Tom Carroll no Pipe Masters de 1987, ou sobre a “superação” no esporte

01/01/2018

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

Superação é uma palavra comumente associada ao esporte. Aparece com frequência nas representações midiáticas do fenômeno esportivo, em geral relacionada ao desempenho de atletas de alto rendimento. No pouco espaço dedicado aos atletas paralímpicos, o enquadramento de “superação” me parece predominante e onipresente. Muitas narrativas midiáticas construídas a respeito do surfe, de certos surfistas e competições se inserem nesta lógica.

Neste primeiro texto de 2018, abordo brevemente uma delas: a vitória de Tom Carroll no Pipe Masters de 1987. Uso como fonte o filme Pipeline Masters, de 2006 (não encontrei em lugar algum os créditos de direção), disponível na íntegra abaixo (tampouco achei uma versão com legendas em português):

O filme aborda o campeonato disputado em Pipeline/Backdoor, no litoral norte da ilha de Oahu, no arquipélago havaiano. Trata-se, possivelmente, da onda mais famosa do mundo – e uma das mais perigosas. Realizado desde o início dos anos 1970 – antes de haver um circuito mundial de surfe profissional masculino -, o Pipe Masters é o campeonato de maior prestígio na modalidade, além de um dos mais tradicionais. A mídia do surfe em língua inglesa volta e meia usa a expressão “he’s a Pipe Master” (algo como “ele é um mestre de Pipe”) para se referir a algum ex-campeão. Desde que o circuito foi estabelecido, na maioria dos anos ele termina lá. Com isso, o certame decide não apenas quem será o Pipe Master, mas também o campeão da Tríplice Coroa Havaiana (composta pelos campeonatos realizados em Haleiwa, Sunset e Pipeline) e, frequentemente – como em 2017 – o título de campeão mundial masculino.

Por esses e outros motivos, o campeonato é um prato cheio para tais construções narrativas, como se pode perceber ao longo do documentário, tanto em edições anteriores quanto posteriores (por exemplo, na performance de Sunny Garcia em 1992, quase se sagrando campeão apesar de uma contusão séria que limitava-lhe os movimentos de um dos braços – as imagens são impressionantes).

Por volta de 47′, a narração do documentário classifica o que aconteceu em 1987 como “um dos momentos mais dramáticos da história das competições de surfe”. A partir daí, estabelece uma narrativa sobre a trajetória do australiano Tom Carroll. Bicampeão mundial, ele é apresentado como corajoso e até certo ponto irresponsável (até passar a ser um dos poucos a usar capacete por lá), características consideradas importantes para conseguir surfar bem uma onda veloz, poderosa e perigosa como Pipeline. Sua trajetória inclui uma final já na primeira participação, em 1979. Fez outras finais, mas, até então, nunca fora campeão. Novamente ia bem no campeonato de 1987, até que…

…recebe a notícia da morte de sua irmã, na Austrália, num acidente de carro. Em meio ao campeonato mais importante da temporada, Carroll é obrigado a lidar com a tragédia pessoal e familiar e pensar nas providências para retornar à Austrália para o funeral. Numa conversa ao telefone, o pai lhe diz para ficar no Havaí, “porque ela [a irmã] quer que você ganhe”.

Num depoimento emocionado (52′ em diante), o surfista diz: “senti que ela estava lá”. “Eu não surfei para ela. Eu surfei com ela”, afirma. Carroll venceu a final e tornou-se um Pipe Master – depois ganhou duas edições, em 1990 e 1991. Ajuda sobrenatural? Desempenho potencializado por um estado emocional alterado? Coincidência? Rumo natural dos acontecimentos – ou seja, um excelente surfista, em grande forma, finalmente vencendo um campeonato disputado na onda onde era, há anos, um dos melhores? Todas as alternativas anteriores?

Questões boas para a psicologia do esporte, e que considero interessantes para pensarmos o fenômeno esportivo e suas representações midiáticas. E, por que não, também as representações históricas e historiográficas que construímos.

Além disso, frequentemente, nós historiadores somos também admiradores, torcedores, espectadores e/ou praticantes: é possível termos envolvimentos de diversas ordens com os times, atletas, modalidades etc. que pesquisamos.

Para saber mais

Textos com a palavra superação publicados neste blogue.

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Este post é uma homenagem a minha avó Dirce, que se foi em agosto de 2016, aos 91 anos. Devo a ela muito do que sou (sobretudo do que tenho de bom). Na tarde em que recebi a notícia da morte dela, faltava menos de uma semana para eu retornar ao Brasil. Tinha uma partida de tênis marcada com Steve, um coroa com quem vinha jogando duas ou três vezes por mês, invariavelmente perdendo por 2×0 (às vezes, em uma hora dava tempo de perder dois sets inteiros). Steve joga muito melhor do que eu – estava uns dois ou três níveis acima, tinha um excelente saque e o forehand mais demolidor que já enfrentei. Pensei em desmarcar a partida. Não o fiz, nem contei a ele o que tinha acontecido. Naquele dia, jogamos apenas um set, que durou cerca de uma hora. Embora arrasado por dentro, senti uma calma e consegui um grau de concentração e foco que nunca experimentara. Pela primeira e única vez, ganhei um set de Steve. Ele me parabenizou, ao mesmo tempo em que não escondia estar bastante irritado consigo mesmo e com o resultado (como acontece com todo tenista fominha). Nos despedimos e ele foi embora. Por um tempo que não sei precisar, fiquei ali, sozinho, sentado no banco à beira da quadra, olhando as árvores e o céu azul de fim de tarde do Balboa Park.


Greve de surfistas

24/08/2009

Fonte da imagem: http://josiasdesouza.folha. blog.uol.com.br/images/Greve.jpg

Por Rafael Fortes

“Os sindicatos fazem greve/Porque  ninguém é consultado”, cantam os Titãs em “Desordem” (Sérgio Britto/Marcelo Fromer/Charles Gavin). A música – minha favorita na longa discografia da banda – apareceu no disco Jesus não tem dentes no país dos banguelas, de 1987.

Uma das características marcantes dos anos 1980 no Brasil – sobretudo quando se olha para os dias atuais – é a capacidade de mobilização dos trabalhadores. Tal fenômeno estava articulado a um longo e difícil processo de reorganização de instâncias coletivas da sociedade brasileira, que avançou a partir dos últimos anos da década de 1970. Durante os governos de um general (João Figueiredo), e de um civil (José Sarney, cuja carreira política se desenvolveu no seio da ditadura e da Aliança Renovadora Nacional – Arena – e cujo nome tem estado em voga na mídia nos últimos meses), trabalhadores, moradores e sem-teto, gays, mulheres, negros, jovens, católicos, povos indígenas, agricultores com e sem terra, estudantes, seringueiros, praticantes de religiões perseguidas, vítimas de discriminação e muitos mais se (re)organizaram em partidos, associações, sindicatos, movimentos, grupos, ligas, comunidades, clubes, centrais, agrupamentos, uniões. O próprio ato de reunir-se continha um significado político. Tratava-se, em boa parte dos casos, não apenas da defesa de interesses de grupo ou corporativos, mas de reivindicar direitos.

No caso das entidades representativas dos trabalhadores, a greve constituía o instrumento mais radical e, ao mesmo tempo, mais poderoso de luta por aumento salarial, por direitos e por melhores condições de trabalho e de vida. E as greves aconteciam com frequência que, ao se observar o presente, parece impressionante. Os defensores de uma certa ordem vigente – entre os quais encontram-se os meios de comunicação corporativos -, encaravam tais manifestações como desordem – a ótima letra da música citada trava justamente esta discussão. Você, leitor, deve estar se perguntando: mas o que isso tem a ver com esporte?

Em março de 1988, Fluir publicou um artigo intitulado “Primeira greve no surf brasileiro”. Começava assim:

Os surfistas profissionais brasileiros, durante a realização da primeira etapa do 2º Circuito Brasileiro de Surf, cruzaram os braços e se declararam em greve, pleiteando uma maior premiação. Essa situação tomou a manchete dos maiores jornais do país e a pauta dos noticiários esportivos de rádios e TVs.

Como em qualquer categoria houve negociação, concessões de parte a parte e um acordo celebrado.

O longo texto prossegue com informações sobre premiação, contratos, reivindicações dos atletas e argumentos das várias partes envolvidas. A complicada disputa envolvia surfistas, empresas patrocinadoras das etapas, Rede Globo (que comprara a exclusividade de cobertura do circuito) e organizadores. Nos cinco parágrafos da “conclusão”, chama os envolvidos ao “bom senso”. A revista diferencia as empresas que investem no surfe (citando como exemplo as que se dispuseram a patrocinar etapas do primeiro circuito, realizado em 1987) dos “novos oportunistas” – estes, sim, deveriam sofrer cobranças.

A adoção de uma postura classista pelos atletas reunidos no Rio de Janeiro para a etapa inaugural do Circuito Brasileiro 1988 não ocorre no vácuo, mas em meio a dois processos mais amplos. Primeiro, o de comercialização e profissionalização do surfe no país. A realização do segundo circuito, os acordos comerciais fechados em torno do mesmo e o possível crescimento das cifras formam o quadro em que os atletas decidiram reivindicar aumento na premiação. Neste caso, Fluir intercede colocando panos quentes no conflito entre atletas e empresas do ramo (a visão da publicação a respeito do papel desempenhado pelas empresas é assunto para outro artigo).

Segundo, o processo de mobilização da sociedade brasileira, ao qual me referi no início do texto.

Como a história também é feita de acontecimentos fortuitos, cabe acrescentar uma curiosidade: segundo Fluir, um dos fatores que contribuíram para a tomada de consciência e a mobilização da “categoria” por melhores premiações foi a falta de ondas por vários dias consecutivos.

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Duas observações para encerrar:

Um dos grandes baratos de estudar história do esporte é justamente relacioná-lo com o contexto e o tempo social em que se insere e se desenvolve. É nesta perspectiva – compartilhada por todos que fazem parte do Sport – que busco desenvolver meu trabalho.

A relação entre música e surfe dá pano para manga. Seja nos anos 1980, antes ou depois; no Brasil e em outros cantos deste vasto mundo. Voltarei ao assunto posteriormente.

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Para saber mais:

Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro. Publicado pelo CPDOC/FGV, possui diversos verbetes disponíveis para consulta na internet – mediante cadastro -, entre eles “José Sarney” e “ARENA”.

NEVES, Lucília de Almeida (1989). Democracia, República e cidadania hoje. Análise e Conjuntura, Belo Horizonte, v. 4, n. 2-3, maio/dez., p. 339-347.

REIS FILHO, Daniel Aarão (2002). Ditadura militar, esquerdas e sociedade. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Coleção Descobrindo o Brasil)


Uma revista de esportes radicais

08/06/2009

Na primeira metade dos anos 1980, surgiu em São Paulo uma revista dedicada aos esportes radicais: Fluir – Terra, Mar e Ar. Não foi a primeira voltada ao público jovem e a modalidades como o surfe. Nos anos 1970 houve iniciativas como Surf Sul (Florianópolis), Quebramar (Santos) e Brasil Surf (Rio de Janeiro).

Publicações de conteúdo mais geral – e não apenas esportivo – também circularam, como Pop e Realce. Esta última daria origem ao programa televisivo de mesmo nome, que fez sucesso e história nos anos 1980 mesclando cobertura de esportes radicais e música – incluindo clipes e entrevistas com a geração que despontava e marcaria o rock brasileiro durante os anos 1980 (vale a pena conferir a linha do tempo com a atuação de Antonio Ricardo e Ricardo Bocão na mídia do surfe). Pop, editada pela Abril Cultural, circulou entre 1972 e 1979.

Em 1983, cinco sócios lançaram aquela que viria a se tornar a principal revista brasileira de surfe. Na primeira capa, o surfe em destaque (num negativo de filme da marca Kodak!) e chamadas para voo livre e bicicross.

Capa da edição de estréia de Fluir (set-out 1984)

Capa da edição de estréia de Fluir (set-out 1983)

A capa e o subtítulo evidenciam o objetivo de se apresentar como uma revista de esportes radicais, disputando terreno com Visual Esportivo, publicada no Rio. Durante cerca de um ano, as modalidades de ar e terra (acrescidas do skate, abordado a partir do número dois) conviveram com o surfe.  Este passou de modalidade central a única. O voo livre foi o primeiro a cair (com o perdão do trocadilho), seguido pelo bicicross e skate. Fluir converteu-se em um título exclusivamente sobre surfe – com uma ou outra pitada de skate e música a cargo do Dr. Anshowinhas  – e logo passou a ocupar o lugar de principal publicação brasileira sobre a modalidade. Sustento a hipótese, até hoje inconteste, de que se trata da revista esportiva publicada há mais tempo de forma ininterrupta no Brasil – Placar, por exemplo, sofreu algumas pausas nos anos 1990.

Nas edições em que as modalidades desapareceram, nenhuma explicação foi dada aos leitores quanto aos motivos para as mudanças. Em edições comemorativas posteriores, a justificativa apresentada em entrevistas com os criadores dizia respeito aos anunciantes, quase todos voltados para o surfe. Acredito que essa tenha sido a razão mais concreta/imediata, mas ela se articula com uma questão de fundo: bicicross, voo livre e skate não produziram, durante os anos 1980, uma cultura própria que gerasse consumo intenso entre praticantes e, principalmente, simpatizantes. Já produtos como bermudas e camisas de marcas ligadas ao surfe foram e são consumidos por crianças, adolescentes, jovens e adultos em diversos lugares do Brasil, muitos deles afastados do litoral.

Para saber mais:

BORGES, Luís Fernando Rabello. O processo inicial de formulação de produtos de mídia impressa brasileira voltados ao público jovem – Um estudo de caso da revista Pop. Dissertação de mestrado, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação, Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), 2003.

GUTENBERG, Alex. A história do surf no Brasil: 50 anos de aventura. São Paulo: Grupo Fluir/Ed. Azul, 1989.