Ah! A Copa no Brasil!

01/03/2021

Resenha de The World Cup Chronicles: 31 Days That Rocked Brazil [i]

(Por Jorge Knijnik, Balgowlah Heights, Australia, Fair Play Publishing, 2018, 164 pp. (paperback), ISBN: 978-0-6481333-1-5)

por Tiago Fernandes Maranhão [ii]

Jorge Knijnik escreveu uma compilação interessante de crônicas analíticas sobre a Copa do Mundo de 2014 sediada no Brasil. A capa de The World Cup Chronicles mostra uma jovem negra controlando uma bola de futebol no ombro e tendo uma favela brasileira ao fundo. Prepara o público leitor para as contradições enfrentadas pelo país-sede daquele megaevento esportivo. O livro tem 28 crônicas e é dividido em três partes, oferecendo uma perspectiva histórica importante sobre as confluências de ‘imaginar, viver’ e compreender o ‘legado’ da Copa do Mundo de 2014. As crônicas de Knijnik percorrem um território familiar, mas trazem intencionalmente o que os estudiosos da história e das ciências sociais apontam como aspectos interdisciplinares de segregação, preconceito e participação cidadã. O livro é particularmente bom em cruzar os aspectos políticos da abordagem branqueadora e elitista do mais famoso campeonato internacional masculino quadrienal com a exclusão social e racial que permeia a sociedade brasileira.

O interesse provocador na análise das crônicas é notável. Não só na forma, mas também no conteúdo, reafirmando a qualidade indiscutível do livro. Knijnik faz um trabalho admirável ao analisar o quadro geral. O compromisso do autor com a coragem de não ser monótono não perde de vista nossas preocupações diárias com os grupos sub-representados, vulneráveis ​​e marginalizados. Um bom exemplo é a forma como Knijnik nos aproxima do caminho da realidade sem negar suas muitas contradições e complexidades. Por isso, a palavra trilha é apropriada, pois nos lembra dos perigos e incertezas ao analisar os fatos sociais. The World Cup Chronicles vislumbram um megaevento que segue esse caminho mais amplo de polêmicas que costuma ser uma realidade no esporte, analisando os aspectos que transformaram figuras como Pelé e Ronaldo ‘de orgulho nacional em anti-heróis’ (p. 28); bem como o tratamento conflituoso e oposto em favor da superestrela do futebol Marta, ou canalizado contra a presidente Dilma em uma sociedade ainda machista (p. 113; p. 142).

Outro ponto positivo deste livro é a análise de Knijnik – que permeia a primeira e a segunda partes do livro – de como o governo brasileiro vendeu a ideia de que os grandes eventos, especificamente a Copa do Mundo, seriam uma forma de reafirmar o desenvolvimento nacional e mostrar à comunidade internacional que O Brasil estava preparado para ser a próxima superpotência mundial. The World Cup Chronicles mostram que a proposta megalomaníaca de construir ou reformar 12 estádios de futebol para a Copa do Mundo de 2014 foi justificada pelo interesse da FIFA, de políticos brasileiros e de empreiteiros que buscavam lucrar com a corrupção de projetos de construção caros. Knijnik descreve como os interesses políticos e financeiros ditaram os termos diante das reivindicações da população brasileira por melhores condições de vida e justiça social. Os manifestantes se tornaram, nas palavras de Knijnik, ‘uma consciência coletiva’ inundando as ruas brasileiras como uma demonstração pública de desaprovação aos bilhões de dólares gastos em um torneio que forçou milhares de ‘brasileiros vulneráveis ​​a se mudarem de suas casas em nome dessa festa gigantesca’. p. 72)

Apesar do desastroso 7 x 1 na semifinal da competição, Knijnik destaca que houve “consequências muito piores” que os brasileiros tiveram de enfrentar após a Copa (p. 61). O Brasil está agora em uma situação econômica pior, experimentando o caos político e ainda está pagando pelos ‘elefantes brancos’ que o país construiu, como resultado do desperdício de dinheiro público e da ineficiência dos projetos de infraestrutura (p. 138). Knijnik fornece na terceira parte de seu livro um manancial de informações sobre como o Brasil convive com ‘o legado’ da Copa de 2014, ainda investigando a corrupção que favoreceu quem soube manipular o futebol como paixão nacional e capitalizar os laços sentimentais que uniam  a população brasileira a sua seleção. O grande destaque que The World Cup Chronicles traz é a reação popular contra a ilusão de que grandes eventos esportivos tentam vender e contra a manipulação do mito do ‘país do futebol’.

Knijnik nos guia pelas trilhas da complexa realidade social brasileira e sua intrincada relação com o futebol. A riqueza temática e a distribuição dos temas abordados no livro acompanham o prazer de comunicar o conhecimento. É evidente a preocupação do autor em aprofundar as mudanças e permanências da relação política e social que os brasileiros historicamente têm com o futebol. The World Cup Chronicles mostram a complexidade efetiva de um evento esportivo histórico e suas múltiplas possibilidades investigativas. A relação completamente entrelaçada entre o mundo dos negócios esportivos, a política, cultura e relações de poder – políticas ou simbólicas – está no cerne da narrativa de The World Cup Chronicles. As trilhas traçadas no livro explicam claramente a complexidade das lutas, das disputas e da vida lúdica dos torcedores durante a Copa, coexistindo com a morte de certos mitos fundadores do futebol brasileiro. A narrativa de Knijnik também traz, para um público mais amplo, o submundo frequentemente negligenciado da vida cotidiana brasileira, nos lembrando que os tempos históricos não são separados.

A extensa variedade de temas propostos por The World Cup Chronicles pode servir de ponto de partida para quem deseja desenvolver outras análises sobre os aspectos políticos, sociais e culturais do futebol no Brasil. Acessível, pesquisado e perspicaz, The World Cup Chronicles: 31 Days That Rocked Brazil mostra claramente a existência de diferentes formas de pensar e sentir sobre a Copa do Mundo de 2014, que negam a visão romântica de uma sociedade brasileira homogênea na forma de viver o evento. As Crônicas da Copa finalmente dão voz, com equilíbrio, à multiplicidade de visões e formas pelas quais esporte, política e cidadania se cruzam em um período de turbulência no Brasil. Apesar de olhar para o presente da Copa do Mundo de 2014, Knijnik mostra, de forma elegante, as dificuldades e conexões do passado político e social do futebol.


[i] Este texto foi publicado originalmente por Tiago Fernandes Maranhão (2021) no The International Journal of the History of Sport, DOI: 10.1080/09523367.2020.1867988

[ii] Tougaloo College, Jackson, MS maranhaotj@hotmail.com


Imaginando a Copa

17/02/2014

Por André Schetino

Olá amigos do História(s) do Sport.

A Copa do Mundo de Futebol é o assunto do momento, e não poderia ficar de fora nesse post. O andamento (ou não) das obras de infra-estrutura, os protestos e articulações políticas, as sedes dos jogos, as namoradas do Neymar, são apenas alguns elementos que povoam nossa imaginação.

Ah, a imaginação!

A tão falada frase que ganhou os comerciais de tv, as redes sociais e as conversas de botequim sobreviveu à repetição exaustiva e ao cansaço de alguns: “imagina na copa?

Imagina?

Imagina?

A frase se repete sempre que vemos alguma notícia ou fato, geralmente ligados aos problemas ainda por serem resolvidos (será?) até o Mundial. E assim todos nós imaginamos. Ontem entrei em um táxi e o assunto não podia ser outro. Me disse o motorista: “como você acha que vai ser durante a copa?”. E assim tem sido desde que o Brasil foi escolhido como sede para a Copa do Mundo de 2014.

Pois bem. A boa notícia é que nossas indagações estão com os dias contados. No próximo dia 12 de junho, vamos parar de imaginar e ver como realmente será.

Mas se você partilha comigo de certa ansiedade sobre esses dias vindouros de muito futebol e “sabe-se-lá-mais-o-que”, vou dividir com o amigo leitor um exercício que fiz nos últimos dias.

Cansado de imaginar como será na Copa, eu fui aos arquivos da Biblioteca Nacional, e no intuito de aplacar um pouco da minha angústia, resolvi ler um pouco sobre como foi a Copa no Brasil. Então voltei ao ano de 1950, pelas páginas da Revista O Cruzeiro. Lá eu encontrei um pouco de tudo: toda euforia pelo evento, a cobertura dos jogos, a alegria do torcedor, o orgulho pelo Maracanã, o maior estádio de futebol do mundo.

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Mas quem acompanha minhas postagens aqui no blog sabe que, o que me salta aos olhos é o que me parece diferente, curioso ou inusitado. Confesso que nunca fui profundo estudioso do futebol (daquele de ir à biblioteca e mergulhar nos arquivos), mas uma notícia específica me chamou a atenção.

Sem mais delongas, segue a reportagem de David Nasser, na edição de 15 de julho de 1950 da Revista O Cruzeiro

A Copa Errada

Rio de Janeiro – Da cadeira numerada 2, letra G, setor 25, 140 cruzeiros, debaixo de goteira, especial para O CRUZEIRO, junho de 1950 – Aqui, senhores, está a reportagem feita sem a menos facilidade da CBD ou da inepta e inexistente Comissão de Imprensa criada para a Taça Jules Rimet. Do reduzido espaço de uma cadeira numerada, tendo a vizinhança do ilustra brigadeiro Eduardo Gomes e do teatrólogo Luís Iglezias. Sobre a nossa cabeça uma goteira que não parava nunca, conseguimos trazer a agradável impressão de uma vitória do Brasil, no terreno esportivo, mas de fracasso da CBD na parte administrativa. 880 jornalistas e pseudojornalistas assistiram à peleja, enquanto a alguns profissionais em serviço se procurava dificultar a missão. Nesta véspera de jogo deve ser comum o diálogo entre a cozinheira e o motorista:

– Durvalina, você quer ir ao jogo do Brasil?

– Mas, como, Manuel? De arquibancada?

-De arquibancada ta difícil. O jeito é a gente ir mesmo de Tribuna de Imprensa.

Certos paredros esportivos são como elefantes de circo: vivem a glória apenas na hora do espetáculo. Depois, volta à obscuridade e à vida monótona de todos os dias. Procure, amigo, uma dessas eminências atualmente e encontrará fechada todas as portas: a de casa, a do escritório e a da confederação. Os respeitáveis e altíssimos governantes dos esportes nacionais, dirigentes das grandes rendas, colocam-se em pedestal cuja base não se forma de sabedoria ou cultura, mas de maleabilidade, de jeito, de tato em lidar com os torcedores, com os jogadores e principalmente com a igrejinha que é a própria alma da entidade. Só se trata do esporte, no Brasil, em função do lucro. O atletismo está abandonado, o tênis foi posto à margem, o basquete atravessa uma fase ruim, a natação já não interessa. Só o futebol, porque o futebol dá renda. Essa história de cultura física, de aprimoramento racial, não passa de bobagem sem nexo para os mentores esportivos do Brasil. Por essas e outras razões, a Copa do Mundo só não se transformou em fracasso técnico graças às próprias equipes. No que dependeu da CBD, da Comissão de Imprensa e de todas as outras comissões ineptas, o fracasso é absoluto, completo e desolador.

(…)

Sua Excelência, o paredro, analisou, há alguns meses, o problema do turismo. Antes de tudo, a CBD teria de gastar dinheiro com a propaganda do Brasil no exterior e a CBD se recusou a imprimir cartazes e a divulgar as nossas coisas na Europa e noutros continentes. Mário Provenzano [repórter da revista], Fernando Bruce e Geraldo Romualdo da Silva, três honestos e competentes cronistas esportivos, voltaram impressionados de uma longa viagem ao estrangeiro: quase não haviam lido um artigo, uma reportagem, uma apreciação sobre o campeonato do mundo a realizar-se no Brasil. Em nossa permanência na Europa nem os jornais especializados falavam sobre o assunto.

Um rapaz do ‘Match’, a maior revista da França, explicou o desinteresse:

“- Temos a impressão de que não será realizada a disputa da Taça Jules Rimet no Brasil em 1950. Nada sabemos a respeito da construção do novo estádio e só se propala, aqui, a falta de hotéis e acomodações para turistas.

A CBD não se importava, na realidade, com a parte turística. A CBD sabia, tinha plena convicção, de que as grandes rendas seriam produzidas pela torcida brasileira. Aos elefantes esportivos pouco importava a contribuição de dólares, de dinheiro, de benefícios que os 90 mil turistas trariam ao Brasil durante a Copa do Mundo. “- Daremos a festa com a prata da casa”, raciocinaram, e se deixaram orientar sempre e sempre por esse principio egoístico e antinacionalista.

Dos noventa mil, apenas uns dois mil turistas apareceram por aqui. No cais do porto ou no aeroporto, ninguém para recebê-los. Desde o primeiro minuto, sentiram-se deslocados, sem informações, sem guias, sem facilidades. Para um polonês ou letão ir ao Estádio, imaginem as dificuldades. Tivemos, assim, o fracasso turístico.

Os grifos na reportagem foram feitos por mim. Infelizmente não tenho as fotos dessa e de outras edições para ilustrar esse post. As fotos mostram um estádio do Maracanã incompleto, com vergalhões e resto de obra à mostra, fotos da confusão e descontrole para entrar no estádio e dos feridos sendo atendidos. Há inclusive a menção de uma morte durante um dos jogos da seleção brasileira (isso na edição de 29/07 de 1950).

Voltar à primeira Copa do Mundo no Brasil através das reportagens da Revista O Cruzeiro não me mostrou que alguns problemas parecem os mesmos. Também não me mostrou que, em alguns aspectos, podemos até ter melhorado. Pensei que fosse aplacar um pouco da minha ansiedade em saber como será, mas isso também não aconteceu. Mas posso dizer após esse exercício de ida aos arquivos, que conhecer o passado pode nos ajudar sim a compreender o presente. Além de ser algo fantástico.

Então me resta agora aproveitar os últimos meses em que posso imaginar, antes de saber como será. Te aconselho a fazer o mesmo:

Imagina na Copa?


Cidade de lata

14/11/2011

Por Rafael Fortes

Dura menos de meia hora. 29 minutos e 47 segundos, para ser preciso. Traduzo o título por “Cidade de Lata” e o subtítulo, “O custo irresponsável da Copa do Mundo de 2010”. Tudo que está entre aspas neste texto foi retirado do filme e traduzido por mim.

O roteiro e o conteúdo revelam o que relativamente poucos sabem (e, destes, menos ainda estão dispostos a discutir, divulgar e tentar mudar).

Por exemplo, a repressão a trabalhadores informais de feiras livres sob a alegação de que as ruas precisam ser transformadas em espaços “amigáveis para o turista”. Ou seja, o espaço da rua e da cidade não são para quem vive nela. A preocupação da Prefeitura não é com os cidadãos/moradores – aqueles que a elegeram. A prioridade é a imagem. Você, leitor(a), conhece alguma cidade com dirigentes assim?

Ou a remoção (melhor seria dizer expulsão) de 10 mil pessoas para a cidade de lata, a 35km da Cidade do Cabo, onde viviam. Ao ver as primeiras imagens, pensei: parece um campo de concentração. Pouco depois, um entrevistado diz, acabando com qualquer dúvida: “isto é um campo de concentração”. Vemos a casa de lata de oito metros quadrados em que vive o personagem central. Vemos o banheiro de uso coletivo sem água. Um deles é uma cabine de cerca de um metro quadrado. No meio, um balde – isso mesmo, usa-se um balde para fazer as necessidades.

Ou o seguinte comentário: “saímos de uma opressão para ser oprimidos de novo? Isso não é justo.” Velhas e novas formas de segregação na terra que introduziu o termo apartheid no vocabulário global.

Ou as condições “opressoras” de trabalho e a “exploração” a que foram submetidos os operários das obras do Mundial, como baixos salários e contratos temporários.

*  *  *

Trailer:

Tin Town é o nome do filme. A produção é uma iniciativa da ONG Sport for Solidarity (algo como esporte para a solidariedade). Tive a oportunidade de assisti-lo graças a uma gentileza do diretor, Geoff Arbourne. (Ainda) não está disponível no Brasil.

Aliás, “o Brasil é o próximo.”

E aí?


Copa e Olimpíada: tocamos as obras, violamos direitos, vamos em frente

29/08/2011

Por Rafael Fortes

No finzinho de 2010, escrevi uma análise (com traços de prognóstico) sobre a organização dos megaeventos esportivos no Brasil, no que diz respeito aos interesses da maioria da população e aos cofres públicos. De lá para cá, para tragédia do país onde nasci e, em particular, da cidade onde vivo (Rio de Janeiro), os acontecimentos indicam que eu estava certo.

Estou longe de ser o único com esta avaliação, inclusive entre os que estudam esporte. Em entrevista publicada no jornal Brasil de Fato, Gilmar Mascarenhas de Jesus, professor de Geografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), apresenta dados e interpretações bastante críticos a respeito da forma como os megaeventos esportivos vêm sendo preparados no Brasil. Além disso, descortina os interesses e projetos de cidade aos quais os megaeventos estão associados e subordinados.

Movimentos sociais, ONGs, moradores atingidos pelas obras e (poucos) mandatos legislativos e políticos vêm, com imensas dificuldades, lutando para garantir direitos, conter o rodo e divulgar os acontecimentos. Um exemplo é vídeo abaixo, feito com o objetivo político de mobilização a favor da instalação da CPI das Remoções na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Trata-se de compilação de vídeos relativos às remoções que vem acontecendo na cidade (veja também a segunda parte). Na fala do morador (a partir de 4’49”), repare que a casa atrás dele está pintada com números e as iniciais SMH, que provavelmente correspondem a Secretaria Municipal de Habitação. A fala de Raquel Rolnik, professora da USP e relatora da ONU para o direito à moradia, é tão clara quanto estarrecedora.

A legitimação política, ideológica, econômica e prática para a realização da maioria destas obras é preparar a cidade para a realização da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016. A quantidade e qualidade das ilegalidades, arbitrariedades e crimes cometidos pelo poder público (executivos municipais, estaduais e federal, mas não só) impressiona.

Vale a pena conferir também um relato em inglês dos acontecimentos e da produção de quatro curtas, bem como os próprios vídeos (os quais formam a base dos dois vídeos-coletânea citados acima). Num deles, um morador que teve sua casa destruída afirma se sentir “um otário”, pois comemorou a escolha do Brasil para sede da Copa de 2014, mas agora percebe as consequências nefastas da decisão.

Percebe-se claramente a lógica de rolo compressor – ou rodo, como defini em outro espaço – que orienta as ações. O depoimento de um morador da Vila Recreio 2, num dos vídeos citados, deixa clara a falta de informação e de acesso aos projetos das obras. Ao final deste vídeo, a mesma Rolnik explica que prejudicar os pobres faz parte desta mesma lógica.

Esta lógica não é coisa nossa. Recentemente, funcionou também na África do Sul (Copa do Mundo de 2010) e Grécia (Olimpíada de 2004). Há numerosas análises sobre as consequências da última Copa. Uma delas foi feita recentemente por um professor sul-africano em evento promovido pelo IPPUR, da UFRJ, e relatada no boletim Olhar Virtual:

Ao final de sua apresentação, o convidado concluiu que a melhor maneira de organizar um mega evento como a Copa do Mundo é incluindo a população, para evitar revoltas sociais e ajudar no desenvolvimento do país (…)

Ou seja, justamente o contrário do que ocorre no Brasil.

Vivemos em uma democracia formal desde 1979, 1985, 1988 ou 1989 – dependendo do marco escolhido. Contudo, a população e a sociedade organizada ficam fora da discussão e da tomada de decisões, contrariando leis e qualquer parâmetro de bom senso, ética, decência e razoabilidade. Decisões e realizações (sobre obras, projetos, liberação e uso de recursos públicos etc.) são feitas de forma secreta, sem participação da população. Temos, no governo e no poder, partidos integrados por centenas, talvez milhares de perseguidos pelo regime de exceção instaurado em 1964. Tragicamente, a organização dos megaeventos, ao menos em certos traços, lembra a época do “Ninguém mais segura este país”.

*  *  *

Por indicação do colega de blogue Coriolano, li esta inacreditável entrevista de Ricardo Teixeira, presidente da CBF, à revista Piauí. Outro escriba deste espaço, Victor Melo, leu recentemente Jogo Sujo, do jornalista britânico Andrew Jennings, e disse que, a julgar pelo relato, a situação é duzentas vezes mais cabeluda do que imaginamos. A obra é apresentada pela editora brasileira como “o livro que a Fifa tentou proibir”.

Capa do livro que Ricardo Teixeira conseguiu proibir.

No caso brasileiro, talvez, em breve, consiga. Afinal, há um precedente: CBF – Nike, escrito pelos então deputados federais Aldo Rebelo (PCdoB/SP) e Silvio Torres (PSDB/SP) e editado em 2001 pela Casa Amarela, foi recolhido e permanece, até hoje, proibido. (É possível encontrá-lo em sebos, inclusive virtuais. Mas a proibição jogou o preço lá em cima.) Eles foram, respectivamente, presidente e relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) CBF/NIKE, que investigou a relação da confederação com a fornecedora de material esportivo – e acabou em pizza, “sem votação do Relatório” final.

Segundo o excelente texto de Daniela Pinheiro, Teixeira declarou: “Meu amor, já falaram tudo de mim: que eu trouxe contrabando em avião da Seleção, a CPI da Nike e a do Futebol, que tem sacanagem na Copa de 2014. É tudo coisa da mesma patota, UOL, Folha, Lance, ESPN, que fica repetindo as mesmas merdas.” A lista é precisa: concentra os veículos que, dentro da mídia corporativa, fazem uma cobertura crítica – ora mais, ora menos; uns mais, outros menos – em relação ao esporte, à maneira como estão sendo organizados os megaeventos esportivos e à condução das entidades que mandam no esporte brasileiro, como a CBF.

De acordo com o relato, Teixeira compara a CBF a entidades privadas como o banco Bradesco, afirmando que as pessoas não têm nada a ver com a contabilidade da entidade. Em outro trecho, lembra que, ao gravar entrevistas ocm dirigentes da entidade sobre a preparação para a Copa do Mundo, os jornalistas da TV Globo nada perguntaram sobre as numerosas denúncias de corrupção.

Lá no início, falei que as obras eram uma tragédia não apenas para a maioria da população, mas também para os cofres públicos. Exemplo disso é a matéria “Gasto olímpico grego ilustra a perda de controle das finanças“, de Vitor Paolozzi, publicada no jornal Valor Econômico. Além de entrevistar um professor da London School of Economics cujo sobrenome, curiosa e apropriadamente, é Economides, aponta vários erros e absurdos cometidos. Um dos problemas principais, no caso grego, foi o suborno de autoridades por parte de empresas interessadas em ganhar licitações e fornecer produtos e serviços para os jogos e para as obras a eles relacionadas.

Difícil imaginar que esteja acontecendo e vá acontecer algo semelhante no Brasil, não?


Sonhos de gol, sonhos de…

18/04/2011

Gravado em 2004 e 2005, Goal Dreams (2006) narra a saga para a formação de uma seleção palestina para disputar uma partida preliminar das Eliminatórias da Copa de 2006.

Do ponto de vista narrativo, o filme não é nada demais. Mas, cá do meu canto, achei-o rico: conteúdo, imagens, bela (e triste; e melancólica) história que conta. O espectador se depara com uma lista impressionante – em quantidade e qualidade – de problemas enfrentados pelos palestinos.

A iniciativa de reunir uma seleção nacional é fruto do sonho e de muita força de vontade de dirigentes, empresários (não empresários de jogadores; trata-se de donos de empresas que atuam como mecenas e bancam os custos da empreitada), jogadores e um técnico austríaco que se revela personagem interessante durante a trama, à medida que os absurdos da ocupação israelense atrapalham seu trabalho e descortinam um universo novo e inacreditável para o europeu.

Goal Dreams acrescenta items à lista de  ilegalidades, crimes e violações de leis internacionais cometidos por consecutivos governos de Israel. Assistindo à película, percebe-se que parte do processo de negação da condição de ser humano imposto pelo colonizador aos dominados inclui, vejam só, não ter uma uma seleção nacional para torcer.

Enquanto sua equipe nacional e seus clubes disputam Eliminatórias da Copa e demais competições na Europa, contando com cumplicidade e apoio da UEFA (à qual passou a pertencer em 1994) e da FIFA, Israel viola sistematicamente leis internacionais, mantendo a ocupação ilegal, criminosa e imoral (a partir de leis e parâmetros estabelecidos por organizações internacionais, a começar pela ONU) sobre a Palestina. Como fosse pouco, dificulta, de todas as formas possíveis, a formação de uma seleção e a prática do futebol palestinos.

Dentre os numerosos problemas causados pela ocupação, alguns são retratados no filme:

a) os campos de refugiados – apátridas, na verdade – miseráveis no Líbano, quase 60 anos após a Nakba de 1948.

b) a diáspora pelo mundo (Líbano, Chile, EUA, Egito, Inglaterra etc.).

A diáspora palestina (com exceção de Faixa de Gaza, Cisjordânia, Líbano, Síria e Jordânia). Fonte: http://mondediplo.com/local/cache-vignettes/L580xH343/arton2071-6f79e.jpg

c) os conflitos de identidade de filhos, netos, bisnetos nascidos ou criados no exterior (caso típico do jogador que vive nos Estados Unidos).

d) a dependência do Egito para os habitantes da Faixa de Gaza.

Intervenção artística no Muro da Vergonha (Cisjordânia ocupada).

e) a humilhação da submissão a Israel, materializada em práticas como o Muro da Vergonha (condenado pela Corte Internacional de Justiça de Haia, Holanda); os postos de controle (os quais, de acordo com agências de ajuda,”limitam o acesso de palestinos a escolas e assistência médica – em alguns casos, desde a Intifada de 2000“); e os cercos à Faixa de Gaza (incluindo o realizado no verão brasileiro de 2008/2009).

f) a importância do futebol (com destaque para o Deportivo Palestino, time da primeira divisão chilena), e das peladas disputada pela molecada na Faixa de Gaza, na Cisjordânia e em becos dos campos de refugiados pela região (Líbano, Síria, Jordânia etc.).

g) a necessidade de mecenas (e os problemas que esta dependência traz), em função da fragilidade financeira e institucional.

h) a violência: implícita ou explícita; física; psicológica; e simbólica inerente à vida sob ocupação (ou no exílio, para fugir da ocupação).

i) a posição ambígua da FIFA – aparentemente progressista ao reconhecer a Associação Palestina de Futebol, em 1988, ajudando a dar legitimidade a uma nação sem Estado. Mas, na prática, recusando-se a aceitar como “motivo de força maior” o pleito palestino de adiamento de uma partida decisiva devido à impossibilidade (causada pela ocupação israelense) de formar e treinar uma seleção. A desfaçatez do dirigente da Fifa entrevistado no filme é impressionante. Ali está um burocrata do big business como outro qualquer: não admite que uma medida estatal possa atrapalhar o lucro e o andamento dos negócios.

*  *  *

Na cópia que consegui (graças a uma conhecida sul-coreana que trabalha na indústria cinematográfica californiana), fazem falta legendas em inglês – mesmo para acompanhar algumas das falas no idioma.

Ficha técnica

Goal Dreams

USA (EUA), 2006, 86′

Produzido e dirigido por Maya Sanbar e Jeffrey Saunders

http://www.goaldreams.com

http://www.arabfilm.com


Um feliz 2011 (e além) para o esporte no Brasil?

27/12/2010

Por Rafael Fortes

Aproveitando o fim de ano, período propício a balanços, resolvi sair do tema sobre o qual costumo escrever por aqui e costurar algumas leituras e vídeos que vi recentemente. Aviso: o texto é maior que o usual.

Um exemplo: o Maracanã

O Maracanã fechou em 2010 e só reabrirá em 2013. A população fluminense e os quatro times grandes da cidade passarão duas temporadas inteiras e alguns meses privados do estádio com maior capacidade e melhor acesso. Este fato, por si só, permite problematizar a ideia de que a população local é beneficiada pelos megaeventos e seu “legado”.

Quem passa por ali vê placas informando que o consórcio responsável pelas obras é formado por Andrade Gutierrez, Delta e Odebrecht. Grandes empreiteiras, portanto. Há anos envolvidas em fraudes, corrupção e falcatruas afins. Grandes financiadoras de campanhas eleitorais. Outra placa apresenta a previsão para a duração da obra: 900 dias. Pode-se ver ainda o custo: R$ 705 milhões (alguém duvida que a conta final ficará muito além do valor contratado?).

Enquanto isso, as pessoas que caminham, pedalam e correm em volta do estádio têm que meter o pé na grama e na lamapara fazer seus exercícios, pois uma das ruas do entorno do estádio foi fechada. A opção é correr contra os carros na beirada da pista da movimentada Avenida Radial Oeste. Obviamente, ninguém pensou em dar uma ajeitadinha na redondeza (construindo uma ciclovia, por exemplo), de maneira a não prejudicar quem faz uso cotidiano da área. Afinal, a Copa do Mundo não é para os cariocas, fluminenses ou brasileiros. Ela é para os turistas e os (poucos) que vão lucrar antes, durante e depois. A população e o cotidiano que se danem.

Reportagem da Folha de S. Paulo publicada meses atrás informa que, ao final da obra, o estádio encolherá: serão cerca de 7.000 (não lembro o número exato) lugares a menos. E crescerá o número de camarotes. Ou seja, dinheiro público é usado para reduzir os lugares abertos ao povo (embora este já esteja um tanto afastado, pois o ingresso vêm custando cada vez mais) e aumentar os reservados aos ricos e às empresas. Tem sido assim, pelo menos, desde a reforma que acabou com a geral, realizada pelo governo Rosinha Garotinho (PMDB).

Trata-se, portanto, de política pública de longo prazo, sistemática, cujo objetivo é restringir o acesso popular ao equipamento esportivo mais importante da cidade. Neste caso, além de afastar o público, a obra contribuirá para piorar o espetáculo oferecido. Sim, porque as dimensões do campo serão reduzidas. Um dos poucos estádios do país a contar com as dimensões máximas de campo (110×75 m) terá sua dimensão reduzida. Em nome do espetáculo para os abastados e a televisão, menos espaço para as jogadas, maior tendência ao jogo amarrado.

Vamos, então, ampliar a escala e falar um pouco da entidade organizadora do futebol mundial e da maneira como seus dirigentes tomam decisões – por exemplo, a de escolher a sede de uma Copa do Mundo.

“Os segredos sujos da Fifa”

Abaixo estão os vídeos das duas partes (alguém fez o favor de quebrar o programa em dois blocos de 15 minutos e colocá-lo no Youtube) de uma edição recente do programa Panorama, do bom canal público inglês BBC. O título é “Fifa’s Dirty Secrets”, algo como “Os segredos sujos da Fifa”. Foi ao ar antes do anúncio da sede da Copa de 2018 e gira em torno da candidatura inglesa (derrotada) e do recebimento de propinas por parte de dirigentes da entidade. À parte um estilo espalhafatoso à la Michael Moore – o repórter fica gritando perguntas a distância para quem não se dispõe a dar entrevista -, há informações de arrepiar os cabelos.

Na primeira parte, uma das figuras em destaque é Nicolás Leoz, presidente da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol). Outra é Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). As acusações contra João Havelange, ex-presidente da Fifa e prócer do esporte no Brasil e no mundo, aparecem na segunda metade.

(Aposto que o vídeo não será exibido na televisão brasileira – seja na TV Brasil ou nos canais privados. Prestaria um grande serviço ao esporte quem se dispusesse a legendar, em português, o vídeo – fica a sugestão.)

Na segunda parte, ficamos sabendo que o governo holandês divulgou publicamente as exigências feitas pela Fifa, que põe contra a parede o governo do país que se dispõe a sediar a Copa. Nada que já não saibamos: basicamente se trata de colocar as autoridades da Fifa, o comitê organizador e as pessoas e empresas envolvidas com os eventos acima da lei. A diferença é que os absurdos estão materializados em documentos oficiais – aos quais sequer os membros do Parlamento britânico tiveram acesso. Leis diplomáticas (relativas a vistos, por exemplo), trabalhistas e outras são suspensas, de maneira que os organizadores possam fazer o que quiserem sem poderem ser processados.

Para o bem de quem? A partir de 1/1/2011, a Fifa está isenta de pagar impostos ao Governo Federal. E você?

E sem precisar pagar impostos. O lucro sai limpinho, limpinho – ao contrário do que ocorre, em geral, com trabalhadores e empresas mundo afora. Na prática, isto significa que, provavelmente, em 2011, 2012, 2013 e 2014 eu vou pagar mais imposto (retido na fonte) ao governo brasileiro do que a corporação multinacional dirigida por Joseph Blatter. Na verdade, é pior: eu vou pagar imposto (o que, diga-se de passagem, é justo); a Fifa e as empreiteiras responsáveis pelas obras, não.

No vídeo, o ex-ministro do Esporte inglês diz que as exigências da Fifa não diferem das feitas por outros órgãos, como o COI em relação aos Jogos Olímpicos. Como o Brasil vai sediar ambos, fica claro o que vem por aí.

Olhares sobre a Copa de 2010

Na África do Sul, o rodo passou e continua passando sobre a população pobre. Um exemplo está no trailer abaixo, do filme Tin Town: the unnacountable cost of the 2010 World Cup, feito pela organização Sport for Solidarity:

Uma matéria da Agência Brasil – com o sugestivo título “Copa mais bem-sucedida da história tem efeito limitado na economia sul-africana” –  elucida algumas questões:

Segundo o professor [Udesh Pillay], o primeiro é que um evento como a Copa do Mundo, em geral, não traz muitos benefícios ao país que o sedia no que se refere à geração de riquezas. Outra razão, de acordo com Pillay, é que a África do Sul não se planejou como deveria para tirar o melhor proveito do que o Mundial pôde oferecer ao país.

‘O governo caiu na ilusão da realização de uma Copa do Mundo’, afirmou. ‘Assumiu todas as responsabilidade e obrigações para sediar o Mundial. Já o lucro foi todo para a Fifa.’

Tenho poucas dúvidas de que a maioria dos pontos mencionados na reportagem se repetirão no Brasil. Aliás, já estão se repetindo.

E por aqui?

As autoridades do Comitê Olímpico Internacional (COI) visitaram o Rio de Janeiro em 2009, antes de a escolherem sede da Olimpíada de 2016. Passaram alguns dias na cidade. Segundo o insuspeito (para estes fins) relato de O Globo, “no fim da tarde, os técnicos internacionais conheceram o metrô do Rio. Em vagões exclusivos, a comissão entrou na estação Glória para ir até Cantagalo, ambas na Zona Sul da cidade.

Era primeiro de maio. O metrô carioca, em dias úteis, é um meio de transporte caro e presta um péssimo serviço a seus usuários. Além de ser feriado, os inspetores foram colocados em vagões exclusivos e para andar em uma parte do trajeto na linha 1 (costumeiramente menos cheia e com estações e vagões mais confortáveis que os da linha 2). Ou seja, as autoridades passaram vários dias no Rio, mas, curiosamente, andaram de Metrô num feriado, em vagões exclusivos e no trajeto mais curto e confortável, descendo em uma estação nova (inaugurada há poucos anos). Como a data é feriado em praticamente todo o mundo, os agentes do COI não foram ludibriados pelas autoridades brasileiras. Sabiam o que estavam fazendo. Convido o(a) leitor(a) a pensar: que motivo os terá levado a tal atitude?

Quanto à Copa do Mundo, não vou me estender. Recomendo a leitura desta reportagem de capa da revista Carta Capital. Ela trata dos preparativos para 2014, incluindo a composição e o modo de operar do Comitê Organizador Local (COL), em que Ricardo Teixeira manda. Um trecho:

O comitê da Copa de 2014 é composto ainda por Joana Havelange, filha de Teixeira, nomeada secretária-executiva. A diretoria jurídica ficou a cargo de Francisco Müssnich, advogado número 1 de Daniel Dantas e companheiro de Verônica, a irmã do banqueiro condenado a dez anos de cadeia por corrupção ativa em primeira instância. Rodrigo Paiva, assessor de imprensa da CBF e da Seleção desde 2002, atua na mesma função no comitê.

O arquiteto Carlos de La Corte, que assessorou o Ministério do Esporte em 2002 para projetos de centros esportivos, tornou-se o consultor de estádios. Na diretoria financeira, Carlos Langoni, ex-presidente do Banco Central e administrador do patrimônio pessoal de Teixeira. É tudo.

Nenhum representante da sociedade brasileira. Nenhum representante do governo ou do Estado brasileiros. Tal composição de um COL, “que presta contas somente à Fifa“, é “fato inédito nas 19 edições do Mundial“. Trata-se, portanto, de inovação e contribuição genuinamente brasileiras à organização de megaeventos: gestão de dinheiro público por um condomínio privado. Privadíssimo.

Passando o rodo

Pelo que pude ver até agora, o panorama para 2014 e 2016 se parece com o ocorrido por conta dos Jogos Pan-Americanos de 2007. (Naquele ano, escrevi, em meu blogue pessoal, um texto com meu ponto de vista sobre o tema: parte um e parte dois.) A diferença é a escala da intervenção do poder público, as somas de dinheiro envolvidas, e a antecedência com a qual o rodo começou a passar.

Uma das consequências é a expulsão da população pobre de áreas valorizadas. Não chega a ser uma política nova, se olharmos a história da cidade. Nem se pode atribuir aos Jogos a implantação desta lógica. Afinal, “muitos desses projetos de revitalização já estavam definidos antes mesmo da escolha do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas de 2016. A eleição só fez acelerar o cronograma (o texto citado traz, inclusive, uma boa discussão sobre o conceito de revitalização)”.

Raquel Rolnik, professora da USP, intitulou Olimpíadas Truculentas um artigo veiculado semana passada. Suas palavras dão a dimensão concreta da política pública em execução, às vésperas do Natal:

Uma equipe do Núcleo de Terras e Habitação da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro conseguiu, em caráter emergencial, uma liminar que suspendia as remoções forçadas, pois os oficiais da subprefeitura agiam sem ordem judicial de despejo ou intimação. Entretanto o pesadelo para os moradores dessas três comunidades da zona oeste carioca não terminou, já que a liminar da justiça não era válida a todos os imóveis.

Nem as casas de santo – terrenos sagrados à tradição Candomblé, há décadas instalados ali – estão seguras das máquinas. Os moradores e representantes religiosos já realizaram duas mobilizações de repúdio a ação da prefeitura do Rio pelo modo como vem conduzindo as obras das Olimpíadas em detrimento do direito e da dignidade dos que vivem no caminho dos projetos.

Sem muito efeito, na madrugada do dia 17 para o dia 18 policiais arrombaram casas expulsando as famílias e ameaçando todos de prisão. Muitos descrevem as cenas como a de uma batalha: roupas, objetos pessoais, malas, tudo jogado no chão na beira da via por onde trafegam continuamente caminhões, automóveis e agora pessoas sem um lugar para onde ir ou voltar.

Nem espírito natalino, nem respeito e cumprimento da lei. Os geógrafos Marcelo Lopes de Souza, Tatiana Tramontani Ramos e Marianna Fernandes Moreira sintetizam o cenário:

Percebe-se, assim, como o ‘sonho olímpico’ é uma construção ideológica que, para os movimentos sociais e grande parte dos pobres do Rio de Janeiro, tende a assumir as características de um ‘pesadelo’ – para muito além de temas como lisura e eficiência dos gastos públicos.

Em Copenhague, Eduardo Paes, Sérgio Cabral Filho, Carlos Nuzman, Luiz Inácio Lula da Silva e Orlando Silva comemoram a escolha do Rio para sediar os Jogos Olímpicos de 2016. Fonte: Blog do Planalto.

Assim como ocorreu com a Vila do Pan, as moradias construídas para uso durante os Jogos não serão destinadas à habitação popular. Esta decisão contraria frontalmente as reivindicações dos movimentos sociais. Estas reivindicações vêm sendo explicitadas em diversas ocasiões. Logo, as autoridades esportivas e políticas não podem alegar desconhecimento.

No município do Rio de Janeiro, a Prefeitura encaminha os projetos e a Câmara de Vereadores aprova. O vereador Eliomar Coelho (PSOL) apresentou críticas ao Pacote Olímpico. Em 27/10/2010, o boletim eletrônico do político informou sobre a aprovação do pacote:

A Câmara Municipal aprovou […] o Pacote Olímpico, um conjunto de três proposições legislativas (PLC 44, PL 715 e PL 716), de autoria da Prefeitura, que tem como objetivo ‘organizar’ a cidade para a realização da Copa de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016. Eliomar votou contra os três projetos, mas antes tentou encaminhar algumas emendas que pudessem diminuir seu impacto negativo. Duas emendas supressivas ao PL 716 tentavam retirar os incentivos fiscais dados aos setores hoteleiro e imobiliário, e também aos patrocinadores dos jogos e à emissora anfitriã. Apesar do absurdo dessas isenções, as emendas foram rejeitadas. Uma emenda modificativa ao PL 44 previa a modalidade de hospedagem domiciliar. Outra emenda supressiva ao mesmo projeto eliminava a possibilidade de não se considerar as áreas de uso comum como área edificada nas novas construções, o que aumentará a densidade de ocupação imobiliária. E outras emendas propunham a criação de área de Habitação de Interesse Social no entorno do Sambódromo, onde será realizada uma Operação Interligada, para garantir a permanência da população residente no local. De todas as propostas apresentadas, somente duas foram aprovadas, que apenas alteram a redação dos parágrafos, mas não representam nenhuma intervenção significativa. É lamentável que, mais uma vez, um projeto dessa dimensão tenha sido discutido e aprovado a toque de caixa. Quem perde é a cidade.

Para quem não sabe, a área em volta do Sambódromo é ocupada por grande número de moradias populares.

Em entrevista ao Observatório de Favelas, Juca Kfouri, uma rara voz crítica no jornalismo esportivo das corporações de mídia, apresenta argumentos para desconfiar do que ocorre e do que virá, tendo em vista os dirigentes à frente das decisões políticas e operacionais:

Diria que à luz do passado não tenho nenhum motivo para acreditar nessa gente.

Nos Comitês Olímpico e da Copa não há um nome sequer de algum esportista brasileiro, de algum notável que a sociedade brasileira acredite. Nem da iniciativa privada, de um Antônio Ermírio de Moraes, um Jorge Gerdau, que a sociedade possa dizer que eles não iriam sujar seus nomes e suas empresas por isso. Não temos.

Esses eventos vão servir para fazerem uma grande farra com o dinheiro público. Não vejo outra possibilidade. E quem vai pagar por isso somos nós.

O rodo (ou “rolo compressor ideológico“) está passando. E continuará. Contudo, se o(a) leitor(a) preferir, pode ficar com a visão oficial dos Jogos apresentada pelo maravilhoso mundo da publicidade:

*  *  *

O(a) leitor(a) atento terá percebido que o texto foi construído exclusivamente com informações públicas (com a ressalva de que boa parte do material está em inglês). Isto torna frágil a possível alegação, no futuro – seja por pessoas comuns, seja, principalmente, por pesquisadores e pelas autoridades políticas e desportivas – de desconhecimento.

Saiba mais:

Counter Olympics Network: blogue que reúne organizações e indivíduos que lutam para que a Olimpíada de 2012 não passe o rodo em Londres e em sua população.

Evento “O Desafio Popular aos Megaeventos Esportivos“.

Games Monitor: sítio dedicado a desfazer mitos relativos à organização da Olimpíada de 2012. (Traduzindo mitos, neste caso: o mesmo tipo de conversa que autoridades esportivas e políticas vendem por aqui.)

Sport for Solidarity: “organização independente que usa filmes e confrontação não-violenta para expor os problemas do esporte global”.