemente aos próprios e a nossos galhardos irmãos.

Alfredo Gómez Vanegas, subdiretor dos Jogos Bolivarianos:

Ao menos podem abrir os jogos com um “prato forte” – falando em um jargão futebolístico -, que saberá despertar a afeição pelos jogos. O triunfo se repartirá por igual. O comitê organizador dos jogos espera ver demonstrada a tradicional cultural bogotana, nessa partida da próxima segunda-feira (El Espectador, 02 de agosto de 1938, p. 5, tradução nossa.).

Os olhares para a realização dessa partida, foram muitos. E, também, foram abordados pela imprensa peruana e seus dirigentes. Como exemplo, destaca-se abaixo a fala de Alfredo Hohaguen Díez Canseco, presidente da embaixada peruana nos jogos. Mesmo sendo de conhecimento de todos que a seleção peruana era entendida como superior à colombiana, Díez Canseco não deixou de adotar um tom diplomático em seu discurso e aposta sobre a partida:

Pelas referências que tenho, sei que os colombianos estão em magníficas condições. Os jogadores de meu país não puderam se adaptar, todavia, a altura de Bogotá, porém considero daqui até segunda-feira há tempo suficiente. É natural que os jogadores do Peru sejam superiores aos colombianos, e podem ganhar, porém asseguro que de nenhuma maneira será um triunfo por um score muito alto (El Espectador, 02 de agosto de 1938, p. 5, tradução nossa).

Os interesses mercadológicos na construção do espetáculo dos Jogos Bolivarianos, se fizeram notados quando foi debatida a possibilidade de modificar a data da partida entre Colômbia e Peru. Inicialmente agendada para o dia 08 de julho de 1938, às 10 horas da manhã, “várias empresas bancárias e particulares” (El Espectador, 03 de agosto de 1938, p. 3, tradução nossa) elaboraram uma petição para alterar o jogo para um dia antes, o domingo, sugerindo que fosse realizado ao meio-dia. Assim, se tornaria possível abarcar um número maior de espectadores e, naturalmente, também de consumidores.

Por fim, as forças do mercado prevaleceram, tendo o espetáculo inaugural do futebol nos jogos se iniciado no domingo, 07 de agosto de 1938. O resultado final da partida foi o esperado: vitória do Peru, com placar final de 4×2 (El Espectador, 08 de agosto de 1938, p. 3.). Todavia, como forma de destacar o emocionante confronto, algumas confusões ocorreram na partida e geraram não só a expulsão de atletas em campo como a invasão do mesmo por torcedores, quebrando um pouco do “olhar diplomático” proposto por todos antes do certame:

Quando <El Sapo> Mejía avançava com a bola, até a porteira peruana, Jorge Alcalde o interrompeu e agarrou o colombiano pela blusa, o fazendo rodar. Mejía se levantou e ambos trocaram alguns golpes, que provocaram que grande quantidade de público invadisse o campo, fazendo notórios protestos. O campo foi desocupado e os jogadores expulsos, e quando, todavia, se debatia o incidente, se abriu de novo o jogo. Instantes depois os espectadores lançaram estrondosos gritos (El Espectador, 08 de agosto de 1938, p. 3, tradução nossa)

A primeira vitória colombiana na competição, em uma vitória por 2×0 sobre a seleção da Venezuela em 12 de agosto de 1938, foi muito festejada (El Espectador, 13 de agosto de 1938, p. 1 e 6.) A postura de seu povo, incorporado na pele dos torcedores, tal como os discursos da pátria em seus grandes “palcos”, foram sempre exaltados.

Após a partida inaugural contra o Peru e a vitória contra a Venezuela, curiosamente, os jogos de futebol foram menos noticiados no âmbito da imprensa que cobriu o torneio nos Jogos Bolivarianos. Todavia, a cobertura sobre os palcos em que os jogos ocorriam, que eram os recém-criados estádios Ciudad Universitaria e El Campín, continuavam sendo pautas importantes da imprensa colombiana. Mas esse, é tema para outro post….

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Estádio Nemesio Chamacho, “El Campin”, de Bogotá, inaugurado em 1938 no âmbito dos primeiros Jogos Bolivarianos. http://www.conmebol.com/pt-br/content/ha-75-anos-el-campin-de-bogota-e-local-de-tradicao-da-identidade-colombiana


História do ciclismo de estrada

04/02/2019

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Para Kaká, a melhor treinadora de corrida.

“Toda história é história contemporânea”. A frase famosa é do filósofo e historiador italiano Benedetto Croce. Com ela, Croce queria dizer que toda reflexão sobre o passado encontra motivação em preocupações do presente.[1] Vários outros teóricos da história, bem como prestigiados praticantes do ofício, repetiram-na com outras palavras.

De fato, o surgimento de especialidades como a história das mulheres, a recente história da mobilidade urbana ou mesmo a história dos esportes são exemplos que confirmam tais assertivas. Apenas depois de assuntos como esses terem entrado na ordem do dia é que um crescente número de historiadores se voltou a eles, formando então uma comunidade de especialistas dedicada a tentar dar respostas a inquietações de seu próprio tempo. De que forma mulheres tomavam parte em acontecimentos históricos – até então sempre narrados de um ponto de vista tão masculino? Quais foram os principais modos de se deslocar adotados ao longo do tempo? Como e porque os esportes ganharam a atual popularidade?

Ao lado das grandes agendas do debate público, questões mais pessoais também podem influenciar nas decisões de historiadores dedicarem-se a este ou aquele assunto. Experiências de preconceito e sentimentos de vergonha diante de sua própria homossexualidade parecem ter sido importantes nas decisões do historiador e filósofo francês Michel Foucault em dedicar parte de suas obras à história da sexualidade, conforme já apontaram alguns de seus biógrafos.[2]

Não é tão comum ver historiadores expondo as razões pelas quais abraçam os assuntos aos quais se dedicam. É raro um relato como o do historiador Li Liu, professor do Colégio de Esportes e Educação Física da Universidade Normal Anhui, na China, narrando os caminhos que o levaram a se especializar no estudo do esporte.[3] Além das formalidades do método, que às vezes desaconselham confissões desse tipo, as razões para o despertar de certos interesses podem inclusive escapar aos próprios historiadores. Nem todas os interesses intelectuais, afinal, são tão oniscientes. Às vezes só Freud explica.

Com muita ou pouca consciência, porque, então, um historiador ou uma historiadora decide se dedicar aos esportes? Paixão? Experiências prévias? Interesse intelectual por outros assuntos sociológicos que acabam levando aos esportes, como o uso político de fenômenos de massas ou a mobilização popular ao redor de certas práticas? Tudo isso ao mesmo tempo?

Cada qual poderia oferecer suas versões. Da minha parte, tenho apenas pequeno relato pessoal que explicam meus próprios interesses recentes – que aparecem neste blog, inclusive. O engajamento com corridas de rua colocara-me um novo horizonte de questões: quando, como e porque tantas pessoas começaram a ter prazer em correr pelas ruas?

Minha pesquisa sobre a história da corrida de rua está em curso ainda. Um artigo na Revista Brasileira de História do Esporte e outro na Revista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (em coautoria com Tauan Nunes) adiantam alguns de seus primeiros achados.[4] Na prática, porém, depois de sucessivas lesões, decidi encerrar precocemente o que acreditava ser uma promissora carreira amadora de corredor de longas distâncias, embora talvez fosse mais honesto dizer corredor de pequenas distâncias. É o adeus do queniano branco da Pampulha. O que fazer? Aposentar definitivamente as chuteiras?

Mudar de esporte e começar de novo pode ser uma alternativa. Depois de comprar em segredo uma bicicleta, dispensando as negociações domésticas por vezes difíceis sobre onde guardar um brinquedo com tais dimensões, acredito agora estar começando uma nova e promissora carreira amadora de ciclista de estrada. Junto com um novo cotidiano de “sprints” e “kings-of-the-mountains”, já dentro do jargão da subcultura, novas perguntas e novos interesses de pesquisa.

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O ciclismo surgiu e se desenvolveu em países da Europa Ocidental em meados do século 19. Obviamente, esta é uma modalidade que depende bastante de inovações tecnológicas. Diferente do que afirmam versões mais populares, porém, que enfatizam saltos tecnológicos abruptos, supostamente realizados por um único homem, em um único país, essas inovações, na verdade, foram paulatinas e cumulativas, realizadas simultaneamente em diferentes lugares, envolvendo diferentes pessoas ao longo de décadas, em processos permeadas por plágios, espionagem industrial e disputas por patentes.[5] Por volta de 1880, o modelo de bicicleta que conhecemos hoje já estava disponível e iria se popularizar rapidamente: com rodas de igual tamanho, pneus infláveis e acionada por correntes. Comparado aos modelos anteriores, era mais leve, mais segura e mais fácil de guiar. Logo sua fabricação se tornaria também menos custosa, diminuindo, então, os preços para os consumidores.

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Bicicletas para mulheres em Londres, 1819. Fonte: Tony Hadland e Hans-Erhard Lessing. Bicycle Design: an Illustrated History. Cambridge / London: MIT Press, 2014, p. 24.

Em 1893, uma bicicleta custava, em média, 1.655 horas de trabalho na França. Em 1911, esse custo seria apenas de 357 horas.[6] Em parte como resultado da redução dos preços, o número de bicicletas cresceu initerruptamente a partir de 1890. No fim do século 19, havia 300 mil bicicletas na França. Em 1938, seriam mais de 9 milhões. Não por acaso, o ciclismo desenvolveria forte relação com a França, talvez mais do que em qualquer outro país. A popularização das bicicletas parece ter sido um aspecto crucial desse processo. Segundo opinião do historiador Richard Holt, “o interesse no ciclismo como espetáculo esportivo correspondeu amplamente ao crescimento do número de bicicletas em circulação”.[7]

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Propaganda da bicicleta de John Starley, conhecida também como “Roover segura”, consagrando o modelo que usamos até hoje. Fonte: Tony Hadland e Hans-Erhard Lessing. Bicycle Design: an Illustrated History. Cambridge / London: MIT Press, 2014, p. 54

Afora a redução do preço das bicicletas, outros fatores mais gerais também desempenharam um papel importantíssimo nesse processo, especialmente a elevação gradual de salários, a diminuição do tempo dedicado ao trabalho e a popularização de certos produtos e serviços vistos até então como luxos (como viagens, compra de jornais ou a própria posse de bicicletas). Entre 1890 e 1950, o PIB per capita de vários países da Europa Ocidental quase dobrou. Ao mesmo tempo, a duração média das jornadas de trabalho diminui em mais de 50%.[8]

Novos títulos de jornais concebidos deliberadamente para terem preço reduzido e notícias compatíveis com os interesses populares também alcançaram grandes tiragens.[9] Essa imprensa popular e comercial, dependente da venda de grandes quantidades de exemplares aos leitores, mas também de publicidade de anunciantes, desempenhou um papel bastante importante na difusão do ciclismo de estrada.

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Até 1880, a maioria das corridas de bicicleta era organizada em velódromos. Na década de 1890, porém, jornais começaram a organizar corridas em estradas na Bélgica, na Itália e na França. A corrida de ida e volta entre Paris e Brest, Paris-Brest-Paris, criada em 1891 pelo editor de jornais Pierre Giffard, é um exemplo frequentemente lembrado nesse sentido. Pierre Giffard, além de ter sido o editor de um dos mais importantes periódicos esportivos da França no fim do século 19, Le Vélo (lançado em 1892), criaria ainda várias outras competições esportivas, não apenas de ciclismo, mas de corridas a pé e de automóvel.

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Jornal francês “Le Vélo“. Fonte: E-bay [link]

Fabricantes de bicicletas e de pneus logo se associaram a competições desse tipo através do patrocínio a ciclistas. Já em 1891, os irmãos André e Édouard Michelin, que dois anos antes tinham inaugurado uma fábrica de pneus, patrocinaram o ciclista Charles Terront na primeira corrida Paris-Brest-Paris. Usando o protótipo de uma nova tecnologia de pneus destacáveis com câmera de ar, desenvolvida e depois patenteada pelos próprios irmãos Michelin, Charles Terront venceu aquela corrida. Para Charles Terront foi mais uma vitória em uma extensa lista de conquistas no ciclismo de estrada que ele ia acumulando desde os anos 1880. Para os irmãos Michelin foi o prenúncio de uma invenção que lhes ajudaria decisivamente a fazer fortuna. Podemos imaginar a satisfação dos irmãos Michelin com a vitória de Charles Terront.

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Cartaz de propaganda dos pneus Michelin, já com o famoso mascote “Bibendum” ou o “Homem Michelin” ou ainda o “Homem de Pneus Michelin” (c. 1913). Fonte: Pinterest [link]

O motivo pelo qual jornais começaram a organizar corridas de bicicleta em estradas e não competições de outros esportes radica-se grandemente na astúcia comercial dos proprietários de jornais. Corridas de bicicleta em velódromos podem se tornar enfadonhas para os espectadores depois do entusiasmo inicial com a novidade. A tendência geral de se proibir apostas em esportes a partir do final do século 19 apenas tornou ainda menos interessante essas competições para o grande público.

Em corridas de bicicleta em estradas, no entanto, a imprevisibilidade do resultado e da própria evolução da competição é maior, o que ajuda a manter o interesse dos espectadores por mais tempo. Igualmente importante, competições em meio a vários desafios físicos e meteorológicos, como eram as corridas em estradas, tendiam a gerar notícias sensacionais, capazes de manter a atenção do público e ajudar a vender jornais por vários dias. Proprietários de jornais sabiam perfeitamente disso.

Não por acaso, jornais noticiavam os acontecimentos dessas corridas como aventuras épicas, onde homens heroicos lutavam bravamente contra seus adversários, contra o cansaço, contra as dificuldades do percurso e ainda contra o frio, a fome e a sede. Acidentes, acasos, rivalidades, brigas, trapaças, superações e pequenos gestos de grandeza apenas acentuavam os dramas humanos ao redor dessas competições, tornando-as ainda mais atraentes.

Além disso, o que era especialmente importante para os jornais, nas competições em estradas os espectadores viam os ciclistas passarem em velocidade por pouco tempo. A única maneira de ter informações sobre o desfecho dessas corridas em fins do século 19 era comprando jornais, que graças a crescente alfabetização, a redução de preços, ao aumento geral do tempo livre dos trabalhadores e ao crescimento dos salários, ia se tornando, justamente nessa época, um meio de comunicação bastante acessível.

Outro aspecto importante: nas competições de ciclismo de estrada, não era bem o público que ia ao espetáculo, se não o espetáculo que ia até o público, por mais distantes que este estivesse. Na verdade, com as competições em estradas, não haveria virtualmente público distante o suficiente. Cedo ou tarde, o trajeto das competições levaria uma ou mais caravanas de ciclistas até os mais recôndidos lugares. Para populações em pequenos e isolados vilarejos rurais no final do século 19, essas competições às vezes representavam a única oportunidade de assistir espetáculos desse tipo. Em várias ocasiões, milhares de pessoas acorreram às beiras das estradas para assistirem a passagem dos ciclistas por suas cidades.

Escrevendo de Bourdeaux, onde acontecera uma das etapas da primeira edição do Tour de France, em 1903, Geo Lefèvre, o jornalista que de fato idealizou aquele evento, tentou descrever em carta para Henri Desgrange, proprietário do jornal que organizou a competição (L’Auto, criado em 1901 com o nome de L’Auto-Vélo e que em 1944 passaria a se chamar L’Equipe), o impacto que o evento tivera na cidade: “eu vi mais de 10 mil camponeses olhando suas cópias de L’Auto nos campos hoje”.[10] Podemos imaginar a satisfação de Henri Desgrange com as notícias que lhe chegavam sobre o evento promovido por seu jornal.

Corridas de bicicletas por estradas também permitiam que os espectadores observassem os ciclistas mais de perto, apesar de por pouco tempo, o que podia favorecer empatia e identificação. Essa proximidade era especialmente verdadeira nas pequenas competições paralelas que costumavam ser organizadas nas cidades por onde passavam os ciclistas envolvidos na travessia dos grandes percursos de estrada. Na medida em que o investimento de jornais e de fábricas de bicicletas elevavam os prêmios em dinheiro dessas corridas, um número cada vez maior de indivíduos das classes populares se interessava pelo esporte, vendo aí uma oportunidade de ganhos e de ascensão social. O interesse das classes populares, por sua vez, ampliava o público e o mercado consumidor potencial das corridas, das bicicletas e dos jornais.

Embora tenham sido poucas as pessoas que se aventuraram com o ciclismo competitivo, pois a maioria das bicicletas que começavam a ser vendidas em larga escala nessa época era usada para passeios ou para fins mais utilitários no cotidiano, os feitos atléticos dos ciclistas profissionais eram parte fundamental da nova dinâmica que se instalava ao redor dessas práticas. Além do ciclismo profissional servir como uma espécie de referência difusa, a repercussão das competições ampliava muito a visibilidade do esporte e dos produtos a ele relacionados. Essas competições serviam de palco privilegiado para a exibição das qualidades de produtos que fabricantes tentavam divulgar, a fim de convecer possíveis consumidores a comprarem-nos de uma vez por todas. Nesse contexto, esportes como o ciclismo de estrada desempenharam papel muito importante na criação de uma nova cultura do consumo.[11]

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Cartaz publicitário de bicicletas Peugeot, recentemente exibidas numa famosa casa de leilões de Paris. (sem data). Fonte: L’Est Républicain [link]

Tudo isso vai explicando porque o ciclismo de estrada foi uma das primeiras modalidades esportivas a se profissionalizar e a se organizar em termos explicitamente comerciais. O sucesso da associação dos interesses dos ciclistas, dos proprietários de jornais, dos fabricantes de bicicletas ou de pneus e do público cioso em assistir e ter informações sobre essas corridas, fortaleceu os laços entre todos esses agentes e manteve o impulso em favor da popularidade da modalidade.

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Entre o final do século 19 e o início do século 20, várias cidades brasileiras também experimentaram certo entusiasmo com corridas de bicicleta. Pesquisas de André Schetino no Rio de Janeiro, Wilson Gambeta em São Paulo, Marilita Rodrigues em Belo Horizonte e Eliza Soares em Manaus, narram algumas dessas histórias em detalhes.[12]

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Cartão postal do Velódromo Paulista, 1896. Fonte: Toninho Sereno. Velódromo Paulistano: o primeiro estádio de futebol da cidade de São Paulo. In: Blog História do Futebol – a enciclopédia do futebol na internet. 3 jan. 2015. [link]

Diferente do que aconteceu na Europa, contudo, no Brasil, as corridas de bicicleta em estradas não alcançaram o mesmo prestígio que as corridas em velódromos. Corridas de bicicletas na rua, não exatamente em estradas, com distâncias menores, portanto, chegaram a ser realizadas, especialmente no Rio de Janeiro. Aparentemente, porém, o sucesso dessas iniciativas foi menor do que aquelas realizadas em velódromos, que por alguns poucos anos foram capazes de mobilizar relativo interesse. Porque organizadores de corridas de bicicleta no Brasil não tentaram realizar competições mais longas em estradas, como aconteceu na Europa? Porque na primeira década do século 20 arrefeceu quase subitamente o relativo entusiasmo que havia diante de corridas de bicicleta em algumas cidades do Brasil? Finalmente, por que o interesse pela prática do ciclismo parece ter aumentado nos últimos anos?

Voltaremos ao assunto.

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[1] Originalmente: “A necessidade prática, que está no fundo de todo juízo histórico, dá a toda história o caráter de ‘história contemporânea’” (Benedetto Croce. A história: pensamento e ação. Rio de Janeiro: Zahar, 1962, p. 14).

[2] David Macey. Las vidas de Michel Foucaut. Madrid: Catédra, 1995.

[3] Li Liu. When a Choice Becomes a Chance: My Encounters with Sports History. The International Journal of the History of Sport, v. 34, Issue 5-6, p. 378-382, 2017.

[4] Cleber Dias. Corrida de rua no país do futebol. Recorde, v. 10, n. 1, 2017 (link); Cleber Dias e Tauan Nunes. Conhecendo o Rio de Janeiro a pé: “excursionismo”, “pedestrianismo” e “montanhismo” entre os séculos XIX e XX. Revista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, n. 13, p. 523-534, 2017 (link).

[5] Tony Hadland e Hans-Erhard Lessing. Bicycle Design: an Illustrated History. Cambridge / London: MIT Press, 2014.

[6] Eugene Weber. França fin-de-siècle. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

[7] Richard Holt. Sport and Society in Modern France. New York: Routledge, 1981, p. 84.

[8] Jean-François Mignot. The History of Professional Road Cycling. In: Daam Van Reeth e Daniel Joseph Larson (eds.). The economics of professional road cycling. New York: Springer, 2016, p. 7-32.

[9] Asa Briggs. Mass entertainment: the origins of a modern industry. In: Kym Anderson (ed.). Australia’s Economy in its International Context: the Joseph Fisher Lectures, volume 2, 1956-2012. Adelaide: University of Adelaide Press, 2012, p. 49-76.

[10] Andrew Ritchie. Early bicycles and the quest for speed: a history, 1868–1903. North Carolina: McFarland & Company, p. 270.

[11] Mark Dyreson. The Emergence of Consumer Culture and the Transformation of Physical Culture:American Sport in the 1920s. Journal of Sport History, v. 16, n. 3, p. 261-281, 1989.

[12] André Schetino. Pedalando na modernidade: a bicicleta e o ciclismo na transição do século XIX para o XX. Rio de Janeiro: Apicuri, 2008; Wilson Gambeta. A bola rolou: o velódromo paulista e os espetáculos de futebol. São Paulo: SESI-SP editora, 2015; Marilita Rodrigues. Constituição e enraizamento do esporte na cidade: uma prática moderna de lazer na cultura urbana de Belo Horizonte (1894-1920). Tese (Doutorado em História). Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2006; Eliza Salgado de Souza. Panorama do esporte em Manaus, 1897-1911. Dissertação (Mestrado em Estudos do Lazer). Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2017.


O futebol e seus simulacros no reino da ludicidade – Subbuteo

18/12/2018

Elcio Loureiro Cornelsen
(cornelsen@letras.ufmg.br )

Em sua obra clássica Homo Ludens, Johan Huizinga define o lúdico como sendo algo que integra a própria natureza humana. Assim, o ser humano seria, basicamente, caracterizado por três propriedades: a do raciocínio (o Homo Sapiens), a da engenhosidade prática (o Homo Faber), e a da ludicidade (o Homo Ludens).

O jogo em geral, pois, seria a concretização da ludicidade na sociedade. Podemos encontrar, por exemplo, jogos que simulam outros jogos, ou seja, são seus simulacros. Pensemos, por exemplo, no futebol. Como uma das modalidades esportivas mais difundidas no planeta, ao longo do século XX, o futebol inspirou uma série de jogos enquanto simulacros, os quais continham especificidades materiais e regras próprias.

São vários os jogos originados do futebol. Recentemente, Eduardo de Souza Gomes postou no espaço deste Blog o artigo intitulado “Pebolim, Totó, Fla-Flu ou Pacau? um breve histórico do campo esportivo no Brasil”. Encontramos nele inspiração para escrever sobre outro simulacro do futebol – o Subbuteo.

É provável que esse nome não diga muito, mas quando nos reportamos ao seu nome no Brasil, pessoas com mais de 40 anos, certamente, dele se lembrarão: “Pelebol”.

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Pois é, o Subbuteo é uma modalidade de futebol de mesa, que foi muito difundido no Brasil, nos anos 1970 sob o título de “Pelebol”, comerciado pelo fabricante de brinquedos Estrela, com a imagem e o prestígio do “Rei do Futebol”. Trata-se de um jogo inventado na terra da Rainha, mais precisamente em Liverpool, em 1925, por William Lane Keeling. Insatisfeito com outros jogos simulacros de futebol que já havia à época, Keeling decidiu improvisar o seu próprio jogo: recortou papelão no formato de pequenos jogadores de futebol e os fixou a uma base de borracha. Originalmente, a bola era de cortiça e as traves, de arame. Keeling desenhou o campo de jogo em uma toalha de linho.

Primeiramente, Subbuteo foi comercializado com outro nome: “Newfooty”. Todavia, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial e a crise econômica dela advinda, a produção foi interrompida, sendo retomada em 1947. A partir de então, os jogadores em miniatura passaram a ser confeccionados de material plástico, assim como as traves, e foram patenteados por Peter Adolph. Ornitólogo de profissão, amante dos pássaros, Peter Adolph rebatizou o “Newfooty” com o nome “Subbuteo” (haja imaginação!), baseando-se no nome científico de um falcão em latim – falco subbuteo –, e fundou a firma Subbuteo Sports Games. Em 1967, o empreendimento foi vendido a Waddingtons, então maior fabricante de brinquedos da Inglaterra. Três décadas depois, em 1995, a Waddingtons foi vendida à empresa de brinquedos norte-americana Hasbro.

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Subbuteo é jogado em um campo de flanela, de 80×120 cm.
Imagem: http://kickerium.de/2017/02/23/subbuteo-wie-fussball-nur-mit-hand/

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Basicamente, o Subbuteo conta com dois jogadores. Em geral, o jogo é composto por duas traves de plástico, um campo de futebol de 80×120 cm, de flanela, em que se defrontarão duas equipes compostas por 11 jogadores em miniatura cada uma: 01 goleiro e 10 jogadores de linha. Enquanto o goleiro, em posição de salto para defesa, tem menos mobilidade e é preso por uma haste, ficando restrito à meta e sendo acionado por trás da trave, os jogadores de linha, com cerca de 2 cm de altura, possuem uma base circular que, além de os manter na posição vertical, dando-lhes sustentação, permite que estes deslizem pelo campo ao serem impulsionados pelo dedo médio ou indicador do jogador ao ser pressionado sobre a flanela. Interessante é que o diâmetro da bola de jogo, também de plástico, possui a medida dos jogadores, ou seja, 2 cm. Esta pode ser simplesmente conduzida ou chutada, dependendo da direção e da força com que o jogador de linha é acionado.

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Miniaturas de jogadores representando a Seleção Brasileira
Imagem: https://www.yesterdaystoys.co.uk/Subbuteo-Heavyweight-Team-Ref-50-Brazil-3_A1LZ23.aspx

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Além disso, jogar Subbuteo requer certa tática e estratégia, pois todos os jogadores de linha são móveis e só podem ser movimentados e posicionados através de acionamento com os dedos durante a execução das jogadas. Esse é um dos aspectos que, se comparado com outras modalidades, fazem com que se considere o Subbuteo um simulacro mais próximo de uma partida de futebol. Embora muito menos praticado no Brasil em nossos dias, o Subbuteo ainda desfruta de popularidade em outras partes do mundo, onde existem ligas e se realizam campeonatos locais em mais de 50 países, bem como competições continentais e até mesmo mundiais.

Como um autêntico simulacro, as regras do Subbuteo correspondem, em sua maioria, às regras do futebol. A seguir, apresentaremos apenas as principais.

– Posse de bola

O jogador que tiver a posse de bola é, momentaneamente, o atacante, e o adversário, o defensor. Apenas o atacante pode tocar a bola ao acionar o jogador de linha com o dedo. Este perde a posse de bola quando erra a bola ao acionar o jogador ou quando a bola toca um jogador da equipe adversária. A bola só pode ser movimentada, no máximo, três vezes com o mesmo jogador de linha, sendo que o terceiro lance deve ser um passe para outro jogador de linha, ou mesmo um chute a gol.

– Movimentação de defesa

A cada toque de bola do atacante o defensor pode movimentar um de seus jogadores de linha, acionando-o com o dedo pressionado ao tecido do campo. A meta do defensor é dificultar a jogada de ataque adversário, à medida que consegue interpor um jogador de defesa entre o jogador atacante e a bola, ou mesmo bloquear um passe para outro jogador. Entretanto, durante a movimentação sem bola, o defensor não pode tocar nem a bola e nem outro jogador de linha, do próprio time ou do time adversário. Se isso ocorrer, o atacante pode exigir que a jogada volte e que os jogadores e a bola assumam a posição anterior ao lance em que o defensor cometeu a irregularidade. Aliás, se o defensor atingir a bola em movimento, haverá um tiro livre em favor do atacante.

– Jogadores fora de ação

Jogadores de linha que saem do campo ou que batem nas bordas de proteção da mesa, tão logo a bola seja colocada em movimento, são posicionados manualmente na parte externa do campo de jogo. Caso o jogador ainda se encontre na mesa, ele será posicionado no ponto mais próximo da linha de fundo; se tiver saído da mesa, será posicionado próximo à linha divisória. Jogadores deitados, tão logo a bola role, são posicionados corretamente onde estiverem. Não é permitido que se jogue com jogadores deitados.

– Chute a gol

Um chute a gol é válido somente quando a bola se encontrar no campo de ataque, além da chamada linha de tiro, linha intermediária entre o meio de campo e a área.

– Tiro de meta

O tiro de meta deve ser executado com o acionamento de um jogador de linha, sendo que a bola deve ser posta em jogo do mesmo lado por onde saíra pela linha de fundo. No tiro de meta, nenhum jogador adversário pode estar dentro da área.

– Arremesso lateral

Um jogador de linha é posicionado manualmente na lateral, exatamente no local por onde a bola saiu, e esta é posta em jogo através do acionamento do jogador com o dedo pressionado ao campo de jogo.

– Falta

Caso o jogador que esteja sendo acionado toque um jogador do time adversário sem tocar primeiro na bola, o lance é considerado faltoso e é marcado um tiro livre indireto. Se o lance ocorrer dentro da área, é marcada a penalidade máxima.

– Penalidade máxima

O goleiro deve permanecer sobre a linha do gol, enquanto os demais jogadores são posicionados fora da área.

– Reposicionamento dos jogadores em campo

Atacante e defensor podem reposicionar seus jogadores manualmente quando ocorrer tiro de meta ou após ser assinalado um gol. Nos demais lances, só será permitida a movimentação de jogadores através do acionamento do jogador com o dedo pressionado ao campo de jogo.

– Impedimento

Um jogador é considerado em posição de impedimento, quando estiver posicionado no campo de ataque e, no momento do passe, estiver mais próximo da linha de fundo do que dois jogadores defensores, incluindo o goleiro. Todavia, caso o jogador em posição de impedimento não receba a bola, a jogada de ataque pode prosseguir normalmente com outro jogador.

– Duração da partida

Uma partida de Subbuteo dura dois tempos de 15 minutos cada.

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Miniaturas de jogadores representando a Seleção Brasileira
Imagem: https://www.yesterdaystoys.co.uk/Subbuteo-Heavyweight-Team-Ref-156-West-Germany_AYY67.aspx

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De acordo com o site alemão Kickerium, o Subbuteo chegou ao país em 1961, ano em que foi fundado por Günter Czarkowski o “TSL Dortmund 61”, clube que ainda existe em nossos dias. Inclusive, o país conta com uma liga, a DSTFB – Deutscher Sport-Tischfußball-Bund (Liga Esportiva Alemã de Futebol de Mesa), filiada a uma organização internacional, a FISTF – Federation International of Sportstable Football. Segundo o site da FISTF, a Alemanha sediou o torneio mundial em 2006, na cidade de Dortmund, que contou com 250 competidores, representantes de 23 países, sendo que a Itália sagrou-se campeã nas categorias individual e por equipes. A edição de 2010 também teve por sede a Alemanha, realizada em Rain am Lech, que também contou com 250 competidores, representantes de 16 países, e cujo vencedor foi a equipe da Espanha. Além disso, entre outras competições, o país já havia sediado também o Campeonato Europeu em 1995, em Wuppertal, e a Copa Europa de Clubes Campões em 2001, na cidade de Kamen.

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Miniaturas de jogadores representando o F. C. Bayern de Munique
Imagem: http://www.customflicks.co.uk/order.htm

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Enquanto em países como a Alemanha, a Itália e a Inglaterra o Subbuteo se mantém popular e é praticado em competições oficiais, no Brasil, infelizmente, o jogo se tornou objeto de colecionador. Não é por acaso que, falar de “Pelebol” é, ao mesmo tempo, um ato nostálgico de recordação de infância nos idos dos anos 1970 e 1980.

Referências

HUIZINGA, Johan. Homo Ludens. 6. ed., São Paulo: Perspectiva, 2010. [filosofia; 4]

Site Botões para sempre: http://botoesparasempre.blogspot.com/2015/10/pelebol-da-estrela-os-incriveis-anos-70.html

Site CustomFlicks: http://www.customflicks.co.uk/

Site Deutscher Tischfussball-Bund: https://dtfb.de/

Site Federation International of Sportstable Football: https://fistf.com/organisation_europe/germany/

Site Kickerium; artigo “Subbuteo: wie Fußball nur mit Hand“: http://kickerium.de/2017/02/23/subbuteo-wie-fussball-nur-mit-hand/

Site Ludopedia: https://www.ludopedia.com.br/jogo/subbuteo

Site YesterdayToys: https://www.yesterdaystoys.co.uk/

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Pebolim, Totó, Fla-Flu ou Pacau? um breve histórico do campo esportivo no Brasil

11/12/2018

Por Eduardo de Souza Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

Pebolim, Totó, Fla-Flu ou Pacau? As variações culturais existentes em cada região deixam dúvidas acerca do nome correto a ser utilizado quando nos referimos ao “Table Soccer” em terras brasileiras, modalidade de futebol de mesa muito difundida por todo o mundo desde o século XX (não confundir com o futebol de botão, outra modalidade esportiva que também é conhecida no Brasil como futebol de mesa).

Oficialmente, o nome utilizado no Brasil para designar esse esporte é o “pebolim”,[1] o que não impede que em determinadas localidades seus praticantes, profissionais ou não, o chamem de “Totó” (no Rio de Janeiro e parte do Nordeste), Fla-Flu (no Rio Grande do Sul) ou até mesmo Pacau (em Santa Catarina). Além disso, em diferentes países, a nomenclatura também se modifica: Matraquilhos em Portugal; Futbolín na Espanha; Metegol na Argentina; Foosball nos EUA; Baby-foot na França e Tischfussball na Alemanha.

Como forma de facilitar o entendimento, e sem desconsiderar as variações regionais existentes, utilizarei o nome “pebolim” na sequência do texto, por entender ser essa a nomenclatura oficial utilizada pela federação que gere o esporte no país. Entretanto, vale a pena pensarmos:  quando e onde essa prática, tão popular em bares, clubes e escolas de todo o mundo, surgiu e se difundiu?

As origens do pebolim são confusas e indefinidas. Ainda carecendo de maiores pesquisas sérias, muitas são as versões apontadas como referências acerca dos “primórdios do pebolim no mundo”. As versões mais “badaladas” sobre o início da modalidade, são as que apontam a Espanha como palco inicial. Todavia, os alemães também reivindicam o pioneirismo no desenvolvimento desse esporte.

Os espanhóis defendem, segundo André Martins Gonçalves (2017), a hipótese de que o pebolim teria sido inventado no calor do momento da Guerra Civil Espanhola, quando

Alexandre de Fisterra, o responsável, teria criado o jogo para que crianças feridas, impossibilitadas de jogar futebol assim como ele, pudessem praticar uma variação do esporte. Segundo essa versão, o galego teria patenteado a invenção em 1937, mas perdeu os papéis da patente (GONÇALVES, 2017).

Na Alemanha, a hipótese defendida é a de que, já em 1930, o esporte era praticado no país. Divergências de versões a parte, o que se sabe concretamente é que apenas em 2002 foi criada uma federação internacional para gerir a modalidade: a International Table Soccer Federation (ITSF). Desde então, é essa a entidade representativa do pebolim em todo o mundo, sendo a organizadora das Copas do Mundo e demais campeonatos mundiais.

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Partida da Copa do Mundo de Pebolim 2011, realizada em Nantes – França. https://esporte.ig.com.br/maisesportes/eua-e-austria-conquistam-a-copa-do-mundo-de-pebolim/n1237934732922.html

No Brasil, a modalidade chegou nos anos 1950, período marcado pelo nacional-desenvolvimentismo e pelo aumento das trocas culturais no país, notadamente no que se diz respeito a consolidação de um mercado. A chegada de distintas manifestações fez com que esse esporte se popularizasse em bares, clubes e escolas, porém ainda com base nas mesas não profissionais. Mas qual a diferença entre as mesas profissionais e as não profissionais?

As mesas profissionais se diferenciam pelo material do boneco, pela precisão na realização de chutes e passes, tal como na formação dos “jogadores”. Enquanto nas mesas não profissionais, popularmente chamadas no Brasil de “mesas canoas”, a formação dos bonecos de linha é, normalmente, a 3-4-3, na mesa profissional se utiliza a formação 2-5-3, valorizando assim o número de bonecos no meio de campo do jogo. Vários são também os modelos de mesas profissionais, sendo a americana “Tornado” e a alemã “Leonhart” dois dentre os mais conhecidos.

Somente em 2007 que o Brasil passou a ter uma federação que busca difundir o esporte com mesas profissionais, a FEBRAPE – Federação Brasileira de Pebolim, inicialmente conhecida como Associação Brasileira de Pebolim. Com sede em São Vicente, região litorânea do estado de São Paulo, desde sua criação a entidade já conseguiu enviar equipes brasileiras para 6 mundiais e 3 Copas do Mundo, principais competições de pebolim que ocorrem pelo mundo. O presidente da federação desde sua fundação, Clayton Fonseca, destaca que buscou no exterior referências para desenvolver o esporte no país: “Trouxemos tudo o que aprendemos para o Brasil e começamos a organizar torneios oficiais a fim de apontar nossos melhores jogadores para representar lá fora”.[2]

Atualmente um dos principais desafios da FEBRAPE é conglomerar jogadores que estejam interessados a jogar o pebolim. Ainda sendo um esporte com um campo incipiente e poucos financiamentos, muitos entendem que esse é um cenário não muito favorável para adentrarem na modalidade profissionalmente, preferindo apenas os jogos amadores nas “mesas de bar”. Portanto, mais do que organizar torneios nacionais e/ou estaduais, aos quais são utilizados para se desenvolver os rankings e formar a equipe nacional que disputa os campeonatos mundiais, a federação tem se preocupado em organizar um grupo de pessoas que esteja, antes de tudo, interessada em simplesmente jogar pebolim:

O Papel e os objetivos da Febrape são atrair jogadores de todo o Brasil, descobrir novos talentos, unir e preparar jogadores que demonstrem potencial e que queiram levar o esporte a sério para competir na Copa do Mundo e nos Mundiais realizados nos EUA e na Europa. […] Estar cada vez mais visível a todos utilizando os meios possíveis para a atração tanto de jogadores já existentes quanto de novos adeptos.

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Delegações brasileiras que disputaram as Copas do Mundo de 2015 e 2011, respectivamente. http://www.febrape.com.br/home

Portanto, esse desafio de ampliar o número de adeptos da modalidade, tem sido o principal foco dos amantes desse esporte pelo país. A partir de redes sociais (como facebook e, principalmente, grupos de whatsapp), a FEBRAPE estabelece um canal de comunicação com todos os interessados em disputar campeonatos profissionais ou, simplesmente, jogarem o pebolim de forma despretensiosa. Esse movimento tem estimulado a formação de grupos em distintos estados, para além das realidades paulista e capixaba, que são, até o momento, as mais avançadas nacionalmente.

Como por exemplo, podemos citar o caso do Rio de Janeiro. Nos últimos anos, vários campeonatos estão sendo realizados a nível estadual na localidade, contando com a participação de competidores de diferentes municípios. Inicialmente organizados por Marcio Belmonte ainda com a “mesa canoa”, ultimamente os competidores do estado estão se aperfeiçoando e disputando suas competições em mesas profissionais, após o contato inicial de dois de seus maiores nomes locais, Luciano Santos e Misael Silva, com as mesas desenvolvidas pela FEBRAPE em São Paulo. Uma das edições dos torneios cariocas, inclusive, ocorreu no âmbito do evento Arnold Classic Brasil 2014, competição de fisiculturismo organizada em homenagem ao astro global Arnold Schwarzenegger, tendo ele presenciado e chancelado o referido certame.

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Torneio de Pebolim/Totó no âmbito do Arnold Classic Brasil 2014, ocorrido no Rio de Janeiro e que contou com a ilustre presença de Arnold Schwarzenegger. http://totorio.com.br/

A partir do incentivo dos atletas Luciano e Misael, já anteriormente citados, em 2018 foi realizado o 1º Torneio Intermunicipal de Totó do Rio de Janeiro, contando com participantes de variados municípios fluminenses (Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo, São João de Meriti, Nova Iguaçu, Nilópolis, Nova Friburgo e Guapimirim) e realizado em duas edições (setembro e novembro de 2018), nas categorias individual iniciante, individual livre e duplas.

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Respectivamente, da esquerda para direita: Torneio organizado na sede da FEBRAPE em outubro/2018 e Torneio Intermunicipal do Rio de Janeiro organizado em novembro/2018 em São João de Meriti. Fotos: Misael Silva

Percebe-se, com o avanço de mesas profissionais pelos estados de São Paulo, Espírito Santo, Rio de Janeiro e outros, um avanço qualitativo no desenvolvimento desportivo dos atletas que disputam a modalidade pelo Brasil. Esse movimento tem incentivado, também, a busca pela criação de federações estaduais que possam, ligadas à FEBRAPE, melhor difundir e organizar campeonatos que conglomerem novos atletas em cada região do país. Clayton Fonseca destaca que a falta de patrocínio, muitas das vezes impede a federação de

viajar o Brasil e levar o aprendizado e crescimento da prática do pebolim como esporte para todos os cantos, como gostaríamos, e de fazer divulgação em mídia para atrair mais adeptos. […] Até hoje, todos os competidores que tiveram a oportunidade de disputar grandes torneios foram com recursos próprios. Devido a isso, não conseguimos enviar nossos melhores jogadores, apenas os que tinham recursos suficientes para arcar com as despesas por si próprios.

Buscar desenvolver o hábito de se jogar o pebolim, tal como fortalecer as competições profissionais em diferentes estados pelo país, é um dos caminhos centrais para o estabelecimento dessa modalidade em terras tupiniquins, consolidando assim jogadores que possam não só disputar os campeonatos mundiais com regularidade, mas também os Jogos Olímpicos, em uma eventual inclusão futura da modalidade nesse certame, fator que já vem sendo cogitado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI).

[1] Ver em www.febrape.com.br

[2] Entrevista concedida para o Blog Jornalismo Esportivo da ECA-USP, publicada em 5 de dezembro de 2017.

Referências

GONÇALVES, André Martins. O Esporte que precisa ser tratado como um. In: Blog Jornalismo Esportivo da ECA-USP. 5 de dezembro de 2017. Acesso em 10/12/2018. http://www.usp.br/cje/esportivo/index.php/2017/12/05/o-esporte-que-precisa-ser-tratado-como-um/.

. Site da ITSF: https://www.tablesoccer.org/

. Site da FEBRAPE: http://www.febrape.com.br

. Site Totó Rio: http://totorio.com.br/

. Entrevista com Clayton Fonseca:

http://www.usp.br/cje/esportivo/index.php/2017/12/05/o-esporte-que-precisa-ser-tratado-como-um/

. Capixabas enchem os olhos com “totó” em olimpíada: “Um orgulho imenso”:

https://www.gazetaonline.com.br/esportes/mais_esportes/2017/11/capixabas-enchem-os-olhos-com-toto-em-olimpiada–um-orgulho-imenso-1014106061.html

. EUA e Áustria conquistam a Copa do Mundo de pebolim:

https://esporte.ig.com.br/maisesportes/eua-e-austria-conquistam-a-copa-do-mundo-de-pebolim/n1237934732922.html


Revista Recorde: novo número no ar (v. 11, n. 2, jul.-dez. 2018)

17/11/2018

Informamos que acaba de ser publicada uma nova edição de Recorde: Revista de História do Esporte.

A edição está disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/Recorde/index

Recorde: Revista de História do Esporte
v. 11, n. 2 (2018)
Sumário
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Artigos
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EL PADRE DE LA MEDICINA DEPORTIVA ARGENTINA O ACERCA DE CÓMO FABRICAR
CAMPEONES, DÉCADAS DEL ’20 Y ’30, SIGLO XX
Pablo Ariel Scharagrodsky
A “RELIGIÃO LEIGA DA CLASSE OPERÁRIA” E OS SENTIDOS DA CIDADE:
URBANIZAÇÃO, TRABALHO E FUTEBOL NA CIDADE DE SANTOS (1892 – 1920)
André Luiz Rodrigues Carreira
FUTEBOL E MERCADO EM BELO HORIZONTE: O PROFISSIONALISMO E A CONSTRUÇÃO DO
MINEIRÃO (1933-1965)
Sarah Teixeira Soutto Mayor,    Georgino Jorge de Souza Neto
O MESTRE ARTUR EMÍDIO DE OLIVEIRA E A DEFESA DA CAPOEIRAGEM ENQUANTO
“LUTA NACIONAL”
Roberto Augusto A. Pereira
SURFE, “CONTRACULTURA” E LUCROS: AS ESTRATÉGIAS DA IMPRENSA
ESPECIALIZADA NA FRANÇA
Christophe Guibert
“DESAFIO É COISA PARA MACHO”: VIRILIDADE E DESIGUALDADE DE GÊNERO NO
TURISMO DE AVENTURA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
Diego Santos Vieira de Jesus
AS ESTATÍSTICAS DE FUTEBOL COMO FONTE DE PESQUISA: O CASO DO “CIRCUITO
CLUBÍSTICO” BELO-HORIZONTINO
Marcus Vinícius Costa Lage
CONSTRUINDO CAMINHOS DE POSSIBILIDADE EM VITÓRIA DA CONQUISTA-BA: O MESTRE
SARARÁ E A MEMÓRIA DA CAPOEIRA ENTRE OS ANOS DE 1960 E 1970
Jonatan dos Santos Silva,       Paula Barreto Silva,    Felipe Eduardo Ferreira
Marta

Entrevistas
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ENTREVISTA CON CARLES SANTACANA
Euclides de Freitas Couto

Resenhas
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HANDEBOL EM PAUTA: RESENHA DO FILME “FOREVER THE MOMENT”
Guilherme Moreira Caetano Pinto,        José Roberto Herrera Cantorani, Claudia
Tania Picinin,  Jessyca Moraes, Bruno Pedroso

Sobre a Nossa Capa
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VOLUME 11, NÚMERO 2

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Recorde: Revista de História do Esporte
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A crise do “país do futebol”: uma pequena reflexão

10/07/2018

Eduardo de Souza Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

No post de hoje, aproveitando o momento Copa do Mundo e a recente eliminação da seleção brasileira, peço licença para escrever uma pequena reflexão acerca de alguns discursos e narrativas consolidadas sobre os caminhos atuais e históricos de nosso futebol. É, de fato, mais uma reflexão, baseada em análise de discursos e olhares pessoais, do que um texto acadêmico em si.

Bom, chegamos nas semifinais da Copa do Mundo 2018 na Rússia e, curiosamente, sem nenhum representante sul-americano ainda “vivo” como postulante ao título. Desde 2006 não tínhamos uma semifinal sem a presença de pelo menos um país sul-americano, ano em que Itália e França venceram, respectivamente, Alemanha e Portugal, tendo ambas as seleções depois disputado a final que valeu o título para os italianos e ficou marcada pela cabeçada de Zinedine Zidane no zagueiro Marco Materazzi.

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Zidane é expulso na final da Copa de 2006 após uma cabeçada em Materazzi. Fonte: http://www.espn.com.br/noticia/612206_10-anos-depois-materazzi-revela-o-que-disse-a-zidane-antes-da-cabecada-na-final-da-copa

Antes de 2006, apenas em 1934, 1966 e 1982 (mesmo com o esquadrão brasileiro de Zico e companhia), não tivemos uma seleção sul-americana entre as quatro melhores do torneio mundial. Nas finais, os sul-americanos estiveram presentes em 12 das 21 edições da Copa do Mundo (já contando 2018), tendo sido campeões em nove dessas oportunidades.

Considerando o número de países filiados à sua entidade principal, a Conmebol, é possível inferir que a participação dos países sul-americanos nas Copas do Mundo é, historicamente, muito notável. São apenas dez nações que disputam as eliminatórias para poderem jogar a fase final da Copa do Mundo, o menor número de participantes dentre todas as federações continentais. As eliminatórias na Europa, América Central/Norte, África, Ásia e até mesmo na Oceania, possuem mais países disputando vagas na fase final da Copa do Mundo do que a América do Sul.

É claro que não podemos deixar de destacar a preponderância de três seleções, de forma mais específica, para esse sucesso sul-americano em Copas: Argentina, Brasil e Uruguai. O pentacampeonato dos brasileiros e o bicampeonato de argentinos e uruguaios, elevaram o futebol sul-americano para um outro nível no cenário internacional, batendo de frente com os europeus pela hegemonia nessa modalidade esportiva. Fora essas três seleções, apenas o Chile ficou uma vez entre os quatro primeiros em uma Copa do Mundo, quando foi terceiro colocado jogando em casa em 1962. Colômbia e Paraguai já formaram fortes equipes, mas nunca passaram das quartas de final. O Peru chegou, também com uma grande equipe, ao quadrangular semifinal da Copa de 1978, onde o vencedor garantiria uma vaga na decisão. Mas acabou eliminado como lanterna da chave enfrentando a Polônia e os vizinhos Brasil e Argentina, tendo essa Copa sido marcada pelo famoso e duvidoso jogo do “6×0”, onde os argentinos venceram os peruanos e garantiram, assim, a vaga na final e o consequente título mundial sobre a Holanda.

De toda forma, mesmo com poucas seleções tendo alcançado historicamente o “estrelato”, o futebol sul-americano sempre ficou marcado por discursos e narrativas que o diferenciavam do futebol europeu. A construção social miscigenada do continente (e de forma mais específica em alguns países, como o Brasil), fruto do processo colonizador de dominação europeia e da escravidão por aqui imposta, fez com que diferentes intelectuais, cronistas e veículos de comunicação, tratassem o futebol sul-americano como distinto do “frio” e “tático” futebol europeu, devido suas possibilidades de “improviso”, “ginga” e “malevolência”. Não foram raras as vezes que, ainda nessa Copa de 2018, se fez possível ouvir diferentes comentaristas falando das possibilidades de improviso e da ginga sul-americana em contraste aos europeus.

Mas será essa narrativa real ou apenas uma construção? De onde vem esse olhar? Qual a relação que possui com nossa identidade? E o que isso influenciou (ou não) na eliminação atual do Brasil em 2018? Para entendermos melhor todo esse debate acerca dos discursos sobre o futebol sul-americano e, mais especificamente o brasileiro, temos que retornar à Copa de 1938, ocorrida na França.

Nesse mundial, o cientista social Gilberto Freyre escreveu um artigo, intitulado “Foot-ball Mulato”, onde explicitou um pouco do olhar que buscava consolidar sobre o futebol brasileiro. Nas palavras do autor (1938), em relação a boa participação brasileira na Copa de 1938:

[…] uma das condições dos nossos triunfos, este ano, me parecia a coragem, que afinal tivemos completa, de mandar a Europa um team fortemente afro-brasileiro. Brancos, alguns, é certo; mas grande número, pretalhões bem brasileiros e mulatos ainda mais brasileiros. […] O novo estilo de jogar foot-ball me parece contrastar com o dos europeus por um conjunto de qualidades de surpresa, de manha, de astúcia, de ligeireza e ao mesmo tempo de espontaneidade individual em que se exprime o mesmo mulatismo de que Nilo Peçanha foi até hoje a melhor afirmação na arte política. […] Acaba de se definir de maneira inconfundível um estilo brasileiro de foot-ball; e esse estilo é mais uma expressão do nosso mulatismo ágil em assimilar, dominar, amolecer em dança, em curvas ou em músicas técnicas europeias ou norte-americanas mais angulosas para o nosso gosto. […] O mulato brasileiro deseuropeisou o foot-ball dando-lhe curvas. […] O estilo mulato, afro-brasileiro, de foot-ball é uma forma de dança dionisíaca.

É notório nas palavras de Freyre o seu olhar teórico, posteriormente muito debatido e criticado, que se refere a existência de uma “democracia racial” no Brasil. Sem ser nosso objetivo, neste post, analisar as críticas e debates lançados acerca das obras do autor, é, todavia, inegável a importância de suas referências na consolidação de um imaginário acerca da sociedade brasileira, seja entendido como positivo ou não. O encontro das três “raças” (brancos, negros e índios) marcaria a miscigenação do povo brasileiro, contrastando com outros povos, como os europeus. E, como exemplificação da teoria, o futebol se evidenciou como uma das manifestações culturais utilizadas por Gilberto Freyre para explicitar seus pensamentos (tal como o samba, a capoeira, entre outros).

Anos depois, Mario Filho, que hoje dá nome ao Estádio do Maracanã, publicou o livro “O negro no futebol brasileiro”, onde dialogou com esses referenciais teóricos de Freyre. Inclusive, na primeira edição da obra em 1947, o prefácio foi escrito pelo próprio Freyre. A tese de Mario Filho/Gilberto Freyre passava por essa ideia de que o encontro de raças e a presença do negro teriam sido fatores positivos para o futebol brasileiro, pois faria com que se diferenciasse do “frio” e “tático” futebol europeu.

Essa narrativa ganhou sua exacerbação a partir da conquista dos mundiais de 1958, 1962 e 1970, tendo tido como destaques jogadores negros e/ou mulatos, como Pelé, Garrincha, Didi, entre outros. Após o fracasso de 1950 e a culpabilidade pela derrota construída posteriormente e dada a atletas como Barbosa, Bigode e Juvenal, a conquista do tricampeonato em doze anos fez com que a narrativa freyriana, difundida na mídia por Mario Filho e espetacularizada por diferentes cronistas, como seu irmão Nelson Rodrigues, ganhasse força e consolidasse a ideia do Brasil enquanto país do futebol.

Após a Copa de 1970, iniciou-se os primeiros momentos de “crise”, acerca do “tipo brasileiro” de jogar futebol. Com um futebol mais tático e burocrático, o Brasil não venceu os mundiais de 1974 e 1978, mesmo não fazendo campanhas ruins. Porém, o 4º lugar de 1974 e o 3º em 1978 (sem perder um jogo!), não se tornaram mais marcantes que o 5º lugar de 1982. Tudo pelo retorno do “verdadeiro futebol brasileiro”, como destacou a imprensa da época, narrativa consolidada e difundida até os dias atuais. Não podemos negar o quanto a prática ajudou a referendar esse discurso. Com um selecionado recheado de craques e, mesmo com as pressões por “tirar os pontas” do esquema tático da seleção, Telê Santana conseguiu estabelecer um padrão de jogo mais técnico à equipe, semelhante ao que se via de 1970 para trás. O resultado negativo naquela Copa foi um choque, tanto para aqueles que acompanhavam o futebol brasileiro, quanto para a própria identidade da seleção que buscava “jogar novamente o futebol arte”. Seja ou não esse um discurso, tratava-se de algo presente nos debates acerca do selecionado nacional brasileiro, notadamente na grande mídia e no senso comum.

Essa busca pelo futebol arte foi se tornando constante mas, em muitas ocasiões, também distante, devido o processo de mercantilização do futebol que se consolidou com força total a partir da década de 1980. Como falar de uma identidade de jogo brasileiro, se nossos principais jogadores já não atuam mais no país? Foi nesse cenário de transição que o Brasil, ainda com Telê, tropeçou em 1986 e, já sem ele, decepcionou em 1990, com uma seleção armada por Sebastião Lazaroni com três zagueiros e que “desconstruiu o modo brasileiro de jogar futebol”, tal como se falava na imprensa. A questão é: temos de fato uma forma de jogar futebol? É possível manter um modelo “raiz” de se jogar, enquanto outras escolas vão avançando taticamente e tecnicamente? São questões para pensar. O fato é que, em 1994, com um time mais “burocrático” e comandado por um inspirado Romário (que desde 1988 já atuava no “Velho Mundo”), o selecionado voltou a conquistar uma Copa depois de 24 anos, mas não convenceu aqueles que buscavam reencontrar o “futebol arte”.

Todavia, a tentativa por essa busca não se encerrou. Retornou com Ronaldo fenômeno, naquele período ainda denominado Ronaldinho, mas esbarrou na sua estranha convulsão na Copa de 1998. Voltou em 2002, cheio de dúvidas e percalços, e encheu de esperança aqueles que clamavam pela volta do “verdadeiro” futebol brasileiro, a partir da conquista do penta comandado pelos três “Rs” (Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo).

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Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e Rivaldo comandaram o Brasil no pentacampeonato em 2002. Fonte: http://www.espn.com.br/noticia/516264_rivaldo-monta-seu-11-ideal-da-champions-com-cinco-brasileiros-messi-e-zidane

2006 seria o ápice. A efetivação do retorno desse “verdadeiro” futebol brasileiro, como afirmavam na mídia. E o cenário prévio destacava isso. Além de ser a então campeã mundial, a seleção brasileira havia conquistado uma Copa América (2004) e uma Copa das Confederações (2005), ambas vencendo a rival Argentina na final. Além disso, consolidou a liderança nas eliminatórias sul-americanas para a Copa de 2006, carimbando o passaporte para o torneio que ocorreu na Alemanha e esbanjando qualidade em campo com o então melhor do mundo Ronaldinho Gaúcho e seus coadjuvantes que, na verdade, dividiam o protagonismo: Ronaldo Fenômeno, Kaká, Adriano “Imperador” e Robinho “pedalada”. Fora a defesa sólida, formada por Cafu, Lúcio, Juan e Roberto Carlos. Um goleiro campeão europeu (Dida) e volantes que marcavam e, também, jogavam (Emerson, Gilberto Silva e, principalmente, Zé Roberto e Juninho Pernambucano). Um timaço que deixou craques, como o meia Alex, de fora do grupo final da Copa. E que, tal como em 1982, caiu antes do esperado, nas quartas de final para a França (novamente ela…) de Zinedine Zidane e Thierry Henry.

A derrota de 2006 marcou, definitivamente, uma transição no contexto atual do futebol brasileiro: a derrocada da seleção em detrimento da preparação e planejamento das grandes equipes europeias. Equipes essas que apostaram em longos trabalhos para colherem frutos. Casos como os de Joaquim Low, desde 2006 na Alemanha; de Didier Deschamps, desde 2012 treinando a França; ou de Vicente del Bosque, que comandou a Espanha de 2008 a 2016.

O planejamento passou a ser o caminho para mesclar, no mundo globalizado do futebol, a tática com a técnica. E o Brasil, nesse processo, ficou para trás. Ficou com Dunga em 2010 e com Felipão em casa no ano de 2014, com o inesperado jogo do 7×1. Curiosamente, desde então, a Copa em que o Brasil chegou mais longe foi exatamente em 2014, quando em casa alcançou as semifinais e saiu derrotada de forma vergonhosa para a Alemanha. Em 2006 e 2010, a equipe não ultrapassou as quartas de final (fato repetido agora em 2018).

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Derrota por 7×1 para a Alemanha foi a maior da história da seleção brasileira em Copas Fonte: https://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2018/06/28/7×1-fez-com-que-colocassemos-a-alemanha-num-pedestal-que-ela-jamais-mereceu/

Mais do que derrotas, não se enxergava mais um caminho de melhoras para a equipe nacional, que cada vez mais perdia força com seus aficionados. Questões mais centrais e problemáticas saltaram aos olhos do povo brasileiro, que viu no futebol, no máximo, uma forma de protestar contra algumas das injustiças sociais que passa diariamente. E quando olhavam para os dirigentes da CBF e de determinados clubes de nosso futebol, envolvidos em diferentes escândalos, o desinteresse aumentava.

Após um 7×1 e duas eliminações seguidas na Copa América, perdendo para Paraguai e Peru, a aposta no nome de Tite pareceu ser aquela que poderia “salvar” a seleção e nos reservar, pelo menos, dias melhores, recuperando o prestígio da equipe canarinho. E, até a Copa, talvez seja notório falar que o resultado foi muito além do esperado, culminando com a liderança isolada nas eliminatórias sul-americanas e a classificação antecipada para a fase final da Copa, após pegar um grupo desacreditado que estava em sexto lugar na disputa.

Seria assim o Tite, de fato, o salvador da pátria? A derrota para a Bélgica na última semana demonstrou, para muitos, que não, passando esses a exigir a saída do técnico do comando da seleção. Para muitos outros, o trabalho demonstrou avanços, sendo o mantimento fundamental para a continuidade do que vem sendo feito, visando saltos maiores no futuro.

De fato, os feitos nas eliminatórias e o resgate, pelo menos no campo simbólico, do valor do selecionado nacional na “Era Tite”, foi inegável. Mas não foi o suficiente para ganhar a Copa. Pelo menos não ainda. Esqueceram de avisar ao Tite que, assim como os estaduais não são parâmetros para a disputa do Brasileirão, as eliminatórias não garantem o sucesso na fase final da Copa. O treinador brasileiro demonstrou que, mesmo buscando se “profissionalizar aos moldes do tático futebol europeu”, não foi capaz de derrotá-los taticamente. Muito pela própria teimosia em não ousar.

O ditado “em time que está ganhando não se mexe” nunca se demonstrou tão equivocado, como no jogo do Brasil contra a Bélgica. Tite, que ganhou tudo no âmbito dos clubes no Brasil, esqueceu que a Copa do Mundo era um torneio curto, diferente de um Brasileirão de 38 rodadas. E que cada adversário deveria ser estudado cautelosamente. Fora algumas convocações extremamente contestáveis, insistir em manter atletas como Gabriel Jesus e Paulinho em campo, após sucessivas atuações irregulares na competição, não só foi um tiro no pé como uma forma de queimar a imagem dos próprios atletas. Com Firmino no banco, Gabriel Jesus poderia ter sido preservado aos 21 anos e não ficar taxado pela imprensa como o “centroavante que não fez gol na Copa”. E Paulinho talvez não precisasse retornar para o futebol chinês (por mais que venha a receber, agora, até mais do que ganhava para ser reserva no Barcelona).

E o que dizer do Neymar? Jogador de talento indiscutível, mas que de longe ainda não é o melhor do mundo, como almeja ser. Nem dentro, nem fora de campo. O lado psicólogo do Tite, quase no estilo “autoajuda” também falhou, pois se uma de suas tarefas mais elogiadas na mídia era a de “recuperar” a vontade dos atletas de jogarem pela seleção nacional após sucessivos fracassos, se esqueceu de moldar, para o melhor atleta tecnicamente falando, um caminho em que esse não tomasse atitudes que fossem reprovadas e buscasse, com trabalho, fazer a diferença que todos sabem que possui a capacidade de fazer. Mas não o fez. Muito pelos mimos e acolhimentos que não condizem mais com as responsabilidades de um atleta global aos 26 anos. Se frases como “o menino Ney” ou “é muito difícil ser o Neymar” fossem substituídas por trabalho sério (tal como Cristiano Ronaldo faz em campo a cada dia que recebe uma crítica), talvez o resultado e a construção de imagem, pelo menos no aspecto individual desse atleta, poderiam ter sido diferentes, o fazendo superar a “síndrome de Peter Pan” e, finalmente, amadurecer enquanto jogador e pessoa. Torcemos que, pelo bem dele e do selecionado nacional, essa experiência da Copa de 2018 tenha servido, minimamente, para fazer uma reflexão.

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Cena comum na Copa de 2018: Neymar no chão reclamando de pancadas. Mesmo caçado, em alguns casos, atitude do atleta foi muito questionada. Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/07/06/deportes/1530911803_045897.html

Roberto Martínez, técnico da Bélgica que assumiu a seleção em período similar ao Tite no Brasil (em 2016), entendeu que em time que ganha, se precisar, se mexe sim. E foi com um nó tático que conseguiu derrotar o Brasil. Se fosse por resultados, teria tantos motivos como seu colega brasileiro para não mudar seu grupo titular. Afinal, vinha de ótima campanha nas eliminatórias e 100% de aproveitamento até então na Copa. Porém, entendeu que, contra o Brasil, teria que mudar o seu 3-4-3. Reforçou seu meio campo com a entrada de Fellaini, adiantando De Bruyne, um dos craques do time, para fazer um trio de ataque com Lukaku e Hazard. Lukaku que antes atuava centralizado, jogou pela direita e foi fundamental no combate e arrancadas contra a zaga brasileira.

Era um 3-4-3 que, defendendo, virava 7-3, com o retorno dos alas e volantes. E o Brasil de Tite, que não quis mudar, ou mudou muito tarde, não ultrapassou a barreira belga, mesmo nos momentos em que esteve melhor em campo. Um verdadeiro nó tático daquele que ousou mudar por estudar o adversário. E por ser menos teimoso.

Roberto Martínez deu continuidade ao trabalho de Marc Wilmots em 2016, marcando uma continuidade que moldava uma geração de talentos desde 2012. Joaquim Low está no comando da seleção alemã desde 2006. Deschamps desde 2012 na França. Oscar Tabárez treina o Uruguai desde 2006, conseguindo levar a celeste de volta a disputas importantes no futebol, alcançando uma semifinal de Copa em 2010, as quartas nesse ano e um título inesquecível da Copa América em 2011, depois de 16 anos. Até mesmo o trabalho de José Pékerman a frente da Colômbia, onde está desde 2012, deve ser valorizado, pois mesmo sem títulos, levou a equipe de volta aos mundiais depois de 16 anos, disputando duas copas seguidas (fato que não ocorria desde os anos 1990) e alcançando campanhas honrosas tanto em 2018 quanto em 2014 (que foi a melhor da história do selecionado colombiano).

Não sei se nos próximos dias será anunciado o mantimento ou a saída de Tite enquanto técnico da seleção. A continuidade parece ser o caminho mais provável. Pessoalmente, acredito que a seleção teve avanços e que, corrigir os erros, pode ser mais fácil do que recomeçar um trabalho do zero. Mas o primeiro ponto é assumir esses erros e reconhecer que está, ainda, muitos passos atrás de outros treinadores e equipes. E estar pronto para fazer mudanças e ousar. O fato é que, o ideal, independente de ser ou não o Tite aquele que irá comandar a seleção nacional daqui para frente, deve-se dar tempo para a realização do trabalho. E, também, compreendermos que, mais que o técnico, nosso problema maior está nos bastidores sujos da CBF, onde enquanto estivermos sendo controlados por “Teixeiras” e “Marins”, continuaremos em uma crise estrutural que vai muito além da simples escolha do treinador e/ou dos jogadores.

BIBLIOGRAFIA

FREYRE, Gilberto. Foot-ball mulato. In: Diário de Pernambuco, 18 de junho e 1938.

 


Muito além de Neymar: o Catar e o investimento no Paris Saint-Germain como forma de projeção internacional

19/02/2018

 

Por Maurício Drumond

Na quarta-feira passada, o mundo do futebol parou para assistir o primeiro duelo entre duas das maiores potências do futebol mundial: Real Madrid x Paris Saint-Germain. Na imprensa, muito se falou (e ainda se fala) da disputa implícita entre Cristiano Ronaldo e Neymar, dois dos maiores postulantes ao prêmio de melhor jogador de futebol do ano da FIFA. A vitória por 3 a 1 do Real Madrid, com dois gols de Cristiano Ronaldo, e a não destacada atuação de Neymar teriam supostamente dado a vantagem ao jogador português nessa disputa. Mas o segundo jogo, agora em Paris, ainda poderia mudar esse quadro.

Esse tem sido o principal destaque dado ao jogo na grande mídia, mas não é o ponto que me interessa nesse artigo. Outra disputa implícita no confronto da semana passada me parece ser mais interessante. A disputa entre dois modelos de representação nacional através de clubes de futebol. De um lado o modelo representado pelo Real Madrid Club de Fútbol, onde o sucesso esportivo de uma equipe é por vezes mobilizado em prol do prestígio nacional. Do outro, um novo modelo de projeção nacional baseada no esporte, capitaneado pelo Catar através do clube Paris Saint-Germain.

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Peça publicitária do jogo das oitavas-de-final da Liga dos Campeões da UEFA, ressaltando a disputa entre Cristiano Ronaldo e Neymar.

O primeiro modelo, que pode ser visto como “tradicional” dentro dos estudos do esporte, é em geral atribuído ao papel desempenhado por uma seleção nacional ao representar seu país, mas em determinados casos pode ser identificado com um clube específico, no caso o Real Madrid, com alto desempenho internacional e forte apelo nacional. Muitos estudos já se dedicaram a esse modelo de projeção nacional através do esporte, sendo por vezes associado ao estudo de identidades nacionais de nacionalidades não soberanas, como no caso de Barcelona e a identidade catalã ou do Athletic Club (de Bilbao) e a identidade basca.

Já o segundo modelo, que pode ser visto como “novo” e, por isso, objeto de ainda poucos estudos, merece maior atenção. No Brasil, a presença do Catar nos esportes foi mais profundamente notada no momento da negociação de Neymar com o Paris Saint-Germain, envolvendo valores até então nunca vistos no futebol. No entanto, a atuação do pequeno país do Oriente Médio vai muito além e se iniciou muito antes do contrato com o craque brasileiro. É mais especificamente sobre essa atuação do Catar no mundo do futebol internacional e sua proposta de reconhecimento e prestígio através do clube francês que esse texto se aventura.

Catar e o Futebol Internacional

O Catar é um país soberano do Oriente Médio, situado na costa oriental da Península Arábica. O país é governado por uma monarquia absoluta hereditária, liderada pela família Al Tahani. Sua população é estimada em cerca de 2,6 milhões de habitantes, dos quais apenas cerca de 12% são de nacionalidade catari (pouco mais de 300 mil). Sua economia, como era de se esperar em um país da região, é altamente dependente da produção de petróleo e gás natural. E o envolvimento do país com o esporte está diretamente ligado à sua intenção em diversificar sua economia, tendo em vista a finitude de seus ainda vastos campos petrolíferos. Mas como veremos adiante, essa ligação vai além disso.

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Mapa da península Arábica. Fonte: Google Maps.

O envolvimento do Catar com o esporte internacional não é recente e nem se limita ao futebol. Antigo protetorado britânico que ganhou sua independência somente em 1971, o país fundou seu Comitê Olímpico em 1979 e enviou atletas para os Jogos Olímpicos pela primeira vez em 1984, em Los Angeles. Em 1988, foi sede da Copa da Ásia de futebol masculino e em 1995 da Copa do Mundo FIFA Sub-20. No entanto, em 2004 o país decide começar a investir de forma mais pesada em esportes. A partir de eventos esporádicos, pode ser visto um aumento expressivo e continuado de realização de grandes eventos esportivos internacionais, culminando na futura realização da Copa do Mundo FIFA de futebol masculino de 2022.

Apesar de sua pequena população de nacionais, o país já conquistou quatro medalhas de bronze nos Jogos Olímpicos de verão, mais do que seu influente e proporcionalmente populoso vizinho, a Arábia Saudita. Dos quatro, apenas as duas medalhas obtidas em Londres 2012 (no tiro e no salto em altura, masculinos) foram conquistadas por nacionais catari. As outras duas foram resultado da política de nacionalização de atletas, que afeta diversos esportes do país, como o próprio futebol. Entre os jogadores mais convocados pelo técnico uruguaio Daniel Carreño para os jogos pela eliminatória da Copa do Mundo de 2018, pode-se encontrar mais de um time formado por estrangeiros naturalizados, como brasileiros Rodrigo Tabata e Luiz Junior (Ceará). A estratégia não é nova, e jogadores mais famosos como Emerson Sheik e Araújo já defenderam a seleção catari, mas a proximidade da Copa de 2022 no país, na qual o Catar já está classificado por ser país sede, intensifica ainda mais o processo. O mesmo ocorreu no handebol, onde o país sediou a Copa do Mundo do esporte em 2015 e montou uma equipe com grandes jogadores naturais de outros países, terminando na segunda colocação do evento.

A política de naturalização de atletas tem alcance limitado, especialmente no futebol, onde a FIFA impôs a regra de que no caso de um atleta já ter jogado pela seleção profissional de um país, não pode atuar por outro, a não ser em casos muito específicos como o de Kosovo (ver post).

Além de buscar o sucesso de suas equipes nacionais, o governo do Catar também busca associar a imagem de seu país com times de sucesso internacional como o Barcelona e o Paris Saint-Germain (PSG). As relações do Catar com esses clubes se deram principalmente através da agência Qatar Sports Investments (QSI), um ramo de investimentos no esporte da Qatar Investment Authority, um fundo soberano do país. Em 2011, a QSI firmou um acordo de patrocínio de camisa com o Barcelona FC, que deu fim à tradição do clube catalão de não utilizar patrocínios comerciais em suas camisas (o clube utilizava o logo da Unicef desde 2006), através da empresa Qatar Foundation, que em 2013 foi substituída pela Qatar Airways, até meados de 2017.

 

Catar e o PSG

Já com o PSG, a ligação foi ainda mais profunda. Em 2011 a QSI comprou o clube e colocou seu CEO, Nasser Ghanim Al-Khelaïfi, como presidente do clube. Al-Khelaïfi é um ex-atleta de tênis, próximo ao xeque Tamim bin Hamad Al-Thani, Emir do Catar. Além de presidente da Federação de Tênis do Catar e diretor da Confederação de Tênis da Ásia, além de ser ex-diretor da rede Al Jazeera. A gestão de Al-Khelaïfi tinha como maior propósito alçar o PSG para a elite do futebol europeu, e para isso foram realizadas diversas contratações de grande peso para a equipe, como as de Neymar (€222 milhões) e Mbappé (€180 milhões), ambas em 2017, entre muitas outras, totalizando mais de 1 bilhão de euros desde 2011. E isso apenas em contratações.

Mas por que o Catar, através da QSI, investiu tanto no futebol, ainda por cima em um clube francês, radicado em Paris? Certamente que não foi apenas para promover o turismo no país. Da mesma forma que o Brasil não gastou R$ 1,4 bilhão no estádio Mané Garrincha, em Brasília, R$ 583 milhões na Arena Pantanal, em Cuiabá, ou R$ 400 milhões na Arena Amazônia, em Manaus, simplesmente para atrair mais turistas para as cidades após a Copa de 2014. Então, quais seriam as possíveis razões que teriam influenciado o Catar a investir tanto no PSG?

Uma das chaves para se compreender o alto investimento catari nos esportes, e mais especificamente no PSG, é a necessidade de diferenciação do país em relação a seus vizinhos do Oriente Médio. O esporte é um dos meios pelos quais o país busca ganhar reconhecimento internacional, seja através da organização de grandes eventos, como a Copa do Mundo de 2022, seja com o patrocínio estampado nas camisas do Barcelona, ou com grandes e chamativas contratações de sua própria equipe na França, o PSG. Ações de branding como essas proporcionam acesso de sua imagem a um mercado mundial de espectadores/consumidores, demonstrando poder econômico, político e cultural.

No caso do Catar, significa ter seu país conhecido não apenas como mais um país boiando no petróleo do Golfo Pérsico, mas como um país cosmopolita, em modernização, mais próximo dos valores culturais ocidentais (ainda que apenas na aparência), elementos profundamente identificados com o esporte. Além do esporte, outros símbolos do Catar que atuam nessa mesma direção são a Qatar Airways, uma das empresas aéreas de maior crescimento nos últimos anos, e a rede Al Jazeera, que desde 2006 passou a ser também transmitida e publicada em inglês, aumentando o seu alcance e dando à rede uma imagem de rede internacional, como uma alternativa à grande mídia ocidental. A rede conta desde 2003 com um canal de esportes, que foi renomeada como beIN Sports em 2012. A transmissão dos principais eventos esportivos, especialmente de futebol, contribuíram muito para essa nova imagem.

James M. Dorsey, chega a afirmar que “o soft power é chave na estratégia de defesa e segurança do Catar”, uma vez que devido à sua diminuta população, o país nunca terá força militar para se defender militarmente, independentemente do equipamento bélico que comprar ou do número de estrangeiros que recrutar para suas Forças Armadas. Ele complementa afirmando que “o esporte é central para uma estratégia de soft power delineada para inserir e popularizar o Catar na Comunidade Internacional, de forma a garantir que o mundo venha em seu auxílio em tempos de necessidade, como no caso da força liderada pelos EUA que expulsaram tropas de ocupação iraquiana do Kuwait em 1990” (link para o artigo de Dorsey).

A projeção internacional gerada por sua participação no futebol seria assim um dos meios utilizados pelo Catar nessa iniciativa de construir soft power. Mas nem tudo são flores. O Catar ainda enfrenta diversas denúncias que vão de encontro à imagem de nação moderna e pacífica que o país procura transmitir, como acusações de financiamento de grupos extremistas islâmicos, de compra de votos para sua escolha como sede da Copa do Mundo de 2022 e de violação de direitos humanos devido a condições extremamente precárias de trabalhadores imigrantes não qualificados – de que trabalhariam em regimes análogos à escravidão. Localmente, o país ainda enfrenta a oposição de vizinhos importantes, uma vez que Arábia Saudita, Egito, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Líbia, Iêmen e Maldivas romperam relações diplomáticas com o governo de Doha e ligações de transporte com o país por um suposto apoio que este estaria dando a grupos extremistas islâmicos. Nesse cenário, o esporte funcionaria como um símbolo de modernidade, estabilidade e paz.

O sucesso do PSG seria assim um dos eixos da política internacional catari de projeção internacional. Neymar seria um importante garoto propaganda, mas a proposta vai além disso. Envolve a criação de uma marca internacional de sucesso. Mas para concluir seu grande objetivo, ainda falta um importante passo para o PSG, a conquista da Liga dos Campeões da UEFA. E para isso o duelo de volta contra o Real Madrid será fundamental. Estaremos acompanhando.

 

Para saber mais:

Dorsey, James. Qatar’s sports-focused public diplomacy backfires. The Turbulent World of Middle East Soccer [online], 03 fev. 2014.

REICHE, Danyel. Investing in sporting success as a domestic and foreign policy tool: the case of Qatar. International Journal of Sport Policy and Politics, 2014.


O futebol feminino no Brasil e na América do Sul: um breve olhar

06/02/2018

Eduardo de Souza Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

Em janeiro passado, se deu início mais uma edição da Copa Libertadores da América de futebol masculino. Enquanto a competição masculina atrai mais uma vez os holofotes da modalidade na América do Sul, buscarei neste pequeno texto abordar um pouco da versão feminina da competição organizada pela Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), assim como estabelecer um panorama da modalidade no continente como um todo. Destaco, desde já, que a análise foi aqui realizada de forma superficial, buscando mais questões quantitativas do que qualitativas, de forma que possa suscitar a curiosidade do leitor e, quem sabe, fazer com que estudos mais específicos surjam a partir de então.

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Chapecoense-BRA x Nacional-URU, em jogo válido pela segunda fase da Copa Libertadores da América 2018 (31/01/2018). Fonte: http://www.gazetapress.com/pauta/54797/copa_libertadores_da_america_2018__chapecoense_x_nacional__uru_

Em 1960, a Conmebol começou a organizar, de maneira oficial, competições de clubes no cenário sul-americano, tendo como marco a criação da Copa Libertadores da América de futebol masculino. Atualmente, essa continua sendo a principal competição organizada pela entidade no continente. Além dessa, nos dias atuais também ocorrem a Copa Sul-Americana e a Recopa Sul-Americana. Entre as competições intercontinentais, destacamos a Copa do Mundo de Clubes FIFA (disputada pelo campeão da Copa Libertadores) e a Copa Suruga Bank (confronto realizado entre o campeão da Copa Sul-Americana e o vencedor da Copa da Liga Japonesa).

Além dessas, outras competições organizadas pela entidade já não existem mais, porém também são entendidas como competições oficiais. São essas: Supercopa da Libertadores (1988-1997), Copa Conmebol (1992-1999), Copa Mercosul (1998-2001), Copa Merconorte (1998-2001), Copa Master da Supercopa (1992-1995), Copa Master da Conmebol (1996), Copa Ouro (1993-1996), Copa Ibero-americana (1994) e Copa Interamericana (1968-1998). No âmbito intercontinental, podemos citar a Recopa Intercontinental (1968-1969) e a Copa Intercontinental (1960-2004), tendo essa última antecedido a atual Copa do Mundo de Clubes FIFA. No ano passado, segundo informação divulgada no site da Conmebol, a FIFA sinalizou pelo reconhecimento dessa competição enquanto um título mundial oficial, tendo essa decisão sido tomada a partir de uma solicitação da própria entidade sul-americana.

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Proposta da Conmebol de reconhecimento dos títulos da Copa Intercontinental como mundiais. Fonte: https://twitter.com/agdws/status/923846229922123776/photo/1

Além disso, algumas competições, mesmo não tendo sido organizadas pela Conmebol, foram chanceladas pela entidade. Um exemplo é o Campeonato Sul-Americano de Clubes campeões, organizado em 1948 pela equipe chilena Colo Colo e vencido pelo brasileiro Vasco da Gama. Mesmo durante muito tempo não tendo sido reconhecido oficialmente como competição continental, esse título passou a ter a chancela da Conmebol em 1997, quando a pedido do C. R. Vasco da Gama, a entidade permitiu que a equipe disputasse a Supercopa da Libertadores daquele ano. Como essa competição só era disputada por equipes vencedores da Copa Libertadores (e até então o Vasco nunca havia ganho a competição, fato que alcançaria em 1998), a participação do Vasco como campeão do torneio em 1948 demonstra o reconhecimento da entidade para essa disputa como sendo o primeiro grande campeonato sul-americano de clubes e o percussor da Copa Libertadores, que se iniciaria doze anos depois.

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Equipe do Vasco da Gama campeã do Sul-Americano de Clubes em 1948. Fonte: Centro de Memória C. R. Vasco da Gama

Mesmo com todo esse desenvolvimento e número de competições no masculino, o futebol feminino, entretanto, historicamente sempre se manteve em uma posição de desigualdade. Essa situação é muito explicada pela posição patriarcal e machista da sociedade em que estamos inseridos que, dentre outras esferas, também exerceu seus reflexos no âmbito do futebol. Assim, mesmo com avanços, o futebol feminino sempre esteve muitos passos atrás do masculino. Se compararmos com outras modalidades esportivas, no que diz respeito a posição da prática entre homens e mulheres, veremos que o futebol exacerba ainda mais tal discrepância no contexto sul-americano, muito devido a espetacularização e o mercado alcançados no masculino.

Mesmo com esse cenário, o avanço do futebol feminino no continente, ainda que com passos lentos, tem ocorrido. No senso comum, poucos conhecem e/ou acompanham as competições da modalidade, principalmente se comparado com o futebol masculino. Todavia, no que se refere a formação de um campo, tal cenário teve sensíveis modificações nas últimas décadas.

Se ainda não podemos falar, nem de perto, que o futebol feminino alcançou um posto similar ao do futebol masculino, que é um objeto a parte, pelo menos conseguiu desenvolver competições e estabelecer um status antes não imaginado. No Brasil, por exemplo, o avanço do futebol feminino se deu, com maior força, a partir dos anos 1990, tendo desde então consolidado um selecionado nacional que se destaca ano após ano entre os mais fortes do mundo.

Mesmo sem nunca ter ganho uma Copa do Mundo, o selecionado brasileiro feminino já foi vice-campeão mundial em 2007; medalha de prata nos Jogos Olímpicos de verão em Atenas 2004 e Pequim 2008; além de seis vezes campeão da Copa América. Jogadoras como Cristiane, Formiga e Marta, entre outras, ganharam muito destaque nos últimos anos, tendo essa última sido eleita pela FIFA a melhor jogadora do mundo por cinco vezes seguidas entre 2006 e 2010.

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A brasileira Marta foi eleita por cinco vezes consecutivas a melhor jogadora de futebol do mundo pela FIFA (2006/07/08/09/10) Fonte: http://www.huffpostbrasil.com/2015/12/10/o-passo-a-passo-de-marta-para-superar-pele-como-maior-artilheira_a_21687431/

No continente sul-americano como um todo, o avanço de competições entre seleções femininas de futebol também é notável, tendo o Campeonato Sul-Americano de Futebol Feminino (organizado pela Conmebol e também conhecido como “Copa América feminina”) tido sete edições desde 1991, com seis vitórias do Brasil e uma da Argentina, em 2006, onde as brasileiras foram vice-campeãs. A oitava edição da competição ocorrerá nesse ano de 2018, no Chile.

No âmbito maior, a Copa do Mundo (com sete edições desde 1991) e os Jogos Olímpicos de verão (com seis edições desde Atlanta 1996) continuam sendo, globalmente, as principais competições do futebol feminino. Os melhores resultados de selecionados sul-americanos nessas competições foram também alcançados pela seleção brasileira, que como já explicitado, foi vice-campeã mundial em 2007 e olímpica em 2004 e 2008. Fora do cenário sul-americano, mas ainda na América, é inegável o domínio dos Estados Unidos no futebol feminino, tendo sua seleção já ganho quatro medalhas de ouro olímpicas e três Copas do Mundo, dividindo com seleções como Alemanha, Noruega e Japão, o posto de seleções nacionais mais vitoriosas na história do futebol feminino.

No âmbito dos clubes, o abismo para o futebol masculino ainda continua grande e se faz maior até do que os eventos de seleções (pelo menos no que se diz respeito ao público que acompanha e aos patrocínios). No Brasil, a realização de competições como a Copa do Brasil (de 2007 a 2016) e o Campeonato Brasileiro (a partir de 2013), fizeram com que a formação de equipes femininas no país aumentasse no interior dos clubes. Porém, com a suspensão da Copa do Brasil feminina em 2017 pela CBF, novamente a falta de incentivo se tornou evidente na organização da modalidade no país, dificultando o mantimento e investimento em atletas por parte das equipes

A Copa Libertadores da América de futebol feminina teve seu início em 2009. Desde então, os clubes brasileiros são os recordistas de conquistas, o que evidencia ainda mais a necessidade de se investir nas atletas que representam as equipes do país. Entre os nove campeões, sete são clubes brasileiros: Santos (2009 e 2010), São José (2011, 2013 e 2014), Ferroviária (2015) e Audax, em parceria com o Corinthians (2017). Completam a lista o chileno Colo Colo (campeão em 2012) e o paraguaio Sportivo Limpeño (vencedor em 2016).

É de destaque que, sem os holofotes do futebol masculino, equipes de menor expressão na modalidade entre os homens, alcançaram notáveis resultados com as mulheres. São os casos de São José e Ferroviário, equipes brasileiras de pouca expressão no futebol masculino, mas campeãs da América entre as mulheres (o Audax, apesar de pouca expressão no masculino, foi campeão da América em 2017 no feminino com uma equipe formada em parceria com o Corinthians). Além da parceria entre Audax e Corinthians, que juntaram “grandes e pequenos”, a grande exceção à regra é o Santos, bicampeão da Libertadores entre as mulheres, tendo também ganho três vezes a competição na história entre os homens.

A vitória da Libertadores de 2017 foi exaltada com grande entusiasmo pelas diretorias de Corinthians e Audax. A parceria entre os clubes para formar a equipe vencedora demonstra como o futebol feminino ainda carece de patrocínios e outras formas de investimentos, tendo sido a junção de dois clubes a solução encontrada para unirem forças e alcançarem grandes conquistas. No caso do São José, tricampeão da Libertadores e campeão mundial em 2014, quando clicamos no link “elenco” no site do clube, automaticamente é aberta uma nova página com todos os atletas do futebol masculino, sem nenhuma menção feita em relação as atletas do time feminino, mesmo tendo sido com essas as principais conquistas da história do clube, já que no futebol masculino seus títulos são inexpressivos.

Se são, entre outros motivos, títulos como o da Libertadores que caracterizam um clube como sendo ou não grande, a não elevação das equipes femininas campeãs da América ao mesmo patamar alcançado pelos times masculinos, nos demonstra o quanto ainda é marginal a posição do futebol praticado por mulheres. Todavia, o que poderia ser um motivo de desânimo, tem se tornado uma causa de luta para as meninas que ainda sonham em fazer do futebol uma forma de profissão e levar a vida. Se é a Copa Libertadores da América um campeonato que, como já fica explicito em seu nome, simboliza as lutas pela libertação do continente americano, a presença de uma competição feminina de futebol dentro desse cenário, se faz também mais que necessária e importante para continuarmos avançando com a quebra dos padrões patriarcais estabelecidos e com o fim das desigualdades de gêneros existentes dentro da sociedade.