Histórias do esporte em Rubem Fonseca (parte 1)

17/04/2017

por Fabio Peres

Cruel, realista, desconcertante, brutal, mórbido. Entre tantos termos utilizados para descrever a literatura de Rubem Fonseca, talvez possamos também adicionar o adjetivo esportivo. Afinal, basta uma breve leitura de sua obra para perceber que não são poucos os contos e romances em que o esporte e as atividades físicas, em geral, ocupam lugar – ora mais, ora menos – privilegiado.

Desde a publicação de Os Prisioneiros (1963), primeira coletânea de contos do autor, o objeto está lá, por assim dizer, em suas variadas formas; às vezes de maneira mais clara ou quase desapercebido de modo sútil. Como aponta a escritora Maria Alice Barroso, Rubem já se destacava no conto Fevereiro ou março (1963)  pela incorporação de “um excelente tipo à galeria de personagens da literatura brasileira: o atleta vagabundo, frequentador das academias de boxe, portador de uma ética toda sua” (apud AUGUSTO, 2009, posfácio)[i].

Capa da edição de 1963 de Os Prisioneiros

O personagem-narrador inicia a história descrevendo como a condessa Bernstroa, mulher casada com a qual teve um caso, explicava a manutenção de suas formas corporais:

Era uma velha, mas podia dizer que era uma mulher nova e dizia. Dizia: põe a mão aqui no meu peito e vê como é duro. E o peito era duro, mais duro que os das meninas que eu conhecia. Vê minha perna, dizia ela, como é dura. Era uma perna redonda e forte, com dois costureiros salientes e sólidos. Um verdadeiro mistério. Me explica esse mistério, perguntava eu, bêbado e agressivo. Esgrima, explicava a condessa, fiz parte da equipe olímpica austríaca de esgrima — mas eu sabia que ela mentia.

O personagem continua desfiando a história explicando como foi seu dia, um sábado de carnaval, marcado por certa imprevisibilidade e também, não por acaso, por certa angústia:

Era de manhã, no primeiro dia de carnaval. Ouvi dizer que certas pessoas vivem de acordo com um plano, sabem tudo o que vai acontecer com elas durante os dias, os meses, os anos. […] Eu — eu vaguei pela rua, olhando as mulheres. De manhã não tem muita coisa para ver. Parei numa esquina, comprei uma pera, comi e comecei a ficar inquieto. Fui para a academia.

A descrição dos exercícios na academia é acompanhada por uma série de sentidos, pensamentos, práticas e gestos:

[…] comecei com um supino de noventa quilos, três vezes oito. O olho vai saltar, disse Fausto, parando de se olhar no espelho grande da parede e me espiando enquanto somava os pesos da barra. Vou fazer quatro séries pro peito, de cavalo, e cinco para o braço, disse eu, série de massa, menino, pra homem, vou inchar. E comecei a castigar o corpo, com dois minutos de intervalo entre uma série e outra para o coração deixar de bater forte; e eu poder me olhar no espelho e ver o progresso. E inchei: quarenta e dois de braço, medidos na fita métrica.

A academia, por sua vez, é lugar de encontros, de construção (e também de desconstrução) de vínculos e laços sociais. Os amigos, frequentadores de academia -ao que tudo indica de um bairro da Zona Sul carioca –, organizam a “diversão” para aquele carnaval:  “porrada pra todo lado”. A ideia era simples. Se fantasiar de mulher e então:

O povo cerca a gente pensando que somos bichas, nós estrilamos com voz fina, quando eles quiserem tascar, a gente, e mais vocês, se for preciso, põe a maldade pra jambrar e fazemos um carnaval de porrada pra todo lado. Vamos acabar com tudo que é bloco de crioulo, no pau, mesmo, pra valer. Você topa?

Após alguns desdobramentos (e outras referências aos sentidos e usos do corpo), o narrador se auto descreve para o marido da condessa, adquirindo assim características de um novo “tipo” inserido em um meio social com senso moral e ético próprios, como chamou atenção Maria Alice Barroso:

na academia eu faço ginástica de graça e ajudo o João, que é o dono, que ainda me dá um dinheirinho por conta; vendo sangue pro banco de sangue, não muito para não atrapalhar a ginástica, mas sangue é bem-pago e o dia em que deixar de fazer ginástica vou vender mais e talvez viver só disso, ou principalmente disso. Nessa hora o conde ficou muito interessado e quis saber quantos gramas eu tirava, se eu não ficava tonto, qual era o meu tipo de sangue e outras coisas. Depois o conde disse que tinha uma proposta muito interessante para me fazer e que se eu aceitasse eu nunca mais precisaria vender sangue, a não ser que eu já estivesse viciado nisso, o que ele compreendia, pois respeitava todos os vícios. Não quis ouvir a proposta do conde, não deixei que ele a fizesse; afinal eu tinha dormido com a condessa, ficava feio me passar para o outro lado. Disse para ele, nada que o senhor tenha para me dar me interessa. Tenho a impressão que ele ficou magoado com o que eu disse […] Por isso, continuei, não vou ajudar o senhor a fazer nenhum mal à condessa, não conte comigo para isso. Mas como?, exclamou ele, […], mas eu só quero o bem dela, eu quero ajudá-la, ela precisa de mim, e também do senhor, deixe-me explicar tudo, parece que uma grande confusão está ocorrendo, deixe-me explicar, por favor. Não deixei. Fui-me embora. Não quis explicações. Afinal, elas de nada serviriam.

No mesmo livro (Os prisioneiros de 1963) novamente a ginástica, a “malhação”, bem como as competições de “físico”, típicas de academia, seriam mencionadas no conto Os inimigos; para alguns críticos da época o melhor da coletânea. Além disso, o conto que dá nome ao livro curiosamente se inicia por uma conversa entre uma psicanalista e um cliente sobre a inconveniência e mesmo inadequação de usar roupa “esportiva” no Centro da cidade, lugar por excelência de trabalho.

O panorama, por assim dizer, esportivo da literatura de Rubem Fonseca, de fato, é vasto e instigante. Por exemplo, o ambiente e os frequentadores de academia voltariam a fazer parte da obra do autor em 1965 no conto A Força Humana (do livro A Coleira do cão). Na realidade, trata-se em certo sentido de uma continuação de Fevereiro ou março. Já em 1969, o antigo Vale-Tudo seria objeto central do conto O Desempenho no famoso livro Lúcia McCartney.

Em 1979, breves referências ao futebol e ao balé apareceriam em O cobrador (no livro homônimo). Na mesma obra menções à ginástica retornariam em Mandrake (além do xadrez) e, em 1992, em o Romance Negro. Por outro lado, uma competição inusitada no Pantanal está em AA (abreviação do “esporte” de mesmo nome) em 1998 no livro a Confraria dos Espadas. Também em 1992, há uma menção à rua do Jogo da Bola – uma prática de diversão que esteve presente na cidade do Rio de Janeiro no século XVIII e XIX[ii] – em A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro.

Em 2001, exercícios aeróbicos, de alongamento e de musculação são citados em Copromancia, na obra Secreções, excreções e desatinos. Corrida na praia aparece em Caderninhos de nomes no ano seguinte em Pequenas criaturas. Em Laurinha surge mais uma vez uma referência ao futebol no livro Ela e outras mulheres de 2006. E a relação de Lima Barreto com o futebol é citada no romance O seminarista de 2009.

Mas essas e outras histórias ficarão para os próximos posts. Em todo caso, mais do que uma mera provocação, denominar a literatura de Rubem Fonseca de esportiva pode ser uma forma de perturbar os limites e as fronteiras do campo da História do Esporte; uma maneira talvez que nos ajude a entrecruzar várias histórias: do corpo, de gênero, da cidade, de classe, da discriminação racial, da homofobia, das diferentes modalidades e práticas esportivas, das emoções, da estética, da literatura, entre muitas outras histórias.

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[i] AUGUSTO, Sergio. Estreia consagradora. In: FONSECA, Rubem. Os prisioneiros. Rio de Janeiro: Agir, 2009.

[ii] Maiores informações ver MELO, Victor Andrade de. MUDANÇAS NOS PADRÕES DE SOCIABILIDADE E DIVERSÃO: O jogo da bola no Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). História,  Franca ,  v. 35,  e105,    2016 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742016000100514&lng=en&nrm=iso>. access on  17  Apr.  2017.  Epub Dec 19, 2016.  http://dx.doi.org/10.1590/1980-436920160000000105.


Educação Física, Higiene e Saúde Pública na Corte – Parte 3

20/11/2016

por Fabio Peres[i]

No século XIX, a educação física e, em particular, a ginástica se tornaram pouco a pouco em um domínio defendido pelo saber médico. Como mencionado em outras ocasiões (por exemplo, aqui e aqui), tratou-se de uma relação que se consolidou no decorrer daquele século, apesar de inúmeras controvérsias. Não apenas a comunidade médico-científica teve que “lutar” pela legitimação de suas práticas e saberes junto ao Estado e à sociedade, como também teve que lidar internamente com a regulação dos conflitos e dilemas dessa mesma comunidade.

A própria emergência da educação física nos periódicos médicos do século XIX pode ser lida como justaposição entre, por um lado, a formação e, por isso, controle de uma comunidade médico-científica que estava se conformando no período e, por outro, a instrução de um público mais amplo, reforçando a sua legitimação enquanto saber médico.

Um capítulo dessa história, mostrado em um post anterior, foi a elaboração em 1830 do relatório da Comissão de Salubridade Geral, no qual o tema foi abordado[ii]. Outro indício importante desse processo se deu dois anos depois, em 1832. A ginástica voltaria a ser objeto de atenção no Semanário de Saúde Pública (11/08/1832, n.113). A ata da sessão realizada no dia 14 de julho daquele ano informa que o capitão Guilherme Luiz Taube entregou à Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (SMRJ), para avaliação, uma memória intitulada A Short Treatise on the Physic, and Moral Effects of Gymnastic, and Kalistenic Exercises.

Taube na ocasião tinha em mente duas iniciativas: a tradução do material apresentado, escrito em inglês e abrir um estabelecimento para oferecer aulas de ginástica. O sueco exercera o cargo de mestre em um colégio de ginástica em Nova York. No Brasil, atuara como capitão do Exército Imperial (é possível, portanto, que tenha chegado depois de 1822), tendo se casado com uma brasileira. Ficara desempregado em função dos desdobramentos da Lei de 24 de Novembro de 1830[iii], motivo pelo qual desejava ministrar aulas.

Guilherme Taube solicitava que a SMRJ emitisse um parecer sobre seu tratado, atestando os benefícios dos exercícios ginásticos. A intenção era que a escola de ginástica, que pretendia estabelecer na capital, tivesse o respaldo científico da entidade. Na mesma sessão, ficara definido que o relator do parecer seria o médico De-Simoni, membro titular e secretario perpétuo da SMRJ.

Relatorio sobre huma memoria do Sr. Guilherme Luiz Taube acerca dos effeitos physicos e moraes dos exercicios gymnasticos: lido na Sociedade de Medecina do Rio de Janeiro, em 4 de agosto de 1832 (Simoni, Luiz Vicente de, 1792-1881)

Relatorio sobre huma memoria do Sr. Guilherme Luiz Taube acerca dos effeitos physicos e moraes dos exercicios gymnasticos: lido na Sociedade de Medecina do Rio de Janeiro, em 4 de agosto de 1832 (Simoni, Luiz Vicente de, 1792-1881)

 

Menos de um mês depois, o relatório foi lido em uma das sessões da SMRJ, sendo depois publicado nas edições do Semanário de Saúde Pública[iv] (o relatório completo pode ser acessado aqui). Luiz Vicente De-Simoni percebe a validade do material, mesmo reconhecendo que carece de base científica:

A Memória que o Sr. Guilherme Luiz Taube apresentou a esta Sociedade, e de cujo exame vos dignastes encarregar-me, não é trabalho de um escritor que se proponha ilustrar esta parte da ciência, mas sim de um indivíduo, que, tencionando estabelecer neste pais uma escola, aonde os exercícios ginásticos sejam praticados debaixo da sua direção; dirige-se a prevenir o público em favor do seu estabelecimento, e do objeto dele; o que, para acreditar perante o mesmo público a utilidade física, e moral deles, assim como a veracidade das asserções com que ele a afiança no seu escrito, recorre a esta Sociedade submetendo ao seu juízo e aprovação o mencionado seu trabalho; não para ela julgar da sua perfeição como obra, mas da sua veracidade como peça dirigida a um público que pode duvidar dos princípios nela expendidos, e da utilidade da instituição que ele se propõe (1832, n.119, p. 413).

Mesmo não tendo acesso ao tratado entregue à SMRJ, é possível dimensionar, pelo relatório escrito por De-Simoni, os principais argumentos que Guilherme Taube utilizou para solicitar um parecer favorável da instituição médica. Além da descrição dos possíveis benefícios físicos (como desenvolvimento da força muscular; aumento da flexibilidade, da agilidade e da energia; diminuição dos efeitos da vida sedentária) e dos morais (como a interdependência do intelecto e do físico, o incremento do brio, da coragem, da confiança, entre outros), Guilherme Taube “assevera que em diferentes partes do mundo, entre as nações mais clássicas, os exercícios ginásticos têm sido adotados, animados, e muito proveitosos, e como tais julgados necessários pelos Médicos” (1832, p. 414).

Para além dos argumentos utilizados por Taube, segundo De-Simoni já havia na época posições consolidadas, pelo menos em parte da comunidade médica, sobre o valor da ginástica:

A Sociedade sem garantir a perfectibilidade do método que o Sr. Taube se propõe empregar, o que ele não expende, pode emitir o seu parecer em geral acerca da utilidade dos estabelecimentos ginásticos, o afiançar que quanto o Sr. Taube assevera no seu escrito, sobre esta utilidade é uma verdade reconhecida por todos os Médicos, e escritores ilustrados […]. Os Médicos mais distintos por seu saber tem abonado a ginástica em todos os tempos e em todas as partes do mundo instruído (1832, p. 414).

De acordo com o membro titular da SMRJ, o parecer positivo refere-se a uma preocupação maior, ao reconhecimento da relação entre saúde e condições sociais, tão cara à naquele início de século:

[…] pois o fim desta declaração não é somente beneficiar um indivíduo que os estabelece, mas a população no meio da qual o estabelecimento vai ser erigido; por isso que as vantagens que este pode produzir podem ser grandes, e gerais, e são incontestáveis, e certas quando os exercícios sejam nele praticados com método, e debaixo dos preceitos da higiene. Trata-se neste caso, não de favorecer a instituição de hum simples estabelecimento particular, mas a de um estabelecimento público cujas vantagens poderão ser aproveitadas por muitas pessoas, e principalmente pela classe mais débil, e enferma da população; estabelecimento que até poderá influir sobre a conservação da saúde dos que o não forem, e sobre o melhoramento da constituição individual da nossa mocidade; desenvolvendo melhor seus órgãos, e a sua forca para melhor defender e servir a pátria, quer como Soldados, quer como Cidadãos, e artífices (1832, p. 414).

Para De-Simoni, a prática poderia “exercer uma grande influência sobre o caráter, a glória, e prosperidade de uma nação, e não só ela é capaz de a beneficiar debaixo de um ponto de vista higiênico, como também social, e politico” (1832, p. 415). O médico enfatizou que a relação entre a prática corporal e as ciências médicas não era uma novidade, lançando mão de um artifício argumentativo: uma mobilização da história:

As vantagens pois da ginástica não são problemáticas a face da Medicina; elas são atestadas pela história, e afiançadas pela ciência; nada há mais reconhecido, e provado do que elas. A opinião favorável dos Médicos de todos os países e de todos os séculos podemos francamente adicionar a nossa, e favorecer com ela a instituição de um estabelecimento a ela destinado, tal como o que se propõe o Sr. Taube (1832, p. 416).

Não temos informação se Guilherme Luiz Taube abriu, de fato, o referido estabelecimento que ofereceria aulas de ginástica na Corte. O que sabemos, através dos jornais, é que Taube foi nomeado mestre de ginástica do Colégio Pedro II em 1841[v].

De todo modo, pode-se entrever que já naquele momento não se tratava somente de uma ginástica, mas de uma ginástica médica, que se institucionalizava à luz dos preceitos da higiene e da saúde pública, mesmo que ainda de forma incipiente.

Anos mais tarde, a tentativa de fundar um instituto ginástico e ortopédico na Corte evidenciaria cisões e divergências na comunidade médica. Mas essa história ficará para um próximo post.

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[i] Esse post é um desdobramento das pesquisas realizadas com Victor Andrade de Melo no pós-doutorado, entre 2012-2015, no PPGHC/IH/UFRJ. Parte dele foi publicado em MELO, V. A.; PERES, F.F. A gymnastica no tempo do Império. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014.

[ii] A ata da sessão da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (19/6/1830), em que houve a aprovação do relatório,  foi posteriormente publicada no Semanário de Saúde Pública (9/4/1831).

[iii] Brasil. Lei de 24 de Novembro de 1830. Fixa as forças de terra para o anno financeiro de 1831-1832 (Coleção de Leis do Império do Brasil – 1830, p. 55, v. 1, pt. I). Disponível em: <http://www2.camara.gov.br/legin/fed/lei_sn/1824-1899/lei-37992-24-novembro-1830-565665-publicacaooriginal-89410-pl.html>. Acesso em: 18 de novembro de 2016. Por essa lei, à exceção daqueles que participaram da campanha da independência, foram mutilados ou gravemente feridos em conflitos, os estrangeiros foram demitidos e proibidos no Exército.

[iv] Inicialmente, uma síntese do parecer emitido por De-Simoni foi publicada no número 117 de 8 de setembro de 1832 (p. 405). Foi depois publicado na íntegra no número 119 de 22 de setembro de 1832 (p. 413-416).

[v] Jornal do Commercio, 8/10/1841, p.1


Esporte, Política e humor: as eleições no Rio de Janeiro do século XIX

20/09/2015

As eleições sempre despertaram a atenção de importantes literatos e intelectuais. O que parece inusitado é o uso irônico do esporte para apontar os limites da cidadania e da participação política nos pleitos do século XIX.

por Fabio Peres[i]

Há quase dois anos, publiquei um post no qual comentava a presença de determinadas práticas corporais na obra de dois literatos. Naquela ocasião, um dos argumentos era que, mesmo distantes por um pouco mais de um século, Carlos Drummod de Andrade e Joaquim Manuel de Macedo estabeleceram analogias entre aspectos da performance atlética e os cenários políticos em que estavam inseridos[ii].  Os usos dessas práticas, por assim dizer, “fora de lugar” (na política, no caso) funcionavam como recurso de humor; que pelo contraste ou incongruência jogava uma nova luz sobre a vida social.

No século XIX, na verdade, esse tipo de “apropriação” do esporte ou de outras práticas corporais era mais comum do que a princípio poderíamos imaginar.

Em 1894, por exemplo, Machado de Assis demonstrava certa preocupação com as eleições à presidência do estado do Rio de Janeiro[iii]. A abstenção, no olhar do cronista, era talvez o maior inimigo do pleito. No entanto, não bastaria apenas a exortação para convencer o eleitorado a comparecer às urnas, a se interessar pelo direito de eleger seus representantes. Seria necessário um estímulo a fim de reverter a indiferença. A ideia era simples: dar às eleições um aspecto acentuadamente esportivo (Gazeta de Notícias, 15 de julho de 1894, p.1).

A reforma eleitoral proposta por Machado – sem dúvida com tom irônico – partira de um comentário publicado no Jornal do Comércio sobre a “população esportiva” no munícipio. O literato reagiu com surpresa e autocrítica burlesca:

A princípio não pude raciocinar. A certeza de que dois terços da nossa população é esportiva, deixou-me assombrado e estúpido. Voltando a mim, fiquei humilhado. Pois quê! dois terços da população é esportiva, e eu não sou esportivo! Mas que sou então neste mundo? (op. cit.)

 

Não era a primeira vez que Machado expressava tal preocupação. Na verdade, a inquietação do autor/personagem sobre a participação eleitoral, que “não se deixa persuadir com palavras nem raciocínios”, era um assunto recorrente. Ainda que o escritor apontasse distintas causas e soluções ao longo do tempo para tal “moléstia”[iv], o estilo jocoso estava sempre presente. Em 1892, por exemplo, chamava atenção:

Toda esta semana foi empregada em comentar a eleição de domingo. É sabido que o eleitorado ficou em casa. Uma pequena minoria é que se deu ao trabalho de enfiar as calças, pegar do título e da cédula e caminhar para as urnas. Muitas seções não viram mesários, nem eleitores, outras, esperando cem, duzentos, trezentos eleitores, contentaram-se com sete, dez, até quinze. Uma delas, uma escola pública, fez melhor, tirou a urna que a autoridade lhe mandara, e pôs este letreiro na porta: “A urna da 8ª seção está na padaria dos Srs. Alves Lopes & Teixeira, à rua de S. Salvador n…”. Alguns eleitores ainda foram à padaria; acharam a urna, mas não viram mesários. Melhor que isso sucedeu na eleição anterior, em que a urna da mesma escola nem chegou a ser transferida à padaria, foi simplesmente posta na rua, com o papel, tinta e penas. Como pequeno sintoma de anarquia, é valioso GN, 07/08/1892, p.1).

 

Já em 1894, as cores esportivas da reforma consistiam basicamente em trazer a emoção das competições para a disputa eleitoral. Para isso, parâmetros esportivos (em especial, do turfe) deveriam ser adicionados ao pleito a fim de atrair a população, o que incluiria dar alcunhas aos candidatos (assim como no caso dos cavalos), além de institucionalizar as apostas no certame eleitoral:

Em vez de esperar que o desejo de escolher representantes leve o eleitor às urnas, devemos suprir a ausência ou a frouxidão desse impulso pela atração das próprias urnas eleitorais. A lei deve ordenar que os candidatos sejam objeto de apostas, ou com os próprios nomes, ou (para ajudar a inércia dos espíritos) com outros nomes convencionais, um por pessoa, e curto. Não entro no modo prático da ideia; cabe ao legislador, achá-lo e decretá-lo. A abstenção ficará vencida […] (GN, 15/07/1894, p.1).

Em certo sentido, parte da crítica de Machado se dirige à própria população e aos cidadãos que se envolvem com os eventos esportivos, mas que se interessam pouco com as eleições (uma hipótese que merece ser melhor investigada). Contudo, tal crítica é matizada por uma conjuntura que afastava o eleitor das urnas. A participação política, não apenas era minada por um conjunto de instituições sociais frágeis (que deveriam favorecer e zelar por ela), como a própria concepção dominante de cidadania na época, ajudava a institucionalizar a exclusão e a reprodução de relações desiguais de poder.

De fato, a “esportividade” das eleições naquele cenário poderia ter vários desdobramentos para combater as abstenções. Um deles relacionado à própria ambiência política, que era marcada por violência, corrupção, intimidação, desorganização etc. Não por acaso, o literato chama a atenção para certos constrangimentos que cercavam a participação eleitoral: “Não sei quem seja aqui César nem Pompeu. Contento-me em que não haja morte de homem, nem outra arma além da cédula” (GN, 15/07/1894, p.1). De certa maneira, a reforma eleitoral poderia ajudar na construção de uma paisagem política em que “O vencido perde o lugar, mas não perde as costelas” (op. cit.).

Outro benefício seria o aumento de naturalizações, impulsionado pelo clima competitivo das eleições: “A lei deve até facilitar a operação [de se naturalizar], ordenando que o simples talão da aposta sirva de título de nacionalidade” (p.1). Mas caso a reforma eleitoral, por si só, não tivesse êxito em combater a abstenção, as mulheres não poderiam deixar de ter acesso ao sufrágio:

Se a ideia não der o que espero, recorramos então ao exemplo da Nova Zelândia, onde por uma lei recente as mulheres são eleitoras. […] Elevemos a mulher ao eleitorado; é mais discreta que o homem, mais zelosa, mais desinteressada. Em vez de a conservarmos nessa injusta minoridade, convidemo-la a colaborar com o homem na oficina da política. Que perigo pode vir daí? Que as mulheres, uma vez empossadas das urnas, conquistem as câmaras e elejam-se entre si, com exclusão dos homens? Melhor. Elas farão leis brandas e amáveis. As discussões serão pacíficas. Certos usos de mau gosto desaparecerão dos debates (op. cit.).

Ainda que a ironia torne um pouco mais complexa a interpretação sobre as questões de gênero,  devemos ter em vista a preocupação central do autor: fazer com que toda a população participe mais da vida política, ou melhor, que a “população inteira fique esportiva” (op. cit.).

A despeito disso e embora a proposta não passasse de uma brincadeira – uma forma espirituosa de abordar os dilemas de uma cidadania ainda incerta na república recém-formada – a narrativa permite entrever, já naquele momento, a forte presença social do fenômeno esportivo na cidade.

De fato, no final do século XIX uma série de práticas esportivas faziam parte da paisagem fluminense. Não se tratava apenas do turfe – modalidade citada na crônica -, mas também das corridas à pé, de bicicletas, dos jogos de pelota, entre outras, como lutas, tiro, regatas e natação (várias delas, vale destacar, também objeto dos escritos de Machado). Como previra Machado, “o contágio far-nos-ia a todos esportivos” –  talvez não exatamente com a conotação política desejada pelo literato.

Em todo caso, as práticas corporais (o futebol para Drummond, a ginástica para Manuel de Macedo e o tufe para Machado de Assis) eram “boas para pensar” a sociedade política. Isso, sem deixar de articular várias vertentes do humor – como a ironia, espirituosidade, a sátira etc. – à crítica da conjuntura de cada época.

Talvez não seja fortuito que mais de uma década antes da crônica de Machado tivesse sido publicado, em 1881, um anúncio sobre as Grandes Corridas Eleitorais no Prado do Munícipio Neutro, a primeira eleição direta após a reforma eleitoral implementada naquele ano (a conhecida e polêmica Lei Saraiva[v]). A estrutura e a lógica do campo esportivo não apenas tinham comicamente invadido o pleito, como eram usadas – para empregar um termo utilizado por Machado – como “armas” contra o sistema político:

Grandes Corridas Eleitorais no Prado do Munícipio Neutro (Gazeta da Tarde, 31/10/1881, ed. 254, p.4)

 

Mas essa história vai ficar para o próximo post.

 

[i] Esse post é fruto das conversas e pesquisas realizadas no âmbito do projeto “O corpo da nação: educando o físico, disciplinando o espírito, forjando o país: as práticas corporais institucionalizadas na sociedade da Corte (1831-1889)”, que conta com o apoio da FAPERJ e do CNPq e é coordenado por Victor Andrade de Melo.

[ii] No caso de Carlos Drummond de Andrade, o inverso também é verdadeiro: o uso do cenário político para falar dos atributos esportivos dos atletas. A crônica de Drummond (“Imagens da Vitória. Seleção de Ouro”, publicada em 20/06/1962 no Correio da Manhã, p.6) não apenas abordava o contexto político, mas talvez mais do que isso celebrava a seleção bicampeã do mundo. Contudo, o sentido crítico, ainda que possa ser considerado mais tênue, não deixa de existir na crônica.

[iii] Gazeta de Notícias, 15 de julho de 1894, n.195 (coluna A Semana), p.1. Também disponível em: http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=28393

[iv] Na crônica de 7 de agosto de 1894, por exemplo, Machado aponta a inércia (e não a indiferença, a abtenção e a descrença) para a pouca participação na eleição: “Variam os comentários. Uns querem ver nisto indiferença pública, outros descrença, outros abstenção. No que todos estão de acordo, é que é um mal, e grande mal. Não digo que não; mas há um abismo entre mim e os comentadores; é que eles dizem o mal, sem acrescentar o remédio, e eu trago um remédio, que há de curar o doente. Tudo está em acertar com a causa da moléstia”. (Gazeta de Notícias, 07 de agosto de 1892, n.219, p.1 (coluna A Semana)). Também disponível em: http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=28393

[v] Decreto nº 3.029, de 9 de janeiro de 1881.


Para matar o tempo: uma “academie” voltada para os divertimentos no Rio de Janeiro do século XIX

29/12/2014

por Fabio Peres[i]

A história é curiosa. Nos meses finais de 1857 foi encontrado durante um passeio ao Corcovado o estatuto de uma nova associação inaugurada na Corte: a Academie pour tuer le temps (em tradução livre, Academia para matar o tempo).

Tudo levava a crer que no local da descoberta foi realizada uma sessão magna, uma ocasião solene e festiva de criação da “nobilíssima” academia (nomeada, vale destacar, com o adjetivo “nacional”). Não era para menos, o “curioso manuscrito” se encontrava em meio a garrafas quebradas e escritos variados, entre romances e programas ministeriais, dentro de um chapéu da mais fina qualidade.

O narrador da história, que assina como Dr. Soledade na seção Comunicado do Correio Mercantil (23/11/1857, p.2), descreve na integra os estatutos da inusitada associação fundada na capital do Império. Ficamos sabendo, logo no primeiro artigo, que o “utilíssimo e agradabilíssimo” propósito da Academie é “passar a vida suave e naturalmente”.

Os artigos seguintes não são menos reveladores do ethos que animava a instituição.

Além do número de “ilustres” sócios ser ilimitado (art. 2º), não havia presidente nem secretários, a sua “mesa é a mesa dos banquetes, do jogo, das irmandades, da costureira, e a mesa-redonda” (art. 3º). Seus membros eram de todo tipo; honorários, efetivos, transitórios, aspirantes e jubilados (art. 5º) que – pela “honra e glória da academia” – nunca perderiam “festa alguma, como sejam paradas, fogos de artifício, presepes, romarias e festas pontifical, ficando sempre à porta da igreja para não ouvirem sermão” (art. 17º).

As sessões magnas deveriam ser constituídas por discursos que versassem somente sobre “dançarinas, moda, passeios, cantoras, bailes, visitas, jantares, tratamentos oficiais, genealogias, brasões, equipagens, caçadas, jogos de prendas, charadas, pescarias, preços de fazendas e força muscular” (art. 15º). Todos os sócios, aliás, deveriam “tomar um ar de importância catedrática em todas essas questões” (art. 20º)

As reuniões ordinárias, por sua vez, demonstram uma relação particular com a cidade, podendo ser realizadas em “todas as partidas e bailes, nas galerias das câmaras e do júri, na rua do Ouvidor, da Quitanda  e botequins, nos teatros, nos circos, no Jardim Botânico, no Passeio Público, nas festas de grandes cantarolas, no cais Pharoux, nas barcas de vapor, em S. Domingos, no Catete, Paquetá, Penha, no hipódromo, nas praias onde houver regata, nos fogos de artifício, nas boticas velhas, nos armarinhos novos e no templo da Petalógica[ii]” (art.4º).

Notável entusiasmo era compensado com a proibição aos sócios e sócias de se levantarem antes das 10 horas da manhã e deitarem antes das 2 horas da madrugada, sendo reconhecidos com o título de benemérito aqueles que “fizerem duas sestas por dia e comerem dois jantares” (art. 16º).

Havia, por outro lado, uma preocupação com a formação intelectual dos sócios. Com o objetivo de que “não degenerem pela ignorância” era recomendada a leitura “exclusiva de certos livros e jornais” (art. 9º), mas eram expressamente proibidas outras obras como a bíblia sagrada, as de Bossuet, as dos santos padres, entre outras.

Por certo, a história toda não passava de burla. Contudo, a narrativa apresenta indícios de ser bem mais séria do que parece. A ironia atroz por trás de uma suposta Academie na sede do Império aponta para os intrincados dilemas de uma nação, cujos caminhos, na visão do autor, eram incertos e tortuosos.

O próprio nome da instituição em francês – Academie pour tuer le temps – não é fortuito. O Dr. Soledade, ao que parece fazendo um trocadilho (com aves, marionetes e o prefixo franc-), levanta a hipótese da associação ser “obra de alguns francolins ou francatripas[iii], notáveis pelo seu aspecto fisionómico, trajo e evoluções singularíssimas”.

O deboche aos estrangeirismos em terras nacionais pode ser observado na premiação aos sócios, prevista no artigo 10, que empregarem em seus discursos palavras estrangeiras: “O francês servirá para tudo que não for maquinas e caminhos de ferro; o espanhol para provérbios e exagerações e o italiano exclusivamente para a música. Em matérias sentimentais e gastronômicas é permitida a língua da Torre de Babel” (23/11/1857, p.2).

No caso da política, haveria certas restrições, embora também fosse estimulado o uso de vocábulos estranhos ao português: “Os sócios que se ocuparem de política pessoal, única permitida por ser a mais geral, usarão de termos ingleses, porque o francês, o alemão, o russo, o italiano, lazarônico, o turco, o árabe, o indostânico, o tártaro, o chim e o paraguaio têm seus inconvenientes na atualidade” (art. 11º, grifos do autor).

Já na literatura encorajava-se a leitura de romances modernos, sobretudo, do novelista francês Paul de Kock (1793-1871)[iv], de poemas épicos e didáticos, dos folhetins, de todas as comédias do teatro francês (principalmente as que ridicularizavam os maridos), entre outros (art. 9º). Aliás, os estrangeiros gozariam das mesmas regalias que os sócios brasileiros.

Vejamos que na semana anterior o Dr. Soledade já alertara seu sobrinho sobre algumas de suas preocupações[v]:

O que convém já e já é combater ideias com ideias, é preparar os ânimos para uma reorganização social pelo exemplo e pelos meios de uma educação que faça do menino um cidadão em vez de um brilhante papagaio. Estimaria hoje muito mais se tivessem-me ensinado bem a minha língua do que o fizeram obrigando-me a perder tempo em traduzir outras e a ficar uma espécie de Babel, como outros muitos que por aí andam recolhendo palavras e compondo a mais ridícula algaravia que se conhece. […] Tudo está falsificado entre nós, e tudo vai se falsificando (Correio Mercantil, 16/11/1857, p.1-2, grifos nossos).

 

Tais inquietudes não se limitavam à formação intelectual, mas também à própria corporeidade que, entre outras coisas, perdia os elementos de uma suposta identidade – ou melhor, “natureza” – nacional (informada, sem dúvida, por um viés de gênero):

A beleza americana, a gentil morena, a filha do sol, a virgem que tem seu rosto e porte os atrativos da idade das flores, empasta as faces de arrebiques, faz do seu rosto um rosto de mármore à força do pó de arroz e outros místicos, para que se não conheça quando enrubesce ou empalidece! Para que servem essas faces caiadas que à luz do gás, no teatro lírico, se parecem com cara de gesso?!  O que denota isto senão que a mulher, a melhor coisa entre nós, já não é aquela boa mãe de família, mas uma cômica arrebicada, e suas filhas bonecas da rua do Ouvidor, que só servem para estadear por cima do horrível balão os tecidos da moda, dessa soberana vertiginosa de todos os espíritos fúteis? A arte dos tempos corrompidos não repara os estragos da natureza (Correio Mercantil, 16/11/1857, p. 2, grifos nossos).

Sobre os homens sua análise não é menos lancinante:

Tu não vês todos os rapazes do meu tempo, e aqueles que achei no mundo varões formados, funcionários públicos, como estão com o cabelo tão pretinho? Quanto nitrato de parta e quantas dores de cabeça não andam por aí! Com que fim escondem eles as cãs honrosas, a coroa respeitosa da velhice, para se confundirem com rapazes, que deles com razão tanto escarnecem? Talvez tenham razão. Quem não passou da juventude não é digno de ostentar os sinais da venerada velhice; é um perfeito e ridículo anacronismo ver a idade do conselho privada da experiência; mas há de ser muito dura essa vida contrafeita, esse pelejar contínuo contra a ordem natural contra as modificações fisiológicas da idade […] (Correio Mercantil, 16/11/1857, p. 2, grifos nossos).

As transformações pelas quais passavam a sociedade brasileira e, em especial, a fluminense eram vistas com desconfiança; evidências de um declínio moral e político articuladas a certos modismos, luxos e frivolidades:

Todo os fatos do sibaritismo, todas as reduções do epicurismo, representadas no pote de banha todo dourado, na latinha de conservas, na caixa de papelão, no almanak das modas, nas águas cheirosas, nos arrebiques da rua do Ouvidor, têm um grande atrativo para nós; a modista e o cabelereiro andam de sege e fazem fortunas colossais!… Tudo que não é trabalho intelectual prospera: o pensamento ainda não se legalizou na tarifa social, ainda vive como em contrabando. Onde está o espírito militar da nossa mocidade? Onde está o espírito público da outra juventude? O seu entusiasmo é para as cômicas e cantoras […]  (Correio Mercantil, 16/11/1857, p. 2, grifos nossos).

E alerta:

Escuta: Temos na nossa terra um grupo de que se quer arrogar o privilégio dos Brâmanes e constituir-se uma carta particular e sagrada! Olha que este grupo está estragando o teu país com uma espécie de oligarquia sem se lembrar que o Brasil é um dos países mais felizes do mundo, porque ainda não conhece o que é nobreza e clero […].

À luz desses comentários, a leitura dos estatutos da excêntrica Academie ganha novos contornos e um colorido especial. Contrastes e incongruências das sociedades política, intelectual, artística e econômica –  responsáveis em parte pelo futuro da nação – são objeto de sátira e ironia, muitas vezes de forma espirituosa, porém mordaz. Por exemplo, sobre a composição dos sócios – em contraste (nem tanto assim) à outra academia, que também se fundou na Corte – o Dr. Soledade comenta:

Pelas notas que encontrei à margem e por um discurso apenso aos tais estatutos, vim ao conhecimento de que esta sociedade está em guerra com outra intitulada Il dolce far niente, o que me não maravilha, pois é sempre motivo de rivalidades a concorrência ao mesmo fim. A primeira academia é composta de quase todos os candidatos à diplomacia; de bancarroteiros que quebraram para mais se consolidarem, homens que fizeram ponto na bolsa alheia; de alguns tesoureiros demitidos, processados e absolvidos; de antigos protetores da agricultura africana; de testamenteiros fidelíssimos: de cantores desafinados por darem notas falsas; de agentes de subscrições filantrópicas; de postulantes a empregos, e de alguns fumistas que evaporam 24 charutos por dia. […] A outra academia, que parece pender mais para as ideias transmontanas, é composta de gente jubilada e provecta; tem uma boa parte do nosso corpo diplomático; tem até ministros de estado, generais formados e reformados, todos os deputados e senadores que sairão Cíceros e Demostenes num parlamento de mudos; tem altos conselheiros e todos os nossos grandes estadistas que publicarão obras no ano de 2857!! Pelos estatutos verá claramente os seus fins e o quanto a nossa pátria e o futuro têm que esperar dela. O nosso governo deveria olhar seriamente para uma associação que tanto auxilia no fiat voluntas tua (Correio Mercantil, 23/11/1857, p. 2, grifos do autor).

 

Nota-se, aliás, que a associação concorrente Il Dolce Far Niente, segundo o autor, foi fundada por uma “comissão composta por dois cônegos, dois frades e alguns empregados em comissões literárias, um dos quais é membro do Instituto Histórico”.

Ninguém fica de fora: Estado, mercado, artistas, jornalistas, intelectuais e mesmo clubes são objetos de uma crítica ferrenha.  A composição social da Academie é inclusive regulamentada nos artigos 6º e 7º de acordo com as características hierárquicas valorizadas pela associação, entre as quais figura a participação nos divertimentos oferecidos na sociedade fluminense:

Art. 6º. Só poderão ser membros honorários os empregados aposentados com menos de 40 anos de idade e em prefeita saúde; membros efetivos todos os consumidores de heranças ou pensionistas de viúvas abastadas; membros transitórios todos os fazendeiros que vêm passar o inverno na corte, os deputados de voto certo, os provincianos requerentes e em expectativa, os que esperam solução de grandes empresas, os candidatos às mitras, os diplomatas com licença, e todos os requerem graças por serviços impessoais ou esperam pagamento do tesouro. Art. 7º. Os membros jubilados deverão provar que têm mais 12:000$000 de renda anual em apólices, ações bancais ou aluguéis de prédios e que estes são cobrados por seus procuradores; deverão jurar perpétuo celibato e a obrigação de viajar de tempo e tempo pelas hospedarias do velho mundo. Além destes requisitos deverão ser sócios de todos os clubes e círculos, assinantes de todos os teatros, cassinos, hipódromos, regatas, noites fluminenses e de todos os beliquetes (grifos do autor).

De modo geral, todas as críticas têm um eixo central: a preocupação com os rumos e as incongruências de uma nação recém-independente. Na verdade, o autor não parece ser contra os divertimentos em si, mas contra um tipo social que se estava conformando na sociedade imperial, que insistia – para utilizar os termos de Schwarz (2001, p.74)[vi] – em “adorar, citar, macaquear, saquear, adaptar ou devorar estas maneiras e modas todas, de modo que refletissem, na sua falha, a espécie de torcicolo cultural em que nos reconhecemos”.  Em todo caso, a vida social carioca na metade do século XIX parecia ser bastante divertida, embora muito mais séria do que se imaginava.

 

[i] Esse post é fruto das conversas e pesquisas realizadas no âmbito do projeto “O corpo da nação: educando o físico, disciplinando o espírito, forjando o país: as práticas corporais institucionalizadas na sociedade da Corte (1831-1889)”, que conta com o apoio da FAPERJ e do CNPq e é coordenado por Victor Andrade de Melo.

[ii] Informações sobre a Sociedade Petalógica, que supostamente o autor faz referência, podem ser encontradas no post de Mires Batista Bender (29/08/2014), disponível em: http://sapereaudelivros.blogspot.com.br/2014/08/voce-sabe-sociedade-petalogica.html) e na crônica de 11/09/1864 de Machado de Assis da série Ao Acaso (Crônicas da Semana), disponível em  http://machado.mec.gov.br/images/stories/html/cronica/macr04.htm. De acordo com Machado “A sociedade Petalógica, como é sabido, teve nascimento na antiga casa do finado e sempre chorado Paula Brito. Quando a sociedade nasceu já estava feita; não se mudou nada ao que havia, porque os membros de então eram aqueles que já se reuniam diariamente na casa do finado editor e jornalista. Cuidavam muitos que; por ser petalógica, a sociedade nada podia empreender ­que fosse sério; mas enganaram-se; a Petalógica tinha sempre dois semblantes; um jovial, para as práticas íntimas e familiares; outro sisudo, para os casos que demandassem gravidade. Todos a vimos, pois, sempre à frente das manifestações públicas nos dias santos, da história brasileira. Ainda neste ano a velha associação (honni soit qui mal y pense!) mostrou-se animada do mesmo entusiasmo de todos os anos”.

[iii] Maiores informações ver Diccionario da língua brasileira. (Pinto, 1832) e Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa (2009).

[iv] Maiores informações ver NADAF, Y. O romance-folhetim francês no Brasil: um percurso histórico. Letras, Santa Maria, v. 19, n. 2, p. 119–138, jul./dez. 2009. Disponível em: http://cascavel.ufsm.br/revistas/ojs-2.2.2/index.php/letras/article/view/12014/7428 ; PAES, Alessandra Pantoja. Das imagens de si ao mundo das edições: Paul de Kock, romancista popular, 2013. Dissertação (Mestrado em Letras), UFPA. Disponível em http://www.circulacaodosimpressos.iel.unicamp.br/arquivos/dissertacao_alessandra_paes.pdf

[v] Vale destacar que o gênero literário utilizado pelo autor (i.e. carta pessoal, que denomina como ementário) desempenha um papel central nos propósitos dos textos.

[vi] SCHWARZ, Roberto. As ideias fora do lugar. In: ____. Cultura e Política. São Paulo: Paz e Terra, 2001, p.59-83.


Ecos dos Jogos Olímpicos de 1896 no Rio de Janeiro

20/04/2014

por Fabio Peres

Grécia. Os Jogos Olympicos. Athenas, 6. – Começaram aqui os tradicionaes jogos olympicos, que despertam, como de costume, o maior interesse[1].

Há 118 anos, assim se iniciava a cobertura dos Jogos Olímpicos de 1896 na imprensa carioca. A pequena e tímida nota publicada no Jornal do Brasil não ia muito além disso. Informava apenas que a família real (supostamente da Grécia, mas sem especificar qual) esteve presente e que o número de estrangeiros que afluíram à “festa” era considerável[2], [3].

Nos dias que se seguiram até o final dos Jogos não houve muita mudança nesse cenário: somente breves informes sobre a vitória de um ou outro atleta, além de uma síntese do número de vencedores por país[4]. Na verdade, parte dessas informações era divulgada pela Agência Havas, talvez uma das primeiras e principais agências de notícias internacionais, que prestava seus serviços a diversos jornais do mundo, incluindo o Jornal do Brasil, a Gazeta de Notícias, entre outros periódicos brasileiros.

Somente depois dos Jogos, cerca de 15 dias após o encerramento, é que o Jornal do Brasil e O Apostolo publicaram uma matéria (cujo conteúdo era praticamente o mesmo), divulgando algumas informações adicionais. Nela ficamos sabendo que o primeiro dia dos Jogos “fôra soberbo, embora o tempo se conservasse ameaçador”, sendo a cerimônia considerada “das mais imponentes”:

O rei foi recebido ao som hymno nacional, tocado por 600 executantes. Guarneciam o amphitheatro 60 000 espectadores que acclamaram calorosamente o soberando […] O príncipe herdeiro fez um discurso vibrante de enthusiasmo e patriotismo, sendo ruidosamente applaudido. Depois desta allocução, seiscentos músicos, sob a direcção do compositor grego Samaras executaram o Hymno Olympico. Depois começaram os jogos, que tiveram grande êxito […] (Jornal do Brasil, 02/05/1896, p.2; O Apostolo, 10/05/1896, p.2).

 

Gravura representando a abertura dos Jogos Olímpicos. Fonte: COUBERTIN, P.; PHILEMON, T.J. POLITIS, N.G.; & ANNINOS, C. The Olympic Games B.C. 776. - A.D. 1896 (Second Part). The Olympic Games in 1896. Athens: Charles Beck, Publisher / London: H. Greveland Co., 1897, p.54.

Gravura representando a abertura dos Jogos Olímpicos. Fonte: COUBERTIN, P.; PHILEMON, T.J. POLITIS, N.G.; & ANNINOS, C. The Olympic Games B.C. 776. – A.D. 1896 (Second Part). The Olympic Games in 1896. Athens: Charles Beck, Publisher / London: H. Greveland Co., 1897, p.54.

 

Curiosamente, os relatos mais extensos e detalhados foram publicados na Gazeta de Petrópolis, também após a realização dos Jogos (20/05/1896, p.1-2). Sob o título “Restabelecimento dos Jogos Olympicos na Grécia“, a matéria destacava, entre outras coisas, a grandiosidade do evento e sua suposta ligação com um passado longínquo; aspectos que vão ajudar a garantir sua importância:

Esses jogos, a mais importante festa nacional da antiga Grécia, cuja origem se perde na noite dos tempos prehistoricos, acabam de ser restabelecidos com grande brilhantismo e pompa, no antigo Stadion Panathenaico, em Athenas, graças á generosidade do cidadão grego Jorge Averoff, que forneceu os fundos necessarios para o gigantesco trabalho de reconstruir um sala de espetáculo, com lugares para 60,000 pessoas soas e tendo 260 metros de comprimento e 140 m. de largura, dos quaes cabem á arena ou pista 232 m. de comprido e 33 de largo. Durante a semana santa, diante Ida famosa Acropolis, coroada de ruinas magestosas, feericamente illuminadas, á noite, por luz electrica, nas margens do Illisus dessecado, diante dos brilhantes magasins da rua Hermes, em Athenas, os caminhos de ferro e os tramways a vapor despejaram numerosos bandos de athletas, vindos da França, Inglaterra, America, Allemanha, Suécia, etc, para se medirem com os filhos da histórica Attica.

 

Croquis do Panathenaic Stadion (composição). Fonte: COUBERTIN, P.; PHILEMON, T.J. POLITIS, N.G.; & ANNINOS, C. The Olympic Games B.C. 776. - A.D. 1896 (Second Part). The Olympic Games in 1896. Athens: Charles Beck, Publisher / London: H. Greveland Co., 1897, p.33-34.

Croquis do Panathenaic Stadion (composição). Fonte: COUBERTIN, P.; PHILEMON, T.J. POLITIS, N.G.; & ANNINOS, C. The Olympic Games B.C. 776. – A.D. 1896 (Second Part). The Olympic Games in 1896. Athens: Charles Beck, Publisher / London: H. Greveland Co., 1897, p.33-34.

 

Multidão em frente e dentro do estádio Pan-ateniense. Fonte Olympic.org (httpwww.olympic.orgmultimedia-playerall-photos20021201xaapx001)

Multidão em frente e dentro do estádio Pan-ateniense. Fonte Olympic.org (httpwww.olympic.orgmultimedia-playerall-photos20021201xaapx001)

 

Outras informações ajudavam a compor um repertório de imagens e símbolos em torno dos Jogos: a coroação dos vencedores com um ramo de oliveira; a vitória do jovem “herói” camponês grego (Spiridon Louis) – que percorreu a distância de 42 km, sendo ovacionado por 50.000 pessoas no Stadion; as diversas instalações esportivas destinadas às competições de várias modalidades. “Foi, em summa. uma festa memoravel, e que despertou o maior interesse em toda a Europa e America do Norte”, conclui a Gazeta da cidade da região serrana fluminense, na época capital do estado no lugar de Niterói, devido principalmente à Revolta da Armada.

 

Gravura representando a chegada de Spiridon Louis no Panathenaic Stadion no dia da prova de maratona. Fonte  COUBERTIN, P.; PHILEMON, T.J. POLITIS, N.G.; & ANNINOS, C. The Olympic Games B.C. 776. - A.D. 1896 (Second Part). The Olympic Games in 1896. Athens Charles Beck, Publisher  London H. Greveland Co., 1897, p. 77.

Gravura representando a chegada de Spiridon Louis no Panathenaic Stadion no dia da prova de maratona. Fonte  COUBERTIN, P.; PHILEMON, T.J. POLITIS, N.G.; & ANNINOS, C. The Olympic Games B.C. 776. – A.D. 1896 (Second Part). The Olympic Games in 1896. Athens Charles Beck, Publisher London H. Greveland Co., 1897, p. 77.

 

Contudo, essas notícias podem despertar um interesse histórico que ultrapassa a mera curiosidade sobre dados do evento em si.

Uma leitura apressada pode nos levar a acreditar que a pouca atenção dada aos Jogos na cidade revelaria a (tênue) tessitura do campo esportivo carioca em finais do século XIX. Essa visão parcial e unilateral nos conduziria àquele “mal-estar”, que salienta Roberto Schwarz (2001), da experiência do caráter “postiço, inautêntico, imitado” da vida cultural brasileira e latino-americana. Em outras palavras, a “ausência” estaria deste lado do Atlântico. Seríamos, sob esse ponto de vista, um pastiche imperfeito, incompleto e vexatório. No entanto, tal conclusão é ilusória, uma vez que a questão – e, por conseguinte, a sua interpretação – estão mal colocadas.

As notícias publicadas na imprensa da capital podem ser lidas a partir de outras perspectivas. Lançam luz sobre, não apenas como o campo esportivo no Rio de Janeiro estava se configurando naquele final de século, mas também oferecem pistas de como os Jogos ainda estavam ganhando forma. Aliás, sob alguns aspectos, de maneira bastante incipiente.

A análise do discurso a respeito dos Jogos, cuja legitimidade (ao menos em parte) se baseia em uma leitura idealizada e de continuidade entre passado e presente, é uma possibilidade de investigação[5]. A mobilização de determinados conceitos e valores parece dar o tom de quase todas as notícias[6].

Por exemplo, diversas notícias publicadas no Rio de Janeiro, sejam elas oriundas de agências internacionais ou não, permitem entrever que aqueles Jogos Olímpicos não gozavam, pelo menos naquela ocasião, do mesmo prestígio e legitimidade que viriam a ter no decorrer do século XX. Um sinal disso é que ainda não havia monopólio sobre o próprio sentido do termo “jogos olympicos”. Os Jogos Olympicos eram um entre outros jogos olympicos. Isso significa, entre outras coisas, que seus idealizadores tiveram que “lutar” pelo “monopólio da imposição da definição legítima”[7] do termo e dos sentidos associados a ele.

Apenas para se ter uma ideia, em 1856 o Circo Olympico, instalado na Rua da Guarda-Velha (atual Avenida Treze de Maio), exibia espetáculos denominados “jogos olympicos”. Já no carnaval de 1862, o Theatro Lyrico Fluminense – localizado no Campo da Aclamação, entre as Ruas dos Ciganos (atual, Constituição) e do Hospício (hoje, Buenos Aires) – oferecia o Primeiro Grande Baile Mascarado, no qual depois de algumas quadrilhas e polcas, estava programada a quadrilha “jogos olympicos”.

 

Composição com as programações do Circo Olympico (Correio Mercantil, 28/09/1856, p.4) e do Theatro Lyrico Fluminense (Correio Mercantil, 02/03/1862, p.4).

Composição com as programações do Circo Olympico (Correio Mercantil, 28/09/1856, p.4) e do Theatro Lyrico Fluminense (Correio Mercantil, 02/03/1862, p.4).

 

Inclusive, vale aqui fazer uma pequena digressão. A desconfiança sobre o caráter “tradicional” dos Jogos de 1896 foi colocada em xeque logo nos dias seguintes à sua abertura. Um cronista da Gazeta de Notícias, de modo irreverente, fez suas ressalvas (provavelmente após ler a mesma nota publicada no Jornal do Brasil que utilizamos para abrir este post):

“Athenas, 6. – Começaram aqui os tradicionaes jogos olympicos […]” A gente lê isto, deixa cahir o jornal, fecha os olhos e tem vontade de chorar. […] E a alma começa a imaginar, pelo que sonhou e pelo que estudou, o que seriam esses jogos da idade de ouro, – quando os gregos não vestiam sobrecasaca nem comiam a patê de foi gras, – raça livre e bella […]  Ai! Palavra de honra! A gente tem vontade de chorar quando lê, no serviço da Havas, que no dia 6 de abril de 1896 […] começaram, em Athenas, os jogos olympicos com assistência da família real da Grécia… Mas a vontade de chorar cessa logo, para ceder o logar a uma grande e irresistível vontade de rir…. E, imagina-se, então, o que por lá vai… […] Começaram aqui os tradicionaes jogos olympicos… E a gente se desfoga n’uma grande gargalhada…. (08/04/1896, p.1).

Enfim, a hipótese, mesmo que de forma imprecisa, é que essas questões nos ajudam a deslocar e a perspectivar o nosso olhar. As perguntas, nesse sentido, devem se voltar para ambos: para o lado de cá e o lado de lá da linha.

 __________________________________________

[1] Jornal do Brasil (edição de 06 e 07/04/1896, p.1).

[2] Vale destacar que curiosamente no dia 25/03/1896 foi publicada uma nota no Jornal do Brasil, informando que os jogos olímpicos haviam começado no dia anterior. Considerando que a notícia se referia aos mesmos jogos, ela não seria plausível, uma vez que os Jogos Olímpicos foram realizados entre os dias 06 e 15 de abril do calendário gregoriano, adotado no Brasil (isto é, entre 25/03 e 03/04 do calendário juliano, que na época vigorava na Grécia).

[3] Antes de 1896, foi noticiado no jornal O Paiz (05/08/1894) a realização do congresso internacional, em Paris, para preparar as bases da regulamentação que serviria para a organização dos Jogos Olímpicos.

[4] Ver por exemplo as edições do Jornal do Brasil de 16 e 17/04/1896.

[5] Para uma reflexão sobre essa discussão, ver MELO, Victor Andrade de. Esporte e lazer: conceitos. Rio de Janeiro: Apicuri: Faperj, 2010 e MELO, V.A, SANTOS, J.M.M.C., FORTES, R., DRUMOND, M. Pesquisa histórica e história do esporte. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2013.

[6] As publicações editadas pelos próprios organizadores do evento se inserem nesse esforço. Ver, por exemplo, as fontes das gravuras utilizadas nesse post.

[7] BOURDIEU, Pierre. Como é possível ser esportivo? In:________. Questões de sociologia. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983. p.136-163.


Tapa na peteca

01/08/2011

Por André Schetino

Desde o início do “Historias do Sport” pensava em dedicar um post à Peteca. O artefato está presente na infância de grande parte dos belo horizontinos. Lembro de jogar com meu primo petecas feitas de palha de milho e penas de galinha, confeccionadas pela avó dele. Lembro também da dos clubes esportivos que freqüentei e trabalhei, onde as muitas quadras viviam sempre lotadas aos finais de semana, com jogos e campeonatos. Eis que pouco antes do pequeno recesso do mês de julho tive a oportunidade de ler o trabalho de Renato Machado dos Santos, a dissertação de mestrado “A peteca, o Campo do Lazer e a dinâmica da cidade de Belo Horizonte (1980-1994)”.

Em seu trabalho, Renato mostra como a peteca se tornou uma verdadeira febre em Belo Horizonte, com direito a um jornal específico – chamado O Petequeiro – e um bar (ao melhor estilo mineiro) com várias quadras de peteca, pro pessoal curtir um happy hour depois de um dia de trabalho. Além disso, Belo Horizonte foi palco do 1º Campeonato Brasileiro de Peteca, em 1987.

Foto noturna do bar Boa Forma, em Belo Horizonte. Fonte: O PETEQUEIRO, p. 6, 1984

Em uma cidade onde os clubes esportivos se estabeleceram durante muito tempo como um dos principais espaços de lazer, a peteca encontrou um vasto campo para seu desenvolvimento e caiu no gosto e no cotidiano da cidade. Para realizar sua pesquisa Renato entrevistou pessoas importantes no cenário da peteca, e centrou sua investigação nos anos de 1980 a 1994, período em que existiu um dos espaços mais importantes para sua prática – o Campo do Lazer (antigo campo do Clube Atlético Mineiro e hoje um shopping center).

O Campo do Lazer. Fonte: SMES, 1985, p. 23.

Vale ressaltar a importância do registro oral de fontes que foram importantes para a prática desse esporte em Belo Horizonte, além de preservar a memória de uma prática esportiva ainda muito pouco estudada no âmbito da História do Esporte.

A dissertação de Renato é a primeira no Brasil sobre o esporte. Afinal, em Belo Horizonte o tapa na peteca é coisa séria


Lançamento do livro História do Esporte no Brasil

03/04/2010

Dia 13/4, uma terça-feira, será lançado o livro História do Esporte no Brasil: do Império aos dias atuais, organizado por Mary Del Priore e Victor Andrade de Melo e publicado pela Editora da Unesp. A partir das 18h30, na Livraria Folha Seca. Fica na Rua do Ouvidor, 37, Centro do Rio de Janeiro.