Grandes estádios e a memória da ditadura

23/08/2021

Por Rafael Fortes (rafael.soares@unirio.br)

Durante o período da ditadura civil-militar brasileira (1964-1985), dezenas de estádios de futebol foram construídos e inaugurados. Uma parcela importante – 14 estádios com grande capacidade – foi erguida e, posteriormente, administrada por governos estaduais que tinham à frente políticos da Aliança Renovadora Nacional (Arena). Dez deles receberam o nome do próprio governador que os construiu e inaugurou.

O assunto é explorado no artigo “‘Brasil-grande, estádios gigantescos’: toponímia dos estádios públicos da ditadura civil-militar brasileira e os discursos de reconciliação, 1964-1985“, escrito por João Malaia, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e por mim e publicado no dossiê Lugares de memória e de consciência na América Latina da revista Tempo (UFF).

Abordamos superfaturamentos e fraudes em licitações (condizente com a dinâmica mais ampla de atuação e fortalecimento de empreiteiras descrita e analisada por Campos (2014) ), acidentes e confusões nas inaugurações (com dezenas de feridos e levando a prisões e acusações arbitrárias), evasão de divisas por meio da administração posterior dos estádios e complexos esportivos e o papel predominantemente adesista e celebratório da imprensa esportiva (não só à época, mas também nas décadas seguintes).

Um de nossos objetivos é inserir tal fenômeno nas discussões historiográficas sobre construção de consentimento durante o período e após – considerando que a maioria permanece com os mesmos nomes nos dias atuais. Já no subcampo da história do esporte, embora um número razoável de trabalhos sobre esporte e ditadura tenha sido publicado nos últimos anos, aspectos como a construção de consensos, o papel dos clubes e de seus dirigentes, a atuação de governos estaduais (tanto de governadores quanto de entidades criadas para administrar os estádios, como as superintendências estaduais de desportos) e os estádios têm ficado em segundo plano. A atenção frequentemente se volta para experiências de resistência (em geral utilizando como exemplo um jogador, treinador ou time) e para a seleção brasileira, sobretudo durante o governo Medici.

O teor e os sentidos políticos de tais nomeações, que duram décadas, fazem parte da construção e manutenção, no presente, de imagens positivas do regime ditatorial entre setores da sociedade brasileira. Mesmo entre os pesquisadores e ativistas mais atentos, é pouco provável que tais nomes de estádios chamem a atenção quanto a uma possível identificação com o regime civil-militar. Em outras palavras, tais nomes de governadores – lideranças políticas civis no interior do regime – não causam identificação imediata, diferentemente do que acontece, por exemplo, com as homenagens, em todo o país, aos generais ex-presidentes Medici, Castelo Branco e Costa e Silva.

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Amanhã (terça-feira, 24/8/2021) João Malaia e eu falaremos sobre o assunto no III Seminário Brasil Republicano, organizado pelo Instituto de História da Universidade Federal Fluminense. Transmissão pelo canal do Ludopédio: https://www.youtube.com/watch?v=NS87p9dJ5Ew.

Referências

CAMPOS, Pedro Henrique Pedreira. Estranhas catedrais: as empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar, 1964-1988. Niterói: Editora da UFF/Faperj, 2014.

MALAIA, João Manuel Casquinha; FORTES, Rafael. “‘Brasil-grande, estádios gigantescos’: toponímia dos estádios públicos da ditadura civil-militar brasileira e os discursos de reconciliação, 1964-1985”. Tempo, v. 27, n. 1, p. 165-183, jan.-abr. 2021. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/tem/a/dxyZ4FpZVhkw6KB6sb7K4Tn/?lang=pt>. Acesso em 18 ago. 2021.


Com a foice e o martelo dentro de campo

20/01/2019

por Fabio Peres

Bandiera rossa la trionferà / Evviva il comunismo e la libertà!”.

A tradicional música comunista entoada pela torcida da Associazone Sportiva Livorno Calcio poderia muito bem ressoar em estádios brasileiros sem causar estranhamento; pelo menos, na cidade de Santo André, em São Paulo.

Desde 2015, o município conta com um clube em homenagem às mulheres e homens que lutaram na Guerrilha do Araguaia contra a ditadura militar, iniciada com o golpe de 1964: a Associação Esportiva Araguaia. Para conhecer um pouco mais sobre a agremiação, entrevistamos, entre os dias 8 e 16/1/2019,  Renato Ramos, um dos fundadores e treinador do clube.

Fabio Peres: Renato, conte um pouco sobre você, sua história, e como ela se envolve com a Associação Esportiva Araguaia (AEA).

Renato Ramos: Bom meu nome é Renato Ramos, tenho 33 anos, sou nascido e criado em Santo André, região do Grande ABC Paulista. Assim como todo jovem brasileiro tive o sonho de ser um atleta de futebol profissional, joguei nas categorias de base dos 12 aos 17, foi um período bastante importante para minha formação como cidadão, como ser social membro da sociedade, enfim um período bastante positivo e de bastante aprendizado. Cursei administração de empresas, me formei em futebol pela Faculdade Carlos Drummond de Andrade, e atualmente curso pós graduação em psicologia aplicada às organizações. Sou um dos fundadores da Associação Esportiva Araguaia em 2015, atualmente ocupo a Vice-Presidência e sou treinador das categorias de base da equipe.

Fabio Peres: E como surgiu a ideia de fundar a AEA?

Renato Ramos: A ideia de fundação do Araguaia surgiu em 2007 num debate do grupo de esportes do PCdoB (Partido Comunista do Brasil) em Santo André na época. Por diversos motivos a ideia ficou engavetada até colocarmos em prática no ano de 2015.

Fabio Peres: Então, diferente de outras associações esportivas, a AEA possui uma vinculação, uma identidade, histórica e política, bastante clara e delineada. Como essa vinculação se reflete no cotidiano do clube?

Renato Ramos: Olha mesmo no momento que atravessamos com o crescimento do fascismo, da direita brasileira, temos crescido a todo momento, e quando eu digo em crescimento é dentro do trabalho esportivo principalmente através do futebol. Como observo o crescimento, por exemplo da torcida, atraindo cada vez mais militantes da esquerda, comunistas, pessoas ligadas aos movimentos sociais, partidos, enfim todos que constroem o nosso campo. O time é uma homenagem a Guerrilha do Araguaia, aos homens e mulheres que lutaram ela retomada da democracia no Brasil, sempre fazemos questão de deixar isso claro. Nosso mascote, inclusive, é o Osvaldão, em homenagem a um dos líderes da Guerrilha do Araguaia, esportista e comunista.

Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, é o mascote da AEA. Foi a forma encontrada pela agremiação de homenagear e manter viva a memória do guerrilheiro, membro do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e campeão de boxe pelo Vasco, assassinado em 1974 na Guerrilha do Araguaia. Um pouco da história de Osvaldão pode ser vista em filme resgatado em Praga, disponibilizado pela Fundação Maurício Grabois.

Fabio Peres: Mas, AEA possui torcida?

Renato Ramos: Sim, nossa equipe tem um grande apoio principalmente dos setores mais à esquerda da nossa sociedade pela identificação óbvia com a história da fundação do clube e nossas posições enquanto diretoria.

Fabio Peres: E, qual é, na sua opinião, a motivação principal que os torcedores possuem para se torcer pela AEA? Conte  um pouco como é a relação com eles.

Renato Ramos: A principal motivação é a representatividade que temos em campo, no nosso dia a dia com a esquerda, com os movimentos sociais e pautas progressistas e populares da nossa sociedade. A relação com a torcida é próxima, tanto com os que a distância nos apoiam como os que apoiam no dia a dia dos jogos no campo, inclusive no final do ano [de 2018] foi fundada a Tuga – Torcida Uniformizada Guerrilha do Araguaia.

Tuga, Torcida Uniformizada Guerrilha do Araguaia, em um dos jogos da Associação Esportiva Araguaia

 

Fabio Peres: E como as pessoas e a torcida acompanham o clube? Como é a divulgação da AEA? 

Renato Ramos: Nossa principal estratégia é através das novas redes: nosso canal no youtube (a TV Araguaia), grupos de atletas, pais de whatsapp, instagram, flickr  e, principalmente, o Facebook.

Fabio Peres: Mas, voltando a questão da representatividade e da motivação dos torcedores, o que é feito para manter viva essa identidade do clube?

A candidata à vice-presidência Manuela D’Ávila (PCdoB) com a camisa da Associação Esportiva Araguaia (19/09/2018)

Renato Ramos: Sempre valorizar as nossas origens, nossa identidade visual e nossa história. Afinal conhecer o passado é premissa básica para não se repetir os erros históricos no futuro (por mais que isso esteja ocorrendo). Mas, fazemos nosso papel de vanguarda, de ser uma entidade que combate a xenofobia, a homofobia, o racismo, o machismo.

Fabio Peres: Mas, o fato da AEA carregar essas bandeiras tem alguma implicação na forma de trabalhar? Em outras  palavras, o fato de possuir essas bandeiras o diferencia em relação a outros clubes no que tange, por exemplo, ao treinamento, performance, à maneira de lidar com os atletas etc.?

Renato Ramos: Na verdade, não. Nossa forma de trabalho é exclusivamente voltada ao futebol, pensando em fazer o melhor trabalho com as condições que temos, sempre buscando bons resultados e uma boa formação dos garotos como atletas e bons cidadãos.

Fabio Peres: Quais são as principais expectativas e metas que a AEA possui?

Renato Ramos: Bom, não escondemos de ninguém que nossos sonhos e metas são crescer dentro do cenário do futebol. Como alcançar esses objetivos e metas ainda depende de algumas circunstâncias que estamos trabalhando para estruturar. E no momento certo estaremos colocando num debate mais amplo ao conjunto das forças da esquerda e dos esportivas que estão cada vez mais apoiando nosso projeto.

Fabio Peres: Quais campeonatos e em quais categorias que a AEA já participou? Quais foram as principais conquistas?

Renato Ramos: O Araguaia participa desde sua fundação das competições municipais de Santo André organizadas pela liga local. Já disputamos a taça cidade de São Paulo, competição organizada pela prefeitura de São Paulo, Copa Zico, Copa Kagiva e outras. Em 2019 esperamos participar das competições da associação paulista de futebol. Nossas principais conquistas no principal foram a Copa amizade 2016 e da base a Copa Andrezinho 2018 na categoria sub-16.

Equipe sub-16 na conquista da Copa Andrezinho 2018

 

Fabio Peres: E os desafios? Quais os principais desafios que um clube como AEA possui? Esses desafios (ou quais deles) são decorrentes da vinculação histórica e política da AEA?

Renato Ramos: Sinceramente não enfrentamos até hoje nenhuma resistência. Pois, trabalhamos sério, atendemos a população, no nosso caso a juventude que busca uma oportunidade dentro do futebol. Já realizamos amistoso por exemplo com o Santos no CT Rei Pelé. Levar a foice e o martelo do futebol num dos maiores templos do futebol brasileiro é prova de trabalho sério, de futebol de verdade e de jovens sonhadores e determinados.

Fabio Peres: E como a AEA se mantém? Quais são as principais formas de financiamento?

Renato Ramos: Nos mantemos da fundação até o momento com venda de materiais: camisas, adesivos, e doações. Para 2019 conseguimos aprovar pela primeira vez um projeto pela lei de incentivo do governo federal, e estamos na luta para concretizar a captação para ter um 2019 mais tranquilo e com melhor estrutura.

Renato Ramos

Fabio Peres: Há mais alguma coisa que você  gostaria de adicionar?

Renato Ramos: Gostaria de agradecer pela oportunidade de falar um pouco do nosso projeto, e pedir para que todos sigam nossas redes, participe do nosso dia a dia e vamos juntos buscar gerar oportunidades aos nossos jovens através do esporte, no nosso caso, o futebol.

Fabio Peres: Nós que agradecemos: não só pela entrevista, mas também por manter o esporte tão vivo, plural e interessante. Obrigado!