Histórias do esporte e das práticas corporais em Rubem Fonseca (parte 2)

26/04/2020
Por Fabio Peres

Em A grande arte (1983), romance de Rubem Fonseca, o protagonista-narrador Mandrake nos conta que:

[…] lembrava do primeiro dia: uma noite, ia passando pela avenida Ataulfo de Paiva e vi as janelas iluminadas de uma academia de ginástica. Desde os tempos de Eva Cavalcanti Meier eu ficara fascinado pelas mulheres que faziam ginástica. Mas essa era outra história. Na academia várias mulheres corriam em fila, ao som de música que não se ouvia da calçada. A frente, de malha preta, uma mulher alta e magra, de pernas longas e fortes, o pescoço meio curvado, movimentava-se sem esforço. Esperei a aula acabar e ela sair. Abordei-a na rua. “Estava vendo você fazer ginástica. Parecia um cavalo num quadro de Ucello”, eu disse. “Eu sei quem é Ucello”, ela disse, “da Uffizi”. Não era o da Uffizi era o do Louvre, o negro do centro, com as patas levantadas, mordendo os freios, o focinho torcido para a esquerda. Ela não falava com estranhos, mas meu rosto inspirava confiança a todas as mulheres do mundo. Além disso, era a primeira vez que alguém lhe dizia que ela parecia um cavalo (grifos nossos).

Em um post anterior, defendi que talvez poderíamos usar o adjetivo esportivo para qualificar a literatura de Rubem Fonseca, escritor recém falecido no último dia 15.

O argumento – na época de publicação do post – era que, não apenas o fenômeno esportivo esteve frequentemente presente desde os seus primeiros escritos, como também as diferentes narrativas para representar as práticas esportivas e corporais  eram impregnadas de temporalidades e espacialidades que lhe conferiam uma, por assim dizer, consciência histórica.

A Batalha de San Romano (c. 1435 a 1440). Paolo Uccello. Museu do Louvre (Paris, França). Obra mencionada em A Grande Arte (FONSECA, 1983), na qual a ginástica realizada por uma personagem é comparada ao cavalo negro representda no centro do quadro.

Ao defender a possibilidade de tratar a literatura de Fonseca como objeto ou fonte histórica, a provocação era uma forma de perturbar os limites e as fronteiras do campo da História do Esporte; uma maneira de nos ajudar a entrever histórias justapostas e entrecruzadas à prática esportiva: histórias “do corpo, de gênero, da cidade, de classe, da discriminação racial, da homofobia”, entre tantas outras, que a obra fonsequina é capaz de revelar.

Se as histórias são mais ou menos conservadoras ou críticas, lineares ou complexas, ambíguas ou unívocas, sem nuances, é algo que a História do Esporte ainda precisa melhor investigar. Constitui um duplo e intrincado desafio de reconstruir o universo do autor, historicamente situado, e o “mundo” que o texto procura expressar.

Como forma de homenagear o “realismo feroz” de sua obra, como definiu Antonio Candido (1989, p.210), e sua literatura esportiva, reproduzo a seguir o conto O desempenho, publicado em 1969 no livro Lúcia McCartney, no qual uma luta de Vale-tudo é narrada em primeira pessoa.

Clique na imagem para acessar O desempenho (1969).

Sem dúvida, a “vida pregressa como boxeador, jogador de basquete, atleta aquático (chegou a nadar três vezes por semana do Morro da Viúva à Praça 15)” de Rubem Fonseca – como relata seu amigo, jornalista, também escritor, Sergio Augusto (2020) – ajuda a entender a presença e a estética atribuída a tais práticas em suas obras. Mas essa história ficará para um próximo post.

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AUGUSTO, Sérgio. Zé Rubem. Estado de S. Paulo. Especial, H8, 25 de abril de 2020.

CANDIDO, Antonio. A educação pela noite & outros ensaios. Rio de Janeiro: Ática, 1989.


As ideias de Jahn na sociedade da Corte: Deutscher Turnverein

24/11/2019

Fabio Peres e Victor Melo[i]

 

Em 1859, se estruturou, no Rio de Janeiro, a Sociedade Alemã de Ginástica (nos jornais também, por vezes, chamada de Clube Ginástico Alemão), a pioneira agremiação dessa natureza na América do Sul. Sua primeira sede se localizava na Praia de Santa Luzia[ii], no centro da cidade, provavelmente na residência de um dos membros da diretoria, H.W. Reimer[iii].

Em 1861, o clube foi convocado a se ajustar ao decreto 2.711, de 19 de dezembro de 1860[iv]. Deveria solicitar tanto autorização para funcionamento quanto a aprovação de seus estatutos, para que não incorresse no artigo 5º do decreto 2.686, de 10 de novembro de 1860[v]. Quase um ano depois, em outubro de 1862, a agremiação recebeu a licença para continuar a funcionar[vi].

Seus estatutos, contudo, sofreram alterações, claramente indicações do exercício do controle governamental. Uma das exigências estabelecidas é que fosse suprimido o artigo que indicava que a Sociedade seria regida pelas regras germânicas. Exigia-se ainda que o uniforme do clube somente fosse “usado dentro dos edifícios, e lugares sociais, e não nas ruas, ou praças públicas”[vii]. No futuro, o mesmo não será solicitado de outros grupos ginásticos. Tal decisão, naquele momento, pode ter algumas razões: a preocupação com a exibição pública de símbolos de outras nações; ou mesmo simples mudanças de critérios, que, de fato, nem sempre foram muitos claros.

Devemos lembrar que a Alemanha somente concretizou o seu processo de unificação em 1871. Esse aspecto deve ser levado em conta para melhor entendermos o perfil das agremiações germânicas no Brasil instaladas, inclusive o caso da Sociedade Ginástica Alemã. Ajuda a compreender, por exemplo, a força com que certos símbolos eram cultuados, um sinal de desejo de fortalecimento de uma identidade que, embora de construção bastante antiga, ainda estava se estruturando como Estado-Nação[viii].

Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro (RJ), 1867, p.378.

Nos estatutos, estabeleceu-se um nome alemão de referência junto a sua denominação (“Deutscher Turnverein, Sociedade Ginástica Alemã”), bem como o idioma germânico como o que deveria ser adotado nas reuniões. Além de deixar claros os vínculos com a Alemanha, esses artifícios estabeleciam um perfil desejado de associado.

Havia três categorias de sócios: ativos, aqueles que participavam dos exercícios ginásticos; passivos, que não participavam dessas atividades; e alunos de ginástica, categoria destinada aos menores de 18 anos. Somente aos primeiros era concedida a prerrogativa de deliberar nas assembleias, sinal de que a prática era mesmo considerada de importância na agremiação.

Os intuitos do clube eram assim explicitados:

a) Cultivar as forças físicas e intelectuais dos seus membros;

b) Estabelecer relações entre todos os Alemães existentes no Brasil[ix].

Sua fundação tinha motivações semelhantes às que levaram à criação de outras congêneres alemãs, como a Sociedade Germânia, fundada em 1821 e até hoje existente[x]. Era a materialização do desejo de um grupo de estrangeiros de estabelecer laços de sociabilidade ao redor de hábitos culturais de seu lugar de origem. Deixava-se claro nos estatutos que “Cada novo membro é considerado como irmão e amigo”.

Estabeleceu-se como divisa “Frisch, Fromm, Froehlirh, Frei (Fresco, bom, allegre, livre)” e como saudação “Gut Heil (boa ventura)”[xi]. Tratava-se de uma clara vinculação com as ideias de Friedrich Jahn, principal líder do movimento alemão de ginástica, no qual a prática era concebida como uma escola de vida, com regras morais muito bem definidas[xii]. Nas Turnverein, que no Brasil foram muito atuantes em outras cidades (como São Paulo, Juiz de Fora e cidades da região sul do país), concebia-se que os exercícios deveriam estar a serviço da aquisição de determinados comportamentos[xiii].

Essas concepções manifestavam-se claramente na dinâmica cotidiana da sociedade. Os estatutos procuravam garantir de forma rigorosa o seu bom funcionamento. O presidente gozava de grande poder, mas tinha que se reportar, em muitos casos, ao Conselho, uma diretoria formada por 11 membros. Entre os cargos, percebe-se a valorização de algumas atividades: além da ginástica, o canto e a leitura.

Muitos eram os itens destinados a regulamentar a prática da ginástica. Havia indicações sobre a manutenção dos espaços e aparelhos, bem como sobre a dinamização dos ensaios/aulas, dirigidos pelos que melhor desempenho demostrassem: “Os ensaiadores serão escolhidos entre os membros da primeira divisão[xiv]. Superioridade na execução dos exercícios e vivo interesse para a Sociedade decidem a escolha”[xv]. Mais ainda, previa-se: “Os ensaiadores executam os exercícios uma vez por semana na presença do Presidente”[xvi].

Vejamos, portanto, que, a princípio, não se previra a contratação de professores. Os ensaiadores eram escolhidos entre os sócios, considerados personalidades de grande importância. Todos deveriam seguir suas determinações nas aulas/ensaios. Previa-se que:

“Ao ensaiador é lícito excluir da sua divisão qualquer membro que não se portar convenientemente; deverá, porém findos os exercícios, comunicá-lo ao Presidente, cuja resolução determinará mais especialmente as providências que se devem dar”.

Com o decorrer do tempo, houve professores contratados? Não conseguimos identificar. De fato, das sociedades ginásticas que existiram no Rio de Janeiro, o clube dos alemães foi o mais discreto. Nas fontes consultadas, somente eventualmente se vislumbra algo de suas atividades. Por exemplo, em um relatório publicado na Revista Agrícola do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, a respeito do funcionamento do Jardim Botânico, ficamos sabendo que, em 1884, a colônia alemã organizou uma festividade em honra do Príncipe da Prússia, composta por um banquete, música, canto, ginástica e dança”[xvii]. Não muito mais do que isso. Vejamos que a informação sequer foi publicada em um periódico de grande circulação.

De toda maneira, é possível perceber que o clube se manteve bem ativo no decorrer do século XIX, não só no que se refere aos exercícios ginásticos, como também promovendo atividades sociais, como bailes, saraus, passeios, reuniões de associados[xviii].

Mais conhecida e ativa na vida social da Corte foi a Sociedade Francesa de Ginástica, fundada em 1863. Mas essa história ficará para um próximo post.

 

[i] Texto foi publicado originalmente em MELO, Victor Andrade de; PERES, Fabio de Faria. A gymnastica no tempo do Império. Rio de Janeiro: 7Letras/Faperj, 2014. (Coleção Visão de Campo).

[ii] Em 1874, o clube já estava instalado na Ladeira do Castelo. Em 1884, transferiu-se para a rua do Riachuelo (na Imperial Fábrica de Cerveja Nacional, de Henrique e Leon Leiden). Dois anos depois se localizava na rua da Misericórdia (próxima ao Castelo); em 1888, na rua da Ajuda (nas redondezas da atual Cinelândia).

[iii] Almanak Laemmert, 1862.

[iv] Brasil. Decreto nº 2.711, de 19 de dezembro de 1860. Contém diversas disposições sobre a criação e organização dos Bancos, Companhias, Sociedades anônimas e outras (Coleção de Leis do Império do Brasil – 1860, p. 1125, v. 1, pt II). Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-2711-19-dezembro-1860-556868-publicacaooriginal-77043-pe.html>. Acesso em: 26 mai. 2013.

[v] Brasil. Decreto nº 2.686, de 10 de Novembro de 1860. Marca o prazo dentro do qual os Bancos e outras Companhias e Sociedades anônimas, suas Caixas Filiais e agências, que atualmente funcionam sem autorização e aprovação de seus Estatutos, devem impetra-las (Coleção de Leis do Império do Brasil – 1860, p. 1061, v. 1, pt II). Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-2686-10-novembro-1860-556835-publicacaooriginal-77005-pe.html>. Acesso em: 26 mai. 2013.

[vi] Brasil. Decreto nº 2.980, de 2 de Outubro de 1862. Concede á Sociedade Alemã de Ginástica autorização para continuar a exercer as suas funções, e aprova os respectivos Estatutos (Coleção de Leis do Império do Brasil – 1862, p. 348, v. 1, pt. II). Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-2980-2-outubro-1862-555720-publicacaooriginal-75087-pe.html>. Acesso em: 26 mai. 2013.

[vii] Brasil, 1862, op. cit.

[viii] Para mais informações, ver Andrade (2007).

[ix] Brasil, 1862, op. cit.

[x] Para mais informações sobre a Sociedade Germânia, ver <http://cidadesportiva.wordpress.com/2011/08/27/germania-o-mais-antigo-clube/>. Acesso em: 26 mai. 2013.

[xi] Brasil, 1862, op. cit.

[xii] Para mais informações sobre as propostas de Jahn, ver estudo de Quitzau (2011).

[xiii] Na verdade, a ideia de turnen, que em sentido literal se refere à ginástica (como verbo ou substantivo), também incluía jogos, caminhadas, teatro e coral (TESCHE, 2000).

[xiv] Havia um ensaiador para cada divisão, turma formada por nível de desempenho.

[xv] Brasil, 1862, op. cit.

[xvi] Entre os ensaiadores, sabemos, por exemplo, por uma homenagem pelo clube realizada, que um dos mais ativos foi o dinamarquês Adolphe Jorge Guilherme Hamann. Em 1866, quando a Sociedade era presidida pelo mestre de ginástica H. Frey, um professor de esgrima é admitido no Conselho (M. Sturzenecker).

[xvii] Revista Agrícola do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, março de 1884, p. 123.

[xviii] Para um olhar sobre a presença de alemães na sociedade da Corte, ver Lenz (1999) e Kelli (2011).


A História de uma Policronofonia (parte 2): apontamentos sobre a educação física e a ginástica no Rio de Janeiro do século XIX

23/06/2019

Fabio Peres

No dia 27/09/1876, o jornal O Globo, em sua seção de Espetáculos, publicava um anúncio (de tamanho expressivo) do Circo Chiarini. O Circo se apresentaria em São Cristóvão às 20h daquela noite.

Logo abaixo de uma imagem de animais que se assemelhavam a zebras, o anúncio destacava “10 razões incontestáveis” para visitar o circo. Entre elas, argumentava-se que o espetáculo era:

*popular

* composto por artistas enciclopédicos;

* um divertimento para todas as inteligências;

Além desses motivos, por mais inusitado que possa parecer, o anúncio elencava como a 10ª razão para o público comparecer ao espetáculo o fato de o Circo Chiarini ser a verdadeira escola de educação física.

Afinal, desde a década de 1830 (ou seja, cerca de 40 anos até o espetáculo que seria realizado em São Cristovão), a família Chiarini se apresentava no Rio de Janeiro em circos de sua propriedade (como o Círculo Olímpico, inaugurado em 1837, no Largo da Ajuda, atual Cinelândia), depois renomeado Circo Olímpico).

O espetáculo era constituído de exercícios de força, ginástica e equilíbrio, bem como de saltos, lutas e apresentações equestres. Além também de malabarismo, dança, teatro, palhaços, entre outras performances.

E não poucas vezes a família usou a denominação “escola” para designar as práticas corporais de seu estabelecimento.

Por outro lado, cerca de 3 anos antes, em 1873, o renomado editor Alambary Luz do periódico A Instrução Pública, um dos primeiros periódicos brasileiros voltado especificamente para o campo da educação, não apenas defendia e celebrava a união das “vozes” da medicina e da pedagogia quando o assunto era a educação física e a ginástica (19/10/1873, p.385), como também demonstrava sua repugnância com a possibilidade de confusão entre “esta arte fundada nos sãos preceitos das sciencias médicas [isto é, a verdadeira ginástica] e o acrobatismo”. E conclui o seu texto: “ninguém espera saltimbancos”.

Mas afinal, quem era, naquele momento, portador legítimo da “verdadeira” educação física, da ginástica ou de outras práticas corporais?

 

Fantasmas e anacronismos

Um anacronismo comum na história da educação física e, em geral, das práticas corporais se refere a tentação de dotar certos protagonistas e instituições sociais do conhecimento do que aconteceu depois: como se aqueles atores sociais (investigados) antecipassem ou tivessem conhecimento do que eles se tornariam no futuro (NOVAIS, 2000). O historiador muitas vezes esquece que ele conhece a história, mas os personagens da história não.

Esse “pecado dos pecados, o pecado dentre todos imperdoável”, como o denominou Lucien Febvre (2009, p.33), embora nem sempre fácil de se desvencilhar no cotidiano da pesquisa[1],  consiste em “vestir” determinados atores  e contextos “com as roupas talhadas em outras épocas” e em outros lugares (ALENCASTRO, 1991).

Ainda caímos no contrassenso de pensar certos atores e instituições sociais com “roupas” de outras épocas e de outros lugares.

No caso da ginástica e da educação física, alguns estudos sugerem que era fraca sua manifestação no Rio de Janeiro do século XIX (MORENO, 2001), bem como enfatizam uma matriz médica e pedagógica na sua conformação (PAIVA, 2003; GONDRA, 2004).

Com frequência a história narrada sobre as práticas corporais não leva em consideração que as instituições relacionadas à educação, à medicina e às “forças” armadas no século XIX não eram nem como elas se auto representavam naquele momento, nem o que elas se tornariam posteriormente e tampouco que eram exatamente equivalentes às que existiam na Europa.

Ainda que discursivamente os agentes estatais, os médicos, bem como os militares e os educadores dissessem o contrário, as instituições a que pertenciam estavam longe de ser, pelo menos no século XIX, o que certas leituras apontam.

A questão não reside no fato da ginástica e da educação física terem sido incorporadas enquanto saber médico, pedagógico ou das “armas”.

De fato, saberes sobre a prática foram sendo paulatinamente incorporados e difundidos por atores e instituições que se atribuíam o domínio de tal conhecimento (como mostrado aqui, aqui e aqui). Mas esses eram mais heterogêneos e estavam mais em disputa do que determinadas narrativas parecem fazer acreditar: por exemplo, a “modernidade da ginástica” supostamente mostraria a “sua submissão, quase total, ao mundo da higiene, da medicina e da moral” (SOARES, 2009, p. 140).

Mesmo reconhecendo a pertinência de alguns desses argumentos – ou seja, as relações entre medicina, ciência, educação, ginástica e exercícios corporais diversos – o que estamos sugerindo é que elas não são suficientes para dar conta de entender a complexidade da presença da modalidade no cenário fluminense no decorrer daquele século.  Mas os pormenores dessa história ficarão para um próximo post.

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[1] Observa-se, aliás, que outros fantasmas rodam outras disciplinas, como é o caso do etnocentrismo na antropologia.


Histórias do esporte em Rubem Fonseca (parte 1)

17/04/2017

por Fabio Peres

Cruel, realista, desconcertante, brutal, mórbido. Entre tantos termos utilizados para descrever a literatura de Rubem Fonseca, talvez possamos também adicionar o adjetivo esportivo. Afinal, basta uma breve leitura de sua obra para perceber que não são poucos os contos e romances em que o esporte e as atividades físicas, em geral, ocupam lugar – ora mais, ora menos – privilegiado.

Desde a publicação de Os Prisioneiros (1963), primeira coletânea de contos do autor, o objeto está lá, por assim dizer, em suas variadas formas; às vezes de maneira mais clara ou quase desapercebido de modo sútil. Como aponta a escritora Maria Alice Barroso, Rubem já se destacava no conto Fevereiro ou março (1963)  pela incorporação de “um excelente tipo à galeria de personagens da literatura brasileira: o atleta vagabundo, frequentador das academias de boxe, portador de uma ética toda sua” (apud AUGUSTO, 2009, posfácio)[i].

Capa da edição de 1963 de Os Prisioneiros

O personagem-narrador inicia a história descrevendo como a condessa Bernstroa, mulher casada com a qual teve um caso, explicava a manutenção de suas formas corporais:

Era uma velha, mas podia dizer que era uma mulher nova e dizia. Dizia: põe a mão aqui no meu peito e vê como é duro. E o peito era duro, mais duro que os das meninas que eu conhecia. Vê minha perna, dizia ela, como é dura. Era uma perna redonda e forte, com dois costureiros salientes e sólidos. Um verdadeiro mistério. Me explica esse mistério, perguntava eu, bêbado e agressivo. Esgrima, explicava a condessa, fiz parte da equipe olímpica austríaca de esgrima — mas eu sabia que ela mentia.

O personagem continua desfiando a história explicando como foi seu dia, um sábado de carnaval, marcado por certa imprevisibilidade e também, não por acaso, por certa angústia:

Era de manhã, no primeiro dia de carnaval. Ouvi dizer que certas pessoas vivem de acordo com um plano, sabem tudo o que vai acontecer com elas durante os dias, os meses, os anos. […] Eu — eu vaguei pela rua, olhando as mulheres. De manhã não tem muita coisa para ver. Parei numa esquina, comprei uma pera, comi e comecei a ficar inquieto. Fui para a academia.

A descrição dos exercícios na academia é acompanhada por uma série de sentidos, pensamentos, práticas e gestos:

[…] comecei com um supino de noventa quilos, três vezes oito. O olho vai saltar, disse Fausto, parando de se olhar no espelho grande da parede e me espiando enquanto somava os pesos da barra. Vou fazer quatro séries pro peito, de cavalo, e cinco para o braço, disse eu, série de massa, menino, pra homem, vou inchar. E comecei a castigar o corpo, com dois minutos de intervalo entre uma série e outra para o coração deixar de bater forte; e eu poder me olhar no espelho e ver o progresso. E inchei: quarenta e dois de braço, medidos na fita métrica.

A academia, por sua vez, é lugar de encontros, de construção (e também de desconstrução) de vínculos e laços sociais. Os amigos, frequentadores de academia -ao que tudo indica de um bairro da Zona Sul carioca –, organizam a “diversão” para aquele carnaval:  “porrada pra todo lado”. A ideia era simples. Se fantasiar de mulher e então:

O povo cerca a gente pensando que somos bichas, nós estrilamos com voz fina, quando eles quiserem tascar, a gente, e mais vocês, se for preciso, põe a maldade pra jambrar e fazemos um carnaval de porrada pra todo lado. Vamos acabar com tudo que é bloco de crioulo, no pau, mesmo, pra valer. Você topa?

Após alguns desdobramentos (e outras referências aos sentidos e usos do corpo), o narrador se auto descreve para o marido da condessa, adquirindo assim características de um novo “tipo” inserido em um meio social com senso moral e ético próprios, como chamou atenção Maria Alice Barroso:

na academia eu faço ginástica de graça e ajudo o João, que é o dono, que ainda me dá um dinheirinho por conta; vendo sangue pro banco de sangue, não muito para não atrapalhar a ginástica, mas sangue é bem-pago e o dia em que deixar de fazer ginástica vou vender mais e talvez viver só disso, ou principalmente disso. Nessa hora o conde ficou muito interessado e quis saber quantos gramas eu tirava, se eu não ficava tonto, qual era o meu tipo de sangue e outras coisas. Depois o conde disse que tinha uma proposta muito interessante para me fazer e que se eu aceitasse eu nunca mais precisaria vender sangue, a não ser que eu já estivesse viciado nisso, o que ele compreendia, pois respeitava todos os vícios. Não quis ouvir a proposta do conde, não deixei que ele a fizesse; afinal eu tinha dormido com a condessa, ficava feio me passar para o outro lado. Disse para ele, nada que o senhor tenha para me dar me interessa. Tenho a impressão que ele ficou magoado com o que eu disse […] Por isso, continuei, não vou ajudar o senhor a fazer nenhum mal à condessa, não conte comigo para isso. Mas como?, exclamou ele, […], mas eu só quero o bem dela, eu quero ajudá-la, ela precisa de mim, e também do senhor, deixe-me explicar tudo, parece que uma grande confusão está ocorrendo, deixe-me explicar, por favor. Não deixei. Fui-me embora. Não quis explicações. Afinal, elas de nada serviriam.

No mesmo livro (Os prisioneiros de 1963) novamente a ginástica, a “malhação”, bem como as competições de “físico”, típicas de academia, seriam mencionadas no conto Os inimigos; para alguns críticos da época o melhor da coletânea. Além disso, o conto que dá nome ao livro curiosamente se inicia por uma conversa entre uma psicanalista e um cliente sobre a inconveniência e mesmo inadequação de usar roupa “esportiva” no Centro da cidade, lugar por excelência de trabalho.

O panorama, por assim dizer, esportivo da literatura de Rubem Fonseca, de fato, é vasto e instigante. Por exemplo, o ambiente e os frequentadores de academia voltariam a fazer parte da obra do autor em 1965 no conto A Força Humana (do livro A Coleira do cão). Na realidade, trata-se em certo sentido de uma continuação de Fevereiro ou março. Já em 1969, o antigo Vale-Tudo seria objeto central do conto O Desempenho no famoso livro Lúcia McCartney.

Em 1979, breves referências ao futebol e ao balé apareceriam em O cobrador (no livro homônimo). Na mesma obra menções à ginástica retornariam em Mandrake (além do xadrez) e, em 1992, em o Romance Negro. Por outro lado, uma competição inusitada no Pantanal está em AA (abreviação do “esporte” de mesmo nome) em 1998 no livro a Confraria dos Espadas. Também em 1992, há uma menção à rua do Jogo da Bola – uma prática de diversão que esteve presente na cidade do Rio de Janeiro no século XVIII e XIX[ii] – em A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro.

Em 2001, exercícios aeróbicos, de alongamento e de musculação são citados em Copromancia, na obra Secreções, excreções e desatinos. Corrida na praia aparece em Caderninhos de nomes no ano seguinte em Pequenas criaturas. Em Laurinha surge mais uma vez uma referência ao futebol no livro Ela e outras mulheres de 2006. E a relação de Lima Barreto com o futebol é citada no romance O seminarista de 2009.

Mas essas e outras histórias ficarão para os próximos posts. Em todo caso, mais do que uma mera provocação, denominar a literatura de Rubem Fonseca de esportiva pode ser uma forma de perturbar os limites e as fronteiras do campo da História do Esporte; uma maneira talvez que nos ajude a entrecruzar várias histórias: do corpo, de gênero, da cidade, de classe, da discriminação racial, da homofobia, das diferentes modalidades e práticas esportivas, das emoções, da estética, da literatura, entre muitas outras histórias.

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[i] AUGUSTO, Sergio. Estreia consagradora. In: FONSECA, Rubem. Os prisioneiros. Rio de Janeiro: Agir, 2009.

[ii] Maiores informações ver MELO, Victor Andrade de. MUDANÇAS NOS PADRÕES DE SOCIABILIDADE E DIVERSÃO: O jogo da bola no Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). História,  Franca ,  v. 35,  e105,    2016 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742016000100514&lng=en&nrm=iso>. access on  17  Apr.  2017.  Epub Dec 19, 2016.  http://dx.doi.org/10.1590/1980-436920160000000105.


Educação Física, Higiene e Saúde Pública na Corte – Parte 3

20/11/2016

por Fabio Peres[i]

No século XIX, a educação física e, em particular, a ginástica se tornaram pouco a pouco em um domínio defendido pelo saber médico. Como mencionado em outras ocasiões (por exemplo, aqui e aqui), tratou-se de uma relação que se consolidou no decorrer daquele século, apesar de inúmeras controvérsias. Não apenas a comunidade médico-científica teve que “lutar” pela legitimação de suas práticas e saberes junto ao Estado e à sociedade, como também teve que lidar internamente com a regulação dos conflitos e dilemas dessa mesma comunidade.

A própria emergência da educação física nos periódicos médicos do século XIX pode ser lida como justaposição entre, por um lado, a formação e, por isso, controle de uma comunidade médico-científica que estava se conformando no período e, por outro, a instrução de um público mais amplo, reforçando a sua legitimação enquanto saber médico.

Um capítulo dessa história, mostrado em um post anterior, foi a elaboração em 1830 do relatório da Comissão de Salubridade Geral, no qual o tema foi abordado[ii]. Outro indício importante desse processo se deu dois anos depois, em 1832. A ginástica voltaria a ser objeto de atenção no Semanário de Saúde Pública (11/08/1832, n.113). A ata da sessão realizada no dia 14 de julho daquele ano informa que o capitão Guilherme Luiz Taube entregou à Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (SMRJ), para avaliação, uma memória intitulada A Short Treatise on the Physic, and Moral Effects of Gymnastic, and Kalistenic Exercises.

Taube na ocasião tinha em mente duas iniciativas: a tradução do material apresentado, escrito em inglês e abrir um estabelecimento para oferecer aulas de ginástica. O sueco exercera o cargo de mestre em um colégio de ginástica em Nova York. No Brasil, atuara como capitão do Exército Imperial (é possível, portanto, que tenha chegado depois de 1822), tendo se casado com uma brasileira. Ficara desempregado em função dos desdobramentos da Lei de 24 de Novembro de 1830[iii], motivo pelo qual desejava ministrar aulas.

Guilherme Taube solicitava que a SMRJ emitisse um parecer sobre seu tratado, atestando os benefícios dos exercícios ginásticos. A intenção era que a escola de ginástica, que pretendia estabelecer na capital, tivesse o respaldo científico da entidade. Na mesma sessão, ficara definido que o relator do parecer seria o médico De-Simoni, membro titular e secretario perpétuo da SMRJ.

Relatorio sobre huma memoria do Sr. Guilherme Luiz Taube acerca dos effeitos physicos e moraes dos exercicios gymnasticos: lido na Sociedade de Medecina do Rio de Janeiro, em 4 de agosto de 1832 (Simoni, Luiz Vicente de, 1792-1881)

Relatorio sobre huma memoria do Sr. Guilherme Luiz Taube acerca dos effeitos physicos e moraes dos exercicios gymnasticos: lido na Sociedade de Medecina do Rio de Janeiro, em 4 de agosto de 1832 (Simoni, Luiz Vicente de, 1792-1881)

 

Menos de um mês depois, o relatório foi lido em uma das sessões da SMRJ, sendo depois publicado nas edições do Semanário de Saúde Pública[iv] (o relatório completo pode ser acessado aqui). Luiz Vicente De-Simoni percebe a validade do material, mesmo reconhecendo que carece de base científica:

A Memória que o Sr. Guilherme Luiz Taube apresentou a esta Sociedade, e de cujo exame vos dignastes encarregar-me, não é trabalho de um escritor que se proponha ilustrar esta parte da ciência, mas sim de um indivíduo, que, tencionando estabelecer neste pais uma escola, aonde os exercícios ginásticos sejam praticados debaixo da sua direção; dirige-se a prevenir o público em favor do seu estabelecimento, e do objeto dele; o que, para acreditar perante o mesmo público a utilidade física, e moral deles, assim como a veracidade das asserções com que ele a afiança no seu escrito, recorre a esta Sociedade submetendo ao seu juízo e aprovação o mencionado seu trabalho; não para ela julgar da sua perfeição como obra, mas da sua veracidade como peça dirigida a um público que pode duvidar dos princípios nela expendidos, e da utilidade da instituição que ele se propõe (1832, n.119, p. 413).

Mesmo não tendo acesso ao tratado entregue à SMRJ, é possível dimensionar, pelo relatório escrito por De-Simoni, os principais argumentos que Guilherme Taube utilizou para solicitar um parecer favorável da instituição médica. Além da descrição dos possíveis benefícios físicos (como desenvolvimento da força muscular; aumento da flexibilidade, da agilidade e da energia; diminuição dos efeitos da vida sedentária) e dos morais (como a interdependência do intelecto e do físico, o incremento do brio, da coragem, da confiança, entre outros), Guilherme Taube “assevera que em diferentes partes do mundo, entre as nações mais clássicas, os exercícios ginásticos têm sido adotados, animados, e muito proveitosos, e como tais julgados necessários pelos Médicos” (1832, p. 414).

Para além dos argumentos utilizados por Taube, segundo De-Simoni já havia na época posições consolidadas, pelo menos em parte da comunidade médica, sobre o valor da ginástica:

A Sociedade sem garantir a perfectibilidade do método que o Sr. Taube se propõe empregar, o que ele não expende, pode emitir o seu parecer em geral acerca da utilidade dos estabelecimentos ginásticos, o afiançar que quanto o Sr. Taube assevera no seu escrito, sobre esta utilidade é uma verdade reconhecida por todos os Médicos, e escritores ilustrados […]. Os Médicos mais distintos por seu saber tem abonado a ginástica em todos os tempos e em todas as partes do mundo instruído (1832, p. 414).

De acordo com o membro titular da SMRJ, o parecer positivo refere-se a uma preocupação maior, ao reconhecimento da relação entre saúde e condições sociais, tão cara à naquele início de século:

[…] pois o fim desta declaração não é somente beneficiar um indivíduo que os estabelece, mas a população no meio da qual o estabelecimento vai ser erigido; por isso que as vantagens que este pode produzir podem ser grandes, e gerais, e são incontestáveis, e certas quando os exercícios sejam nele praticados com método, e debaixo dos preceitos da higiene. Trata-se neste caso, não de favorecer a instituição de hum simples estabelecimento particular, mas a de um estabelecimento público cujas vantagens poderão ser aproveitadas por muitas pessoas, e principalmente pela classe mais débil, e enferma da população; estabelecimento que até poderá influir sobre a conservação da saúde dos que o não forem, e sobre o melhoramento da constituição individual da nossa mocidade; desenvolvendo melhor seus órgãos, e a sua forca para melhor defender e servir a pátria, quer como Soldados, quer como Cidadãos, e artífices (1832, p. 414).

Para De-Simoni, a prática poderia “exercer uma grande influência sobre o caráter, a glória, e prosperidade de uma nação, e não só ela é capaz de a beneficiar debaixo de um ponto de vista higiênico, como também social, e politico” (1832, p. 415). O médico enfatizou que a relação entre a prática corporal e as ciências médicas não era uma novidade, lançando mão de um artifício argumentativo: uma mobilização da história:

As vantagens pois da ginástica não são problemáticas a face da Medicina; elas são atestadas pela história, e afiançadas pela ciência; nada há mais reconhecido, e provado do que elas. A opinião favorável dos Médicos de todos os países e de todos os séculos podemos francamente adicionar a nossa, e favorecer com ela a instituição de um estabelecimento a ela destinado, tal como o que se propõe o Sr. Taube (1832, p. 416).

Não temos informação se Guilherme Luiz Taube abriu, de fato, o referido estabelecimento que ofereceria aulas de ginástica na Corte. O que sabemos, através dos jornais, é que Taube foi nomeado mestre de ginástica do Colégio Pedro II em 1841[v].

De todo modo, pode-se entrever que já naquele momento não se tratava somente de uma ginástica, mas de uma ginástica médica, que se institucionalizava à luz dos preceitos da higiene e da saúde pública, mesmo que ainda de forma incipiente.

Anos mais tarde, a tentativa de fundar um instituto ginástico e ortopédico na Corte evidenciaria cisões e divergências na comunidade médica. Mas essa história ficará para um próximo post.

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[i] Esse post é um desdobramento das pesquisas realizadas com Victor Andrade de Melo no pós-doutorado, entre 2012-2015, no PPGHC/IH/UFRJ. Parte dele foi publicado em MELO, V. A.; PERES, F.F. A gymnastica no tempo do Império. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014.

[ii] A ata da sessão da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (19/6/1830), em que houve a aprovação do relatório,  foi posteriormente publicada no Semanário de Saúde Pública (9/4/1831).

[iii] Brasil. Lei de 24 de Novembro de 1830. Fixa as forças de terra para o anno financeiro de 1831-1832 (Coleção de Leis do Império do Brasil – 1830, p. 55, v. 1, pt. I). Disponível em: <http://www2.camara.gov.br/legin/fed/lei_sn/1824-1899/lei-37992-24-novembro-1830-565665-publicacaooriginal-89410-pl.html>. Acesso em: 18 de novembro de 2016. Por essa lei, à exceção daqueles que participaram da campanha da independência, foram mutilados ou gravemente feridos em conflitos, os estrangeiros foram demitidos e proibidos no Exército.

[iv] Inicialmente, uma síntese do parecer emitido por De-Simoni foi publicada no número 117 de 8 de setembro de 1832 (p. 405). Foi depois publicado na íntegra no número 119 de 22 de setembro de 1832 (p. 413-416).

[v] Jornal do Commercio, 8/10/1841, p.1


Educação Física, Higiene e Saúde Pública na Corte – Parte 1

15/12/2013

por Fabio Peres[i]

Em 15 de abril de 1885, a Junta Central de Hygiene Pública apresentava um relatório, cuja “espinhosa tarefa” era “levar ao conhecimento do Governo Imperial os factos mais culminantes occorridos no Império relativamente à saúde publica” (1885, p. A-F-1)[ii]. A análise da estatística das mortes na cidade do Rio de Janeiro, um dos pontos centrais do relatório, dedicava especial atenção às causas da “notável” mortalidade infantil ocorrida no ano anterior:

Serão os defeitos da educação physica que produzem tão funesto resultado? […] Incontestavelmente a educação physica das mães e das crianças não é a mais adequada ao nosso clima; a esta proposição se estende desde o recém-nascido até a criança que caminha para a adolescência. […] si considerarmos a educação physica e a hygiene escolar entre nós, achamol-as eivadas de numerosos e graves inconvenientes. Desenvolver o entendimento sem attender as necessidades do physico é realisar uma educação incompleta (1885, p. A-F-9-10-11).

Havia, nesse sentido, uma percepção ampla de educação física, que a concebia próxima à puericultura, incluindo preocupações com alimentação, vestuário e condições gerais de limpeza e higiene da infância no espaço privado e escolar. Mas além disso, também somava-se a ela uma compreensão dos benefícios específicos da prática ao corpo per se:

 E’ preciso, pois, guardar um meio termo: dar impulso ás faculdades intellectuaes sem desprezar um exercicio razoável dos órgãos corporeos. […] E’ pois necessário modificar a hygiene escolar, reformal-a pela base, derrocando a inveterada rotina que dà em resultado a formação de sábios e ao mesmo tempo de inválidos. O ensino gymnastico e militar nas escolas primarias è adoptado na Allemanha, na França e em outros paizes. Manuaes adequados são remettidos aos instituidores, assim como as collecções de apparelhos para a installação dos gymnasios escolares e um certo numero de armas para exercicio ao alvo e esgrima (1885, p. A-F11).

O relatório da Junta Central de Hygiene Pública deixava entrever, não apenas o estabelecimento da relação entre saúde, higiene e exercício corporal, como também sua institucionalização: isto é, enquanto saber médico materializado nas ações do Estado. Na verdade, Domingos José Freire[iii], presidente na época da Junta Central de Hygiene Pública, já havia assinalado no relatório do ano anterior que entre as causas que contribuíam para a incidência de epidemias e, em particular, da tuberculose na cidade estavam os “nossos hábitos que condenmam o exercício”, a “vida sedentária” e a “inacção” (1884, p. A-F2-24)[iv].

Relatório do Presidente da Junta Central de Hygiene Pública (1885)

Devemos ter em vista um pouco do contexto em que se insere a produção do relatório. Como se sabe, as relações entre higiene, medicina e saúde estruturaram projetos públicos e privados de educação (sobretudo, escolar) da população brasileira no decorrer do Império. Em maior ou menor grau, tais projetos envolviam uma concepção de educação física, que mobilizava a articulação entre domínios corporais, morais e intelectuais, adequada à nação moderna e civilizada que se pretendia construir, ao mesmo tempo, em que era necessário lidar com condições econômicas, políticas e sociais específicas e concretas de um país recém-independente, periférico e ainda em formação (Melo, Peres, 2013). Aliás, não é por acaso que frequentemente o tema tem sido abordado a partir da perspectiva da história da educação (e não de outras áreas, por exemplo).

Por outro lado, a Junta Central de Hygiene Pública, inicialmente chamada apenas de Junta de Hygiene Pública, foi criada em 1850[v], como um dos principais desdobramentos das medidas que tinham o objetivo de melhorar o estado sanitário da capital e do Império, em geral. Uma epidemia de febre amarela acabara de assolar a Corte, colocando na ordem do dia a salubridade pública e as condições higiênicas da cidade. Estima-se que entre a população de 166 mil habitantes, cerca de 90 mil contraíram a doença, provocando 4.160 mortos (alguns estudos calculam que esse número pode ter chegado a 15 mil óbitos)[vi].  Nesse cenário, a Junta possuía, entre outras atribuições, propor ao governo as ações necessárias para promover a salubridade pública e exercer o papel de polícia médica e sanitária[vii].

Posteriormente, outras enfermidades e epidemias se abateram sobre a população da Corte, bem como a do resto do país, aumentando bastante as taxas de mortalidade: além da febre amarela, cólera, tuberculose, disenterias, malária, entre tantas outras enfermidades, que eram lidas e tratadas através das teorias médicas e de diversas outras práticas não-científicas. O que reforçava o papel e as responsabilidades da Junta em melhorar as condições de saúde da capital, incluindo preocupações com a educação física da população.

Contudo, a relação entre educação física, exercícios corporais e saúde pública – presente no relatório de 1885 e que no final do século XIX e começo do XX se tornaria cada vez mais frequente e intensa – não era gratuita e nem óbvia. Tratava-se de uma construção que se deu de forma lenta, paulatina e muitas vezes pouca harmônica entre atores, práticas e ideias que configuravam o saber médico-científico do século XIX.

Cerca de meio século antes da publicação do relatório de 1885, médicos da Corte já apontavam a importância de tal associação. E mesmo logo após a sua criação, a Junta Central de Hygiene Pública já enredava (às vezes de maneira fina) essa tessitura. Mas essa história fica para um próximo post.


[i] Esse post é fruto das conversas e pesquisas realizadas no âmbito do projeto “O corpo da nação: educando o físico, disciplinando o espírito, forjando o país: as práticas corporais institucionalizadas na sociedade da Corte (1831-1889)”, que conta com o apoio da FAPERJ e do CNPq e é coordenado por Victor Andrade de Melo.

[ii] FREIRE, Domingos José. Relatório do Presidente da Junta Central de Hygiene Publica. In: BRASIL. Ministério do Império. Relatorio do anno de 1884 apresentado a assemblea geral legislativa na 1ª sessão da 19ª legislatura (publicado em 1885). Rio de Janeiro: Ministério do Império. p.A-F-1 – A-F-9. 1885.

[iii] Maiores sobre o médico Domingos José Freire ver BENCHIMOL, Jaime Larry. A instituição da microbiologia e a história da saúde pública no Brasil. Ciênc. saúde coletiva. 2000, vol.5, n.2, p. 265-292 e BENCHIMOL, Jaime L. Domingos José Freire e os primordios da bacteriologia no Brasil. Hist. cienc. saude-Manguinhos, Jun 1995, vol.2, no.1, p.67-98 .

[iv] FREIRE, Domingos José. Relatório apresentado ao governo imperial pelo Dr. Domingos José Freire, Presidente da Junta Central de Hygiene Publica. Epidemias na cidade e subúrbios. Endemias. Tuberculoses pulmonares. In: BRASIL. Ministério do Império. Relatorio do anno de 1883 apresentado a assemblea geral legislativa na 4ª sessão da 18ª legislatura (publicado em 1884). Rio de Janeiro: Ministério do Império. p.A-F2-1 – A-F2-39. 1884.

[v] Decreto nº 598, de 14 de Setembro de 1850. Concede ao Ministerio do Imperio hum credito extraordinario de duzentos contos para se exclusivamente despendido no começo de trabalhos, que tendão a melhorar o estado sanitario da Capital e de outras Povoações do Império.

[vi] Maiores detalhes da epidemia de 1850 ver artigo “A morte anunciada” de Monique de Siqueira Gonçalves em http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/a-morte-anunciada

[vii] Posteriormente, em 1851, foi promulgado o Decreto nº 828, de 29 de Setembro que detalha e manda executar o regulamento da Junta de Hygiene Publica.


 

MELO, V. A., PERES, F. F. O corpo da nação: posicionamentos governamentais sobre a educação física no Brasil monárquico. História, ciências, saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, 2013, no prelo.


Política, literatura e atributos atléticos: comparações e analogias no século XIX

25/08/2013

por Fabio Peres[i]

Logo após a conquista da Copa de 62, Carlos Drummond de Andrade propôs em tom de graça e entusiasmo que a seleção brasileira deveria ocupar todos os postos ministeriais. Afinal, a vitória não significava pouca coisa. O bicampeonato “lavou os corações“, “uniu os desafetos” e “tornou possível a solução imediata dos problemas que nos afligem“. A crônica, publicada em 20 de junho de 1962, no Correio da Manhã (p.6), destacava com certa ironia as vicissitudes da conjuntura política da época:

“Este bi veio na hora H. Os políticos procuram um rumo para a nação e não o encontram, ou querem encontrá-lo fora do lugar. A mudança do Gabinete, que devia ser caso de rotina, assumiu ares de problema grave, e ninguém sabe como compor a nova equipe dirigente. Ninguém? É exagero. Modestamente vos proponho a equipe ideal, que não é nem pode ser outra senão a equipe detentora da Taça Jules Rimet […]”.

O escrete que compunha a então Seleção de Ouro possuía, de acordo com Drummond, as qualidades necessárias, tanto pessoais como técnicas, para o desempenho das funções do Gabinete e de cada pasta ministerial:

“Naturalmente o primeiro-ministro há de ser o Mauro, capitão do escrete. Bem o merece. É zagueiro, isto é, jogador de defesa e não do ataque, e isso convém a um primeiro-ministro, que se requer cauteloso, resistente, preocupado em proteger nossa vasta retaguarda […] Um velhinho sabido como Nilton Santos fica certo na Justiça, para distribuí-la ou negá-la como de mister, impor respeito e conduzir o jogo político à base de vivências, usando se preciso, seus traiçoeiros disparos. Na Fazenda, pede-se Gilmar, tão econômico no deixar passar gols; defendeu a meta como o Tesouro […]” (20/06/1962, p.6).

E por aí vai Drummond escalando o time de ministros. Didi, hábil em estabelecer com estilo e elegância nossa “independência no meio campo das nações“, para o cargo de  chanceler. Zagalo, pela sua polivalência, poderia estar em várias pastas (Agricultura, Indústria e Comércio, Minas e Energias ou Viação). Garrincha teria o privilégio de escolher aquela que fosse de seu agrado (afinal, “todo Ministério é pouco para este em sua simplicidade arguta“). Vavá e Amarildo sorteariam entre si a da Guerra. E os outros jogadores, bem como a comissão técnica, não seriam esquecidos, havendo lugar para todos. No caso de Pelé, “até ministro sem pasta honraria o Gabinete” (a crônica pode ser lida na integra no final do post).

Mas o que tudo isso tem a ver com a ginástica e a política praticadas no século XIX?

Nos últimos posts, argumentamos que o espraiamento da ginástica na sociedade da Corte se deu de forma multifacetada, através de um conjunto variado de atores, ideias e instituições (e não de maneira linear e unívoca como as teses, em geral, têm defendido). Não por acaso, chegamos a destacar em outra ocasião (Melo & Peres, 2013) que o termo no singular não seria nem mesmo o mais apropriado: existiam ginásticas, com diferentes técnicas e funções, que se manifestavam no Segundo Reinado.

Como diversas fontes têm sugerido, a presença de tais práticas na vida social carioca era maior do que se poderia supor. Talvez alguns dos indícios mais significativos dessa presença sejam aqueles justamente em que a ginástica figura em situações e espaços sociais que não são comumente identificados nas pesquisas tradicionais como “o” foco de origem de sua “difusão” ou “imposição”. Além das escolas, das instituições médicas, das instituições de defesa e, de modo geral, do Estado, a ginástica também estava nos teatros, nos circos e, por incrível que possa parecer, na literatura do século XIX.

Por certo, muito longe de gozar da mesma popularidade do futebol na época da crônica de Drummond, as referências literárias à ginástica podem ser encaradas como um sinal, entre outros, de sua vulgarização; que se dava, é bom lembrar, de modo desigual e heterogêneo entre os estratos sociais da cidade.

Em 1855, Joaquim Manuel de Macedo estabeleceu – assim como faria Drummond aproximadamente um século depois[ii] – relações entre atributos políticos e atléticos[iii] em suas obras. Também em tom zombeteiro sobre a troca de ministros e o oportunismo político, o escritor destacava em “A carteira de meu tio” que o estadista deveria aprender a arte da ginástica[iv].

O romance, que foi publicado em forma de folhetim na Marmota Fluminense, é narrado sob a perspectiva do sobrinho (do tio em questão), que decide, depois de passar alguns anos na Europa, ingressar na vida pública brasileira e se tornar político. Com traços que beiram o realismo, a obra – também caracterizada como uma crônica romanceada – traz à tona de maneira bastante bem-humorada o confronto entre, de um lado, as abstrações das leis (presentes na Constituição de 24, chamada no romance como defunta) e, de outro, a realidade e o cotidiano da pátria em meados do século XIX. Nesse cenário, em que há mistura de história e ficção, a sátira e a ironia são utilizadas como crítica à sociedade política imperial[v].

O trecho descrito na Marmota Fluminense (08/05/1855) começa quando o protagonista querendo se esquivar de uma visita indesejada, pula por uma janela, entrando em casa, sem que o visitante perceba: “de um salto puz-me dentro, e fui pé ante-pé recolher-me ao meu quarto“.  E cinicamente dispara contra as intempéries políticas do Império:

“Não tenho vergonha da acção, que pratiquei: não são somente ladrões e os namorados, que entram pelas janellas em vez de entrar pelas portas; os grandes políticos da escola do eu, que como se sabe, é predominante na actualidade, as vezes, e sempre que necessário aos seus interesses, pulam também pelas janellas para dentro do ministério, e até mesmo se sujeitam, a fim de chegar ao poleiro, a espremer-se tanto, que chegam a fazer caminho por qualquer buraquinho de rato” (p.1, grifos do autor).

Complementa o protagonista, fazendo referência à ginástica enquanto ponte tragicômica entre a análise pragmática da política e o sentido figurado e alegórico da prática corporal:

“É por isso que eu sustento que a gymnastica é uma arte indispensável aos estadistas: a politica toda se reduz a saber atacar e retirar, saltar e correr, agarrar e comer, tudo muito opportunamente […] só quem já foi ministro duas ou trez vezes pelo menos, e aproveitou-se do ministério para arranjar a vida, é que póde deitar-se todas as noites em colxões macios. Eu heide chegar lá; porque bons mestres me tem dado exemplos admiráveis, e aberto uma estrada, em que não se acha estrepe, nem atoleiro ” (08/05/1855, p.1-2, grifos nossos).

O romance de Joaquim Manuel de Macedo é apenas um exemplo da presença da ginástica na literatura do século XIX. Muitas referências podem ser encontradas nos periódicos do Segundo Reinado. Várias delas utilizaram o termo “ginástica” em sentido figurado[vi]. Tal polissemia, a nosso ver, estava associada a um compartilhamento, mesmo que mínimo, do que significava ginástica e dos papéis e valores atribuídos a ela, possibilitando assim usos por metáfora, metonímia, extensão de sentido etc. Mas isso fica para outra ocasião.

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EM TEMPO 1: este post é dedicado ao seu Oswaldo (in memoriam); amante e profundo conhecedor de futebol, samba, política e, sobretudo, da vida.

EM TEMPO 2: em sua homenagem, reproduzo a seguir a crônica “Imagens da Vitória. Seleção de Ouro” de Carlos Drummond de Andrade, publicada em 20/06/1962 no Correio da Manhã (p.6).


[i] Esse post é fruto das conversas e pesquisas realizadas no âmbito do projeto “O corpo da nação: educando o físico, disciplinando o espírito, forjando o país: as práticas corporais institucionalizadas na sociedade da Corte (1831-1889)”, que conta com o apoio da FAPERJ e do CNPq e é coordenado por Victor Andrade de Melo.

[ii] Vale destacar que desde 1931, pelo menos, o tema futebol esteve presente de forma intermitente nos escritos de Carlos Drummond de Andrade. Com a conquista da Copa de 58, ele já havia aventado a possibilidade do presidente convidar determinados jogadores para pastas ministeriais. Maiores informações ver ANDRADE, Carlos Drummond. Quando é dia de Futebol.  Rio de Janeiro: Record, 2002.

[iii] Estamos utilizando o termo “atlético”, considerando que a ideia de desempenho atlético não se restringe exclusivamente a requisitos corporais ou físicos tomados em sentido stricto.

[iv] Joaquim Manoel de Macedo também fez menção à ginástica na obra Memórias da Rua do Ouvidor (1878), publicada originalmente em folhetins semanais no Jornal do Comércio.

[v] Maiores informações ver QUEIROZ, J. M. A carteira de meu tio: ficção e história em Joaquim Manuel de Macedo. Revista Brasileira de História e Ciências Sociais, v. 2, p. 1-10, 2010.

[vi] Não era raro, por exemplo, o uso da noção “ginástica política”, geralmente utilizada como categoria de acusação, isto é, em sentido pejorativo.

 


Educação física encenada: a gymnanstica-espetáculo em diferentes instituições na Corte

05/05/2013

por Fabio Peres[i]

As apresentações de ginástica – como mostramos no último post – se tornaram um dos espetáculos mais fascinantes e divertidos da sociedade carioca no século XIX. As inúmeras exibições realizadas nos teatros e circos faziam parte de um conjunto de diversões presente na cidade. Não por acaso, as modalidades e designações de tais apresentações eram bastante variadas: ginástico-dramáticas (inseridas em uma narrativa teatral); ginástico-acrobáticas (com ênfase nas acrobacias, por exemplo, de equilíbrio e trapézio); equestre-ginásticas (performances de ginastas em cavalos); ginástico-tauromáquicas (com touros) ou apenas ginásticas, entre outras[ii].

No entanto, o caráter, por assim dizer, espetacular da ginástica não ficava restrito apenas às apresentações realizadas nos teatros e circos. A partir da segunda metade do Império brasileiro, as exibições de ginástica eram também encenadas em outros espaços e instituições sociais da cidade, como clubes e entidades associativas, estabelecimento militares, eventos esportivos e em escolas públicas e privadas.

Diferente do que se possa imaginar, essas apresentações, embora não fossem cotidianas, faziam parte das rotinas anuais de cada um desses espaços que constituíam a rede de instituições e, por conseguinte, dos laços sociais e das sociabilidades presentes na Corte.  Em festas, datas comemorativas, encerramentos anuais ou em visitas de autoridades e personalidades ilustres, a ginástica era apresentada, ou melhor, representada.

Em 17 de novembro 1857, por exemplo, o periódico Correio Mercantil noticiava a visita do imperador ao Arsenal de Guerra, onde assistiu, no estabelecimento de ginástica, a realização de exercícios executados pelos alunos. Na verdade, não era raro dom Pedro II visitar, em diversas ocasiões, não apenas instituições de educação militar como também as estabelecimentos de ensino civis, sejam eles públicos (como a Companhia de Menores, o Colégio Pedro II e a Escola Normal), sejam eles privados (como o Colégio Abílio), presenciando as aulas e apresentações de ginástica[iii].

Sem dúvida, tal assistência era de natureza diversa da dos espetáculos teatrais e circenses. Contudo, a mera presença do imperador atribuía, como destacava diversos periódicos da época, um caráter especial aos exercícios realizados, os quais adquiriram traços e marcas de exibição.

De forma semelhante, alguns espaços associativos lançavam mão de apresentações de ginástica em suas comemorações e eventos. O Real Club Ginástico Português, por ocasião da comemoração do Tricentenário de Camões, elaborou um sarau literário, artístico e dançante, no qual a programação contava com diversos “trabalhos” de ginástica, que entremeavam a abertura do evento (com declamações em homenagem à Camões na abertura do evento) e o baile, que viria a seguir[iv].

O Congresso Ginástico Português, por sua vez, realizou a festa comemorativa do seu 6º aniversário, em 14 de agosto de 1880, apresentando – após o hino do Congresso e um pot-pourri do Guarany – uma exibição de ginástica sob a direção do professor Athanazio Bastos. De acordo com a Gazeta da Tarde os alunos foram aplaudidos entusiasticamente, recebendo em seguida buquês de flores pela execução dos exercícios. Em seguida, depois de algumas formalidades, deu-se início ao baile, “sempre animado”, que se prolongou até às 6h da manhã[v].

Além disso, alguns eventos esportivos também contavam apresentações de ginástica. O Club Olympico Guanabarense, em Niterói, dispunha de exercícios de esgrima e trabalhos de ginástica, realizados pelos alunos do Real Club Ginástico Português para entreter o público nos intervalos das corridas (ver Figura 1).

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Figura 1: Anúncio do Club Olympico Guanabarense, em Niterói, publicado na Gazeta de Notícias de 20 de abril de 1884, em que os alunos do Real Club Ginástico Português, da cidade do Rio de Janeiro, se apresentaram nos intervalos das corridas.

Outras exibições especiais de ginástica se davam em eventos específicos realizados nas escolas. O Colégio Aquino, no final de julho de 1880, realizara uma Festa da Educação, na qual houve apresentação de Ginástica Pedagógica de duas turmas. Uma composta por 50 alunos menores de 10 anos e outra com 50 alunos de 10 a 13 anos. Tal festa foi marcada, de acordo com a Gazeta de Notícias (02/08/1880), por diversos ritos e homenagens. Anteriormente, em 1877, o mesmo colégio produziu uma Festa de Educação Física, em que – segundo o jornal O Globo de 11 e 12 de junho – a “perfeição e regularidade dos exercícios de gymnastica […] colheram repetidos applausos do público ali presente“.

De igual modo, o Colégio Abílio, do renomado Dr. Abílio César Borges, realizava anualmente Festas de Educação Física, que contava com uma programação extensa e detalhada (ver Figura 2).

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Figura 2: Anúncio da Festa de Educação Física, publicado no Diário do Rio de Janeiro de 03 de abril de 1875.

Ainda que não se possa estabelecer uma equivalência exata entre o colégio Ateneu do romance homônimo de Raul Pompéia e o Colégio Abílio, do qual o autor fora aluno, a descrição bastante detalhada da Festa de Educação Física em seu romance, publicado 1888, dá-nos uma ideia da dimensão espetacular, estética e mesmo erótica das apresentações de ginástica (Melo & Peres, 2013):

“Por ocasião da festa da ginástica, voltei ao colégio […] No dia da festa da educação física, como rezava o programa (programa de arromba, porque o secretário do diretor tinha o talento dos programas) […]Eu ia carregado, no impulso da multidão. […] Mergulhado na onda, eu tinha que olhar para cima, para respirar […]. Algumas damas empunhavam binóculos. Na direção dos binóculos distinguia-se um movimento alvejante. Eram os rapazes. ‘Aí vêm! disse-me meu pai; vão desfilar por diante da princesa.’ A princesa imperial, Regente nessa época […] Momentos depois, adiantavam-se por mim os alunos do Ateneu. Cerca de trezentos; produziam-me a impressão do inumerável. […] Passaram a toque de clarim, sopesando os petrechos diversos dos exercícios. Primeira turma, os halteres; segunda, as maças; terceira, as barras. Fechavam a marcha, desarmados, os que figurariam simplesmente nos exercícios gerais. Depois de longa volta, a quatro de fundo, dispuseram-se em pelotões, invadiram o gramal e, cadenciados pelo ritmo da banda de colegas, que os esperava no meio do campo, com a certeza de amestrada disciplina, produziram as manobras perfeitas de um exército sob o comando do mais raro instrutor. Diante das fileiras, Bataillard, o professor de ginástica, exultava envergando a altivez do seu sucesso na extremada elegância do talhe, multiplicando por milagroso desdobramento o compêndio inteiro da capacidade profissional, exibida em galeria por uma série infinita de atitudes. A admiração hesitava a decidir-se pela formosura masculina e rija da plástica de músculos a estalar o brim do uniforme, que ele trajava branco como os alunos, ou pela nervosa celeridade dos movimentos, efeito elétrico de lanterna mágica, respeitando-se na variedade prodigiosa a unidade da correção suprema. […] Acabadas as evoluções, apresentaram-se os exercícios. Músculos do braço, músculos do tronco, tendões dos jarretes, a teoria toda do corpore sano foi praticada valentemente ali, precisamente, com a simultaneidade exata das extensas máquinas. Houve após, o assalto aos aparelhos. Os aparelhos alinhavam-se a uma banda do campo, a começar do palanque da Regente. Não posso dar idéia do deslumbramento que me ficou desta parte. Uma desordem de contorções, deslocadas e atrevidas; uma vertigem de volteios à barra fixa, temeridades acrobáticas ao trapézio, às perchas, às cordas, às escadas; pirâmides humanas sobre as paralelas, deformando-se para os lados em curvas de braços e ostentações vigorosas de tórax; formas de estatuária viva, trêmulas de esforço, deixando adivinhar de longe o estalido dos ossos desarticulados; posturas de transfiguração sobre invisível apoio; aqui e ali uma cabecinha loura, cabelos em desordem cacheados à testa, um rosto injetado pela inversão do corpo, lábios entreabertos ofegando, olhos semicerrados para escapar à areia dos sapatos, costas de suor, colando a blusa em pasta, gorros sem dono que caíam do alto e juncavam a terra; movimento, entusiasmo por toda a parte e a soalheira, branca nos uniformes, queimando os últimos fogos da glória diurna sobre aquele triunfo espetaculoso da saúde, da força, da mocidade. O Professor Bataillard, enrubescido de agitação, rouco de comandar, chorava de prazer. Abraçava os rapazes indistintamente. Duas bandas militares revezavam-se ativamente, comunicando a animação à massa dos espectadores. O coração pulava-me no peito com um alvoroço novo, que me arrastava para o meio dos alunos, numa leva ardente de fraternidade. Eu batia palmas; gritos escapavam-me, de que me arrependia quando alguém me olhava (Pompéia, 1991; grifos nossos).

Diante desse cenário, em que as exibições de ginástica estavam presentes em diversos espaços sociais da cidade, não nos parece precipitado defender que a dimensão espetáculo da ginástica se constituiu, ao longo do Império, em uma linguagem específica, cuja força simbólica era capaz convergir determinados valores, estruturas narrativas e experiências estéticas. Por certo, cada um desses espaços e instituições possuía especificidades que dialogava e, ao mesmo tempo, constituía tal linguagem. Mas isso fica para um próximo post.


[i] Esse post é fruto das conversas e pesquisas realizadas no âmbito do projeto “O corpo da nação: educando o físico, disciplinando o espírito, forjando o país: as práticas corporais institucionalizadas na sociedade da Corte (1831-1889)”, que conta com o apoio da FAPERJ e do CNPq e é coordenado por Victor Andrade de Melo.

[ii] Na prática talvez não houvesse uma delimitação muito clara entre tais modalidades, sendo que uma designação ou os sentidos associados a ela não excluíssem uma outra modalidade.

[iii] Ver exemplos nos periódicos Correio Mercantil (05/12/1859), Diário do Rio de Janeiro (18/09/1860), Gazeta.de.Noticias (28/10/1881) e  Diário do Rio de Janeiro (14/12/1873).

[iv] Gazeta de Noticias (11 e 12/06/1880 e 14/06/1880)

[v] Gazeta da Tarde (16/08/1880).


Gymnastica-espetáculo na Corte (Ou quando a gymnastica era theatro e circo)

14/01/2013

por Fabio Peres

Primeiro Ato[1]

No século XIX, diversas formas de diversão e entretenimento eram vivenciadas pela sociedade carioca. Festas, teatros, passeios, procissões, danças e saraus faziam parte de uma série de manifestações artísticas e culturais presentes no cotidiano da cidade e, que após a constituição do Império brasileiro, se tornaram cada vez mais frequentes, variadas e ecléticas.

Neste cenário, as apresentações de ginástica – por mais incrível e inusitado que pareça – se tornaram um dos espetáculos mais divertidos e fascinantes da cidade. Em agosto de 1837, por exemplo, o periódico O Sete d’Abril anunciava em letras garrafais e com grande irreverência que na “quinta feira, 24 do corrente, dia de S. Bartolomeu” seria apresentado o “Grande Espetáculo!! O Theatrinho dos Garimpeiros”. No final de um dos atos estava previsto a realização de “equilíbrios gymnasticos” pela Madame Injustiça e Mr. Patronato (ver Figura 1).

Não se sabe ao certo se tal espetáculo efetivamente ocorreu ou se o anúncio era apenas uma maneira bastante jocosa e criativa de fazer críticas severas às vicissitudes do Império (o que era mais provável). Em todo caso, mesmo em se tratando de uma anedota, a intenção de que anúncio fosse verossímil e, por isso, cômico reforça a ideia de que os exercícios ginásticos eram recorrentes na cena teatral carioca. Além disso, a apropriação por metáfora e o uso paradoxal do termo, isto é, imaginar que a injustiça e o patronato buscavam manter o “equilíbrio” e conservar o status quo, denota que o vocábulo não era estranho à sociedade da Corte, garantindo, assim, o riso do leitor.

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Figura 1: Anúncio do “Grande Espetáculo!! O Theatrinho dos Garimpeiros” em 9 de agosto de 1837 (O Sete d’Abril).

Os anúncios teatrais, em geral, e dos espetáculos theatrais-gymnaticos se tornaram mais frequentes e ocupavam parte considerável das últimas páginas dos periódicos cariocas. Ao que parece, o sucesso e a importância de tais espetáculos para cidade foram tão expressivos que – além da propaganda do “produtor”, na seção de “anúncios a pedidos” – os editoriais dos próprios jornais passaram divulgá-los em seções especiais que informavam os eventos culturais na Corte. Um dos espetáculos contaria inclusive com a presença do Imperador D. Pedro II e a “Augusta Família Imperial”, como mostra o jornal O Despertador de 19 de abril de 1838 (Figura 3). O “pomposo espetaculo gymnastico e dramatico” O Poeta e a Inquisição[2] – segundo o jornal, uma “excellente tragedia” – seria representada por Mr. Valli, o Hércules Francês, no Theatro Constitucional Fluminense (antigo Real Theatro de São João, atual Teatro João Caetano[3]).

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Figura 2: Anúncio do espetáculo ginástico-dramático “O Poeta e a Inquisição” (O Despertador, 19 de abril de 1838). A tragédia fora composta por Domingos José Gonçalves de Magalhães (Visconde de Araguaia) – ensaísta, poeta, médico e diplomata; um dos iniciadores do Romantismo no Brasil. Destaca-se que o ginasta-artista, segundo o jornal, não omitiria esforços para satisfazer o Imperador e o público, realizando os “mais lindos e delicados exercícios gymnasticos, forças e posições acadêmicas”.

Interessante perceber que cada vez mais os anúncios faziam alusão à capacidade de tais espetáculos divertirem o público. De modo geral, não noticiavam apenas informações básicas da realização do evento (dia, endereço etc.), como até então era mais comum, para incluir detalhes, que supostamente atrairiam o público. A divulgação das sessões teatrais associava o entretenimento do espetáculo às narrativas dramático-teatrais em que exercícios ginásticos estavam inseridos[4] e, além disso, às habilidades corporais e acrobáticas dos gymnastas (ver Figura 2 e 3).

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Figura 3: Anúncio do espetáculo ginástico no Theatro São Januário (O Despertador, 04 de setembro de 1839). A programação detalhada do “escolhido divertimento” contava com as participações de Mr. Levrero (“conhecido na Europa por hum dos melhores dançarinos de corda”) e Mr. Macerata.

Força, equilíbrio, robustez e acrobacias equestres eram concebidas no plano do extraordinário: atraindo atenção do público pela beleza e maestria física. Em outras palavras, isso significa que o corpo (e as representações em torno dele) ganhava ou já possuía novos sentidos e sensibilidades, ainda que com peculiaridades bastante distintas da que se gestou no final do século XIX e começo do XX.

Intervalo

Nesta mesma época, por volta do final da década de 1830, intensifica-se um processo que muda o espaço físico e social das apresentações. A gymnastica-espetáculo passa cada vez mais a ser exibida nos circos, ainda que até o final do Império algumas sessões fossem encenadas nos teatros da cidade (Figura 4). Possivelmente as explicações para esse deslocamento são variadas e envolvem uma série de aspectos. Um deles pode estar ligado à diminuição da presença da linguagem dramática enquanto mote para os espetáculos ginásticos. Em maior ou menor grau, esses espetáculos passaram a ser valorizados mais pelas habilidades e técnicas corporais por si, do que pelos enredos e tramas narradas.

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Figura 4: Anúncio do Circo Olympico que ocupava aproximadamente 1/4 da última pagina do Correio Mercantil de 22 de janeiro de 1860. Localizado na Rua da Guarda-Velha (atual 13 de Maio), o Circo Olympico foi inaugurado em 1857 e, posteriormente, em 1871, se transformou no Theatro D. Pedro II[5].

Por outro lado, o caráter supostamente mais popular do circo pode significar que se ampliava o público e o mercado em torno da assistência do espetáculo-ginástico. De certa forma, esse processo, cada vez mais intenso, de deslocamento do espaço social da ginástica-espetáculo (e das relações sociais que o sustentam) revela talvez um traço, não apenas das divisões sociais presentes no Império, mas também das eventuais disputas e autonomização dos campos artístico-culturais na cidade.

No entanto, independente do local em que ela fosse encenada (seja no teatro, seja no circo), a gymnastica-espetáculo foi frequentemente representada, até o final do Império, enquanto linguagem associada ao campo das artes[6]. Diversas vezes, inclusive, fora considerada como prática diferente das sportivas (corridas de cavalo, regatas etc.), que a partir de meados da década de 1870, possuíam uma seção específica dedicada ao acompanhamento das modalidades e das provas (ver exemplo na Figura 5).

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Figura 5: Trecho da primeira página do jornal Diário de Notícias (4 de outubro de 1886), no qual o espetáculo ginástico, previsto para ser realizado no Theatro Politheama Fluminense (situado na rua do Lavradio), encontra-se na seção FOYER, enquanto que as notícias do Derby Club e do Club de Regatas Paquetaense se encontram na seção SPORT.

Segundo Ato

O caráter aparentemente inusitado das apresentações ginásticas pode abrir um espaço para uma reflexão sobre os desafios colocados à história das práticas corporais no século XIX. A ausência desse tema – seja pela falta de acesso às fontes ou de trabalho empírico, seja pela reificação de determinadas interpretações ou documentos – pode comprometer uma compreensão mais densa da relação entre vida social, condições históricas e o processo de construção de um ethos corporal na sociedade da Corte.

A sedução e o encanto que tais espetáculos despertavam no público, ainda que não fossem suficientes para converter a plateia em praticantes, pode ser um indício de que havia uma sensibilidade específica ligada ao corpo e a certas técnicas/habilidades corporais (como força, vigor, equilíbrio, energia etc). Em outras palavras, é como se determinadas propriedades corporais, diferentes das exigidas em outras práticas, passassem a estar em primeiro plano. A ênfase no ímpeto muscular e na robustez dos gymnastas, enquanto elementos de atração e sedução do público, podem ter ajudado a construir (e ao mesmo tempo eram produto de) uma sensibilidade/estética corporal, que supostamente começava a mudar.

Por outro lado, a ginástica-espetáculo coloca em questão teorias e interpretações que com o tempo se consagraram e se tornaram lugar-comum. Ao longo dos anos foi construído e reforçado um “mito de origem” em que a gênese e a popularização de determinadas práticas corporais na sociedade brasileira (ginástica, natação, educação física e do esporte em geral) se deram quase exclusivamente por instituições militares e, em alguns casos, por escolas públicas. Longe dessa perspectiva linear e monocausal, a gymnastica-espetáculo parece sugerir – ou pelo menos nos faz refletir – que tais práticas se constituíram e se difundiram a partir de constelações sociais mais complexas e pluridimensionais, que envolvem outros atores, processos e instituições sociais.


[1] Esse post é fruto das pesquisas realizadas no âmbito do projeto “O corpo da nação: educando o físico, disciplinando o espírito, forjando o país: as práticas corporais institucionalizadas na sociedade da Corte (1831-1889)”, que conta com o apoio da FAPERJ e do CNPq e é coordenado por Victor Andrade de Melo.

[2] O drama romântico “O Poeta e a Inquisição” (1838) pode ser lido na integra no Portal Domínio Público.

[3] Maiores informações acessar a página do Centro Técnico de Artes Cênicas /Funarte, dedicada aos Teatros do Centro Histórico do Rio de Janeiro.

[4] Diversas apresentações ginásticas também entremeavam sessões teatrais, no intervalo das peças, entretendo e divertindo os espectadores.

[5] Maiores informações na página do Centro Técnico de Artes Cênicas /Funarte, dedicada aos Teatros do Centro Histórico do Rio de Janeiro.

[6] Isso não significa que a dimensão “espetáculo” da ginástica ficasse restrita ao campo das manifestações artístico-culturais. Em determinadas circunstâncias ela também foi associada aos campos sportivos e escolar.