A surf music dos anos 1960 e a exaltação da Califórnia (1)

05/04/2021

Por Rafael Fortes (rafael.soares@unirio.br)

Nas pesquisas sobre história da mídia esportiva que venho desenvolvendo utilizando revistas de surfe estrangeiras e brasileiras publicadas ao longo das décadas de 1970 e 1980, assim como em outras fontes com as quais tive contato, há recorrentes referências à expressão surf music.

No livro Surfing About Music, o antropólogo Timothy Cooley se refere a surf music no sentido que a expressão ganhou e mantém nos EUA: abrange músicas da primeira metade dos anos 1960, tanto de rock instrumental (a la Dick Dale & His Del-Tones, cuja música Misirlou ganhou renovada popularidade na década de 1990 com o filme Pulp Fiction – Tempo de Violência, de Quentin Tarantino) como cantadas (a la The Beach Boys e Jan and Dean). Esse uso também aparece na obra de outros autores. E, por exemplo, compõe a seleção musical de um “canal” chamado Surf Sounds numa plataforma de música online gratuita que uso, Accuradio. Nos anos 1960, houve iniciativas no Brasil relativas a esta vertente, conforme discorreu Victor Melo aqui neste blogue sobre   o caso de Carlos Imperial.

No Brasil, surf music pode se referir a mais do que isto. Lembro-me de ter gravado em fita cassete, na primeira metade dos anos 1990 – por volta de 1992 ou 1993 –, um “especial de surf music” que foi ao ar numa tarde ou noite de domingo numa ótima rádio que existia à época, a Universidade FM, nos 107,9 MHz. O programa era composto por músicas de bandas como Midnight Oil, Hoodoo Gurus, Australian Crawl e V Spy V Spy, entre outras. Havia uma predominância de bandas australianas – as quatro que citei eram de lá. (Já escrevi sobre o hábito de gravar fitas K7 e sobre essa noção de surf music, rádio e segmentos da juventude). Devo ter ouvido aquela fita centenas de vezes ao longo dos anos.

Golden State, Golden Youth – The California Image in Popular Culture, 1955-1966. Livro de Kirse Granat May publicado em 2002. Imagem da capa extraída do site da editora da obra.

De acordo com o argumento de Kirse Granat May (2002), entre 1955 e 1966 construiu-se na cultura popular dos EUA um imaginário potente e positivo sobre a Califórnia. O estado e seu modo de vida – ou melhor, a representação midiática estereotipada de um estilo de vida da juventude branca de classe média que vivia na faixa litorânea – tornaram-se referência para famílias em todo o país. A expansão da corporação Disney (incluindo a inauguração e o estrondoso sucesso do parque de diversões Disneylândia, em 1955, em Anaheim, no sul do estado), a ascensão do ex-ator hollywoodiano Ronald Reagan a liderança política importante (tomando posse como governador em 1967; posteriormente, foi eleito duas vezes presidente do país em 1980 e 1984) e a disseminação do surfe e de um estilo de vida associado a ele são três entre os muitos elementos deste processo abordados no livro (imagem da capa acima).

Até ler a obra de May, eu ignorava que um dos principais motivos para o sucesso da surf music foi o fato de ser feita na Califórnia, por artistas californianos (ou que para lá se mudaram) e tematizar o estado e seus habitantes. Apesar de conhecer as íntimas ligações da surf music com a Califórnia, não sabia que sua ascensão integrou de um contexto amplo em que muitos outros elementos associados àquele estado fizeram sucesso e tornaram-se moda nos EUA.

A maioria dos surfistas considerava tais representações na música e no cinema estereotipadas, erradas e irrepresentativas da cultura do surfe. Muitos ficaram enfurecidos com elas e, pior, com os efeitos sociais delas: levas e levas de novos turistas, banhistas e surfistas iniciantes que enchiam as praias californianas a cada verão e, em menor escala, nos períodos de recesso escolar, férias e feriados prolongados. Contudo, conforme acontece na maioria dos casos, quando observamos mais de perto o fenômeno, percebemos muitos tons de cinza, e não apenas preto e branco.

Tomemos, por exemplo, um filme como Quanto mais músculos, melhor (Muscle Beach Party, de 1964), parte da onda de filmes de festa na praia produzidos pela companhia cinematográfica AIP (American International Pictures) e malhados como Judas por boa parte dos surfistas e pelas próprias revistas de surfe. A película conta com participação, em várias cenas e sequências, de Dick Dale & His Del-Tones. Ou seja, aquele que ficou conhecido como “pai da surf music” e era venerado por muitos surfistas aparece num filme considerado negativo e estereotipado. (Curiosidade: há também a participação de um jovem cantor chamado Stevie Little Wonder.)

Da mesma forma, um dos que atuam como dublês nas cenas de surfe é Mickey Dora, um dos surfistas mais famosos da Califórnia naquela década. Até aí, nada demais. Ocorre que Dora era um crítico ferrenho da comercialização do esporte e nutria grande raiva pelo aumento do número de pessoas com pranchas na praia que considerava seu quintal, Malibu. Frequentemente lidava com o problema derrubando os surfistas de suas pranchas ou batendo neles. Esta a contradição entre tais atitudes e o trabalho como figurante e/ou dublê em cenas de praia e surfe em filmes comerciais é apontada no verbete sobre Dora na Enclopédia do Surfe de Matt Warshaw.

[Continua…]

Para saber mais

COOLEY, Timothy J. Surfing About Music. Berkeley: University of California Press, 2014.

LADERMAN, Scott. Empire In Waves: A Political History of Surfing. Berkeley: University of California Press, 2014. (Especialmente o capítulo 2)

MAY, Kirse Granat. Golden State, Golden Youth: The California Image in Popular Culture, 1955-1966. Chapel Hill, London: The University of North Carolina Press, 2002.


O surfe e a diplomacia cultural dos EUA

11/06/2018

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

The Endless Summer (no Brasil, Alegria de Verão), dirigido e produzido por Bruce Brown, é, provavelmente, o filme de surfe mais famoso já feito. A película narra a trajetória de surfistas dos EUA que viajam ao redor do mundo em busca de ondas desconhecidas e do verão sem fim do título. Segundo o historiador Scott Laderman (2014), “gravado em 1963, The Endless Summer percorreu o circuito tradicional dos filmes de surfe em centros culturais públicos e auditórios de escolas secundárias na Califórnia, Havaí, Austrália e África do Sul ao longo dos dois anos subsequentes” (p. 48). Laderman e outros pesquisadores da história do surfe afirmam que o documentário foi fundamental para disseminar a ideia de viajar como um valor positivo dentro da subcultura do surfe. O autor afirma ainda que o filme foi “um dos documentários de maior sucesso em todos os tempos” e que “seu impacto cultural foi profundo”, tendo sido decisivo para dar visibilidade ao surfe ao redor do mundo (p. 49).

Contudo, este texto não é uma resenha de Alegria de Verão ou do livro de Laderman (o que já fiz). Meu objetivo é apresentar a descrição e análise de Lazerman a respeito do seguinte: “(…) de formas que ainda não foram exploradas pelos pesquisadores, The Endless Summer também ilustra como, durante o auge da Guerra Fria, os Estados Unidos vieram a enxergar o surfe como uma arma ideológica em sua cruzada anticomunista, pois, em maio de 1967, anunciou-se que o documentário apareceria, sob patrocínio do Departamento de Estado, no bienal Festival de Cinema de Moscou” (p. 49).

De acordo com o autor, algumas características da trama motivaram a escolha. A elas se aliava a liberdade de viajar demonstrada pelos protagonistas – “diferentemente da maioria daqueles vivendo no bloco soviético” -, o que serviria para evidenciar a superioridade do capitalismo. Havia ainda as tentativas simpáticas de contato face-a-face com populações locais de diferentes continentes, “pintando um retrato dos Estados Unidos como uma potência benevolente e simpática” (p. 50). O filme acabaria sendo cortado do festival por iniciativa de uma entidade representativa dos estúdios de Hollywood (MPAA – Motion Picture Association of America). Após a organização decidir que um único documentário dos EUA seria exibido, a entidade escolheu o documentário indicado pelo estúdio Columbia Pictures, que o produzira, em detrimento do filme independente de Bruce Brown.

Mas “aqueles que estavam a cargo da diplomacia cultural americana deram outra chance ao surfe algum tempo depois. O ano era 1970, o local era o Japão, e o cenário era a primeira exposição universal realizada na Ásia: a Exposição Universal do Japão, ou Expo’70, em Osaka” (p. 51). Documentos oficiais do governo dos EUA consultados pelo autor atestam que a participação na exposição converteu-se em mais um campo de disputas com a União Soviética. A organização ficou a cargo da United States Information Agency (USIA). A exposição do Pavilhão dos EUA foi dividida em sete temas – um deles, “esportes”. “Foi lá, no interior da exibição de esportes, que, até onde tenho conhecimento, o surfe tornou-se, pela primeira vez, assunto oficial da diplomacia cultural dos EUA” (p. 52).

Segundo Laderman, “os organizadores deram ao surfe papel de destaque na exibição” de esportes (p. 53). Havia uma instalação com 13 pranchas produzidas por shapers dos EUA (Dewey Weber, Rick Stoner e Bob White), reprodução de imagens cinematográficas de surfe feitas por Bruce Brown e fotografias de surfistas no Havaí. Segundo Laderman, o surfe moderno fora introduzido no Japão após a Segunda Grande Guerra, a partir da presença de militares estadunidenses. Ressalto que isto não ocorreu apenas no arquipélago japonês. Tal foi o caso, por exemplo, da Andaluzia, na Espanha (Esparza, 2015).

Naquele momento (1970), o surfe já era bastante conhecido no Japão e tinha praticantes em diversas partes do litoral. Tamio Katori, um surfista japonês, visitou mais de uma vez a exposição e “escreveu para as autoridades dos EUA perguntando se ele poderia adquirir as pranchas para seu clube de surfe após o término da exposição” (p. 54). Segundo ele, as pranchas poderiam contribuir para a “amizade entre ambos os países”. Eis como termina o episódio: “Três das 13 pranchas haviam sido emprestadas por Bob White e tinham que ser devolvidas ao shaper de Virginia Beach, mas as outras dez tinham sido adquiridas pela USIA. Para os Estados Unidos, atender à solicitação de Katori seria uma maneira eficiente de descartar objetos volumosos e, ao mesmo tempo, contribuir para a globalização daquele que era, agora, o mais americano dos passatempos prazerosos, além de estimular a amizade transpacífica. Não havia o que pensar. As pranchas foram vendidas” (p. 55).

Laderman destaca dois aspectos neste episódio. Primeiro, as ligações cada vez mais comuns entre o surfe e o “poder norte-americano global” (p. 55), como ficaria evidenciado na circulação de surfistas estadunidenses ao redor do globo, na presença de surfistas militares (ou militares surfistas) em praias de dezenas de países (aproveitando a existência de bases militares, especialmente as numerosas unidades da Marinha no Oceano Pacífico), na circulação de produtos de mídia (surf music, cinema, revistas) e no estabelecimento do inglês como língua-padrão da modalidade. Segundo, a exposição de 70 “ilumina o quanto o surfe, tal qual o Havaí, haviam se tornado naturalizados como, de alguma forma, americanos” (p. 55).

Acrescento um terceiro: a questão da nacionalidade, da identidade nacional e das distintas apropriações (culturais e de outras naturezas) do surfe ao redor do mundo são um tema bastante atual. Em março último, foram divulgados os critérios para classificação dos 40 atletas que disputarão, pela primeira vez, medalhas olímpicas na modalidade. Este ano, os atletas que disputam a divisão principal do Circuito Mundial passaram a competir com bandeiras dos países desenhadas no ombro de seus uniformes (acentuando-se a construção, no âmbito da principal liga de surfe profissional, da associação entre competição individual e nacionalidade) – e pelo menos dois deles (Kanoa Igarashi e Tatiana Weston-Webb) trocaram de nacionalidade, de olho em maiores probabilidades de se qualificarem para competir em Tóquio. Ambos criados e residentes em território estadunidense (ele, na Califórnia; ela, no Havaí) e filhos de pais estrangeiros. Ele passou a competir pelo Japão; ela, pelo Brasil. Com isso, ambos evitam participar da dificílima briga por vaga entre americanos e havaianos.

Bibliografia

ESPARZA, Daniel. Hacia una historia del surf en Andalucía: génesis y consolidación del surf en Cádiz y Málaga. Materiales para la Historia del Deporte, n. 13, p. 47-62, 2015. Disponível em: <http://upo.es/revistas/index.php/materiales_historia_deporte/article/view/1327/1210>. Acesso em 10 jul. 2015.

FORTES, Rafael. Surfe, política e relações internacionais. [Resenha de Empire in Waves]. Topoi, v. 18, n. 35, p. 453-456, abr.-ago. 2017. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/topoi/v18n35/2237-101X-topoi-18-35-00453.pdf . Acesso em 10/6/2018.

LADERMAN, Scott. Empire In Waves: A Political History of Surfing. Berkeley: University of California Press, 2014.


Mais sobre a cultura do surfe no Sul da Califórnia

29/05/2017

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

Esta postagem completa uma trilogia iniciada por “Pesquisando história do surfe no Sul da Califórnia” e “Os museus de surfe da Califórnia“. Diferentemente do que geralmente faço, foco é mais em imagens que no texto. Todas as fotos são de minha autoria.

*  *  *

A lista de surf shops, marcas, empresas, shapers e oficinas de produção de materiais e equipamentos originários do Sul da Califórnia é enorme. Cito algumas: Clark Foam, Dewey Weber, Gordon & Smith, Hobie, Infinity Surfboards, Mark Diffenderfer, Pat Curren, Rusty, Ventura Surf Shop, (há listas extensas na internet, como esta).

Em entrevista [em inglês] ao projeto Sport in the Cold War (Esporte na Guerra Fria), o historiador Mark Dyreson afirma que os Jogos Olímpicos foram arenas para a divulgação de produtos, hábitos, práticas, modalidades esportivas e valores associados à Califórnia: camisas “havaianas”, calças jeans, filmes de Hollywood, praia, natação, vôlei de praia, mountain bike. Isto se deu em diferentes momentos do século XX, em especial nos anos 1930 e nos anos 1980, quando Los Angeles sediou as Olimpíadas de verão, em 1932 e 1984. Na mesma cidade encontram-se os estúdios hollywoodianos, cujos filmes cumpriram uma dupla função: produtos de exportação, também funcionaram como instrumentos de propaganda de uma série de elementos do que se convencionou chamar de culturas californianas, tanto para consumo interno (para públicos dentro do país e tropas espalhadas pelo planeta) quanto em escala mundial.

Esta postagem está organizada por cidade/localidade, começando pelo Condado de San Diego.

San Diego

Entre os diversos centros culturais, museus e galerias do Balboa Park está o San Diego Hall of Champions. Um dos atrativos é um Hall da Fama homenageando atletas nascidos na cidade e/ou no condado. O skatista Tony Hawk, de Carlsbad (no norte do condado), é um dos homenageados no Hall da Fama.

San Diego é uma das capitais da cerveja e das cervejarias artesanais nos EUA. Algumas têm referências a praia (e se localizam próximas à praia) e/ou ao surfe, como Rip Current. De uma lista de cinco cervejas temáticas de surfe disponível no site da revista Surfer, duas são de cervejarias localizadas no Condado de San Diego (em San Diego e San Marcos). E outra da Surf Brewery de Ventura, outra importante cidade de surfe californiana.

Ao sul de San Diego encontra-se Imperial Beach, a última cidade e uma das últimas praias da Costa Oeste do país. Como de costume, o píer favorece a formação de boas ondas dos dois lados. Além de humanos, Imperial Beach também recebe surfistas caninos, que contam com um apoio de seus donos para dropar nas ondas. Até campeonato de surfe de cachorros eu tive oportunidade de assistir (uma boa onda está em 3’14”). Note-se que a gravação foi disponibilizada num site chamado Dog Sports News, algo como Notícias de Esportes Caninos. Havia um conjunto de barraquinhas com produtos especializados, venda de petiscos e cervejas, brinquedos e brincadeiras para crianças etc. O campeonato contava com palanque, sistema de som, chamada de competidores e distribuição de camisetas antes do início de cada bateria etc.

Ao norte do condado, Oceanside, sede do California Surf Museum, é outra cidade que respira surfe. Tal como Imperial Beach, tem seu píer.

Huntington Beach

Esta pequena cidade considera a si mesma a capital do surfe competitivo na Califórnia. Motivos não faltam, como se pode ver nas fotos e legendas acima. Campeonatos, história, passado, campeões, ídolos, comércio, turismo e outros elementos formam uma notória e especial relação entre surfe, território, cultura e economia. Os lados do píer são um importante pico de surfe, assim como da prática de vôlei de praia – a Califórnia é o principal celeiro de jogadores(as) de vôlei de praia dos EUA. Atravessando a rua a partir do píer, chega-se à Calçada da Fama do Surfe, inaugurada em 1978 (mais informações nas legendas das fotos). Nela há uma estátua de Duke Kahanamoku.

Cerca de Los Angeles: DE Santa Monica a Venice

Embora haja um predomínio do surfe no litoral, o skate também é muito praticado. Em cidades como Santa Monica e Venice, a quantidade de cartazes e placas proibindo o skate é um indicativo de sua relevância e ubiquidade.

Santa Cruz

Santa Cruz é outra surf city importante. Localizada bem mais ao norte, é também conhecida pelas águas geladas. Na colina da qual se desce para pegar onda em Steamer Lane encontra-se a placa acima – o tipo de artefato cultural que enche os olhos de um pesquisador de humanidades. Nele lê-se o seguinte (tradução minha):

– O primeiro surfista na onda [ou seja, a ficar de pé sobre a prancha] tem a preferência

– Reme dando a volta na onda, não pelo meio dela

– Controle sua prancha

– Ajude os outros surfistas

Por Sam Reid

O estabelecimento de regras – e os métodos e iniciativas para tentar garantir que sejam cumpridas e obedecidas – são uma característica importante do surfe, ainda que objeto de muita controvérsia. Na visão de muitos de seus praticantes, devido ao número limitado de ondas (sobretudo de ondas boas e de fácil acesso), é preciso estabelecer critérios de preferência e convivência de forma a reduzir a ocorrência de conflitos.

San Clemente

Abaixo estão outras fotos do Surfing Heritage and Culture Center:

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Este texto já estava pronto quando soube da notícia da morte de John Severson, aos 83 anos.”Nascido e criado em Pasadena e San Clemente” [ambas na Califórnia], em 1960  Severson publicou um impresso para divulgar um filme que produzira. Chamava-se The Surfer, depois virou Surfer. Transformou para sempre esta notável atividade sobre a qual escrevo desde 2004, além de ter inspirado praticamente todos os periódicos congêneres de surfe do mundo. Severson vendeu a revista na primeira metade dos anos 1970, mas sempre se manteve próximo ao surfe, inclusive em sua produção artística. Surfline, Liga Mundial de Surfe e a Surfer publicaram belos necrológios. Outros virão.


Os donos da NFL

16/11/2015

Por Rafael Fortes

Dois problemas, um conjuntural e outro estrutural, têm preocupado os torcedores do San Diego Chargers, time da National Football League (NFL), entidade que organiza o principal campeonato de futebol americano profissional dos EUA. O conjuntural é a campanha ruim na temporada: duas vitórias e sete derrotas. (Como disse um comentarista outro dia: a boa notícia deste fim de semana é que o Chargers não corria o risco de perder: estava de bye.). A estrutural é a ameaça de extinção. Ou melhor, de mudança para Los Angeles.

Em 13 de setembro, o The San Diego Union-Tribune publicou “Um guia dos 32 donos que vão decidir a jogada em L.A.“. O autor, Kevin Acee, divide os proprietários em categorias, em função de uma possível (às vezes, já declarada) simpatia, antipatia ou neutralidade em relação ao desejo do dono do Chargers, Dean Spanos, de trocar de cidade. Discute ainda quais seriam as preferências de cada um, já que dois outros proprietários querem ir para LA.

O guia é uma fonte muito interessante. Em primeiro lugar, porque identifica os proprietários (ou o presidente, no caso do Green Bay Packers, exemplo único de “uma corporação pública sem fins lucrativos com 363.948 acionistas”) de todos os times com nome e sobrenome, foto, time e ano em que assumiu a posição. Segundo, porque apesar de obedecer a uma estrutura de três curtos parágrafos, cada perfil traz informações sobre a vida de cada um e de como chegou a proprietário de equipe. Alguns comentários:

1) Ao contrário do que o(a) leitor(a) pode pensar à primeira vista, a turma não é composta por milionários. Trata-se de bilionários.

2) Os caminhos para ser dono de um time são relativamente poucos: herança familiar; ser bilionário e investir num time para diversificar os negócios; ser bilionário fanático por esporte (além de aumentar a riqueza, ter o prazer e o poder de administrar um time profissional).

No primeiro caso, há pertencem a famílias consideradas tradicionais do futebol americano. Por exemplo, John Mara, um dos dois donos do New York Giants: “O futebol americano corre no sangue de Mara. Ele pertence à terceira geração de donos da equipe, que seu avô fundou em 1925.” E George McCaskey, do Chicago Bears: “(…) junto com seus irmãos e irmãs, cresceu em torno do Bears. (…) Sua mãe, Virginia Halas McCaskey, filha do proprietário original do time, continua viajando para as reuniões da liga aos 92 anos.”

Há os que são de famílias tradicionais do capitalismo estadunidense. A proprietária do Detroit Lions, time da capital mundial da indústria automobilística, se chama Martha Ford: “Ela vem de uma ilustre família americana, os Firestone, e casou-se com outra, os Ford. A um ano de completar 90, Martha Ford assumiu o Lions em 2015, após a morte de seu marido, William Clay Ford.”

Há os que começaram o próprio negócio ou tiveram uma ideia brilhante e construíram um império – personificando o sonho americano -, como Shahid Khan (Jacksonville Jaguars): ainda jovem, “imigrou do Paquistão, ganhou dinheiro lavando pratos e fez faculdade de engenharia. Uma ideia brilhante – um para-choque de caminhão melhor e mais leve – tornou-se um negócio lucrativo e colocou-o no caminho dos bilhões.”

Há os que são fanáticos por esporte em geral, como o casal Kim e Terry Pegula (Buffalo Bills): “A fortuna de Terry, 64 anos, é estimada em US$ 4 bilhões pela Forbes. Os Pegula, que fizeram a maior parte do seu dinheiro no ramo de fratura hidráulica de gás natural, compraram o Bills em 2014 por US$ 1,4 bilhão, um recorde na NFL. O casal também é dono do Buffalo Sabres (NHL) e do Buffalo Bandits (National Lacrosse League).”

3) A principal motivação do dono do Chargers, claro, é aumentar os lucros. Para 2014, a estimativa de população da região metropolitana de Los Angeles superava os 13 milhões de habitantes, mais de quatro vezes maior que a de San Diego. Contudo, um dos principais motivos citados nas discussões midiáticas sobre a saída do Chargers é o estádio, considerado velho e antiquado – um dos piores da liga, na opinião de vários jornalistas. A leitura dos perfis dos donos mostra que ameaçar mudar de cidade é um método eficaz de pressionar prefeitos para investir recursos públicos na construção ou reforma de estádios. Vários dos recentemente construídos ou reformados receberam dinheiro público – com ou sem ameaça de troca. Alguns exemplos:

a) Detroit Lions: “O estádio do time, inaugurado em 2002, custou US$ 430 milhões. Aproximadamente um terço do financiamento foi feito com recursos públicos, de acordo com a Reuters”.

b) Seattle Seahawks, cujo proprietário é Paul Allen, com fortuna de mais de 17 bilhões de dólares: “Apesar de sua riqueza, [Allen] recebeu ajuda pública – US$ 300 milhões, comparados a sua contrapartida de US$ 130 milhões (mais aditivos) – para um estádio inaugurado em 2002.”

c) Detroit Lions: “O estádio do time, aberto em 2002, custou US$ 430 milhões. Cerca de um terço foi financiado com dinheiro público, de acordo com a Reuters.”

4) A NFL é uma associação de proprietários. O único jeito de entrar é comprando um time – o que acontece com certa frequência, porque os bilionários gostam de esporte e/ou como medida para diversificar investimentos.

Mesmo neste ambiente em que times deixam de existir ou abandonam cidades e torcedores em função das vontades de seus proprietários – uma lógica de afiliação esportiva completamente diferente daquela que existe entre torcedores e clubes de futebol no Brasil, por exemplo -, o esporte é uma ferramenta poderosa para atrair recursos públicos de forma a aumentar a fortuna dos ricos.

Por tudo isto, esta fonte aponta possibilidades interessantes de pesquisa da história do esporte ligada à história econômica. Além disso, traz elementos sugestivos em termos do esporte como um ramo de investimento (ou seja, como um dos setores em que os bilionários colocam seu dinheiro). Imagino que exista uma fila de bilionários esperando a oportunidade de comprar um time da NFL e entrar no seleto rol.

5) As mudanças de cidade, os motivos que levam a elas, as negociações dentro (com os demais donos) e fora (com prefeitos, governadores, emissoras de televisão etc.) das ligas, as exigências e ofertas (quanto a isenção de impostos e a construção ou reforma de estádios, por exemplo) são um rico e, a meu ver, interessante objeto para o historiador.

Além disso, permitem perceber que o mundo do esporte é muito mais diverso do que as competições e estruturas mais valorizadas pela imprensa e pesquisadas nas ciências humanas no Brasil (clubes de futebol, Jogos Olímpicos, Copas do Mundo de futebol masculino) e, quiçá, contribuir para desnaturalizarmos um pouco estas estruturas. Afinal, os modos de formar e organizar competições, ligas, atletas e associações são múltiplos. O que entidades como FIFA, COI e afins tentam é igualar “o esporte” à estrutura que dominam (inclusive através de ameaças de banimento dos desviantes e discordantes). Pesquisas históricas podem ajudar a lançar luz sobre: como os mecanismos e projetos hoje hegemônicos foram construídos e legitimados ao longo do tempo; como se tornaram projetos vencedores; e quais (outros) projetos ficaram pelo caminho (derrotados, abandonados, inviabilizados) ou continuam existindo, embora não sejam hegemônicos e/ou tenham pouca visibilidade.

6) Por fim, cabe registrar que um bom trabalho de história inclui cruzamento de fontes, algo que eu não fiz neste texto. Portanto, posso eventualmente estar embarcando em erros ou exageros cometidos pelo jornalista.


O sonho de Kassim

23/09/2013

Rafael Fortes

Preâmbulo

“Sonho de Kassim – Surfista Israel”. Assim estava escrito no DVD que coloquei para rodar no aparelho. O texto de hoje do blogue era meu e eu estava sem ideia de tema. “Vou aproveitar para ver aquele filme sobre surfe e Israel”, pensei. Seria uma oportunidade de voltar a dois temas que tanto me interessam (na verdade, o que mais me interessa no segundo é aquilo que o país não deixa existir: um outro chamado Palestina).

Botei o filme para rodar e… era sobre um boxeador ugandense radicado nos EUA. “A cavalo dado não se olha os dentes”, diz um ditado popular que minha mãe costumava repetir durante minha infância. Uma das coisas legais deste grupo de pesquisa é a troca de presentes, agrados, lembranças e referências entre os membros. Um colega gentilmente gravou e me deu o DVD – e anotou o nome errado meio certo, meio errado. Vamos ao filme, então.

O Sonho de Kassim

O Sonho de Kassim – Do horror da guerra à glória no boxe (o título inventado no Brasil é praticamente uma sinopse) é um documentário narrando a trajetória de Kassim Ouma, natural de Uganda e boxeador profissional nos Estados Unidos. Kassim The Dream (título original), foi produzido em 2008 e lançado no ano seguinte, sob direção de Kief Davidson. Eis o trailer:

Como é comum no boxe, ele tem um apelido, usado entre o nome e o sobrenome: Kassim “The Dream” Ouma. Não sei se é coincidência, mas o apelido, “O Sonho”, é o mesmo de “um dos maiores jogadores da história” da principal liga norte-americana de basquete (a National Basketball Association, NBA): o nigeriano Hakeem “The Dream” Olajuwon. Ambos africanos que fizeram sucesso no esporte profissional nos EUA.

A história começa a ser contada com o rapto que ele sofre na escola, aos seis anos de idade. Na montagem paralela, a luta em que se tornará detentor do cinturão da Federação Internacional de Boxe (FIB). Kassim desertou quando estava nos EUA para participar de um campeonato mundial militar, como boxeador do exército ugandense.

Filme de boxe, filme biográfico

A história de vida do protagonista é incrível. Sobre o passado, somos informados de que matou e torturou muita gente quando participava de um grupo armado em seu país. “Torturar pessoas era divertido. Porque eu era criança”, explica, para, em seguida, explicar que apenas cumpria ordens e que se arrepende do que fez. Segundo o lutador, o boxe é uma “terapia” que lhe ajuda a lidar com tal passado.

Kassim ficou muitos anos sem ver a mãe, até conseguir levá-la para viver com ele nos EUA (ao final do período de produção do filme, Kassim morava na Flórida com a mãe e seus dois filhos). Segundo relata, seu pai foi assassinado por vingança, devido à deserção do filho.

No presente da narrativa, acompanhamos cenas do período em que o filme é produzido. Não apenas sua rotina de treinos e lutas, mas os dramas pessoais para levar para os EUA seu primeiro filho (que morou em Uganda durante muitos anos) e conseguir visitar o país natal. Após enfrentar muitas dificuldades, Kassim consegue ambos os objetivos.

Particularmente notáveis são as cenas gravadas em Uganda, desde a recepção com festa no aeroporto até a entrevista com o comandante das forças armadas, passando pelo contato com crianças, a visita à avó, o retorno à cidade natal (onde é recebido como ídolo) e a visita ao túmulo do pai, por cuja morte o protagonista se sente responsável.

Comum tanto nas biografias como nas películas de boxe, temos na tela uma trajetória individual de superação. O garoto que teve infância e adolescência trágicas  torna-se ídolo nos EUA e ganha o cinturão da Federação Internacional de Boxe (FIB), uma das principais da modalidade. Depois, perde o título por causa de farras. Depois tenta (e perde) conquistar o título mundial em outra categoria…

Boa parte da narração acontece em primeira pessoa. Quando escrevi que se tratava de um “documentário narrando” a trajetória do boxeador, é um jeito de falar. Outro seria que se trata de uma construção (entre muitas possíveis) de uma trajetória (entre muitas possíveis) do boxeador.

Seja como for, é um filme impressionante – menos pela construção da obra cinematográfica e mais pela trajetória do personagem -, que permite a discussão de temas como imigração, consumo, os imaginários ligados aos EUA (como terra que acolhe imigrantes, terra da liberdade e onde os capazes conseguem vencer etc.), relações internacionais (incluindo as deserções de esportistas e suas implicações) e uso de drogas por atletas (Kassim fuma maconha regularmente).

Leituras recomendadas

Sobre as crianças-soldado, só que na África Ocidental, recomendo o romance Alá e as crianças-soldado, de Ahmadou Kourouma, editado no Brasil numa série bem interessante, Latitude, da Editora Estação Liberdade.

Sobre filmes de boxe, o artigo “Cinema, corpo, boxe: reflexões sobre suas relações e a questão da construção da masculinidade”, de Victor Andrade de Melo e Alexandre Fernandez Vaz. In: MELO, Victor Andrade de; DRUMOND, Maurício (org.). Esporte e cinema: novos olhares. Rio de Janeiro: Apicuri, 2009. p. 95-143.