A surf music dos anos 1960 e a exaltação da Califórnia (1)

05/04/2021

Por Rafael Fortes (rafael.soares@unirio.br)

Nas pesquisas sobre história da mídia esportiva que venho desenvolvendo utilizando revistas de surfe estrangeiras e brasileiras publicadas ao longo das décadas de 1970 e 1980, assim como em outras fontes com as quais tive contato, há recorrentes referências à expressão surf music.

No livro Surfing About Music, o antropólogo Timothy Cooley se refere a surf music no sentido que a expressão ganhou e mantém nos EUA: abrange músicas da primeira metade dos anos 1960, tanto de rock instrumental (a la Dick Dale & His Del-Tones, cuja música Misirlou ganhou renovada popularidade na década de 1990 com o filme Pulp Fiction – Tempo de Violência, de Quentin Tarantino) como cantadas (a la The Beach Boys e Jan and Dean). Esse uso também aparece na obra de outros autores. E, por exemplo, compõe a seleção musical de um “canal” chamado Surf Sounds numa plataforma de música online gratuita que uso, Accuradio. Nos anos 1960, houve iniciativas no Brasil relativas a esta vertente, conforme discorreu Victor Melo aqui neste blogue sobre   o caso de Carlos Imperial.

No Brasil, surf music pode se referir a mais do que isto. Lembro-me de ter gravado em fita cassete, na primeira metade dos anos 1990 – por volta de 1992 ou 1993 –, um “especial de surf music” que foi ao ar numa tarde ou noite de domingo numa ótima rádio que existia à época, a Universidade FM, nos 107,9 MHz. O programa era composto por músicas de bandas como Midnight Oil, Hoodoo Gurus, Australian Crawl e V Spy V Spy, entre outras. Havia uma predominância de bandas australianas – as quatro que citei eram de lá. (Já escrevi sobre o hábito de gravar fitas K7 e sobre essa noção de surf music, rádio e segmentos da juventude). Devo ter ouvido aquela fita centenas de vezes ao longo dos anos.

Golden State, Golden Youth – The California Image in Popular Culture, 1955-1966. Livro de Kirse Granat May publicado em 2002. Imagem da capa extraída do site da editora da obra.

De acordo com o argumento de Kirse Granat May (2002), entre 1955 e 1966 construiu-se na cultura popular dos EUA um imaginário potente e positivo sobre a Califórnia. O estado e seu modo de vida – ou melhor, a representação midiática estereotipada de um estilo de vida da juventude branca de classe média que vivia na faixa litorânea – tornaram-se referência para famílias em todo o país. A expansão da corporação Disney (incluindo a inauguração e o estrondoso sucesso do parque de diversões Disneylândia, em 1955, em Anaheim, no sul do estado), a ascensão do ex-ator hollywoodiano Ronald Reagan a liderança política importante (tomando posse como governador em 1967; posteriormente, foi eleito duas vezes presidente do país em 1980 e 1984) e a disseminação do surfe e de um estilo de vida associado a ele são três entre os muitos elementos deste processo abordados no livro (imagem da capa acima).

Até ler a obra de May, eu ignorava que um dos principais motivos para o sucesso da surf music foi o fato de ser feita na Califórnia, por artistas californianos (ou que para lá se mudaram) e tematizar o estado e seus habitantes. Apesar de conhecer as íntimas ligações da surf music com a Califórnia, não sabia que sua ascensão integrou de um contexto amplo em que muitos outros elementos associados àquele estado fizeram sucesso e tornaram-se moda nos EUA.

A maioria dos surfistas considerava tais representações na música e no cinema estereotipadas, erradas e irrepresentativas da cultura do surfe. Muitos ficaram enfurecidos com elas e, pior, com os efeitos sociais delas: levas e levas de novos turistas, banhistas e surfistas iniciantes que enchiam as praias californianas a cada verão e, em menor escala, nos períodos de recesso escolar, férias e feriados prolongados. Contudo, conforme acontece na maioria dos casos, quando observamos mais de perto o fenômeno, percebemos muitos tons de cinza, e não apenas preto e branco.

Tomemos, por exemplo, um filme como Quanto mais músculos, melhor (Muscle Beach Party, de 1964), parte da onda de filmes de festa na praia produzidos pela companhia cinematográfica AIP (American International Pictures) e malhados como Judas por boa parte dos surfistas e pelas próprias revistas de surfe. A película conta com participação, em várias cenas e sequências, de Dick Dale & His Del-Tones. Ou seja, aquele que ficou conhecido como “pai da surf music” e era venerado por muitos surfistas aparece num filme considerado negativo e estereotipado. (Curiosidade: há também a participação de um jovem cantor chamado Stevie Little Wonder.)

Da mesma forma, um dos que atuam como dublês nas cenas de surfe é Mickey Dora, um dos surfistas mais famosos da Califórnia naquela década. Até aí, nada demais. Ocorre que Dora era um crítico ferrenho da comercialização do esporte e nutria grande raiva pelo aumento do número de pessoas com pranchas na praia que considerava seu quintal, Malibu. Frequentemente lidava com o problema derrubando os surfistas de suas pranchas ou batendo neles. Esta a contradição entre tais atitudes e o trabalho como figurante e/ou dublê em cenas de praia e surfe em filmes comerciais é apontada no verbete sobre Dora na Enclopédia do Surfe de Matt Warshaw.

[Continua…]

Para saber mais

COOLEY, Timothy J. Surfing About Music. Berkeley: University of California Press, 2014.

LADERMAN, Scott. Empire In Waves: A Political History of Surfing. Berkeley: University of California Press, 2014. (Especialmente o capítulo 2)

MAY, Kirse Granat. Golden State, Golden Youth: The California Image in Popular Culture, 1955-1966. Chapel Hill, London: The University of North Carolina Press, 2002.


Os museus de surfe da Califórnia

06/02/2017

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

Como prometi, hoje trato dos cinco museus de surfe localizados na Califórnia. Neste texto, estou usando a categoria nativa, ou seja, considero museus de surfe as cinco instituições que se classificam como tais. Eles se estendem desde Oceanside, no sul do estado, até Santa Cruz. Seguirei este trajeto sul-norte na ordem de apresentação. Todas as fotos sem crédito de autor foram feitas por mim. Informações específicas sobre itens dos acervos estão nas legendas das fotos.

California Surf Museum (CSM, Oceanside)

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Foi o museu em que estive mais vezes. Fica perto da estação de trem e do píer onde surfam e treinam locais e/ou profissionais – o píer aparece constamentemente em séries do canal Off.

Tem uma excelente coleção de revistas, que ficam numa sala confortável e exclusiva para pesquisadores. A pesquisa neste museu fez parte de uma experiência maior, daquelas que não têm preço nessa vida: durante o ano em que vivi na Califórnia, fui respeitado como pesquisador de história do surfe e da mídia do surfe de uma forma como raramente aconteceu noutros lugares – incluindo o Rio de Janeiro e o Brasil – em mais de dez anos dedicados ao tema.

Comandada pela historiadora Jane Schmauss, a equipe é prestativa e simpática – quando solicitadas por mim, as pessoas sorriam e se interessavam pelo meu trabalho, em vez de rosnarem, como acontece noutros lugares e cidades por aí. Conta com voluntários e trabalhadores assalariados. Segundo me explicou Jane, o museu recebe cerca de 25 mil visitantes anuais. O imóvel onde está há alguns anos pertence à Prefeitura de Oceanside – cuja sede fica próxima -, que o alugado a preço subsidiado. Ali pertinho também está a biblioteca municipal (a visita à biblioteca da cidade é um programa bacana, assim como em várias cidades e bairros californianos).

O forte do acervo, como em três outros museus, são as pranchas. Entre doações, empréstimos, exposição permanente e temporária, é possível ter contato com boa parte da produção de pranchas do sul da Califórnia desde os anos 1950. Há também exemplares mais antigos: paipos havaianos, pranchas para salvamento no mar etc. Mas o foco está nos shapers da própria região – vários dos quais são sócios contribuintes do próprio museu e doaram e/ou emprestaram pranchas de sua lavra. Algumas estão autografadas pelos shapers, outras, pelos que as surfaram. Há doações de Kelly Slater e de outros atletas famosos do esporte profissional e/ou das ondas grandes (nas ocasiões em que estive lá, a exposição temporária era sobre surfe em ondas grandes; preparava-se uma exposição sobre surfe durante a Guerra entre os EUA e o Vietnã). Há também seções dedicadas a outros aspectos, como bodyboard e surfe de peito. Tem uma vitrine muito interessante com jogos e brinquedos que têm o surfe como tema – de Barbie a Banco Imobiliário – e outra com dezenas de parafinas.

Sou suspeito para falar, pois nesse museu fiz parte de minha pesquisa de pós-doutorado. Além disso, tive uma experiência bacana como usuário (e não como pesquisador) em todas as ocasiões em que estive lá. Isso porque está em exibição a prancha de Bethany Hamilton – de quem eu nunca ouvira falar até recentemente. Trata-se de uma havaiana, de uma família de surfistas, que teve um braço arrancado por um tubarão enquanto pegava onda com uma amiga, aos 12 anos de idade. A história está contada em dois filmes (um documentário e um de ficção) e um livro. Bethany tornou-se ícone dos e das adolescentes e tem sua própria linha de produtos de beleza. Além disso, o que mais me impressionou: continuou surfando. E bem: embora não corra o circuito mundial, volta e meia participa de um etapa como convidada. Em 2016, chegou à semifinal da de Fiji – é bom lembrar, Bethany surfa com a desvantagem de não ter um braço para remar, se equilibrar e, dependendo do lado para o qual a onda quebra, adequar a velocidade colocando a mão na parede da onda e/ou segurando a borda da prancha.

Enfim, a experiência definitiva de visitante é ficar sentado num pufe, perto da prancha de Bethany, e esperar para ver alguma criança se aproximar (a Califórnia é cheia de crianças, tanto locais quanto turistas). A cara de surpresa que as crianças fazem é indescritível. Cobrem a boca com a mão, mordem os dedos, andam para trás, correm para chamar a atenção de alguém. Ao que parece, todas conhecem a história de Bethany (e por isso a reação). Fica a dica: se você, leitor(a) um dia for ao CSM, e a prancha de Bethany ainda estiver lá, fique uns minutos na área central, como quem não quer nada, até que chegue uma criança ou grupo de crianças à parte dedicada à surfista. A reação delas valerá a visita.

Surfing Heritage and Culture Center (SHACC, San Clemente)

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Para quem vem do sul, San Clemente é a primeira cidade litorânea do Condado de Orange (vulgo OC). Nesta importante cidade de surfe está o SHACC. A entrada para a exposição, que consiste basicamente de pranchas (ver informações no álbum de fotos), custa US$ 5. Para fazer pesquisa no acervo, que conta com revistas, livros e outros documentos, como cartas, é preciso ser membro da associação, o que custa US$ 50 por ano. A reprodução de materiais (uso de scanner etc.) é paga à parte.

Assim como o congênere de Oceanside, o museu é obra do esforço de um conjunto de surfistas, boa parte deles sócios que doam tempo e/ou dinheiro para a manutenção e desenvolvimento do local. Servem também como espaço para a realização de lançamentos de livros e filmes, homenagens, leilões (nos quais se leiloam pranchas e outros objetos para arrecadar recursos para o próprio museu), jantares de homenagem e/ou de arrecadação de fundos para as próprias entidades e para outros fins. Quando estive lá, fui atendido de forma muito simpática por Barry Haun, que, de bermuda e chinelo, me deu informações, forneceu contatos que poderiam ser úteis à minha pesquisa e, enquanto eu fazia a visita, fez a gentileza de telefonar para uma das pessoas para avisar que eu entraria em contato.

International Surfing Museum (Huntington Beach)

Este é o museu em que fui recebido com menos simpatia. Talvez as condições fossem desfavoráveis: era um domingo, ali pela hora do almoço, e havia dezenas de torcedores ruidosos do San Francisco 49ers tocando o terror assistindo ao jogo num pub em frente. (Tocando o terror nos padrões dos EUA, evidentemente; brincadeira de criança, quando se compara com as torcidas de futebol no Brasil.) O que me pareceu mais interessante do acervo foram itens específicos do surfe na própria cidade, sede de importantes campeonatos ao longo de décadas.

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Santa Cruz Surf Museum (Santa Cruz)

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O Santa Cruz Surf Museum é tão pequeno que não daria para o acervo focar em pranchas – elas não caberiam no local. Contudo, tem seus atrativos. O primeiro deles é ficar dentro de um farol. Segundo, fica num lugar belíssimo, à beira-mar, em cima da ponta onde, logo abaixo, está Steamer Lane, uma das ondas mais famosas da Califórnia. Ou seja, a visita ao museu pode ser combinada com uma sessão nas gélidas águas locais – ou, em casos como o meu, com a assistência. O mesmo estacionamento é usado pelos visitantes do museu e pelos surfistas. Terceiro, tem entrada gratuita. Quarto, o acervo tem algumas fotos interessantes, assim como informações sobre aspectos do surfe local, como… ataques de tubarão.

Além de importante cidade de surfe californiana, conhecida pelas boas ondas e pelo mar frio, Santa Cruz é o lugar de origem de um dos principais fabricantes de roupas térmicas para surfe do mundo: O’Neill.

Santa Barbara Surf Museum (Santa Barbara)

Deste, não sei por que, não consegui encontrar as fotos. Assim como o de Santa Cruz, o forte são as pranchas. Há também muitas capas de discos e cartazes de filmes. De todos, foi o que me pareceu mais amador: na verdade, parece uma iniciativa pessoal de um apaixonado pelo surfe. O inacreditável: no domingo em que estive lá, não vi ninguém no museu. Isso mesmo: desde o momento que cheguei até a hora em que saí, não havia absolutamente ninguém lá dentro. O museu não cobra entrada, e é possível levar um adesivo deixando numa caixinha, em troca, uma doação de US$ 1. A casa onde funciona é meio difícil de achar, pois fica numa daquelas ruas meio estranhas: termina do nada numa linha de trem e recomeça do outro lado, só que você olha e não sabe por onde atravessar (pois há grades e muros). E uma vantagem, sem dúvida, é ficar na linda Santa Barbara.