Histórias do esporte em Rubem Fonseca (parte 1)

17/04/2017

por Fabio Peres

Cruel, realista, desconcertante, brutal, mórbido. Entre tantos termos utilizados para descrever a literatura de Rubem Fonseca, talvez possamos também adicionar o adjetivo esportivo. Afinal, basta uma breve leitura de sua obra para perceber que não são poucos os contos e romances em que o esporte e as atividades físicas, em geral, ocupam lugar – ora mais, ora menos – privilegiado.

Desde a publicação de Os Prisioneiros (1963), primeira coletânea de contos do autor, o objeto está lá, por assim dizer, em suas variadas formas; às vezes de maneira mais clara ou quase desapercebido de modo sútil. Como aponta a escritora Maria Alice Barroso, Rubem já se destacava no conto Fevereiro ou março (1963)  pela incorporação de “um excelente tipo à galeria de personagens da literatura brasileira: o atleta vagabundo, frequentador das academias de boxe, portador de uma ética toda sua” (apud AUGUSTO, 2009, posfácio)[i].

Capa da edição de 1963 de Os Prisioneiros

O personagem-narrador inicia a história descrevendo como a condessa Bernstroa, mulher casada com a qual teve um caso, explicava a manutenção de suas formas corporais:

Era uma velha, mas podia dizer que era uma mulher nova e dizia. Dizia: põe a mão aqui no meu peito e vê como é duro. E o peito era duro, mais duro que os das meninas que eu conhecia. Vê minha perna, dizia ela, como é dura. Era uma perna redonda e forte, com dois costureiros salientes e sólidos. Um verdadeiro mistério. Me explica esse mistério, perguntava eu, bêbado e agressivo. Esgrima, explicava a condessa, fiz parte da equipe olímpica austríaca de esgrima — mas eu sabia que ela mentia.

O personagem continua desfiando a história explicando como foi seu dia, um sábado de carnaval, marcado por certa imprevisibilidade e também, não por acaso, por certa angústia:

Era de manhã, no primeiro dia de carnaval. Ouvi dizer que certas pessoas vivem de acordo com um plano, sabem tudo o que vai acontecer com elas durante os dias, os meses, os anos. […] Eu — eu vaguei pela rua, olhando as mulheres. De manhã não tem muita coisa para ver. Parei numa esquina, comprei uma pera, comi e comecei a ficar inquieto. Fui para a academia.

A descrição dos exercícios na academia é acompanhada por uma série de sentidos, pensamentos, práticas e gestos:

[…] comecei com um supino de noventa quilos, três vezes oito. O olho vai saltar, disse Fausto, parando de se olhar no espelho grande da parede e me espiando enquanto somava os pesos da barra. Vou fazer quatro séries pro peito, de cavalo, e cinco para o braço, disse eu, série de massa, menino, pra homem, vou inchar. E comecei a castigar o corpo, com dois minutos de intervalo entre uma série e outra para o coração deixar de bater forte; e eu poder me olhar no espelho e ver o progresso. E inchei: quarenta e dois de braço, medidos na fita métrica.

A academia, por sua vez, é lugar de encontros, de construção (e também de desconstrução) de vínculos e laços sociais. Os amigos, frequentadores de academia -ao que tudo indica de um bairro da Zona Sul carioca –, organizam a “diversão” para aquele carnaval:  “porrada pra todo lado”. A ideia era simples. Se fantasiar de mulher e então:

O povo cerca a gente pensando que somos bichas, nós estrilamos com voz fina, quando eles quiserem tascar, a gente, e mais vocês, se for preciso, põe a maldade pra jambrar e fazemos um carnaval de porrada pra todo lado. Vamos acabar com tudo que é bloco de crioulo, no pau, mesmo, pra valer. Você topa?

Após alguns desdobramentos (e outras referências aos sentidos e usos do corpo), o narrador se auto descreve para o marido da condessa, adquirindo assim características de um novo “tipo” inserido em um meio social com senso moral e ético próprios, como chamou atenção Maria Alice Barroso:

na academia eu faço ginástica de graça e ajudo o João, que é o dono, que ainda me dá um dinheirinho por conta; vendo sangue pro banco de sangue, não muito para não atrapalhar a ginástica, mas sangue é bem-pago e o dia em que deixar de fazer ginástica vou vender mais e talvez viver só disso, ou principalmente disso. Nessa hora o conde ficou muito interessado e quis saber quantos gramas eu tirava, se eu não ficava tonto, qual era o meu tipo de sangue e outras coisas. Depois o conde disse que tinha uma proposta muito interessante para me fazer e que se eu aceitasse eu nunca mais precisaria vender sangue, a não ser que eu já estivesse viciado nisso, o que ele compreendia, pois respeitava todos os vícios. Não quis ouvir a proposta do conde, não deixei que ele a fizesse; afinal eu tinha dormido com a condessa, ficava feio me passar para o outro lado. Disse para ele, nada que o senhor tenha para me dar me interessa. Tenho a impressão que ele ficou magoado com o que eu disse […] Por isso, continuei, não vou ajudar o senhor a fazer nenhum mal à condessa, não conte comigo para isso. Mas como?, exclamou ele, […], mas eu só quero o bem dela, eu quero ajudá-la, ela precisa de mim, e também do senhor, deixe-me explicar tudo, parece que uma grande confusão está ocorrendo, deixe-me explicar, por favor. Não deixei. Fui-me embora. Não quis explicações. Afinal, elas de nada serviriam.

No mesmo livro (Os prisioneiros de 1963) novamente a ginástica, a “malhação”, bem como as competições de “físico”, típicas de academia, seriam mencionadas no conto Os inimigos; para alguns críticos da época o melhor da coletânea. Além disso, o conto que dá nome ao livro curiosamente se inicia por uma conversa entre uma psicanalista e um cliente sobre a inconveniência e mesmo inadequação de usar roupa “esportiva” no Centro da cidade, lugar por excelência de trabalho.

O panorama, por assim dizer, esportivo da literatura de Rubem Fonseca, de fato, é vasto e instigante. Por exemplo, o ambiente e os frequentadores de academia voltariam a fazer parte da obra do autor em 1965 no conto A Força Humana (do livro A Coleira do cão). Na realidade, trata-se em certo sentido de uma continuação de Fevereiro ou março. Já em 1969, o antigo Vale-Tudo seria objeto central do conto O Desempenho no famoso livro Lúcia McCartney.

Em 1979, breves referências ao futebol e ao balé apareceriam em O cobrador (no livro homônimo). Na mesma obra menções à ginástica retornariam em Mandrake (além do xadrez) e, em 1992, em o Romance Negro. Por outro lado, uma competição inusitada no Pantanal está em AA (abreviação do “esporte” de mesmo nome) em 1998 no livro a Confraria dos Espadas. Também em 1992, há uma menção à rua do Jogo da Bola – uma prática de diversão que esteve presente na cidade do Rio de Janeiro no século XVIII e XIX[ii] – em A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro.

Em 2001, exercícios aeróbicos, de alongamento e de musculação são citados em Copromancia, na obra Secreções, excreções e desatinos. Corrida na praia aparece em Caderninhos de nomes no ano seguinte em Pequenas criaturas. Em Laurinha surge mais uma vez uma referência ao futebol no livro Ela e outras mulheres de 2006. E a relação de Lima Barreto com o futebol é citada no romance O seminarista de 2009.

Mas essas e outras histórias ficarão para os próximos posts. Em todo caso, mais do que uma mera provocação, denominar a literatura de Rubem Fonseca de esportiva pode ser uma forma de perturbar os limites e as fronteiras do campo da História do Esporte; uma maneira talvez que nos ajude a entrecruzar várias histórias: do corpo, de gênero, da cidade, de classe, da discriminação racial, da homofobia, das diferentes modalidades e práticas esportivas, das emoções, da estética, da literatura, entre muitas outras histórias.

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[i] AUGUSTO, Sergio. Estreia consagradora. In: FONSECA, Rubem. Os prisioneiros. Rio de Janeiro: Agir, 2009.

[ii] Maiores informações ver MELO, Victor Andrade de. MUDANÇAS NOS PADRÕES DE SOCIABILIDADE E DIVERSÃO: O jogo da bola no Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). História,  Franca ,  v. 35,  e105,    2016 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742016000100514&lng=en&nrm=iso>. access on  17  Apr.  2017.  Epub Dec 19, 2016.  http://dx.doi.org/10.1590/1980-436920160000000105.

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Educação Física, Higiene e Saúde Pública na Corte – Parte 3

20/11/2016

por Fabio Peres[i]

No século XIX, a educação física e, em particular, a ginástica se tornaram pouco a pouco em um domínio defendido pelo saber médico. Como mencionado em outras ocasiões (por exemplo, aqui e aqui), tratou-se de uma relação que se consolidou no decorrer daquele século, apesar de inúmeras controvérsias. Não apenas a comunidade médico-científica teve que “lutar” pela legitimação de suas práticas e saberes junto ao Estado e à sociedade, como também teve que lidar internamente com a regulação dos conflitos e dilemas dessa mesma comunidade.

A própria emergência da educação física nos periódicos médicos do século XIX pode ser lida como justaposição entre, por um lado, a formação e, por isso, controle de uma comunidade médico-científica que estava se conformando no período e, por outro, a instrução de um público mais amplo, reforçando a sua legitimação enquanto saber médico.

Um capítulo dessa história, mostrado em um post anterior, foi a elaboração em 1830 do relatório da Comissão de Salubridade Geral, no qual o tema foi abordado[ii]. Outro indício importante desse processo se deu dois anos depois, em 1832. A ginástica voltaria a ser objeto de atenção no Semanário de Saúde Pública (11/08/1832, n.113). A ata da sessão realizada no dia 14 de julho daquele ano informa que o capitão Guilherme Luiz Taube entregou à Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (SMRJ), para avaliação, uma memória intitulada A Short Treatise on the Physic, and Moral Effects of Gymnastic, and Kalistenic Exercises.

Taube na ocasião tinha em mente duas iniciativas: a tradução do material apresentado, escrito em inglês e abrir um estabelecimento para oferecer aulas de ginástica. O sueco exercera o cargo de mestre em um colégio de ginástica em Nova York. No Brasil, atuara como capitão do Exército Imperial (é possível, portanto, que tenha chegado depois de 1822), tendo se casado com uma brasileira. Ficara desempregado em função dos desdobramentos da Lei de 24 de Novembro de 1830[iii], motivo pelo qual desejava ministrar aulas.

Guilherme Taube solicitava que a SMRJ emitisse um parecer sobre seu tratado, atestando os benefícios dos exercícios ginásticos. A intenção era que a escola de ginástica, que pretendia estabelecer na capital, tivesse o respaldo científico da entidade. Na mesma sessão, ficara definido que o relator do parecer seria o médico De-Simoni, membro titular e secretario perpétuo da SMRJ.

Relatorio sobre huma memoria do Sr. Guilherme Luiz Taube acerca dos effeitos physicos e moraes dos exercicios gymnasticos: lido na Sociedade de Medecina do Rio de Janeiro, em 4 de agosto de 1832 (Simoni, Luiz Vicente de, 1792-1881)

Relatorio sobre huma memoria do Sr. Guilherme Luiz Taube acerca dos effeitos physicos e moraes dos exercicios gymnasticos: lido na Sociedade de Medecina do Rio de Janeiro, em 4 de agosto de 1832 (Simoni, Luiz Vicente de, 1792-1881)

 

Menos de um mês depois, o relatório foi lido em uma das sessões da SMRJ, sendo depois publicado nas edições do Semanário de Saúde Pública[iv] (o relatório completo pode ser acessado aqui). Luiz Vicente De-Simoni percebe a validade do material, mesmo reconhecendo que carece de base científica:

A Memória que o Sr. Guilherme Luiz Taube apresentou a esta Sociedade, e de cujo exame vos dignastes encarregar-me, não é trabalho de um escritor que se proponha ilustrar esta parte da ciência, mas sim de um indivíduo, que, tencionando estabelecer neste pais uma escola, aonde os exercícios ginásticos sejam praticados debaixo da sua direção; dirige-se a prevenir o público em favor do seu estabelecimento, e do objeto dele; o que, para acreditar perante o mesmo público a utilidade física, e moral deles, assim como a veracidade das asserções com que ele a afiança no seu escrito, recorre a esta Sociedade submetendo ao seu juízo e aprovação o mencionado seu trabalho; não para ela julgar da sua perfeição como obra, mas da sua veracidade como peça dirigida a um público que pode duvidar dos princípios nela expendidos, e da utilidade da instituição que ele se propõe (1832, n.119, p. 413).

Mesmo não tendo acesso ao tratado entregue à SMRJ, é possível dimensionar, pelo relatório escrito por De-Simoni, os principais argumentos que Guilherme Taube utilizou para solicitar um parecer favorável da instituição médica. Além da descrição dos possíveis benefícios físicos (como desenvolvimento da força muscular; aumento da flexibilidade, da agilidade e da energia; diminuição dos efeitos da vida sedentária) e dos morais (como a interdependência do intelecto e do físico, o incremento do brio, da coragem, da confiança, entre outros), Guilherme Taube “assevera que em diferentes partes do mundo, entre as nações mais clássicas, os exercícios ginásticos têm sido adotados, animados, e muito proveitosos, e como tais julgados necessários pelos Médicos” (1832, p. 414).

Para além dos argumentos utilizados por Taube, segundo De-Simoni já havia na época posições consolidadas, pelo menos em parte da comunidade médica, sobre o valor da ginástica:

A Sociedade sem garantir a perfectibilidade do método que o Sr. Taube se propõe empregar, o que ele não expende, pode emitir o seu parecer em geral acerca da utilidade dos estabelecimentos ginásticos, o afiançar que quanto o Sr. Taube assevera no seu escrito, sobre esta utilidade é uma verdade reconhecida por todos os Médicos, e escritores ilustrados […]. Os Médicos mais distintos por seu saber tem abonado a ginástica em todos os tempos e em todas as partes do mundo instruído (1832, p. 414).

De acordo com o membro titular da SMRJ, o parecer positivo refere-se a uma preocupação maior, ao reconhecimento da relação entre saúde e condições sociais, tão cara à naquele início de século:

[…] pois o fim desta declaração não é somente beneficiar um indivíduo que os estabelece, mas a população no meio da qual o estabelecimento vai ser erigido; por isso que as vantagens que este pode produzir podem ser grandes, e gerais, e são incontestáveis, e certas quando os exercícios sejam nele praticados com método, e debaixo dos preceitos da higiene. Trata-se neste caso, não de favorecer a instituição de hum simples estabelecimento particular, mas a de um estabelecimento público cujas vantagens poderão ser aproveitadas por muitas pessoas, e principalmente pela classe mais débil, e enferma da população; estabelecimento que até poderá influir sobre a conservação da saúde dos que o não forem, e sobre o melhoramento da constituição individual da nossa mocidade; desenvolvendo melhor seus órgãos, e a sua forca para melhor defender e servir a pátria, quer como Soldados, quer como Cidadãos, e artífices (1832, p. 414).

Para De-Simoni, a prática poderia “exercer uma grande influência sobre o caráter, a glória, e prosperidade de uma nação, e não só ela é capaz de a beneficiar debaixo de um ponto de vista higiênico, como também social, e politico” (1832, p. 415). O médico enfatizou que a relação entre a prática corporal e as ciências médicas não era uma novidade, lançando mão de um artifício argumentativo: uma mobilização da história:

As vantagens pois da ginástica não são problemáticas a face da Medicina; elas são atestadas pela história, e afiançadas pela ciência; nada há mais reconhecido, e provado do que elas. A opinião favorável dos Médicos de todos os países e de todos os séculos podemos francamente adicionar a nossa, e favorecer com ela a instituição de um estabelecimento a ela destinado, tal como o que se propõe o Sr. Taube (1832, p. 416).

Não temos informação se Guilherme Luiz Taube abriu, de fato, o referido estabelecimento que ofereceria aulas de ginástica na Corte. O que sabemos, através dos jornais, é que Taube foi nomeado mestre de ginástica do Colégio Pedro II em 1841[v].

De todo modo, pode-se entrever que já naquele momento não se tratava somente de uma ginástica, mas de uma ginástica médica, que se institucionalizava à luz dos preceitos da higiene e da saúde pública, mesmo que ainda de forma incipiente.

Anos mais tarde, a tentativa de fundar um instituto ginástico e ortopédico na Corte evidenciaria cisões e divergências na comunidade médica. Mas essa história ficará para um próximo post.

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[i] Esse post é um desdobramento das pesquisas realizadas com Victor Andrade de Melo no pós-doutorado, entre 2012-2015, no PPGHC/IH/UFRJ. Parte dele foi publicado em MELO, V. A.; PERES, F.F. A gymnastica no tempo do Império. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014.

[ii] A ata da sessão da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (19/6/1830), em que houve a aprovação do relatório,  foi posteriormente publicada no Semanário de Saúde Pública (9/4/1831).

[iii] Brasil. Lei de 24 de Novembro de 1830. Fixa as forças de terra para o anno financeiro de 1831-1832 (Coleção de Leis do Império do Brasil – 1830, p. 55, v. 1, pt. I). Disponível em: <http://www2.camara.gov.br/legin/fed/lei_sn/1824-1899/lei-37992-24-novembro-1830-565665-publicacaooriginal-89410-pl.html>. Acesso em: 18 de novembro de 2016. Por essa lei, à exceção daqueles que participaram da campanha da independência, foram mutilados ou gravemente feridos em conflitos, os estrangeiros foram demitidos e proibidos no Exército.

[iv] Inicialmente, uma síntese do parecer emitido por De-Simoni foi publicada no número 117 de 8 de setembro de 1832 (p. 405). Foi depois publicado na íntegra no número 119 de 22 de setembro de 1832 (p. 413-416).

[v] Jornal do Commercio, 8/10/1841, p.1


A História de uma Policronofonia: críticas (bem-humoradas) à prática de esportes e exercícios físicos no Rio de Janeiro do século XIX

01/02/2016

A presença e a força dos discursos médicos e pedagógicos no final daquele século eram incontestáveis. O desfio era convencer a população a efetivamente praticá-los no dia-a-dia, sem que antes ela duvidasse de certos argumentos e prescrições.  

por Fabio Peres

A história começa com um sonho esplendido, quase idílico. Naquele 24 de maio de 1895, dia da inauguração do Prado Brasileiro, a multidão se amontoava em torno da arena da nova sociedade esportiva, localizada provisoriamente na Praia de Botafogo, n.171 (sede do Bellódromo Guanabara). O céu era “de um azul lavado e fresco” (A Cigarra, 30/5/1895)[i].

Anúncio do Prado Brasileiro (O Paiz, 22/5/1895, p.8)

Anúncio do Prado Brasileiro (O Paiz, 22/5/1895, p.8)

Voando em pensamento, o cronista entregou a “alma a um sonho radiante”, viajou “para outro clima e para outra idade”. Viu área de jogos, piscinas de mármore, homens fortes, “robustecidos pelo exercício violente”, além de corridas a pé, carruagens, atletas, saltos, lutas e arremessos. Estava definitivamente na “jovem Grécia”.

O deleite provocado pelo sonho, seguido por um desanimo ao despertar, foram depois de um tempo sopesados:

Meu Deus! Cada roca com o seu fuso, e cada século com os seus exercícios. O culpado d’esses sonhos, d’essas saudades ansiosas que o jornalismo fluminense de hoje, de vez em quando, diz sentir pela rija educação física dos tempos heroicos,— o culpado dessa mania é Sr. Ramalho Ortigão que vive a fazer, em livros e artigos, a apologia da ginástica (A Cigarra, 30/05/1895, p.2)[ii].

Dialogando diretamente com os preceitos de saúde e educação física da época, o autor – em tom zombeteiro – chamava atenção para incompatibilidade e mesmo anacronismo entre os discursos de promoção e estimulo de práticas corporais, pautados por uma idealização da Grécia Antiga, e as práticas esportivas adequadas a um carioca de 1895, “com o câmbio a 8 e uma guerra civil de quatro anos de idade”. Tal modo de vida da Antiguidade não seria factível com as obrigações e condições de vida de um cidadão da “era moderna”:

Apanhem-me um honesto burguês destes desventurados tempos modernos. O homem é empregado público: o emprego rende-lhe duzentos mil réis. Mas o desgraçado tem oito filhas que precisam de marido: querem vestir-se, querem piano, fitas, teteias, teatros. E o infeliz, mesmo arranjando para a noite qualquer trabalho suplementar com que se estrompe a ganhar a vida, não consegue, no fim do mês, pagar todos os seus compromissos, Metam agora na cabeça desse burguês a convicção de que, para viver muito, o exercício físico é indispensável: mandem-no perder, de manhã, duas horas em ginástica de quarto, – de tarde, outras duas em corridas a pé, – de noite, outras duas em velocipedia. E digam-me que tempo lhe ficará para ganhar o pão de cada mês. O’ néscios! O problema capital da vida não é viver muito: é viver! Não é ter saúde: é ter dinheiro! Não é ser belo: é comer! (op. cit.)

De acordo com o bem-humorado cronista, o esporte moderno é bem concebido justamente pelo fato da prática ficar restrita somente aos que se “empregam nele, e se divertem quem tem tempo e dinheiro” para assistir. E, por fim, sentencia em clara oposição aos argumentos que “vestem” determinados contextos “com as roupas talhadas em outras épocas” [iii] e em outros lugares:

Nós não somos feitos para essas façanhas, amigos! Contentemo-nos com o que o século nos dá. E, em matéria de sport limitemo-nos a apostar neste ou naquele corredor, neste ou naquele cavalo, neste ou naquele pelotari. A idade heroica foi a dos jogos olímpicos. A idade moderna é a dos jogos de poules. E eu prefiro perder dinheiro, vendo correrem os outros, a ganhá-lo, correndo eu, para que os outros me vejam (A Cigarra, 30/05/1895, p.3).

Uma das chaves para compreender a prática de esportes e exercícios físicos na cidade do Rio de Janeiro do século XIX passa, por certo, pelos discursos pedagógicos e médico-higienistas. Contudo, esses discursos nem sempre, ou muitas vezes, se materializavam ipsis litteris na vida social da cidade.

Em 1892, aliás, um estrangeiro de velocípedes no Passeio Público foi alvo de chacotas: “corre nenê!”. De acordo com o comentarista, a prática de exercícios físicos em determinados espaços da cidade ainda era censurada pela população, onde “moços do Rio de Janeiro, salvas poucas exceções, não têm força muscular”[iv]; algo que certamente mudaria. Mas essa história ficará para um próximo post.

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[i] Havia nos periódicos fluminenses uma certa expectativa em torno da estreia do empreendimento. Nos dias seguintes, porém, as matérias sobre o evento foram marcadas por controvérsias e críticas, sobretudo, em relação à qualidade técnica das provas (O Paiz, 25/5/1895, p.2; O Paiz, 26/5/1895, p.2).

[ii] Vale destacar que em 4/1/1888, a Gazeta de Notícias fazia uma promoção e oferecia livros aos que renovassem sua assinatura, entre os quais “Ginástica de quarto”, a obra de Schreber traduzida pelo renomado Ramalho Ortigão, que já fizera várias referências ao autor em seu “As Farpas: Crônica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes”.

[iii]  ALENCASTRO, Luiz Felipe. “Não sabem dizer coisa certa”.  Revista Brasileira de Ciências Sociais, n. 16, jun. 1991, p. 64. 14.

[iv] O Paiz, 10/6/1892, p.1


Educação Física, Higiene e Saúde Pública na Corte – Parte 2

10/05/2015

por Fabio Peres[i]

Em um post anterior destacamos como alguns relatórios da Junta Central de Hygiene Pública no final do século XIX deixavam entrever, não apenas o estabelecimento da relação entre educação física, exercícios corporais, saúde pública e higiene, como também sua institucionalização: isto é, enquanto saber médico materializado nas ações do Estado.

Contudo, como foi mencionado, essa relação não era gratuita, nem óbvia e muito menos incontestada. Tratava-se de uma construção que se deu de forma lenta, paulatina e muitas vezes pouca harmônica entre atores, práticas e ideias que configuravam o saber médico-científico do século XIX.

Na verdade, médicos da Corte já debatiam sobre a importância de tal associação desde, pelo menos, a década 1830. Periódicos médicos como o Semanário de Saúde Pública (1831-1833), Revista Médica Fluminense (1835-1841), a Revista Médica Brasileira (1841-1843), entre outros, revelam como a educação física se tornou pouco a pouco um domínio defendido pelos esculápios (Melo, Peres, 2014)[ii].

Em uma das sessões da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (19/06/1830), cuja a ata foi publicada no Semanário de Saúde Pública em 1831 (09/04), houve apresentação do relatório da Comissão de Salubridade Geral, no qual a educação física era mencionada.

Vale destacar que tal comissão era responsável por apresentar sugestões para melhoramentos da higiene pública que a SMRJ defenderia junto ao Estado, que naquele mesmo ano reconhecera a entidade como colaboradora no aperfeiçoamento das questões ligadas à saúde.

1831.04.09.Semanario.de.Saude.Publica.ed.p77

No relatório que foi aprovado pela Sociedade, dois pontos reforçam a ideia de que a educação física e, em particular, a ginástica, começavam a se institucionalizar no saber médico da cidade.

Por um lado, havia uma maior preocupação com a educação física das crianças.  A proposta era que, dada a existência de diversas obras sobre o tema publicadas em francês e inglês, a SMRJ deveria lançar uma contribuição própria que reunisse o que sobre o assunto “parecesse melhor”. O objetivo principal era a circulação, “em língua vulgar” (p. 77), de informações que fossem úteis a “todos os pais de família”.

Por outro, ao listar uma série de tópicos que deveriam ser considerados pelo poder público, tendo em vista a questão da salubridade, o relatório fez menção à ginástica, considerada pela Comissão como uma prática ligada à saúde e aos divertimentos públicos, cuja importância deveria ser reconhecida pelo governo:

Ainda nos restaria muito a dizer sobre a construção viciosa das nossas casas, o estreitamento das ruas, […] a falta de passeios, de plantações de árvores nas praças, […] a falta de exercícios ginásticos, em que muito ganharia o povo, e o Governo, que deve interessar-se em vê-lo alegre e divertido […] (1831, p. 79).

Chama atenção a chave pela qual são lidas tais referências à educação física e à ginástica. A Comissão defendia a interdependência entre higiene privada e higiene pública como um dos eixos norteadores da elaboração do documento, revelando as relações entre indivíduo e sociedade que permeavam a concepção de saúde naquela ocasião.

Poucos anos depois a educação física e a ginástica voltariam a ser temas debatidos pelos médicos, quando a SMRJ é procurada por um não-médico para dar um parecer sobre um tratado de sua autoria . A intenção do autor era abrir um estabelecimento que oferecesse aulas de ginástica, obtendo antes o respaldo da Sociedade Médica da Corte. Mas essa história fica para um próximo post.

[i] Esse post é fruto das conversas e pesquisas realizadas no âmbito do projeto “O corpo da nação: educando o físico, disciplinando o espírito, forjando o país: as práticas corporais institucionalizadas na sociedade da Corte (1831-1889)”, que conta com o apoio da FAPERJ e do CNPq e é coordenado por Victor Andrade de Melo.

[ii] Maiores informações ver MELO, V. A.; PERES, F.F. A gymnastica no tempo do Império. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014.


Educação Física, Higiene e Saúde Pública na Corte – Parte 1

15/12/2013

por Fabio Peres[i]

Em 15 de abril de 1885, a Junta Central de Hygiene Pública apresentava um relatório, cuja “espinhosa tarefa” era “levar ao conhecimento do Governo Imperial os factos mais culminantes occorridos no Império relativamente à saúde publica” (1885, p. A-F-1)[ii]. A análise da estatística das mortes na cidade do Rio de Janeiro, um dos pontos centrais do relatório, dedicava especial atenção às causas da “notável” mortalidade infantil ocorrida no ano anterior:

Serão os defeitos da educação physica que produzem tão funesto resultado? […] Incontestavelmente a educação physica das mães e das crianças não é a mais adequada ao nosso clima; a esta proposição se estende desde o recém-nascido até a criança que caminha para a adolescência. […] si considerarmos a educação physica e a hygiene escolar entre nós, achamol-as eivadas de numerosos e graves inconvenientes. Desenvolver o entendimento sem attender as necessidades do physico é realisar uma educação incompleta (1885, p. A-F-9-10-11).

Havia, nesse sentido, uma percepção ampla de educação física, que a concebia próxima à puericultura, incluindo preocupações com alimentação, vestuário e condições gerais de limpeza e higiene da infância no espaço privado e escolar. Mas além disso, também somava-se a ela uma compreensão dos benefícios específicos da prática ao corpo per se:

 E’ preciso, pois, guardar um meio termo: dar impulso ás faculdades intellectuaes sem desprezar um exercicio razoável dos órgãos corporeos. […] E’ pois necessário modificar a hygiene escolar, reformal-a pela base, derrocando a inveterada rotina que dà em resultado a formação de sábios e ao mesmo tempo de inválidos. O ensino gymnastico e militar nas escolas primarias è adoptado na Allemanha, na França e em outros paizes. Manuaes adequados são remettidos aos instituidores, assim como as collecções de apparelhos para a installação dos gymnasios escolares e um certo numero de armas para exercicio ao alvo e esgrima (1885, p. A-F11).

O relatório da Junta Central de Hygiene Pública deixava entrever, não apenas o estabelecimento da relação entre saúde, higiene e exercício corporal, como também sua institucionalização: isto é, enquanto saber médico materializado nas ações do Estado. Na verdade, Domingos José Freire[iii], presidente na época da Junta Central de Hygiene Pública, já havia assinalado no relatório do ano anterior que entre as causas que contribuíam para a incidência de epidemias e, em particular, da tuberculose na cidade estavam os “nossos hábitos que condenmam o exercício”, a “vida sedentária” e a “inacção” (1884, p. A-F2-24)[iv].

Relatório do Presidente da Junta Central de Hygiene Pública (1885)

Devemos ter em vista um pouco do contexto em que se insere a produção do relatório. Como se sabe, as relações entre higiene, medicina e saúde estruturaram projetos públicos e privados de educação (sobretudo, escolar) da população brasileira no decorrer do Império. Em maior ou menor grau, tais projetos envolviam uma concepção de educação física, que mobilizava a articulação entre domínios corporais, morais e intelectuais, adequada à nação moderna e civilizada que se pretendia construir, ao mesmo tempo, em que era necessário lidar com condições econômicas, políticas e sociais específicas e concretas de um país recém-independente, periférico e ainda em formação (Melo, Peres, 2013). Aliás, não é por acaso que frequentemente o tema tem sido abordado a partir da perspectiva da história da educação (e não de outras áreas, por exemplo).

Por outro lado, a Junta Central de Hygiene Pública, inicialmente chamada apenas de Junta de Hygiene Pública, foi criada em 1850[v], como um dos principais desdobramentos das medidas que tinham o objetivo de melhorar o estado sanitário da capital e do Império, em geral. Uma epidemia de febre amarela acabara de assolar a Corte, colocando na ordem do dia a salubridade pública e as condições higiênicas da cidade. Estima-se que entre a população de 166 mil habitantes, cerca de 90 mil contraíram a doença, provocando 4.160 mortos (alguns estudos calculam que esse número pode ter chegado a 15 mil óbitos)[vi].  Nesse cenário, a Junta possuía, entre outras atribuições, propor ao governo as ações necessárias para promover a salubridade pública e exercer o papel de polícia médica e sanitária[vii].

Posteriormente, outras enfermidades e epidemias se abateram sobre a população da Corte, bem como a do resto do país, aumentando bastante as taxas de mortalidade: além da febre amarela, cólera, tuberculose, disenterias, malária, entre tantas outras enfermidades, que eram lidas e tratadas através das teorias médicas e de diversas outras práticas não-científicas. O que reforçava o papel e as responsabilidades da Junta em melhorar as condições de saúde da capital, incluindo preocupações com a educação física da população.

Contudo, a relação entre educação física, exercícios corporais e saúde pública – presente no relatório de 1885 e que no final do século XIX e começo do XX se tornaria cada vez mais frequente e intensa – não era gratuita e nem óbvia. Tratava-se de uma construção que se deu de forma lenta, paulatina e muitas vezes pouca harmônica entre atores, práticas e ideias que configuravam o saber médico-científico do século XIX.

Cerca de meio século antes da publicação do relatório de 1885, médicos da Corte já apontavam a importância de tal associação. E mesmo logo após a sua criação, a Junta Central de Hygiene Pública já enredava (às vezes de maneira fina) essa tessitura. Mas essa história fica para um próximo post.


[i] Esse post é fruto das conversas e pesquisas realizadas no âmbito do projeto “O corpo da nação: educando o físico, disciplinando o espírito, forjando o país: as práticas corporais institucionalizadas na sociedade da Corte (1831-1889)”, que conta com o apoio da FAPERJ e do CNPq e é coordenado por Victor Andrade de Melo.

[ii] FREIRE, Domingos José. Relatório do Presidente da Junta Central de Hygiene Publica. In: BRASIL. Ministério do Império. Relatorio do anno de 1884 apresentado a assemblea geral legislativa na 1ª sessão da 19ª legislatura (publicado em 1885). Rio de Janeiro: Ministério do Império. p.A-F-1 – A-F-9. 1885.

[iii] Maiores sobre o médico Domingos José Freire ver BENCHIMOL, Jaime Larry. A instituição da microbiologia e a história da saúde pública no Brasil. Ciênc. saúde coletiva. 2000, vol.5, n.2, p. 265-292 e BENCHIMOL, Jaime L. Domingos José Freire e os primordios da bacteriologia no Brasil. Hist. cienc. saude-Manguinhos, Jun 1995, vol.2, no.1, p.67-98 .

[iv] FREIRE, Domingos José. Relatório apresentado ao governo imperial pelo Dr. Domingos José Freire, Presidente da Junta Central de Hygiene Publica. Epidemias na cidade e subúrbios. Endemias. Tuberculoses pulmonares. In: BRASIL. Ministério do Império. Relatorio do anno de 1883 apresentado a assemblea geral legislativa na 4ª sessão da 18ª legislatura (publicado em 1884). Rio de Janeiro: Ministério do Império. p.A-F2-1 – A-F2-39. 1884.

[v] Decreto nº 598, de 14 de Setembro de 1850. Concede ao Ministerio do Imperio hum credito extraordinario de duzentos contos para se exclusivamente despendido no começo de trabalhos, que tendão a melhorar o estado sanitario da Capital e de outras Povoações do Império.

[vi] Maiores detalhes da epidemia de 1850 ver artigo “A morte anunciada” de Monique de Siqueira Gonçalves em http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/a-morte-anunciada

[vii] Posteriormente, em 1851, foi promulgado o Decreto nº 828, de 29 de Setembro que detalha e manda executar o regulamento da Junta de Hygiene Publica.


 

MELO, V. A., PERES, F. F. O corpo da nação: posicionamentos governamentais sobre a educação física no Brasil monárquico. História, ciências, saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, 2013, no prelo.


Educação física encenada: a gymnanstica-espetáculo em diferentes instituições na Corte

05/05/2013

por Fabio Peres[i]

As apresentações de ginástica – como mostramos no último post – se tornaram um dos espetáculos mais fascinantes e divertidos da sociedade carioca no século XIX. As inúmeras exibições realizadas nos teatros e circos faziam parte de um conjunto de diversões presente na cidade. Não por acaso, as modalidades e designações de tais apresentações eram bastante variadas: ginástico-dramáticas (inseridas em uma narrativa teatral); ginástico-acrobáticas (com ênfase nas acrobacias, por exemplo, de equilíbrio e trapézio); equestre-ginásticas (performances de ginastas em cavalos); ginástico-tauromáquicas (com touros) ou apenas ginásticas, entre outras[ii].

No entanto, o caráter, por assim dizer, espetacular da ginástica não ficava restrito apenas às apresentações realizadas nos teatros e circos. A partir da segunda metade do Império brasileiro, as exibições de ginástica eram também encenadas em outros espaços e instituições sociais da cidade, como clubes e entidades associativas, estabelecimento militares, eventos esportivos e em escolas públicas e privadas.

Diferente do que se possa imaginar, essas apresentações, embora não fossem cotidianas, faziam parte das rotinas anuais de cada um desses espaços que constituíam a rede de instituições e, por conseguinte, dos laços sociais e das sociabilidades presentes na Corte.  Em festas, datas comemorativas, encerramentos anuais ou em visitas de autoridades e personalidades ilustres, a ginástica era apresentada, ou melhor, representada.

Em 17 de novembro 1857, por exemplo, o periódico Correio Mercantil noticiava a visita do imperador ao Arsenal de Guerra, onde assistiu, no estabelecimento de ginástica, a realização de exercícios executados pelos alunos. Na verdade, não era raro dom Pedro II visitar, em diversas ocasiões, não apenas instituições de educação militar como também as estabelecimentos de ensino civis, sejam eles públicos (como a Companhia de Menores, o Colégio Pedro II e a Escola Normal), sejam eles privados (como o Colégio Abílio), presenciando as aulas e apresentações de ginástica[iii].

Sem dúvida, tal assistência era de natureza diversa da dos espetáculos teatrais e circenses. Contudo, a mera presença do imperador atribuía, como destacava diversos periódicos da época, um caráter especial aos exercícios realizados, os quais adquiriram traços e marcas de exibição.

De forma semelhante, alguns espaços associativos lançavam mão de apresentações de ginástica em suas comemorações e eventos. O Real Club Ginástico Português, por ocasião da comemoração do Tricentenário de Camões, elaborou um sarau literário, artístico e dançante, no qual a programação contava com diversos “trabalhos” de ginástica, que entremeavam a abertura do evento (com declamações em homenagem à Camões na abertura do evento) e o baile, que viria a seguir[iv].

O Congresso Ginástico Português, por sua vez, realizou a festa comemorativa do seu 6º aniversário, em 14 de agosto de 1880, apresentando – após o hino do Congresso e um pot-pourri do Guarany – uma exibição de ginástica sob a direção do professor Athanazio Bastos. De acordo com a Gazeta da Tarde os alunos foram aplaudidos entusiasticamente, recebendo em seguida buquês de flores pela execução dos exercícios. Em seguida, depois de algumas formalidades, deu-se início ao baile, “sempre animado”, que se prolongou até às 6h da manhã[v].

Além disso, alguns eventos esportivos também contavam apresentações de ginástica. O Club Olympico Guanabarense, em Niterói, dispunha de exercícios de esgrima e trabalhos de ginástica, realizados pelos alunos do Real Club Ginástico Português para entreter o público nos intervalos das corridas (ver Figura 1).

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Figura 1: Anúncio do Club Olympico Guanabarense, em Niterói, publicado na Gazeta de Notícias de 20 de abril de 1884, em que os alunos do Real Club Ginástico Português, da cidade do Rio de Janeiro, se apresentaram nos intervalos das corridas.

Outras exibições especiais de ginástica se davam em eventos específicos realizados nas escolas. O Colégio Aquino, no final de julho de 1880, realizara uma Festa da Educação, na qual houve apresentação de Ginástica Pedagógica de duas turmas. Uma composta por 50 alunos menores de 10 anos e outra com 50 alunos de 10 a 13 anos. Tal festa foi marcada, de acordo com a Gazeta de Notícias (02/08/1880), por diversos ritos e homenagens. Anteriormente, em 1877, o mesmo colégio produziu uma Festa de Educação Física, em que – segundo o jornal O Globo de 11 e 12 de junho – a “perfeição e regularidade dos exercícios de gymnastica […] colheram repetidos applausos do público ali presente“.

De igual modo, o Colégio Abílio, do renomado Dr. Abílio César Borges, realizava anualmente Festas de Educação Física, que contava com uma programação extensa e detalhada (ver Figura 2).

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Figura 2: Anúncio da Festa de Educação Física, publicado no Diário do Rio de Janeiro de 03 de abril de 1875.

Ainda que não se possa estabelecer uma equivalência exata entre o colégio Ateneu do romance homônimo de Raul Pompéia e o Colégio Abílio, do qual o autor fora aluno, a descrição bastante detalhada da Festa de Educação Física em seu romance, publicado 1888, dá-nos uma ideia da dimensão espetacular, estética e mesmo erótica das apresentações de ginástica (Melo & Peres, 2013):

“Por ocasião da festa da ginástica, voltei ao colégio […] No dia da festa da educação física, como rezava o programa (programa de arromba, porque o secretário do diretor tinha o talento dos programas) […]Eu ia carregado, no impulso da multidão. […] Mergulhado na onda, eu tinha que olhar para cima, para respirar […]. Algumas damas empunhavam binóculos. Na direção dos binóculos distinguia-se um movimento alvejante. Eram os rapazes. ‘Aí vêm! disse-me meu pai; vão desfilar por diante da princesa.’ A princesa imperial, Regente nessa época […] Momentos depois, adiantavam-se por mim os alunos do Ateneu. Cerca de trezentos; produziam-me a impressão do inumerável. […] Passaram a toque de clarim, sopesando os petrechos diversos dos exercícios. Primeira turma, os halteres; segunda, as maças; terceira, as barras. Fechavam a marcha, desarmados, os que figurariam simplesmente nos exercícios gerais. Depois de longa volta, a quatro de fundo, dispuseram-se em pelotões, invadiram o gramal e, cadenciados pelo ritmo da banda de colegas, que os esperava no meio do campo, com a certeza de amestrada disciplina, produziram as manobras perfeitas de um exército sob o comando do mais raro instrutor. Diante das fileiras, Bataillard, o professor de ginástica, exultava envergando a altivez do seu sucesso na extremada elegância do talhe, multiplicando por milagroso desdobramento o compêndio inteiro da capacidade profissional, exibida em galeria por uma série infinita de atitudes. A admiração hesitava a decidir-se pela formosura masculina e rija da plástica de músculos a estalar o brim do uniforme, que ele trajava branco como os alunos, ou pela nervosa celeridade dos movimentos, efeito elétrico de lanterna mágica, respeitando-se na variedade prodigiosa a unidade da correção suprema. […] Acabadas as evoluções, apresentaram-se os exercícios. Músculos do braço, músculos do tronco, tendões dos jarretes, a teoria toda do corpore sano foi praticada valentemente ali, precisamente, com a simultaneidade exata das extensas máquinas. Houve após, o assalto aos aparelhos. Os aparelhos alinhavam-se a uma banda do campo, a começar do palanque da Regente. Não posso dar idéia do deslumbramento que me ficou desta parte. Uma desordem de contorções, deslocadas e atrevidas; uma vertigem de volteios à barra fixa, temeridades acrobáticas ao trapézio, às perchas, às cordas, às escadas; pirâmides humanas sobre as paralelas, deformando-se para os lados em curvas de braços e ostentações vigorosas de tórax; formas de estatuária viva, trêmulas de esforço, deixando adivinhar de longe o estalido dos ossos desarticulados; posturas de transfiguração sobre invisível apoio; aqui e ali uma cabecinha loura, cabelos em desordem cacheados à testa, um rosto injetado pela inversão do corpo, lábios entreabertos ofegando, olhos semicerrados para escapar à areia dos sapatos, costas de suor, colando a blusa em pasta, gorros sem dono que caíam do alto e juncavam a terra; movimento, entusiasmo por toda a parte e a soalheira, branca nos uniformes, queimando os últimos fogos da glória diurna sobre aquele triunfo espetaculoso da saúde, da força, da mocidade. O Professor Bataillard, enrubescido de agitação, rouco de comandar, chorava de prazer. Abraçava os rapazes indistintamente. Duas bandas militares revezavam-se ativamente, comunicando a animação à massa dos espectadores. O coração pulava-me no peito com um alvoroço novo, que me arrastava para o meio dos alunos, numa leva ardente de fraternidade. Eu batia palmas; gritos escapavam-me, de que me arrependia quando alguém me olhava (Pompéia, 1991; grifos nossos).

Diante desse cenário, em que as exibições de ginástica estavam presentes em diversos espaços sociais da cidade, não nos parece precipitado defender que a dimensão espetáculo da ginástica se constituiu, ao longo do Império, em uma linguagem específica, cuja força simbólica era capaz convergir determinados valores, estruturas narrativas e experiências estéticas. Por certo, cada um desses espaços e instituições possuía especificidades que dialogava e, ao mesmo tempo, constituía tal linguagem. Mas isso fica para um próximo post.


[i] Esse post é fruto das conversas e pesquisas realizadas no âmbito do projeto “O corpo da nação: educando o físico, disciplinando o espírito, forjando o país: as práticas corporais institucionalizadas na sociedade da Corte (1831-1889)”, que conta com o apoio da FAPERJ e do CNPq e é coordenado por Victor Andrade de Melo.

[ii] Na prática talvez não houvesse uma delimitação muito clara entre tais modalidades, sendo que uma designação ou os sentidos associados a ela não excluíssem uma outra modalidade.

[iii] Ver exemplos nos periódicos Correio Mercantil (05/12/1859), Diário do Rio de Janeiro (18/09/1860), Gazeta.de.Noticias (28/10/1881) e  Diário do Rio de Janeiro (14/12/1873).

[iv] Gazeta de Noticias (11 e 12/06/1880 e 14/06/1880)

[v] Gazeta da Tarde (16/08/1880).


Gymnastica-espetáculo na Corte (Ou quando a gymnastica era theatro e circo)

14/01/2013

por Fabio Peres

Primeiro Ato[1]

No século XIX, diversas formas de diversão e entretenimento eram vivenciadas pela sociedade carioca. Festas, teatros, passeios, procissões, danças e saraus faziam parte de uma série de manifestações artísticas e culturais presentes no cotidiano da cidade e, que após a constituição do Império brasileiro, se tornaram cada vez mais frequentes, variadas e ecléticas.

Neste cenário, as apresentações de ginástica – por mais incrível e inusitado que pareça – se tornaram um dos espetáculos mais divertidos e fascinantes da cidade. Em agosto de 1837, por exemplo, o periódico O Sete d’Abril anunciava em letras garrafais e com grande irreverência que na “quinta feira, 24 do corrente, dia de S. Bartolomeu” seria apresentado o “Grande Espetáculo!! O Theatrinho dos Garimpeiros”. No final de um dos atos estava previsto a realização de “equilíbrios gymnasticos” pela Madame Injustiça e Mr. Patronato (ver Figura 1).

Não se sabe ao certo se tal espetáculo efetivamente ocorreu ou se o anúncio era apenas uma maneira bastante jocosa e criativa de fazer críticas severas às vicissitudes do Império (o que era mais provável). Em todo caso, mesmo em se tratando de uma anedota, a intenção de que anúncio fosse verossímil e, por isso, cômico reforça a ideia de que os exercícios ginásticos eram recorrentes na cena teatral carioca. Além disso, a apropriação por metáfora e o uso paradoxal do termo, isto é, imaginar que a injustiça e o patronato buscavam manter o “equilíbrio” e conservar o status quo, denota que o vocábulo não era estranho à sociedade da Corte, garantindo, assim, o riso do leitor.

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Figura 1: Anúncio do “Grande Espetáculo!! O Theatrinho dos Garimpeiros” em 9 de agosto de 1837 (O Sete d’Abril).

Os anúncios teatrais, em geral, e dos espetáculos theatrais-gymnaticos se tornaram mais frequentes e ocupavam parte considerável das últimas páginas dos periódicos cariocas. Ao que parece, o sucesso e a importância de tais espetáculos para cidade foram tão expressivos que – além da propaganda do “produtor”, na seção de “anúncios a pedidos” – os editoriais dos próprios jornais passaram divulgá-los em seções especiais que informavam os eventos culturais na Corte. Um dos espetáculos contaria inclusive com a presença do Imperador D. Pedro II e a “Augusta Família Imperial”, como mostra o jornal O Despertador de 19 de abril de 1838 (Figura 3). O “pomposo espetaculo gymnastico e dramatico” O Poeta e a Inquisição[2] – segundo o jornal, uma “excellente tragedia” – seria representada por Mr. Valli, o Hércules Francês, no Theatro Constitucional Fluminense (antigo Real Theatro de São João, atual Teatro João Caetano[3]).

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Figura 2: Anúncio do espetáculo ginástico-dramático “O Poeta e a Inquisição” (O Despertador, 19 de abril de 1838). A tragédia fora composta por Domingos José Gonçalves de Magalhães (Visconde de Araguaia) – ensaísta, poeta, médico e diplomata; um dos iniciadores do Romantismo no Brasil. Destaca-se que o ginasta-artista, segundo o jornal, não omitiria esforços para satisfazer o Imperador e o público, realizando os “mais lindos e delicados exercícios gymnasticos, forças e posições acadêmicas”.

Interessante perceber que cada vez mais os anúncios faziam alusão à capacidade de tais espetáculos divertirem o público. De modo geral, não noticiavam apenas informações básicas da realização do evento (dia, endereço etc.), como até então era mais comum, para incluir detalhes, que supostamente atrairiam o público. A divulgação das sessões teatrais associava o entretenimento do espetáculo às narrativas dramático-teatrais em que exercícios ginásticos estavam inseridos[4] e, além disso, às habilidades corporais e acrobáticas dos gymnastas (ver Figura 2 e 3).

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Figura 3: Anúncio do espetáculo ginástico no Theatro São Januário (O Despertador, 04 de setembro de 1839). A programação detalhada do “escolhido divertimento” contava com as participações de Mr. Levrero (“conhecido na Europa por hum dos melhores dançarinos de corda”) e Mr. Macerata.

Força, equilíbrio, robustez e acrobacias equestres eram concebidas no plano do extraordinário: atraindo atenção do público pela beleza e maestria física. Em outras palavras, isso significa que o corpo (e as representações em torno dele) ganhava ou já possuía novos sentidos e sensibilidades, ainda que com peculiaridades bastante distintas da que se gestou no final do século XIX e começo do XX.

Intervalo

Nesta mesma época, por volta do final da década de 1830, intensifica-se um processo que muda o espaço físico e social das apresentações. A gymnastica-espetáculo passa cada vez mais a ser exibida nos circos, ainda que até o final do Império algumas sessões fossem encenadas nos teatros da cidade (Figura 4). Possivelmente as explicações para esse deslocamento são variadas e envolvem uma série de aspectos. Um deles pode estar ligado à diminuição da presença da linguagem dramática enquanto mote para os espetáculos ginásticos. Em maior ou menor grau, esses espetáculos passaram a ser valorizados mais pelas habilidades e técnicas corporais por si, do que pelos enredos e tramas narradas.

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Figura 4: Anúncio do Circo Olympico que ocupava aproximadamente 1/4 da última pagina do Correio Mercantil de 22 de janeiro de 1860. Localizado na Rua da Guarda-Velha (atual 13 de Maio), o Circo Olympico foi inaugurado em 1857 e, posteriormente, em 1871, se transformou no Theatro D. Pedro II[5].

Por outro lado, o caráter supostamente mais popular do circo pode significar que se ampliava o público e o mercado em torno da assistência do espetáculo-ginástico. De certa forma, esse processo, cada vez mais intenso, de deslocamento do espaço social da ginástica-espetáculo (e das relações sociais que o sustentam) revela talvez um traço, não apenas das divisões sociais presentes no Império, mas também das eventuais disputas e autonomização dos campos artístico-culturais na cidade.

No entanto, independente do local em que ela fosse encenada (seja no teatro, seja no circo), a gymnastica-espetáculo foi frequentemente representada, até o final do Império, enquanto linguagem associada ao campo das artes[6]. Diversas vezes, inclusive, fora considerada como prática diferente das sportivas (corridas de cavalo, regatas etc.), que a partir de meados da década de 1870, possuíam uma seção específica dedicada ao acompanhamento das modalidades e das provas (ver exemplo na Figura 5).

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Figura 5: Trecho da primeira página do jornal Diário de Notícias (4 de outubro de 1886), no qual o espetáculo ginástico, previsto para ser realizado no Theatro Politheama Fluminense (situado na rua do Lavradio), encontra-se na seção FOYER, enquanto que as notícias do Derby Club e do Club de Regatas Paquetaense se encontram na seção SPORT.

Segundo Ato

O caráter aparentemente inusitado das apresentações ginásticas pode abrir um espaço para uma reflexão sobre os desafios colocados à história das práticas corporais no século XIX. A ausência desse tema – seja pela falta de acesso às fontes ou de trabalho empírico, seja pela reificação de determinadas interpretações ou documentos – pode comprometer uma compreensão mais densa da relação entre vida social, condições históricas e o processo de construção de um ethos corporal na sociedade da Corte.

A sedução e o encanto que tais espetáculos despertavam no público, ainda que não fossem suficientes para converter a plateia em praticantes, pode ser um indício de que havia uma sensibilidade específica ligada ao corpo e a certas técnicas/habilidades corporais (como força, vigor, equilíbrio, energia etc). Em outras palavras, é como se determinadas propriedades corporais, diferentes das exigidas em outras práticas, passassem a estar em primeiro plano. A ênfase no ímpeto muscular e na robustez dos gymnastas, enquanto elementos de atração e sedução do público, podem ter ajudado a construir (e ao mesmo tempo eram produto de) uma sensibilidade/estética corporal, que supostamente começava a mudar.

Por outro lado, a ginástica-espetáculo coloca em questão teorias e interpretações que com o tempo se consagraram e se tornaram lugar-comum. Ao longo dos anos foi construído e reforçado um “mito de origem” em que a gênese e a popularização de determinadas práticas corporais na sociedade brasileira (ginástica, natação, educação física e do esporte em geral) se deram quase exclusivamente por instituições militares e, em alguns casos, por escolas públicas. Longe dessa perspectiva linear e monocausal, a gymnastica-espetáculo parece sugerir – ou pelo menos nos faz refletir – que tais práticas se constituíram e se difundiram a partir de constelações sociais mais complexas e pluridimensionais, que envolvem outros atores, processos e instituições sociais.


[1] Esse post é fruto das pesquisas realizadas no âmbito do projeto “O corpo da nação: educando o físico, disciplinando o espírito, forjando o país: as práticas corporais institucionalizadas na sociedade da Corte (1831-1889)”, que conta com o apoio da FAPERJ e do CNPq e é coordenado por Victor Andrade de Melo.

[2] O drama romântico “O Poeta e a Inquisição” (1838) pode ser lido na integra no Portal Domínio Público.

[3] Maiores informações acessar a página do Centro Técnico de Artes Cênicas /Funarte, dedicada aos Teatros do Centro Histórico do Rio de Janeiro.

[4] Diversas apresentações ginásticas também entremeavam sessões teatrais, no intervalo das peças, entretendo e divertindo os espectadores.

[5] Maiores informações na página do Centro Técnico de Artes Cênicas /Funarte, dedicada aos Teatros do Centro Histórico do Rio de Janeiro.

[6] Isso não significa que a dimensão “espetáculo” da ginástica ficasse restrita ao campo das manifestações artístico-culturais. Em determinadas circunstâncias ela também foi associada aos campos sportivos e escolar.