Alfândega, noitadas e mercadorias de presente: uma breve passagem de surfistas sul-africanos pelo Rio de Janeiro

19/08/2019

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

A África do Sul tinha papel importante no cenário internacional do surfe na segunda metade dos anos 1970, tanto pela qualidade das ondas de seu território quanto pela participação de surfistas, dirigentes, juízes, empresários e/ou profissionais de mídia, entre outros, oriundos daquele país. Isto se dava concomitantemente ao crescente isolamento internacional do país, que incluía boicotes como forma de pressão contra os sucessivos governos devido à política de segregação racial conhecida como apartheid. Nos últimos anos, tenho me dedicado tanto a investigar o lugar peculiar do surfe em meio ao boicote esportivo internacional, como também às representações do Brasil e do Rio de Janeiro em revistas internacionais.

Um dos indícios de uma cultura e economia do surfe fortes em um determinado país nos anos 1970 e 1980 é a existência de publicações especializadas, sobretudo revistas. Criada em 1976 na cidade de Durban e ainda em circulação, Zigzag é a mais longeva e provavelmente a mais importante revista de surfe da África do Sul. A edição de junho-agosto (a periodicidade era então trimestral) de 1979 trouxe matéria a respeito de uma viagem realizada por três surfistas às Américas. Os sul-africanos – um deles, autor do texto – viajaram para Brasil, Peru e Canadá. Eis dois trechos:

“(…) passar pela alfândega no Rio de Janeiro (…) Medo de possivelmente passar horas tentando convencer um funcionário olhudo de que só tenho mercadorias para os pobres ratos de surfe brasileiros. Para minha surpresa, sou liberado após dar ao cavalheiro um exemplar de ZigZag – ele ficou amarradão. A animação de Rico ao ver um funcionário da alfândega de fato sorrindo foi contagiante. Os dias que se seguiram são selvagens com noites loucas e gente amigável vivendo apenas o agora. Rico e sua bela mulher Bia quase me convencem a ficar para o Carnaval, mas o chamado da minha próxima parada é grande demais. 1980 será meu ano de carnaval! (…)

Em verdadeiro estilo sul-americano, um voo de seis horas leva 12 para chegar a Lima após o piloto decidir que precisa de algumas horas de pausa para um lanche e faz uma escala imprevista em São Paulo.” (LARMONT, Mike. The Snow Boogie. Zigzag, jun.-ago. 1979. Tradução minha. Abaixo, a primeira página do texto.)

Gostaria de abordar brevemente quatro pontos no trecho citado. Primeiro, as referências à passagem pelo controle alfandegário na entrada em território brasileiro, ocorrida no aeroporto internacional do Galeão, no Rio de Janeiro. Larmont afirma que estava receoso quanto ao trato que receberia por parte dos funcionários responsáveis pela revista de bagagens e a como classificariam os objetos que trazia – segundo ele, agrados para presentear surfistas brasileiros. Relata ainda ter sido um exemplar da própria Zigzag o argumento final que permitiu o desenrolo (como se diria na linguagem corrente das quebradas cariocas) com o trabalhador da alfândega. Seria este um servidor público da Receita Federal? Acredito que sim, embora não seja possível afirmar ao certo. Seria ele um adepto do surfe ou, ao menos, um interessado na modalidade? Também é difícil dizer, mas parece que o exemplar da publicação despertou interesse no servidor, talvez por gosto pessoal, talvez por configurar um item raro a ser dado de presente a uma pessoa querida. Haveria, além dos números de Zigzag, outros itens/mercadorias trazidos como presente na bagagem? A partir do próprio texto não é possível responder.

Segundo, a recepção por parte de Rico de Souza, surfista com grande circulação e contatos internacionais no período. Acredito que as relações de amizade, acolhimento e/ou reciprocidade estabelecidas entre adeptos de diferentes países foram importantes, tanto para reduzir os altos custos envolvidos nas viagens (ficar na casa de conhecidos eliminava os custos de hospedagem e, em alguma medida, de traslados e alimentação), ajudando a viabilizá-las, quanto por facilitarem o acesso a informações (como condições do mar em diferentes praias) e os trâmites do dia-a-dia (facilita muito a vida do viajante, especialmente o monoglota, estar acompanhado de alguém com conhecimento de hábitos e idioma locais). Esta questão, que tem aparecido em diferentes fontes em minhas pesquisas, ainda não foi explorada pelos estudos históricos sobre o surfe – ao menos aqueles publicados em inglês, espanhol ou português.

Terceiro, algumas das menções ao Brasil e aos brasileiros. O autor destaca a beleza de uma mulher (a anfitriã), usa a palavra selvagem para adjetivar as noitadas (o termo também aparece com frequência nas caracterizações da África do Sul feitas por estrangeiros – brasileiros, inclusive) acompanhadas de “gente amigável” que vivia apenas o presente. As intensas atividades de lazer e o estímulo dos anfitriões quase levam o viajante mudar os planos e esticar a estada para incluir o período do Carnaval.

Por fim, a decisão do piloto de realizar uma escala imprevista durante o voo Rio de Janeiro-Lima é classificada como parte de um “verdadeiro estilo sul-americano” – a ver se tal categorização aparecerá em outras edições quando se menciona o Brasil e demais países do continente. Os sul-africanos seguiram viagem rumo a terras peruanas e, posteriormente, da América do Norte, onde os meses iniciais do ano correspondem ao inverno. No Canadá, como se pode notar nas fotos que ilustram a página, os sul-africanos praticaram esqui e snowboard. Era muito comum, na época, que os adeptos de uma modalidade dedicassem parte relevante do seu tempo a outras. No caso do surfe, aqueles com acesso a áreas com neve (como alguns estadunidenses e franceses, por exemplo), costumavam praticar esportes de inverno durante férias, feriados e períodos com pouca oferta de boas ondas. Esse intercâmbio de modalidades é um aspecto ainda pouco explorado nas pesquisas sobre a história do esporte que situam seu recorte na segunda metade do século XX – talvez nos levando a acreditar numa excessiva especialização que não correspondia à experiência concreta do adepto comum, e quiçá tampouco de vários atletas de ponta no âmbito competitivo mais comercial/profissional.

Para saber mais

Conferir os trabalhos do historiador Glen Thompson, incluindo sua tese de doutorado Surfing, Gender and Politics: Identity and Society in the History of South African Surfing Culture in the Twentieth-Century, defendida em 2015 na Stellenbosch University. Agradeço a ele por me facilitar a consulta de seu acervo pessoal de revistas sul-africanas, entre as quais a edição mencionada neste texto.

Uma coleção de capas escaneadas de Zigzag está disponível no site de Al Hunt.

A pesquisa que deu origem a este post tem apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), por meio do edital Jovem Cientista do Nosso Estado (2017).


LOUCO POR BOLA TEM EM TUDO QUE E’ LUGAR ou QUANDO AS CINZAS RENASCEM…

05/06/2011

By Jorge Knijnik

‘’Os australianos pensam que sabem tudo sobre esporte, e que eles, mais que ninguem, sao os mais fanaticos praticantes e torcedores do mundo. Nao sabem nada. Deviam ir ate’ a Argentina ou o Brasil para verem quem sao os verdadeiros loucos e fanaticos por esporte…’’. Esta frase me foi dita pelo meu querido amigo Michael Gard, australiano, professor de Educacao Fisica, dancarino e sociologo do esporte – quem, entre outras grandes qualidades, ja morou no Brasil (Floripa) e portanto sabe um pouco mais sobre a America do Sul do que o australiano medio.

Olha, eu nao sei quem e’ mais louco ou mais fanatico. Acho ate’ que as ‘loucuras’ e ‘fanatismos’ esportivos se expressam em formas tao diversas como o numero de esportes existentes mundo afora. E muitas destas ‘loucuras’ acabam criando tradicoes fantasticas que perduram seculos adentro.

Uma destas tradicoes malucas e’ uma serie de jogos de cricket chamada ‘The Ashes’ (literalmente, As Cinzas), que e’ disputada bienalmente entre as selecoes de cricket Australiana e a Inglesa. The Ashes e’ considerada uma das maiores rivalidades existentes no mundo do cricket. Ela e’ composta por uma serie de cinco jogos, os quais sao realizados uma vez na Inglaterra e na vez seguinte na Australia. Como cricket e’ um ‘esporte de verao’, claro que o espacamento entre os torneios chega a cerca de 30 meses, conforme o verao nos diferentes hemisferios.

Mas o interessante de tudo e’ entender como a loucura, digo, a tradicao comecou. Tudo data do seculo XIX, mais precisamente do ano de 1882. Naquele ano, pela primeira vez na historia, a equipe Australiana de cricket venceu a equipe Inglesa em pleno solo ingles…Ou eu deveria dizer que a equipe Inglesa foi derrotada pelos australianos em um dos mais tradicionais palcos do cricket internacional, conhecido como The Oval (atualmente batizado com o nome do patrocinador, The Kia Oval). Isso custou demais para aquela equipe. Ato continuo a derrota, o tambem tradicional jornal britanico The Sporting Times publicou um obituario ironico, decretando a ‘morte’ do cricket ingles. O jornal foi mais alem na ironia, falando que o corpo do cricket ingles seria cremado e suas cinzas (the ashes!) seriam levadas para a Australia. Dias depois, a imprensa inglesa ja desafiava o Cricket English team para, em sua proxima viagem a Australia, ir ate Melbourne  (cidade australiana sede do Melbourne Cricket Oval (MCG), o maior estadio de cricket no mundo!)  e recuperar aquelas cinzas!

Assim, no ano seguinte, naquela excursao para Melbourne (1883) um grupo de mulheres australianas entregou ao capitao do time ingles (Ivo Bligh) uma pequena urna de ceramica terracota, a qual dizem que continha as cinzas de uma parte do equipamento de cricket (uma bail, um dos pauzinhos menores que formam a wicket, que e’ a ‘casinha’ a ser atingida pela bola no cricket).

Um aspecto interessantissimo de tudo isso e’ que a tradicao perdura ate’ hoje. O trofeu da The Ashes e’ representado atualmente por uma urna de cristal. The Ashes sao jogadas regularmente a cada dois anos, e na ultima delas, no verao australiano de  2010/11, a Australia levou um baile dos Ingleses, perdendo todos os jogos em casa (cada jogo foi feito em uma grande cidade Australiana), o que levou a queda e a aposentadoria do capitao do time australiano – feita em grande estilo, em uma coletiva de imprensa com todos muito bem vestidos, com enorme repercussao na midia.

Outro aspecto pitoresco e’ que eu nao entendo patavinas de cricket. Confesso que meus filhos e filhas jogaram um pouco no verao passado, e continuei sem entender nada. Durante a ultima ‘The Ashes’ fiquei totalmente por fora de todas as conversas nos bares e no trabalho. Um mesmo jogo que nunca acaba, pode durar diversos dias e terminar empatado! Coisa de ingles maluco …

Mas o fato desta enorme popularidade do cricket no mundo do antigo imperio britanico continuar perdurando me chama a atencao. Por exemplo, voces sabem qual o time com maior numero de torcedores no mundo? A selecao Indiana de cricket, um bilhao de torcedores completamente louquinhos (e fanaticos) pelo time, numero que a selecao canarinho ainda nao atingiu…

Coisas que realmente me intrigam no cricket sao: como que um jogo que parece com o ‘taco’ que era parte das minhas brincadeiras nas ruas da minha infancia (mas afinal de contas, que esporte nao e’ no fundo uma boa brincadeira de crianca?) tem esta popularidade toda em uma grande parte do mundo? A partir desta, outra questao se impoem: como um esporte que goza de tamanha admiracao e fanatismo no mundo ‘britanico’ nao e’ conhecido no ‘mundo ocidental’, tampouco faz parte das 26 modalidades esportivas a serem disputadas nos Jogos Olimpicos de Londres em 2012? Justo em Londres?!

Uma reflexao que realmente fica e’ que no mundo ha uma diversidade incrivel de esportes regionais, que as vezes nao chegam as telinhas da nossa televisao. Estes esportes retratam, expressam e representam as mais variadas culturas e tradicoes. Na atualidade, ja e’ possivel olhar para alem do grupinho de esportes representados em grandes torneios como os do Comite Olimpico Internacional, e buscar nestas tradicoes regionais modos de escrever e entender, de respeitar e promover a grande diversidade cultural existente no nosso planeta. O(s) esporte(s) reflete(m) estes diversos modos de entender e ‘fazer’ o mundo. Penso que a cada vez mais devemos valorizar esta diversidade de modalidades, esta miriade esportiva, abrindo mais portas para diferentes pessoas se engajaram no infinito mundo do esporte.

Quem diriam que ‘cinzas jogadas ao vento’ por conta de uma derrota esportiva no seculo XIX continuariam sendo lembradas e celebradas nos mesmos campos esportivos mais de cem anos depois? Que loucura deliciosa!  Que fanatismo gostoso!