A juventude sônica de Spike Jonze

15/01/2018

Por Leonardo Brandão (brandaoleonardo@uol.com.br)

É com muita alegria que escrevo este primeiro texto para “História(s) do Sport”, blog que já acompanhava há um tempo e que fui convidado para escrever sobre as relações entre história, juventude e esportes radicais. Neste texto inaugural, quero retomar a conversa iniciada pelo Rafael Fortes neste blog, em texto publicado no dia 27/11/2017 e que teve o seguinte título: “Videoclipe como fonte histórica”. Nele, Fortes abordava algumas possibilidades para se compreender o videoclipe, na esteira dos estudos sobre cinema, música e imagens, como mais uma possibilidade de fonte para a história dos esportes, do lazer e dos divertimentos com o corpo.

Pensemos que o videoclipe é algo que envolve a produção, necessariamente, de música com imagens em movimento. De fato, existe uma relação muito rica entre os chamados “esportes radicais” (ou “esportes californianos”) com a música, em especial, com o rock e seus matizes. E essa relação não começou hoje, ela tem uma – ou várias – história(s). Parte dessas histórias podemos observar em determinados videoclipes de bandas que fizeram uso dessas práticas. Esses videoclipes, ainda subutilizados para a pesquisa histórica, podem nos servir como um farto material de análise e reflexão.

Aqui, não pretendo realizar uma análise, mas apenas algumas considerações sobre um videoclipe lançado no ano de 1992. Trata-se do videoclipe da canção “100%”, da banda norte-americana “Sonic Youth”. Além disso, irei trazer algumas informações sobre seu diretor, chamado Spike Jonze. Minha intenção é apenas chamar à atenção para esse videoclipe, para a obra de Spike Jonze e suas relações com o skate. Num futuro breve, talvez isso possa motivar análises e discussões mais consistentes. Primeiramente, entretanto, vamos assistir ao videoclipe:

Sonic Youth foi uma banda formada no ano de 1981 na cidade de Nova York. A proposta musical da banda girou em torno do chamado “rock alternativo”, trazendo elementos do pós-punk e do noise. Um dos seus integrantes marcantes foi sua baixista, Kim Gordon. Ela, filha de um professor de sociologia, formou-se em Artes Plásticas na UCLA (Universidade de Los Angeles). Gordon roubava as cenas nas apresentações da banda, se declarava feminista e surfava nas horas vagas. A música do clipe acima, “100%”, foi lançada no ano de 1992, sendo o primeiro single do álbum “Dirty” (o sétimo do conjunto). Essa música foi escrita em homenagem a Joe Cole, um amigo dos membros da banda, que acabou morto por um homem armado em 1991.

“100%” é uma canção que fala de uma garota que se apaixona por um rapaz sem grana, mas que “mexia com as garotas” e que acabou assassinado. O fato dele não ter grana não era um problema.  Num certo momento de êxtase, a canção diz: “All I know is you got no money but that’s got nothing to do with a good time” (“tudo o que sei é que você não tem dinheiro, mas isso não tem nada a ver com um tempo bom”). E, neste momento do vídeo, um skatista olha para a sua carteira vazia, sem dinheiro, mas com um sorriso nos lábios, e continua a andar de skate pela cidade.

Mas o que vemos sobre skate neste videoclipe? Simplesmente boas manobras pela cidade. Mas isso – apenas – já não nos diz muito sobre o que era essa atividade juvenil no início da década de 1990? O skate neste período, sobretudo o skate de rua, pode ter sido predominantemente praticado por diversão, sem grandes pretensões mercadológicas, sem muitos ídolos milionários. Em uma palavra: sem muita grana envolvida. Jason Lee, o principal skatista que aparece nesse vídeo (ao lado de Guy Mariano), era tão somente um talentoso skatista de rua (e não o célebre Jason Lee que conhecemos hoje, famoso por ter sido o protagonista do seriado “My name is Earl”, e indicado como melhor ator para o Globo de Ouro nos anos de 2006 e 2007).

O videoclipe apresenta duas tomadas, uma com a banda tocando a música num show dentro de uma casa, com jovens bebendo e esparramados pelos sofás, e outra nas ruas, onde os skatistas aparecem fazendo manobras pela cidade. Esse clipe foi dirigido por Spike Jonze, que na época era tão somente um jovem que gostava de filmar seus amigos praticando skate (e praticava junto também).

Spike Jonze começou a se interessar por esportes alternativos quando jovem, aos 15 anos, e se interessou primeiramente pela BMX. Ele foi o fundador da revista Dirt, uma publicação direcionada para o mundo das bicicletas. Mas, logo em seguida, veio a paixão pelo skate e sua profissionalização enquanto diretor de videoclipes de bandas musicais.

Após “100%”, Spike dirigiu, em 1994, o videoclipe da música “Sabotage” dos Beastie Boys; e depois muitos outros, de bandas como: Fatboy Slim, Weezer, Chemical Brothers, R.E.M, Björk etc. Dirigiu também muitos filmes de skate, como “Goldfish” (1994), “Las Nueve Vidas De Paco” (1995), “Mouse” (1996), “”Chocolate Tour”” (1999), “Yeah Right!” (2003) e “Fully Flared” (2007), considerado seu melhor trabalho com o skate. Dos videoclipes para o cinema foi um caminho rápido. A primeira experiência veio em 1999, com o longa “Como ser John Malkovich”. Neste mesmo ano ele se casou com Sofia Coppola (filha de Francis Ford Coppola), com quem veio a se divorciar em 2009, no mesmo ano em que dirigiu o longa “Onde vivem os monstros”, uma adaptação de um livro do ilustrador Maurice Sendak, de 1963. Seu sucesso mais recente foi “Her”, de 2014, que conquistou cinco indicações ao Oscar.

Mas retornando ao videoclipe de “100%”. O que nos vem à mente quando o assistimos? O skate está lá, ele é um elemento central, mas sem pretensões, apenas skate de rua, improvisos, escadas, corrimãos. Do ponto de vista técnico, aparecem manobras desafiadoras para a época, como os truques em corrimão, escadarias e, certamente, o salto que finaliza o vídeo, executado por Jason Lee, um pulo seguido de uma virada de 180 graus de costas no ar, realizado com estilo e leveza (o nome da manobra em inglês é “backside ollie 180”).

Recuperando algumas ideias lançadas pelo Rafael Fortes no texto “Videoclipe como fonte histórica”, podemos atinar para os seguintes elementos: “Ano/época/contexto/lugar” de produção deste videoclipe, o que nos ajuda a pensar o início da década de 1990. Para uma análise de fato deste videoclipe, quantos elementos não seriam necessários? A noção de Tribos Urbanas, a ideia da cidade apropriada para diversão (qual cidade aparece no vídeo? Los Angeles?), o skate como arte corporal (como contracultura? Como subcultura? Como esporte?) e, além disso: Esse videoclipe dialoga com outras produções dessa mesma época? Creio que sim, e o mais emblemático talvez seja o filme Kids, produzido no ano de 1994 e dirigido por Larry Clark.

Falaremos sobre Kids em um outro momento. Por enquanto, ficamos com a inquietação: como melhor aproveitar esse rico universo dos videoclipes para a pesquisa em história dos esportes, em especial, para a história dos esportes californianos? Não somente o skate, mas o surfe, a BMX e tantos outros. Essa é uma ideia ainda inicial, em desenvolvimento, mas não podemos fechar os olhos para o seu grande potencial.

Anúncios

Bra Boys

01/06/2017

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

No Cineclube Sport de maio, vimos Bra Boys, dirigido por Sunny Aberton e Macario de Souza e lançado em 2007. O que segue abaixo é um conjunto de anotações de minha lavra, em parte estimuladas pelo filme, em parte pelo debate que se seguiu. Agradeço a todos(as) que participaram pelas estimulantes contribuições e questões.

O tema é um grupo de surfistas conhecidos como Bra Boys, residentes do bairro e locais da praia de Maroubra, em Sydney (Austrália).

Do ponto de vista estético, trata-se inegavelmente de um filme de surfe. Feito por e para surfistas, com cenas de surfe. Reifica determinadas visões sobre o esporte (quase todas positivas, muitas idealizadas), que permeiam um certo senso comum da modalidade. Por exemplo, a ideia de que o mar e o surfe fornecem um escape da sociedade. Em parte, evidentemente, isto é verdade. Mas é retratada como se o surfista, antes, durante e depois de surfar, não falasse ou convivesse com outros surfistas.

Do ponto de vista da circulação, me parece que não foi exibido em circuito no Brasil e na maioria dos países (exceto a Austrália e partes dos EUA), tendo circulado em festivais de documentários e festivais de filmes de surfe (obtendo prêmios em alguns destes).

Classe social e enquadramentos midiáticos

Bra Boys permite discutir a questão de classe social, bem como uma frase que escuto com frequência em âmbito acadêmico: “surfe é esporte de elite”. Na mesma linha, é um bom filme para debater estas perguntas: o que é o surfe? Há possibilidades de respostas universais para esta pergunta? Acredito que não. É preciso investigar as realidades locais. Buscar respostas locais para perguntas universais, como disse Giovanni Levi em texto que li recentemente (agradeço ao também escriba deste blogue, Victor Melo, pela indicação). Em outras palavras, à pergunta geral o que é o surfe?, é possível elaborar outras, específicas, para as quais Bra Boys dá algumas respostas e subsídios: o que é o surfe na Austrália? O que é o surfe para os australianos? O que é o surfe para aqueles garotos de Maroubra? O que é o surfe para os que ficam impedidos de surfar (por servirem nas forças armadas e terem sido transferidos para lugares sem onda; por estarem na prisão ou longe do litoral)?

(Pequena digressão: uma das coisas que mais me impressionaram e impactaram quando pesquisei revistas de surfe californianas publicadas entre os anos 1970 e 1990 foram as cartas de leitores enviadas desde a prisão. Fiquei impressionado por dois motivos: o teor das cartas; e também por, depois de um tempo, perceber que algumas prisões da Califórnia contavam com bibliotecas, que, por sua vez, tinham assinaturas de revistas de surfe – uma das leituras que mais atraíam jovens presos, muitos dos quais por crimes relacionados a drogas.)

Outro assunto a discutir é o enquadramento realizado pela mídia, que tende a tratar como banditismo as atividades desenvolvidas por grupos juvenis de camadas populares. Caminhando na direção oposta, o filme é uma construção realizada pelos próprios jovens: direção, produção, edição etc., exceto a narração, feita pelo ator Russel Crowe. Um dos motivos para fazê-lo, como afirmam logo no início, é estarem cansados de apanhar, sofrer abusos, ser tratados como bandidos ou invisíveis pela mídia, pelo governo e pela polícia (o tratamento da polícia para com esses jovens, guardadas as devidas proporções, parece muito mais civilizado do que o padrão vigente nas quebradas do Rio de Janeiro – o padrão do que é aceitável, é claro, pode mudar bastante de uma sociedade para outra). A cor da pele da maioria também é diferente daquela hegemônica entre os pobres do Rio, mas são, de fatos, jovens de uma área degradada. O alto número de mortos (sempre um indício de problemas) é um dado importante.

 

Território e localismo

Um dos principais assuntos/questões que o filme permite discutir é o vínculo com o território e o localismo. O localismo, em suas diferentes manifestações, é um fenômeno presente em praias de vários países, ainda que pouco apareça nas representações midiáticas do esporte. Pelo que observei até hoje, a postura mais comum é silenciar sobre o tema. E, na maioria das ocasiões em que é tratado, isto se dá sob a forma de crítica: o localismo é classificado como um comportamento atrasado, violento e de ignorantes. Contudo, algum grau de relativismo, contextualização e até glamourização pode ocorrer (às vezes combinado com criminalização e acusações) quando se trata do North Shore da ilha de Oahu, no Havaí. (Para uma interessante – embora a meu ver exageradamente engajada e maniqueísta – análise e crítica da criminalização promovida pela mídia hegemônica a respeito dos locais e do localimo no North Shore, ver o último capítulo de Walker, 2011).

Por outro lado, o bairro é pouquíssimo explorado na trama. Fiquei curioso para saber e entender mais, já que argumenta-se que o vínculo com ele é um dos aspectos que definem o caráter, a identidade e os valores desses jovens (como, por exemplo, a alegada rejeição do racismo e da xenofobia). Bra Boys argumenta que o localismo não necessariamente significa recusa e intolerância com relação ao outro. Quando se trata de uma comunidade “multicultural” como Maroubra, não é a etnia, religião ou país de origem que decidirá quem cabe no grupo: todos podem fazer parte do que é o nós.

Gênero e masculinidades

A partir tanto do comportamento dos personagens e do fato de serem praticamente todos masculinos, quanto da quase ausência de personagens femininas, é possível discutir questões relativas a gênero e masculinidade. Há ainda, o contraponto da avó Ma (possivelmente uma corruptela de “avó”, em inglês). É impressionante a força desta mulher, cuja casa é uma espécie de abrigo seguro (safe heaven, se diria em inglês) para crianças e adolescentes de famílias destrambelhadas e destruídas pela pobreza, desemprego, violência e drogas. Isso inclui os próprios netos de Ma, o trio de irmãos que protagoniza o filme (um deles co-diretor da obra).

Um tema que aparece rapidamente no filme são as diferentes medidas restritivas impostas pelo poder público aos banhistas australianos ao longo do século XX. Segundo Douglas Booth (2001), em seu fascinante livro sobre as culturas de praia australianas, houve momentos em que cercas de arame farpado dividiam as praias, de forma a separar homens de mulheres.

Por sinal, as restrições, perseguições e criminalização do surfe e dos surfistas são um dos muitos assuntos por investigar na história desta prática no país. Em alguns dos poucos trabalhos sobre a modalidade (Cunha, 2000; Fortes, 2011), há indícios de uma série de problemas, controvérsias e até notícias de mortes em vários municípios do litoral catarinense, Arraial do Cabo (RJ) e Recife (PE). Há tanto repressão e conflitos com o Estado quanto com determinados grupos ou setores da sociedade, como pescadores e banhistas. Também no caso da história do skate no Brasil, este é um caminho tão promissor quanto pouco explorado, exceto, até onde sei, por iniciativas pontuais do pesquisador Leonardo Brandão (como este e este artigos).

Bibliografia

BOOTH, Douglas. Australian Beach Cultures: The History of Sun, Sand and Surf. London: Frank Cass, 2001.

CUNHA, Delgado Goulart da. Pescadores e surfistas: uma disputa pelo uso do espaço da Praia Grande. 2000. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2000.

FORTES, Rafael. O surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri/Faperj, 2011.

WALKER, Isaiah Helekunihi. Waves of Resistance: Surfing and History in Twentieth-Century Hawai’i. Honolulu: University of Hawai’i Press, 2011.