Esporte, Política e Humor: o Golpe de 2016 (parte 2)

20/08/2018

por Fabio Peres

As práticas esportivas parecem ser “boas para pensar” a vida política brasileira. Mesmo em situações difíceis, vários artistas lançam mão do esporte – com muito bom humor – para explicitar ainda mais o tom crítico com que vêem a conjuntura social e política.

Isto, aliás, não é uma novidade dos nossos tempos. Ao que tudo leva a crer, humor e política estiveram desde a gestão do campo esportivo associados às diferentes modalidades e aos contextos culturais que lhe conferiam sentido.

De fato, no século XIX o esporte (aqui entendido como práticas corporais institucionalizadas) “ajudava” a jogar uma nova luz – seja por meio de contraste zombeteiro, seja por incongruência irônica – sobre o mundo político.  Joaquim Manuel de Macedo (em 1855), Machado de Assis (1894) e Artur Azevedo (1885), apenas para citar alguns entre tantos cronistas do século XIX, escreveram sobre política tendo como argumento humorístico o esporte. Mesmo de maneira mais sutil e ampla, a política aparece em narrativas que tratam ou fazem uso do tema. Ou longe disso, quando a intenção é justamente articular de forma mais contundente humor, política e esporte; como no caso do grande espetáculo, em 1837,  de “equilíbrios gymnasticos” entre a Madame Injustiça e Mr. Patronato.

Mesmo que esta relação não corresponda ipis litteris  a uma realidade objetiva e absoluta, o que para importa para nós é que todos estes autores tinham a expectativa de que seus interlocutores compreendessem as nuances  simbólicas que garantiriam o humor, a graça e, justamente por isso, a crítica.

Em tempos de profundo esgarçamento das instituições democráticas, talvez não seja por acaso o aumento considerável de produções jornalísticas e/ou artísticas que procuram “valer-se” do esporte para expressar irreverências políticas. Sobretudo, quando a “história junta Olimpíadas, Copa do Mundo e Golpe.

O uso da camisa da seleção brasileira, não apenas produziu versões vermelhas da amarelinha, mas também gerou debates similares 1, 2, 3, 4 aos que ocorreram na Ditadura Civil-Militar (1964-1985); algo retratado em diversos relatos, romances e filmes que tratam do período ( exemplos podem ser vistos no filme O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias de Cao Hamburger, no romance A Resistência de Julián Fuks e na crônica de Luís Fernando Veríssimo, Nosso Time). Nesse contexto, bastou a Copa do Mundo da Rússia (2018) ter início, logo surgiram cartuns e charges sobre a (re)apropriação da camisa da seleção:

Maíra Colares, Hexou, 15 de junho de 2018.

 

 

Autor não identificado, 1(?) de junho de 2018.

 

As representações esportivas da crise econômica e política também procuraram, seja através do futebol, seja através de outras modalidades, criticar ironicamente as ações do governo :

Hubert. Folha de São Paulo, 6 de junho de 2018.

 

 

Jaguar. Folha de São Paulo, 15 de junho de 2018.

 

 

André Dahmer, Facebook do autor, 17 de junho de 2018.

 

 

Mor. Folha de São Paulo, 22 de junho de 2018.

 

 

A performance de Neymar também não passou despercebida. Metáforas e trocadilhos foram usados por artistas em conglomerados de mídia e comunicação que apoiaram o Golpe:

André Dahmer. O Globo, 27 de junho de 2018.

 

Bennett. Folha de São Paulo, 25 de junho de 2018.

 

A Justiça desacreditada, em função de sua participação e manutenção do Golpe de 2016, foi duramente criticada por meio de analogias com a atuação dos árbitros de futebol:

Laerte. Folha de São Paulo, 19 de junho de 2018.

 

 

Maíra Colares, Arbitrariedade, 15 de junho de 2018.

 

Até mesmo a infame entrevista da, então pré-candidata à presidência, Manuela D’Ávila (PCdoB) no programa Roda Viva (TV Cultura), não deixou de ser relacionada ao futebol:

 

Montanaro. Folha de São Paulo, 28 de junho de 2018.

 

 

As 62 interrupções que a deputada sofreu, não apenas evidenciaram o machismo e as desigualdades de gênero que as candidatas mulheres progressistas são alvo, mas especialmente as estratégias que as forças políticas conservadoras lançam mão:

No caso de Manuela, o mais grave nem foi a montagem de um pelotão de fuzilamento, que evidentemente excluía a diversidade eticamente necessária em programas que desejem promover um debate esclarecedor, mas a ocultação da filiação ideológica de alguns dos convidados. Coube à candidata apontar o vínculo de Frederico d’Ávila, apresentado apenas como diretor da Sociedade Rural Brasileira, com a campanha de Jair Bolsonaro (Sylvia Moretzsohn, The Intercept, 27 de Julho de 2018).

De acordo com o colunista da Folha, Maurício Stycer, foi um dos “piores momentos” da história do Roda Viva. O caso talvez tenha ajudado a aproximar ainda mais Chico Buarque, que em 2016 desautorizou o uso de sua música pelo programa homônimo, da deputada que atualmente compõe a candidatura de Lula. No último domingo (19), Manuela, além de postar fotos com o compositor, compartilhou uma fotografia de Chico segurando uma camisa vermelha, onde se lê:

Mas essa é uma outra história…

 

 

 

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* As opiniões aqui emitidas são exclusivamente de responsabilidade do autor da postagem, não correspondendo as intenções e/ou representações dos artistas mencionados.


Copa e Olimpíada: tocamos as obras, violamos direitos, vamos em frente

29/08/2011

Por Rafael Fortes

No finzinho de 2010, escrevi uma análise (com traços de prognóstico) sobre a organização dos megaeventos esportivos no Brasil, no que diz respeito aos interesses da maioria da população e aos cofres públicos. De lá para cá, para tragédia do país onde nasci e, em particular, da cidade onde vivo (Rio de Janeiro), os acontecimentos indicam que eu estava certo.

Estou longe de ser o único com esta avaliação, inclusive entre os que estudam esporte. Em entrevista publicada no jornal Brasil de Fato, Gilmar Mascarenhas de Jesus, professor de Geografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), apresenta dados e interpretações bastante críticos a respeito da forma como os megaeventos esportivos vêm sendo preparados no Brasil. Além disso, descortina os interesses e projetos de cidade aos quais os megaeventos estão associados e subordinados.

Movimentos sociais, ONGs, moradores atingidos pelas obras e (poucos) mandatos legislativos e políticos vêm, com imensas dificuldades, lutando para garantir direitos, conter o rodo e divulgar os acontecimentos. Um exemplo é vídeo abaixo, feito com o objetivo político de mobilização a favor da instalação da CPI das Remoções na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Trata-se de compilação de vídeos relativos às remoções que vem acontecendo na cidade (veja também a segunda parte). Na fala do morador (a partir de 4’49”), repare que a casa atrás dele está pintada com números e as iniciais SMH, que provavelmente correspondem a Secretaria Municipal de Habitação. A fala de Raquel Rolnik, professora da USP e relatora da ONU para o direito à moradia, é tão clara quanto estarrecedora.

A legitimação política, ideológica, econômica e prática para a realização da maioria destas obras é preparar a cidade para a realização da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016. A quantidade e qualidade das ilegalidades, arbitrariedades e crimes cometidos pelo poder público (executivos municipais, estaduais e federal, mas não só) impressiona.

Vale a pena conferir também um relato em inglês dos acontecimentos e da produção de quatro curtas, bem como os próprios vídeos (os quais formam a base dos dois vídeos-coletânea citados acima). Num deles, um morador que teve sua casa destruída afirma se sentir “um otário”, pois comemorou a escolha do Brasil para sede da Copa de 2014, mas agora percebe as consequências nefastas da decisão.

Percebe-se claramente a lógica de rolo compressor – ou rodo, como defini em outro espaço – que orienta as ações. O depoimento de um morador da Vila Recreio 2, num dos vídeos citados, deixa clara a falta de informação e de acesso aos projetos das obras. Ao final deste vídeo, a mesma Rolnik explica que prejudicar os pobres faz parte desta mesma lógica.

Esta lógica não é coisa nossa. Recentemente, funcionou também na África do Sul (Copa do Mundo de 2010) e Grécia (Olimpíada de 2004). Há numerosas análises sobre as consequências da última Copa. Uma delas foi feita recentemente por um professor sul-africano em evento promovido pelo IPPUR, da UFRJ, e relatada no boletim Olhar Virtual:

Ao final de sua apresentação, o convidado concluiu que a melhor maneira de organizar um mega evento como a Copa do Mundo é incluindo a população, para evitar revoltas sociais e ajudar no desenvolvimento do país (…)

Ou seja, justamente o contrário do que ocorre no Brasil.

Vivemos em uma democracia formal desde 1979, 1985, 1988 ou 1989 – dependendo do marco escolhido. Contudo, a população e a sociedade organizada ficam fora da discussão e da tomada de decisões, contrariando leis e qualquer parâmetro de bom senso, ética, decência e razoabilidade. Decisões e realizações (sobre obras, projetos, liberação e uso de recursos públicos etc.) são feitas de forma secreta, sem participação da população. Temos, no governo e no poder, partidos integrados por centenas, talvez milhares de perseguidos pelo regime de exceção instaurado em 1964. Tragicamente, a organização dos megaeventos, ao menos em certos traços, lembra a época do “Ninguém mais segura este país”.

*  *  *

Por indicação do colega de blogue Coriolano, li esta inacreditável entrevista de Ricardo Teixeira, presidente da CBF, à revista Piauí. Outro escriba deste espaço, Victor Melo, leu recentemente Jogo Sujo, do jornalista britânico Andrew Jennings, e disse que, a julgar pelo relato, a situação é duzentas vezes mais cabeluda do que imaginamos. A obra é apresentada pela editora brasileira como “o livro que a Fifa tentou proibir”.

Capa do livro que Ricardo Teixeira conseguiu proibir.

No caso brasileiro, talvez, em breve, consiga. Afinal, há um precedente: CBF – Nike, escrito pelos então deputados federais Aldo Rebelo (PCdoB/SP) e Silvio Torres (PSDB/SP) e editado em 2001 pela Casa Amarela, foi recolhido e permanece, até hoje, proibido. (É possível encontrá-lo em sebos, inclusive virtuais. Mas a proibição jogou o preço lá em cima.) Eles foram, respectivamente, presidente e relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) CBF/NIKE, que investigou a relação da confederação com a fornecedora de material esportivo – e acabou em pizza, “sem votação do Relatório” final.

Segundo o excelente texto de Daniela Pinheiro, Teixeira declarou: “Meu amor, já falaram tudo de mim: que eu trouxe contrabando em avião da Seleção, a CPI da Nike e a do Futebol, que tem sacanagem na Copa de 2014. É tudo coisa da mesma patota, UOL, Folha, Lance, ESPN, que fica repetindo as mesmas merdas.” A lista é precisa: concentra os veículos que, dentro da mídia corporativa, fazem uma cobertura crítica – ora mais, ora menos; uns mais, outros menos – em relação ao esporte, à maneira como estão sendo organizados os megaeventos esportivos e à condução das entidades que mandam no esporte brasileiro, como a CBF.

De acordo com o relato, Teixeira compara a CBF a entidades privadas como o banco Bradesco, afirmando que as pessoas não têm nada a ver com a contabilidade da entidade. Em outro trecho, lembra que, ao gravar entrevistas ocm dirigentes da entidade sobre a preparação para a Copa do Mundo, os jornalistas da TV Globo nada perguntaram sobre as numerosas denúncias de corrupção.

Lá no início, falei que as obras eram uma tragédia não apenas para a maioria da população, mas também para os cofres públicos. Exemplo disso é a matéria “Gasto olímpico grego ilustra a perda de controle das finanças“, de Vitor Paolozzi, publicada no jornal Valor Econômico. Além de entrevistar um professor da London School of Economics cujo sobrenome, curiosa e apropriadamente, é Economides, aponta vários erros e absurdos cometidos. Um dos problemas principais, no caso grego, foi o suborno de autoridades por parte de empresas interessadas em ganhar licitações e fornecer produtos e serviços para os jogos e para as obras a eles relacionadas.

Difícil imaginar que esteja acontecendo e vá acontecer algo semelhante no Brasil, não?